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31 Jul 18:13

mimimi da copa

by noreply@blogger.com (Patricia C.)
Demorei para postar, pois precisava antes escrever sobre a copa e tudo que ela movimentou em mim.

Gosto de acreditar que na teoria dos universos paralelos, em algum deles, o Brasil conseguiu ganhar em casa. Serei bem sincera. O fator humilhação, para mim, é o de menos. Foi sim a maior humilhação em copas, mas esse não é o meu ponto. O ponto é o fantasma precisando ser exorcizado desde 50. Há gente que não quer outra copa nunca mais no Brasil. Eu quero 100. Até fazer esse fantasma subir e ir embora das nossas vidas. Galvão disse no tetra em 94 que o Brasil estava exorcizando o último fantasma que restava, a cobrança dos pênaltis. Eu discordo. O último fantasma é ganhar em casa. E mais uma vez não conseguimos. Há quem procure culpados, está cheio de textos por aí, não defendo e não condeno nenhum dos nomes citados. Minha única defesa vai pro Barbosa, que merecia esse título mais do que qualquer um de nós. Gosto de pensar que, em outro universo, ele foi feliz conquistando o primeiro campeonato em 50, jamais tendo escutado a palavra Maracanazo e, quiçá, com outro termo inventado El Maracanón donde solamente gana cabrón de Brasil.

As pessoas não fazem ideia, né? Do que era aquele momento para o Brasil. Li resenhas aos montes dizendo como o 7x1 foi pior. E apenas o meu minuto de silêncio para quem, além de desconhecer a história do futebol, desconhece a história do Brasil. A primeira efervescência do orgulho negro está intimamente ligada a dois fatores: o candomblé e o samba. O percurso foi longo até conseguirem o respeito da elite branca, até, por exemplo, Heitor Villa-Lobos chamar o quarteto de ouro - Cartola, Donga, João da Baiana e Pixinguinha - para cantar para outro maestro famoso que agora não sei o nome. Era não só a elite branca olhando para o negro pela primeira vez sem desdém, como também era para o negro uma afirmação da sua importância. O Brasil e principalmente o Rio de Janeiro borbulhavam em 50 numa expectativa de ser a nova França/Paris. A confiança naquele time era absurda. E veio o revés, 2 x 1 Uruguai e o nosso bode expiatório foi o goleiro Barbosa. Uma horrível teoria antiga voltou com toda força, a de que estávamos fadados ao fracasso por causa da miscigenação. Barbosa e Bigode, o responsável pela marcação do Varela, eram negros. De onze pessoas em campo, caiu sobre eles a responsabilidade da vergonha nacional.

Nelson Rodrigues, 8 anos mais tarde, escreveu a crônica "Complexo de vira latas". Foi escrita às vésperas do início da copa na Suécia e falava sobre a falta de motivação das pessoas com frases naipe "Brasil nem se classifica" etc. Era um sentimento de pessimismo em relação à seleção que viria se consagrar campeã pela primeira vez. E o Nelson vai discorrendo sobre como esse é um problema iniciado na derrota de 50. Como as pessoas acreditavam muito naquele título, não poderiam sofrer novamente, então o pessimismo acabava sendo uma válvula de escape. Não passava na cabeça do Nelson que ali ele tinha definido o estereótipo do brasileiro. "Somos uma merda, o estrangeiro é sempre melhor". Esse sentimento sintetizado no tumblr só no brazil. Iguais essas comparações que a gente vê hoje no facebook, Ronaldo Nazario (calado é um poeta - parte II) dizendo que a Alemanha tem 100 Nobel e o Brasil nenhum e essa é a verdadeira goleada. É um acinte, né? Esquece da nossa colonização durante 300 anos. Esquece todos os pormenores. É a mesma coisa se fizermos uma comparação entre ganhadores homens e mulheres ou ganhadores brancos e negros e daí tirarmos equivocadamente que a mulher e o negro são inferiores. Falta olhar para o fundo da nossa história. A maioria das pessoas só olha a nossa superfície. A copa de 50 foi muito pior porque definiu a identidade nacional. O vira lata complexado. Ninguém ergueu a cabeça depois dos 7x1, porque ninguém recuperou o orgulho depois de 50, nem com o título em 58, nem com as outras copas, nem sendo o maior campeão. Veja bem. Ainda estamos no topo e nos comportamos como ralé.

Aqui entra outra reflexão. Quando o futebol sai da elite e passa a ser de massa, ele traz a crítica imbecil da alienação do povo. O futebol passa a ser o principal responsável de todas as nossas mazelas. Chamam o povo de alienado, de massa de manobra. Tudo isso por causa do futebol (e do carnaval também, mas isso é papo pra outro post). Como se o futebol tivesse todo esse imenso poder, como se a alienação não fosse fruto da falta de incentivo ao pensamento plural. E quem trata a população dessa forma não percebe (ou será que percebe?) o quanto esse discurso é preconceituoso. Tachar o povo de ignorante e sem condições de pensar tem outro nome senão o preconceito? Quem desmerece o esporte, lhe tira a visão de cultura. Tira o mérito, não consegue enxergar.

Por isso as coisas para mim são mais amplas. Não me atenho aos vilões ou heróis, a esquemas táticos ou confederações corruptas. Vai me interessar sempre o sentimento, a marcação da identidade nacional. Somos o país com mais títulos e ainda sim cornetamos a nossa seleção há anos. Faz parte da nossa identidade. Nunca temos o melhor time, sempre temos perna de pau. Cornetamos não apenas na derrota, mas antes dela e até mesmo na vitória. A tristeza que fica nessa copa não é a humilhação dos 7x1, mas a oportunidade perdida para vingarmos Barbosa. A oportunidade perdida para curarmos essa ferida que nos foi herdada. A ferida de quem não conseguiu ganhar em casa.
31 Jul 18:09

Por que é mentira dizer que árabes se preocupam mais com Gaza do que com a Síria?

by Gustavo Chacra

Por que, ao contrário do que diz uma bizarra campanha de relações públicas tentando calar críticos, os países árabes condenam mais Bashar al Assad do que Israel e se preocupam mais com a Guerra da Síria (ou a do Iraque) do que com a de Gaza? A questão é interessante, e vai contra esta campanha de relações públicas que insiste em dizer o contrário – que os árabes e muçulmanos ignoram a Guerra da Síria e se preocupam com a de Gaza porque envolveria Israel e judeus.

 Mito 1 – Imprensa se preocupa mais com Gaza do que com a Guerra da Síria

A Guerra da Síria recebeu gigantesca cobertura da imprensa, bem maior do que a de Gaza. Infelizmente, muita gente ignora. Apenas este humilde jornalista escreveu 600 textos sobre a Guerra da Síria, além de dezenas de comentários para TV e Rádio. Em alguns momentos, como quando durante o uso das armas químicas, o conflito sírio chegou a parar o Congresso dos Estados Unidos e as redes de TV americanas  interromperam suas programações apenas para transmitir o andamento da guerra, que domina os debates no Conselho de Segurança da ONU há mais de dois anos

 Mito 2 – Países árabes se preocupam mais com Gaza do que com a Guerra da Síria

A Síria foi expulsa da Liga Árabe. Já no caso de Israel, o Egito hoje é o maior aliado de Benjamin Netanyahu. A Jordânia sequer convocou seu embaixador em Tel Aviv. Arábia Saudita e Emirados Árabes mantém uma neutralidade de viés pró-Israel. De todo o mundo árabe, apenas o Qatar estaria solidário com o Hamas e ainda assim apoiando um cessar-fogo

Mito 3 – Países árabes armam o Hamas, mas ignoram a Guerra da Síria

Países árabes, como a Arábia Saudita e Qatar, armam opositores sírios, muitos deles ligados à Al Qaeda, apenas para lutarem contra Assad. Também financiam estas organizações. Nenhum país árabe arma o Hamas, que luta contra Israel

Mito 4 – Países retiram embaixador apenas de Israel

Quase todos os países, incluindo o Brasil, retiraram seus embaixadores de Damasco, seja por questões de segurança ou por oposição ao regime

 Mito 5 – Assad matou 150 mil e ninguém fala nada

Ao contrário do que dizem, Assad não é responsável pela morte de 150 mil pessoas. Este número representa o total de vítimas de uma Guerra Civil. Muitos dos mortos são militares sírios lutando a favor do regime e civis que apoiam Assad. Parte elevada dos mortos também se deve a conflitos intra-oposição. Por último, este não é um conflito apenas entre muçulmanos, como muitos descrevem incorretamente, visto que muitos cristãos lutam a favor do regime de Assad (que é laico e apoiada pela Rússia, historicamente defensora dos cristãos na região) e são vítimas do radicalismo religioso da oposição apoiada pelo Ocidente e pelos países do Golfo

Mito 6 – Árabes não se preocupam com a perseguição aos cristãos do Iraque

 Os cristãos iraquianos viviam bem no Iraque até os EUA invadirem o país em 2003. Eles estavam no alto escalão do governo de Saddam (o número 2 do regime era o cristão Tariq Aziz). Com a presença das tropas americanas e o crescimento da antes inexistente Al Qaeda no Iraque (que se tornaria o ISIS anos depois), os cristãos precisaram buscar refúgio com Assad, na Síria, que historicamente  os protegia. Agora, mais uma vez no Iraque, cristãos que ainda estavam no país passaram a ser perseguidos pelo ISIS. A Síria, mais uma vez, e o Líbano foram os primeiros a se levantar para receber os cristãos e apoiá-los. Inclusive, canais de TV do Líbano (um país onde o presidente por lei precisa ser cristão, assim como metade do Parlamento) mudaram seus símbolos para o que representa os cristãos iraquianos. Muitos libaneses e sírios fizeram o mesmo com seus perfis. O tema chega a ocupar um espaço quase similar à Guerra de Gaza em jornais de Beirute

Mito 7 – Países árabes não faazem nada por refugiados sírios

O Líbano recebeu 1 milhão de refugiados sírios, em um território menor do que o Sergipe e com uma população de 4 milhões. A Jordânia construiu cidades para receber os refugiados. O único país vizinho a não receber refugiados foi Israel. Sim, tratou algumas centenas de feridos. Mas o Líbano, com menos recursos, trata dezenas de milhares. E o argumento de Israel não ser árabe e ser inimigo de Assad não se sustenta. A Turquia também não é árabe e é inimiga de Assad, tendo recebido centenas de milhares de refugiados

Não sei como faz para publicar comentários. Portanto pediria que comentem no meu Facebook (Guga Chacra)  e no Twitter (@gugachacra), aberto para seguidores

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

Comentários islamofóbicos, antissemitas, anticristãos e antiárabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco são permitidos ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

Acompanhe também meus comentários no Globo News Em Pauta, na Rádio Estadão, na TV Estadão, no Estadão Noite no tablet, no Twitter @gugachacra , no Facebook Guga Chacra (me adicionem como seguidor), no Instagram e no Google Plus. Escrevam para mim no gugachacra at outlook.com. Leiam também o blog do Ariel Palacios

31 Jul 13:18

Las razones de Israel y su parentesco con Bin Laden

by Iñigo Sáenz de Ugarte
Allan Patrick

Thane Rosenbaum, no Wall Street Journal usou o mesmo argumento de Bin Laden.

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¿Es un chiste absurdo la viñeta de Mat Bors? ¿O la típica exageración absurda para provocar una discursión? No tanto. En la prensa israelí es habitual encontrar artículos que culpan a los habitantes de Gaza por el poder con el que cuenta Hamás (las últimas elecciones fueron en 2006). De alguna manera, se les considera responsables de su dolor. Nosotros disparamos, pero los culpables son ellos, es una mentalidad muy extendida en Israel.

O, por citar las viejas palabras de Golda Meir, recordadas hace unos días por el presentador de un informativo de EEUU, “nunca les perdonaremos que nos obliguen a matar a sus hijos”. Que nos obliguen.

Recientemente, ha habido un ejemplo extremo de esa idea, pero en EEUU. El profesor de derecho y novelista Thane Rosenbaum publicó un artículo en el WSJ para culpar a los gazatíes:

“En un nivel básico, pierdes tu derecho a ser llamado civil cuando eliges libremente a miembros de una organización terrorista al frente de un Estado, les invitas a cenar cuando tienen sangre en sus manos, y permites que instalen en tu comedor su base de operaciones. En ese momento, te pareces mucho más a los soldados reclutados que a los civiles inocentes. Y te has convertido voluntariamente en un objetivo”.

Como se comentó rápidamente, esa es la misma línea de argumentación que Osama bin Laden utilizó para justificar los atentados del 11S. Es una lógica habitual en las organizaciones terroristas cuando se refieren a la población civil como un objetivo legítimo.

Pero ni en Israel ni en los sectores de la sociedad de EEUU que apoyan a muerte a Israel son capaces de apreciar las consecuencias de esta paradoja.

Para continuar con la idea de la viñeta, tengo que repetir este gráfico (con datos de hasta el 25 de julio) que traslada las cifras de víctimas de Gaza a las dimensiones de EEUU).

Based on percentage of Gaza population killed/injured by Israel, here's what it would look like in US (via @theIMEU) pic.twitter.com/rVC4YtbXdZ

— Rania Khalek (@RaniaKhalek) July 26, 2014

30 Jul 17:09

Israel sólo te deja la opción de elegir el lugar donde morirás

by Iñigo Sáenz de Ugarte

escuela onu

El último ataque israelí a un refugio de la ONU ha colmado la paciencia de Pierre Krähenbühl, comisionado general de la UNRWA. Este es el comunicado que ha hecho público esta mañana:

“La noche pasada, murieron niños cuando dormían junto a sus padres sobre el suelo de un aula en una refugio de la ONU en Gaza. Niños muertos mientras dormían. Esto es una afrenta para todos nosotros, una fuente de vergüenza para todo el mundo. Hoy el mundo soporta su vergüenza.

Hemos visitado el lugar y reunido las pruebas. Hemos analizado fragmentos, examinado los cráteres y otros daños. Nuestra valoración inicial es que la artillería israelí atacó la escuela en la que 3.300 personas habían buscado refugio. Creemos que hubo tres impactos. Es demasiado pronto para dar una cifra confirmada de muertes. Pero sabemos que habrá muchas muertes de civiles y heridos, incluidos mujeres, niños y el vigilante de la UNRWA que intentaba proteger el local. Son gente que recibió la orden del Ejército israelí de abandonar sus casas.

La localización precisa de la Escuela Básica de Niñas de Yabalia y el hecho de que albergaba a miles de desplazados había sido comunicada al Ejército israelí en 17 ocasiones para asegurar su protección. La última fue a las nueve menos diez de la noche pasada, sólo horas antes del bombardeo fatal.

Condeno en los términos más estrictos esta grave violación del derecho internacional por las fuerzas israelíes.

Esta es la sexta ocasión en que una de nuestras escuelas ha sido atacada. Ha habido muertos entre nuestro personal, las mismas personas que dirigen la respuesta humanitaria. Nuestros refugios están abarrotados. Decenas de miles de personas pueden quedar tirados en las calles de Gaza sin comida, agua y refugio si continúan los ataques contra estas zonas.

Ya no basta sólo con limitarnos a la acción humanitaria. Ha llegado el momento de exigir responsabilidades. Hago un llamamiento a la comunidad internacional para que tome medidas políticas que pongan fin de inmediato a esta constante carnicería.”

Children, women and men killed & injured as they slept in place where they should have been safe and protected. They were not. Intolerable.

— Pierre Krähenbühl (@PKraehenbuehl) July 30, 2014

A classroom destroyed in attack in Jabalia #Gaza where displaced people were sleeping. Little is left. pic.twitter.com/sputKCLlpp

— Nick Casey (@caseysjournal) julio 30, 2014

19 personas han muerto y 90 han resultado heridas. El ataque se produjo cuando todos estaban dormidos. A las 4.30 de la madrugada.

No hay aún una versión oficial israelí, pero un portavoz militar llamó a una periodista de The Guardian para comunicarle que había “miembros de Hamás disparando proyectiles de mortero desde las cercanías de la escuela y los soldados respondieron disparando contra el origen de ese fuego”.

Remarkable @AFP photo: not snow but #IDF evacuation notices warning residents in #Gaza to leave their homes. pic.twitter.com/IDbNBlZV1C

— Jon Williams (@WilliamsJon) July 30, 2014

Como han destacado muchos, esta es una ofensiva en la que el Ejército israelí obliga con amenazas o bombardeos a la población civil a abandonar sus casas, lo que hace que esas personas se refugien en centros de la UNRWA o casas de familiares. Y cuando están allí, vuelve a atacarlos. Al final, Israel sólo les deja la opción de elegir el lugar donde morirán.

Foto: Un niño llora junto al cadáver de un familiar muerto en el ataque a la escuela de la ONU. Foto: Oliver Weiken/EPA.

29 Jul 21:07

Aziza Brahim: a música é uma linguagem universal

by noreply@blogger.com (AAPSO)
Allan Patrick

Cuba, sempre solidária aos povos mais desassistidos.




Aziza Brahim tornou-se este ano uma autêntica estrela do género da world music. O seu álbum "Soutak" recebeu críticas excelentes e foi muito bem acolhido pelo público. Graças à editora discográfica Glitterbeat, a publicação croata Pot teve a oportunidade de fazer uma entrevista com a cantora saharaui.


Lendo a sua biografia, é interessante ver que trocou a educação em Cuba pelo estudo da música, algo que ali não podia fazer. De onde vem esse seu amor pela música?


Na realidade, não troquei a educação em Cuba porque passei ali nove anos estudando o ensino secundário e pré-universitário. Nove anos em que desfrutei de um sistema educativo de primeira qualidade, coisa que não teria sido possível se tivesse permanecido nos acampamentos. Mas, depois de tanto tempo, tinha muita vontade de ver a minha família e os cursos universitários que podia estudar, Direito ou Medicina, não me motivavam para prolongar a minha estada na ilha. Se tivesse podido estudar Música, não teria hesitado, mas dado que não tinha essa possibilidade, decidi regressar a minha casa. O amor pela música acompanha-me desde que tenho o uso da razão.



Foi difícil recusar a possibilidade de ir para Cuba, sobretudo tendo em conta que naquele tempo vivia num campo de refugiados?


Com nove anos, eu queria ir para Cuba com todas as minhas forças, sobretudo para ir ver a minha irmã, que tinha ido estudar um ano antes. Na altura eu não tinha muita consciência de viver num campo de refugiados, ou o que isso significava exatamente. Para mim, era a minha casa, o meu país, sempre tinha sido assim e eu não conhecia outra coisa.


Ainda que esta entrevista esteja focada na música, é impossível evitar o lado político. A guerra no Sahara Ocidental durou mais de 15 anos. Além disso, muitos anos depois, uma parte do povo saharaui viveu e continua a viver em campos de refugiados. De que forma esta difícil situação se reflete na cultura de seu povo?


Em quase todos os aspetos, a situação do meu povo determina a cultura e a produção artística. Possivelmente só se salvam os aspetos mais tradicionais da nossa cultura porque permanecem conservados na memória dos nossos mais velhos. Mas as manifestações artísticas que agora se produzem caracterizam-se por um forte sentido de resistência, de reivindicação e de luta, pois elas são marcadas pela realidade histórica quotidiana que sofrem os saharauis.


O filme "Wilaya" relata os problemas do povo Saharaui. Escreveu a banda sonora da película e também participou como atriz. Infelizmente, a película nunca foi mostrada na Croácia. Pode falar-nos um pouco mais sobre ela? De que forma a película foi bem recebida nos festivais? Conseguiu sensibilizar muita gente sobre este tema?


Sim, a película “Wilaya” conta uma história de ficção de duas irmãs saharauis, muito diferentes entre elas, que se reencontram após uma larga temporada. É uma história muito humana e muito realista que nos faz refletir sobre a nossa situação como seres humanos e como povo dividido entre os acampamentos, a diáspora e os territórios ocupados. Foi muito bem recebida pelo público e pela crítica. Ganhou vários prémios nacionais e internacionais. Espero que a possam ver dentro em breve na Croácia.


Outra artista Saharaui conhecida é Mariem Hassan e durante um período as duas atuaram com o grupo Leyoad. Cantaram juntas alguma vez? Pode recomendar alguns outros músicos saharauis aos nossos leitores?


Trabalhámos juntas no Leyoad durante um tempo, mas depois não voltámos a colaborar. Outros músicos saharauis que recomendaria aos vossos leitores são o grupo Tiris, a cantora Shueta e o guitarrista Nayim Alal.


Quando se fala da ‘música do deserto', Tinariwen, Tamikrest, Bombino são alguns dos artistas Tuaregues conhecidos no mundo. Quais as semelhanças e as diferenças entre a música dos Tuaregues e a dos Saharauis?


É uma pergunta difícil, porque para lá das generalizações estão as peculiaridades de cada artista. Acho que as semelhanças se centram nas raízes africanas de ambas e as diferenças em algumas ‘nuances’ rítmicas. Quando ouço a música tuaregue, o som das guitarras e o ritmo que induz a uma espécie de transe aproximam-me da música do meu país. Mas a música tradicional saharaui rege-se pela variações do Haul que determina ritmos específicos no Tabal. Outra diferença importante é a linguagem dos textos – enquanto eles cantam em Tamasheq, nós fazemo-lo em Hassania, o nosso dialeto da língua árabe.




O seu disco "Soutak" foi gravado com músicos do Mali e de Espanha, e nele, além da música tradicional Saharaui/africana há também muitas influências de flamenco. Donde surge a ideia por esta mistura?


Quando faço uma canção, não parto de um propósito abstrato, mas de uma melodia. As melodias que imagino estão influenciadas pela música que escuto. Gosto muito das música de raiz e, portanto, não é surpreendente que o resultado final de  “Soutak” agrupe influências de diferentes músicas.


A canção "Julud" foi eleita como um dos êxitos do álbum. Pessoalmente creio que é uma das canções mais belas que ouvi este ano, mas poucos sabem que a canção é dedicada à sua mãe. Pode dizer-nos mais sobre as origens desta canção?


Muito obrigado. É verdade que é uma canção dedicada à minha mãe. Quis expressar-lhe o que ela significa na minha vida, é um agradecimento por tudo o que ela fez por mim e pelos meus irmãos. É uma homenagem também às mulheres saharauis. Um reconhecimento à luta incansável ​​e à sua capacidade de superação frente a todos os obstáculos de uma vida marcada pelo êxodo e a dificuldade de construir um país no exílio, assim como a sua contribuição para a manutenção e conservação da cultura saharaui.




O resto do álbum, em grande parte, também trata os problemas com que se confronta a sua nação. A situação no Sahara Ocidental está melhorando?


Lamentavelmente, a situação não melhora, antes se agrava porque estamos submetidos a um esquecimento absoluto. A cada dia que passa, os saharauis continuam condenados a subsistir nos campos de refugiados ou sob os rigores de uma ocupação ilegal e totalmente repressiva. Penso que melhorará no dia em que forem respeitadas cada uma das resoluções das Nações Unidas para o processo de paz na região e em que nós Saharauis possamos decidir o nosso destino num referendo sobre a autodeterminação.


O seu novo álbum foi produzido por Chris Eckman e gravado ao vivo. Como foi a experiencia de trabalhar com Chris Eckman? O que trouxe ele ao álbum como produtor?


Trabalhar com um produtor da estatura de Chris Eckman é uma sorte e supõe uma experiência fantástica de crescimento pessoal e profissional. Ele foi muito generoso em se comunicar comigo e estivemos perfeitamente de acordo sobre como abordar o disco. Ele deu ao álbum a sua grande sabedoria como produtor, sobretudo através de um processo de trabalho particularmente eficiente, tanto na produção como na mistura.


Imediatamente após a sua aparição, "Soutak" recebeu críticas excelentes, e permaneceu no primeiro lugar do ranking de êxitos da WMCE três meses seguidos. Esperava ter tanto êxito?


Sinceramente, foi uma surpresa e uma grande alegria. Emocionei-me com cada uma das críticas que li sobre o meu álbum. Não esperava que Soutak estivesse tantos meses no primeiro lugar da WMCE e agradeço muito a todos ouvintes que apoiaram o meu trabalho, assim como aos locutores que nele votaram para que permanecesse três meses seguidos nessa posição da lista.


Mudou alguma coisa na sua vida depois do êxito deste álbum?


Sinto-me mais reconhecida como artista, mais apreciada e mais satisfeita, claro está. O êxito de Soutak dá-me ânimo para continuar a trabalhar em próximos projetos.


A Aziza faz muitas atuações ao vivo. Há alguma possibilidade de vir a dar um concerto em algum local da ex-Jugoslávia?


Seria genial atuar aí, assim os promotores e o público estejam interessados.


O género de world music está a ganhar cada vez mais popularidade no mundo e os músicos que interpretam música baseada na tradição do seu povo podem hoje em dia encontrar más facilmente vias para chegar ao público nos cantos mais remotos do globo mesmo que não entendam a sua língua. Como comenta?


O velho lema de “Pensa globalmente, atua localmente” tem a sua versão musical. A música autêntica, de raiz, chega cada vez a mais gente em torno do planeta. Isto é enriquecedor tanto para os artistas como para o público porque supõe um maior grau de empatia com sensibilidades e culturas de outros povos. E isto demonstra, uma vez mais, que a música é uma linguagem universal.


Tradução para o espanhol: Andrea Rožić & Minela Fulurija


Foto: Guillem Moreno

28 Jul 13:27

Médico Dráuzio Varella defende legalização da Maconha

by Redação

Dráuzio Varella

Em três colunas consecutivas o médico Dráuzio Varella, autor do livro best seller Estação Carandiru (1999) – que deu origem ao filme Carandiru – explorou o tema do consumo, efeitos e condição legal da maconha no Brasil, em sua coluna na Folha de São Paulo. Na primeira delas, tratou dos efeitos adversos da droga, entre eles a dependência (9% dos usuários), alterações cerebrais (para usuários que iniciaram o consumo na adolescência) e doenças pulmonares (menos que o tabaco).

Na segunda coluna, Dráuzio falou sobre os efeitos benéficos da droga, relativamente a seu uso medicinal. Ele cita os casos em que o uso da maconha é benéfico: glaucoma, náuseas, anorexia e caquexia associada à Aids, dores crônicas, inflamações, esclerose múltipla e epilepsia. No artigo, ele arremata:

Com tal espectro de ações em patologias tão diversas, só gente muito despreparada pode ignorar o interesse medicinal da maconha. Qual a justificativa para impedir que comprimidos de THC e de seus derivados cheguem aos que poderiam se beneficiar deles? Está certo jogar pessoas doentes nas mãos dos traficantes?

Na última coluna Dráuzio Varella fala sobre a legalização da maconha:

Legalizar não significa liberar geral. É possível criar leis e estabelecer regras que protejam os adolescentes, disciplinem o uso e permitam oferecer assistência aos interessados em livrar-se da dependência.

O dinheiro gasto na repressão seria mais útil em campanhas educativas para explicar às crianças que drogas psicoativas fazem mal, prejudicam o aprendizado, isolam o usuário, tumultuam a vida familiar e causam dependência química escravizadora.

Nos anos 1960, mais de 60% dos adultos brasileiros fumavam cigarro. Hoje, são 15% a 17%, números que não param de cair, porque estamos aprendendo a lidar com a dependência de nicotina, a esclarecer a população a respeito dos malefícios do fumo e a criar regras de convívio social com os fumantes.

Embora os efeitos adversos do tabagismo sejam mais trágicos do que os da maconha, algum cidadão de bom senso proporia colocarmos o cigarro na ilegalidade?

Manter a ilusão de que a questão da maconha será resolvida pela repressão policial é fechar os olhos à realidade, é adotar a estratégia dos avestruzes.

É insensato insistirmos ad eternum num erro que traz consequências tão devastadoras, só por medo de cometer outros.

Leia as três colunas de Dráuzio Varella no site da Folha de São Paulo: 1. Efeitos adversos da maconha;  2. Efeitos benéficos da maconha; 3. Legalização da maconha.

28 Jul 09:39

Cerqueira César: Alckmin joga crise da água para após eleição?

by Conceição Lemes

Nova leva de secretários de Alckmin inclui Saulo de Castro nos Transportes

Júlio Cerqueira César Neto: “A gravidade da situação exige maior responsabilidade do governo”

Operação de guerra na crise da água

 Júlio Cerqueira César Neto, via e-mail

Estamos no fim do mês de julho e a operação de guerra necessária para superar a grave crise da água em São Paulo ainda não existe.

Embora a crise da água na região metropolitana já tenha sido anunciada há pelo menos 15 anos, ela deu um sinal em 2003 e veio com tudo a partir do final de 2013, surpreendendo a Sabesp e o governo do estado.

O governo a vem administrando até hoje, final de julho, com visão exclusiva de curto prazo com o objetivo de passar o período eleitoral sem racionamento, se valendo do apoio da população em reduzir o consumo, do racionamento seletivo em diversos setores da região e especialmente no esgotamento não só da capacidade útil dos reservatórios mas inclusive de todas as reservas técnicas disponíveis. E só.

Esse comportamento somado à frequente alusão à falsa perspectiva de que em outubro as chuvas que virão encherão os reservatórios — assim, acaba a crise — está induzindo a população a não atribuir à mesma a sua real extensão e gravidade (efeitos a partir do final desse ano com horizonte de 10 anos). Em consequência as pessoas começam a achar que agora não dá para fazer mais nada, só depois das eleições, e não se dão conta que após as eleições vem Natal e em seguida o Carnaval.

A gravidade da situação exige maior responsabilidade do governo. Era de se esperar que o governo já tivesse organizado e implantado, pelo menos a partir do final do ano passado, uma operação de guerra, mobilizando todo o potencial do estado para atacar o problema e devolver à população a situação de antes da crise com a maior brevidade possível. Se não foi feito na ocasião que se faça agora.

Observe-se que até hoje, final de julho, o governo ainda não começou a tomar as medidas necessárias à superação das deficiências do sistema de abastecimento de água da região metropolitana (longo prazo) nem aquelas, mais emergenciais ainda para minimizar os dramas a que a região estará sujeita a partir do inicio do próximo ano até que o sistema seja restabelecido (médio prazo).

O único problema é: como conseguir que o governo passe a assumir suas responsabilidades?

Júlio Cerqueira César Neto é engenheiro, professor aposentado de Hidráulica e Saneamento da Escola Politécnica da USP

Leia também:

Alckmin embolsa 50% dos lucros da Sabesp e ainda reduz investimentos

O post Cerqueira César: Alckmin joga crise da água para após eleição? apareceu primeiro em Viomundo - O que você não vê na mídia.

27 Jul 18:41

Mariel: Dinheiro do BNDES foi para empresas brasileiras

by Luiz Carlos Azenha

mariel

Da redação

O Viomundo reproduz o texto abaixo, antigo, por conta do fato de que o financiamento da construção do porto de Mariel, em Cuba, pelo BNDES, continua sendo apontado nas redes sociais como algo comprometedor para a política externa de Dilma Rousseff, ou seja, seria dinheiro do Brasil para “ajudar a ditadura de Fidel Castro”.

É um contraponto a este discurso, para incentivar o debate da questão:

Presidente do BNDES desmonta oposição e detalha benefícios de investimentos do Brasil no exterior

O objetivo do debate era esclarecer, especificamente, o dinheiro que vai financiar a construção do Porto de Mariel, em Cuba, mas Coutinho acabou explicando, de forma ampla, como ocorre esse tipo de repasse, que se processa de uma forma diametralmente oposta daquela propagada pela oposição e pela grande mídia

Por PT na Câmara

Quarta-feira, 28 de maio de 2014

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, desconstruiu nesta terça-feira (27) durante audiência na Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara, vários argumentos de cunho eleitoreiro da oposição acerca do financiamento, pelo banco, de serviços brasileiros de engenharia para a realização de obras em outros países.

O objetivo do debate era esclarecer, especificamente, o dinheiro que vai financiar a construção do Porto de Mariel, em Cuba, mas Coutinho acabou explicando, de forma ampla, como ocorre esse tipo de repasse, que se processade uma forma diametralmente oposta daquela propagada pela oposição e pela grande mídia.

Primeiramente, conforme explicou por meio de esquema gráfico, o BNDES não repassa dinheiro a governo algum onde a obra será realizada.

Os recursos financiam, em moeda nacional, as empresas brasileiras que ganharam a licitação da obra no país estrangeiro. Essa informação, por si só, já desmonta o principal argumento da oposição, segundo o qual o governo brasileiro estaria deixando de investir no Brasil para “doar” ou “mandar” dinheiro para Cuba.

Coutinho mostrou que, antes de tudo, trata-se de um procedimento que gera empregos no Brasil e movimenta uma vasta cadeia produtiva nacional de bens e serviços, envolvendo também uma infinidade de outras pequenas empresas brasileiras que se beneficiam com a transação.

O presidente do BNDES explicou ainda que, como pagamento do dinheiro repassado àquelas companhias nacionais que ganharam a licitação, o país onde será construída a obra paga em dólar ao Brasil.

Ainda, segundo Coutinho, as linhas de crédito para apoiar serviços de engenharia no exterior são um mercado “concorridíssimo” e são praticadas por todos os países que têm bancos de fomento. Disse também que a modalidade praticada pelo Brasil ainda é “conservadora” se comparada às dos países desenvolvidos e da China. “Eles financiam, inclusive, gastos locais”, informou.

O dirigente mostrou dados que revelam o grau de investimento de outras nações em obras de engenharia fora de seus territórios. A China desembolsou entre 2008 e 2012 um total de US$ 45,2 bilhões; os Estados Unidos, 18,6 bilhões; a Alemanha, US$ 15,6; e a França, US$ 14,6 bilhões.

No mesmo período, o Brasil financiou US$ 2,24 bilhões, ocupando a oitava colocação na tabela apresentada, atrás ainda da Índia, do Japão e do Reino Unido.

O deputado Pepe Vargas (PT-RS), ao se referir à queixa sobre os recursos repassados à empresa brasileira que ganhou a licitação em Cuba, disse achar lamentável que a oposição planeje fazer uma política de apoio de exportação e uma política de relações externas com viés de preconceito ideológico.

“Um país que queira ter uma inserção soberana no mundo não faz política externa e não faz política de apoio às exportações com esse tipo de postura”, afirmou.

“Se há empresa brasileira que venceu uma licitação internacional e tem lá uma obra de serviço de engenharia para executar, cabe, sim, ao governo brasileiro, através da sua instituição de fomento, fazer esse financiamento. Isso ajuda a economia nacional a melhorar a balança de serviços e gera empregos aqui dentro do Brasil”, completou o deputado.

Pepe Vargas também fez uma comparação do tipo de ações financiadas pelo BNDES atualmente com o modelo de repasse de recursos feito pelo banco na época em que os tucanos, regidos por FHC, governavam o País.

“Se voltássemos ao passado, teríamos uma situação em que o BNDES financiava privatizações, financiava a compra de ativos já existentes para grupos nacionais ou internacionais, que não geravam nenhum emprego novo dentro do Brasil”, comparou.

Falou ainda sobre o papel estratégico do BNDES no nível de investimento do país, que seria muito menor se não fosse essa atuação.

Segundo Pepe Vargas, não cabe o argumento que isso gera endividamento público e compromete o resultado fiscal do governo. “Isso é uma falácia, porque o resultado fiscal hoje é muito melhor que há dez anos. Saímos de uma dívida pública líquida de 60,4% do PIB para um patamar entre 33% e 34% do PIB. A dívida bruta também vem se mantendo nos mesmos patamares”, acrescentou.

PS do Viomundo: Tratamos disso em um programa da série Nova África, no passado. Mostramos como os chineses fizeram obras em Cabo Verde — de um shopping center a represas para água de chuva — com suas próprias empresas e levando até os operários e engenheiros! Com isso turbinam sua própria economia e melhoram relações diplomáticas com os países africanos, pois não impõe as condicionalidades neoliberais do FMI ou do Banco Mundial. Essa direita brasileira, que só vai a Miami fazer compras, é muito mal informada!

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25 Jul 19:00

O SUS é ruim? Pois saiba que é bem melhor do que parece

by eduguim
Allan Patrick

"Meu genro precisava de 30 doses, que, somadas, dão para comprar um carro popular zero quilômetro. O hospital não tinha, mas o SUS disponibiliza"

Meu genro Isac chegou às portas do hospital da Escola Paulista de Medicina, em São Paulo, nas primeiras horas da manhã da última terça-feira (23). A fila dobrava o quarteirão e ele mal se aguentava em pé. Havia dois dias que passara a sentir formigamentos nos membros superiores e inferiores, dificuldade para movê-los e até para respirar, além de fraqueza extrema.

Por ser jovem (34 anos) e estar em excelente forma física – até por conta de ser fisioterapeuta e de já ter sido professor de academias de ginástica –, nunca se incomodou em pagar um plano de saúde para si, preferindo pagar para a esposa e para a filha nascida recentemente. Assim, nada mais lhe restava além de hospitais financiados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Por ser profissional da área de saúde, o rapaz já intuía o diagnóstico que lhe seria dado logo em seguida: Síndrome de Guillain Barré. Antes de prosseguir, pois, vale reproduzir explicações sobre essa doença extraídas de artigo publicado no site do médico Drauzio Varella.

—–

“A síndrome de Guillain-Barré, também conhecida por polirradiculoneuropatia idiopática aguda oupolirradiculopatia aguda imunomediada, é uma doença do sistema nervoso (neuropatia) adquirida, provavelmente de caráter autoimune, marcada pela perda da bainha de mielina e dos reflexos tendinosos. Ela se manifesta sob a forma de inflamação aguda desses nervos e, às vezes, das raízes nervosas.

O processo inflamatório e desmielizante interfere na condução do estímulo nervoso até os músculos e, em parte dos casos, no sentido contrário, isto é, na condução dos estímulos sensoriais até o cérebro.

Em geral, a moléstia evolui rapidamente, atinge o ponto máximo de gravidade por volta da segunda ou terceira semana e regride devagar. Por isso, pode levar meses até o paciente ser considerado completamente curado. Em alguns casos, a doença pode tornar-se crônica ou recidivar (…)

A síndrome de Guillain-Barré deve ser considerada uma emergência médica que exige internação hospitalar já na fase inicial da evolução. Quando os músculos da respiração e da face são afetados, o que pode acontecer rapidamente, os pacientes necessitam de ventilação mecânica para o tratamento da insuficiência respiratória (…)”

—–

Apesar da longa fila e da torturante espera no meio da rua até chegar ao atendimento na sala de espera daquele hospital, em poucas horas o rapaz já estava sendo atendido nos corredores repletos de pacientes em macas da unidade de emergência.

Não é bonito de ver o pronto atendimento dos hospitais públicos brasileiros. Pelo contrário, é chocante. Meu genro presenciou a morte de uma paciente na maca ao lado da sua, enquanto os jovens médicos tentavam, desesperadamente, revivê-la.

Pessoas amputadas, pessoas gritando de dor, parentes em desespero… Não é nada bonito. Muito ao contrário, induz quem vê aquelas cenas a considerar o SUS um sistema caótico e ineficiente.

A imagem que as unidades de emergência dos hospitais públicos – mesmo os de grande porte, como o hospital supracitado – passam à sociedade, porém, induz a uma visão errônea, como o blogueiro pôde comprovar ao acompanhar o que de fato acontece nesses locais.

Sim, o pronto atendimento dos hospitais públicos é caótico e maltrata quem está sofrendo. Não há conforto na porta de entrada. Mas, lá dentro, há medicina, sim. E de um nível que pode compensar a falta de “hotelaria” nessas instituições.

Um dos fatos mais interessantes sobre a vantagem do SUS sobre a medicina privada dos planos de saúde é a questão dos exames. Pude fazer essa comparação porque minha quarta filha, Victoria, padece de uma grave enfermidade neurológica e frequenta intensamente hospitais paulistanos tidos como “de excelência”, sobretudo o hospital Santa Catarina.

Para os médicos avaliarem o estrago que a doença promoveu em meu genro ele teve que fazer uma bateria de exames a partir do momento de sua admissão via SUS no hospital da Escola Paulista de Medicina. Exames caros, como tomografia e outros.

Se o rapaz tivesse um plano de saúde caro como o de minha filha (citada acima), todos aqueles exames exigiriam muita burocracia e muita briga porque os planos de saúde regateiam “autorização” para exames e procedimentos dispendiosos.

No SUS, não. É feito tudo que precisa ser feito e a família do paciente não tem que brigar como acontece com planos de saúde, tendo que ameaçá-los de processos ou até tendo que mover tais processos para obter o que tentam não oferecer apesar de serem obrigados por lei.

Para que se tenha uma ideia, em 2009 a minha filha Victoria só conseguiu fazer um determinado procedimento em um hospital “de excelência”, da rede credenciada do caríssimo plano de saúde, porque fui à Justiça. Mas entre o vai e vem para chegar à decisão judicial passaram-se 45 dias, com a menina exposta a infecção hospitalar etc.

No SUS, não teria havido esse drama.

Mas o que mais me surpreendeu nesse episódio do meu genro foi o tratamento que passou a receber após os médicos decidirem por sua internação.

Em primeiro lugar, a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) na qual foi internado não perde em nada para as dos tais “hospitais de excelência” da rede privada. Ao menos em recursos clínicos, estrutura, atendimento dos médicos etc. Só não tem luxo – televisão, frigobar, refeições em bandejas elegantes etc.

Vagando pelos corredores do hospital, surpreendi-me com a limpeza, com o foco dos profissionais, enfim, com uma qualidade da instituição que o atendimento emergencial esconde.

Além disso, surpreendi-me com a educação e a atenção dos profissionais. No primeiro dia da internação do meu genro, ele estava cercado de profissionais atenciosos e simpáticos.

Mas não é só. O tratamento da Síndrome que acometeu o rapaz requer imunoglobulina humana, que, claro, os planos de saúde têm que fornecer. Mas isso porque são pagos. E caros. Além disso, devido ao alto custo daquele medicamento, na saúde privada os planos de saúde provavelmente dificultariam o fornecimento – já passei por isso com a minha filha.

Imunoglobulina humana é um medicamento caríssimo. Em pesquisa na internet, descobri que custa cerca de mil reais cada dose.

Meu genro precisava de 30 doses, que, somadas, dão para comprar um carro popular zero quilômetro. O hospital não tinha, mas o SUS disponibiliza. A única dificuldade é que a família do paciente tem que ir buscar em unidades de fornecimento de medicamentos – vide, no alto da página, foto da caixa de isopor com as 30 doses que obtive para o rapaz.

Não é por outra razão que, hoje, enfermos de países vizinhos vêm ao Brasil buscar socorro no SUS. Apesar da falta de conforto em nosso sistema público de saúde, em outros países – inclusive em países ricos como os Estados Unidos – quem adoecer e não tiver um plano de saúde até pode obter atendimento, mas se endivida até o pescoço.

Falta muito para o SUS oferecer, além da boa medicina que já fornece, também um mínimo de conforto. Todavia, é um sistema que funciona. E funciona tão bem que, mesmo pagando um caro plano de saúde, é bem provável que, se o problema de que você padecer for muito grave, talvez tenha que terminar o tratamento no sistema público.

É uma obrigação deste que escreve divulgar este relato para que aqueles que têm uma ideia errada do SUS reflitam se vale mesmo a pena pagar fortunas por planos de saúde privados se você tem direito a um sistema que, apesar do déficit de conforto, funciona bem.

Até porque, a filosofia exclusivamente capitalista do sistema privado pode vir a ser fatal para o paciente. Ao regatear “autorizações” para exames e outros procedimentos clínicos, os planos de saúde podem até matar o paciente. No SUS, você não correrá esse risco.

24 Jul 15:52

Campanha pela real feiura

by Polly

Se você é uma pessoa de sorte, conseguiu viver até hoje sem saber que rolou um meme cretino com as fotos de uma torcedora alemã.

Se não é tão afortunada, com certeza se deparou com essa imagem em alguma rede social por aí.

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Duas coisas me enfurecem nisso.

1) Padrãozinho eurocêntrico de beleza. Ela estava com metade do rosto coberto, mas só porque era branca magra loura e lisa já pré-determinaram que era linda.

2) Quando a pessoa não atingiu o nível de beleza esperado, imediatamente virou motivo de piada, risos risos risos olha essa pessoa que tinha tudo pra ser bonita mas na verdade é feia.

Vomitei mil vezes e dei dois unfriends em quem compartilhou isso.

Eu poderia alegar que na verdade a moça é bonita  (é) só o angulo que estava ruim (estava) e defender a beleza dela, mas importa? O problema aqui não é a beleza ou falta dela. É essa noção de que mulher só serve pra enfeitar o mundo e se não conseguir, merece ser  ridicularizada.

Mina tava lá tranquila vendo jogo de boa e de repente vira motivo de piada sem ter feito absolutamente nada.

Declaração dela para o Extra:

Nunca aleguei que sou modelo ou que queria concorrer num concurso de beleza indo aos estádios. Só queria ver meu time jogar e fui um pouco fantasiada. Estragou a Copa, para mim. Eu fiquei chorando durante dois dias. Não fui comemorar o título tão desejado da minha seleção poque já começaram a me reconhecer e fazer piadas ainda no estádio, me mostrando a foto, querendo tirar fotos comigo. Aí em vez de ir pra festa eu fui direto pra casa sozinha.

Migs, não precisa chorar não. Não vou dizer que você é maior que isso, mas ó: tamo junto. E pra provar isso, fizemos nossas próprias montagens, porque ninguém aqui nasceu pra ficar agradando babaca não.

 

POLLY

CLARA

 

MARI

 

23 Jul 21:55

Aécio e sua “bolsa família”: Parasitismo estatal para si e os seus

by Conceição Lemes

Aecio-Neves

Aécio e sua “bolsa família”: Parasitismo estatal para si, liberalismo para os outros

por Luis Carlos da Silva, especial para o Viomundo

Em várias declarações já ouvimos Aécio dizer que os petistas não podem perder a presidência da República, dentre outros motivos, para não ver cair seu padrão de vida. Provocação barata que ocupa o espaço dos debates estruturais que deveriam presidir uma disputa eleitoral da magnitude desta que temos à frente.

Mas, entremos no clima por ele proposto.

Aécio, de fato, não precisa se preocupar com seu padrão de vida. Ganhando ou perdendo eleições. Aliás, nunca se preocupou. Descendente das oligarquias conservadoras mineiras, que foram geradas nas entranhas do Estado, desde o império, ele não tem a menor ideia do que seja empreender na iniciativa privada. Do que seja arriscar em negócios e disputas de mercado. Do que seja encarar uma falência, uma cobrança bancária, uma perda de patrimônio.

Pasmem: é esse o candidato que faz apologia do livre mercado, da iniciativa individual como base para a ascensão social e da ideia do “cada um por si” como critério de sobrevivência na selva do capitalismo contemporâneo.

Até sua carreira eleitoral tem como fato gerador a agonia terminal do avô, cuja morte “coincidiu” com o dia de Tiradentes . Seu primeiro cargo eletivo é tributário disso: em 1986 ele obteve mais de 200 mil votos para deputado federal sem lastro político próprio. Quatro anos mais tarde, distante do “fato gerador”, ele se reelegeu com magros 42.412 votos.

No quadro a seguir temos um diminuto resumo da versão de sua “bolsa família”.

aecim

Reitera-se: trata-se de um “diminuto resumo”. A história de seus avós paternos e maternos é a reprodução integral de como foram formadas as elites mineiras: indispensável vínculo estatal (cargos de confiança no Executivo, cartório e muita influência no Judiciário), formação de patrimônio fundiário à base da incorporação de terras devolutas e estreitas ligações com carreiras parlamentares.

O pai, Aécio Cunha, por exemplo, morava no Rio de Janeiro quando,  em 1952 retorna a Belo Horizonte e, com 27 anos de idade, em 1954,  “elegeu-se deputado estadual, pela região do Mucuri e do Médio Jequitinhonha, ainda que pouco conhecesse a região (…)” conforme descrição no Wikipédia. Seus oito mandatos parlamentares nasceram de sua ascendência oligarca. Do avô materno, Tancredo, dispensa-se maiores apresentações. Atípico sobrevivente de várias crises institucionais que levaram presidentes à morte, à deposição e ao exílio, Tancredo Neves sempre esteve na “crista da onda”. Nunca como empresário. Quase sempre como interlocutor confiável dos que quebravam a normalidade democrática.

Aécio Neves, por sua vez, era um bon vivant quando passa a secretariar o avô, governador de Minas Gerais, a partir de 1983. Nunca foi empresário, nunca prestou concurso público, nunca chefiou nenhum empreendimento privado. Sua famosa rádio “Arco Íris” foi um presente de José Sarney e Antônio Carlos Magalhães. Boa parte de seu patrimônio é herança familiar construída pelo que se relatou anteriormente. O caso do aeroporto do município mineiro de Cláudio é apenas mais uma ponta do iceberg.

Enfim, ele é isso: um produto estatal que prega liberalismo, competição, livre mercado… para os outros. Uma contradição em movimento. Herdeiro, portanto, de uma típica “bolsa família”; só que orientada para poucos.

Aliás, esse parasitismo estatal é característico da maior parte das elites brasileiras. Paradoxal é defenderem os valores neoliberais.

Luis Carlos da Silva é sociólogo e assessor do bloco Minas Sem Censura

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23 Jul 09:57

O caso “Impedimento” e a impossibilidade do jornalismo independente no Brasil

by Letícia F.

Hoje ficamos sabendo de uma notícia triste: o site Impedimento, que há uma década cobria de maneira independente o futebol, acabou. Eu não era leitora deles, bem mais pela falta de interesse diário no assunto do que pela qualidade do que ali era publicado, que chegou até a ganhar prêmio.

No entanto, a “falência” do Impedimento desmascara um problema sério na internet brasileira: quem produz conteúdo de qualidade raramente é reconhecido. E eu estou falando de grana, sim, mas não apenas isso.

Primeiro, vamos ao “não apenas isso”, porque grana é a parte mais difícil de lidar. Recentemente tivemos, por exemplo, o festival YouPix, “o maior prêmio da internet brasileira”. Quem vocês veem lá? Entra ano, sai ano, são as mesmas figuras. Algumas delas, aliás, reconhecidas como bullies, que usam da grande influência (*suspiro*) e da enorme quantidade de seguidores para perseguir e escrachar pessoas comuns pelo simples prazer de fazê-lo.

A Campus Party, evento anual que cobra ingressos a R$ 300 dos campuseiros (segundo a organização, foram 8 mil participantes em 2014), conta com o patrocínio de empresas. Estas, por sua vez, enquadram os gastos com o evento em projetos de renúncia fiscal. E, na hora de convidar as pessoas, são incapazes de pagar uma passagem aérea – a não ser, claro, que você seja uma daquelas citadas no parágrafo anterior.

Tudo, no final, gira em torno do dinheiro.

E muita gente acha que ter blog muito lido ou com bastante repercussão dá grana. Não dá, na maior parte dos casos. Conheço quem esteja fazendo trabalho bacana e bem sucedido, mas em geral quem é bem remunerado por ser blogueiro profissional faz um trabalho lixo.

Além de fazerem piadas sobre minorias, com senso de relevância social zero, a técnica usada é postar vídeos catados na internet e postar várias vezes ao dia. Os cliques sobem, o anunciante acha bonito, e pagam o banner. Ou o blog é do amigo do social media, o social media manda presentes pro blogueiro, o blogueiro posta sem avisar que é patrocinado, e assim as coisas seguem.

A lógica dos blogs de moda/maquiagem é diferente. O dinheiro é altíssimo, impensável até, mas porque é consumo, consumo, consumo. Ainda que, muitas e muitas vezes, as blogueiras mal consigam escrever um post em português correto.

E onde ficam, então, os blogs independentes? Os que não querem vender e vender e vender (não só produtos, mas lifestyle – risos – também)? Morrem, como o Impedimento.

Afinal, por mais que esses blogueiros queiram muito continuar com o trabalho bem feito, eles têm contas a pagar. Não se paga a Eletropaulo com tapinhas nas costas. Nem com o livro que a editora manda uma vez na vida – e nunca mais, porque você não o resenhou (ela não ia te pagar pela resenha).

“Ah, mas e o ad sense?”, perguntam alguns. Mesmo na época em que eu escrevia aqui todos os dias e o blog bombava de acessos, eu ganhava centavos por dia. Não valia a pena; enfeiava o blog e no fim do mês não me pagava uma pizza. Se você tem outro emprego e o blog é um hobby, talvez valha a pena, mas se você estuda, apura, escreve, paga o facebook, quer fazer um layout maneiro, não é nada vantajoso.

Como resolver isso? Eu não sei. Não sei mesmo. Sou pouco empreendedora, como meus amigos sabem. Na verdade, acho que sofro de cagaço crônico, mas essa é uma encruzilhada que não sei que caminho tomar, mesmo. Com certeza há gente muito mais esperta pensando em métodos para tornar estes blogs lucrativos.

Há quem ganhe dando palestras, o que eu acho bastante válido quando a pessoa sabe mesmo sobre o que está falando. Eu nunca ganhei um real para participar de nenhum evento. E sei que participei de um deles em que, na mesa em que eu estava, eu era a única a não ganhar um chequinho. Porque eu sou só uma blogueira.

Talvez seja essa a mentalidade a ser mudada. Não são “só blogueiros”. São jornalistas, com ou sem diploma; são especialistas na sua área; são pessoas bem informadas; são escritoras e escritores que têm o dom de fazer você ler um texto até o final. Antes, a gente pagava pelo conteúdo, comprando jornais e revistas. Esse meio está quase morto. Outro nasceu no lugar, mas a verdade é que conteúdo bom não brota do chão. Alguém o produziu – e esse alguém precisa ganhar por isso.

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22 Jul 13:49

A mídia bandida mata o PT dia a dia e o PT não reage ao banditismo da mídia monopolizada

by mariafro
Allan Patrick

Assino em baixo: melhor prefeito do país.

O que acho mais inacreditável nas avaliações das pesquisas em São Paulo é como um prefeito com esta qualidade e é inegável a qualidade da administração de Haddad, pode ter uma comunicação tão ruim, tão porcaria, a ponto de invisibilizar absolutamente a revolução que este excelente prefeito está fazendo e, por outro lado, o pior governador que este estado já viu seguir incólume.

É algo que merece estudo a dificuldade das administrações petistas lidarem com os ataques diuturnos da mídia bandida e serem incapazes de comunicar a quem interessa, – ao povo – tudo que vem fazendo de diferente, inclusivo, transformador. A mídia bandida vai matar o PT. Qualquer paulistano honesto concorda com Carol Almeida, com seu texto desabafo postado no Facebook que reproduzo abaixo, qualquer petista acuado pela mídia bandida deve pôr a mão na cabeça, antes tirá-la do buraco onde a enterrou, e reagir. Chega de bundamolice!

É nítido que o paulistano brutalizado pelo cotidiano sem água, sem USP, sem segurança pública, com hospitais fechados, com escolas estaduais sucateadas, acordando às 4 da manhã e chegando em casa às 22 horas, transportado feito gado em trens caindo aos pedaços, sujos, calorentos, que lhe roubam 5 horas do seu dia, acha que não tem água, não tem USP, não tem segurança pública devido ao prefeito ou à Dilma.

Nem vou falar das realizações petistas dos governos Lula e Dilma, as transformações estão nos censos, nos indicadores sociais, nas mudanças de fluxo de migração, no novo patamar do Brasil no cenário internacional. É covardia comparar o que esses governos fizeram com o entreguismo, sucateamento, privatizações e humilhações do Brasil em mãos tucanas.

As bandeiras legítimas de junho mostraram isso muito bem, os brasileiro da elite oportunista, da classe média sem capital cultural e da classe trabalhadora não sabem o que faz um governador! Eles enxergam no máximo o prefeito e quem ocupa a presidência. Não sabem o papel do Judiciário, não sabem o papel do MP, não sabem o papel do Legislativo e desconhecem por completo as atribuições de um governador e botam tudo na conta do PT.

Essa brutalização dos cidadãos nos grandes centros urbanos associada ao trabalho sistemático de criminalização do PT pela mídia, faz com que o governador tucano Geraldo Alckmin, que consegue ser pior que Serra, que privatizou todo o estado, que nos mata de sede após sucatear e privatizar a Sabesp, que sucateou a melhor universidade pública do país, cuja corrupção em propinas engoliu 23 estações de metrô segue folgado nas pesquisas eleitorais, com intenções de votos que o elegeriam no primeiro turno.

Quanto ao prefeito petista Haddad embora certamente seja o melhor prefeito que esta cidade já viu, vai morrer afogado com seu incompetente secretário de comunicação, porque este infeliz de comunicação entende tanto quanto entende de física quântica.

Belas Artes

Carol de Almeida em seu Facebook, via Maurício Machado

Somente ESTA SEMANA, foi anunciada pela prefeitura de SP, leia-se, pelo prefeito Fernando Haddad:

- Uma política municipal de segurança alimentar que vai incentivar a agricultura familiar na Zona Sul da cidade (onde há uma zona rural em SP)

- A transformação da Chácara Jockey (169 mil m² no Butatã) em um grande parque municipal

- A reabertura do Belas Artes GRAÇAS à parceria da prefeitura com a sociedade civil e a Caixa

- Edital da prefeitura exclusivo pra distribuição de filmes

- Construção de uma usina com capacidade de triagem de material reciclado (e com ela São Paulo é agora uma cidade capaz de reciclar mais lixo do que produz)

- Canal aberto pra diálogo com os skatistas da cidade para que a prefeitura possa melhor os picos que já existem e criar novos pontos

- Instalação de contadores de passageiros nos ônibus, para aumentar ou diminuir a frota de acordo com horários e rotas

- Área dos edifícios São Vito e Mercúrio cedida pela prefeitura para criação de mais uma unidade do Sesc, o Sesc Mercadão

E eu poderia ainda citar o trabalho diário da prefeitura na instalação dos corredores de ônibus, do trabalho incrível feito pelo Braços Abertos e uma porrada de coisa mais.

São Paulo tem hoje o Melhor Prefeito Possível. Claro que ainda há muito a avançar e claro que ele ainda tem muito a aprender. Mas é inegável que temos um homem pensando o coletivo naquele prédio às margens do Vale do Anhangabaú.

Pois bem, este mesmo prefeito tem a pior rejeição de todos os tempos. Segundo pesquisa divulgada pelo Datafolha, os paulistanos preferem Kassab (sim, KASSAB!) a Haddad.

De modo que, estou intolerante. Se alguém aqui for contra esse cara na administração da cidade, por favor, se retire do meu Facebook e, caso cruze comigo na rua, não se dê ao trabalho de trocar palavras.

Grata

21 Jul 11:48

DN! Spitzer on BRICS bank

Allan Patrick

Copiosos elogios do Prêmio Nobel Joseph Stiglitz ao BNDES

JUAN GONZÁLEZ: A group of five countries have launched their own development bank to challenge the United States-dominated World Bank and International Monetary Fund. Leaders from the so-called BRICS countries—Brazil, Russia, India, China and South Africa—unveiled the New Development Bank at a summit in Brazil. The bank will be headquartered in Shanghai. Chinese President Xi Jinping said the agreement would have far-reaching benefits for BRICS members and other developing nations.

PRESIDENT XI JINPING: [translated] Through the concerted effort from all sides, we have managed to reach a consensus in the creation of the BRICS development bank today. This is the result of the significant implications and far reach of BRICS cooperation and is therefore the political will of BRICS nations for common development. This will not only help increase the voice of BRICS nations in terms of international finance, but, more importantly, will bring benefits to all the people in the BRICS countries and for all peoples in developing countries.

AMY GOODMAN: That was Chinese President Xi Jinping. Together, BRICS countries account for 25 percent of global GDP and 40 percent of the world’s population.

For more, we’re joined now by Joseph Stiglitz, the Nobel Prize-winning economist, professor at Columbia University, author of numerous books. His new book is called Creating a Learning Society: A New Approach to Growth, Development, and Social Progress.

We welcome you to Democracy Now!

JOSEPH STIGLITZ: Good to be here.

AMY GOODMAN: Talk about the significance of this bank.

JOSEPH STIGLITZ: Oh, it’s very, very important, in many ways. First, the need globally for more investment—in the developing countries, especially—is in the order of magnitude of trillions, couple trillion dollars a year. And the existing institutions just don’t have enough resources. They have enough for 2, 3, 4 percent. So, this is adding to the flow of money that will go to finance infrastructure, adaptation to climate change—all the needs that are so evident in the poorest countries.

Secondly, it reflects a fundamental change in global economic and political power, that one of the ideas behind this is that the BRICS countries today are richer than the advanced countries were when the World Bank and the IMF were founded. We’re in a different world. At the same time, the world hasn’t kept up. The old institutions have not kept up. You know, the G-20 talked about and agreed on a change in the governance of the IMF and the World Bank, which were set back in 1944—there have been some revisions—but the U.S. Congress refuses to follow along with the agreement. The administration failed to go along with what was widely understood as the basic notion that, you know, in the 21st century the heads of these institutions should be chosen on the basis of merit, not just because you’re an American. And yet, the U.S. effectively reneged on that agreement. So, this new institution reflects the disparity and the democratic deficiency in the global governance and is trying to restart, to rethink that.

Finally, there have been a lot of changes in the global economy. And a new institution reflects the broader set of mandates, the new concerns, the new sets of instruments that can be used, the new financial instruments, and the broader governance. Realizing the deficiencies in the old system of governance, hopefully, this new institution will spur the existing institutions to reform. And, you know, it’s not just competition. It’s really trying to get more resources to the developing countries in ways that are consistent with their interests and needs.

JUAN GONZÁLEZ: And the importance of countries like China, which obviously has huge monetary reserves, and Brazil, which had developed its own development bank now for several years, their being key players in this new financial organization?

JOSEPH STIGLITZ: Very much. And that illustrates, as you say, a couple interesting points. China has reserves in excess of $3 trillion. So, one of the things is that it needs to use those reserves better than just putting them into U.S. Treasury bills. You know, my colleagues in China say that’s like putting meat in a refrigerator and then pulling out the plug, because the real value of the money put in U.S. Treasury bills is declining. So they say, "We need better uses for those funds," certainly better uses than using those funds to build, say, shoddy homes in the middle of the Nevada desert. You know, there are real social needs, and those funds haven’t been used for those purposes.

At the same time, Brazil has—the BNDES is a huge development bank, bigger than the World Bank. People don’t realize this, but Brazil has actually shown how a single country can create a very effective development bank. So, there’s a learning going on. And this notion of how you create an effective development bank, that actually promotes real development without all the conditionality and all the trappings around the old institutions, is going to be an important part of the contribution that Brazil is going to make.

JUAN GONZÁLEZ: And how has that bank functioned differently, let’s say, than other development banks in the North?

JOSEPH STIGLITZ: Well, we don’t know yet, because it’s just getting started. The agreement—it’s been several years underway. The discussions began about three years ago, and then they made a commitment, and then they—you know, they’ve been working on it very steadily. What was big about this agreement was—there was a little worry that there would be conflicts of the interests. You know, everybody wanted the headquarters, the president. Would there be enough political cohesion, solidarity, to make a deal? Answer was, there was. So, what it is really saying is that in spite of all of the differences, the emerging markets can work together, in a way more effectively than some of the advanced countries can work together.

AMY GOODMAN: Joe Stiglitz, you’re the former chief economist of the World bank. What’s your assessment of the World Bank under the tenure of Jim Yong Kim, who is the former Dartmouth president? We just passed the second anniversary of his tenure there.

JOSEPH STIGLITZ: Well, it’s still too soon to say.

AMY GOODMAN: When it comes to issues of debt and other issues.

JOSEPH STIGLITZ: You know, because it takes a while for somebody to get in charge of the bank and to—you know, it’s like a big ship, and you’re trying to shift it. I think there’s a broad concern that he brings certain very positive strengths to the bank—a focus on health and other social issues—but successful development will have to continue to have a focus on some of the old issues. So, you know, you have to grow. And he has a little bit less experience in the fundamentals of economic growth. I think he has probably more sensitivity to some of the problems that have plagued these international financial institutions in the past, the high conditionality. But he faces a governance problem. And that’s what this issue is about, a governance problem, where the head of the World Bank is chosen by the U.S., even though the U.S. is not playing the economic role and the leadership role that it did at one time. And we all believe in democracy, but a democracy says it shouldn’t be just assigned to one country.

One of the interesting aspects of the discussions that I’ve heard is, you know, during the East Asia crisis, one of the senior, very senior U.S. Treasury officials said, "What are you complaining about, about our telling countries what to do? He who pays the piper calls the tune." And what I hear now is the developing countries, emerging markets, China and the other countries, saying, "We’re paying the tune. We’re the big players now. We have the resources. We’re where the reserves are. And yet, you don’t want to let us play even a fair share in the role, reflecting the size of our contributions in the economy, in trade." And so, that’s one of the real grievances—I think valid grievances. And it’s hard for an institution where the governance is so out of tune with current economic and political realities to be as effective as it could be.

JUAN GONZÁLEZ: I wanted to ask you about a subject we just had on—were discussing in an earlier segment: immigration and this whole issue of the world economy and financial systems. You have the contradiction that, on the one hand, globalization is breaking down barriers to capital everywhere, and yet, in the advanced countries especially, you have the growth of anti-immigrant movements, not just in the United States, but in Europe, in England and in Holland. And so you have a situation where there’s an effort to erect barriers to labor and to the free flow of labor. And the impact of these kinds of debates—just a few days ago, you had Warren Buffett, Bill Gates and Sheldon Adelson, a conservative Republican, all blasting Congress for not being able to achieve some kind of comprehensive immigration reform. The impact of this on the world economy?

JOSEPH STIGLITZ: Well, I think there are a couple of aspects of this that one has to appreciate. On the one hand, it’s absolutely true that free mobility of labor would have an impact on global incomes that is an order of magnitude greater than the free mobility of capital. So, the agenda that the U.S. has pursued, that free mobility of capital, has been driven not by on the grounds of global economic efficiency. It’s really special interests. It’s the banks that wanted this. On the other hand, both the movement of capital and labor can have disturbing effects. You know, we saw how free mobility of capital, short-term capital, especially, going in and out, can cause crises. We also know that migration of labor has—social adjustment processes have to occur. One of the real concerns, increasing concern, say, in a country like the United States, is that—how do you share the benefits of globalization? And there are wages are driving—been driven down. You know, the median income, income in the middle, of the United States today is lower than it was a quarter century ago. Median income of a full-time male worker is lower than it was 40 years ago. Productivity of workers has gone up over 100 percent in, say, the last 40 years—

AMY GOODMAN: We have 15 seconds.

JOSEPH STIGLITZ: —but wages are down by 7 percent.

AMY GOODMAN: We’re going to have to continue this conversation off air, and then we will post it at democracynow.org. I also want to ask you about the Trans-Pacific Partnership—you talk about it being on the wrong side of globalization—your assessment of President Obama when it comes to the growing gap in inequality in this country. Joe Stiglitz is the Nobel Prize-winning economist, professor at Columbia University, former chief economist of the World Bank. He is author of many books; his latest, Creating a Learning Society: A New Approach to Growth, Development, and Social Progress.

That does it for our show. I’ll be speaking at the Mark Twain House in Hartford, Connecticut, Monday, July 21st, at 7:00 p.m.; in Martha’s Vineyard, Saturday, July 26, 7:00 p.m. at Katharine Cornell Auditorium in Vineyard Haven. Check out democracynow.org.

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21 Jul 11:44

Soldado BM é demitido por crítica no Facebook

by Danillo Ferreira

Bombeiro Militar do Espírito Santo é demitido por se expressar.

Há alguns anos que milito em prol da liberdade de expressão dos policiais e bombeiros militares. Não bastasse o Código Penal Militar que submete os PMs e BMs à condição de semicidadãos, as legislações administrativas das polícias e bombeiros muitas vezes são utilizadas para retaliar aquele que se expressa – é claro, em discordância a decisões e práticas institucionais. É o que mostra uma postagem do blog do Almança, divulgando um caso absurdo e desmotivador, onde um soldado do Bombeiro Militar do Espírito Santo foi demitido por criticar superiores no Facebook.

Abaixo, a publicação que o soldado BM teria feito em seu perfil do Facebook:

Soldado BM critica superiores

Crítica do Soldado BM a superiores. Imagem: Blog do Almança

Também segundo o Blog do Almança, segue a decisão do comando do Bombeiro Militar do Espírito Santo:

Punição Bombeiro Militar do Espírito Santo

Publicação que decidiu pela punição do Bombeiro Militar. Imagem: Blog do Almança

O próprio bombeiro reconheceu posteriormente que foi “movido pela emoção” e que acabou “por fazer uma publicação cujas palavras foram um tanto quanto exageradas”. Mas não foi suficiente: ainda hoje o ex-bombeiro continua excluído por “autorizar, promover ou tomar parte em qualquer manifestação coletiva, de caráter reivindicatório, de crítica ou de apoio a ato de superior, exceto nas demonstrações de boa e sã camaradagem” (risível!).

Casos assim precisam acabar. Organizações e militantes de Direitos Humanos precisam se ocupar com esse tema. Os Direitos e Garantias Fundamentais da Constituição devem valer também para os policiais e bombeiros militares.

Entenda todo o caso no blog do Almança.

21 Jul 00:10

somethingplayfullywicked: Life in Gaza





















somethingplayfullywicked:

Life in Gaza

19 Jul 18:35

GUEST POST: A COPA DA ALEMANHA E A NOSSA SÍNDROME DE POCAHONTAS

by lola aronovich
Allan Patrick

Retrato do que circulou no whatsapp depois que o Brasil perdeu pra Alemanha. "Mesmo com tanta notícia sobre os brasileiros terem sido excelentes anfitriões, com problemas aqui e ali, mas muito elogiados, só conseguimos exaltar o exemplo alemão. O Brasil vem crescendo de forma estrutural, com a criação e o fomento de políticas públicas, com a necessidade de incluir a maior parte de brasileiros num contexto pensante. Mas ainda há quem se iluda com espelhos e colares, que tira foto do colega de chinelo no aeroporto e xinga muito no twitter."

A queridíssima Angélica, que já contribuiu com outros guest posts, ataca outra vez. Ela é advogada e mestranda:

Querida Lola, sei que há muito não te escrevo, apesar de acompanhar ferrenhamente o blog. Me lembro que a última vez que conversamos eu estava muito infeliz em um emprego machista, como advogada em um empreendimento de engenharia, que vinha me consumindo a saúde e me opacificando o espírito. 
A vida melhorou muito em um ano: pedi demissão daquele emprego horrendo em junho de 2013, apliquei para um mestrado com bolsa na universidade de Westminster em Londres, fiquei seis meses por conta dessa meta e fui agraciada com esse prêmio raríssimo (minha bolsa é 100% financiada pelo governo do Reino Unido) de ter todas as despesas pagas para fazer um mestrado em direito comercial internacional. Assim, moro em Londres desde janeiro deste ano, o que tem sido uma experiência fenomenal.
Mas hoje te escrevo para falar de... Copa! Imagino que esse assunto tenha sido exaurido nas últimas semanas, mas algo que me chama muita atenção na enxaqueca pós-Copa é esse discurso de que a Alemanha é o melhor país do mundo e como nós, apenas reles brasileiros, devemos aprender com essa lição de cortesia e civilidade alemã.
Acredito que o povo brasileiro recebeu muito bem todos os países visitantes e, na maior parte das vezes, tratou muito bem os turistas. Quando eu sou visita e sou bem tratada, imediatamente eu trato os anfitriões, no mínimo, tão bem quanto. Os alemães foram uma graça, mas isso tomou uma proporção tal que, de repente, após a fatídica derrota, a grande Alemanha veio ao Brasil ensinar educação, respeito, futebol, carisma, fraternidade, esperança, misericórdia. 
De repente tinha até um hotel em Santa Cruz Cabrália que foi construído especialmente para a delegação alemã e que tinha gerado mais empregos que o PAC, e seria doado para a comunidade. De repente tudo que precisávamos ser como nação era ser alemã.
Hoje li que o tal resort é um empreendimento imobiliário que será vendido após a temporada dos eventos no Brasil. Me perturbou como é possível detectar traços do colonizador dentro do sutil e refinado papel de investidor: na própria definição de investimento estrangeiro, é imprescindível que o lucro volte para o país investidor. O país que recebe o investimento também ganha, afinal, é um contrato, mas precisa tanto de investidores que permite uma série de vantagens e exceções para atraí-los (esse é o tema do meu mestrado, by the way).
"Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente".
Assim que a negação do hoax sobre o hotel doado à comunidade veio à tona, espalhou-se uma nova notícia, sempre mantendo os alemães como superiores aos brasileiros. Agora era que um jogador alemão, Mesut Ozil, havia doado o bônus que recebeu para financiar cirurgias de 23 crianças brasileiras. 
Eu não tenho nada contra a Alemanha, nem contra nenhuma nação. Moro no exterior, mas nunca achei que "aqui é muito melhor que o Brasil". Até acho que o Brasil é infinitas vezes melhor em vários aspectos. Um deles é a nossa paixão pelo estrangeiro, nossa admiração por aquilo que "não temos no nosso país", o que conforta qualquer visitante. Isso é raríssimo de encontrar em países europeus.
Aí os alemães constroem um empreendimento imobiliário com fins lucrativos, jogam bola com os indígenas de Santa Cruz Cabrália e, como disse minha sábia mãe, trocam uns espelhos com os brasileiros.
Não me aguento, me indigno e me pergunto até quando seremos essa Pocahontas, bela, passional, sensual, imagem feminina seminua no carnaval (oprimida, classista, sofredora, incompetente), apaixonada por John Smith, o príncipe loiro colonizador, que faz tudo melhor que a gente?
Acredito que dar amor é maravilhoso, devemos amar os alemães e todo o resto.  Mas... Somos um povo tão lindo e amoroso que chegamos a nos embriagar dessa ficção de "tem um povo melhor no estrangeiro". Arrisco dizer que não deve haver povo mais amoroso que o brasileiro. Nem mais iludido. 
Nossa classe média sofre porque a passagem pra Miami tá cara, mas só lá que é possível comprar panelas Tramontina baratas, um tanto de muamba, enxoval para bebê. Classe média brasileira, cabeça coxinha, aspirante à burguesia -– “quer ser sócia do Country, quer ir a New York fazer compras”. Não consegue admirar a revolução social do país nos últimos anos, não consegue identificar que essa presença brasileira na cena internacional deve-se muito mais a uma ascensão de caráter social, não econômico. 
Não adianta ter dinheiro pra comprar muamba em Miami e falar pra todo mundo que fez o enxoval do bebê nos Estados Unidos. Isso não faz do nosso povo menos iludido com os espelhos do colonizador. Há muito mais para a nossa nação do que vangloriar John Smith. Temos riquezas maiores do que esses wannabe americans, com essa raiva de pobre, de povo, de mistura. De considerar que quem tem classe é estrangeiro, que a nossa “gentalha” brasileira não sabe se portar.
Mesmo com tanta notícia sobre os brasileiros terem sido excelentes anfitriões, com problemas aqui e ali, mas muito elogiados, só conseguimos exaltar o exemplo alemão. O Brasil vem crescendo de forma estrutural, com a criação e o fomento de políticas públicas, com a necessidade de incluir a maior parte de brasileiros num contexto pensante. Mas ainda há quem se iluda com espelhos e colares, que tira foto do colega de chinelo no aeroporto e xinga muito no twitter.
É feio observar essa síndrome de realeza que valoriza "um povo que tem educação", quando na verdade a valorização é porque esse povo é rico, branco e mora na gringa.
Todo mundo divulgando "Alemanha, isso sim é exemplo de país", por conta de um empreendimento imobiliário.
A Alemanha é uma grande nação, bem como o Brasil. Esse complexo de viralata não consegue exaltar como exemplo de país tirar o povo da miséria e dar condições para que todos cozinhem com os mesmos ingredientes. Exemplo de povo é aquele que sabe reconhecer que, quanto mais gente entrar no time das pessoas que têm voz, mais poderemos nos erguer a longo prazo.
"Quem me dera, ao menos uma vez, ter de volta todo o ouro que entreguei a quem conseguiu me convencer que era prova de amizade se alguém levasse embora até o que eu não tinha."
18 Jul 12:02

A culpa por ser pobre e não ter estudado é totalmente sua

by Leonardo Sakamoto
Allan Patrick

"Todo mundo adora arrotar que professor precisa ser reconhecido, mas adora chamar de vagabundo quando eles entram em greve para garantir esse direito."

A culpa por você ser pobre é totalmente sua.

A frase acima raramente traduz a verdade. Mas é o que muita gente quer que você acredite.

Aí a gente liga a TV de manhã para acompanhar os telejornais por conta do ofício e já se depara com histórias inspiradoras de pessoas que não ficaram esperando o Maná cair do céu e foram à luta. Pois a educação é a saída, o que concordo. E está ao alcance de todos – o que é uma besteira. E as cotas por cor de pele, que foram fundamentais para o personagem retratado na reportagem alcançar seu espaço e mudar sua história, nem bem são citadas.

Pra quê? No Brasil, não temos racismo, não é mesmo? Até porque o negro não existe. É uma construção social…

Quando resgato a história do Joãozinho, os meus leitores doutrinados para acreditar em tudo o que vêem na TV ficam loucos. Joãozinho, aquele self-made man, que é o exemplo de que professores e alunos podem vencer e, com esforço individual, apesar de toda adversidade, “ser alguém na vida”.

(Sobe música triste ao fundo ao som de violinos.)

Joãozinho comia biscoitos de lama com insetos, tomava banho em rios fétidos e vendia ossos de zebu para sobreviver. Quando pequeno, brincava de esconde-esconde nas carcaças de zebus mortos por falta de brinquedos. Mas não ficou esperando o Estado, nem seus professores lhe ajudarem e, por conta, própria, lutou, lutou, lutou (contando com a ajuda de um mecenas da iniciativa privada, que lhe ensinou a fazer lápis a partir de carvão das árvores queimadas da Amazônia), andando 73,5 quilômetros todos os dias para pegar o ônibus da escola e usando folhas de bananeira como caderno. Hoje é presidente de uma multinacional.

(Violinos são substituídos por orquestra em êxtase.)

Ao ouvir um caso assim, não dá vontade de cantar: Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amoooooooor?

Já participei de comissões julgadoras de prêmios de jornalismo e posso dizer que esse tipo de história faz a alegria de muitos jurados. Afinal, esse é o brasileiro que muitos querem. Ou, melhor: é como muitos querem que seja o brasileiro.

Enfim, a moral da história é:

“Se não consegue ser como Joãozinho e vencer por conta própria sem depender de uma escola de qualidade, com professores bem capacitados, remunerados e respeitados, e de um contexto social e econômico que te dê tranquilidade para estudar, você é um verme nojento que merece nosso desprezo. A propósito, morra!”

Uma vez, recebi reclamações da turma ligada a ações como “Amigos do Joãozinho”. Sabe, o pessoal cheio de boa vontade genuína e sincera, mas que acredita que o problema da escola é que falta gente para pintar as paredes. Um deles me disse que acreditava na “força interior” de cada um para superar as suas adversidades. E que histórias de superação são exemplos a serem seguidos.

Críticas anotadas e encaminhadas ao bispo, que me lembrou de que eu iria para o inferno – se o inferno existisse, é claro.

O Brasil está conseguindo universalizar o seu ensino fundamental, mas isso não está vindo acompanhado de um aumento rápido na qualidade da educação. Mesmo que os dados para a evolução dos primeiros anos de estudo estejam além do que o governo esperava no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), grande parte dos jovens de escolas públicas têm entrado no ensino médio sabendo apenas ordenar e reconhecer letras, mas não redigir e interpretar textos.

Enquanto isso, o magistério no Brasil continua sendo tratado como profissão de segunda categoria. Todo mundo adora arrotar que professor precisa ser reconhecido, mas adora chamar de vagabundo quando eles entram em greve para garantir esse direito.

Ai, como eu detesto aquele papinho-aranha de que é possível uma boa educação com poucos recursos, usando apenas a imaginação. Aulas tipo MacGyver, sabe? “Agora eu pego essa ripa de madeira de demolição, junto com esses potinhos de Yakult usados, coloco esses dois pregadores de roupa, mais essa corda de sisal… Pronto! Eis um laboratório para o ensino de química para o ensino médio!”

É possível ter boas aula sem estrutura? Claro. Há professores que viajam o mundo com seus alunos embaixo da copa de uma mangueira, com uma lousa e pouco giz. Por vezes, isso faz parte do processo pedagógico. Em outras, contudo, é o que foi possível. Nesse caso, transformar o jeitinho provisório em padrão consolidado é o ó do borogodó.

Pois, como sempre é bom lembrar, quem gosta da estética da miséria é intelectual, porque são preferíveis escolas que contem com um mínimo de estrutura. Para conectar o aluno ao conhecimento. Para guiá-lo além dos limites de sua comunidade.

“Ah, mas Sakamoto, seu chato! Eu achei linda a história da Ritinha, do Povoado To Decastigo, que passa a madrugada encadernando sacos de papel de pão e apontando lascas de carvão, que servirão de lápis, para seus alunos da manhã seguinte. Ela sozinha dá aula para 176 pessoas de uma vez só, do primeiro ao nono ano, e perdeu peso porque passa seu almoço para o Joãozinho, um dos alunos mais necessitados. Ritinha, deu um depoimento emocionante ao Globo Repórter, dia desses, dizendo que, apesar da parca luz de candeeiro de óleo de rato estar acabando com sua visão, ela romperá quantas madrugadas for necessário porque acredita que cada um deve fazer sua parte.”

Ritinha simboliza a construção de um discurso que joga nas costas do professor a responsabilidade pelo sucesso ou o fracasso das políticas públicas de educação. Esqueçam o desvio do orçamento da educação para pagamento de juros da dívida, esqueçam a incapacidade administrativa e gerencial, o sucateamento e a falta de formação dos profissionais, os salários vergonhosamente pequenos e planos de carreira risíveis, a ausência de infraestrutura, de material didático, de merenda decente, de segurança para se trabalhar. Esqueçam o fato de que 10% do PIB para a educação está longe de sair do papel.

Joãozinho e Ritinha são alfa e ômega, os responsáveis por tudo. Pois, como todos sabemos, o Estado não deveria ter responsabilidade pela qualidade de vida dos cidadãos.

Vocês acham sinceramente que “a pessoa é pobre porque não estudou ou trabalhou”?

Acreditam que basta trabalhar e estudar para ter uma boa vida e que um emprego decente e uma educação de qualidade é alcançável a todos e todas desde o berço?

E que todas as pessoas ricas e de posses conquistaram o que têm de forma honesta?

Acham que todas as leis foram criadas para garantir Justiça e que só temos um problema de aplicação?

Não se perguntam quem fez as leis, o porquê de terem sido feitas ou questiona quem as aplica?

Sabem de naaaaada, inocentes!

Como já disse aqui, uma das principais funções da escola deveria ser produzir pessoas pensantes e contestadoras que possam colocar em risco a própria estrutura política e econômica montada para que tudo funcione do jeito em que está. Educar pode significar libertar ou enquadrar – inclusive libertar para subverter.

Que tipo de educação estamos oferecendo?

Que tipo de educação precisamos ter?

Uma educação de baixa qualidade, insuficiente às características de cada lugar, que passa longe das demandas profissionalizantes e com professores mal tratados pode mudar a vida de um povo?

O Joãozinho e a Ritinha acham que sim. Mas eu duvido.

16 Jul 13:17

Dois pesos e duas medidas…

by raquelrolnik

Na semana passada, alguns jornais divulgaram que a Prefeitura de São Paulo multou 195 empreendimentos imobiliários suspeitos de envolvimento com a chamada “máfia do ISS”, um esquema no qual empresas pagavam propina para fiscais da prefeitura que, por sua vez, as “livrava” de impostos relacionados às obras.

Diversas irregularidades foram constatadas em vários dos imóveis suspeitos de se beneficiar do esquema. Por exemplo, segundo matéria da Folha, um shopping registrado na prefeitura com área de 3 mil m² tem, na verdade, 6 mil m².

Num caso como este, é interessante notar como rapidamente os “culpados” do poder público são identificados, mas raramente sabemos quem são as empresas envolvidas e seus proprietários. No caso da máfia do ISS, não apenas sabemos nome e sobrenome dos fiscais suspeitos de envolvimento no esquema, como conhecemos até seus rostos, estampados nas notícias dos jornais.

De 218 empreendimentos fiscalizados pela Prefeitura, apenas 23, ou seja, pouco mais de 10%, não foram multados. Porém, de acordo com a imprensa, não temos como saber que empresas são essas, pois a lei do sigilo fiscal impede a prefeitura de divulgar seus nomes e o de seus proprietários.

Parece haver dois pesos e duas medidas no tratamento dessa questão. Isso termina ajudando a construir uma narrativa de que a corrupção é fruto unicamente da ação de servidores públicos e de políticos. Como se a empresa que corrompe, implanta obras em desacordo com a legislação ou executa mal uma obra não fosse igualmente responsável pelo que ocorreu.


16 Jul 13:16

Não podia, candidato

by Luis Fausto

Da Folha de S.Paulo, por Bernardo Mello Franco:

O Tribunal de Contas da União tem nove ministros e uma missão que já seria pesada para 90: fiscalizar a aplicação das verbas federais em todo o país. Sua principal função é julgar as contas do presidente da República. Em caso de rejeição, ele –ou ela– pode ficar inelegível por oito anos.

Apesar de tanto trabalho e responsabilidade, o cargo de ministro do TCU é um dos mais cobiçados em Brasília. O salário beira os R$ 28 mil, fora vantagens e indenizações. Ainda há benesses como apartamento, carro oficial, gabinete com 16 assessores e até auxílio-alimentação.

Em 2011, o então governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), fez campanha aberta para instalar a mãe no tribunal. Negociou pessoalmente o apoio de diversos partidos, do PSDB de Aécio Neves ao PSD do neodilmista Gilberto Kassab. Campos era quem mandava no Ministério da Integração Nacional. Não se sabe bem o que prometeu, além da vaga perspectiva de poder.

Quando Ana Arraes chegou lá, Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) protestou: “Isso não é modernidade. É nepotismo. É política do compadrio, do coronelismo. É atraso do pior tipo possível”. O senador ainda deixou uma pergunta no ar: “Quando chegar uma conta do governo Eduardo Campos no TCU, qual será a postura da nova ministra?”.

Nesta terça-feira (15), na sabatina da Folha, Campos voltou a se apresentar como o representante da “nova política” na eleição presidencial. Ao final, foi questionado sobre a nomeação da mãe, que se aposentará daqui a apenas três anos com salário integral. Começou tratan-do-a como “Ana”, como se não fosse sua parente. Depois disse que “os deputados lançaram a candidatura dela”, como se não tivesse sido seu maior cabo eleitoral. Por fim, afirmou: “Não imagino que só ela, como brasileira, teria que ter vetada a possibilidade de disputar com tantos outros e ganhar. Só não podia ela?”. Não podia, candidato.

15 Jul 13:17

Onde estiveram as mulheres na Copa do Mundo?

by Bia Cardoso
Allan Patrick

"Durante 35 anos, havia uma lei no Brasil que proibia as mulheres de praticarem futebol por motivos de: saúde reprodutiva"

Texto de Bia Cardoso.

A Copa do Mundo de 2014 é um evento do futebol masculino, mas foi visível a presença constante em número e empolgação das mulheres. Nos estádios, nas ruas, na organização ou na cobertura jornalística foi fácil vê-las. Porém, senti falta de ver Marta, eleita cinco vezes a melhor jogadora do mundo, nessa grande festa do futebol mundial sediada no Brasil.

Ao twittar sobre meu sentimento de pesar com a falta da imagem de Marta, fiquei ainda mais surpresa ao ver que várias pessoas acharam que eu estava falando da ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, e não de uma das melhores jogadoras de futebol do mundo. Isso mostra o quanto o futebol feminino é invisível no país do futebol.

Durante 35 anos, havia uma lei no Brasil que proibia as mulheres de praticarem futebol por motivos de: saúde reprodutiva. Essa proibição foi internalizada fortemente em nossa cultura, como cita Carmen Rial:

No Brasil, a proibição da prática do futebol as mulheres foi um corolário das ideologias eugenistas que pregavam a importância da proteção do corpo da mulher, visto como frágil, para que pudesse continuar cumprindo sua função de procriadora, gerando crianças saudáveis e, por conseguinte, melhorando a raça branca no Brasil.

Por trás dessa suposta proteção podemos identificar o mise-en-jeux das fronteiras de um lugar social para mulher, aquele da mãe, que conforma um tipo particular de corpo: roliço, sem músculos, com formas arredondadas e mobilidade limitada. Um modelo ideal que corresponderia aos papéis femininos socialmente prescritos: passivo e submisso.

Esta exclusão do futebol, inicialmente imposta, foi logo internalizada por muitas mulheres. Quando a antropóloga norte-americana Janet Lever esteve no Brasil nos anos 1980 pesquisando futebol estranhou a ausência das mulheres neste esporte e sua total falta de interesse. Tendo ouvido falar de uma legislação que proibia um esporte que no seu país era praticado predominantemente por mulheres, indagou a um funcionário da Confederação Brasileira de Futebol se era verdade que existia tal lei. Sua resposta foi de que não era preciso lei, as mulheres nunca iriam se interessar por futebol, elas conheciam o seu lugar. Referência: A participação das mulheres na mídia brasileira

Marta é uma grande vencedora, mas ainda não venceu essa invisibilidade. Além dela, poderíamos ter tido Formiga, Cristiane, Meg e tantas outras que jogam ou jogaram pela seleção feminina de futebol na publicidade, nas mesas-redondas ou nos programas de debate. Mas não foi o que vimos. Então, durante essa Copa do Mundo fiquei de olho nos espaços ocupados pelas mulheres.

A jogadora Marta inaugura o Espaço Futebol para Igualdade com a exposição 'Mulheres em Campo: Driblando Preconceitos'. Foto de Fernando Frazão/Agência Brasil.

A jogadora Marta inaugura o Espaço Futebol para Igualdade com a exposição ‘Mulheres em Campo: Driblando Preconceitos’. Foto de Fernando Frazão/Agência Brasil.

Cobertura televisiva

Nos canais abertos, tanto a Rede Globo como a Rede Bandeirantes já tinham mulheres apresentando programas esportivos. Nos canais a cabo: Sportv, ESPN Brasil, Fox Sports Brasil e Band Sports, saltou aos olhos o grande número de mulheres repórteres que faziam a cobertura da Copa nas diferentes cidades brasileiras e também em outros países. Porém, há duas questões importantes:

1) Dificilmente há mulheres nos programas de debate ou mesas-redondas, em que se discutem questões técnicas do futebol e não apenas as notícias;

A ESPN Brasil, por exemplo, teve grande parte de sua programação voltada para esse tipo de programa e era difícil encontrar uma mulher nos programas mais populares, mesmo nos que traziam convidados. Fui avisada por amigos de que haviam sim repórteres e apresentadoras e elas foram vistas com maior regularidade na reta final do campeonato. Achei bem curioso, porque nos programas com participação dos telespectadores por meio das rede sociais era muito comum ver comentários enviados por mulheres sendo exibidos na tela, o que mostra que elas são uma parte grande da audiência.

Quem se destacou nessa questão foi a Fox Sports Brasil, com seus dois canais a cabo. Durante a programação especial era fácil ver mulheres apresentando os programas e discutindo questões táticas. Inclusive, em uma das edições do programa ‘Boa Noite, Copa’ a trans* Rogéria foi uma das convidadas do debate, tendo o mesmo espaço de fala que os outros comentaristas que incluíam ex-jogadores e jornalistas esportivos. Karine Alves era presença constante, além de Renata Cordeiro. O canal Fox Sports 2 fez uma cobertura com humoristas durante a transmissão dos principais jogos, mas Marília Ruiz e Ana Paula Oliveira analisavam as partidas tecnicamente.

O destaque na Rede Globo e no Sportv foram a escalação de mulheres para serem as principais âncoras de informações sobre a seleção brasileira, respectivamente as jornalistas Fernanda Gentil e Janaína Xavier.

2) As mulheres seguem padrões estéticos bem mais que os homens;

Em qualquer canal que fazia a cobertura da Copa, na TV aberta ou no cabo, era possível ver homens jovens, velhos, magros, gordos, bonitos, feios, narigudos, carecas, calvos, cabeludos, altos, baixos, com ou sem óculos, com ou sem olheiras, sabendo ou não falar diferentes idiomas, com sotaque ou sem, com cabelos compridos ou curtos, com ou sem barba. A imensa maioria eram brancos, mas não era difícil ver negros e até mesmo alguns com traços indígenas ou asiáticos. Não vi nenhum cadeirante ou alguém que parecia ter alguma deficiência.

No caso das mulheres, com raríssimas exceções, seguiu-se o padrão: jovem, feminina, magra, sem deficiências e branca. Que é o padrão visto na grande maioria dos programas jornalísticos da TV. Os homens podem ser bem diversos, inclusive no quesito idade, enquanto as mulheres seguem regras mais rígidas para aparecerem no vídeo. Entre as negras, além de Karine Alves (Fox Sports Brasil), vi Cynthia Moraes (repórter no Sportv) e Débora Gares (repórter na ESPN Brasil).

Assédio e machismo

A maioria dos torcedores estrangeiros que vieram a Copa do Mundo são homens e já falei um pouco sobre questões envolvendo brasileiras, brasileiros e gringos no texto: Mulheres e Gringos na Copa do Mundo. Infelizmente, junto com tantas mulheres torcedoras nos estádios e nas ruas, o assédio, o abuso sexual e o machismo marcaram forte presença nos relatos. Além de não termos espaço na publicidade da Copa e na maioria dos programas especialistas da TV, o trabalho das jornalistas também foi desrespeitado.

Qualquer mulher, estivesse ela pronta para a balada, de vestidinho curto e decote, ou uniformizada como repórter, de tênis, calça jeans e camiseta, virava um alvo. É preciso não só desviar de homens embriagados, que tentam fechar a passagem com o próprio corpo e roubar um beijo à força. Mas também ignorar provocações e xingamentos.

Ao desviar de um deles, ouvi uma bronca: “O que foi? Está com medo de mim?” Estava: primeiro, porque tentou me puxar à força. Segundo, porque gritou comigo, como se eu não tivesse o direito de recusar a abordagem.

Toda mulher tem esse direito. Além do mais, eu estava trabalhando. E a função exige olhos atentos, escaneando a movimentação de torcedores, vendedores ambulantes, estrangeiros, varredores de rua e policiais. E os olhares que, frequentemente, acabavam se cruzando, para alguns frequentadores, eram sinal de disponibilidade. Mais de uma vez, agarraram meus braços, puxaram meus cabelos: “Ô repórter!”, “Ô fotógrafa”. Ao serem ignorados, os homens atiravam: “Sua escrota”. Referência: Driblando na Vila Madalena: quando o xaveco é quase uma agressão sexual por Verônica Mambrini.

[+] Mulheres relatam como foram assediadas nas festas da Copa na Vila Madalena.

Protagonismo feminino

Cantoras brasileiras e estrangeiras foram maioria nos shows de abertura e encerramento da Copa. Das quatro seleções que chegaram as semi-finais, três tem mulheres no comando de seus países: Brasil, Argentina e Alemanha. A modelo Gisele Bündchen teve destaque no último jogo ao participar, junto com o jogador espanhol Puyol, de uma ação de marketing da Louis Vitton para apresentar a taça da Copa do Mundo. Estes foram alguns momentos em que a FIFA incluiu oficialmente mulheres no evento.

E claro, os locutores dos jogos, todos homens, faziam sempre questão de exaltar a beleza das torcedoras como um bônus durante os jogos. Não deve ser incomum pensar que as jornalistas recebam esse mesmo tipo de elogio frequente dos colegas de trabalho. Sabemos que as pessoas sempre gostam de elogios, o problema é quando eles se restringem sempre a apenas um aspecto. Raros foram os momentos em que vimos os locutores exaltando a paixão das torcedoras por suas seleções, suas habilidades vocais em cantar músicas para incentivar o time ou a criatividade de suas fantasias, as próprias câmeras da FIFA pareciam sempre procurar mulheres magras, brancas e jovens.

Comecei esse texto falando da mulher que considero a maior protagonista do futebol brasileiro, Marta. Pesquisando na internet soube que ela foi convidada para ser a estrela de uma campanha do governo desenvolvida pelo Ministério do Turismo, que visa reforçar o slogan “Vamos fazer a Copa das Copas”. Segundo as informações no site do Ministério: a campanha será veiculada em redes de televisão, emissoras de rádios, painéis de aeroportos e anúncios impressos. O vídeo promocional terá versões de 30 e 60 segundos e será veiculado em canais de TV aberta e fechada. Não consegui encontrar nada sobre essa campanha, fora a mensagem de áudio com poucos segundos de Marta no site do Ministério e algumas fotos.

Poster oficial da Copa do Mundo de Futebol Feminino 2015, organizada pela FIFA.

Poster oficial da Copa do Mundo de Futebol Feminino 2015, organizada pela FIFA.

No início do ano, Marta cobrou a inclusão do futebol feminino no movimento Bom Senso FC. Em junho, participou da inauguração do Espaço Futebol para Igualdade no Museu da República (RJ) com a exposição ‘Mulheres em campo: driblando preconceitos’, como madrinha da ONG britânica Streetfootballworld. Fico com a sensação que Marta parece uma estrangeira quando se trata do futebol no Brasil.

Conheço inúmeras mulheres que acompanharam essa Copa do Mundo com muito interesse, assistindo os programas esportivos, revendo os melhores momentos na internet, discutindo nas redes sociais. Ganhar mais espaço e reconhecimento é fundamental, porque estamos aí e não vamos largar a bola.

Em 2015, teremos a 7° Copa do Mundo de Futebol Feminino no Canadá. Espero uma boa cobertura por parte dos veículos de comunicação esportivos e cada vez mais pessoas interessadas em apoiar integralmente o esporte que é a paixão nacional.

+ Sobre o assunto:

[+] How can Brazil’s women footballers level the playing field? Matéria da rede Al Jazeera.

[+] World Cup warrior: meet the woman fighting for equality on the football pitches of Brazil. Matéria do jornal inglês The Telegraph.

15 Jul 13:16

Crowdsourced Data Reveals Most Beautiful Urban Walking Routes

by Urbanist
[ By WebUrbanist in Destinations & Sights & Travel. ]

best walking routes study

Using a mapping algorithm coupled with citizen reviews of sights and scenery, a team of researchers has developed a way to choose paths through cities based on beauty, quiet and happiness rather than simply the shortest distance between two points.

shortest or beautiful route

The project employed Google Street View and Geograph as well as Flickr images and their metadata to build out an initial estimation of probable best paths, then solicited human feedback (to check and enhance the results) from a group of participants on the website UrbanGems (shown above).

london main sites map

The study, published by Cornell University’s arXiv, came up with a number of route suggestions in Boston and London and contains a number of interesting findings. For starters, the ‘beautiful’ routes were only slightly longer than the shortest routes, and significantly shorter than typical tourist-oriented directions and guided-tour paths. As the algorithm improves, it is increasingly able to generate paths through new cities via metadata alone, reducing reliance on input from people.

beauty and shortest boston

boston main sights map

The project’s creators included Daniele Quercia and Luca Maria Aiello of Yahoo Labs in Barcelona and Rossano Schifanella of the University of Torino, Italy. From their abstract: “When providing directions to a place, web and mobile mapping services are all able to suggest the shortest route. The goal of this work is to automatically suggest routes that are not only short but also emotionally pleasant.

beauty walking route london

shortest walking route london

The assessments are not simply qualitative value judgments, but a hybrid of human and machine input: “Based on a quantitative validation, we find that, compared to the shortest routes, the recommended ones add just a few extra walking minutes and are indeed perceived to be more beautiful, quiet, and happy.”

happy walking path london

quiet walking route london

From UrbanGems: “Buildings and neighbourhoods speak. They speak of egalitarianism or elitism, beauty or ugliness, acceptance or arrogance. The aim of UrbanGems is to identify the visual cues that are generally associated with concepts difficult to define such beauty, happiness, quietness, or even deprivation. The difficult task of deciding what makes a building beautiful, or what is sought after in a quiet location is outsourced to the users of this site using comparisons of pictures. With a comprehensive list of aesthetic virtues at hand, we would be more likely to systematically understand and re-create the environments we intuitively love.”


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[ By WebUrbanist in Destinations & Sights & Travel. ]

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12 Jul 11:18

O batalhão de funcionários de Joaquim Barbosa

by Paulo Nogueira
  O que mais surpreende na notícia de que Joaquim Barbosa quer garantir o emprego de 46 pessoas de seu gabinete não é o fato em si. Todo mundo, quando se aposenta, se esforça para que seus subordinados sobrevivam. O que realmente chama a atenção é o número de funcionários de JB: 46. É um pequen...
10 Jul 17:16

Por que a Alemanha reformou seu futebol enquanto o Brasil perde espaço

by Luiz Carlos Azenha

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Em Gana, em 2002, durante a Copa da Coreia e do Japão: o segundo time de todos eles era o Brasil

por Luiz Carlos Azenha

Muito se falou, especialmente depois da goleada histórica da Alemanha sobre o Brasil, da reforma pela qual passou o futebol alemão desde 2000, quando o país passou por um fiasco na Eurocopa. Resumo de uma reportagem da Deutsche Welle:

Temendo um vexame nacional na Copa do Mundo realizada em casa seis anos depois, os alemães botaram a mão na massa e resolveram tratar do problema pela raiz, criando um programa nacional, inédito no mundo, de formação de jovens craques, que obrigou os 36 clubes profissionais alemães a fundarem escolinhas de futebol. Para montar os centros de formação, a Federação Alemã de Futebol (DFB, na sigla alemã) enviou especialistas para visitar escolas de futebol francesas, holandesas e espanholas. Hoje, o país exibe uma rede de cerca de 390 centros de treinamento, ligados aos clubes, supervisionados pela DFB e distribuídos em diversas cidades alemãs. Desde 2002, mais de meio milhão de euros foram investidos na formação de futuros jogadores. Um detalhe importante é que seleção dos talentos é feita explicitamente sem priorizar “qualidades alemãs”, como força e disciplina, mas observando sobretudo a habilidade das crianças e adolescentes no tratamento da bola.

Mas, os alemães estariam apenas interessados em resgatar o orgulho nacional? Com certeza, mas não apenas isso. Apontamos abaixo cinco outras razões:

1. A INDÚSTRIA DO ENTRETENIMENTO

O entretenimento é uma indústria de ponta, do futuro. Quando cresce a renda, as pessoas tendem a gastar mais com a qualidade — ou o que presumem ser a qualidade — de suas horas livres. O futebol se encaixa nisso tanto quanto o cinema.

Os bilhões de dólares recolhidos por Hollywood para a economia americana crescentemente vem de fora dos Estados Unidos, como mostra o gráfico abaixo da revista britânica Economist:

Captura de Tela 2014-07-10 às 06.47.43

A linha azul escura mostra o crescimento das vendas de Hollywood fora dos Estados Unidos, em relação ao mercado doméstico. Não estamos falando em trocados, mas na casa dos R$ 80 bilhões de reais anualmente. O entretenimento é uma grande indústria, com a vantagem também de exportar os valores culturais de um país.

antlers

No estádio do Kashima Antlers, em Kashima, no Japão, em 2001, com Zico de diretor e Toninho Cerezzo de treinador: eles evoluíram e nós ficamos parados?

2. BOLAS, CAMISETAS E EMPREGOS

A Alemanha tem a maior indústria global de material esportivo, com Adidas e Puma empregando cerca de 60 mil pessoas e faturando perto de R$ 50 bilhões anualmente. É uma indústria com altíssima taxa de retorno, já que numa camiseta de futebol ela vende muito mais que tecido, mas identidade com atletas, clubes e nações. A Alemanha tem quatro entre os 20 clubes mais valiosos do mundo, segundo a revista Forbes. Na ponta da lista estão Real Madrid, Barcelona, Manchester United e Bayern de Munich. Estes clubes tem um grande potencial de faturamento no Exterior, como fonte de atração de compradores de suas camisetas, para não falar da valorização da marca para os patrocinadores globais.

3. DIREITOS DE TV

Os direitos de transmissão de TV são o coração do futebol. São a principal fonte de renda dos clubes, além de bombar o patrocínio da e a venda de camisetas e aumentar o faturamento com o público nos estádios. É esse dinheiro que permite aos clubes manter escolinhas de futebol, bons elencos e competir com adversários. Mas não basta a um clube ter uma boa escolinha de futebol se ele não pode manter os jogadores que desenvolve e é dominado pela praga dos empresários do futebol.

Um clube sem acesso à TV é um clube praticamente morto. A venda de direitos domésticos de TV rende aos clubes alemães cerca de R$ 2 bilhões anuais. Na Alemanha tanto as emissoras públicas ARD e ZDF quanto a Sky detém direitos, ou seja, não existe monopólio. Quem define prioridades são a federação e os clubes, exatamente o inverso do Brasil, onde quem tem a faca e o queijo é o conluio Globo-CBF. Quando o clube dos 13 tentou desafiar isso, como descrevemos detalhadamente em O Lado Sujo do Futebol, foi esmagado!

Os jogos da Bundesliga, a liga alemã, são transmitidos para 204 países no mundo. Com isso aumenta o faturamento dos clubes alemães com a venda de patrocínios, camisetas e propagandas em placas nos estádios.

Existe uma tremenda competição entre as principais ligas europeias pela venda de direitos de TV. As cincos maiores delas — Inglaterra, França, Alemanha, Itália e Espanha — recolhem o equivalente a R$ 15 bilhões anuais, segundo a Bloomberg.

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A lista acima é a dos clubes que mais faturam com a venda de direitos de TV, em euros. Real Madrid e Barcelona lideram porque, dos cinco países acima citados, só na Espanha os direitos não são vendidos coletivamente. Juntos, eles faturam metade dos direitos de todo o futebol espanhol, às custas de um maior desequilíbrio do campeonato. O mesmo acontece hoje no Brasil, com domínio completo de Corinthians e Flamengo.

Porém, como disse Sean Hamil, professor do centro de negócios do esporte de uma universidade de Londres, à Bloomberg, uma forma mais equitativa de distribuição garante que qualquer clube possa ganhar de outro no campeonato. A fórmula de sucesso de qualquer competição é o equilíbrio, que traz emoção a cada rodada e evita as disparadas de líderes inalcançáveis. É por isso que todas as ligas dos Estados Unidos, de basquete, futebol americano e beisebol (NBA, NFL e MLB) trabalham pelo equilíbrio entre os clubes e o desenvolvimento de mercados locais onde o clube do coração tenha relação direta, cotidiana, com os moradores da cidade ou região.

Um campeonato equilibrado fortalece o conjunto dos clubes.

Hoje, a final da Champions League já é vista por cerca de 300 milhões de pessoas em todo o mundo. Na África, vi pessoalmente em Freetown, Serra Leoa, em Beira, Moçambique e até na maior favela do mundo, em Kibera, Nairobi, no Quênia: pequenos empresários montando cinemas improvisados para ver os jogos de campeonatos europeus.

O futebol tem imenso potencial nos negócios do entretenimento do futuro, especialmente quando Índia e China forem incorporados plenamente a ele, e os alemães estão de olho em uma fatia cada vez maior deste bolo.

E há, além de tudo, grande potencial de segmentação. Aguardem: é questão de tempo até que os grandes jogos sejam transmitidos em cinemas de altíssima definição ou pela internet, como se faz hoje com as óperas do Metropolitan de Nova York e da Filarmônica de Berlim.

4. TURISMO ESPORTIVO

Infelizmente esta pauta escapou à mídia brasileira durante a Copa, talvez por desconhecimento. Existe uma legião dos assim chamados mochileiros do futebol. Não, não são os argentinos acampados no sambódromo de São Paulo. São fãs do bom futebol, não necessariamente desta ou daquela seleção. Vi pessoalmente sete jogos da Copa no Brasil. Poloneses, tunisianos, chineses, malaios, indianos… Na Índia, em 2002, fui à casa do craque Barreto, desconhecido no Brasil mas goleador do campeonato local. Era praticamente um centro de peregrinação de Kolkata, a antiga Calcutá. Fui a uma partida do time dele, o Mohun Bagan, em Goa, um espetáculo inesquecível (para delírio da torcida local, o time de Barreto tomou uma virada inacreditável, vencia por 2 a 0 e perdeu de 4 a 3).

E a Índia nunca disputou uma Copa do Mundo… ainda.

Eu não sei se ainda é, mas o Brasil até recentemente era campeão absoluto de torcedores na África, Ásia e Oriente Médio.

O chamado “turismo futebolístico” tem imenso potencial de crescimento e independe da Copa do Mundo. O viajante vem ao Rio de Janeiro e inclui ver uma partida no Maracanã no roteiro, assim como o brasileiro que vai a Nova York quer ver pelo menos um show da Broadway. Os alemães também estão correndo atrás disso.

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Ronaldo (à direita, atrás do repórter) num blindado, chega ao estádio de Porto Príncipe para um jogo diplomático: foi 6 a 0 para o Brasil, em 2004

5. DIPLOMACIA INTERNACIONAL

É óbvio e não é de hoje o esforço da Alemanha para projetar uma nova imagem no mundo.

Neues Museum, em Berlim. Minha filha Ana Luisa me leva para ver uma exposição sobre a relação de altos e baixos entre Alemanha e Rússia. Os “baixos” significam uma guerra atroz em que morreram 20 milhões de soviéticos; em que, na sua contra-ofensiva, soldados soviéticos cometeram milhares de estupros. Ou seja, não é nada comparável à rivalidade entre Brasil e Argentina. Mas, de fato, a relação entre alemães e russos é muito mais ampla que uma guerra devastadora.

Dou uma olhada no catálogo da exposição. A mostra é promovida por entidades ligadas diretamente ao governo alemão, parte de um esforço diplomático de reaproximação com os russos.

Hoje a Alemanha se propõe a ser a ponte entre o ocidente europeu e a Eurásia, através de Moscou. Existem sólidos negócios entre os dois países.

Mas, no campo das relações humanas, as memórias associadas a Hitler são impeditivas desta relação.

No livro German Genius, o jornalista Peter Watson descreve em algum detalhe o esforço dos alemães para mudar sua imagem no Reino Unido com o objetivo de atrair turistas, estudantes, investimentos e gente interessada em aprender alemão. Registre-se que, em todo o planeta, os alemães das novas gerações são campeões no conhecimento do inglês: 97% tem conhecimento básico e 25% são fluentes.

O futebol dispensa o idioma. É linguagem praticamente universal. É um poderosíssima arma diplomática. Atravessando de automóvel a Jordânia, a caminho do Iraque, minha equipe de televisão correu risco até se identificar: “Ah, brasileiros, o Ronaldinho!”.

O diretor de marketing da seleção alemã, que acompanha a delegação ao Brasil, em entrevista à ESPN Brasil, admitiu o que sempre me pareceu óbvio: as atividades de jogadores alemães no Brasil foram programadas para apresentá-los aos brasileiros como pessoas comuns, interessadas em nossa cultura. Ele falou isso com todas as letras.

Eu acrescentaria: talvez para desfazer a imagem de alemães frios, calculistas, cruéis e autômatos, que foi espalhada pelo mundo nos filmes de Hollywood durante e depois da Segunda Guerra Mundial.

*****

Nas minhas viagens mais recentes à África, notei um fenômeno curioso: agora, as camisetas amarelas da seleção brasileira dividem espaço com as do Barcelona e do Manchester United. Estamos perdendo espaço. O campeonato brasileiro, por outro lado, tem mínima expressão internacional: é dominado por jogos sofríveis.

Como demonstrado acima, o futebol não é apenas um patrimônio cultural do Brasil. Ainda que mal explorado, é também um importante patrimônio econômico e diplomático, como ficou explícito quando o Brasil levou a seleção para jogar no Haiti. Eu estava lá e vi em Porto Príncipe uma das cenas mais impressionantes de minha carreira jornalística: Ronaldo pendurado em um blindado, acompanhado nas ruas por imensa multidão de torcedores do Brasil.

No Mineirão, cercado de turistas estrangeiros cujas seleções nem se classificaram para a Copa, vi gente incrédula que veio ver o Brasil jogar se perguntando: o que está acontecendo? Há alguma briga entre os jogadores? Algum motivo obscuro para tamanho vexame?

Talvez a Alemanha perca a final da Copa para a Argentina por 7 a 0. Ou o Brasil goleie a Holanda por 8 a 0. Talvez os 7 a 1 tenham sido apenas um desastre fortuito, coisa do Sobrenatural de Almeida.

Mas minha impressão de leigo é de que, enquanto a Alemanha trabalhou para reconstruir seu futebol, o Brasil está a caminho de destruir um patrimônio importante de nossa jovem civilização. Tudo indica que teremos mais do mesmo. Muda-se o treinador, mas permanecerá uma estrutura que favorece cartolas pilantras, uma entidade “sem fins lucrativos” milionária — que comanda clubes majoritariamente falidos — e um grupo midiático que age como dono do futebol brasileiro.

PS do Viomundo: Obviamente que a tendência de uma mídia quase tão fraca quanto nosso futebol é de focar no acessório e esquecer do essencial, por motivos políticos, econômicos ou por pura incompetência

Leia também:

Saul Leblon: Autópsia do exportador de jogadores, mastigado pela Alemanha

O post Por que a Alemanha reformou seu futebol enquanto o Brasil perde espaço apareceu primeiro em Viomundo - O que você não vê na mídia.

09 Jul 18:17

SOMOS MAIORES QUE O PIOR JOGO DA NOSSA HISTÓRIA

by lola aronovich
Estou deprê. A derrota da seleção brasileira ontem por 7 a 1 derrubou quase todo mundo. Hoje acordei como se estivesse de ressaca.
Eu nem pensei que iria me envolver tanto nesta Copa! Por causa das denúncias de superfaturamento, das remoções, dos protestos, das reclamações de "imagina na Copa", até pensei: não vou dar a mínima. Imaginei viajar pra algum fim de mundo, alguma praia distante, durante uns dias, pra ficar longe. Surgiu um ou outro convite pra palestrar em outro Estado em junho e julho, e eu aceitei, sem me importar em perder jogos (claro que essas palestras foram canceladas assim que o pessoal notou que não haveria clima pra qualquer outra coisa que não fosse a Copa). 
Mas, no momento que a Copa começou, eu me rendi totalmente. Comecei a acompanhar todos os jogos no computador enquanto trabalhava (ou tentava trabalhar, ou tuitava), com tela dividida. E quase todos os jogos eram ótimos, disputados, equilibrados, com poucos empates e muitos gols (tá, depois da partida de ontem, melhor não usar "muitos gols" como critério de bom jogo). Eu sou do tipo que não tenho time de coração e só acompanho futebol a cada quatro anos. Mas amo Copa do Mundo. E nunca amei uma tanto quanto esta.
Uma das mensagens que circulavam
antes da Copa
Faz diferença sim que seja em casa. Com nosso eterno complexo de vira-lata, fomos convencidos que a Copa seria um fracasso retumbante, que os estádios não ficariam prontos a tempo, que os aeroportos entrariam em colapso, que a desorganização e o caos reinariam. Porque brasileiro tem uma imagem tão ruim do próprio país, do próprio povo, de si mesmo, que acreditamos rapidamente que não seríamos capazes de hospedar a maior competição esportiva do mundo. 
Temos uma imagem tão negativa de nós mesmos -- imagem que, é bom lembrar, não é de forma alguma compartilhada pelo resto do planeta -- que achamos que só existe uma coisa em que somos bons: futebol masculino. E não pra fazer uma Copa, só pra jogá-la mesmo.
Não seria legal se a gente tivesse um pouquinho de orgulho do país em outras áreas também, que não tivessem nada a ver com esportes? Não gosto de ufanismo, e temos muitos exemplos de como o patriotismo pode ser alienante. Mas, pior que o patriotismo, na minha opinião, é o seu contrário.
É a ideia de que aqui nada presta, ninguém trabalha, nada funciona, e lá fora, ah, lá fora, nos países ricos, aí sim é o paraíso. E qualquer um que vive ou já viveu no exterior pode te contar que isso não é real
Eu morei um ano nos EUA e tive mais problemas com internet, com empresas que não cumpriam seu serviço, com falta de respeito ao consumidor, do que costumo ter aqui. Muito mais. Mas foi uma experiência boa, inclusive pra constatar que o resto do mundo adora o Brasil. Quando você tá lá fora e fala de onde vem, o pessoal abre um sorriso, porque só associa o Brasil a coisas boas (carnaval, gente alegre, praias, mulheres bonitas, Rio, futebol, Pelé, floresta amazônica). 
Lembro que, no meu "ano americano", saiu uma matéria de capa da Vanity Fair com 24 páginas (a maior parte de fotos de modelos brasileiras) chamada "Viva Brazil!!". Ainda que o autor dissesse, elogiosamente, que o Rio era a bunda do mundo, ele terminava assim o artigo: "O Brasil se olha no espelho toda manhã e adora o que vê. Imagina a confiança que isso dá". 
Pena que não é verdade. Certamente não somos o único país a se olhar no espelho e não gostar do que vê, mas é óbvio que fazemos isso. Toda manhã, ao acordar. No máximo, o pessoal de classe média alta que adora ir pra Miami pra comprar muamba fala bem das belezas naturais do Brasil, "infelizmente estragadas" por um povo que essa elite vê como preguiçoso, ignorante e sujo. 
Todo dia eu leio gente que lamenta ter nascido aqui. Como se essa gente que diz isso fosse tão especial! Como se não desrespeitassem leis básicas de trânsito, como se não jogassem lixo na rua! Reclamam da corrupção do governo, mas defendem o "importante é levar vantagem em tudo, certo?" no seu dia a dia. Como se a vida deles fosse completamente desvencilhada da do país onde vivem.
Eu amo o Brasil. Não sou brasileira de nascença. Nasci em Buenos Aires, e minha família, argentina, se mudou pra cá quando eu não tinha nem quatro anos. Levei tempo pra criar coragem, enfrentar a burocracia, e me naturalizar brasileira. Só fiz isso em 1998, e com apenas um propósito, pois, como residente permanente, tinha quase todos os direitos e deveres que brasileiros da gema têm. 
Todos os direitos, menos um: eu não podia votar. E eu queria muito votar. Porque, talvez, se tem uma coisa que eu goste mais que Copa do Mundo e Olimpíadas, é eleição. Porque os resultados dessas eleições influenciam diretamente as nossas vidas.
Mas, falando em Copa, eu acreditava que a seleção brasileira poderia ganhar o mundial. Não porque nossa seleção era tão boa -- não era, não é --, mas porque as outras não eram assim tão excepcionais. E eu tinha a convicção que, se a gente passasse da Alemanha, venceria qualquer time, Holanda ou Argentina, na final. 
Ninguém estava preparado para o desastre de ontem, e as fotos que coloquei neste post demonstram a nossa tristeza coletiva (quer dizer, não de todo mundo. Tem gente que politizou a Copa e estava vibrando com a acachapante vitória alemã). 
Agora vou torcer pra Argentina. Não porque nasci lá (me considero brasileira), mas porque são nossos hermanos, vizinhos, e seria bacana que, numa Copa realizada na América do Sul, uma equipe sul-americana a conquistasse. Não tenho grandes esperanças, no entanto. Acho que assistiremos a uma final europeia, e que ganha a Alemanha.
Por mais que eu esteja triste, o meu lado racional me lembra sempre: é só uma competição esportiva. Foi só um jogo. Aliás, não foi um jogo, foi o jogo. Foi a maior humilhação da nossa história no futebol masculino. A derrota no Maracanã pro Uruguai em 1950 não chega nem perto do vexame de ontem. 
Quem estava no Mineirão ontem vai poder contar pros seus filhos e netos sobre essa façanha de ver a seleção ser goleada por 7 a 1 numa semifinal. Um fracasso desses vai demorar outros 65 anos pra se repetir (se bem que estou receosa com a disputa pelo terceiro lugar no sábado, você não? Nem um pouquinho?). 
A Copa continua, até domingo. E é uma bela Copa, que vai deixar saudades, por mais que a final vai parecer como se uma turma alegrinha e simpática fizesse uma festa na nossa casa, e não nos convidasse. Mas estaremos lá, de um jeito ou de outro. Ninguém para a gente. É só a gente querer.
09 Jul 12:56

Estudioso reconstrói Capitanias Hereditárias e afirma que livros escolares estão errados

RIO - Membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, o engenheiro Jorge Cintra fez uma descoberta que pode mudar os livros escolares. Em um artigo recente, ele contesta o mapa das Capitanias Hereditárias eternizado por Francisco Adolfo de Varnhagen, considerado o pai da historiografia nacional, e propõe mudanças significativas no seu desenho. A partir de documentos da época, Cintra, que leciona na Escola Politécnica da USP, conseguiu reconstruir com maior exatidão os limites das porções de terra doadas, entre 1534 e 1536, pela Coroa Portuguesa a comerciantes e nobres lusitanos.

A nova imagem proposta pelo estudioso - Agência O Globo

- A técnica evoluiu muito, os instrumentos de medição também. Para a cartografia, isso proporciona maior rigor na obtenção de resultados. E, sobretudo, acho que o professor Cintra, por ser engenheiro, teve uma exatidão que talvez um historiador não tivesse. O grande mérito dele foi ter verificado um erro de base, um erro de interpretação - elogia o geógrafo Jurandyr Ross, responsável por romper um paradigma semelhante ao propor uma nova classificação para o relevo brasileiro.

O mapa como é frequentemente utilizado em livros didáticos - Agência O Globo

O sistema de Capitanias Hereditárias, que já havia sido utilizado com relativo sucesso na África, dividiu o território em 15 partes e pretendia viabilizar a exploração das riquezas do “Novo Mundo”. As terras tinham como limites o Oceano Atlântico, a Leste, e o Tratado de Tordesilhas, a Oeste. Após recuperar, analisar minuciosamente as cartas de doação e de notar detalhes que passaram despercebidos por Varnhagen em mapas da época, Cintra assegura que, no Norte, a divisão das fronteiras não foi feita de acordo com paralelos, e sim através de meridianos.

- Coloquei tudo em dúvida. Descobri um erro ao Sul e resolvi conferir todo o resto. Logo percebi que, de fato, o Norte não estava bem resolvido. Havia capitanias finas demais, era uma incógnita - explica.

De fato, as fronteiras que constam no mapa do Atlas Histórico Escolar do MEC, desenhado por Manoel Maurício de Albuquerque sob forte influência das definições de Varnhagen, mostram territórios extremamente estreitos no Norte. Para Cintra, frases contidas nos documentos de doação são as chaves para a solução do problema. Por exemplo, o documento destinado a Antonio de Cardoso de Barros diz: “As quais quarenta léguas se estenderão e serão de largo ao longo da costa e entrarão na mesma largura pelo sertão e terra firme adentro”.

- Se as divisas fossem para Oeste, o rei estaria doando um pedaço de mar. Isso é pouco lógico. Ora, o único jeito de se entrar sertão adentro é em direção ao Sul - sustenta.

Na mesma carta, há também uma cláusula de conflito. Ela previne a possibilidade de altercação sobre as limitações das divisas com os capitães vizinhos.

- Essa cláusula de compatibilidade não existe em nenhuma outra carta de doação. Como poderia haver conflito se as linhas fossem todas paralelas? - sentencia.

Finalmente, Cintra se valeu de uma observação sagaz do mapa de Bartolomeu Velho, de 1561. Nele, apesar de não haver divisas desenhadas, os nomes das capitanias ao Norte estão escritos em blocos separados de acordo com linhas imaginárias verticais.

- Se a divisão fosse horizontal como se pensava, o autor não precisaria “quebrar o texto” em duas ou três linhas e nem valer-se de abreviações. Ele poderia escrevê-los por extenso na mesma linha - pontua.

Além disso, no novo desenho proposto por Cintra, existem terras não distribuídas no Norte. Segundo o pesquisador, elas ficaram de fora das doações realizadas pela Coroa. Três capitanias — Maranhão, Rio Grande do Norte e São Vicente — também foram divididas em lotes. Por fim, o primeiro lote de São Vicente também teve divisas modificadas.

Para Cintra, o mapa de Varnhagen tem incorreções, pois o estudioso, em “História Geral do Brasil” (1854), recorreu a um desenho de Luis Teixeira onde as capitanias são representadas em 1586, mais de 50 anos após o início da divisão. Nele, a situação já não era mais a mesma. Por isso, o professor ressalta a importância de se duvidar de concepções tidas como definitivas:

- O artigo mostra uma coisa importante: até um entendimento que já vem de 160 anos pode ser derrubado. Ele deixa essa mensagem. Devemos colocar em dúvida outras coisas. Precisamos olhar novamente para os documentos cartográficos, voltar às fontes. Podemos ir mais fundo nos problemas.

Para Jurandyr Ross, que participou da banca de admissão de Cintra na Escola Politécnica, a descoberta é importante para o ensino de História no Brasil.

- O artigo me surpreendeu muito e causará um impacto significante para os livros escolares, que precisão corrigir esses mapas logo. Vamos ensinar uma História cada vez melhor - empolga-se.

Renato Franco, professor da disciplina Brasil Colonial no Departamento de História da UFF, elogia o artigo, mas não vê grandes mudanças na maneira com que o período pode ser enxergado pelos estudiosos do assunto.

- O texto é muito interessante. No entanto, não traz grandes impactos para a História do Brasil Colonial. Embora tenha sido completamente extinto apenas no século XVIII, o sistema de Capitanias Hereditárias rapidamente perdeu a força diante do desinteresse de boa parte dos donatários e do assédio de outras potências. Em 1549, a Coroa portuguesa mudou de estratégia e, progressivamente, as Capitanias Hereditárias foram perdendo força como forma de organização político-administrativa. O grande mérito do artigo é propor uma discussão sobre as eventuais imprecisões cartográficas, mas muda pouco no que diz respeito à nossa forma de enxergar a História do Brasil Colonial como um todo - opina.

Cintra concorda com Franco. Para ele, o período já “foi muito bem estudado” pelos profissionais brasileiros. Sobre a alteração dos livros escolares, diz não ter muita pressa. O cartógrafo explica que no meio científico, assim como na própria História, as coisas costumam levar tempo para serem completamente aceitas e solidificadas.

- A comunidade científica tem que ter calma. O primeiro reconhecimento foi ter sido publicado por uma revista de qualidade (“Anais do Museu Paulista”, da USP). Significa que revisores e editores de lá puseram a mão no fogo pelo meu trabalho. A partir daí, cada autor de livro didático tem que tomar conhecimento do artigo e se convencer dele. Então, vai começar a fase de transição - finaliza.

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08 Jul 11:44

Leandro Cipoloni e o escândalo da Fifa: Tem conexão brasileira?

by Luiz Carlos Azenha

LadoSujoFutebol

por Leandro Cipoloni, no Facebook

Entenderam por que a CBF não via motivo para ajudar na investigação da operação “Jules Rimet”? Não?!

Pois bem. O líder da quadrilha, preso hoje, é Raymond Whelan, CEO da Match, a empresa que comercializa os pacotes de luxo da Copa do Mundo.

A Match é a parceira de negócios do Grupo Águia, de Wagner Abraão, que vende os pacotes no Brasil.

Ainda não entenderam? Segue, abaixo, o link para o primeiro capítulo de nosso livro. Bem-vindo(a) ao maravilhoso mundo de Ricardo Teixeira!

CLIQUE AQUI PARA LER

Leia também:

Preso executivo acusado de chefiar quadrilha dos cambistas

O post Leandro Cipoloni e o escândalo da Fifa: Tem conexão brasileira? apareceu primeiro em Viomundo - O que você não vê na mídia.

08 Jul 11:38

zcatalan: Only in Kabul. It’s nice to be back. #kabul #hair...

Allan Patrick

Nem tão diferente assim do Brasil :)



zcatalan:

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02 Jul 23:11

Os espigões do Plano Diretor de São Paulo

by Natália Garcia

Se a interpretação equivocada do novo Plano Diretor Estratégico de São Paulo pegar, a cidade vai ficar em desvantagem antes mesmo de ele ser sancionado pelo prefeito. Com algumas variações, os principais jornais paulistanos anunciaram que o plano “encoraja (ou libera) espigões” em áreas com bom acesso ao transporte público. Na verdade, o plano prevê que essas áreas sejam adensadas nas próximas décadas. Chama a atenção a escolha comum de explicar esse adensamento como um “encorajamento aos espigões”. Acredito que esteja aí um desafio importante desse plano.

Espigão é uma palavra que pegou como sinônimo de prédio muito alto. Talvez seja uma metáfora botânica: espiga (de milho, trigo, cevada, centeio) é um tipo de inflorescência (flores que crescem acumuladas em torno de um eixo) verticalizada. Uma paisagem de espigas é tão padronizada quanto infértil. Certeza da origem da expressão eu não tenho, mas as incorporadoras de espigões tem alimentado minha especulação etimológica. Nas últimas décadas a cidade foi espetada com monumentos à falta de personalidade.   

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São Paulo: entre espigões e áreas pouco densas. Fontes: The Commons

Encorajar espigões não é exatamente uma diretriz do Plano Diretor Estratégico de São Paulo. Na verdade, a função de um plano diretor é aproximar as pessoas das oportunidades (empregos, escolas, hospitais, mercados, áreas de lazer, transporte público, etc). Essa aproximação precisa ser feita em duas frentes – levar oportunidades até onde as pessoas moram e levar pessoas para morar perto das oportunidades – até que o jogo de viver na cidade se equilibre. O que o PDE faz é delimitar áreas estratégicas da cidade para serem adensadas (ter um número maior de pessoas morando). São Paulo ainda é pouco densa (7,7 mil habitantes/km²) se comparada com Londres (12 mil hab/km²), Paris (20 mil hab/km²) e Nova Iorque (10 hab/km² – Manhatan tem 26 mil hab/km²). Se passarmos por um bom adensamento, podemos ajustar nosso desequilíbrio urbano. Para isso, o adensamento precisa ser planejado (em áreas estratégicas como perto dos terminais de transporte público) e diverso (misturando usos comerciais e residenciais e padrões econômicos que contemplem a desigualdade social). Cabe pontuar que adensamento não é sinônimo de verticalização. Barcelona, por exemplo, é uma cidade muito densa, 17 mil hab/km², e pouco vertical, onde vários distritos limitam em 6 andares a altura dos prédios.

As áreas de adensamento estratégico não podem ser confundidas com um convite aos espigões. Um plano serve para traçar um futuro desejável e, com base nele, organizar as escolhas do presente. Nosso futuro desejável não é a replicação dos espigões, mas de exemplos mais interessantes, como o Conjunto Nacional e o Copan. As áreas que ganharam permissão de adensamento com o PDE precisam ser um chamariz para um mercado imobiliário mais diverso e experimental, que deixe um legado arquitetônico, social e ambiental positivo na cidade. Porque, no final das contas, é o mercado imobiliário que vai construir nosso adensamento, seja ele bom ou ruim para a cidade.