Milito pelo antiontem. Vejo na nostalgia um mal a ser combatido. Tento escapar dela, nem que nessa rejeição gaste um pouco do meu futuro. Se tenho uma nostalgia, uma só na expressão de um mal a ser praticado “socialmente", essa nostalgia é a nostalgia do burro inteiro. A nostalgia do burro inteiro é a minha cerveja.
Talvez seja o destroço de sinapses antigas, memórias dos meus dias de burro em flor, mas sinto falta autêntica do seguinte personagem: o burro inteiriço, o burro que é mármore da própria burrice, o burro que baixa o pescoço e coloca um vintém no altar da complexidade.
O burro inteiro é humilde: pede licença até para ser burro. O burro inteiro está instalado em si: rubrica um “ciente" nos recibos de sua própria limitação. Mas os burros inteiros quase sumiram. Caíram pela falta de espírito de corpo e pelo excesso de placidez – falhas mortais em tempos de velocidade e de cerco a tudo de certo e fixo (a burrice incluída). No lugar desses burros de ofício, avançam hoje os meio-burros. 
O meio-burro é aquele burro que resolve, de uma tirada, grandes questões, grandes investigações. É o detetive-minuto nos grandes crimes, o analista-instantâneo nas grandes crises do poder, o crítico-de-microondas dos grandes movimentos da cultura. O meio-burro sabe sobre muito, mesmo que pouco ou apenas o suficiente para montar sentinela em sua guarita de concreto. Da guarita, o meio-burro guarda a pequena planície do que conhece e, protegido, até se arrisca a mirar outras terras, que não entende.
Para o meio-burro, tudo é simples e a Esfinge não passa de uma carinha sorridente. O meio-burro quer ver nas coisas a simplicidade que nega a si mesmo (o meio-burro é, afinal, um perito). Escolado em cabeçalhos, apressado em concluir e generalizar, o meio-burro é o maior inimigo da complexidade.
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Dirão alguns observadores, com um ranço de decadência na boca, que a explosão nas tecnologias de informação abriu terreno para esse tipo de burro novo. A internet seria, sob esse ponto de vista, uma facilitadora do meio-burro.
O fato, entretanto, é que a expansão das formas de comunicação coloca mais conhecimento na praça. Isoladas outras circunstâncias, essa expansão de oferta tende a favorecer, no lugar de desencorajar, a apreensão da complexidade.
(Ainda que concentrada de forma um tanto artificial nas grandes realizações do espírito, a história do conhecimento é inseparável da história da besteira.)
O que faz o meio-burro prosperar nestes dias é, antes, o aproveitamento de uma oportunidade aberta a todos. Com as novas tecnologias, pode o meio-burro estabelecer redes de apoio, de reforço mútuo de certezas e cegueiras. O meio-burro é o mais gregário dos burros, um burro de cooperativa.
A cooperativa dos meio-burros, um fato de dimensão política, é sólida em sua singeleza, e se assenta num pequeno conjunto de suposições.
A primeira dessas suposições é a de que meio-burro, como todo homem, pode mudar o mundo a partir de sua garagem. O sucesso de gênios solitários ou quase solitários nas últimas três décadas iluminou o céu dos meio-burros, como um raio de esperança. O meio-burro se crê um Napoleão de garagem, um self-made man pronto ou em potência.
Derivada da primeira, vem a segunda: a de que todo código pode ser “quebrado", que qualquer verdade pode ser revelada ao homem de boa poltrona. É a arrogância do homem que não se move: a certeza de que, ao não se misturar, ao não descer à arena, ele mesmo, o meio-burro, se aprimora numa forma de ascese intelectual.
A terceira, e última suposição, é a de que a sociedade, assim como as gavetas de pijamas e cuecas do meio-burro, se move pelo compor e recompor de conspirações. Sob o solo de nossas cidades incertas, o meio-burro imagina teias, todas traçadas com restos de ideologias confusas e detritos de velhas construções. O meio-burro não concebe a possibilidade de um dado limpo: não admite um um-a-seis de acidente, nem tampouco um um-a-seis de mistério. O meio-burro é um positivista com pressa.
(Ora dirão: “seu reacionário, crítico educação universal". Pelo contrário, a questão em jogo aqui está desvinculada de títulos e diplomas. A bem da verdade, noutros tempos ninguém produzia burros mais perfeitos do que a universidade. Hoje os meio-burros vicejam dentro e fora dela.)
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Enunciado está o catequismo do meio-burro, mas onde se localiza o meio-burro?
O meio-burro habita o pânico moral, a explosão coletiva de sentimento de que algo ou alguém ameaça a ordem social. “A tirania das minorias”, “a epidemia de permissividade”, “os piratas da internet”: o meio-burro pega cancha na denúncia de inexistências e inevidências, o que o transforma no maior perito em não-coisas, como a pulseirinha do sexo.
O meio-burro mora também no tendencismo de resultados, no apontamento de causas e movimentos externos para extrair efeitos para si mesmo. O meio-burro mede o vento pensando na cor do boné que vai comprar: enxerga tendências até em séries de um, e faz disso um negócio. O meio-burro é o senhor das palestras.
O meio-burro faz casa no novo ateísmo. É amigo de Dawkins, despreza qualquer cânone que não o seu, se orgulha de não conhecer o que detesta. Pois o meio-burro sempre fala demais e não há lugar em que ele possa falar mais alto do que no campo do dawkinismo: o novo ateísmo é uma grande marcha pelos direitos civis dos meio-burros.
(A ascensão dos ateus burros é a cartada maior do teísmo. Nada depõe mais pela fé do que a indigência na denúncia dela. E mais: o analfabeto bíblico/védico/corânico está a anos luz do analfabeto funcional: não sabe dizer nem “bom dia" no mundo dos símbolos. Falta ao debate da cultura a leitura dos textos sagrados, inclusive e principalmente no ateísmo.)
Feito o diagnóstico, lanço o apelo: é preciso resgatar o burro inteiro como se trouxéssemos de volta um mamute siberiano: com estudo, com método, com burrismo: uma terapia progressiva, em que assumam os burros a ignorância plena não de tudo, mas ao menos de uma área do conhecimento. "Não entendo nada de política/economia/psicolologia" seria um excelente começo para todos nós, burros desviados ou não. 
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Comentário de Oto Vale:
Considere-se como um fator de mudança recente da paisagem a imperatividade de se ter opinião sobre tudo. Invente alguém de dizer “Não entendo nada de cachaças mineiras", e será atirado ao ostracismo que se inicia com a frase “Você não sabe o que está perdendo". A única saída é o silêncio.
João Paulo Palmeira:
O meio burro, sem perceber, passa por um processo de cartilagem ideológica. Antes de tentar formar uma opinião, de construir um pensamento próprio, ele, tentado pela ideia de ter um resposta para tudo, procura um grupo (nem que seja uma página do Facebook, o terreno mais fértil para as certezas) e absorve todas suas opiniões. Em seguida, proclama-as ao vento com ares dogmáticos.
Aborto? Redução da maioridade penal? Deus existe? O Flamengo foi campeão em 87?
Pergunte ao meio burro, ele tem a resposta pra tudo. E com certeza, não vai dizer “Poxa cara, não faço ideia" ou como se diz nas terras de quem vos fala "É o quê, ômi?"
Lake Flash:
O sujeito antes só enxergava o mundo de uma janela que dava para um muro. E estava muito bem, obrigado. Um dia, por tentação do diabo, abandonou a janela e partiu em busca de novas vistas. Porém, tudo o que conseguiu encontrar foram minúsculas frestas de telhado, que passaram doravante a ser seu único ponto de observação. E eis que o outrora burro total se converte num “sujeito bem informado" (ou meio-burro, na linguagem do David).

Claudio Nunes:
Eu estava empacado na estrada. Hoje caminho solenemente para alcançar a dádiva de me tornar um burro completo.
Ronaldo Pelli:
Você vê a procriação dos meio-burros com o crescimento da internet, e eu com a proliferação da praga do jornalismo [talvez, no fundo, sejam a mesma coisa]. Porque o que é o meio-burro se não o jornalista que é o famoso especialista de porra-nenhuma, mas que caga-regra a todo momento porque já conversou com a, b ou c?
No mais, gostei muito da afirmação do presente, em que você começa o texto: eu tenho também pavor à melancolia. E também essa campanha contra os ateus, que você associou ao Dawkins. E, por fim, me lembrei da famosa frase tapa-luva-de-pelica do velho Sócrates: “Só sei que nada sei" [cujo complemento da frase é ainda mais cruel: “e o fato de saber isso, me coloca em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa"].