o músico jorge l. santos, leitor de antiga data, escreveu um texto provocante e inteligente sobre a “moda” do minimalismo e meu papel de “guru” dentro dela.
abaixo, o texto do jorge:
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A moda minimalista
Já de um bom tempo tenho hábito de me questionar bastante sobre a real necessidade de comprar qualquer objeto. Esse foi um dos motivos que me levou a ter um celular tão “tardiamente”. Eu simplesmente não via necessidade em ter um. Só em 2010 passei a usar o bendito aparelho. Não se tratava de uma postura anti-capitalista ou anti-tecnológica. Eu sempre argumentava aos estupefatos interlocutores que me perguntavam por que eu não tinha o “dito cujo”: “eu não acho que preciso”. Além do mais; era um gasto a menos.
Esse prelúdio foi apenas para iniciar um comentário sobre a nova moda da classe-média intelectualizada brasileira: o minimalismo. Para quem já teve tudo, e no fundo sabe que pode voltar a ter tudo, a escolha chamada de minimalista é mais fácil do que apregoam seus defensores. Em geral, incomoda-me um pouco quando alguém começa a vender uma ideia de “dever-ser”, uma espécie de manual, ainda que mais aberto e não dito de forma explícita, de um “viver diferenciado”.
Duas matérias recentes em jornais de grande circulação atestam esse novo “fenômeno” social nas altas classes brasileiras. Primeiro o Valor Econômico, e mais recentemente O Globo. Em ambos, o escritor Alex Castro aparece como um dos gurus desse modus vivendi. Acompanho há alguns anos os textos que ele escreve. Alguns brilhantes sobre racismo e história da escravidão no Brasil. Ele também é ficcionista embora na prática dedique pouco da sua produção para isso. Cheguei inclusive a comentar um romance dele aqui.
Alex virou um guru de jovens adultos em busca de uma vida sem a culpa do consumo. A palavra guru aqui não é figura de retórica, além de escrever sobre o assunto, ele dá palestras ”ensinando” as pessoas como se libertar do que ele chama de “prisões”. Apenas para assistir a palestra, paga-se a bagatela de R$100, o que por si denota quem é o público alvo. Não é uma consulta/atendimento individual, é uma palestra coletiva. Mas o que está em questão não é o preço, nem mesmo o Alex em si, cuja formação e persona pública humanísticas são irrepreensíveis, mas sim o fato de que, conscientemente ou não, ele encarna essa busca médio-classicista de ser diferenciado. Mais do que isso; a tentativa de propagar essa ideia não é muito diferente de uma igreja evangélica neo-pentecostal. A comparação parece absurda, mas tudo deve ser visto em termos.
Nesse meio altamente intelectualizado, não caberia bravatas e nem ameaças de inferno ou semelhante, todavia assim como nas religiões, Alex vende uma ideia de que há um jeito ideal de se viver e que esse jeito é o dele – e inteligentemente ele diz que não faz isso, que “não está cagando regras sua cabeça”. Para isso, utiliza uma retórica que vai do excesso consumista do capitalismo ao budismo ocidentalizado, tendo a si próprio como modelo basilar, o que na prática não se coaduna.
Frequentemente em seus textos Alex cita supostos amigos que enriqueceram e em momentos de crise de consciência, por conta de suas escolhas de outrora, o ligam apenas para parabeniza-lo pela coragem de “viver assim”. Ele encara a escolha do outro como prisão. O simples fato de mencionar esses diálogos com amigos “ricos”, colocando-se como Robin-Hood da liberdade e do desapego já encerra em si uma vontade de verdade (para utilizar fora de contexto um termo de Foucault sobre o discurso) inequívoca e quase positivista.
Utilizar o Zen-budismo como base, no meu entender, agrava ainda mais a situação. É difícil saber o que é o Zen, mas dá pra arriscar dizer o que ele não é, e cada vez que o Alex fala desse assunto, minimalismo, citando ou se baseando direta ou indiretamente em algo do Zen, mais ele se afasta dos princípios fundamentais da práticado Zen. Sua retórica moral (não moralista) que está por trás do discurso minimalista se baseia numa leitura ocidental extremamente pretensiosa do Zen, que o coloca como solução moral e espiritual para os males da pós-modernidade, algo como uma terapia para alma e para consciência moral. Fazendo isso se afasta radicalmente do silêncio como princípio.
São muitas as contradições escancaradas: ele escreve que vive uma vida mínima, sem luxos, sem viagens, etc, mas realiza turnês frequentes em diversos estados, segundo seus próprios twitts. O fato de não ficar num hotel não te torna um monge renunciado. Pelo contrário, ficar na casa de amigos e fãs é um privilégio que poucos podem ter. O escritor fala de uma vida sem rastro, mas escreve sob seu cotidiano há mais de uma década.
De toda forma não se trata de um julgamento moral. Não faria sentido algum qualquer que fosse o caso em questão. Não há desvio ético ou moral em se ganhar dinheiro e fama com um nicho de mercado. Procuro apresentar o Alex, aqui, como um exemplo, uma personagem, extraído das reportagens antes mencionadas, para apontar as profundas contradições que enxergo no discurso e prática de um dos “líderes”, por falta de melhor termo, dessa prática.
No fim das contas é isso que, ao que me parece, busca essa classe-média ilustrada brasileira. Ser diferenciado. Umas das coisas que sempre marcou o “ser classe-média” era o acesso a bens duráveis como carro, tevê, imóveis e hábitos de consumo acima do padrão, como ir a restaurantes, teatros, cinemas e viagens mais longas com alguma frequência. Esse padrão de consumo colocava esse grupo numa posição social, nessa tensa relação de poder cotidiana, muito acima da massa de trabalhadores. Ainda que empregado, o trabalhador comum considerava uma “simples” tevê nova um bem quase inalcançável, o sonho de uma vida.
Na Era Lula, isso começou a mudar. O crescimento econômico a uma baixa inflação, o aumento de crédito com juros mais baixos, permitiu um acesso vertiginoso a bens de consumo antes quase que exclusivos das classes-média e alta. Aliado a isso, a educação que servia como privilégio delimitador dessa fronteira, o ensino superior em especial, cada vez mais se torna mais acessível e deixa de impactar nas relações de poder e principalmente de sensação de superioridade, quase nunca declarada, das classes altas com a classe subalterna. Lógico que essa generalização não se aplica exatamente ou necessariamente a esse grupo dos minimalistas, mas de certa forma esse fenômeno parece delinear esse traço em se tratando do fenômeno no Brasil. Talvez esse seja um traço cultural marcante da classe-média brasileira, essa vontade de diferenciação. Como menciona a filósofa Marilena Chauí nesse vídeo, referindo-se a classe-média paulistana, o médio-classista tem por hábito essa vontade de privilégio. Principalmente de diferenciação explicitada ora no poder aquisitivo ora no status intelectual, leia-se diplomas universitários, ora num estilo de vida que possa ser abalizado por legitimadores intelectuais/ideológicos, como no caso do Alex, e sobretudo uma diferenciação que se marque pela singularidade, pela exclusividade, nesse caso de ordem social.
Considero o minimalismo uma prática tão legítima quanto qualquer outra. Embora eu possa ser até considerado um “minimalista”, talvez por questionar tanto minha real necessidade de aquisição de certos bens ou por exercitar, em algum nível, o desapego material, e mais dificilmente, imaterial, não há absolutamente um argumento que torne essa postura mais legítima que outras. Nem mesmo a sustentabilidade. Seria sofismar usar uma questão de ordem coletiva e de grandes proporções, qualquer que seja o estilo de vida, como argumento para legitimar uma prática individualista e moralmente pretensiosa. Uma pessoa que é verdadeiramente simples nunca clamaria para si o status da simplicidade.
[fim do texto do jorge]
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concordo com quase tudo que o jorge diz. vejo todas essas contradições que ele aponta e tento resolvê-las na minha vida prática.
eu somente colocaria algumas coisas de modo diferente: por exemplo, ao chamar o minimalismo de “moda”, o jorge já está se colocando contra ele. (eu teria dito “estilo de vida”)
mas não acho que o jorge está errado: ele está escrevendo em resposta à matéria do globo, que faz um esforço grande para apresentar o minimalismo como “modinha de jovens hipsters burgueses entediados”.
definitivamente, de agora em diante, o minimalismo vai ser progressivamente apresentado, visto e detonado como uma modinha de gente rica, e quero fugir desses rótulos.
eu tento viver com menos. só isso. menos objetos, menos tensões, menos consumo, menos trabalho, menos grana.
não me apresento como guru e, para evitar de ser visto assim (nem sempre funciona), reitero repetidas vezes que não quero convencer ninguém e que não acho minha vida melhor do que outras.
não faço parte de nenhum movimento. não assinei abaixo-assinados. não defendo que ninguém mude sua vida. não acho que ninguém deve viver como eu.
não me considero budista e, com certeza, não estou qualificado para ensinar o dharma para ninguém.
e, por ser sinceramente pobre, preciso sim ganhar meu sustento mês a mês. não tenho economias, investimentos, emprego fixo. por isso, aceito dinheiro para falar sobre como decidi viver minha própria vida.
existem contradições inerentes nisso? existem. o texto do jorge as descreve muito bem.
estou aqui tentando resolvê-las. um dia de cada vez.
enquanto isso, para quem quiser ouvir soluções da boca de um guru, sugiro ler textos de auto-ajuda ou contratar um coach.
aqui, não oferecemos esse serviço.