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04 May 20:58

A Saga do Brasil na Estação Espacial Internacional

by Carlos Cardoso

A participação do Brasil no projeto da Estação Espacial Internacional foi uma saga de incompetência, mentiras, promessas não-cumpridas e o mais puro jeitinho brasileiro de empurrar com a barriga. Neste longo e tardio artigo vamos acompanhar passo a passo essa jornada épica a lugar nenhum. Pegue um conhaque, tome com um Prozac, e acompanhe.

Not yours, Brazil. (Crédito: NASA)

Em 2010 um documento1 do Conselho de Altos Estudos e Avaliação Tecnológica a Câmara dos Deputados dava como encerrada a participação brasileira no projeto da ISS – Estação Espacial Internacional. A rigor o Brasil já estava de fora oficialmente bem antes, em 2008, quando a NASA celebrou os dez anos a Estação Espacial Internacional2, sem nenhuma menção ao Brasil.

1 – A Estação Espacial Internacional

Parece incrível, mas a ISS nem sempre esteve lá onde está. Ela já foi muito menos espacial e principalmente muito menos internacional. Sonhada desde os anos 1960, a estação espacial substituiria o modesto e atormentado Skylab, e ofuscaria a Mir russa.

Em 1984 A então batizada Estação Espacial Freedom foi anunciada por Ronald Reagan, que logo percebeu que espaço é caro, muito caro. Ele tentou uma parceria com a Inglaterra de Margareth Thatcher, mas ela era a Dama de Ferro, não de Ouro, e não tinha grana pra bancar o projeto.

Rapidamente a solução foi reduzir as expectativas, mudar o nome pra Estação Espacial Alfa, e oferecer parceria para Europa e Japão. Em 1993 os sonhos de uma Guerra Fria no espaço caíram por terra, a única chance da ISS sair do chão era com ajuda dos comunistas, por mais que isso colocasse em risco nossos preciosos fluídos vitais.

Ronald Reagan apresenta a Margaret Thatcher um modelo preliminar da Estação Espacial Freedom. (Crédito: Reagan White House Photographs / White House Photographic Collection)

Assim em Setembro de 1993 Al Gore, Vice-Presidente dos EUA e a Viktor Chernomyrdin, Primeiro-Ministro russo anunciam a intenção de desenvolver em conjunto uma Estação Espacial. Os países que foram convidados para a Alfa são confirmados, novos países são chamados a participar do projeto, entre eles a 8ª Economia do Mundo, o glorioso salve-salve Brasil.

2 - A Proposta Irrecusável

O convite veio em 1996, quando o Brasil, extremamente otimista assinava acordos de cooperação espacial com todo mundo, e a administração Clinton era favorável ao Governo FHC. Fomos o único shithole país em desenvolvimento convidado para o Projeto da Estação Espacial.

Em um documento de título longuíssimo3 assinado em 14 de Outubro de 1997 era detalhada a participação brasileira na ISS. Nele o Brasil se comprometia a entregar os componentes entre Novembro de 2000 e Janeiro de 2004. As peças (descrição detalhada no documento) eram:

  • Instalação para Experimentos Tecnológicos (TEF)
  • Janela de Observação para Pesquisa – Bloco 2 (WORF-2)
  • Palete Expresso para Experimentos na Estação Espacial (EXPRESS)
  • Container Despressurizado para Logística (ULC)
  • Adaptador de Interface para Manuseio de Carga (CHIA)
  • Sistema de Anexação ZI-ULC (ZI-ULC-AS)

Tecnicamente não eram essenciais. Ou melhor, eram componentes necessários, mas não estratégicos. Havia tempo caso algo desse errado.

Eles seriam produzidos no Brasil, seguindo especificações fornecidas pela NASA e fabricantes americanos, como a Boeing. O custo estimado pela NASA foi de US$120 milhões, ou US$196 milhões, em valores de 2021.

No Brasil o sinal de que as coisas não iriam dar certo já apareciam. Em uma notinha no Jornal do Brasil, em 13 de Outubro de 1997 era dito:

“Convênio garantirá ao Brasil participação em uma estação espacial construída pela NASA. O Brasil terá que entrar com US$12 milhões, mas a proposta do Congresso só prevê US$4 milhões”

Mau sinal (Crédito: Jornal do Brasil)

A gente já viu esse filme.

O governo exaltava o acordo dizendo que traria know-how para a indústria nacional, e em troca teríamos acesso a experimentos, hardware, espaço de carga na ISS e principalmente um astronauta brasileiro participaria de pelo menos uma missão na Estação Espacial. Com muita fanfarra foi anunciado em 1998 que o então Capitão Marcos Pontes havia sido selecionado, e iria treinar em Houston para sua eventual missão.

Em terra, as coisas não iam tão bem. A Embraer havia sido selecionada para construir os componentes, e terceirizaria o projeto envolvendo mais 15 empresas, incluindo a Boeing, mas não houve repasse de verbas. Em verdade o orçamento do MCT sequer contemplava o projeto da ISS, e a Boeing levou um calote de US$15 milhões em 1998. A Embraer entubou ainda mais, deixou de receber US$20 milhões.

Vai dar tudo certo. (Crédito: Jornal do Brasil)

3 - Problemas no Paraíso

A NASA discretamente começava a correr atrás de fornecedores alternativos, enquanto no Brasil a gente empurrava com a barriga. A Embraer acabou admitindo que não teria como produzir os seis componentes, que seriam capazes de construir apenas o Palete Expresso (Express Pallet, no original)  para Experimentos na Estação Espacial, que é basicamente uma estante de metal. Só que ele custaria US$300 milhões4, dos US$120 milhões alocados para o projeto inteiro.

Nossa participação equivalia a 0.12% do custo5 total da Estação Espacial, mas era suficiente para causar atrasos ao cronograma do projeto. A NASA cobrou do Brasil a entrega do componente mais crítico, o Palete Expresso. Ele estava planejado para subir em 2006, deveria ser entregue em 2001 e já era 2002.

A Embraer agora dizia que podia reduzir os US$300 milhões do Express Pallet para US$140 milhões6, o que ainda era US$20 milhões além do orçamento original pra todos os componentes.

Partes da Estação Espacial que cabiam a cada país. Brasil é em laranja. Clique para ampliar (Crédito: NASA)

A NASA foi enrolada de Junho a Outubro, quando o Brasil admitiu que não tinha como entregar o tal Palete. E não iríamos mais construir os projetos mais complexos, como a Janela de Observação WORF-2.  (sim, pessoal da NASA assiste Star Trek)

Internamente a NASA queria detonar a participação brasileira, mas diplomacia morre de medo de criar climão e causar cenas, então foram feitas novas propostas. O Brasil construiria o Container Despressurizado para Logística, que é pouco mais que uma caixa de metal e materiais compostos, e 43 FSEs, Flight Support Equipments7, adaptadores genéricos para interfacear sistemas na estação.

O Brasil disse que não terá como fazer o tal Container, mas se comprometeu a produzir os FSEs, a um custo de US$8 milhões. Eles precisavam estar prontas em 2006.

Nesse momento o Brasil caiu num buraco negro estatal.

Entre 2002 e 2004, silêncio total de rádio. Diz o DefesaNet:

“Segundo dirigentes da NASA declararam à imprensa internacional em abril de 2006, desde 2004 os contatos com a agência brasileira saíram por completo de cena. O Brasil simplesmente se escondia de suas atribuições e cobranças.”

Para piorar, o Brasil, como bom caloteiro orgulhoso, estava indignado com a retirada de Marcos Pontes dos cronogramas dos próximos vôos. Ele deveria embarcar em um ônibus espacial em 2007, mas o acidente com o Columbia fez a NASA encolher o número de futuros vôos planejados, e de qualquer jeito o Brasil ainda não havia entregue NADA do prometido.

Ainda era possível ver a bandeira brasileira espalhada pela NASA (Crédito: NASA)

4 - Pobres mas Orgulhosos. E Exigentes.

Roberto Amaral, Ministro de Ciência e Tecnologia chegou a cobrar via imprensa um vôo para Marcos Pontes, era questão de orgulho nacional. Ao mesmo tempo na NASA o clima era o pior possível. O próprio Pontes relata8 que não tinha mais o que dizer em reuniões, já estava sem desculpas. Nos corredores da NASA ele desviava para não ter que encarar as pessoas.

Os tais FSEs? Ninguém sabe. Mesmo. Foram literais ANOS sem avanço.

Agindo por conta própria Marcos Pontes foi atrás de parceiros comerciais, e chegou ao SENAI, do qual havia sido aluno. Ele conseguiu convencer o SENAI9 a produzir os FSEs, segundo as especificações da NASA, a CUSTO ZERO PARA O GOVERNO BRASILEIRO.

O racional era que teriam equipamentos no espaço com o selo MADE IN SENAI, e em termos de propaganda isso seria insuperável. Tipo mandar um Tesla pro espaço.

5 - Problema resolvido, certo?

Se você disse certo, first week in Brazil, am I right?

Em Abril de 2005 foi noticiado que o SENAI construiria 38 FSEs (mais tarde reduzidos a 33) e o primeiro protótipo seria entregue em um ano, mas Pontes garantiu que o fariam em 120 dias. De novo, de graça. A Agência Espacial Brasileira havia orçado os tais FSEs a R$86 milhões.

Em Junho de 2006 o SENAI ainda estava fabricando o primeiro dos FSEs10. A AEB chegou a propor trocar os FSEs por uma câmera de satélite que eles juram o INPE seria capaz de construir.

Um dos FSEs. (Crédito: INPE/NASA)

O atraso não foi culpa do SENAI. Eles simplesmente não conseguiram furar a inércia e burocracia estatal, os agentes do governo que viam a Estação Espacial com extrema má-vontade tinham interesse zero em avançar o projeto, então engavetavam os pedidos de especificações e dúvidas técnicas, o que levaria alguns minutos entre empresas parceiras levava semanas com a AEB intermediando.

De novo estava claro para a NASA que o Brasil não conseguiria entregar os 18 (sim, reduziram de novo) FSEs, orçados em US$8 milhões. Eis que veio a facada nas costas:

6 - O Vôo de Marcos Pontes para a Estação Espacial

Desde 2004 que o Brasil tinha dúvidas se Pontes iria ao espaço pela NASA. O Governo era cobrado pelos US$500 mil investidos em seu treinamento, e o próprio Pontes estava BEM descontente com a forma com que foi tratado, sendo taxado de herói nacional em público, mas como indesejável internamente. Muita gente nunca engoliu ele ter conseguido o acordo com o SENAI, e sua posição apoiando a NASA também não era nada popular entre os caloteiros, digo, políticos brasileiros.

Mesmo assim era preciso um cala boca geral, e em 30 de Março de 2006, a bordo de uma Soyuz, subiu para a ISS o Cosmonauta Marcos Pontes, mas ele não fazia parte oficial da Expedição 1311, que para a NASA constava do Comandante, Pavel Vinogradov, e do Engenheiro de vôo Jeffrey Williams.

Imagem oficial da NASA da Expedição 13 (Crédito: NASA)

Pontes não consta das fotos oficiais, ele foi levado como “carga”, ou de forma mais delicada, como um turista espacial. A imprensa logo levantou essa lebre, mas a abordagem do New York Times12, chamando Pontes de “caroneiro” está errada.

Ele foi um passageiro pagante, e muito bem pagante. Os russos estavam passando por um perrengue financeiro, e ofereciam vôos para a Estação Espacial Internacional para turistas. A NASA não gostava muito mas era o jeito. Desde Denis Tito em 2001, vários visitantes pagaram para conhecer a Estação. O mais recente, Gregory Olsen, pagou por volta de US$20 milhões13, então imagina-se que Pontes não saiu muito mais barato.

Na cabeça dos americanos a conta era simples: “A gente negocia um monte de peças por US$120 milhões, vocês enrolam, não entregam, renegociamos até um pacote de US$8 milhões, vocês dizem que não tem dinheiro, mas pagam US$20 milhões pra mandar um sujeito ficar 9 dias no espaço?”

Nota: Oficialmente o Governo Brasileiro diz que o custo do vôo de Pontes foi de US$11,2 milhões. (Fonte: Este documento aqui, página 171. JURO.)

Em Terra, sonho realizado, Pontes vai para a Reserva da Aeronáutica e começa a criticar o Governo, que o corta totalmente.

“Sou a única pessoa que pode falar oficialmente com a Nasa”, disse em 2006 Raimundo Mussi, gerente do Programa ISS-Brasil da AEB.

Segundo ele as renegociações estavam quase no final, e o Brasil tinha reservado naquele ano R$5 milhões do orçamento da AEB para a Estação Espacial. O que dava na época US$2,2 milhões. Uns 15% do que custou o vôo de Pontes e ¼ do custo projetado das FSEs.

No mesmo ano, antes do SENAI conseguir entregar seu protótipo, o Brasil recebeu uma carta da NASA dizendo “Obrigado, não precisa mais”. Outros fornecedores foram alocados para produzir em regime de emergência as FSEs, e o resto dos equipamentos já haviam sido construídos ou estavam em fase de entrega.

7 - O Sonho da Estação Espacial Acabou

Em Maio de 2007 um artigo do Estadão, citando John Logsdon, Conselheiro da NASA, foi taxativo: “Brasil está fora do projeto da estação espacial”.

Logsdon aponta corretamente que a paciência da NASA acabou. Dez anos de promessas vazias, uma bolada nas costas pagando ao “inimigo” pra levar um astronauta de pirraça para a Estação que o país não contribuiu com um parafuso. Em nome da diplomacia não haveria uma expulsão formal, o Brasil seria ignorado, ostracizado.

Sem nunca deixar explícito, a NASA removeu o Brasil do programa da Estação Espacial Internacional. As bandeiras foram retiradas dos cartazes e da decoração, tanto em terra quanto no espaço, e em Novembro de 2008 um press release15 comemorando os Dez Anos da Estação Espacial não menciona o Brasil entre os membros do projeto.

Da nossa parte, um monte de gente começou a irracionalmente tentar justificar de forma racional o injustificável. Houve quem dissesse que o Programa da Estação Espacial era uma forma dos Estados Unidos alinharem o Programa Espacial Brasileiro com o deles, em detrimento de nossa soberania. No já citado documento sobre a Política Espacial Brasileira1 (página 154), de 2010, é dada a inacreditável desculpa: O programa não era bom pois as empresas brasileiras construiriam projetos já prontos, ao invés de “desenvolver” a tecnologia.

“A negociação do Inpe com a Nasa e a Boeing (sua empresa contratada) mostrou-se morosa e foi definido um modelo onde o Inpe atuaria efetivamente como contratante principal tendo as empresas nacionais como subcontratadas, somente para a etapa de fabricação, pois o projeto seria elaborado por empresas estrangeiras, ocorrendo no exterior o desenvolvimento inicial de vários itens, ou seja, o Brasil financiando o desenvolvimento em outro país. Etapas estratégicas para o desenvolvimento tecnológico do país, como o desenvolvimento de itens eletrônicos (a chamada aviônica), dificilmente seriam passadas para as empresas brasileiras. Finalmente a não colocação de recursos adequados por parte do Brasil determinou o término do referido programa.”

Ou seja: A culpa não é nossa. A culpa é das estrelas. E só levamos dez anos para perceber isso.

A Saga do Brasil na Estação Espacial Internacional não é a primeira nem a última cooperação científica internacional onde o Brasil só entra para passar vergonha. Só é, de longe a mais longa, constrangedora e o suprassumo de todas as vis características dessa terra e dessa gente, que garantem de forma absoluta: O Brasil não tem a menor, a mais remota chance de dar certo.

Fontes:

  1. A Política Espacial Brasileira
  2. Nations Around the World Mark 10th Anniversary of International Space Station
  3. Ajuste Complementar entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo dos Estados Unidos da América para o Projeto, Desenvolvimento, Operação e Uso de Equipamento de Vôo e Cargas Úteis para o Programa da Estação Espacial Internacional (ufa!)
  4. Brasil pode perder sua participação na ISS
  5. EEI - A história de uma crise anunciada: AEB versus NASA
  6. Brasil pode perder sua participação na ISS
  7. Brazilian Industry Conference on the Contract Flight Support Equipment #1
  8. NASA PODERÁ MUDAR A PARTICIPAÇÃO BRASILEIRA NA ISS
  9. Peças brasileiras para a Nasa
  10. Brasil quer trocar peças da ISS por câmera
  11. Expedition 13
  12. Brazil's Man in Space: A Mere 'Hitchhiker,' or a Hero?
  13. Gregory Olsen - American scientist and entrepreneur
  14. País renegocia acordo com a Nasa e descarta Pontes
  15. Nations Around the World Mark 10th Anniversary of International Space Station

PS: ESQUECE ALCÂNTARA!

A Saga do Brasil na Estação Espacial Internacional

27 Apr 21:20

Virus Consulting

All our teams make an effort to stay optimistic, but I will say that once our virus division saw the vaccine efficacy data, they started asking for payment up front.
25 Apr 00:56

Pipes

by Cristiano Silva
Quarto artigo da série Comunicação entre processos, nesse artigo é apresentado o primeiro IPC o PIPE
25 Apr 00:17

Fully Vaccinated

"You still can't walk into someone's house without being invited!" "What? Oh, I see your confusion. No, this vaccine is for a bat VIRUS. I'm fine with doorways and garlic and stuff."
20 Apr 21:11

IBM To Kernel Maintainer: "You Are An IBM Employee 100% Of The Time"

It's fairly common that many longtime Linux kernel developers use their personal email addresses for signing off on kernel patches or dealing with other patch work, especially when they are engaging with kernel development in their personal time too and occasionally jumping between employers over time while still sticking to interacting with the upstream kernel community, etc. There are also understandably some companies that mandate the use of their corporate email addresses for their official work/patches while now IBM seems to be taking things one step to the extreme...
19 Apr 19:59

fork, exec, e daemon

by Cristiano Silva

Terceiro artigo da série Comunicação entre processos, nesse artigo é apresentado o funcionamento do fork, exec e do daemon

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11 Apr 23:09

Liga da Justiça – Resenhamos o Snyder Cut (com spoilers)

by Carlos Cardoso

Snyder Cut é o nome dado à nova versão do filme Liga da Justiça, de 2017, um filme com uma história trágica e conturbada, mesmo para os padrões do DCEU – DC Extended Universe. Em algo inédito na História do cinema, um diretor recebeu carta branca e um polpudo orçamento para mostrar sua versão de um filme que nem foi bem das pernas quando lançado.

Aumente o brilho, há heróis na imagem, juro. (Crédito: Divulgação/HBO Max)

Zack Snyder é um diretor de cinema peculiar. Ele tem uma identidade visual muito forte, e uma visão de mundo específica, seus filmes refletem como ele vê o mundo, mais do que seguem as regras de seus gêneros específicos.

Batman vs Superman e Man of Steel são filmes de super-heróis mas não são filmes de quadrinhos. Aquaman, Guardiões da Galáxia e Shazam! São filmes de quadrinhos. Há uma diferença imensa e sutil, e muitas das críticas a Zack Snyder vem de não entender a diferença.

Snyder não se interessa em contar histórias de gente que veste a cueca por cima da calça. Ele quer contar a história de quase literais deuses vivendo entre humanos, e as conseqüências disso.

Liga da Justiça deveria ser a culminação do DCEU, com os principais heróis de reunindo para salvar o mundo, mas logo no início das filmagens, o mundo de Zack Snyder virou de cabeça para baixo; sua filha, Autumn, cometeu suicídio aos 20 anos de idade, e mais que compreensivelmente Zack abandonou tudo que estava fazendo.

Zack pediu a Joss Whedon para assumir a direção do projeto (ou o Estúdio propôs, as versões variam), e em um momento raro entre corporações malvadas e sem-coração, a Marvel não teve qualquer problema em ver seu diretor mais importante trabalhar pra concorrência.

O problema é que Joss Whedon é excelente fazendo filmes com a cara do Joss Whedon, junto com John Fraveau e os irmãos Russo bBrothers ele ajudou a criar o estilo bem-humorado dos filmes de quadrinhos da Marvel.

O Steppenwolf não tem NADA de engraçado. É até meio triste. (Crédito: HBO Max)

Os filmes da DC têm uma pegada mais séria, principalmente os do Snyder, e o Liga de Justiça sofreu com isso; roteiro e direção formaram um dueto com cada um cantando em um tom diferente. Whedon picotou a história e tentou ao máximo fazer um filme da Marvel, mas com material da DC. Não deu certo, o filme não tem a gravidade de uma história séria nem o bom humor de um filme descompromissado. Imagine se os Russos decidissem encher o primeiro ato de Vingadores: Ultimato com piadinhas. Não funcionaria.

Quer dizer: Eu gostei do Liga da Justiça de 2017, mas admito que muito por ser fã das antigas, pra mim ainda é um privilégio poder ver esses personagens em carne e osso, e muito do que foi omitido na história eu preenchi com meu conhecimento prévio. Um fã neófito não tem essas vantagens.

Os humanos como sempre fizeram caquinha e protegeram a Caixa Materna... enterrando a meio-metro de profundidade no meio do mato. (Crédito: HBO Max)

O Estúdio já tinha engolido o prejuízo. Liga da Justiça faturou mundialmente US$657 milhões, e custou US$300 milhões, colocando em cima os custos de marketing, não sobrou grana nem pra um chiclete, Batman vs Superman faturou US$873 milhões custando US$50 milhões a menos.

Por isso tudo ninguém botou fé quando começou na Internet o movimento para “liberarem o Snyder Cut”, dificilmente o estúdio gastaria dinheiro para remontar o filme, e na época achava-se que seria isso, uma nova edição com algumas cenas cortadas incluídas. O que ninguém imaginava é que não só o estúdio toparia a idéia como Zack Snyder gastaria US$70 milhões para chamar todo mundo de volta e filmar um monte de cenas novas.

Chegamos ao Snyder Cut

Colocando o carro na frente dos bois, dá pra resumir assim: O Snyder Cut é uma excelente história, contada do jeito que o Zack Snyder acha que deveria ser contada, e que jamais funcionaria no cinema.

O Snyder Cut tem 4 horas de duração, e pra todo mundo reclamando disso, eu lembro duas coisas: 1 – Vocês adoram maratonar séries na Netflix e 2 – Vingadores: Ultimato teve três horas de duração e foi só a metade final, se levarmos em conta que precisou de Guerra Infinita antes, são mais duas horas e meia no pacote.

O que Zack Snyder fez foi filmar não um gibi, mas um daqueles paperbacks com uma saga inteira. Quase todas as falhas do primeiro filme foram corrigidas. Nada é jogado, nada é solto ou gratuito. Principalmente, Snyder fez algo que é raro nesse tipo de filme: Entregou um vilão com motivações.

Na primeira versão o Lobo da Estepe é um pau-mandado de Darkseid, um vilão genérico sem nenhuma personalidade ou motivação, agora ele é quase um pária, desesperado para cumprir sua missão e ganhar de volta o respeito de seu Mestre.

Sua sequência com as Amazonas é bem maior que na versão original, e ele sofre nas mãos delas, até conseguir roubar a Caixa Materna.

As Caixas Maternas aliás são parte da mudança. Na nova versão elas estão em silêncio, pois saem que uma invasão não seria bem-sucedida com a presença do Super-Homem na Terra. Quando ele morre, aí sim elas enviam o sinal que traz o Lobo da Estepe para a Terra.

Também vemos uma versão bem mais longa da batalha primordial aonde deuses, humanos, atlantes e aliens se uniram para enfrentar Darkseid (e não mais o Steppenwolf) e que resultou na perda das Caixas Maternas, que ficaram na Terra como espólio de guerra.

Se parece que tudo está bem mais explicado, esse é o segredo. Zack Snyder contou uma história sem pressa, dividida em seis partes, aonde a motivação de cada personagem, a existência de cada peça é explicada e apresentada.

Talvez o maior beneficiário disso tudo tenha sido Ray Fisher, que faz Victor Stone, o Cyborg. Ele foi alvo de uma decisão executiva sinistra: Os figurões da Warner acharam que seria prejudicial nos mercados internacionais o filme girar em torno de um personagem negro raivoso, e praticamente todo o arco dele foi cortado. Isso é uma falta de visão completa, a raiva e o conflito interior são essenciais ao Cyborg, e no Snyder Cut ele finalmente tem o espaço que merece.

Booya! (Crédito: HBO Max)

É mostrado como Silas Stone, pai de Victor é ausente, preocupado em pesquisar tecnologia kryptoniana e a Caixa Materna, vemos o acidente que vitimou sua mãe (a do Victor, não a sua, calma) e deixou o jovem e promissor atleta estraçalhado, só sendo salvo depois de virar um experimento do pai, que usou a Caixa Materna para reconstruir seu corpo.

Silas também tem um papel bem mais ampliado, ajudando a Liga da Justiça a invadir a nave Kryptoniana e ressuscitar Kal-El, plano que é bem mais discutido e questionado, nessa versão.

Não São Super-Amigos

A Liga do Snyder Cut não é recheada de piadinhas como a versão do Joss Whedon. Não tem Aquaman pisando no laço e falando da Tototosa Maravilha, não tem Cyborg falando “booya” nem o Super-Homem inexplicavelmente ignorando o vilão para salvar civis que nem estavam em perigo imediato, já que os parademônios estavam ocupados atacando a Liga.

Nessa versão Batman começa a recrutar a Liga sem ter noção de qual é a ameaça, só depois que Diana descobre um subterrâneo em um templo com inscrições detalhando a Batalha Primordial que ela entende o que Darkseid representa.

O climinha dela com o Bruce também foi devidamente removido do Snyder Cut. Estamos lidando com o Apocalipse, ninguém tem tempo para flertes de adolescentes. Só o Flash, na cena em que ele salva Iris West, e é lindamente bem-feita e original, abrindo caminho pro futuro filme solo do Personagem.

Darkseid é mau feito o Pica-Pau, num nível animalesco, provavelmente para se diferenciar do Thanos (Crédito: HBO Max)

Ezra Miller, mesmo com menos piadinhas, ainda é o alívio cômico do filme, e consegue ser mais pra cima e animado que o Flash de Grant Gustin, no seriado do CW, e um dos pontos altos do crossover Crise nas Infinitas Terras foi quando ambos se encontraram.

A Liga de Snyder é super-séria (trocadilho intencional) pois são pessoas “reais” lidando com o fim do mundo. Alguns mais que outros, pois as Amazonas não desenvolveram ainda o conceito de telefone celular, rádio, corujas ou corvos, então Diana não sabe se quando o Lobo da Estepe disse que matou todas elas, está falando a verdade.

A shit ficou serious

O Liga da Justiça de 2017 era PG-13, basicamente censura livre. O Snyder Cut é R-Rated, a mesma classificação de filmes como Logan e Deadpool, e morte-certa para blockbusters como Vingadores, mas com a distribuição online, tudo muda.

Com a versão R, as lutas se tornaram mais viscerais, o que melhorou MUITO o velho problema desse tipo de filme: o clássico exército genérico de inimigos em computação gráfica. Sem falar que a cena final do Lobo da Estepe ficou deliciosamente brutal, bem como a batalha primordial.

O Suposto Problema de Zack Snyder

Eu vi nerds tresloucados reclamando que Snyder não respeita os personagens; Batman usa armas, o Super-Homem é frio e alienígena (eu sei) o filme não respeita a lógica dos quadrinhos. Mas minha gente, não é quadrinho. É um filme que usa personagens que surgiram em quadrinhos. Aquaman, Deadpool são quadrinho puro. O Snyder Cut está muito mais pra Logan do que pra um gibi.

Snyder entende sim a linguagem dos quadrinhos, mas ele acha que é capaz de tirar muito mais dos personagens. Quanto há material de sobra, como em Watchmen, ele não precisa mexer em nada. Quando precisa, ele estende o filme e aprofunda os personagens.

O Snyder Cut é o DCEU, dark, realista, mas não é depressivo. Ele fica depressivo quando os filmes são cortados pelo estúdio e as coisas são jogadas na tela. O Snyder Cut é, acima de tudo, solene.

O uniforme preto é lindo e é canônico. Você tem todo direito de discordar, mas saiba que está errado. (Crédito: HBO Max)

A Parte Que Não Funcionou

Eu gostei muito do Snyder Cut, muito mesmo, mas não é um filme perfeito. Pouquíssimos são. Há algumas decisões questionáveis. Então, vamos a elas:

1 – O formato 4:3

Zack Snyder filmou várias cenas do Batman vs Superman com câmeras IMAX, aquele formato monstruoso de grande que permite projeção em telas de 30 metros de altura. IMAX tem uma proporção de 1.33:1. A maioria dos filmes-pipoca são filmados em 2.39:1. BvS alternava entre formatos, o que é extremamente desagradável visualmente se não for feito com criatividade e parcimônia, tipo em WandaVision.

Snyder decidiu que ele gostou mais do formato IMAX do que do widescreen, e como estava usando filme de 35mm, com um aspecto mais quadrado, optou pelo 1.33:1, o mesmo utilizado no cinema antigamente. Ele é bem próximo do resultado final, 4:3, que era a norma nas televisões antigas. Eu acho que foi um erro, filmes em 4:3 ficam apertados, esteticamente é uma razão de tela que não funciona com cenas e batalhas épicas.

2 – As cores lavadas

A Gail Simone, famosa autora de quadrinhos brincou que mal esperava pra ver o Lanterna Cinza” de Zack Snyder. Não chegou a tanto mas caramba, Zack Snyder deve ser um cachorro, todas as cores são lavadas, nem dá pra saber se o Uniforme Preto do Super-Homem é o preto mesmo ou o tradicional desbotado. Até a Mera, que em Aquaman tinha um cabelão ruivo Koleston virou no máximo morena-clara. E como se não bastasse, Snyder quer lançar uma versão preto-e-branco do filme.

Zack Snyder odeia tudo que é colorido. Quando falaram para ele sobre 50 Tons de Cinza a resposta foi "pra quê tanto?" (Crédito: Divulgação)

3 – As cenas pós-tudo

Snyder adorou o pesadelo pós-apocalíptico com o Super-Homem fascista mostrando em Batman vs Superman, mas não teve como encaixar no filme, então ele voltou, de novo como um pesadelo de Bruce Wayne, dessa vez com os heróis renegados sobreviventes tentando invadir a base do Super-Homem, com direito ao Coringa do Jared Leto, bem melhor do que no Esquadrão Suicida, mas ainda desnecessário. A cena com o Luthor também não acrescentou nada, no máximo abriu caminho pro filme solo do Batfleck, que não vai acontecer.

4 – Darkseid

Sim, eu sei, todo mundo reclamou de ele não aparecer na versão do Whedon, mas nessa ele aparece na Batalha Primordial, num flashback, depois passa o filme inteiro em chamada de Zoom com o Lobo da Estepe. Quando ele finalmente encara a Liga da Justiça olho no olho, é através de um boob, digo boom tube, vemos as tropas de Apokolips, Desaad, a Vovó Bondade, aí ele chuta o roteador a ligação cai, the end.

Ficou algo muito, muito forçando uma continuação, mas convenhamos, se você ameaça um mega-vilão o filme inteiro e não entrega, o público fica decepcionado. Vide a RIDÍCULA participação do Rino num daqueles filmes do cabeça de teia.

Conclusão:

Se você não assistiu o Liga de Justiça de 2017, NÃO ASSISTA. Passe direto pro Snyder Cut, mas não vá com fogo no fiofó. Apesar de ter um monte de cenas de ação, não é um filme pra ver comendo pipoca olhando no celular e dando ALT+TAB no browser. Você vai apreciar muito mais se dedicar quatro horas de sua vida ao Snyder Cut.

Zack Snyder é um bom contador de histórias, e se você viu o Liga da Justiça de 2017, pode ver esse sem medo. É a mesma história, mas um filme completamente diferente. É como se Zack Snyder tivesse ouvido os fãs e refeito o filme consertando tudo que acharam errado, e nem foi culpa dele pra começo de conversa.

Cotação:

4,5/5 Cyborgs dos Jovens Titãs Em Ação pra todo mundo entender que um personagem pode ter mais de uma leitura.

Trailer:

Aonde Assistir:

Nos EUA, só na HBO Max. Por aqui, em um monte de serviços de streaming. Vivo, Sky, Google Play, YouTube, etc.

Liga da Justiça – Resenhamos o Snyder Cut (com spoilers)

11 Apr 21:40

Estudo revela como os neurônios dos neandertais funcionavam

by Ronaldo Gogoni

Muito se fala sobre as diferenças entre o homem moderno, Homo sapiens sapiens, e seus "primos" próximos, os neandertais (H. sapiens neanderthalensis) e os denisovanos (taxonomia ainda não definida, não há consenso entre H. denisova, H. altaiensis e H. sapiens denisova, pois ainda não decidiram se ele foi ou não um sapiens). Em um dado momento, as três subespécies conviveram ao mesmo tempo e inclusive cruzaram entre si, como comprovam pesquisas genéticas que detectaram DNA neandertal em europeus e denisovano em aborígenes.

Ainda assim, o H. sapiens sapiens perdurou e os demais foram extintos. Isso é estranho quando olhamos para os neandertais, capazes de fabricar ferramentas complexas e criar arte. Eles tinham rituais funerários e também dominaram o fogo, e se estenderam por regiões que o homem moderno ainda não havia alcançado, durante a Era do Gelo, em tese por serem mais robustos e adaptados ao frio.

Reconstituição de como seria um neandertal adulto (Crédito: Flavio Massari/Alamy)

Reconstituição de como seria um neandertal adulto (Crédito: Flavio Massari/Alamy)

Os neandertais foram uma subespécie humana relativamente capaz de perdurar, mas pouco se sabe como o cérebro deles, ou dos denisovanos, que eram bem mais próximos a eles do que ambos de nós, funcionava. Até onde sabemos, o nosso é consideravelmente menor, mas a chave está em como ele opera, sua plasticidade e eficiência.

Evidências genéticas apontam para diferenças fundamentais nesse ponto, mas ver um cérebro de um neandertal "funcionando" é outra história. Não tínhamos como ver tal coisa até agora, e é aqui que entra o novo estudo conjunto entre cientistas brasileiros e norte-americanos, que conseguiram "cultivar" organelas cerebrais com um gene arcaico, chamado NOVA1.

Este gene em específico responde pela produção de uma proteína que regula como as células "lêem" trechos de outros genes, voltado especificamente para o desenvolvimento de neurônios e suas interconexões. Já se sabe que o NOVA1 do homem moderno é uma mutação, diferente da detectada em neandertais e denisovanos, e isso implica diretamente em como o cérebro se constitui e funciona.

A pesquisa consistiu em cultivar células-tronco e inserir nelas o NOVA1 neandertal, de modo que elas se especializaram em neurônios e posteriormente, em organoides corticais. Essas organelas são simulações MUITO resumidas do cérebro, mas suficientes para observar como o real se comportaria. Paralelamente, outros organoides foram cultivados com o gene NOVA1 moderno, para servirem como material de comparação.

Cena do filme "A Guerra do Fogo" (Crédito: Cinema International Corporation/AMLF/Disney)

Cena do filme "A Guerra do Fogo" (Crédito: Cinema International Corporation/AMLF/Disney)

Os resultados foram interessantes, para dizer o mínimo.

Os organoides com o NOVA1 neandertal eram menores e mais rugosos do que os com o gene moderno, e suas células tinham um índice maior de apoptose (morte cerebral programada), além de se multiplicarem menos. Por outro lado, elas apresentaram uma atividade eletrofisiológica (transmissão de impulsos entre neurônios) mais complexa do que a nossa. Um dos motivos para isso é que o desenvolvimento cerebral de nossos "primos" era mais acelerado que o nosso, algo que já se sabia.

Pode parecer uma vantagem e tanto, mas na verdade isso cria um problema logístico. O cérebro dos neandertais trabalhava em um ritmo mais acelerado para realizar funções que o nosso desempenha normalmente, tendo um ciclo mais lento de desenvolvimento, o que é uma vantagem para a plasticidade do órgão. Mesmo sendo uma tremenda gambiarra evolutiva, nosso cérebro é capaz até de fazer outsourcing.

Mesmo com redes neurais mais complexas que a nossa, os neurônios de um neandertal tinham menor durabilidade e comprimento, significando que o cérebro tinha que compensar a falta de poder computacional de outras formas.

Uma delas é com um cérebro maior.

Comparação entre o crânio de um H. sapiens sapiens e de um H. sapiens neanderthalensis (Crédito: Wikimedia Commons)

Comparação entre o crânio de um H. sapiens sapiens e de um H. sapiens neanderthalensis (Crédito: Wikimedia Commons)

Antigamente se pensava que a diferença de tamanho entre os cérebros apontava para uma maior inteligência dos neandertais, mas o estudo sugere que sua massa encefálica avantajada era necessária apenas para fazer o mesmo que um H. sapiens sapiens faz com menos miolos, já que os seus são mais eficientes.

Outro ponto a se levar em conta aqui é que o cérebro é de longe o órgão que mais consome energia, e mesmo nossas cabeçonas exigem muita comida. O fogo, nesse sentido, foi essencial para o desenvolvimento de nossa espécie, e claro que os neandertais o usavam também. Ainda assim, é bem provável que eles precisassem comer bem mais que nós.

A pesquisa ainda está no início, e os pesquisadores ainda especulam as repercussões dessa diferença entre os neurônios modernos e dos neandertais e denisovanos, se isso realmente implicava em uma diferenciação cognitiva ou não, além de outras semelhanças e diferenças físicas e comportamentais.

Referências bibliográficas

TRUJILLO, C. A. et. al. Reintroduction of the archaic variant of NOVA1 in cortical organoids alters neurodevelopment. Science, Vol. 371 (2021), Edição 6.530, DOI: 10.1126/science.aax2537, 12 de fevereiro de 2021.

Crédito: Science, Ars Technica.

Estudo revela como os neurônios dos neandertais funcionavam

11 Apr 19:01

The secret of a successful code review

by CommitStrip
11 Apr 18:51

Immune Response

I don't care whether you win or lose, as long as you have-- ...okay, sorry, I'm being reminded I very much care whether you win or lose. I need you to win, that's very important.
11 Apr 18:47

Vaccine Guidance

I can't wait until I'm fully vaccinated and can safely send chat messages in all caps again.
11 Apr 18:28

Até aqui?

by Andre Noel
tirinha
Inclua essa tirinha em seu site
COLE ESSE CÓDIGO EM SEU SITE x
Fonte: Vida de Programador
Transcrição ↓

real historia;
string sender = "Não deixe de fazer terapia";

(Na terapia...)
Programador: ... e daí faz 4 anos que eu trabalho com programação...
Psicóloga: Legal! Front-end ou back-end?
Programador: Back. Ah, você já conhece a área... Já trabalhou com RH antes da clínica?
Psicóloga: Na verdade, eu ainda sou recrutadora autônoma. Depois da consulta a gente pode conversar um pouquinho? Tenho uma vaga boa para Java...
Programador: PLOFT!
--
Camiseta: Tão bom me desligar um pouco do trabalho...

O artigo "Até aqui?" foi originalmente publicado no site Vida de Programador, de Andre Noel.

15 Feb 21:44

mRNA Vaccine

To ensure lasting immunity, doctors recommend destroying a second Death Star some time after the first.
11 Feb 02:57

Cientista diz que pode haver dinossauros na Lua. E a ideia faz sentido

by Carlos Cardoso

Dinossauros na Lua? Isso é insano. Sabemos que há incas em Vênus, Kardecistas em Júpiter (sério), na Lua temos o Vigia, Inumanos e até Mulheres Amazonas, mas agora uma ideia foi proposta e desafia até a ficção: Há uma possibilidade de termos dinossauros reais por lá.

...... (no espaço ninguém escuta você rugir - Crédito: Editoria de Arte)

Calma, eles muito provavelmente estão mortos, ou estão bem velhinhos, mas o conceito é fascinante.

Em algum momento, 66 milhões de anos atrás o mundo viveu seu último dia perfeito. Pastando, caçando, dormindo ou coelhando (embora tecnicamente coelhos só surgiriam bem mais tarde) milhões de dinossauros testemunharam o céu pegar fogo. Vindo de muito, muito longe um meteoro com algo entre 11 e 80Km de diâmetro rasgou a atmosfera a mais de 20Km/s.

Grande demais para ser afetado pela pressão do ar à sua frente, ele atingiu o chão intacto, percorrendo a distância entre a altitude de cruzeiro e o nível do mar em 0.3 segundos.

Em número de Hiroshimas, a energia do impacto foi calculada como algo entre 21 e 921. Bilhões. 921 bilhões de detonações nucleares, ali, no mesmo ponto, ao mesmo tempo.

Isso jogou uma quantidade imensa de detritos na atmosfera, escurecendo o planeta por décadas. Plantas morreram, animais que comiam plantas morreram, animais que comiam animais que comiam plantas morreram. 75% de toda a vida da Terra foi extinta.

Cratera de Chicxulub, não muito após o impacto. (Crédito: Agência Espacial Mexicana)

Essa é a hipótese proposta em 1980 por Luiz Alvarez e seu filho e também geólogo Walter Alvarez. Até então havia várias outras propostas para a extinção dos dinossauros, de pandemias até erupções vulcânicas em cadeia.

O modelo dos Alvarez fazia bastante sentido, mas havia um problema: Eles tinham o crime, mas não tinham a arma do crime. Como costuma acontecer eles foram bem criticados e a hipótese não foi levada mais a sério do que outras.

Dois geofísicos da Pemex, a estatal mexicana de petróleo, Glen Penfield e Antonio Camargo fizeram pesquisas em 1978 procurando marca geológicas que indicam locais aonde há petróleo.

Eles usaram medidas gravitacionais para mapear o solo submarino, e quando analisaram dados da Península de Yucatan, obtidos em 1940, perceberam algo que os cientistas originais não haviam visto, provavelmente por não terem computadores capazes de gerar modelos tridimensionais em tempo real, ou provavelmente por não terem computadores.

Anomalia de Chicxulub (Crédito: United States Geographic Survey)

Os dados mostravam claramente marcas concêntricas indicativas de uma cratera de impacto, mas ela era enorme. Localizada perto da cidade de Chicxulub, a cratera ganhou seu nome.

São 150Km de diâmetro, e 20Km de profundidade. Só como comparação, mesmo sendo impossível visualizar mentalmente isso, a famosa Cratera do Meteoro, no Arizona, tem UM Quilômetro de diâmetro.

Cratera do Meteoro, Arizona (Crédito: Tsaiproject / Wikimedia Commons)

Quando os dados foram apresentados em um Congresso em 1981, pouca gente deu atenção, a PEMEX como toda boa estatal não liberou os dados para que outros cientistas confirmassem os cálculos, e solicitações de amostras minerais foram negadas, com alegações de que haviam sido perdidas ou destruídas. Os dois acabaram voltando pro trabalho normal.

Ao mesmo tempo um estudante da Universidade do Arizona, Alan R. Hildebrand publicou uma pesquisa detalhando as características do solo resultante de um mega-impacto, e começou a analisar amostras de solo de todo o mundo, chegando a descobrir que a parte com mais presença dos minerais previstos ficava na região do Caribe.

Ele começou um trabalho de detetive para tentar identificar o local do crime. Eis que em 1990, um repórter do Houston Chronicle comentou com Hildebrand sobre a pesquisa de Glen Penfield e Antonio Camargo. Imediatamente ele revisou os dados da região, e contactou a PEMEX atrás de amostras. Dessa vez eles foram prestativos.

As amostras de solo mostraram os exatos materiais gerados pela colisão de algo muito, muito grande. Distribuídos nas regiões certas, nas proporções certas. Um crime de 66 milhões de anos havia sido desvendado, infelizmente Luiz Alvarez havia morrido em 1988 e não viu sua hipótese se tornar um fato aceito pela comunidade. Mas não fique triste, ele ganhou um Nobel de Física em 1968, seus méritos eram bem reconhecidos.

E os Dinossauros na Lua?

No livro The Ends of the World, Peter Brannen cita uma conversa com o oceanólogo e geofísico Mario Rebolledo aonde ele descreve o impacto do Meteoro de Chicxulub, e faz uma consideração: O impacto foi tão forte que muito, muito material não só foi lançado na atmosfera, como atingiu velocidade de escape, se movendo rápido demais para ser recapturado pela gravidade terrestre.

Esse material era em sua maioria rochas, terra e água, mas no meio da imensa área de impacto havia uma boa quantidade de árvores, peixes e... dinossauros.

Como o campo gravitacional da Lua é respeitável, é possível, na verdade bem provável que parte desse material tenha sido capturado e caído na superfície do satélite.

Nada chegou vivo, mas ao mesmo tempo nada se decompôs. É possível que no futuro, quando astronautas em uma missão de colonização estiverem escavando os alicerces de nossas futuras casas, fábricas e laboratórios, encontrem um fragmento, ou mesmo um esqueleto inteiro de um T-Rex, e esse grito vai ser ouvido por todo o Sistema Solar.

E não, a hipótese de dinossauros na Lua não é astronomicamente improvável. Estamos lidando com Grandes Números, isso já aconteceu antes e pode acontecer de novo. Por exemplo, esta pedra:

Meteorito marciano NWA 7034 (Crédito: NASA)

É um meteorito, mas tem uma composição que não combina com meteoritos comuns. É uma pedra (pra irritar o SpaceToday) muito nova. Aos poucos outras parecidas foram encontradas, e em 1976 dados das sondas Viking mostraram que o solo marciano tinha uma composição bem parecida com essas pedras.

Depois disso foram encontrados bolsões de ar dentro da pedra. Análises de isótopos e composição mostraram ar totalmente compatível com as medições da atmosfera marciana também feitas pelas Viking.

A conclusão era óbvia: Aquela pedra havia vindo de Marte. Como? Bem, se não foram aliens, a hipótese mais provável é que um meteoro dos grandes atingiu Marte e lançou parte do planeta no espaço, e por uma imensa sorte, aquele pedaço vagou por milhões de anos até colidir com a Terra.

Improvável? Extremamente, mas no âmbito de milhões de anos há tempo pra muita coisa improvável acontecer. Tanto que não temos um, mas 207 meteoritos comprovadamente de Marte.

E sim, se é possível termos restos de dinossauros na Lua, também é possível que fragmentos tenham chegado até Marte. Mas não espalhe, vamos esperar o Elon Musk tomar um susto.

Cientista diz que pode haver dinossauros na Lua. E a ideia faz sentido

08 Feb 21:27

Metacarcinization

Scientists still don't know how marine biologists manage to so consistently bring up whalefall ecosystems, when relevant conversational openings are so few and far between.
08 Feb 21:27

Trash Compactor Party

What an incredible smell you've discovered.
21 Jan 01:54

Altair 8800: 45 anos do computador que deu início à Revolução Digital

by Carlos Cardoso

O Altair 8800, para um jovem gamer de hoje em dia (micreiros já foram extintos) parece, e honestamente é algo pré-histórico, feito com barro fofo e pedra lascada, mas ali tínhamos a essência da microinformática, pela primeira vez os computadores rastejavam do lodo do simbólico mar e se aventuravam na terra da casa das pessoas.

Altair 8800 em exposição no Instituto Smithsoniano. (Crédito: Ed Uthman / Wikimedia Commons)

Em 1974 existiam três tipos de computadores: Mainframes, ocupando salas inteiras, custado milhões, minicomputadores, que custavam o equivalente a uns US$250 mil hoje em dia, e os computadores montados por hobbystas, que tinham profundos conhecimentos de eletrônica digital.

Esses micros eram exclusivos, e a graça era construí-los. Os circuitos eram compartilhados em fanzines e encontros de entusiastas, mas pouca gente conseguia replicar os projetos.

Em Julho de 1974 a Radio-Electronics publicou um artigo com o  Mark-8 de Jerry Ogden, mas ele usava o processador Intel 8008, que era BEM fraco, e era realmente um kit, tudo que Jerry vendia eram as instruções, esquemas, layout das placas de circuito impresso e lista de componentes, o leitor tinha que se virar para achar tudo.

Os editores da revista Popular Electronics decidiram que seria muito legal publicar um artigo resenhando um kit de microcomputador, um kit de verdade. Várias empresas foram contatadas, incluindo a MITS, fundada por Ed Roberts e Forrest M. Mims III. Eles construíam equipamentos de telemetria para foguetes amadores, e mais tarde kits de calculadoras.

Como todo mundo, a MITS estava de olho em computadores, e os processadores estavam começando a se tornar viáveis. Em Abril de 1974 a Intel laçou o 8080, processador de 8 bits com incríveis 6000 transístores. Ele tinha capacidade de processamento de sobra e Ed Roberts começou a brincar com o bichinho, construído um computador em volta dele.

CPU Intel 8080 (Crédito: Wikimedia Commons)

Quando a Popular Electronics o contatou com a oferta de publicar o projeto na revista e vender o computador com kit, a MITS abriu um sorriso enorme; a empresa estava falindo, seu negócio de calculadoras já era, e não havia fogueteiros suficientes para tornar o negócio lucrativo.

Com já tinham experiências com kits, a MITS conseguiu projetar o Altair 8800 para ser simples o bastante para que um hobbysta com experiência mediana o conseguisse montar. Mais ainda: Roberts era um dos maiores clientes da Intel, e ajudou a empresa a direcionar seu negócio de processadores.

Sem experiência (ok, ninguém na época tinha) eles começaram a vender ochip  8080 pelo equivalente hoje a US$1700. E a coisa não era exatamente um Xeon. Roberts disse que não, e como queria comprar uma quantidade bem razoável, negociou o preço para pouco mais de US$350. Depois isso baixou mais ainda.

Isso confundiu a Intel, que produzia uma plataforma de referência e desenvolvimento para o 8080, o Intellec 8 que era vendida pelo equivalente a US$50 mil em 2021.

Ed Roberts (Crédito: Los Angeles Times)

Comprando todos os componentes no atacado, a MITS conseguiu produzir um computador montado por US$2100 nos valores atuais. Soa caro? Estamos falando de um computador, o Altair 8800 era algo que simplesmente não existia como kit. Quando você pagaria por um kit de um disco voador?

Produzido em tempo recorde, o Altair foi enviado para a Popular Electronics enquanto Ed Roberts pegava um avião, mas somente um deles chegou em New York, o Altair foi roubado ou sumiu durante uma greve na empresa.

Ed Roberts, afundado em dívidas, pedindo dinheiro emprestado para bancar o projeto, teve que convencer o conselho editorial da funcionalidade do Altair 8800 usando apenas esquemas do circuito eletrônico.

Eles ainda pediram um gabinete bonito pois seria matéria de capa.

No Novo México, aonde a sede da MITS ficava, Bill Yates (Não confundir com outro Bill – spoiler) montou um gabinete não-funcional, e enviou para a editora. Foi esse gabinete fake que apareceu na capa da Popular Electronics de Janeiro de 1975.

Popular Electronics, Janeiro de 1975 (Crédito: Reprodução)

O Altair 8800 era baseado em um processador Intel 8080, com clock de 2MHz e 256 BYTES de memória. Isso mesmo, crianças, BYTES. Ele não tinha teclado, não tinha porta de joystick, não tinha saída de vídeo, porta de disquete, porta paralela, nada. O barramento era de 16 bits então o 8080 podia endereçar até incríveis 64KB de memória, mas isso custaria uma fortuna.

Toda a comunicação do Altair 8800 era feita através do painel frontal, aonde você programava o bicho usando linguagem de máquina, bit a bit.

Hoje, quando a imensa maioria dos usuários sequer programa seus computadores, e os que o fazem usam todo tido de frameworks, é impensável ter acesso ao metal diretamente, sem nenhum sistema operacional no meio do caminho.

Para o entusiasta de 1975, o Altair 8800 era um presente dos deuses, ainda mais com o kit desmontado custando meros US$1920.

Na primeira versão Roberts fez o Altair 8800 com quatro placas empilhadas, mas isso não era prático para construir. Ele então bolou um barramento com nada menos do que 18 slots, no qual eram inseridas placas com RAM, CPU, lógica auxiliar, etc. O Altair 8800 vinha com quatro placas com as funções básicas.

Altair 8800b de 1976. (Crédito: Michael Holley / Wikimedia Commons)

A MITS prometeu uma bela lista de expansões, que tornariam o Altair 8800 bem menos misantropo, incluindo placas de 1KB e 4KB de RAM, interface paralela, serial, RS-232, para teletipo e até uma porta para gravador K7.

Todas eram vendidas em kit ou montadas.

O artigo, assinado por Ed Roberts e Bill Yates vendia bem o Altair, e abria com o parágrafo:

“A era do computador em cada casa – um tópico favorito entre os autores de ficção científica – finalmente chegou!”

Mais adiante eles descrevem possíveis usos para o o Altair 8800, entre eles:

  • Calculadora científica
  • Sistema de aquisição de dados multicanal
  • Sistema de alarme
  • Testador de Cis
  • Controlador de máquinas industriais
  • Piloto automático para aviões e barcos
  • Cérebro para um robô

Quando pediu empréstimo para o projeto, Roberts explicou para o gerente do banco que a perspectiva era vender 800 kits no primeiro ano. Internamente a MITS trabalhava com a idéia de 200.

Um mês depois do artigo publicado já tinham vendido mais de 1000 unidades, com funcionários novos sendo contratados só para atender os telefones. A MITS não dava conta dos pedidos, alguns levaram seis meses para ser entregues, mas os hobbystas queriam mais. Em três meses Ed tinha 4000 Altairs encomendados.

Altair 8800 conectado a um terminal de teletipo (Crédito: Tim Colegrove / Wikimedia Commons)

Como o barramento do Altair 8800 era bem documentado simples e aberto (ninguém havia pensado em patentear) e as placas da MITS demoravam a sair, surgiram montes de fornecedores projetando e construindo suas próprias expansões, todo um mercado foi criado.

O que atrasava o Altair 8800 era a interface. Mesmo com um terminal de teletipo, você era obrigado a programar em assembler (assembly é coisa de n00b). Havia espaço para uma linguagem de programação de alto nível, e isso chamou a atenção de três nerds de Harvard, Bill Gates, Paul Allen e Paul Gilbert.

Nas horas vagas eles tinham uma pequena empresa que tabulada dados de trânsito nas ruas de Seattle, mas ela nunca foi muito longe. Eles gostavam mais de computadores em si do que de aplicações, e a necessidade que a MITS nem sabia que tinha era perfeita.

Só havia um problema: Nenhum dos três nunca tinha visto um Altair 8800. Mesmo assim eles ligaram para Ed Roberts e perguntaram se ele estaria interessado em um interpretador de linguagem BASIC para o Altair 8800.

Roberts gostou da idéia, e marcou uma reunião em Albuquerque para dali a um mês.

Paul Allen e Bill Gates, 5 anos antes. (Crédito: Bruce Burgess / Wikimedia Commons)

Além de nunca terem visto um Altair, nenhum dos dois (Gilbert não entrou na nova sociedade) tinha visto um Intel 8080. Tudo que tinham era um emulador da CPU 8008 que Paul Allen havia escrito para um projeto anterior.

Allen modificou seu emulador para funcionar como um 8080, e ele e Gates escreveram um interpretador BASIC que conseguiu ocupar menos de 4KB de RAM. Monte Davidoff, um colega deles de Harvard foi contratado para escrever as rotinas de matemática de ponto flutuante.

Funcionando no emulador, foi chegado o dia da demonstração. Gates e Allen embarcaram para o Novo México, levando o BASIC em uma fita de teletipo, uma forma primitiva de armazenamento de dados aonde os bits eram literalmente perfurados em uma fita de papel. Imagine uma evolução dos cartões perfurados...

Nesse momento eles se lembraram que o Altair 8800 não tinha nenhum meio de LER a fita. Não havia ROM, FIRMWARE e outras modernidades. Você tinha que programar no terminal frontal uma rotina para ler a porta serial do teletipo, receber os dados e executá-los.

É essencialmente o que a BIOS do seu computador faz, procurando no setor de boot do hard disk instruções de como carregar o sistema operacional. Só que como o Altair 8800 não tinha BIOS, cada vez que você ligava o computador tinha que literalmente programar em RAM a seqüência de comandos para iniciar o leitor de fita e carregar o BASIC.

Aqui o boostrap original do Altair 8800:

Três seqüências de boot do Altair 8800 (Crédito: Reprodução)

A primeira versão foi escrita por Paul Allen durante o vôo, e eles se surpreenderam quando depois de inserida pacientemente no painel do Altair 8800, na sede da MITS, o programa rodou de primeira.

Demorou bastante para inserirem os 46 bytes do bootstrap de Allen. Mais tarde ele e Gates disputaram quem conseguiria escrever a menor versão. Bill ganhou, reduzindo para 17 bytes.

NOTA: em 2015 um sujeito conseguiu bater o recorde de Bill escrevendo um bootstrap de apenas 12 bytes.

Depois que a fita de papel foi lida, o teletipo imprimiu uma mensagem perguntando o tamanho da memória disponível. Em um sistema com 4KB o BASIC deixava 760 Bytes disponíveis para programas, o resto era ocupado pelo interpretador.

Diante do “OK” impresso no teletipo, Paul Allen digitou a célebre “PRINT 1+1” <enter>, comando que o interpretador BASIC prontamente respondeu “2”.

No vídeo abaixo reproduzem o exato processo, de programar a rotina de boot a executar o comando em BASIC.

Com o BASIC era possível escrever programas com muito, muito, muito mais facilidade do que em linguagem de máquina, e estavam livres do painel frontal, ao menos até o próximo reboot. Ah sim levava 9 minutos para o terminal ler a fita com o BASIC 4K da Micro-Soft, como a empresa se chamava na época.

Novas versões e expansões foram aparecendo, o BASIC 4K original passou a dividir espaço com o BASIC 8K, com mais funções e recursos. Não, mesmo com o BASIC o Altair 8800 não rodava Crysis.

A nova linguagem era cara, a Microsoft vendia o BASIC mais básico pelo equivalente a US$725 em 2021, a Extended, US$1700, mas se você comprasse uma expansão de memória da MITS havia um desconto significativo, o BASIC básico saía por US$290 em valores atuais, os outros sofriam reduções semelhantes.

Apesar de todo o sucesso, da verdadeira febre criada pelo Altair 8800, A MITS não teve um destino muito feliz. Em 1977 ela faturava o equivalente hoje a US$26 milhões, mas era pouco, o Altair 8800 era vendido a preço de custo, o lucro vinha das expansões, e todo mundo estava produzindo expansões, além de clones e derivados estarem surgido de todo lado.

Em verdade em 77 ele já estava mais que obsoleto, ainda mais com a introdução em Abril de um tal de Apple II.

Esse já dá pra brincar (Crédito: FozzTexx / Wikimedia Commons)

A MITS acabou sendo vendida para a Pertec Computer Corporation, que tirou o Altair 8800 de linha, aproveitando os funcionários e a fábrica para produzir seus próprios computadores. Ed Roberts pegou sua parte da venda, equivalente a US$9 milhões hoje, e comprou uma fazenda. Tempos depois ele se formou em medicina e foi morar em uma cidadezinha do interior, sendo médico local, até morrer em 2010, aos 68 anos.

Seu legado foi uma série de gerações de hobbistas, nerds, micreiros, fuçadores, hackers, programadores e curiosos. Jovens que tinham uma atração instintiva por tecnologia, que gostavam de construir seus próprios brinquedos e compartilhar com os amigos.

Altair 8800 com duas unidades de disquete de 8 polegadas. Cada um comportava incríveis 300KB (Crédito: Dr. Bernd Gross / Wikimedia Commons)

Clubes eram formados, convenções e feiras. Nomes como Gates, Allen, Simonyi, Wozniack, Draper, Bricklin, gente que mudou o mundo teve seu mundo mudado quando viram aquela capa da Popular Electronics.

Toda a revolução tecnológica que resultou no incrível mundo conectado que temos hoje foi apoiada no ombro desses gigantes, e nenhum deles é maior do que Ed Roberts e sua humilde caixinha azul, o Altair 8800.

Para Saber Mais

Altair 8800: 45 anos do computador que deu início à Revolução Digital

31 Dec 19:44

Penicilina - A droga mágica made in USA que salvou Hitler

by Carlos Cardoso

Em 1944 uma bomba colocada sob uma mesa detonou, matando 4 pessoas, digo, nazistas, e deixando vários feridos, entre eles Adolf Hitler. Agora a mesa de madeira maciça que o salvou era o que ameaça sua vida. Por sorte seu médico, Theodor Morell, tinha uma carta na manga: Uma droga mágica recolhida de prisioneiros americanos: A Penicilina.

Sir Alexander Fleming (Crédito: Biblioteca do Congresso)

Hitler foi atingido por estilhaços de madeira, e corria grave risco de desenvolver septicemia, com os ferimentos infeccionando e envenenando seu sangue. Não era uma condição excepcional, septicemia era um risco grave em qualquer acidente ou cirurgia durante boa parte da História da Humanidade.

Hoje temos antibióticos de todos os tipos. Pneumonia? Antibiótico. Dedo inchado com Panarício? Antibiótico. 60 anos atrás isso era pura ficção científica, e o primeiro medicamento com razoável sucesso no tratamento de infecções foi a Sulfa, descoberta pelo cientista alemão Gerhard Domagk em 1932. Você já viu, é aquele pozinho branco que os soldados jogam nas feridas nos filmes de guerra. Não, o de Scarface é outro tipo.

Sulfas salvaram milhares de vidas, mas tinham diversos efeitos colaterais e muitas reações alérgicas, e não eram tão eficientes quanto o desejado. Para piorar Sulfa foi tão usada e de forma tão indiscriminada que em poucos anos quase toda bactéria já era resistente.

Era preciso uma solução mais eficiente e elegante, e essa solução começou a ser criada em 1928, quando um microbiologista chamado Alexander Fleming voltava de férias para seu laboratório no Hospital St Mary, em Londres.

A história de que Fleming descobriu a Penicilina em um sanduiche de pasta de amendoim é falsa, o que ele reparou foi que algumas culturas de bactérias que ele havia deixado em placas de petri haviam desenvolvido fungos, o que não é incomum, mas desta vez os fungos estavam mantendo as bactérias longe.

Na imagem acima vemos o fungo, grandão, e as colônias de bactérias,na parte de baixo. Mais próximo do fungo, bactérias sofrendo lise, tendo suas paredes celulares destruídas pela penicilina. (Crédito: Alexander Fleming)

O que ele presenciava era o resultado de milhões de anos de Evolução. Em algum momento uma mutação em um parente distante do fungo Penicillium rubens fez com que uma das substâncias excretadas por ele sofresse uma alteração. Como todo mundo o fungo vive cercado de bactérias malditas e bacilos vacilões, que o infectam. A substância excretada pelo fungo era desagradável para bactérias, e elas se afastavam, preferindo atacar outros fungos.

Com essa vantagem aquele fungo viveu uma vida longa e fértil, produzindo muitos funguinhos, e dia após dia século após século mutações aleatórias produziam versões mais eficientes da tal substância, que ganhou o nome de Penicilina.

Ele pesquisou os efeitos bactericidas do composto, e publicou um dos papers seminais da História da Microbiologia: On the Antibacterial Action of Cultures of a Penicillium, with Special Reference to their Use in the Isolation of B. influenzæ.

O paper foi prontamente ignorado pela comunidade científica, dadas as dificuldades de isolar o fungo. Fleming então se dedicou a outras pesquisas, deixando a Penicilina de lado. O fungo ficou na gaveta mofando metaforicamente por dez anos, até que em 1938 dois pesquisadores de Oxford deram prosseguimento à pesquisa.

Sir Alexander Fleming em seu laboratório (Crédito: Biblioteca do Congresso)

Howard Florey era um australiano, Ernst Chain um judeu alemão refugiado. Eles isolaram a Penicilina e demostraram que ela era segura e extremamente eficiente em conter infecções bacterianas em ratos.

Dessa vez houve interesse, a Guerra estava começando a ficar séria e soldados morriam mais de infecção do que por envenenamento por chumbo em alta velocidade, mas o problema continuava o mesmo. Norman Heatley, outro bioquímico de Oxford sofria para produzir uma quantidade mínima de Penicilina. Seu laboratório era repleto de fracos, placas e petri e até comadres.

O maldito fungo só se reproduzia em uma camada finíssima sobre o material de cultura, a quantidade obtida era insignificante. Seria preciso ajuda para produzir Penicilina em quantidade industrial, e que melhor lugar para coisas industriais que os Estados Unidos?

Florey e Heatley atravessaram a poça e foram apresentar seu trabalho para cientistas e técnicos americanos. Rapidamente foram encaminhados para um administrador do Ministério da Agricultura, Percy A. Wells, que por acaso era especialista em... fermentação.

Howard Florey, Ernst Chain, Norman Heatley e um gato. (Crédito: Reprodução Internet)

Wells sugeriu que ao invés de criar o fungo em uma placa, tentassem um tanque, como o usado para leveduras. Era uma idéia óbvia e eficiente, e imediatamente um dos laboratórios do Ministério em Peoria foi dedicado à produção experimental de Penicilina, com direito até a cientistas como Gladys Lounsbury Hobby pesquisando variedades do fungo mais eficientes. A melhor foi achada em um melão podre em uma quitanda.

Anúncio da 2a Guerra promovendo Penicilina. (Crédito: Domínio público)

Os jornais e rádios alardeavam a Penicilina como uma droga milagrosa, mas basicamente ninguém estava sendo tratado com ela, a quantidade produzida ainda era muito pequena. Em Março de 1942 um paciente consumiu sozinho metade da produção total de Penicilina nos EUA.  Junho do mesmo ano o estoque total daria para tratar dez pacientes.

A escassez era tanta que a urina dos pacientes era coletada e a Penicilina não-metabolizada era extraída e usada de novo.

As empresas farmacêuticas estavam receosas em investir em fábricas para algo não-comprovado, até que em 1943 uma menina chamada Patricia Malone mudou tudo.

Patricia tinha dois anos de idade, sofria de um envenenamento do sangue, septicemia e os médicos deram para ela sete horas de vida.

Tanque de produção de Penicilina a Pfizer (Crédito: Domínio Público)

Um jornalista soube do caso e implorou para políticos e administradores em Washington que liberassem Penicilina para tratar a criança. O apelo deu certo, Penicilina foi recolhida de vários laboratórios, e ao invés de morrer em horas, Patricia se recuperou em horas.

Acompanhando o caso de longe estava um sujeito chamado f John L. Smith. Ele era Vice-Presidente de uma empresa chamada Charles Pfizer & Co., e não estava botando muita fé na Penicilina. Só que Smith havia perdido uma filha de 16 anos para uma infecção parecida com a de Patricia.

Revertendo totalmente a posição da empresa, a Pfizer comprou uma fábrica de gelo no Brooklyn e em seis meses tinham funcionando 14 tanques de fermentação de 27 mil litros cada. No total ao final da Guerra 21 fábricas nos EUA produziam Penicilina.

Produção original de Penicilina em Oxford. (Crédito: Norman Heatley)

No Dia D já havia uma reserva de 2.3 milhões de doses e cada soldado levava uma dose em seu kit.

O mais fascinante é que nada disso era segredo. O Paper de Fleming e as pesquisas de Florey e Chain, com instruções detalhadas para a produção de Penicilina foram publicados em periódicos de grande alcance, sendo lidos inclusive por cientistas alemães, mas eles aparentemente estavam casados demais com a Sulfa, e embora alguns laboratórios pesquisassem Penicilina, não havia nenhum esforço nacional.

O máximo foi uma verba equivalente a US$10 mil para um laboratório pesquisar os efeitos bactericidas da Penicilina.

Esse vidrinho era a diferença entre a vida e a morte. (Crédito: Reprodução Internet)

Em outros lugares, como os Países Baixos, havia até produção clandestina. Uma unidade de fermentação foi montada em uma destilaria que produzia Gin, e a Penicilina foi batizada de Bacinol, para não chamar a atenção dos alemães. Já o nazista que supervisionava a destilaria era tratado com generosas doses de gin, e não perdia tempo andando pelo chão de fábrica.

Entre os soldados a Penicilina era definitivamente milagrosa. Ela curava Sífilis em algumas horas, outras doenças venéreas iam embora com a mesma facilidade. Os alemães não tinham nada parecido, e um monte de soldados ficavam incapacitados por causa disso.

Casos de gangrena também eram cada vez mais raros. Os alemães se tratando com sulfa tinham até 30 casos a cada mil soldados feridos. Os aliados, com Penicilina mantinham seus números em 1.5 casos a cada mil.

No final o esforço de produção de Penicilina pelos Estados Unidos foi um projeto que só perdeu para o Projeto Manhattan em termos de complexidade e importância. Centenas de milhares, talvez milhões de vidas foram salvas, a indústria farmacêutica se adaptou em meses, inclusive usando como meio de cultura licor de maceração de milho, um subproduto da produção de maisena.

A Penicilina salvou não só os soldados americanos, como os alemães que davam a sorte de ser capturados e tratados em hospitais aliados. No resto do mundo com o fim da guerra também chegou ao fim a certeza das infecções fatais, doenças venéreas e tantas outras sentenças de morte que hoje a gente resolve com um disk-farmácia.

Isso deve doer bagarai. (Crédito: Military.com)

Por sua descoberta Alexander Fleming recebeu o Nobel em Medicina ou Fisiologia de 1945, dividindo o prêmio com Howard Florey, e  Ernst Chain.

Hoje uma dose de Penicilina custa R$6,00 e você acha em qualquer farmácia. Já nos EUA ela, que salvou a vida de milhares de soldados, é o terror dos recrutas, que tem que tomar uma dose da “manteiga de amendoim”, na bunda. O local fica extremamente dolorido e deve ser massageado por mais de uma hora, até o líquido branco e viscoso se espalhar pela corrente sanguínea. É ruim? É, mas muito pior seria a vida sem ela.

Fontes:

 

Penicilina - A droga mágica made in USA que salvou Hitler

30 Dec 01:40

Boston Dynamics bota robôs pra dançar

by Carlos Cardoso

Todo ano a Boston Dynamics solta um vídeo de fim de ao com alguma gracinha envolvendo seus robôs, que hoje andam bem diversificados, com o Spot, o cachorro-robô já sendo oferecido comercialmente e usado como sentinela em alguns lugares.

No fundo só uma torradeira. (Crédito: SyFy)

Desta vez o foco é o Atlas, um robô humanoide de 2013 que vem sendo aperfeiçoado constantemente. Hoje já podemos dizer que a Boston Dynamics superou a ficção.

Em Caprica, série que sucedeu a excelente Battlestar Galactica, Zoey Graystone, interpretada pela tchutchuca Alessandra Torresani e justificativa pra imagem de abertura tem sua mente copiada para a CPU de um Cylon, um protótipo de robô multi-função que carecia de uma mente para operar seu corpo.

Esse é o estágio em que estamos. A Boston Dynamics consegue criar corpos robóticos com mais agilidade do que a maioria dos humanos, ou ao menos dos blogueiros. A única coisa que falta é uma mente. Esses robôs são meras marionetes, executam movimentos especificados, desviam de obstáculos, mas não conseguem entender algo tão complexo quanto “pegue aquela pedra”.

Isso não quer dizer que não sejam capazes de um show, e o vídeo de 2020 lembrou muito esta cena em Caprica, quando zoe, no corpo cilônio tenta dançar.

Mesmo descontando que a série é de 2010, é assustador ver como a Ciência superou a ficção científica. Sente-se e veja o vídeo da Boston Dynamics:

Teve um treco? Acha que em breve seremos mortos por robôs ianques malvados? Bem, há um complicador. O Google vendeu a Boston Dynamics já faz tempo, hoje o maior investidor, com 80% da empresa é a Hyundai, da Pior Coréia, o resto é do Softbank, do Japão.

Teremos Mechas antes de robôs assassinos. OK, talvez mechas assassinos.

O que não teremos são robôs autônomos. Inteligência Artificial é um negócio danado de complicado nesse nível, nenhum soldado que se preze arriscará ir pro combate com um robô armado e as promessas de que claro que ele não confundirá você com o inimigo, Cabo Ahmed Sahid.

Existe uma possibilidade para o uso de robôs assim em combate, e é muito mais Ender do que Terminator: Drones. É fácil imaginar um salão vazio com soldados usando óculos de realidade virtual, comandando um esquadrão de robôs, através de links encriptados de baixa latência, tipo Starlink.

Quando isso vai acontecer? Simples, quando um robô desses custar menos de US$58 mil. Esse é o custo de seleção (US$22 mil) e treinamento (US$36 mil) de um soldado no exército dos EUA.

Boston Dynamics bota robôs pra dançar

29 Dec 14:43

First Thing

Then I'm going to go on a weeks-long somatic hypermutation bender, producing ever-more targeted antibodies, while I continue to remain distanced and follow guidance from public health authorities.
27 Dec 15:38

Pesquisadores recuperam visão de ratos com glaucoma

by Ronaldo Gogoni

Uma nova pesquisa publicada por pesquisadores de diversas universidades traz nova esperança a pessoas com visão reduzida ou cegueira completa, ao anunciarem terem revertido um quadro de glaucoma em ratos que foram induzidos a desenvolver a doença. Comum em idosos, ela pode afetar pessoas mais jovens e quando não tratada a tempo, pode levar à perda da visão.

Ratinho branco usado como cobaia em pesquisas (Crédito: tiburi/Pixabay) / visão

Ratinho branco usado como cobaia em pesquisas (Crédito: tiburi/Pixabay)

O procedimento usado na pesquisa se baseou no conhecimento de que células em estágio embrionário têm maiores capacidades de regeneração, e que elas se perdem conforme o espécime amadurece e envelhece. Não por acaso, uma série de doenças comuns à velhice, como o mal de Alzheimer, são decorrentes de degeneração celular. Um dos pontos negativos de vivermos por mais tempo graças à medicina, mas divago.

O glaucoma não é necessariamente uma doença ligada exclusivamente ao envelhecimento, embora ele seja um dos fatores de risco. Ele é um mal causado principalmente pelo aumento da pressão intraocular, que causa danos no nervo óptico. O glaucoma de ângulo aberto, o mais comum, pode permanecer assintomático por anos, lentamente reduzindo o campo de visão de um olho prejudicando a visão periférica, até chegar ao que chamamos de "visão de túnel", bem restrita.

Se não tratada a tempo, o glaucoma pode levar à perda completa da visão de um ou ambos os olhos. Entre os atuais tratamentos estão colírios, medicamentos para regular a pressão intraocular e, em último caso, cirurgia.

O método apresentado pelos pesquisadores visava não impedir o avanço do glaucoma, mas revertê-lo após o diagnóstico.

Paciente com glaucoma no olho direito; note como a pupila reage à luz em relação ao olho esquerdo (Crédito: James Heilman/Wikimedia Commons) / visão

Paciente com glaucoma no olho direito; note como a pupila reage à luz em relação ao olho esquerdo (Crédito: James Heilman/Wikimedia Commons)

Os ratinhos da experiência foram manipulados para desenvolverem glaucoma, e a seguir, foram submetidos a um coquetel chamado OSK, composto de três genes empregados em pesquisas de memória epigenética, onde as células "se lembram" de marcações químicas em suas fases embrionárias e as reativam. O método é o mesmo usado para produzir células-tronco a partir de células adultas saudáveis.

Ao "rejuvenescerem", a capacidade de regeneração das células ganglionares danificadas da retina dos ratos duplicou, aumentando o ritmo de restauração do nervo óptico em até 5 vezes. Os pesquisadores conseguiram reverter quadros de perda de visão em espécimes mais velhos, além dos portadores de glaucoma, e constataram a regeneração de axônios (prolongamentos dos neurônios) até a base do cérebro das cobaias.

Da visão ao Alzheimer

Segundo o Dr. David Sinclair, um dos autores do estudo, será possível começar os testes em humanos daqui a dois anos, enquanto pesquisadores externos apontam a possibilidade de usar a técnica em outras espécies, antes de pular para a fase com pacientes.

Ao mesmo tempo, ao constatar que o OSK é efetivo para restaurar células nervosas e recuperar ligações com neurônios, Sinclair acredita que o tratamento pode ser usado para tratar outras doenças degenerativas graves, como o mal de Alzheimer, que destrói a memória e outras funções mentais, e é causa de 60 a 70% dos casos de demência.

Referências bibliográficas

LU, Y. et. al. Reprogramming to recover youthful epigenetic information and restore vision. Nature, Edição 588 (2020), 35 páginas, 2 de dezembro de 2020.

Fonte: Nature

Pesquisadores recuperam visão de ratos com glaucoma

25 Dec 23:07

GTK 4.0 Toolkit Officially Released

GTK 4.0 has been officially released as the latest major iteration of this open-source toolkit...
25 Dec 23:04

Vaccine Tracker

*refresh* Aww, still in Kalamazoo. *refresh* Aww, still in Kalamazoo.
25 Dec 23:04

Wrapping Paper

Wow, rude of you to regift literally every gift that you or anyone else has ever received.
14 Dec 01:28

Quase 1 ano em home office

by Andre Noel
tirinha
Inclua essa tirinha em seu site
COLE ESSE CÓDIGO EM SEU SITE x
Fonte: Vida de Programador
Transcrição ↓

real historia;
string sender = "Fabrício Olmo Aride";

P.A. (via comunicador remoto): Cara, você tem noção que já está quase no final do ano?
Programador: Pois é... Quase o ano inteiro dentro de casa...
P.A.: Nem lembro mais como é trabalhar presencialmente
Programador (rindo): Eu tenho uma lembrança REMOTA!
P.A.: PLOFT!
-
Camiseta: No escritório você tinha que aguentar piada infame

O artigo "Quase 1 ano em home office" foi originalmente publicado no site Vida de Programador, de Andre Noel.

14 Dec 01:07

Intel Formally Announces Iris Xe MAX Graphics, Deep Link

Laptop vendors recently disclosed "Xe MAX" graphics as discrete Intel graphics set to appear within laptops in the coming weeks. That announcement was a bit unexpected and Intel did not brief the media in advance while today -- in an unusual announcement for a Saturday (Intel says it's timed for system availability, seemingly first in China) -- the company is formally announcing Iris Xe MAX.
14 Dec 00:53

Wonder Woman 1984

'Wait, why would you think a movie set in 1984 would do drive-ins as a retro promotion?' 'You know, 80s stuff. Drive-in movies. Britney Spears doing the hustle. Elvis going on Ed Sullivan and showing off his pog collection.' 'What year were you born, again?'
14 Dec 00:41

SpaceX faz História: Primeiro voo da Starship foi (98%) um sucesso

by Carlos Cardoso

Meninos, eu vi! A Starship da SpaceX na posição mais antinatural possível para um foguete, horizontal como uma banana, caindo com estilo e realizando a manobra que muitos disseram impossível, tudo isso construído a troco de Pinga. Marte, aí vamos nós.

Starship aguarda pacientemente a hora de subir. (Crédito: Reprodução YouTube)

Um ano atrás Elon Musk apresentou o primeiro modelo em tamanho real da Starhip, uma nave espacial do tamanho de um prédio de 12 andares, são 50 metros de altura, 9 metros de diâmetro e no total, capacidade de colocar 100 toneladas em órbita, sendo 100% reutilizável.

Um monte de gente que esqueceu ter feito o mesmo quando a SpaceX falou que iria pousar o Falcon 9 declarou ser impossível o plano de Elon Musk, de construir um foguete gigantesco em uma tenda, mas no melhor estilo Tony Stark e a caverna, foi exatamente isso que a SpaceX, usando da mais pura engenharia redneck, cortaram custos e frescuras, e os protótipos começaram a sair quase tão rápido quanto a SpaceX conseguia explodi-los em nome da Ciência.

Primeiro eles aprimoraram as técnicas de soldagem e metalurgia; aos poucos os tanques foram deixando de explodir durante os testes de pressão. Depois foi a vez dos motores; os novos Raptors foram configurados, afinados e logo estavam completamente em sintonia com o resto do foguete.

Seguindo a filosofia de não reinventar a roda, os flaps gigantes são movidos por motores elétricos dos carros da Tesla; no nariz da nave, quatro baterias também da Tesla alimentam as bombas do sistema hidráulico.

Em 27 de Agosto de 2019 o Starhopper, talvez o foguete mais feio da História decolou. Era uma horrenda caixa d’água, com um motor Raptor, o teste era para comprovar as técnicas de navegação e controle de potência.

Incrivelmente tudo deu certo apesar de alguns tanques de pressão terem se desprendido, e o Starhopper subiu 150m e depois pousou de forma graciosa.

Em 5 de Agosto de 2020 a SpaceX já tinha construído vários protótipos, era a vez da Starship SN5, que faria um teste de vôo a 150 metros de altitude.

Usando apenas um Raptor, sem bico e com um simulador de massa no nariz, o enorme silo de cereais disfarçado de foguete decolou e pousou!

Esses testes todos eram simples, tradicionais, mas a Starship é muito mais complicada do que isso. Ela usa a mesma filosofia do Falcon 9, um foguete primário faz o trabalho duro de levar a nave até o limiar do espaço, depois retorna, pousando suavemente em terra ou em uma balsa.

A diferença é que o Super Heavy tem 72 metros de comprimento e pesa vazio 180 toneladas. Enquanto o Falcon 9 tem 9 motores, o Super Heavy terá 28. Só isso já será uma visão impressionante, mas a Starship sozinha já é um espetáculo.

Depois de separada do Falcon Super Heavy, ela terá capacidade de entrar em órbita, ser reabastecida, viajar para qualquer lugar do sistema solar e pousar em lugares como Marte.

De volta à Terra, ela executará uma série de manobras inéditas, e parte disso foi testado dia 9 de Dezembro de 2020.

Basicamente, a Starship ao invés de entrar com tudo castigando um escudo de calor, vai entrar na atmosfera de barriga, usando quatro flaps gigantes para controlar sua posição e maximizar a área de exposição. Em essência é o mesmo que um paraquedista faz, quando cai com o corpo na horizonta, com braços e pernas abertas sua velocidade terminal é bem menor do que se caísse em pé com os braços cruzados, por causa do maior arrasto aerodinâmico.

Caindo com estilo. (Crédito: Reprodução YouTube)

Obviamente que uma nave de 50 metros deitada em trajetória vertical a trocentos km/h não está voando, está caindo com estilo, e não é uma situação ideal, não por muito tempo.

Agora entra a segunda manobra: Quando a Starship estiver próxima o bastante da área de pouso, ela irá religar alguns motores, realizar uma virada de barriga, voltar pra vertical, estender o trem de pouso e pousar suavemente.

Um monte de coisas podem dar errado nessa hora, e outras simplesmente não funcionam. Com o foguete caindo na horizontal, o combustível nos tanques está em queda livre, flutuando, e acionar os motores significaria aspirar essencialmente nitrogênio ou hélio, dependendo do que a SpaceX use para pressurizar o bicho.

A solução da SpaceX? Um segundo tanque no nariz da Starship, com combustível e oxidante, que como está cheio funciona em qualquer posição é usado para alimentar os motores nessa última fase. O que não é nada trivial, estamos falando de motores que funcionam a uma pressão de 300 atmosferas, uma bolha de ar ali no meio é suficiente para destruir tudo. Trocar a fonte de combustível e oxidante de um tanque para outro não é fácil.

Mesmo assim, foi feito.

O Teste

Em 9 de Dezembro de 2020 o protótipo SN8 da Starship decolou de Boca Chica, Flórida Texas, propulsionado por três motores Raptor. Durante a ascensão até a altitude planejada de 12,5Km, o combustível foi sendo consumido, o que tornava a nave mais leve. Para compensar, os motores foram sendo desligados. Primeiro um, depois dois, até que o final da subida foi feito com um único motor.

Alguns segundos antes de se desligar, o terceiro motor iniciou uma manobra para colocar a Starship na horizontal. A manobra foi concluída com auxílio dos jatos de manobra. Daí em diante era pra baixo e avante!

Os flaps funcionaram perfeitamente, a Starship assumiu uma posição inclinada que gerou alguma velocidade horizontal, direcionando-a para a área de pouso.

Nessa hora o pessoal da SpaceX já estava em êxtase, as chances do bicho decolar eram de 30%, eles estavam vendo todas as manobras previstas dando certo, inclusive o religamento de motores. Os engenheiros estavam se afogando em deliciosos e suculentos dados.

Na parte final a Starship começou a manobra de pouso, com dois motores, mas segundo Elon Musk faltou pressão no sistema de combustível, os motores perderam potência. Logo um deles morreu de vez, e o outro recebeu mais oxigênio do que combustível, gerando uma mistura rica demais, oxidando o interior do motor e causando a chama verde, indicação de que partes de Cobre estavam sendo arrancadas e queimadas.

Sem potência pra deter a descida, a Starship atingiu o chão mais rápido do que o planejado e sofreu uma desmontagem rápida não-planejada.

O teste em si começa na posição 1h47min57seg

Aqui outro ângulo:

Como sempre, a imprensa caiu em cima, mas a campeã de falar bobagem foi a CNN. A cobertura da CNN Brasil aliás tem sido PÉSSIMA na área de ciências. Alguns dias atrás o Jeff Bezos soltou uma bravata dizendo que a Blue Origin colocaria a primeira astronauta mulher na Lua.

Foi uma bravata pois a Blue Origin é apenas uma das concorrentes no processo de seleção da NASA para construir o módulo de pouso da futura missão lunar. O foguete será o SLS, a cápsula será a Orion, e o módulo de pouso pode ser da SpaceX, Lockheed ou Blue Origin, mas era querer demais que os jornalistas  soubessem disso.

Um sujeito pegou essa bravata e escreveu uma “reportagem” na qual a CNN fala que “A Blue Origin planeja um foguete para a Lua em 2024”, com direito a mostrar o New Sheppard, o mini-elevador da BO que só sobe e desce em linha reta, dizendo que seria o tal “foguete lunar”.

Agora, a cenenê me publica isto:

Melhor ler isso que ser surdo, ou algo assim. (Crédito: Internet)

Isso mesmo. “por sorte, nave Starship não tinha tripulantes”. Ô vivente, isso não tem nada a ver com sorte ela está a ANOS de ser tripulada. Equivale a você testar a miniatura de um 737 num túnel de vento, ela quebrar e você celebrar que ele quebrou mas não ter ninguém dentro.

Ademais, não foi “susto” nenhum, esse tipo de acidente é mais que esperado, ainda mais no PRIMEIRO vôo da desgraça do foguete, e ele não explodiu no ar, explodiu quando pousou rápido demais.

Eu já escrevi sobre o triste estado da divulgação científica, mas é desesperador ver empresas grandes, com verba, equipes e equipamentos darem tão pouca atenção ao que veiculam.

Conclusão: No primeiro teste da Starship ela concluiu 98% dos objetivos, alguns diriam até 100%. Segundo Elon Musk os três motores funcionaram perfeitamente, a maior quantidade de tempo de operação contínua já registrada, a manobra pra barrigada foi igualmente perfeita e o sistema de pouso, provavelmente adaptado do Falcon 9 colocou a Starship certinha em cima da zona de pouso.

Isso tudo em um ano de desenvolvimento, usando apenas recursos próprios, e um trocado daquele japonês esquisito. Nunca tanto avanço ocorreu em tão pouco tempo, dar tudo 98% certo numa primeira vez não é comum, é quase inédito, e quem reclama disso é um belo de um cabaço, e olha que eu nem sei se posso escrever cabaço no MeioBit.

Não-ironicamente uma declaração de sucesso com a imagem de um foguete esmigalhado não é pra qualquer um. (Crédito: Reprodução Internet)

SpaceX faz História: Primeiro voo da Starship foi (98%) um sucesso

01 Dec 17:26

Unread

I'll never install a smart home smoke detector. It's not that I don't trust the software--it's that all software eventually becomes email, and I know how I am with email.
01 Dec 17:25

Life Before the Pandemic

I can't wait until this is all over and I can go back to riding my horse through the mall.