Esses dias participei de uma sessão de avaliação de trabalhos dos alunos da SVA (School of Visual Arts), uma conceituada universidade americana eleita recentemente pelo Linkedin como uma das melhores do país em Design.
Os alunos, apesar de muito talentosos, estavam ansiosos para apresentar seus trabalhos e pegar meu feedback. Eu, por outro lado, estava ansioso para ver como essa nova geração de designers pensa, trabalha e apresenta seus designs.
Após a sessão, acabei participando de um happy hour com os professores e alunos onde conversamos mais um pouco sobre esse exercício que tínhamos acabado de fazer: as sessões de críticas de design.

Além de muito úteis para fazer com que o resultado final dos trabalhos dos alunos continue sempre melhorando, essas sessões de críticas de design têm um papel importante na formação do próprio caráter dos profissionais que estão entrando todo ano no mercado. Desde cedo os alunos aprendem o valor desse tipo de exercício, são treinados para conseguirem filtrar as críticas boas das críticas ruins e também para entender que o que está sendo criticado ali é o design, não o designer.
Quando entram no mercado, o valor desse exercício está tão fortemente enraizado na cultura dos novos profissionais que eles acabam carregando a prática para o dia-a-dia das agências, portais, consultorias e companhias em que trabalham.
Um ganha-ganha sem fim.
Mas…
Quando o medo de criticar e ser criticado atrapalha o processo
Apesar dos nítidos benefícios em se praticar sessões de crítica de design com o seu time, ainda assim o exercício nem sempre é bem sucedido como na história acima.
Você já deve ter passado por uma situação assim:
O time entra na sala e o designer apresenta a solução na qual trabalhou duras horas nos últimos dias. É possível perceber em seu tom de voz o quanto ele está satisfeito com o resultado. Mas é tanto orgulho, que as outras pessoas que estão na reunião ficam com receio de expressar opiniões contrárias ou apontar os problemas. A reunião acaba, o trabalho não evolui, as horas de várias pessoas foram gastas e o designer pensa que nada precisa melhorar.
Nem o design, nem ele, nem o exercício em si.
Complicado.
Listei abaixo alguns motivos pelos quais acredito no valor desse tipo de exercício e também algumas dicas para evitar que os problemas aconteçam.
Críticas trazem novas perspectivas à mesa
Se você foi convidado a uma reunião para fazer críticas ao design, é porque você possui um ponto de vista diferente da pessoa que desenhou a solução (e com isso pode trazer novas lentes à mesa). Antes da reunião começar, olhe em volta e veja quais são os outros participantes da reunião, qual o papel de cada um deles ali presentes e sob quais pontos de vista eles estão olhando. Isso te ajudará a entender qual o SEU papel ali dentro.
Para evitar problemas: a cada nova funcionalidade ou ideia que for apresentada, tenha certeza que todos os pontos de vista foram ouvidos antes de passar para o próximo slide – o ponto de vista do desenvolvedor, do gerente de projetos, dos visual designers e de todos que estiverem na reunião. Antes de finalizarem o exercício, parem um momento para refletir sobre a “big picture” (agora que já olharam para as funcionalidades em detalhes) e discutirem pontos mais estratégicos, tanto de design quanto de escopo de projeto.
Críticas melhoram a qualidade do trabalho
Sempre que alguém faz uma crítica, é preciso ficar claro para todos quem está sendo beneficiado ou prejudicado com aquilo. O usuário? Os objetivos de negócios da empresa? Os desenvolvedores?
Isso deve inclusive ser parte do discurso de quem está colocando uma crítica. Ao invés de falar “eu acho que esse menu não funciona”, as pessoas precisam colocar suas críticas sob algum desses pontos de vista. “Se eu sou um usuário que estou procurando por geladeiras e me deparo com esse menu, eu ficaria na dúvida entre clicar em eletrodomésticos ou cozinha”. Repare como nesse exemplo fica muito mais fácil os outros membros do time também se colocarem no lugar do usuário e entenderem o problema que você está tentando comunicar.
Ah, e se ninguém é beneficiado ou prejudicado com aquilo que você está propondo (nem o usuário, nem a empresa, nem o seu time), há grandes chances de que aquela crítica seja simplesmente uma opinião pessoal.
Críticas mantêm o designer desafiado
Não há nada mais deliciosamente desafiador para um designer do que ouvir um bom feedback sobre o seu design. Quando a sessão de design acaba, o designer se sente desafiado a fazer melhor, a pensar em uma solução que consiga cumprir e contornar as críticas que foram apresentadas. Além, é claro, de que no próximo projeto todo esse conhecimento absorvido será usado pelo designer já no primeiro round de design – fazendo com que o indivíduo e o time amadureçam com o passar do tempo.
Mas vale um alerta: auto-estima é um fator importante para manter o designer motivado. Não esqueça de também elogiar os pontos positivos da solução, já que eles também são mérito do designer que está ali apresentando o trabalho. Como tudo na vida, cuidado com os exageros. Existem coisas que são o mínimo que se espera de um designer – e essas talvez não precisem ser elogiadas a todo momento.
Críticas amadurecem relações interpessoais
Ou pelo menos deveriam. O problema nesse ponto é que muitas pessoas levam as críticas para o lado pessoal e esquecem que aquilo ali é trabalho.
Saber ouvir críticas é uma atividade que exige humildade e anos de aprendizados. A primeira reação (instintiva do ser humano) é achar que as pessoas estão criticando você. Não estão. Só se chega a um bom resultado depois de vários rounds de explorações de design; afinal, aquilo que vocês decidem não colocar no produto, também é design.
Para evitar problemas: tenha certeza que quando você levanta uma crítica em uma dessas reuniões, está criticando o design – e não o designer. Olhe para o problema sob o ponto de vista do usuário, e não sob o ponto de vista de alguém que acha poderia ter feito um trabalho melhor que o cara que está apresentando o trabalho. Humildade, sempre. E lembre-se que vocês estão trabalhando juntos para chegar à melhor solução para os seus usuários.