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09 Sep 19:15

Lei é eficaz para matar mulheres, diz especialista

by admin
Renato Cerqueira

"(...) Mas mesmo que a gente oferecesse metodos contraceptivos para todas as mulheres sexualmente ativas no mundo, segundo a OMS, se todas usassem direitinho, mesmo assim nós teriamos entre oito e 10 milhões de gestações por falhas dos próprios métodos. Uma coisa que precisa ser entendida é que as mulheres não engravidam porque não são responsáveis ou simplesmente não usam metodos contraceptivos. Dizer isso é pura ignorância. (...)"

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"(...) As mulheres terminam fazendo o aborto da mesma forma. Quantos fetos daquele um milhão que a gente perde por ano são poupados pela lei? Algum? Nenhum. E perdemos centenas de mulheres por conta disso. Dizem que quando a gente legalizar o aborto vai virar uma chacina. Mas não existe nenhuma experiência em nenhuma parte do mundo em que o aborto foi descriminalizado e houve uma explosão de abortos. Um dos últimos países que descriminalizou, o Nepal, em um prazo de quatro anos, teve uma queda de complicações relativas ao aborto vertiginosa. E você não tem um número de abortos aumentado. O lugar no mundo onde a mulher menos precisa fazer um aborto é na Holanda, o mesmo país onde o aborto é mais acessivel. A não permissão não reduz o número de abortos. Apenas torna-os clandestinos e traz toda essa tragédia da qual estamos falando. É uma legislação altamente eficaz para matar mulheres, porque obriga a clandestinidade e quem não tem dinheiro morre. E 70 mil mulheres mortas estão aí para mostrar que isso é verdade. A ideia de que a proibição resolve o problema é suficiente para uma parte da população brasileira. Que continuemos perdendo um milhão de fetos por ano. Que continuem morrendo tantas mulheres por ano. (...)"

Por que o aborto pode ser considerado um problema de saúde pública?

A gente não classifica um problema como sendo de saúde pública se ele não tiver ao menos dois indicadores: primeiro, não pode ser algo que aconteça de forma rara e excepcional, tem que acontecer em uma quantidade de vezes significativa. E tem que causar impacto real para a saúde das pessoas. Nós temos esses dois critérios preenchidos na questão do aborto. A gente tem a última estimativa de cerca de 220 milhões de gestações acontecendo no mundo a cada ano e tem uma parcela disso que não é planejada que varia entre 30 a 35% deste total. Significa que  gente deve ter 45 milhões de gestações não planejadas e muitas vezes não desejadas. Isso termina em um número grande de abortamentos induzidos. A gente calcula em torno de 20 milhões de abortamentos sendo praticados em condições inseguras no mundo. O aborto inseguro também não é uma arbitrariedade, é uma convenção da OMS para quando se interrompe uma gestação sem prática, habilidade, conhecimento e/ou em ambiente sem condições de higiene. O aborto inseguro tem uma forte associação com a morte de mulheres. E aí segundo dados formais da OMS a gente tem quase 70 mil mulheres morrendo por ano em decorrência de aborto inseguro, não é pouca gente.

Essas mortes acontecem em países onde o aborto não é legalizado?

Aí que está o nó: estas 70 mil mulheres não estão democraticamente distribuidas pelo mundo. 95% dos abortos praticados em condições inseguras acontecem em países em desenvolvimento e por coicidência a maioria deles têm leis restritivas em relação ao abortamento. Isso falando de mortes de mulheres. Se falarmos em danos permanentes, sequelas, “não morreu mas quase”, esse número aumenta significativamente. Por isso estamos falando de uma situação que tem toda a necessidade de ser tratada como saúde pública. É claro que você consegue diminuir o número de gestações indesejadas quando melhora a educação, o acesso a bens, à saude, à escola, à educação reprodutiva. Mas mesmo que a gente oferecesse metodos contraceptivos para todas as mulheres sexualmente ativas no mundo, segundo a OMS, se todas usassem direitinho, mesmo assim nós teriamos entre oito e 10 milhões de gestações por falhas dos próprios métodos. Uma coisa que precisa ser entendida é que as mulheres não engravidam porque não são responsáveis ou simplesmente não usam metodos contraceptivos. Dizer isso é pura ignorância. Primeiro porque as mulheres não têm acesso a planejamento reprodutivo nesse país e isso é um fato. Mas se a gente considerar as mulheres usando os métodos rotineiramente, com suas pequenas falhas, o número de gestações não planejadas sobe para 26 milhões. Estes métodos são fundamentais para as mulheres, mas sozinhos eles não garantem que não exista uma gestação indesejada ou até forçada. Isso vai variar de país para país, da educação, acesso a saúde, educação sexual. Temos um problema de saúde pública? Sim.

No Brasil quais são estes números?

Os números que nós temos são aproximados, porque a clandestinidade não nos permite precisão, mas a gente calcula os números de aborto induzido de forma científica. Hoje a gente tem aproximadamente 250 mil internações para tratamento de complicação de abortamento por ano no país. É o segundo procedimento mais comum da ginecologia em internações. Aí a gente calcula quantos abortos de fato devem ter ocorrido para que para que estas complicações tenham acontecido neste número. Este é o cálculo utilizado por vários países e pesquisadores. No caso do Brasil, a gente não deve ter menos de 800 mil abortos induzidos, provocados a cada ano. Também não ultrapassa um milhão. A média fica em um milhão de mulheres se submetendo a procedimentos clandestinos. Veja que aborto clandestino e inseguro não são sinônimos. O que determina a insegurança do aborto não é ele ser clandestino; é não ter prática, técnica ou ser realizado em ambiente inseguro. A diferença entre as chances de morrer em um aborto inseguro é de mil vezes maior. E aí qual é diferença já que no Brasil o aborto é proibido por lei? Depende ae a mulher tem dinheiro para pagar por um aborto seguro, mas muito caro,  ou se ela é pobre e vai procurar por métodos inseguros. Acaba se criando uma desigualdade social, uma perversidade, porque uma mulher que tem um nível socioeconômico bom tem acesso a clínicas clandestinas, que não são legalizadas, mas são seguras. Esse aborto seguro pode custar mais de dois mil dólares, enquanto um aborto inseguro pode custar 50 reais. A criminalização do aborto impõe à mulher pobre a busca pelo aborto inseguro e clandestino e para as mulheres ricas a busca pelo aborto clandestino e seguro.

Cinquenta reais é o preço do remédio comprado no câmbio negro?

O aborto com remédio não é tão inseguro quanto se pensa. O mais grave é aquele que manipula o útero, com sondas, agulhas de tricô, venenos, elementos cáusticos cuja dose do veneno que mata o feto é muito próxima da dose que mata a mãe.

Claro que em São Paulo os números são muito menores do que nas regiões Norte e Nordeste do país onde a taxa de aborto em idade fertil é muito maior. No Brasil alguma coisa entre dia sim, dia não, morre uma mulher por complicação de um aborto, segundo dados oficiais do Ministério da Saúde. Pode haver muitas outras mortes que não foram computadas como tal. Isso deve dar umas 180 mulheres por ano e há quem ache esse número aceitável. Mas a gente acha que uma mulher jovem morrendo em uma situação como essa, que poderia ser totalmente evitada, não é aceitavel. O aborto como questão de saúde pública é uma classificação internacional assumida pela Federação Internacional de Ginecologia e Obstetricia, pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetricia, pela Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, pelo Grupo de Estudos de Aborto. Mas se o Ministério da Saúde não entende assim por questões políticas isso é uma tragédia.

Então hoje o que a gente tem do Ministério da Saúde é uma “não posição” a respeito do assunto?

É um evitar absoluto. É público, não estou denunciando nada que ninguém não conheça. No governo da presidente Dilma Roussef há uma proibição de tratar do tema do aborto. O executivo foge totalmente do assunto. E quando toma qualquer atitude que esbarre de relance na descriminalização do aborto, a bancada evangélica se coloca dizendo ‘a senhora se comprometeu conosco a não legalizar’. Agora, qual foi este compromisso, que usou as mulheres como moeda de troca eu não sei.

A pílula do dia seguinte é considerada abortiva pelos religiosos…

A questão da pílula do dia seguinte eu não sei mais como explicar porque é tão absurdo que chega a estupidez, ao patético. Não existe uma evidência cientifica que coloque a pílula do dia seguinte sob suspeita de ter um efeito abortivo periférico eventual, é uma medicação que não tem nenhuma evidência científica em relação ao aborto.

E a saúde pública está em boa parte nas mãos de instituições religiosas…

Sim. Mas a saúde pública é feita com dinheiro público. Uma Santa Casa não tem o direito de não distribuir uma pílula do dia seguinte ou não fazer uma laqueadura. Eles não abrem mão do recurso público mas querem colocar limitações aos direitos que as mulheres têm em um país laico em função de uma doutrina ideológica ou religiosa. Mas também tem outro dado interessante. Existe uma pesquisa de 2006, que conversou com as secretarias municipais de saúde de quase 800 municipios, uma parte com mais de 100 mil habitantes e uma parte com menos de 100 mil habitantes, sobre o serviço de abortamento legal. Foi perguntado para as secretarias se elas tinham serviços para atender vítimas de violência sexual e a resposta foi de que quase 90% dos municípios com mais ou menos de 100 mil habitantes diziam que sim, contavam com o serviço, tinham profissionais e serviços especializados. A pesquisa foi extensa, se aprofundou e perguntou se estavam cumprindo os ítens como prevenção do HIV, a pílula do dia seguinte e o resultado foi que mais da metade destes serviços que se dizem preparados não fazem a concepção de emergência e quando você pergunta por que, existem justificativas como falta do remédio. O Ministério da Saúde ofereceu os insumos para todos e, se não cumpriu, é responsabilidade do municipio comprar ou pedir. Mais da metade das mulheres que procuravam o serviço depois de um estupro não tiveram acesso a anti-concepção de emergência. Quer dizer, a gente tem uma cultura de violência contra a mulher, absurda, intolerável, injustificável, quando elas nos procuram, a gente é incompetente para protegê-las da gravidez, e quando estão grávidas, a gente é mais incompetente ainda para interromper, mesmo sendo algo previsto pela lei. E aí vem a segunda parte interessante. Quando você pergunta para as secretarias se elas tem o serviço de aborto legal, que faz parte do atendimento, de cara 30% já diz que não faz. Mas é obrigação fazer! 6% se recusam a falar sobre o assunto. Apenas 1,9% já tinha feito um aborto. É bonito dizer que tem, mas os serviços não cumprem as normas. Você diz que vai atender e quando a mulher chega com demandas gravissimas e você não atende isso é muito cruel. É imperdoável, é abandono. Mas qual é o percentual de ginecologistas que você acha que são contra o aborto, favoráveis ao estatuto do nascituro, contra o aborto em qualquer caso? 0,2%. 60% dos ginecologistas deseja no mínimo a ampliação das condições ou a descriminalização total. Se você considerar os que não acham que deveria ser crime, isso dá  80%.

De novo a conta não fecha, né? O que acontece então?

Existe uma questão chamada objeção de consciência. Isso é previsto pelo código de ética profissional e também pela legislação brasileira. Ninguém está obrigado a fazer uma coisa senão por força de lei. E o ginecologista não está obrigado a realizar um procedimento contra sua consciência. Essa liberdade de consciência e de não querer fazer alguma coisa que fere o princípio pessoal é individual, não pode ser coletiva e não é institucional. Uma instituição não pode alegar objeção de consciência. Uma Santa Casa não pode alegar objeção de consciência. Um professor titular de uma universidade importante não teria o direito de impor sua objeção de consciência a seus alunos. Mas isso acontece. Cabe a instituição ter médicos sem essa objeção para realizar esse trabalho.

E a raiz de todo esse embate está nos grupos religiosos?

Acho que tem um peso grande, mas não só. Em qual país o aborto é um consenso? Não é um tema que permite consenso porque existe um feto. A minha convicção não é igual a sua ou a de outra pessoa. Eu não tenho nojo do feto, eu sou obstetra, Cuido de crianças! Mas se eu tenho uma visão diferente de você, e nenhum de nós abre mão da própria visão, por que prevalece a sua? As mulheres terminam fazendo o aborto da mesma forma. Quantos fetos daquele um milhão que a gente perde por ano são poupados pela lei? Algum? Nenhum. E perdemos centenas de mulheres por conta disso. Dizem que quando a gente legalizar o aborto vai virar uma chacina. Mas não existe nenhuma experiência em nenhuma parte do mundo em que o aborto foi descriminalizado e houve uma explosão de abortos. Um dos últimos países que descriminalizou, o Nepal, em um prazo de quatro anos, teve uma queda de complicações relativas ao aborto vertiginosa. E você não tem um número de abortos aumentado. O lugar no mundo onde a mulher menos precisa fazer um aborto é na Holanda, o mesmo país onde o aborto é mais acessivel. A não permissão não reduz o número de abortos. Apenas torna-os clandestinos e traz toda essa tragédia da qual estamos falando. É uma legislação altamente eficaz para matar mulheres, porque obriga a clandestinidade e quem não tem dinheiro morre. E 70 mil mulheres mortas estão aí para mostrar que isso é verdade. A ideia de que a proibição resolve o problema é suficiente para uma parte da população brasileira. Que continuemos perdendo um milhão de fetos por ano. Que continuem morrendo tantas mulheres por ano.

Funciona assim com as mulheres desconhecidas né?

Sim. Uma pesquisa feita pela Unicamp em 2006 trabalhou com um número grande de ginecologistas e perguntou quantos eram favoráveis à descriminalização do aborto. Aproximadamente 15 ou 16% responderam sim. Aí perguntaram quais já tiveram em sua clinica particular uma paciente conhecida que teve uma gravidez indesejada e o procurou e o que ele fez. Se você juntasse médicos que ajudaram, orientaram fizeram o aborto ou encaminharam para um colega fazer, isso subia para 30%. A pesquisa foi além e perguntou se teve alguém da família deles já haviam passado por uma gravidez indesejada e pedido ajuda. O número de profissionais que ajudaram sobe para quase 50%. E a pergunta final era: “O senhor já teve uma parceira ou a senhora mesma já tiveram uma gravidez indesejada?” Quase 2000 profissionais responderam que sim. “E o que o senhor ou a senhora fez? Sobe para 90% o número de interrupções de gestações. Eu prefiro não entender isso como um falso moralismo. Quando eu entendo o motivo eu ajudo mais, e entendo melhor quando é minha filha. Mas nada como estar na própria pele. Em 30 anos de ginecologia, eu nunca ouvi uma mulher que tenha parado de usar o método anticoncepcional só pelo prazer de fazer um aborto. Para engravidar daquele canalha, ficar desesperada e ter o benefício, a satisfação de fazer um aborto. O aborto não é um bem a ser alcançado. As mulheres buscam no aborto soluções para situações extremas. A pergunta não deveria ser se você é contra ou a favor do aborto. Uma mulher que faz o aborto deve ser presa? Essa é a pergunta. E a maioria das pessoas vai responder que não. Então, por que ele é crime? Qual é o sentido?

 E só criminaliza a mulher porque o pai da criança nem passa perto disso. 

Só para a mulher. O cara não existe, estas são gestações espontâneas. Se o aborto fosse um tema que atingisse os homens essa questão teria terminado há muito tempo. É mais uma vez depositar sobre a mulher toda a responsabilidade do processo reprodutivo. A maior parte dos homens coloca toda responsabilidade pela contracepção para as mulheres e quando elas engravidam de maneira indesejada, esses caras desaparecem. Muitas mulheres talvez não abortassem se não fossem abandonadas pelos parceiros. Não que isso seja a solução. Mas muita mulher aborta porque não tem parceiro, não tem apoio, vai ser descriminada e assim por diante. A sociedade não dá a essa mulher qualquer tipo de acolhimento. Não estou dizendo que esse acolhimento resolveria a gravidez indesejada mas muitas mulheres são impulsionadas a esse aborto por um ambiente totalmente hostil.

E em nenhum momento essa mulher é considerada.

O Estatuto do Nascituro trata a mulher como um detalhe. Deveria substituir a palavra mulher por chocadeira humana. Ou receptáculo de esperma humano. Se for aprovado, o Brasil será o país mais atrasado, conservador e limitado no mundo em direitos reprodutivos.

A Defensoria Pública de São Paulo está defendendo uma mulher que foi denunciada por uma médica quando chegou sangrando ao PS de um hospital público.

A médica também deveria estar respondendo criminalmente, ela não pode revelar sigilo. Eu não sou policial, juiz, sou médico. Enquanto médico eu tenho principios éticos e legais a seguir. Eles determinam que você não pode revelar fato que tenha conhecimento no exercício da profissão. A não ser em circunstâncias especiais, por exemplo, se o profissional estiver sendo processado por um paciente, mas ainda assim eu sou obrigado a lembrar ao juiz que estes dados merecem sigilo. Também por força de lei, um estupro em uma criança ou adolescente, eu tenho a obrigação de comunicar às autoridades mesmo que a família não queira. Não existe sigilo nesta circunstância. Mas na lei de contravenções penais existe o artigo 66 que é absolutamente claro: o médico não tem permissão de revelar uma condição de sigilo que possa estabelecer um processo contra a pessoa. E tem aqueles profissionais que acham que tem que fazer procedimentos sem anestesia que é para a mulher aprender a não fazer mais. Mas o que tem por trás de tudo isso? A falta de clareza de lidar com o aborto como questão de saúde pública. não  simplesmente para usar isso como argumento para discutir a descriminalização. É usar para discutir uma assistência humanizada, que não viole os direitos dessa paciente, e uma mudança no aprendizado sobre o abortamento. Na verdade o aborto termina como uma moeda de troca. A vida das mulheres, os direitos das mulheres e autonomia terminam como moeda de troca política. Você me apoia e a gente ferra com todas as mulheres sem nenhuma dor de consciência. A gente faz um conchavo político e que se dane quantas mulheres vão morrer no próximo ano. Eu gostaria  que vocês nunca engravidassem sem querer, que nunca precisassem de um aborto, que fosse algo raro e excepcional. Mas que se acontecesse, não se tornassem criminosas por causa disso. Que tivessem a saúde protegida. Que o aborto fosse raro, legal e sempre seguro.

19 Mar 20:25

O dedo que aponta a lua.

Eu tenho sérios problemas mentais, aparentemente, porque pra mim esse mundo não faz o menor sentido.

Alguém se sente bem com ele? Se sim, me digam no comentário as fórmulas mágicas para eu ficar em constante paz, porque não tá fácil.

Ou não. Talvez eu que esteja um pouco amargo.


Mas como não ficar amargo quando se lê comentários de portais? Acabei de me auto-intitular sadocomentarista. Alguém que lê os comentários dos grandes portais, mesmo sabendo que vai doer.

Digo isso porque, após a notícia dos ativistas que libertaram Beagles de uma empresa que tinha acusações de maus tratos, leio comentários condenando a invasão, etc, etc, etc. Dos mais variados.

O que me deixa mais desgraçado da minha cabeça é que o fato de focar em um evento como algo pontual, descaracteriza a necessidade do debate. Como diz aquele ditado cafona: quando o dedo aponta a lua, o idiota enxerga o dedo.

Veja bem, um dia, lá em 1955, rolou o maior fuzuê num busão dos Estados Unidos porque uma mulher não queria se levantar para dar lugar a um homem. Uma costureira, voltando para casa, cansada depois de um dia de trabalho, teria que se levantar e dar seu lugar a um homem sem deficiência ou que estava grávido. Por que? Porque a sociedade naquela época dizia que era assim que tem que ser. Negros devem levantar-se no ônibus e dar lugar aos brancos.

Rosa Parks se recusou. Por que ela teria que levantar? Quem disse que ela tinha que se levantar? Por que o outro não pode ficar em pé?

Rosa Parks é daquelas vândalas que só quer criar caso. Onde já se viu?

Eu acho muito curioso como as histórias se repetem na nossa frente e a gente não percebe até que já aconteceram.

Já que estamos falando de Rosa Parks e seu caso nos EUA, vamos falar então de um tal presidente americano chamado Abraham Lincoln.

Lá em 1862, ele disse o seguinte:

"Os dogmas do passado quieto são inadequados para o presente turbulento. A ocasião está amontoada de dificuldades e devemos nos erguer com a ocasião. Como nosso caso é novo, devemos pensar de novas maneiras e agir de outros modos devemos nos descativar e então devemos salvar nosso país."

Não é curioso Lincoln ter dito isso em 1862 - MIL OITOCENTOS E SESSENTA E DOIS - que novos tempos precisam de novas soluções e nós aqui esbravejando para manter tudo como está nesse mundão véio e sem portera? Note que ele não disse “precisamos nos erguer para essa ocasião”. Ele disse “precisamos nos erguer COM A OCASIÃO”!

Entende a diferença?

Se erguer com a ocasião é simplesmente debater sobre o que se passa naquela ocasião e aprender com aquilo. Crescer com aquilo. Mudar com aquilo.

Quando o foco de uma coisa é pontual, se está eliminando o debate e tornando aquilo apenas um fato. E, olha, é melhor debater uma questão sem resolve-la que resolver uma questão sem debate-la.

Assim. Só uma ideia.

Quando o jornal chama a atenção para vândalos depredadores comedores de criancinhas, ele está fazendo o que uma separação clara que, ao contrário do que essa comparação de manchetes faz, não vem da época da ditadura. Vem de antes. Da década de 30. Dos primórdios do estudo de comunicação de massa. Muito utilizada por um rapazinho de bigode estranho chamado Adolf e seu amiguinho Goebbels.

Sim, nazistas eram maus e cruéis e bla bla bla. Mas assim, até hoje a gente usa sem vergonha na cara coisas que eles inventaram. Inclusive, os meios de comunicação até hoje usam os onze princípios da propaganda nazista. Vamos aos exemplos após os comerciais (Insira solo de bateria aqui - tudum tsss):

"Princípio de simplificação e do inimigo único. Adotar uma única ideia; um único símbolo; individualizar o adversário em um único inimigo.”

Essas feminazi, não sei se vocês sabem, são tudo um bando de mau comidas. Odeiam homens. Querem tomar o poder. E só lutam por seus direitos até a hora de pagar a conta do motel. Eu não caio nessa.

"Princípio do método de contágio. Reunir os adversários em uma só categoria ou indivíduo. Os adversários tem de constituir-se em suma individualizada.”

Coitadismo, minha gente, é o que negros, mulheres, gays fazem. Eu, que sou homem, hetero e branco, nunca tive problema nenhum com essa sociedade aí. Eles ficam choramingando no lugar de capinar pátios, como eu gostaria que fizessem. Há muitos pátios para capinar nesse mundo.

Princípio da transposição. Atribuir ao adversário os próprios erros ou defeitos, respondendo o ataque com o ataque: “Se não podes negar as más notícias, inventa outras que as distraiam”.

Ah, os vândalos. Lembram deles? Invadindo o pobre laboratório. Roubando os cachorros. Ou quem sabe quebrando as pobres vidraças de bancos que têm seguro que cobrem quebras de vidraças. O horror… o horror…

"Princípio do exagero e desfiguração. Converter qualquer anedota, por pequena que seja, em ameaça grave.”

Essas feminazis, vocês sabem, elas querem acabar com a família! Querem matar bebês em suas barrigas! Elas querem…

Princípio da vulgarização. “Toda propaganda deve ser popular, adotando seu nível ao menos inteligente dos indivíduos, aos que se dirige. Quanto maior seja a massa a convencer menor há de ser o esforço mental a fazer. A capacidade de entendimento das massas é limitada e sua compreensão rara; além do mais tem grande facilidade para esquecer.”

Basicamente, o que esse principio diz é que é mais fácil você convencer 100 pessoas que uma só. Quando nossos meios de comunicação idealizam o amor romântico por exemplo, a ideia da mulher esperando o seu príncipe encantado, não precisa bater de porta em porta para convencer cada um disso. Na verdade, há um motivo para Shakespeare ser um ícone mais reconhecido da literatura que todo mundo deveria ler e para as histórias infantis terem esse ideal de que o final feliz é o casamento.

"Principio de orquestração. “A propaganda deve limitar-se a um número pequeno de ideias e repetí-las incansavelmente, apresentando-as de diferentes perspectivas; mas sempre convergindo sobre o mesmo conceito. Sem ranhuras nem dúvidas”. Se uma mentira se repete suficientemente, acaba por converter-se em verdade.”

Feminazis são mal comidas. Feminazis são feias. Feminazis são cabeludas. Feminazis são…

"Principio de renovação. Emitir constantemente informações e argumentos novos a um ritmo tal que, quando o adversário responda, o público está já interessado em outra coisa. As respostas do adversário nunca devem poder contrariar o nível crescente de acusações.”

Olha, existem manifestantes pacíficos e existem os vândalos. Os vândalos não são legais. As pessoas tem todo o direito de irem as ruas, sabe. Enfim… agora vamos aos gols da rodada.

"Principio da verossimilhança. Construir argumentos a partir de fontes diversas, através dos chamados balões de ensaios ou de informações fragmentadas.”

Olha só. Mulheres querem abortar. E todo mundo sabe que abortar é matar bebês. Elas ficam fazendo sexo sem camisinha e depois vão sair por aí abortando. Muita irresponsabilidade. Claro que isso nunca será aceito.

"Principio do silêncio. Calar sobre as questões das quais não se tem argumentos e encobrir as noticias que favorecem o adversário; também contra-programando com a ajuda de meios de comunicação afins.”

Prefiro não comentar esse princípio. Vocês viram que solzão tá fazendo hoje? Acho que vai dar praia.

"Principio da transfusão. Por regra, a propaganda opera sempre a partir de um substrato preexistente, seja uma mitologia nacional ou um complexo de ódios e prejuízos tradicionais. Se trata de difundir argumentos que possam se nutrir em atitudes primitivas.”

Mulher, sabe, elas atiçam os homens com essas mini-saias. Homens, vocês sabem, tem instintos. É natural. Ele precisa reproduzir. Não é assédio, sabe? E tem mulher que gosta.

"Principio da unanimidade. Convencer muita gente que se pensa “como todo o mundo”, criando impressão de unanimidade”

Olha, mulheres, a sociedade foi sempre assim. Que ideia maluca querer andar sem camisa. Ficar andando peluda. Ai ai, essas mulheres viu? Isso é falta de laços.

Enfim… eu nem precisei me esforçar muito para pensar nesses exemplos.

E você não precisa se esforçar muito também para encontrar eles em vários lugares.

Geralmente, quando há uma notícia que questiona a normatividade da nossa sociedade, ela vem seguida da palavra “polêmica”. E o inverso também vale para a manutenção dessa normatividade. Quando um pastor deputado diz umas coisas racistas, homofóbicas, ignorantes, o nome disso, minha gente, não é “polêmica”. Isso é racismo, homofobia e ignorância.

"Polêmica" é outra coisa.

 

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Toda terça e sexta escrevo sobre o que aprendi com as mulheres da minha vida. Não esqueçam de curtir também a page do facebook. Vai ter bastante conteúdo por lá :)  - Só clicar aqui!

27 Nov 01:49

a raiva do betão

by alexcastro

era uma vez, digamos, o betão.

betão queria fazer X da sua vida. mas o pai, a mãe, a sociedade, a mídia, o professor, o zé do 502, etc, disseram que betão iria se fuder se fizesse X, não iria ganhar dinheiro, não iria ter vida sexual, etc. aí, moço de bom-senso que sempre foi, betão sacrificou sua vida, recalcou suas vontades, fez tudo exatamente como mandaram e viveu a vida que projetaram pra ele e não a vida que queria viver.

um dia, apareceu o claudio gustavo.

claudio gustavo vivia exatamente a vida que o betão sempre quis viver e, pasmem, claudio gustavo não se fodeu, se sustentava, tinha uma vida sexual e amorosa, etc — nenhum daqueles medos que colocaram na cabeça do betão se realizou.

betão poderia tomar o simples fato da existência do claudio gustavo como um exemplo positivo para mudar sua vida, recuperar o tempo perdido, tentar fazer o que sempre quis.

mas mudar a vida dá um trabalho danado. além disso, betão agora já estava muito investido vivendo a vida que tinham mandado ele viver.

na verdade, aconteceu o contrário: betão tomou o simples fato da existência do claudio gustavo como exemplo negativo.

sem nem entender direito o motivo e de forma totalmente inconsciente, betão desenvolveu verdadeira ojeriza ao claudio gustavo.

agora, quando betão se senta entre outros homens que também viveram as vidas que lhes mandaram viver, exaustos de tanto trabalhar, cheios de dívidas e bebendo muito, a ojeriza geral ao claudio gustavo é tão auto-evidente que não precisa nem mesmo ser articulada ou justificada.

enquanto isso, o claudio gustavo continua lá, vivendo a vida que escolheu, sem nem se dar conta de estar agredindo tanta gente.

27 Nov 01:41

a ambição dos escravos

by alexcastro

O que é pior: a ambição dos escravos ou a falta de ambição dos escravos?

Palavras da Condessa de Merlin, uma nobre escravocrata cubana, escritas em 1841.

Reparem como ela passa de condenar a preguiça e falta de ambição dos negros (e por isso devem ser escravizados) para logo em seguida condená-los pela suposta ambição que demonstrariam assim que libertos (e por isso devem continuar escravizados).

“Suponhamos que os ingleses consigam obter, sem transtornos e sem desordens, a emancipação dos escravos de nossas colônias. Seu primeiro sentimento, sua primeira necessidade, qual será? Não fazer nada. O trabalho lhes é insuportável e só se consegue obrigá-los a trabalhar a força. Um negro indolente e selvagem, desprovido de todo desejo de progresso, de ambição, de dever, preferirá substituir sua vida vagabunda e sensual pelos rigores de um trabalho voluntário e de um sustento adquirido com o suor de sua testa? Mas suponhamos que, por um milagre, a educação moral dos escravos libertados se desenvolvesse de repente e os trouxesse a amar o trabalho. [Adoro esse "trouxesse": a Condessa de Merlin nunca trabalhou um dia sequer em sua vida.] Caso se convertessem em trabalhadores, os negros não demorariam em se ver atormentados pelo desejo de ser proprietários; pela rivalidade, pela ambição, pela inveja contra os brancos e suas prorrogativas. Sob um regime político constitucional, em um país governado por leis equitativas, não exigiriam participar destas mesmas instituições? E vocês lhes concederiam os seus mesmo direitos e os seus mesmos privilégios? Fariam deles os seus juizes, os seus generais, os seus ministros? Dariam-lhes suas filhas em matrimônio? Não é isso que queremos, exclamarão os amigos dos negros: que sejam livres, mas que se limitem a trabalhar a terra e a conduzir a cana como bestas de carga. Não consentirão: se hoje ocupam-se dessas atividades e consideram-se felizes em seu estado imperfeito de homens selvagens, no dia em que se acenda para eles a luz da inteligência perceberão que são homens como vocês, e o campo de batalha ficará com o mais forte. Reflitam: quando estalar o primeiro sinal de combate, não haverá piedade possível entre duas raças incompatíveis.”

O discurso da Condessa tem o grande mérito de desmascarar a hipocrisia dos abolicionistas, esses brancos bondosos que queriam a liberdade dos negros mas que sinceramente não podiam nem conceber um juiz negro ou, pior, muito pior, um genro.

13 Nov 01:48

Status dos Chamados

by André Farias

Vida de Suporte

O Estagiário não aprovou essa tirinha

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    Status dos Chamados é um post do blog Vida de Suporte.
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    'Will [     ] allow us to better understand each other and thus make war undesirable?' is one that pops up whenever we invent a new communication medium.
    13 Nov 01:27

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    INSIDE ELON MUSK'S NEW ATOMIC CAT
    04 Nov 19:06

    Salvem a família!

    by Mike Stucin

    Cartaz anti-miscigenação

    Pergunta fácil: o que os conservadores de todo gênero alegam proteger com unhas e dentes? O que é capaz de unir numa mesma causa figuras como Bolsonaro, Feliciano, Magno Malta, Malafaia e companhia infernal limitada? A tão falada “defesa” da família.

    Ah, a defesa da família! Nada mais falacioso e tacanho do que isso! Reza a lenda que, toda vez que um conservador invoca esse argumento, os anjos no céu choram lágrimas de sangue e os profetas se revoltam, bradando desesperadamente: “Quem autorizou esse povo a falar por nós?!”.

    Não é de hoje que os conservadores se posicionam falaciosamente como os únicos defensores da instituição familiar. Eles, há muito tempo, parecem que adquiriram uma espécie de licença para se proclamarem os únicos guardiões da família, protegendo-a dos “gayzistas”, “comunistas”, “progressistas” e todos os outros “istas” do mal.

    Eles, os “mocinhos”, que vão à igreja todos os domingos, qualificam os progressistas em geral como seres abomináveis contrários à família, monstros que não hesitariam em jogar todas as criancinhas do mundo num grande caldeirão soviético, para, no fim, se fartarem com a especialidade da culinária comunista: sopa de almas inocentes.

    A falsa defesa da família como discurso político se reconfigura conforme manda o padrão conservador da época, de maneira que as “ameaças” à família variaram bastante no tempo.

    Décadas atrás, na África do Sul e em alguns estados norte-americanos, os casamentos e até mesmo o sexo inter-racial eram proibidos; no Brasil, organizações conservadoras levaram milhares às ruas para protestar contra o divórcio. Atualmente, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adoção de crianças por esses casais têm mobilizado grupos conservadores de todo o gênero. Tudo isso em nome da defesa da família!

    Esse argumento precisa ser desmascarado! Por décadas, a família tem sido usada de maneira sorrateira como argumento para “aprisionar” as pessoas, obrigando-as a viver conforme a moral da maioria. Quem saísse do padrão estabelecido pela maioria conservadora, era considerado diferente, logo, um cidadão de segunda categoria, quando não um inimigo, um fora-da-lei. E essa lógica persiste até hoje!

    Progressistas não são contrários à família, como querem fazer crer as lideranças conservadoras. Progressistas, pelo contrário, têm uma visão muito democrática e inclusiva de família. Eles entendem o amor em suas diferentes acepções, creem na liberdade que as pessoas possuem para ficar juntas ou se separar, independentemente da cor, sexo, orientação religiosa, classe social etc.

    Família é algo que está muito além da compreensão desses falsos defensores da família. Lembrem-se: eles foram contra os casamentos inter-raciais e contra o divórcio. Hoje, os conservadores são contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, usando sempre o mesmíssimo argumento! Eles estão simplesmente do lado errado da história! Mais uma vez!

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    01 Nov 18:44

    Chuck & Beans

    by brian
    Renato Cerqueira

    Uma pena, but all good things must come to an end.

    final C&B

    It’s with no small amount of mixed emotions that I must announce that Chuck & Beans is going on
    hiatus.Truth is, after six years (!) I was feeling a little burned out and I felt it was beginning to effect the
    quality of the comic. My hope is that with some time off I can bring it back with the same level of
    excitement I had when I first started the strip. Until then, I hope you’ll stick around to see what I and all
    my crazy-talented friends and co-workers come up with.

    If I haven’t said it enough, my deepest thanks to everyone who took the time over the years to tell me how
    much they’ve enjoyed the strip. It made all the difference in the world.

    -brian

    01 Nov 17:03

    “Gotta Know ‘Em All” [Comic]

    by Lauren Berkley

    gotta know em all

    [Source: Dorkly]

    01 Nov 16:58

    The Scariest Halloween Pumpkin Ever [Pic]

    by Geeks are Sexy
    01 Nov 16:58

    Halloween Costumes for Programmers [Comic]

    by Geeks are Sexy

    halloweenCostumesForProgrammers

    A compilation of Halloween costumes for programmers by cartoonist Pablo Stanley for Koding.com.

    What other pros and cons would you add to this comic? Let us know in the comments section below!!

    Thanks Pablo!

    Click This Link for the Full Post > Halloween Costumes for Programmers [Comic]

    01 Nov 13:59

    Missionaries gone digital

    31 Oct 18:15

    Chuck & Beans

    by brian

    jerk o lantern

    31 Oct 13:11

    e os filhos?

    by claudia regina

    Sempre, sempre, que se fala de viver com menos, ter menos gastos, menos luxos, e uma vida simplificada, vem o mesmo tipo de comentário:

    “Ah, é fácil viver essa vida se você não tem filhos!”

    Acompanhando essa afirmação, aparecem outras, quase sempre atreladas à uma visão classista e ahistórica em relação à família nuclear.

    (Claro, vamos ignorar o fato de que a escolha de não ter filhos existe e é válida.)

    As indagações mais comuns:

    1. “É fácil viver com pouco se você não precisar pagar escola particular e se não precisar ter carro pra levá-los pra lá e pra cá!”

    Essa visão classista é muito interessante, porque ignora as muitas famílias que criam filhos a vida inteira sem carro e sem escola particular.

    Ter filhos e não ter carro é a realidade de muitas famílias. Duas soluções muito claras para essa dificuldade são morar perto da escola e ir a pé ou usar o transporte público. Mas aí me dizem: “Mas eu não tenho tempo pra levar meus filhos à escola à pé ou usar o transporte público!” Claro que você não tem tempo: está trabalhando que nem louco para poder pagar o carro! Também dizem: “Mas andar de ônibus é indigno, é horrível, o transporte público da minha cidade é péssimo”. Claro que é péssimo: ao invés de lutar para melhorar as condições públicas da sua cidade, você soluciona o problema comprando o SEU carro, para levar o SEU filho pra lá e pra cá.

    Ter filhos na escola pública é a realidade de muitas famílias também. “Mas a escola pública é horrível! Meu filho não vai passar no vestibular!” Claro que é horrível: ao invés de lutar para melhorar o ensino público, você está solucionando o problema pagando uma escola particular pro SEU filho. Que tal colocar seu filho na escola pública, se manifestar à favor de melhoras nas condições de trabalho de professores e nas estruturas das escolas, e ajudar seu filho, em casa, a passar pro vestibular? Ah, é, você não tem tempo para estudar com ele: está muito ocupado trabalhando que nem louco pra pagar a escola particular.

    “Mas essas pessoas não têm carro ou escola particular porque não podem escolher!” Pois é. Você pode escolher e está escolhendo o caminho mais caro e mais egocêntrico.

    É um ciclo que vai e volta.

    Pessoalmente, essa afirmação me ofende bastante pois estudei a vida inteira em escolas públicas, incluindo a universidade (pois é, eu passei no vestibular tendo estudado em escolas públicas, olha só que incrível!) Já estudei em escola perto de casa (onde dava pra ir a pé) e em outras onde ia de ônibus. Estou aqui, inteirinha.

    2. “É fácil viver assim, se você não tem filhos pedindo o último iPhone porque os amiguinhos têm. Não é seu filho que vai sofrer a pressão social de não ter coisas.”

    É claro que se o seu filho exige bens materiais: com o seu exemplo de dar valor ao SEU carro, à SUA propriedade privada, à educação de qualidade só para SUA família (e pras poucas que podem pagar)… É evidente que seu filho haja igual.

    E deixa eu contar uma novidade muito interessante: você não precisa dar pro seu filho tudo que ele pede (!!!!!). Ao invés disso, pode ensinar (e mostrar) pra ele que é muito mais importante ser um cidadão do que ter o último celular, roupa ou videogame.

    3. “É fácil viver em uma casa pequena em Copacabana sem filhos. Mas se você tem filhos, como eles vão brincar na rua? E a segurança?”

    Vejo muita gente criando filhos (e muitos) morando em lugares muito menores do que o conjugado onde moro. Imagina só, que interessante, mas essas pessoas são seres humanos dignos e diversos, assim como você.

    Existem duas opções: ou você soluciona o SEU problema com dinheiro, ou você ajuda a moldar uma sociedade que soluciona o problema de TODOS. O seu filho faz parte disso, e provavelmente vai seguir seus exemplos.

    31 Oct 12:25

    quero descrescer na vida

    by claudia regina

    Quando me mudei pro Rio, fiz uma escolha que muita gente faz pra ser viável morar na zona sul, perto da praia e do agito artístico: morar num conjugado apertado. Isso, para muita gente da minha classe social, é indigno. Mas qualquer pessoa mais esperta sabe que, ainda assim, é um privilégio de classe muito grande desbancar milhares de reais de aluguel por poucos metros quadrados.

    De qualquer forma, aprendi em Copacabana esse tal conceito de usar o espaço público como quintal.

    Se quero ler um livro com um ventinho fresco vou pra nossa praia, não pra minha varanda. Se quero nadar, vou pra nossa praia, não pra minha piscina. Se quero tomar um suco com uma amiga, vou pra nossa praia, não pro meu quintal.

    E essa troca do meu pelo nosso é tão boa. E cada dia que passa, sinto que meu conjugado é grande demais. Que não preciso de tanto espaço meu. Que não preciso de tanta coisa minha.

    Tão lindo de ver, compartilhadas por aí, as ideias de hortas compartilhadas, bibliotecas compartilhadas, bicicletas compartilhadas… Casas cada vez menores, cidades cada vez mais compartilhadas.

    Vou me livrando do privado, aqui e ali, pensando num mundo bonito sem tantos meus e com mais nossos. Na utopia profunda de que assim, a sociedade pode acolher a todos nós, igualmente.

    31 Oct 11:49

    Realizing that accidentally deleted code was already pushed

    by sharhalakis

    by noisy

    31 Oct 11:49

    Tests all green at first run

    by sharhalakis

    by riQui

    22 Oct 14:17

    Shall we buy MacBooks to look cool but install Ubuntu on them?

    by sharhalakis

    by @juan_domenech

    08 Oct 19:26

    Been Awake For A Maternity

    by Not Always Right
    Retail | Bergen, Norway

    (A scruffy looking customer comes into the store. He is wearing his pajamas, bright colored running shoes, and a scarf. He looks like he has not slept for weeks. He walks around the store for five minutes before coming to the line at the register. It is just after midnight.)

    Me: “Good evening, sir.”

    Scruffy Customer: *mumbles*

    (He has three items: anchovies, asparagus in a jar, and bacon-flavored chips.)

    Me: “Will with that be all, sir? Do you want a bag for your items?”

    Scruffy Customer: “No and yes, thank you.”

    (He reaches for his pocket and takes out his car keys, ruffles around other pockets to look for his wallet, and finds nothing. Something breaks inside of him. He puts a hand to cover his eyes and is starting to turn away from me.)

    Scruffy Customer: “I am sorry; she is going to kill me.”

    (He starts to walk out. Another customer in line speaks up.)

    Customer: “When is she due?”

    Scruffy Customer: “What?”

    Customer: “When is she due?”

    Scruffy Customer: “In three weeks or so. How did you know?”

    Customer: “Buying strange things in the middle of the night wearing pajamas. That is kind of a recipe for a guy who has a pregnant girl at home.”

    Scruffy Customer: “Yeah, I guess so.”

    (The scruffy customer starts to walk out again.)

    Customer: “Hey, go get your stuff on the counter. I will pay for you.” *to me* “How much is it?”

    Me: “Uhh… 76 kroner with my staff discount.”

    Customer: “Wow, anchovies, asparagus and bacon flavored chips. She has got it bad!”

    Scruffy Customer: “If it’s smelly, spicy or has a strange texture, she has to have it. I think she has tried everything in those categories. Except for shark meat, I think.”

    (The scruffy customer smiles, and the other customers at the register give out a laugh. He thanks the customer for paying, and tries to get his information to pay him back. The other customers there start to talk to him, give him advice and try to lift his spirits. He now has a four-month-old daughter, and does not look scruffy anymore!)

    07 Oct 19:14

    Teenage Mutant Ninja Chairs [Pic]

    by Geeks are Sexy
    06 Oct 06:08

    mini-manual pessoal para uso não-sexista da língua

    by alexcastro

    em meus textos, para chamar atenção para o sexismo de nossa língua, estou invertendo a norma e usando o feminino como gênero neutro.

    o que isso quer dizer?

    * * *

    digamos que um parque conta com dez animais da espécie Panthera leo.

    de acordo com as regras atuais da língua portuguesa, podemos dizer que “existem dez leoas no parque” somente se:

    a) temos certeza absoluta que os dez animais são fêmeas.

    por outro lado, falamos que “existem dez leões no parque” se:

    b) temos certeza absoluta que os dez animais são machos.

    c) se houver ao menos um macho no grupo.

    d) se não soubermos nada sobre os gêneros dos animais.

    * * *

    decidi inverter a regra.

    agora, uso o masculino somente na opção b, quando tenho certeza que o indivíduo ao qual me refiro é masculino.

    para as opções c e d, uso o feminino.

    * * *

    o que isso quer dizer na prática?

    abaixo, alguns exemplos.

    * * *

    para falar da humanidade de modo geral, agora uso o feminino, mesmo quando é a primeira pessoa do plural que me inclui, um homem:

    “quando estivermos idosAs e entrevadAs, incapazes e enrugadAs, a única lembrança que vai restar da criança que fomos um dia são nossos olhos.” (do meu texto “os mesmos olhos”)

    * * *

    para falar aos seres humanos de modo geral, uso o feminino, idealmente antecedido de “pessoa”:

    meu texto “carta aberta às pessoas privilegiadas” normalmente teria se chamado “carta aberta aOs privilegiadOs”, se referindo a todas as pessoas privilegiadas do mundo de ambos os sexos.

    se eu mudasse simplesmente para “carta aberta Às privilegiadAs”, o texto poderia passar a impressão errada, graças ao treino sexista que impusemos aos nossos ouvidos, de estar falando somente para as mulheres privilegiadas e não aos homens.

    portanto, para evitar essa distorção e manter o significado genérico, o título final ficou “carta aberta às pessoas privilegiadas”.

    também estou me esforçando para usar a palavra “pessoa” livremente e sem medo de repetições.

    * * *

    só uso o masculino para me referir especificamente a homens.

    da mesma “carta aberta” citada acima:

    “Escuto muito: HOMENS reclamando da histeria das feminazis, pessoas cis reclamando da agressividade das militantes trans, brancas reclamando do vitimismo do movimento negro, religiosas reclamando da chatice das ateias militantes. … É comum ouvir as pessoas privilegiadas (HOMENS, brancas, cis, ricas, etc) reclamarem que as militantes de causas subalternas (movimento negro, LGBT, trans, feministas, indígenas, ateias, etc) são agressivas, defensivas, estressadas, etc.”

    da minha “declaração de princípios”:

    “sou atEU. feminista. de esquerda. politicamente corretO.”

    no caso, só estão no masculino as menções específicas a homens e minha auto-menção individual, que sou homem. todo o resto está no feminino.

    * * *

    um ponto especial sobre pessoas trans*:

    eu me refiro no masculino a quem se apresenta e se auto-identifica como homem. e idem para mulheres. não cabe a mim e nem me interessa ser o juiz de quem nasceu com quais órgãos ou quem tem o quê debaixo das roupas.

    se a mulher que vazou os segredos para a wikileaks se apresenta como chelsea manning, isso é tudo o que preciso saber para me referir a ela e tratá-la como mulher.

    é uma simples questão de respeito.

    * * *

    existem várias outras maneiras de inverter o sexismo da língua, como usar o arroba e o x.

    respeito muito todas as pessoas que também estão lutando por menos sexismo na língua e que escolheram usar essas ou outras opções.

    os meus motivos para não adotá-las são os mesmos de juno, expostos no texto: deixando o X para trás na linguagem neutra de gênero

    recomendo também esse utilíssimo manual para o uso não sexista da linguagem.

    * * *

    essas são somente as pequenas regrinhas que estou seguindo em MEUS próprios textos para tentar torná-los menos sexistas. não estou impondo essas regras a ninguém nem acho que você é uma pessoa horrível se não segui-las.

    essas regras estão em fluxo e em teste, sendo aplicadas no dia-a-dia e constantemente revistas e repensadas.

    agradeço quaisquer sugestões ou críticas construtivas. erro muito, mas sei ouvir e me corrigir.

    * * *

    talvez a grande contribuição da filosofia durante o último século tenha sido essa:

    as palavras importam. a linguagem molda o mundo.

    vale a pena brigar por isso. não é uma luta vã.

    06 Oct 06:00

    When we agree to drop support for an archaic browser

    by sharhalakis

    by wstern

    05 Oct 19:58

    09.30.2013

    02 Oct 12:53

    Erro na data do cheque

    by ProgramadorREAL

    Erro na data do cheque

    23 Sep 02:10

    uma caneca

    by alexcastro

    de repente, minha caneca térmica de tomar café começou a sumir. fui procurar e descobri que um dos colegas de casa, o nate, estava usando.

    uma caneca.

    me irrita bastante não ter acesso a minha caneca. afinal, não foi pra isso que eu a comprei? para beber café?

    toda vez que procuro minha caneca e não encontro, fico puto. fico puto de verdade. ensaio diálogos mentais de marchar quarto adentro do nate e dizer coisas como:

    olha só, vamos fazer um trato? sim, todo mundo pode usar tudo de todo mundo, mas vamos combinar que cada um tenta usar prioritariamente as suas coisas e, se não estiverem disponíveis, as dos outros, ok?

    talvez muitas pessoas concordassem com essa minha irritação.

    pena que ela está errada. é babaca, pequena, mesquinha, egoísta.

    o colega de casa não sabe que a caneca é minha, que me irrito que ele a use, que só bebo café nela: ele sabe apenas que não foi ele que comprou mas que ela está no armário junto com outras dez canecas que ele também não comprou. como ela só some de vez em quando, ele não a usa sempre: deve simplesmente pegar a primeira que aparece e pronto.

    não, não uso nada dele. teoricamente, os objetos de cozinha são de uso comum (facas, panelas, potes, canecas, etc), mas eu já tenho as minhas próprias coisas, não preciso usar as de ninguém.

    o nate é uma pessoa ótima, linda, aberta, carinhosa, generosa. um cara realmente desapegado. trabalhava em uma financeira, num emprego pacato e seguro, largou tudo pra fazer escola de culinária, e depois, veio pra nova orleans trabalhar no melhor restaurante da cidade, trazendo apenas a bagagem que cabia no seu carro. ele usa minha caneca porque nem tem a dele.

    imagino que não haveria nenhum problema em falar sobre isso. tenho certeza absoluta de que ele não teria nenhuma reclamação. ele é norte-americano, respeita a propriedade privada!

    olha, sabe como é, eu gosto dessa caneca, só tomo café nela, de vez em quando eu procuro e não encontro, você poderia tentar usar as outras antes de usar essa? na boa?

    mas não vou falar nada. porque o problema sou eu.

    o problema não é o nate (uma pessoa generosa que outro dia quase deu cinquenta dólares pra uma velha trambiqueira numa cadeira de rodas) abrir o armário e pegar a primeira caneca que vê pela frente. o problema sou eu ter qualquer tipo de apego a um objeto de plástico vagabundo, que custou 6,99 dólares mais impostos, sem qualquer valor intrínseco ou sentimental.

    não quero ser a pessoa que regula uma caneca. não quero chegar pro meu colega de casa, com a mão das cadeiras e a voz irritada, e pedir pra ele por favor não usar a minha caneca! eu não quero escrever bilhetinhos “vamos cada um usar nossas próprias canecas?”

    eu não quero ser essa pessoa. eu não sou essa pessoa. eu não sou essa pessoa porque eu não quero ser essa pessoa. eu não sou essa pessoa porque 99,99% de tudo o que acontece no universo (provavelmente mais) está fora do meu controle, mas eu pelo menos ainda tenho controle sobre algumas coisas: eu posso até ser uma pessoa que se incomoda do colega de casa usar sua caneca preferida, mas eu decido não ser a pessoa que reclama com o colega de casa de ele estar usando sua caneca preferida.

    poucos conselhos são mais canalhas do que o clássico “seja você mesmo”. a maioria dos problemas do mundo veio de gente que estava simplesmente sendo si próprio.

    mais importante do que “ser você mesmo” é ser quem você quer ser. todas as forças do universo nos impelem a nos conformarmos, a aceitarmos as regras do mundo, a cedermos, nos moldarmos. ser a pessoa que você quer ser é uma das tarefas mais difíceis do mundo. é uma luta diária, surda, interna, contra seus próprios preconceitos, suas mesquinharias, seus egoísmos.

    se quero ser menos invejoso, menos ciumento, menos egoísta, então, basta ser.

    ser quem eu quero ser é o mínimo que devo a mim mesmo. se não sou nem isso, então não sou nada.

    23 Sep 00:40

    When asked to bugfix legacy perl code

    by sharhalakis

    image

    by leecheve

    23 Sep 00:06

    Mess

    'Sorry, I left out my glass of water from last night.' OH GOD I APPARENTLY LIVE IN A GARBAGE PIT.
    22 Sep 23:59

    Mentirinhas #504

    by Fábio Coala

    mentirinhas_495Não se faz mais crianças como antigamente… Na verdade o processo é o mesmo, mas… Quero dizer… Ah, você entendeu.

     

    O post Mentirinhas #504 apareceu primeiro em Mentirinhas.

    22 Sep 23:36

    amroyounes: Growing up, my most fond memories was visiting...

    Renato Cerqueira

    Acho lugares abandonados tão lindos. *-*





















    amroyounes:

    Growing up, my most fond memories was visiting abandoned places with my brother.  To this day, if opportunity presents itself, I bring my camera and take a few pictures.  These are not my work ofcourse, but I hope you enjoy the visual beauty and maybe it brings fond memories of your own adventures.

    Part II:

    1. Abandoned Construction of Nuclear Power Plant. Photo By brokenview
    2. Chatillon Car Graveyard in Belgium
    3. Jiancing Historic Trail in Taipingshan National Forest in Taiwan. Photo By T.-C
    4. Abandoned theme park in nara dreamland, japan. Photo by michaeljohngrist
    5. Clock tower
    6. Old shack in a snow field, Idaho. Photo By James Neeley
    7. Abandoned terminal at Nicosia Airport. Photo By eyesfutur
    8. Milan, New Orleans. Photo By JustUptown
    9. Abandoned church in autumn. Photo by *CainPascoe
    10. Abanonded steam engine in Uyuni train cemetery, Bolivia. Photo By jimmyharris