Vocês me desculpem mas esse vai ser um post forte. É preciso.
Todo mundo gosta de por a culpa em alguém ou achar que nunca vai acontecer por perto. É que vocês têm me magoado com sua postura quando se fala de suicídio. Vocês fazem piadas. Vocês desejam que a pessoa morra longe, escondida, sem atrapalhar o metrô.
Não vejo ninguém questionando se o “corpo na via” se jogou ou caiu por acidente. Ou mesmo teve um desmaio, um ataque cardíaco. Não. Tá no trilho é porque tentou se matar.
Aí todo mundo fica “Af não basta ser um bundão, um covardão, um frouxo de não aguentar a própria vida, ainda atrapalha a vida dos outros” mas vocês, egoístas mimados, não param um segundo para pensar no inferno que aquela pessoa pode estar vivendo.
Vocês ainda acham normais seus problemas de imagem e auto-estima. Vocês acham normal viverem frustrados, de balada em balada, de porre em porre, como se isso sim fosse muita coragem de enfrentar a vida. Não satisfeitos, ainda criam um modelo de vida não só inatingível como também sem conexão com a verdade de cada um e esculacham quem não se encaixa por inveja de não ser quem realmente é.
Pois bem, tenho uma historinha pra vocês.
Eu sempre fui a pessoa mais “feliz” da minha casa. Sempre fui a que tinha mais amigos e a que lutava com menos dificuldade contra a maré de negatividade que é viver em depressão. Tive depressão desde a adolescência, nunca diagnosticada, nunca tratada. Meu modelo de vida era aquele e eu não sabia que existia uma vida diferente daquela.
Quando não consegui mais trabalhar de tristeza, procurei ajuda. Ela parecia ter ajudado. Remédios e terapia. O Rivotril, que vocês tomam feito agua e acham graça. O que vocês falam “haha ele é louco, tomou seu tarja preta hoje?”. O que criativos tomam para aguentar os clientes.
Eu achei que estava bem e voltei a trabalhar, mas a crise voltou. Não conseguia parar de chorar. Não conseguia trabalhar e era um emprego novo para pagar minha pós. Justo eu, a mais feliz. Não tinha o direito de ficar triste. Nem motivo. Mas estava.
Vocês não sabem o desespero que é ter uma doença invisível. Parece tudo escuro, eterno e sem esperança. E vocês chamam de frescura!
A minha “frescura” desesperada me fez tomar seis comprimidos tarja-preta, mas não fizeram efeito. Não parei de chorar. A lobotomia instantânea não funcionou. Então sai para almoçar com um amigo.
No caminho tinha um bar e eu sabia que Rivotril com bebida dava ataque cardíaco. Um jeito fácil de resolver o problema, todos os problemas. Eu não conseguia trabalhar. Eu não servia para mais nada. Aquilo nunca ia acabar e se fosse para viver no inferno, qual seria a diferença?
Tomei uma dose de tequila prata (eu nem gostava da prata!). Mas não tive o prometido ataque cardíaco. Fiquei foi extremamente bêbada e dopada de remédio. Perdi a noção de mim. Não conseguia andar direito nem escrever.
Consegui, ainda assim, subir a Augusta da Alameda Franca até a Paulista. Na Praça do Ciclista, uma das grades faltava. Eu olhei para baixo, pensei “Agora é a hora” e me joguei.
Quase cai em cima de um carro com duas crianças – foi a primeira coisa que me disseram. Eu podia ter sido atropelada inclusive por ônibus, mas não fui. Com certeza atrapalhei o trânsito da hora do almoço. Desculpem por isso.
Desculpa se eu estava desesperadamente sem esperanças, se nenhum médico conseguiu me ajudar e se o remédio que me deram tinha, como efeito colateral, indução ao suicídio. Desculpa se a vida toda me podaram os limites, dizendo que não podia participar das aulas porque tava me achando, e desculpa se eu era paga para mudar corzinha de letrinha e todo meu potencial foi reduzido a nada e eu pirei.
O resto são números: 4 bolsas de sangue, 15 dias de UTI, 2 ossos quebrados, 50 sessões de fisioterapia, o que vocês já sabem.
Não é a primeira vez que uso esse blog para me confessar, e quase posso ouvir minha mãe falando “Marta, não fica contando pra internet inteira que você tentou se matar, que coisa feia”. Mas e se eu vivi para contar? E se a minha função for despertar vocês para seu próprio tratamento e o respeito pela vida alheia?
Cada vez que vocês falam “ain mas não tinha outro lugar pra morrer senão o metrô?” vocês estão caçoando de mim. Cada vez que vocês fazem uma piada com suicida, estão rindo de mim. Cada vez que vocês brincam de “tomei rivotril e fumei maconha”, vocês estão zombando de mim.
Parem.
Parem de ignorar vocês mesmos, parem de ignorar que somos seres vivos, humanos, e temos sentimentos. Parem de encaixar todo mundo no modelo homem-branco-hétero-classe média.
PAREM DE CULPAR A VÍTIMA.
Já que você não consegue ficar chocado a cada notícia de suicídio, pelo menos pare de fazer chacota. Você ajuda as pessoas a desistirem. Não seja isso. Por favor.
Trabalhe todos os dias para ser uma pessoa mais gentil, que entende melhor os outros e mais respeitosa. Pense só um segundo do outro lado. Só isso. Obrigada.
[EDITADO EM 30/04/13]
Talvez não tenha ficado claro, mas isso foi há 2 anos. Eu melhorei muito de lá pra cá, troquei de terapeuta e psiquiatra e voltei a trabalhar. Não tenho crises de choro como antes e controlo bem a minha ansiedade. Não tenho nenhuma vontade de repetir nada disso e tenho muito apoio da minha família, amigos e até emprego.
Espero que vocês achem ajuda e melhorem também. Mas não fiz esse post para vocês. Fiz para quem está super longe desse universo. Não queremos que ninguém passe por isso, por isso conscientizar é importante.
Outros comentários que eu achei importante responder eu respondi. Quem não foi respondido é porque apenas concordo e desejo melhoras.