Era uma vez, em um café superfaturado da cidade de São Paulo (aliás, existem cafés não-superfaturados em São Paulo?), uma fila. Não muito longa, não muito curta: umas cinco pessoas, esperando para fazer um pedido e tirar a ficha no caixa. No terceiro lugar da fila, uma senhora com seus seguramente mais de setenta anos. No segundo, um homem – apenas isto, um homem. No primeiro, uma mulher – apenas isto, uma mulher.
Os cafés superfaturados são superfaturados por um motivo: neles você pode pedir não apenas café, mas também chocolate, caputchino, mocatchino e meia dúzia de outras coisas que podem ser bebidas quentes.
Não é de admirar, portanto, que a mulher tenha ficado um pouco indecisa diante de tantas opções. O que surpreende um pouco, talvez, é que ela tenha passado cerca de três minutos sem fazer o seu pedido, perguntando à atendente, em vez disso, qual era a diferença do moca pro caputchino, quanto de chocolate ia em cada um, se tinha alguma opção lait, dáiet, etc.
Depois de três minutos – que pode parecer muito pouco tempo, mas experimente fechar os olhos e contar pausadamente até cento e oitenta –, o homem atrás dela arriscou:
- Olha, primeiro você tem que decidir o que vai comprar antes de entrar na fila, senão você bloqueia todo mundo.
- Ué, mas eu ainda não me decidi! Estou escolhendo, por acaso não posso escolher?
- Você pode, mas escolha antes de entrar na fila. Não é justo, existem outras pessoas atrás de você. Como esta senhora.
Nisso, a senhora se adianta:
- Posso passar na sua frente? Eu já sei o que vou pedir e já estou com o dinheiro trocado. Um espresso, por favor.
(Adoro quem pede permissão para fazer alguma coisa, já fazendo – é o famoso “posso ver?” das crianças, que é a primeira coisa que elas dizem quando tomam um objeto das mãos umas das outras.)
A mulher continua:
- Se a senhora quer passar na minha frente, ela que passe, mas você está sendo muito deselegante, rapaz!
Então o homem se exaltou. E falou em absurdo e incivilidade e em desrespeito à cidadania. E a mulher respondeu que ele não tinha nenhuma educação. Até que o homem proferiu a frase mágica:
- Queria ver se você fizesse isso nos Estados Unidos, o que que iam te dizer!
Mas, como um Harry Potter que rebate o feitiço do bruxo mau com uma mera sacudidela da varinha, a mulher respondeu:
- Pois eu já fiz muito isso nos Estados Unidos, e sempre fui tratada com educação! E além disso, sou professora de inglês muito bem sucedida graças a Deus, e meus alunos sempre foram muito educados comigo!
Isto posto, a partida ficou em um a um – cada qual pediu seu café (ela) e sanduíche natural (ele) e foi degustá-lo em cantos opostos do estabelecimento.
Ao contrário de quando duas mulheres ricas brigaram no shopping, desta vez, pelo mero fato de ninguém ter saído no tapa, tive vontade de dar um abraço nos dois.
Eles são um retrato de valores aos quais nossa velha e combalida classe média se aferra com imenso fervor. E esses valores nada têm a ver com a discussão sobre o lugar na fila, que isso não tem importância alguma – mas com aquilo que o homem e a mulher consideram um marcador de superioridade de uma pessoa sobre outra.
Em primeiro lugar, a mui celebrada viagem para os Isteits. Há alguns anos, dizer “estive nos Estados Unidos e sei como é” podia ser uma frase de provocar OHs na plateia, dado que viajar era para poucos – mas, hoje, toda a velha classe média (e boa parte da nova também) viaja aos Estados Unidos com frequência. Para a classe média de São Paulo, Miami tornou-se um destino turístico equiparável ao Rio de Janeiro – compare os preços de hotéis e passagens aéreas e me diga se estou errada.
Resta à classe média o conhecimento do inglês como privilégio. Falar inglês fluentemente ainda é sinal de status, num país historicamente monolíngue como o nosso. Mas atualmente o que se vê são empregadas domésticas e serventes de obra economizando para pagar escola de inglês para os filhos. Se os pobres já lotam os aeroportos, em breve também escreverão hashtags em inglês no instagram. #OhMyGod #SoHumilliating #SoInfuriating
O homem e a mulher podem ter concepções opostas do que seja uma fila democrática e justa, mas ambos se igualam em sua idealização dos Estados Unidos (e, por extensão, da língua inglesa) como um modelo de civilidade e boa educação a ser alcançado. Mais que isso, ambos se agarram a marcadores de superioridade que estão extintos ou em processo de extinção.
Seria bom se o homem considerasse que não importa muito a civilidade (ou falta dela) dos estadunidenses – importa, sim, a civilidade que estamos permanentemente construindo para nós, segundo nossos próprios parâmetros. Seria melhor ainda se a mulher se desse conta de que sua profissão (ou seu grau de êxito e competência nela) não tem qualquer relação com o tempo que se leva para fazer um pedido quando há uma fila esperando atrás de você.
Acima de tudo, seria fenomenal se eu entendesse que aquilo que eu gostaria que os outros entendessem jamais será objeto de sua preocupação.