Estuda, Melania, Estuda!
Nota 9,96 — PQ-A, CNPq. Não foi de repente.
Sobre o resultado preliminar da Chamada CNPq nº 23/2025 — Bolsas de Produtividade em Pesquisa, sobre as quase quatro décadas que cabem dentro deste número, e sobre o que custa ser mulher no topo da ciência brasileira.
Tenho em mim todos os sonhos do mundo.
— Álvaro de Campos
Nove vírgula noventa e seis. O número que cabe em quase quatro décadas.
O resultado, em linguagem fria
Saiu o resultado preliminar da Chamada CNPq nº 23/2025 — Bolsas de Produtividade em Pesquisa. PQ-A, nota 9,96. Quinto lugar entre todos os bolsistas de produtividade A em Medicina no Brasil inteiro. Única do Nordeste. Única mulher PQ-A em Ginecologia e Obstetrícia do país nesta chamada. A um centésimo do topo absoluto da pesquisa médica brasileira fora de São Paulo.
A Chamada CNPq 23/2025 distribui as Bolsas de Produtividade em Pesquisa segundo categorias de mérito. No topo da pirâmide está a categoria PQ-A (que reúne, no novo sistema, as antigas 1A e 1B), reservada a pesquisadores com trajetória consolidada, liderança internacional, formação de recursos humanos em volume e impacto demonstrável no seu campo. Nesta chamada, em toda a Medicina brasileira, foram aprovados 40 pesquisadores PQ-A. Cinco deles fazem Ginecologia e Obstetrícia:
1. José Maria Soares Junior (HCFMUSP) — 9,99 — ginecologia endócrina
2. José Guilherme Cecatti (UNICAMP) — 9,98 — obstetrícia/saúde materna
3. Melania Maria Ramos de Amorim (IMIP) — 9,96 — obstetrícia/medicina materno-fetal
4. Ricardo de Carvalho Cavalli (FMRP-USP) — 9,79 — obstetrícia/gestação alto risco
5. Fernando Marcos dos Reis (UFMG) — 9,65 — ginecologia/reprodução
Em obstetrícia stricto sensu (saúde materna, gestação de alto risco, parto, medicina materno-fetal), somos três no Brasil: Cecatti, eu e Cavalli. Dois centésimos separam o primeiro do segundo. Em linguagem cienciométrica, isso é estatisticamente indistinguível de empate. Sou, ainda, nesta Chamada, a única mulher PQ-A em Ginecologia-Obstetrícia do país nesta chamada, a única não-paulista, a única nordestina.
São fatos. Estão na planilha pública do CNPq. Qualquer pessoa pode verificar.
Mas não foi de repente
A trajetória real: zigue-zagues, um marco riscado, um ano perdido — e a bandeira no cume.
A frase mais perigosa que vão dizer sobre este 9,96 — e já estão dizendo, em mensagens carinhosas que recebo desde ontem — é “que merecido, sempre soubemos, era questão de tempo”. Como se a trajetória fosse linear. Como se eu tivesse subido degraus na ordem. Como se um dia o CNPq tivesse me descoberto e dito enfim, é dela.
Não foi assim. Nada na ciência brasileira é assim. E menos ainda para uma mulher do Nordeste.
Meu primeiro pedido de bolsa de produtividade do CNPq foi em 2007 — há quase vinte anos. Eu já era doutora pela UNICAMP desde 1998, orientada pelo Professor Faúndes, com publicações em periódicos internacionais, com produção sustentada, com coorientação ativa em pós-graduação no IMIP havia quase uma década. Submeti aquele primeiro pedido no comitê de Saúde Coletiva, porque o projeto que apresentei tinha esse perfil — epidemiologia, saúde pública, desenhos populacionais.
Foi negado. Sob uma alegação que entrou para a minha lista pessoal de absurdos a contar para alunos: disseram que eu não tinha experiência com estudos de coorte. Eu, que já havia conduzido e publicado estudos de coorte. Eu, formada em metodologia por Faúndes na UNICAMP, onde a coorte é pão diário. Eu, com artigos publicados em periódicos indexados desenhados exatamente como coortes. Não tinha experiência com coorte. Engoli, abandonei a Saúde Coletiva como porto de entrada — e a partir dali, da Medicina eu não saí mais. Toda submissão posterior foi pelo comitê de Medicina. E foi assim que cheguei até aqui, ironicamente, pela Medicina: porque a Saúde Coletiva, em 2007, me disse que eu não sabia o que eu sabia.
Engoli, voltei a trabalhar, segui orientando teses, segui escrevendo artigos, segui no plantão da maternidade pública — ajudando, como sempre digo e farei questão de repetir aqui, mulheres a darem à luz seus bebês. Quem pare, quem dá à luz, é a mulher. Eu sou só quem ajuda. Essa distinção, que parece menor, é a primeira lição feminista da obstetrícia decente. Continuei ali, no plantão, na escrita, na orientação, na maternagem do meu filho André (o único que existia na época, já com diagnóstico de autismo).
Meu segundo pedido eu consegui. Mas veio com uma armadilha: a bolsa de produtividade saiu junto com a bolsa de pós-doutorado sênior. As normas do CNPq não permitem acumular as duas. Tive que esperar um ano inteiro — um ano em que já era oficialmente “PQ” no papel, mas sem receber, sem usar, sem efeito prático. E quando finalmente, no ano seguinte, a bolsa de produtividade começou a vigorar, eu já tinha uma criança nova nos braços: meu adorado Joaquim, o Pirulito Jox, nascido em 2010. Bolsa nova, bebê novo, trabalho dobrado. Jox dormiu no meu quarto até passar dos dois anos. Eu escrevia projeto com bebê acordando para mamar, lia artigo entre uma mamada e outra, abria sessão do CNPq quando ele dormia. Bolsa de produtividade nível inicial, vida materna em plena ebulição, ciência ocupando os intervalos do cuidado.
E ainda assim eu produzia, submetia, orientava. Por um ano inteiro depois disso, mais um filho crescendo, eu perdi o prazo de submissão da renovação. Não por distração. Por sobrecarga simples e brutal. Mãe de bebê pequeno, depois mãe de criança pequena (também com diagnóstico de autismo), ainda obstetra de plantão, ainda professora, ainda orientadora, ainda redatora de manuscrito, ainda revisora cega para periódico internacional. Um ano sem tentar — e o CNPq me devolveu para o começo. Não há clemência institucional para a maternidade. Não há ajuste razoável para o cuidado integral de uma criança autista. Quem para, recomeça. Voltei para o nível inicial. Voltei a subir.
A partir dali, aí sim, sempre subindo. PQ-2, PQ-1D, PQ-1C, e agora PQ-A, no novo sistema de três níveis (A, B, C) que substituiu a antiga gradação de cinco níveis. Com os filhos crescendo. Com a casa em pé. Com plantão, com aula, com Manual do Ministério, com o trabalho como Editora Associada do Tratado de Obstetrícia de Rezende e finalmente como Editora Chefe da RBSMI. Sempre subindo — mas saindo do zero porque o sistema não me esperou quando eu mais precisei que esperasse.
Os pedidos que não saíram, os artigos que voltaram
O sucesso visível é apenas a ponta. Tudo o que o sustenta está submerso.
Quando alguém olha um pesquisador com 401 artigos publicados, H-index 62 no Google Scholar e H-index 37 no Web of Science, 11.746 citações, 494 revisões científicas verificadas no Publons (99º percentil), mais de 50 dissertações e teses orientadas, editora-chefe de duas das maiores publicações brasileiras de saúde materna — quando alguém olha isso, vê uma estátua pronta. Uma figura completa, como se sempre tivesse sido assim.
Não é assim. 401 artigos publicados significam, na proporção realista da carreira científica, pelo menos 200 manuscritos rejeitados ao longo de quase quatro décadas. Manuscritos devolvidos sem revisão. Manuscritos rejeitados após meses de espera. Manuscritos que rodaram em quatro, cinco periódicos até serem aceitos em um menor. Cada rejeição vem com cartas que demoram dias para serem digeridas. Você lê, fecha o computador, chora um pouco se for o caso, abre de novo no dia seguinte, responde aos comentários, reescreve, ressubmete. Faz isso há quase quarenta anos.
E significam também muitos, muitos projetos de pesquisa submetidos a editais e recusados. Eu acumulei aprovações importantes no CNPq, na CAPES, na FACEPE, em editais temáticos do Ministério da Saúde — mas, em paralelo, acumulei rejeições nos mesmos órgãos, em chamadas que para fora pareciam triunfos lineares e para dentro tinham gosto de derrota engolida. Cada chamada vencida foi também testemunha de cinco que não saíram. Não há triunfo limpo na ciência brasileira; há o triunfo final coexistindo, na mesma planilha de Excel, com a coluna das derrotas anteriores.
A FAPESP — agência paulista, uma das maiores e mais bem orçadas da América Latina — eu nunca pude submeter sozinha, porque a regra é geográfica: só pesquisadora vinculada a instituição paulista submete à FAPESP. Tentei, uma única vez, em um edital conjunto FAPESP + FAPESQ-PB, exatamente para furar essa barreira. O edital foi atravessado pela pandemia da COVID-19, ficou em suspenso administrativo, nunca teve resultado divulgado. Submetemos, esperamos, engolimos o silêncio. Existe, em algum disco rígido institucional, um projeto inteiro nosso que ninguém leu até hoje. A geografia da ciência brasileira é uma cerca invisível que separa quem pode submeter para a FAPESP de quem só pode submeter para fundações estaduais com orçamento dez, vinte vezes menor.
E significam também, no caso específico desta bolsa que acabou de sair, mais de quinze dias das minhas férias inteiramente dedicadas à submissão. Eu estava em João Pessoa. Não fui à praia. Não fui uma única vez. Passei dia após dia, manhã, tarde e noite, montando o projeto institucional — que precisa contemplar todos os meus projetos financiados em andamento —, atualizando o currículo Lattes linha por linha, conferindo cada DOI, cada ISBN, cada ano de cada produção, e tentando preencher o sistema do CNPq, que cai com regularidade frustrante, que perde dados, que exige refazer formulários inteiros porque uma sessão expirou. E tudo isso acumulado com a preparação e editoração dos capítulos da 15ª edição do Rezende — Obstetrícia, sob a editoria geral do Prof. Jorge Rezende Filho — o tratado brasileiro mais importante da especialidade, para o qual contribuo há anos, e cujos prazos não coincidem com a vontade do CNPq.
Foi ali, naquelas duas semanas em João Pessoa que eu não vi a praia, que este 9,96 começou a tomar forma. E é por isso que a frase “foi de repente” me machuca tanto: porque apaga o trabalho. Apaga as férias. Apaga as madrugadas. Apaga as quase quatro décadas anteriores sem as quais o 9,96 não existiria.
E ser mulher complica tudo. Muito.
De um lado, matrazes e livros. Do outro, mamadeira e relógio. O cuidado é uma das lâminas.
Eu poderia escrever este texto sem este capítulo. Seria mais palatável. Seria mais “celebratório”. Mas eu não sou esse tipo de autora, e ser mulher na ciência brasileira é uma variável que não pode ser silenciada quando se fala em 9,96 da Chamada CNPq 23/2025.
Os dados são públicos e impressionantes. Em estudo recente sobre bolsistas PQ-1A em matemática, física e química, foram identificados 141 bolsistas — 129 homens e apenas 12 mulheres, ou seja, 8,5%. Em duas décadas analisadas, o percentual de mulheres com bolsa PQ tem se mantido praticamente constante, e o efeito tesoura — proporção muito maior de mulheres no PQ2 do que no PQ1A — é fenômeno documentado. Em uma década, o percentual das pesquisadoras no nível mais elevado da carreira aumentou apenas 1%. Historicamente, mulheres no topo absoluto da pirâmide científica brasileira representam entre 8% e 13% das bolsas, a depender da área e do recorte temporal.
Nesta Chamada 23/2025, em Medicina, somos 11 mulheres entre 40 PQ-A — 27,5%. É um avanço considerável em relação ao histórico. Mas continua sendo subrepresentação grave: mulheres são mais de 50% dos médicos formados no Brasil hoje (61,8% dos estudantes de Medicina, 50,9% dos médicos em exercício pela primeira vez em 2025), e 68% das doutoras tituladas em Ciências da Saúde — a maior proporção feminina entre todas as nove grandes áreas da CAPES. Em Ginecologia-Obstetrícia PQ-A nesta chamada, sou uma única mulher entre cinco bolsistas — 20%. O recorte mais fino, mais sintomático: a especialidade médica cuja clientela é, por definição, exclusivamente feminina, tem 80% de seus pesquisadores de topo do sexo masculino.
Mulheres no topo da pesquisa médica brasileira: o que avançou, e o quanto ainda falta.
A literatura sobre viés de gênero na ciência é vasta, robusta, mundialmente convergente. Mulheres recebem menos financiamento que homens com currículos equivalentes. Mulheres têm seus manuscritos rejeitados em proporção maior. Mulheres são citadas menos. Mulheres recebem cartas de revisores sistematicamente mais duras — estudo após estudo demonstra que pareceres anônimos sobre manuscritos com primeira-autora mulher contêm mais críticas pessoais ao “tom”, à “ambição”, ao “rigor” do que pareceres sobre manuscritos masculinos com qualidade idêntica. Estudos de currículos cegos repetidamente mostram que o mesmo CV, com nome masculino, é avaliado como mais competente e digno de salário mais alto do que com nome feminino. Em painéis avaliadores, “liderança” em homens é “assertividade excessiva” em mulheres — a mesma característica, lida com sinais trocados.
E há o caso, há poucos meses, da professora Maria Caramez Carlotto, da UFABC, que teve sua bolsa de produtividade do CNPq negada com a justificativa explícita de que suas gestações teriam atrapalhado o índice de produtividade. O caso virou pauta nacional, gerou regulamentação parcial, mas a lógica que ele revela continua viva nos comitês: mulheres que param para parir, amamentar, criar, são penalizadas no algoritmo da produtividade científica como se a vida reprodutiva fosse defeito.
E isso é só o que a literatura quantifica. A vida cotidiana acrescenta camadas que nenhum estudo captura inteiramente:
— Ser interrompida em reuniões científicas onde os homens falam mais alto e mais longo, com menos conteúdo.
— Receber comentários sobre roupa, peso, voz, maquiagem em eventos onde o que está em pauta é a ciência.
— Ter de provar três vezes para ser ouvida uma vez.
— Carregar simultaneamente, sem rede de apoio comparável à dos pares masculinos, o trabalho de cuidado: filhos, mãe idosa, casa, agenda familiar inteira, calendário escolar dos filhos, médicos, dentistas, festas, recados. Tudo isso enquanto se escreve protocolo de pesquisa.
— Ouvir, periodicamente, que você é muito intensa, muito polêmica, muito arrogante, muito ideológica, muito feminista — adjetivos que jamais seriam aplicados a um homem na mesma posição defendendo as mesmas teses com a mesma firmeza.
— Receber conselhos (sim, mesmo aos 58 anos) de como me vestir, me comportar, o que devo postar em minhas redes sociais, não falar palavrão (e eu falo até pouco, mas NADA se compara com um bom e esplêndido palavrão — daqueles DO CARALHO — bem colocado.
— Ser uma obstetra mulher defendendo o parto humanizado, a autonomia reprodutiva, o fim da violência obstétrica, em um campo historicamente masculinizado onde essas pautas foram tratadas, durante décadas, como “menores”, “ativismo”, “não-científicas”. Ouvir isso de pares homens com metade da produção que eu tenho. Ouvir isso de participantes de debates e mesas redondas sem fim nos Congressos da Febrasgo
— até a Febrasgo resolver o problema me boicotando de vez (e há 3 anos não sou mais convidada para os congressos brasileiros de Ginecologia e Obstetrícia).
— Ser autista, mulher, do Nordeste — uma interseção que, na ciência brasileira, é estatisticamente quase invisível. Ter de aprender, sozinha, a navegar códigos sociais acadêmicos que são feitos para outros tipos de corpos e cérebros.
— E, ainda assim, produzir. Ainda assim publicar. Ainda assim orientar gerações inteiras. Ainda assim subir, devagar, contra a maré, do zero ao PQ-A.
Não digo isto para acumular sofrimento. Digo isto porque o 9,96 é injustiçado quando lido como triunfo isolado. Ele é, mais honestamente, a prova de que mulheres pesquisadoras do Nordeste conseguem chegar ao topo absoluto da ciência médica brasileira apesar de um sistema que opera, consciente e inconscientemente, contra elas. Cada décimo daquela nota foi disputado contra uma estrutura. Nenhum décimo foi dado de graça.
E o número se torna, por isso, político. Ele não é só meu. Ele pertence a todas as mulheres pesquisadoras do Nordeste que vieram antes e abriram caminho, e a todas as que virão depois, que olharão para este 9,96 e saberão que é possível.
A casa científica
Nada disto teria acontecido sem o IMIP. Cheguei jovem e fiquei. Há mais de 27 anos sou docente do Programa de Pós-Graduação em Saúde Integral do IMIP — o programa que me acolheu como pesquisadora iniciante e que hoje, com dezenas de teses orientadas, é parte indissociável da minha identidade científica. O IMIP é uma instituição privada, filantrópica, situada em Recife, que sustenta há décadas um padrão de pesquisa científica que rivaliza com qualquer universidade pública do eixo Sudeste-Sul, sem dispor da mesma infraestrutura nem do mesmo orçamento. Que o IMIP tenha, nesta chamada, quatro bolsistas de produtividade aprovados — eu (PQ-A, 9,96), Leila Katz (PQ-C, 9,12), Alex Sandro Rolland de Souza (PQ-C, 9,08) e João Guilherme Bezerra Alves (PQ-C, 8,88) — é prova viva de que o Nordeste produz ciência de primeira linha quando lhe é dada a chance.
Leila Katz é minha parceira de quase três décadas. Co-PI em incontáveis projetos, coorientadora de teses, amiga, irmã científica. Alex Sandro Rolland de Souza é editor executivo comigo na RBSMI, companheiro de tantas batalhas editoriais e científicas. João Guilherme Bezerra Alves é nosso diretor — e essa bolsa de produtividade dele é, simbolicamente, a confirmação de que liderar uma instituição não impede continuar pesquisando.
E o IMIP, é preciso dizer, não chegou aqui sozinho. A UFCG (Universidade Federal de Campina Grande), minha segunda casa, onde sou Professora Titular há anos, também está representada com brilho nesta chamada — com dois bolsistas PQ-A nota 10,00 (Hans Raj Gheyi em Engenharia Agrícola, Cursino Brandão Jacobina em Engenharia Elétrica), com Sergio Santos de Azevedo na Veterinária com a mesma nota minha (9,96), e com mais de cinquenta bolsistas distribuídos pelas suas áreas-fortaleza. Em Medicina, ainda, somente eu — e isso, como tenho dito, é sintoma das assimetrias regionais que precisam ser corrigidas, não uma desvaloração da instituição que tanto me dá.
A quem dedico
À minha mãe Léa, historiadora aposentada, 84 anos, que me ensinou que estudar é forma de liberdade e que ser autônoma é forma de amor-próprio. Ao meu Pai, ausente fisicamente mas vivo em cada decisão de carreira, em cada teimosia diante de “não”. Esta conquista é, antes de qualquer coisa, de vocês.
Aos meus filhos André (biólogo, doutorando no IMIP) e Joaquim, meu Jox (15 anos, que dormiu no meu quarto até passar dos dois e cuja chegada em 2010 reorganizou todos os meus prazos científicos sem que ele soubesse) — minha vida fora da medicina, minha razão maior. Vocês cresceram vendo a mãe escrevendo de madrugada, lendo nos intervalos do almoço, viajando para congressos, perdendo aniversários, e nunca cobraram. Vocês entenderam, antes mesmo de saberem o que entendiam, o que é uma mulher pesquisadora. Tudo é por vocês.
Ao meu mestre Aníbal Faúndes (UNICAMP), que me orientou no doutorado e me ensinou que metodologia científica não é detalhe técnico — é compromisso ético com a verdade e com as mulheres. Dedico esta conquista a ele e ao meu Pai. As duas pessoas que mais me formaram. Faúndes plantou, na UNICAMP, as árvores que hoje ocupam as duas primeiras posições do ranking PQ-A em obstetrícia brasileira: Cecatti em Campinas, eu em Recife. Justiça histórica registrada.
Ao IMIP, minha casa-mater e meu berço científico — onde a obstetrícia em que eu acredito tem chão para existir. Ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Integral do IMIP, do qual sou docente há mais de 27 anos: cada mestre, cada doutor, cada aluna que orientei está, de algum modo, dentro deste 9,96.
À UFCG, minha segunda casa institucional, e ao programa de pós-graduação onde também atuo, pelo abrigo e pela parceria de décadas.
À UNICAMP, onde fiz doutorado e pós-doutorado, onde aprendi epidemiologia, ensaio clínico e revisão sistemática. Devo a vocês minha disciplina metodológica e meu rigor.
À Organização Mundial da Saúde, onde refinei revisão sistemática e GRADE no pós-doutorado, e onde compreendi, definitivamente, que evidência científica e direitos humanos das mulheres não são pautas separadas — são a mesma luta.
A todos os meus colaboradores diretos e indiretos — Leila, Alex, Lygia Vanderlei, Anna Catharina, Marcelo Marques, Tatianne, Priscila, Filipe, e tantos outros — e a todas as mulheres que me confiaram seus partos, suas gestações, seus corpos. Vocês são a razão final.
A última palavra
Por mais títulos que eu acumule — Professora Titular, Editora-Chefe da RBSMI, Pesquisadora PQ-A, autora de 401 artigos, revisora de 492 manuscritos, H-index 62 (Google Scholar) e 37 (Web of Science), citada mais de 11 mil vezes —, o maior título que tenho, o único que de fato importa, o que carrego como identidade antes de qualquer outra, é este:
Médica de mulheres.
E continua valendo, e continuará valendo até o último dia:
Estuda, Melania, estuda.
Porque agora, com PQ-A no bolso, eu volto exatamente para onde eu estava ontem — para a próxima manuscrita do NCOVIP, para a leitura crítica da semana, para o ambulatório de gestação de alto risco do HMA, para a edição do próximo número da RBSMI, para os capítulos da 15ª edição do Rezende sob a editoria geral do Prof. Jorge Rezende Filho. A bolsa não é fim. É insumo. É chão. É a renovação institucional de uma promessa que fiz há quase quarenta anos, em alguma sala da medicina dos anos 1980, sem saber direito o que estava prometendo, mas sabendo, no fundo, que era para a vida inteira.
Segue.
O título acima de todos os títulos.
Melania Maria Ramos de Amorim
Professora Titular do IMIP e (quase) da UFCG. Editora-chefe da Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil (RBSMI). Pesquisadora PQ-A do CNPq. Obstetra e pesquisadora em medicina materno-fetal. Mulher autista, feminista, mãe. Recife / Campina Grande, Brasil.
Estuda, Melania, estuda.
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Médica Ginecologista e Obstetra | CRM 5454 — RQE 2567
Cientista, pesquisadora, feminista e divulgadora científica
Estuda, atende e pesquisa na área de Ginecologia e Obstetrícia há mais de 35 anos
Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq 1C — Aprovada para Nível A
Estuda, Melania, Estuda!










