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03 Apr 11:21

Tucanos implacáveis com quem denuncia corrupção, dóceis com trensalão

by Conceição Lemes

João Ribeiro: “Para se ter uma sociedade mais justa, cada cidadão deve fazer a sua parte. No caso do servidor público, um dos deveres é denunciar irregularidades. Foi o que fiz.”

por Conceição Lemes

Quem conhece o técnico João Ribeiro, lotado na Delegacia Regional Tributária de Marília, garante: é um servidor público exemplar. Além de competente, possui comportamento irrepreensível.

Ele tem 54 anos, 25 dos quais na área de arrecadação tributária da Secretaria de Estado dos Negócios da Fazenda de São Paulo (Sefaz-SP).

Em 24 de janeiro de 2003, indignado com o que ouvia e se comentava no órgão sobre várias irregularidades, João fez uma denúncia anônima ao Ministério Público Estadual de São Paulo (MPE-SP).

Do seu endereço eletrônico funcional, enviou e-mail, contando que dois diretores da área de fiscalização estariam envolvidos no desvio de créditos acumulados de quase R$ 1 bilhão (valores da época, não atualizados).

Ele relatou estranheza pelo fato de os dois diretores sob suspeição na gestão tucana– atuaram na área no governo Mário Covas, de 1995 ao segundo semestre de 2002–  terem se aposentado compulsoriamente meses antes. Também que a mesma coisa já havia acontecido com os dois diretores do mesmo setor, em 1992, no governo Luís Antônio Fleury (na época, no PMDB).

Naquela mesma época, observou João no seu e-mail, esquema de corrupção envolvendo o chefe da Fiscalização do Estado do Rio de Janeiro tinha sido descoberto. E lá, diferentemente do ocorrido em São Paulo, havia sido apurado e os fiscais até exonerados.

No e-mail, João questionou ainda por que o caso de São Paulo não era averiguado.

“Embora o e-mail fosse anônimo, para enviá-lo, eu tive de entrar numa página do MP e fornecer todos os meus dados”, expõe-nos João Ribeiro. “De forma que o Ministério Público sempre soube quem eu era.”

No MP, a denúncia foi direcionada ao promotor Silvio Marques, que abriu um procedimento para apurá-la.

Marques encaminhou ofício ao procurador-geral de Justiça, Luiz Antônio Marrey, que comunicou o caso ao então secretário da Fazenda, Eduardo Guardia, pedindo informações.  Junto, mandou o e-mail e o telefone de João.

A partir daí, a vida do funcionário denunciante tornou-se um inferno.

A Secretaria da Fazenda instaurou processo administrativo. Em julho de 2007, demitiu-o com base na lei 10. 261/68, a chamada Lei da Mordaça.  Já revogada, ela previa a punição a servidores que se manifestassem “depreciativamente” sobre autoridades ou atos da administração.

João recorreu. Em fevereiro de 2008, por decisão de caráter liminar, foi reintegrado.

Em fevereiro de 2009, ganhou em primeira instância. A decisão foi do juiz Marcos de Lima Porta, da  5ª Vara da Fazenda Pública do Tribunal de Justiça de Justiça de São Paulo.

Em sua decisão, Lima Porta faz referência ao “parecer do iluminado Procurador, Dr. Estevão Horvath, que aqui é adotado como parte integrante desta decisão”. Horvath pediu arquivamento do processo contra João.

Vale a pena ler o arrazoado do juiz, dando ganho de causa total a João. Desde a invalidação do processo administrativo ao pagamento dos dias em que foi afastado compulsoriamente.

A Secretaria da Fazenda apelou. João ganhou, de novo, em segunda instância.

Por unanimidade, em fevereiro de 2013, os desembargadores Teresa Ramos Marques, Paulo Galizia e Torres de Carvalho, do TJ-SP, anularam de vez a decisão administrativa da Secretaria da Fazenda, determinando a reintegração definitiva do servidor.

Em seu voto, Torres de Carvalho diz que houve desproporção entre a conduta e a sanção imposta pela Secretaria da Fazenda:

Sob o ângulo da cidadania, não se pode negar ao cidadão o direito de levar à autoridade competente as denúncias que tiver, como forma quando menos da liberdade de expressão e do direito de petição.

A sentença foi publicada em maio de 2013.

Remetido ao DJE
Relação: 0071/2013 Teor do ato: VISTOS. Fica intimado o Estado de São Paulo a cumprir integralmente a obrigação de fazer em 90 dias. Decorrido o prazo assinalado sem o devido cumprimento ora determinado, servindo o presente como mandado, intime-se pessoalmente a Fazenda para que comprove o cumprimento da obrigação de fazer, no prazo de 05 dias, sob pena de multa diária, que fixo em R$ 500,00 por dia de descumprimento, e que incidirá, a princípio, pelo prazo de 120 dias. Int. Advogados(s): ROSANA MARTINS KIRSCHKE (OAB 120139/SP), Marta Sangirardi Lima (OAB 130057/SP), MARIA CLAUDIA CANALE (OAB 121188/SP), André Braga Bertoleti Carrieiro (OAB 230894/SP)

JOÃO NÃO RECEBEU DIAS PARADOS; SEFAZ DIZ QUE “NÃO RESTA PARCELAS EM ABERTO”

A batalha de João Ribeiro já dura 11 anos e ainda não terminou.

Agora, é para receber os quase quatro meses que ficou afastado do emprego.

Apesar de a Justiça ter determinado o pagamento, isso até hoje não aconteceu.

O Viomundo questionou a a Secretaria da Fazenda:

1) Por que até hoje a Secretaria da Fazenda não o pagou?

2) Quando deverá fazê-lo?

3) A Secretaria da Fazenda ao demitir um funcionário que denunciou esquema de corrupção no órgão não estaria estimulando a corrupção? Afinal, o “prêmio!” dele foi a demissão sumária.

A Secretaria da Fazenda, via assessoria de comunicação, diz que “não resta parcelas em aberto”.

A íntegra da resposta:

O servidor João Ribeiro impetrou o mandado de segurança sob o nº 0133351-66.2007.8.26.0053, antigo (053.07.1.33351-1), o qual foi distribuído no dia 06/11/2007 a 5ª Vara da Fazenda Pública.

Em razão de tal demanda, houve o deferimento da liminar para restabelecimento ao serviço público, ou seja, o servidor foi readmitido em 08/11/2007 invalidando, portanto a pena aplicada de demissão a bem do serviço público, demissão essa ocorrida em 13/07/2007.

Esclarecemos ainda, que conforme relatado acima, verifica-se que não há nenhum pagamento a ser feito ao interessado, uma vez que conforme a Súmula 271 de 13/12/1963 do Supremo Tribunal Federal (STF), o mandado de segurança não produz efeitos patrimoniais, em relação a período anteriores a impetração do mandado de segurança, os quais devem ser reclamados pela via judicial própria.

Cumpre-nos esclarecer que conforme informação oriunda da d. Procuradoria Judicial, o impetrante peticionou em juízo (26/11/2013) reclamando o pagamento de seus vencimentos desde a aplicação da penalidade (demissão), reclamação esta que foi totalmente repelida no âmbito do Judiciário pela Ilma. Procuradora do Estado responsável pelo caso em razão de que pelas datas da impetração e do cumprimento da liminar, não resta parcelas em aberto.

 Assessoria de Comunicação da Secretaria da Fazenda

A advogada de João, Maria Claudia Canale, discorda da Sefaz.

“O meu cliente tem aproximadamente R$ 18 mil para receber”, informa Maria Cláudia. “A Secretaria da Fazenda não pagou os vencimentos de 12 de julho a 6 de novembro de 2007, referentes ao período anterior à impetração do mandado de
segurança. Além disso, os valores de 6 de novembro de 2007 a 31 de janeiro de 2008 estão incorretos. Não pagaram os valores referentes às gratificações que ele recebia antes da demissão.”

Maria Cláudia explica. A Procuradoria do Estado de São Paulo defende que deve haver uma execução do período posterior a 6 de novembro de 2007 nos próprios autos. E uma nova ação tem de ser aberta para cobrar o período, ou seja, de 13 de julho a 11 de novembro de 2007.

“Entendemos, porém, que, no caso de reintegração, os vencimentos devem ser pagos de uma só vez e em folha de pagamento, única forma de o servidor ser restituído ao
status quo ante“, até porque é público e notório que as execuções contra a Fazenda Pública são demoradas”, argumenta a advogada.

“Além disso, por economia processual, não se deve obrigar o servidor a ajuizar outra ação apenas para receber os vencimentos do período anterior à impetração do mandado de segurança”, atenta Maria Cláudia.

Apesar da perseguição sofrida e do desgaste emocional para João e toda a família, João Ribeiro acha que valeu a pena: “Para se ter uma sociedade mais justa, cada cidadão deve fazer a sua parte. No caso do servidor público, um dos deveres é denunciar irregularidades. Foi o que fiz.”

Conclusão: os tucanos foram implacáveis com o servidor público que denunciou corrupção, porém são dóceis com a quadrilha do trensalão. Afinal, não é de hoje que os governos do PSDB sabem do cartel que fraudou licitações do Metrô e da Companhia dos Trens Metropolitanos de São Paulo (CPTM), causando prejuízos de muitos milhões aos cofres públicos.

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02 Apr 22:05

A proibição de propagada para crianças é novidade no Brasil, mas não no mundo desenvolvido

by Roberto Amado
  A farra com as crianças acabou? Poder ser que sim, pelo menos em parte. O Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente) aprovou resolução que proíbe propaganda voltada para menores de idade no Brasil. Ela leva em conta que a publicidade infantil contraria o Estatuto da ...
29 Mar 20:54

Os mísseis da mídia que criam insegurança, na Venezuela e no Brasil

by Luiz Carlos Azenha

Atrizes cansadas no Brasil e, abaixo, a miss cansada na Venezuela: indignação seletiva mas altamente midiática; as imagens mexem com a emoção e criam associação negativa com os eventos a que se referem.

20 pistas para entender a guerra psicológica contra a Venezuela

No Correo del Orinoco | 21/10/2013 09:02 |

Texto de: Vanessa Davies

Tradução: Jair de Souza

Os psicólogos Olivia Suárez e Fernando Giuliani advertem que estão queredo plantar a incerteza e a angústia e pintar um país que supostamente está caindo aos pedaços, a fim de que as pessoas estejam dispostas a qualquer coisa para recuperar “a ordem”.

Você considera que o país está caindo a pedaços? Acredita que a culpa de todos os males se concentra no chavismo e, especialmente, no governo nacional? Quando você ouve a música que identifica as transmissões conjuntas de rádio e televisão tem vontade de matar alguém? Você está convencido de que todo mundo anda de mau humor porque não aguenta mais “a crise”? Provavelmente, você é vítima da guerra psicológica.

Sobre a guerra psicológica os psicólogos bolivarianos vêm falando. Assim como o presidente Nicolás Maduro, o qual advertiu que o que está por trás disto é a intenção de derrotar o governo constitucional e livrar-se da revolução.

Os psicólogos Ovilia Suárez e Fernando Giuliani, integrantes do coletivo Psicólogos pelo Socialismo, advertem que isto não começou este ano, mas que se agudizou a partir do desaparecimento físico do comandante Hugo Chávez. O alvo do presente, alertam, é o povo bolivariano para criar nele desânimo e desalento, mas sem deixar de lado a população que não acompanha o processo socialista. O “Correo del Orinoco” oferece 20 pistas para entender o que está acontecendo.

1) O que é a guerra psicológica?

“Uma guerra psicológica não é o mesmo que uma guerra militar. Porém, quando dizemos guerra é porque existe um objetivo de ataque a um alvo. É preciso diferenciar isto, de uma vez, do que seria uma confrontação política de alta intensidade”, explica Giuliani. “A guerra tem como elemento exclusivo atacar um alvo, o que, neste caso, são muitas coisas”.

Outro elemento que lhe é característico é que está planificada; ou seja, “são estratégias que têm um objetivo e estão planificadas”; há gente por tras que está desenvolvendo “todo um conjunto de recursos, estudando a situação, mobilizando um conjunto de recursos” no rumo desse objetivo.

O psicólogo acrescenta que esta forma de guerra visa a mente: “O cenário é a mente. E por mente devemos entender muitas coisas: é a mente individual, mas também poderíamos mencionar a mente coletiva, as representações sociais, as atitudes, as relações sociais em todos seus imaginários, as emoções e os pensamentos”.

O analista afirma que há evidências muito claras de guerra psicológica na Venezuela; por exemplo, é evidente que há um manejo planificado do rumor, planificado. “É evidente que há um manejo planificado de um tipo de informação claramente apontando a objetivos muito concretos”

Os meios de comunicação “são instrumentos evidentes disto”, e basta uma revisão das manchetes de jornais e de programas televisivos para constatar “que começam a aparecer padrões”. Todos dizem o mesmo, com um objetivo fundamental: “gerar insegurança psíquica; gerar incerteza, gerar estados de alerta que não correspondem à realidade”. O psicólogo coloca o exemplo da influenza AH1N1: “houve, pelo menos, três semanas nas quais as manchetes dos grandes jornais tratavam permanentemente disso. As rádios falavam disso e a televisão falava disso. O desabastecimento: todos os dias começam a falar do desabastecimento”.

2) Em que se diferencia um fato real da guerra psicológica?

Há características muito concretas, diz Giuliani. Aqueles que pintam um país em ruínas “nunca terminam de decidir, de demonstrar convincentemente o que estão dizendo”. Retoma o exemplo da influenza AH1N1, porque foi apresentada ao país como se tivesse sido uma epidemia terrível, mas pouco se informou sobre as ações do governo para combatê-la.

A mídia enfatiza e destaca o negativo, o pior que possa ocorrer. A dúvida é sempre dirigida ao pior. “E sempre tratam de gerar a sensação de que não se está fazendo nada a respeito e que a coisa ainda vai piorar”. São “meias verdades”, que estão baseadas em coisas “que efetivamente ocorrem”, como a corrupção e a insegurança.

[No Brasil: Rumor na internet: a casa da fazenda do filho do Lula era uma universidade pública!]

3) Qual é o papel do rumor nesta estratégia?

Ovilia Suárez acrescenta que o instrumento perfeito para a difusão destas supostas informações é o rumor. “E o rumor sempre parte de uma ação, de um conto, de uma referência que é real. É real entre aspas; ou seja, parte de uma referência que permite que a gente acredite que é real, seja porque você a vivenciou, ou porque sua vizinha acabou de ver, ou porque seu cunhado estava ali quando aconteceu. Sempre vão contá-la como se algo de sua realidade estivesse presente. Quer dizer, não é que me foi contada por qualquer um; é que ali estava meu amigo, meu tio, meu sobrinho, etc.”

Ao parecer “crível”, qualquer um o retransmite, porque “você parte da boa fé, parte de que algo está acontecendo. O que ocorre com o rumor atualmente? Ocorre que agora estão todos os meios e redes sociais que o retransmitem de forma massiva e imediata”.

Ou seja, “já não se trata de um rumor que o Fernando me disse, senão que através do Twitter foi passado a 2 milhões de pessoas simultaneamente”.

4) O que os meios de comunicação fazem?

Os meios, ressalta Suárez, “são os novos exércitos de sua nova guerra. Ou seja, já não são homens que vão combater corpo a corpo, homem com homem, mulher com mulher; não vão utilizar nem aviões, nem tanques, nem metralhadoras”.

Utilizam os meios de comunicação, as telecomunicações, as redes sociais, como parte de uma planificação. “São grupos que lançam rumores e grupos que criam situações, que reforçam a possibilidade de que seja veraz”, adiciona. “Você sempre vai ver, portanto, em um supermercado, em um banco, no metrô, numa barraquinha, gente que começa a contar-lhe uma história que pode estar fora de contexto, especialmente sobre algo emocional”.

Ambos psicólogos creem que não é fortuito que haja grupos que, em diversas regiões do país, estejam falando sobre os mesmos temas. “Chama a atenção a semelhança dos contos em diferentes cenários”, assim também “como se argumenta, como se começa por uma coisa e se termina no ponto alvo do momento; no caso dos supermercados, ao não encontrar alguma coisa”, assinala Giuliani. Há outros setores que, sem se darem conta, se convertem em cúmplices disso. “E sempre há alguém gravando o que acontece ali, que depois sai no You Tube ou na internet; ou seja, são situações que vão reforçar principalmente a emocionalidade que está sendo disseminada dentro da guerra psicológica”.

O modelo comunicacional com o qual se trabalha é o da incerteza, Suárez afirma. “Quer dizer, lançam uma notícia, e não importa se é verdade ou mentira. Assim como não importa quem a lançou, porque o importante é que nos gere dúvida, e a dúvida está associada ao fato de que você não sabe o que vai acontecer”.

5) O que se procura?

Essa incerteza que eles geram “destampa outras emoções como a angústia, o medo, o pânico, a raiva”, Suárez enumera. São sentimentos negativos “que, por um lado, são mais difíceis de eliminar, de combater, e que, por outro, são de muito maior força que os positivos. Então, ao criar sentimentos negativos de tal intensidade, as pessoas ficam em um momento a ponto de desespero, ou desesperadas”.

Ao levar a população a esse estado, “as pessoas estão dispostas a buscar qualquer coisa que lhes permita sair da situação”, o que as leva à confrontação e a empreender qualquer ação – inclusive violenta – para sair desse “grande caos”.

A psicóloga acrescenta que esse caos tem algo de certo a nível individual, porque “emocionalmente você está desestruturado”, mas na vida social essa desestruturação não é certa.

6) A guerra se acentuou com a morte do comandante Hugo Chávez?

“Totalmente”, responde Giuliani. Não obstante, o especialista se refere à campanha contra o comandante Hugo Chávez, que começou muito antes de que assumisse a primeira magistratura. Uma prova disso é o áudio truncado difundido em 1988, no qual, supostamente, o comandante ameaçava fritar as cabeças dos adecos, que posteriormente se descobriu que era uma montagem.

[Nota do Viomundo: "Adecos" de militantes da AD, o partido que já foi o principal da Venezuela]

O psicólogo identifica a persistência dos grupos de poder em manter “essa desinformação permanente”, e estima que isso “fez o seu trabalho”. Além do mais, alimentou “o temor ancestral que se teve aqui em relação à esquerda toda a vida, aqui e em toda a América Latina”. Os sentimentos que são atiçados “não nos predispõem ao encontro e nem ao diálogo”.

O psicólogo esclarece que é saudável sentir medo, mas alerta que, quando o manipulam de maneira prolongada, há um grande perigo. “Por que são perigosos? Porque são sentimentos e pensamentos que têm um alto conteúdo irracional. Não é porque seja produto de um louco; o que ocorre é que nós temos medos, e os medos não são tão fáceis de identificar. Temos medo de coisas difusas, perante o que o raciciocínio sereno, equilibrado, precisa atuar durante muito tempo para poder se contrapor”, refletiu.

Um dos problemas que ele identifica é que boa parte da população não crê que isto exista, e muito menos que haja gente organizada para preparar essas condições.

7) Quais são os alvos da guerra?

O alvo primordial, neste momento, é o chavismo, alerta Giuliani. “A morte do comandante Chávez abriu para a vanguarda dessa oposição direitista, e também para todos seus grupos aliados, a oportunidade de dividir o chavismo”. O que a guerra psicológica faz contra o chavismo? “Gera insegurança. Insegurança, com relação a quê? Da intencionalidade dos diferentes líderes, sobretudo o presidente Maduro; o sentido da união que tem o projeto chavista, o temor de que, morto Chávez, isto se acabou, porque foi esse o discurso que os opositores sempre faziam”.

Para isso, “estão se apoiando em uma coisa que é verdadeira, que é o forte impacto psicológico e afetivo que ocasionou a morte do comandante” e o luto posterior. A pergunta lógica de como dar continuidade à revolução “abre em você uma vulnerabilidade que faz você pensar em coisas que seguramente não havia pensado antes”.

– Por exemplo?

– A guerra psicológica faz você pensar que isto pode terminar, faz com que você questione se o Maduro poderá dar conta da presidência da República. Por exemplo, pode levar você a se perguntar: “Ele saberá governar como governava meu presidente Chávez? Ele saberá lidar com os problemas que o país tem?”

[No Brasil: Poucos se dão conta de que os escândalos de véspera de eleição são 'produzidos' para aquele momento e alimentam pesquisas que demonstram a influência dos escândalos 'produzidos' no eleitorado]

8) O objetivo é somente o povo chavista?

“O chavismo é o alvo fundamental, mas não é o único. E o que eles querem gerar aí? É a divisão a partir do temor, a partir da insegurança desde um ponto de vista mental. Mas o resto da gente que não apoia o projeto bolivariano continua sendo um alvo importante”, pontualiza Giuliani.

Quanto ao setor que não compartilha da revolução, a estratégia se dirige a tentar juntar as pessoas em torno do mesmo: Fazer-lhes crer que o chavismo “é o que de pior já conteceu no país, que é o mais corrupto, que são ineptos, que é uma gente inescrupulosa e capaz de fazer absolutamente qualquer coisa”.

Tal como ressalta Giuliani, “estão realmente e lamentavelmente convencidos de que efetivamente isto não serve absolutamente para nada”; estes rumores e o discurso persistente sempre apontam “o quão inepto o chavismo é; o inescrupuloso que o chavismo é; o corrupto que o chavismo é. E quando digo chavismo, esta guerra psicológica coloca a questão de tal maneira para que não haja exceções”.

Eles fecham para esses setores a possibilidade de pensar que há gente honesta e capaz no chavismo, e que o governo esteja fazendo algo de bom, expressa o psicólogo. “E como conseguem? Primeiro, pela persistência, porque vêm mantendo esse discurso por 14 anos; e segundo, pelo bombardeio permanente que não lhes dá oportunidade de refletir”.

9) Quais são os setores mais vulneráveis?

Nestes momentos, “os ataques se dirigem a todas as populações, com diferentes tipos de munições e mensagens”, expressa Suárez.

Em relação aos jovens, insistem em que eles não têm futuro, que devem ir embora do país. “Há uma matriz sistemática, que é a da fuga de cérebros para que a juventude sinta que, estude o que estudar, não tem esperança nem futuro na Venezuela”, comenta. Isso não afeta apenas aos jovens, mas também as famílias, porque entram em jogo o desenraizamento e os vínculos emocionais, assim como o temor “de que esses vínculos se rompam”.

Quanto às mulheres, pretendem difundir a ideia de que não podem garantir a alimentação de seu lar, que não são livres para comprar o que querem. “Isso tem a ver com o papel das donas de casa que não conseguem, que não podem se sustentar; que não podem ter a liberdade de fazer o que realmente querem fazer”.

Com os idosos, a estratégia é criar o pânico de que podem morrer, por exemplo, porque não vão ter seus remédios a tempo nos próximos meses.

“Estão manipulando os temores mais importantes de cada um dos setores”, manifesta. “Nos idosos, é o risco de morrer; nos jovens, o risco do futuro; na dona de casa, o de não ter o controle nem a possibilidade de dar, de compartilhar, de pertencer, de agrupar, de ter o que é preciso ter”. A fratura da convivência familiar, em consequência, afeta as crianças.

10) A história sobre a certidão de nascimento do presidente Maduro faz parte disto?

A história sobre a certidão de nascimento do chefe de Estado é um bom exemplo, assinala Giuliani. “Dizem que o presidente é colombiano, mas não têm como demonstrá-lo. O que eles querem gerar com isso? Eles querem gerar a dúvida na população em geral. Se a gente analisar friamente, isso não resiste à menor análise, porque quando o presidente foi inscrever sua candidatura no Conselho Nacional Eleitoral ele teve de levar sua certidão de nascimento. Porém, não há tempo para refletir sobre isso, porque as pessoas recebem essa informação, e o cérebro e os dispositivos sociais têm uma particularidade: tendem a completar a informação que não está completa. Todos fazemos isto”.

O analista recorre ao conto do telefone para exemplificar o que acontece: como, a partir do conto de uma vizinha que supostamente chegou tarde a seu apartamento, chega-se à história da vizinha que estava com outro homem e teve um problema na entrada de sua moradia.

“Como pessoa, eu começo a completar, mas sempre completo na via onde teve sua origem; se o rumor vem com algo negativo, eu o torno cada vez mais negativo. E, logo, acrescenta-se, à natureza do cérebro, uma peculiaridade que os circuitos sociais têm, a qual chamamos ‘pressão à inferência’; você está numa fila e talvez não está com vontade de falar, mas se as pessoas começam a falar, então você fala e também acrescenta; depois, você vai a um batizado e todo mundo começa a falar e dizer que há um problema com o abastecimento e que duas mulheres brigaram por um pacote de farinha de milho”.

O rumor, ele relata, “começa a ter vida própria”, embora careça de fundamentos. Em 14 de abril, ao término das eleições presidenciais, o candidato opositor Henrique Capriles disse que tinha outros números [da apuração], relembra Giuliani. “Mas, nunca mais voltou-se a falar disso, mas o dizer algo assim teve um grande poder, porque foi falado a um povo furioso que, além disso, vinha com a ideia de que o CNE [o TSE venezuelano] não servia”. Pouco importa se Capriles tinha ou não como provar o que disse; ele deixou a ideia correr e nunca a desmentiu.

[No Brasil: O "mas" é uma presença constante nas boas notícias econômicas]

11) Os rumores são submetidos à prova da realidade?

Não. “Nunca esta mídia, estes porta-vozes e esses rumores são submetidos à prova da realidade”, que é a contrastação entre o que se diz e o que ocorre de fato, lamenta Giuliani. Esclarece também que não é apenas uma guerra “muito bem planificada”, senão que “uma franca manipulação e uma mentira gritante”.

“Assim que, é muito fácil se eu disser: ‘eu tenho outros resultados’, como o Capriles fez, sendo que eu realmente não os tenho. No final, ninguém vai me pedir contas disso, e eu já o disse”.

O caldo de cultura vai sendo preparado desde meses e anos antes. “Se você o plantar hoje e começar hoje, ninguém vai acreditar, mas, depois de um ano de preparação sistemática do terreno, as pessoas vão acreditar em qualquer coisa”, afirma Suárez.

12) O que estão tentando criar contra o mandatário nacional?

Os responsáveis pela guerra psicológica “não apenas têm que dividir, ou fazer com que creiam que há divisões internas no chavismo, mas também rebaixar a credibilidade na liderança da revolução” e no próprio processo, analisa Suárez. Por isso, eles tentam apresentar o presidente Maduro como “mentiroso”, para que o povo não acredite no que ele apregoa. “Tudo aquilo que aponta ao que o presidente diz é mentira, eles vão trabalhar isto psicologicamente”. Há estratégias para isso, agrega: por exemplo, talvez não se diga nada sobre a insegurança, mas se o chefe de Estado falar hoje sobre o tema, amanhã “os meios de comunicação resenharão os atos mais violentos, mais horrendos e mais espantosos que a gente possa imaginar”.

Uma coisa é a realidade e outra é a percepção da realidade, argumentam.

– Qual é a percepção neste momento, neste contexto?

– Quando você vai no rumo da percepção da realidade é para criar, justamente, a ilusão do caos; a certeza de que há um caos.

– Qual é a percepção do país neste momento? Caótica?

– Caótica. Ou seja, aqui, agora mesmo – segundo essa percepção – há desabastecimento, há ineficiência, há descontrole. E eles vão estimular tudo aquilo que nos gere o descontrole.

– Há uma destruição planificada da imagem do presidente?

– Claro.

Ela existiu abertamente contra Chávez, descrevem os psicólogos. O líder bolivariano foi submetido à morte moral e usaram sua imagem para todo tipo de manipulação; prova disso é a gravação que circulou há algumas semanas com uma falsificação de sua voz.

Agora, os que estão por trás da guerra psicológica tomam o que o mandatário diz para desqualificá-lo imediatamente. Por exemplo, “se ele cria a Corpomiranda para poder amenizar todos os problemas de Miranda, no dia seguinte haverá uma manchete: ‘Isso vai ser a mesma ineficiência, a mesma burocracia, um meio de corrupção’. É uma reação imediata para que as pessoas assumam que tudo o que o presidente fizer será sempre um fracasso”.

Essa difamação permanente do líder pretende, também, que o povo chavista não se aglutine em torno de sua liderança; é por isso que lhe atribuem tudo de mal.

13) Que papel cumpre o uso de símbolos chavistas por parte do antichavismo?

Um dos objetivos é aumentar a confusão, enfatizam os psicólogos. Querem fazer crer que, perante a suposta incerteza do chavismo, existe a certeza de que a oposição tem algo melhor a oferecer.

Também, com o roubo de alguns símbolos, como o gorro tricolor, “estão querendo roubar, ou querendo apropriar-se de concepções” que uniram as grandes maiorias, como a pátria, a independência, os valores, a cultura. “Quando esses setores começam a apropriar-se ou querem apropriar-se de algumas coisas, voltam a desunir”. Os que dirigem a guerra “jogam muito com o marketing que aponta ao descrédito, à desqualificação dos líderes bolivarianos, e por, outro lado, ao posicionamento das lideranças do antichavismo”.

De acordo com Giuliani, “eles vêm jogando com a apropriação de alguns conceitos do bolivarianismo, do chavismo, do socialismo, da esquerda, para ir apressando e confundindo alguns setores”.

– Setores dentro do chavismo, não?

– Setores dentro do chavismo, setores que são indecisos.

14) Em que se evidencia o caos que tentam incutir na mente das pessoas?

“No tipo de conversa que as pessoas mantêm; nas conversas cotidianas entre as pessoas”, revela Giuliani. “As conversas estão repletas deste tipo de problemas que vão junto com interpretações. Ou seja, as pessoas não apenas dizem: ‘temos problemas de desabastecimento’, e sim ‘temos problemas de desabastecimento porque tal e tal e tal’. Aí se vê isto evidentemente”.

O psicólogo explica que, adicionalmente, isto vai acompanhado de verbalizações irracionais, sem uma análise certeira do que as pessoas realmente vivem. Outro exemplo: “Você vai todos os dias a qualquer lugar e é atendido com carinho, porém, um dia você foi mal atendido por uma pessoa em um desses espaços e a coisa se converte em que ‘todo mundo está angustiado, todo mundo está com raiva’, embora não seja certo”.

Fundamenta-se também na “visão muito parcial que por muito tempo a classe média teve, que vem negando-se sistematicamente a reconhecer que há outros espaços do país e sente que o mundo pode estar muito circunscrito” a seu entorno; nesse entorno não cabem as pessoas que pensam diferente.

Em sua análise, o psicólogo não deixa de lado os preconceitos. “Se você é uma pessoa que sempre pensou que os pobres são indolentes, que os pobres são indisciplinados, que os pobres devem ser arreiados, que os pobres se encantam com qualquer um porque não têm cabeça”, e a matriz de opinião contra a revolução sustenta que Chávez é “um encantador de serpentes”, seguramente você vai acreditar. “Em sua cabeça, em consequência, não cabe o conceito de um povo organizado”.

15) Quais são as armas que a guerra psicológica utiliza?

Giuliani cita um modelo em psicologia social “que tem a ver com a influência social” e que determina “o que você deve fazer para influenciar quando você tem uma opção que não é majoritária”. Ele cita vários elementos: “Você tem que ser insistente e persistente; tem que estar o tempo todo dizendo a mesma coisa; tem que ser conssitente com o que diz e tem que ser resistente frente à prova da realidade; quer dizer, se lhe exigirem que dê provas disso, descaradamente mude de assunto e continue falando. Isso se chama resistência psicológica, ou o que em termos coloquiais alguém definiria como ‘um tipo muito descarado’”.

Qual é o efeito que causa? “Essas três coisas combinadas abrem em você uma brecha de dúvidas” pela qual pode penetrar todo o resto, alerta.

Este modelo não é mau per se. O psicólogo assinala que pode ser usado para mudar a visão da população sobre transplantes de órgãos, por exemplo, a fim de aumentar a doação e ajudar a salvar vidas.

[No Brasil: O mercado é confundido com a opinião pública. "Especialistas" espalham rumores como o do racionamento de energia elétrica sem compromisso com a verdade factual. É a guerra das expectativas!]

16) Em que momento a guerra psicológica se converte em uma guerra física?

R. A vanguarda do antichavismo pretende que seja assim, adverte Fernando Giuliani, que cita o que ocorreu em 11 de abril de 2002 em Ponte Llaguno, com um massacre montado para tentar justificar o golpe de Estado contra o camandante Hugo Chávez, e soma a isso a marcha convocada pelo antichavismo para 17 de abril deste ano ao Conselho Nacional Eleitoral. Essa mobilização, proibida pelo mandatário nacional, podia ter concluído em um enfrentamento de povo contra povo: “O que se procurava aí é que se produzisse uma confrontação”, porém, felizmente, o chefe de Estado impediu que o protesto se efetuasse.

“Basta que haja uma confrontação aqui” para promover a ocupação do país por parte de forças externas, argumenta. Ele recorda o ocorrido no Chile em 1973, quando a direção das Forças Armadas decidiu dar um golpe de Estado contra o governo constitucional para pôr fim ao suposto caos criado pela direita. “No Chile geraram uma necessidade de mudança” que querem repetir na Venezuela, afirmou.

17) Qual é o objetivo final da guerra psicológica?

Difundir na população a “necessidade de mudança”, e que a maioria das pessoas pense que qualquer coisa é melhor do que “a desordem” em que elas supostamente vivem. Daí à derrota do governo nacional seria um passo, segundo creem seus promotores.

Espera-se “voltar a uma normalidade que não é real: é a normalidade dos valores da burguesia, é a normalidade dos valores e a naturalidade do sistema capitalista, ou do imperialismo”, acusa Suárez.

18) A guerra psicológica é infalível?

Não, responde Giuliani. Há muita gente, especialmente no chavismo, que “pouco a pouco vai recuperando uma capacidade de leitura crítica, e isso não deve ser subestimado”, porque a guerra psicológica “não é infalível”.

O psicólogo relembra que entre 2001 e 2002 o povo foi submetido a uma grande pressão por parte destes setores, que incluiu a ressurreição da operação Peter Pan (o ‘regime’ se apropriaria de filhas e filhos e as famílias deveriam levá-los para o exterior). Suárez aponta que em algumas zonas de Caracas chegou-se ao ponto – entre os anos 2002 e 2005 – de guardar óleo fervendo para lançar contra “os chavistas”, assim como gelo pronto no congelador para o mesmo fim. “A crise foi muito forte desde o ponto de vista emocional e o povo resistiu com uma leitura crítica e, claro, tendo muito claro para onde deveria ir”.

Por isso, “se há um povo que deu exemplo ao mundo de resistência frente à guerra psicológica e à mídia é o venezuelano”, reivindica Giuliani, porque quando Chávez nasceu como candidato não teve mídia a seu favor: “Foi submetido à campanha mais louca e feroz que já houve na história de nossas eleições, e ganhou”.

[No Brasil: A direita dissemina mentiras óbvias, como a relação do PT, um partido social democrata, com o 'comunismo', como forma de despertar ódio social]

19) Qual é o antídoto contra a guerra psicológica?

A consciência política do povo creceu muito, asseveram os especialistas. “Houve uma história muito recente e muito próxima, com uns critérios de identificação plena com um líder” que permite pôr em dúvida o que os meios de comunicação e a campanha da direita sustentam.

Entretanto, afirmou Suárez, a vulnerabilidade aumenta quando a população não tem , se é que cabe o termo, as “antenas” preparadas para captar que há algo irregular, como ocorre nas histórias das telenovelas.

“Na novela, eles não vão manejar notícias diretas, senão que símbolos imaginários. Ou seja, se, em todas as novelas ou em todas as séries que nós vemos, o medo começa a ser manejado, a incerteza começa a ser manejada, o desespero, a injustiça, a gente fica com essa emoção” que você sente quando vai a um supermercado e falta leite, descreve.

20) Como as pessoas podem proteger-se da guerra psicológica?

“A ferramenta primordial para as pessoas se protegerem é a organização”, respondem ao uníssono. Isto implica, entre outras ações, “a criação das brigadas antirrumores, que nos permitam constatar a veracidade da informação”, propõem.

O Estado deve garantir informação veraz de maneira sistemática, destacam, porque, do contrário, as mentiras se impõem. Neste sentido, também consideram importante punir aqueles que tenham gerado caos com as supostas “informações”.

Para Giuliani e Suárez, é fundamental que haja “uma altíssima coesão dentro de todo o povo chavista organizado, porque esse é o alvo primordial ao qual estão apontando”. Ambos insistem em que cada um pode continuar com seu pensamento e ideologia, se assim o estimar pertinente, mas remarcam que não por ser de oposição deve-se perder o sentido crítico ante a realidade.

PS do Viomundo: É a guerra de quarta geração, que o Pentágono tem desenvolvido com tanta eficiência. A direita, que controla os meios, tem aplicado isso com destreza. Nos Estados Unidos, Obama era muçulmano e não nasceu nos Estados Unidos — uma falsa polêmica na qual a Fox News mergulhou de cabeça com o objetivo de disseminar os rumores. No Brasil, Lula e Dilma vivem “brigando” na mídia e o filho do ex-presidente é um milionário dono de uma imensa fazenda — identificada posteriormente como a sede da escola de agronomia de Piracicaba. Em 2006, quando eu era repórter da Globo em São Paulo, uma jornalista especializada em economia dizia que o dólar ia disparar para 4 reais. Ela apenas repetia as baboseiras que ouvia no “mercado”. É a guerra das falsas expectativas. O dólar nunca chegou perto dos 4 reais e ela foi promovida a correspondente internacional!

Leia também:

Cesar Bolaño: O projeto cultural da ditadura militar foi vitorioso

O post Os mísseis da mídia que criam insegurança, na Venezuela e no Brasil apareceu primeiro em Viomundo - O que você não vê na mídia.

29 Mar 20:49

Pero entonces... ¿cuántos bolívares vale un dólar?

by Okrim Opina
Desde el 24 de marzo, cuando arrancó el sistema de asignación de divisas SICAD II, los opositores salieron a propagar por las redes sociales y programas de radio y televisión, que el nuevo valor oficial del dólar en Venezuela es de 51 Bs. Inmediatamente después, basándose en esa cifra como única referencia cambiaria, comenzaron a chillar que tenemos el peor salario del mundo, que de la noche a la mañana pasamos a ser más pobres que el indigente más mísero de todo el Planeta Tierra, que vienen tiempos de hambre, sed y enfermedades venéreas hasta ahora desconocidas, etc etc etc. Lo habitual en estos casos.


Pero no, por muy duro que chillen el dólar en Venezuela no vale 51Bs, ni lo que determine el SICAD II cada semana.

Tampoco sería correcto decir que el dólar en Venezuela vale los 6,30Bs de CENCOEX (conocido popularmente como 'dólar preferencial', y con el que se importan artículos de primera necesidad como alimentos o medicinas), ni que su valor es el asignado por SICAD I (10,80Bs destinados fundamentalmente para la importación de otros bienes de menor necesidad, así como cupos para viajeros e internet).

Entonces, ¿si tuviéramos que definir el valor del dólar mediante una cifra y sólo una cifra, cuál sería? ¿Cómo calcularla? Porque si compro un pollo importado, el dólar vale 6,30Bs, si compro una franela importada a través de SICAD I, el dólar vale 10,80Bs, y si compro un videojuego que una empresa importó usando divisas a través de SICAD II, el dólar vale unos 51Bs a día de hoy.

¿Será que el valor más aproximado del dólar en Venezuela es la media de esos tres, es decir (6,30Bs + 10,80Bs + 51Bs) dividido entre 3, lo que arroja un resultado de unos 23Bs? Tampoco, ese resultado sólo sería válido si la cantidad de dólares entregados a través de CENCOEX, SICAD I y II fueran exactamente iguales, lo que no es el caso.

Es decir, si en Venezuela se invirtiera la misma cantidad de dólares en importar pollos, franelas y videojuegos, el cálculo anterior -media artimética- sería correcto. Pero no lo es, porque se invierten más dólares en importar pollos que franelas, y más dólares en importar franelas que videojuegos. ¿Entonces?

Qué peo. Afortunadamente en estos casos podemos apoyarnos en nuestra buena amiga la ponderación (frase nerd donde las haya).

La ponderación es una herramienta matemática que nos permite obtener un promedio cuando las muestras no tienen el mismo peso, como es este caso en el que se invierten más dólares en importar pollos (CENCOEX) que franelas (SICAD I) y videojuegos (SICAD II).

Según datos ofrecidos por el BCV, aproximadamente el 80% de los dólares se asignan a través de CENCOEX, el 12% a través de SICAD I y apenas el 8% a través de SICAD II. Estos son los datos que nos servirán para ponderar y hallar el resultado que buscamos.


Es decir, de cada millón de dólares asignados, 800.000 (el 80%) se asignan a través de CENCOEX, 120.000 (el 12%) a través de SICAD I, y 80.000 (el 8% restante), a través de SICAD II. Con esos datos, podemos calcular cuántos bolívares son equivalentes a ese millón de dólares, porque tenemos las tasas de CENCOEX (fija de 6,30Bs), SICAD I (fija de 10,80Bs) y SICAD II (variable cada semana, a día de hoy aproximadamente 51Bs).

(CENCOEX) 800.000 dólares a 6,30Bs cada uno = 5.040.000Bs
(SICAD I) 120.000 dólares a 10,80Bs cada uno = 1.296.000Bs
(SICAD II) 80.000 dólares a 51Bs cada uno = 4.080.000Bs
_____________________________________________________


(TOTAL) 1.000.000 de dólares = 10.416.000Bs

O dicho de otra forma, para la obtención de ese millón de dólares que usamos como ejemplo -proporcional a la distribución real de divisas entre los tres sistemas de cambio- fueron necesarios 10.416.000Bs, es decir -redondeando- 10,42Bs por dólar. Ni 6,30Bs ni 10,80Bs ni muchísimo menos 51Bs.

En este ejemplo, válido para el momento en que escribí esta nota (29 de marzo de 2014) el valor ponderado del dólar en Venezuela es entonces de 10,42Bs por dólares.

El anterior cálculo se puede expresar de forma porcentual, más general, sin importar la cantidad de dólares, del siguiente modo:

(CENCOEX) 80% de cada dólar a 6,30Bs = 5,04Bs
(SICAD I) 12% de cada dólar a 10,80Bs = 1,30Bs
(SICAD II) 8% de cada dólar a 51Bs = 4,08Bs
_____________________________________________________

(TOTAL) Un dólar ponderado = 10.42Bs


Estos datos son para el valor aproximado del dólar SICAD II a día de hoy, como expliqué antes. ¿Y qué pasa si el dólar SICAD II se dispara o se desploma la próxima semana, o la de arriba? ¿Cuál sería el valor ponderado del dólar en ese caso?

No hay problema. La fórmula general* para obtener el valor ponderado del dólar en cualquier momento y mientras rijan estos tres tipos de cambio es:

6,30BS*0,8 + 10,80BS*0,12 + VALOR-SICAD-II-EN-BS*0,08
=
VALOR REFERENCIAL DEL DÓLAR
(PROMEDIO PONDERADO)

Esta es la forma de calcular el valor de referencia del dólar en Venezuela, y no otra, la forma que combina los tres tipos de cambio según su participación proporcional en el mercado de divisas. Es decir, un cálculo ponderado.

Por cierto, en nuestro idioma, una persona ponderada es aquella que procede con tacto y prudencia. Sin manipular para generar angustia, sin deformar intencionadamente la realidad con fines politiqueros.

Y si las afirmaciones de los voceros y militantes opositores fueran más serias, justas y demostrables, en fin, más ponderadas, seguro que existiría un diálogo más constructivo en el país.

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*La fórmula expresa los porcentajes de 80%, 12% y 8% correpondientes a las tres tasas de cambio en forma de "tantos por uno". Cualquiera de las dos formas de calcular el promedio ponderado arroja el mismo resultado.
28 Mar 18:04

Como o foco nos carros vai devastando a Amazônia

by Diario do Centro do Mundo
O texto abaixo é de Lou-Ann Kleppa, professora de Linguística da UNIR, Universidade Federal de Rondônia. O modelo de desenvolvimento adotado no Brasil aposta no trânsito por vias asfaltadas (ao invés de apostar na malha ferroviária, por exemplo) e na produção de energia elétrica a partir de usinas h...
27 Mar 18:05

Verticalização: para além do debate do sim ou não

by raquelrolnik

Um tema importante que normalmente polariza as discussões sobre o Plano Diretor é a verticalização da cidade. Mas o que o debate tem de apaixonado tem também de simplificado, e a discussão termina se reduzindo a “verticalização: sim ou não?”.

De um lado, os que defendem a qualidade de vida nos bairros, a preservação do patrimônio e da paisagem contra esses “paliteiros” e “espigões”… De outro, a força dos ganhos imobiliários decorrentes da multiplicação do solo, o discurso da modernização e do propalado adensamento…

Quem é contra a verticalização geralmente entende que mais prédios significam mais pessoas, mais carros, mais trânsito, menos qualidade de vida. Mas infelizmente, ou felizmente, a equação não é simples assim.

Óbvio que a história e a tradição de nossas cidades muitas vezes nos levam a crer que a coisa funciona necessariamente desse jeito, já que a maior parte dos bairros verticalizados atende famílias com renda mais alta do que a de seus moradores originais, em prédios com muitos carros na garagem, sem relação com o espaço público da rua, ignorando impactos na paisagem, no trânsito, no entorno.

Porém, colocado apenas em termos de “sim ou não”, esse debate não leva em consideração que o que está em jogo quando falamos em verticalização é o “lugar” de cada grupo social na cidade, as densidades, a paisagem, a história e a memória, a relação entre o espaço público e o privado, ou seja, são várias as dimensões, que não se resolvem simplesmente na definição de quantos andares se pode construir em cada lote!

Sem nenhum espigão, nossos bairros populares são muito mais densos que bairros nobres verticalizados. Mesmo bairros com muitos sobradinhos geminados, como o Bixiga ou o Rio Pequeno, são mais densos que um bairro “paliteiro” como Moema, por exemplo.

Portanto, o debate que realmente precisamos fazer quando falamos em verticalização é: verticalizar como, onde, para quê e para quem?

A verticalização pode ser um importante instrumento para promover condições para que mais pessoas morem em áreas da cidade com melhores graus de urbanidade, acesso a empregos e equipamentos e serviços públicos. E isso não necessariamente precisa ser feito gerando mais trânsito, ignorando a relação com o entorno e a paisagem.

Do ponto de vista da paisagem, aliás, não basta discutir se os prédios devem ter 30 ou 8 andares, se devem ser altos, médios ou baixos… É essencial inserir nessa discussão a relação que os empreendimentos estabelecem com a rua e a vizinhança.

Num bairro como Campos Elísios, por exemplo, que tem muitos sobrados e predinhos históricos, é possível, como vemos nas imagens abaixo, encontrar empreendimentos verticalizados que ignoram completamente a relação com o entorno e a paisagem (à esquerda) e outros que se integram muito melhor (à direita).

O projeto em discussão atualmente do novo Plano Diretor de São Paulo já propõe uma diferenciação nas formas de verticalização. Por exemplo, o projeto propõe, por um lado, adensar mais os novos eixos de transporte público coletivo e, de outro, limitar a altura dos edifícios a 8 andares nos miolos dos bairros…

A diferenciação é interessante, mas sozinha não resolve os problemas típicos da nossa verticalização tradicional. O problema do trânsito deve ser enfrentado limitando o número de vagas de garagens; o problema da relação com a rua se resolve a partir das formas e usos que são dados aos empreendimentos; a questão da relação com a paisagem, a identidade e a memória deve ser pensada identificando os valores de cada um dos conjuntos construídos hoje na cidade e seu diálogo com a topografia e outros elementos naturais.

Complexo? Sim, mas este é um debate necessário de ser enfrentado neste momento em que rediscutimos as formas de ocupar nossa cidade.

*Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.


26 Mar 19:16

O Brasil que a ditadura nos roubou

by Cynara Menezes

Abrindo a semana de REmemoração dos 50 anos do golpe militar, republico este post sobre um filme muito importante. Todos que querem saber a verdadeira história do que aconteceu em 1964 no Brasil devem assisti-lo.

***

Revolta. Tristeza. Náusea. É o mínimo que se pode dizer da sensação que causa no espectador o documentário O Dia Que Durou 21 Anos, de Camilo Tavares. Revolta e tristeza por constatar que, com o golpe, nos roubaram um projeto de país, um futuro. Náusea por conhecer mais a fundo o papel que os Estados Unidos tiveram na derrubada de João Goulart, muito além da teoria da conspiração e da paranóia.

Camilo é filho do jornalista Flávio Tavares, um dos presos trocados pelo embaixador norte-americano Charles Elbrick, sequestrado pelos guerrilheiros da ALN (Ação Libertadora Nacional) e MR-8 em 1969. Sua principal façanha como diretor foi a obtenção de documentos e áudios inéditos que comprovam a participação ativa dos EUA no golpe militar durante o governo John Kennedy e, depois de seu assassinato, com Lyndon Johnson no poder. Particularmente nauseante é a intervenção do embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, e seu cinismo ao reconhecer oficialmente o governo militar no dia seguinte ao golpe.

Além de tramar, espionar e conspirar para derrubar o presidente de outro país, algo inadmissível para um “diplomata”, Gordon é o responsável pela crença, disseminada até hoje pelas carpideiras da ditadura, de que Jango pretendia transformar o Brasil em Cuba, em um país comunista. Uma mentira histórica tão absurda quanto chamar os guerrilheiros de “terroristas”, como insiste a direita fascista brasileira, incapaz de discernir terrorismo de Estado de reação cívica à ditadura. Propositalmente, para enganar jovens com pouca leitura e desinteressados em conhecer a verdade.

A certa altura do documentário, o líder do PTB então, deputado Bocayuva Cunha, esclarece com todas as letras: “Revolução comunista só existe na cabeça e na estupidez de certa elite brasileira”. O que Jango queria era transformar o País, e tinha apoio popular para isso. Suas reformas de base incluíam a reforma bancária, fiscal, administrativa, educacional e agrária. Jango defendia ainda medidas nacionalistas, que desataram a ira dos EUA, histéricos por proteger os lucrativos negócios de suas empresas no Brasil. A intenção de realizar uma profunda reforma agrária, por sua vez, descontentou os grandes donos de terras. Os mesmos ruralistas que hoje em dia volta e meia se associam aos líderes evangélicos no Congresso em defesa de bandeiras arcaicas e anti-democráticas. Gentalha da pior espécie.

O que seria do Brasil se Jango pudesse ter feito suas reformas de base? Se, já naquela época, a questão da terra tivesse sido resolvida, com o fim dos latifúndios? Se a educação tivesse dado um salto qualitativo? Seríamos a republiqueta de bananas em que o golpe nos transformou durante 21 anos, a mais longa ditadura militar da América Latina? Teríamos os problemas educacionais e de terra que ainda temos hoje? Nosso povo continuaria a ser manipulado por políticos, religiosos pilantras e pela mídia apenas por não ter estudado como deveria? Nosso ensino público teria sido sucateado para que gerações inteiras fossem impedidas de pensar?

Na sessão de cinema em que estive (deveriam colocá-lo em cartaz de novo agora), o filme de Camilo Tavares foi aplaudido ao final. Merece mesmo aplausos. E lágrimas. E raiva. E saudade do que não fomos.

O documentário está na íntegra no youtube:

26 Mar 17:47

Jogo eleitoral

by Luis Fausto

Do Brasil 247:

A lei das sociedades anônimas é clara e estabelece que, em empresas abertas, a responsabilidade dos conselheiros de administração é solidária. No caso da Petrobras, quando houve a polêmica compra da refinaria de Pasadena, todos votaram a favor. Tanto a presidente Dilma Rousseff, como nomes estelares do setor privado, que também integravam o conselho da companhia à época. Entre eles, Fabio Barbosa, ex-presidente do Santander e atual chefe da Abril, Claudio Haddad, ex-Garantia e CEO do IBMEC, e Jorge Gerdau, barão do aço. Todos eles, ao se pronunciarem sobre o caso, defenderam seus votos favoráveis ao negócio, alegando condições favoráveis de mercado naquela época, e também se alinharam com a presidente Dilma Rousseff, ao afirmar que nem todas as cláusulas eram conhecidas.

No entanto, apenas um conselheiro – ou melhor, uma conselheira – se tornou alvo de uma iniciativa de um grupo de senadores. Claro, trata-se da presidente Dilma Rousseff. Nesta terça, os senadores Ana Amélia (PP-RS), Randolfe Rodrigues (Psol-AP), Pedro Simon (PMDB-RS), Cristovam Buarque (PDT-DF), Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) e Pedro Taques (PDT-MT), além do deputado Ivan Valente (Psol-SP), autodenominados “independentes”, foram ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e pediram a abertura de uma investigação formal contra Dilma.

“Todos os fatos narrados, como se suspeita ocorridos, em um país que notoriamente sofre com a falta de transparência na gestão pública, levam à necessidade de tomada das providências legais cabíveis para que seja investigada, em especial, a prática dos crimes previstos na lei 8.429 e outros que porventura se identifiquem”, afirmam os senadores no pedido.

No entanto, nada fizeram em relação aos conselheiros do setor privado. Afinal, para que se indispor com o presidente da Editora Abril? Ou com um grande doador de campanhas, como é o caso de Gerdau? Basta lembrar que, quando Ana Amélia se elegeu senadora pelo Rio Grande do Sul, seu conterrâneo Gerdau lhe doou R$ 100 mil.

Fica claro, portanto, que a indignação dos senadores que se veem como bastiões da ética no Parlamento é bastante seletiva.

25 Mar 19:34

"É BOM PRA XAVECAR A MULHERADA"

by lola aronovich
Na mesma semana de notícias sobre estupros no metrô, homens presos, discussão sobre assédio no transporte público, matéria no Fantástico (boa, tirando as declarações de um psicólogo individualizando o problema, chamando de doença -- a doença é o machismo), e o governo do Estado de São Paulo decide fazer uma propaganda institucional sobre as melhorias do metrô dizendo que é normal os vagões lotarem em horário de pico. No final, o locutor diz: "Até gosto do trem lotado, é bom pra xavecar a mulherada, né mano?" 
Foi a querida Aiaiai que passou a notícia. Uma outra leitora advertiu que trata-se de um quadro humorístico da Rádio Transamérica. Aiaiai explica que é um tipo de merchandising: usam um personagem humorístico da rádio pra vender um produto, no caso, o governo de SP.
Pra mim, parece muito propaganda de metrô. Ou a Transamérica faz propaganda assim pra todos os governos, de graça? 
Fui redatora publicitária durante sete anos, muito tempo atrás. Quando um cliente quer fazer propaganda institucional, a agência faz um roteiro -- que é aprovado pelo cliente. Quanto da parte do "xaveco" era conhecida pelo governo?
Já seria muito asqueroso se fosse "apenas" mais um programa de humor, tipo Zorra Total, fazendo graça de um problema sério que afeta a vida das mulheres todos os dias. Mas, se tiver mesmo sido encomendado pelo governo de SP, fica pior ainda. 
A julgar por uma troca de tweets, a rádio admite que se trata de um comercial, mas diz que o personagem é "caricato e humorístico. A propaganda em tela tem o condão de entreter e divertir o público ao passar informações sobre o serviço de trens da CPTM". Segundo a resposta da rádio, "xavecar" é no sentido de paquerar; portanto, eles não veem qualquer ligação com violência ou abuso sexual. 
É claro que eles não veem, né? 


24 Mar 10:09

Ukrainian Book Publishing Fears Hard Times Ahead

by Guest Contributor
Allan Patrick

Golpistas vão colocando as asinhas de fora.

Ukraine's new government is considering withdrawing support for the publishing industry and eliminating tax and other benefits for publishers to save cash.
23 Mar 07:28

Para #coxinhadejaleco a médica cubana deveria negar socorro à vitima, mas ela é MÉDICA e jurou salvar vidas

by mariafro

Em novembro de 2013 discutimos neste blog como os #coxinhadejaleco ignoram por completo a ética médica e buscam a todo custo desqualificar o Mais Médicos mesmo que, sem estarem calcados nos fatos, exponham seus colegas. Foi o caso do médico cubano Isoel que participa do programa Mais Médicos em Feira de Santana (BA).

Ele foi acusado por seus pares, exposto, humilhado publicamente. Foi afastado para averiguação e depois se provou que ele não havia cometido erro e que havia orientado a mãe da criança corretamente: Médico cubano não receitou dose excessiva e volta a trabalhar segunda, diz prefeitura de Feira de Santana.

A mãe da criança, inclusive acusou as médicas do posto de agirem de má-fé: “Meu filho melhorou logo graças ao médico. Queremos o médico de volta, passamos mais de 2 meses sem médico e agora inventam coisa para tirar o médico daqui”.

Com o restabelecimento da verdade, a manifestação da mãe da criança e a mobilização da população atendida pelo posto integralmente ao lado do médico, porque bastou um médico comprometido com a saúde pública agir em benefício da população pra ela avaliar a diferença entre médicos verdadeiros, estrangeiros ou não, e os #coxinhasdejaleco só comprometidos com o seu corporativismo.

Isoel voltou a atender e a população continua satisfeita.

O caso recente da médica cubana,  Aliúska Alarcon, em Santa Catarina, que atendeu piloto em arrancadão lembra muito este caso.

O CREMESC denuncia a médica, mas a secretária de saúde a inocenta.

Secretária diz que médica cubana não trabalhou em arrancadão

Matéria do G1 SC  informou que a Secretaria de Saúde de Balneário Arroio do Silva divulgou nota em defesa da médica cubana do ‘Mais Médicos’ suspeita de ter trabalhado em uma empresa privada durante a 24ª Arrancada Internacional de Caminhões. Segundo a Secretária, a profissional não foi contratada por empresa privada e só estava prestigiando o evento.

Leia a íntegra:

A Secretaria de Saúde de Balneário Arroio do Silva, Sul catarinense, divulgou nota em defesa da médica cubana do programa ‘Mais Médicos’ suspeita de ter trabalhado em uma empresa privada durante a 24ª Arrancada Internacional de Caminhões. O evento ocorreu no último final de semana e terminou com a morte de um piloto, na tarde de domingo (16).

Edson Beber, de 46 anos, morreu durante a competição ao capotar, logo após cruzar a linha de chegada da prova, que ocorria em uma praia do município. Médicos da região denunciaram à delegacia de Araranguá do Conselho Regional de Medicina (Cremesc) terça-feira (18) à noite, que a profissional do Programa Mais Médicos teria auxiliado no socorro à vitima pois estaria trabalhando para uma empresa privada, o que é proibido por contrato do programa do Governo Federal.

A médica clínica geral atua na Unidade Básica Paulo Lupinn, desde 6 de dezembro de 2013, pelo Programa Mais Médicos Para o Brasil. Em nota, a Secretária de Saúde Patricia Paladini, afirmou que Aliuska Guerra Alarcon não foi contratada “por nenhum órgão privado”. Segundo o texto encaminhado à imprensa, a médica era expectadora do evento e teria ido prestigiar a competição na sexta-feira (14) e domingo (16).

De acordo com a informação do órgão municipal, a profissional estrangeira informou que a roupa da empresa contratada foi “utilizada somente no sábado (15) quando visitou e observou o trabalho dos profissionais de saúde que atuavam na pista”. Conforme a informação da secretária, ela teria retirado o uniforme após a dona da equipe responsável pelo atendimento médico informar que ele era exclusivo dos funcionários da empresa.

Patricia Paladini destacou ainda que a profissional foi autorizada a acompanhar os trabalhos da equipe médica e também visitou diferentes espaços do evento, pois teve acesso liberado pela Comissão Organizadora.

“No momento do acidente, a doutora Aliuska estava próxima do local e acabou ajudando a socorrer a vítima, sendo dito por ela mesma, após as denúncias, que diante da situação ‘não poderia omitir socorro e que jamais pensaria que poderia ser prejudicada por ter sido humana’”, destaca a nota que é finalizada com elogios à atuação e atenção aos pacientes da médica.

Abaixo a versão da médica que o Globo não fez questão de ouvir.  Aguardemos as investigações do Ministério da Saúde. Mas fique a questão: quando os #coxinhasdejaleco vão reconhecer que este jogo baixo só piora a própria imagem dos médicos brasileiros? Quando reconhecerão o que o mundo todo reconhece, a excelência da medicina de atenção básica e saúde da família feita pelos médicos cubanos?

“Eu sou médica e jurei salvar vidas”, diz médica cubana que atendeu piloto morto em arracandão no Sul de SC

Médica disse que estava em evento para conhecer e acabou participando do socorro à vítima. Foto: Jessé Giotti / Agencia RBS

Diário de Santa Catarina

Em Balneário Arroio do Silva, no Litoral Sul do Estado, o clima é de tensão. Moradores da cidade com pouco mais de 10 mil habitantes estão apreensivos quanto ao futuro profissional da médica cubana Aliúska Guerra Alarcon, 34 anos. No domingo, ela fez o atendimento ao piloto de caminhões Edson Beber durante a XXIV Arrancada Internacional de Caminhões. Segundo Aliúska, ela não estava a trabalho, conforme denúncia de 12 médicos ao Conselho Regional de Medicina (Cremesc), mas tentou sim prestar socorro à vitima que morreu no local. Como profissional do Mais Médicos, ela não poderia trabalhar fora do posto de saúde. A ação de Aliúska também está sendo investigada pelo Ministério da Saúde.

Na pastelaria, no posto de saúde e por todos os locais o comentário geral é sobre o fato. Moradores não querem perder a médica. Se mostram satisfeitos com o trabalho que realiza no posto de saúde. Estão solidários a ela em relação às acusações.

23 Mar 07:06

A Marcha da Família em São Paulo foi o encontro das senhoras de Santana com os skinheads

by Mauro Donato
    Enfim, não é uma lenda urbana. Eles existem. E não são 500, como emissoras de TV disseram. O final da Marcha da Família com Deus na Praça da Sé tinha cerca de mil integrantes ou mais. O que, se não é muito, também não é pouco. Trata-se de um pessoal que tem uma visão no mínimo exótica ...
19 Mar 19:54

Tudo é sempre culpa da Dilma

by Fabiano Amorim
Acompanhando as discussões políticas na internet, tenho notado a grande quantidade de críticas ao governo da Dilma Roussef. Algumas das críticas são muito válidas e bem interessantes de serem discutidas, como os enormes custos para a realização da Copa, os pobres que perderam suas casas por causa do...
19 Mar 19:51

Racism at the Itaú Personnalité Bank in Rio: as clear as black and white

by gatasnegrasbrasileiras
Writer, poet, activist Nina Silva

Writer, poet, activist Nina Silva

Note from BW of Brazil: Today’s story is very typical of how racism can sometimes take on the subtle or blatant variety in Brazil. Sometimes this type of discrimination passes without even being perceived by the person who experiences the act and as such, often contributes to the perception that racism isn’t an endemic problem woven into the very fabric of Brazilian society. Even in the world of the social sciences academics will also claim that the country has a more veiled system of discriminatory practices in comparison to other societies with histories of racial antagonism. This blog’s stance has always been that subtle and blatant expressions of racism exist side by side in Brazil (see examples). 

The incident featured today happened to Nina Silva, well-known poet and writer based in Rio de Janeiro. BW of Brazil originally introduced Nina to our readers in an article about an organization she is affiliated with called Estimativa, an amazing collective of black women from the periphery of Rio de Janeiro that came together to use art as a means to inform and protest against all forms of violence and gender discrimination. These women are all dynamic as individuals and even more powerful as a group! Nina is a specialist in African Literature and Afro Diasporic poetry and has participated in numerous international seminars speaking on topics related to black women, achievements and invisibility, similar to the content of this very blog. Her latest work was a book of erotic poetry co-authored with Akins Kintê, entitled InCorPoros – Nuances de Libido.

Below are details of what happened to her at a bank in Rio. Keep in mind here that the banking industry is yet another area of the society that discriminates against Afro-Brazilians

Racism at the Itaú Personnalité Bank (office 7818, Méier, Rio de Janeiro – Brazil)

Itaú Personnalité

When trying to get in a bank branch of the Itaú Personnalité in Méier, Marina Silva (Nina Silva), needed to remove all her belongings from her purse. Not satisfied, the security asked her to show the contents of her purse. A few minutes after this fact, two white women were entering the same location with purses and luggage full of metal objects without being bothered or stopped by the security.

At the same moment, the victim questioned the reason for this different treatment, and the employers told her that it happened because the white women were regular customers and that nobody knew her. The security apologized to the victim when they realized that she also was a client, which means that if she didn’t have any connection with the bank nobody would have apologized to her.

Why does the Itaú Personnalite bank believe that a client needs to receive different treatment from a non-client? Does the security in the bank know all the customers of that location? Why does the victim not look like a client?

After this episode, Marina went to the hospital with a chronic asthma attack and received treatment for it.

Later she went to the 23rd Precinct Police Station in Méier to report the fact. Although registered by the authorities as illegal constraint, her lawyer Bruno Alves understood that according with the Caó Law (Brazilian Constitution), the fact should be approached as racial discrimination, considering the denying of access to the local, in opposition to the treatment received by the white clients, which happened because of the skin color of the victim. “The place violated not only the federal constitution but also the Universal Declaration of Human Rights, the International Convention on the Elimination of all Forms of Racial Discrimination and specifically article number 5 of the Law number 7.716 (Brazilian Constitution).

The case was reported to the Itaú company under the protocol 277464361

We would like to request to everybody to share it and help us to tell what happened.
Racism is a crime!!! Join us!

Contact us: brasilcontraracismo@gmail.com

Note from BW of Brazil: In an update, Nina revealed that she will move forward with legal action and although the bank has promised to improve security treatment of clients, it also denied any racist action on their part. Typical of  the Brazilian way…

In Portuguese

In Portuguese


19 Mar 07:20

O linchamento

by Daniel Dantas Lemos
O cara desce da favela para bagunçar aqui no centro. E como fede! Fede ele e a patota que circula com ele. Vem aqui só para bagunçar. 
Eu vou dar minha porrada nele. Agora ele chora, mas merece apanhar.  Esse cara merece ser linchado. Filho da puta. Quero ver o sangue correndo.  Chama as crianças para eles verem o que acontece com cabra safado aqui. Tem que saber que não tem perdão. Aqui é na porrada para aprender. E de vez em quando a gente mata um para os outros aprenderem. Tem que matar mesmo. 
Pega ele. Amarra no pau. Quero ver correr agora.  Vai ser bonito ver todo mundo dando nele. Vai apanhar que nem bicho.
Quero ver aquele povo dos direitos humanos aqui! Direitos humanos só para humanos direitos. Bandido tem que apanhar e morrer mijando nas calças com medo!
Isso, tira a roupa dele. Maldade cobrir os olhos. Quero que ele me veja quando eu chutar aquela cara de bandido. 
Vê se pode: o cara desce lá das paradas dele, com essa gang. Vê: só tinha puta e filho da puta com ele. Bandido, ladrão do povo, viado.  Povo vestido que nem mendigo, com cara de craqueiro, fedido e preto.
Esse cara tem de morrer. Bandido safado.
Afinal, só anda com a escória. Olha aquela puta com ele. Não é só uma. E aquele ladrão corrupto que fugiu? Além de tudo é pobre, se veste mal e cheira mal. 
O que o homem está perguntando mesmo? Ah tá. Claro que tem de matar esse safado, bandido filho da puta. Nem pai tem! Mata, mata. Mas deixa ele sofrer o ponquinho mais.

E gritou:
"Crucifica-o!"
18 Mar 07:18

Irrelevância

by Francisco Seixas da Costa
Há dias, ao atentar no discurso de um dirigente político português sobre a Europa, dei comigo a pensar que o atual quadro decisório europeu configura um terreno de crescente dificuldade para a expressão dos interesses próprios do nosso país. Nada que seja uma novidade, mas, durante alguns anos, tentei concordar com quantos não achavam isto importante. Hoje estou mais preocupado.

Os vários interesses nacionais que se projetam em Bruxelas comportam, entre si, uma margem significativa de divergências, por vezes de conflito, que cabe à União tentar conciliar nas suas deliberações. Desde a criação da máquina comunitária europeia, os Estados mais populosos tiveram, com toda a naturalidade democrática, um peso maior nas decisões. Quando Portugal entrou para as Comunidades, o seu voto à mesa do Conselho de Ministros valia precisamente metade do poder decisório alemão. Para a Comissão, a Alemanha podia indicar dois comissários e Portugal apenas um. No Parlamento europeu, o número de eleitos alemães era quatro vezes o nosso.

Era uma relação desequilibrada? Era, mas era gerível. Muitas decisões nos Conselhos de ministros eram então tomadas por unanimidade, a Comissão Europeia vivia uma cultura de “proteção” dos interesses dos países mais pequenos e mais pobres, o âmbito das temáticas em que a Europa intervinha era bem menor e o Parlamento estava longe de possuir os poderes de que hoje dispõe. Além disso, a Europa comunitária de então era um “clube de ricos” com escassos “pobres” para contentar. Eram dias felizes.

Desde então tudo mudou. Dos “doze” de 1986, passámos agora a 28, com um quadro de interesses médios muito mais diverso. A utilização das votações por maioria, com o abandono progressivo da unanimidade, passou de exceção a regra. Com o modelo do Tratado de Lisboa, a Comissão perdeu poderes para o Conselho de ministros, onde o peso demográfico de cada Estado é a matriz central do processo decisório. Os 22 deputados portugueses são hoje uma gota de água no seio dos 736 membros do PE. E serão ainda menos, a partir de Maio.

Portugal tem hoje de operar numa União onde o padrão médio de interesses se afasta progressivamente dos seus e fá-lo com meios de afirmação de poder decisório cada vez mais reduzidos, em termos relativos. Esta é uma questão da maior sensibilidade, porque toca de perto a questão da legitimidade dos dirigentes nacionais perante os respetivos eleitores.

Quando um cidadão alemão ou francês vota para eleger os seus deputados nacionais, está indiretamente a escolher governantes que, à partida, têm garantida uma forte capacidade de intervenção nos Conselhos de ministros da União, porque se acolhem sob o chapéu de países com força institucional própria. Um eleitor português ou grego vai acabar por tomar consciência, um destes dias, de que está a escolher dirigentes que pesam muito pouco, mesmo em assuntos que lhes dizem diretamente respeito, e aos quais pouco mais resta do que a coreografia verbal à entrada ou saída das reuniões europeias, onde o sentido das decisões já está tomado, com ou sem a sua presença. Será por isso é que alguns já lá nem vão?

Artigo que hoje publico no "Diário Económico"
11 Mar 10:48

Frota de veículos do RN e nossa opção pelo individualismo possessivo

by Thadeu Angelo
Thadeu de Sousa Brandão, Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais, Professor de Sociologia da UFERSA e Consultor de Segurança Pública da OAB/Mossoró.


Basta andar pelas ruas de Natal ou Mossoró mas, principalmente, de nossa congestionada capital. São semáforos abertos onde carros não conseguem sair do canto. São engarrafamentos que, menino, só vi em noticiários mostrando a Paulicéia Desvairada. São centenas de milhares de veículos que, em junho, chegarão a um milhão. Uma média de um veículo para cada três potiguares. Vale lembrar: mais que a média nacional que é de quatro.
Os fatores que levam ao desastre iminente são vários: falta absoluta de planejamento viário; inexistência de políticas públicas eficazes voltadas ao transporte público; falta de financiamento concreto para a instalação de projetos de transporte público de massa. Mas, aponto um significativo que, apesar de não tratar os atores sociais como plenamente racionais, como requer a boa Sociologia Econômica, traz elementos culturais necessários: andar de carro é bem mais confortável e prazeroso que qualquer outra forma similar. 
Pesquisas realizadas na Europa, EUA e Austrália mostram bem isso. Mesmo possuindo excelentes sistemas de transportes públicos (e não a miséria grotesca a que somos submetidos no Brasil), os cidadãos desses países ainda fazem uma preferência clara pelo automóvel. A opção de individualizar a escolha do meio de transporte, mesmo em detrimento do bolso, já que é bem mais caro (custo social) e mais lento (já que os transportes públicos conseguem mais velocidade em suas faixas exclusivas etc.). 
Individualizar tem sido nossa opção em várias áreas. Consequência ou não da Modernidade, nossa opção por ações individuais se alastram por todo o espectro da vida social. Mesmo quando em espaços públicos, interagimos mais individualmente. Basta prestar atenção a uma cena cada vez mais corriqueira: pessoas sentadas em mesas de restaurantes e bares, digitando seus smartphones, cabeças baixas e silenciosas. Mais que um rápido retrato desse individualismo, aponta uma fuga constante da esfera pública. Estamos ainda no espaço público, mas fora da esfera pública.
No trânsito, isso se traduz pela opção do automóvel individual. As classes economicamente abastadas ostentam em suas garagem vários autos, um para cada membro familiar. As ruas tornam-se espaços de disputas, quase concorrenciais, onde o mais veloz, o mais esperto ou o mais paciente chegará antes ao seu local. Os acidentes e incidentes se avolumam, mostrando que a rua tornou-se um espaço privilegiado para a violência. Não refiro-me à criminalidade, mas à violência das colisões, atropelamentos e outras formas de conflituosidade no trânsito.
Nem o Estado Brasileiro optou ainda, de fato, por saídas coletivas. Nossa economia dependente, encontra-se ainda presa à poderosa indústria automobilística. Mais carros, mais emprego, mais economia "crescendo". Os europeus deram o primeiro passo para a mudança. Ainda patinamos no vazio.
10 Mar 16:49

Como mudar o mundo lavando a louça

by Gustavo Mini

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Um dos efeitos mais interessantes do avanço da cultura digital é a globalização definitiva da ideia de que tem muita coisa pra se consertar no mundo. Antes da internet, nosso contato com os problemas ao redor do planeta não apenas dependiam da edição das agências de notícia e dos grandes veículos como tinham interferência limitada no nosso cotidiano, ficando restritos aos horários de noticiários de rádio e tv ou ao momento da leitura do jornal. Com a internet, a coisa é bem diferente: a qualquer momento podemos ser (e frequentemente somos) impactados via rede social ou email por fotos, vídeos, reportagens, abaixo-assinados e todo o tipo de registro de mazelas, tragédias e falcatruas. Como se não bastasse, esses impactos vem dos lugares mais variados. Pode ser um desabamento no estado vizinho ou um assalto no prédio vizinho, um atentado terrorista do outro lado do oceano ou crianças passando fome do outro lado da rua. A avalanche de informação típica da era digital não é feita apenas de frivolidades e o contato constante com certas realidades toca a todos por alguns segundos, deixando sempre uma pergunta no ar: o que é que eu posso fazer?

Segundo o jornalista inglês John-Paul Flintoff, autor do pequeno e simpático manual “Como mudar o mundo”, você pode fazer muita coisa. E, o mais importante: fazer algo não significa exclusivamente se lançar em missões dramáticas como largar tudo e se juntar aos Médico Sem Fronteiras ou entregar sopa quente aos sem-teto nas noites frias de inverno. Para Flintoff, a ideia de que só ajudamos no mundo através de um determinado tipo de ação e com uma alta carga de intensidade é o que impede muitas pessoas de empreenderem pequenos atos dentro de seus desejos e possibilidades, o que poderia fazer uma grande diferença. Em se tratando de ativismo social, não existe ação pequena ou desperdiçada. Você não precisa se tornar um messias para ajudar a melhorar as coisas.

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Essa é a principal beleza de “Como mudar o mundo”. Não queremos mais alguém nos dizendo populisticamente que deveríamos levantar a bunda do sofá e revolucionar as coisas. Esse tipo de chamado acaba distanciando as pessoas do ativismo social por deixar pesado um campo que já não é fácil de digerir. Embora bilhões de pessoas se comovam com as dificuldades de seus pares, poucos se consideram à altura de Gandhi ou de Nelson Mandela na hora de botar a mão na massa. As histórias de figuras como essas são repletas de lances grandiosos e momentos históricos, o que pode nos ensimesmar diante do desafios cada vez maiores que se apresentam do ponto de vista da coletividade. Diz no capítulo 2 de “Como mudar o mundo”: “Concentrar-se demais em batalhas monumentais – como aquela do estudante chinês solitário que, na Praça da Paz Celestial, em 1989, foi com suas sacolas de compras bloquear uma fileira de tanques – pode ser desnorteador. A ética surge em nossas vidas de formas muito mais comuns, corriqueiras. John Ruskin indagou por que damos medalhas a pessoas que, no calor do momento e sem muita ponderação, salvam a vida de alguém mas não damos medalha a pessoas que dedicam anos à criação de uma criança”. Aí se entende o famoso ditado “Todos querem mudar o mundo e ninguém quer lavar a louça”: é porque não se tem notícias de um mártir que tenha sido condecorado por apresentar uma pia tinindo de limpa.

Para Flintoff, depois de superar o derrotismo e aceitar que é possível fazer alguma coisa pelo mundo, o mais importante é que a pessoa disposta a mudar o mundo encontre dentro de si uma motivação genuína para agir. Ajudar uma entidade ou um vizinho desamparado podem se tornar fardos problemáticos se não estão conectados com atividades ou vontades que façam sentido para quem se coloca à disposição. “Não nos sentiremos motivados a mudar o mundo sob a ameaça de que isso se torne uma obrigação chata – mas se encontrarmos maneiras que coincidam com as coisas de que mais gostamos na vida, maiores as chances de que as levemos adiante.” Em outras palavras, seria um desperdício ter você mal humorado tentando colaborar com refugiados no Oriente Médio quando sua paixão por direito tributário pode solucionar um problemão fiscal e evitar o fechamento de uma creche do seu bairro. Isso talvez não renda um Nobel, mas é uma contribuição inestimável para algumas famílias. E você o fez trabalhando no computador com a bunda grudada na cadeira.

Outra palavra central em “Como mudar o mundo” é  estratégia, ou seja, o princípio de raciocinar antes de agir. Além de questionar-se sobre suas motivações, Flintoff também instiga o leitor a organizar o que considera suas próprias prioridades para mudar o mundo. “Se você não souber o que quer consertar, será impossível fazê-lo.” Listar questões genéricas como “guerra, fome e pobreza” não são de muita utilidade e o autor sugere ao longo de pelo menos dez páginas que precisamos refinar nossos impulsos, traduzindo-os em linhas de ação factíveis. Depois disso, lembra que existem níveis diferentes de atuação: você pode querer trabalhar para reduzir a fome entregando quentinhas a sem-teto no inverno, criando campanhas publicitárias para uma ONG, filmando um documentário sobre o assunto ou candidatando-se a vereador para influenciar nas políticas públicas. Todas as vias são válidas e a eficiência de cada uma tem menos a ver com a atividade em si do que com a combinação de vocação, oportunidades e condições do momento.

Ok, mas digamos que você tem esse sentimento contraditório de querer mesmo fazer alguma coisa mas não sentir a menor inclinação pra se envolver diretamente no universo do ativismo social. Não tem problema. Ainda assim “Como mudar o mundo” traz duas sugestões de como você pode contribuir para… mudar o mundo: dar testemunho e acrescentar beleza ao mundo. Dar testemunho é a quintessência da ajuda na era digital. “Somos capazes de mudar o mundo tanto ao passar adiante notícias sobre coisa que precisam ser corrigidas como ao ajudar a promover as tentativas dos outros de consertar essas coisas.” Qualquer um que trabalhe com ativismo social sabe o quanto é penoso jogar luz sobre sua causa, ainda mais se ela não está na agenda da hora da grande mídia. Literalmente milhões de pequenas causas e batalhas estão nas sombras contando com colaboradores que repassem suas mensagens de uma maneira positiva e produtiva. Ou, como diz o filósofo Raymond Willias citado no livro, “a questão não é tornar o desespero convincente, mas sim a esperança possível.” Não deixe, então, que o acusem de slacktivist, de ativista de sofá: a multidão de pessoas que repassam mensagens e vídeos por email ou por redes sociais tem um papel fundamental na mudança do mundo.

Por outro lado, quem simplesmente quer deixar as coisas mais leves ou criativas também está fazendo a sua parte. “Talvez o que nos seduza seja o lado estético da vida.” argumenta Flintoff, abrindo mais uma porta para quem quer mudar o mundo. E ele não está falando de estudar belas arte, se tornar pintor ou escultor, mas considerando válidas mesmo as inclinações mais prosaicas como bordar roupas de segunda mão, criar artesanato em sua própria oficina, abrir um café aconchegante. E segue: “A princípio esses desejos podem parecer totalmente egoístas. Mas não precisamos nos aborrecer com isso, pois quando nos engajamos criativamente no mundo, estamos provocando um impacto. (…) A história mostra que assim que as necessidades mais básicas das pessoas são supridas, o impulso estético entra em atividade. (…) Essas necessidades estão no âmago do que somos e jamais devem ser sacrificadas em nome de um conceito errôneo de seriedade. (…) Para mudar o mundo, também devemos considerar nossos próprios interesses e habilidades – seremos mais eficazes se fizermos coisas que nos vêem naturalmente.”

Em resumo, o grande mérito de “Como mudar o mundo” é abrir dezenas de portas para todo tipo de possibilidade. Mudar o mundo, desse ponto de vista, não é um campo de ação no qual apenas certas pessoas com habilidades e energias específicas podem atuar, mas sim um terreno fértil no qual qualquer um pode brotar como protagonista. Como diz a escritora e ativista Rebeca Solnit, citada no livro, “a menos que tenhamos a sensação de que nós podemos fazer alguma coisa, não temos esperança”. O que John -Paul Flintoff nos oferece é justamente isso: incentivo, estratégia, relatos e exercícios que podem fornecer a literalmente qualquer um a poderosa sensação de que pode fazer alguma coisa.

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“Como mudar o mundo” faz parte de uma coleção bem bacana que inclui outros rápidos manuais de reflexão e ação para a vida contemporânea. Além do livro de Flintoff, eu já li outros dois: Como viver na era digital e Como encontrar o trabalho da sua vida. Todos são altamente recomendáveis e encontráveis em português.

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Há alguns meses, escrevi um post sobre o trabalho do Gene Sharp que lista 198 formas não-violentas de fazer uma revolução e que o Flintoff cita extensivamente em seu livro.

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Foto de abertura do post: New Old Stock.

10 Mar 13:40

Lassance: Acabar com homenagens à ‘revolução’ que estuprou e torturou

by Luiz Carlos Azenha

09/03/2014 – Copyleft

Sete lições sobre o golpe de 1964 e sua ditadura

por Antonio Lassance*, na Carta Maior

Há 50 anos, o Brasil foi capturado pela mais longa, mais cruel e mais tacanha ditadura de sua história.

Meio século é mais que suficiente tanto para aprendermos quanto para esquecermos muitas coisas.

É preciso escolher de que lado estamos diante dessas duas opções.

1ª. LIÇÃO: AQUELA FOI A PIOR DE TODAS AS DITADURAS

No período republicano, o Brasil teve duas ditaduras propriamente ditas. Além da de 1964, a de 1937, imposta por Getúlio Vargas e por ele apelidada de “Estado Novo”.

A ditadura de Vargas durou oito anos (1937 a 1945). A ditadura que começou em 1964 durou 21 anos.

Vargas e seu regime fizeram prender, torturar e desaparecer muita gente, mas não na escala do que ocorreu a partir de 1964.

Os torturadores do Estado Novo eram cruéis. Mas nada se compara em intensidade e em profissionalismo sádico ao que se vê nos relatos colhidos pelo projeto “Brasil, nunca mais” ou, mais recentemente, pela Comissão da Verdade.

Em qualquer aspecto, a ditadura de 1964 não tem paralelo.

2ª. lição: QUALIFICAR A DITADURA SÓ COMO “MILITAR” ESCAMOTEIA O PAPEL DOS CIVIS

Foram os militares que deram o golpe, que indicaram os presidentes, que comandaram o aparato repressivo e deram as ordens de caçar e exterminar grupos de esquerda.

Mas a ditadura não teria se instalado não fosse o apoio civil e também a ajuda externa do governo Kennedy.

O golpismo não tinha só tanques e fuzis. Tinha partidos direitosos; veículos de imprensa agressivos; empresários com ódio de sindicatos; fazendeiros armados contra Ligas Camponesas, religiosos anticomunistas. Todos tão ou mais golpistas que os militares.

Sem os civis, os militares não iriam longe. A ditadura foi tão civil quanto militar. Tinha seu partido da ordem; sua imprensa dócil e colaboradora; seus empresários prediletos; seus cardeais a perdoar pecados.

3ª. LIÇÃO: NÃO HOUVE REVOLUÇÃO, E SIM REAÇÃO, GOLPE E DITADURA

Ernesto Geisel (presidente de 1974 a 1979) disse a seu jornalista preferido e confidente, Elio Gaspari, em 1981:

“O que houve em 1964 não foi uma revolução. As revoluções fazem-se por uma ideia, em favor de uma doutrina. Nós simplesmente fizemos um movimento para derrubar João Goulart. Foi um movimento contra, e não por alguma coisa. Era contra a subversão, contra a corrupção. Em primeiro lugar, nem a subversão nem a corrupção acabam. Você pode reprimi-las, mas não as destruirá. Era algo destinado a corrigir, não a construir algo novo, e isso não é revolução”.

Quase ninguém usa mais o eufemismo “revolução” para se referir à ditadura, à exceção de alguns remanescentes da velha guarda golpista, que provavelmente ainda dormem de botinas, e alguns desavisados, como o presidenciável Aécio Neves, que recentemente cometeu a gafe de chamar a ditadura de “revolução” (foi durante o 57º Congresso Estadual de Municípios de São Paulo, em abril de 2013).

Questionado depois por um jornal, deu uma aula sobre o uso criterioso de conceitos: “Ditadura, revolução, como quiserem”.

A ditadura foi uma reação ao governo do presidente João Goulart e à sua proposta de reformas de base: reforma agrária, política e fiscal.

4ª. LIÇÃO: A CORRUPÇÃO PROSPEROU MUITO NA DITADURA

Ditaduras são regimes corruptos por excelência. Corrupção acobertada pelo autoritarismo, pela ausência de mecanismos de controle, pela regra de que as autoridades podem tudo.

A ditadura foi pródiga em escândalos de corrupção, como o da Capemi, justo a Caixa de Pecúlio dos Militares. As grandes obras, ditas faraônicas, eram o paraíso do superfaturamento.

Também ficaram célebres o caso Lutfalla (envolvendo o ex-governador Paulo Maluf, aliás, ele próprio uma criação da ditadura) e o escândalo da Mandioca.

5ª. LIÇÃO: A DITADURA ACABOU, MAS AINDA TEM MUITO ENTULHO AUTORITÁRIO POR AÍ

O Brasil ainda tem uma polícia militar que segue regulamentos criados pela ditadura.

A Polícia Civil de S. Paulo, em outubro de 2013, enquadrou na Lei de Segurança Nacional (LSN) duas pessoas presas durante protestos.

A tortura ainda é uma realidade presente, basta lembrar o caso Amarildo.

Os corredores do Congresso ainda mostram um desfile de filhotes da ditadura – deputados e senadores que foram da velha Arena (Aliança Renovadora Nacional, que apoiava o regime).

6ª. LIÇÃO: BANALIZAR A DITADURA É ACENDER UMA VELA EM SUA HOMENAGEM

Há duas formas de se banalizar a ditadura. Uma é achar que ela não foi lá tão dura assim. A outra é chamar de ditadura a tudo o que se vê de errado pela frente.

O primeiro caso tem seu pior exemplo no uso do termo “ditabranda” no editorial da Folha de S. Paulo de 17 de fevereiro de 2009.

Para a Folha de S. Paulo, a última ditadura brasileira foi uma branda (“ditabranda”), se comparada à da Argentina e à chilena.

A ditadura brasileira de fato foi diferente da chilena e da argentina, mas nunca foi “branda”, como defende o jornal acusado de ter emprestado carros à Operação Bandeirantes, que caçava militantes de grupos de esquerda para serem presos e torturados.

Como disse a cientista política Maria Victoria Benevides, que infâmia é essa de chamar de brando um regime que prendeu, torturou, estuprou e assassinou?

A outra maneira de se banalizar a ditadura e de lhe render homenagens é não reconhecer as diferenças entre aquele regime e a atual democracia. Para alguns, qualquer coisa agora parece ditadura.

A proposta de lei antiterrorismo foi considerada uma recaída ditatorial do regime dos “comissários petistas” e mais dura que a LSN de 1969. Só que, para ser mais dura que a LSN de 1969, a proposta que tramita no Congresso deveria prever a prisão perpétua e a pena de morte.

O diplomata brasileiro que contrabandeou o senador boliviano Roger Pinto Molina para o Brasil comparou as condições da embaixada do Brasil na Bolívia à do Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), a casa de tortura da ditadura.

Para se parecer com o DOI-CODI, a Embaixada brasileira em La Paz deveria estar aparelhada com pau de arara, latões para afogamento, cadeira do dragão (tipo de cadeira elétrica), palmatória etc.

Banalizar a ditadura é como acender uma vela de aniversário em sua homenagem.

7ª. LIÇÃO: JÁ PASSOU DA HORA DE PARAR COM AS HOMENAGENS OFICIAIS DE COMEMORAÇÃO DO GOLPE

Por muitos e muitos anos, os comandantes militares fizeram discursos no dia 31 de março em comemoração (isso mesmo) à “Revolução” de 1964.

A provocação oficial, em plena democracia, levou um cala-a-boca em 2011, primeiro ano da presidência Dilma. Neste mesmo ano também foi instituída a Comissão da Verdade.

A referência ao 31 de março foi inventada para evitar que a data de comemoração do golpe fosse o 1º. de abril – Dia da Mentira.

A justificativa é que, no dia 31, o general Olympio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, em Minas Gerais, começou a movimentar suas tropas em direção ao Rio de Janeiro.

Se é assim, a Independência do Brasil doravante deve ser comemorada no dia 14 de agosto, que foi a data em que o príncipe D. Pedro montou em seu cavalo para se deslocar do Rio de Janeiro para as margens do Ipiranga, no estado de São Paulo.

A palavra golpe tem esse nome por indicar a deposição de um governante do poder. No dia 1º. de abril, João Goulart, que estava no Rio de Janeiro, chegou a retornar para Brasília. Em seguida, foi para o Rio Grande do Sul e, depois, exilou-se no Uruguai mas só em 4/4/1964. Que presidente é deposto e viaja para a capital um dia depois do golpe?

O Almanaque da Folha é um dos tantos que insistem na desinformação:

“31.mar.64 — O presidente da República, João Goulart, é deposto pelo golpe militar”. Entende-se. Afinal, trata-se do pessoal da ditabranda.

O que continua incompreensível é o livro “Os presidentes e a República”, editado pelo Arquivo Nacional, sob a chancela do Ministério da Justiça, trazer ainda a seguinte frase:

“Em 31 de março de 1964, o comandante da 4ª Região Militar, sediada em Juiz de Fora, Minas Gerais, iniciou a movimentação de tropas em direção ao Rio de Janeiro. A despeito de algumas tentativas de resistência, o presidente Goulart reconheceu a impossibilidade de oposição ao movimento militar que o destituiu”.

De novo, o conto da Carochinha do 31 de março.

Ainda mais incompreensível é o livro colocar as juntas militares de 1930 e de 1969 na lista dos presidentes da República.

A lista (errada) é reproduzida na própria página da Presidência da República como informação sobre os presidentes do Brasil.

Nem os membros das juntas esperavam tanto. A junta governativa de 1930 assinava seus atos riscando a expressão “Presidente da República”.

No caso da junta de 1969, o livro do Arquivo Nacional diz (p. 145) que o Ato Institucional nº. 12 (AI-12) “dava posse à junta militar” composta pelos ministros da Marinha, do Exército e da Aeronáutica. Ledo engano.

O AI-12, textualmente: “Confere aos Ministros da Marinha de Guerra, do Exército e da Aeronáutica Militar as funções exercidas pelo Presidente da República, Marechal Arthur da Costa e Silva, enquanto durar sua enfermidade”. Oficialmente, o presidente continuava sendo Costa e Silva.

Há outro problema. Uma lei da física, o famoso princípio da impenetrabilidade da matéria, diz que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo – que dirá três corpos.

Não há como três chefes militares ocuparem o mesmo cargo de presidente da República. Que república no mundo tem três presidentes ao mesmo tempo?

O que os membros da Junta de 1969 fizeram foi exercer as funções do presidente, ou seja, tomar o controle do governo. O AI-14/1969 declarou o cargo oficialmente vago, quando a enfermidade de Costa e Silva mostrou-se irreversível.

Os três comandantes militares jamais imaginaram que um dia seriam listados em um capítulo à parte no panteão dos presidentes. A Junta ficaria certamente satisfeita com a homenagem honrosa e, definitivamente, imerecida.

Que história, afinal, estamos contando?

Uma história que ainda não faz sentido.

Uma história cujas lições ainda nos resta aprender.

(*) Antonio Lassance é cientista político

De volta ao DOI-CODI from Luiz Carlos Azenha on Vimeo.

Leia também:

O ato unificado contra o golpe diante do prédio do DOI-CODI

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10 Mar 12:39

Sonegação dos ricos é 25 vezes maior que corrupção nos países em desenvolvimento

by justicafiscal
Entrevistado: Jason Hickel, professor da London School of Economics Data da entrevista: 25 de fevereiro de 2014 Londres - Uma visão muito difundida sobre o desenvolvimento econômico afirma que os problemas enfrentados pelas economias em desenvolvimento e os países pobres se devem à corrupção. Essa visão se choca com um dado contundente da realidade internacional: a China. Nem mesmo […]
10 Mar 12:38

Os dentes de Agripino

by Luis Fausto

Do Brasil 247:

Sorria, você está no Senado. Aqui, o tratamento dos dentes dos políticos, ex-políticos e, claro, seus parentes, são pagos pelo dinheiro público. Se você estiver nesse grupo, sorria!

Mas se não estiver, faça as contas. De acordo com reportagem divulgada neste domingo 9 pelo jornal O Estado de São Paulo, as contas de planos odontológicos e de saúde dos senadores brasileiros custaram, em média, R$ 6,1 milhões ao ano entre 2008 e 2012.

Primeiro a defender a moral e os bons costumes na tribuna do Senado, em posição semelhante ao do tristemente famoso moralista Demóstenes Torres, José Agripino Maia, presidente do DEM, espetou uma conta de R$ 51 mil, em 2009, referentes à implantação de 22 coroas de porcelana aluminizada. Uma opção estética, como destacou a reportagem do Estadão. Agripino justificou como necessidade

- Ia jantar, e caía., disse ele.

Pré-candidato a governador do Rio de Janeiro, o pastor e ministro da Pesca, Marcelo Crivella (PRB-RJ), apresentou em 2010 notas que somam R$ 42 mil. No ano anterior, ressaltou a matéria do jornal paulista, o Senado ressarciu despesas de R$ 23 mil para uso de coroas de cerâmica e pinos em ouro odontológico.

Intocável, até o senador Pedro Simon (PMDB-RS) aparece na lista dos beneficiados pelo plano de saúde do Senado. Ele obteve ressarcimento de R$ 62,7 mil em gastos com tratamento dentário em 2012.

Também procurou ficar alinhado com o dinheiro do público, que alimenta os cofres do Senado na forma de pagamento de impostos, o ex-senador Milton Cabral.

Beneficiário direto do fato de o plano de saúde do Senado ser vitalício, e extensivo a parentes dos políticos, Cabral, que encerrou seu último mandato em 1986, lançou, no ano passado, na contabilidade do Senado, notas fiscais com gastos R$ 5,1 mil para pagamento de aplicações de botox em nome dele e da mulher. É a chamada estratégia “se colar, colou”, usada porque, até aqui, o plano de saúde do Senado não é fiscalizado por qualquer tipo de auditoria.

07 Mar 17:17

Maringoni: Os desafios diante da Venezuela e de Cuba

by Luiz Carlos Azenha
Allan Patrick

Talvez uma das mentes mais sensatas do PSOL e da esquerda brasileira

E agora?

“Black Blocs são importação tardia que servem à ‘direita’”

DIÁRIO DA MANHÃ

RENATO DIAS

Os Black Blocs são uma importação tardia de um fenômeno que surgiu na Alemanha, com o recuo das esquerdas, e que, hoje, no Brasil, servem à direita. Trocando em miúdos é o que afirma, com exclusividade ao Diário da Manhã, o jornalista, escritor, chargista e professor de Relações Internacionais, Gilberto Maringoni.Os Black Blocs não são anarquistas, descartam programas e constituem-se em arruaceiros, fuzila.

Há, hoje, um clima de criminalização dos movimentos sociais, crê. A direita brasileira busca endurecer a legislação para combater protestos, ocupações de terras e manifestações, tachando-as de “terroristas”, analisa, em tom de indignação. Crítico, avalia que o julgamento da Ação Penal 470 (Mensalão) foi político. Membro do PSol, ele diz que não há evidência nenhuma de que os réus agissem como organização criminosa.

Especialista em Venezuela e Chavismo, Gilberto Maringoni vê sinais de golpe contra Nicolás Maduro, sucessor de Hugo Chávez. “Há uma tentativa de se criar um clima de caos, aproveitando-se de uma situação econômica difícil, gerando condições para um golpe de Estado. Há duas facções na oposição, como se pode ver pela mídia. Uma é seu setor mais duro, que teve papel ativo no golpe de Estado de 2002, liderada por Leopoldo López. A outra, que aceita o jogo democrático-institucional, tem em Henrique Capriles sua principal figura”, explica.

Perfil

Nome completo:  Gilberto Maringoni de Oliveira

Idade: 55

Formação: Graduação em Arquitetura e doutorado em História Social, ambos pela USP

Livros publicados: Doze no tota: Angelo Agostini, A imprensa ilustrada da Corte à Capital Federal, 1864-1910 (Devir, 2011 – Finalista do Prêmio Jabuti em 2012), Direitos Humanos – Imagens do Brasil (Aori, 2010), Barão de Mauá, o empreendedor (Aori, 2007), A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez (Editora Fundação Perseu Abramo, 2004) e A imagem e o gesto – Fotobiografia de Carlos Marighella (Editora Fundação Perseu Abramo, 1999 – Finalista do Prêmio Jabuti em 2000).

O que anda lendo: O alfaiate de Ulm – Uma possível história do Partido Comunista Italiano, de Lucio Magri (Boitempo, 2014)

Como jornalista: realizou coberturas no Brasil, Bolívia, Chile, Cuba, Uruguai, Venezuela e Tailândia. Publicou quadrinhos no Brasil, Chile, Venezuela, França, Itália, Espanha e Portugal. Foi chargista do jornal O Estado de S. Paulo entre 1989 e 1996.

Confira a íntegra da entrevista

Diário da Manhã – Quem são os Black Blocs?

Gilberto Maringoni – Os Black Blocs são um fenômeno surgido na Alemanha, nos anos 1980, no bojo da perda de expressão institucional da esquerda. Ou seja, de recuo dos partidos tanto nos processos eleitorais, quanto nos movimentos sociais. Portanto, apareceram como sintoma do enfraquecimento das forças progressistas e não de uma ascensão de mobilizações. O que temos aqui no Brasil é uma importação tardia de algo que nada conseguiu propor ou expressar claramente nesses trinta anos, a não ser uma difusa indignação.

DM – O que eles querem?

Gilberto Maringoni – Eu não sei. Eles não têm porta-vozes, líderes ou organização. Alguns afirmam tratar-se de uma “tática”. É um contrassenso. Táticas – uma expressão surgida no meio militar – pressupõem estratégias bem delineadas. Uma não existe sem a outra. Logo, não é uma “tática”. Como não se organizam coletivamente, cada blackbloc tem um objetivo na cabeça. No máximo, esses objetivos são um orelhão, uma fachada de banco ou uma vitrine de loja. Alegam que são anarquistas. Não são. Embora eu ache o anarquismo algo superado há cem anos, eles tinham programa e passos bem delineados de intervenção na cena política. Os blackblocs não são nada disso. São arruaceiros.

DM – As manifestações não servem à direita?

Gilberto Maringoni – As manifestações dos Black Blocs, você quer dizer? Em boa parte dos casos, sim. Até porque não existe nenhum controle, por parte deles mesmos, de quem é Black Bloc ou não. Como todos estão com os rostos cobertos, você não sabe quem é manifestante e quem é policial. As provocações e quebra-quebras que cometem acabam provocando de forma artificial as forças repressivas. Agora, as manifestações de massa, amplas e com objetivos definidos são expressão legítima do descontentamento popular. É preciso separar movimentos sociais de provocadores ou baderneiros que volta e meia aparecem em seu interior.

DM – O que há por trás da criminalização do PSol e do PSTU?

Gilberto Maringoni – Como os dois partidos têm presença expressiva nas mobilizações dos últimos meses, o objetivo é criar um clima para criminalizar o próprio movimento popular. Há tempos, a direita brasileira busca endurecer a legislação para combater protestos, ocupações de terras e diversas manifestações, tachando-as de “terroristas”. Sabemos que a chamada guerra ao terror – deflagrada pelo governo George W. Bush a partir dos atentados de 2001 – tenta criar uma capa legal para investir contra quem quer que seja em qualquer situação. Os EUA impuseram legislações contra o terror em vários países do mundo. Agora, potencializados pelo clima da Copa, correntes conservadoras buscam fazer isso aqui no Brasil. O lamentável é que contam com apoio de setores do governo Dilma, como o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

DM – O que o senhor achou da decisão do STF de não considerar formação de quadrilha no caso do mensalão?

Gilberto Maringoni – Achei correta. Não há evidência nenhuma de que os réus agissem como organização criminosa. O STF toma decisões marcadamente políticas, fazendo interpretações da Constituição e das leis do País. O julgamento da AP 470 foi extremamente político, passando por cima até mesmo de normas e procedimentos jurídicos.

DM – O que há, hoje, na Venezuela?

Gilberto Maringoni – Há uma tentativa de se criar um clima de caos, aproveitando-se de uma situação econômica difícil, gerando condições para um golpe de Estado. Há duas facções na oposição, como se pode ver pela imprensa. Uma é seu setor mais duro, que teve papel ativo no golpe de Estado de 2002, liderada por Leopoldo López. A outra, que aceita o jogo democrático-institucional, tem em Henrique Capriles sua principal figura. Há problemas no governo. Mas os protestos – até aqui – são de setores de classe média. O desabastecimento toca especialmente os supermercados comerciais. Toda a extensa rede de mais de dez mil pontos de venda estatais – a rede Mercal, que vende produtos básicos – supre a população com produtos essenciais. Um sinal claro disso é que não há fome e nem saques a estabelecimentos comerciais por parte dos setores populares. Mas há problemas. A inflação anual de 56% gera instabilidades que devem ser combatidas. O presidente Maduro iniciou nesta semana uma rodada de diálogos com líderes do empresariado, da Igreja e da oposição, buscando um entendimento. Não podemos esquecer também que o país foi fortemente atingido pela crise internacional.

DM – Uma grave crise não bate à porta da economia de Nicolás Maduro?

Gilberto Maringoni – Sim. Mas é preciso localizar o foco da crise. Como em todo país periférico, a Venezuela sofre fortemente as conseqüências da crise de 2008-2009. Com isso, como em toda parte, quem tem um pouco de dinheiro busca segurança. Houve uma corrida ao dólar desde o segundo semestre de 2012, que provocou um forte movimento especulativo com a moeda norte-americana. O câmbio oficial é de 6,17 bolívares por dólar. No paralelo, o preço chega a quase 90 bolívares. Em uma economia que só exporta petróleo e importa tudo mais – alimentos, eletrodomésticos, produtos de limpeza, automóveis etc. -, a transmissão da variação cambial aos preços é imediata. Se não atacar diretamente a especulação com o câmbio, a crise não se resolve. Não é algo simples, pois os custos políticos podem ser altos. Envolvem elevar a taxa de juros e cortar alguns subsídios. Para isso é preciso um entendimento nacional e não uma medida administrativa. Mas é preciso que se diga que a economia de um país que tem as maiores reservas de petróleo do mundo tem boas perspectivas de recuperação no médio prazo. Ou seja, os problemas são conjunturais e imediatos, apesar de sérios

DM – O Chavismo esgotou-se?

Gilberto Maringoni – O grande engano da oposição foi não entender – já em 2002, ano do golpe – o que é o “chavismo”. Achavam estar diante de um fenômeno puramente eleitoreiro, liderado por um demagogo. Só após vários erros – entre eles o próprio golpe – perceberam estar diante de um fenômeno muito profundo na sociedade venezuelana e em sua estrutura de classes sociais. Diz respeito à demandas reprimidas de setores populares urbanos, que começaram a ser atendidos nesses quinze anos. Embora tenha em Hugo Chávez sua marca maior, o chavismo não depende mais da figura do líder. O chavismo teria se esgotado se as votações de Maduro e de seu partido tivessem sido pífias. O que sofre instabilidades é outra coisa, é o modelo de desenvolvimento baseado no petróleo. Para isso, não há solução no curto prazo.

DM – Em seu prefácio no livro O Homem que amava os cachorros (2013), Boitempo, de Leonardo Padura, o senhor diz que Leon Trotsky e o trotskismo eram uma sombra do que haviam sido e não ameaçavam o poder da URSS e de Josef Stálin. Qual é a do trotskismo, hoje?

Gilberto Maringoni – Trotsky empreendeu uma luta acirrada no interior do Partido Comunista da União Soviética e perdeu. Foi expulso da agremiação e do país. Se olharmos para a História, num exame acurado, vamos perceber que várias das posições de Trotsky eram equivocadas. Isso não justifica a perseguição e assassinato que o vitimou. Não foram tempos tranqüilos. Eram os anos da construção do Estado nacional russo – e depois soviético – em situação de extrema penúria e de isolamento internacional. Se formos estudar, podemos verificar que a construção dos Estados em cada país sempre se fez de forma brutal e violenta. Um dos exemplos mais gritantes é o dos EUA. Lá o processo se fez através de cinco anos de guerra civil, no século XIX, que levou à morte quase 800 mil soldados e um número incalculável de civis. Voltando a Trotsky, foi num quadro assim que se deu seu injustificável assassinato, em 1940. Hoje, o trotskysmo possui várias correntes em seu interior, com presença em diversos países. Na maioria deles, seu peso relativo é pequeno, embora tenha militantes valorosos e dedicados.

DM – Qual o futuro de Cuba?

Gilberto Maringoni – Não posso falar do futuro, mas das perspectivas. Cuba sobreviveu aos anos mais difíceis do neoliberalismo e à queda dos sistemas de corte soviético na Europa. Isso mostra que seu regime tem entre os cubanos ampla legitimidade popular. Não é possível explicar esse fenômeno alegando-se que se assenta sobre bases repressivas. Mas a economia da Ilha – pela própria posição que ocupa no mundo – não conseguiu avançar na industrialização. Há uma carência grande de capitais e crédito, em muito potencializada pelo bloqueio norte-americano. A tarefa imediata do governo local é obter o fim dessa limitação, para normalizar suas relações com os EUA. O grande desafio é aumentar seu intercâmbio com o mundo, sem perder as marcas distintivas de um país socialista, que garante saúde, educação e alimentação de qualidade à sua população, bem como um regime de pleno emprego. Cuba é um país pobre e sofreu com a queda da URSS e com a retração da economia venezuelana. Com esta última, tem diversos programas de cooperação. O desafio é grande.

Leia também:

Altamiro Borges: O Globo na liderança da guerra contra os mais pobres

Thiago Pará: Chávez, aquele “estranho ditador”

O post Maringoni: Os desafios diante da Venezuela e de Cuba apareceu primeiro em Viomundo - O que você não vê na mídia.

07 Mar 12:21

Converse com seus filhos antes que a internet os devore

by Leonardo Sakamoto

- Rapaz… Mas será que é o… GABRIEL! Caramba, há quanto tempo!

- Júlio, é você mesmo? Faz tempo demais da conta!

- Que coincidência boa! O que está fazendo aqui por São Paulo? Visitando essa terra quente?

- Hehehe. Mudei pra cá por conta do trabalho. Tô morando perto daquele boteco que você me levou um dia. Na verdade, virei até prefeito de lá no Foursquare.

- Precisamos combinar uma então!

- Certamente. Ah, mas que falta de educação a minha. Esse aqui é o Rogério, meu filho. Tá no segundo ano do ensino médio. Quer prestar jornalismo, como você.

- Prazer, Rogério. A profissão não paga muito bem, hein?

- Prazer.

- E o que me conta, Gabriel?

- Tava indo agora fazer uma pauta com médicos que atendem famílias no extremo da periferia. Cada história que você não acredita…

- Muita história de escravo cubano, isso sim. Com certeza você só conta as coisas que te interessam, né? As histórias dos médicos traficados e submetidos a torturas na ilha dos irmãos Castro você nem deve abordar, né, seu comunistinha sem-vergonha?

- Acho que perdi alguma coisa. Como é que é, Rogério?

- Gabriel, perdoe o meu filho. Ele é gente boa, mas algo acontece quando ele ouve certas palavras. E férias? Conseguiu tirar finalmente ou ainda fica jogando pra frente com essa barriga – que só cresce, aliás?

- Olha, a Clarice me deu um ultimato. Era ou o trabalho ou ela. Daí, visitamos Machu Picchu e…

- Tá veeeendo! Quer dar uma de demagogo e vai para esses países pobres cucarachas da América do Sul só para postar as fotos no Facebook e dizer para os amigos “Ô, olha como eu sou legal, eu curto a estética da miséria”. Deve morrer de vontade de ir para Miami, mas não tem coragem porque vai ser mal falado pelo vermelhinhos. Por que não foi para a Somália abraçar um desnutrido de uma vez, seu esquerdista-caviar… É mais um babaca que deve atender todos os caprichos da mulher, um homem que não vale o que tem entre as pernas.

- Meu, rapaz, como é que é?

- Gabe, Gabe, relaxa. Ele não é assim. É alguma coisa que dispara na cabeça dele e, de repente – puff! Escuta, é verdade que o irmão do Nelson finalmente saiu do armário?

- Saiu! O sujeito vivia deprimido, era muito triste. Um belo dia, chegou em casa e teve aquela conversa. Os pais do Nelson ficaram um pouco zuretas no começo – a mãe dele é católica fervorosa, lembra? Mas agora tá tranquilo. E tem mais: o rapaz casou e estão querendo adotar uma criança. A Clarice tava até dando um apoio e…

- Abominação! Abominação! Abominação! Uma criança criada por um par de homens vai ser o quê na vida? Uma ninguém. Capaz até de se tornar bandido. Mas a culpa não é da bicha, não. É culpa dos pais que deveriam ter batido mais quando pequeno para ele aprender que é homem é homem e coiso é coiso. Se fosse meu filho, trancava no banheiro e não abria nunca mais para não fazer a família passar vergonha.

- Olha, Júlio, eu gosto muito de você. Mas seu filho não dá, não. Ele é doente, sabia?

- Doente são vocês que gostam de defender bicha, preto, índio, tudo o que não presta, como diria o deputado. Se vivéssemos em uma sociedade decente, pegaria todos eles, jogava na cadeia e trancava a chave fora. Ou melhor, distribuiria armas lá dentro só para eles se matarem e pararem de cobrar bolsa-bandidagem dos homens de bem aqui do lado de fora. Ou botava coleira em todos esses cachorros. Botava veneno na comida deles. Botava pulga na roupa deles. Prendia todos em hastes de bicicleta pelo pescoço. Para aprender quem manda e quem obedece.

- Júlio, foi ótimo te ver. Mas não rola mesmo. A gente se vê um dia sem ele, ok?

- Gabriel. Gabriel! Ô, Gabrieeeeeeeel! Pô, filho, de novo? Você não consegue se controlar?

- Que foi, pai? Eu tava mandando mó bem! Aprendi na internet que esse papo é o que liga.

06 Mar 12:32

Diretor do Hospital da Mulher pode pedir exoneração

by Carlos Santos

É pouco provável que o médico Inavan Lopes estique sua estada como diretor do Hospital da Mulher Parteira Maria Correia (Mossoró).

Inavan: médico conceituado

Tem confessado a interlocutores próximos, que deverá pedir exoneração do cargo.

Situação de esvaziamento de serviços e falta de compromisso do Governo do Estado (veja AQUI) estão tirando suas forças e subtraindo sua paciência.

Tido como médico humanista, com largo conceito profissional e possuidor de respeito entre seus subordinados, Inavan não quer colocar em risco todo esse capital.

Enfim, tudo dentro do previsto e esperado.

Nota do Blog – O secretário da Saúde Pública do Estado (SESAP), Luiz Roberto Fonseca, garantiu aos médicos que pagamento do restante do mês de novembro, dezembro de 2013, janeiro e remuneração de fevereiro de 2014 seriam pagos após a abertura do novo orçamento do Governo, dia 12 ou 13 de fevereiro.

Os médicos acreditaram.

Vale lembrar que até hoje, ninguém foi punido pelo desvio de mais de R$ 8,4 milhões na primeira fase da terceirização do Hospital da Mulher, com a Associação Marca, conforme sindicância do próprio Governo.

A outra terceirização, com o Inase, seguiu a mesma receita de rapinagem.

Parece que a intenção é mesmo sucatear, para depois aparecerem com a fórmula mágica da solução rápida, sem licitação, com recursos milionários saindo pelo ralo.

Pobre RN Sem Sorte.

05 Mar 23:19

Um ano sem Hugo Chávez: frases marcantes

by Cynara Menezes

“Você viu o Katrina? Deixaram os pobres se afogar. Em Cuba, evacuam até as galinhas quando há furacão. Nos Estados Unidos, eles deixam que os pobres se afoguem.”

“Para lhe dizer no meu inglês ruim: you are a donkey. Digo assim, para dizer com todas as letras a George W. Bush. You are a donkey, mister Bush. Você é um covarde. Por que não vai ao Iraque comandar suas forças armadas? É muito fácil comandar à distância.”

“Que triste ver o presidente de um povo como o mexicano se prestar a ser um cachorrinho do império” (sobre o então presidente do México Vicente Fox).

“O revolucionário é o escalão mais alto da espécie humana. Cristo é um dos maiores revolucionários da história: ‘–Você tem que morrer pelos demais.’  ’–Sim, aceito’.”

“O neoliberalismo é o caminho que conduz ao inferno.”

“ALCA, ALCA, al carajo.”

“Coca não é cocaína, cocaína é o que consomem nos Estados Unidos, o primeiro consumidor mundial de cocaína.”

“O socialismo que pretendemos na Venezuela tem muito de socialismo cristão. Para mim o primeiro grande socialista de nossa era é Jesus Cristo, e o primeiro grande capitalista é Judas Iscariotes, que o vendeu por trinta moedas.”

“Nós, os revolucionários, estamos cheios de fogo por dentro.”

“Estou aqui parado firme. Mande-me o povo que eu saberei obedecê-lo. Sou soldado do povo, vocês são meus chefes.”

“Se o clima fosse um banco, já o teriam salvo.”

“Sou o irmão mais escuro da América, pedindo justiça e igualdade para a raça negra americana, para os afro-americanos; também somos americanos.”

“Boa parte da riqueza europeia tem sua origem nas riquezas minerais do novo mundo, que alimentaram os cofres das monarquias da Europa.”

“O papa não é nenhum embaixador de Cristo na Terra, como eles dizem. Pelo amor de Deus! Que é isso? Cristo não precisa de embaixador, Cristo está no povo.”

“Triste da revolução que depende de um só homem. Na realidade, não é uma revolução, é demasiado frágil para pretender ser uma revolução. Eu não me creio imprescindível. Não existem imprescindíveis.”

05 Mar 19:42

Desvendando Sevilha: a Catedral de la Giralda

by Cyntia Campos
Allan Patrick

A Andaluzia...

Símbolo maior de Sevilha, a Catedral de La Giralda reúne a imponência do gótico e encantos mouriscos, em um conjunto arrebatador. O famoso Pátio de Los Naranjos e sua célebre torre, pairando sobre a cidade, são heranças da antiga mesquita que existiu antes da construção da igreja. Ao lado do túmulo de Colombo, essas são as principais atrações de um edifício recheado de
05 Mar 12:51

Mandioca: a raiz indígena mais popular do Brasil e Angola

by Thiana Biondo

[Este post foi escrito em colaboração com o autor angolano Cláudio Silva]

Os costumes diários brasileiros pouco assimilaram da cultura indígena. Porém, na cozinha, quem conseguiu se impor e sobreviver a qualquer embate entre civilizações foi a mandioca. A raiz tem uma gama de variedades e o derivado dela que está mais presente na mesa brasileira é a farinha de mandioca.

O blog a Sacola Brasileira comenta o quão popular é a farinha de mandioca no Brasil:

Mas falou em mandioca, falou em farinha. Sabia que 80% da macaxeira cultivada no Brasil viram farinha? Pois é. Enquanto que o brasileiro consome 1 kg/ano do tubérculo, o consumo de farinha é de 3,7 kg/ano por pessoa (no norte do país, este número bate os 23,5 kg!). É por isso que cada região brasileira possui a sua própria farinha, com características que pertencem só àquele lugar, o que a tornam um marcador cultural importantíssimo….

O blog Comendo Bem explica como é feita a produção da farinha, extraída da mandioca-brava:

primeiro, as raízes são descascadas, lavadas e raladas. A massa ralada, depois de prensada para a extração da parte líquida, passa por um processo de esfarelamento ou descompactação para que possa ser peneirada. Por fim, a farinha é torrada e, depois de fria, é empacotada para a venda…..

Farofa

Ao misturar a farinha com outros ingredientes tão simples como o ovo, a água, a manteiga ou o azeite de dendê, chega-se a um prato básico que muito frequentemente acompanha peixes, carnes e massas no Brasil: a farofa.

Rony Maltz/Sob licença CC BY-NC-SA 2.0

Farofa de ovo e milho. Foto: Rony Maltz/Sob licença CC BY-NC-SA 2.0

O blog Zona da Palavra dá a dica de como se fazer uma “Farofa Perfeita de Mandioca”:

corte uma cebola em tirinhas fininhas
coloque duas colheres de sopa de manteiga numa panela quente
acrescente um fio de óleo calmamente
frite as cebolas até dourar como o pôr-do-sol do Jacaré
adicione 500 g de farinha de mandioca do sertão
de uma só vez
misture bem e
mantenha no fogo por mais 3 minutos redondostempere com sal da terra e pimenta-do-reino

deixe a farofa esfriar
em um refratário
aberto-o-o-o
por 1 hora exata

bon appétit

fim da poesia

Pirão

A depender da quantidade de farinha que coloque na panela, você pode ter a farofa ou o pirão. Este é feito com o caldo de ensopado de peixe ou até mesmo com leite. O blog Analfabetos, Fracos, Pobres, Rudes e Santos explica como se chegar a um bom pirão:

Quem não gosta de pirão que me desculpe, mas não sabe o que é bom! Mas pra fazer um bom pirão, o peixe tem de estar fresquinho. E sobre o caldo em que foi cozido o peixe fresco vai se adicionando aos poucos a farinha torrada, sem deixar de realizar os movimentos constantes e circulares com a colher de pau, para não empelotar (ou embolotar, ou encaroçar). Não pode botar muita farinha pra não virar farofa. É só um pouquinho de farinha para engrossar o caldo, mantendo a consistência mole e apetitosa.

Do caldo de peixe ou até mesmo com o leite pode-se fazer um saboroso pirão. Foto:Capitu/ Licença sob CC BY-NC 2.0

Foto:Capitu/ Licença sob CC BY-NC 2.0

Beiju

Além da farinha e da farofa, outra delícia que vem da mandioca é o beiju, também chamado de tapioca, a depender da região em que você está. No formato de uma panqueca, ele é enrolado com recheios como queijos, carnes, doce de leite e goiabada. Diferente da farinha de mandioca, a tapioca vem como uma goma que depois é umedecida com sal e colocada sob forno quente para atingir uma forma.

O usuário do Youtube Ivan Cordeiro filmou o pessoal da Tapioca do Irmão Firmino, no município de Cajá, a 100km de João Pessoa, capital da Paraíba:

Funge

E se a mandioca já tinha chegado até a região da América Central, mesmo antes dos portugueses terem cruzado o Atlântico, foi com os europeus que a mandioca chegou à África. Hoje em dia a Nigéria é o maior produtor da raiz e a Angola há muito já inseriu a farinha na culinária local, tendo a receita do funge de bombo (pirão de mandioca) a resoluta raiz.

Mulheres preparam funge em Angola. Foto de mp3ief no Flickr (CC BY-NC-SA 2.0)

Mulheres preparam funge em Angola. Foto de mp3ief no Flickr (CC BY-NC-SA 2.0)

Tal é a importância do funge em Angola que é hoje considerado não só o prato nacional como também o prato mais popular. Numa das grandes ironias da gastronomia angolana, poucos se lembram que a mandioca vem do Brasil e foi introduzida no país que hoje chamamos de Angola pelos colonos portugueses.

Há muitos anos que comer funge aos sábados em família faz parte da cultura culinária angolana, mas o povo mais desfavorecido chega mesmo a consumir funge todos os dias da semana. Se no norte é mais comum o funge de bombó, feito com mandioca, no sul o funge é feito com base de milho e em vez de cinzento é amarelo.

Porém, o funge não tem sabor próprio – é só tão bom quanto o molho do acompanhante. E é precisamente aqui onde a culinária angolana se sobressai. Entre os molhos mais populares temos o calulu, feito normalmente com peixe seco, peixe fresco, quiabos, gimboa, cebola, tomate e outros vegetais, a moamba de galinha, feita a base do óleo de palma, moamba, tomate, cebola, quiabos, beringela e, claro, o frango. 

A Verena Gois, dona de um serviço de entrega de comida ao domicílio em Luanda, partilha connosco uma simples mas saborosa receita de galinha com funge de bombó:  

Moamba de galinha com funge de bombo. Foto do blog Luanda Nightlife

Moamba de galinha com funge de bombo. Foto do blog Luanda Nightlife

Ingredientes:

2 cebolas

3 tomates

900 gr de moamba

1 galinha

200 gr de beringela

200 gr de quiabos

Óleo de palma q.b.

Pique a cebola e o tomate e leve ao fogo, numa panela com um bocado de óleo de palma, para refogar durante uns minutos. Pique a beringela e adicione ao refogado com a moamba e a galinha cortada em pedaços pequenos. Adicione o sal a gosto. Deixe cozer, mexendo de vez em quando, durante 30 minutos mais ou menos, junte os quiabos cortados ao meio, prove o sal. Se necessário adicione um bocado de água. Deixe cozer mais 20 minutos ou ate a galinha estar macia e o molho apurado (grosso).

Ingredientes para o funge:

600gr de água

300 gr de fuba de bombo

Ponha a água ao fogo, quando começar a ferver, adicione a fuba aos bocados mexendo sem parar, com força, até obter uma massa lisa, se necessário adicione um bocado de água a ferver, e volte a bater. Serve-se com a moamba.

[Este post foi escrito em colaboração com o autor angolano Cláudio Silva]

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05 Mar 11:16

Em crise, governo do RN faz contrato de publicidade no valor de R$ 25 milhões por um ano

by Daniel Dantas Lemos
No sábado passado, após participar do Baile Infantil do Tatu Bola na Pinacoteca do Estado, fomos, em romaria, até o Carnaval multicultural, em Ponta Negra.  Nosso objetivo era curtir o show de Morais Moreira. 
Chamou a atenção a não-presença de policiais.  Vimos até duas viaturas da Guarda Municipal, mas nenhum homem ou veículo da PM.
Na mesma noite, recebi a informação, de uma fonte de dentro da PM, que o contingente destacado pelo governo do Estado para atuar durante o Carnaval era bem menor do que o afirmado oficialmente pela secretaria de segurança.  A recomendação era de que não saíssemos à noite nos dias de Momo.
Esse é o Estado em que somente em fevereiro de 2014 ocorreram 139 crimes violentos letais e intencionais - e outros dados muito ruins de segurança no RN, mostrados pelo Conselho Estadual de Direitos Humanos, já que o governo costuma sonegar as informações.
E as condições da saúde pública, com falta de leitos, etc?  
E o funcionalismo que, pelo menos parte dele, tem tido problemas para receber seus salários?
Mas para a Art&C, Base Propaganda, Criola, Dois A, Faz Propaganda e RAF - e seus sócios e proprietários - a relação com o governo do RN não poderia ser melhor.  Publicado em 28 de fevereiro e com validade até 27 de fevereiro de 2015 foi assinado na sexta-feira passada um contrato para "prestação de serviços de publicidade".  No obsceno valor de R$ 25 milhões.


Pior é imaginar que ainda que mesmo que o valor fosse o dobro não seria capaz de reverter o tamanho da crise de imagem da governadora Rosalba Ciarlini (DEM).  Mais que isso: tal contrato, no fundo, contribuirá para afundar ainda mais sua imagem e suas chances de sobrevivência política. Afinal, como justificar um contrato de publicidade milionário em um governo que não consegue pagar integralmente sem perrengues a folha do funcionalismo?
Depois de pagar milhões que foram desviados à Associação Marca para administrar o Hospital da Mulher em Mossoró, por exemplo, provavelmente o governo não considera acintoso tal contrato de publicidade.
04 Mar 11:41

Felipe Recondo: O golpe de Barbosa contra a Justiça brasileira

by Luiz Carlos Azenha

Análise: As operações aritméticas do ministro Joaquim Barbosa

Em meio às falas sobrepostas na sessão de quarta do STF, o ministro Joaquim Barbosa soltou uma frase que guardava consigo há pelos menos três anos: “Foi para isso mesmo, ora!”

28 de fevereiro de 2014 | 17h 36

Felipe Recondo – O Estado de S. Paulo

Barbosa acabava de admitir abertamente o que o ministro Luís Roberto Barroso dizia com certos pudores. A pena para os condenados pelo crime de formação de quadrilha no julgamento do mensalão foi calculada, por ele, Barbosa, para evitar a prescrição. Por tabela, disse Barroso, o artifício matemático fez com que réus que cumpririam pena em regime semiaberto passassem para o regime fechado.

A assertiva de Barroso não era uma abstração ou um discurso meramente político. A mesma convicção teve, para citar apenas um, o ministro Marco Aurélio Mello. Em seu voto, ele reconheceu a existência de uma quadrilha, mas considerou que as penas eram desproporcionais. E votou para reduzi-las a patamares que levariam, ao fim e ao cabo, à prescrição. Algo que Barbosa há muito temia, como se verá a seguir.

Foi essa suposição de Barroso que principiou a saraivada de acusações e insinuações do presidente do STF contra os demais ministros.

Eram 17h33, quando Barroso apenas repetiu o que os advogados falavam desde 2012 e que outros ministros falavam em caráter reservado.

Joaquim Barbosa acompanhava a sessão de pé, reticente ao voto de Barroso, mas ainda calmo. Ao ouvir a ilação, sentou-se de forma apressada e puxou para si os microfones que ficam à sua frente. Parecia que dali viria um desmentido categórico, afinal a acusação que lhe era feita foi grave.

Mas Joaquim Barbosa não repeliu a acusação. Se o fizesse, de fato, estaria faltando com a sua verdade, não estaria de acordo com a sua consciência. Três anos antes, em março de 2011, Joaquim Barbosa estava de pé em seu gabinete. Não se sentava por conta do problema que ainda supunha atacar suas costas. Foi saber depois, que suas dores tinham origem no quadril.

A porta mal abrira e ele iniciava um desabafo. Dizia estar muito preocupado com o julgamento do mensalão. A instrução criminal, com depoimentos e coleta de provas e perícias, tinha acabado. E, disse o ministro, não havia provas contra o principal dos envolvidos, o ministro José Dirceu. O então procurador-geral da República, Roberto Gurgel, fizera um trabalho deficiente, nas palavras do ministro.

Piorava a situação a passagem do tempo. Disse então o ministro: em setembro daquele ano, o crime de formação de quadrilha estaria prescrito. Afinal, transcorreram quatro anos desde o recebimento da denúncia contra o mensalão, em 2007. Barbosa levava em conta, ao dizer isso, que a pena de quadrilha não passaria de dois anos. Com a pena nesse patamar, a prescrição estaria dada. Traçou, naquele dia em seu gabinete, um cenário catastrófico.

O jornal O Estado de S. Paulo publicou, no dia 26 de março de 2011, uma matéria que expunha as preocupações que vinham de dentro do Supremo. O título era: “Prescrição do crime de formação de quadrilha esvazia processo do mensalão”.

Dias depois, o assunto provocava debates na televisão. Novamente, Joaquim Barbosa, de pé em seu gabinete, pergunta de onde saiu aquela informação. A pergunta era surpreendente. Afinal, a informação tinha saído de sua boca. Ele então questiona com certa ironia: “E se eu der (como pena) 2 anos e 1 semana?”.

Barroso não sabia dessa conversa ao atribuir ao tribunal uma manobra para punir José Dirceu e companhia e manter vivo um dos símbolos do escândalo: a quadrilha montada no centro do governo Lula para a compra de apoio político no Congresso Nacional. Barbosa, por sua vez, nunca admitira o que falava em reserva. Na quarta-feira, para a crítica de muitos, falou com a sinceridade que lhe é peculiar. Sim, ele calculara as penas para evitar a prescrição. “Ora!”

Felipe Recondo é repórter do jornal O Estado de S. Paulo em Brasília.

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01 Mar 18:07

GUEST POST: PRA QUE(M) SERVE O TEU TROTE

by lola aronovich
Reunião do DA e Grupo de Estudos Feministas de Letras UFRGS

Todo início de ano é igual: as aulas começam nas universidades, e trotes que perpetuam preconceitos ganham as manchetes. É terrível que esses trotes sejam vistos como "integração", e que ocorram logo em espaços que deveriam ser de total combate às discriminações. Publico aqui o email que recebi de uma integrante do Grupo de Estudos Feministas da Letras da UFRGS: 

Trote de Engenharia Civil na UFRGS
no ano passado incluiu
uma cabeça de porco
"Iniciamos mais um ano letivo e, como é sabido, acontecem os trotes dos cursos nessa época. Infelizmente, é comum assistirmos a reprodução das mais variadas opressões, como machismo, racismo e homofobia, durante os chamados 'momentos de integração'.
No dia 26 de fevereiro, ocorreu o trote da Engenharia Metalúrgica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e, como é costume dos veteranos desse curso, foi incitado aos calouros que gritassem em frente ao prédio de Letras a seguinte frase: 'Letras, puteiro, mulher para engenheiro'.
É importante lembrar que esse grito, que ecoou na frente do prédio da Letras, não atinge um prédio ou um curso, atinge pessoas. Mulheres. Mulheres que não estão na Universidade para servir sexualmente aos homens de quaisquer cursos.
O lamentável ocorrido gerou um debate interessante entre xs estudantes e, prontamente, o diretório acadêmico e o grupo de estudo e discussões feministas do curso de Letras se mobilizaram. Foi marcada uma reunião para o dia 27 de fevereiro, na qual ficou decidido que iniciaríamos nossa luta através de uma carta aberta direcionada ao Instituto de Letras, à Escola de Engenharia, ao Centro de Estudantes Universitários da Engenharia, ao Diretório Central de Estudantes e à Reitoria da Universidade.
Também convocamos uma nova reunião para o dia 6 de março, às 9h10 no Campus do Vale da Universidade, na qual serão confeccionados cartazes e debatidos nossos próximos passos.
Assim, nós, alunas e alunos da Faculdade de Letras e demais apoiadores, pedimos a reflexão da comunidade acadêmica, assim como um pedido formal de desculpas e o comprometimento sincero dos cursos em não reproduzir mais essas ofensas em seus momentos de integração."

Carta aberta do Centro de Estudantes de Letras, Grupo de Estudos Feministas da Letras e estudantes do curso à comunidade acadêmica da UFRGS.
A opressão age de tal forma na nossa sociedade que atitudes opressoras podem facilmente ser naturalizadas e passarem despercebidas. A sociedade regida pelo patriarcado reforça a ideia de que há papeis a serem desempenhados por certos grupos de indivíduos e, com isso, reproduz e não rompe com a lógica das opressões. A luta histórica de ruptura com esse estado de coisas, muitas vezes é abafada e secundarizada; entretanto, os estudantes de Letras se unem para dar um basta à opressão dentro da universidade.
Todos os anos, nesses meses de volta às aulas, a opressão é escancarada e, na cabeça de algumas pessoas, transfigura-se em “brincadeira” de integração dos calouros ao curso: o chamado trote. No entanto, está bem claro que essa noção de “brincadeira” é, na verdade, a opressão naturalizada, uma reprodução daquilo com o que, fora da universidade, a maior parcela da população sofre todos os dias: o machismo, o racismo e a homofobia. Lembramos que a expressão máxima dessa opressão são as violências físicas sofridas pelos grupos oprimidos, como espancamentos, estupros e assassinatos, dessa forma, entendemos que a reprodução desse discurso de ódio passa bem longe de ser “brincadeira”.
No dia vinte e seis de fevereiro de 2014, os veteranos da Engenharia Metalúrgica aplicaram o trote aos calouros e, ao chegarem ao lado do prédio de aulas do curso de Letras, pararam e cantaram uma música já conhecida pelos e pelas estudantes do curso: “Letras, puteiro, mulher pra engenheiro”. 
Reunião Letras UFRGS em 27/2/14
Nós, homens e mulheres estudantes, muitos trabalhadores e trabalhadoras, compreendemos que essa música expressa uma opressão que deslegitima o espaço da mulher na Universidade, na medida em que reforça o papel que o patriarcado impõe à mulher historicamente, isto é, como um objeto a serviço do homem e presa a uma moral sexual que se aplica somente ao sexo feminino. Assim, depois de anos escutando não apenas nos trotes das engenharias, mas presenciando isso dentro do próprio curso, os estudantes de Letras que, em sua maioria são mulheres, decidiram se mobilizar e lutar para que isso tenha um fim. 
Entendemos que a Universidade cumpre um papel importante de efervescência intelectual na sociedade, embora ainda sejam poucas pessoas que têm acesso a ela, o que é, também, bastante sintomático da sociedade em vivemos. Sabemos que essa prática não é um caso isolado e que relatos não faltam para exemplificar como o machismo, o racismo e a homofobia são expressos ainda mais fortemente em momentos como o trote, afastando e dificultando ainda mais a permanência dos estudantes na Universidade. Muito embora esteja definido como infração gravíssima no Código Disciplinar Discente da UFRGS, art. 10, “[...] praticar, induzir ou incitar por qualquer meio, a discriminação ou o preconceito de gênero, raça, cor, etnia, religião, orientação sexual ou procedência [...]”, vemos muitos casos acontecerem e nada ser feito.
Embora o que causou a mobilização tenha vindo de um trote da engenharia, ressaltamos o caráter opressor de atitudes que ocorrem nos trotes de muitos outros cursos, inclusive no de Letras, que, como já supracitado, é majoritariamente feminino. 
Com isso, entendemos que, como discurso da classe dominante, a opressão pode manifestar-se e ser reproduzida também pelos oprimidos, o que reafirma a necessidade da mudança em situações como o trote, pois, mesmo que essas atitudes demonstrem somente a superfície do problema, é uma oportunidade para que as pessoas possam debater e compreender a situação. A partir disso, comprometemo-nos a tensionar para que os nossos próximos trotes não mais reproduzam esse tipo de atitude. 
Dessa forma, pedimos um posicionamento das estâncias institucionais e representativas da Universidade, como o Instituto de Letras, a Escola de Engenharia, o Centro dos Estudantes Universitários de Engenharia, o Diretório Central dos Estudantes e a Reitoria. 
Ainda que atitudes que colocam estudantes em situações constrangedoras também estejam a serviço daqueles que se beneficiam do silêncio dos oprimidos, afirmamos que NÃO NOS CALAREMOS! Essa carta registra o início de uma mobilização que precisa ser grande, uma vez que sabemos da dificuldade de desacomodar o que está acomodado e romper com o que exclui, explora e oprime.