Eu tenho esse amigo que é até bastante prolixo em e-mails, mas cuja única atualização no Facebook vem de um aplicativo chamado Luck Daily que te diz sua sorte do dia em porcentagens. Hoje, por exemplo, eu posso até estar estudando de madrugada, mas é reconfortante saber que, lá na Índia, Kalpan está 97% sortudo. Esse é seu melhor índice nas últimas semanas, embora seja justo acrescentar que Kalpan tem conseguido manter sua sorte sempre acima dos 80%.
Não sei dizer se meus dias são improdutivos ou se estou constantemente superestimando minha capacidade de trabalho. A impressão é de que estou sempre dois passos atrás do calendário e já meio ofegante enquanto ele passeia serelepe, pulando quadradinhos como quem caminha apenas pelas pedras pretas da calçada.
Meu ano se resume a uma sucessão de ótimas oportunidades que aparecem, me deixam alegrinha e depois somem sem dar muita satisfação. Me sinto uma dessas moças de seriados que surtam porque “ele não ligou no dia seguinte”. Sendo que ele, no caso, são as minhas oportunidades na vida. Os convites desconversados, as coisas que ficaram no ar. Aprendi com seriados que devo me importar se alguém liga no dia seguinte. Ainda não me vi em uma situação em que isso se aplicasse, mas talvez agora seja o caso.
Mano, eu fiquei estupefato com essa análise. Nunca imaginaria um cenário desses :O
A minha impressão sobre o leilão do campo de Libra é que sem dúvida foi um sucesso. Mas esse “sucesso” precisa ser devidamente qualificado para que não se passe a impressão que nada mais precisa ser feito em relação a essa confusa nova legislação para investimento no Pré-Sal que todos levantam dúvidas de o seu real benefício para a população.
Primeiro, não entendi por que uma reserva tão grande foi leiloada de uma só vez. Não li comentários sobre isso, mas sempre achei esquisito leiloar de uma só vez uma reserva equivalente a metade das reservas descobertas no Brasil. Pergunto, não seria melhor ter dividido o campo de Libra e ter feito três ou quatro leilões? O ganho para o governo não teria sido maior e o risco do investimento menor ao invés de um único mega leilão?
Segundo, foi a primeira vez que li que o governo estava torcendo para que não houvesse concorrência neste primeiro leilão sob o regime de partilha, segundo relatório que circulou ontem de manhã antes do leilão assinado pela Eurasia. De acordo com o relatório, o governo tinha medo que uma forte concorrência levasse a um dos consórcios a entregar para o governo um percentual muito acima da partilha mínima de 41,65% da produção, principalmente no consórcio com a participação das companhias estatais chinesas, e isso reduzisse a rentabilidade do projeto para a Petrobras. Como fala o relatório da Eurasia:
“…..Petrobras has always feared a scenario in which Chinese NOCs, eager to obtain access to oil reserves, bid aggressively in the very promising Libra field. While the government would gain from obtaining a higher share of profit oil, it is cognizant that if Petrobras is forced to accept a very high share of profit oil (say, over 55%), it would come under undue financial strain-making it difficult to continue funding itself. It would also create perverse incentives for the company to focus more effort and capital on reserves that grant a higher rate of return.”
“……While government officials will never admit to it publically, the less competition the better, for it will give greater assurances to the Chinese that they need not bid aggressively to guarantee the right to develop Libra.”( BRAZIL/OIL: The first and last pre-salt auction under existing rules- 21 October 2013 08:49 AM EDT Eurasia group).
Ou seja, uma das vantagens do modelo de partilha é justamente a possibilidade de uma maior concorrência aumentar o parcela do governo na exploração, algo que o governo parecia torcer para não ocorrer no leilão de Libra, já que ele, governo, se preocupava com a rentabilidade do projeto para a Petrobras, segundo relatório da Eurasia.
Terceiro, quem tem acesso a cozinha do planalto jura que é quase consensual dentro do governo que a exigência de a Petrobras ser operadora de todos os campos de petróleo do Pré Sal com uma participação mínima de 30% foi um erro e será modificado após as eleições. Assim, é estranho que pessoas do governo estejam defendendo com tanta convicção que o modelo foi um “sucesso absoluto” e que não será preciso mudança alguma. Sei de pelo menos uma pessoa muito próxima a Presidente da República que pensa o contrário. O próprio relatório da Eurasia citado acima aposta também que haverá mudanças de regime de partilha:
“But with Libra in Petrobras’s hands, the company will have its hands full. Debate in government will thus turn more meaningfully to whether the rules should change to allow a quicker development of the pre-salt. We don’t have a strong view on whether Rousseff will opt to announce a change in the pre-salt strategy before next year’s election, but we still think that on balance a signaling in this direction will occur by early of next year.”
Em resumo, o leilão de Libra foi um “sucesso” porque todo mundo estava de fato com MUITO medo que os chineses pagassem muito ao governo pelo direito de explorar o campo de Libra e, como a Petrobras seria necessariamente sócia do consorcio vencedor, isso pesaria sobre a rentabilidade da exploração de Libra para o Consórcio vencedor e, logo, para a Petrobras.
Não deixa de ser esquisito, no entanto, que o governo estivesse torcendo contra ele próprio em um leilão no qual estava em jogo metade das reservas do Brasil. Isso se deve ao papel duplo do governo de ser ao ao mesmo tempo o dono das reservas e tem participação majoritária em uma empresa que participava do leilão, e que sofre com o excesso de intervenção do governo na sua política de investimento e no congelamento dos preços dos combustíveis. Adicionalmente, a forte presença de estatais chinesas “tumultuou” o processo, um risco que seria menor se o campo de Libra tivesse sido dividido e a concessão sob o novo regime tivesse ocorrido por meio de vários e leilões.
Sempre defendo que turista é para ser depenado mesmo, e se tem um que vale a pena espremer até a última gota, é o cara que vai ver Copa/Olimpíada/GP. Muita jumentice tentar controlar esses preços...
Following up on my post on price gouging and the poor, here’s a link to a story on Marketplace dealing with “price gouging” in Brazil. Except it’s not about ice in the wake of a hurricane, or about water bottles in the desert. It’s about hotel rooms for the World Cup games next summer.
Brazil’s president, Dilma Rousseff, has created a committee to “monitor” prices and prevent “abuses.” According to his chief of staff: “We will use all the instruments available to the state to ensure the protection of consumer rights, whether Brazilian or foreign.”
Tough words. And a touching sentiment. It’s a pity that Brazil’s government wasn’t more concerned about protecting the rights of its own impoverished citizens, or at the very least not literally bulldozing over them, when it evicted slum dwellers from their homes in order to develop new bus routes in preparation for the World Cup and the Olympic games two years later.
But of course Rousseff’s commission doesn’t have anything to do with preventing exploitation of the vulnerable. After all, who’s vulnerable here? We’re talking about hotel rooms for a soccer game, after all, not a basic human need. Buyers and sellers have more than half a year to adjust their plans in light of price signals. And, just like they always do, any legally imposed (or even threatened) price caps are going to destroy whatever incentives might have otherwise existed to increase the available supply by, say, renting out a spare bedroom.
The Marketplace story interviewed both me and fellow philosopher Jeremy Snyder about this issue. And Jeremy and I have a long-running debate about the morality of price gouging. But on this issue, we’re in agreement. The only objectionable thing about this situation is the Brazilian government sticking its nose where it doesn’t belong.
Todos os dias, lá aparece uma descoberta científica qualquer. Parkinson, Alzheimer, AIDS, câncer - a cura está próxima e a imprensa, em sua histeria visceral, fala em dois anos, talvez três, seguramente não mais que dez para livrar o mundo dessas maleitas fatais.
Depois, nos dias seguintes, nos meses seguintes, nos anos seguintes, a notícia regressa ao esquecimento e já ninguém fala daquele assunto. Que será suplantado por outra descoberta científica --a promissora! a definitiva!-- capaz de derrotar finalmente a mesma lista de doenças fatais.
Como explicar esta sucessão de grandes notícias que se revelam pífias notícias, seguidas por um novo ciclo de grandes notícias que serão pífias notícias --"ad infinitum"?
Leia mais (10/21/2013 - 03h00)
When Winston Churchill died in 1965, he left his country home Chartwell to the government with a curious stipulation: It must always maintain “in comfortable residence” a marmalade cat named Jock.
The original Jock had been given to Churchill two years before his death by his private secretary, Sir John “Jock” Colville, and quickly became a favorite. When the cat died in 1975, 10 years after the prime minister, he was replaced with a Jock II, and the line has continued.
The current resident is Jock V, who “jumps into the sink at every opportunity.”
The philosophical zombie, or p-zombie, is a hypothetical creature which is indistinguishable from a normal human, except that it has no conscious experience.
Whether a p-zombie could exist, and whether it even makes sense to ask that question, are popular dinner-table topics of conversation amongst philosophers of mind.
A new case report from Swiss neurologists Antonio Carota and Pasquale Calabrese will give them something to chew over: The Achromatic ‘Philosophical Zombie’
The ‘zombie’ is a 48 year old man who suffered a brain haemorrhage leading to damage to the occipitotemporal cortex. He survived, but reported that he could no longer see colors: his vision was entirely colourless, though otherwise normal. This is known as cerebral achromatopsia.
Remarkably, however, he was able to name colours. Shown hundreds of circles in 12 basic colors, the patient correctly named most of them (NB – the graph and colors are mine):
Given that random picks would get you just 9% correct, this is most impressive performance for a man who ‘can’t see colors.’
So is this patient really a chromozombie, behaving as if he can see colours but having no conscious experience of them?
My first reaction is: he doesn’t always behave as though he can see colours – his verbal behaviour (self-report) is that he doesn’t. Whether that makes him less of a zombie is one for philosophers to ponder. But he still makes for an interesting case, although as the authors point out, it is not entirely new : the principle of perception-without-reported-awareness is called blindsight and is quite well studied.
This seems to be one of the most dramatic cases of pure color blindsight on record, though.
Carota A, & Calabrese P (2013). The achromatic ‘philosophical zombie’, a syndrome of cerebral achromatopsia with color anopsognosia. Case Reports in Neurology, 5 (1), 98-103 PMID: 23687498
“It is not when truth is dirty, but when it is shallow, that the lover of knowledge is reluctant to step into its waters.” -Friedrich Nietzsche
Although the innermost planets, from Mercury through Saturn, were known since ancient times, it’s only since the advent of the telescope that we’ve discovered what really lives in our Solar System. Over the past four centuries, the wonders of not only the distant Universe, but also our nearby neighborhood, have been uncovered in spectacular detail.
Image credit: NASA and – I believe – G. Bacon (STScI).
The third and fourth largest planets were discovered, as were a plethora of moons around other worlds, a belt of asteroids between Mars and Jupiter (at the ice-line of our Solar System, or where the strength of the Sun is insufficient to move water out of its solid phase), and a Kuiper belt out beyond the final planet. (And the Oort cloud even beyond that!)
Image Credit: Oort Cloud image by Calvin J. Hamilton, inset image by NASA.
Image credit: Clyde Tombaugh’s images, with Pluto indicated by the arrows.
Even though it was the only world located out beyond the orbit of Neptune for nearly 50 years (until Pluto’s largest moon, Charon, was discovered), it was recognized relatively quickly that Pluto was a harbinger for many more such objects, now recognized (and confirmed, since 1992) to be just one of a great many located in the Kuiper Belt. The other bodies began to exhibit a variety of sizes, shapes, and orbital characteristics, although they all had a number of properties that threw Pluto’s “privileged” status as a “planet” into question:
similar, trans-Neptunian orbits in the same direction and with similar periods,
masses and sizes of the same order-of-magnitude as Pluto,
Pluto-like densities and surface properties, with lots of surface methane ice,
similar atmospheric compositions to Pluto, as seen by occultations, and
numbers that grew from “a few” to “dozens” to more than a thousand as of today.
This all came to a head in 2005, when it was discovered that Pluto isn’t even the most massive object in the Kuiper Belt!
Image credit: Wikimedia Commons user Lexicon; modified from the NASA original.
That distinction belongs to Eris, which weighs in at about 127% the mass of Pluto. That discovery paved the way for a new classification scheme that included an additional class of Solar System objects known as dwarf planets, of which Eris and Pluto are the two most massive at the present time.
But when it comes to the King of all Kuiper Belt objects, none of these little monsters can stake that claim. Because there’s one object that we don’t normally think of as a Kuiper Belt object that has them all beat.
Image credit: NASA / Voyager 2. Aren’t you glad the shutdown is over?!
This is Neptune, the outermost planet in our Solar System. No, it doesn’t qualify as a Kuiper Belt object; it’s a planet, just like you’ve always learned. But back in 1846, there were some awfully powerful telescopes in the world, certainly much better and bigger ones than were around in 1781 (when Uranus was discovered) or at any time before that. Back in 1781, there was only one telescope in the world — commissioned in 1780 — that had a primary mirror of two feet (61 cm) or more in diameter.
By time 1846 came around, the largest telescope in the world had a primary mirror that was six feet (1.8 meters) in diameter, and amateurs with no formal training — like William Lassell — were building their own two foot diameter telescopes themselves.
Image credit: National Museums & Galleries on Merseyside; model of Lassell’s telescope.
The timetable for the discovery of Neptune was swift: Urbain Le Verrier announced his prediction for the undiscovered planet’s position on August 31, 1846, and composed a letter to Johann Galle, director of the Berlin observatory. Galle and his assistant, Heinrich d’Arrest, looked for the planet on September 23, and discovered it that very night in one of the greatest accomplishments of all-time in theoretical astrophysics.
But news traveled fast, and back in England, William Lassell was eager to view the newly-discovered world.
Image credit: Tony Kroes of http://www.astroacres.com/.
Just 17 days after the discovery of the hypothesized new world that had occupied many of the world’s greatest professional astronomers for decades, a virtually unknown and amateur telescope-maker discovered Triton, by far the largest satellite world of Neptune. (Although to be fair, it was the largest telescope in England at the time.) If all the Solar System’s moons were compared to one another, Triton would be the seventh largest in size, behind only Earth’s Moon, Saturn’s Titan, and the four Jovian moons discovered by Galileo.
But — up close — Triton doesn’t look like any other large moon in the entire Solar System! For one, every other large moon revolves around its planet the same way all the planets revolve around the Sun: counterclockwise, as viewed if you flew directly upwards above the Earth’s north pole. But not Triton, which revolves around Neptune in the opposite direction!
In terms of density, it resembles Pluto far more than it resembles either Neptune or any other Moon in the Solar System. And in terms of atmospheric composition, it’s virtually identical to the known worlds found in the Kuiper Belt.
Image credit: NASA / Voyager 2.
What does all this mean?
That Triton isn’t a naturally occurring moon of Neptune, but has been gravitationally captured (by the same mechanism described here last week) from its place of origin: the Kuiper Belt. Even though it isn’t currently in the Kuiper Belt, that doesn’t stop it from being the largest, most massive, most accessible, first-discovered, and in many subjective ways, greatest Kuiper Belt Object of them all!
Image credit: Wikimedia Commons user Lasunncty, under the GFDL.
But it’s real, it’s spectacular, and unlike every other Kuiper Belt Object (so far), we’ve been there! That was thanks to Voyager 2 in 1989; take a look at this photo mosaic of a large chunk of its surface!
Image credit: NASA / Jet Propulsion Lab / U.S. Geological Survey, via Voyager 2.
If it looks cantaloupe-like to you away from the poles, well done; that’s the semi-official NASA term for it! So the next time you think about worlds from beyond our planets, don’t just think of frozen ice-and-rock-balls orbiting in deep space, nor only of the comets disturbed by passing gravitational bodies and hurled inwards towards the Sun, but also of the rogue worlds that migrate inwards and wind up captured by gas giants.
After all, if you didn’t include them, you’d be missing out on Triton, largest of all the trans-Neptunian objects and the onetime King of the Kuiper Belt!
Ônibus deslocados para a ocasião estacionam diante da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro para deter manifestantes. A cena é da manifestação do dia 15 de outubro de 2013, dia dos professores, no Rio de Janeiro. O que se segue é prisão no atacado: um arrastão de corpos. Os detidos estavam sentados, em sua maioria, na escadaria da Câmara. Não qualquer, mas uma: a Câmara do Rio. A sequência me parece resumir alguns dos pontos fundamentais dessas jornadas infindas.
Fala-se em crise de representatividade. Eu mesmo subscrevo o diagnóstico, que me parece gritar, ainda que eu tenha conta do seguinte: às vezes, a crise de representatividade se instaura pela extrema adequação da representação, e não pela falta dela. No Rio, pelo menos, é esse o caso. Poucos legislativos representam uma cidade tanto quanto a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro.
A Câmara carioca é uma estufa a reunir múltiplas instâncias de infiltração do público pelo privado. Há um pouco de milícia, um pouco de assistencialismo, um tanto de composição com interesses particulares capazes de, por si, mudarem a paisagem urbana (os do setor imobiliário e de transporte acima de tudo). Onde o Estado refluiu nos últimos cinquenta anos, floresceu algo que, hoje, encontra abrigo na Câmara do Rio. A Câmara é o Rio. Nenhuma casa, nenhuma mansão, nenhum bordel pode servir tanto de mosaico para uma cidade de valas abertas e corrupções nem tanto.
É pela Câmara ter a ver com o Rio que, frente aos ataques contra o prédio dela, quase nenhuma voz se ergue com firmeza. Ninguém manda flores para um espelho quebrado. No lugar de defesas ancoradas no tempo e no espaço (“esta Câmara do Rio trabalha”, etc.), só ouvimos o murmúrio de formalistas sem espírito, como se a Câmara morasse no mundo das ideias. Pois é difícil defender a Câmara como nossa, com suas rendições e acordos que, de certa forma, também nos implicam. É preciso olhar para o outro lado para conviver com o insuportável glorioso dessa cidade. Não se admire que a Câmara não tenha advogados voluntários: a seu socorro só vêm defensores pagos e/ou renitentes. Resta à polícia, a polícia de homens de dois, três empregos, suprir com força o que falta de palavra – com algum gosto.
O Rio é uma parede infiltrada à beira-mar. Dos seus sulcos inflados escorre uma água podre, água em que nadam os cariocas. Tudo no Rio é infiltração. Ainda: tudo no Rio deve ser infiltração. Talvez venha daí o impulso de se atribuir a “vândalos infiltrados” a violência em manifestações que, desde o início, seguem a lógica da dramatização de conflitos por meio da tomada da rua pela multidão – não por um partido, não por uma coalizão, não por uma frente, mas pela multidão. A cidade da infiltração não pode admitir a presença ininfiltrável de uma multidão que triunfa só por estar ali.
(Antonio Negri está certo. A multidão vence estando, ainda mais em tempos de crises gêmeas de autoridade e narrativa.)
Bate-me a cena dos banhos de espuma, moda higienomusical de bailes dos anos 1990. (“Banho de espuma, é muito legal / Debaixo da espuma eu vou zoando em alto astral”, etc.) Vinte anos depois, pesco uma analogia. Não há infiltração na espuma da multidão, pois a espuma da multidão, quando agitada, só cresce como mais espuma: fluida e informe. Mesmo a ação tática de policiais, aí sim, “infiltrados” apenas atesta, no limite, a ininfiltrabilidade: um P2 é um num arquipélago de espuma, não pode dirigir, nem desviar o que escorre para todos os lados a partir de todos os lados: o P2 só flutua.
(Num sentido mais preciso, talvez a multidão esteja além da infiltração. Por um lado, ela é infinitamente infiltrável, por não ter guardiões em portões que, eles mesmos, não existem. Por outro, ela absorve tudo como espuma: qualquer infiltração gera mais multidão, mais espuma, o que mata na raiz o sentido instrumental da infiltração.)
Daí o paradoxo: invocamos o espectro do “vândalo infiltrado” para nos acalmar. Precisamos desse fantasma para a vida. Sem ele, nossos esquemas explicativos desabam: só o corpo infiltrável pode ser apreendido. Frente à espuma, ansiamos pela firmeza, mesmo que pela firmeza de um espírito bem invocado.
Tipos de torcida organizada, lutadores de artes marciais, anarquistas, socialistas, nacionalistas de corte protofascista, aventureiros, estudantes universitários, secundaristas da periferia, moradores de rua, loucos, oportunistas, todos bolhas na espuma, mas cobramos um só personagem, e o vândalo infiltrado é esse “um” necessário. Buscamos quermesse em tudo, até em conflitos: se algo dá errado, e desanda em desavença, precisamos isolar o “corpo estranho” para preservar a quermesse.
Tudo isso me parece ligado a uma atitude geral, entranhada, em relação a natureza dos ajuntamentos no Brasil. Toleramos a multidão dentro de limites estritos. Topamos a multidão famélica, empurrada por uma fome absoluta. Topamos também a multidão carnavalesca e a religiosa, confinadas aos dias e aos espaços da folia e da fé. Topamos ainda a multidão bovina, desde o agrupamento de gente a bisbilhotar o resultado de um acidente aos torcedores manejados como gado na saída de um estádio. Não topamos o resto, lançado na conta da “multidão violenta”.
No dia dos professores no Rio, cerca de duzentos manifestantes foram detidos. Mais de um terço (84) acabou preso, vinte e sete com base numa nova lei para tipificar organizações criminosas (12.850/2013). Invocar essa lei para deter em massa, no atacado, escancara: há uma guerra contra a multidão, a multidão de junho, a ininfiltrável.
Art. 1o Esta Lei define organização criminosa e dispõe sobre a investigação criminal, os meios de obtenção da prova, infrações penais correlatas e o procedimento criminal a ser aplicado.
§ 1o Considera-se organização criminosa a associação de 4 (quatro) ou mais pessoas estruturalmente ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas, ainda que informalmente, com objetivo de obter, direta ou indiretamente, vantagem de qualquer natureza, mediante a prática de infrações penais cujas penas máximas sejam superiores a 4 (quatro) anos, ou que sejam de caráter transnacional.
§ 2o Esta Lei se aplica também:
I - às infrações penais previstas em tratado ou convenção internacional quando, iniciada a execução no País, o resultado tenha ou devesse ter ocorrido no estrangeiro, ou reciprocamente;
II - às organizações terroristas internacionais, reconhecidas segundo as normas de direito internacional, por foro do qual o Brasil faça parte, cujos atos de suporte ao terrorismo, bem como os atos preparatórios ou de execução de atos terroristas, ocorram ou possam ocorrer em território nacional.
Art. 2o Promover, constituir, financiar ou integrar, pessoalmente ou por interposta pessoa, organização criminosa:
Pena - reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos, e multa, sem prejuízo das penas correspondentes às demais infrações penais praticadas.
É como se gritasse: “a multidão é uma quadrilha”.
(A culpa pode ser do boi. Há tanto boi nesta terra que a boiada virou modelo de organização social: um dono, uma cerca, um bife ao fim de um ano.)
******
Comentário de Leandro Godinho:
Cabral, seu secretário de segurança, os donos de banco que operam na cidade, os empresários de transporte devem ir pra cama e acordar no dia seguinte com apenas um lamento (longo suspiro): se esses black blocs não fossem todos literalmente pretos, pretíssimos, quão mais fácil seria fazê-los passar a gás e cacete.