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16 Jan 12:54

Foi assim. Desse jeito.

by elikatakimoto

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Foi aos poucos. Uma coisa assim não acontece de uma hora para outra.

Eu andava de salto alto e roupa justa. Juro. Sempre passei um lápis pelo menos no olho para sair de casa. Unhas pintadas de segunda a segunda. Era dessas.

Até que um dia eu resolvi sair de tênis. Ficou bonitinho com um vestidinho florido e consegui dar passadas largas e saltitar quando ficava feliz na rua. Gostei da experiência.

Daí resolvi colocar uma calça jeans (no lugar da saia) e tênis. Não ficou, a la dialeto da Damares, muito feminino. Mas vá lá. A blusinha apertadinha e com um decote suave dava uma equilibrada.

Aí vi umas calças estampadas vendendo numa feirinha com um tecido leve como a consciência de quem votou em Bolsonaro e ainda não entendeu o que tá conteseno. Coisa da índia feita em Madureira. Maravilha, gente. Nem sinto que estou vestida. Com tênis largo então ficou ó. Maravilha.

Daí que o sutiã começou a incomodar também. Passei a usar esses tops de ginástica com um tamanho acima do meu. Perfeito perfeito perfeito. Amei as muchiba balançando.

A M E I.

Mas marcava as brusinha justa.

O jeito foi usar camisas largas também.

Volto a dizer que esse processo levou anos. Portanto, não sejam rápidos no julgamento.

Até que chegou o dia em que parece que passei um pouco do limite de andar pelas ruas confortável e não avisei aos responsáveis para preparar as crianças do Brasil para essa fase que alcancei.

(Tênis para quê se temos chinelos?)

Hoje, na fila do embarque aqui voltando de São Luís do Maranhão para o Rio, uma menininha de uns seis aninhos apontou para mim e falou gritando para a mãe e mais para quem quisesse ver:

– Mãe! Olha a moça de pijama!

Ah gente…

16 Jan 12:54

Sobre Venezuela, PT, Gleisi e eu com tudo isso.

by elikatakimoto

LK2

 

Ser filiada ao PT não é para os fracos, pois somos cobrados não somente pelos nossos erros – inerentes a qualquer pessoa que tente acertar e faça alguma coisa – como também para dar explicação sobre tudo o que acontece nesse Brasil.

Temos que ser onipresentes nas redes e oniscientes em leis, em história, em geografia, em economia e até em genética para conversar com simpatizantes de Damares. Se deixarmos de falar sobre algo, somos acusados rapidamente de estarmos fugindo ao debate.

Não comentei a ida da Gleisi à Venezuela para a posse de Maduro de forma imediata porque simplesmente não podia me balizar para emitir opinião em cima do que a grande mídia mostra. O fato de ter sido candidata ano passado me deixou claro isso (testemunhava uma coisa acontecer na minha frente e via outra completamente diferente ser noticiada). Tampouco quando conversei com venezuelanos de forma particular me senti preparada para explanar sobre o assunto. Cada um falou uma coisa.

Imagina alguém de fora querendo entender o que ocorre com o Brasil entrevistando duas pessoas: uma que apoia Bolsonaro e outra, como eu, radicalmente contra tudo o que ele tem feito. Cada pessoa diria uma coisa. Ambas vivendo no mesmo país, vendo as mesmas medidas sendo tomadas e, ainda assim, contariam uma história completamente divergente. Dessa forma aconteceu comigo quando conversei com quem mora na Venezuela.

Daí, a gente faz como? No meu caso, saí catando artigos e livros que se complementassem de uma certa forma. Isso levou um certo tempo.

Tentei resumir o máximo que entendi. Não coloquei números para não deixar o texto muito pesado, mas eles são de fácil acesso. Ao final, vou colocar o que penso sobre a ida da Gleisi à posse de Maduro em cima da minha vivência no partido.

Para começar, precisamos todos ter consciência de que:

– a Venezuela está sentada na maior reserva provada de petróleo do mundo;

– os EUA são os maiores consumidores de óleo do planeta e

– a distância entre EUA e Venezuela é bem menor do que entre EUA e o Oriente Médio. Medida em tempo, a diferença dessa distância é em torno de 30 dias de navio.

A exploração não começou agora e sim desde o início do século passado, quando a exportação de petróleo se dava principalmente para o mercado norte-americano. EUA e Venezuela viviam como um casal recém-casado com o marido se metendo na vida da esposa e controlando cada passo.

A Venezuela chegou a ser a maior exportadora de petróleo do mundo. Mas como ‘crescimento econômico’ e ‘diminuição de desigualdade social’ não são sinônimos, a pobreza crescia a olhos vistos e o controle do maridão seguia firme e forte com a esposa cada vez mais dependente do macho opressor. Sequer ela podia conversar com outros países sobre políticas econômicas.

Como todo controlador precisa manter as rédeas e garantir seu poder, articulado pelo próprio EUA, foi criado o Pacto de Punto Fijo, pelo qual os partidos tradicionais e conservadores alternavam-se no poder impedindo a entrada de novos partidos. Isso foi em meados do século passado.

Saía um partido conservador e entrava outro nessa “democracia”. O voto era facultativo e era como se tivéssemos zonas eleitorais somente no sul e sudeste do Brasil. Grande parte da população pobre não votava e prefeitos e governadores eram nomeados pelo presidente. Temos registros de vários jornalistas que se manifestaram contra tudo isso que foram presos nessa época.

O casamento, com todo esse controle, seguia estável com outras medidas sendo tomadas para garantir essa firmeza (leiam sobre a Doutrina Betancourt). Lembrem-se que “casamento estável” não é sinônimo de um “casal feliz”. Neste caso, a esposa seguia cada vez mais isolada diplomaticamente sem poder conversar com outros partidos e até mesmo com seus vizinhos (que na época viviam sob uma ditadura) como o Brasil.

Lá no final do século passado, havia muito petróleo a tal ponto de mexer com o preço dessa commodity diminuindo-o consideravelmente no mercado internacional. Outros fatores como crises e pobreza interna fizeram com que a Venezuela buscasse saídas e fosse timidamente conversar com outros países. Lentamente, a Venezuela começou a inserida em outros cenários e relações.

Pobreza é forma de falar bem genérica. Parecia que o negócio lá era muita miséria mesmo. Um pouco menos da metade vivia na pobreza extrema mesmo com a Venezuela tendo a maior reserva de óleo do mundo. Um a cada cinco venezuelanos passava fome. Saúde e educação iam na mesma esteira. Os números são horrorosos. A mortalidade infantil era quase o dobro da brasileira de hoje.

No final do século passado, com o país nesse caos e nessa miséria, começaram as manifestações populares duramente reprimidas pela força local. Gente a beça morreu e universidades foram fechadas. Gente pobre vale observar. Mil. Dois mil. Três mil.

Uma coisa estava clara. O casamento EUA-Venezuela havia chegado no limite e o divórcio era iminente. Nesse contexto, surgiu Hugo Chávez como um salvador. Ele mandou às favas a política de relação única com os EUA, modificou várias estruturas e conseguiu melhorar os índices de pobreza. A quantidade de gente que passou a comer melhor foi alarmante. Chávez implementou várias políticas sociais que beneficiaram o povo mais pobre e os idosos. Além disso, conseguiu diminuir a mortalidade infantil e aumentar o número de hospitais. As universidades estavam cheias de gente estudando e a Venezuela chegou a ser o quinto país com maior proporção de estudantes universitários no mundo. Para se ter uma ideia, a Venezuela, nessa época, teve o maior programa de habitação popular da América Latina.

O país do petróleo entrou para a Mercosul e rompeu com aquela vida de esposa dependente passando a investir em outras relações bilaterais como a que teve com o Brasil, na qual saímos, economicamente falando, beneficiados (pois ela comprava muita coisa nossa e facilitava para que também comprássemos dela).

Uma nova fase, literalmente, havia chegado.

A Venezuela se aproximou de vários países e ainda se colocou de forma categórica contra políticas impostas pelos EUA. Começou a vender petróleo pelo preço que quisesse para quem ela quisesse, digamos assim. Teve muito pobre deixando de ser pobre nesse contexto. Muita gente que era invisível foi empoderada e mobilizada politicamente naquela conjuntura.

O macho aceitou? Claro que não. Voltou para matar a ex-esposa que não queria mais ser exclusivamente dele. Chávez quase foi executado no início deste século, como alguns devem lembrar. Os conservadores jamais aceitam perder. Foi um quiprocó dos diabos. Golpe e mais golpe de todos os lados. Teve até estatal de petróleo parando de funcionar, o que fez com que a inflação disparasse, o desemprego aumentasse e faltou até gasolina no país com a maior reserva de petróleo do mundo.

Macho embuste quando perde poder prefere ter a mulher toda quebrada e cheia de hematomas ao lado dele do que ver a ex de salto alto desfilando por aí.

Ainda assim, no meio dessa confusão, tinha eleições e a imprensa era livre, vale observar.

Chávez morreu em 2013. Isso deu esperança para a oposição que, óbvio, queria voltar ao poder. O que aconteceu? Maduro venceu as eleições quase na mesma emoção que vimos com Dilma e Aécio. Disputa acirradíssima.

A oposição não aceitou a derrota e foi para as ruas de forma violenta. Era fogo aqui, fogo lá. Bomba pra cá, bomba acolá…

Vou fazer uma pergunta: quem tinha interesse em noticiar essa bagunça nas ruas para dar a narrativa que lhes favorecesse e contar para o mundo inteiro sua versão? Dou um bombom para quem acertar.

Parabéns. É seu.

Quase cinquenta pessoas morreram, a maioria chavistas ou pessoas sem afiliação política, e equipamentos públicos foram destruídos. Temos indícios fortes para acreditar que há uma conexão entre a extrema direita da Venezuela com grupos de extermínio de outros países que apostam sistematicamente na violência como arma política preferencial.

Chávez foi perfeito? Claro que não. Muito menos santo. Isso é fato. Ele não conseguiu fazer, por exemplo, com que a economia venezuelana se livrasse da dependência das exportações do petróleo e melhorar de forma eficiente a agricultura e indústria da Venezuela. Assim, o gasto público dependia principalmente da renda petroleira. Com a grande queda dos preços, de novo, dessa commodity a partir de 2012, a economia da Venezuela passou a enfrentar grandes dificuldades.

Pior do que tudo isso é haver uma guerra econômica contra a Venezuela que se utiliza do desabastecimento programado de bens essenciais, produzido pela especulação cambial e pelo boicote político. Não é simples explicar a falta de alimentos e remédios baseados em números. Precisamos conectar mais dados e correr atrás de informações.

Veja bem, os números mostram que de 2004 para 2014 houve um aumento de mais de 200% na importação de alimentos e de mais de 300% na importação de remédios. Um dos motivos da escassez de alimentos é que muitos são contrabandeados para o exterior, principalmente para a Colômbia, onde são vendidos com muito lucro. Outra parte é vendida no mercado interno, mas a preços excessivos, gerando inflação. Outro fato a considerar é que os depósitos em dólares de empresas venezuelanas no exterior cresceram quase 250% em apenas cinco anos. Ou seja, dinheiro para a importação há. O ponto é porque não estava sendo usado ali dentro e sim sendo desviado, pelo que tudo indica.

Além disso, o acesso ao crédito no mercado internacional está restrito e podemos dizer que a Venezuela sofre, desde 2013, com uma espécie de bloqueio financeiro não oficial.

Essa guerra econômica vem ajudando a radicalizar ainda mais o processo político na Venezuela. A violência se generalizou para ambos os lados e teve até gente que foi queimada viva.

Não há mais diálogo entre o Poder Executivo e a Asamblea Nacional. Assim sendo, a Venezuela agora está com uma guerra civil iminente. Por isso foi lançada a alternativa de uma Assembleia Constituinte há pouco, que criou uma oportunidade para que se estabelecesse um diálogo que superasse o atual impasse político e institucional.

A oportunidade não foi aproveitada pela “oposição democrática”, que a boicotou.

Sabemos o quanto se fala em Venezuela aqui no Brasil. Temer, por exemplo, fez da suspensão da Venezuela do Mercosul a sua diretriz principal em política externa, atuando como braço auxiliar dos EUA no subcontinente. Isso todos testemunhamos. O empenho do Brasil contra a Venezuela por Temer foi de tal ordem que a suspendeu duas vezes do Mercosul. Esse esforço do governo Temer para a desestabilização da Venezuela ganhou corpo, agora, com o governo Bolsonaro que quer se somar a um acirramento do bloqueio econômico contra a Venezuela e, possivelmente, a uma intervenção militar naquele país.

As dificuldades que o povo da Venezuela passa foram, segundo minhas leituras, agravadas pelas sanções e bloqueios econômicos impostos pelos EUA e seus aliados. A Venezuela é muito dependente de importações e há países como a Colômbia se recusando a vender até remédio. Como o povo vai parar de sofrer?

Qual a primeira coisa que foi pensada pela oposição depois que Maduro foi reeleito? Negar o reconhecimento de sua vitória, mesmo sabendo que ela foi acompanhada por centenas de observadores internacionais, que não a contestaram. Bolsonaro, sob essa ótica que lhes aponto, tem sido um facilitador para que os EUA invadam a Venezuela “para salvar os venezuelanos de Maduro”.

Quem sofre? Quem perde? Sempre ele: o povo mais pobre.

Isso posto, agora posso opinar. O que dona Gleisi foi fazer lá no meio dessa confusão dos diabos?

Antes de tudo, Gleisi foi ser coerente com os princípios do partido e com essa narrativa que lhes apresentei balizada por outras fontes que não incluem somente a mídia tradicional.

Vimos que há um movimento coordenado de intervenção sobre a Venezuela, patrocinado pelo governo dos Estados Unidos e por governos de direita na América Latina. Sabemos que nosso presidente bate continência, literalmente, para a bandeira americana.

O voto na Venezuela continua ser facultativo e Maduro foi eleito com quase 70% dos votos, numa eleição que teve três candidatos de oposição concorrendo e, como já dito, assistida e considerada legal internacionalmente.

Preciso de novo retomar o que já disse no início e, se possível, peço para que olhem no mapa a distância entre a Venezuela, detentora das maiores reservas de petróleo do planeta, e os EUA e entre os EUA e o Oriente Médio.

Será que há algum interesse de Bolsonaro, que até agora não apresentou uma proposta para diminuir a desigualdade social no nosso país, em ajudar o povo venezuelano?! Ou será que Bolsonaro está apoiando os Estados Unidos e quer avançar sobre essa reserva estratégica?  O governo de Maduro desestabilizado iria beneficiar a quem?

Se estivessem mesmo preocupados com mortes, com direitos humanos desrespeitados e com o povo sofrendo, por que não se importam com outros países também e só com a Venezuela? Qual o motivo de tanto foco?

O mesmo Bolsonaro que diz se preocupar com o povo da Venezuela a ponto de justificar uma invasão para “salvá-la” é o que acaba de assinar um decreto que permite a posse de armas como solução para diminuir a violência no Brasil. Quem acredita nesse discurso à luz dos lucros gigantescos das indústrias armamentistas?

Bem lembrado pela própria Gleisi, quando o ex-presidente George W. Bush quis comprometer o Brasil na guerra contra o Iraque, o ex-presidente Lula reagiu com altivez: “Nossa guerra é contra a fome”.

Não é preciso estar de acordo com Nicolás Maduro e com os processos institucionais venezuelanos para entender a necessidade da presidenta do maior partido de esquerda da América Latina ter estado presente nessa posse que, vale lembrar, contou com o prestígio de delegações de 94 países e organizações internacionais, enquanto Bolsonaro reuniu apenas 46 delegações estrangeiras em sua posse.

No mais, o PT sempre esteve presente em vários países em que os direitos do povo foram ameaçados, por interesses das elites e dos interesses econômicos externos. Pela sua essência, o partido que escolhi me filiar sempre foi solidário aos que mais precisam de apoio, e os governos liderados pelo PT sempre foram protagonistas de mediações para buscar soluções pacíficas. O partido sempre se pautou pelo respeito à autonomia e à soberania de todas as nações.

A não presença do PT na posse de Maduro significaria, sem dar margem para qualquer outra explicação, que nós também concordamos com a política intervencionista incentivada pelos Estados Unidos e com a adesão do atual governo brasileiro e outros governos reacionários.

Para além disso, Gleisi não foi representando o Brasil e sim o PT, mostrando para o mundo que o governo Bolsonaro contra a Venezuela tem forte oposição no Brasil.

No que pese a complexidade do assunto e o reconhecimento de que há infinitas formas de interpretar o mesmo fato, fica aqui minha modesta colaboração sobre esse histórico episódio e reafirmo o orgulho de fazer parte desse partido que tanto luta pelo povo.


Referências:

A Venezuela que se inventa: poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez, Gilberto Maringoni

Hugo Chávez sem uniforme: uma história pessoal, Alberto Barrera Tyszka e Cristina Marcano

Ensaios sobre a Venezuela: subdesenvolvimento com abundância de divisas, Celso Furtado

https://www.viomundo.com.br/politica/marcelo-zero-para-entender-a-venezuela-e-preciso-saber-como-era-antes-da-revolucao-bolivariana.html

Dragon in the Tropics: Hugo Chávez and the political economy of revolution in Venezuela, Javier Corrales e Michael Penfold

O Poder e o Delírio, Enrique Krauze

15 Jan 19:19

ONG ligada a Damares levou malária a indígenas isolados

by admin

Em seu diário, o missionário Nivaldo Oliveira de Carvalho, da Jocum, contava sobre viagem feita em 1995 rumo a territórios de indígenas isolados no Alto Rio Piranha, na Amazônia. “O diabo não esta satisfeito em perder terreno para nós e vai tentar o que estiver ao alcance para nos fazer recuar, voltar atrás”, escreveu. “Mas em nome do Senhor Jesus Cristo continuaremos até o tempo determinado pelo Senhor. Neste local, certamente nem a Funai, nem a Polícia Federal poderá nos encontrar”.

Terão sido republicanas as iniciativas da Jovens Com Uma Missão (Jocum), a ONG à qual pertence a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves?

A presença de missionários da organização tem sido apontada pela Fundação Nacional do Índio (Funai) nos últimos anos como uma ameaça à preservação cultural, à integridade do território e à própria vida dos indígenas Suruwahá, que vivem no sul do Amazonas, na região do Médio Purus, próximo da divisa com Rondônia.

O Ministério Público Federal tenta, desde 2003, expulsar o grupo evangélico do local, sem sucesso. A presença dos religiosos é apontada como causa de surtos de gripe e malária, doenças que não haviam atingido este povo. A população Suruwahá, que já é pequena, está em queda: de 145 pessoas, em 2004, para 137.

E tem mais: os missionários são acusados de escravizar indígenas, extração ilegal de sangue, contrabando de sementes (inclusive de mogno, uma das madeiras mais nobres da região) e construção de pistas de pouso clandestinas.

O roteiro da fé ganha toques de aventura, com utilização de radioamador pirata e missões secretas em busca de novos povos isolados. Três jovens missionários foram flagrados pela Funai em 1995 quando tentavam fazer uma expedição ilegal para tentar estabelecer contato com o povo isolado Hi-Merimã.

A Jocum se aproveitou de uma picada que havia sido feita pela Funai em 1983, ano do primeiro contato oficial dos brancos com os Suruwahá. Criticado por ter aberto um varadouro desde o Rio Cuniuá – habitado pelos ribeirinhos – até o centro das malocas, o coordenador da expedição, Sebastião Amâncio, alegou que fizera contato com um grupo missionário que se estabeleceria na região. A Jocum chegou lá dois anos depois.

Há informações da presença deles junto aos indígenas desde a década anterior. A primeira denúncia de furto de madeira data de 1988, quando 284 toras retiradas da área indígena Deni foram avistadas boiando no Rio Cuniuá. O responsável pelo desmatamento seria um missionário chamado Kelk, da Jocum (inicialmente identificada como Jovum), e Zena de Oliveira Lopes, o Zena Alecrim. Naquela época, a Funai já identificara quatro pistas de pouso dos missionários dentro de territórios indígenas.

No início dos anos 2000, uma nova denúncia contra a Jocum partiu da Associação Jupaú, do povo Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia. Segundo os indígenas, os missionários estavam comercializando ilegalmente sementes de mogno no exterior. A Jocum alegou que as operações faziam parte de um convênio com a Empresa Brasileira de Agropecuária (Embrapa), que não se manifestou sobre o assunto.

As denúncias de que os missionários tentavam abordar (e converter) indígenas isolados veio na década de 1990. Os diários de Nivaldo Carvalho, aquele do “nem a Polícia Federal poderá nos encontrar”, e de outros missionários foram apreendidos quando eles foram flagrados em território dos Hi-Merimã. Legalmente, a abordagem aos grupos isolados só pode ser feita pela Funai.

Os missionários do grupo já haviam sido flagrados na cabeceira do Rio Branco tentando fazer contato clandestino com os Hi-Merimã no início dos anos 1990. Uma correspondência interna da Funai mostra que os missionários tinham se instalado junto a essa etnia em meados dos anos 1980, sob o argumento de que não necessitavam de autorização porque a área indígena ainda não estava demarcada.

A Jocum alegou na ocasião que buscava os indígenas porque um grupo deles havia saído da mata e feito contato espontâneo com os ribeirinhos. Teriam chegado a morar com uma família, que teria assassinado todos os adultos do grupo, e permanecido com as crianças. Os missionários alegam que foram buscar o contato com os Hi-Merimã para reaproximar os órfãos do grupo.

A prática entre esses religiosos é comum até hoje. Em dezembro, a Funai interrogou o missionário batista estadunidense Steve Campbell, financiado pela Greene Baptist Church. Para chegar ao local, ele cooptou indígenas Jamamadi, que participaram de uma expedição da Funai em setembro. Mesmo sem autorização para morar no local, a família de Campbell tem pista de pouso própria na terra desta etnia e fala seu idioma. Costuma dificultar o acesso de outros brancos ao local e perseguir possíveis adversários. Nascido nos Estados Unidos, o missionário chegou a solicitar à Funai um Registro Administrativo de Nascimento Indígena para ser reconhecido como Jamamadi.

Em audiência pública na Câmara, em dezembro de 2005, o então vice-presidente da Funai, Roberto Aurélio Lustosa Costa, apontou o contato como uma das principais causas de doenças entre os povos originários. “O que os destruiu, em grande parte, foi o contato com a sociedade civilizada”, afirmou. “De todas as doenças citadas, 90% são doenças de civilização, adquiridas após o contato. É evidente que a medicina tradicional desses índios jamais alcançará as doenças de civilização, muitas vezes males trazidos por mudanças na alimentação, pelo contato, pela inexistência de anticorpos”.

Ao longo da audiência, a representante da Jocum, Bráulia Ribeiro, defendeu a necessidade de contato com os indígenas para diminuir os problemas de saúde de origem genética, provocados por casamentos consanguíneos. Lustosa demonstrou preocupação com isso: “Estou pressupondo que a Jocum planeje, em algum momento, levar esses índios a se relacionarem com outras comunidades para quebrar esse isolamento genético. Isso seria temerário. Ainda não temos conhecimento de um plano nessa ordem, mas gostaríamos de ser informados se houver algum encaminhamento nessa direção”.

Para falar sobre os riscos do contato indiscriminado com povos isolados, o dirigente da Funai usou o exemplo de um grupo isolado na região do Rio Pardo, na fronteira entre Pará e Mato Grosso:

– Refiro-me a um grupo de cerca de 20 índios que está isolado e ameaçado de extermínio. Esse grupo era constituído por 30 ou 40 índios; muitos deles talvez já tenham sido alvejados por pessoas que estão grilando e loteando aquela terra. Nossa equipe encontrou marcas de loteamento de madeira com os nomes dos pretensos proprietários. Apreendemos um grupo de pessoas naquela área indígena com bombas de efeito moral. Esse episódio foi divulgado na mídia. Essas pessoas queriam impedir a sobrevivência desses índios, porque estavam interessadas naquela terra.

Ele finaliza o trecho da seguinte forma: “É possível que essa população tenha caído em função de todo esse assédio”.

A proteção à saúde e o combate ao suicídio, comum na cultura dos Suruwahá, são os argumentos usados pela Jocum para permanecer irregularmente junto aos indígenas desde os anos 1980. No entanto, a presença dos brancos é apontada por antropólogos como o principal motivo para as últimas ondas de suicídios. Foram 38 casos entre 1980 e 1995.

Além disso, os missionários incitam os indígenas a resistir aos contatos da Funai e da Fundação Nacional da Saúde (Funasa), onde funciona uma Secretaria Especial de Saúde Indígena.

Para continuar lá, os missionários alegam que fazem parte da família dos indígenas e que continuam porque é da vontade deles. Religiosos como o casal Edson e Márcia Suzuki se aproximaram dos povos indígenas para desenvolver estudos linguísticos. O objetivo do estudo, no entanto, era usar o conhecimento obtido para aplicar na evangelização. Eles chegaram a criar uma representação da figura cristã de Jesus e incorporá-la à cultura Suruwahá.

A organização tem parceria com outros grupos evangélicos, como o Movimento Novas Tribos do Brasil, que tem Edward Gomes da Luz como um dos líderes, e a Missão Além Fronteiras, de José Carlos Alcântara. O grupo de Luz é responsabilizado pela morte por gripe de 37 indígenas da etnia Zoé, outro grupo isolado que habita o noroeste do Pará. O Novas Tribos foi expulso em 1991, mas a Funai suspeitava que o grupo continuava atuando na região.

Luz é pai do missionário e antropólogo Edward Mantoanelli Luz, expulso em 2013 da Associação Brasileira de Antropologia por suas posições contrárias aos direitos dos povos indígenas. Ele tem uma empresa de consultoria que faz laudos para contestar demarcações de terras, muitos deles em áreas centrais no debate feito por ruralistas no Congresso. Em um dos casos, foi contratado pelo órgão ambiental do governo catarinense para fazer um laudo contra a demarcação de terras Itaty. Ele não visitou o local para fazer seu estudo e a conclusão já estava pronta antes de chegar ao estado.

Outras acusações graves pesam contra a atuação desses religiosos na floresta. Um missionário dos Estados Unidos que atuava com o Novas Tribos no Amazonas e no Acre foi preso em Orlando com material de pedofilia gravado nas tribos. O acusado admitiu ser o protagonista das imagens com crianças indígenas.

Ligada à Jocum, a organização Atini, que tem a ministra Damares Alves entre seus fundadores, foi criada a pretexto de proteger as crianças indígenas. Um de seus principais alvos é a prática de algumas tribos isoladas de abandonar crianças que nascem com determinados problemas de saúde ou de relações indesejadas. Para justificar essa ação, a Atimi faz um esforço para apresentar o problema como algo comum e generalizado entre as comunidades indígenas. Uma de suas armas é o falso documentário Hakani – a história de um sobrevivente, em que o abandono de uma criança para morrer é encenado como se fosse verdadeiro.

A Justiça Federal retirou o vídeo do ar, a pedido do Ministério Público Federal, por conta da fraude. Os procuradores da República entraram com um pedido para que a entidade pague por dano moral coletivo aos povos originários em razão da divulgação. Eles consideram que a ficção incita o ódio contra os povos originários. A falsificação serviu também de pretexto para que dois deputados federais evangélicos apresentassem um projeto de lei para acabar com o abandono dessas crianças.

O trabalho missionário é desenvolvido junto com outras entidades evangélicas, como a Jocum, criada nos Estados Unidos nos anos 1960 e em atividade na Amazônia desde 1975. A Jocum responde junto com a Atini pela produção do documentário falso.

A organização também é acusada também de retirar clandestinamente indígenas das reservas. O que pode ser caracterizado como sequestro. O argumento para isso costuma ser humanitário: a alegação de que os missionários buscam tratamento de saúde para eles em hospitais de grandes cidades, como São Paulo.

Esse trabalho é utilizado pela entidade em suas campanhas para arrecadação de dinheiro. Mas, além de ilegal, a prática também esconde a acusação de adoções ilegais de crianças. Em pelo menos um caso, o Ministério Público Federal pediu a devolução de uma criança adotada para a tribo de origem. Alguns líderes do grupo, entre eles a própria ministra Damares, se orgulham de ter adotado crianças indígenas.

Do De Olho nos Ruralistas

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15 Jan 18:40

DIGA-ME COM QUEM ANDAS….

by Marcelo Ramos Oliveira

Dão Real Pereira dos Santos*

Em recente manifestação sobre a Reforma Tributária[1], o Ministro da Economia, Paulo Guedes, declarou que a carga tributária ideal para o Brasil é de 20% e que acima disso seria, segundo ele, o quinto dos infernos[2]. Segundo o ministro é preciso controlar o crescimento dos gastos. De fato, da década de 1990 para cá os gastos do governo vêm crescendo justamente para atender ao conjunto de direitos estabelecidos pela Constituição Federal de 1988. Ou seja, o crescimento dos gastos decorre da decisão dos constituintes de implementar no Brasil um Estado de bem-estar social, inspirados no que fizeram os europeus ainda na década de 1940. Os gastos do governo (exceto os gastos financeiros) saíram de 12% do Produto Interno Bruto (PIB), em 1990, e chegaram a algo próximo de 20%, em 2015. A maioria dos Estados de bem-estar europeus aplicava, em 2015, mais de 30% do PIB em políticas sociais.

Ora, a elevação da carga tributária nada mais foi do que a consequência da necessária elevação dos gastos promovida com a finalidade de fazer cumprir a Constituição Federal.

Mas, afinal, com quem andamos? Quando comparada com países da OCDE, a carga tributária brasileira (32,8% em 2016) é inferior à média daqueles países (34%). Vários países que serviram de referência aos constituintes brasileiros, em 1988, possuem hoje cargas tributárias bem superiores, como a França (45,5%), Suécia (44%), Itália (42,6%), Áustria (42,2%), Holanda (38,4%), Noruega (38,7%), Alemanha (37,4%)[3], entre outros.

Na faixa de 30% a 38% do PIB, onde nos encontramos, temos a parceria do Japão (30,6%), Israel (31,3%), Nova Zelândia (31,6%), Canadá (32,7%), Reino Unido (32,7%), Espanha c (33,2%), Polônia (33,4%), Portugal (34,3%), Alemanha (37,4%), e outros.

Com uma carga de 20% do PIB, como sugere o ministro, estaríamos num grupo de países composto por Tailândia (18,1%), Quênia (18,1%), Colômbia (19,8%), Equador (20,5%), Honduras (21,4%), Senegal (22%), Costa Rica (22,2%), Nicarágua (22,6%), entre outros.

Cabe lembrar que a carga tributária não é suficiente para definir a capacidade que tem o Estado para promover políticas públicas. Ter carga tributária semelhante ao Canadá, Reino Unido ou Espanha, não significa que podemos ter o mesmo padrão de políticas públicas daqueles países. É preciso comparar a arrecadação por habitante. O Brasil, embora tenha uma carga tributária próxima à do Reino Unido, possui uma arrecadação per capita anual 4,5 vezes inferior à daquele país. Isso porque, apesar de nosso PIB ser praticamente igual ao do Reino Unido, nossa população é muito maior (208 milhões de habitantes no Brasil contra 63 milhões no Reino Unido). Com praticamente a mesma Carga Tributária e mesmo PIB, o Brasil dispõe de apenas 2.800 dólares/ano por habitante enquanto o Reino Unido pode contar com 13.000 dólares/ano por habitante para fazer frente à demanda de serviços públicos.

Assim, considerando este indicador, para fins de elaboração de políticas públicas, nossas parcerias são outras. Numa lista de 81 países, o Brasil ocupa a 50ª posição em termos de arrecadação per capita, embora tenha o 8º maior PIB. Estamos juntos com Chile (US$ 2,7 mil, 53ª posição), Costa Rica (US$ 2,7 mil, 52ª posição), Taiwan (US$ 2,7 mil, 51ª posição), Cuba (US$ 2,9mil, 49ª posição), Turquia (US$ 3,1 mil, 48ª posição) e Rússia (US$ 3,1 mil, 47ª posição).

Se nossa carga tributária fosse de 20% do PIB, nossa arrecadação per capita seria de aproximadamente US$ 1,74 mil por ano e estaríamos na 62ª posição, juntamente com México (64ª posição), Bósnia (63ª posição), Dominica (61ª posição), Sérvia (59ª posição), São Vicente (60ª posição) e Bulgária (58ª posição).

Só para exemplificar a comparação, com a carga tributária atual (32,8%, em 2016), o Brasil precisaria ter um PIB 2,38 vezes maior que o atual para ter o mesmo nível de políticas públicas de Portugal, cuja arrecadação per capita é de US$ 6,8 mil. Com uma carga tributária de 20% do PIB, precisaríamos de um PIB 4 vezes superior para nos equipararmos àquele país em termos de serviços públicos.

Ao defender uma carga tributária de 20% do PIB, que representaria uma arrecadação anual de aproximadamente US$ 1,7 mil per capita, o ministro da economia propõe, de fato, a implementação de um Estado mínimo. No entanto, não é o governo que define o modelo de Estado, é a Constituição Federal, que o governo jurou cumprir. Na Constituição Federal, o Estado brasileiro está concebido como Estado de bem-estar social. Ainda que se possa cogitar que o atendimento dos direitos básicos à educação, à saúde, à assistência e à previdência possa se viabilizar a partir do crescimento econômico e do aumento da renda, não há qualquer garantia de que a diminuição do tamanho do Estado possa ajudar a acelerar o crescimento econômico. Segundo o Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz[4], o desenvolvimento dos países e a redução da desigualdade requerem um forte papel do Estado. Aliás, a experiência internacional demonstra que os países que experimentaram períodos de crescimento acelerado tiveram sempre um protagonismo muito forte do Estado.

Nenhuma proposta relacionada com o sistema tributário, seja em relação ao tamanho da carga tributária ou em relação a distribuição da carga entre as diferentes classes sociais, será indiferente ou neutra. Ela sempre apontará para uma determinada configuração e modelo de Estado. Trata-se, portanto, de uma escolha política, mais do que técnica, que definirá nossas referências como país e determinará o que seremos no futuro. As experiências internacionais são as nossas referências. Com quem andamos? Com quem vamos andar? O que vamos ser?

*diretor de Relações Institucionais do Instituto Justiça Fiscal, auditor-fiscal da RFB


 

[1] https://g1.globo.com/economia/noticia/2019/01/02/em-cerimonia-ministro-da-economia-paulo-guedes-assume-o-cargo.ghtml

[2] Faz referência ao período da derrama que ensejou a Inconfidência Mineira. Portugal impôs uma taxa de 20% (quinto) sobre o ouro produzido em Minas Gerais. Este valor seria direcionado diretamente para a Coroa Portuguesa. Ou seja, tratava-se de uma taxa voltada a financiar os gastos da coroa em Portugal e não para financiar serviços públicos como são os tributos atualmente cobrados.

[3] Dados estatísticos publicados pela OCDE (https://stats.oecd.org/ )

[4] https://www.brasil247.com/pt/247/economia/200562/Nobel-de-Economia-Stiglitz-defende-Estado-forte.htm

14 Jan 15:08

Comunidade adoecida por agrotóxicos se torna celeiro de orgânicos

by Redação
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Plantio de hortaliças orgânicas é o foco dos pequenos agricultores de Alto Santa Maria

Fotos: Vitor Taveira

14/01/2019

 

 

Como a comunidade pomerana no Espírito Santo se tornou um centro de produção de alimentos orgânicos

 

 

Por Vitor Taveira, do Brasil de Fato (ES)

Essa história acontece em Santa Maria de Jetibá, município de 40 mil habitantes no interior do Espírito Santo, a 90 quilômetros da capital Vitória.

Por sua característica rural, pelo duro trabalho e pela proximidade com a região metropolitana, Santa Maria de Jetibá se tornou uma espécie de celeiro agrícola, que, segundo a prefeitura, abastece cerca de 40% dos hortigranjeiros consumidos na Grande Vitória.

Porém, nem toda produção traz alimentos realmente saudáveis. Segundo dados de 2016, o município era o que mais possuía lojas com permissão para venda de agrotóxicos, que causam danos à saúde humana. Diante dessa realidade, um distrito chamado Alto Santa Maria conseguiu se estabelecer como um celeiro de produção orgânica e familiar no município, sendo também um dos principais produtores do Espírito Santo.

Boa parte da população local é formada por descendentes de migrantes pomeranos, originários da Pomerânia, uma região entre a Alemanha e a Polônia que terminou anexada por esta. As comunidades que se instalaram no Brasil e atualmente são reconhecidas nacionalmente como povos tradicionais.

“A gente via pessoas com feridas enormes nas pernas principalmente era uma coisa de louco”, conta Daniel Plaster. Segundo ele, o agrotóxico chegou junto com o plantio intensivo de alho na região. A conversão para produção agroecológica começa a partir de 1985, quando um padre luterano, identificando os diversos problemas que afetavam a saúde das pessoas no entorno convocou a comunidade a se reunir e pensar alternativas.

A família de Daniel é uma das primeiras que começam a pensar na produção livre de veneno, então chamada de agricultura alternativa. Em 1989 é criada a Associação dos Produtores Santamarienses em Defesa da Vida, a Apsad-Vida, com 20 famílias associadas. Atualmente são cerca de 60.

No início dos anos 2000, também surge, na mesma região, a Associação Amparo Familiar, que hoje possui mais de 90 famílias associadas. A variedade de alimentos produzidos pode chegar a 120 espécies de produtos por ano. Só em sua pequena propriedade, Daniel cultiva mais de 70 alimentos.

“Ao invés de produzir só alho, passei a produzir cenoura, beterraba, rabanete, batata, folhas. A gente começou a variar porque o que a gente imaginava era plantar mais variedade porque se não conseguir produzir uma, a outra eu consigo. Se a chuva ou sol ou a praga atacar uma a outra vai resistir e sobreviver, então vou ter pelo menos um produto pra vender. Por isso começamos a fazer diversidade e hoje a gente acha impossível praticar agricultura orgânica dentro da monocultura. Hoje a gente chega a um ponto que a gente acha que a agricultura orgânica tem que ser diversificada”, explica Daniel.

No início, não havia assistência técnica e os camponeses foram desenvolvendo tecnologias a partir de experimentos e do conhecimento ancestral. Com o tempo, foi conquistado apoio do poder público com assistência, transporte, certificação e outras políticas. De um primeiro caminhão que partiu para a cidade com 19 agricultores para comercializar em uma garagem em Vitória, agora somente os agricultores da Amparo Familiar atendem a 16 feiras na Grande Vitória e algumas no interior do estado.

Selene Tesch, da Associação Amparo Familiar: “Feira é a melhor forma de venda; beneficia tanto o agricultor como o consumidor”.

De acordo com Selene Tesch, da Associação Amparo Familiar, a grande maioria da produção, ou seja, cerca de 200 toneladas, é vendida nas feiras. “Hoje é a melhor forma de venda que beneficia tanto o agricultor como o consumidor. E a troca de ideias, de experiência, de poder conversar com o cliente, é uma forma muito agradável de trabalhar”. Parte dos alimentos também é destinada ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

O lema da Associação de Amparo Familiar resume a luta dos pomeranos em Alto Santa Maria: “Plantar sem matar, comer sem morrer”. “Plantar sem matar é não usar agrotóxicos nem produtos químicos, porque todo microorganismo que tem na terra, ela precisa para fortalecer as plantas, a nutrição da terra e desenvolvimento da saúde e da agricultura saudável. E comer sem morrer é ter certeza de fornecer seus produtos para alguém que se beneficia em saúde em fortalecimento do corpo e da vida. Isso tem um grande significado”.

Ao longo do tempo, Alto Santa Maria se tornou uma região onde a agricultura familiar orgânica é predominante, ao contrário do restante do município. Selene considera um privilégio morar num lugar como este:

“Para desenvolver saúde você não tem que pensar no seu umbigo, tem que abranger mais coisas para acontecer e gerar isso. Porque não adianta eu trabalhar na minha propriedade e fechar isso só pra mim. Tem que fazer trabalho para expandir isso. E saúde só se promove quando todas pessoas tem o bem estar e o conhecimento de poder usufruir disso, poder gerar renda, conhecimento, poder compartilhar experiência. Isso é muito importante”.

Edição: Daniela Stefano

 

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11 Jan 17:56

O filho de Mourão e o irmão de José Alencar: dois casos exemplares. Por Ricardo Kotscho

by Diario do Centro do Mundo

Publicado no Balaio do Kotscho

Rossell Mourão, filho do vice-presidente

POR RICARDO KOTSCHO

“Cada grupo de interesse pegou um pedaço, uma teta, sempre perguntando o que podia tirar. Nosso grupo tem outra mentalidade” (Paulo Guedes, ministro da Economia, ao dar posse a presidentes de bancos públicos no Palácio do Planalto).

***

No mesmo dia, o presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, promoveu e triplicou o salário do funcionário Antônio Hamilton Rossell Mourão, que passou a ganhar R$ 36,3 mil por mês.

Rossell Mourão vem a ser filho do general Hamilton Mourão, que tomou posse na vice-presidência da República oito dias antes.

“Quando o vento era outro, ele era prejudicado. Agora, que o vento é a favor, ele foi favorecido por suas qualidades”, justificou o papai Mourão, e deu o assunto por encerrado.

De fato, quando o vento era outro, no início do primeiro mandato de Lula, em 2003, houve um caso semelhante no gabinete do vice-presidente José Alencar, que nomeou um irmão para o gabinete.

Só que a reação de Alencar, ao ser confrontado com as normas éticas do serviço público e as críticas da imprensa, foi oposta à de Mourão:

Em vez de defender o parente, o vice de Lula imediatamente voltou atrás, e exonerou o irmão no dia seguinte.

Lembro-me bem do episódio porque ajudei Alencar a redigir a nota em que ele comunicava sua decisão.

E não se falou mais deste assunto na imprensa, tendo José Alencar completado seus oito anos de mandato como vice com uma conduta impecável nos 398 dias em que assumiu a presidência da República durante as viagens de Lula

Alencar também manteve em seu gabinete os assessores herdados de Marco Maciel, o vice de FHC, porque eram funcionários de carreira, ao contrário do que fez agora o ministro Onyx Lorenzoni, que demitiu 320 integrantes da Casa Civil, para “despetizar” o governo.

Quando assumi a Secretaria de Imprensa e Divulgação da PR, fiz como Alencar: mantive quase todos os 70 funcionários que trabalhavam com a competentíssima Ana Tavares, que exerceu esta função nos oito anos de FHC.

Fiz várias reuniões com eles durante a transição. Eram excelentes profissionais, funcionários de carreira de diferentes órgãos do Estado, cedidos para a Presidência da República. Por que mudar o que está funcionando bem?

A ninguém perguntei em quem tinham votado e se eram filiados a algum partido, bem diferente do que o governo Bolsonaro está fazendo agora. Até as secretárias ficaram comigo.

São casos exemplares que demonstram comportamentos opostos dos governos diante da mesma questão, revelando a hipocrisia de quem se arroga o monopólio da moral e dos bons costumes.

Até o momento em que escrevo, Paulo Guedes ainda não se manifestou sobre a “teta” gorda do funcionário do Banco do Brasil, por acaso filho do general Mourão.

Dá para ver como “nosso grupo” tem mesmo outra mentalidade.

Como escreveu o internauta Pedro Luis Cândido, deve ser esta a “mouralização” do governo.

Vida que segue.

11 Jan 17:35

Parto cesárea é o normal?

by Marcelo Calazans

O Brasil é campeão no mundo de parto cesáreas, 52% dos brasileirinhos chegam ao mundo após o procedimento médico. Você poderia ficar orgulhoso. Perdemos na Copa com Neymar “cai-cai”, mas pelo menos estamos “ganhando” em outras áreas. Não fique animado, isso é uma tragédia para o país, para os filhos e, principalmente, para as mães.

Nós somos também campeões em mortalidade materna, isso tem íntima relação com a vitória do torneio acima. O médico epidemiologista Cesar Vitória, cientista brasileiro respeitado no mundo todo, relata que as regiões e/ou instituições de saúde que têm índices de cesarianas maiores que 90% deveriam virar caso de polícia e Ministério Público. Esses locais não podem ser considerados locais de “saúde”, e sim de crime.

Semana passada eu e minha esposa (grávida) visitamos uma maternidade para conhecê-la e eu percebi que estava totalmente vazia. Aquilo me inquietou e, ao final da visita, a assistente social falou:

Aqui na maternidade normalmente só temos partos nas terças e quintas, como hoje é segunda…”, disse.

É isso mesmo que vocês estão lendo. A comunicação com os fetos já começou e você está atrasado, amigo leitor. Ainda nessa minha prosopopeia de planos e maternidades, tivemos um problema e resolvemos ligar para a Agência Nacional de Saúde (ANS), órgão que regula (sério?) os planos. Em um diálogo cheio de situações esdrúxulas, a atendente terminou com:

“Vocês precisam de um laudo para fazer o parto normal”, afirmou.

Nem xingar eu consegui tamanho foi o choque. Estamos naturalizando tanto o parto cesárea que invertemos todas as lógicas possíveis e inimagináveis. Em tempos onde “muitos” afirmam que a terra é plana, acho que nós que estamos errados de querer que minha esposa faça um parto normal.

A cirurgia cesariana salva vidas, quando bem indicada, mas os estudos mostram que até 90% das mulheres tem totais condições de realizar o parto fisiológico. E isso diminuiu em três vezes número de complicações obstétricas e neonatais. Além de facilitar o aleitamento e aproximação/ afeto de mãe e filho.

Mas o que me deixa mais abismado é como a intervenção médica exagerada pode ser deletéria pra uma sociedade. A tecnologia veio para nos ajudar, não para substituir o ser humano. É inacreditável pensar que nós fizemos uma campanha tão forte que as mulheres acreditam que não podem parir.

Os mitos são milhares: “circular de cordão?”, “não ter passagem”, “lesão definitiva na vagina”, entre outros absurdos. Contra o fundamentalismo ignorante, só a educação salva. A educação com os adolescentes – meninas, e também meninos -, com os estudantes de medicina e enfermagem e, principalmente, com a população em geral através da mídia.

Sem educação vamos acreditar que a Terra é plana e que o parto cesárea é normal.

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A publicação dos textos do médico e professor Marcelo Calazans e de outros colunistas só são possíveis porque nossos parceiros e assinantes apoiam a agência Saiba Mais. Financie o jornalismo que te representa: www.saibamais.jor.br/assine

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11 Jan 17:33

Governo voltará a investir no acervo da Biblioteca Câmara Cascudo após 25 anos

by Rafael Duarte

No último ano em que o Governo do Rio Grande do Norte investiu dinheiro público na compra de livros para o acervo da Biblioteca Pública Câmara Cascudo, o Brasil sofreu com as mortes do piloto Ayrton Senna, do humorista Mussum, do poeta Mario Quintana e do maestro Tom Jobim.

Um contraponto à alegria que rompia 24 anos de jejum com o tetracampeonato mundial nos EUA e o otimismo gerado na economia brasileira, a partir da implantação do Plano Real. Também naquele ano, o mundo ganhava uma batalha importante contra o racismo ao reverenciar a posse de Nelson Mandela como o primeiro presidente negro da história da África do Sul.

Todos os fatos históricos narrados na abertura desta reportagem aconteceram em 1994, ano em que o Governo do Estado renovou o acervo da Biblioteca Pública Câmara Cascudo pela última vez. Nos últimos 25 anos, segundo o diretor geral da Fundação José Augusto Crispiniano Neto, o Executivo não destinou nenhum centavo na compra de livros para a biblioteca. Nesse período, subiram a rampa da governadoria Garibaldi Alves (MDB), Fernando Freire (MDB), Wilma de Faria (PSB), Iberê Ferreira de Souza (PSB), Rosalba Ciarlini (DEM) e Robinson Faria (PSD).

A principal biblioteca do Estado que leva o nome do maior pesquisador sobre cultura popular do país ficou fechada por quase  10 anos. A maior parte do acervo, de aproximadamente 100 mil livros, ficou armazenada num espaço da Cidade da Criança. Em 2019, às vésperas de ser reaberta para o público, o Governo anuncia que vai investir R$ 220 mil em novas obras, priorizando autores e editoras do Rio Grande do Norte.

A ideia é comprar exemplares de autores locais e livros publicados por editoras do Estado, independente da origem do escritor que assina a obra.

Crispiniano Neto explica que a equipe jurídica do órgão vai analisar se o melhor caminho é abertura de um edital ou de uma licitação para realizar a compra:

– Vamos focar nos autores potiguares. Precisamos ver ainda o instrumento jurídico adequado, se vai ser uma licitação, edital ou chamada pública. Resolveremos esse impasse primeiro para não deixar de contemplar um bom autor. E também editoras locais que lançaram bons autores de fora”, afirma Crispiniano, citando autores como Nei Leandro de Castro e Homero Homem como autores potiguares que tiveram obras publicadas por editoras de outros estados e que também devem ser contemplados.

O gestor reconhece que a verba disponível é muito pequena, mas destaca o tempo em que o acervo não é renovado com recursos próprios do Governo:

– Estou conferindo em torno de R$ 220 mil para compra de acervo, mas sei que é insignificante para o mundo editorial brasileiro. A quantidade de lançamentos não chega perto desse valor. Mas faz 25 anos que o Governo não compra um único exemplar para o acervo da biblioteca Câmara Cascudo. É um quarto de século, muito tempo”, avalia.

Governo Robinson entregou Biblioteca sem habite-se e acesso ao público

Governador Robinson Faria inaugurou Biblioteca em dezembro, mas o público só terá acesso daqui a seis meses

Em solenidade realizada em 20 de dezembro do ano passado, o ex-governador Robinson Faria (PSD) inaugurou o prédio da Biblioteca Pública Câmara Cascudo sem acesso para o público. Falta o habite-se do Corpo de Bombeiros e algumas licenças, além de uma subestação de energia. O investimento foi de R$ 1,6 milhão, com recursos do programa Governo Cidadão via Banco Mundial.

Crispiniano Neto estima a reabertura do espaço somente no 2º semestre deste ano:

– O Governo passado entregou a obra, mas não tem condição nenhuma de funcionamento. Além da licença e do habite-se do Corpo de Bombeiros, falta uma subestação de energia, o que impossibilita a instalação de aparelhos de ar-condicionado. E sem ar-condicionado não é possível abrir para o público. Queremos reabrir a Biblioteca em até seis meses, mas o acervo vamos cuidar logo”, explica.

A gestão passada divulgou que, de modo geral, a recuperação da Biblioteca Câmara Cascudo contemplaria os serviços na cobertura, instalação hidráulica e elétrica, climatização, combate a incêndio, elevadores, plataformas e acessibilidade, pisos e revestimentos, esquadrias de alumínio, grades de proteção e sistema de segurança.

Crispiniano Neto encerrará um ciclo quando a biblioteca Câmara Cascudo for reaberta. O espaço foi fechado ainda na primeira gestão dele à frente da Fundação José Augusto, em 2010. O gestor lembra que a falta de manutenção levou a problemas elétricos que poderiam causar um estrago ainda maior ao prédio e, principalmente, ao acervo:

– A gente fechou primeiro para visitas à noite e depois fechamos tudo. Houve um problema elétrico, chegou a cair fogo no chão. Acho que foi uma atitude importante tomada na época, principalmente depois que houve aquele incêndio no Museu Nacional. Os problemas elétricos da biblioteca não foram detectados na área do acervo, mas se eu não fechasse para a reforma poderia ter acontecido o pior”, diz.

Editora Jovens Escribas fará primeira doação à biblioteca Câmara Cascudo

Editor da Jovens Escribas enviou carta à governadora Fátima Bezerra

Embora não tenha investido dinheiro público na aquisição de novos livros, a Biblioteca Câmara Cascudo recebeu algumas doações no período. A última delas ocorreu em fevereiro de 2018, segundo a ex-diretora Isaura Rosado, que recebeu 20 mil novos títulos do governo Federal por meio do programa Agentes de Leitura, via Ministério da Educação.

Na nova fase da Biblioteca, a editora Jovens Escribas já se antecipou e anunciou uma doação de aproximadamente 100 exemplar de livros já publicados pelo selo. Segundo o editor, escritor e publicitário Carlos Fialho, a Jovens Escribas já publicou 160 títulos de mais de 100 autores diferentes.

Fialho enviou uma carta endereçada à governadora Fátima Bezerra, ao diretor geral da FJA Crispiniano Neto e ao corpo técnico da biblioteca Câmara Cascudo. No documento, ele cita o “obscurantismo que aflige o país” e anuncia a doação. Abaixo, a carta na íntegra:

“Recentemente, Natal e Rio Grande do Norte foram contemplados com a conclusão e entrega das obras de reforma realizadas na Biblioteca Pública Câmara Cascudo. No entanto, ao anúncio de término dos trabalhos por parte do Governo do Estado, seguiram-se notícias dando ciência de que o acervo existente precisa ser organizado e que novos títulos devem ser adquiridos para serem disponibilizados a estudantes e população em geral.

 Por isso, com o intuito de contribuir com este importante equipamento público, cujo retorno é mais do que simbólico ante a vigente onda de obscurantismo que aflige o país, a ESCRIBAS EDITORA anuncia a doação de um exemplar de cada título ora disponível em nosso estoque.

 Promover o acesso livre e gratuito ao conhecimento impresso nas páginas dos livros é uma nobre missão a que se dispõe a Biblioteca Pública Câmara Cascudo. Portanto, nossa casa editorial tem por dever de ofício e coerência com os valores por nós cultivados, participar ativamente deste processo através da cessão de nossas obras sem qualquer custo ao poder público.

Na expectativa de que aceitem nossa oferta, desejamos um ótimo trabalho a todos”.

Procurado pela agência Saiba Mais, Crispiniano Neto comemorou a doação:

– Recebemos com muito prazer. O acervo geral está precisando de muito investimento.

++++++

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10 Jan 18:44

Crise protocolar

by Francisco Seixas da Costa

Às vezes, sinto-me tentado a contar por aqui algumas histórias “proibidas”. Tenho mesmo uma lista de algumas. Parte delas são, porém, eternamente interditas à partilha. Ou porque poderiam pôr em causa pessoas que o não merecem (e não fazê-lo é uma regra que nunca infringirei) ou porque relevam da confidencialidade devida às funções oficiais que ocupei ou, muito simplesmente, porque fazê-lo trairia a confiança daqueles com quem partilhei certas ocasiões. Há ainda aquelas historietas que ficam numa espécie de “zona cinzenta”. Esta é uma delas.

A que hoje vou contar, e que só a mim compromete, foi perdendo o seu caráter sensível com a passagem do tempo. E hoje, creio, já pode ser revelada.

Estávamos no mês de janeiro de 2008. O Cônsul-Geral de Portugal no Rio havia decidido organizar um jantar de gala, com fins de beneficência, no Palácio de São Clemente, a sua bela moradia no Botafogo, que já foi embaixada de Portugal, quando a capital era no Rio de Janeiro.

Havíamos conseguido fazer deslocar propositadamente de Brasília para o evento, que envolvia uma imensidão de gente, o vice-presidente da República e a sua mulher, José Alencar, uma pessoa com quem eu teria, até à sua morte, uma boa relação de amizade. O jantar seria co-presidido por ele e por mim.

Fomos de Brasília para o Rio na manhã do dia do jantar. Para não sermos “pesados” numa casa que estava numa polvorosa organizativa, decidimos hospedarmo-nos por uma noite no hotel Pestana do Rio. Passei uma bela tarde a ler na varanda, com vista sobre a Avenida Atlântica e, já bastante em cima da hora do jantar, e apenas por um mero acaso, deitei um olhar pelo elaborado convite que havia sido desenhado para a ocasião... e entrei em choque!

O convite dizia que o jantar era de “smoking” e eu só tinha trazido um fato escuro. Era absolutamente inadequado (Álvaro Cunhal fazia-o sempre nos jantares da Ajuda, mas eu não era Cunhal) ocupar um lugar de honra com o vice-presidente do Brasil, com este vestido a preceito e comigo a envergar um traje “um furo abaixo” daquele que a ocasião exigia. Estávamos em cima da hora: já não havia tempo para alugar um “smoking”. Que fazer?

Só havia uma solução: “adoecer”. Pretextando uma grave crise digestiva, faltei ao jantar, pedindo ao Cônsul-Geral, não só que me substituísse, mas que pedisse por mim desculpa à importante figura de Estado presente. E, à hora em que a “fina flor” do Rio dava entrada na festa para a qual tinha pago uma boa quantia, porque destinada a uma instituição de caridade, estava eu, com a maior discrição, a jantar num ignoto restaurante nas imediações do Pestana, esperando que ninguém me reconhecesse.

A minha “doença” iria ter uma outra consequência negativa, também de vulto. Para o dia seguinte, eu tinha comprado um bilhete para ir ver, no Maracanã, um Fla-Flu, um jogo do Flamengo contra o Fluminense, uma histórica partida de futebol, a que sempre tinha sonhado assistir. Ora, “doente” como eu estava, tendo mesmo nessa manhã havido um simpático telefonema da mulher de José de Alencar para a minha, a inteirar-se do meu estado de saúde, estava fora de causa poder vir a assistir ao prélio na “catedral” brasileira do futebol. E lá regressei ao final da tarde a Brasília, cabisbaixo, onde, nas horas e dias seguintes, recebi vários simpáticos telefonemas de gente da comunidade portuguesa e do “social” carioca a enviar-me votos de melhoras. 

Devo dizer que, a partir deste incidente, passei a ter uma maior atenção com os cartões de convite. Mentir socialmente é uma arte que todos aprendemos na vida diplomática, mas há ocasiões em que, de facto, mesmo sem estarmos doentes, nos sentimos bem mal. Foi o caso.
10 Jan 12:52

      Por Redação* Após declarações ofe...

by Redação
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Por Redação*

Após declarações ofensivas do presidente Jair Bolsonaro (PSL) que levaram o governo de Cuba a chamar de volta mais de 8 mil médicos que atuavam no Brasil pelo programa Mais Médicos, o governo decidiu pedir ajuda aos cubanos. A pediatra Mayra Pinheiro, que atua na pasta da Saúde de Bolsonaro, enviou mensagens amigáveis aos cubanos que ficaram no Brasil orientando que preencham formulários e participem de cursos preparatórios para submetê-los a uma prova, o Revalida. Na mensagem, Mayra – que ficou famosa depois de uma foto sua hostilizando cubanos ganhar as redes e vai coordenar o programa que substituirá o Mais Médicos – chama os cubanos de “colegas” e “irmãos” e afirma que o programa continuará com outro nome: “Mais Saúde”.

Depois da fala desastrosa de Bolsonaro, o então presidente Michel Temer (MDB) publicou editais para tentar preencher as vagas. Entretanto, diversos locais ainda sofrem com a ausência dos profissionais.

adesão insuficiente em um primeiro edital fez com que o governo fizesse um segundo chamado. Prevendo buracos, o governo Bolsonaro – que chegou a dizer que iria “expulsar” os médicos cubanos – agora corre atrás dos profissionais que não voltaram para a ilha para tentar reintegrá-los ao programa.

Situação atual

Inicialmente, foram abertas 8.517 vagas. No primeiro edital, restaram ser preenchidas 2.448, ou 28% do total. No segundo chamado, foram abertas 2.549 vagas em 1.197 municípios e 34 regiões indígenas. 1.707 profissionais registraram interesse e eles devem se apresentar nos locais de trabalho a partir de hoje (7), até quinta-feira (10).

Após este período, haverá uma reavaliação de quantas vagas ainda restarão. Então, brasileiros formados no exterior poderão manifestar interesse e, por fim, será a vez dos estrangeiros. Nessa última etapa entrariam os cubanos interessados.

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10 Jan 12:50

15 anos do Bolsa Família. Justiça acima de tudo. Deus ao lado de todos.

by elikatakimoto

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Hoje temos uma efeméride: 15 anos do Bolsa Família. O que é o benefício e que ele tirou o Brasil do mapa da fome já é sabido. Gostaria de trazer algumas reflexões do porquê tanta gente falar mal de algo que é elogiado pela ONU e pelo Banco Mundial: o maior programa de transferência de renda do mundo que ajudou não só na redução da pobreza, mas também na melhoria de indicadores de desenvolvimento humano.

Há uma certa aceitação sobre a importância no impacto positivo do Bolsa Família especialmente na saúde e na educação, pois temos dados que o comprovam. Mas, infelizmente, há uma parcela da sociedade e projetos políticos que conflitam com essa perspectiva e tem disseminado preconceito, ódio e criminalizam as famílias beneficiárias do Bolsa Família. É sobre esse sentimento que gostaria de me estender.

É regra na história da humanidade que grupos dominantes impõem sua concepção de mundo e aniquila o sofrimento dos pobres de forma a desumanizar sua dor. Interessante o fato de quase nenhum rico se sentir culpado pelo sofrimento dos menos abastados. Pior do que isso, há muitas pessoas que têm o que comer, carro do ano para dirigir, casa própria e outras preciosidades que responsabilizam o pobre pela sua condição. Esses seres, não raro, consideram os pobres burros, preguiçosos, promíscuos, pois – dizem os ricos que os pobres – não sabem usar o dinheiro e gastam o pouco que tem não para investir e sim “para comprar cachaça”, usam o tempo livre para “fazer filho” e que pobre tem “sexualidade precoce”.

Quando um rico aponta comportamentos como os ditos no parágrafo anterior, ele aponta uma irracionalidade no pobre e a condena como uma coisa natural. A sua própria irracionalidade não é questionada nesse processo.

Valioso observar que o fenômeno de pobreza é gerado pela falta de reflexão e humanidade da classe dominante que sempre acha que o seu comportamento é o correto. Até mesmo uma orgia regada a drogas numa cobertura de Ipanema pode ser considerada algo aceitável e quiçá um exemplo a ser seguido. Certamente termos como “liberdade” ou “experiências alternativas” aparecerão para justificar o evento.

Leis econômicas são consideradas naturais da mesma forma que o sofrimento social. Tudo se passa como se o ser humano não fosse responsável pela sua história ou como se a história existisse mesmo sem ter quem a narre, escreva ou dirija.

É claro que nem todo sofrimento humano é culpa da falta de bens materiais ou causado pela má distribuição deles. Porém, há muitas dores que estão enraizadas na nossa estrutura social. Não sou eu quem as provoca nem você individualmente, mas as instituições como a escravidão, por exemplo, podem sim ser as grandes culpadas.

Tudo é uma construção cultural. Isso que é difícil enxergar já que vemos o mundo com os óculos impostos a nós pela sociedade em que vivemos. A ideia, por exemplo, de trabalho estar associado à moral, que precisamos trabalhar muito para ter direito ao lazer, esse medo de ser improdutivo e a vergonha de ser “inútil para a sociedade”, enfim, tudo isso não foi dado no mundo e sim construído no século 19.

Vejam que curioso: a nossa cultura que não considera parasita o cidadão rico que vive de renda financeira, a nossa cultura que considera justo conceder isenção, incentivos fiscais e perdão da dívida com os bancos públicos aos grandes empresários é a mesma cultura que chama de vagabundo quem recebe o Bolsa Família.

O sistema é tão cruel que ricos fazem até mesmo com que os próprios pobres sintam vergonha de sua pobreza, pois a consideram como resultado de um fracasso pessoal e não de um arranjo socioeconômico.

Tenho usado aqui o termo “pobre”, mas é necessário que se esclareça que a pobreza tratada no texto não se refere somente a privação de dinheiro mas também privação de capacidades e o não desenvolvimento de diversos tipos de competências – o que faz do pobre (no sentido comum) um ser pobre também no nível imaterial.

Nessa esteira, pior do que o homem pobre é a mulher pobre que foi ensinada a ser muda, pois a sujeição feminina é muito mais cruel e complexa do que a sujeição de classes.

É dever das instituições próprias de nossa sociedade e de cada um de nós vetar a discriminação, a opressão e a exploração e criar condições para que todas as pessoas participem em pé de igualdade da educação e da cultura.

Em um lugar onde a democracia funcionasse, seria também obrigação de todo ser humano apoiar qualquer medida e política pública que contribuísse para a diminuição da desigualdade e reparasse injustiças históricas.

Nesse sentido, por tudo que já vi acontecendo nesse país, não houve medida mais eficaz e que representasse com mais propriedade essa reparação histórica do que o Bolsa Família.

Para finalizar, gostaria de dizer que lá pelos idos de 1950 os índices de crescimento econômico do Brasil estiveram entre os maiores do mundo. No entanto, nessa mesma época, vimos um aumento gigantesco da desigualdade social e da exploração. Em outras palavras, um país crescer economicamente não quer dizer um aumento generalizado nos padrões de vida.

Jamais evoluiremos como sociedade se um programa público que visa diminuir a pobreza – como o Bolsa Família – for considerado como paternalista.

A falta de capacidade de se colocar no lugar do outro nos trouxe a essa tirania ética na qual pessoas se recusam a apoiar políticas de justiça distributiva e de transferência de renda que deveriam ser consideradas por todos como uma política de urgência moral.

Foram 15 anos do Bolsa Família. Milhões de famílias beneficiadas e uma queda considerável na mortalidade infantil.

Seu futuro a nós pertence.

Justiça acima de tudo. Deus ao lado de todos.

09 Jan 19:17

Casal de mulheres é agredido com chutes e socos em ataque LGBTfóbico em Natal

by Rafael Duarte

Um casal de mulheres foi vítima de LGBTfobia no condomínio Village Planalto, no bairro Planalto, Zona Oeste de Natal. Vanessa Macambira, 40, e Glícia Brandão, 26, são casadas e sofreram agressão verbal e física após interpelar um jovem de 17 anos, lutador de artes marciais, acusado de agredir o filho delas, de apenas 9 anos de idade. O crime aconteceu dia 27 de dezembro de 2018.

Vanessa teve o braço quebrado em duas partes e foi levada para o hospital Walfredo Gurgel, unidade de urgência e emergência na capital potiguar. O local da fratura foi imobilizado e ela ainda aguarda cirurgia pelo SUS. Ao tentar defender a esposa, Glícia levou um soco no rosto e sofreu corte na testa. A criança não presenciou o ataque.

O agressor, menor de 18 anos, vinha hostilizando o filho de Vanessa e Glícia há alguns meses em razão da homossexualidade do casal. Nas redes sociais, o jovem aparece numa das fotos com o logotipo do presidente Jair Bolsonaro. Ele é filho do aposentado Nilo Ferreira Lima, que também mora no condomínio.

Vanessa Macambira quebrou o braço em dois lugares

Segundo Vanessa, ao ser avisada pelo filho de que havia sido agredido, ela desceu para falar com o garoto e foi ameaçada. Da janela, Glícia viu e desceu para conversar. Vanessa subiu para o apartamento e deixou o filho, antes de voltar para o local onde estavam. No retorno, Vanessa lembra que viu Glícia sendo empurrada, apressou o passo e foi agarrada por trás e atirada no chão. Foi então que o jovem começou a desferir chutes na vítima. Ao tentar impedir, Glícia levou um soco no rosto e perdeu os óculos:

– Quando eu vi, o rapaz empurrou a Glícia e fui tentar separar a briga. Ao chegar, o pai do menino me segurou e me derrubou. Quando eu vi já estava no chão e senti o garoto me chutando. E num dos chutes senti que meu braço havia quebrado. Glícia tentou fazer o garoto parar e levou um soco no rosto, o óculos voou. Ela ainda pegou britas no chão e tentou acertá-lo.

No momento da agressão nenhum dos moradores que presenciou o ataque prestou socorro. O porteiro do condomínio chegou a empurrar Glícia para apartar a briga e outro morador reclamou que uma das vítimas acertou uma pedra em seu automóvel. A síndica se recusou a informar a relação de moradores do prédio, não prestou socorro e também não apurou o caso.

Vanessa e Glícia só conseguiram registrar o Boletim de Ocorrência uma semana depois da agressão em razão da greve dos policiais civis no Estado. Uma advogada soube do caso pelas redes sociais e se ofereceu para defender o casal. O recesso do Judiciário também impediu que as vítimas processassem o agressor e o pai logo após o ocorrido.

A lei estadual que reconhece a homofobia como crime existe desde 2007 no Rio Grande do Norte, mas nunca foi regulamentada pelo Governo do Estado.

Morando juntas há sete anos, Vanessa e Glícia contaram que já foram vítimas de agressões verbais, mas nunca imaginaram que fossem entrar para as estatísticas homofobia da forma como o caso aconteceu:

– As pessoas chamam a gente de sapatão na rua e há também o preconceito velado na escolas. Nosso filho tem 9 anos, foi adotado com cinco dias de nascido, e é como se o tempo todo você estivesse sendo observada e julgada por ser uma boa mãe. Tem sempre que provar. Mas nunca imaginamos ser agredidas dessa forma. É homofobia porque começou com agressões ao meu filho, chamado de ‘fresco’, ‘viado’, ‘baitola’ por ser filho de duas mulheres lésbicas”, conta Vanessa.

Luiz Felipe tem 9 anos de idade e foi adotado com cinco dias de vida

Histórico

Segundo a mãe, Luiz Felipe vem sendo vítima de bullyng há alguns meses dentro do condomínio. Glícia já chegou a reunir as crianças e adolescentes do prédio para pedir que não ofendessem mais o filho, além de explicar que há diversidade de pensamento e de orientação sexual entre as pessoas. O garoto chega em casa ora chorando ou chateado:

– Eu cheguei a ir no apartamento do Nilo porque o filho mais novo dele era uma das crianças que xingava meu filho. Nem conhecia o mais velho, que foi quem nos agrediu.

Vanessa e Glícia são reservadas, não costumam andar juntas pelo condomínio e não possuem relações próximas com os demais vizinhos. Após a agressão, que ocorreu por volta das 20h, a família dormiu na casa da mãe da Glícia, em Lagoa Nova, local adotado como ponto de apoio. Vanessa só aceitou voltar para o condomínio após o irmão conversar com o pai do agressor:

– “Ele disse para o meu irmão que tinha passado mal, teve pressão alta e que poderíamos voltar sem problemas, mas ainda estamos traumatizadas. Não me sinto segura, mas voltamos depois dessa conversa do meu irmão com ele. O garoto que nos agrediu está passando férias numa casa de praia. Comprei esse apartamento financiado pela Caixa Econômica ainda na planta. Não quero ir embora”, conta Vanessa Macambira, funcionária estadual e municipal

A eleição de um presidente da República homofóbico, como Jair Bolsonaro, é um agravante, avaliam as vítimas. Emocionada, Glícia acredita que os crimes de ódio contra homossexuais devem aumentar:

– As eleições nos deixou totalmente fragilizadas. Sabíamos que perderíamos nossos direitos e que as pessoas que concordam com o discurso de ódio dele (Jair Bolsonaro) iam sair do armário. E a maioria dessas pessoas é homem e mais fortes que nós. Eles nos querem mortos só pelo fato de existirmos. A eleição de Jair Bolsonaro dá uma espécie de aval, é como se agora isso fosse permitido.

Uma das primeiras medidas tomadas pelo presidente Jair Bolsonaro, através de Medida Provisória, foi excluir a população LGBT da lista de políticas e diretrizes destinadas à promoção dos Direitos Humanos

Luiz Felipe e as duas mães, Vanessa e Glícia

Campanha

Glícia Brandão é atriz e está desempregada. Já Vanessa Macambira é formada em Psicologia e é ex-policial Militar. Ela deixou a PM depois de passar em dois concursos para a área de Saúde do Estado e do município. Trabalha com crianças e jovens. As dificuldades financeiras do casal aumentaram após a agressão. O último salario do município veio com um desconto de mais de R$ 700 em razão dos dias descontados da paralisação dos servidores da saúde. No Estado, a situação é ainda pior. Vanessa está com três folhas atrasadas, incluindo o 13º de 2017.

Diante dos problemas e dos gastos extras com combustível e remédios, as duas resolveram fazer uma campanha de arrecadação. Segundo Vanessa e Glícia, os valores arrecadados serão anexados ao processo:

Banco do Brasil:

Ag: 1668-3
Cc: 15416-4
Variação: 51
CPF: 028.205.684-08
Vanessa Macambira dos Santos

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09 Jan 17:05

Moro desculpa corrupção de Onix, passa pano em Queiróz e começa a ser cobrado nas ruas

by Antonio Mello
Moro parece se desviar de algo

Acabou o amor. O justiceiro de Curitiba passou de estilingue a vidraça, quando deixou de ser o juiz do "Nine" (como se referia a Lula com os íntimos) para aceitar o cargo de ministro do governo Bolsonaro, onde quase todos os colegas têm problemas com a Justiça.

Até o momento, como Fux no STF, Moro tem atado no peito. Sobre a corrupção confessa de Onix de haver recebido dinheiro da Odebrecht, Moro disse que ele já havia se desculpado.

Sobre Queiróz, o milionário motorista e amigo do peito dos Bolsonaro, Moro afirmou que o presidente já disse o que tinha a se dito.

Só que o povo não parece aceitar o novo Moro e protesta, como mostra o vídeo.



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08 Jan 18:11

Quem está pagando a conta de Queiroz no caríssimo Einstein? Por Kiko Nogueira

by Kiko Nogueira
Fabrício Queiroz internado no Einstein (Foto: Reprodução)

O ex-assessor de Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz, teve alta do hospital Albert Einstein, onde se submetera a uma colonoscopia para retirada de um tumor no intestino.

De acordo com documento encaminhado pela defesa ao Ministério Público, ele foi diagnosticado com câncer de cólon.

Os advogados ainda informaram que os familiares de Queiroz não iriam comparecer ao depoimento marcado para terça-feira, dia 8.

A mulher dele, Márcia Aguiar, e as filhas se mudaram temporariamente para São Paulo para acompanhar o tratamento.

É uma intervenção custosa.

Todos eles estavam lotados nos gabinetes dos Bolsonaros até a eclosão do escândalo da movimentação suspeita de dinheiro de Queiroz apontada pelo Coaf.

Cheques que somam R$ 24 mil foram para Michelle Bolsonaro. Seu marido alega que era o pagamento de uma dívida de R$ 40 mil.

Numa entrevista chapa branca ao SBT, Queiroz disse que negociava carros usados.

O amigo Jair Bolsonaro afirmou, para a mesma emissora amiga, que sabia que “ele fazia rolo. Agora, quem vai ter que responder é ele”.

O Globo descobriu a casa onde Queiroz vive, ao menos oficialmente.

É uma construção simples, sem pintura externa, em um beco no bairro da Taquara, no Rio, tradicional reduto miliciano.

“Na viela onde Queiroz mora com a mulher, Márcia Aguiar, os imóveis são colados uns aos outros. No beco há varais improvisados do lado de fora das casas, fios emaranhados e canos aparentes”, relata o jornal.

O Einstein é um dos hospitais mais caros do Brasil.

Queiroz deu entrada em 30 de dezembro. Uma operação como a dele sai por volta de R$ 5 mil.

A internação, em torno de R$ 25 mil. Não estão incluídos os honorários médicos.

Um plano de saúde que contemple o Einstein não é barato. Entre R$ 6 mil e R$ 8 mil para uma família de quatro pessoas.

Não custa perguntar: quem está pagando a conta? O Queiroz?

Então tá.

Casa de Fabrício Queiroz no Rio (Foto: Juliana Castro / Agência O Globo)
08 Jan 18:10

Carnaval 2019: Mangueira segue pela avenida aberta pela Tuiuti e vai contar as histórias que a História não conta

by Joaquim de Carvalho

A Estação Primeira de Mangueira escolheu como enredo deste Carnaval um tema que desafia os conservadores e homenageia os heróis (e mártires) da luta popular.

“Brasil, meu dengo/ A Mangueira chegou/ Com versos que o livro apagou/Desde 1500/ Tem mais invasão do que descobrimento/ Tem sangue retinto pisado/ Atrás do herói emoldurado/ Mulheres, tamoios, mulatos/ Eu quero um país que não está no retrato”, diz uma das estrofes do samba-enredo.

O clipe oficial, como sempre, mostra um país que a antítese daquele que foi ao poder com Bolsonaro. Negro, mulata, brancos mais pretos do Brasil, como dizia Vinícius de Moraes.

Mangueira segue no caminho aberto pela Paraíso do Tuiuti, que no ano passado de um show de criatividade, ousaria e conhecimento, com o enredo sobre a manipulação política e os novos escravos.

“Meu Deus! Meu Deus! Está extinta a escravidão?”, perguntou Jack Vasconcelos, carnavalesco da Paraíso do Tuiuti.

Desta vez, para fazer os relatos que a mídia corporativa não faz, o carnavalesco Leandro Vieira vai colocar na avenida o enredo “História pra ninar gente grande”.

Na quadra da escola, a empolgação é grande para dar voz a mulheres como a Marielle Franco, morta no dia 14 de março, em uma crime de execução até agora não esclarecido.

Um dos autores do samba-enredo comemorou, através da rede social o embate na escola pela escolha da música.

“Fomos campeões na Mangueira. Pela memória de Marielle e [o motorista] Anderson Gomes e toda luta que ainda virá. São verde e rosa as multidões”, disse Tomaz Miranda, um dos compositores do samba. 

Veja abaixo a letra do samba-enredo e o clipe oficial da Mangueira:

 

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasil que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa as multidões

Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra

Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500
Tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara
E a tua cara é de cariri
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati

Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês

 

08 Jan 12:22

Notícias falsas tentam manchar imagem do BNDES, conheça a verdade

by admin

A regra tem sido mantida há quase duas décadas: toda e qualquer ação ou projeto que beneficiou o Brasil a partir do governo Lula torna-se imediatamente alvo de mentiras propagadas pelos adversários. É assim com programas sociais como o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida. É assim também com o BNDES.

O banco federal de desenvolvimento, que triplicou sua participação no mercado a partir de 2002, fortaleceu a atuação de empresas e produtos brasileiros fora do país e estimulou o surgimento de mais de 10 milhões de empregos a partir de 1996, é comumente associado, entre outras invencionices,  a supostos favorecimentos do governo federal a “parceiros ideológicos” – um despautério ao se constatar que o país que mais recebeu obras financiadas pela instituição de fomento foi os EUA, país pelo qual Bolsonaro presta continência e terra do neoliberalismo defendido por ele.

As mentiras não param por aí. Também é comum circular pela internet notícias falsas que vão desde “a falta de critério” do banco para o repasse de dinheiro, passa pela ideia equivocada de que o banco não gera emprego e culmina no delírio de achar que o banco “doa dinheiro” para outras nações.

Para evitar a propagação de fake news e ter os argumentos necessários para desmascará-las, descubra a verdade sobre os principais mitos divulgados sobre o BNDES:

MENTIRA: “Há financiamento de bens estrangeiros, prejudicando a indústria nacional”

VERDADE: O Brasil não financia gastos locais e empregos de estrangeiros, apesar de Agências Créditos à Exportação de outros países financiarem. Os financiamentos BNDES cobrem apenas empregos no Brasil e bens nacionais. Os financiamentos são liberados ao exportador em reais, no Brasil. Nenhum centavo é remetido exterior. Exemplo: Quando o BNDES faz um empréstimo para a uma construtora brasileira, por exemplo, construir uma obra no exterior, o banco está financiando também, mesmo que indiretamente, um número enorme de empresas aqui no Brasil, empresas que participam da cadeia produtiva.

MENTIRA: “Tais obras são financiadas sem licitação e contratadas de forma não transparentes”

VERDADE: Os financiamentos desses pacotes, incluindo insumos, seguem práticas mundiais. As exportações financiadas de serviços de engenharia são auditadas pelo TCU e submetidas à fiscalização usual da Receita Federal. Os empréstimos só são concedidos após análise rigorosa da viabilidade técnica e financeira da obra. Vale lembrar que nível da inadimplência nessas operações é insignificante: menos de 0,01%.

MENTIRA: “Elas seriam escolhidas por motivos políticos e ideológicos”

VERDADE: O principal mercado dessas exportações financiadas pelo banco são os Estados Unidos, e não países sobre os quais muito se fala, como Cuba, Angola e Venezuela. Portanto, nem que o critério ideológico de fato existisse, o argumento dos radicais da direita cairia por terra já que os norte-americanos corresponderam por mais de 40% de sua atuação de 1998 até 2016.

MENTIRA: “O sigilo das operações financeiras envolvidas nessas transações encobriria desvios”

VERDADE: O sigilo das operações financeiras é imposto por lei (Lei Complementar nº 105, de 2001, aprovada no período FHC) e visa proteger informações privadas e sensíveis das empresas que recebem o empréstimo, como o nível de endividamento, a capacidade de pagamento, a estratégia de atuação, etc. Qualquer juiz, ou ainda qualquer parlamentar, pode requerer abertura do sigilo das operações financeiras envolvidas nessas exportações.

MENTIRA: “BNDES prioriza os “gringos””

VERDADE: O banco financia clientes localizados em 96% das cidades do Brasil: são mais de 5300 municípios com obras realizadas com aporte federal. Vale lembrar que este salto geográfico teve seu período de ouro justamente após Lula chegar ao poder.  No período de 1995 a 2000, por exemplo, apenas 2.402 municípios tinham obras realizadas com financiamento da instituição. Os empréstimos do BNDES para empresas que exportam serviços ou bens (EMBRAER, por exemplo) para o exterior correspondem a somente 2% do total financiado pelo banco.

MENTIRA: “BNDES não gera empregos”

VERDADE: Esta talvez seja a mais absurda das fake news espalhadas pelos adversários do PT, já que fomentar o mercado nacional e melhorar a renda da população é uma das principais razões dos financiamentos realizados pelo BNDES. Não por acaso, as operações financiadas pelo banco ajudaram a criar de 1998 a 2016 mais de 10 milhões de empregos. Um dos períodos mais férteis foi justamente durante os governos de Lula e Dilma: de 2007  2014 mais de 1,2 milhão postos de trabalhos surgiram a partir de obras financiadas pelo banco.

Do PT.org

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07 Jan 17:29

O país onde 2019 começou às seis

by Marco Neves
Em Portugal, começámos o ano à meia-noite, entre fogo de artifício e um pouco de champanhe. Pois há um país onde o ano começou quando os ponteiros do relógio bateram no número seis… Uma estranha forma de ver as horas Já sabemos que o ano começa num momento diferente em cada fuso horário. No entanto, […]
07 Jan 17:10

Após ataques de Bolsonaro e Salles, presidente do IBAMA pede exoneração

by admin

A presidente do Ibama, Suely Araújo, pediu nesta segunda-feira, 7, exoneração do cargo. À frente do órgão ambiental desde junho de 2016, ela tomou a decisão um dia após o novo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e o presidente Jair Bolsonaro questionarem via Twitter um contrato de locação de viaturas assinado por ela em dezembro.

Ela já aguardava ser substituída pelo procurador Eduardo Fortunato Bim, escolhido por Salles para chefiar o órgão, mas resolveu se antecipar à nomeação oficial.

Depois de postar no sábado que estava lendo os Diários Oficiais dos últimos 60 dias, Salles publicou no domingo uma foto do contrato entre o Ibama e a Companhia de Locação das Américas publicado no dia 10 de dezembro no Diário Oficial acompanhado da mensagem: “Quase 30 milhões de reais em aluguel de carros, só para o IBAMA….”

Na sequência, Bolsonaro compartilhou a mensagem do ministro, elevando o tom. “Estamos em ritmo acelerado, desmontando rapidamente montanhas de irregularidades e situações anormais que estão sendo e serão comprovadas e expostas. A certeza é; havia todo um sistema formado para principalmente violentar financeiramente o brasileiro sem a menor preocupação!.”

Nenhum dos dois explicou se haveria algum problema com o contrato e, alguns minutos depois, o presidente apagou seu post sobre o assunto. As mensagens se seguem a uma sequência de ataques ao Ibama que Bolsonaro vem fazendo desde a campanha, como a alegada existência de uma “indústria de multas” por parte do órgão.

Em nota o Ibama afirmou que tratava-se de uma “acusação sem fundamento” que “evidencia completo desconhecimento da magnitude do Ibama e das suas funções”. Disse também que a “presidência do Ibama refuta com veemência qualquer insinuação de irregularidade na contratação”.

Segundo o órgão, o contrato – de R$ 28,7 milhões – se refere à locação de “393 caminhonetes adaptadas para atividades de fiscalização, combate a incêndios florestais, emergências ambientais, ações de inteligência, vistorias técnicas etc”. A nota acrescenta ainda que ele é válido para todo o País e “inclui combustível, manutenção e seguro, com substituição a cada 2 anos”.

O Ibama informou também que “o valor estimado inicialmente para esse contrato era bastante superior ao obtido no fim do processo licitatório, que observou com rigor todas as exigências legais e foi aprovado pelo TCU”.

Algumas horas depois, Salles voltou ao Twitter para dizer que não havia levantado suspeita sobre o contrato. “Apenas destaquei seu valor elevado, conforme meus esclarecimentos na própria postagem. O valor elevado também foi questionado pelo TCU desde abril e, portanto, não precisava ser assinado a dez dias da troca de governo.”

O Ibama informou que se a locação não fosse assinada em dezembro, não haveria viatura para fiscalização em janeiro. Reiterou também que o TCU aprovou o contrato. Disse também que o valor obtido foi 10% inferior ao do contrato anterior vigente e que contemplou 33 carros a mais que anteriormente.

Escolhida pelo então ministro Sarney Filho, nomeado pelo ex-presidente Temer, Suely não tinha expectativa de continuar no cargo. De fato ainda em dezembro, logo após ser escolhido, Salles indicou que nomearia para o Ibama o procurador da Advocacia-Geral da União (AGU), Eduardo Fortunato Bim.

Em seu pedido de exoneração, Suely escreve: “Considerando que a indicação do futuro presidente do Ibama, sr. Eduardo Bim, já foi amplamente divulgada na imprensa e internamente na instituição ainda em 2018, antes mesmo do início do novo governo, entendo pertinente o meu afastamento do cargo permitindo assim que a nova gestão assuma a condução dos processos internos desta autarquia.”

Do Estadão

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04 Jan 14:38

Vinhedo, um dos ninhos do MBL, tem atentado contra mulher e criança negros: “Presente de Bolsonaro”

by Joaquim de Carvalho
A mão da senhora que fez a denúncia (ela tem medo de mostrar o rosto) e o BO

Uma senhora de 62 anos, a filha dela e o neto, de 7 anos, estiveram ontem na delegacia de Vinhedo, no interior do Estado, para fazer uma denúncia grave.

Na quarta-feira, a idosa e o neto estavam no ponto de ônibus no centro da cidade, quando um carro bege parou, com três jovens brancos dentro, e um deles atirou uma bomba.

Um deles teria dito:

“Isso é um presente do Bolsonaro”.

A criança ficou sem audição durante boa parte do dia, e avó e neta voltaram para casa, assustados.

O caso foi relatado em detalhes à polícia, que tem meios para investigar. Como o ponto fica na região central da cidade, basta procurar por registros de câmera.

“Estou meio assustada, medo de sair na rua, os carros param e eu já fico com medo de jogarem alguma coisa”, relatou a avó.

O caso foi noticiado pela afiliada da Globo na região, a EPTV, mas nenhuma palavra foi dita sobre o caráter político da agressão.

A frase “Um presente de Bolsonaro para vocês” não foi sequer citada.

Pode ser um caso isolado?

Espera-se que sim.

Mas pode não ser.

Sentimentos como racismo e ódio aos pobres e entidades como MBL foram empoderados nestes novos tempos.

A Polícia Civil de Vinhedo daria uma grande contribuição nesta luta pela manutenção de um estado civilizado, no verdadeiro sentido de lei e ordem, se fosse a fundo neste caso.

É necessário antes que alguém venha dizer que se trata de farsa ou armação.

“Tem câmeras por ali. Tem buscar esse registro e apontar o culpado. Não foi uma brincadeira. Foi uma agressão muito grave”, disse à filha ao DCM.

Avó, na entrevista à EPTV, disse:

“Ontem foi uma bomba, amanhã pode ser outra coisa, né? Se eles estivessem com um revólver, poderia ser um tiro”, afirmou.

Logo eles estarão com um, senhora.

 

03 Jan 12:59

Ignorância e benção

by Paulo Nascimento

Xangô, catimbó, macumba…

Quantas vezes na vida você, caro leitor ou cara leitora, utilizou algum termo como esses ou mesmo algum semelhante a esses quando foi falar sobre religiões de matriz africana? E quantas vezes parou para pensar que tais palavras e, principalmente, as maneiras como elas são empregadas reforçam o preconceito e a perseguição a essas religiões e seus praticantes?

Para ajudar no argumento e aproximar a história de nós, resgato aqui uma pequena nota publicada no extinto Diário de Natal no dia 15 de março de 1956 (nem faz tanto tempo assim, não é mesmo?). Com o título “Xangô e macumba nas Quintas”, o texto de quatro parágrafos registra de forma longe de ser minimamente respeitosa a ocorrência de cerimônias religiosas no bairro hoje localizado na Zona Oeste de Natal.

O jornal chama as reuniões de “ritos bárbaros”, que seriam “encenados, em meio à geral promiscuidade” e seriam atos proibidos por lei. Assim, ainda conclama – e aqui está uma das chaves dessa discussão – que a “Polícia desse uma batida na região que indicamos, afim (sic) de constatar a veracidade do caso em tela, tomando as providências exigíveis”.

O Diário de Natal era, à época e por anos a fio, o veículo de comunicação mais poderoso desta província. Consagrava e “desconsagrava”, ao seu gosto. Para os leitores pouco afeitos à história do periódico, o Diário seria hoje quase que um Whatsapp com charme, um Facebook sem a conta bancária de Zuckerberg. Consequentemente, era também um importante instrumento a reverberar todo o pensamento dominante.

Perceba aqui comigo, amigo leitor e amiga leitora, o quanto de preconceito guarda essa pequena nota em um jornal de uma cidade que tinha pouco mais de 100 mil pessoas. Uma manifestação religiosa marginal, em um bairro popular, taxada de promíscua e ilegal/fora da lei, “denunciada” pelo principal veículo de comunicação da cidade. Já se imaginou no lugar destes praticantes da religião?

Vale aqui um adendo que a acusação de “crime” levada a cabo pelo jornal é apenas mais uma dose de preconceito e reflexo ainda do sistema de perseguição montado contra o povo preto após a abolição. O Código Penal vigente em 1956, que é o mesmo até hoje, já garantia a liberdade de culto a todo e qualquer brasileiro. No entanto, a religião de matriz africana era perseguida pelo poder estatal em todo o país sob a acusação de curandeirismo, esta sim uma prática criminalizada na lei. Pois religião mesmo só a trazida pelos colonizadores, o resto é promiscuidade, “xangô”, “macumba”, “catimbó”. E aí, vamos repensar esses termos?

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02 Jan 17:22

Quem é Fátima Bezerra, a única mulher eleita para governar um estado no Brasil

by Isabela Santos

Texto: Isabela Santos e Rafael Duarte
Fotos: Arquivo pessoal /Fátima Bezerra

Nova Palmeira ainda era um povoado paraibano, na segunda metade dos anos 1950, quando por muito pouco não foi cenário de uma tragédia. A tarde seguia sem pressa até o instante em que um caminhão baú em alta velocidade atravessou o sertão e passou por cima de uma das filhas do artesão Severino e da parteira Luzia.

De sobressalto e em estado de choque, a família correu em desespero imaginando o pior, ao mesmo tempo em que o motorista sumia na caatinga sem rumo e sem prestar socorro.

Deitada, sem se mexer, a pequena Fátima abriu os olhos devagar quando viu os irmãos, os pais e amigos aglomerados ao redor dela. O corpo da menina tinha ficado posicionado entre as rodas do caminhão. A “neguinha” de seo Severo, como o pai chamava a filha, saiu ilesa.

“Foi milagre!”, gritou a mãe, parteira do povoado e devota de Santa Luzia.

Seis décadas depois, a filha de Severino e Luzia, dada como morta por poucos e intermináveis segundos naquela tarde dos anos 1950, é motivo de festa mais uma vez em Nova Palmeira, embora o destino a tenha levado para o vizinho Rio Grande do Norte, onde construiu uma trajetória que começou na sala de aula, passou pelo movimento sindical, chegou ao legislativo estadual, seguiu pela Câmara dos Deputados e Senado até desembarcar no cargo político mais importante do Estado.

Nesta terça-feira (1º), Fátima Bezerra consolida esse percurso. Será empossada como a única mulher eleita em 2018 para administrar um estado no país pelos próximos quatro anos. E com um adendo, como costuma enfatizar desde a campanha eleitoral: será a primeira governadora de origem popular no Rio Grande do Norte, estado que já contou com outras duas mulheres na chefia do Executivo (Wilma de Faria e Rosalba Ciarlini), mas ambas ligadas à famílias tradicionais e oligarquias locais que se revezavam no poder até as eleições deste ano.

Saiba Mais: Conheça os detalhes da posse de Fátima Bezerra nesta terça-feira

Fátima em Nova Palmeira, numa das viagens de volta ao passado

Em 63 anos, mudou muita coisa no país, na região Nordeste, no Rio Grande do Norte e na vida da governadora eleita pelos potiguares. Os seis filhos de Severino Bezerra de Medeiros e Luzia Mercês do Amaral – Preta, Sebastião, Bêu (já falecido), Conceição, Fátima e Terezinha – dormiam nos colchões de palha e lã feitos pelo pai, inicialmente dentro da própria casa da família. Depois, em um galpão vizinho. Luzia muitas vezes se ausentava por horas ou virava a noite para ajudar outras mulheres a serem mães também.

Apesar da vida partidária de Fátima, a política não chega a ser uma novidade para a família Bezerra. Preta, a irmã mais velha, foi vice-prefeita e vereadora de Nova Palmeira. E a própria mãe, dona Luzia, tinha o respeito dos políticos da região em razão do carinho popular conquistado pelos partos gratuitos que realizava nas redondezas.

Quando Fátima confrontou Carlos Eduardo Alves (PDT) num dos debates do 2º turno, afirmando  que ele não sabia o que era uma seca de verdade, a senadora e então candidata ao Governo olhava para o próprio passado e voltava para um cenário conhecido, marcado pelos efeitos que a estiagem deixava no chão de Nova Palmeira.

A irmã Conceição conta que quando eram criança, ainda na Paraíba, a região sofria com uma longa seca:

“Às vezes nossa mãe chegava nas casas e não tinha nem açúcar pra fazer uma garapa pra dar força nas mulheres. Ela levava a comida, um pedacinho de carne pra fazer pirão e só voltava pra casa quando a mulher descansava”, relata.

Ceição, como é chamada, vê algo da matriarca na irmã mais famosa. “Fátima hoje é essa mulher que – eu digo muito a ela – faz o que minha mãe fazia, só que de outra forma, com outra roupagem. A vida dela é trabalhar pelo povo”, diz com orgulho da mãe e da irmã.

O reconhecimento pelo trabalho da mãe é público. No ano seguinte à morte de Luzia, em 1998, a creche municipal de Nova Palmeira recebeu o nome de Luzia Mercês do Amaral.

Dona Luzia, parteira de Nova Palmeira e hoje nome de creche na cidade, participou da eleição de Fátima em 1996 para a prefeitura de Natal

A neguinha de seo Severo

Se a governadora potiguar guarda semelhanças de personalidade com a mãe, o carinho que recebia do pai também marcou a família. Severino, também conhecido como Severo, era artesão e tropeiro, vendedor que transportava os produtos montado em burros ou cavalos pelo interior do Nordeste. O pai de Fátima também era um exímio contador de histórias, mas até hoje as filhas não sabem se ele conseguia ganhar algum dinheiro com o dom.

Caçula da família, Terezinha Bezerra lembra do carinho de Severo com Fátima e lamenta o fato do patriarca não ter conseguido acompanhar a trajetória política da filha:

– “Meu pai morreu em 1981, infelizmente não viu Fátima vencer. Ele só a chamava de “Neguinha”. Era a “Neguinha” de seo Severo. Ele dizia: “essa neguinha ainda vai fazer muito sucesso, essa neguinha ainda vai trazer muito dinheiro pra mim”. Fátima se destacava desde pequena, era quem fazia as coisas”, diz Tetê.

Além da empatia, Fátima herdou também responsabilidade. A qualidade é reconhecida pelos eleitores que a fizeram a governadora mais votada da história do Rio Grande do Norte, com mais de um milhão de votos. No início da adolescência, o traço era visto no cuidado com os irmãos, mesmo pelos mais velhos:

“Eu sou mais velha, mas só ia pra festa se ela fosse, porque Fátima ficava policiando a gente. Sempre foi muito responsável. Na casa, cada uma tinha alguma atividade. Não precisava minha mãe mandar, ela sempre deixava tudo pronto”, lembra Conceição.

Fátima ao lado as irmãs em Nova Palmeira, em visita da poetiza Zila Mamede

As tarefas de casa foram substituídas pelas da escola, quando retomou os estudos da segunda etapa do Ensino Fundamental, no Instituto Padre Miguelinho, em Natal. Fátima havia parado de estudar por falta de escola em sua cidade. A mais próxima era em Picuí, onde Conceição morou na Casa do Estudante.

“Não é que meus pais não dessem valor a estudo, mas não tinham dinheiro pra colocar todos os filhos na escola de uma vez. Quando chegava no final de semana eu levava os livros e ela ficava devorando”, contou a irmã, revelando que Fátima sempre teve apreço pela Educação, mais tarde sua bandeira de militância e de vida.

Em sala de aula, a professora Fátima ia além do conteúdo didático

Fátima passou em 1º lugar no concurso para a rede municipal de ensino

Como em Nova Palmeira só tinha o primário, Fátima seguiu para Picuí, onde ainda estudou e morou durante um ano. Quando soube que uma tia paterna morava em Natal (RN), arrumou as malas e chegou na capital do Rio Grande do Norte na segunda metade dos anos 1970 para terminar os estudos. A irmã de Severo morava na rua Galdino Lima, bairro das Quintas, Zona Oeste, e foi o primeiro endereço da menina de Nova Palmeira em Natal.

Os estudos levaram Fátima a se tornar pedagoga formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). No primeiro concurso para a rede municipal, Fátima foi aprovada em 1º lugar e ainda passou no concurso da rede estadual.

Hoje motorista e líder comunitário, Fernando Luiz da Costa foi um dos alunos de Fátima na Escola Estadual Presidente Café Filho, em 1980. Ele presidente do Conselho Comunitário de Brasília Teimosa e da Federação dos Conselhos Comunitários do RN – FECAP-RN, está se desfiliando do PSD (partido do governador Robinson Faria) para ingressar no PTB.

Costa lembra de ter aprendido nas aulas de Ciências Sociais mais que conteúdo didático.

“Ela sempre ensinou a gente a fazer o bem e ajudar o próximo. Aprendi muita coisa com ela”, conta, lembrando que às vezes acompanhava em grupos a professora até a parada de ônibus.

“Na época, acho que ela nem sonhava com política. Era muito humilde e as mães dos alunos gostavam muito dela. Estou muito feliz em ver uma professora que me ensinou ser agora governadora, vinda das bases”, completa Fernando, confiante de que o governo que se inicia neste 1º de janeiro será regido por esse sentimento comunitário, com ênfase na Educação.

Fernando se engana em um ponto. Naquela época, a política já pulsava na jovem professora. Como professora da escola estadual Café Filho, Fátima foi apresentada a um novo mundo: o do sindicalismo e ao do recém-fundado Partido dos Trabalhadores.

Estreia no parlamento com vitória por 82 votos de diferença

Quando Fátima entrou para o movimento sindical, a categoria de professores no Rio Grande do Norte era dividida em várias associações. Havia a associação de funcionários, dos estudantes, dos supervisores e orientadores, com bases fortes e distintas em Natal, Mossoró e Caicó. No entanto, parte do movimento começou a defender maior organização, especialmente a partir da Constituição de 1988, que garantia aos trabalhadores o direito de se organizarem novamente em Sindicatos. Assim nasce o Sindicato dos Trabalhadores em Educação (SINTE), em setembro de 1989

Fátima Bezerra, Fernando Mineiro e Júnior Souto participaram desse processo e iniciaram, com uma enorme contribuição dos  professores do Estado, suas respectivas carreiras políticas no parlamento. Dos três, Fátima foi a quem alçou voo por último. Quando ela se candidatou a primeira vez, em 1994, Mineiro já era vereador de Natal desde 1988 e Júnior Souto havia sido eleito deputado estadual quatro anos antes, ambos pelo PT.

Souto era o favorito para manter a cadeira na Assembleia Legislativa e conquistar a reeleição em 1994, contando mais uma vez com a base dos professores do já criado Sindicato dos Professores.

Naquele mesmo ano, porém, a presidenta do Sinte era uma pedagoga de Nova Palmeira que também decidiu concorrer a uma cadeira na ALRN, rachando a base dos professores. Fátima Bezerra entrou de cabeça na campanha e na contagem final das urnas acabou recebendo 82 votos a mais que Souto.

Começava ali uma trajetória de vitórias, algumas derrotas e várias conquistas.

O ex-presidente Lula esteve presente em quase todas as campanhas de Fátima

Hoje, 24 anos depois, Júnior Souto ainda lembra o número de votos que lhe faltou para garantir a reeleição, mas acredita que aquela eleição foi importante para que Fátima ocupasse o lugar que ocupa agora:

-As coisas que acontecem na vida e na história são resultado da ação das pessoas. Foi ótimo que tenha sido assim porque o que Fátima conseguiu realizar, talvez o meu perfil não conseguisse produzir com os mesmos efeitos. Fátima tem uma trajetória vitoriosa, realizou mandatos reconhecidamente exitosos e se consolidou como uma liderança nacional. Esse é um momento histórico e, entre nós do Partido, não há ninguém mais qualificado, e com a marca pessoal dela, capaz de extrair as melhores possibilidades desse arranjo político que foi construído.

Uma característica de Fátima apontada por Júnior Souto é perceber o que pode e o que não pode ser marcado pela ideologia, especialmente num momento do país em que a polarização ideológica estimula e provoca a violência.

– Ela tem uma qualidade de “desideologizar” a política. Ao contrário, ela politiza a política, mas não insere a ideologia em todos os atos até porque existem ações que não podem ter influência da ideologia. E Fátima percebe e sabe disso. E independente dos aspectos ideológicos, não há um único político do Estado capaz de reunir as qualidades para produzir um campo de coalizão no sentido de recuperar a economia como Fátima está fazendo.

Experiência no Parlamento como a grande escola

Adepta do diálogo, Fátima também soube se impor no Parlamento, como na votação do impeachment de Dilma Rousseff

 Fátima Bezerra venceu todas as eleições que disputou para o parlamento, incluindo dois mandatos deputada estadual (1994 e 1998), três de deputada federal (2002, 2006 e 2010) e um mandato de senadora (2014). Nesse período, a governadora eleita também perdeu quatro eleições para a prefeitura de Natal. AS duas primeiras, em 1996 e 2000, a petista foi derrotada pela ex-prefeita e ex-governadora Wilma de Faria. As duas últimas, 2004 e 2008, saíram vitoriosos das urnas Carlos Eduardo Alves e Micarla de Sousa, respectivamente.

Para Raimundo Alves, assessor e futuro chefe da Casa Civil do governo, Fátima aprendeu fazendo política, com vitórias, derrotas, mas sobretudo, com a experiência no Parlamento.

– O parlamento é a principal escola, é onde está a representação da sociedade. É onde estão os extremos, o centro, as oligarquias, os oportunistas… e isso evidentemente cria uma capacidade de diálogo e de respeito com os contrários. A principal característica da Fátima é o diálogo, é essa convivência com os contrários, com as disputas e também com as alianças.

Ele analisa as quatro derrotas eleitorais para a prefeitura de Natal de forma separada. Cada uma com seu motivo:

– As derrotas se deram em circunstâncias diferentes. Na primeira Fátima era desconhecida, na segunda houve um isolamento, na terceira havia uma questão problemática ali na primeira metade do governo Lula e a quarta foi erro de avaliação em relação ao arco de alianças não aprovado pela população. São momentos diferentes. Mas o aprendizado maior na política Fátima obteve na vida parlamentar, que é de fato a grande escola.

Com Wilma de Faria, rivalidade e respeito recíprocos

Fátima e Wilma: adversárias e aliadas a depender das circunstâncias

Entre os políticos potiguares ninguém rivalizou mais com Fátima Bezerra do que a ex-governadora Wilma de Faria. Se a “guerreira” levou a melhor nas duas disputas majoritárias para a prefeitura de Natal, a petista venceu a última batalha, elegendo-se senadora da República numa das eleições mais acirradas da história do Rio Grande do Norte.

 

 

Ex-deputado estadual, Leonardo Arruda acompanhou de perto tanto a trajetória de Wilma como o percurso de Fátima. E pontua que, apesar de adversárias, as duas se respeitavam:

– Se respeitavam e tinham uma admiração muito grande uma pela outra. Eu só acho que houve um equívoco de avaliação em 2014, estava na cara que a chapa que a população queria era Wilma para o governo e Fátima para o Senado.

Arruda lembra que conheceu a Fátima sindicalista e, pouco tempo depois, dividiu o plenário da Assembleia Legislativa com a colega:

– A vida política de Fátima é marcada pelo diálogo, a trajetória dela é de vitória. Uma pessoa que chegou sem estruturas maiores, se fez por ela mesma. Na Assembleia Legislativa, por exemplo, não era do contra por ser do contra. Ela teve uma convivência pacifica com os demais deputadas. Fátima sempre soube ouvir.

Uma parlamentar incansável, avalia Mineiro

Amigo e contemporâneo, Fernando Mineiro destaca a luta incansável de Fátima

Contemporâneo da governadora eleita, Fernando Mineiro acompanha a vida política de Fátima desde a universidade. Os dois também estiveram juntos na direção do Sinte e a partir dali caminharam em paralelo conquistando mandatos, vencendo eleições no parlamento e perdendo disputas para o Executivo municipal.

Ao longo do tempo, especialmente a partir dos ano 1990, Fátima e Mineiro se destacaram de tal forma dos demais parlamentares do PT no Rio Grande do Norte que criou-se uma espécie de rivalidade interna ao ponto da imprensa e de parte da militância mais radical dividir o partido entre o PT de Fátima e o PT de Mineiro, análise que os dois sempre negaram.

Quando Fátima venceu a eleição em 1994 e se tornou a primeira mulher parlamentar do PT no Rio Grande do Norte, Mineiro já era vereador de Natal.

 Olhando para trás e analisando a conjuntura atual, Mineiro defende que não há outro político no Estado com as mesmas qualidades que a companheira de partido:

– Fátima chega ao Governo trazendo na bagagem algo que nenhuma outra governante estadual trouxe. Além de sua origem, traz experiências políticas em duas frentes que em muito a ajudarão a enfrentar os imensos desafios: como liderança sindical e como parlamentar atuante.

Em relação à personalidade da governadora eleita, destaca a determinação:

– O que mais se destaca em Fátima é a sua incansável determinação em alcançar aquilo que se propõe, enfrentando todos os obstáculos.

Dedicação vem da personalidade, aponta amigo e assessor

Fátima Bezerra, Gleisi Hoffman e Vanessa Grazziotini ocuparam mesa do Senado para impedir votação da reforma Trabalhista em 2017

Amigo e assessor de confiança há mais de 20 anos, Adriano Gadelha diz que durante os mandatos de deputada estadual, federal e senadora, mesmo nas discussões sobre os mais diversos temas, Fátima sempre deu um jeito de fazer abordagem pelo viés da Educação.

Fátima foi dirigente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação (Sinte/RN), um dos maiores do Nordeste, onde exerceu vários cargos, inclusive o de Coordenação Geral. Em 1994, se elegeu deputada estadual, sendo reeleita em 1998. No ano de 2002, com 163 mil votos, foi a deputada federal mais votada do Rio Grande do Norte.

Fátima também foi delegada na IV Conferência Mundial sobre a Mulher (Beijing, 1995) e no I e II Fórum Social Mundial (Porto Alegre, 2001 e 2002). Também participou do Encontro Internacional em Solidariedade às Mulheres Cubanas (Havana, 1998).

“O primeiro mandato federal, que começou em 2003, é marcante porque é muito difícil a conquista de um mandato federal. Sempre foi polarizado entre dois grupos, o grupo A elegia 4 e o B mais 4. A eleição dela é um marco porque a gente conseguiu ter um mandato trazido pelo meio popular, de alguém que não participava daqueles grupos tradicionais”, ressalta Adriano Gadelha.

Fátima Bezerra se reelegeu deputada federal em 2006 e em 2010, ano em que recebeu dos potiguares mais de 220 mil votos, novamente a mais votada. A avaliação da atuação nos três mandatos de deputada federal, por parte do povo potiguar, a impulsionaram a disputar o Senado Federal, em 2014. Eleita, tornou-se a primeira senadora de esquerda e de origem popular do Rio Grande do Norte.

Fruto dos movimentos sindicais, a construção coletiva de mandatos de Fátima é um diferencial, aponta Adriano Gadelha.

“Eu acho que essa dedicação tem a ver com a personalidade de Fátima. Ela se dedica 24 horas aos mandatos e a cobrança sobre a assessoria era muito forte, mas ao mesmo tempo conseguia fazer com que cada um de nós nos sentíssemos parlamentares pelas vitórias conquistadas. Cada projeto de lei é uma coisa nova e sonhada no coletivo”, comenta Adriano, ressaltando que tanto nas ações legislativas, quanto nas eleições, propostas e programas são construídos buscando ouvir especialistas, opiniões políticas diversas de filiados ao PT ou não.

“Nos projetos de lei, audiências públicas, na proposição de emendas parlamentares, Fátima é muito incisiva pra que se faça o máximo de consultas possíveis, pra que a ação se torne mais coletiva, por mais que seja dela como deputada ou senadora, sempre foi nessa linha”, conta.

Em sua história política, destaca-se a instituição da região metropolitana de Natal que possibilitou unificação de tarifas públicas, como telefones e transporte público e ainda do percentual legal destinado à meia passagem de estudantes. Fátima também provocou o Poder Executivo para a criação da Lei de Incentivo à Cultura Câmara Cascudo.

Sobre essa lei específica, Adriano Gadelha lembra que o gabinete preparou o projeto de lei, rejeitado pelo então governador Garibaldi Alves Filho.

“Ele vetou alegando que criava despesa e não poderia ser feita pelo parlamento. Mas aí o projeto serviu porque forçou de certa forma o governador a mandar um projeto igual ao de Fátima, já que tinha que ser encaminhado pelo Poder Executivo. E hoje é lei”.

Fundeb, IFRN, transporte escolar e extinção de verba de gabinete para deputados aposentados 

Inauguração do Instituto Federal na Zona Norte de Natal, com presença do ministro da Educação Fernando Haddad

Há vários projetos ou ações importantes realizados pelos mandatos de Fátima. Aliás, foram da área de cultura as duas últimas iniciativas do mandato da governadora eleita no Senado: a criação da comenda de incentivo à cultura Câmara Cascudo e a criação da Lei de Incentivo ao Livro e à Leitura, que institui pela primeira vez na história uma política pública de leitura no Brasil.

Olhando para o retrovisor, um dos primeiros embates de Fátima, ainda na Assembleia Legislativa, foi uma ação popular para acabar com a verba de gabinete que os deputados estaduais aposentados recebiam.

“Como eles eram aposentados e recebiam verba de gabinete? Isso foi uma economia gigantesca na época. O povo do Rio Grande do Norte nem sabia que isso acontecia”, conta o assessor, citando ainda a medida que deu o direito para mães acompanharem crianças internadas em hospitais públicos.

Nas lutas pela educação, Fátima foi relatora Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), defendeu sua permanência e se dedicou com afinco ao programa de expansão das universidades e dos institutos federais. A ela se atribui parte da responsabilidade pelo crescimento do número de unidades do IFRN, que passou de 2 para 21 durante os governos do PT.

A petista também atuou na gestão do programa Caminho da Escola levando aos ministérios relatórios dos municípios que precisavam receber transporte escolar. Em 2010, após dois anos da criação do programa, o governo federal já havia transferido ao Rio Grande do Norte cerca de R$ 24 milhões a 128 municípios do estado para aquisição de 155 ônibus escolares.

Os IFRNs são uma marca dos mandatos de Fátima como deputada federal

Essas e outras ações são marcas da atuação de Fátima e a fazem ser recebida por estudantes em todo o Estado. A relação próxima ao ex-presidente Lula e a defesa pela democracia e direitos sociais também são indissociáveis à imagem dela.

Um dos maiores embates de repercussão internacional ocorreu em 2017, quando Fátima Bezerra (RN), Gleisi Hoffman (PR) e Vanessa Graziottini (PCdoB) ocuparam a mesa do Senado Federal para impedir a votação da Reforma Trabalhista. As parlamentares chegaram a ser ameaçadas de agressão física por alguns colegas, que apelaram para desligar a energia da Casa enquanto as senadoras estiveram na mesa.

Fátima é saudada por colegas e amigos como uma parlamentar adepta do diálogo. Mas o episódio da ocupação da mesa do Senado mostra que até para o diálogo há um limite:

Para uma professora que se tornou parlamentar forjada no movimento sindical, esse limite é claro: o ataque ao direito dos trabalhadores.  

Saiba Mais: Fátima diz que herda “legado dramático” e manda recados na posse

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02 Jan 13:35

Buscando dinosaurios, el museo jurásico de Asturias

by Silvia elmundoconpeques

Hay museos que deberían ser mucho más conocidos. Eso es sin duda lo que pensamos del MUJA, el museo jurásico de Asturias. Los dinosaurios siempre son un reclamo para los más peques aunque a muchos adultos nos gustan igual que a ellos. Pero aún así, si no pensamos en la parte de ocio, ¿porqué deberíamos interesarnos por los dinosaurios?.

Como decía Pablo Neruda, “no olvides que la causa de tu presente es tu pasado así como la causa de tu futuro será tu presente”. Si miramos al pasado los dinosaurios son hoy una lección de historia,  suficiente excusa para disfrutar un gran día rodeados de los más grandes pobladores de la tierra hace millones de años.

Para disfrutar de una visita de lo más completa nos dirigimos a Colunga, muy cerquita de la televisiva Lastres.

Rasa de S. Telmo 33328, Colunga
Tlf 985 868 000 Fax 985 850 044
info@museojurasicoasturias.com

Lat: N 43º 30´6.84"
Long: W 5º16´29.17"

Con un parquing grande y espacioso que cierra fuera de horario (no se puede pernoctar en él) llega la primera de las sorpresas y también de los grandes contenidos de este museo. Todo su exterior está lleno y rodeado de reproducciones a tamaño real de estos habitantes jurásicos. Puedes entrar directamente al museo y pasear después entre las reproducciones pero nosotros no pudimos evitar jugar con ellas. 

Dando de comer a los grandes dinosaurios herbívoros en el MUJA

Dando de comer a los grandes herbívoros

Y decimos jugar porque decidimos que unas réplicas tan perfectas eran ideales para trasladarse a otro tiempo.

Imaginarse que dábamos de comer a los herbívoros y que nos quedábamos congelados por el miedo ante los grandes carnívoros. ¿Qué podía salir mal? nosotros nos divertimos e hicimos reír a unos cuantos visitantes como nosotros aunque luego… bien que replicaron nuestras fotos, señal de que reírse es un mal muy necesario.

Reproducciones reales de dinosaurios en el exterior del MUJA

Reproducciones reales en el exterior del MUJA

Pero volvamos al MUJA. Este museo, con forma de huella tridáctila de dinosaurio tiene en su interior “una de las muestras más completas y didácticas del mundo sobre estos fascinantes reptiles”, tal y como indican en su web. 

Su interior es cálido y espacioso. Lo han conseguido gracias a la madera proveniente de los bosques escandinavos y al respeto por los grandes volúmenes. Sucede en ocasiones que algunos museos, con  mucho que enseñar, no disponen del lugar adecuado. Recorres sus salas sintiéndote invadido por demasiada información. En el museo jurásico de Asturias eso no sucede y recorres sus pasillos con calma, disfrutando de cada enseñanza y leyendo todos sus paneles informativos.

tyranosaurus rex a tamaño real en el MUJA. Los grandes dinosaurios

tyranosaurus rex a tamaño real en el MUJA

Si la razón que nos embarcó a desplazarnos ese fin de semana a Asturias fue visitar a los dinosaurios también lo fue sus talleres para niños. Los niños disfrutan y aprenden en cada viaje pero siempre que añadimos un componente lúdico el aprendizaje es mejor y ellos más felices. Saber que iban a convertirse en paleontólogos en busca de fósiles o que tendrían un guía privado por el museo les emociona a los nuestros y a cualquiera.

Dirigidos a niños de 4 a 11 años el museo propone dos talleres: 

Paleontólogo por un día
Desde la excavación y la extracción de los fósiles hasta su análisis y estudio en el laboratorio, los más pequeños de la casa conocerán el trabajo de un paleontólogo. Buscarán fósiles en unos cajones de arena para después observar sus características e identificar a qué dinosaurio perteneció.
La actividad incluye un recorrido por el Museo.
Conviértete en un paleontólogo
Desde la excavación y la extracción de los fósiles hasta su análisis y estudio en el laboratorio, los más pequeños de la casa conocerán el trabajo de un paleontólogo. Buscarán fósiles en unos cajones de arena para después observar sus características e identificar a qué dinosaurio perteneció.

En el primero de ellos la entrada de visita al museo es obligatoria y en el segundo no lo es. Nuestros hijos disfrutaron de la primera actividad y a pesar de haber ya visitado el museo con nosotros previamente, la visita guiada les resultó muy atractiva. No podemos hacer otra cosa que recomendarla. Además se llevaron a casa una huella de dinosaurio que pudieron reproducir en escayola durante la realización del taller.

Los tyranosaurus rex a tamaño real en el MUJA. Dinosaurios al natural

Los tyranosaurus rex a tamaño real en el MUJA

El interior del museo, con 2000m de espacio muestra la época del Mesozoico y de sus habitantes principales, los dinosaurios. Tal y como detallan en su web. “El recorrido se estructura a través de una secuencia cronológica: partiendo de tiempos anteriores al Mesozoico (Premesozoico), el propio Mesozoico (CretácicoJurásico y Triásico) y las eras posteriores hasta la actualidad (Postmesozoico).”

Esta composición es su exposición permanente pero dependiendo del momento de la visita pueden darse además exposiciones temporales. Para averiguarlo antes de desplazaros os recomendamos comprobarlo en su web. En fechas señaladas como carnavales o navidades presentan además talleres especiales por lo que visitar una y otra vez el museo es siempre una buena idea.

Para familias con niños o para amantes de los dinosaurios no podemos hacer más que recomendar efusivamente una visita al fantástico museo del jurásico de Asturias.

 

 

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31 Dec 13:44

O figurão do ano

by Francisco Seixas da Costa

Vai por aí uma grande indignação pelo facto da redação da RTP ter escolhido Jair Bolsonaro como personalidade ou figura do ano de 2018.

Posso imaginar que, se acaso a escolha tivesse recaído em Xi Ji Ping, nem uma agulha teria bulido na quieta melancolia dos cronistas do burgo. E, no entanto, o líder chinês é um ditador que chefia com mão de ferro um país onde os direitos humanos são uma ficção, a separação de poderes é um conceito inexistente e a democracia é o que não é. Mas, repito, tivesse sido ele o escolhido, nem uma voz se teria ouvido a contestar. Alguém duvida?

A eleição de Bolsonaro representa uma inversão política de 180° no mais importante Estado de língua portuguesa, onde vivem centenas de milhares de portugueses, cuja evolução é também vital para o futuro da CPLP. Um Brasil “ao contrário” pode ditar mudanças drásticas no tecido político da América Latina, uma sua relação privilegiada com a América tutelada por um figura como Trump pode trazer fortes surpresas, em matéria climática e em outras agendas onde, por muitas décadas, a diplomacia do Brasil, com presidentes de colorações bem diferentes, havia relançado a imagem do país. Se a chegada ao poder de uma figura política deste jaez não é a notícia mais relevante surgida na cena internacional nos últimos meses, então não sei qual será.

A personalidade ou figura do ano - a “Time” um dia escolheu Hitler, com toda a razão - não é um “prémio”, não é um reconhecimento valorativo, não é um elogio. Em 2016, Trump foi a Personalidade do Ano em todo o mundo - e não foi por gostarem dele. Assim, trata-se apenas da constatação de um facto: Bolsonaro é a grande “novidade” da política mundial no ano de 2018, goste-se ou não dela. Mais do que a figura, Bolsonaro é mesmo o maior “figurão” do ano!

E, já agora, aproveito para deixar aqui expresso, alto e bom som, que entendo que a informação produzida pela RTP nos últimos anos, com Paulo Dentinho ou agora com Maria Flor Pedroso, com todos os defeitos que possa ter (e tem muitos), está a anos-luz, em matéria de qualidade e equilíbrio, de qualquer dos seus concorrentes, com todo o respeito que alguns me merecem.
21 Dec 13:53

“A Invenção do Nordeste” concorre ao prêmio Shell de Teatro  

by Rafael Duarte

O espetáculo “A Invenção do Nordeste”, do grupo potiguar Carmim e dirigido por Quitéria Kelly, concorre a duas indicações no prêmio Shell de Teatro 2018, a mais tradicional e importante premiação do teatro brasileiro.

A peça disputa nas categorias “autoria”, com Henrique Fontes e Pablo Capistrano, e “direção”, com Quitéria Kelly. O espetáculo é inspirado no livro “A Invenção do Nordeste e outras Artes”, do historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr., colunista da agência Saiba Mais.

Em novembro, “A Invenção do Nordeste” foi escolhido como o melhor espetáculo de 2018 no prêmio Cenym de Teatro, concedido pela Academia de Artes no Teatro do Brasil, e também concorre a outros dois prêmios: o Cesgranrio de Teatro, com melhor cenografia (Mathieu Duvignaud) e melhor adaptação (Pablo Capistrano e Henrique Fontes); e o prêmio do Humor, idealizado pelo ator Fábio Porchat. Nesta premiação, das cinco categorias, o espetáculo concorre em quatro: melhor texto (Henrique Fontes e Pablo Capistrano), melhor direção (Quitéria Kelly), melhor peça (A Invenção do Nordeste) e melhor performance (Mateus Cardoso).

Pelas redes sociais, a atriz e diretora do espetáculo Quitéria Kelly comemorou as indicações e falou da importância de concorrer ao prêmio Shell de teatro, lembrando que a peça é dirigida por uma mulher:

– Pra mim é de fundamental importância essa indicação. Primeiro para que as pessoas/jornalistas entendam que é uma MULHER quem dirige esse espetáculo e parem de creditar aos homens do grupo a direção da peça. E segundi porque é minha primeira direção, iniciei esse trabalho completamente desacreditada, por mim mesma aliás, e essa indicação me dá um fôlego novo.  

O espetáculo

A Invenção do Nordeste é o quarto espetáculo autoral do grupo Carmim. Motivada por uma série de reações xenófobas contra nordestinos durante as eleições presidenciais de 2014, a atriz Quitéria Kelly se debruçou sobre a obra do historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr, autor do livro “A Invenção do Nordeste e outras Artes”.

Aos demais integrantes do grupo Carmim, ela contou sobre o desejo de criar uma peça que contribuísse para a desconstrução da imagem estereotipada do Nordeste e dos nordestinos. E decidiu assinar, pela primeira vez, a direção de um espetáculo.

O processo de pesquisa durou dois anos, quando os dramaturgos Pablo Capistrano e Henrique Fontes escreveram uma auto-ficção onde um diretor é contratado por uma grande produtora para preparar dois atores norte-riograndenses, que disputam o papel de um personagem nordestino. Durante o tempo da preparação, a identidade nordestina entra em cheque.

A peça “A Invenção do Nordeste” propõe desenhar a trajetória hilária e por vezes conflitante da história recente do estabelecimento da região nordeste. Essa unidade sociopolítica e cultural com todas as suas individualidades e também todos os estereótipos alimentados por décadas pela literatura, cinema, música e artes visuais brasileiras

 

 

 

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20 Dec 14:24

Bolsonaro causa incertezas e ameaças às políticas sociais

by admin

A decisão do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), de rever a demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, multiplicou incertezas sobre a agenda social do governo no próximo ano. Há temor quanto a possíveis cortes em programas de transferência de renda, apesar do forte aumento da pobreza durante a crise, e retrocessos no reparo de desigualdades históricas – classificadas por Bolsonaro como “coitadismos”.

Para especialistas, declarações de integrantes da equipe de transição e do próprio presidente eleito indicam que haverá redução do número de beneficiários do programa Bolsa Família, refletindo um “pente-fino” nas famílias que forem consideradas desenquadradas. Também é possível haver restrições no BPC (Benefício de Prestação Continuada), que transfere um salário mínimo a idosos e pessoas com deficiência de renda. Se confirmadas, as mudanças viriam num ano de desafios nada triviais no campo social. A recessão que se prolongou do segundo trimestre de 2014 ao fim de 2016 gerou perdas ao mercado de trabalho, provocando aumento da pobreza e da desigualdade de renda.

O Brasil tem hoje 12,3 milhões de desempregados – 5,6 milhões a mais do que no segundo trimestre de 2014, início da recessão.

Cálculos da FGV Social, realizados a partir de microdados das pesquisas do IBGE, mostram que a pobreza cresceu 33% no país no triênio 2015 a 2017, o que significa 6,3 milhões de novos pobres no período. São agora 23,3 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza no Brasil (considerando uma linha de corte de R$ 233 de renda domiciliar per capita). É mais do que a população do Chile.

Esse aumento da pobreza foi acompanhado de uma piora na distribuição de renda. Dados levantados pela FGV Social mostram que, entre o fim de 2014 e o terceiro trimestre deste ano, o Índice de Gini da renda do trabalho – que varia de zero a um, sendo zero a igualdade perfeita- passou de 0,5636 para 0,5915. Foram 11 trimestres consecutivos de piora em base interanual, algo inédito desde os anos 80.

O programa de governo de Bolsonaro traz pouca luz sobre como esses retrocessos serão enfrentados em 2019. O documento de 81 páginas sugere uma saída liberal para os problemas econômicos. Diz que o desequilíbrio fiscal gera crises, desemprego, inflação e miséria. “As economias de mercado são historicamente o maior instrumento de geração de renda, emprego, prosperidade e inclusão social”, aponta.

Ministro no governo Dilma e especialista em indicadores sociais, Marcelo Neri, diretor da FGV Social, concorda que os dois principais elementos da política social no longo prazo estão associados ao aumento de produtividade e ajuste das contas públicas: “A escolaridade e a renda nos anos bons avançaram muito, mas não a produtividade do trabalhador”, disse Neri. “Nesse ínterim, não podemos nos descuidar dos mais pobres.”

Francisco Ferreira, economista do Banco Mundial, acrescenta que não existe um antagonismo automático entre a agenda liberal pregada pelo novo governo e a expansão dos programas sociais. Para ele, iniciativas liberais não precisam ser feitas ferindo os benefícios desses programas voltados aos mais pobres, a que considera bem focalizados. “É essencial preservar o Bolsa Família”, afirmou o economista, que fica sediado em Washington.

Bolsonaro pode ganhar, contudo, um aliado no combate à pobreza: a recuperação econômica. Se confirmada a aceleração da atividade, com PIB crescendo a 2,5%, o mercado de trabalho tende a seguir em melhora, contribuindo para retirar mais famílias da situação de pobreza. Nas contas da FGV Social, o ciclo eleitoral já pode, inclusive, ter ajudado a iniciar esse processo, com reajustes de benefícios de programas sociais.

“Mesmo se crescermos 2,5% ao ano, vamos demorar uma década e meia para voltar até onde estávamos antes da crise” Esse processo de redução da pobreza será, no entanto, bastante lento ao longo do tempo: “Mesmo se crescermos 2,5% ao ano, vamos demorar uma década e meia para voltar até onde estávamos antes da crise. Em 2030, o Brasil vai estar no mesmo lugar que estava em 2014 se não combatermos o pior tipo de desigualdade, que é aquela associada à pobreza extrema”, disse Neri.

Os discursos de Bolsonaro ao longo da carreira parlamentar são fatores adicionais de preocupação entre especialistas no campo social para o ano que vem. No início desta década, o deputado federal defendeu de forma recorrente a esterilização cirúrgica voluntária – vasectomia ou laqueadura -, especialmente da parcela mais pobre da população. Segundo ele, uma estratégia para combater fome, miséria e violência.

É verdade, contudo, que Bolsonaro abrandou seu discurso durante o período eleitoral. Antes crítico do programa Bolsa Família, passou a defender sua manutenção. A proposta de passar um “pente-fino” no programa é, com os recursos excedentes obtidos, pagar um 13º aos beneficiários. O programa alcança hoje 21% da população. São 14,2 milhões de famílias que recebem o equivalente a R$ 187,32 por mês.

A indicação do deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) para o Ministério da Cidadania, que ficará responsável pelas políticas sociais do governo, também foi vista com certo alívio. Terra esteve à frente da área social do governo Temer de 2016 a 2018. E sua pasta será criada no ano que vem com a fusão dos atuais ministérios do Desenvolvimento Social, Esporte e Cultura.

Maitê Gauto, líder de polícias públicas da Fundação Abrinq, disse que a indicação de Terra foi uma “boa notícia diante do cenário” – afinal, ele tem histórico de atuação no campo. Segundo a especialista, ainda pairam dúvidas, no entanto, sobre a agenda que vai ser adotada a partir do ano que vem. E o motivo para isso são as declarações desencontradas de integrantes da equipe de transição do presidente eleito.

“Da mesma maneira que ouvimos declarações preocupantes, depois ouvimos coisas que [as] contradizem” “Da mesma maneira que ouvimos declarações preocupantes, depois ouvimos coisas que contradizem o que foi dito”, observou ela. “Estamos num momento de transição. É tenso porque, embora muitas declarações tenham sido feitas, o governo ainda não tomou posse. Quando tomar posse, a sociedade terá melhor noção do que vem.”

A fusão dos ministérios de Desenvolvimento Social, Esporte e Cultura é vista com preocupação por Gustavo Ferroni, assessor sênior de políticas e incidência da Oxfam Brasil. Para ele, o governo pode ter menos canais de diálogo para a sociedade levar seus interesses no ano que vem. “É uma população que sempre teve menos acesso ao Estado, como trabalhadores rurais, indígenas, quilombolas”, destacou.

As minorias tendem a perceber de maneira mais clara as mudanças de política do governo em 2019. Bolsonaro alega que esses grupos têm “superpoderes” e deixou claro que não pretende aumentar demarcação de terras indígenas e de quilombolas. A criação da Reserva Raposa Serra do Sol, de 1,7 milhão de hectares localizada no Estado de Roraima, deverá ser revista.

Presidente da ONG Educafro (Educação e Cidadania de Afro-descendentes e Carentes) – que promove a inclusão de negros e pobres nas universidades por meio de bolsas de estudo -, Frei David prevê uma mobilização crescente contra medidas do futuro governo. Ele cita como exemplo a promessa de Bolsonaro de reduzir o número de cotas para negros nas universidades públicas federais.

“O negro individualmente só assume com garra a luta do seu povo quando sofre algo que o choca. Espero que em quatro anos consigamos fazer aquilo que não conseguimos em 40 anos”, disse ele.

Do Valor

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19 Dec 11:51

Carta: Lula lamenta que ‘preconceito do novo governo contra os cubanos tenha sido mais importante que a saúde dos brasileiros’

by Redação
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Foto: Ricardo Stuckert

18/12/2018

 

Em cinco anos, o Mais Médicos possibilitou a fixação de quase 20 mil médicos cubanos em mais de 3.600 municípios do País.

 

Por Redação*

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou carta em agradecimento aos médicos cubanos que estiveram no Brasil durante o programa Mais Médicos, lançado em 2013 durante o governo de Dilma Rousseff. “Eu agradeço aos médicos cubanos que superaram as críticas e preconceitos e nos ensinaram que uma medicina mais humana não só é possível, como é mais eficiente para melhorar os padrões de saúde de nossas comunidades, disse o ex-presidente.

O governo de Cuba anunciou a retirada dos médicos do programa em 14 de novembro desse ano, após declarações do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). “Com referências diretas, malvadas e ameaçadoras à presença dos nossos médicos, (Bolsonaro) tem declarado e reiterado que irá modificar termos e condições do programa, com desrespeito à Organização Panamericana de Saúde e ao combinado por esta com Cuba, ao questionar a preparação dos nossos médicos e condicionar a sua permanência no programa à revalidação do título e como única via a contratação individual”, diz o governo cubano na nota.

Em cinco anos, o Mais Médicos possibilitou a fixação de aproximadamente 20 mil médicos cubanos em mais de 3.600 municípios do País. Mais de 700 municípios tiveram pela primeira vez em sua história um profissional médico.

Confira a carta do ex-presidente na íntegra:

Queridos amigos de Cuba,

A saúde não é um bem, não é uma propriedade privada. A saúde é vida, condição primeira para fazermos qualquer coisa nesse mundo. Os serviços de saúde não podem ser mais um comércio como outro qualquer. E o ofício de quem cuida da saúde dos outros sempre será dos mais belos, sempre será uma missão, um ato de generosidade e carinho por outro ser humano.

No Brasil, os médicos de Cuba foram onde não havia médicos brasileiros. Em muitas comunidades pobres, distantes, de indígenas, que jamais tinham sido assistidas por um profissional da saúde.

Muitos criticaram o governo da presidenta Dilma Rousseff por trazê-los. Seria bom se não precisássemos. Se o Brasil tivesse tantos médicos que eles ocupassem todas as vagas pelo interior e periferias pobres do Brasil. Que bom seria se tivéssemos, como Cuba, médicos até para exportar para outros países! Que coisa bonita uma ilha latino-americana que exporta médicos para o mundo. Muito melhor do que países ricos que exportam soldados e derrubam bombas em comunidades pobres. Cuba exporta vida, carinho, saúde.

Mas não temos tantos médicos. O Brasil foi o último país da América do Sul a ter uma universidade, só em 1922. E isso porque tinham que criar uma para dar um título de doutor para o Rei da Bélgica! Brasil e Cuba viveram séculos de escravidão e exploração colonial. Mas dos dois só Cuba tem médicos para exportar para o mundo.

No Brasil, medicina era curso exclusivo de filho de rico antes do Partido dos Trabalhadores chegar ao governo. O filho do pobre não tinha direito nem de SONHAR em ser médico antes do PT. Criamos cotas para negros e estudantes de escolas públicas nas universidades federais, ampliamos os mecanismos para os jovens poderem estudar em escolas privadas de graça ou pagando poucos juros após fazerem o curso. Abrimos novas universidades, inclusive cursos de medicina, no interior do país. Aumentamos o número de jovens pobres e negros no ensino superior. Quando deram o golpe na democracia em 2016, para tirar o PT do governo, uma das primeiras medidas adotadas foi impedir a criação de novos cursos de medicina no país. Proibir que se ensine mais profissionais de saúde. Um absurdo.

Mas mesmo o governo de Michel Temer, a pedido dos prefeitos das cidades, que sabem a dificuldade que era encontrar médicos para postos de saúde, manteve o Mais Médicos entre 2016 e 2018.

Quando os médicos cubanos chegaram ao Brasil tentaram de todo o jeito desqualificá-los. Mas eles venceram pela qualidade do serviço prestado ao povo brasileiro. Pela dedicação, pela atenção, pelo conhecimento e profissionalismo, pela medicina humana e preventiva que praticam. Ganharam o carinho e a gratidão de milhões de brasileiros, que agora temem voltar a ficar sem a assistência que salvou tantas vidas no Brasil.

Eu lamento que o preconceito do novo governo contra os cubanos tenha sido mais importante que a saúde dos brasileiros que moram em comunidades mais distantes e carentes.

Eu agradeço aos médicos cubanos que superaram as críticas e preconceitos e nos ensinaram que uma medicina mais humana não só é possível, como é mais eficiente para melhorar os padrões de saúde de nossas comunidades. No final os cubanos trocaram experiências e conhecimentos com muitos médicos brasileiros, e chamaram a atenção de todos para a importância da medicina preventiva e da atuação na saúde das famílias.

Por isso quero dizer ao povo de Cuba: tenham muito orgulho dos seus médicos e das suas escolas de medicina. Vocês conquistaram milhões de admiradores, milhões de pessoas gratas no Brasil.

O distrito de Batinga, na cidade de Itanhém, na Bahia, organizou uma passeata com toda a comunidade para se despedir do Doutor Ramon Reyes, que atendeu por anos no local e conquistou a todos. Saíram com faixas agradecendo o bem que esse médico fez e com esperança que ele um dia retorne. Uma homenagem simples e sincera de um povo que recebeu os cuidados atenciosos de um filho de uma ilha distante do Caribe, cercada por décadas por um feroz bloqueio pelo país mais poderoso do planeta, e que, ainda assim, consegue exportar médicos e conhecimento.

Os laços de fraternidade entre os povos são muito mais fortes que o ódio irracional de alguns representantes das elites.

É a lição que os médicos cubanos ensinam em tantos países do mundo e também nos ensinaram no Brasil.

Muchas Gracias,

Luiz Inácio Lula da Silva”

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18 Dec 18:24

The Intercept | Aborto: Questão de sobrevivência

by Redação
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A médica Débora Anhaia de Campos defende que a mulher que decidir interromper uma gravidez fará um aborto, sendo legal ou não.

Foto: Reprodução/Facebook

18/12/2018

Dá para diminuir os perigos de um aborto? Essa médica arriscou a carreira para dizer que sim.

 

Por Amanda Audi e Bruna de Lara, de The Intercept

Essa é a principal sensação de quem bate à porta de Débora Anhaia de Campos. Médica de família, ela ficou conhecida por ajudar mulheres que desejam interromper a gravidez. Primeiro, as pacientes querem tirar dúvidas básicas: “Estou mesmo grávida? De quanto tempo?”. Depois, muitas fazem logo a pergunta que as levou ao consultório: “Como posso abortar?”. Outras, com medo de uma denúncia, guardam o questionamento para si. Foi pensando nelas que Campos decidiu criar um vídeo-manual de redução de danos de abortos.

A médica ainda estava na faculdade quando sua irmã interrompeu uma gravidez e foi deixada sangrando por profissionais de saúde. A experiência em casa e a falta de informações sobre o assunto no curso de medicina, onde, diz ela, o aborto ainda é tabu, a levaram a mergulhar no tema. Quanto mais vulnerável a mulher, diz Campos, maior a chance de recorrer a “métodos inseguros”. Cabides, arames, agulhas de crochê e até soluções de água com soda cáustica ou sabão são usados por mulheres em tentativas de aborto, enumera. Em maio deste ano, Ingriane Barbosatentou interromper uma gravidez colocando um talo de mamona no útero – a mamona é uma planta com propriedades tóxicas, comumente encontrada em jardins. A mulher de 30 anos morreu e deixou órfãos seus três filhos, ainda crianças.

São esses riscos desnecessários à saúde de quem já está decidida a interromper a gravidez que Campos quer ajudar a evitar. Seja num posto de saúde de Londrina, Paraná, ou em seu canal de YouTube, ela faz questão de deixar claro: aborto ainda é crime. Mas, ciente de que isso não impede que meio milhão de brasileiras recorram à prática, a médica fala abertamente sobre o assunto – que, feita de forma insegura pelas mais pobres, negras, adolescentes e periféricas, pode levar à morte.

Na Argentina, as leis restritivas sobre aborto são semelhantes às nossas, mas prestar informações sobre o tema é permitido. Lá, existe até uma rede de voluntárias que ajuda as mulheres a completar um aborto com segurança. Já a legislação brasileira não é clara quanto à divulgação dessas informações – o que levou Campos a sofrer perseguição. Em 2017, Filipe Barros, vereador de Londrina do PRB, denunciou a médica ao Ministério Público do Paraná, ao Ministério Público Federal, ao Conselho Regional de Medicina e à corregedoria do município de Londrina por “apologia ao crime de aborto”. Agora eleito deputado federal pelo PSL, o vereador integra a equipe de transição do governo Bolsonaro justamente no grupo responsável por pensar em políticas para as mulheres, a família e os direitos humanos. O MPPR, o CRM e a corregedoria arquivaram os processos, mas o do MPF continua em andamento. Ela também sofre ataques pelas redes sociais e conta ser menosprezada por colegas de profissão pelo jeito como atua.

Em uma conversa por telefone, Campos falou sobre o manual, o tratamento que as mulheres que abortam recebem nos serviços de saúde e o que cada mulher pode fazer para evitar complicações.

Vale lembrar: Uma ação que pretende descriminalizar o aborto no Brasilaté a 12ª semana de gestação está sendo discutida no Supremo Tribunal Federal. Mas, atualmente, só é permitido por lei o aborto em caso de estupro, risco de vida da mulher ou anencefalia do feto. Ou seja, no Brasil, interromper uma gravidez ainda é crime – que pode ser punido com prisão de um a três anos. Quem facilita um aborto também pode ser condenado à mesma pena.

Você é médica de família há mais de três anos. Já viu casos de mulheres que tiveram problemas de saúde ou morreram por abortos inseguros?

A minha irmã passou por uma situação assim e foi muito maltratada no hospital em que procurou atendimento. Foi feita uma curetagem e não deram a ela medicação para dor. Deixaram ela sangrando e depois mandaram para casa sem encaminhamento para exames, sem pedido de retorno. Eu já estava na graduação nessa época, no sexto ano. Ainda não tinha pensado em fazer Ginecologia e Obstetrícia, que agora quero fazer. Isso mexeu muito comigo. Aí passei a estudar isso. Vi muitas mulheres ao meu redor abortando. Só de você ser médica e feminista, as meninas já vêm pedir ajuda. Eu vi o quanto elas estavam abandonadas à própria sorte. Eu fui estudando e decidi fazer o manual porque já há manuais para sexo seguro e uso de substâncias, porque são assuntos que atingem homens. Na época em que minha irmã passou por isso, não havia acesso a nenhuma informação real e que fosse segura, mesmo buscando muito na internet. O que havia deixava ela ainda mais desorientada. Não havia acesso a documentos do Ministério da Saúde, por exemplo. Na época, minha irmã estava com cerca de 22 anos. Ela ficou bem, mas demorou bastante tempo. Logo depois da curetagem, ela teve hemorragia por 15 dias e não procurou um serviço de saúde por medo de ser maltratada de novo. Psicologicamente ela ficou muito abalada, não tanto pelo aborto, mas mais pela tortura que ela sofreu. Ela fazia psicologia e largou a faculdade. A vida dela acabou. Quando ela foi no serviço de saúde pela primeira vez ela falou que tinha usado remédio para abortar. Depois ela começou a ser xingada, maltratada, falaram que “se sua irmã soubesse ela não deixaria você fazer”. Nem chamaram o médico que estava de plantão. Não pediram exames de sangue, ultrassom. Você tem que encaminhar pelo menos para o posto de saúde para fazer acompanhamento, passar um método contraceptivo. Ela usava método contraceptivo e falhou. Ela engravidou, terminou o relacionamento, o cara comprou o remédio e deixou ela sozinha. Até hoje nunca falei com ela sobre isso. A gente nunca sentou para falar sobre isso. Ela foi muito humilhada.

Você percebe um recorte social dos casos que acompanhou?
As mulheres mais pobres não vão usar o misoprostol [medicação que induz o aborto, recomendada pela Organização Mundial de Saúde], que é o único método seguro. Então, é grande a chance que ocorram complicações, até morte. Nesses casos, são sempre mulheres pobres, negras, adolescentes, periféricas. Quanto mais vulnerável a mulher, maior a chance de usar um método inseguro, como introdução de objetos, substâncias tóxicas.

Você já viu profissionais tratando mal mulheres que chegam ao serviço de saúde com complicações de aborto? Como os profissionais deveriam agir diante desses casos?
Felizmente nunca vi na minha frente. Não conheço nenhuma que tenha procurado atendimento espontaneamente depois de abortar. Elas têm medo de serem presas. Isso só acontece quando o quadro fica muito grave, e aí outra pessoa leva. Os dois casos mais graves que já vi foram assim. Eram negras, pobres, muito jovens. Uma já tinha outro filho, não tinha parceiro, tinha sido abandonada. Fizeram aborto em gestação avançada, de quatro, cinco meses. Uma delas chegou com uma hemorragia muito grave, entrou em choque e quase morreu. A outra foi de Samu [ambulância da prefeitura] pro hospital e não sei o que aconteceu. Nesses casos, eu suspeitei que tinha sido aborto provocado por causa da gravidade do quadro delas. Mas não perguntei, porque pra gente [profissionais de saúde] não importa. Tem que ver o estado da paciente: se ela está com hemorragia, já é muito grave. Caso ela tenha introduzido um objeto ou substância tóxica, pode ter lesionado outros órgãos. Por isso é tão grave. O único jeito de abortar sem provocar infecção interna é com o misoprostol. Nos outros casos, o aborto sempre é causado por causa de uma infecção. Então, é uma roleta russa.

Há algum tipo de treinamento dos profissionais de saúde para lidarem com essas questões?
Não. Durante toda a graduação eu não tive nenhum treinamento sobre como atender mulheres em situação de aborto inseguro. Nos cursos de urgência e emergência nunca vi ninguém abordar essa questão. É um tabu tão grande que ninguém fala sobre isso. Quando acontece, as pessoas simplesmente não sabem o que fazer. Por isso tem gente que chama a polícia. No caso de uma tentativa de suicídio, ninguém pensa em chamar a polícia. Mas numa tentativa de aborto, sim.

No posto de saúde, as mulheres te perguntam sobre formas de abortar ou há medo? Como é essa aproximação?
Muitas perguntam. Já atendi mulheres que estavam com gestação indesejada, manifestando sofrimento. Uma delas disse que não ia prosseguir com a gestação, então tive uma conversa com ela explicando que era crime, mas que, caso realmente decidisse fazer, o único método seguro é o misoprostol. Indico o vídeo que fiz com o manual de redução de danos, digo: “pense bem, não coloque a sua vida em risco”. Tento saber se alguém está pressionando ela a abortar. De qualquer jeito, elas têm muito medo, muitas não perguntam. A maternidade não é incrível para todas as mulheres.

Você disse em entrevista à revista AzMina que, desde que se formou, tem procura diária de mulheres querendo saber sobre aborto. Algum caso te marcou mais?
São tantos casos. Todos me marcaram de alguma forma. Algumas desistiram do aborto. Outras disseram que só queriam falar com alguém sobre isso porque estavam com muito medo. Teve uma menina que o pai a obrigou a abortar. Eu evito ter informações sobre elas, apenas oriento para que elas não coloquem a vida em risco. Como médica, é o que posso fazer.

Conhece outras médicas que atuam assim?
Sim, muitas ativistas, feministas. Principalmente que fazem acompanhamento. Desde só ouvir a mulher que pensa em abortar até acompanhar o processo para ela não ficar sozinha, não correr o risco de passar mal. É um momento muito solitário, e, se a mulher passa mal, ela não consegue pedir ajuda.

Desde a publicação do vídeo, a procura aumentou? Quais as dúvidas mais comuns?
O principal ponto é o desespero. Elas chegam sem saber nada sobre [como abortar]. Digo para assistirem ao manual e respondo se a pessoa ainda tiver alguma dúvida. São dúvidas básicas, como a idade gestacional, se de fato está grávida ou não, ou, se ela já tem o remédio, qual a dose, como usar… Essas coisas. No manual, respondo tudo, não são informações proibidas. O protocolo do misoprostol, do Ministério da Saúde, é público.

Muitas mulheres têm medo de falar sobre o aborto com um profissional de saúde e serem denunciadas. Como é a questão do sigilo médico?
Nós, como médicos, só temos que ouvir e orientar para que não haja um novo abortamento. Para mulheres que já abortaram, há um grande risco de haver outro por falha de método contraceptivo, por exemplo. Mas, sim, tem profissionais que denunciam. Muitos acham que podem ser considerados omissos ou coniventes se não denunciarem, mas não é assim. A gente tem que respeitar a autonomia da mulher sobre o corpo.

Se o profissional denunciar a mulher que abortou, ela ainda tem alguma garantia legal com relação a quebra do sigilo médico?
Ela vai ter que denunciar o profissional no conselho da categoria e entrar com processo contra ele. Mas nunca vi isso acontecer.

Como é a ação do misoprostol no organismo?
A mulher pode ter reações de vômito, diarreia e calafrios dentro da primeira hora. Também vai ter cólica, pode ter sangramento, na hora ou depois de alguns dias. São os efeitos relatados mais comuns. Em algumas horas, os resquícios do remédio são eliminados do corpo.

Como saber quando algo deu errado e é hora de procurar um serviço de saúde?
Se tiver sangramento muito intenso (que encha mais de quatro absorventes em duas horas) e começar a sentir tontura, fraqueza, sensação de desmaio. Se desmaiar ou se tiver febre 24 horas depois de ter usado. Também é importante reparar se há sangramento ou secreção com cor ou cheiro diferentes dos do sangue da menstruação, como cheiro de podre, alguns dias depois. Por fim, se tiver dor que não passe com ibuprofeno.

Na clínica, a mulher é obrigada a responder que fez um aborto?
Não, o paciente nunca é obrigado a falar nada. Ela pode falar só o que está sentindo, por exemplo, dizer que estava grávida e agora está sangrando, com dor e febre. Se houver infecção no útero, nós [os profissionais de saúde] já vamos pensar que talvez ela tenha feito um aborto. Mas o tratamento independe da mulher falar. O médico pode suspeitar, mas isso não quer dizer nada. Não é para fazer diferença no tratamento e na orientação sobre opções de contraceptivos.

O Ministério da Saúde tem uma portaria que regula ações de redução de danos resultantes do uso de drogas. Você acha que o ministério deveria criar ações desse tipo relacionadas ao aborto?
Com certeza. Só não existe redução de danos do aborto porque há o recorte de gênero, se trata de mulheres, e na nossa sociedade não há autonomia da mulher sobre o próprio corpo. Como falar sobre algo que as pessoas tomam como inconcebível? Muitas pessoas acham que a pena da mulher que aborta é a pena de morte. As instituições têm que mudar a cultura dos serviços de saúde e da sociedade sobre as mulheres, entendendo que elas são pessoas de direito.

Como o Brasil poderia reduzir a mortalidade de mulheres causada por procedimentos clandestinos?
Descriminalizando e legalizando o aborto até 12 semanas de gestação. Em alguns países, como a França, é até as 14 semanas. E também colocando essa temática na grade curricular dos cursos de saúde, ou seja, o atendimento humanizado a mulheres em situação de abortamento. Mesmo as que sofrem aborto espontâneo são maltratadas. Já ouvi relatos de pacientes e é sempre do mesmo jeito: se pressupõe que a culpa por perder o bebê é da mulher, mesmo que ela não tenha provocado. Ela tem que ser punida e as pessoas se sentem nesse direito em vez de acolher. Teve uma paciente que perdeu o bebê e não conseguia voltar a trabalhar, estava num processo de luto intenso. Nenhum médico queria dar atestado para ela ficar em repouso. Pela lei, ela tem duas semanas de atestado. Os médicos minimizam, como se não fosse nada, sendo que muitas mulheres que têm o vínculo com a gravidez sofrem como se fosse a morte de um filho já nascido.

A pesquisadora Débora Diniz e a pastora Lusmarina Campos vêm sofrendo uma perseguição dura por conta da defesa da descriminalização do aborto durante a audiência pública, em Brasília, na metade do ano. Você contou à Folha de Londrina que já sofreu ameaças de morte por defender a criação do Dia Municipal de Luta contra a Violência LGBTfóbica. A perseguição e as ameaças se intensificaram depois do vídeo?
Não sei dizer se intensificaram porque a gente acaba se blindando. Mas eu sempre sofro algum tipo de ameaça, xingamento. Em uma audiência pública na Câmara de Londrina me chamaram de assassina de bebês. O vereador que me processou até hoje não tirou do ar os posts que fez contra mim, mesmo sendo processado. Em maio, eu fui seguida e multada, me senti ameaçada porque o policial fez um sinal com a mão que não entendi direito. Ele me seguiu numa situação esquisita, tirou fotos do meu carro. Eu fiquei assustada, denunciei o policial, e o caso está na corregedoria da polícia. De modo geral, eu não sou uma pessoa benquista por pessoas conservadoras. Elas me veem como uma ameaça porque questiono as coisas como estão, a medicina como é feita, os preconceitos perpetuados pela prática médica. Muita gente me odeia por causa disso. Até da minha categoria. Mas também tem muita gente que admira o trabalho e apoia, mesmo que escondido. As pessoas têm medo até de dizer que apoiam. Mas nunca deixei de fazer nada por medo.

Você viu casos de mulheres que desistiram de abortar?
A ONG Safe2Choose recebe cerca de 10 mil pedidos de brasileiras por mês. É um número muito absurdo. São mulheres que não têm com quem contar. Várias já desistiram de abortar depois de a gente conversar, mostrar outras possibilidades. Às vezes elas só precisam de uma conversa honesta, sincera, sem julgamento. Uma delas desistiu de abortar e depois me mandou foto do bebê, disse que estava feliz, que só estava passando por um momento de desespero. Quando se pode falar, se organiza melhor as ideias.

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17 Dec 14:05

MST/RS forma sua primeira turma de engenheiros agrônomos

by admin

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Rio Grande do Sul forma neste sábado (15) a sua primeira turma do Curso de Agronomia com Ênfase em Agroecologia. A colação de grau de 44 formandos será no Assentamento Novo Sarandi, em Sarandi, na região Norte.

O curso de bacharelado é oferecido pelo Instituto Educar, em Pontão, via Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), em parceria com a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Ele tem duração de 5 anos.

Segundo a educadora Salete Campigotto, os recém-formados possuem alta qualidade e contribuirão para uma agricultura sustentável em assentamentos. “As notas mais baixas dos trabalhos de conclusão de curso, avaliados por doutores, foram oito. Quinze receberam nota 10 e 15 já estão publicando artigos. Um trabalho nosso ficou entre os três melhores na Conferência Internacional sobre Agricultura e Alimentação em uma Sociedade Urbanizada, evento que envolveu mais de 30 países e 400 elaborações em Porto Alegre”, diz.

A primeira turma de engenheiros agrônomos reúne trabalhadores acampados, assentados e filhos de assentados de dez estados, além de militantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). A segunda se formará em 2020, e a terceira ingressará em fevereiro de 2019.

Do Sul21

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14 Dec 17:57

5ª denúncia contra José Agripino envolve fantasma e desvio de R$ 600 mil

by Rafael Duarte

Réu em duas ações e alvo de outros dois inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal, o senador José Agripino Maia (DEM) foi denunciado pela 5ª vez nesta quinta-feira (13) pela procuradoria geral da República. Agripino Maia é acusado de nomear e manter um funcionário fantasma em seu gabinete, em Brasília, durante sete anos, o que causou um prejuízo estimado aos cofres públicos de quase R$ 600 mil.

Caso o STF aceite a denúncia, o senador responderá por peculato e participação em organização criminosa. Além dele, também foram denunciados Victor Neves Wanderley e Raimundo Alves Maia Júnior.

O senador negou as acusações e disse que vai provar inocência:

“A acusação que me fazem não é verdadeira. Nunca tive nos quatro mandatos de Senador que exerci nenhum funcionário fantasma no meu gabinete. Asseguro que isso ficará demonstrado na resposta que oferecerei à denuncia”, afirmou.

As investigações da PGR mostraram, no entanto, que Victor Neves Wanderley repassava a remuneração recebida do Senado a Raimundo Alves Maia Júnior, a pessoa que efetivamente prestava serviços ao senador. Como era funcionário da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, Raimundo não poderia assumir função no Senado.

A forma encontrada pelo parlamentar para remunerá-lo foi a nomeação fictícia. A PGR destaca que, ao longo de 84 meses, foram desviados da União quase R$ 600 mil. Além de pedir o ressarcimento desse valor com correção e juros, a PGR requereu indenização por danos morais coletivos em valor equivalente ao dobro do desviado, e a perda da função pública.

Raimundo Alves Maia Júnior ocupava a função de técnico legislativo e hoje é servidor efetivo aposentado da Assembleia Legislativa. Ele recebia, em média, R$ 9 mil de salário líquido. De acordo com o portal da Transparência da ALRN, no mês de novembro de 2015 o vencimento básico de Raimundo Alves foi R$ 5.781. O servidor ainda recebia mais R$ 5.250,85 na rubrica outras vantagens ou verbas indenizatórias. Os descontos chegaram a R$ 2.077,77. A Assessoria de imprensa da ALRN não conseguiu informar se Raimundo trabalhava no gabinete de algum deputado.

Dos R$ 590,6 mil desviados entre 2010 e 2015, ao menos R$ 460,9 mil foram repassados para Raimundo Maia, sua esposa, filha e filho. Do total, R$ 433,8 mil foram transferidos por Wanderley para a conta de Raimundo por meio de transferência bancária; R$ 6,2 mil foram repassados por Wanderley para Ester Emerenciano Maia, esposa de Raimundo Maia; R$ 19,8 mil foram repassados por Wanderley para Gabriella Emerenciano Maia, filha de Raimundo Maia; e R$ 1,1 mil foram repassados por Wanderley para Marcelo Augusto Emerenciano Maia, filho de Raimundo Maia.

Na denúncia, a procuradora-geral destaca que o senador mantém vínculo de amizade antigo com Raimundo Maia. Entre 2012 e 2014, foram identificadas 905 ligações telefônicas entre os dois. A informação é resultado de quebra de sigilo telefônico autorizada pelo STF. No mesmo período, não foi identificado nenhum contato entre o senador Agripino Maia e Victor Neves Wanderley, que ocupava formalmente o cargo de secretário parlamentar. Outro fato mencionado é que Victor Neves Wanderley foi lotado inicialmente no Gabinete da Liderança dos Democratas e, logo no mês seguinte, transferiu a remuneração recebida a Raimundo Alves Maia Junior.

“Esse foi o primeiro ato de peculato da série de 84 crimes”, reforça Raquel Dodge.

As investigações da PGR também constataram que durante o período em que esteve lotado no gabinete de Agripino Maia, Victor Wanderley trabalhou, na verdade, como gerente de uma farmácia em Natal (RN). Ele foi eleito vereador do município de Campo Grande, em 2016,  e admitiu que ocupou um cargo na Assembleia Legislativa, recebendo remuneração mensal de R$ 2.201,72, sem nunca ter trabalhado na Casa.

– “Que por volta de 2010, o depoente solicitou uma ajuda ao Deputado Estadual AGNELO ALVES; o qual nomeou o depoente para uma função na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte; Que o depoente nunca foi na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, apesar de receber a remuneração correspondente; Que a situação perdurou até o final de 2015 ou início de 2016”, disse.

Agripino Maia é réu em duas ações

Alvo de uma operação da Polícia Federal no início da semana que investigava arrecadação de dinheiro ilegal para a campanha presidencial de Aécio Neves (PSDB) em 2014, o senador José Agripino Maia (DEM) já é réu em duas ações e investigado em outros dois inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal sob os números 4399, 4011, 4141 e 4184.

Em uma delas, a PGR acusa o senador de receber R$ 1 milhão em propina para destravar a burocracia e facilitar o andamento das obras de construção da Arena das Dunas. Na outra, ele também foi denunciado por participar de um esquema de corrupção que tentou implantar no Detran do Rio Grande do Norte um projeto de inspeção veicular através de um contrato firmado pelo consórcio Inspar e o Governo do Estado. Segundo a PGR, o senador também teria recebido R$ 1 milhão do esquema.

Após ocupar sucessivos cargos eletivos desde 1978, José Agripino Maia ficará sem mandato a partir de 1º de fevereiro de 2019 e perderá o foro privilegiado, o que deve fazer com que os processos que tramitam contra ele desçam para o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte.

Maia ainda tentou se eleger deputado federal em outubro, mas foi apenas o 10º candidato mais votado, ficando na segunda suplência. Apenas oito deputados foram eleitos.

 

 

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13 Dec 19:04

Marcado para morrer, Padre Amaro resiste na luta pelo direito à terra no Pará. Por Juca Guimarães

by Diario do Centro do Mundo
O Padre Amaro ficou 90 dias preso no Pará.

Publicado originalmente no Brasil de Fato

POR JUCA GUIMARÃES

No Brasil, um homem está marcado para morrer porque acredita nos ideais de igualdade, amor e respeito entre as pessoas. Por esses motivos, Padre Amaro ficou preso mais de 90 dias e vive sob ameaça de assassinato na região de Anapu, no Pará, no médio Xingu, região Norte do Brasil.

Padre José Amaro Lopes de Souza é um religioso que defende a divisão das terras para a agricultura familiar e a preservação das florestas como um contraponto ao processo exploratório dos grandes latifúndios de plantação de soja e de pasto para o gado, produzindo apenas para a exportação e o aumento das fortunas dos fazendeiros, como explica o próprio Padre.

Desde meados dos anos 1990, quando conheceu a missionária americana Dorothy Stang, uma das principais lideranças da luta pela terra para os camponeses e a preservação da floresta, padre Amaro atua na Comissão Pastoral da Terra (CPT) em um conflito constante com fazendeiros e madeireiros. Dorothy, foi assassinada no dia 12 de fevereiro de 2005 aos 73 anos com seis tiros disparados por pistoleiros contratados por fazendeiros da região. Sua cabeça valia R$ 50 mil na época; a de Amaro R$ 25 mil.

Em 2018, padre Amaro foi acusado e preso num processo considerado controverso. A denúncia contra o padre foi feita por fazendeiros da região, e é considerada por muitos uma perseguição política para impedir a luta pela reforma agrária no município em que atua. Padre Amaro foi declarado inimigo de fazendeiros e madeireiros por ser uma das maiores liderança na luta pela terra em Anapu.

O religioso ficou em uma pequena cela no presídio de Altamira, entre 27 de março e 29 de julho. Mesmo atrás das grades, as ameaças continuaram e, segundo o padre, os latifundiários estavam esperando o pretexto de uma rebelião na cadeia para encomendar a sua morte.

Neste período, dois habeas corpus foram negados pela Justiça do Estado e o religioso só foi solto, como medida provisória, quando o caso chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Enquanto estava preso, padre Amaro viu em uma pequena televisão as notícias da prisão do ex-presidente Lula, no dia 7 de abril, também sem provas. “Eu chorei. Eu sabia que era uma liderança popular sendo presa, dentro do esquema do golpe, para que não pudesse concorrer às eleições presidenciais”, relembra o padre.

Nos 13 anos entre a morte da missionária e a prisão do padre sem provas, o conflito por terra no Pará agravou. “A ordem é limpar tudo. Queimar e passar por cima de tudo, plantação, escola e pessoas”, disse.

Neste cenário, que tem a tendência de piorar com a ultra-direita no governo federal, padre Amaro ensina que é o momento de se unir nas lutas populares e resistir.

Padre Amaro esteve em São Paulo no dia 5 de dezembro para receber um prêmio da ONG Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, pela sua luta em defesa das comunidades camponesas, e falou com o Brasil de Fato. No evento, foi lançado o livro Direitos Humanos no Brasil 2018.  A vereadora Marielle Franco, assassinada no início do ano e cujo crime ainda não foi solucionado, também foi homenageada.

Brasil de Fato: Qual é a origem da disputa pela terra no Pará?

Padre Amaro: As terras são terras públicas da União. No processo de colonização da Transamazônica, foi criada uma área de PIC [Projetos Integrados de Colonização] que abrange seis quilômetros a partir da faixa onde iriam viver os trabalhadores. Depois iriam ser separadas as grandes áreas. Foram feitas licitações e se, em cinco anos, o licitante não cumprisse o contrato, as terras voltariam para a União. Foi o que aconteceu.

Muitos fazendeiros do Sul do país compraram essas terras, onde já tinha a ocupação de trabalhadores. Com os projetos de desenvolvimento da região, como Belo Monte, muitos trabalhadores foram para a região. Quando os fazendeiros chegaram, ele tiraram os trabalhadores a pontapés, matando e queimando.

Como é a dinâmica de trabalho dos agricultores que foram trabalhar na região e estavam lá antes dos fazendeiros?

Você tem lotes de dez alqueires e só pode desmatar 20%. Os 80% é da reserva [mata nativa]. Os pequenos agricultores preservam a floresta. Já os grandes fazendeiros consideram isso um atraso para o desenvolvimento da região. Porque o que eles querem é derrubar e jogar pasto para criar muito gado.

E para onde vai essa produção de carne de gado?

Para exportação. O pequeno produz o cacau, o milho, a mandioca, o arroz, a pimenta do reino. E algumas fazendas usam um pedacinho para criar uma vaca de leite. Ele tem aquela terra para trabalhar a vida toda. Já o grande [fazendeiro] quer aquela terra para explorar e não fica renda nenhuma ali no município. Vai toda para fora.

E como se dá a expulsão dos agricultores da terra?

Eles querem tirar e eles tiram. Para nós, no Norte, parece que é um Estado sem lei. A impunidade mata e desmata. Eles dizem que vão limpar a área. E para limpar a área vale tudo. Matando, queimando, derrubando casa. Mesmo se a ação está na Justiça, eles nem esperam a tramitação final e vão agindo pela força. Eles têm poder, contratam pistoleiros, têm dinheiro. Eles passam por cima do pequeno e da pequena como se fossem coisas que não existem.

Como é a atuação da CPT na região e quais as acusações contra vocês?

A Comissão Pastoral da Terra dá assessoria aos trabalhadores e trabalhadoras. A CPT tem advogados, a gente ensina, encaminha os agricultores para a Defensoria Pública ou o Ministério Público Federal. Com isso, eles [os fazendeiros] têm raiva. Eles dizem que a gente incita o que eles chamam de “invasão”, mas é ocupação de terras públicas.

Como era sua amizade com a missionária Dorothy Stang?

Conheci ela em 1989, em Belém. Ela convidou alguns jovens para fazer uma missão na área e nós fomos. O bispo aceitou a gente e começamos a trabalhar e a estudar em Belém. Em 1998, eu fui ordenado padre em Anapu (PA). Em dezembro de 1998, o bispo elevou para a categoria de paróquia e eu fiquei ali. Tive a graça de trabalhar com a Dorothy por 15 anos. Quando a conheci, ela já fazia parte da CPT.

E qual era a principal luta de Dorothy?

A luta dela é que com a técnica você pudesse trabalhar na área de uma forma sustentável. Para criar os filhos e netos em harmonia com a terra e a natureza. Como tudo estava sendo devorado [pelos fazendeiros], ela entrou com a criação de dois PDS (Projeto de Desenvolvimento Sustentável), que ficaram conhecidos como PDS Virola-Jatobá e PDS Esperança. Isso gerou uma raiva no meio dos fazendeiros e alguns setores dos madeireiros. Para calar e acabar com os PDS, eles mataram a Dorothy. Criaram um consórcio e mandaram matar no dia 12 de fevereiro de 2005.

O assassinato da missionária teve a mesma motivação do plano de difamação contra o senhor e que acabou em prisão. Como foi isso?

Eu estava em casa. O padre Bento que estava vindo de outra cidade me pediu para ir buscá-lo no terminal. Levantei, deixei o portão aberto e fui para o terminal. Quando cheguei tinha seis viaturas atrás de mim. E falaram que tinha um mandado de prisão contra mim. Eu disse que queria ler antes lá na minha casa. Entrei no carro, não fui algemado, e lá disseram que queriam arma, dinheiro, celular e o computador do CPT. Eu li a acusação e tinha coisas terríveis. Foi rápido. Me trouxeram para Altamira e fizeram os procedimentos e me levaram para o centro de detenção. Fiquei 92 dias lá.

Como foi a sua soltura? Teve dois pedidos de habeas corpus negados?

As duas vezes que pediram para a Justiça do Estado negaram. Na terceira, que foi lá no Supremo, foi concedido.

No período em que o senhor estava preso no Pará também prenderam o ex-presidente  Lula. Como foi a sua reação?

A minha reação foi terrível. A gente sabe da inocência de Lula. Sabe que foi golpe. Prenderam ele para que não pudesse concorrer à Presidência, para que não pudesse fazer mais nada pelos pobres. O golpe primeiro foi contra a Dilma e depois contra ele. Na celazinha, tinha uma televisão, quando eu vi aquilo, não fiz outra coisa a não ser chorar. Mais um companheiro que estava sendo preso injustamente. Foi uma dor muito forte no meu coração.

A prisão injusta e essa perseguição contra o senhor gera uma sensação de medo na região?

Não só na região, mas a toda entidade que luta por terra e por direitos. Uma das acusações é que eu não faço outra coisa senão defender bandido. Mas são trabalhadores e trabalhadoras rurais. Se eu fiz algum mal, esse mal foi tentar colocar o alimento na boca do trabalhador e trabalhadora e ajudar ele a conquistar um pedacinho de terra.

Após o golpe de 2016, da luta pela terra ficou mais acirrada. Notou alguma mudança no Judiciário também?

A situação política mudou. Em algumas glebas o pessoal está lá há mais de 20 anos e que agora, depois do golpe e da eleição deste moço [Jair Bolsonaro] que vai assumir a presidência, já teve audiência preliminar, já teve vistoria e o juiz já marcou de ir lá de novo. A gente fica muito preocupado com isso. Lá já foi queimada escola. Impediram de chegar energia elétrica. Não deixaram fazer uma estrada.

O senhor pediu algum tipo de proteção da Justiça após a morte da Dorothy?

Quando a Dorothy foi morta mandaram chamar a gente, os presidentes de sindicatos, os trabalhadores e fizeram várias reuniões. Nós percebemos que era para fazer a proteção de testemunha só para o padre e as irmãs. A gente não aceitou porque a gente não aceitava este tipo de segurança se o nosso povo continuasse inseguro. Era muito cômodo um padre, as irmãs e algumas lideranças ter segurança enquanto todo uma região estava insegura.