Em uma tarde de domingo, o candidato a deputado federal por São Paulo pelo Partido Verde, Eddy Antonini, se prepara para a campanha política: configura o notebook e o PC para o streaming e coloca Mario Kart 8 em seu Wii U.
Já que os segundos na TV são escassos e carreatas e distribuição de santinhos não fazem muito seu tipo, Eddy vai jogar videogame e falar pela internet como pretende trabalhar para fazer com que os games se tornem uma pauta importante em Brasília.
Enquanto joga, Eddy vai respondendo perguntas no chat do Twitch sobre suas propostas. “Todo mundo entendeu bem que o videogame na transmissão é apenas uma imagem que ajuda todos a se descontrair e a fazer perguntas de melhor qualidade”, diz Eddy, em entrevista ao Kotaku.

Os streamings acontecem cinco vezes na semana, em dias variados. O domingo é o único dia garantido. “Faria todo dia, mas tenho que ter tempo para responder emails, mensagens no Facebook, Twitter e gravar vídeos para o canal do Youtube“, fala Eddy. O canal do YouTube do candidato possui todas as propostas dele relacionados a games. Elas são explicadas e comentadas de uma forma que consiga dialogar tanto com o jogador experiente, mas que não manja tanto assim de política, quanto com aqueles que se limitam a uma partida de Candy Crush pelo Facebook.
Com toda essa interação com redes sociais e streaming de jogos, Eddy passa bem longe da figura de políticos que não conhecem (ou fingem que conhecem) as próprias propostas para tecnologia ou games. Há uma série de candidatos que também tem tecnologia na pauta, mas, entre os que a gente pesquisou, Eddy é o único que abraçou os games para defender uma agenda de… games. Isso é suficiente para fazer dele um bom candidato ou um bom deputado? Não, claro que não. Há vários candidatos com ótimas ideias que, mais tarde, se transformam em parlamentares ruins. Além disso, muita gente joga games mas prefere votar em deputados que têm outras prioridades. É do jogo – ninguém precisa votar em alguém só porque essa pessoa defende algo do qual ela gosta muito.
O Kotaku não faz propaganda para ninguém, mas achou que precisava falar de Eddy por um motivo simples: a candidatura dele é muito simbólica. É natural que os games ganhem cada vez mais espaço na agenda brasileira. Pensando com cabeça de político, os games criam empregos e diversificam a economia. Na real, até demorou para aparecer um candidato que joga games.
N00b na política
Eddy Antonini pode ser considerado um “n00b” na carreira política. Essa é a primeira vez que ele se candidata e participa de eleições, mas sua relação com games já vem de muitos anos, seja atuando na mídia ou em eventos e feiras.
Sua principal atuação com games, porém, foi em sala de aula. Formado em Engenharia, ele promoveu uma série de ações na escola em que leciona no curso de eletrotécnica, relacionando educação e jogos. Uma delas até envolveu MOBAs. “Criei o time de eSports da escola que, por escolha dos alunos, ficou em League of Legends“, fala. “O projeto aceita qualquer aluno da escola, desde que tenha menções boas nas outras disciplinas. Jogadores mais experientes ensinam os iniciantes em um ambiente extremamente saudável e amigável. Nós temos regras e atitudes como qualquer outro time esportivo da escola”, diz.
A utilização de games na educação e o cenário de eSports no país são os assuntos em destaque nas propostas de Eddy em sua candidatura.
O futuro novo esporte
Isso vai agradar aqueles que passam horas no Dotinha ou não dispensam um “Lolzin” de vem em quando. Depois da experiência que teve com o projeto em sua escola, uma das propostas de Eddy é tornar o eSport um esporte oficial no país. “Desta maneira podemos criar uma legislação que permita que o eSport seja vinculado ao Ministério do Esporte”, explica o candidato.
Eddy fala que, entre as vantagens de se ter o eSports regularizado pelo governo, está os jogadores poderem ter carteira assinada e os times de LOL, Dota, CS ou qualquer outro eSport serem empresas esportivas, como clubes de futebol. “Desta forma, tanto o jogador quanto o time desfrutam de incentivos fiscais para trabalhar e existir”, afirma.
Impostos
É claro que os impostos sobre os jogos também entram nos planos do candidato e, com relação a isso, ele pretende dar continuidade ao que já aconteceu há poucos meses, na audiência pública sobre games, na Câmara. “Nestas reuniões, eu quero mostrar que o videogame não só tem um valor cultural excepcional como também o potencial econômico do mercado viável para especializarmos o país nesta área também”, fala.
O candidato diz que ter alguém que “realmente entenda” do assunto entre os políticos pode ser um benefício. “A mudança, além de ocorrer de fora para dentro, também passa a ocorrer de dentro para fora”, argumenta.
Eddy Antonini também fala de soluções que já ouvimos antes. Colocar jogos na categoria de software de computadores e não jogos de azar, por exemplo. Ele sabe que mexer com os impostos significa mexer com o tanto de dinheiro que é arrecadado para o governo, o que pode encontrar muito resistência, mas ele já tem um plano para isso. “Quando eu começo a falar que o Brasil pode movimentar até US$ 1,3 bilhão de dólares até o final do ano (segundo a Newzoo) a conversa começa a mudar de sentido e já querem saber mais sobre o assunto”, fala. “Falando na linguagem que a pessoa quer ouvir, neste caso o dinheiro, o assunto fica interessante”, brinca. O candidato diz que também pretende ter diálogos mais próximos com empresas da área.

Games na educação. eSports reconhecido nacionalmente. Diminuição nos impostos sobre games. Qual seria o tema mais importante e mais urgente para ser realizado? “Todas as propostas andam juntas e uma acaba impulsionando a outra”, responde Eddy.
Porém, o candidato diz que há outra proposta que seria mais urgente de ser realizada agora e que pretende lutar por ela se for eleito. “A proposta em curto prazo é fazer uma pesquisa sobre o atual cenário do mercado de games e eSports no Brasil e no mundo e, com estes dados em mãos, mostrar para os Ministérios que eSport é esporte, que videogame é cultura, que o mercado existe, é viável e tem demanda tanto de consumo quanto de produção”, diz.
Neste ano, um estudo do cenário de jogos digitais no país foi realizado pela USP em parceria com o BNDES. Os resultados possuem um Censo e até mesmo propostas para políticas públicas para o desenvolvimento de jogos no Brasil.
Claro que algo mais atualizado, feito em 2015, e também com a adição do eSports é sempre melhor, mas é bom saber que o candidato, se eleito, já teria material para argumentar que os jogos são algo importante no país.
Agora, mais do que nunca, com audiências sobre games sendo realizadas na câmara e candidatos como Eddy Antonini aparecendo, um assunto normalmente chato, como política, parece ficar cada vez mais interessante para nós, jogadores.

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