Prometi pra mim mesma que assim que eu apresentasse a monografia ia voltar a escrever meu blog diarinho. Eu estava reclamando do fim da diarinhosfera, que blogs 'relevantes' e 'comerciais' não me atraíam e acabavam me fazendo ler apenas blogs gringos.
Sequer entendo as pessoas que curtem serem informadas através de blogs nacionais que, na maioria das vezes, me parecem uma tradução muito da chulézenta e artificial de blogs estrangeiros e, nem ao menos, são traduções de blogs que eu leria na língua original. Os blogs 'comerciais', que fazem reviews de produtos, são outro mistério para mim. Eu não gosto de comerciais nem na tv e olha que eu adoro tv. Vê lá se eu vou investir meu maravilhoso e impagável tempo livre pra ser convencida de comprar alguma coisa que eu certamente não preciso?
Ah, mas os diarinhos...
Como me enchem de curiosidade e deslumbramento...
Eu gosto de saber da vida alheia e nada melhor que quando o próprio 'alheio' conta. Despeje em mim seus problemas e suas inquietações que ouvirei anonimamente e silenciosamente seus lamentos como se eu fosse literalmente um divã.
Provavelmente, por causa da identificação.
A sensação que eu sempre tenho sobre meus próprios pensamentos, minhas atitudes e minhas decisões é que eu, invariavelmente, sou inadequada. A diarinhosfera acaba provando que, talvez, as coisas não sejam TÃO drásticas assim. Ok, eu continuo sendo inadequada, mas muitas vezes sou tão inadequada quanto esse monte de outras meninas que nasceram mais ou menos nos anos 80 e têm esse hábito, estranho e arriscado, de expor o que pensam e sentem em um diário na internet. Mesmo quando somos inadequados o importante mesmo é não estar sozinho. A insegurança da inadequação é ser uma anomalia e a partir do momento que a gente nota ser apenas mais um em um grupo de anômalos tá beleza, bola pra frente, abre uma hipótese que, na verdade, estranhos são os outros.
'Os outros'. Os outros foi uma das coisas que eu estudei freneticamente pra escrever minha monografia nos últimos meses.
Os outros são aquilo que, no ponto de vista social, ameaçam o andamento 'adequado' da sociedade e, consequentemente, são uma fonte de perigo pras estruturas vigentes. É a matéria prima daquilo que um dia será chamado de tabu. Me leva a pensar na trajetória que os blogs diarinho tiveram na internet. Me remete às críticas e a desvalorização daqueles que, praticamente, originaram o formato. Louco isso, né? Como a mãe dos 'posts publicados em ordem cronológica inversa' passou a ser rechaçada pelos seus descendentes. Os diarinhos pariram os blogs e hoje todo blog morre de medo de ser diarinho. Diarinho virou tabu.
Na década de 1990 a internet era um lugar muito diferente. Era um bairro frequentado, em sua maioria esmagadora, pelos marginalizados. Os esquisitos, os errados, os que de alguma maneira, e por algum motivo, sentiam-se mais à vontade nesse universo de letrinhas, hyperlinks e imagens com resolução medonhamente ruim, que no mundo real. Com o tempo, esse lugar se tornou indispensável, bonito e muito rico. O mundo real migrou em peso, meia dúzia de 'marginais' viraram 'pop' e, assim como no mundo real, virou pecado ser imperfeito.
Como falar honestamente com seu querido diário se você não é perfeito?
É como sair de casa com roupa velha e meio suja pra ir na padaria e trombar com uma multidão toda linda, arrumada, rica e feliz. Não costumo passar por isso, até porque a minha inabilidade social cada vez mais me isola da rua, mas se me encontrasse nessa situação certamente tentaria escapar dela.
Ou tiraria uma meleca.
Não sei... O que viesse primeiro.
Resumindo: ou eu tentaria fugir ou tentaria tomar uma atitude que deixasse bem claro que 'o outro' ali sou eu, e que eu não tenho medo de sê-lo. Porque 'o outro' é 'o monstruoso' e uma vez que você é revelado o vilarejo virá com tochas bater na porta do seu castelo. A não ser que eles sintam muito medo de você. O que te custa, mais ou menos, uma meleca. Quase todo mundo se assusta com muita facilidade.
Por isso eu amo tanto o terror.
Porque violência, sangue, tripas e miolos são extremamente eficazes pra tirar o foco do que pode ser mostrado. E aí você expõe que o 'monstruoso' e o destrutivo é aquilo que se aceita como normal. Só que você precisa ser dono de um olhar especial pra enxergar. Você precisa ser tratado como uma anomalia pra desenvolver esse olhar. Você tem que ser o estranho, o errado, o inadequado. Não pode se assustar com facilidade.
Eu enxerguei, me propus a explicar e provei.
Provei pra pessoas absolutamente geniais, que certamente me agarrariam pelo pé se eu estivesse errada. Eu estava certa. 100% certa. CEM
Ontem foi um dos melhores dias da minha vida.
Começou a parecer que quase tudo que aconteceu na minha vida, aconteceu pra que eu chegasse em ontem. Eu que passei 31 anos vagando, sem entender direito pra que serve esse negócio e sem achar nada suficientemente interessante pra ter um objetivo, senti que, porra, eu nasci pra isso. Eu nasci pro terror. Da hora que a minha irmã e a amiga dela, pra me sacanear, me obrigaram a assistir, aos 6 anos de idade, um filme de terror e o amor que eu desenvolvi a partir desse dia, alugando todos os filmes do gênero na locadora. Por não saber direito como conviver com as pessoas, eu vi filmes de terror demais durante a infância. Minha primeira amizade, aos 12 anos, nasceu exclusivamente do interesse mútuo pelo "Anjo Malvado" e se manteve pelo Stephen King. Veja só, sem o terror, talvez, eu nunca teria tido uma amiga e nunca teria frequentado bares e shows, eu não teria vivido nada que eu vivi. Minha primeira amiguinha, a qual eu consolei pela morte do Kurt Cobain logo após assistirmos a "Children of the corn 2".
Eu me afastei de muita gente, perdi muitos amigos, por motivos variados, mas eu consigo me lembrar de ao menos um bom momento ao lado de cada um deles. Tiveram aqueles do reveillon que assistimos à "The Omen". Teve aquele que assistiu "Dellamorte Dellamore" comigo e com a Raq. Teve aquele ex-namorado que me emprestou "Rose Madder" pra ler. Teve aquela crush eterna, com o qual eu nunca fiquei, que conversava comigo sobre "The Freaks" (e poxa, como não ter uma crush eterna em alguém que gosta de filmes do Tod Browning?). Teve aquele grupo delicioso com quem eu assisti "Blood Car", "Shutter" e todos os terrores orientais maravilhosos que o Tuba ouvia falar e baixava na internet pra gente ver. Teve aquele ex que brigou comigo assistindo "Ichi the Killer". Aquele que era tão meu amigo que encarou "The innocents" e ainda me deu colo. Até aquela que escolheu "Bathory" que certamente é o pior filme de 'terror' do mundo (nem é terror, o nome enganava) e ficou proibida pra sempre de escolher filmes. Aquele aniversário que a gente projetou "Night of the Living Dead" no quintal. Aquela que comprou um DVD de um episódio de "Masters of horror" (se não me engano, "Homecoming") no supermercado pra mim, mas eu já tinha visto. Aqueles que vieram ver "Teeth", principalmente aquele guri de Porto Alegre que pra sempre estará no meu coração. Até aquele amigo, que eu nunca vi, que dizia que podia perfeitamente me ver dirigindo filmes de terror no futuro. As pessoas se vão, o carinho, às vezes, se vai, mas em cada terror fica aquela bandeirinha individual reforçando que, de fato, algum dia, eles mereceram meu amor e foi bom demais.
Se eu gosto verdadeiramente de alguém, se essa pessoa tem significado na minha vida, há um terror associado a ela.
As amigas que eu mais amo hoje: aquela figura que dormiu vendo "Day of the Dead", depois de uma maratona of the Dead, e que ainda me deve muitos terrores; aquela que prometeu ver "Hungry Wives" comigo; aquela que me corrigiu quando eu falei algo errado sobre o Hannibal Lecter uns 10 anos atrás. Meu melhor amigo é aquele que me levou numa exposição de gravuras do Goya.
Meu pai, que se contorceu inteiro porque eu fiz questão que assistisse a "Saw", depois disso ganhou uma dispensa eterna para terrores violentos demais. Os mais lights ele ainda será forçado a assistir e ouvir minhas análises e comparações intermináveis sobre diretores de terror que ele nunca ouviu falar. Minha irmã que me obrigava a dormir no quarto dela porque queria ver o Chucky, todos os do Chucky. Nunca entendi porque ela queria ver todos, se sentia tanto medo, mas eu nunca deixei de me culpar pela primeira vez que vimos o Chucky e ela nunca mais dormiu com o boneco que ela amava. Minha mãe que fecha o olho só pra ficar sentada do meu lado enquanto eu assisto às sanguinolências e que sempre desiste no meio. Aliás, minha mãe é a mais engraçada porque é a menos resistente a filmes de terror, mas a primeira a identificar que eu virei a noite vendo terror. Acho que é porque quando ela pergunta se eu não dormi eu respondo, com a melhor cara do mundo, que não. "Tava vendo terror, né?"
Minha cara entrega uma satisfação da mais sincera.
Terror é a constante da minha vida.
É pra lá que eu vou.