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02 Jun 12:02

Forte Príncipe da Beira

by Unknown

Várias foram as pessoas que, antes da minha ida como embaixador para o Brasil, em 2005, me falaram no Forte Príncipe da Beira, a maior edificação militar portuguesa construída fora da Europa. Todas essas pessoas, sem exceção, tinham “ouvido falar” do forte, mas nenhuma lá tinha ido. A fortaleza de São José de Macapá, de que há dias aqui falei, segue-se-lhe, em dimensão e importância estratégica.

Intimamente, prometi a mim mesmo que tudo faria para conseguir fazer aquela visita, durante a minha estada no Brasil.

O Forte Príncipe da Beira fica localizado no Estado brasileiro da Rondónia, numa zona remota, junto ao rio Guaporé, que faz fronteira com a Bolívia.

O forte teve várias utilizações, desde a sua inauguração, em 1783, até aos últimos anos do século XIX, quando era presídio militar, altura em que foi abandonado. Foi “descoberto” em 1913, mas a sua planeada recuperação não foi então avante. Só em 1930, o marechal Rondon, que daria o nome ao Estado em que a estrutura militar se situa, já com o forte uma vez mais tapado pela vegetação amazónica, conseguiu recuperá-lo. Em 1983, o presidente brasileiro João Figueiredo e o embaixador de Portugal, Adriano de Carvalho, visitaram o forte, lançando as bases para uma recuperação que a Fundação Calouste Gulbenkian viria, posteriormente, a ajudar a concretizar.

Hoje, a fortaleza, com os seus belos canhões com as armas portugueses, mantém-se preservada, na estrutura essencial, graças a uma pequena guarnição militar, que cuida da sua conservação. Se assim, não acontecesse, a mata amazónica “tomaria conta”, de novo, do forte.

Em 2008, a meu pedido, o nosso Adido de Defesa, coronel Jorge Santos, conseguiu montar uma “operação” de ida-e-volta ao forte, a partir da capital da Rondónia, Porto Velho, numa visita de trabalho que fiz a esse Estado e ao vizinho Acre. Junto ao forte, existe uma curta e improvisada pista, a que os aviões da Força Aérea brasileira conseguem aceder.

A viagem fez-se sobre uma imensa paisagem amazónica, tendo-nos acompanhado a figura magnífica do cineasta e historiador Beto Bertagna, um gaúcho que tem dedicado a sua vida à história da Rondónia. Foi um dia inesquecível, que guardo nas minhas memórias para sempre.

A entrada no forte, belíssimo e com uma construção muito curiosa, no conhecido modelo Vauban, foi para todos nós um momento emotivo. E sê-lo-ia mais quando deparei, na parede, com uma placa onde se lê um extrato de uma carta de junho de 1776, enviada por D. Luis de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, governador e 4º capitão-general da capitania de Mato Grosso.

O que está escrito nesse texto passou para mim a consubstanciar o verdadeiro conceito de Serviço Público:

"A soberania e o respeito de Portugal impõem que, neste lugar, se erga um Forte, e isso é obra e serviço dos homens de El-Rei nosso Senhor e, como tal, por mais duro, por mais difícil e por mais trabalhos que isso dê, é serviço de Portugal. E tem que se cumprir".

Em honra do embaixador de Portugal, a guarnição fez disparar na ocasião um velho canhão português. (Anos depois, o meu sucessor em Brasília, numa viagem idêntica, teve menos sorte do que eu, tendo então ocorrido um acidente durante a mesma cerimónia.)

Regressado a Brasília, consegui (sem encargos para o Estado, diga-se), reunir meios para enviar um jovem e talentoso fotógrafo brasileiro ao Forte Príncipe da Beira, tendo sido organizada, em dezembro desse ano, no Instituto Camões, em Brasília, uma belissima exposição com fotografias dessa visita. Foi, aliás, no ambiente dessa exposição que organizei a minha despedida oficial da capital brasileira.

Passaram entretanto alguns anos e, já em Portugal, fui uma noite dormir a um palacete, transformado em unidade hoteleira, em Penalva do Castelo (hoje incluído na rede dos Paradores espanhóis), a Casa da Ínsua. Qual não foi a minha surpresa quando descobri que o primeiro proprietário daquele belo solar fora D. Luis de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, o responsável pela edificação do Forte Príncipe da Beira, lá longe, na atual Rondónia brasileira.

O mundo é pequeno, mas o mundo português é grande.
28 May 11:01

A Besta Fera

by Xico Piolho

Meu pai perdeu os pais pra seca. Explico. Muito pequeno, recém-nascido, com poucos meses de vida teve um surto de catapora na região, que deixou muita gente enferma, inclusive ele. Era por volta de 1929-30 quando uma seca braba, e a rudeza de seu genitor criou um conflito com seu avô, resultando na ida da família pras terras férteis do sul. Com medo do filho morrer na viagem, resolveram deixá-lo com uma tia que não tinha filhos. E por essa razão só veio a conhecer a mãe 55 anos depois, mas isso é outra história. Em resumo sua mãe era sua tia e o criou debaixo de ordem no tempo e no espaço. Quando ela dizia “vá…” ele corria e depois voltava pra ouvir o restante da encomenda. Era uma luta! Se ia não sabia, se sabia esquecia, se esquecia apanhava… E vivia nessa luta de diálogo entre o cérebro e a criação. Tinha que inventar, sempre, qualquer coisa.

Em 1937 ainda se escutava o rugido das onças que perambulavam pelas abas da serra e botava muito menino maluvido pra casa. As notícias do sul trazidas pelas cartas anunciavam a chegada do automóvel nos grandes centros urbanos. Aqui por esses lados não se sabia o que ia além das fronteiras dos pequenos povoados. Quando alguém se referia a um lugar com mais de 100 km de distância ouvia alguém dizer “aquilo é o fim do mundo, já é quase na fronteira com o estrangeiro. Isso é fantasia de Caixeiro-viajante!”.

Com 8 anos já trabalhava na labuta diária da vida camponesa e frequentava uma escolinha pra desasnar, onde conheceu minha mãe e outros colegas de travessuras. Um deles, Chico de Marcimino, seu primo e parceiro, carne e unha de capilossada, foram certo dia, cumprir uma ordem da mãe e tia, à beira do rio buscar uma ração pros animais e ouviram um ronco estranho vindo do pé da serra. Olharam-se com ar de quem viu alma e ficaram nas pontas dos pés pra aguçar a escuta. De repente o barulho aumentou e meu pai gritou:

– Corra Chico, qui é a besta fera!!

O jumento desembestou no rumo da casa e eles tomaram outro rumo se acoitando numa moita de mufumbo na beira do rio. Passado um certo tempo resolveram sair pra procurar o jegue e terminar a tarefa, pois a paga não agradaria nenhum dos dois. Na volta lá vem de novo a fera! Desta feita foi carreirão no rumo da serra esperando serem salvos pela onça. Mas que ironia do destino! Bem, lá ficaram entocados numa loca com medo de serem devorados pela onça e estrategicamente assistirem ao combate entre as duas feras. Os pais aflitos saíram em grupo gritando de alto a baixo, porque o jumento chegou sem nada em casa e os meninos haviam sumido.

Nisso, já quase noite, ouviram um grito abafado vindo da toca do urubu, esconderijo de fuga quando faziam traquinagem, e os encontraram suados, com fome, os olhos esbugalhados e o coração quase saindo pela boca. O avô, que chirimbava os meninos, saiu na frente.

– O que foi que aconteceu com vocês?

O Chico querendo se safar, apontou na direção do companheiro, e adiantou os argumentos de uma futura intriga.

– Foi Zé Leão qui mi butou pá correr i si socar aqui dento!

– Ora Papai Veio! Acabamos di vê a besta-fera, em carne i osso, vindo im procura di nós. Era igualzim aquela da istora qui vovó contou. A diferença é qui tinha 4 roda di carroça di boi, um fucim cumprido quinem porco, mas nos buracos da venta era os oio e já tinha ingulido 4 omi.

– Meninos aquilo era um carro com o prefeito, o delegado e o padre!

– Eu num disse Chico, qui era tudo gente qui já morreu!!

 

 

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26 May 11:52

A sina dos diplomatas

by Unknown
Em democracia, um diplomata representa o Estado e executa as instruções que são emanadas dos governos que o voto popular escolheu para dirigir esse Estado.

Mas o diplomata não é um mero executante. À luz da sua experiência e da leitura que desta tenha extraído, ao longo dos anos que leva de serviço público, sobre aquilo que melhor defende o interesse nacional - que é algo que transcende os ciclos políticos -, deve ser criativo na sua tarefa de dar corpo à política externa do país, sugerindo caminhos, alvitrando formas de atuar. Mas, no derradeiro momento, deve obedecer às instruções definidas por aqueles a quem foi conferida a legitimidade democrática para decidir.

E se um diplomata estiver em desacordo com aquilo que o mandam fazer? Há duas hipóteses. Se acha que, ao executá-lo, isso fere a sua consciência ou valores limite, só lhe resta demitir-se e abandonar a carreira. Se se trata apenas de uma divergência de orientação, o diplomata tem obrigação de expor a sua leitura contraditória mas, se a decisão lhe for reiterada, deve cumpri-la, mesmo contra a sua vontade. E, ponto muito importante, a prova da lealdade de um servidor público está, não apenas no cumprimento das instruções recebidas, mas no estrito dever de não publicitar essa discordância.

Em quase quatro décadas de carreira, com 21 ministros dos Negócios Estrangeiros, algumas vezes houve em que, pontualmente, não estive de acordo com aquilo que me foi dito para fazer. Mas, em nenhuma dessas ocasiões, fiz algo contra a minha consciência.

Por que é que trago hoje esta questão? Porque acabo de ler uma carta dirigida pelo embaixador brasileiro em França ao jornal “Le Monde”, reclamando contra a cobertura crítica feita à situação da pandemia no Brasil.

A carta, compreensivelmente, defende a política de Bolsonaro. Quero crer que o argumentário deve ter chegado ao embaixador emanado da capital, dada a sensibilidade do tema. Mas devo dizer que me impressionou muito ver um profissional da diplomacia, embaixador num dos principais postos do mundo, oriundo de uma carreira que tem um património histórico de prestígio e qualidade, por sua iniciativa ou sob instruções, aceder a subscrever uma argumentação que, num determinado ponto, vai a este extremo: os governadores dos Estados brasileiros, quase esmagadoramente críticos da política de “portas abertas”, terão optado pela política de confinamento ou mesmo de “lockdown”, com o deliberado propósito de provocarem a destruição da economia do país, por forma a dificultar as condições para a reeleição do presidente em 2022. Como se fosse minimamente plausível que esses governadores, de vários partidos, se tivessem conluiado para arruinar a economia dos Estados que os elegeram! 

Assinar um pensamento tão mesquinho e absurdo como este não honra uma diplomacia como a brasileira. Tenho a certeza que muitos amigos que tenho na carreira diplomática do Brasil, patriotas e alguns até com iniciais simpatias por Bolsonaro, menos por ele e mais por rejeição da alternativa que se lhe opunha, devem ter ficado algo incomodados ao verem o bom nome do Itamaraty descer a este ponto.
24 May 13:00

No dia seguinte ao vídeo, fica a pergunta: o estrangeiro vai investir no Brasil?

by Carlos Wagner
Não precisa ser gênio na ciência econômica para saber que assim que passar a emergência sanitária imposta ao mundo pelo coronavírus os países vão apostar uma corrida atrás dos grandes investimentos. Claro o Brasil vai participar dessa corrida. Cabe a pergunta: se você fosse um investidor estrangeiro e tivesse assistindo ao vídeo da reunião do Read More...
23 May 11:42

Bolsonaro nada propôs sobre pandemia, mas presidente do BB previu na reunião: “O tal do pico já passou”. Um mês depois, número de casos multiplicou por sete

by Luiz Carlos Azenha
22 May 13:37

Brasil

by Unknown

21 May 14:18

Os brasileiros safados

by renato renato

Enquanto dez milhões de brasileiros ainda aguardam o processamento de seus pedidos para ter acesso à primeira parcela do auxílio emergencial de R$ 600, o governo identificou que filhos de famílias de classe média (maiores de 18 anos), estudantes universitários, mulheres de empresários e servidores públicos aposentados e seus dependentes receberam o benefício sem ter direito. O grupo se soma a militares que obtiveram indevidamente o benefício.

A irregularidade foi possibilitada pela falta de checagem mais rigorosa dos dados sobre a renda familiar, um dos critérios para ter acesso à ajuda federal. Segundo integrantes do governo, fraudadores omitiram a renda do domicílio no cadastro feito na Caixa Econômica Federal.

A informação não foi checada porque a Dataprev, responsável pelo cruzamento de dados e autorização do pagamento, não utilizou a base de dependentes dos contribuintes que declaram Imposto de Renda (IR) para saber, por exemplo, se o requerente é filho de um servidor público.

Foi analisado apenas o CPF da pessoa e se ela não tinha declarado renda superior a R$ 28,5 mil em 2018, um dos requisitos definidos na lei que criou o benefício.

Assim, o critério de renda familiar de até três salários mínimos (R$ 3.135) ficou prejudicado. Jovens sem renda ou cônjuges que não trabalham, por exemplo, acabaram beneficiados pela falta de cruzamento de dados.

Na semana passada, o Ministério da Defesa já havia identificado que o auxílio havia sido pago indevidamente a 73.242 militares das Forças Armadas. O Tribunal de Contas da União (TCU) determinou o bloqueio das contas dos beneficiários e o ressarcimento dos valores.

Esse será o mesmo tratamento aos novos fraudadores. A Corte quer ampliar a auditoria que já havia sido aberta para averiguar as irregularidades envolvendo os militares para investigar os demais casos suspeitos.

Especificamente sobre o caso dos militares, o TCU apura se houve a participação de comandantes no sentido de autorizar o cadastramento de recrutas no aplicativo da Caixa para receber o benefício.

Dos militares que receberam ilegalmente, 90% estão na folha de pagamento da Defesa. O valor repassado ilegalmente chegou a R$ 43,9 milhões.

O TCU aguarda ainda um posicionamento do Ministério da Cidadania sobre a identificação de servidores civis de União, estados e municípios que possam ter recebido o auxílio. Segundo um técnico do tribunal, em todos os casos de pagamento indevido, o dinheiro terá que ser devolvido.

O GLOBO

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21 May 13:44

30 dias de intervenção – O IFRN agoniza

by Aparecida Fernandes

O que dizer de uma instituição centenária, avaliada como a melhor do país e ocupando, no ranking mundial, o 11º lugar, segundo dados do PISA, chegar a 2020 totalmente sem norte, vilipendiada, desfigurada?

Não é exagero. Em plena pandemia de Coronavírus, a ação do melhor Instituto Federal do país está limitada, porque a maior preocupação dos seus entes é com a autonomia institucional, frontalmente desrespeitada pela intervenção do governo federal.

Dos primeiros atos do interventor, constam solicitação de carros e motoristas à disposição; nomeação irregular de servidores que estão suspensos por punição em Processo Administrativo Disciplinar; nomeação de uma equipe totalmente despreparada para as funções, tal qual o próprio interventor, já conhecido por colegas que com ele trabalharam como um diretor de administração acostumado a perder prazos e recursos para o campus onde atuava.

Na primeira semana da intervenção, sete dos servidores nomeados não chegaram à semana seguinte, pediram exoneração.

Dos servidores que já exerciam cargos de gestão, em tempos de normalidade institucional, nenhum quis servir à administração golpista. A Reitoria, assim, seguiu sem as principais áreas de gestão – Administração e Gestão de Pessoas – ocupadas. A dança das carreiras segue num ritmo frenético tal qual no governo federal. Em um mês, um dos interventores, José Ribeiro, este que participou do processo eleitoral e obteve 3% dos votos, tido como um dos articuladores do golpe contra o IFRN, já passa por duas pró-reitorias e tenta também acumular o cargo de “vice-reitor”, uma gambiarra criada na gestão anterior, mas inexistente no regimento do IF.

Na semana de 11 a 14 de maio, o MEC enviou um funcionário, Samuel Carvalho de Aragão, para ajudar a viabilizar a intervenção. Para além da troca de nomes nos cargos, nada foi adiante.

A cada ato – ou falta dele – a cada reunião, os interventores revelam seu despreparo e sua má intenção. Não conhecem minimamente os procedimentos institucionais, negligenciam as deliberações do Conselho Superior (antes, quisera cancelar a primeira reunião com sua presença), órgão colegiado que está acima do Reitor (este não pode tomar decisão sem que a submeta ao Consup) e, mais ainda, as reivindicações dos estudantes. O presidente da Rede de Grêmios do IFRN, por exemplo, ao procurar o Interventor para tratar da urgência dos prazos para os recursos da Assistência Estudantil, recebeu como resposta que “Reitor não recebe alunos”.

Chegamos a 20 de maio, um mês de intervenção no IFRN, com um reunião do Conselho de Dirigentes, que reúne os Diretores Gerais dos campi e a equipe da reitoria, em que o interventor tenta impedir a apresentação imprescindível do Comitê Covid-19 da Instituição, tenta pautar o retorno às aulas em plena pandemia, informa – contrariando suas próprias entrevistas em veículos locais – que não tem equipe com competência para dar andamento à burocracia de destinação das emendas parlamentares, uma delas, da Deputada Federal Natália Bonavides, direcionada à assistência estudantil.

Ingerências de toda sorte dão o tom do que acontece no país: a busca pelo aparelhamento da instituição em função do projeto de poder que advém da presidência da República. Fato estranho, por exemplo, foi um pedido do PRTB ao campus Parelhas para que fosse enviada a “relação de funcionários que prestam serviços e suas funções, bem como dos servidores efetivos”. E, o curioso, a solicitação para enviar as informações pelo e-mail do “Aliança pelo Brasil Parelhas”, partido que o presidente Bolsonaro quer criar. Quais interesses há por trás disso? Outra ingerência, a tentativa de destinar recursos das emendas parlamentares a outros fins que não os determinados a partir das necessidades dos campi; ou sugerir a um servidor que buscava a assinatura para um projeto de extensão por ele aprovado se não poderiam dividir os recursos para a Reitoria dar outros destinos.

Nada importa, nesse mar de turbulências, a não ser o exercício do poder institucional a serviço do “Chefe Supremo”, como um interventor gosta de chamar o presidente, quase como um mantra, quando se vê encurralado pelas opiniões divergentes. Como se, ao chamá-lo assim, evocasse as forças das profundezas para meter medo.

Neste 20 de maio, trinta dias completos da usurpação, a comunidade acadêmica se vê como mergulhada num atraso de 30 anos. A instituição, que foi se fortalecendo ao longo de 110 anos, e resistindo, com servidores e gestores comprometidos com a educação pública, a cada investida de governos liberais para destruí-la, cambaleia sem norte sob uma gestão ilegítima e incompetente.

A história registrará essa breve passagem em que um ministro, segundo o Ministério Público Federal, privilegiou “interesse de cunho pessoal em detrimento da escolha da comunidade acadêmica”, desrespeitando o princípio da impessoalidade, como o mais vil momento da existência do IFRN. Haverá os 97% que confirmarão as narrativas, os artigos, as matérias de jornais, as mais de 120 cartas de repúdio, as peças jurídicas estampando para cada geração o momento em que IFRN caiu nas mãos de um sem voto, às custas de 3% de uma escória capaz de dar-lhe sustentação.

Como diz a canção, “a história é um carro alegre, cheio de um povo contente, que atropela, indiferente, todo aquele que a negue”.

Fora Interventor do IFRN!

Posse do Reitor ELEITO já!

 

 

 

 

 

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18 May 13:55

Presidente do Sindicato dos Médicos do RN é desmoralizado por infectologista e entidade da categoria

by Rafael Duarte

O presidente do Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Norte Geraldo Ferreira Filho foi desmoralizado após assinar uma nota em nome de todos os médicos do Estado defendendo o uso da hidroxicloroquina no tratamento precoce de Covid-19. No mesmo comunicado do Sinmed, o anestesiologista afirma ser contrário ao lockdown e a favor do isolamento social apenas para o chamado grupo de risco, o inclui idosos e pacientes com alguma comorbidade.

Em entrevista ao portal AgoraRN em abril de 2019, Ferreira Filho admitiu candidatura à prefeitura de Natal em 2020:

– Medidas como lockdown só servem para encobrir a incapacidade gerencial da administração pública em abrir leitos ou UTIs que vinham sendo ostensivamente fechados e contribuiram para o estado atual que sugere o sistema como lotado”, diz um trecho da nota, política, assinada pelo presidente do Sinmed.

No dia seguinte ao comunicado divulgado pelo Sindicato, o médico infectologista Alexandre Motta gravou um vídeo rebatendo cada um dos argumentos usados por Ferreira Filho, que afirmou inclusive que o Estado falava em colapso mesmo tendo 280 pacientes internados e 7.200 leitos disponíveis.

Motta trabalha na linha de frente no combate a Covid-19, atua no hospital Giselda Trigueiro e usou a ciência para afirmar que não se deve tirar a esperança de nenhum paciente. No entanto, lembrou que não existe eficácia comprovada no uso desse medicamento nos tratamentos. Não há diferença na sobrevida de quem usa nem de quem não usa. O infectadologista chegou a chamar de “desumana” a proposta do presidente do Sindmed:

– Quem defende o tratamento defende para que as pessoas saírem do isolamento e retomar suas atividades normais. Quando elas fazem isso elas se contaminam e contaminam outras pessoas. Isso é desumano porque a contaminação significa mais gente precisando de UTI e, obviamente, mais pessoas morrendo”, disse.

Veja o vídeo completo abaixo:

 

Além do colega infectologista, Geraldo Ferreira Filho recebeu mais críticas da Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia no Rio Grande do Norte. Em nota, a entidade formada por profissionais do Estado repudiou as informações publicadas pelo Sindmed/RN e disse que o conteúdo daquele comunicado não representa o conjunto de médicos e médicas do Rio Grande do Norte.

Leia a nota na íntegra:

A Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia do RN no que se refere à Nota publicada pelo Sindicato dos Médicos do RN, Sinmed em 14 de maio de 2020, tem as seguintes considerações a fazer:

  1. O referido Sindicato extrapolou a sua função natural de órgão reivindicativo, invadindo área específica de uma Sociedade de Especialidade, no que se refere ao tratamento da Covid-19, a de Infectologia. O Sindicato de forma anômala propõe o protocolo terapêutico para uma doença grave sem possuir autoridade ou prerrogativa para tal;
  2. O Sinmed também extrapolou os limites legais da atividade sindical assumindo o papel reservado à autoridade sanitária, que está previsto em lei e é exclusivo do Poder Público, o que poderá (a) levar pessoas à automedicação com substância capaz de provocar efeitos colaterais graves e (b) produzir desrespeito ao Isolamento Social por falsa sensação de segurança numa terapêutica que não conta com protocolo oficial;
  3. O Sinmed faltou com a verdade em relação à questão da disponibilidade de leitos hospitalares, inclusive de Terapia Intensiva, que estão (a) sendo regulados de forma transparente e pública e (b) por haver Chamada Pública pela Secretaria de Estado da Saúde Pública aberta para a contratação de mais leitos para a Covid-19;
  4.  O Sinmed também faltou com a verdade ao relatar que o Estado recebeu milhões para a testagem, quando o Ministério da Saúde tem enviado Kits para teste rápido destinados apenas a populações específicas: profissionais de saúde, de      segurança publica, idosos e seus contactantes e não à testagem em massa, como alegou
  5. A proposição de protocolo terapêutico por entidade não habilitada para tanto além dos demais fatos citados, é flagrante desrespeito aos profissionais médicos já mortos, no RN e no Brasil e à comunidade em geral para com quem a responsabilidade profissional do médico não é opcional, mas obrigatória;
  6. Lamenta a citação de que “a administração pública usa o pânico”, reverberando os ataques de alguns setores da imprensa local, sobre as previsões iniciais de estudos de simulação do comportamento da curva epidêmica, e do número de óbitos, caso não ocorresse a adesão desejada ao isolamento social. Na realidade, a Sesap/RN seguindo as recomendações da Organização Mundial de Saúde, do Ministério da Saúde e de várias instituições científicas nacionais (Fiocruz) e internacionais (London College e John Hopkins), manteve informada a sua população sobre a pandemia, através de uma comunicação de risco e da necessidade de seu envolvimento nesse enfrentamento;
  7. Por fim, constata que o presidente do Sinmed, candidato na última eleição, parece pretender com a nota, que extrapola as funções sindicais e põe em risco a sociedade, ganhar notoriedade político-eleitoral em momento de grave epidemia, quando defende medidas sem evidências e nega ações recomendadas pela OMS. Com essa Nota, estranha às finalidades da instituição que dirige, auferiu uma visibilidade pessoal sem conexão sindical, que pode se justificar por possível finalidade eleitoral;

Nestes termos, a ABMMD-RN repudia com veemência a referida Nota do Sinmed, assinalando à comunidade norte-rio-grandense que seu conteúdo não representa o conjunto dos médicos do nosso Estado.

Associação Brasileira de Médicos e Médicas pela Democracia-RN

Natal 17/05/2020

 

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16 May 13:46

“Covarde”, “cretino”, “nojento”, “imbecil”, “analfabeto” e “primata”

by renato renato
Cuidado Bolsonaro, Artur Virgílio é lutador de Vale Tudo

Arthur Virgílio Neto chamou Jair Bolsonaro de “assassino indireto”, por “incitar as pessoas a saírem às ruas, violando o isolamento social”.

Ele o chamou também, segundo Josias de Souza, de “covarde”, “cretino”, “nojento”, “imbecil”, “analfabeto” e “primata”.

Foi uma resposta à frase que Jair Bolsonaro teria dito no encontro ministerial de 22 de abril:

“Aquele vagabundo do prefeito de Manaus está abrindo cova coletiva para enterrar gente e aumentar o índice da Covid.”

A gravação da reunião é peça central no inquérito no Supremo Tribunal Federal que investiga interferência do presidente na Polícia Federal. Em parte dela, o presidente falou sobre a pandemia de coronavírus.

Arthur Virgílio Neto concluiu:

“Ele tem olho de peixe morto, uma cara assustada, típica de pessoa que não sabe ficar quieta. Não sei que outras moléstias esse sujeito tem além da mental. Mas há algo no seu coração perverso, capaz de tocar em feridas que estão sepultadas.”

O prefeito respondeu à Veja que Bolsonaro não pode fazer ssa referência ao seu pai. “Não pode porque ele não se aproxima na coragem, nem na honradez do meu pai. Meu pai não se metia em rachadinha. É um exemplo. Se ele seguisse o exemplo do meu pai o país não estaria como está agora”, afirmou, emocionado.

“O ídolo dele é o torturador [Carlos Alberto] Brilhante Ustra, de quem eu tenho nojo e asco. Bolsonaro que fique com o Ustra, enquanto eu fico com o meu pai, com Ulysses Guimarães, com tantas pessoas imoladas e que lutaram contra o regime militar. Se Bolsonaro estivesse no Exército e dessem a ele essa oportunidade, ele torturaria. Ele busca memórias que torturam. Ele é um torturador”, disse à Veja, chorando.

Manaus, capital do Amazonas, é a cidade mais atingida pela pandemia de coronavírus, com colapso no sistema de saúde e cerca de 120 enterros por dia.

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16 May 13:28

Alguém está a preparar a escola pública do tempo da Covid19

by Paulo Pedroso
De certeza que alguém está já a preparar o próximo ano lectivo e o Primeiro-Ministro trouxe hoje duas mensagens-chave sobre ele: será em convivência com a Covid19 e obrigará as escolas a uma adaptação de grande dimensão. 
A escola pública não pode transferir-se para casa sob pena de passar de mitigadora a produtora de desigualdades. Não é apenas, embora também seja, a exclusão digital de alguns alunos e famílias ou os problemas tecnológicos com internet, computadores, tablets e telemóveis, gerando uma nova deisgualdade de acesso à educação. Nesse campo, aliás, muitas autarquias estão a fazer um esforço notável. É também a compressão da relação pedagógica que retira na educação a distância muita interação com os alunos, tende a reduzir-se para já à transmissão unilateral de conhecimentos, aumenta a dependência dos pais para os apoios educativos e por isso amplia as desigualdades de oportunidades de sucesso entre crianças e jovens de famílias de diferentes meios sociais. A escola em casa devolve às famílias uma centralidade educativa que aprofunda desigualdades, como bem salientou o Rui Pena Pires .
Sabendo que se espera que tenhamos que conviver com a Covid19 mais dois anos, não podemos continuar em clima de improviso e dependentes da capacidade  de adaptação individual de cada professor e de cada família. Como as escolas não vão aparecer do chão como cogumelos e parece claro que terá que haver menos alunos por sala, redução da frequência de espaços coletivos como as cantinas, horários adaptador a que não haja congestionamento de transportes públicos, assim como haverá professores de grupos de risco que não poderão dar aulas presenciais, não é difícil imaginar que a solução que permita não condenar esta geração à falta de acesso à escola de que necessita vai exigir muito trabalho.
Acresce que temos que nos preparar para períodos de novos confinamentos, com a chegada de novas ondas da pandemia. Há mesmo modelos que antecipam um cenário em que a onda do próximo inverno será mais ampla do que a que já vivemos.
Quem está a preparar os próximos dois anos lectivos está seguramente a pensar nisso. Mas não consigo imaginar que tenhamos sucesso sem novos programas de formação contínua de professores para o desenvolvimento de materiais pedagógicos, para o uso das plataformas e adaptação pedagógica a formação a distância e para a interação pedagógica em formas de ensino blended como as que muito provavelmente nos esperam. Como não consigo acreditar que as escolas possam receber a mesma quantidade de alunos com a mesma carga horária que têm nos curricula atuais. Nem acho, pelo que vejo e ouço, que o improviso atual possa continuar ou esteja a permitir globalmente atingir padrões de qualidade e democraticidade que garantam o cumprimento da missão da escola pública. Teria preferido que se assumisse este trimestre de um modo diferente (ver http://paulopedroso.blogspot.com/2020/05/para-que-uma-emergencia-de-saude-nao-se.html), mas essa questão está ultrapassada.
Não invejo o trabalho de quem está a pensar a escola pública nos próximos dois anos e não transformo a minha ignorância do que esteja a ser feito numa crítica a uma inércia que provavelmente não existe. Posso achar que já se devia saber mais sobre o próximo ano lectivo, contudo, porque a participação é um fator de sucesso em política educativa e para que nos possamos preparar. E continuo convencido que as medidas de planeamento das alterações necessárias não podem circunscrever-se à adaptação de espaços e de reforço das capacidades tecnológicas. Ou seja, espero que os recursos pedagógicos necessários estejam a ser preparados e imagino que as ações de formação necessárias estão na forja.
Ao contrário do que possa parecer, não é cedo para saber que escola pública vai esperar os alunos em setembro e parece-me que todos compreenderão que é uma questão pelo menos de tanta relevância como a da medição das distâncias nos restaurantes. Assim como acredito que compreenderão que não é compatível com declarações de intenções tão do outro mundo como a de definir regras que pressupõem que crianças em creche podem estar lá um dia inteiro sem partilhar brinquedos ou se tocar. É preciso tanta imaginação quanto realismo e nem os peritos da saúde não podem ser prescritorss de medidas inexequíveis nem os da educação podem ignorar que a Covid19 estará connosco por tempo suficiente para se poder tratar o desafio com meros ajustes nas infra-estruturas, distribuição de computadores e fitas adesivas nos pavimentos e nas mesas.
11 May 11:00

Bolsonaros são gastadores de cartões de créditos pago pelo povo

by renato renato

Os gastos com cartão corporativo da Presidência no governo de Jair Bolsonaro dobraram no período que corresponde aos quatro primeiros meses de 2020 em comparação com o mesmo período nos primeiros meses de mandato.

Procurada pela Folha, a Secom afirmou que as despesas são decorrentes, entre outros gastos, do “atendimento da manutenção” e de “eventos na residência presidencial”.

A secretaria disse ainda que o número de familiares de Bolsonaro é maior do que o de seus antecessores, o que “acarreta no incremento de despesas para as atividades, sobretudo as de segurança institucional”.

Com informações de O Antagonista

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09 May 19:32

Imperial College de Londres estima 20 mil infectados por covid-19 no RN

by Bruno Barreto
RN estaria com 20 mil infectados, diz estudo (Foto: reprodução/Internet)

Agora RN

Cerca 20 mil potiguares já devem ter se infectado com o novo coronavírus, aponta uma estimativa divulgada nesta sexta-feira (8) pelo Imperial College de Londres, uma das principais instituições de pesquisa da Inglaterra.
A estimativa do instituto de pesquisa, que abrange os 16 Estados brasileiros com o maior registro de casos da doença até o momento, é de que 4,2 milhões de pessoas estejam contaminadas em todo o Brasil.

Ainda de acordo com o estudo, o Rio Grande do Norte tem 0,56% da população contaminada. A margem de confiabilidade da pesquisa é de 95%. Desta forma, o número de potiguares infectados pode estar entre 14,7 mil e 23,7 mil.

A porcentagem de infectados é a sexta menor do país, ficando atrás do Rio Grande do Sul (0,42%), Bahia (0,4%), Paraná (0,25%), Santa Catarina (0,23%) e Minas Gerais (0,13%).

O Estado do Amazonas está no topo da tabela do Imperial College. A estimativa é de que 10,6% da população amazonense já teve contato com o vírus, o que representa 448 mil pessoas.

A pesquisa do instituto inglês mostra preocupação com a taxa de reprodução do contágio. Os dados apontam que a pandemia continua em aumento exponencial em todos os 16 Estados brasileiros analisados. Segundo os autores, o número de reprodução do Rio Grande do Norte é de 1,18. O número mais alto é observado no Pará, de 1,90.

O Imperial College alerta que a taxa está acima de 1 em todos esses Estados, o que indica que a epidemia ainda não está controlada. O número de reprodução – a medida da intensidade da transmissão – significa que um indivíduo infectado pode infectar três ou quatro outros em média, aponta o estudo.

O Rio Grande do Norte tem 1.821 casos confirmados de Covid-19 e 6.188 suspeitos até esta sexta-feira (8). São 662 pacientes recuperados no estado, segundo a Secretária da Saúde Pública do Rio Grande do Norte (SESAP). A doença causou a morte de 82 pessoas no Estado.

O Imperial College aponta, ainda, mesmo com o atual número de casos confirmados e de mortes, que o Brasil ainda está passa por uma fase incipiente da epidemia. Com isso, afirmam os pesquisadores, que os gestores têm de adotar ações para o controle da infecção. “Embora a epidemia brasileira ainda seja relativamente incipiente em escala nacional, nossos resultados sugerem que ações adicionais são necessárias para limitar a propagação e impedir a sobrecarga do sistema de saúde”, escrevem os autores.

O Imperial College é um dos institutos de pesquisa mais conceituados do mundo em modelagem matemática. A instituição, ainda em março, convenceu o primeiro ministro do Reino Unido, Boris Johnson, de que o isolamento social era a única medida possível para evitar um número catastrófico de mortes no país.

09 May 18:56

Juíza nega pedido de volta às aulas no RN e dá lição em procurador com base na ciência

by Kamila Tuenia

A juíza da 1ª Vara da Fazenda Pública de Natal Patrícia Gondim, em decisão liminar, indeferiu pedido apresentado em Ação Popular pedindo o retorno das aulas na rede pública e privada do Rio Grande do Norte, suspensas por decreto até 31 de maio de 2020.

A ação é de autoria do procurador Kleber Martins de Araújo, que pediu que as atividades fossem retomadas a partir do dia 5 de maio. O Ministério Público Federal, no entanto, divulgou duas notas públicas afirmando que a ação é uma iniciativa de um único procurador, e não condiz com o que defende a instituição MPF, que prega respeito aos decretos estaduais.

Neste momento de análise processual, a magistrada não entendeu que a determinação do Poder Executivo seja lesiva ao patrimônio público e desprovido de motivos que a justifiquem. A decisão, de 7 de maio, rejeita a suspensão imediata da vigência do artigo 2° do decreto Estadual n° 29.634 de 22 de abril de 2020 e indeferiu a tutela de urgência solicitada.

A ação sustentou que a suspensão das atividades escolares presenciais até 31 de maio de 2020 afronta ao Princípio Constitucional da Legalidade nos aspectos da razoabilidade (adequação) e da proporcionalidade (custo x benefício).

A juíza mencionou em sua decisão estudos científicos acerca da pandemia da covid-19 e disse que “os estudos realizados por autoridades no assunto em todo mundo levam a crer que o distanciamento social é a estratégia mais eficiente para retardar a velocidade do Contágio e evitar o colapso do sistema de saúde”.

Um dos argumentos de Kleber Martins foi a alegação de que crianças e adolescentes, por não fazerem parte do grupo de risco do coronavírus, poderiam circular sem maiores riscos de contágio. Para Patrícia Gondim, as crianças podem sim ser infectadas, mesmo que sejam assistomáticas e ampliar o perigo de contágio entre familiares.

Pesquisa

Um estudo realizado na UFRN aponta que, caso as aulas fossem liberadas conforme o pedido do procurador, cerca de 1.100 novos casos – além do previsto para projeções onde o estado segue em restrições de isolamento – seriam confirmados, podendo chegar ao número de 4.200 casos da covid-19 no RN até 5 de junho. Entenda o estudo aqui.

Quanto à alegação do autor da ação, Kleber Martins de Araújo, de que não haveria motivo para prorrogação da suspensão das atividades escolares presenciais sob o fundamento de que as crianças e os adolescentes não integrariam o grupo de risco da Covid-19, é um argumento que não se sustenta, observa a titular da 1ª Vara da Fazenda Pública da capital.

“Os estudos realizados por autoridades no assunto em todo mundo levam a crer que o distanciamento social é a estratégia mais eficiente para retardar a velocidade do Contágio e evitar o colapso do sistema de saúde”, afirma.

Os dados divulgados pelos boletins epidemiológicos da secretaria de Estado de Saúde Pública (Sesap) contradizem os argumentos do procurador. Há casos registrados de contaminação entre crianças e jovens de 0 a 19 anos, além de óbitos registrados em crianças de até 4 anos de idade no Estado.

Em relação ao pedido do procurador, a magistrada esclarece que o perigo maior seria o nivelamento por baixo permitindo que todos os segmentos voltassem às suas atividades normais.

“Não se está aqui menosprezando a necessidade do trabalhador de retomar suas atividades para prover o sustento de sua família. Não há dúvida de que o isolamento social tem afetado negativamente todos os setores da economia, mas deve ser encarado como um mal menor para se evitar um mal maior, que seria o colapso do sistema de saúde ocasionando a perda de incontáveis vidas humanas que não teriam acesso ao tratamento adequado devido a superlotação dos hospitais, UTI e pronto-socorros”, ressaltou a juíza em sua análise.

 

 

 

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05 May 13:15

“Bolsonaro odeia o Exército”: o depoimento de um alto oficial que o conheceu conheceu 30 anos atrás. Por Joaquim de Carvalho

by Joaquim de Carvalho
Bolsonaro

A nota divulgada hoje pelo ministro da Defesa recoloca a relação entre as Forças Armadas e Jair Bolsonaro nos devidos termos —  ou nos termos históricos, considerando que Jair Bolsonaro nunca demonstrou apreço pela Exército, Marinha e Aeronáutica enquanto instituições de Estado, como se verá adiante.

Diz a nota assinada pelo ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva:

Marinha, Exército e Força Aérea são organismos de Estado, que consideram a independência e a harmonia entre os Poderes imprescindíveis para a governabilidade do País.

A liberdade de expressão é requisito fundamental de um País democrático. No entanto, qualquer agressão a profissionais de imprensa é inaceitável.

O Brasil precisa avançar. Enfrentamos uma Pandemia de consequências sanitárias e sociais ainda imprevisíveis, que requer esforço e entendimento de todos.

As Forças Armadas estarão sempre ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade. Este é o nosso compromisso.

Foi a resposta da cúpula dos três poderes ao comentário leviano que Bolsonaro fez sobre a posição do Exército, Marinha e Aeronáutica.

“Nós temos o povo ao nosso lado, temos as Forças Armadas ao lado do povo, pela lei, pela ordem, pela liberdade”, afirmou em live neste domingo, durante o ato contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal.

Um alto oficial da reserva de uma das três forças conheceu Bolsonaro em 1990, quando ele era vereador no Rio de Janeiro.

“Jair Bolsonaro odeia o Exército. Posso te garantir que na época que foi afastado e enquanto foi vereador, ele sequer poderia passar na porta de uma organização militar. Sua fama era de arruaceiro, alguém que ousou subverter os pilares do militarismo: disciplina e hierarquia”, disse, em depoimento por escrito que me foi enviado por e-mail.

Naturalmente, o nome desse oficial será mantido em sigilo, mas é necessário dar publicidade a seu depoimento, pois mostra como Bolsonaro emergiu mesmo sendo considerado um “mau militar” —  como disse o general Ernesto Geisel em seu depoimento ao CPDOC/FGV — Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil.

O autor da declaração entrou na Aeronáutica em 1982, para desempenhar atividade na área multiprofissional.

Como determinava a lei, após oito anos, ele deveria passar ao serviço ativo, com estabilidade. Mas, no final do período contratado, houve uma tentativa de mudar a regra do jogo. Segue trecho da carta enviada por ele:

O oitavo ano ocorreu em 1990, no governo Collor. Com a reforma administrativa proposta pelo Collor, lembraram do meu Quadro, e o então Ministro Sócrates Monteiro ofertou 72 cabeças para serem demitidas da Aeronáutica, sem direito algum e sem qualquer motivo. Isto é, poderiam utilizar o sistema de avaliação militar, mas não utilizaram qualquer critério. Lógico que não foram escolhidas as que entraram a mais na época do concurso. Escolheram aquelas que não tinham padrinho, dentre as quais, eu.

Nesta época, eu e outros fomos colocados na rua, literalmente, de um dia para o outro. Dormi militar e acordei civil.

Em decorrência, nosso grupo se reunia com frequência, a fim de escolher um advogado que assumisse o nosso caso, e qual a melhor ação a ser proposta em face da Aeronáutica.

Numa dessas reuniões, ainda em agosto de 1990, no apartamento de um colega, no Rio de Janeiro, fomos surpreendidos pelo porteiro, que no interfone dizia que Jair Bolsonaro estava na portaria para falar com um de nós.  Ele mesmo: Jair Bolsonaro, vereador, estava ali na porta, para oferecer ajuda. 

Ao sermos informados da presença não solicitada, fomos, de pronto, desencorajados pelo “dono da casa”, que nos orientou a dispensar a ajuda de pronto, pois se tratava de um sujeito de péssima fama, que só nos prejudicaria, caso nossa situação estivesse ligada ao nome dele.

Assim, eu e um colega descemos à portaria. Ele estava acompanhado de um advogado que se propunha a ajuizar a ação judicial para que anulasse o ato administrativo que nos colocou fora da FAB. Nós, para nos vermos livre deles dois, dissemos que íamos pensar na proposta ofertada. Posteriormente, eu fui designado pelo grupo para, em nome de todos, agradecer e declinar a ajuda proposta.

Assim, uns dias depois, fui à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, para falar com ele. 

Para você ter uma idéia, o que me chamou a atenção foi o paraquedas preso no teto do gabinete dele. A conversa foi breve, mas me lembro que foi raivosa. Jair Bolsonaro odiava o Exército. Todo tempo foi de ressentimento, chegando a dizer que no Exército só tinham covardes.

Acabamos, por fim,  a retornar à FAB, por conta de um mandado de segurança ajuizado no STJ. Portanto, retornei e cheguei ao posto de tenente-coronel, último posto do meu quadro.

Digo tudo isto para que você acredite em alguém que esteve dentro do sistema. Jair Bolsonaro odeia o Exército. Posso te garantir que, na época em que foi afastado e enquanto foi vereador, ele sequer poderia passar na porta de uma organização militar.

Sua fama era de arruaceiro, alguém que ousou subverter os pilares do militarismo: disciplina e hierarquia. 

Basta ver que nenhum dos filhos tentou ingressar numa das academias militares. Por quê? O sobrenome queimado. 

Jair Bolsonaro só conseguiu entrar nas organizações militares após ser eleito deputado federal. Foi devagarinho, se colocando como defensor dos direitos salariais dos militares. 

Para acalmar os comandantes, vez por outra, ofertava alguma coisa para a organização militar, segundo ele, com verba de emendas parlamentares. Na minha organização militar, por exemplo, montou uma sala com equipamentos de ginástica e musculação para pacientes cardíacos.

Assim, em toda festa e passagem de comando, ele aparecia.

Nessas aparições, gostava de se mostrar para os menos graduados. Chegou a pedir  por meio do comando o e-mail de todo efetivo. Tive que bloqueá-lo porque enchia minha caixa de correio com lixo eletrônico.

Não sei se ele pretendia chegar aonde chegou, mas sei que ele se mantinha visível perante à tropa. Também sei que era tolerado porque oferecia alguma benesse, mas sei que, no oficialato superior, era tolerado e tido como um louco que dava alguma vantagem. Sei também que certo era o ódio que nutria por ter sido afastado.

 A história dele no processo que tramitou no STM é notória e é, inclusive, escrita num livro.

.x.x.

Bolsonaro só não foi expulso do Exército por decisão do Superior Tribunal Militar, apesar do voto contundente de um dos ministros, José Luiz Clerot, que analisou o processo e disse que Bolsonaro não poderia continuar no oficialato.

Uma frase de Clerot define bem o que o Brasil vive hoje, com Bolsonaro na Presidência da República:

“Um exame mais aprofundado leva este capitão às profundezas do inferno de Dante.”

05 May 11:24

Solidariedade Literária: Cooperativa Cultural da UFRN lança delivery de livros para escapar da crise

by Kamila Tuênia

A Cooperativa Cultural, localizada no Centro de Convivência da UFRN, em Natal, está disponibilizando o serviço de delivery com obras selecionadas semanalmente.

Cumprindo as recomendações do isolamento social como prevenção a um possível contágio em massa diante do momento de pandemia do Covid-19, a cooperativa encerrou suas atividades presenciais em 23 de março, dando férias coletivas aos funcionários. Logo o fluxo de caixa esgotou-se e a empresa anunciou em suas redes sociais que só teria condições de pagar os salários por um mês.

Para não fechar as portas em meio à pandemia, a Cooperativa iniciou ações de arrecadação e compra remota, pedindo o apoio da comunidade de professores, alunos e servidores da UFRN, além do público externo à universidade.

Para esta semana, 12 obras estão disponíveis para entrega, entre elas Mulheres, Raça e Classe, de Ângela Davis, e O Oráculo da Noite, de Sidarta Ribeiro. Confira os demais livros disponíveis para entrega aqui

Os catálogos semanais são disponibilizados nas redes sociais da Cooperativa Cultural.

Os pedidos são expedidos uma vez por semana e podem ser feitos através do Whatsapp 84 99864-1991.

Além da venda de livros, a cooperativa disponibilizou a compra de vouchers de R$ 100 e R$ 200 reais, que poderão ser trocados por qualquer produto da livraria assim que seu funcionamento volte ao normal. Outras doações também podem ser feitas via transferência bancária.

Dados para doações     

CNPJ Cooperativa Cultural Universitária: 08.391.591/0001-87

Banco do Brasil 001

Agência: 2870-3

Conta: 4055-x

Sicoob Banco 75

Agência: 5177

Conta: 53-1

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04 May 11:50

Supermercado virou o shopping de parte da população (ou, o consumo como “fuga” do isolamento)

by Cefas Carvalho

Segue aqui neste meu espaço das segundas-feiras mais uma crônica tendo como base o que observo e o que leio e ouço de amigos e amigas, sem qualquer base científica. Deixo os números exatos, dados precisos e tabulações aos especialistas, aqui sou um mero observador do mundo à minha volta.

E a observação de hoje tem a ver com supermercados. Ou melhor, com as pessoas nos supermercados. Para ser ainda mais exato, com a postura dessas pessoas. Vamos por partes.

Quando teve início o isolamento social, garantido por decretos estaduais e com aval da OMS e do senso comum,  quase todo mundo – eu, inclusive – correu para os supermercados para garantir, em menor ou maior escala, estoque de ítens essenciais para algumas semanas de confinamento em casa. Em todo o mundo, reportagens abordaram a compra maciça de papel higiênico, que esgotou em quase todos os estabelecimentos. Enfim, era o início do isolamento e ninguém tinha muita noção do que viria em breve.

Observando agora em Natal e região, passados quarenta dias do isolamento, descobrimos quase todos que os estabelecimentos de vendas, sejam os grandes supermercados, sejam os mercadinhos de bairro, não entraram em desabastecimento. Some-se a isso o fato de quem ninguém mais aguenta ficar em casa o dia inteiro e mais o fato de que natal não empilhar corpos (pelo menos não ainda) deu coragem para muita gente sair – com ou sem máscara – e se aventurar um pouco mais nos poucos lugares que estão abertos (shoppings, restaurantes e bares não estão, como se sabe). Esse somatório nos leva ao raciocínio seguinte:

Sem ter onde passear e consumir (shopping centers permitem as duas coisas), parte considerável dos natalenses elegeu os supermercados como válvula de escape. Precisa comprar mantimentos? Sim, o certo é ir ao supermercado. Vontade de andar e passear? Hummm… que tal ir ao supermercado e comprar aquilo que faltou da compra anterior? Bate papo? Experimente as filas dos caixas do supermercado e a seção de frutas e verduras. Lotérica para pagar contas que poderia ser pagas on line? Tem no supermercado.

Enfim, o supermercado substituiu o shopping center e de quebra virou terapia individual e coletiva.

E isso explica porque eles estão sempre lotados, a julgar pelo que amigos e amigas dizem e mostram em grupos de Zap e postagens em redes sociais.

Nas últimas duas vezes que fui a supermercado – Supercoop e Favorito, ambos na Avenida Ayrton Senna – em duas semanas, testemunhei exatamente isso: lotação, pessoas querendo bater papo em fila e nas seções, pouco respeito a distanciamento e gente andando pelos corredores no estabelecimento que mais parecia estar espairecendo do que propriamente escolhendo produtos, como se não houvesse amanhã (e, neste  diapasão, talvez não haja!).

Não pretendo ser a cassandra ou o crítico azedo de tudo, eu mesmo quando saio – coisa rara – aproveito ao máximo cada minuto, a sensação inevitável, é de querer ficar um pouco mais.

Porém, essa construção coletiva de que podemos todos substituir shoppings e passeios de consumo por supermercados, poderá se tornar apenas uma política de “cobrir um santo para descobrir outro”.

Percebo os donos dos estabelecimentos preocupados em seguir as diretrizes do decreto do Governo do RN e as normas de bom senso da OMS; Caixas estão protegidas por vidros, álcool em gel à disposição dos clientes, cartazes indicados as normas básicas de segurança.

O problema está mesmo é na população, nas pessoas que vão lá (muitas com a intenção aqui listada, mais de “desopilar” do que de fazer compras). E, eu iria ainda além, de forma totalmente empírica e pessoal: o problema está muito concentrado naquele velho e ultra-citado perfil, o do homem-branco-hétero-cinquentão-classe média, que se acha imune a tudo e quer opinar sobre tudo em qualquer lugar e em qualquer hora. Esse foi meu tema aqui na coluna na segunda-feira passada. Esse perfil, que é quem mais anda sem máscara ainda, na minha percepção, é quem dificulta ainda mais a situação em uma fase delicada para todo mundo.

Estamos todos entre o medo e o tédio, a desesperança e a necessidade de achar soluções para o problema. Mas, não é se arriscando e arriscando o coletivo que sairemos dessa.

 

 

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03 May 11:58

Glênio Sá, 70 anos: o legado de coragem do único potiguar a lutar na Guerrilha do Araguaia

by Rafael Duarte

Sempre que o ritual no Dia de Finados terminava, Maria de Fátima Beserra de Sá parava na porta do cemitério para entreter os filhos enquanto a avó das crianças voltava até a sepultura para recolher algo que havia esquecido. Uma cena aparentemente comum que, aos poucos, passou a chamar a atenção. Os pequenos Gilson e Jana só começaram a achar estranho quando perceberam que o esquecimento virou hábito. Os irmãos não entendiam porque toda vez que iam ao cemitério a avó ou a mãe voltavam para pegar algo que haviam deixado para trás.

Questionadas pelos meninos sobre o que iam buscar, Neusa e Fátima desconversavam. Somente muitos anos depois, já adolescentes, Gilson e Jana descobriram que as cartinhas que escreviam à mão para o pai e deixavam sobre o túmulo, na esperança que ele lesse e enviasse resposta, estavam todas guardadas como documentos de um período difícil marcado pela força, dedicação e a coragem que o pai, o marido, o filho, o irmão, o líder comunista e o guerrilheiro Glênio Sá deixou como herança.

Na quinta-feira, 30 de abril, Glênio Fernandes de Sá completaria 70 anos de idade não fosse uma tragédia. Em 26 de julho de 1990, o fusca onde ele estava com mais três pessoas bateu de frente com um Opala, de placa fria adulterada. O motorista do Opala fugiu sem prestar socorro e nunca foi encontrado. O relógio marcava 15h40. Os passageiros retornavam para Natal depois de uma atividade de campanha no interior do Rio Grande do Norte. Morreram Glênio Sá e Alírio Guerra, dois dos principais dirigentes do PCdoB no Rio Grande do Norte que, naquele ano, disputariam uma vaga no Senado e na Câmara dos Deputados, respectivamente. Entre os sobreviventes, o dirigente municipal do PCdoB em Santa Cruz Valdo Teodósio e Antenor Roberto, atual vice-governador do Estado potiguar. O velório e o sepultamento marcaram um dos dias mais tristes da cidade. Os jornais registraram que mais de cinco mil pessoas foram se despedir dos comunistas.

“Se tiver papel e lápis escreva para mim, Gilsinho e mainha. Amarre numa estrelinha e jogue para mim”

A notícia da tragédia correu o Brasil. Glênio Sá era um dos nove sobreviventes da Guerrilha do Araguaia e único potiguar a participar da principal experiência de luta armada no país durante a ditadura militar que reuniu quase 70 pessoas. Natural de Caraúbas (RN) e caçula numa família de sete irmãos, sendo cinco homens e duas mulheres, morreu aos 40 anos de idade e ainda hoje é lembrado com carinho, emoção e reverência. Formado em Geologia na UFRN, passou os últimos anos de vida dedicado de corpo e alma à reconstrução do PCdoB no Rio Grande do Norte.

Coragem, força e dedicação são três palavras recorrentes que aparecem nos depoimentos de todas as pessoas com quem a agência Saiba Mais conversou durante o processo de produção desta reportagem. Predicados cultivados durante uma trajetória marcada pela luta em defesa da democracia e das causas sociais num país que briga contra sua verdadeira história e não está no retrato oficial.

Em ato pró-Lula em 1989, em Caicó (foto: acervo de família)

Glênio foi guerrilheiro, comunista, militante, preso, torturado e brigou pela própria liberdade. Resistiu, insistiu, amou, foi amado e segue vivo na memória das pessoas que passaram de alguma forma pela vida dele. Hoje, 30 anos depois da tragédia, o nome dele está gravado nas placas do Centro Cultural de Caraúbas, de ruas em Natal, Mossoró e Campinas (SP), além de batizar o auditório do PCdoB em Natal e um assentamento no município onde nasceu. No entanto, mais do que registros na parede ou vias públicas, as marcas de Glênio Sá ficaram na memória e também no coração de quem o conheceu:

– As pessoas têm uma visão equivocada do que era ser comunista, ele foge muito a esse estereótipo. Era afável, solidário, paciente, amigo, capaz de resolver qualquer divergência. Se perguntar para qualquer pessoa era isso. Então todos os anos é bem difícil para mim. Data de aniversário a gente comemorava em casa, com a família”, diz a viúva Fátima Sá, que vê nos filhos a semente germinada:

– A saudade é grande, muito grande. Cada um (dos filhos) encarou de um jeito. Vejo Glênio nos gestos de Gilson e Jana, constantemente”, conta.

Ficaram a companheira de vida Fátima, o primogênito Gilson e a caçula Jana. O destino não lhe deu mais tempo para conhecer Beatriz, a neta mais velha, e Manuela, a mais nova herdeira da família. Alguns rituais passaram dos filhos para os netos. O hino A Internacional que embalou os sonhos de Gilson e Jana, já fez Bia dormir e hoje soa como caixinha de música aos ouvidos da pequena Manu, de apenas um ano.

Sem a presença física da principal referência, mãe e filhos se uniram ainda mais no aperto e transformaram a memória de Glênio num campo de força que há três décadas os protege:

– Ficou o exemplo de humanidade, de uma pessoa que pensava no outro, altruísta. Meu pai foi um exemplo mesmo. Ele não era um comunista para o lado de fora, era assim que ele agia. E não era uma coisa fácil. Uma palavra que o define é coragem. Foi uma pessoa que deu a vida por uma causa. Não é para todo mundo”, destaca Gilson, o filho mais velho, que tinha 9 anos na época da tragédia, e lembra das primeiras palavras da mãe ao relatar o ocorrido:

– Cada um teve uma reação diferente pelo impacto. Jana teve uma retração, o que influenciou na forma dela encarar a vida. A primeira coisa que minha mãe falou foi se eu compreendia o que tinha acontecido e minha maior preocupação foi com Jana. Não sei se devido à criação, mas a gente nunca brigou. Talvez pelas dificuldades que a gente passou… já éramos bem pobres, ficamos numa situação muito ruim de vida e tivemos que nos ajudar ainda mais”, lembra.

Família contesta versão do “acidente”

A versão oficial do “acidente” nunca foi aceita pela família. Os arquivos abertos da ditadura militar em 2014 mostraram que as dúvidas sobre a causa da morte do ex-guerrilheiro mereciam, pelo menos, uma investigação mais aprofundada: documentos oficiais do Serviço Nacional de Inteligência revelaram que o comunista foi vigiado pelos militares pelo menos até 1989, uma década após a promulgação da lei da Anistia. Quatro meses antes da tragédia, Glênio participou de um evento em Natal em que citou nominalmente todos os agentes da repressão que o torturaram enquanto esteve na prisão:

– Era o Comitê em Defesa da Vida, na sede da OAB, estava lotado. Glênio se levanta e faz um desabafo, cita os principais torturadores. No final, na saída, eu disse: “Glênio, como você faz uma coisa dessa, citar o nome dos torturadores…”. E ele dizia que não iria mais acontecer nada, achava que não tinha mais ninguém. Mas quando ele sai da prisão, já sai jurado. E depois soubemos que ele foi vigiado 10 anos depois da lei da Anistia, a placa do Opala que bateu no carro dele era fria, de São Paulo… havia divergência no laudo da polícia”, recorda a companheira Fátima.

Além da perseguição e vigilância admitidas pelo próprio Estado, um fato ocorrido um dia após a tragédia reforça as suspeitas. A casa onde moravam Fátima, Gilson e Jana foi assaltava e os bandidos só roubaram documentos e livros de Glênio, além dos álbuns de fotografia da família.

Caçula, Jana tinha apenas seis anos de idade quando perdeu o pai. Das lembranças físicas, só restou uma única fotografia em que aparece ao lado de Glênio. Por sorte, a imagem não estava na caixa dos álbuns roubados. Nos últimos 30 anos, Jana se dedicou a lutar para preservar a memória do pai e se reinventou para constituí-lo no imaginário:

– Preenchi esse vazio com depoimentos de mainha, do meu irmão, de amigos, de parentes, além de leitura dos livros e documentos que ele deixou. Isso sempre me fez sentir mais próximo de painho, me ajudou a construir um ideal que eu pudesse de certa forma me espelhar. E o que eu ouço dessas pessoas é que os grandes traços dele eram a paciência e a amorosidade, características que seguiram com ele mesmo após os anos em que permaneceu preso, quando foi barbaramente torturado. Então, a imagem que tenho é de alguém que aprendeu a superar as dificuldades na vivência do sofrimento e que internalizou isso como lição de vida”, destaca a filha mais nova.

Jana ao lado de Glênio, Raimunda (avó) e Gilson: única imagem com o pai (foto: acervo pessoal)

Jana Sá assumiu papel político semelhante ao que o pai desempenhava. Ocupa espaço na direção estadual do PCdoB, dedicou-se à reorganização do Partido e tem uma visão humanista da política. Das características que herdou, cita o amor pelo mar, a impaciência nas pernas e admite que a militância política foi um caminho natural e inspirador:

– Seguir seu caminho na militância política, na direção do PCdoB, na luta que precisa ser permanente pelas liberdades democráticas, pelo direito dos trabalhadores, (semelhança) ao me indignar frente à qualquer tipo de injustiça, e na luta pelo direito à memória e à verdade, condições imprescindíveis para estabelecer a conciliação e a paz que nosso país tanto precisa hoje. Além, é claro, a disposição para seguir o caminho da luta”, reforça.

Sobre a imagem definitiva que guarda do pai, é direta:

– Quando penso no meu pai vem a imagem dele sorrindo e feliz”, diz.

Em família: um comunista que amava o mar, os bichos e encantado com a natureza

Glênio e Fátima: cumplicidade e amor eterno desde 1979 (foto: acervo da família)

Glênio e Fátima se casaram em 1979, quando o país ensaiava a transição lenta e gradual da ditadura para a democracia. O comunista sempre abriu o passado em relação às lutas do movimento estudantil em Fortaleza, a participação na Guerrilha, a prisão e as torturas. E Fátima logo percebeu que o período de violência havia deixado sequelas. As costas de Glênio, por exemplo, eram marcadas com cigarros, marcas das torturas:

– Desde que começamos a namorar notava ele sempre assustado. Achava Glênio tão bonito, mas tinha medo também no início e ele logo me contou toda a história. Em casa, falava sobre tudo isso. Como tinha sido, o que havia passado. A gente sabia que estava sendo seguido. Uma vez Glênio viajou a São Paulo e um cara bateu na porta perguntando por ele. Eu disse que ele não estava e o rapaz: “não está ou está viajando?”. Falei que como ele sabia mais do que eu que ele aguardasse. Às vezes quando saía de casa e voltava tinha gente escorado no portão em frente”, relata.

Fátima se tornou militante pela convivência com o marido. E apesar da dedicação de Glênio ao PCdoB, nunca se queixou da ausência dele nem em relação aos filhos:

– Ele era muito amoroso com os meninos, comigo. Em alguns finais de semana íamos para uma casa na praia de Zumbi, ele adorava o mar, colocava os meninos para dormir cantando a Internacional”, diz.

Nas lembranças de Gilson, o pai sonhava em criar cachorro, gato e galinha em casa

Nas lembranças de Gilson, o pai mirava o futuro e sonhava em morar com a família numa casa onde pudesse criar animais em liberdade, como cachorros, gatos e galinhas. Sobre a experiência no Araguaia, Fátima lembra que pelos relatos do marido, a beleza natural da região lhe chamou a atenção:

– Me relatou muito bem a beleza do Araguaia que viu descendo de barco, lembrou que balançava muito. Ficava feliz falando mata…”, recorda

Sobre o legado deixado pelo marido, ressalta a disposição e as experiências que conseguiu transmitir para quem conviveu com ele:

– Glênio deixou como legado a coerência, de abnegação, de coragem e a disposição de reconstruir o PCdoB. É referência para os nossos filhos, sua luta. Acho que as pessoas que conviveram com ele sentem isso”, afirma.

Irmãos comunistas, pai conservador e o lendário apartamento 115

Família em Caraúbas (RN): Glênio é o primeiro da ponta (dir)

Glênio era o caçula de uma família de sete irmãos. Os cinco homens eram comunistas, criados por uma mãe católica fervorosa e um pai tradicional de direita que apoiava um dos políticos mais conservadores da história do Rio Grande do Norte, o ex-senador Dinarte Mariz, ligado ao militares durante a ditadura. Para entender como os ideias de esquerda entraram na casa do seo Epitácio Martins Fernandes de Sá é preciso voltar no tempo, até a Caraúbas dos anos 1940, quando um vendedor de queijo chamado João do Açu atravessou a vida de Gilberto, o primogênito da casa.

Além de vender queijo, João do Açu tinha outras qualidades, o que acabaram despertando a curiosidade do garoto:

– Em Caraúbas tinha o João do Açu, comunista da linha ortodoxa. Ele vendia queijo e a gente conversava. Me apresentou uns textos, indicou livros, era bem simples. E depois fui estudar em João Pessoa e tentava entender a questão do partido”, conta Gilberto, hoje professor aposentado da Universidade Federal de Pernambuco.

Gilberto foi atrás de mais informações para entender a mensagem do comunista João do Açu e acabou influenciando os quatro irmãos. Resultado: três dos cinco irmãos comunistas – Glênio, Gil e Epitácio – foram presos e torturados num determinado tempo da história. Só Gilson e Gilberto conseguiram escapar da ditadura.

Nos anos 1960, já morando em Fortaleza (CE), ajudou a fundar o PCdoB na capital cearense. Lá, dividiu apartamento com outros dois irmãos: Gil e o próprio Glênio, que chegou em 1968.

Parte dessa experiência, Glênio deixou registrada em “Araguaia, relato de um guerrilheiro”, escrito sem maiores pretensões a pedido de uma dirigente do PCdoB e que acabou virando um livro lançado em dezembro de 1990, após a morte dele.

A obra é dividida em sete capítulos: Os Precedentes, No Gameleira, Na Guerrilha, Dentro da Mata, A Traição, A Prisão e A Liberdade.

A obra é de fato um registro histórico. O potiguar começa falando sobre o início no movimento estudantil, o que o motivou a se engajar na luta armada e as principais recordações do período em que viveu outra vida mata adentro no sul do Pará:

– Dois anos após o golpe militar de 1º de abril de 1964, comecei o meu engajamento na ação política oposicionista, quando ainda fazia o curso ginasial, em Mossoró, maior cidade interiorana do Rio Grande do Norte. Em 1968, já em Fortaleza, participava ativamente do movimento estudantil secundarista quando ingressei nas fileiras do PCdoB. Na época já tinha lido algumas obras de Marx e de Lenin e a entrada no partido foi a concretização da minha entrada militante”, relata já na abertura do livro.

Gilberto, Gil e Glênio moraram juntos com outros amigos no mítico apartamento 115, da rua Clarindo Queiroz, em Fortaleza.

O apartamento era uma espécie de célula comunista onde, além das reuniões políticas, se debatia cultura, especialmente literatura e cinema. Eram tempos embalados por Chico Buarque, Edu Lobo e Geraldo Vandré. No cinema, a turma do Cinema Novo – Gláuber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Sérgio Ricardo – estava sempre na pauta:

– Eu tinha todos os discos da editora Elenco, dirigida pelo Aluísio de Oliveira, que lançou o pessoal da Bossa Nova. O apartamento 115 virou uma referência. Lembro da gente discutindo o filme Hiroshima mon amour, que era um filme político, mas também tinha um romance. Era no apartamento que as pessoas terminavam as reuniões e discutiam cultura”, lembra Gil.

Apesar de mais velho que o irmão, Gil passou a admirar o caçula e acompanhou toda a trajetória de Glênio. Ele cita a coragem como característica que mais lhe saltava aos olhos:

– Por onde Glênio passou, todos o viam como uma referência séria. Era muito afável, muito amado, muito determinado, responsável. Eu cheguei a dizer a ele: “eu queria ter a coragem que você tem”. Foi um exemplo para nós, um exemplo de desprendimento. A vida de Glênio era alimentada por sonhos libertários. Era um sonhador forte. Morreu seguindo esses princípios, lutou contra a injustiça social”, relata.

Pergunto como seo Epitácio lidava com tantos comunistas sendo ele um homem de princípios conservadores e Gil lembra de uma cena com o pai que lhe marcou. De volta a Caraúbas para uma visita, os dois sentaram na sala, ligaram a televisão e assistiram o telejornal informar sobre a morte do ex-delegado da Polícia Federal e conhecido torturador do DOPS Laudelino Coelho. A reação do pai confortou o filho:

– Quando meu pai viu a notícia falou na hora: “Mais um para o inferno”. Acho que foi uma forma dele se solidarizar comigo sem maiores explicações. Só disse aquilo: “Mais um para o inferno”. Pra mim, bastou”, diz.

No Araguaia, o relato de um guerrilheiro

A Guerrilha do Araguaia durou de 1969 a 1976 e era formada basicamente por estudantes secundaristas, universitários, operários e profissionais liberais. Todos sob o comando do ex-militar do Exército Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, e do comandante máximo Maurício Grabois.

Na época, Glênio Sá era estudante e desde 1968 morava em Fortaleza com  Gil e Gilberto. Antes de partir para o Araguaia, Glênio já tinha sido preso duas vezes, ambas no Crato (CE), em atividades políticas de panfletagem. Quando decidiu ingressar na luta armada, a opção não era consensual nem mesmo entre os irmãos comunistas. Gilberto, por exemplo, era contra. Mas nunca impediu o caçula de fazer o que queria:

– Antes de Glênio ir para o Araguaia ele passou lá em casa, eu já morava em São Paulo e não concordava com a luta armada. Mas a gente nunca divergia, não discutia, sempre nos respeitamos muito. E não é também porque eu não achava certo que não ajudei. Dei força, era aquilo que ele queria”, recorda o mais velho.

Muitas das razões que levaram Glênio Sá à Guerrilha do Araguaia estão no documento “Guerra Popular, Caminho para a Luta Armada no Brasil”, lançado pelo PCdoB na segunda metade dos anos 1960. Era o incentivo que o estudante potiguar precisava:

Um documento do PCdoB intitulado “Guerra Popular, Caminho para a Luta Armada no Brasil” incentivou-me a sair à procura do que existia de concreto sobre a preparação dos comunistas para a luta armada. Solicitei o meu deslocamento para o campo, usando como argumento minha origem sertaneja”, escreveu.

Fotos com os desaparecidos políticos da Guerrilha do Araguaia

Sem informações sobre o paradeiro do caçula, os irmãos achavam que Glênio não tinha escapado com vida do Araguaia. Mas o destino tinha outros planos para a família Sá. Quando estava na Papuda, presídio de Brasília (DF), Glênio percebeu na cela ao lado a chegada de um novo preso. O rapaz era acusado de contrabando. No livro, o comunista potiguar descreve a cena:

– Estava nu porque tinha lavado e estendido sua única roupa. Ia ser transferido para uma cadeia no interior de Goiás e queria ver a família a limpo. Conversamos muito também e ele ficou muito comovido com a minha situação. Pedi-lhe para levar um recado para a minha família, quando fosse embora. Ele se prontificou imediatamente dizendo que ia pedir à filha para escrever para os meus parentes. Resolvi escrever o endereço da minha casa numa ponta de jornal. Pus o papel bem dobrado no bolsinho da minha bermuda. Chamei o carcereiro protestante e disse: “Meu vizinho está com frio. Leva essa bermuda pra ele”. Passou tranquilo, sem inspeção. Na manhã seguinte levaram meu amigo prisioneiro embora. Fiquei pensando se ele era mesmo um prisioneiro comum”, relatou.  

O que parecia o roteiro de um filme de ficção virou realidade. A carta chegou em Caraúbas, na farmácia da família Sá, enviada por Divina, a filha do prisioneiro da Papuda. Embora os cinco filhos de Epitácio fossem comunistas, o patriarca seguia a política da velha UDN, partido que dava sustentação à ditadura militar. No Rio Grande do Norte, Epitácio mantinha ligações políticas com Dinarte Mariz. E foi a ele que o pai de Glênio recorreu para libertar o filho caçula.

Gilberto, o filho mais velho e responsável por recrutar todos os irmãos homens para as fileiras do PCdoB, foi o escolhido pelo pai para tirar o irmão da cadeia. E o primogênito assumiu as rédeas, colocou o orgulho de lado, passou a ser o interlocutor da família com Dinarte Mariz e foi até o irmão. Glênio já estava num presídio do Rio de Janeiro e narrou emocionado o reencontro:

– Um ano e um mês completaram-se desde que eu fora preso. Um belo dia, um oficial acompanhado por vários soldados armados, abriu a porta da minha cela e me convidou a sair. Pela primeira vez sem algemas e sem capuz. Levaram-me, por umas escadas, a um corredor imenso. A uns cem metros de mim avistei um homem de paletó. Quando me aproximei, uma surpresa agradável: era meu irmão Gilberto. Foi um abraço muito forte e cheio de emoção. Levaram-nos para uma sala. Meu irmão estava meio constrangido com tanto cerco e nós só tínhamos 15 minutos. Começou a contar as novidades, dizendo que trazia saudades de todos. Estava vindo do Ceará, onde era professor universitário e que a filha do meu amigo prisioneiro goiano tinha mesmo mandado a carta para nossos pais; que o Exército tinha negado minha passagem pela PE de Brasília; que papai estava tentando convencer um amigo seu do Exército a interceder por mim e tinha conseguido aquela visita, etc. Me deu comida e dinheiro e disse que papai viria em seguida me visitar e queria saber do que eu estava precisando. Deu ainda a triste notícia de que nosso irmão Gilson morreram afogado e choramos os dois, emocionados. Não tinha mais clima para conversar e o nosso tempo se esgotou”, escreveu.

Citado no livro, Gilson trabalhava na construção da Transamazônica e durante uma travessia pelo rio Amazonas o barco em que estava naufragou. Mesmo sabendo nadar, acabou morrendo afogado. Mais tarde, como homenagem, Glênio deu o nome do irmão ao primeiro filho.

Gilberto e o pai acionaram quem conseguiram para tentar libertar Glênio. Dinarte Mariz abriu alguns caminhos, mas chegou a um dado momento em que admitiu que não poderia ir mais adiante. Na época, o ex-governador do Maranhão Vitorino Freire era ainda mais ligado aos militares e também foi acionado. Assim como o arcebispo Dom Eugênio Sales e outros persongens entre comandantes, generais e militares de outras patentes.

– Era a vida de Glênio, então valia tudo. Na primeira vez que fui ao presídio me disseram que era mentira, que ele não estava lá. Na saída, um cabo que ouviu a conversa me garantiu que tinha visto Glênio ser torturado no dia anterior. Foi quando voltei a Dinarte Mariz, que ligou para um comandante na minha frente pedindo informações sobre o “menino de Epitácio”. Só então consegui me encontrar com ele, como está relatado no livro. Mas depois foi mais um tempo para tirá-lo de lá, o que só conseguimos com a ajuda dos advogados Marcelo Cerqueira, que era meu amigo dos tempos da UNE, e a doutora Eny Moreira, que hospedou Glênio logo que saiu da prisão”, conta.

No apartamento do Rio de Janeiro da advogada Eny Moreira, o reencontro entre Glênio, Gilberto e Gil, que morava em São Paulo e foi voando para o Rio, aconteceu:

– Indescritível a alegria que a gente tem ao reencontrar quem a gente tanto queria e ver que ele está bem. E foi aquele abraço, uma alegria incontida”, lembra Gil.

Glênio relata no livro sua maior saudade, na volta para o Nordeste:

– Cerca de 15 familiares me aguardavam no aeroporto. Apesar da alegria grande em revê-los, após mais de quatro anos de ausência, não seria ainda ali que mataria minha maior saudade. Fui para Caraúbas, interior do Rio Grande do Norte, meu ponto de partida, para abraçar e beijar minha querida mãe que me esperava tão ansiosa”, conta.

Reconstrução do PCdoB começa pela universidade

Glênio Sá discursa durante campanha para o DCE da UFRN, em 1979 (foto: acervo da família)

Glênio Sá liderou o processo de reconstrução do PCdoB no Rio Grande do Norte ainda em meio à clandestinidade durante a ditadura militar. Já em liberdade, e de volta a Natal em 1974, o comunista foi buscar na universidade parte da militância que cerraria as fileiras do Partido a partir dali. Dois anos após sair da cadeia, Glênio é aprovado no vestibular da UFRN e inicia o curso de Geologia ao mesmo tempo em que começa a mobilização e recrutamento de estudantes universitários.

Recém-chegado do Rio de Janeiro, o jovem Christian Vasconcelos vinha influenciado pelas ideias do Movimento de Emancipação do Proletariado, uma organização clandestina de esquerda e de orientação Marxista com atuação no Brasil nos anos 1970 e 1980. O encontro com Glênio, no entanto, mudou os rumos da trajetória político-partidária do estudante carioca de apenas 18 anos.

A diferença de idade entre Christian e Glênio Sá era de oito anos. E em pouco tempo, a relação político passou a ser fraternal. Durante o tempo em que conviveu com o ex-guerrilheiro, que passou a colega de curso e “irmão mais velho”, Vasconcelos cita a humanidade e simplicidade como marcas que permanecem nas boas lembranças:

– Glênio era o meu irmão mais velho. Eu tinha 18 anos, estava chegando do Rio transferido da Universidade Federal Rural e vinha influenciado pela corrente Movimento Emancipação do Proletariado. O conheci como colega de curso, ele um ano à minha frente. Foi a figura mais humana que eu conheci na vida. A gente fica imaginando que pessoas como Glênio são seres extraordinários, mas na verdade são pessoas comuns, simples como a gente. E me dá mais orgulho ainda de estar onde estou, de fazer parte de tudo o que fiz na minha vida tendo Glênio como espelho”, diz.

A capacidade que Glênio tinha de ouvir o outro e de assimilar as divergências é citada por vários colegas e amigos que conviveram com o comunista. Christian lembra que mesmo em assembleias acirradas durante o movimento estudantil ou dentro do próprio PCdoB, Glênio abria mão de falar e até de defender um posicionamento.

– Glênio era muito firme na defesa dos pontos de vista quando estava convencido, e tinha uma capacidade de ouvir muito grande, foi uma referência para muita gente. Lembro de ouví-lo falar uma vez: “se eu não estiver convencido de uma matéria, não vou defender”, o que demonstra que ele não era arrogante, abria mão muitas vezes, reconhecia erros”, lembra.

Glênio Sá foi o condutor da reorganização do PCdoB no Rio Grande do Norte (foto: acervo de família)

Com o processo de abertura política iniciado pelos militares após a pressão das ruas, o movimento estudantil virou um barril de pólvora na luta pela redemocratização do país. E dentro das universidades, a pressão também aumentou para que as direções dos centros e diretórios acadêmicos, além dos diretórios centrais, fossem escolhidas de forma direta pela comunidade.

O estudante de Geologia Glênio Sá era um dos líderes do processo que reivindicava eleições diretas na UFRN. Pressionada, a reitoria cedeu e, em 1979, Glênio é eleito presidente do Diretório Acadêmico do Centro de Ciências Exatas.

A primeira diretoria eleita do CCE tinha outros nomes que ao longo dos anos se transformaram em referência na política norte riograndense. Um deles, recém-chegado do interior de Minas Gerais, também foi recrutado e cativado pelo olhar e a retórica do comunista.

Embora Glênio não tenha conseguido levar aquele colega para o PCdoB, o comunista também virou espelho para ele. Na hora de definir a filiação partidária, o estudante de Geologia Fernando Mineiro optou por contribuir com a fundação de um partido novo, o Partido dos Trabalhadores. Mas a partir dali selou uma relação de admiração e afeto com o líder comunista:

– O Glênio que me recrutou para o movimento estudantil. Foi ele que indicou meu nome para compor a chapa da primeira eleição direta para o DCE, no final de 1979, como representante do Centro de Ciências Exatas. Ali eu comecei a fazer a militância estudantil por isso digo que o Glênio foi o responsável pela minha entrada no movimento”, conta.

Primeiro vereador do PT eleito em Natal e deputado estadual por quatro mandatos consecutivos, Mineiro destaca que, embora em partidos diferentes, ele e Glênio sempre se respeitaram:

– Sempre tivemos uma relação de muito respeito, ele tinha uma capacidade rara de respeitar as divergências e as visões diferentes. Ele era do PCdoB, eu fui para o PT, mas nunca tivemos uma desavença. Glênio teve um papel muito importante na minha vida, foi uma referência para mim”, afirmou.

Coordenador do Centro em Direitos Humanos e Memória Popular, Roberto Monte reúne um dos maiores acervos do movimento político do país com personagens e fatos históricos a partir dos anos 1950, com foco no Rio Grande do Norte. As imagens em vídeo de Glênio em discursos disponíveis hoje na internet foram captadas por Monte e ativista Marize Monte. Para ele, a morte de Glênio Sá e Alírio Guerra foram perdas não só para o PCdoB, mas para toda a esquerda:

– Não é porque a pessoa morre que você vai falar bem, mas Glênio era um cara muito sério. Ainda jovem foi para a guerrilha. E o lance não foi nem ele ter participado, mas escapado do Araguaia. Depois que saiu já entrou na luta pelo processo de redemocratização do país. A morte dele foi traumática porque aconteceu num momento barra pesada. Glênio e Alírio eram os dois grandes dirigentes do PCdoB no Estado, as grandes referências. Ficou só o segundo escalão”, diz.

Filme vai mostrar que comunista potiguar foi perseguido mesmo depois da ditadura

Jana Sá foi selecionada no edital da Fundação José Augusto e fará documentário reconstituindo a morte do pai

A família de Glênio Sá nunca aceitou a versão oficial de que a morte do ex-guerrilheiro foi um acidente. Documentos obtidos após a abertura dos arquivos da ditadura militar em 2014 pelo governo Dilma Rousseff mostram que o comunista potiguar foi vigiado e perseguido mesmo 10 anos após a promulgação da lei da Anistia.

A certidão em que o Estado brasileiro reconhece que cometeu um crime é uma das provas que familiares de Glênio vêm reunindo ao longos dos anos. A placa fria do Opala que colidiu com o fusca onde estavam os dirigentes comunistas aliado ao fato de que o motorista fugiu e nunca mais foi encontrado reforçam a tese de assassinato.

Alguns fatos “estranhos” também marcaram o período após a morte do ex-guerrilheiro. Um dia após a tragédia, a casa da viúva Maria de Fátima Sá foi assaltada, mas os bandidos só levaram documentos e livros de Glênio, além dos álbuns fotográficos com memórias e lembranças do comunista.

Outro indício forte de que o acidente pode ter sido forjado está no depoimento do ex-delegado do DOPS Cláudio Guerra, publicado em 2012, no livro “Memórias de uma Guerra Suja”. Na obra, Guerra não cita o nome de Glênio Sá, mas faz referência a uma morte encomendada por agentes da ditadura militar no final dos anos 1980, numa cidade do interior da região Nordeste. Esse assassinato, ainda segundo Guerra, teria sido forjado com sucesso num acidente de carro e vitimado um político comunista. Na época, Glênio Sá era candidato ao Senado pelo PCdoB e o “acidente” ocorreu em Jaçanã, município do interior potiguar.

Filha mais nova do ex-guerrilheiro, Jana Sá vai contar a versão da família no documentário “Não foi acidente: mataram meu pai”. O filme foi selecionado no edital de audiovisual da Fundação José Augusto, braço cultural do Governo do Rio Grande do Norte, e está em fase de produção. O documentário trará documentos oficiais e depoimentos de personagens que conviveram com Glênio Sá durante a Guerrilha do Araguaia, como o ex-deputado federal Genoíno de Oliveira (PT), camponeses, familiares e outros entrevistados.

– É uma tentativa de passar a limpo uma parte da história do país que estabeleceu o esquecimento por decreto e o que restou da ditadura. Meu pai é um exemplo de como o aparato repressor do Estado, que funcionou durante a ditadura militar, continuou a agir mesmo após o fim do regime de exceção. O filme vai mostrar as circunstâncias da morte dele, envoltas de mistérios e que, para a família, nunca foram esclarecidas”, diz a jornalista e diretora do filme, que destaca a versão família:

– Meu pai foi vigiado e perseguido pelos militares mesmo 10 anos após a lei de anistia. Então a narrativa será criada a partir de depoimentos de personagens da época que vão tentar passar a limpo a história do Brasil”, afirma.

 

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01 May 15:54

O adeus do Piantella

by Unknown


Leio agora que fechou, de vez, o Piantella. Para quem não saiba, foi, durante décadas, o restaurante preferido da classe política de Brasília. Tinha um primeiro andar, com uma bela garrafeira, onde se realizaram reuniões históricas que, para o bem ou para o mal, iam decidindo o futuro político do país. Recordo-me da cadeira de Ulisses Guimarães, que era uma espécie de relíquia do local. No andar de entrada, onde, ao sábado, havia um buffet com uma bela feijoada, cruzavam-se, durante a semana, expatriados dos seus feudos, deputados e senadores, que se juntavam aos jornalistas e lobistas, com os ministros a fazerem aparições solenes, acompanhados dos seus séquitos. Nunca fui um “habitué” do local, quando vivi em Brasília, mas estive por lá as vezes suficientes para ter podido apreciar, com detalhe, aquela sociologia gastronómica, que encenava a coreografia do poder da capital federal. Comia-se bem? Era assim-assim, embora caro. Brasília tinha bem melhores lugares para refeiçoar, mas beber um copo, ao fim da tarde ou mesmo à noite, no Piantella tinha a sua graça. Neste dia de finados para o mais emblemático restaurante político do Brasil, deixo um pensamento para o meu amigo Toninho Drummond, por décadas representante da rede Globo em Brasília, frequentador assíduo do Piantella, autor das mais interessantes memórias políticas que nunca foram escritas.
28 Apr 13:45

Empresários voltam a pressionar pela reabertura do comércio no RN e cientista reforça importância do isolamento

by Rafael Duarte

Bom senso é um artigo em falta na prateleira das empresas do Rio Grande do Norte. Com o número de mortes e de casos confirmados por Covid-19 aumentando semanalmente no Estado, e os avisos de que o pico da epidemia ainda não chegou, o segmento empresarial segue forçando e pressionando pela reabertura de bares, restaurantes e do comércio em geral.

O Governo chegou a ceder em alguns pontos, flexibilizando algumas medidas restritivas no decreto publicado dia 23 de abril e ampliando o número de atividades essenciais em todo o território potiguar. Mas não foi o suficiente para saciar os empresários.

Nesta segunda-feira (27), sete entidades entre federações, associações e câmaras de dirigentes lojistas divulgaram uma carta à sociedade onde anunciam a apresentação de um plano para a retomada da economia ainda essa semana.

Assinam a nota Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas (FCDL RN), Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL Natal e CDL Jovem Natal), Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio RN), Associação dos Empresários do Alecrim (AEBA), Associação Comercial (ACRN) e Federação das Associações Comercias (FACERN).

A primeira proposta de plano para esse retorno responsável foi entregue por nós do setor produtivo, ela deverá ser avaliada por todos os membros do grupo ainda essa semana. Acreditamos que em breve chegaremos uma versão final da retomada econômica no RN. Sabemos da importância de criarmos horizontes para as empresas e estamos todos empenhados nessa missão. Enquanto isso, clamamos a todos para o uso de máscaras, essa é a melhor forma de cuidar da vida e da economia”, diz a carta.

Já a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) divulgou uma cartilha com o protocolo para a reabertura parcial dos estabelecimentos.

Em coletiva de imprensa realizada hoje (27) a secretaria de Estado de Saúde Pública confirmou 45 mortos no Estado e 832 casos confirmados. “Dias piores virão. A situação passa a ser dramática”, afirmou o adjunto da Sesap Petrônio Spinelli.

“A reabertura não é como um interruptor de luz”, rebate pesquisador da UFRN

José Dias do Nascimento Jr. é pesquisador do Departamento de Física da UFRN (foto: acervo pessoal)

Diante da pressão do segmento empresarial, o cientista e pesquisador da UFRN José Dias do Nascimento reforçou a importância do isolamento social como forma de impedir a disseminação em massa do novo Coronavírus.

– Apoiamos a manutenção do distanciamento social até que novas evidências estejam disponíveis. A reabertura da economia não é como um interruptor de luz: desligado agora e que pode ser religado depois. A decisão de abrir não é baseada em evidência científica nenhuma. A economia não vai voltar de uma hora para outra. Esse retorno súbito vai gerar casos, vai morrer mais gente e gestores vão voltar atrás”, prevê.

Nascimento afirmou recentemente em matéria publicada pela agência Saiba Mais que os modelos matemáticos que analisam a curva epidemiológica do Rio Grande do Norte indicam que, se não fosse o isolamento social no Estado, o número mortes por Covid-19 já estaria em 2,2 mil.

Ele estima agora que aproximadamente 20 mil pessoas no Estado precisarão ser hospitalizados. E discorda de qualquer medida de flexibilização das medidas restritivas, como a que o próprio Governo adotou:

– A conduta de municípios é independente do decreto da governadora. Ela usou argumentos sólidos, porém pode ter aberto cedo demais. Sendo um cientista, não posso concordar com essa decisão. Não temos um plano de saída baseado em dados locais. Deveria ser por idade, etc. Estudo é necessário. Sem isso, existe somente uma opção: continuar o isolamento”, afirmou.

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26 Apr 15:48

Assim não dá: vice-presidente Mourão gasta R$ 100 mil com dinheiro público para ficar bombado

by renato renato

O vice-presidente da República quer ganhar músculos

O governo compra dois aparelhos para exercícios físicos por 100 mil reais para o vice utilizar durante a pandemia

Revista Veja

Por Hugo Marques 
No momento em que a palavra impeachment volta a circular com força, é natural que as atenções se voltem para a saúde do vice-presidente Hamilton Mourão. E o general, ao que tudo indica, está bem,  em forma — ou, no mínimo, está empenhado em continuar em forma.  Aos 66 anos, a atividade esportiva preferida do vice é cavalgar. Às vezes, também anda de bicicleta pelas ruas de Brasília. Porém, em épocas de pandemia, até para servir de exemplo, melhor respeitar ao máximo o confinamento.

O Palácio do Jaburu, por conta disso, decidiu renovar a academia da residência oficial. Mourão vai ganhar uma esteira ergométrica e uma estação de musculação novíssimas. Os dois aparelhos vão substituir os antigos que estão danificados e obsoletos. A esteira terá sensores sem fio que medem a frequência cardíaca e interface com aplicativos de entretenimento, internet, TV.

Já a  estação de musculação contará com  três torres do tipo “Lat Pulldown” (para exercícios de puxada para costas, com articulação giratória), “Triceps Press” (extensão do tríceps) e “Remadas Baixas” (com polia, cadeira extensora, mexa flexora e banco de supino ajustável) — segundo está especificado no edital de compra. O custo será de 100.000 reais. Detalhe: a encomenda foi feita antes da crise desencadeada com a demissão do ministro Sergio Moro.

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26 Apr 13:41

Covid19 industrial?

by noreply@blogger.com (João Ramos de Almeida)
Ao cuidado dos jornalistas:

Por que razão a região do Norte, com apenas mais 25% do que a população da região de Lisboa e Vale do Tejo, tem 3 vezes mais de pessoas infectadas e de óbitos com o Covid19? Aqui é tudo ainda mais visual.

Será que é porque o Norte tem quase mais 5 vezes trabalhadores nas indústrias do que Lisboa, o dobro do pessoal na construção e apenas 75% do pessoal de Lisboa nos serviços que foram encerrados?

(ver Quadros de Pessoal de 2018, INE)

E não se trata apenas de contactos com feiras internacionais, mas de que forma é que foram concedidas condições sanitárias a quem continuou a trabalhar?  Houve alteração ou continuou a ser business as usual?

Será que tem a ver também, embora em menor escala, com haver muitíssima gente emigrada (na Suiça, em França) e que não trabalham propriamente em Universidades e que vieram para cá fazer a quarentena...? Veja-se as cadeias de contágio no boletim da DGS acima referenciado.


Tempo de se fazer reportagens às condições de trabalho dos trabalhadores do Norte - os tais heróis - que continuam a produzir.  

PS: Depois de publicado, foi-me sugerida a leitura de um artigo de João Ferrão no jornal Público, do qual retiro a seguinte citação: 

"Deste ponto de vista, a região Norte é particularmente interessante, já que os resultados globalmente elevados apenas são compreensíveis se considerarmos que existem vários Nortes particularmente expostos e suscetíveis: a área metropolitana, com as suas franjas suburbanas mais pobres; as áreas de industrialização difusa, sobretudo do Vale do Ave; as cidades médias (Viana do Castelo, Braga, Guimarães, Vila Real, Bragança); os concelhos junto à Galiza, o troço da fronteira luso-espanhola com uma dinâmica transfronteiriça mais intensa; e Trás-os-Montes, com uma forte relação com comunidades emigrantes de vários países europeus (desde o regresso de portugueses despedidos recentemente ao vaivém de trabalhadores da construção civil). Dizer que a região Norte tem valores mais elevados porque “por acaso” alguém veio infetado de uma feira no Piemonte, a região italiana com maior incidência da covid-19, é não entender que estes vários Nortes conciliam, ainda que em graus diferenciados, uma forte exposição externa e uma suscetibilidade local elevada, ou seja, um significativo potencial de vulnerabilidade em relação a esta ou a qualquer outra doença infecciosa" 

26 Apr 13:10

Agora, Moro

by Unknown

E lá foi “à vida” Sérgio Moro!

Agora, muitos de quantos elogiaram a vedeta do Lavajato, vão afirmar que ele traiu o presidente que lhe deu um palco político, ferindo-o num momento de uma óbvia fragilidade.

Outros, mesmo alguns que o diabolizaram pelo modo como se comportou naquele processo, mas porque lhes dá jeito esta bofetada em Bolsonaro, vão dizer que o homem saiu com alguma dignidade, para não ter de fazer mais fretes políticos ao presidente.

Vamos ser claros: estamos a falar da mesma pessoa que, independentemente de ter conseguido meter na prisão gente que bem o merecia, o fez através de uma operação político-judicial cheia de irregularidades processuais, com finalidades políticas que iam muito para além dos objetivos da justiça. Um processo que, no fim da linha, teve como consequência a eleição de uma figura como Jair Bolsonaro, tendo Moro, como prémio, o lugar de ministro da Justiça.

A questão, no dia de hoje, é, assim, bem simples: Moro, que passou todos estes meses no governo a fazer vergonhosos fretes a Bolsonaro, e que, com a sua presença no executivo, ajudou a avalizá-lo perante a opinião pública, não aguentou tudo o que, num excesso já obsceno, lhe era agora pedido. Ou alguém acredita que Moro só agora descobriu quem, na realidade, era Bolsonaro? Ou será que a sua súbita “coragem” pode ter algo a ver com o facto do governo de que fazia parte estar já apodrecido e decadente? E se se vier a constatar que esta saída de Moro está conjugada com o início de um processo de afastamento do presidente? Ou será que o próprio Moro gostaria de viver no Palácio da Alvorada?

Logo veremos.
26 Apr 13:09

O dia mais feliz?

by Unknown

Vejo muita gente, com a maior sinceridade, dizer que o 25 de abril de 1974 foi o dia mais feliz das suas vidas. Embora me ficasse bem dizê-lo, não se passou assim comigo.

Passei toda essa manhã angustiado. Lembro-me de mim, nervoso, na parada da Escola Prática de Administração Militar, aconselhando, com escasso sucesso, os soldados-cadetes, nesse dia sem instrução, a manterem-se nas casernas. Porquê? Sei lá! Porque sim, porque na tropa as razões não têm necessariamente de ser justificadas.

Por essa altura, não sabíamos se o golpe tinha tido sucesso, apenas íamos ouvindo os comunicados do “posto de comando” - uma falsidade, porque o posto de comando (viémos depois a saber) estava na Pontinha e aquilo era lido do Rádio Clube, na Sampaio e Pina.

O nosso pessoal, chefiado pelo capitão Bento e pelo alferes Geraldes, com o aspirante António Reis a dar o toque “político” às hostes, estava, desde as primeira horas da madrugada, a ocupar a RTP, não muito longe dali, também na Alameda das Linhas de Torres. A nossa unidade fora a primeira a avançar na Revolução. Também só me apercebi disso dias depois.

A certa altura, inesperadamente, surgiu na parada o comandante da unidade, o coronel Fidalgo, vindo da sua residência adjacente. Já me fartei de contar a história, quase caricata, de como tivemos de o deter, vencendo grandes hesitações por parte dos militares profissionais. Depois, mandámo-lo para casa.

Ainda o assunto estava em curso de resolução, quando surgiu o segundo-comandante, o major Nogueira da Silva. Lembro-me de dar uns berros a dois soldados que começaram a insultá-lo. Uma revolução não dispensa a manutenção da disciplina hierárquica, se não passa a ser uma bandalheira. Afinal, o Nogueira da Silva, que era um “chicalhão” (sinónimo de militarão), viria a revelar-se um democrata.

A meio da manhã, chegou Marcelino Marques, um coronel antifascista, afastado pela ditadura, que vinha assumir o comando. Era um homem agradável e talvez estivesse à espera de que também o fôssemos.

Ora no dia seguinte, na biblioteca da unidade, ele iria ter de aturar uma arenga minha e do Teixeira, em nome dos oficiais milicianos, sobre a “tibieza” daquilo que era anunciado sobre a política colonial. Semanas depois, chamar-me-ia ao seu gabinete, para mostrar o seu desagrado com um meu discurso público, no juramento de bandeira, em que eu havia denunciado a postura repressiva do MFA numa greve, que tinha originado a detenção dos nossos colegas Anjos e Marvão. O meu “divórcio” com Marcelino Marques, uma jóia de pessoa, teria lugar não muito tempo depois, comigo a ser simpaticamente convidado a afastar-me da unidade, por “incompatibilidades com a hierarquia interna”, pelo facto de eu me ter recusado a solidarizar-me com uma punição a um soldado-cadete, que só me recordo chamar-se Loff. Mas eu e Marcelino Marques ficámos para sempre com uma excelente relação pessoal.

O resto do meu dia 25 de abril seria passado na RTP. Chegavam notícias de que as coisas estavam a correr bem pelo país. Pela rádio, íamos seguindo o que se passava no Carmo, onde o nome de um tal Salgueiro Maia era referido, sabendo-se que Caetano estava prestes a cair. Depois, foi uma longa espera. Primeiro, para conseguir pôr a antena de Monsanto a funcionar, operação por muito tempo boicotada por um “patriota” renitente. Mais tarde, foi o aguardar da Junta de Salvação Nacional, junto às antigas bombas de gasolina, antes do início da rampa que levava aos estúdios do Lumiar.

A escolha de Spínola para chefiar a Junta não me agradava minimamente. Vê-lo chegar, com Costa Gomes e os outros, era, contudo, o anúncio de um tempo que, fosse ele o que viesse a ser, seria sempre muito diferente. Lembro-me de ter seguido com eles pela ladeira acima. Fiquei depois atrás das câmaras, a ouvir a proclamação. Que, pelo tom, não me agradou nada. Eu, no meu radicalismo, estava já de pé atrás.

A minha noite acabou tarde. Nunca consegui perceber onde dormi, apenas me recordo de mim, logo de manhã, de novo a coordenar o piquete de soldados, junto às bombas de gasolina, na tal entrada para a RTP. Passou um autocarro e lembro-me de ter dito adeus ao Eduardo Prado Coelho que ia nele, e que eu esperava que já me tivesse perdoado pelo facto de, quatro anos antes, com o Nuno Júdice, lhe ter invadido uma aula na Faculdade de Letras.

Regressei à unidade e fui entregar a pequena metralhadora FBP com que tinha andado nas últimas 48 horas. O sargento armeiro que a recebeu deu uma gargalhada: eu tinha levado um carregador errado, que era de uma metralhadora Vigneron. Se eu quisesse ter dado um tiro, durante todo o dia 25 de abril, não tinha conseguido. Às tantas, foi melhor assim. Ser oficial de Ação Psicológica não me tinha dado uma grande preparação operacional. E o dia 26 avançava já, comigo a manter-me politicamente inquieto. Ser radical raramente é sinónimo de se ser feliz.

Assim, que me recorde, o 25 de abril esteve longe de ser o dia mais feliz da minha vida. Ou talvez eu tivesse sido bem feliz nesse dia e, afinal, não sabia.
26 Apr 11:53

MST distribui 1,2 tonelada de alimentos para famílias carentes em Ceará-mirim

by Da Redação

Por Hilder Andrade / Brasil de Fato

No mês de abril o MST promove a Jornada Nacional de Lutas, momento em que ergue suas bandeiras em memória aos 19 trabalhadores rurais sem terra mortos pela polícia militar, no episódio que ficou mundialmente conhecido como Massacre do Eldorado dos Carajás, no dia 17 de abril de 1996.

Esse ano, devido à pandemia da Covid-19, a jornada se transformou em ações de solidariedade por todo país. Ao todo, o MST já distribuiu mais de 500 toneladas de alimentos saudáveis, frutos de assentamentos da Reforma Agrária.

Seguindo as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e sob o lema “Reforma agrária contra a impunidade, produzindo alimentos para o campo e para a cidade!”, assentados e acampados do Rio Grande do Norte organizam campanhas de arrecadação e distribuição de alimentos para as famílias em situação de vulnerabilidade da região metropolitana de Natal. Para Vanuza Macedo, da Direção Nacional no Estado potiguar, “o MST acredita que a solidariedade humana é elemento fundamental para salvar vidas”, por isso, vem promovendo as atividades.

Na sexta-feira (24) foi realizada a distribuição de 1,2 tonelada de alimentos no município de Ceará Mirim (RN). A doação só foi possível devido à consciência das famílias assentadas e de sua mobilização.

A primeira ação da campanha no Estado foi destinada ao abrigo de idosos São Vicente de Paula e para o bairro do Formigueiro.

Segundo Vanuza Macedo, o movimento já realizou doações e fez atividades com o abrigo, não sendo a primeira contribuição com a instituição. Ela ressalta que a atividade respeitou a indicação de não aglomeração, além da higienização adequada dos produtos. Também fez parte da ação, a comunidade do Formigueiro, localizada na periferia de Ceará Mirim, beneficiando mais de 200 famílias.

Em vários estados do país, o movimento vem organizando doações de alimentos para comunidades carentes, hospitais e asilos. Além disso, tem ocorrido experiências em distribuir marmitas e realizar cafés solidários, como as promovidas pelo Armazém do Campo do Recife (PE) e de São Luís (MA).

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23 Apr 16:10

Militares se meteram em uma arapuca, avalia Celso Amorim

by Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

“Temos que ter duas frentes, uma mais ampla que a outra: a frente pela vida e pela democracia, que vai da esquerda até a centro direita, e uma frente progressistas, que quer uma democracia aprofundada, com maior justiça social, solidariedade, com maior participação do estado na economia para evitar esse poder absurdo do capital financeiro absurdo, para evitar que os interesses do lucro predominem sobre interesses do ser humano. A gente tem que ser capaz de articular essas duas frentes”.
A visão é de Celso Amorim em entrevista ao TUTAMÉIA (acompanhe no vídeo acima e se inscreva no TUTAMÉIA TV). Ministro das relações exteriores, com Lula, e da defesa, com Dilma, ele avalia o papel dos militares no governo Bolsonaro. Para ele, a chegada do general Braga Netto à Casa Civil, vindo do posto de chefe do estado maior do Exército, deu a leitura de que havia uma tentativa de limitar ou tutelar o governo. Mas, no último domingo, com o discurso de Bolsonaro em Brasília em manifestação pró AI-5, houve um fato novo:
“Acho que eles devem ter percebido que eles se meteram numa arapuca. Porque o Bolsonaro é intutelável. Isso chegou ao paroxismo agora. Não acho que eles venham a tirar o Bolsonaro. Não haverá golpe; Bolsonaro também não vai cair. Vai haver uma tentativa de, seja pelo Congresso, seja pelo Supremo, seja pelas Forças Armadas, de limitá-lo, de limitar as loucuras. Ao mesmo tempo, ele vai usar essas tentativas de limitação com o eleitorado básico dele para dizer: Eu queria fazer, e eles não me deixaram”, diz Amorim.
Na análise do ex-ministro, a oposição “deveria se concentrar menos no Bolsonaro e mais no bolsonarismo e no Guedes. Na área econômica as maldades continuam sendo encaminhadas. O antipetismo, o antiprogressismo está cedendo aos poucos, pelas bordas. É preciso se concentrar muito nas questões concretas. E apoiar governadores que estão tomando medidas certas”. Amorim elogia a iniciativa do consórcio de governadores do Nordeste, que criou um comitê de assessoramento científico com a coordenação do ex-ministro Sérgio Rezende e do premiado cientista Miguel Nicolelis.


Ao TUTAMÉIA, Amorim fez uma análise da situação internacional em tempos de pandemia.
“Mudanças vão ocorrer e vai se criar um novo panorama internacional. As forças conservadoras vão querer fazer mudancinhas só cosméticas, mas vai haver uma mudança bastante profunda dos organismos internacionais. O comércio e a finança não poderão mais ser encarados de forma separada de outras questões, sobretudo as sociais. A influência da China nessa reordenação vai ser muito maior. O jogo de forças vai ser outro porque a presença da China vai ser muito forte”. E acrescenta:
“O coronavirus não vai mudar tudo, mas ele vai acelerar tendências que já existiam. Uma delas é a ultrapassagem dos EUA pela China. A capacidade de reação econômica da China foi muito melhor. Os chineses também estão buscando aproveitar as possibilidades de cooperação, demonstrando ter uma ação mais cooperativa. Os EUA perdem poder de atração. Acho errado dizer que a União Europeia acabou. A União Europeia vai passar por um período difícil, mas vai se recompor”.
Sempre enfatizando que a situação é muito volátil e avessa a prognósticos definitivos, o diplomata afirma que os efeitos políticos da pandemia que pode provocar profundas perturbações sociais devem variar de país a país, podendo pender para democracias ou autoritarismos. Mas arrisca uma possibilidade maior:
“Tendencialmente, vai haver um reforço da democracia. Porque haverá uma demanda de participação. Há um desgosto em relação ao capital financeiro. Vai se acentuar uma reação, que já existia, contra a globalização desenfreada”.

23 Apr 15:53

Bolsonaro entrega Banco do Nordeste ao PL de Valdemar Costa Neto, outro condenado no mensalão

by renato renato

De Renata Agostini na CNN Brasil.
Pelo acerto discutido hoje (21) com o governo federal, o PL, de Valdemar Costa Neto, ficará com a presidência do Banco do Nordeste e a secretaria de vigilância em saúde no Ministério da Saúde.

O posto, comandado pelo secretário Wanderson Oliveira na gestão de Luiz Henrique Mandetta, é um dos mais estratégicos da pasta e central no enfrentamento à pandemia do novo coronavírus. 


Pelo acerto discutido hoje (21) com o governo federal, o PL, de Valdemar Costa Neto, ficará com a presidência do Banco do Nordeste e a secretaria de vigilância em saúde no Ministério da Saúde.

O posto, comandado pelo secretário Wanderson Oliveira na gestão de Luiz Henrique Mandetta, é um dos mais estratégicos da pasta e central no enfrentamento à pandemia do novo coronavírus. 

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23 Apr 15:50

WhatsApp é o principal disseminador de notícias falsas, aponta estudo da Fiocruz

by Jana Sá

Mais de 70% das notícias falsas são disseminadas por meio do aplicativo WhatsApp. É o que revela pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) sobre o compartilhamento de Fake News. Outros 10,5% foram publicadas no Instagram e 15,8% no Facebook.

A pesquisa comandada pelas pesquisadoras da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), Claudia Galhardi e Maria Cecília de Souza Minayo, foi desenvolvida com base em dados colhidos pelo aplicativo Eu Fiscalizo, através de notificações recebidas entre os dias 17 de março e 10 de abril.

O aplicativo, que pode ser baixado pela Play Store ou Apple Store, possibilita que usuários notifiquem conteúdos impróprios e verifica possíveis notícias falsas em veículos de comunicação e mídias sociais como o WhatsApp.

As principais denúncias estão relacionadas à área de saúde. São publicações pessoais, como “não acredite no coronavírus“. Do total de notícias falsas sobre a pandemia da Coivd-19 que circularam pelo WhatsApp, 71,4% citam a Fiocruz como fonte. No Facebook, as atribuições à instituição de pesquisa caem para 26,6%. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) somam 2% das instituições citadas como fonte das informações falsas.

Os dados obtidos até o momento estão sendo organizados e, até o início de maio será lançado um relatório detalhando os tipos de fake news, se são mentiras inventadas ou informações distorcidas, informou a Fiocruz.

As atividades da CPMI das Fake News terminariam no dia 14 de abril, mas os trabalhos foram prorrogados por mais 180 dias por decisão dos parlamentares. O deputado federal, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), protocolou mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) para anular a prorrogação das atividades da comissão.

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22 Apr 16:22

Sociedade civil reage à golpe do MEC nas eleições do IFRN

by Jana Sá

Durante os últimos 15 anos, os governos chancelaram a escolha dos reitores feita pela comunidade acadêmica das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES). A tradição foi rompida pelo governo de Jair Bolsonaro (sem partido).

Desde que assumiu a Presidência, o mandatário optou por não seguir o resultado das consultas internas na hora de nomear o novo reitor ou reitora das IFES. Nas universidades federais em 6 das 12 oportunidades escolheu nomes com poucos votos ou até mesmo fora da lista tríplice. Entre institutos federais, o Ministério da Educação (MEC) também nomeou, por duas oportunidades, pessoas que sequer participaram do processo eleitoral.

Nesta segunda-feira, 20, o governo voltou a intervir no processo de eleição dos Institutos Federais do Rio Grande do Norte e de Santa Catarina. No RN as reações à nomeação do servidor público federal Josué de Oliveira Moreira como reitor pro tempore do IFRN foram imediatas.

Governadora e parlamentares do RN

A governadora do Estado, Fátima Bezerra (PT), disse que conversou com o professor José Arnóbio, eleito com 48,25% dos votos válidos e expressou solidariedade e apoio “à vontade soberana da comunidade acadêmica e escolar que o elegeu por maioria de votos”.

O senador Jean Paul Prates (PT-RN) condenou a decisão do Ministério. “Considero gravíssimo este caso por vários motivos: a eleição foi realizada antes da Medida Provisória ser editada, e a própria MP impõe que seja nomeado um dos três da lista tríplice. Além disso, uma nomeação pro tempore é prevista pela lei quando houver impedimento para o eleito assumir – o que absolutamente não é o caso.”

A Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Social da Assembleia Legislativa e a Frente Parlamentar em Defesa das Universidades Públicas e dos Institutos Federais lançaram uma nota de apoio à posse do reitor eleito do IFRN, professor José Arnóbio de Araújo.

Os deputados que assinaram a nota também se posicionaram individualmente em suas contas do twitter. Francisco do PT avaliou que a “escolha democrática de gestores escolares tem contribuído decisivamente nos resultados de excelência da gestão pública”, e colocou seu mandato à “disposição da luta para reverter a intervenção que macula a democracia e desrespeita uma das mais notáveis Instituição Educacional Brasileira”.

Para a deputada estadual Isolda Dantas (PT), a ação do MEC é de “total desrespeito à democracia”. Em nota, o mandato prestou “solidariedade e apoio ao professor José Arnóbio Araújo, reitor eleito do IFRN com 48,25% dos votos de professores, técnicos e estudantes para derrubarmos a decisão arbitrária que fragiliza ainda mais a democracia no nosso país”.

Sandro Pimentel (PSOL) afirmou que a intervenção é “mais uma prova que esse governo não tem nenhum compromisso com a democracia”.

A deputada federal Natália Bonavides também se pronunciou. A parlamentar considerou “gravíssima” a medida do MEC em “nomear reitor interventor no IFRN, ignorando o resultado da eleição”.

Partidos e Sindicatos 

Partido políticos, sindicatos e movimentos sociais também repudiaram a ação de intervenção do governo no IFRN um dia após Bolsonaro incentivar e participar de atos pró-intervenção militar.

O Sindicato dos Servidores da Educação Básica, profissionais e tecnológica (Sinasefe) disse que não reconhece o novo reitor nomeado pelo MEC e afirmou que a entidade vai à Justiça contra a nomeação arbitrária.

“Fere ainda a autonomia dos Institutos federais, é o direito de escolha democrática dos nossos dirigentes, conforme a Lei de Diretrizes e Bases, o nosso projeto pedagógico e até mesmo a Constituição Federal, que preconiza as práticas democráticas na educação”, disse a coordenadora geral do Sinasefe Nadja Costa.

O Diretório Central dos Estudantes do IFRN lançou nota conjunta com os DCEs da UFRN, UFERSA, UERN, UNI-RN, UnP, mais de 70 centros acadêmicos dessas instituições, e outras entidades estudantis (UMES, APES, UESP, UEE, REGIF), além de sindicatos (Sinasefe, Adurn-Sindicato, Sintest-RN, Aduern) e outras associações, federações e movimentos (Anpuh-RN e FENET).

O Sindicato dos professores da UFRN repudiou a nomeação de um interventor no IFRN e classificou a ação do MEC de “grave atentado à democracia”.

A UBES reativou a campanha #TireAMãoDoMeuIF, pedindo respeito à decisão da comunidade acadêmica e garantia da democracia interna dos Institutos Federais.

Os comitês municipal de Natal e Estadual do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) lançaram nota em que afirmam que “atitude de Weintraub, desrespeitando a vontade soberana da comunidade do IFRN, que havia consagrado o nome do professor José Arnóbio de Araújo para o cargo de reitor, confirma o caráter fascista do desgoverno Bolsonaro”.

O PSOL também se pronunciou. Chamou de “autoritária” a medida adotada pelo governo Bolsonaro que “passa por cima da vontade democrática da comunidade acadêmica do IFRN, intervém e nomeia reitor que nem sequer chegou a participar do processo seletivo”.

O Movimento de Trabalhadores Sem Terra (MST), a Marcha Mundial de Mulheres, a União Brasileira de Mulheres (UBM), o Levante Popular da Juventude, o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) e Amélias Mulheres do Projeto Popular também repudiaram a intervenção federal.

Comunidade Acadêmica

Revoltados, Professores, funcionários e estudantes bloquearam a entrada do IFRN na tarde da segunda para impedir a posse de Josué Moreira, médico veterinário e professor do IFRN no campus Ipanguaçu. O professor Carlos Eduardo Campos Freire pediu exoneração da função de diretor geral do campus Natal Cidade Alta. Ele disse que foi surpreendido pela nomeação arbitrária do colega Josué e que a justificativa não veio com nenhuma fundamentação jurídica. “Dessa forma não posso compactuar em ficar um dia sequer nessa gestão”.

Apesar de não ter participado do processo eleitoral de escolha do novo reitor, em nota, ele disse que não entende “que houve intervenção política” e que tem “condições técnicas para assumir e conduzir os rumos do IFRN”.

Josué já foi candidato à Prefeitura de Mossoró em 2016 pelo Partido Social Democrata Cristão (PSDC) e teve 1,04% dos votos válidos: 1.370 ao todo. Em 2018, se filiou ao Partido Social Liberal (PSL), a então sigla do presidente da República Jair Bolsonaro.

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22 Apr 13:25

Página 5: Lembrar de Tiradentes é necessário quando um presidente ataca a liberdade

by Lucas Figueiredo

51T3pvo0OCL._SR600,315_SCLZZZZZZZ_Ano passado, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem, o prêmio Jabuti foi para Josélia Aguiar pelo trabalho feito em “Jorge Amado” (Todavia). Tivesse ido para um dos outros quatro finalistas, no entanto, também estaria em ótimas mãos. Falo de Lucas Figueiredo e seu “O Tiradentes”, que busca reconstruir a história de vida do revolucionário cuja morte completa 228 anos hoje. “Biografar Joaquim José da Silva Xavier é embrenhar-se numa fresta escura. De um lado, pela cavilação das fontes disponíveis; de outro, pela escassez de registros – basta dizer, de início, que é impraticável descrever os aspectos físicos de Tiradentes”, escreve o jornalista no final do volume.

Tateando por uma infinidade de documentos, Lucas sai dessa fresta escura com um rico material em mãos e oferece ao leitor uma ótima reconstituição histórica, com destaque para a maneira como o autor trabalha os cenários e os ânimos da época

Ler “O Tiradentes” é fazer uma viagem no tempo. É, de cara, deixar um pouco de lado esses dias tão complicados para se situar no Brasil do final do século 18, quando alguns rebeldes ousaram imaginar um país independente, livre da opressão da Coroa Portuguesa. Enquanto a produção de ouro diminuía nas minas gerais e a realeza entuchava impostos goela abaixo dos mineiros, os ares locais pareciam cada vez mais propensos à ruptura. “A Coroa não estava interessada em fazer de Minas – ou do Brasil – um lugar decente para se viver. Portugal não tinha um projeto para a colônia; queria apenas lucrar o máximo possível da forma mais rápida e com o menor custo”, lembra Lucas. Mesmo vivendo em um lugar onde a impressão de livros e a edição de jornais eram proibidos, intelectuais mineiros estavam por dentro do que acontecia na Europa e na América do Norte. O Iluminismo ganhava força, os Estados Unidos conseguiam sua independência após a Revolução Americana e, na França, o pescoço do rei começava a ser ameaçado pelas tramas que culminariam na Revolução Francesa.

A trajetória de Tiradentes ajudou a forjar o revolucionário tupiniquim. Numa época em que certos profissionais apostavam em tratamentos feitos com osso de coxa de sapo, dente de toupeira viva, gordura de rã ou pó de lagarto, foi um dentista competente, o que lhe abriu muitas portas. Atuando como mascate, também se aproximou de humildes e poderosos, além de conhecer a fundo as picadas de Minas e do Rio. Como militar, enfim, encontrou apoio para tramar contra o rei e sonhar com a liberdade. Mas, não tem jeito, sempre que olhamos para a história do Brasil, notamos que o presente reflete muitos traços do nosso passado. Thomas Jefferson, um dos líderes da Revolução Americana, esteve à sombra dos revolucionários mineiros, já indicando uma dependência (ou, pior, subserviência) que viríamos a ter dos Estados Unidos. A Justiça, por sua vez, era assumidamente arbitrária. Leis estipulavam que os “homens bons”, “bem reputados”, os cidadãos de outrora, não deveriam ser importunados com processos ou prisões, mesmo que, por ventura, cometessem algum crime. Nesse ponto, dois séculos depois, estamos mais dissimulados, fingimos ter leis que se aplicam da mesma forma a qualquer brasileiro.

O final da história de Tiradentes todos conhecem. Apunhalado pelas costas, viu a revolução fracassar. Foi pintado como demente, bêbado, devasso…. Acusado de trair a sua majestade, passou anos preso. Alvo de um julgamento manipulado, terminou enforcado e esquartejado. Sobre seu cadáver, gente graúda enchia a boca para falar dos “benefícios da colonização” e as “delícias da subserviência”. “No alto do patíbulo, enquanto o cadáver de Tiradentes pendulava preso à corda, o frei Penaforte recitou o versículo 20 do capítulo 10 de Eclesiastes: ‘Não digas mal do rei, nem mesmo em pensamento; mesmo sozinho dentro do teu quarto, não digas mal do poderoso. Porque um passarinho pode ouvir e depois repetir tuas palavras’. Terminada a leitura, em tom de repreensão, o frade apontou a causa de todo aquele horror: o ‘louco desejo de liberdade”‘, escreve Lucas ao reconstituir a morte de seu biografado. O louco desejo de liberdade. Num Brasil em que o próprio presidente bate continência para a bandeira de outro país e prega a favor da ditadura (ou seja, contra a liberdade de seu povo), a memória de Tiradentes se faz necessária. Num país em que o presidente diz ser a própria Constituição, olhar para o que acontecia em alguns cantos do mundo naquele final de século 18 pode ser inspirador.