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02 Jul 17:49

A COPA DO MUNDO É NOSSA

by lola aronovich
Allan Patrick

Eu vejo comentarista esportivo na TV quase surtando em mesas redondas ao mesmo tempo em que criticam falta de "controle emocional" dos jogadores da seleção.

Vamos falar um pouquinho da Copa do Mundo hoje? 
Estou tão encantada com a Copa! Certo, sempre estou, adoro Copa e Olimpíadas, e se deixar, eu assisto tudo. Mas é diferente ter uma Copa no país em que se vive. Mesmo que eu não tenha ido nem irei ver nenhum jogo ao vivo, num estádio (e me arrependo um pouco: são seis jogos em Fortaleza, onde moro, e quando mais terei esta chance? Por outro lado, é caro e não sou fã de multidões), o país inteiro "respira" a Copa. Só se fala nisso. 
E por mim tudo bem, porque é por poucos dias. Daqui a pouco (dia 13) já acaba, e a gente vai sentir saudades, e já já começa a campanha eleitoral, que infelizmente será hiper violenta (e disputada -- acho que Dilma será reeleita, mas nunca no primeiro turno, e creio que será a vitória mais difícil de todas do PT). 
Até agora, esta Copa vem sendo a melhor que já acompanhei. E sou velhinha, então já acompanhei várias. Não lembro absolutamente nada da de 1970, porque eu só tinha 3 anos, e minha família, argentina, só se mudou pro Brasil no ano seguinte. Também lembro quase nada da de 74. 
Eu, com 15 anos, e meus irmãos
na torcida da Copa de 1982
Mas daí pra frente, vi todas. A de 78, em que a Argentina ganhou de forma suspeita. A de 82, que tinha a melhor seleção brasileira de todos os tempos. A de 86, em que Maradona encantou o mundo (eu nunca vi Pelé jogar, mas vi Maradona, e era fantástico). A de 90, a única vez em que torci contra o Brasil (eu tava revoltada com a vitória do Collor, e não gostava do time). A de 94, em que o Brasil ganhou, sem entusiasmar ninguém. 
A de 98, com sua final traumática, e todo aquele mistério do Ronaldo Fenômeno. A de 2002, com Cafu erguendo a taça do penta, e todos aqueles papeizinhos caindo em cima dele. A de 2006 -- ahn, pra falar a verdade, não me lembro nada dessa Copa. O que aconteceu? A de 2010, na África do Sul. Daí eu basicamente só lembro das vuvuzelas, e não são memórias felizes.
Mas não me lembro de ter visto tantos jogos emocionantes como desta vez. Felizmente, graças à internet, é possível dividir a tela do computador e trabalhar e acompanhar um jogo ao mesmo tempo. Às vezes a transmissão trava, e ela tem um delay. Dá até pra comentar o que está acontecendo no Twitter! E as pessoas respondem e compartilham coisas. 
Por isso, inclusive, que muita gente está chamando este grande evento esportivo de A Copa da Objetificação. Porque não é sempre que os jogos estão animados durante os 90 minutos de jogo, e a gente se distrai falando um pouco da beleza dos jogadores. E como tem jogador lindo! E as camisas justinhas da Puma? E as fotos que vazaram da comemoração da Croácia e do vestiário grego (esta última parece que é montagem)? Mas nossa objetificação é fraquinha e inocente. Nada que se compare ao que os homens e a mídia fazem com as mulheres o tempo todo (inclusive na Copa!). 
Tivemos grandes jogos agora nas oitavas de final. O pior, a meu ver, foi mesmo Argentina e Suíça. Melhorou na prorrogação, mas foi chato. Não deu nem pra comparar com os outros das oitavas. Aliás, engraçado foi ver a reação da minha mãe. Ela torceu um monte pelo Brasil contra o Chile. Mas foi pouco comparado ao quanto ela torceu pela Argélia contra a Alemanha. Aí, quando vi, ela estava torcendo contra a Argentina (sendo que ela é argentina). Desisti de buscar coerência, e ontem vi minha mãe argelina naturalizar-se americana pra virar cheerleader dos EUA. Acho que ela nunca gostou tanto assim de uma Copa.
Agora vamos ver o que vem aí nas quartas de final. Poucos estão confiantes no Brasil (ou não?), e muitos estão entusiasmados com a Colômbia, que ganhou todos seus jogos até aqui e conta com o artilheiro da Copa, James Rodriguez. Vai ser um jogo duríssimo (todos são, pelo jeito), mas acho que algum dia (sexta, em Fortaleza!) o Brasil vai começar a jogar bem. Quero acreditar que o pior já passou, e foi contra o Chile, em que a nação quase sofreu uma parada cardíaca coletiva. 
Se o Brasil não é mais favorito, quem é? A Argentina, que jogou uma merreca de jogo contra a Suíça e praticamente só tem um jogador em campo, o Messi? A Holanda, que estava sendo eliminada pelo México e só conseguiu virar o jogo com um pênalti meio suspeito marcado no finalzinho? 
A França, que não convenceu contra a Nigéria? A Alemanha, que suou pra vencer a Argélia na prorrogação? Costa Rica, a maior zebra da Copa? O que está sendo incrível nesta Copa é que as seleções estão equiparadas. Nenhuma brilha, nenhuma é muito ruim. Qualquer uma das oito que sobraram pode ganhar. E, lógico, a gente sempre torce pelas menos favoritas (exceto a Colômbia!). 
Outra coisa que queria abordar é que li nos últimos dias várias críticas a alguns jogadores do Brasil, porque eles... choraram. Porque, né, chorar é coisa de mulherzinha, denota fraqueza, e homem que é homem não chora, nem pra comemorar um resultado emocionante. 
Uns mascus fizeram um tópico num fórum pra malhar o capitão Tiago Silva, porque ele não queria cobrar o pênalti, mas mais por causa de uma foto em que ele chora abraçado com Felipão. Pra eles, essa é a prova irrefutável de que vivemos numa geração de homens emasculados. Liderança mesmo era a do Dunga, não deste chorão!
Outro que foi muito criticado foi o goleirão Júlio César. Ele não só ousou chorar, como também dizer que sua atuação brilhante contra o Chile foi a volta por cima. Pro pessoal, citar algum problema é mimimi, é vitimismo. Bom, pelo menos esqueceram o Marcelo por um tempo. Ou não. Este gif é hilário. Eu me identifico totalmente com o sofrimento do Marcelo (e o olhar do Cristiano Ronaldo também é muito engraçado). 
David Luiz consola Valvidia
A gente brinca, a gente chora, mas acho que muita gente se esquece da pressão que deve ser fazer parte da seleção brasileira jogando uma Copa no Brasil. Claro que eles são favoritos. Claro que esperamos que eles tragam o hexa. Claro que cada ato, cada palavra, será avaliada e analisada à exaustão. 
Ontem li um post sobre essa enorme carga emocional imposta a 17 jovens jogadores que nunca disputaram uma Copa do Mundo, e a 23 que nunca disputaram uma Copa em casa.
No final, é só um evento esportivo e bilionário que dura um mês. E do qual a gente nunca se esquecerá.
01 Jul 12:58

Colaborador da Forbes defende a Copa e o Brasil

by Miguel do Rosário

Com a Copa sendo um sucesso internacional absoluto, os “gringos”, aqueles mesmos para os quais a Globo queria mostrar fotos de garotas do Rio, começaram a questionar igualmente as informações que tinham sobre o governo brasileiro. E estão descobrindo que há outras coisas, além da Copa, dando certo por aqui.

Um internauta teve a gentileza de traduzir matéria publicada há pouco na Forbes, sobre a Copa do Mundo, o Brasil e as manifestações anticopa. Vale a pena ler.

*

A economia da Copa do Mundo: por que os manifestantes do Brasil entenderam errado

Por Nathaniel Parish Flannery, na Forbes.

No Brasil, a Copa do Mundo deflagrou protestos de ativistas interessados em chamar atenção para os persistentes problemas de pobreza e desigualdade no país. Em 2013, os manifestantes empunhavam cartazes em Inglês com mensagens como “Nós não precisamos da Copa do Mundo” e “Nós precisamos de dinheiro para hospitais e Educação”. Contudo, como os cientistas políticos explicaram em seu excelente artigo para o Washington Post, “os protestos são paradoxais, porque o Brasil tem vivenciado um crescimento econômico e social muito significastes desde que o país foi escolhido para realizar o evento em 2003”.

Mais amplamente, a Copa do Mundo de 2014 acentua a emergência econômica da América Latina ao longo da última década. O mar de camisas amarelas que pode ser visto em jogos da Colômbia e seções inteiras de mexicanos usando vestes verdes e torcendo para a sua seleção é um testemunho do recente sucesso econômico da classe média latino-americana. De acordo com o historiador David Goldblatt, “A televisão pode enganar, e o uso de uma camisa da seleção da Colômbia não é garantia de cidadania, mas o estádio do Mineirão em Belo Horizonte estava inundado de amarelo – talhe 20.000 numa multidão de 57.000. A mídia chilena tem reportado que mais de 10.000 estão viajando para o Brasil, e ao que parece eles todos estavam presentes em Cuiabá quando a Seleção deles despachou a Austrália.”

Em 2011, pela primeira vez na história, o número de pessoas nas classes médias da América Latina ultrapassou o número de pessoas pobres na região. O Brasil, em particular, destaca-se pelo sucesso no investimento em programas sociais e de redução da pobreza.

Dado o número de camisas amarelas que aparecem na multidão nos jogos, a Copa do Mundo no Brasil tem também sido massivamente frequentada pela classe média emergente do país. Ainda por cima, a história de que o gasto com futebol é um desperdício num país em que a população vive na pobreza tem ficado de lado na mídia social.

Fotos deste mural mostrando uma criança faminta chorando ao ver uma bola de futebol em seu prato tornaram-se virais e foram compartilhadas aos milhares no Twitter e Facebook. Outros usuário do Twitter compartilharam fotos como esta lembrando aos fãs da pobreza com a qual eles se deparam a algumas quadras dos estádios.

Ainda assim, estas ilustrações falham em mencionar que o Brasil destinou menos que 2 bilhões de dólares para a construção dos estádios. Em contraste, entre 2010, ano do início da construção dos estádios, e o início de 2014 o governo federal do Brasil investiu 360 bilhões de dólares em programas de Saúde e Educação. Para colocar isso em perspectiva, o governo do Brasil investiu 200 milhões de dólares para cada dólar gasto com os estádios da Copa do Mundo. Embora os sistema de Saúde, Educação e Transporte precisem investimentos contínuos, os gastos com a Copa do Mundo não têm de maneira alguma eclipsado o investimento progressivo em programas sociais.

A economia do Brasil é definida por uma desigualdade intrinsecamente profunda. É um país conhecido pelas favelas e milionários. De acordo com uma análise da Forbes, o Brasil é o lar de dezenas de bilionários, incluindo Roberto Irineu Marinho, João Roberto e José Roberto Marinho, que juntos controlam o maior império midiático da América Latina, Globo, e tem, juntos, o valor montante de 28 bilhões de dólares. A empresa reportou em 2013 um lucro de 1.2 bilhão de dólares. De acordo com a pesquisa da Forbes: “Enquanto a riqueza crescente do país está criando mais milionários e bilionários do que nunca antes, famílias ricas estão garantindo a fatia maior desse bolo. Dos 65 bilionários listados pela Forbes na sua Lista dos Bilionários do Mundo, 25 deles são relacionados à riqueza familiar.

Oito famílias têm múltiplos membros entre o nosso último ranking” Jorge Lemann, o dono parcial da ANheuser-Busch InBev, tem um total de 22 bilhões de dólares. Ele é o trigésimo mais rico do mundo. As 15 famílias brasileiras mais ricas tem combinadas um total de 122 bilhões de dólares, uma soma que é apenas por pouco menor que os PIBs de Equador e Costa Rica juntos.

Mas, enquanto é fácil apontar os gastos dispendiosos com os estádios da Copa do Mundo ou a longa lista de bilionários do Brasil e contrasta-los com os milhões de residentes do país que vivem em extrema pobreza, tais comparações falham ao não reconhecer o tremendo sucesso que os criadores de políticas públicas brasileiros têm tido na erradicação da pobreza ao longo da última década. De acordo com um relatório recente do Centro para a América Latina e Caribe da ONU (ECLAC), em 2005 38% da população brasileira vivia abaixo da linha de pobreza. Avançando para 2012, essa taxa caiu para 18.6% da população. Em outras palavras, desde 2005, o Brasil tem efetivamente reduzido para mais que a metade o número de seus cidadãos vivendo na pobreza. Em contraste, o México, um pais cujos políticos estão mais concentrados nas exportações e e nos salários competitivos, atualmente viu a pobreza aumentar durante esse mesmo período, de acordo com informações do ECLALC. O Chile, um país há muito prezado pelo desenvolvimento de suas políticas econômicas, viu um declínio muito menor de sua pobreza no mesmo período. No Chile a pobreza caiu de 13.7% para 11% em 2011. A América Latina é a região mais desigual do mundo, e o Brasil em particular é conhecido por sua história colonial baseada em uma espoliativa agricultura de exportação o que ajudou a desenvolver o estabelecimento de uma economia altamente dividida entre residentes ultra-ricos e ultra-pobres. Em meio à controvérsia da Copa do Mundo, o tremendo sucesso do Brasil na redução da pobreza tem sido de certa forma ignorado.

Jason Marczak um expert em América Latina do Conselho Atlântico em Washington D.C., me contou que “A crítica aos excedidos custos dos estádios é na verdade um grito dos cidadãos do novo Brasil, um Brasil mais classe média, que demanda maior transparência e um modelo de estado mais responsável”. Quando a seleção do Brasil entrar em campo, o mundo devia também aproveitar o momento para reconhecer o sucesso das políticas públicas progressivas do país.
“O Brasil tem atingido conquistas impressionantes no crescimento sócio-econômico na última década com dezenas de milhões de pessoas saindo da pobreza e entrando na classe média”, acrescenta Marczak.

Só por diversão, eu juntei algumas informações do Banco Mundial e das Nações Unidas, e comparei o Brasil com outros países Latino-Americanos que competem na Copa do Mundo. Eu juntei informações da Foreign Direct Investment (Per Capita), GDP per capita, níveis atuais de pobreza, redução de pobreza desde 2005, número total de bilionários, e o ranking de cada país no World Bank Doing Business. Esses medidores demonstram a força relativa dos 9 países latino-americanos competindo na Copa do Mundo, e também o quão bem sucedido  cada país tem sido na tradução do sucesso econômico em redução da pobreza. Depois de fazer o ranking dos países em cada categoria, eu então criei um score agregado.

Tradução: Arthur Caria.

crianças-estudando

29 Jun 09:54

Vaia ao Hino do Chile: a torcida brasileira que nos envergonha para o mundo

by Leonardo Sakamoto

O que leva uma pessoa a vaiar o hino de outro país enquanto ele é executado em um jogo de Copa do Mundo? Entendo que, em bando, os seres humanos não raro ficam mais idiotas. Isso é facilmente comprovável, por exemplo, por algumas torcidas organizadas que compensam suas frustrações cotidianas e reafirmam identidades de forma tosca através da violência.

Contudo, não são as torcidas organizadas que preenchem as arquibancadas dos estádios de futebol nestes jogos da seleção (aliás, se fossem, ao menos empurrariam o time o tempo inteiro ao invés de ficarem em silêncio, com cara de susto e medo, diante de momentos tensos), mas grupos com maior poder aquisitivo, dado o preço de boa parte dos ingressos.

Renda pode até estar diretamente relacionada à obtenção de escolaridade de melhor qualidade. Mas escolaridade definitivamente não está relacionada com educação. Ou respeito. Ou bom senso. Ou caráter.

E considerando que, provavelmente, muitos dos que vaiaram o hino do Chile quando executado à capela foram os mesmos que, minutos depois, estavam cantando “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”, posso concluir que o sujeito é guiado pela aversão ao estrangeiro característica da xenofobia. Aversão potencializada e exposta pela covarde sensação de segurança por ser maioria e estar em casa.

Vaiar o hino do adversário não é uma brincadeira. Muito menos uma catarse coletiva, uma indignação contra a cantoria à capela do outro. Nem ajuda na partida. Pelo contrário, mostra para o mundo que está assistindo pela TV que nós, brasileiros, podemos ser tão preconceituosos quanto os preconceituosos que, não raro, nos destratam no exterior simplesmente por sermos brasileiros.

Aos vizinhos chilenos, portanto, peço que nos perdoem. Parte de nossos conterrâneos não sabe o que faz.

27 Jun 18:31

Brasil: quanto mais Copa do Mundo, menos futebol?

by raquelrolnik

Quem vê o Brasil tomado por futebol manhã, tarde e noite, nos espaços reais e virtuais, imagina que a prática do futebol, que historicamente faz parte da vida de milhões de brasileiros desde a mais tenra idade, esteja em grande alta. Ledo engano…

Pesquisa recente da Faculdade de Saúde Pública da USP e da Escola de Enfermagem da UFMG sobre as atividades físicas de lazer mais praticadas pelos brasileiros mostra que, nos últimos anos, a prática do futebol vem diminuindo, enquanto a frequência a academias de musculação e ginástica não para de crescer.

Uma das hipóteses levantadas pela pesquisa para explicar o fenômeno seria, de um lado, o aumento do poder aquisitivo da população, que teria facilitado o acesso às academias de ginástica, e, de outro, a redução de espaços públicos disponíveis para a prática de futebol.

O fato é que os campos de várzea, que no passado revelaram muitos de nossos grandes jogadores, foram minguando rapidamente nas regiões mais centrais, com o processo de urbanização que ocupou estas áreas próximas aos rios. Hoje o futebol amador sobrevive quase que exclusivamente nos campos improvisados nas periferias e favelas, também em franco processo de desaparecimento, sob o impacto da consolidação da urbanização também nestas áreas.

Mas se a Copa do Mundo é o espetáculo máximo do futebol, o futebol da Copa não é o das peladas das favelas e periferias da cidade, imagem recorrente na mídia, mas o futebol-negócio, o futebol-espetáculo midiático que vende tudo, de cuecas a seguros, de cartão de crédito àquela marca de sanduíche.

Na contramão dessa lógica, iniciativas que aliam o futebol de rua à contestação do futebol-negócio acontecerão em São Paulo no próximo mês: de 1º a 12 de julho, o Mundial de Futebol de Rua reunirá 300 jovens, de 24 países, num torneio com regras bem diferentes das da FIFA. O que vale nesta competição é, essencialmente, o processo de construção de cidadania. As partidas acontecerão no Largo da Batata, na Avenida Ipiranga e em seis unidades do CEU.

No mesmo período, o Comitê Popular da Copa de São Paulo, em parceria com organizações e movimentos sociais, realizará a 4ª edição da Copa Rebelde. O evento acontecerá no dia 6 de julho, em pleno território do antigo projeto Nova Luz, no terreno que já foi ocupado pelo centro comercial Fashion Luz, que foi fechado e demolido pelo poder público para dar lugar a um teatro de ópera e dança, de cuja implementação o governo do Estado desistiu recentemente. Abandonado há anos e contribuindo para o processo de degradação daquela área, o local foi então ocupado por um campo de futebol…

Veja nos links abaixo mais informações sobre os dois eventos:

Mundial de Futebol de Rua
Site: http://www.mundialfutebolderua.org/
Página no FB:  https://www.facebook.com/mundialfutebolderua

Copa Rebelde
Site: https://coparebelde.wordpress.com/
Evento no FB: https://www.facebook.com/events/718601578220830/


26 Jun 17:29

‘Eu, o Direitista Raivoso’

by Paulo Nogueira
Eu não vou cumprimentar ninguém porque estou com raiva. Então vamos direto. Eu sou o DIRAI. O Diretista Raivoso. Eu tenho raiva. Eu vivo da raiva. Eu morro de raiva. Eu sou a raiva. Odeio pobre. Odeio negros. Odeio cotas. Odeio gays. Odeio nordestinos. Odeio comunistas. Odeio petralhas. Odeio esquer...
25 Jun 18:46

Professor de Física do Campus Parnamirim é selecionado para participar do CERN

by Michelle Pinheiro
Allan Patrick

Mais um ponto pro IFRN :)

Um dos maiores laboratórios de pesquisa em Física no Mundo – CERN 2014 (Centro Europeu de Pesquisas Nucleares) - conta nesta edição com a participação de professores brasileiros em Lisboa e Genebra. O programa é organizado pela Sociedade Brasileira de Física (SBF), com o apoio da Diretoria de Formação de Professores da Educação Básica da Capes. Além da visita ao CERN, os professores selecionados farão uma visita ao LIP (Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas), localizado em Lisboa, Portugal, além de cursos sobre Físicas de Partículas e áreas associadas, e sessões experimentais.

O  professor de Física Gustavo Fontoura, do Campus Parnamirim, foi um dos selecionados para fazer parte desta experiência junto com professores portugueses e africanos da rede pública (federal, estadual e municipal) que ensinam Física no nível Ensino Médio. O evento acontecerá  no período de 24 a 29 de agosto de 2014 .

 

25 Jun 12:50

A Copa vai bem, a desilusão do vira-lata, não

by blogdoruidaher
Lembro-me de 15 dias atrás, fazendo conexão no aeroporto de Brasília, depois de longa demora para o desembarque, ter ouvido o comandante se desculpar culpando suposta “falta de estrutura”.
 
Havia estacionado num finger indisponível, sei lá se orientado a isso ou não, e os passageiros deveriam aguardar inefáveis escadas e ônibus.
 
Pela janela percebi montes de construções, passarelas, empilhadeiras, armações de concreto, voos descendo a cada dois minutos. Pensei, falta de estrutura é que não é. Mais fácil incompetência, desorganização, falta de comunicação, distração. Estrutura tem até demais. Boa grana foi aí.
 
O desavisado comandante, provavelmente, estava contaminado pelo pessimismo dos que aqui vivem bem. Escudava-se no espírito do “nada vai dar certo”. Na Copa, ou talvez para sempre.
 
Bem, parece que todo o caos anunciado pelas folhas e telas cotidianas está sendo respondido pela incrível boa sorte que temos em conduzir grandes eventos. 
 
Foi assim em conferências ambientais, shows de rock, visitas papais, competições várias.
 
“Ah, mas a apresentação de abertura foi um fiasco”, dirá o pesquisador de pelos em ovos. Verdade. Mas sabe-se lá quanto a Fifa levou na contratação dos pouco imaginativos criadores europeus. 
 
No Brasil, se as coisas dão certo, credita-se o fato ao destino, entes superiores, forte queda para o improviso, por aí. Nunca a alguma qualidade que porventura tenhamos.
 
Aliás, é comum os sabidos não se referirem aos brasileiros na primeira pessoa do plural. Prefere-se a terceira do singular, ele, “o outro”. 
 
Reparem em mesas de restaurantes chiques: “O brasileiro é assim, assado, isso e aquilo”. Sempre de forma negativa ou pejorativa, é claro. Procurem saber de onde vem o malho. Não esperem ver um negro nigeriano ou um louro escandinavo. Serão sempre brasileiros justos e infalíveis. 
 
De qualquer forma, como está sendo imensa a diferença entre o caos anunciado e a realidade corrente, talvez, até o tal legado, em que nem mesmo eu acreditava, é capaz restar.
 
Afinal, a Federação de Corporações, quando se dispõe a botar expectativas ladeira abaixo, nega até a extensão de nosso território, o clima que nos afaga, e a alegria que este povo tem. Saudades de Darcy Ribeiro.
 
Espanha
 
Ouço ontem, na ESPN Brasil, o bravo jornalista José Trajano se referir a periodista espanhol que disse já ter ido a muitas Copas, nenhuma tão lamentável como a atual, no Brasil.
 
Calor, umidade, longos deslocamentos, “o siri e o cacete”, como já escreveu Aldir Blanc. 
 
Esquecido do péssimo desempenho da seleção espanhola na fase de grupos, por sinal, sua última, ele chega a sugerir um complô da Fifa para beneficiar países latino-americanos, 
 
Hoje, vindo para o trabalho, escuto no rádio que um raio atingiu o avião que levava os espanhóis de volta ao aeroporto de Barajas, em Madri. Felizmente, nada aconteceu.
 
Parte do complô? Para tim bum, bum, bum!
 
25 Jun 11:46

Caso MSC-Felipão e a bagunça geral

by Coleguinhas

Muita gente ficou sem crer que o Mário Sérgio Conti tenha cometido o erro absurdo de entrevistar um sósia do Felipão como se ele fosse mesmo o treinador da seleção brasileira – sósia que se identificou como tal, com cartão de visitas e tudo. Só se espantou quem não conhece a trajetória do cara. Ele sempre foi tão arrogante, mesmo para os padrões dos jornalistas, que dá até para vê-lo acreditando que Felipão, um cara sabidamente avesso a jornalistas (exceto alguns amigos, em geral gaúchos), estava ali, louco para dar entrevista para ele.

O que me causou espécie mesmo foi como essa barriga de lutador de sumô chegou a ser editada pelo Globo e pela Folha. Parece-me uma prova inconteste de que não há o menor “controle de qualidade” do que é publicado ou vai ar. Já desconfiava que a situação não andava boa pelo dia a dia na relação com os coleguinhas e pela necessidade de ser muito seletivo na escolha das concorrentes ao King of the Kings, mas o Caso MSC-Felipão demonstra que ela é ainda pior do que eu pensava – as redações vivem numa zorra, com cada um chutando para o seu lado, sem ter capricho com o próprio trabalho, limitando-se a “cumprir ordens” por mais absurdas que sejam, como escreveu, em email, um repórter do qual gosto pessoalmente, depois que lhe chamei a atenção para a pergunta estúpida que fizera sobre um assunto que ele domina por cobrir o setor há mais de uma década.

MSC defendeu-se dizendo que seu erro grosseiro não prejudicou ninguém. É verdade. Só que os erros e as ordens cumpridas pelos demais coleguinhas podem prejudicar muitas pessoas – e isso está acontecendo -, além de beneficiar algumas, pecuniariamente, entre elas, desconfio cada vez mais seriamente, os próprios coleguinhas.

P.S.: Como barriga, mesmo uma mega como essa, não é exatamente uma cascata, ela não vai disputar o King of the Kings-2014.


22 Jun 15:13

A MORTE DE UMA INCENDIÁRIA

by lola aronovich
Ontem morreu a grande Rose Marie Muraro, uma das pioneiras do feminismo no Brasil. Ela tinha 83 anos. 
Já fazia tempo que não ouvia falar nela quando, em agosto do ano passado, o Correio Braziliense publicou uma matéria chamada "Rose Marie Muraro pede ajuda aos amigos para continuar produzindo". No texto, Muraro é descrita como bem-humorada, embora estivesse semiparalítica e quase totalmente cega (ela já estava com 42 graus de miopia). Dizia ela na entrevista, misturando tempos verbais no passado e no presente: "Sou uma maluquete. Gostei muito do que fiz. E ainda produzo porque só assim a minha vida faz sentido. No dia em que eu parar, morro". 
Apontada como uma das mais importantes intelectuais brasileiras do século 20, e uma das três únicas mulheres brasileiras a escrever uma autobiografia (dado surpreendente que mostra como a vida de mulheres não é vista como importante o suficiente), apesar das 4 mil publicações, Muraro morreu com uma "situação financeira muito delicada", já que estava debilitada e necessitada de assistência permanente, algo que nem mesmo seus cinco filhos e doze netos podiam lhe dar. 
Casada durante 25 anos com seu primeiro namorado, e divorciada na década de 70, Muraro se dizia uma "monógama serial", que só conseguia se apaixonar por um homem por vez. Nunca quis se casar de novo. Numa entrevista que deu ao jornal catarinense A Notícia em 2007, Muraro disse, entre várias declarações polêmicas: "Os homens são casadouros, as mulheres não. Os homens traem as mulheres para ficar no casamento e eles são polígamos. As mulheres traem os maridos para sair do casamento e elas são monógamas".
Numa outra entrevista, Muraro, questionada se o feminismo tinha a ver com a crise do masculino, respondeu: "Tem. O feminismo não é o que as pessoas pensam. O feminismo é só um movimento organizado das mulheres, mais nada. Não tem nada a ver com o plano pessoal da mulher contra o homem, mas sim, da mulher contra o sistema. Em geral, as mulheres e os homens se dão muito bem".
Junto com Leonardo Boff, com quem trabalhou durante 17 anos na Editora Vozes, Muraro foi responsável por dar corpo à Teologia da Libertação, doutrina de esquerda da Igreja Católica que insiste que, antes de se preocupar com a vida eterna, é preciso lutar pela vida agora, procurando um mundo mais igual e mais justo. O papa João Paulo II, o bonzinho, a expulsou quando ela publicou Por uma Erótica Cristã. Como escritora e editora, ela ajudou a trazer muitas ideias revolucionárias de fora pra cá.
Eu me lembro quando eu era adolescente, nos anos 80, e ouvia falar muito nela. Ela estava em todas. O único de seus 35 livros que li foi A Sexualidade da Mulher Brasileira, de 1983, que me ajudou demais a entender a sexualidade na minha juventude. O livro ocupava um lugar de destaque na minha estante, ao lado de O Relatório Hite (dois livros, da Sexualidade Feminina e da Sexualidade Masculina) e de Conversando sobre Sexo, da Martha Suplicy (pra quem não sabe, antes d'ela ser prefeita, senadora e ministra, ela foi sexóloga). 
Muraro deixa uma vasta obra e também o ICRM (Instituto Cultural Rose Marie Muraro), fundado em 2009 e tocado por uma de suas filhas. Além de conter o monumental acervo de Muraro, o ICRM também pretende ter uma biblioteca especializada em gênero e ser um centro de pesquisa. Vamos ver se esse importante projeto, que funciona com recursos próprios num imóvel cedido pela Secretaria do Patrimônio da União, agora se concretiza. 
Pelo Twitter, a presidenta Dilma lamentou a morte de Muraro, "ícone da luta pelos direitos das mulheres". Em 2005, Muraro foi nomeada pelo governo a Patrona do Feminismo Brasileiro. Entrevistada pela EBC, a professora Hildete Pereira de Melo, da Universidade Federal Fluminense, disse sobre a morte de Muraro: "Hoje, as mulheres estão órfãs". 
No documentário Memórias de uma Mulher Impossível (título de sua autobiografia), de Márcia Derraik, Muraro resume sua trajetória: "Eu fui por fogo no mundo". E pôs. Que sua chama continue incendiando a todxs nós.  
21 Jun 21:10

Morre a intelectual e feminista Rose Marie Muraro

by Carlos Santos

O Globo

A intelectual e feminista Rose Marie Muraro morreu aos 83 anos em consequência de uma parada cardio-respiratória. Ela tinha câncer na medula óssea há cerca de 10 anos e, desde o dia 12 deste mês, estava na CTI. O velório começa às 8h deste domingo, no Memorial do Carmo, no Caju, e a cremação está marcada para as 16h.

Rose: perda

Rose Marie estudou Física, foi escritora e editora de livros. Foi responsável por publicações polêmicas e contestadoras. Nos anos 70 e 80, foi uma das pioneiras do movimento feminista no Brasil.

Na Editora Vozes, ela trabalhou com o intelectual Leonardo Boff durante 17 anos, e das ideias dos dois nasceram alguns dos movimentos sociais mais importantes do Brasil no último século XX: o movimento de emancipação das mulheres e a teologia da libertação. Em 1986, os amigos chegaram a ser expulsos da Vozes por ordem do Vaticano.

— Minha mãe lutou a vida toda por um mundo mais justo. E ela consegui fazer uma revolução por meio da literatura. Foram muitas conquistas, e isso nos deixa muito orgulhosos. — afirma a filha Tônia Muraro.

Um aspecto curioso sobre a vida da escritora é que ela nasceu praticamente cega, e somente aos 66 anos conseguiu recuperar a visão com uma cirurgia.

Ela deixa 5 filhos e 12 netos.

21 Jun 16:53

Como os holandeses conseguiram suas ciclovias

by Diario do Centro do Mundo
O texto abaixo foi publicado no site vadebike. A Holanda é sempre citada como exemplo de infraestrutura cicloviária e de uso da bicicleta. Boa parte da população se utiliza desse meio de transporte, a prioridade é dela até no planejamento das cidades e o carro é pouco utilizado. Ora, mas o Brasil nã...
19 Jun 14:16

Brutal desocupação do Cais Estelita atropela até o MP de Pernambuco

by Conceição Lemes

A repressão (as duas fotos, no topo) contra a  ocupação cultural (paciífica) do cais Estelita, em Recife (PE)

A batalha pelo Cais José Estelita

A brutal desocupação realizada na terça-feira 17 na capital pernambucana é só um dos escândalos de um projeto imobiliário de luxo que atropela até o Ministério Público para ser erguido. Por Renan Truffi

por Renan Truffi, em Carta Capital — publicado 18/06/2014 10:13, última modificação 18/06/2014 21:57

De Recife

“Não se governa uma nação sem ouvir as pessoas. A boa política é feita sempre com muito diálogo, e transparência em todos os sentidos”, escreveu o ex-governador de Pernambuco e candidato do PSB ao Palácio do Planalto, Eduardo Campos, no Twitter, na noite de segunda-feira 16.

Enquanto a mensagem era postada na rede social, policiais militares do estado que Campos governava até dois meses atrás se preparavam para cumprir uma ordem de reintegração de posse no Cais José Estelita, uma área abandonada no centro do Recife que é alvo de disputa judicial e estava ocupada por aproximadamente 60 ativistas.

Sob as ordens de atual governador de Pernambuco, João Lyra (PSB), sucessor de Campos, a Tropa de Choque e a Cavalaria da PM descumpriram o acordo de esperar o fim das negociações com o poder público para desocupar o local. A corporação não avisou nem mesmo o Ministério Público Federal sobre a reintegração de posse, como ficou combinado. Cerca de 150 PMs chegaram de surpresa à ocupação às 5 horas da manhã e não deram tempo para que as pessoas deixassem o local.

Advogados do movimento foram impedidos de entrar para negociar uma saída pacífica e os PMs não pouparam bombas de gás lacrimogêneo, bala de borracha e spray de pimenta. O saldo foi de pelo menos três feridos e quatro detidos.

O MPF classificou a operação de “arbitrária” e afirmou que a PM usou “medidas típicas de cumprimento de ordens contra criminosos”.

A Universidade Federal de Pernambuco emitiu nota dizendo que a desocupação “desrespeita frontalmente o acordo envolvendo diversas instituições, a Prefeitura do Recife e os empreendedores” e manifestando “preocupação quanto ao futuro das negociações iniciadas, que tinham como objetivo a defesa de uma cidade melhor, mais humana e mais inclusiva.” A Anistia Internacional também repudiou a ação e afirmou que “condena o uso excessivo da força”.

O acordo quebrado foi firmado com os integrantes do movimento Ocupe Estelita, no último dia 23 de maio, na presença de promotores do Ministério Público de Pernambuco, do MPF, da Secretaria de Defesa Social e Direitos Humanos, além de integrantes da Prefeitura de Recife. A presença de promotores, no entanto, não fez com que a PM honrasse sua palavra. Coincidência ou não, a escolha foi organizar a ação para o mesmo dia de um jogo do Brasil na Copa do Mundo (o segundo, contra o México), quando o caso poderia ter menos exposição na imprensa.

A desocupação é o mais recente episódio polêmico de uma briga iniciada em 2008 e que diz respeito a um problema não só do Recife, mas de várias capitais brasileiras: a falta de diálogo e consulta popular sobre o desenvolvimento da cidade, uma situação que beneficia as empreiteiras, as grandes financiadoras de campanha política no País.

O início

Há seis anos, a União decidiu leiloar o terreno do Cais José Estelita. O local tem uma área de aproximadamente 101,7 mil metros quadrados, abriga um pátio ferroviário e uma série de armazéns de açúcar abandonados pelo poder público. Apesar do cenário apocalíptico que domina o terreno, a propriedade está em um ponto estratégico da cidade.

A área fica entre Boa Viagem, bairro de classe média alta com uma avenida beira-mar dominada por edifícios de luxo, e o Recife Antigo, como é conhecido o centro histórico da capital pernambucana. Cartão postal do município por ficar de frente para a Bacia do Pina, o local chamou a atenção de um grupo de construtoras. Essas empresas criaram o Consórcio Novo Recife e desenvolveram um projeto com o mesmo nome para a região.

O grupo imobiliário, formado pelas construtoras Moura Dubeux, Queiroz Galvão, Ara Empreendimentos e GL Empreendimentos, comprou a área da antiga Rede Ferroviária Federal (RFFSA) por 55 milhões de reais. A ideia é construir pelo menos 12 torres, sendo sete residenciais, duas comerciais, dois flats e um hotel.

Tudo com até 40 andares, além de estacionamentos para aproximadamente 5.000 veículos. No total, o projeto foi orçado em 800 milhões de reais, com custo do metro quadrado estimado em pelo menos 4 mil reais. O preço inicial dos apartamentos vai variar entre 400 mil e 1 milhão de reais cada. O plano causou indignação em professores, arquitetos, movimentos sociais e moradores da região. Mobilizados, eles começaram a acompanhar reuniões do Conselho de Desenvolvimento Urbano (CDU) da Prefeitura, que avaliou a proposta imobiliária do Novo Recife.

O que começou como uma reivindicação natural da população por mais diálogo e participação levou à criação do grupo Direitos Urbanos, que hoje representa a maioria dos integrantes do Ocupe Estelita.

“A Direitos Urbanos canalizou todo mundo que estava insatisfeito. O projeto Novo Recife, por ser de frente para o rio [Bacia do Pina]; corredor natural de ventilação da cidade; área de patrimônio histórico; ligada a várias comunidades e bairros que sofrem pelo abandono dessa área, agrediu as pessoas, agrediu o senso estético das pessoas, e o que as pessoas pensam do que é sustentável”, diz a advogada Liana Cirne Lins, integrante do grupo.

“É um projeto que destrói uma paisagem muito bonita, uma das mais bonitas de quem vem de Boa Viagem. Não queremos esse desenvolvimento porque isso não é desenvolvimento. Isso  é retrocesso,  é um modelo de urbanismo da década de 70 da década de 80 que está superado”, afirma Lins.

À medida que o Direitos Urbanos se fortalecia, começaram a vir à tona as irregularidades do projeto Novo Recife. Por conta das denúncias, o plano imobiliário é alvo de cinco ações judiciais diferentes, sendo uma do Ministério Público Federal, uma do Ministério Público de Pernambuco e mais três ações populares.

Irregularidades

Não são poucos os problemas do projeto Novo Recife.

De acordo com o MPF, o primeiro deles é que o leilão da área nunca poderia ter sido feito. Isso porque toda vez que  a União vai vender uma propriedade pública é necessário consultar outros órgãos públicos que eventualmente tenham interesse na área.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) de Pernambuco havia manifestado vontade de se responsabilizar pela área, mas mesmo assim o leilão ocorreu e só o Consórcio Novo Recife se mostrou interessado no Cais José Estelita. Nenhuma outra empresa apareceu para disputar a compra da área. Com isso, o grupo imobiliário pagou o valor mínimo estipulado pelo governo federal para a propriedade.

Como desembolsou 55 milhões de reais por pouco mais de 100 mil metros quadrados, o Consórcio Novo Recife pagou pouco menos de 500 reais pelo metro quadrado. Isso em uma das capitais brasileiras mais caras para se morar no País. De acordo com índice Fipe/Zap (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas/Zap Imóveis), que acompanha os preços dos imóveis à venda anunciados na internet, o preço médio do metro quadrado na capital pernambucana é de 5.673 reais.

Ainda que tenha pago um valor irrisório para a área, o Consórcio Novo Recife também deixou de cumprir procedimentos básicos em projetos imobiliários dessa magnitude. O grupo não fez um estudo de impacto de vizinhança, estudo de impacto ambiental nem submeteu o projeto aos órgãos necessários, como o próprio Iphan, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e a Agência Nacional de Transportes Terrestres.

Apesar de tudo isso, o projeto imobiliário foi aprovado pelo Conselho de Desenvolvimento Urbano (CDU)  da Prefeitura de Recife  em 28 de dezembro de 2012, a poucos dias do fim da gestão do ex-prefeito João da Costa (PT-PE).  A sessão foi realizada  a portas fechadas e a advogada Liana Lins, do grupo Direitos Urbanos, foi proibida de participar do encontro.

O maior sinal de que o poder econômico  exerce influência desproporcional na disputa entre  construtoras e sociedade civil ocorreu alguns meses depois da aprovação do projeto no CDU. No início de 2013, a então promotora de Defesa do Meio Ambiente do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), Belize Câmara , participou de debates  sobre o projeto Novo Recife em audiências públicas e entrou com uma ação civil pública em que solicitou a suspensão do plano imobiliário. Entre outras coisas, Câmara argumentava que o projeto não obedecera critérios básicos, como o parcelamento do terreno [divisão em lotes] antes da aprovação do plano.

Alguns dias depois de a Justiça acolher o pedido e decretar a suspensão do licenciamento da obra, Belize Câmara foi afastada do cargo sob a justificativa de acumular funções. Isso porque ela também era titular na Promotoria da Infância de Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife. “Não posso falar [se foi pressão política que a fez ser afastada], mas isso [acumular funções] é comum entre os promotores. A sociedade não engoliu. O que eu posso dizer é que, em geral, são as maiores construtoras que fazem doações de campanha. E essas construtoras querem contrapartida. Isso gera uma espécie de promiscuidade entre a iniciativa privada e o poder público”, criticou a promotora.

Ocupe Estelita

Além do afastamento de uma adversária, chamou a atenção a facilidade do Consórcio Novo Recife para conseguir autorizações, documentos e alvarás mesmo sem seguir todos os procedimentos necessários.  No último 21 de maio, o grupo imobiliário conseguiu autorização da Prefeitura de Recife para demolir os armazéns de açúcar, mesmo após a Justiça ter proibido qualquer etapa da obra em função da ausência de estudos obrigatórios.

A demolição só não ocorreu por acaso. A derrubada, que seria realizada na calada da noite,  chamou a atenção de um dos ativistas da Direitos Urbanos. O publicitário Sergio Urt passava pela região do Cais José Estelita quando viu a movimentação e resolveu filmar. Ele deu a volta no terreno e conseguiu fotografar e registrar a derrubada da estrutura, mas acabou sendo visto pelos funcionários do grupo imobiliário. Só deu tempo de mandar as imagens para as primeiras pessoas de sua lista de contatos. Logo Urt foi cercado pelos seguranças e espancado. Ele teve o celular quebrado e os documentos roubados. Só após muita insistência conseguiu sua carteira de volta.

A informação circulou rapidamente no Facebook e uma multidão de pessoas foi ao terreno para protestar e pressionar pela interrupção da demolição. Para vigiar os funcionários e impedir que as máquinas voltassem a derrubar os armazéns, surgiu a ideia dos ativistas de ocupar o Cais José Estelita. Inspirados no “Ocupe Wall Street”, movimento de protesto contra a desigualdade econômica e social que surgiu nos Estados Unidos, eles buscaram barracas, mantimentos e resolveram passar a primeira noite na propriedade.

A partir daí, apesar do silêncio da imprensa pernambucana em relação ao caso, o movimento ganhou adesão e o número de ocupantes aumentou. Com a repercussão, o prefeito de Recife, Geraldo Júlio (PSB), aceitou intermediar uma negociação entre o grupo imobiliário e o movimento. Ainda assim, a Justiça concedeu reintegração de posse aos novos proprietários, mas a liminar foi contornada depois que a PM concordou em esperar o término das negociações. O alvará de demolição também foi suspenso pelo poder municipal.

Nos 28 dias em que durou a ocupação, o Ocupe Estelita ganhou também apoio da classe artística de Recife.

Músicos, escritores e cineastas ajudaram a romper com o silencia da mídia tradicional ao fazerem campanha pela causa na internet. Os músicos Ney Matogrosso e Zélia Duncan, o cineasta Kléber Mendonça e a banda Nação Zumbi foram alguns dos nomes que entoaram o coro. E, com o apoio estrutural do Som na Rural, projeto de música itinerante da capital pernambucana, o movimento conseguiu levar nomes da cena musical de Recife, como Karina Buhr e Otto, para fazer show na ocupação, de graça.

Em domingos diferentes, os dois levaram aproximadamente 10 mil pessoas ao Ocupa Estelita. A exposição gerou tensão até mesmo para Otto, uma figura pública conhecida. O cantor recebeu ligações com recomendações de  não tocar no Cais José Estelita. Otto atribuiu os avisos “apenas amigos desinformados”.

“Acho que a gente tem que mapear esses lugares que, às vezes, não é nem histórico. Mas tem que mapear para ver onde é que tem lugares como esse. Isso tem que ser uma ferramenta de mobilidade. “A gente nunca deixou de sofrer em Recife, mas só agora  temos um avanço tecnológico, com as mídias sociais, para segurar essa onda”, diz. “Em qualquer lugar do mundo, a construção de 12 torres é um impacto muito grande. O cimento tem muita força. Recife já é uma cidade muito afundada. Já destruíram muita coisa aqui”, defende Otto.

A pressão do capital

Apesar de Otto explicar que recebeu apenas ligações de amigos preocupados e não intimidações, esta não seria a primeira vez que as construtoras pernambucanas recorrem à rede de influências para tirar oponentes do caminho e conseguir levar seus projetos imobiliários à frente.

Autora de uma das ações do MPF contra o projeto Novo Recife, a procuradora da República Mona Lisa Ismail admite que o poder econômico das empresas costuma influenciar, sim, as decisões judiciais.

“O nosso país passa por uma crise de legitimidade institucional. Isso ficou claro com a onda de protestos e decorre da falta de credibilidade da população nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Na grande maioria das ações [no Judiciário] envolvendo interesses econômicos e empreendimentos de destaque, no final do processo, as decisões sempre tendem a beneficiar o interesse privado”, lamentou Mona Lisa em tom pessimista, quando questionada sobre a possibilidade da reintegração de posse ser cumprida no Cais José Estelita, um dia antes da PM aparecer de surpresa na ocupação.

Para Liana, a ação só deixa evidente a falência do Estado Democrático de Direito, já que ação foi “uma clara repressão política”. “O objetivo da ação da polícia do estado de Pernambuco claramente não era a desocupação do imóvel. Tratava-se de notório objetivo de usar da máxima violência contra os ativistas, ainda que, e especialmente porque, sem nenhuma necessidade que justificasse a ação agressiva. O direito está de luto e desempoderado. Em seu lugar comanda o dinheiro, com as instituições estatais a serviço do poder econômico”, afirma.

Apesar do desfecho, as lideranças do movimento Ocupe Estelita acreditam que a repercussão em torno da violência policial na reintegração de posse vai fortalecer ainda mais o movimento. Politicamente, o caso já criou uma saia justa. Vice na chapa de Eduardo Campos, a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva condenou a ação da PM. “O pedido de reintegração de posse expedido pela Justiça e executado nesta terça-feira poderia ter seguido o mesmo princípio do diálogo, em vez de terminar com uma desocupação arbitrária”, escreveu ela no Facebook. Eduardo Campos continua calado.

Outro lado

A reportagem de CartaCapital questionou a gestão de Geraldo Júlio sobre como, entre outras coisas, a Prefeitura de Recife concedeu alvará de demolição dos armazéns do Cais José Estelita mesmo após a Justiça ter dado liminar que suspendeu parte do projeto. A assessoria de imprensa respondeu apenas que este ato “não envolve a atual gestão”. Além disso, o comunicado enfatiza o papel do prefeito no que diz respeito as ações mitigatórias, como são chamadas medidas que tentam reduzir impacto negativa de alguma obra.

“Esta atuação garantiu os seguintes benefícios para a cidade: Parque Linear com 90 mil metros quadrados ao longo da Bacia do Pina (maior que o Parque da Jaqueira); seis quadras poliesportivas e áreas de lazer sob o Viaduto Capitão Temudo; Biblioteca Pública no giradouro do Cabanga; intervenção na esplanada do Forte das Cinco Pontas, com a demolição do viaduto, urbanização e paisagismo; implantação de ciclovia conectando a zona sul com o Bairro do Recife; dentre 16 medidas acordadas, quase duplicando o valor sob responsabilidade do empreendedor, de 32 para 62 milhões de reais”, diz o texto. Estas ações, no entanto, são bastante questionadas pelos integrantes do movimento Ocupe Estelita já que o Parque Linear ficaria localizado entre duas vias de alta velocidade. Além disso, a principal reivindicação é rever a construção das torres de luxo.

O Consórcio Novo Recife, por sua vez, nega que o leilão tenha sido realizado de forma irregular. De acordo com a assessoria de imprensa do grupo imobiliário, o Iphan não manifestou interesse na área a tempo. Essas afirmações não batem com os fatos apresentados pela procuradora Mona Lisa Ismail, que diz ter ouvido técnicos do Iphan tanto de Pernambuco como de Brasília.

“O que o MPF não diz é que tanto o pleno do TRF/5ª Região, quanto a sua 4ª Turma, foram unânimes em cassar a decisão liminar do 1º Grau (21ª Vara Federal/PE), que acolhia a sua pretensão de obstaculizar o projeto Novo Recife, por equivocadamente considerar que o Pátio Ferroviário das Cinco Pontas [localizado dentro do Cais José Estelita] deveria ser preservado como um todo, o que, aliás, como informado discorda o Iphan, que não se opõe a construção do empreendimento”, rebate o texto.

Sobre as acusações de não ter parcelado o terreno ou elaborado estudos, como o Estudo de Impacto de Vizinhança, entre outros, a assessoria de imprensa do Consórcio Novo Recife resume que “todos os procedimentos legais foram cumpridos”. “O projeto atende rigorosamente as Leis municipal, estadual e federal, e todos os estudos necessários para sua aprovação foram anexados, inclusive com a apresentação do Memorial de Impacto”, afirma o comunicado.

Sobre as ausências de laudos elaborados por órgãos como o Dnit, o Consórcio Novo Recife esclarece que irá submeter o projeto quando for necessário emitir “Alvarás de Construção”. “O projeto tem a liberação e concordância por parte do Iphan. As consultas ao Dnit e ANTT, como recomendado na aprovação pelo CDU (Conselho de Desenvolvimento Urbano), e solicitadas pela Superintendência Regional do Iphan, serão necessárias na ocasião da emissão dos Alvarás de Construção, procedimentos, ainda, em curso”, conclui.

Leia também:

#OcupeEstelita e os barões da destruição imobiliária em Recife

O post Brutal desocupação do Cais Estelita atropela até o MP de Pernambuco apareceu primeiro em Viomundo - O que você não vê na mídia.

17 Jun 13:16

Que dó da formiguinha branca-europeia que ‘descobriu’ que ‘sofre racismo’

by mariafro

Juro que não vou comentar nada sobre o complexo de vira-latas, além de desnecessário, porque ele se configura de modo didático no post, o melhor de tudo são as respostas dadas para a empresária:

Eis o post, clique nas imagens para ampliá-las:

Eis os comentários impagáveis, apenas um reforça o post original, mas todos mostram bem a diferença entre Brazil e Brasil:

Transcrevo o de Jeferson Monteiro, o criador de Dilma Bolada

Jeferson Monteiro
“Até onde sei, ninguém falou que alguém era ou deixava de ser brasileiro, foi dito sim a diferença entre o povo brasileiro e a elite paulistana que puxou as vaias(isso foi noticiado pelo Estadão). Agora se a carapuça serviu pra bonita, que faça bom uso. É o cúmulo do ridículo usar a página da empresa pra querer aparecer, pagar de vítima e se vangloriar de coisas que não são mais que sua obrigação.
Engraçado que a burrice é tamanha que acha que Lula tá querendo mesmo criar uma rixa entre o novo empresariado brasileiro que ascendeu graças a ele mesmo.
A diferença entre a elite ignorante e o povo não é a conta bancárias ou bens pessoais, é o caráter, tem muito empresário bem sucedido por aí que é muito mais do povo que pessoas como você que está começando agora, você poderia perfeitamente se enquadrar na categoria do povo brasileiro mas prefere ter o seu lado, como você mesmo disse, a elite branco-europeia nascida no Brasil. Mas não me surpreende: quem nasceu pra ser Cofee Lab jamais será uma Magazine Luiza.
Em tempo, acho que vc merece um Nobel por dar emprego pra 50 pessoas. E Lula e Dilma que deram emprego pra 20 milhões, nem sei o que devem ganhar…”





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17 Jun 12:30

The Brazilian 1% at the World Cup opener: an elite in need of a reality check

by Mauricio Savarese

By Milly Lacombe

At the opening of the 2014 World Cup, Neymar scored the goal that gave the Brazilian team the lead. The crowd cheered for a few seconds, but then they decided that it was time to do something else: insult President Dilma Rousseff, who was there watching the game with them. Nothing could define our elite in more precise manner.

That very elite was, on that day, introduced to the poor urban area of Itaquera, in São Paulo, where the brand new Arena Corinthians is located. It is an elite that, taking an educated guess here, goes to football matches with the regularity that the Halley’s comet comes across our neighborhood. When told they would have free tickets to the VIP area of the opening game of the World Cup – an event that they bitched over and over for the last seven years –, not only our elite gladly accepted them, but also rushed to fancy stores to buy Brazilian team jerseys and whatever else they could put their hands on. It is an elite that took cars driven by chauffeurs to get to the stadium, despite the fact the subway could take them even closer to the gates.

At least they felt safe, since the Brazilian people wouldn’t be attending – neither on the stands, due to extremely high prices, nor at the upscale VIP area where they were heading to. The stadium was sanitized for the luxurious event.

To the hell with the criticism to the World Cup they were verbalizing angrily for the past years: “If I got this VIP ticket for free I’ll be there, and later I can get back to bashing the event and complaining about the damned use of people’s money in all those stadiums.” The thing is this elite of ours never misses a free event with VIP passes. They surely can’t stand corruption at the federal level, although they seem to have no problem with tax frauds or with bribing anyone whenever it becomes “necessary.” “How do I get to that Itaquera neighborhood by the way, does anyone know?”

Inside the stadium, the national anthem was carried by them, collectively, loudly and proudly. What a beautiful thing it was, but  what for? With which purposes? There is no time to reflect on it; let the game begin.

The so called one percent decided it was time to cheer for the team. For a couple of minutes at least, before diving into a huge silence. And then into more silence. It began to look something different from a football match. Croatia, the other team playing that day, had scored. The silence deepens, as if it was even possible. When Neymar tied it, the elite decided to stand up and chant for another three minutes, and then they, a polite crowd, sat down.

Half time. And time to Instagram all the pictures they were happily taking during the first half. Women in high-heels, tight jeans, lots of make up. Men wearing perfectly heckled hairs, not a line out of place, jeans just as tight, and super clean shoes. They complained about the bathroom and bar lines and they didn’t seem very happy with the slow Internet connection either. It’s important to promptly Instagram their happiness and their joy and their richness to friends and friends of friends. They are not used to waiting, these people. They never do it in the outside world — their world — so why should they wait at a football match? “Bring me my beer right away, damn waiter!” Second half was about to begin.

Brazil got, by the blessing of a benevolent referee, an nonexistent penalty kick. Neymar scored again. The one percent cheered for another minute and then decide it is time to say a collective “up yours,” along with hand gestures, to Rousseff, sitting next to FIFA’s president Sepp Blatter. The sound they made was loud and clear: “Ei, Dilma, vai tomar no cu.” It’s offensive and it is vulgar. They knew it, so they chanted louder. The whole world could hear the nice and polite Brazilian one percent collectively insult their commander-in-chief.

At this point my indignation sky rocked, and I want to talk a little about that.

Right after a decisive goal you simply get to your feet and scream and dance and hug whoever happens to be on your side. After a decisive goal you do not give your back to the pitch to insult the President of your country.

The matter here is less one of ‘insulting’ — though the vulgarity was enormous — and more one of ‘timing’. If you go to football matches in Brazil, you know insulting and booing are part of the spectacle.

Of course we would have to separate things here, since the insults were aimed at the President and echoed by thousands of famous and rich people. It’s only reasonable that we examine this within context, and not only using the guidelines of Brazilian football stadiums banter.

It’s one thing to insult a player or a team or the referee. It is another to have the one percent insulting the President face to face so the world could see it.

Brazilians have made funny and creative songs to mock public figures and chanted them collectively – as it was done in Mineirão, in Minas Gerais, when Brazil played Argentina some years ago. Back then, Aecio Neves, Rousseff’s main contender for the presidential elections this year and then a Minas Gerais state governor, was mocked in a match attended by the people and not exclusively by the elite. It is all part of the game.

In Itaquera it was different. And the timing – right after a decisive goal – tells us a lot about who we are.

It was a symptom of our alienation. We are disconnected from reality, we can’t attach ourselves to deep emotions anymore. We are infected with pragmatism, craving for our vacant souls, in desperate need for something that elevates us to higher grounds. We know how to hate, but forgot how to love. We are infantile and spoiled. We were brought up that way, and it’s a hard thing to break free from these chains and see the world like it is.

Meanwhile, on the pitch, the Brazilian team mirrors that elite that is now insulting the commander-in-chief: playing cowardly, deceptively, snobbishly; a team that prefers to fool than to play, that prefers to con than to work hard – a powerful metaphor for our elite’s way of life.

Brazilian forward Fred had taken the ball to the Croatian penalty box and had a clear chance of keeping it so he could try a memorable goal, but instead he chose to dive theatrically, clearly hoping for a penalty kick. It’s simply easier and more fun to fool the authorities than to sweat for achievement.

Someone on Twitter said it is easy to insult commander-in-chief in a choir; the hard thing to do is to attend the game knowing you are going to be insulted by tens of thousands.

Let’s put ourselves in Ms. Rousseff’s shoes – even those who don’t like her administration. How many of us would have attended the opening game knowing we would be bumper to bumper with the one percent that never liked us in the first place, and knowing that we would be booed at?

Of course booing was not what happened there, as it was in Maracanã, when thousands of people booed then President Luiz Inacio Lula da Silva, during the 2007 Pan-american games opening ceremony. But still. Would you attend, knowing you’d be going down that same road?

By ms. Rousseff’s side was Sepp Blatter, the president of one of the nastiest bodies on the face of the Earth: FIFA. A man accused of so many crimes that we can’t even begin to name them here. If ms. Rousseff was being insulted because that elite thinks she is the leader of a corrupted government (and let’s imagine that that was the reason), why wasn’t Blatter insulted too? What kind of selective ethic is this from our extremely polite one percent?

This probably has is something to do with the fact that he is a man, and we cannot exclude machismo from what happened there, simply because machismo is alive and kicking inside that sophisticated elite of ours.

Every time I chat with one of them – and I cannot completely exclude myself from them because I was born in it – I ask what got worse in their lives in the past 12 years, since Lula’s party started holding the presidency. They have no answer for me other than generally traffic, violence and poor education given to the people – a sweet irony if put in the lights of what happened inside that stadium.

They also avoid going deep into the subject, maybe because they know things got better for those 40 million that were taken from inhumane conditions of life and ended up joining what is generally called as middle class. Also because they might understand that they are richer than ever and that the chaotic traffic in the streets of São Paulo is the solely responsibility of the governor of the state; a state that for the past 20 years have been administrated by the right wing and conservative party PSDB.

At that specific game they collectively and loudly cursed the commander-in-chief for leading an corrupted administration because apparently the cannot tolerate corruption.  Still, they will be celebrating a Brazil victory that was a clear rip off, a contradiction that their alienation stops them from seeing.

If in that stadium there were only workers and maids and buzz boys and rural workers and bus drivers, would President Rousseff be collectively insulted as she was?

I think she wouldn’t.

These are the people that know that a lot of things have changed in the past 12 years. They understand that a World Cup match is too important to be wasted on insults to the head of State and that it’s necessary to enter the game with all their souls. They know that that kind of communion does not happen very often and that it was time to support the team, which was in need. The truth with a capital T is that the people excluded from the stadiums during this event are much more elegant than us.


16 Jun 12:04

Na rede, gringos combatem o complexo de vira-latas brasileiro

by Luiz Carlos Azenha

O sistema automatizado de entrega de bagagens do aeroporto internacional de Denver foi um dos maiores fracassos da História recente da construção civil. Estourou o orçamento, destruía as bagagens e teve de ser abandonado. Ah, se fosse no Brasil…

Gringos “provam” que problemas não são “só no Brasil” e também reclamam

por Fabiana Uchinaka, sugerido por SM

Do UOL, em São Paulo 13/06/201406h00

Só no Brasil… o transporte atrasa, não há táxis, a fila não anda, o aeroporto é uma bagunça, o ônibus é lotado. Só no Brasil existe burocracia, injustiça e corrupção. Só no Brasil tem protesto e confusão.

Só que… não.

Desde que o país do futebol virou o palco desta Copa do Mundo, a expressão virou o bordão dos brasileiros para reclamar dos problemas mais sérios –ou esdrúxulos– que temos por aqui e para manifestar grandes doses de “vergonha” pelo mundo estar vendo nossas mazelas. Mas os comentários dos internautas de outros países nas redes sociais têm mostrado que não é bem assim.

A revista britânica The Economist publicou na terça-feira (10) o texto “Traffic and tempers” (algo como “trânsito e humores”) no Facebook, que traz um relato do imbróglio que é circular por São Paulo na véspera do Mundial e diz que “no momento em que você aterrissa no Brasil você começa a perder tempo”. Dezenas de gringos rebateram o artigo com frases que podem deixar alguns internautas canarinhos chocados:

“Parece quando você visita o departamento da Receita da Filadélfia [nos EUA] para pagar uma conta”, diz o americano Sam Sherman.

“Há filas diárias por táxis no aeroporto Schiphol, em Amsterdã… E não é Copa do Mundo”, conta Tatyana Cade.

“Cena diária do trajeto em Tóquio, exatamente como esta imagem”, alerta Ryo Yagishita.

“Parece a Argentina, nada mais refrescante que viajar como gado depois de um longo dia de trabalho”, descreve Pao Radeljak. “Me lembra Buenos Aires”, completa Paola Scarlett.

“A mesma coisa aconteceu com os brasileiros quando eles viajaram de Heathrow para Gatwick. O engarrafamento caótico de Londres [que sediou a última Olimpíada] também é mundialmente famoso. Depois, pense no eletricista inocente que foi morto por policiais justiceiros no metrô de Londres, que disseram que ele era terrorista [caso Jean Charles de Menezes]. Não é uma vergonha para um país desenvolvido reclamar do Brasil quando também tem problemas em seu país? Pense nos manifestantes em Londres, e na destruição por quatro dias alguns anos atrás. Então vira vergonha duplar”, afirmou Naithirithi Chellappa.

“Para todos os brasileiros que reclamam de seu país: vocês deveriam tentar viver na Europa por um minuto. Sim, nós temos tudo regulado, mas as coisas estão cada vez mais nazistas. E falar sobre corrupção? Você acha que não acontece aqui? Aqui é tão desenvolvido que você nem vê, está muito escondido e tudo é feito por políticos e outros criminosos [daqui] fora da Europa”, analisa o holandês Roas Metten. “A polícia é uma piada, eles não pegam criminosos, eles dão multas o dia todo.”

Metten completa: “Os abraços e beijos que recebo em um mês no Brasil, não ganharia em dez anos na Europa. Então talvez as coisas aqui sejam melhores reguladas pelas leis e sistemas, mas é um inferno culturalmente e nas relações.”

O espanhol Álvaro Munhoz tenta fazer uma análise mais ampla: “Para falar a verdade, se o número de pessoas que chega ao mesmo tempo excede a capacidade, a situação poderia acontecer em qualquer lugar do mundo.”

Enquanto o internauta Leandro Cintra aproveitou para contar que recentemente levou 40 minutos para conseguir um táxi… em Nova York (EUA). E mais meia hora para entrar em um ônibus… em Fort Lauderdale (EUA). Já Wenderson Neves lembrou que a fila na imigração de Londres é de pelo menos duas horas com policiais muito pouco cordiais.

A também britânica BBC perguntou em texto publicado na terça: “What is it like to live in a Favela?” (Como é viver numa favela?). E a internauta Adreane Bertumen prontamente respondeu: “Todo país, toda cidade tem a sua ‘favela’. Gueto é gueto em todos os lugares. O Brasil não é o único”.

“Essas favelas não são nada comparadas às que temos em Nairóbi, no Quênia”, diz Eric Murimi. “Venham ver Sodoma e Gomorra em Gana”, convida Leroy Amankwa.

“Nos Estados Unidos, nós precisamos acordar e olhar ao redor. É difícil achar uma cidade que não tenha acampamentos de sem-teto por todo seu perímetro. Bem escondidos, mas estão cada vez maiores a cada ano. Não estamos em posição de jogar pedra em outros governo”, ressalta Marie Lawson. “Nos EUA, temos guetos e estacionamentos de trailers”, concorda Eric D Molino.

PS do Viomundo: Foi justamente por isso que escrevi, dias atrás, no Facebook, sobre minhas quase duas décadas de moradia em Nova York e Washington:

Esse Dan Stulbach [em comentário na ESPN] é um bobão, que fica falando coisas manjadas para agradar a turma do complexo de vira-latas. Acaba de sentir as dores da FIFA pelo fato de que assentos foram instalados no Itaquerão na semana da estreia. Grande coisa. Será que ele já viu outros eventos internacionais, onde muitas coisas são feitas de última hora, no mundo todo? Os bobocas da classe média precisam desta ideia de que são privilegiados por viajar a Nova York, Londres e Paris, onde nada atrasa e tudo dá absolutamente certo, ao contrário do Brasil. É o último bastião dos vira-latas para que eles se sintam privilegiados em relação aos brasileiros “comuns”. Se esse bobão quiser ouvir eu conto 20 anos de histórias de coisas que não deram certo em Nova York…

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FIFA dá ao exoesqueleto menos tempo que o de um comercial da Budweiser

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16 Jun 11:56

Os esqueletos de Aécio

by Luis Fausto

Título e texto de Ricardo Melo, na Folha de S.Paulo:

Ninguém é obrigado a ser candidato a presidente. Mas quem abraça a causa deve saber que sua vida está sujeita a ser esquadrinhada –Mirian Cordeiro que o diga. O tucano Aécio Neves, agora candidato oficial do PSDB, parece incomodado nesta missão.

Ainda pré-candidato, Aécio começou mal. Decidiu fugir de perguntas incômodas, atacar as críticas como obra de um submundo e acionar a Justiça para tentar limpar uma biografia no mínimo controvertida. Nada a favor dos facínoras que inventam mentiras em redes sociais para desqualificar adversários. Mas daí a ignorar questionamentos vai uma distância enorme.

A repórter Malu Delgado, da revista “piauí”, prestou um belo serviço ao escrever um perfil do tucano. Lá estão prós e contras, alinhados com sobriedade e rigor jornalístico. Cada um que chegue às suas conclusões. Por enquanto, elas soam desfavoráveis ao candidato.

Deixe-se de lado qualquer falso moralismo. É direito do eleitor sabatinar quem se propõe a dirigir o país. A fronteira entre o público e o privado se esmaece, sem que isso signifique a condenação a priori de qualquer um.

Vídeos na internet mostram práticas nada republicanas, como gostam de falar, por parte do então governador de Minas Gerais. Entre outras façanhas em bares e blitze, montou uma tropa de choque midiática para sufocar críticas.

Tanto fez que a guilhotina tucana decapitou sem piedade inúmeros jornalistas em Minas Gerais. Os testemunhos estão à disposição, basta querer ver e ouvir.

Sombras permanecem. A questão das drogas é uma delas, e cabe ao candidato refutá-las ou não; ao eleitor, mensurar a sinceridade dos depoimentos e até que ponto o tema interfere na avaliação do postulante. Aécio tem se embaralhado frequentemente no assunto. Adotou como refúgio a acusação de que tudo não passa de calúnias. Ao vivo, acusou jornalistas reconhecidamente sérios de dar vazão a rumores eletrônicos. Convenceu? Algo a conferir.

Na reportagem citada, destaca-se um mistério. Uma verba de R$ 4,3 bilhões, supostamente destinada à saúde, sumiu dos registros oficiais do Estado. Apesar de contabilizada na propaganda, a quantia inexiste nos livros de quem teria investido o dinheiro.

O caso foi a arquivo sem ter o mérito da questão examinado. A promotora autora da denúncia insiste na ação de improbidade. Na falta de esclarecimentos dos acusados, aguarda-se o veredicto da Justiça.

Esqueletos à parte, na convenção de sábado (14) Aécio teve a chance de ao menos apresentar um programa que justificasse a candidatura. Perda de tempo. O evento faria corar a banda de música da finada UDN. Discursos mirabolantes se esforçaram para preencher o vazio de alternativas.

Ouviram-se insistentemente anátemas contra a corrupção. Ninguém se referiu, contudo, às peripécias do mensalão mineiro e às manobras, também nada republicanas, do correligionário Eduardo Azeredo para escapar de uma condenação.

O distinto público continua sem saber se o salário mínimo vai mudar, se a aposentadoria fica como está, se haverá um tarifaço e quais medidas um governo tucano propõe para melhorar o bem-estar do povo. Ministérios serão cortados, esbraveja o senador. Mas quais? A reeleição, comprada a peso de ouro pelo seu partido na gestão FHC, vai mesmo acabar? A respeito disso tudo, o que ressoa é o eco das tais “medidas impopulares”.

Em lugar de propostas, metáforas mal construídas que começam com brisa, crescem para ventania e acabam em tsunami. Talvez porque Minas não tenha acesso ao mar.

Se quiser seguir em frente, Aécio Neves está muito a dever. Saiu da zona de conforto mineira, em que a imprensa é garroteada impiedosamente para abafar desmandos de gestão. O jogo mudou, e o neto de Tancredo deve providenciar urgentemente garrafas para vender.

Não adianta apostar apenas no erro do adversário. Amante de relógios caros, muitos deles capazes de quitar com seu valor dezenas e dezenas de prestações de aspirantes a uma casa própria, o tucano já deveria ter aprendido que quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

16 Jun 09:47

Aos poucos, realidade vai matando o “imagina na Copa”

by Luiz Carlos Azenha

A invasão colombiana do Mineirão, na primeira rodada

por Luiz Carlos Azenha

Quando Vladimir Safatle escreveu um artigo intitulado Não Teve Copa, publicado na Folha, que reproduzimos — aliás, com uma argumentação convincente para alguém que defende aquele ponto-de-vista –, acrescentei um adendo como PS do Viomundo, que dizia:

O meu conhecimento (do Azenha) da Copa do Mundo, de ter vivido algumas pessoalmente nos países-sede, é de que depois de duas semanas o país literalmente enlouquece pelo evento. Tenho a impressão de que o Safatle desconhece o poder do futebol no imaginário do brasileiro.

Ainda é cedo para declarar a organização da Copa como tendo sido absolutamente bem sucedida. Muita água ainda vai rolar.

Porém, as pessoas estão começando a se encantar com o evento, para dizer o mínimo — e a primeira rodada nem terminou.

Há mesmo algo de especial num acontecimento que consegue arrastar 35 mil colombianos para ver uma partida de futebol no Mineirão, bem longe de casa.

Enfatizemos: a Copa privatizada é um evento frequentado majoritariamente por ricos e classe média alta. Mas isso não diminui o encanto nas cidades que sediam as partidas, por conta do clima criado por gente do mundo todo, cujas interações são baseadas unicamente na paixão pelo esporte. De repente, você se descobre falando sobre futebol  com um camaronês, um nigeriano e dois norte-americanos que nunca viu antes na vida…

Em Belo Horizonte, num aeroporto, o jogo Uruguai vs. Costa Rica juntou norte-americanos, colombianos, brasileiros, chineses e japoneses na plateia, além de gregos de cabeça inchada (haviam perdido de 3 a 0).

Só tenho como comparar o evento do Brasil às três Copas que acompanhei bem de perto: Itália, em 1990, onde passei 40 dias; Estados Unidos, onde eu vivia em 1994; França, em 1998, de onde fiz viagens aos países adversários do Brasil.

Dessa vez a qualidade do futebol e o número de gols nos surpreendeu positivamente.

Mas a mídia corporativa, que por motivos políticos promoveu a maior campanha já vista contra um evento esportivo em nossa História, jamais vai admitir o que também está se confirmando: no essencial, a organização foi bem sucedida.

É possível apontar erros e obras inacabadas, mas nada que comprometa o essencial para os torcedores: capacidade de transporte, comunicação e qualidade dos estádios — em termos de conforto e visão dos jogos.

Em Belo Horizonte, por exemplo, há transporte bom e barato entre os aeroportos e o Mineirão, o que facilita muito para aqueles que acompanham suas seleções e fazem viagens rápidas, num país continental.

Embora falte sinalização em inglês e espanhol em muitos lugares, há um grande número de pessoas fornecendo informações, especialmente mas não apenas nos aeroportos.

Em Confins, turistas estrangeiros no saguão reclamaram do sinal de transmissão dos jogos, baixado pela internet (depois descobrimos tratar-se de algo bancado por um patrocinador). Um dos visitantes pediu que eu reclamasse em nome dele. Fui fazê-lo e, para nossa surpresa, descobrimos que havia um ambiente especial para os passageiros em espera (retratado abaixo).

Tudo muito bacana, bem organizado.

Ah, sim, algo absolutamente essencial existe em grande quantidade nos aeroportos: torres para recarregar aparelhos eletrônicos. Ninguém merece ficar sem bateria no meio de um jogo, né mesmo?

É óbvio que você pode fazer uma longa lista de problemas, aqui e ali, coisas que acontecem em eventos complexos como a Copa.

Mas parece que nas questões absolutamente essenciais — estádios, aeroportos e comunicação — as coisas estão funcionando num padrão que não deve nada aos eventos anteriores que acompanhei de perto.

Muito cedo, a Copa brasileira já é bem mais empolgante que a dos Estados Unidos; já teve exibições brilhantes em campo, melhores que as da Copa da Itália e, pelo jeito, logo vai arrastar as multidões que promoveram festas empolgantes nas ruas de Paris na segunda fase do Mundial de 1998.

Obviamente que aqueles que sofrem da síndrome de vira-latas vão fazer uma lista dos motivos pelos quais prefeririam ver a Copa em outro país. Mas, como escrevi anteriormente, isso não tem a ver com as condições objetivas da organização. É a necessidade da classe média de se diferenciar dos outros pelo status social, de imaginar que fez algo que seu interlocutor jamais conseguirá fazer.

Tirando isso, lentamente o “imagina na Copa” vai sendo enterrado.

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14 Jun 18:17

Professora: “Absurda” a busca e apreensão na UFRJ a pedido de Aécio

by Luiz Carlos Azenha

por Luiz Carlos Azenha

A professora Monica Grin Monteiro de Barros, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, está no rol dos cinco acusados pelo senador Aécio Neves, candidato do PSDB ao Planalto, de difamá-lo na internet.

Da lista também faz parte a jornalista carioca Rebeca Mafra, que denunciou ter tido a casa revirada pela polícia sem nunca ter feito qualquer comentário ofensivo a Aécio Neves na internet.

Por conta disso, a pedido do Ministério Público do Rio de Janeiro um juiz carioca autorizou busca e apreensão numa repartição da UFRJ.

A professora Maria Paula Araujo, colega dela, considerou a situação “absurda” e um indício de que o senador “não tolera a liberdade de expressão”.

Eis a explicação que ela deu no Facebook, em comentário que nos foi encaminhado por um amigo:

PS do Viomundo: A assessoria do PSDB disse que o senador não pediu busca e apreensão, que foi uma decisão do MP, mas podemos dizer que a ação policial resultou de uma demanda do candidato tucano.

PS2 do Viomundo: Como na caso envolvendo Carla Hirt e outros ativistas do Rio de Janeiro, este é mais um caso em que as pessoas acusadas de “formar quadrilha” não se conhecem!

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Polícia faz busca em casa de jornalista: “Nunca falei nada do Aécio”

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12 Jun 01:59

OAB repudia atitude de Barbosa contra advogado de Genoino

by Conceição Lemes

Para a OAB, o presidente do STF não é intocável e deve explicações à advocacia brasileira

Nota do Conselho Federal da OAB, via e-mail, sugerido por Antônio David 

A diretoria do Conselho Federal da OAB repudia de forma veemente a atitude do presidente do STF, ministro Joaquim Barbosa, que expulsou da tribuna do tribunal e pôs para fora da sessão mediante coação por segurança o advogado Luiz Fernando Pacheco, que apresentava uma questão de ordem, no limite da sua atuação profissional, nos termos da Lei 8.906.

O advogado é inviolável no exercício da profissão. O presidente do STF, que jurou cumprir a Carta Federal, traiu seu compromisso ao desrespeitar o advogado na tribuna da Suprema Corte. Sequer a ditadura militar chegou tão longe no que se refere ao exercício da advocacia.

A OAB Nacional estudará as diversas formas de obter a reparação por essa agressão ao Estado de Direito e ao livre exercício profissional. O presidente do STF não é intocável e deve dar as devidas explicações à advocacia brasileira.

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Polícia faz busca e apreensão em casa de jornalista carioca, que diz: “Nunca falei nada do Aécio” nas redes sociais

Mídia Ninja denuncia “prisão preventiva” de ativistas no Rio

Depois de vida em favelas, Márcia terá casa própria: “Dilma, eu te amo!”

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07 Jun 10:35

Family Love - Afghanistan









Family Love - Afghanistan

06 Jun 19:17

Uma outra cidade é possível?

by raquelrolnik

Uma grande mobilização da sociedade civil no Recife, contra um megaempreendimento imobiliário a ser construído em terreno que pertenceu à Rede Ferroviária Federal (RFFSA), merece atenção porque tem a ver com processos em curso em várias cidades brasileiras hoje.

Em tempos de crescimento desenfreado do preço dos imóveis, especialmente em nossas metrópoles, e “expulsão” de moradores de menor renda para as periferias, a discussão sobre o destino de terras públicas é fundamental. Essas terras são praticamente a única oportunidade que temos de desenvolver projetos públicos, não lucrativos, em área bem localizada.

Os protestos que estamos vendo hoje no Recife dizem respeito ao futuro de um terreno de 100 mil m² no centro da cidade, o Cais José Estelita, que foi arrematado à União por um consórcio formado por quatro grandes construtoras, em leilão realizado em 2008. Formado por Moura Dubeux, Queiroz Galvão, Ara Empreendimentos e GL Empreendimentos, o consórcio pretende implementar na área o chamado Projeto Novo Recife, que prevê a construção de 12 torres residenciais e comerciais, com cerca de 40 andares.

Ninguém, claro, consultou a população para saber se o melhor destino para aquela área era, em primeiro lugar, vendê-la, e em segundo, ali erigir torres para escritórios e residências de alta renda.

Recentemente, na noite de 21 de maio, manifestantes ocuparam o cais para impedir a demolição dos antigos armazéns da RFFSA. Mas nem a Prefeitura, nem a mídia local, nem as construtoras esperavam que o movimento “Ocupe Estelita”, liderado pelo grupo Direitos Urbanos, tomasse a proporção que tomou.

Nestes pouco mais de dez dias, a ocupação ganhou forte apoio dos recifenses. Artistas, intelectuais, professores, sindicatos, organizações da sociedade civil, não apenas locais, mas de todo o país, vêm manifestando seu apoio à manifestação nas redes sociais.

Foto: Mídia Ninja

Foto: Mídia Ninja

No domingo passado, mais de dez mil pessoas tiveram pela primeira vez a oportunidade de conhecer o imenso terreno do cais, antes escondido atrás de muros e portões. Durante todo o dia, o local foi palco de oficinas, debates, intervenções artísticas, shows, numa grande manifestação do desejo da população de discutir os rumos daquele território, tão estratégico para a cidade.

Ontem, finalmente, aconteceu uma primeira reunião entre a Prefeitura, instituições locais e representantes do movimento Ocupe Estelita. Ao final do encontro, a Prefeitura anunciou a suspensão da licença para a demolição dos armazéns do cais (já embargada pelo Iphan), e agendou duas novas reuniões para dar continuidade à discussão.

Sem dúvidas esta foi uma vitória importante para o movimento, uma vez que uma de suas principais reivindicações é a abertura de canais de diálogo onde seja possível discutir projetos alternativos para a área.

Por todos os seus impactos – sociais, ambientais, na paisagem e no patrimônio histórico e cultural –, o projeto Novo Recife tem sido alvo de muitas críticas. Além de toda a movimentação da sociedade civil, cinco ações o questionam na Justiça. Obviamente, ninguém deseja que aquela área continue abandonada. O grupo Direitos Urbanos já apresentou inclusive diversas propostas e outro grupos podem ter outras.

O que está acontecendo no Recife é apenas um exemplo da longa história de usurpação das terras públicas no Brasil. Mais recentemente, sob a forma de parcerias público-privadas, vimos grandes áreas públicas serem ocupadas por empreendimentos imobiliários de discutível interesse público. É o caso da Cidade da Copa, na própria região metropolitana do Recife, e do projeto Porto Maravilha, no Rio de Janeiro.

A decisão sobre o que fazer nesses terrenos, por que, como e pra quem é fundamental para nossas cidades e merece debate público amplo, aberto e transparente.

Mas o que acontece no Recife mostra também que os moradores de nossas cidades estão cansados de transformações urbanísticas que ignoram solenemente a perspectiva dos cidadãos, suas relações históricas e afetivas com o lugar, suas propostas de transformação.

Em todas as nossas grandes cidades, cada vez mais, a população tem deixado claro que quer discutir, participar, propor alternativas, enfim, intervir diretamente em decisões que impactam suas vidas tão profundamente.

*Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.


05 Jun 11:25

O “submundo” de Aécio Neves

by Kiko Nogueira
  O submundo a que gosta de se referir Aécio Neves — responsável, segundo ele, pela disseminação de boatos acerca de sua pessoa — é uma resposta padrão a tudo o que ele não controla. Não que Aécio não esteja acostumado a operar num submundo. O fogo cruzado entre ele e Serra, através...
05 Jun 11:17

Caçada aos blogueiros

by Luis Fausto

Do jornalista Paulo Moreira Leite:

Vamos falar da substância das coisas. A caçada a blogueiros simpáticos às conquistas criadas no país depois da posse de Lula, em 2003, iniciada com a investigação sobre um suposto “bunker” do PT na prefeitura de Guarulhos, deve ser visto como aquilo que é.
Uma tentativa autoritária de silenciar vozes que divergem do monopólio político da mídia.

Sei que essa frase parece panfleto esquerdista mas não é.

Num país onde 141 milhões de eleitores foram transformados em reserva de mercado de uma midia monopolizada pelo pensamento conservador,  a internet tornou-se um espaço de resistência de uma sociedadde contraditória e diversificada. Todo mundo – direita, esquerda, centro, nada, tudo, xixi, cocô – está ali.

Vamos combinar. Hipocrisia demais não funciona. Truculência também não.

Até para ter um pouco de credibilidade, sem traços claros de ação eleitoral, a  denúncia contra bloqueiros deveria ser acompanhada pela exposição pública da contabilidade dos grupos de mídia que loteiam cada minuto de sua programação e cada centímetro quadrado de suas páginas com milionárias verbas de publicidade federal, estatual, municipal – sem falar em empresas estatais.

Estamos falando de serviços  de mendicância publicitária, de caráter milionário.

Seguido o método empregado em Guarulhos, seria didático exibir cada cifrão ao lado de cada pacotão de texto e fotos, concorda?

Teriamos bom circo por meses e meses.

Tentar criminalizar blogueiros pela denuncia de gastos públicos – uns caraminguás, pelos padrões de mercado  – é um esforço que apenas trái uma visão contrária à liberdade de imprensa, típica de quem não aceita   diversidade nem contraponto, mas apenas elogios e submissão. É o pensamento único em método linha dura e capa de falso moralismo. Apesar do escândalo, é uma denuncia verbal-investigativa. Nada se provou de ilegal.

Nós sabemos qual é a questão de fundo.

Enquanto não se aceitar o debate sobre democratização dos meios de comunicação, que poderia permitir uma discussão pública, às claras, expondo imensos interesses econômico e politicos em conflito, como se fez em vários países avançados do capitalismo, o jogo nas sombras será inevitável. Isso porque as pessoas precisam receber informações, falar, conversar, dar opiniões. Elas concordam, discordam, rejeitam e querem mais.

Não adianta adiar a chegada de um novo grau de democracia e  civilização. Ela transborda. Na agonia do regime de 1964, quando a imprensa amiga dos generais chegava a proteger a ditadura por todos os meios — inclusive derrotas eleitorais eram transformadas em vitória — os governadores de oposição financiavam nova publicações, sem ranço e sem compromentimento. Enquanto isso, até jornais alternativos, de faturamento menor do que a quitanda da esquina, eram alvo de uma devassa permanente por parte da ditadura. Empresários privados eram pressionados a saber quem ajudar — e a quem negar ajuda.

Aparelhismo?

Os últimos anos mostraram – e os blogueiros expressam isso — que o país não cabe nos limites mentais, políticos, culturais, do ideário conservador. Quer mais, quer diferente e por três vezes disse isso nas urnas. A internet e os blogueiros expressam isso. Têm este direito.
Alguma dúvida?

Este é o debate.

05 Jun 10:19

107 Reasons to Love Foyles of Charing Cross Road

by Roger Tagholm
In appreciation of the reopening of London’s most famous bookshop, Foyles of Charing Cross Road, we look back on its history and into its future 107 ways.
02 Jun 16:54

Snowden elogia fala de Dilma na ONU: Primeira a criticar espionagem

by Conceição Lemes

‘Se o Brasil me oferecer asilo, aceito’, diz Edward Snowden

do G1

Ele desafiou a maior potência do mundo. Ele revelou milhares de documentos ultrassecretos. Ele mostrou como funciona a espionagem da NSA, a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Edward Snowden, o homem mais procurado do planeta, falou ao Fantástico. A repórter Sônia Bridi foi a Moscou para uma entrevista exclusiva para o Brasil.

Depois de quase um ano de negociações, frente a frente com o homem mais procurado do mundo. Moscou, capital da Rússia, onde Edward Snowden está asilado há dez meses. O lugar exato onde ele vive? Nem os amigos mais próximos sabem.

Para entrevistar o homem mais procurado do mundo, a repórter Sônia Bridi chegou a Moscou apenas com o nome do hotel onde deveria se hospedar. Ela não foi até Edward Snowden. Foi ele que chegou até ela no hotel.

A entrevista, a pedido dele, foi feita no próprio quarto onde ela estava hospedada.

Fantástico: Como é a sua vida na Rússia?

Snowden: Olha, não é tão ruim quanto parece. A Rússia não é um país perfeito, e discordo fortemente de muitas coisas, principalmente como eles monitoram a internet e censuram a imprensa. Mas, no dia a dia, sabe, é melhor do que a prisão.

Prisão é o que ele tenta evitar há um ano, vivendo uma história de filme de espionagem. Em junho de 2013, Snowden se encontrou com o jornalista Glenn Greenwald e a documentarista Laura Poitras, em Hong Kong, e entregou a eles milhares de documentos, com os maiores segredos da espionagem americana.

Revelou que a Agência de Segurança Nacional, a NSA, até então pouco conhecida do grande público, monitora as comunicações por internet e telefone no mundo inteiro, inclusive dos próprios cidadãos americanos. É a chamada metadata, que registra quem fala com quem, por quanto tempo, onde estava quando falou e quanto tempo durou a conversa.

“É como se os Estados Unidos tivessem contratado detetives particulares para seguir todos nós”, ele destaca.

Países inteiros, como o México e as Bahamas, têm também o conteúdo das comunicações armazenado pela NSA. Como em uma máquina do tempo de espionagem, a agência pode voltar ao passado e recuperar tudo o que foi dito ou escrito. Em um ano, nenhuma semana se passou sem uma nova revelação baseada nos documentos.

Fantástico: Como é que um rapaz de 29 anos, que nunca terminou o ensino médio, trabalhando para uma empresa terceirizada da NSA, teve acesso a tantos documentos?

“É um erro de informação propagado nos Estados Unidos e depois pelo mundo todo de que eu era um empregado de baixo escalão, que copiou documentos que não entendia. Na verdade, eu tinha um cargo alto”, ele afirma.

Na adolescência, vivia conectado e descobrindo como funcionam computadores, escrevendo programas. Típico da geração internet. “Eu sou cria da internet”, diz.

Depois dos ataques de 11 de setembro, ele se alistou no Exército. “Fui voluntário porque acreditei no que o governo estava dizendo na época, que o Iraque estava desenvolvendo armas de destruição em massa. Eu achei que servir era generoso, uma atitude nobre”, conta.

Mas Snowden quebrou as duas pernas no treinamento. Dispensado do Exército, foi recrutado e treinado pelos serviços de espionagem. Trabalhou como espião na Suíça e no Japão. Era o especialista em informação digital da CIA. Seu último posto, no Havaí, especialista em tecnologia e cibersegurança da NSA.

Fantástico: Em que ponto você decidiu juntar e vazar os documentos para o público?

Snowden: O ponto sem volta para mim foi quando vi, no Congresso, James Clapper, o chefe da espionagem americana. Ele levantou a mão, jurou dizer a verdade. Perguntaram para ele: ‘Os Estados Unidos monitoram informações de milhões de americanos?’ E ele disse: ‘Não’. E eu sabia que era mentira. Os deputados da comissão também sabiam que era mentira. E ninguém disse nada.

No fim de 2012, Snowden mandou um e-mail para o jornalista Glenn Greenwald, radicado no Brasil e que então trabalhava no jornal inglês The Guardian. Queria que Glenn instalasse um programa de criptografia, que protege o sigilo na internet, para eles se comunicarem.

Em seu livro, “Sem lugar para se esconder”, Glenn conta esta e outras histórias dos bastidores do caso Snowden. Em Moscou, eles se reencontraram pela primeira vez desde que, há um ano, Snowden entregou os documentos em Hong Kong.

Snowden: É tão bom revê-los. Eles foram ao inferno e voltaram para fazer essas reportagens.

Fantástico: Você leu todos os documentos? Sabe exatamente o que há em cada um?

Snowden: Sim, o Glenn já disse que estavam todos organizados, em pastas, etiquetados.

Fantástico: Ainda tem mais revelações sobre o Brasil?

Glenn Greenwald: Com certeza, tem mais documentos que vão mostrar a brasileiros e ao mundo o que os Estados Unidos estão fazendo dentro do Brasil e também da Inglaterra e outros países também.

Snowden diz que durante todo esse ano evitou dar entrevistas porque não queria tirar a atenção dos documentos. Mas, agora, com todas as revelações que foram feitas, se sente seguro para discutir seus sentimentos.

As lembranças mais duras são dos 40 dias que ele passou na área de trânsito do aeroporto de Moscou. A escala virou uma armadilha quando o passaporte dele foi cancelado.

Snowden: Eu nunca escolhi vir para a Rússia. Eu estava a caminho da América do Sul.

Fantástico: Onde na América do Sul?

Snowden: Equador. Mas os Estados Unidos cancelaram meu passaporte, e eu não pude mais viajar. Fizeram de propósito para poder dizer: ‘Ele é espião russo’.

Fantástico: E como foi ficar preso no aeroporto por tanto tempo?

Snowden: Foi muito tenso. Você não sabe o que vai acontecer naquele dia. O que vai acontecer enquanto você dorme. Se alguém vai bater na porta. Se alguém vai derrubar a porta.

Fantástico: Você se arrepende?

Snowden: Sabe… Acho que não… Eu sentia que devia tornar isso público, com responsabilidade. E a maneira de impedir que a minha opinião prevalecesse, foi fazendo parceria com jornalistas competentes, e instituições sérias, que confio, que iriam checar as informações, equilibrar a cobertura. Como “The Guardian”, “Washington Post”, “New York Times”, a “Globo” e “Der Spiegel”. Deixei a imprensa livre fazer o que faz melhor: ajudar os cidadãos a se tornarem eleitores informados, que pensam em que tipo de sociedade querem viver.

Para Snowden, esse debate é a essência da liberdade: “Não é sobre privacidade. É liberdade. O equilíbrio entre os direitos individuais e o direito que o governo tem de coletar informações. Se vigiarmos cada homem, mulher e criança, da hora em que nascem até a hora que morrerem, podemos dizer que eles são livres? Isso é muito perigoso. Porque mudamos nosso comportamento se sabemos que estamos sendo vigiados. É uma ameaça à democracia”.

Ele também nega que os chineses tenham copiado tudo antes de ele deixar Hong Kong: “Isso é uma maluquice. Eu sou especialista em cibersegurança. Ensinava aos agentes da CIA e da NSA como se proteger exatamente desse tipo de coisa”.

Há dez meses ele vive na Rússia. Nunca foi sequer fotografado.

Fantástico: Você pode sair para rua?

Snowden: Claro. Por que não?

Fantástico: Você não é recluso?

Snowden: Não. Quer dizer, sou naturalmente recluso, cria da internet, né?

Fantástico: Os russos te vigiam?

Snowden: Bom, tenho certeza de que fazem algum tipo de vigilância, mas eu não vejo nada. Eu não posso, por segurança, dizer onde moro, como vivo. Mas eu diria que levo uma vida surpreendentemente aberta.

Fantástico: Você não é reconhecido nas ruas?

Snowden: Eles me reconhecem quando vou a lojas de computadores. Mas comprando comida, na banca de revistas, ninguém me reconhece.

Fantástico: Você se disfarça, ou sai com essa cara de Edward Snowden?

Snowden: Melhor eu não responder essa.

Fantástico: Do que você mais sente falta?

Snowden: Da minha família, claro.

O governo americano diz que a luta contra o terrorismo ficou mais difícil por causa desses vazamentos.

Fantástico: Alguns congressistas dizem que você é um traidor, um desertor.

Snowden: Você não pode ser traidor a menos que a sua lealdade tenha sido transferida para um inimigo do Estado. E a minha lealdade nunca mudou. Mesmo hoje, eu continuo trabalhando para o governo americano. Não quero derrubar o governo e nem destruir a NSA. Quero que sejam melhores.

Fantástico: Você enfrentaria um julgamento nos Estados Unidos?

Snowden: Eu adoraria. Mas não há um julgamento justo esperando por mim.

Snowden é acusado de traição pelo ato de espionagem, uma lei feita em tempos de guerra, que prevê julgamento sem defesa pública.

Outra acusação é de que ele atrapalhou a relação americana com países amigos, vazando documentos com revelações, como as feitas com exclusividade pelo Fantástico, comprovando que os americanos e seus aliados, Inglaterra, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, grampearam os telefones da presidente Dilma e de seus assessores mais próximos. Espionaram também a Petrobras e o Ministério das Minas e Energia.

Fantástico: Você acompanhou essas reportagens daqui?

Snowden: Sim. E não há justificativa para espionar a Petrobras. Por que o presidente americano quer ler os e-mails da Dilma Rousseff? Obama disse que não sabia. Pode ser verdade. Ele concordou comigo que não há benefício nenhum, nenhuma vida foi salva. E por isso determinou que parassem.

Snowden disse que ouviu o discurso da presidente Dilma na ONU, criticando a espionagem americana, e achou inspirador: “Foi incrível porque ela foi a primeira presidente que tomou a liderança para dizer ‘Temos o direito de falar, de nos comunicarmos sem sermos espionados’. E esses não são direitos de um país. São direitos humanos.

A repórter Sônia Bridi lembra a ele que o Congresso americano já o acusou de oferecer documentos para o Brasil em troca de asilo.

Fantástico: Essa oferta está na mesa?

Snowden: Absolutamente não. Primeiro, eu não tenho documentos a oferecer. Eu nunca cooperaria com um governo em troca de asilo. Asilo deve ser dado por razões humanitárias.

Fantástico: O que vai acontecer quando seu asilo temporário aqui vencer?

Snowden: Essa pergunta é difícil. Eu não tenho resposta. Meu asilo vence aqui no começo de agosto. E se o Brasil me oferecer asilo, eu ficarei feliz em aceitar.

Fantástico: Você gostaria de viver no Brasil?

Snowden: Eu adoraria morar no Brasil. De fato, eu já pedi asilo ao governo brasileiro.

Fantástico: Então você mandou um pedido?
Snowden: Sim. Quando eu estava no aeroporto, mandei um pedido a vários países. O Brasil foi um deles. Foi um pedido formal.

O governo brasileiro, na época, disse que não recebeu pedido algum. “Isso para mim é novidade. Talvez seja algum procedimento que eles achem que não foi seguido”, afirma.

Snowden diz que vive um dia de cada vez.

Fantástico: Você está feliz?

Snowden: Eu sou. É difícil ficar separado da família, não poder ir para casa, participar do governo e da sociedade. Mas toda noite vou dormir confiante de que fiz as escolhas certas. Por isso, a cada manhã, eu acordo satisfeito.

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02 Jun 16:43

Reservar 99% das vagas da USP para escola pública. E cobrar do 1% mais rico

by Leonardo Sakamoto

Estava lendo o argumento de alguns acadêmicos favoráveis à cobrança de mensalidades em universidades públicas e, por mais que respeite a opinião deles, não tenho como não achar graça em alguns.

Por exemplo, a ideia de que, ao pagar pela educação, o aluno dará mais valor ao ensino. Quem diz isso só pode ignorar o que acontece nas caras escolas e universidades particulares! Dou aula em uma e sei muito bem o que acontece na cabeça de alguns fuinhas que, nascendo em berço de ouro, acreditam que tudo pode ser comprado. Inclusive, sua mais completa indolência. Noves fora alguns pais e mães de alunos que vocês desacreditariam se eu contasse o naipe das reclamações.

Falando sério agora: É claro que a cobrança de mensalidade traria mais recursos para universidades públicas. Garantindo poucas bolsas e cobrando de “quem poderia pagar” (o que, acreditem, pode ser bastante subjetivo), poderíamos ter um perfil semelhante a grandes instituições norte-americanas. Tanto no ensino, na pesquisa e na extensão quanto também na elitização, na exclusão e na baixa pluralidade.

A discussão, contudo, não é essa. E sim a defesa de um princípio: de que a universidade pública seja mantida principalmente com recursos públicos pois, independente de interesses particulares, ela deve ser um instrumento de desenvolvimento da democracia e da sociedade como um todo. E contar com independência para isso. O que inclui não cobrar mensalidades de quem pode ou não pode pagar por elas.

É claro que as universidade públicas estão longe de serem isso. Mas daí escolher o caminho curto da política do fato consumado e jogar a toalha é um pouco demais. Digo política de fato consumado porque todos que acompanham o cotidiano na Universidade de São Paulo, por exemplo, sabem que o processo de sucateamento da universidade não é de hoje.

Acho importante a Folha de S. Paulo ter publicado uma matéria, nesta segunda (2), discutindo a cobrança de mensalidades pela mais importante universidade brasileira, uma vez que essa história é sussurrada há tempos nos corredores palacianos, em festinhas de bairros nobres ou mesmo em fundações ligadas à instituição. Esse debate tem que ser aberto e a população deve ser chamada para participar dele. Caso contrário, corre-se o risco de surpresas aparecerem na forma de mudanças constitucionais de uma hora para outra. Ou, pior: o discurso da necessidade de cobrança de mensalidade ser decantado ao longo do tempo até que todos achem isso normal, mesmo não sabendo o porquê.

E, sendo transparente, devo muito à universidade pública, pois não teria dinheiro para fazer graduação, mestrado e doutorado, da mesma forma que não tive para o ensino médio.

“Ah, mas nesse caso, poderia ser reservada uma cota de bolsistas como você.” Que tal uma outra proposta então? Reservamos 99% das vagas da universidade para escola pública, cotas raciais e famílias de baixa renda. E o restante reservamos para alunos cujos pais possam pagar altas mensalidades. E isso sendo por curso, claro. Porque medicina, engenharia, direito, jornalismo são bem ocupados por quem estudou em caras escolas enquanto cursos com menos status ou que dão menos retorno econômico são mais preenchidos por quem fez escolas públicas. Mesmo com a política de cotas existente hoje na universidade.

É claro que esse 99 x 1, presente no título deste post, é uma provocação. Pois o poder público tem a obrigação constitucional de manter a universidade pública, gratuita e de qualidade para todos e todas, independentemente da classe social. E garantir que este acesso não seja dado a alguns poucos beneficiários, como tem sido feito até hoje, mas aumentar o número de vagas para abraçar, com qualidade, quem realmente não pode pagar as escorchantes mensalidades de uma boa instituição privada.

Como já disse aqui, muita gente vai se lamuriar, afirmando que o caminho mais fácil seria mesmo uma privatização da USP, através da cobrança de mensalidades, de taxas, de venda de espaços publicitários, de produção de pesquisa voltada apenas à necessidade das corporações, em suma, de otimização da gestão educacional utilizando critérios de sucesso considerados efetivos pelo mercado. Como uma empresa.

Uma universidade pública, como qualquer órgão público, deve ser gerida pelos princípios da impessoalidade, moralidade, publicidade, economicidade, eficiência e legalidade. Portanto, não fazer esbórnia com o dinheiro da sociedade. Mas também não ignorar as necessidades dessa sociedade nas decisões sobre qual conhecimento terá sua produção financiada. Conhecimento feito por quem que beneficia a quem?

A USP já não se tornou um burgo ao se fechar para a cidade, tempos atrás, com um muro alto que impede aos contribuintes de fora de sua comunidade acadêmica terem acesso àquela enorme área verde nos finais de semana? E dar as costas à cidade fisicamente, ignorar a sociedade que a criou, é bastante simbólico do que acontece nos processos internos.

A USP não está quebrada porque o Godzilla atacou São Paulo, escolhendo o campus da universidade como local de destruição, ou porque naves alienígenas abduziram o caixa da instituição, mas por conta de sucessivas gestões, eleitas de forma pouco democrática, que tomaram decisões que levaram a isso.

Agora, tenhamos decência de recuperar o que deveria ser um dos maiores patrimônios do país ao invés de jogar fora o bebê com a água do banho.

02 Jun 13:01

300 títulos da Companhia das Letras com 50% de desconto

by admin

De 2 a 15 de junho, 300 títulos da Companhia das Letras estarão à venda com 50% de desconto em diversas lojas virtuais e livrarias físicas.

Veja abaixo a lista completa de títulos e de lojas parceiras.

(Nem todos os títulos estarão disponíveis em todos os parceiros. Sujeito à disponibilidade de estoque.)

Título Autor Preço de capa Preço c/ desconto Preço do ebook
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RAGNAROK A. S. Byatt 36.00 18.00 11.90
MR. PEANUT Adam Ross 58.00 29.00 18.90
DAR A ALMA Adriano Prosperi 64.00 32.00
NOCILLA DREAM Agustín Fernández Mallo 37.00 18.50
IMAGENS DA ÁFRICA Alberto da Costa e Silva 31.00 15.50 9.90
CASTRO ALVES Alberto da Costa e Silva 42.00 21.00
STEVENSON SOB AS PALMEIRAS Alberto Manguel 34.00 17.00 11.90
TODOS OS HOMENS SÃO MENTIROSOS Alberto Manguel 39.00 19.50
CONCERTO BARROCO Alejo Carpentier 31.00 15.50
PAIXÃO DE A., A Alessandro Baricco 35.00 17.50
IMPERIALISMO ECOLÓGICO – BOLSO Alfred W. Crosby 29.00 14.50 12.90
GAROTA ENCONTRA GAROTO Ali Smith 36.00 18.00
POR ACASO Ali Smith 52.00 26.00 16.90
BEM QUE EU QUERIA IR Allen Shawn 52.00 26.00
CENAS DA VIDA NA ALDEIA Amós Oz 40.00 20.00 12.90
ALMANAQUE 1964 Ana Maria Bahiana 54.50 27.25
MENINA DO CAPUZ VERMELHO E OUTRAS HISTÓRIAS DE DAR MEDO, A Angela Carter 21.00 10.50
STASILÂNDIA Anna Funder 57.00 28.50
EXCLUSIVA Annalena McAfee 57.00 28.50
CÂMARA DE INVERNO, A Anne Michaels 52.00 26.00
BOBBY GOLD, LEÃO-DE-CHÁCARA Anthony Bourdain 34.00 17.00
HOMEM QUE INVENTOU FIDEL, O Anthony DePalma 60.00 30.00
VENTO DA LUA Antonio Muñoz Molina 46.00 23.00
LAR, Armando Freitas Filho 36.00 18.00
NADA A INVEJAR Barbara Demick 56.00 28.00
QUEBRANDO A BANCA Ben Mezrich 52.00 26.00
VIDA E ÉPOCA DE KID TROVÃO Bill Bryson 52.00 26.00
LOTEAMENTO DO CÉU, O Blaise Cendrars 67.00 33.50
HUMANO MAIS HUMANO, O Brian Christian 58.00 29.00 18.90
MEU TIPO DE GAROTA Buddhadeva Bose 35.00 17.50 11.90
LIÇÃO DE COISAS Carlos Drummond de Andrade 32.00 16.00 9.90
BOLSA & A VIDA, A Carlos Drummond de Andrade 40.00 20.00 12.90
TODA TERÇA Carola Saavedra 36.00 18.00
BENJAMIM – 2º EDIÇÃO Chico Buarque 39.50 19.75 13.90
NUNCA VAI EMBORA Chico Mattoso 34.00 17.00 10.90
EDUCAÇÃO DE UMA CRIANÇA SOB O PROTETORADO BRITÂNICO, A Chinua Achebe 37.00 18.50
RELAÇÕES PERIGOSAS, AS Choderlos de Laclos 26.00 13.00
DANÚBIO – BOLSO Claudio Magris 31.00 15.50
MÃES E FILHOS Colm Tóibín 46.00 23.00
CORPOS ESTRANHOS Cynthia Ozick 52.00 26.00
XALE, O Cynthia Ozick 31.00 15.50
ROBINSON CRUSOÉ Daniel Defoe 30.00 15.00 9.90
FAMA Daniel Kehlmann 36.00 18.00 11.90
PAÍS DISTANTE, UM Daniel Mason 46.00 23.00
QUASE TUDO Danuza Leão 31.00 15.50
PLANETAS, OS Dava Sobel 42.00 21.00
GUARDADOR DE SEGREDOS, O Davi Arrigucci Jr. 46.00 23.00 17.90
DECLARAÇÃO DE INDEPENDÊNCIA David Armitage 46.00 23.00 14.90
MEL DE LEÃO David Grossman 36.00 18.00
VER AMOR David Grossman 72.00 36.00
MONSTRO DE DEUS David Quammen 60.00 30.00
ENGOLIDO PELAS LABAREDAS David Sedaris 52.00 26.00 16.90
EU FALAR BONITO UM DIA David Sedaris 42.00 21.00
ÁRVORE DE FUMAÇA Denis Johnson 77.00 38.50
NAQUELE DIA Dennis Lehane 70.00 35.00
SAGRADO Dennis Lehane 52.00 26.00
GONE, BABY, GONE Dennis Lehane 56.00 28.00
PONTO ÔMEGA Don DeLillo 32.00 16.00 10.90
CARCEREIROS Drauzio Varella 35.00 17.50 10.90
TEORIA DAS JANELAS QUEBRADAS, A Drauzio Varella 39.00 19.50
ÉPOCA DA INOCÊNCIA, A Edith Wharton 29.50 14.75 9.90
ILUSÃO DA ALMA, A Eduardo Giannetti 42.00 21.00 13.90
DIVERSIDADE DA VIDA – BOLSO Edward O. Wilson 31.00 15.50 12.90
CONSCIÊNCIA DAS PALAVRAS, A – BOLSO Elias Canetti 26.50 13.25 11.90
LUZ EM MEU OUVIDO, UMA – BOLSO Elias Canetti 29.00 14.50 11.90
JOGO DOS OLHOS, O – BOLSO Elias Canetti 26.50 13.25 10.90
RAYLAN Elmore Leonard 36.00 18.00 12.90
DEIXEI ELE LÁ E VIM Elvira Vigna 36.00 18.00 11.90
MAPA DO CRIADOR, O Emilio Calderón 52.00 26.00
VOLTA DO GATO PRETO, A Erico Verissimo 58.00 29.00 19.90
SENHOR EMBAIXADOR, O Erico Verissimo 58.00 29.00 18.90
ABADON, O EXTERMINADOR Ernesto Sabato 63.50 31.75
BAGAÇO DA CANA, O Evaldo Cabral de Mello 24.00 12.00
ONDE ESTÁ TUDO AQUILO AGORA Fernando Gabeira 31.00 15.50 9.90
PENSADORES QUE INVENTARAM O BRASIL Fernando Henrique Cardoso 42.00 21.00 13.90
GENERAL OSORIO Francisco Doratioto 42.00 21.00
EU FUI VERMEER Frank Wynne 47.00 23.50
EXÉRCITO FURIOSO, O Fred Vargas 52.00 26.00
IOGA PARA QUEM NAO ESTA NEM AÍ Geoff Dyer 42.00 21.00
PRETO NO BRANCO George Pelecanos 52.00 26.00
CIDADÃO CANNES Gilles Jacob 60.00 30.00
ARTE MODERNA NA EUROPA, A Giulio Carlo Argan 89.00 44.50
LUZ DO DIA, A Graham Swift 52.00 26.00
LIKE A ROLLING STONE Greil Marcus 42.00 21.00
NINFA INCONSTANTE, A Guillermo Cabrera Infante 42.00 21.00
REFUGO DE GUERRA Ha Jin 67.00 33.50
NO COLO DO PAI Hanif Kureishi 42.00 21.00
COMÉDIA EM TOM MENOR Hans Keilson 34.00 17.00
HAMMERSTEIN OU A OBSTINAÇÃO Hans Magnus Enzensberger 57.00 28.50
ELOGIO DA BELEZA ATLÉTICA Hans Ulrich Gumbrecht 39.00 19.50
ABAIXO AS VERDADES SAGRADAS – BOLSO Harold Bloom 25.00 12.50 8.90
SOBRE A VERDADE Harry G. Frankfurt 34.00 17.00
BRIDGET JONES: LOUCA PELO GAROTO Helen Fielding 34.50 17.25 11.90
QUINTA MULHER, A Henning Mankell 51.00 25.50
HOMEM É UM GRANDE FAISÃO NO MUNDO, O Herta Müller 37.00 18.50 11.90
NO PAÍS DOS HOMENS Hisham Matar 46.00 23.00
ILUSÕES PERDIDAS – PENGUIN Honoré de Balzac 40.00 20.00 12.90
VULTOS DA REPÚBLICA Humberto Werneck 52.00 26.00 16.90
REINO DO MEDO Hunter S. Thompson 67.00 33.50
SÁBADO – BOLSO Ian McEwan 26.00 13.00
DENÚNCIAS Ian Rankin 51.00 25.50
ENIGMISTA, O Ian Rankin 55.00 27.50
QUESTÃO DE SANGUE Ian Rankin 56.00 28.00
ESPIRAL DE ARTILHARIA Ignacio Padilla 39.00 19.50
APEGO Isabel Fonseca 43.00 21.50
QUESTÃO DE LOUCURA, UMA Ismail Kadaré 31.00 15.50
COLEÇÃO DE AREIA Italo Calvino 42.00 21.00 13.90
ASSUNTO ENCERRADO Italo Calvino 57.00 28.50 18.90
LUAR E A RAINHA, O Ivan Lessa 46.00 23.00
HERANÇA DE SANGUE Ivan Sant’Anna 37.00 18.50 11.90
MILAGRES DA VIDA J. G. Ballard 42.00 21.00
VERÃO J. M. Coetzee 46.00 23.00
QUERIDO SCOTT, QUERIDA ZELDA Jackson R. Bryer 67.00 33.50
ESTADO COMO OBRA DE ARTE, O Jacob Burckhardt 12.00 6.00
SERENATA James M. Cain 45.00 22.50
HISTÓRIA DE MILDRED PIERCE, A James M. Cain 52.00 26.00
ÚLTIMA NOITE James Salter 39.00 19.50
MULHER CALADA, A – BOLSO Janet Malcolm 24.00 12.00 9.90
AQUELE RAPAZ Jean-Claude Bernardet 31.00 15.50
FANTASMAS DE GOYA, OS Jean-Claude Carrière 52.00 26.00
INGRID CAVEN Jean-Jacques Schuhl 46.00 23.00
NEW ART CITY Jed Perl 77.00 38.50
TERRA DESCANSADA Jhumpa Lahiri 54.00 27.00
REI MORREU, O Jim Lewis 52.00 26.00
ESGANADAS, AS Jô Soares 38.00 19.00 12.90
BOLHA DE LUZES João Inácio Padilha 36.00 18.00
TODA A SAUDADE DO MUNDO João Jorge Amado 37.00 18.50
QUE É O ABOLICIONISMO? Joaquim Nabuco 12.00 6.00
NÃO HÁ NADA LÁ Joca Reiners Terron 25.00 12.50
TRISTEZA EXTRAORDINÁRIA DO LEOPARDO-DAS-NEVES, A Joca Reiners Terron 38.00 19.00 12.90
CRÔNICA DOS WAPSHOT, A – BOLSO John Cheever 27.00 13.50
ÚLTIMO CASO DA COLECIONADORA DE LIVROS, O John Dunning 54.00 27.00
VIÚVAS DE EASTWICK, AS John Updike 57.00 28.50
ONDE OS HOMENS CONQUISTAM A GLÓRIA Jon Krakauer 58.00 29.00 18.90
JANTAR FATAL, O Jonathan A. Edlow 48.00 24.00 15.90
MANUAL DA TRAIÇÃO Jonathan D. Spence 52.00 26.00
TREMOR Jonathan Franzen 63.00 31.50
GOSTO E PODER Jonathan Nossiter 52.00 26.00 18.90
AGONIA DA NOITE Jorge Amado 52.00 26.00 16.90
MENINO GRAPIÚNA, O Jorge Amado 31.00 15.50 9.90
GABRIELA, CRAVO E CANELA Jorge Amado 56.00 28.00 9.90
PRIMEIRA POESIA Jorge Luis Borges 39.00 19.50
NOVE ENSAIOS DANTESCOS & A MEMÓRIA DE SHAKESPEARE Jorge Luis Borges 31.00 15.50
D. JOÃO VI Jorge Pedreira 68.00 34.00
FERVOR DAS VANGUARDAS Jorge Schwartz 70.00 35.00
ÀS AVESSAS Joris-Karl Huysmans 30.00 15.00
VENENO REMÉDIO José Miguel Wisnik 49.00 24.50
ARMAZÉM LITERÁRIO José Paulo Paes 56.00 28.00
ANO DE 1993, O José Saramago 34.00 17.00 11.90
TODOS OS NOMES José Saramago 49.50 24.75
HISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA José Saramago 59.00 29.50
VIAGEM A PORTUGAL José Saramago 67.00 33.50
MAHATMA GANDHI Joseph Lelyveld 51.00 25.50 16.90
ERA DO INCONCEBÍVEL, A Joshua Cooper Ramo 52.00 26.00 16.90
MAYA – BOLSO Jostein Gaarder 28.00 14.00 11.90
COMO RESPIRAR DEBAIXO D’ÁGUA Julie Orringer 42.00 21.00 13.90
HÁ QUEM PREFIRA URTIGAS Junichiro Tanizaki 39.00 19.50
JAKOB, O MENTIROSO – BOLSO Jurek Becker 24.00 12.00 9.90
ESCADA ESPIRAL, A Karen Armstrong 57.00 28.50
MAOMÉ Karen Armstrong 52.00 26.00
NOTURNOS Kazuo Ishiguro 42.00 21.00
PADRES, CELIBATO E CONFLITO SOCIAL Kenneth P. Serbin 60.00 30.00
JOVENS DE UM NOVO TEMPO, DESPERTAI! Kenzaburo Oe 52.00 26.00
PÁSSAROS AMARELOS Kevin Powers 39.00 19.50
CLÁUDIO MANUEL DA COSTA Laura de Mello e Souza 42.00 21.00 13.90
NA LINHA DE FRENTE Lawrence Block 45.00 22.50 14.90
PRISÃO DA FÉ, A Lawrence Wright 57.00 28.50 18.90
MORTE DE RIMBAUD, A Leandro Konder 40.00 20.00
GUERREIRAS DA PAZ Leymah Gbowee 42.00 21.00
RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA Lima Barreto 28.00 14.00 8.90
CRIANÇA ABENÇOADA, UMA Linn Ullmann 57.00 28.50
GETÚLIO 2 (1930-1945) Lira Neto 52.50 26.25 15.90
GETÚLIO 1 (1882-1930) Lira Neto 52.50 26.25 17.90
CARA DA MÃE, A Livia Garcia-Roza 32.00 16.00
MUNDO PRODIGIOSO QUE TENHO NA CABEÇA, O Louis Begley 40.00 20.00 12.90
QUESTÕES DE HONRA Louis Begley 60.00 30.00
FANTASMA Luiz Alfredo Garcia-Roza 38.00 19.00 12.90
LINGUAGEM DE SINAIS Luiz Schwarcz 32.00 16.00 11.90
DISCURSO SOBRE O CAPIM Luiz Schwarcz 34.00 17.00 10.90
PASSAPORTE PARA A CHINA Lygia Fagundes Telles 32.00 16.00
DURANTE AQUELE ESTRANHO CHÁ Lygia Fagundes Telles 36.00 18.00 12.90
VERÃO NO AQUÁRIO Lygia Fagundes Telles 42.00 21.00 13.90
CRÔNICAS ESCOLHIDAS Machado de Assis 29.00 14.50 9.90
JORNAL E O LIVRO, O Machado de Assis 12.00 6.00
ESAÚ E JACO Machado de Assis 26.00 13.00
QUINCAS BORBA Machado de Assis 26.00 13.00
MALCOLM X Manning Marable 73.00 36.50 19.90
MÉTODO PRÁTICO DA GUERRILHA Marcelo Ferroni 42.00 21.00 12.90
MICRÓBIOS NA CRUZ Marcia Camargos 42.00 21.00
1922 Marcos Augusto Gonçalves 52.00 26.00 16.90
ROSA DE SARAJEVO, A Margaret Mazzantini 63.00 31.50 18.90
MÁRIO DE ANDRADE E SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA Mário de Andrade 52.00 26.00
IMPÉRIO DE HITLER, O Mark Mazower 84.00 42.00
CASA DE ENCONTROS Martin Amis 42.00 21.00
VIÚVA GRAVIDA, A Martin Amis 63.00 31.50
A QUEM DE DIREITO Martín Caparrós 52.00 26.00
VALFIERNO Martín Caparrós 57.00 28.50
CIÊNCIAS MORAIS Martín Kohan 39.00 19.50
SEGUNDOS FORA Martín Kohan 42.00 21.00
MACACOS MALVADOS Matt Ruff 46.00 23.00
MEMÓRIA DA PEDRA Mauricio Lyrio 48.00 24.00 15.90
ASSOCIAÇÃO JUDAICA DE POLÍCIA Michael Chabon 67.00 33.50
ESPIÕES Michael Frayn 42.00 21.00
PACIENTE INGLÊS, O – BOLSO Michael Ondaatje 28.00 14.00
DIVISADERO Michael Ondaatje 52.00 26.00
JOSÉ E PILAR Miguel Gonçalves Mendes 37.00 18.50 11.90
MUITO ALÉM DO NOSSO EU Miguel Nicolelis 42.00 21.00
ILUSTRADO Miguel Syjuco 55.00 27.50
VIDA ESTÁ EM OUTRO LUGAR, A – BOLSO Milan Kundera 28.00 14.00
ENCONTRO, UM Milan Kundera 39.00 19.50
MERCADO SOMBRIO Misha Glenny 52.00 26.00
POR TRÁS DOS VIDROS Modesto Carone 42.00 21.00
DO QUE A GENTE FALA QUANDO FALA DE ANNE FRANK Nathan Englander 41.00 20.50 13.90
MAR DE GLÓRIA Nathaniel Philbrick 67.00 33.50
ACONTECEU EM 42 Nella Bielski 39.00 19.50
AVENTURAS DA VIRTUDE, AS Newton Bignotto 56.00 28.00 18.90
LUTA, A – BOLSO Norman Mailer 25.00 12.50
GRANDE VAZIO, O Norman Mailer 39.00 19.50
OUTRAS CORES Orhan Pamuk 60.00 30.00
LIVRO NEGRO, O Orhan Pamuk 72.00 36.00
NEVE Orhan Pamuk 67.00 33.50
IMPORTÂNCIA DE SER PRUDENTE E OUTRAS PEÇAS, A Oscar Wilde 30.00 15.00 9.90
FIEL E A PEDRA, O Osman Lins 53.00 26.50
RAINHA DOS CARCERES DA GRÉCIA, A Osman Lins 42.00 21.00
QUEDA LIVRE Otavio Frias Filho 46.00 23.00
TESTEMUNHA SILENCIOSA, A – NOVA EDIÇÃO Otto Lara Resende 33.00 16.50 10.90
TALENTOSO RIPLEY, O – BOLSO Patricia Highsmith 26.00 13.00
RIPLEY SUBTERRÂNEO Patricia Highsmith 52.00 26.00
VIAGENS NO SCRIPTORIUM Paul Auster 34.00 17.00 13.90
TODOS OS POEMAS Paul Auster 52.00 26.00 16.90
FILHOS DA VIÚVA, OS Paula Fox 42.00 21.00
COSTA OESTE, A Paula Fox 66.00 33.00
DAMA DA SOLIDÃO, A Paula Parisot 36.00 18.00
SABINADA, A Paulo César de Souza 46.00 23.00
MAIS ESTRANHO DOS PAÍSES, O Paulo Mendes Campos 48.00 24.00 15.90
RETRATO DO BRASIL (NOVA EDIÇÃO) Paulo Prado 52.00 26.00
BEIRA-MAR Pedro Nava 68.00 34.00 19.90
BALÃO CATIVO Pedro Nava 55.00 27.50 18.90
CHÃO DE FERRO Pedro Nava 56.00 28.00 18.90
REPRESÁLIAS SELVAGENS Peter Gay 39.00 19.50 12.90
HIDRA DE MUITAS CABEÇAS, A Peter Linebaugh 60.00 30.00
PROCEDIMENTO OPERACIONAL PADRÃO Philip Gourevitch 52.00 26.00
MICK JAGGER Philip Norman 52.00 26.00 18.90
PROFESSOR DO DESEJO, O Philip Roth 42.00 21.00 13.90
INDIGNAÇÃO Philip Roth 39.00 19.50 12.90
PATRIMÔNIO Philip Roth 36.00 18.00 11.90
CAMINHO ABERTO, O Pico Iyer 52.00 26.00
SONETOS LUXURIOSOS – MÁ COMPANHIA Pietro Aretino 20.00 10.00
ARLINGTON PARK Rachel Cusk 46.00 23.00
INTOCÁVEL Randall Sullivan 64.00 32.00 19.90
ATENEU, O Raul Pompeia 29.00 14.50 9.90
68 CONTOS DE RAYMOND CARVER Raymond Carver 57.00 28.50
INICIANTES Raymond Carver 52.00 26.00
DIABO NO CORPO, O Raymond Radiguet 16.00 8.00
TANTO FAZ & ABACAXI Reinaldo Moraes 26.50 13.25 8.90
RESPIRAÇÃO ARTIFICIAL – BOLSO Ricardo Piglia 21.00 10.50
VIDA VADIA Richard Price 67.00 33.50
STORYNHAS Rita Lee 33.00 16.50 11.90
CHAMADAS TELEFÔNICAS Roberto Bolaño 41.00 20.50
MONSIEUR PAIN Roberto Bolaño 36.00 18.00
K. Roberto Calasso 46.00 23.00
PRESIDENTE SEGUNDO O SOCIÓLOGO, O Roberto Pompeu de Toledo 57.00 28.50
MÁQUINA DA LAMA, A Roberto Saviano 31.00 15.50
MARTINHA VERSUS LUCRÉCIA Roberto Schwarz 47.00 23.50 15.90
OPERAÇÃO MASSACRE Rodolfo Walsh 46.00 23.00
LIVRO DOS LOBOS, O Rubens Figueiredo 36.00 18.00 11.90
GUERRA DO FUTEBOL, A Ryszard Kapuscinski 46.00 23.00
ILUSÕES PESADAS Sacha Sperling 39.00 19.50
JOSEPH ANTON Salman Rushdie 58.00 29.00 18.90
VERGONHA Salman Rushdie 55.00 27.50
SHALIMAR, O EQUILIBRISTA Salman Rushdie 60.00 30.00 18.90
MOLVANIA Santo Cilauro 39.00 19.50
HENDERSON, O REI DA CHUVA Saul Bellow 60.00 30.00
VIDA CONJUGAL Sergio Pitol 32.00 16.00
ROMANCE DE GERAÇÃO, UM Sérgio Sant’Anna 34.00 17.00 11.90
TRAGÉDIA BRASILEIRA, A Sérgio Sant’Anna 36.00 18.00
TRAVESSIAS DIFÍCEIS Simon Schama 63.00 31.50
PROFESSOR E O LOUCO, O – BOLSO Simon Winchester 26.50 13.25 10.90
HOMEM QUE AMAVA A CHINA, O Simon Winchester 58.00 29.00
ENCANTAMENTO DE LILY DAHL, O Siri Hustvedt 46.00 23.00
MULHER TRÊMULA, A Siri Hustvedt 42.00 21.00
CARTUXA DE PARMA, A Stendhal 37.00 18.50 11.90
EMBLEMA VERMELHO DA CORAGEM, O Stephen Crane 26.50 13.25 8.90
CABEÇA TUBARÃO Steven Hall 66.00 33.00
ANJOS BONS DA NOSSA NATUREZA, OS Steven Pinker 79.00 39.50 19.90
MENINA QUE BRINCAVA COM FOGO, A Stieg Larsson 45.00 22.50
MULHER QUE CHORA, A Su Tong 42.00 21.00
CIDADE ABERTA Teju Cole 52.00 26.00 16.90
AVENTURA SECRETA DO MARQUES DE BRADOMIN, UMA Teresa Veiga 34.00 17.00 11.90
MEUS PRÊMIOS Thomas Bernhard 32.00 16.00
ÉRAMOS NÓS Thomas L. Friedman 49.00 24.50
PURGATÓRIO Tomás Eloy Martínez 42.00 21.00
INSONES, OS Tony Bellotto 42.00 21.00
MIGUEL STREET V. S. Naipaul 45.00 22.50
SEMENTES MÁGICAS V. S. Naipaul 46.00 23.00
CURVA NO RIO, UMA V. S. Naipaul 52.00 26.00
FILHA DAS FLORES, A Vanessa da Mata 34.50 17.25 11.90
CAMINHO PARA A DISTÂNCIA, O Vinicius de Moraes 38.00 19.00 11.90
ANÉIS DE SATURNO, OS W. G. Sebald 46.00 23.00
GUERRA AÉREA E LITERATURA W. G. Sebald 36.00 18.00
EMIGRANTES, OS W. G. Sebald 42.00 21.00
MOSCA ESPANHOLA Will Ferguson 60.00 30.00
NOVE VIDAS William Dalrymple 52.00 26.00 16.90
TESTEMUNHAS DA CHINA Xinran 62.00 31.00
QUE OS CHINESES NÃO COMEM, O Xinran 39.00 19.50
VIVER Yu Hua 42.00 21.00
CRÔNICA DE UM VENDEDOR DE SANGUE Yu Hua 43.00 21.50
IRMÃOS Yu Hua 68.00 34.00
SOBRE A BELEZA Zadie Smith 60.00 30.00
CÓDIGOS DE FAMÍLIA Zélia Gattai 36.00 18.00 12.90
JARDIM DE INVERNO Zélia Gattai 46.00 23.00 16.90
VESÚVIO Zulmira Ribeiro Tavares 31.00 15.50 11.90

 

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- Shopping Center Iguatemi Campinas – Av. Iguatemi, 777 – Vila Brandina – (19) 3751-1730

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- Campinas Shopping – Rua Jacy Teixeira Camargo, 940 – (19) 3229-7880
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Pirituba
Livraria Leitura
- Tietê Plaza Shopping – Av. Raimundo Pereira de Magalhães, 1465 SUC/2040/2041 – (11) 3201-9314/9313

São José do Rio Preto
Livraria Saraiva
- Rio Preto Shopping Center – Av. Brigadeiro Faria Lima, 6363, Salão de Uso Comercial 288, Bloco E – Jardim Morumbi – (17) 3201-2080

São José dos Campos
Livraria Saraiva
- Shopping Center Vale – Avenida Deputado Benedito Matarazzo, 9403 – Jardim Oswaldo Cruz – (12) 3519-4480

Araraquara
Livraria Machado de Assis
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Jundiaí
Livraria Saraiva
- Jundiaí Shopping – Av. Nove de Julho, 3.333, Loja 264, 1º Pavimento – Anhangabaú – (11)4531-7960

Livraria Leitura
- Maxi Shopping Jundiaí – Av. Antonio Fred. Ozanan, 6000, Piso 2 – (11) 4521-8835

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São Bernardo do Campo
Livraria Saraiva
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Livraria Leitura
- Golden Square Shopping – Av. Kennedy, 700, Piso 1 Jardim do Mar – (11) 3135-4127/4128

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- Shopping Iguatemi Alphaville – Alameda Rio Negro, 111, Piso 2 Loja 301 – Alphaville – (11) 3173-3350

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Livraria Saraiva
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Sorocaba
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- Copacabana – Av. Nossa Senhora de Copacabana, 766 – Copacabana – (21) 2548-2683
- Botafogo Praia Shopping – Praia de Botafogo, 400 – Botafogo – (21) 2237-9100
- Ouvidor – Rua do Ouvidor, 9A8 – Centro – (21) 2507-9500
- NorteShopping I – Av. Dom Helder Câmara, 5080 – Caxambi – (21) 2596-0024

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- Botafogo – Rua Voluntários da Pátria, 97 – (21) 3205-9002
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- Rio Branco – Av. Rio Branco, 44 – (21)2519-9000
- CCBB – Rua Primeiro de Março, 66 térreo – (21) 3808-2066

Livraria Leitura
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- Shopping Nova América – Av Pastor M. Luther King Jr, 126, Bloco 10 lj 109 – Del Castilho – (21) 2583-1689

Livraria Eldorado
- Rua Conde do Bonfim, 422Lojas C, D e K – Tijuca – (21) 2569-4747

Livraria Leonardo Da Vinci
- Av. Rio Branco, 185Lojas 02 – Centro – (21) 2533-2237

Livraria Timbre
- Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52, Lojas 221 – (21) 2274-1146

Niterói
Livraria Saraiva
- Plaza Niterói 2 – Rua XV de Novembro, n°4 , 4,  3° piso LUC 3005 – Centro – (21) 2613-9250

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- Shopping Iguatemi – Av. Madre Benvenuta, 687 – Santa Mônica – (48) 3234-0164

Livraria Terceiro Mundo
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Belo Horizonte
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Livraria Leitura
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- Minas Shopping – Av. Cristiano Machado, 4000 – Bairro São Paulo – (31) 3426-1101/3426-3227
- Pátio Savassi – Av. do Contorno, 6061Lj 235/236 – São Pedro – (31) 3288-3800
- Savassi – Av. Cristóvão Colombo, 167 – Savassi – (31) 3287-5206
- Shoppoing Boulevar BH – Av. Andradas 3000 – Lj 3011 – Centro – (31) 3241-1810/3241-2712
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- Shopping Estação BH – Av. Cristiano Machado,11833Lj. 3026 piso 3 –Vila Cloris – (31) 3118-9662
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Uberlândia
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- Center Shopping Uberlândia – Av. João Naves de Ávila, 1331 – Santa Monica – (34) 3210-1068

Livraria Leitura
- Uberlândia Shopping  – Av. Paulo G...

01 Jun 11:32

Campanha Internacional contra o Muro da Ocupação Marroquina tem página web

by noreply@blogger.com (AAPSO)


A Campanha Internacional contra o Muro da Ocupação Marroquina do Sahara Ocidental inaugurou a sua própria página web (removethewall.org).

A página web, em quatro idiomas, contém uma introdução sobra a campanha, os antecedentes do conflito, uma abordagem histórica sobre a construção do muro marroquino no Sahara Ocidental bem como a sua estrutura e funcionamento, assim como os seus múltiplos efeitos sobre a população civil saharaui de ambos lados do muro.





O sítio web inclui também dados básicos sobre as minas no Sahara Ocidental e a situação das vítimas de minas terrestres e de restos explosivos da guerra que durou até 1991, além de estudos e documentos jurídicos relacionados com a legislação internacional sobre as minas terrestres e as bombas de fragmentação.


O muro de ocupação marroquino está polvilhado com mais de 7 milhões de minas, o que constitui um grande perigo para a população civil saharaui dos dois lados do muro, apesar da vigência do cessar-fogo supervisionado pela ONU no Sahara Ocidental, que entrou em vigor a 6 de setembro de 1991. Além das suas consequências políticas, legais, económicas, sociais, culturais, humanitárias e meio-ambientais, o muro representa também um crime persistente contra os direitos humanos do povo saharaui e um enorme obstáculo para o exercício do seu direito inalienável à autodeterminação e à independência.


A Campanha Internacional contra o Muro da Ocupação Marroquina do Sahara Ocidental teve início o ano passado e tem por objetivo reunir todo o apoio internacional possível para obrigar Marrocos a desmilitarizar o seu muro de ocupação, neutralizar e eliminar todo o arsenal de destruição que o mesmo contém, incluindo minas antipessoal e restos de explosivos de guerra.
(SPS)


31 May 13:36

Candidatos precisam saber a diferença entre “aborto” e “direito ao aborto”

by Leonardo Sakamoto

Eduardo Campos, pré-candidato à Presidência da República pelo PSB, disse que era contra o aborto e a favor de políticas de contracepção em entrevista à Rede TV.

Ele poderia também ter respondido com outra obviedade, como o céu ser azul e as árvores, verdes.

Pois não há alguém, em sã consciência, que seja a favor do aborto. “Puxa, que dia lindo! Estou tão feliz que vou fazer um aborto hoje! E depois, comprar morangos e creme.” Aborto é uma merda, é um ato traumático para o corpo e a cabeça da mulher, tomada após uma reflexão sobre uma gravidez indesejada ou de risco. Ninguém fica feliz ao fazê-lo, mas faz quando não vê outra saída.

O que se discute aqui é o direito ao aborto e não o aborto em si. A repórter fez a pergunta corretíssima ao candidato, questionando-o sobre a “ampliação do direito à interrupção da gravidez”. Mas ele não respondeu sobre o direito ao aborto, mas sobre o aborto em si, o que são coisas bem diferentes, usando como alternativa políticas de contracepção.

E desde quando uma coisa exclui a outra? Promover métodos contraceptivos são importantes, mas eles só excluem a necessidade do direito ao aborto na concepção fundamentalista de certos políticos que não entendem o caso nem como questão de saúde pública, nem como ponto central na autonomia da mulher sobre o próprio corpo.

Não se exclui e não se opõe. Até porque aborto não é método contraceptivo. Se o direito ao seu acesso fosse ampliado, não seriam formadas filas quilométricas na porta do SUS feito um drive thru de fast food de pessoas que foram vítimas de camisinhas estouradas. Aliás, essa ideia de jerico, de ver o aborto como método contraceptivo, aparece muito mais entre as justificativas daqueles que se opõem à ampliação dos direitos reprodutivos e sexuais do que entre os que são a favor.

Defender o direito ao aborto não é defender que toda gestação deva ser interrompida. E sim que as mulheres tenham a garantia de atendimento de qualidade e sem preconceito por parte do Estado se fizerem essa opção. Estado este que deveria ser célere e não fazer lambança quando emite portarias para assegurar a efetivação do direito ao aborto já previsto em lei.

Porque vale ressaltar, o aborto é legal no Brasil, como nos casos de risco à vida da mãe e estupro. O que se discute é a ampliação desse direito já reconhecido em lei.

Hoje, o “direito” ao aborto depende de quanto você tem na conta bancária. Afinal de contas, mulher rica vai à clínica, paga R$ 4 mil e pronto. Mulher pobre se vale de objetos pontiagudos ou remedinhos vendidos a torto e direito sem controle e que podem levar a danos permanentes. Enquanto discutimos quando começa a vida (sobre isso dificilmente chegaremos a um consenso), mulheres morrem nesse processo. Negar o “direito ao aborto” não vai o diminuir o número de intervenções irregulares, eles vão acontecer legal ou ilegalmente.

Defendo incondicionalmente o direito da mulher sobre seu corpo (e o dever do Estado de garantir esse direito). É uma vergonha ainda considerarmos que a mulher não deve ter poder de decisão sobre a sua vida, que a sua autodeterminação e seu livre-arbítrio devem passar primeiro pelo crivo do poder público e ou de iluminados guardiões dos celeiros de almas, que decidirão quais os limites dessa liberdade dentro de parâmetros. Parâmetros estipulados historicamente por homens.

É óbvio que um candidato ou candidata de olho nos votos de uma sociedade bastante conservadora não vai dizer o que pensa. Por isso, tenho cada vez mais certeza que eleições não são um momento bom para se discutir políticas públicas. Pelo contrário, como já disse aqui, eleições são momento de retrocesso de uma parcela dos direitos humanos.

Esperemos que os candidatos às eleições presidenciais não deixem que suas crenças, físicas ou metafísicas, ou a de seus aliados, se sobreponham à necessidade de garantir a dignidade das mulheres.

29 May 22:47

Dor em dobro

by Natalia Viana

É quase meio-dia de uma quinta-feira escaldante de fevereiro quando o ginecologista e obstetra Jefferson Drezett, diretor do serviço de aborto legal do Hospital Pérola Byington, bate à porta de um quarto no quinto andar do prédio localizado na rua Brigadeiro Luis Antônio, centro de São Paulo.

O médico gira a maçaneta e através da fresta pede licença para entrar acompanhado da reportagem da Pública. Uma mulher de camisola cor-de-rosa do hospital está deitada sozinha no quarto espaçoso com uma janela ampla e poucos objetos pessoais além de uma garrafa de água e uma revista feminina na cômoda ao lado da cama. A televisão está ligada em um programa matinal de variedades.

“Ah não, esse programa é uma porcaria!”, diz o médico, que desliga o aparelho.

A paciente ri, timidamente, e o médico se aproxima, apoiando as mãos na cama, enquanto pergunta como vai a recuperação, se ela sente alguma dor. Ela não tem queixas.

“Esta é a repórter que te falei ontem, lembra? Se você sentir que ela está te incomodando, se não estiver gostando das perguntas, pode terminar a entrevista. Fala só o que você quiser falar”. instruiu Jefferson.

A. é uma mulher de 29 anos alta e bonita, de cabelos castanhos e lisos presos em um rabo de cavalo, unhas compridas e bem cuidadas. Os olhos amendoados ficarão úmidos entre uma pergunta e outra mas ela terá a coragem de levar sua história adiante até o fim.

Caminhamos até o consultório ao lado e sentamos frente a frente. Em meio a longas pausas, ela conta que está ali há três semanas, sozinha, entre idas e vindas ao hospital. Não, ela não tem nenhum acompanhante durante as internações. Apenas duas amigas sabem que A. está hospitalizada porque são elas que estão tomando conta de sua filha de 4 anos. O filho mais velho, de 12, passava as férias na casa da avó no interior.

As amigas, porém, não suspeitam o real motivo pelo qual A. está em um quarto do Pérola Byington. Ninguém sabe que, na véspera, A. interrompeu uma gestação de quase quatro meses. Para elas, A. disse que trataria de um problema na tireoide.

Os amigos, a família e o ex-marido tampouco sabem que, em uma noite de outubro passado, quando retornava do trabalho à noite, sozinha, um homem de calça jeans, blusão de moletom e boné por baixo do capuz cruzou seu caminho na mal iluminada passarela que ela tinha que atravessar todas as noites ao voltar do shopping onde trabalhava como vendedora, na zona oeste da capital. Ele a ameaçou com uma faca ou canivete, arrastou-a para debaixo da ponte e a estuprou. Depois disse que ficasse calada, sabia que ela passava sempre por ali.

Ela voltou para casa, tomada de medo e dor. Estava só com as duas crianças e nunca pensou em falar nada para a família ou amigos. Sentia vergonha do que aconteceu; não procurou o serviço de saúde, nem registrou boletim de ocorrência.  Começou a faltar ao serviço. Ia dois dias, faltava outro – tinha medo de atravessar a passarela. Pediu demissão semanas depois. Só queria esquecer aquilo tudo.

Em novembro, a menstruação de A. não veio. O teste de farmácia deu positivo e ela procurou o Hospital Universitário da USP, que fica perto de sua casa. O exame de sangue confirmou a gestação. Ela tinha certeza que só poderia ser resultado da violência que sofreu – e, pela primeira vez, contou a alguém o que tinha acontecido. Em resposta, ouviu da equipe do hospital que não podiam fazer nada, que voltasse para casa.

Ninguém sequer mencionou que ela tinha o direito legal ao atendimento “emergencial, integral e multidisciplinar” em qualquer hospital do SUS, público ou conveniado, e ao encaminhamento aos serviços de referência para o caso de desejar abortar, como define a lei 12.845, sancionada em agosto de 2013 pela presidenta Dilma Rousseff.

Embora desde 1940 o artigo 128 do Código Penal Brasileiro isente de punição o médico que realizar aborto para salvar a vida da gestante ou se a gravidez resultar de estupro – e a partir de 2012, também em caso de anencefalia do feto por decisão do Supremo Tribunal Federal – foi a lei 12.845 que definiu os caminhos para viabilizar a interrupção da gestação dentro dos permissivos legais. Desde outubro de 2013 (90 dias após a publicação do texto), as duas normas técnicas do Ministério da Saúde, Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes da Violência Sexual contra Mulheres e Adolescentes e Atenção Humanizada ao Abortamento, que orientam o atendimento dos profissionais de saúde no serviço público, também passaram a ter valor e emergência de lei. O objetivo é padronizar a assistência e os procedimentos a serem adotados nesses casos.

A., porém, jamais tinha ouvido falar de aborto legal, feito gratuitamente na rede pública de saúde brasileira. Só descobriu que existia o serviço ao encontrar reportagens como esta na internet, após a informação errada que recebeu do Hospital Universitário da USP. Foi então que ligou para Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo, perguntando se havia algum hospital que pudesse atendê-la perto de sua casa, no Jaguaré. Foi orientada a  procurar o Hospital Vila Nova Cachoeirinha, onde foi atendida como manda a Norma Técnica. Ali lhe explicaram que tinha três opções: interromper a gestação; levá-la adiante e ficar com a criança; ou dar à luz o bebê e deixá-lo para a adoção.

Nenhuma outra opção além de não ter aquele filho tranquilizava A. Era totalmente diferente de quando se descobriu grávida de seu menino e de sua menina; agora, não sentia nada, só queria “tirar e acabar”: “Eu planejei meus dois filhos, esse não. Nunca me vi como mãe dessa criança. Sei que toda vez que olhasse para esse bebê ia lembrar tudo, eu não podia maltratar essa criança”, diz, sem conter as lágrimas.

A. 29 anos, só consegui o aborto legal ao procurar o 3o hospital

A. 29 anos, só consegui o aborto legal ao procurar o 3o hospital

A. só conseguiu exercer seu direito ao aborto legal depois que o Hospital Vila Nova Cachoeirinha encaminhou-a para o Pérola Byington – a justificativa foi que o médico responsável pelo serviço de aborto legal no Vila Nova Cachoeirinha estava de férias. Quando chegou ao Pérola, a gestação estava com mais de 12 semanas e não era mais possível utilizar o procedimento mais seguro: a aspiração intra-uterina.

Para complicar, A. faz parte da pequena porcentagem de mulheres (3%) que têm resistência ao Misoprostol, utilizado para estimular a interrupção da gestação, o que prolongou sua estada no hospital. Ao final da nossa entrevista, fala da saudade das crianças (ela chora sempre que fala dos filhos), da vontade de ir para casa e de tentar superar a violência que sofreu. “Não dá para tirar da cabeça. Agora talvez eu consiga, pelo fato de não ter mais a gravidez”, diz.

Mais da metade das vítimas não são atendidas

Cerca de 7% dos casos de violência sexual resultaram em gravidez em 2011. O índice foi estabelecido em um estudo divulgado em abril, feito pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), com base em dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do SUS de 2011.

A porcentagem parece pequena mas revela um número gigantesco de brasileiras que enfrentam essa dolorosa situação. Segundo o 7º Anuário de Segurança Pública do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), publicado em novembro de 2013, foram registrados 43.869 estupros no Brasil em 2011 – e especialistas dizem que o número real de casos é bem maior, tendo em vista que raramente a vítima de violência sexual notifica a ocorrência. No mesmo ano, foram realizados 1.504 abortamentos legais no Brasil na rede pública de saúde. No ano seguinte, foram 1.625 procedimentos e, em 2013 (até novembro), 1.400. Os dados são do Ministério da Saúde e foram obtidos através de lei de acesso à informação; a transparência não é o forte em relação aos dados públicos sobre o aborto.

O estudo realizado com as informações do Sinan revelou, porém, que 67,4% das mulheres grávidas em decorrência de estupro em 2011 não tiveram acesso ao serviço de aborto legal.

“Isso leva a imaginar que algumas provocaram a interrupção de maneira clandestina. Em uma clínica, com medicamentos, ou fazendo uso de procedimentos invasivos, como agulha de tricô, soda cáustica… Aí vão outros métodos abortivos que muitas vezes esterilizam a mulher, quando não levam à morte”,  alerta a socióloga Myriam Mastrella, pesquisadora da organização ANIS (Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero), baseada em Brasília.

Há quase 20 anos à frente do serviço de aborto legal do Pérola Byington, que atende em média 130 casos por ano, Jefferson Drezett não hesita quando perguntado quais os sentimentos mais comuns entre as mulheres que optam pelo aborto legal: “O repúdio aparece para mais ou menos 90% das mulheres e é intenso. O outro, é a clara associação de que a gravidez de um estupro viola o ‘meu’ direito de decisão pela maternidade. ‘Eu’ não tive nenhuma escolha. É uma gestação forçada”, relata o médico.

Segundo ele, algumas mulheres preferem “resolver no sistema clandestino, principalmente quando têm recursos financeiros para fazê-lo com segurança sem ter que passar por tantas perguntas ou pela possibilidade de ser tratada como uma mentirosa”, explica. Também há “uma parte muito pequena das mulheres [que] desiste do aborto”, diz o médico. “Elas perdem a coragem ou escutam outra opinião e resolvem não fazer”, conta.

Ao longo dessa apuração, foi possível concluir que a falta de orientação está entre os principais obstáculos ao uso do aborto legal – o caso de A. não é exceção.

Lista secreta de serviços públicos

Segundo o Ministério da Saúde, o aborto legal “pode ser realizado em todos os estabelecimentos do SUS que tenham serviço de obstetrícia. O acesso a estes atendimentos  por meio do encaminhamento das pacientes, via centrais de regulação, aos serviços especializados. Ou seja, a mulher atendida em um hospital ou unidade de saúde é direcionada ao centro de referência que deve seguir as normas técnicas de atenção humanizada ao abortamento do Ministério da Saúde e a legislação vigente. Hoje são 65 serviços disponíveis, em 26 Estados”, escreveu a assessoria de comunicação do Ministério em resposta à nossa solicitação.

Mas o Ministério se nega a fornecer a lista dos estabelecimentos preparados para esse atendimento, o que faz com que as vítimas dependam inteiramente do encaminhamento correto dos hospitais em que são socorridas, que muitas vezes falham, como aconteceu com A. em um hospital universitário na maior cidade do país. “Não passamos essa relação para preservar a integridade e a segurança das mulheres e dos próprios profissionais de saúde atuantes nessas unidades”, foi a resposta do Ministério de Saúde por e-mail quando pedimos a lista.

Uma explicação surpreendente até para os profissionais de saúde, como descobrimos ao relatar o ocorrido ao chefe do serviço do Pérola Bygton: “Se isso que você está dizendo é verdadeiro, seria algo entre o patético e o risível. Com a dificuldade geral que as mulheres brasileiras têm, você ter esses serviços e não divulgá-los por segurança? Segurança de quem?  Isso deveria estar na página principal da Saúde da Mulher, do Ministério da Saúde, das Secretarias da Saúde, para que as mulheres possam saber onde podem ser atendidas. Aqui, o Hospital Pérola Byington fica na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 683, e ele faz abortos legais”, anuncia Drezett.

O fato é que casos como o do (mau) atendimento de A. no hospital da USP continuam acontecendo diariamente com outras tantas brasileiras, embora em total desacordo com as normas técnicas do Ministério da Saúde e com a lei nº 12.845, como observa a advogada Beatriz Galli, integrante das comissões de Bioética e Biodireito da Ordem dos Advogados do Brasil, seção Rio Janeiro (OAB-RJ), e assessora de políticas para a América Latina do Ipas – organização não governamental que atua globalmente na áreas de direitos humanos, sexuais e reprodutivos das mulheres.

“A responsabilidade do serviço público no atendimento ao aborto legal não pode acabar no momento da negativa. O serviço precisa garantir transferência imediata para outro hospital que atenda. A questão da mulher precisa ser resolvida na mesma hora. Senão, ela fica literalmente sem acesso. Já não basta a falta de informação, que é geral. Não existem campanhas sobre o serviço, os endereços dos hospitais não são divulgados. Olha que coisa mais sem pé nem cabeça: é uma questão de interesse público”, diz a advogada.

Quando há risco de vida para a gestante ou no caso de anencefalia do feto são exigidos dois pareceres técnicos assinados por dois médicos diferentes que serão analisados por um juiz encarregado de  autorizar ou não a realização do procedimento a qualquer momento da gestação. Em caso de estupro não é preciso autorização judicial para interromper a gestação até a 20ª semana se o peso fetal for menor do que 500 gramas. De acordo com a Norma Técnica sobre Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes da Violência Sexual contra Mulheres e Adolescentes, a mulher não precisa nem apresentar boletim de ocorrência ao serviço de saúde para ter direito ao atendimento.

Jefferson Drezett conta que quase 40% dos abortos em caso de estupro realizados no Pérola Byington não têm boletim de ocorrência policial. Prova disso é o próprio prontuário de A., “do tamanho de um elefante”, como comentou Drezett ao folheá-lo na frente da reportagem. São páginas e páginas de exames, pareceres médicos e cápsulas vazias de Misoprostol (medicamento obstétrico utilizado para interromper a gestação) coladas a relatórios com fita crepe, encadernadas em uma pasta do hospital, com mais ou menos um dedo de espessura.

“Você está vendo algum boletim de ocorrência aqui?, pergunta o médico. “Não precisa.  A mulher que entra por esta porta é cidadã e ninguém aqui pode tratá-la como mentirosa. Quando existe é ótimo, não estou dizendo que não seja desejável. Se a mulher está disposta a fazê-lo – ou já o fez — a gente pede uma cópia, coloca no prontuário”, diz.

Ele explica que a decisão de não exigir o boletim de ocorrência foi tomada porque nem sempre a vítima de um estupro tem condições, emocionais e de segurança, para registrar queixa contra o agressor. Por exemplo, quando o crime é cometido por alguém da própria família ou envolve membros do crime organizado.

"É difícil para a mulher aceitar ter um filho concebido em um ato extremamente violento" Irotilde Gonçalves,pioneira do serviço de aborto legal

“É difícil para a mulher aceitar ter um filho concebido em um ato extremamente violento” Irotilde Gonçalves,pioneira do serviço de aborto legal

O atendimento no Pérola Byington é feito nos moldes da Norma Técnica de Atenção Humanizada ao Abortamento, que orienta os atendimentos na rede pública, e da qual Jefferson Drezett é um dos autores. A equipe responsável por esses atendimentos é multidisciplinar, composta por obstetras, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais, uma necessidade constatada  durante o funcionamento do primeiro serviço público de abortamento legal, criado em 1989, no Hospital Municipal Arthur Ribeiro Saboya (conhecido como Hospital do Jabaquara, em São Paulo), pelo médico obstetra Jorge Andalaft Neto e pela assistente social Irotilde Pereira Gonçalves.

O primeiro acolhimento é feito pelo serviço social, que escuta a história da paciente e busca detalhes da violência sexual. “Essa etapa tem a função de ouvir e avaliar quais são os riscos que essa mulher está correndo, porque tem adolescente que está denunciando o pai ou está denunciando o chefe de tráfico da favela. Ela precisa ser abrigada por que, se ela voltar para casa, corre o risco de morrer”, exemplifica o coordenador do Pérola Byington.

O serviço social também verifica se a paciente precisa fazer exames para confirmar a gravidez. Na sequência, a mulher é atendida por uma psicóloga que, segundo Drezett, não é “um detector de verdade ou mentira”. “É muito fácil imaginar que essa mulher já tenha motivos de sobra para precisar de assistência psicológica por ter sofrido um estupro. Dobre tudo isso porque, desse estupro, ela está grávida. Aumente ainda mais um pouco, porque além de ela estar grávida, ela ainda interrompeu uma gravidez que não recebeu nenhum tipo de olhar acolhedor do ponto de vista social. Ela tem condições, naquele momento, de tomar aquela decisão sozinha? Que sofrimento ela tem? Ela pensa em suicídio? 25% das mulheres aqui têm ideias suicidas persistentes. Não estou falando que tentaram o suicídio, mas pensam no suicídio como uma forma de resolver ou sair de uma situação muito complicada”.

Por fim, vem o atendimento médico, que checa os possíveis problemas de saúde da paciente e determina o período exato da gestação. “Estabelecemos a compatibilidade entre o tempo de gravidez e o tempo da violência. Ou seja, um estupro não pode ter ocorrido há quatro semanas e a gravidez ter 18. Então, é uma gravidez que precede o estupro. A mulher pode até achar que decorreu do estupro, isso é muito comum. Foi estuprada e acha que a gravidez é do estupro, mas não é. É do marido, do namorado, do ficante ou de outro parceiro, mas não é do estuprador. A gente tem que provar que não é uma gestação consentida e, em alguns casos, até fazemos um exame de DNA intraútero para confirmar essa distinção”, esclarece o obstetra.

Até a 12ª semana de gestação, a interrupção é feita por aspiração intra-uterina, que pode ser manual ou elétrica. É um procedimento cirúrgico rápido e seguro, “dura menos do que cinco minutos”, de acordo com Drezett. Depois desse período, o método mais seguro é induzir a interrupção da gestação por meio de medicação. No Brasil, usa-se o Misoprostol, de distribuição controlada pelo Ministério da Saúde e popularmente conhecido como Cytotec.

Objeção de consciência

A advogada Beatriz Galli explica que, antes da promulgação da lei 12.845 em 2013, as normas ficavam sujeitas às interpretações dos servidores da saúde o que, na prática, significava que qualquer profissional contra o procedimento poderia criar obstáculos para sua realização. “Com a lei, existe uma obrigação do gestor de colocar um servidor que não tenha questões contra o aborto. Então, passamos a ter mais ferramentas para garantir e cobrar das autoridades serviços como profissionais qualificados e que não tenham questões de foro íntimo a respeito”. Galli se refere à objeção de consciência prevista no Código de Ética Médica brasileiro, que dispensa o médico de “prestar serviços profissionais a quem ele não deseje”, e o permite “recusar a realização de atos médicos que, embora permitidos por lei, sejam contrários aos ditames de sua consciência”.

A profilaxia da gravidez é outra prática que a lei tornou obrigatória em todo o SUS: mulheres que sofreram violência sexual devem ser atendidas o mais rápido possível para que uma gestação indesejada seja evitada. Além disso, as vítimas de violência sexual devem ser informadas de seus direitos, inclusive do direito ao aborto previsto em lei. Lembrando que, de acordo com a legislação, violência sexual é qualquer forma de atividade sexual não consentida.

A lei, considerada “um divisor de águas” pela advogada, ainda determina que todo serviço público de saúde deve prestar o atendimento à vítima de violência sexual, ou seja, ele não se restringe aos 65 hospitais e maternidades credenciados no atendimento de referência. Mas casos como o de A. mostram que as mulheres continuam enfrentando problemas para exercer seus direitos na prática, uma realidade que constatamos em diversas situações e locais no país.

“O filho é seu”, ouve a vítima de estupro na delegacia da Mulher

O número de estupros registrados no Rio de Janeiro –  5.923 casos em 2012 – só fica atrás de São Paulo, que notificou 12.886 casos naquele ano, segundo o 7º anuário da Fundação Brasileira de Segurança Pública. Ainda assim, há somente um serviço de aborto legal no estado. Seja lá onde more, para ser atendida a vítima de estupro precisa ir até o Instituto Municipal da Mulher Fernando Magalhães, em São Cristóvão, na capital.

Uma dificuldade que na prática inviabiliza o atendimento à boa parte das gestantes, como observa Adriana Mota, feminista “de formação” e ex-subsecretária de políticas para as mulheres do Estado. “Muitas sequer chegam à unidade de atendimento. Ou o que pode acontecer é ela ouvir em uma primeira tentativa ‘não é aqui, precisa ir a outro lugar’ e desistir. A secretaria estadual de saúde é uma meleca, a do município é outra meleca, e as mulheres aqui no estado do Rio de Janeiro não têm onde buscar ajuda. É uma fantasia. Se você ligar, perguntar aos hospitais públicos e eles disserem que realizam aborto legal, é mentira. Só a Fernando [Magalhães] faz, e ainda muito pouco”, afirma.

Encontramos Adriana em um café do segundo andar do Centro Cultural Banco do Brasil, no centro do Rio. Algumas semanas antes, ela tinha entregado o cargo a pedido do governador Sérgio Cabral, que por divergências eleitorais havia rompido com o PT, o partido de Adriana. Em seu lugar, entrou a evangélica Marta Dantas, ligada ao partido Solidariedade.

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Para Adriana, não basta apregoar a existência do abortamento legal para que “um monte de mulheres apareçam” para utilizar o serviço. “Não vai [aparecer um monte de mulheres]. Porque é difícil ir até a unidade de saúde, porque se ela for vai ter que contar para a família o que aconteceu, vai tomar uma série de remédios que têm efeitos colaterais, enfim, é difícil revelar uma situação de estupro”, diz.

Anualmente, são realizados em média apenas oito procedimentos de aborto legal no Hospital Fernando Magalhães; a maioria, de gestações decorrentes de estupro. Quem nos dá essa informação é a pediatra Carmen Athayde, diretora geral da unidade, que trabalha há 19 anos no hospital, onde o serviço de aborto previsto em lei existe desde 1989.

Carmem foi a única porta-voz no estado com quem a reportagem conseguiu conversar oficialmente. A Secretaria Estadual da Saúde não autorizou o contato com outros profissionais do serviço e, horas antes do horário combinado, cancelou uma entrevista com a ex-chefe de obstetrícia do Fernando Magalhães, que hoje trabalha em outra maternidade pública do Rio de Janeiro e disse que não poderia falar sem a autorização da secretaria.

A pediatra Carmen nos recebeu na sala da diretoria, adornada por um retrato a óleo do médico que fundou o hospital, batizado em sua homenagem. Este foi o único ambiente do hospital a que a reportagem teve acesso – além da recepção, à qual se chega subindo as escadarias diante da entrada principal. A médica estava acompanhada de Fátima Inês, chefe de enfermagem do serviço de abortamento legal.

“Vocês consideram oito procedimentos ao ano um bom número?”, perguntamos às duas.

“Eu acho um número pequeno”, responde Fátima. “No Pérola, em São Paulo, eles fazem em média quatro por semana…”, questionamos. “Por semana?”, espanta-se Carmen. “Aqui também recebemos encaminhamento do estado inteiro, muito de Niterói, e Baixada Fluminense. Mas é um número pequeno, e um número menor ainda em relação aos casos de violência sexual deste estado”, admite.

Carmen dá dois motivos para o número reduzido de procedimentos:  falta de divulgação e informação a respeito do serviço; e aumento da distribuição de contracepção de emergência, realizada desde 1998. “O atendimento precoce é muito importante. É mais importante ainda que um serviço de aborto. A mulher deveria não precisar do aborto. Conseguimos evitar a prática com a profilaxia de emergência”, argumenta.

Mas as coisas não são bem assim, como demonstra a história que ela nos conta, que havia acontecido no dia anterior.  “Chegou uma moça aqui, grávida já. Acredito que ela não teve acesso à informação de que podia ter contracepção de emergência. Ela é de Duque de Caxias, aqui na Baixada Fluminense, um município muito grande. Estava com doze semanas, fazemos aqui até 18 semanas. É uma decisão técnica que tomamos, decidimos que era mais seguro. E quanto mais cedo, mais fácil, né? Ela contou que esteve na delegacia de Caxias e disse que foi o delegado, mas não importa quem foi… Foi alguém que atendeu ela na delegacia. Essa pessoa disse que não podia fazer nada por ela. E ela disse: ‘mas eu tô grávida!’. ‘O filho é seu’, responderam. Isso em 2014! E isso aqui não é o interior do Piauí, não! E foi em uma delegacia da mulher. Ela teve sorte e persistência de conseguir chegar aqui”, diz Carmen. “A maioria delas acha que precisa ter aquele filho de um estupro, elas têm muita vergonha. Não contam pra ninguém quando são violentadas, e pra ninguém mesmo quando se descobrem grávidas da violência. E se sentem muito culpadas, é um sentimento geral.”

 86% de casos não atendidos no Rio de Janeiro

O Rio pode até não ser o interior do Piauí – estado, aliás, que também só tem um serviço referenciado de atendimento aborto legal, segundo o Ministério da Saúde –, mas é fato que um percentual significativo dos profissionais, tanto da saúde como da segurança pública, não coloca em prática o atendimento à mulher em situação de violência (sexual ou não) previsto em lei. É o que comprovou uma pesquisa coordenada pela assessoria parlamentar do CFEMEA, divulgada em março deste ano, que ouviu 432 profissionais de ambos os setores em junho de 2013 no Estado do Rio de Janeiro: o saldo de não atendimento do serviço de aborto legal às mulheres vítimas de estupro chega a 86%. Apenas 5% dos profissionais da saúde disseram realizar abortamento legal em caso de estupro; 70% afirmaram que a prática não compete à instituição e 9% responderam que “mais alguém realiza”. Sobre a contracepção de emergência após a violência sexual, o mesmo estudo apontou que 35% dos profissionais fornecem a “pílula do dia seguinte”; 25% responderam que “mais alguém” distribui o medicamento e 26% afirmaram que a prática não compete à instituição.

Nem mesmo a orientação da vítima de estupro a respeito do direito à interrupção voluntária da gestação, caso ela aconteça, está garantida. De acordo com o estudo, 56% dos entrevistados afirmaram informar a mulher; 36% disseram não fornecer esse esclarecimento; 19% dizem “que alguém realiza” e 17% acreditam que não é papel do serviço de saúde prestar esse tipo de orientação.

A assistente social carioca Rejane Farias escolheu o atendimento ao aborto legal no Fernando Magalhães como objeto de estudo de seu projeto de mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Durante o mês de fevereiro, ela empreendeu pesquisas de campo no hospital, entrevistando os funcionários. Identificou três problemas que atrapalham o bom funcionamento do serviço: objeção de consciência; falta de divulgação do serviço; e poucos cursos de treinamento e qualificação para atender mulheres em situação de violência em conformidade com a legislação .

Nesse último quesito, aliás,  pesquisa realizada pelo CFEMEA, no ano passado já havia constatado que 85% dos profissionais da saúde no estado do Rio de Janeiro nunca haviam participado de cursos de formação ou capacitação sobre questões de gênero e violência contra a mulher. “Se o profissional não é sensibilizado pela causa, se recusa a fazer”, acredita a pesquisadora, lembrando que o desconhecimento do serviço e da lei leva o servidor a se abster por medo de processo por apologia ao aborto. Há, também, a opção moral e religiosa dos funcionários que pode influenciar a maneira como cada um deles recebe a paciente (na pesquisa, 42% dos servidores se declararam evangélicos; 38%, católicos; e 13%, espíritas kardecistas).

Por isso, o atendimento no Fernando Magalhães segue a lógica de “na prática, a teoria é outra”, diz Rejane: “Qualquer profissional deveria atender [os casos de aborto legal], é um serviço de referência. Mas fica a cargo do chefe da obstetrícia, que é o Marcelo Guerra, que não está lá todos os dias. Se a mulher chega em outro horário, tem que aguardar o plantão seguinte. Imagine se a paciente que precisa ‘voltar outro dia’ – já vivendo a situação traumática de enfrentar uma gravidez decorrente de um estupro – veio de um município fora da Grande Rio e não tem onde ficar na capital? Ou não tem como voltar?”, questiona.

Até mesmo a aplicação correta do Misoprostol para interromper a gestação (em doses repetidas a cada 12 h em um ciclo de 48 h com três a cinco dias de intervalo, segundo orientação da Norma Técnica) fica prejudicada. “Às vezes, o medicamento não surte resultado e é necessário aumentar dosagem. Se o profissional do plantão seguinte não for sensibilizado, vai recusar”, exemplifica Rejane, lembrando que esses relatos “difíceis de comprovar” foram feitos pelos profissionais.

Do lado do hospital, a direção garante que nenhuma mulher que procura o serviço de aborto legal fica sem atendimento, mas assume que não há nenhuma equipe destacada para receber os casos, além do chefe da obstetrícia. “Desde o início, fizemos questão: não temos um serviço de aborto. Não tem um médico que faz só aborto, é uma equipe. É um trabalho da casa, interno. Lógico que a gente sabe que tem alguns profissionais que não criam objeção nenhuma e outros criam”, admite Carmen.

Ela insiste que o hospital “treinou muito” todos os profissionais da unidade, mas que sempre tem alguém – como em toda equipe – que se adequa melhor a outro trabalho. “Da mesma maneira que tem médico que prefere ficar no centro cirúrgico e, o outro, no ambulatório, tem aquele profissional que, seja homem, seja mulher, tem mais jeito [para o serviço de aborto legal]. [Mas] o chefe do serviço não pode ter objeção. O Marcelo Guerra é o chefe da obstetrícia, ele não pode ter objeção”.

O que não a impede de comentar casos de objeção de consciência entre o corpo profissional do Fernando Magalhães, como o de uma médica que realiza ultrassonografias e se recusa a fazer o exame quando sabe que a paciente é do serviço de aborto legal. “Ela é muito religiosa…”, diz.

“Jogados às traças”

Infelizmente, o estado do Rio de Janeiro não é um caso isolado. Durante uma reunião do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, em dezembro de 2012, a ministra Eleonora Menicucci, da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres, afirmou que os serviços de aborto legal no Brasil “estão absolutamente jogados às traças”. Na ocasião, ela disse que esta seria uma das prioridades de sua pasta na área da saúde.

A declaração foi veiculada pelo jornal Folha de S.Paulo, em junho do ano passado, quando Menicucci se manifestou em nota dizendo que “estudos e pesquisas apontam para um desvio de rota dos serviços que atendem às mulheres vítimas de violência sexual”. Segundo a ministra, isso seria reflexo da centralização do atendimento e da falta de equipes multidisciplinares para prestar o atendimento em outros hospitais. “Há uma centralização que leva a que as mulheres estupradas que fazem o boletim de ocorrência numa delegacia sejam encaminhadas todas ao Pérola Byington, complicando muito o acesso das vítimas”, afirmou a ministra.

Em entrevista à Pública, Jefferson Drezett confirmou a declaração da ministra: “Eu tenho conhecimento de uma série de serviços que só estão na lista [do Ministério da Saúde], mas que, na prática, não realizam o serviço”.

De acordo com a ginecologista Verônica Alencar, coordenadora do programa Superando Barreiras, criado em 2007 pelo CEMICAMP (Centro de Pesquisas Materno-Infantis de Campinas) em parceria com o Ministério da Saúde para estimular o atendimento integral à mulher que sofre de violência sexual, existem 37 hospitais (baixe aqui a lista completa) onde o serviço de aborto legal está estruturado e funcionando no Brasil.

O programa Superando Barreiras também citou três cidades onde o serviço poderia não estar funcionando: Curitiba, Fortaleza e Rio de Janeiro. O critério utilizado é a ausência de notificações no Sinan, órgão vinculado ao Ministério da Saúde, que deve ser notificado pelos serviços de referência sempre que uma vítima de violência sexual é atendida.  Além dos dados do paciente, a ficha a ser entregue ao Sinan deve informar as consequências da agressão para as mulheres; uma delas é o aborto: “De Fortaleza não temos informação de como as coisas funcionam. Dizem que fazem, mas não temos dados. Curitiba também diz que faz, mas não há dados no Sinan. Não sabemos se lá cumprem a norma técnica, se colhem vestígios”.

Para piorar, nem mesmo todos os estabelecimentos que constam da lista do Superando Barreiras estão funcionando. É o caso do Hospital Municipal Arthur Ribeiro de Saboya, localizado na zona sul da cidade de São Paulo, pioneiro na implantação de programas de atenção à violência sexual contra mulheres, incluindo o aborto legal. Embora o Hospital do Jabaquara, como é conhecido, tenha realizado 337 atendimentos para interrupção da gestação entre 1989 e 2007 (68% por gravidez resultante de estupro), ao visitar o local, em fevereiro de 2014, acabamos descobrindo pela assistente social Irotilde Pereira Gonçalves, uma das fundadoras do serviço de abortamento legal, que “o serviço está em reforma há dois anos”. A informação veio depois da entrevista concluída, apenas quando pedimos para conversar com a equipe especializada.

Fomos ainda a Campinas, no interior paulista, conversar com Arlete Fernandes, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e coordenadora da equipe de atendimento especial às mulheres vítimas de violência sexual do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM), que fica dentro das dependências da universidade e também consta da lista do Superando Barreiras.

O hospital, considerado referência na região de três milhões de habitantes, realiza o procedimento do aborto legal em caso de estupro desde 1994. No início, esse era o único tipo de assistência disponibilizado pela unidade a mulheres que haviam sofrido violência sexual. Depois, o atendimento se tornou mais abrangente. “Com o tempo, percebemos que a maioria delas chegava até nós após 20 semanas de gestação [limite para a realização da interrupção da gravidez], quando não podíamos fazer mais nada. Então criamos o Serviço de Atendimento de Emergência, pensando nas prevenções que poderíamos levar até essas mulheres”, conta a médica.

De 1994 a 2012, segundo dados da própria Arlete, o CAISM recebeu, ao todo, 192 solicitações de interrupção de gravidez ocasionada por estupro. Destas, 112 (58,3%) foram atendidas, 44 (23%) foram barradas por contraindicação da equipe multidisciplinar, 18 (9,3%) não foram realizadas porque a mulher decidiu assumir a gestação e outras 18 não foram levadas adiante também pela própria paciente, que abandonou a avaliação.

Portanto, no período em questão, foram realizados em média 6 abortos por ano no hospital, número que parece pequeno quando comparado ao do Pérola mas que, segundo Arlete, justifica-se pelo trabalho de contracepção de emergência realizado pela instituição desde o início do programa de atendimento à vítima de violência.

“Aborteiras”: o peso do preconceito

No início de 2009, uma menina de nove anos e um 1,30m de altura, residente em Alagoinha, no agreste pernambucano, procurou cuidados médicos em Pesqueira, município vizinho, porque estava com enjoos e vômitos. No primeiro atendimento, veio o diagnóstico devastador: ela estava grávida de gêmeos. Mais tarde, a menina contaria que há tempos sofria abusos sexuais do padrastro. Com sintomas de subnutrição e correndo risco de vida, foi transferida para Recife, internada no Instituto Materno Infantil (Imip), mas só teve o procedimento realizado após ser enviada para o Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), um dos hospitais credenciados a realizar o serviço de aborto legal no estado.

Apesar de ser um caso claro de estupro, não somente pela idade da vítima mas por sua fragilidade e vulnerabilidade diante do agressor, a polêmica gerada antes e depois do abortamento marcou o episódio, que ficou conhecido na imprensa como Caso Alagoinha.

Tudo começou com os protestos de dom José Cardoso Sobrinho, na época arcebispo de Olinda e Recife, que defendia ardorosamente a continuidade da gravidez. Vencido pela realização do aborto legal, o arcebispo classificou o ato como “crime grave”, excomungando a equipe médica, integrantes de ONGs feministas e até a mãe da menina por ter apoiado a interrupção da gravidez da filha de nove anos. Paula Viana, integrante do grupo Curumim e uma das pessoas excomungadas por Sobrinho, destaca que, embora o aborto tenha sido por fim realizado, “houve negação ao direito legal, dificuldade de acesso ao que já era previsto em lei, além de grande desrespeito à criança e sua mãe.”

Um caso semelhante ocorrido há cerca de 15 anos foi lembrado por Carmen Athayde, a coordenadora do Instituto Municipal da Mulher Fernando Magalhães, no Rio de Janeiro. Uma menina de Sapucaia, interior do Rio de Janeiro, chegou ao Fernando Magalhães grávida aos 11 anos de idade. Tinha sido estuprada por um desconhecido na zona rural onde vivia. “Um juiz na época, me ligou pessoalmente, dizendo que estava encaminhando. Era miudinha a garota, não dava pra acreditar que carregava outra criança no ventre”, diz Carmen.

Na época, um grupo “pró-vida” (contra o aborto) se alojou na porta principal do hospital. Carregava consigo faixas de protesto, pedindo que a vida do feto fosse poupada. Carmen também recebia diariamente “meia dúzia de mensagens enviadas por fax” de um padre de Anápolis (GO), Luiz Carlos Lodi da Cruz. “Ele mandava fax imensos. Pedi para desligar o aparelho, porque nem de madrugada ele parava. Dizia que ia excomungar todo mundo aqui.”

Aos 9 anos, grávida de gêmeos; aborto condenado pelo bispo

Aos 9 anos, grávida de gêmeos; aborto condenado pelo bispo

O desfecho foi ainda mais trágico do que no caso de Alagoinha. Ninguém foi excomungado, mas os representantes pró-vida conseguiram convencer os pais e responsáveis legais da menina a desistir do aborto. “Prometeram tudo pra família da menina. Até enxoval. E nisso, os pais amedrontados, pessoas muito simples, abriram mão do abortamento. Recuaram. Do outro lado, o juiz conversando comigo e dizendo: ‘precisamos fazer esse aborto’”, relata a coordenadora. Tempos depois, a equipe do Fernando Magalhães soube que o bebê tinha nascido e que em poucos meses a mesma menina estava grávida do segundo filho.

Os dois casos demonstram até que ponto a religião tem força para barrar o serviço de aborto legal em um país laico como o Brasil, ganhando adeptos e alianças também no Congresso como registra outro estudo: o Mapa do Fundamentalismo no Congresso Nacional, criado pelo Centro Feminista de Estudos e Assessoria, o CFEMEA.

Assinado por Juliano Alessander e Kauara Rodrigues, e publicado em julho de 2013, o mapa aponta proposições legislativas em curso com o objeto de criminalizar qualquer tipo de aborto. A PL 5.069/2013, de autoria do deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ), “tipifica crime contra a vida o anúncio de meio abortivo e prevê penas específicas a quem induz a gestante à pratica do aborto”; já a PDC 42/2007, do deputado Henrique Afonso (PV/AC), pretende sustar a Norma Técnica de Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes da Violência Sexual Contra Mulheres e Adolescentes, e propõe que a vítima de estupro seja obrigada a ter o filho de seu agressor. Outra iniciativa citada pela ONG é a CPI do Aborto (RCP 21/2013), requerida pelos deputados João Campos (PSDB-GO) e Salvador Zimabaldi (PDT/SP), que conta com 178 assinaturas para “investigar a existência de interesses e financiamentos internacionais para promover a legalização do aborto no Brasil”.

E há muitas outras propostas no mesmo sentido: segundo o levantamento da ONG, dentre as 34 proposições no tema aborto, 31 sugerem retrocessos graves à legislação em curso como transformar a interrupção da gestação em crime hediondo e acabar com a distribuição da pílula do dia seguinte. A socióloga Jolúzia Batista, assessora do CFEMEA, lembra ainda o famigerado Estatuto do Nascituro, aprovado em 5 de junho de 2013 na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados. Em seus 29 artigos, privilegia e garante direitos do feto desde a concepção, em detrimento dos direitos da mulher. Com a premissa de que “o nascituro goza da expectativa do direito à vida, à integridade física, à honra, à imagem e de todos os demais direitos da personalidade” e penalizando com 6 meses a 1 ano de cadeia quem fizer publicamente “apologia do aborto ou de quem o praticou”, o texto praticamente inviabiliza qualquer discussão sobre aborto no Brasil. O Estatuto, que ficou conhecido como Bolsa Estupro, prevê ainda o pagamento de pensão pelo Estado para crianças concebidas através de violência sexua, caso do pai – o estuprador – não puder arcar com ela ou não for identificado.

“A vida, desde a concepção, é válida e justa para todo religioso. Quanto mais ‘almas’ puderem salvar, melhor. Esse é nosso principal desafio, lidar com esse tipo de pensamento das pessoas. O que acontece no serviço de atenção à saúde é justamente isso, e claro, se arrasta pelo poder público”, explica Jolúzia.

Quando o serviço de aborto legal no Hospital Jabaquara começou, na década de 1980, era comum que os profissionais fossem hostilizados. Irotilde Pereira Gonçalves conta que sofreu uma série de retaliações por parte de fundamentalistas religiosos. “Era comum ser chamada de aborteira. Jogavam ovos e pichavam minha casa. E era preciso manter a identidade dos profissionais em sigilo. A ideia era justamente evitar esses ataques.”

Quanto menor a cidade, mais exposto o profissional se sente, diz Irotilde. “Ele tem medo de ser taxado de aborteiro no lugar e virar alvo dos fundamentalistas.” O que faz com que muitos médicos peçam autorização judicial para fazer o aborto, embora haja garantia legal para o procedimento, ela diz.

Entre o dever e o temor

A recusa dos profissionais de saúde de realizar o procedimento em vítimas de violência sexual tem se mostrado um entrave concreto no acesso ao aborto legal, já que é mais comum do que se imagina, de acordo com Aparecida Gonçalves, secretária Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres da Secretaria de Políticas para as Mulheres. Segundo ela, a grande maioria dos médicos que atuam no serviço de aborto previsto em lei apela para a objeção de consciência para se negar a realizar o abortamento. E acrescenta: “Tenho a dizer o que todo mundo diz: é lastimável. Lamentamos que os nossos médicos tenham esse nível de consciência.”

Mas como o poder público pode tentar driblar esse entrave? “Nós, do governo federal, não podemos alterar o código de ética de uma categoria. Trabalhamos com a universalização do serviço. É direito da mulher, há uma legislação que autoriza, então os hospitais que estão no sistema único de saúde têm que trabalhar. A instituição não pode ter objeção de consciência”, responde Aparecida Gonçalves.

A advogada Beatriz Galli explica que a objeção de consciência pode ser explícita, “quando se traduz na forma de recusa em prestar o atendimento”, mas também implícita, “na forma de demora ou negligência na atenção”. O IPAS Brasil, ONG em que Galli é assessora de políticas para a América Latina, realizou uma pesquisa em 2006 em um hospital localizado na região sudeste da cidade do Rio de Janeiro e constatou que de 40 profissionais, só dois realizavam o aborto. “Um era o chefe da equipe, e o outro era uma médica. No entanto, na falta deles, não tinha quem fizesse”, detalha.

O Ministério da Saúde, através da Norma Técnica Atenção Humanizada ao Abortamento, determina que não cabe a alegação de objeção de consciência pelos serviços de referência nos casos de “necessidade de abortamento por risco de vida para a mulher; em qualquer situação de abortamento juridicamente permitido (por meio de autorização judicial), na ausência de outro médico que o faça e quando houver risco de a mulher sofrer danos ou agravos à saúde em razão da omissão do médico e no atendimento de complicações derivadas de abortamento inseguro, por se tratarem de casos de urgência.”

Como o abortamento em caso de gravidez resultante de estupro dispensa autorização judicial, os médicos continuam alegando a objeção de consciência para não realizá-lo. Mas o pronto-atendimento à mulher não pode ser negado, e o Estado e gestores de saúde têm o dever de manter profissionais que não manifestem esse tipo de objeção nos hospitais públicos e centros de referência.

“O que a gente não pode é deixar que os médicos resolvam isso sozinhos. A gente coloca hoje sobre os ombros dos médicos aquilo que é responsabilidade de organização do estado. O médico não é responsável por organizar esse atendimento; é o estado e o município que têm a obrigação de garantir que se façam concursos para que se tenham médicos trabalhando naquele sistema. É simples assim”, defende Jefferson Drezett.

Por outro lado, diz Drezett,  nem sempre o médico tem o direito de se recusar a realizar o procedimento alegando objeção de consciência: “Existem alguns limites legais e éticos. O primeiro limite é se não existe outro profissional para atender o paciente. Se você está em uma região em que você é o único médico presente, o direito do seu paciente se sobrepõe ao seu, então, você não pode negar. Se você negar, vai receber consequências legais. Também não cabe a alegação em  casos de urgência e emergência. E não cabe a objeção de consciência quando a recusa do médico causar ou colocar a mulher em condição de risco”, lembra.

Em muitos casos o abortamento só é realizado com boletim de ocorrência ou/e laudo do IML, contrariando a norma Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes da Violência Sexual contra Mulheres e Adolescentes que estabelece: “a exigência de apresentação destes documentos para atendimento nos serviços de saúde é incorreta e ilegal”. Depois dessa norma, publicada em 2007, hospitais como o Fernando Magalhães deixaram de exigir o boletim de ocorrência o faziam até 2006, segundo Carmen Athayde.

Diretora de Ações Afirmativas em Direitos e Saúde do Ipas Brasil, Leila Adesse capacita há mais de 20 anos profissionais que trabalham no serviço de aborto legal na rede pública de saúde de todo o Brasil. Segundo ela, os profissionais dos serviços vivem um paradoxo entre tornar visível a existência desses serviços e um “receio de banalização da demanda”. “Eles têm medo de casos não confiáveis. Desconfiam quando contam apenas com a palavra da mulher”, diz Leila.

Para Beatriz Galli, o fato de termos uma lei restritiva em relação ao aborto – a prática ainda consta no código penal como crime contra a vida – contribui para o receio dos profissionais da saúde. “Existe um desconhecimento dos profissionais na questão da interpretação deste marco legal. Existem tabus, como o de que a mulher pode mentir para se favorecer, e o médico pode ser cúmplice disso. O aborto é muito estigmatizado.”

  
 

“A falta de divulgação do serviço é um desserviço”

Para a maioria das pessoas ligadas ao serviço de aborto legal ouvidas nesta reportagem esse desconhecimento continua sendo um dos grandes obstáculos para o exercício desse direito. Como resume a advogada Beatriz Galli a “falta de divulgação do serviço é um desserviço. O aborto é uma questão tensa pra mulher, o menor entrave pode ser motivo de desistência.”

“A falta de informação não é somente das mulheres, é ainda dos profissionais de saúde, do porteiro ao médico”, completa a diretora do Hospital Fernando Magalhães, Carmem Athayde. “Não lembro de nenhuma campanha sobre violência sexual. Violência doméstica, sim.”

A secretária nacional de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres da Secretaria da Política para Mulheres, Aparecida Gonçalves, admite que há um problema de divulgação em nível nacional, e o atribui, em parte, à instabilidade do serviço. “A gente tem durante um mês um hospital que atende, um mês depois, ele já não atende mais. Não tem divulgação, mas ter divulgação errada pode ser pior”, afirma. Ela também diz que a veiculação de informações sobre o tema não está a cargo da SPM, nem de qualquer órgão do governo federal.

“O serviço é de responsabilidade dos estados e dos municípios. Quando digo que a saúde é descentralizada, significa que são eles que têm a responsabilidade de divulgar o UPA (Unidade de Pronto Atendimento), a Santa Casa, os hospitais que estão credenciados para realizar o aborto legal”, diz.

Mas nem mesmo o 180, número da Central de Atendimento à Mulher, funciona, como constatamos ao telefonar para o serviço criado pela SPM com o objetivo de “disponibilizar um espaço para que a população brasileira, principalmente as mulheres, possa se manifestar acerca da violência de gênero, em suas diversas formas.” Ligamos ao menos sete vezes para o número e em nenhuma delas foram informados os endereços de hospitais de referência. Em apenas uma das tentativas foi dito claramente que a vítima tinha direito a interromper a gravidez; nas demais, a recomendação foi de procurar um serviço de emergência. Em um dos casos, foi sugerido iniciar o pré-natal!

Como diz a historiadora Fabiana Paranhos, pesquisadora da ANIS, “o problema não está só nos hospitais que fazem o procedimento, mas na rede toda. Todos os postos de saúde, ou delegacias, que não sabem encaminhar, ou não querem.”

Começando pelas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs), frequentemente o primeiro local para onde se encaminham  as vítimas após o ato de violência, como diz a secretária Aparecida Gonçalves. Segundo ela, as delegacias especializadas foram pensadas, na década de 80, para ser o “top do top”, mas “o que tem acontecido, é que elas têm sido, dentro da segurança pública, relegadas”. Ela explica: “Na maioria das vezes, os profissionais que vão pra essas delegacias são os que não deram certo em nenhuma outra delegacia e vão, como castigo, para a delegacia da mulher. A questão é: se eles estão lá por castigo, não vão dar um bom atendimento, com qualidade”.

“Você deveria pensar duas vezes antes de vir aqui”, diz o policial

Em janeiro de 2011 G., na época com 29 anos, veio visitar a família em Recife, sua cidade natal, depois de dois anos vivendo na Alemanha. Em uma noite de sábado de “lua linda”, lembra, ela foi estuprada em uma ruela a “quatro quarteirões de casa”. Nunca tinha visto o agressor antes, e hoje, quando conta sua história, jura que não lembra nem ao menos a cor de sua pele, altura ou roupa que vestia. “Bloqueei tudo. Eu só sei que foi um vulto, um vulto de gente que me agrediu por um tempo que também não consigo ter noção.”

Depois do estupro, ela conta que se sentiu culpada por estar no lugar errado, na hora errada, com o comprimento de short errado, e ficou quieta. Foram umas duas semanas até ter coragem de conversar com uma amiga, que a orientou procurar uma delegacia, registrar um boletim de ocorrência, e em seguida ir atrás de um hospital para realizar os exames necessários. O medo, a vergonha e a culpa foram mais fortes de novo e G. ficou paralisada em casa por mais duas semanas. Finalmente foi até a farmácia mais próxima e comprou um teste de gravidez que para seu desespero deu positivo.

Finalmente correu até uma delegacia e ‘“tremendo da cabeça aos pés”contou sua história. Mas o policial que a atendeu, disse: “Você devia pensar duas vezes antes de vir aqui buscar um B.O. pra tirar um filho. Ninguém vai registrar nada aqui se sua intenção é matar uma vida”. Completamente vulnerável, só encontrou apoio quando voltou para a Alemanha, e onde realizou o aborto na rede de saúde pública.

“Você devia pensar duas vezes antes de vir aqui buscar um B.O. pra tirar um filho", ouviu G

“Você devia pensar duas vezes antes de vir aqui buscar um B.O. pra tirar um filho”, ouviu G

Um caso que está longe de ser exceção como constatou a pesquisa do CEMICAMP, de Campinas, que entrevistou 419 delegados titulares ou responsáveis por Delegacias da Mulher entre setembro de 2010 e abril de 2011. “As DEAMs em todo o país ainda apresentam limitações importantes para poder dar atendimento adequado às mulheres que sofrem violência sexual”, constatou o estudo. Entre essas limitações está a falta de pessoal treinado para dar o acolhimento necessário em 80% das delegacias. Para 70% dos entrevistados, esse é o maior entrave para um atendimento adequado.  Por fim, conclui o estudo, “as DEAMs não estão cumprindo plenamente o papel que se lhes atribui em defesa dos direitos e da segurança das mulheres”. Para isso, “teria que ser feito um importante investimento em treinamento e motivação desse pessoal e verificando se há necessidades de complementação ou adaptação dos locais onde funcionam.”

Como mostram os casos de G. maltratada na delegacia e o de A. abandonada pelo atendimento do hospital, falta muito para que as mulheres brasileiras realizem o direito adquirido por lei de abortar ao menos quando são estupradas.  Uma questão que está longe de ser individual, como destaca a pioneira Irotilde Pereira, do Hospital Jabaquara.

“Todas as mulheres estão sujeitas a sofrer violência sexual. Não importa a classe, nível social, a cor da pele, o nível cultural. É difícil para a mulher aceitar ter um filho de uma pessoa que ela não conhece, que ela não autorizou mexer no seu corpo, e concebido em um ato extremamente violento. Porque eles [os estupradores] agridem, batem, machucam muito. Trata-se de uma questão de direitos humanos importante para toda a sociedade”, diz.

O preço da negligência, ressalta, tem sido a vida de milhares de mulheres que não encontram outra alternativa a não ser se juntar àquelas que recorrem a métodos clandestinos, que matam uma brasileira a cada dois dias. “Em sã consciência, ninguém é favor do aborto. Seria melhor que não existisse estupro, que não existisse aborto. Mas o aborto é um dado de realidade”, argumenta Irotilde. Para ela, o que mata não é o aborto. É a falta de atendimento.

Nova portaria

No último dia 22 de maio, o Ministério da Saúde publicou no Diário Oficial da União portaria que entre outras determinações inclui na tabela do SUS o serviço do aborto legal. A resolução – um complemento à lei 12.845 – estipula que, a cada gravidez interrompida, o governo deve repassar aos hospitais R$ 443,00. Não há alteração nas situações em que o aborto é legalmente permitido: risco de vida, estupro, anencefalia fetal.

A advogada Beatriz Galli se diz otimista em relação à portaria, uma “vitória para os direitos reprodutivos das mulheres brasileiras”, diz. “Agora fica bastante claro quais são as hipóteses em que as mulheres têm direito ao procedimento, acabando de vez com a polêmica de que a mulher precisa de autorização judicial”, explica.

O procedimento, denominado “Interrupção da gestação/Antecipação terapêutica do parto previstas em lei”, engloba, além do abortamento pelo método medicamentoso, curetagem e esvaziamento manual intrauterino (AMIU), a oferta de anticoncepção, realização de profilaxias e exames, notificação de violência sexual, acolhimento, consultas de retorno e guarda de material genético (quando couber), entre outros. Determina, também, que o atendimento seja efetuado de acordo com as Normas Técnicas já criadas pelo MS.

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