Duas mil fotografias a cores nunca antes vistas de Hitler e dos eventos a que presidia: Hitler triunfante, Hitler magnânimo, sorridente, brincalhão, descontraído e sempre muito próximo.
Hugo Jaeger, nazi, fotógrafo de confiança do Führer, surpreendeu o mundo quando, em 1965, revelou a existência destas imagens inéditas. E deixou-nos a pensar que tipo de homem teria sido, capaz de glorificar Hitler nas suas vis realizações e, ao mesmo tempo, deixar transparecer nas fotos captadas no gueto de Kutno, na Polónia, a tocante Humanidade dos judeus que aquele mandara exterminar.

Hitler entre admiradoras austríacas.


Hitler com a mulher de Albert Forster, prefeito da província nazi de Danzig-Prússia Oriental, sentenciado à morte por crimes de guerra pelo tribunal de Nuremberga. À direita, quase fora do enquadramento, está Eva Braun, a amante do ditador.

Hitler com o seu Volkswagen conversível, presente pelo seu 50º aniversário.

Ferdinand Porsche presenteia Hitler com um modelo Volksflug.

Feriado do Dia da Ação de Graças transformado na «Rua do Povo», em Buckeberge,1937

Hitler com Benito Mussolini durante uma visita de Estado a Itália em 1938.

Receção em Florença

Receção austríaca, também em 1938

Visitando o cruzeiro construído por Robert Ley, que se suicidou antes do julgamento. À direita, a mulher Inge Ley.
O que safou Hugo Jaeger foi uma garrafa de brandy e um jogo inventado na década de 20. Intercetado por uma patrulha americana num dia de primavera numa vila a oeste de Munique, no final da II Guerra Mundial, Jaeger julgou que o precioso tesouro iria ser descoberto.
Não havia maneira de fugir. Os seis soldados americanos, ainda à caça de nazis e figuras do regime deposto, queriam saber o que estava dentro da mochila de couro que transportava às costas. Obedeceu com relutância, sabendo que a descoberta do conteúdo o condenaria.
Quando os soldados abriram a mochila, descobriram uma garrafa de brandi ainda por abrir e as peças de um precursor do jogo dos dados, o put-and-take, e ficaram cegos de alegria. Ficaram por ali a jogar e a beber o brandy, nunca mais se lembrando de inspecionar a mochila.
E assim se safou Jaeger. O interior da mochila continha cerca de 2000 diapositivos a cores, fotos de Hitler e de outras figuras do regime que o mundo nunca vira. Quando os americanos se foram embora, guardou os dispositivos em doze frascos de metal e enterrou-os em doze locais diferentes nas imediações da vila, sinalizando cuidadosamente a sua localização.
No que dependia de si, o mundo jamais veria o seu portefólio e a relação próxima que tivera com as principais figuras do regime nazi, sobretudo Hitler.
Ao longo dos dez anos que se seguiram, foi voltando aos esconderijos só para se certificar de que as fotos continuavam lá e se mantinham em bom estado, fazendo reparações se necessário, mas mantendo sempre o seu segredo.
Finalmente, em 1955, retirou-as dos esconderijos e guardou-as na caixa-forte de um banco suíço. As fotos por lá ficaram durante mais dez anos, escondidas dos olhares do mundo. Em 1965, vinte anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, Jaeger decidiu vendê-las à revista Life.
Pouco mais se sabe da vida do furtivo Jaeger depois disto; até a data da sua morte – 1 de janeiro de 1970 – só é mencionada na versão alemã da Wikipédia.
Da vida que teve na Alemanha Nazi pouco também se sabe: era já um fascista antes sequer de o partido Nazi existir, afirma-se, o que explica a proximidade com Hitler e a permissão que obteve deste para o acompanhar nos eventos importantes e mesmo em ocasiões mais íntimas.
As fotos dos judeus na Polónia ocupada




Por outro lado, diz-se também, era um fascista que não partilhava com Hitler o ódio visceral aos judeus. As fotos que tirou na Polónia ocupada não são compatíveis com a visão do judeu criada pela propaganda nazi: vermes sub-humanos responsáveis por quase todos os males do mundo.
Há nessas fotografias um olhar sensível, quase delicado, que nos mostra pessoas, as condições de vida dessas pessoas, e não tanto os monstros que o regime desejava exterminar. Como escreveu a revista Life quando publicou as fotos, «é o reconhecimento do valor do trabalho de um homem que admiramos tão pouco». Coleção mais completa de fotos