Essa carta é minha humilde tentativa de fazer vocês colocarem a mão na consciência.
Pra começar, me apresento.
Sou, ou fui, um de vocês. Durante grande parte da década de 90, escrevi para a Revista Mad in Brazil sob o pseudônimo Xandelon. Cheguei a ser subeditor uma época, publicava quase todo número e escrevi dezenas de matérias de capa sob encomenda. Com esse dinheiro, pagava minhas contas e vivia disso.
Essa matéria de capa, sobre a Feiticeira, é minha. Será que alguém ainda lembra dela?
Sei como é um trabalho duro sentar na redação e espremer a cabeça até sair uma piada. Sei como é frustrante achar que a piada está ótima, testá-la com o resto da equipe… e ninguém rir.
Então, aos trancos e barrancos, sem nunca ter sido lá brilhante, posso dizer que já fui sim humorista profissional.
A dura vida do humorista profissional
Em teoria, o humor é simples: você cria uma expectativa, e depois a subverte.
Para o humor poder existir, são necessários uma série de pressupostos culturais coletivos, compartilhados pelo humorista e seu público que, convenhamos, muitas vezes são sim machistas, homofóbicos, racistas.
A piada “Sabe como afogar uma loira? Coloca um espelho no fundo na piscina!” só funciona porque tanto humorista quanto platéia “sabem” que loiras são fúteis, vaidosas e burras. Se não compartilhassem esse “conhecimento”, não é nem que a piada não seria engraçada: ela faria tão pouco sentido que não seria nem mesmo coerente enquanto narrativa.
Naturalmente, por esse mesmo motivo, o humor é sempre local: para pessoas de outras culturas, com outros pressupostos culturais compartilhados, a historinha também não faria sentido – pois não teriam a chave pra decodificar a piada, ou seja, que loiras “são burras, fúteis e vaidosas”. (Não são.)
Se é pra sacanear alguém, sacaneie os poderosos, e não os subalternos.
Outro dia, a revista norte-americana Wired fez uma matéria de capa sobre humor. Pouca gente sabe, mas existem muitos estudos acadêmicos sérios (sic) sobre o humor, muita gente brilhante tentando entender: porque o engraçado é engraçado?
Enfim, uma das últimas teorias, citadas na Wired, é que o humor viria de uma violação da ordem estabelecida, seja através de dignidade pessoal (tropeçar na casca de banana, deformidades físicas), normas linguísticas (gago, fanho, sotaques), normais sociais (comportamentos inusitados), e até mesmo normas morais (bestialidade, etc), mas que ao mesmo tempo não representasse uma ameaça ao público ou à sua visão de mundo.
Essa última parte é talvez a mais importante: a violação não pode ameaçar ou contradizer a visão de mundo do público, senão ela nem será compreensível.
Usando o mesmo exemplo acima, até dá pra fazer uma piada sem loiras, mas se a sua piada incluir uma loira, ela vai ter que ser burra, mesmo contra sua vontade, pois assim que mencionar “loira” o público já vai imaginá-la “burra“, mesmo se você acrescentar que é uma loira física nuclear ganhadora do Nobel. Nesse último caso, o público certamente pensaria que a piada era justamente sobre como a loira burra conseguiu virar física nuclear ganhadora do Nobel. Mas não dá pra desfazer a associação loira + burra.
Dois em um: piada de loira E portuguesa. E mexendo os dedinhos dos pés.
Por outro lado, e é por isso que estou escrevendo essa carta, se é impossível você humorista acabar sozinho com o estereótipo da loira burra, é possível não reforçá-lo:
Basta não fazer piadas de loira burra.
Eu sei, eu sei. O estereótipo da loira burra é até inofensivo. É verdade, algumas das pessoas mais inteligentes que já conheci eram lindas loiras que enfrentavam dificuldades constantes de serem levadas a sério no ambiente de trabalho, mas e daí, né? No cômputo geral das coisas, é um pequeno problema.
Fazer rir utilizando esses estereótipos (a loira burra, o preto macaco, a bicha travesti, etc) é muito fácil. E eu não estou dizendo que vocês não podem não. O país é livre e temos liberdade de expressão justamente para isso.
As mulheres são mortas em tão grandes números, e por seus próprios homens, porque existe uma cultura machista no Brasil, onde as mulheres são vistas como tendo menos valor, onde as mulheres são rotuladas ou como santas ou putas, onde uma mulher viver abertamente sua sexualidade é considerado ofensivo ou repreensível, onde a sexualidade de uma mulher tem impacto direto sobre a honra de seu companheiro.
Se você faz piadas que confirmam os lugares-comuns dessa cultura machista, que objetificam a mulher, que estigmatizam seu comportamento sexual, então você possibilita e reforça essa cultura assassina.
Entre 2002 e 2007, o número de homicídios cujas vítimas eram jovens negros aumentou 49%. De cada 100 mil habitantes, morrem por homicídio 30,3 brancos e 68,5 negros. A probabilidade de ser vítima de homicídio é 12 vezes maior para adolescentes homens e, dentro desse grupo, quatro vezes maior para jovens negros. De cada três jovens assassinados, dois são negros. A população negra teve 73% de vítimas de homicídio a mais do que a população branca.
Os negros são mortos em proporções tão altas, em comparação ao restante da população, porque existe uma cultura racista no Brasil, onde os negros são vistos como tendo menos valor, onde os negros são hiperssexualizados como “negões pauzudos” ou “mulatas rebolantes”, onde o negro é sempre o preguiçoso ou o malandro, o atleta ou o faxineiro, mas nunca (ou raramente) o físico quântico ou o médico, o enxadrista ou galã pegador.
Rárárá! Esse Danilo é ótimo! Só que não.
Se você faz piadas que confirmam os lugares-comuns dessa cultura racista, que denigrem o negro, que comparam o negro a animais, que classificam o tipo de cabelo característico dos negros de ruim, que associam o negro à pobreza, ao crime, à ignorância e a tudo o que há de mais baixo na escala social, então você possibilita e reforça essa cultura assassina.
Em 2010, foram mortos 260 homossexuais no Brasil, 62 a mais que em 2009 (198), um aumento de 113% desde 2007 (122). Nos EUA, com 100 milhões a mais de habitantes, moram mortos 14. Um homossexual brasileiro tem 785% mais chances de morrer vítima de violência que um norte-americano. As coisas parecem estar piorando: só nos primeiros dois meses de 2012, foram 80 assassinatos confirmados. Mantido esse padrão, teremos 500 homossexuais assassinados até o final de 2012. Nenhum país do mundo mata tantos homossexuais quanto o Brasil.
Os homossexuais são mortos em proporções tão altas, em comparação ao restante da população, porque existe uma cultura homofóbica no Brasil, onde os homossexuais são vistos como tendo menos valor, onde os homossexuais são hiperssexualizados como máquinas de foder sempre prontos para o sexo casual, onde o homossexual é sempre retratado como ridículo, efeminado, exagerado, folclórico, onde a tentativa de ensinar às crianças que homossexualidade é normal é rotulada de “kit gay”, onde a tentativa de dar direitos iguais aos homossexuais é rotulada de “ditadura gay”, onde a pregação de que os homossexuais são pecadores que vão pro inferno é protegida pela “liberdade de expressão”.
Se você faz piadas que confirmam os lugares-comuns dessa cultura homofóbica, que estigmatizam e ridicularizam os homossexuais, que utilizam o homossexual como xingamento como se ser homossexual fosse intrinsecamente ruim, que associam o homossexual ao pecado e à devassidão, ao ridículo e ao nojento, então você possibilita e reforça essa cultura assassina.
“Patrulha” são soldados armados que podem te matar se você os desobedecer.
Torcer o nariz para as piadas racistas, homofóbicas ou machistas de um comediante não é “patrulha”.
É o público exercendo pacificamente sua liberdade de expressão de considerar babaca um comediante que faça piadas racistas, homofóbicas ou machistas.
Esses pobres humoristas “perseguidos” que reclamam da “patrulha politicamente correta” não estão defendendo a liberdade de expressão: liberdade de expressão de verdade é o cara poder fazer piada sobre mulher estuprada e nós podermos criticá-lo por isso.
Na verdade, a liberdade que querem esses paladinos do “politicamente incorreto” é a liberdade de falar os maiores absurdos sem nunca serem criticados.
Aí é fácil, né? Assim eu também quero.
Nunca vi ninguém não-babaca se dizendo “politicamente incorreto”.
[E]sse pessoal que ataca minorias pra fazer piada precisa entender é que eles não estão transgredindo nada. Seus tataravôs já eram racistas, gente. Pode ter certeza que seus tataravôs já comparavam negros com macacos. Aposto como seus tataravôs já faziam gracinhas sobre a sorte que uma moça feia teve em ser estuprada. Vocês não são moderninhos, não são ousados, não são criativos. Vocês estão apenas seguindo uma tradição.
Falar besteira, qualquer criança fala.
Adulto é quem sabe que falar significa se abrir para a possibilidade de ouvir a resposta. Adulto é quem entende que ele tem a mesma liberdade de falar que seus críticos tem de criticá-lo.
[O humor] não tem que ter limites. O que a gente tem que ter também é uma crítica ilimitada. O humor tem que ser solto como qualquer linguagem humana tem que ser solta e livre, o que a gente tem é que ter o direito de exercer o poder da crítica sobre isso permanentemente. Então você dizer que uma piada é racista, ou sexista, e argumentar nessa direção, não é censurá-la, é exercer seu direito de crítica.
Tudo que hoje falam do casamento gay era o que falavam do casamento interracial.
Pra encerrar, amigos humoristas, não esqueçam nunca qual é a função social mais importante da liberdade de expressão:
Sem ela, como saberíamos quem são os idiotas?
Façam pouco dos agressores e não dos agredidos
Não existe piada inofensiva: se alguém gargalhou é porque alguém se fudeu.
A questão é: quem se fode nessa piada?
Se é a vítima, o subalterno, a minoria, a mulher, o gay, o negro, etc, então essa piada é parte do problema. Ela confirma, apóia, sustenta a ideologia dominante. Ela está à serviço do machismo, do racismo, da homofobia.
Quando um gay é agredido com uma lâmpada na Av Paulista, os roteiristas do Zorra Total não podem levantar as mãos e se declarar inocentes. E nem quem assiste e ri.
O “santo” Monteiro Lobato era muito racista – e a Emília também.
Mas não é necessário vocês humoristas se autocensurarem ou se tornarem vendedores de seguros. Por que não fazer piadas de gays… onde são os homofóbicos que se fodem? Piadas de estupro… onde quem se fode são os estupradores?
Vocês, humoristas, são livres para fazer piadas sobre o que quiserem. Mas também são cidadãos dotados de consciência. Os números da violência contra a mulher são impressionantes. Somos o país que mais mata gays. Nossos jovens negros são vítimas da maioria desproporcional dos homicídios.
A escolha é nossa, tanto humoristas quanto consumidores e repassadores de humor: queremos ser parte da solução ou parte do problema? Queremos estar do lado de quem mata ou estender a mão à quem está morrendo?
Essa discussão não é abstrata. Não estamos falando sobre princípios filosóficos. Tem gente morrendo AGORA.
O humor ajuda a perpetuar o racismo. Ou a denunciá-lo. A escolha é de vocês.
É muito mais difícil fazer humor sem usar esses estereótipos que confirmam e fortalecem as culturas assassinas do nosso país: a homofobia, o machismo, o racismo.
Será que vocês conseguem? Será que conseguem, ao mesmo tempo, ser engraçados e não ser cúmplice dos assassinatos de mulheres, negros homossexuais.
Sei que não é fácil. Se fosse fácil, eu não estaria pedindo. Se fosse fácil, eu não estaria propondo o desafio.
Mas é tão necessário. É tristemente necessário.
Porque os humoristas alemães que faziam piadas de judeu em 1935 não são inocentes de Auschwitz não.
Fazer rir é relativamente fácil. Difícil é fazer rir sem ser babaca.
Não deixem de assistir o documentário abaixo
Esse texto todo, na verdade, foi só pra apresentar esse documentário. Assistam. Todos os melhores argumentos estão aí. Os melhores comediantes do Brasil. Gente do mais alto gabarito.
Se você acha que a “patrulha do politicamente correto está insuportável”, assista agora.
E depois você me conta.
Link YouTube | “O Riso dos Outros”, magistral documentário sobre humor e politicamente correto, por Pedro Arantes.
* * *
Ah, atualmente, mantenho a minha veia de humorista ainda viva mantendo o tumblr Classe Média Sofre, minha humilde tentativa de fazer “humor do bem”, o que quer que isso seja. Deem uma olhada e me digam como estou me saindo.
os conservadores falam muito sobre não querer ter que explicar a homossexualidade às crianças.
meus amigos liberais parece que não entendem esse comentário, pois respondem argumentando que as crianças aceitam muito bem a homossexualidade.
mas será que não vêem que é justamente isso que assusta os conservadores?
o que assusta os conservadores não é a dificuldade de explicar a homossexualidade às crianças, mas a dificuldade de transmitir às crianças o horror que sentem pela homossexualidade.
o que assusta os conservadores é justamente o fato das crianças aceitarem o diferente.
O Brasil se considera uma nação boa e pacífica. Mas é só porque esqueceu ter sido a maior economia escravocrata de todos os tempos.
Muitas vezes, o sono tranquilo não é consciência limpa: é falta de memória.
“O melhor bife batido da cidade está na Lanchonete Doi-Codi!”
Senzalas eram lugares de morte, tortura, exploração. Por que associar seu restaurante a ISSO?
No coração do centro histórico de Paraty, cidade colonial construída com o sangue e o suor de muitos escravos, em pleno mês da consciência negra, acabou de ser inaugurado um novo restaurante:
Na Alemanha, pelo menos, não existe nenhum Restaurante Auschwitz.
Eles teriam vergonha.
As maravilhas do tráfico humano
Nesse cela, eram colocados para morrer de fome os escravos problemáticos. Elmina, uma maravilha da arquitetura colonial portuguesa!
Em 2009, Portugal promoveu um concurso para escolher as “7 Maravilhas de origem portuguesa do mundo“.
Dentre os vinte e sete indicados, muitos eram locais fortemente identificados com a escravidão, com a compra e com a venda, com a morte e com a tortura, com o desterro e com o desenraizamento de milhões de pessoas. Pessoas como eu e como você. Pessoas cujo sofrimento não deveria ser esquecido:
Por exemplo, o forte Elmina foi construído em 1482 para fazer ali o comércio de escravos, hoje abriga um museu onde os visitantes são convidados a visitar as celas onde os Africanos ficavam confinados antes de serem enviados para as Américas. No sítio da votação, encontra-se uma longa descrição do forte e nem sequer uma linha, uma palavra mencionando o tráfico de africanos escravizados. …
É como se Auschwitz participasse em uma eleição das sete maravilhas alemãs no mundo.
A feliz união das raças da maior democracia racial do mundo!!
Todos são iguais… mas um tem maior expectativa de vida que os outros. Adivinha qual?
Ninguém realmente deveria ficar surpreso. No mundo lusófono, o apagamento da memória da escravidão sempre foi a regra.
A grande maioria dos brasileiros aprende na escola que nosso lindo país foi construído por brancos, negros e índios, todos felizes, de mãos dadas e cantando kumbayá. Como se a colonização do Brasil tivesse sidoe um comercial da Benetton.
Para manter a mentira primordial no cerne do nosso mito de origem, a escravidão nunca é mostrada em seu verdadeiro horror:
Sim, alguns de nossos avós escravizaram nossos outros avós, mas, no fim das contas, eram todos bons amigos, os escravos eram muito bem tratados e, olha só, pelo menos nunca tivemos as leis racistas dos EUA! No Brasil, país bondoso e generoso, até a escravidão era a melhor do mundo!
(Aliás, não faz sentido falar em “escravidão melhor” mas, somente nos Estados Unidos, a população escrava tinha crescimento vegetativo, ou seja, aumentava e se reproduzia. No resto da Américas, a mortalidade era tão alta que, mesmo com os nascimentos, era preciso sempre importar novos escravos. O Brasil foi o maior importador de escravos de todos os tempos porque aqui, nessa terra tão bondosa e tão pacífica, era onde eles mais rapidamente morriam. Esse artigo clássico de Herbert S. Klein explora essas contradições.)
Somos tão legais hoje que nem parece que éramos tão escrotos ano retrasado!
Sim, vamos parar de falar de racismo! Afinal, essa tática tem dado tão certo no último século… (pra nós, brancos, claro!)
Somente um ano e meio depois de abolida, a escravidão já começava a ser sistematicamente lavada da memória nacional.
Escravidão e Holocausto, ensinados lado a lado
“Eu, Barack Obama, o 44º presidente eleito dos Estados Unidos, peço desculpas pela escravidão.”
Para muitos brasileiros, o bicho-papão racial são os Estados Unidos. Não podemos implementar cotas, pois senão “nos tornaríamos um Estados Unidos”; “temos muitos defeitos mas pelo menos não somos os Estados Unidos”, etc etc.
Pois eu morei lá e morei aqui, e estudei a fundo a história da escravidão nos dois países. Somos ambos profundamente racistas, mas o Brasil é pior por um motivo:
A cultura do deixa-disso. Por pensarmos que o não-falar sobre o racismo e a escravidão vai resolver por si só o problema.
Enquanto isso, o presidente norte-americano, em visita a Gana, um dos principais portos exportadores de escravos, afirmou que a escravidão, como o Holocausto, é daquelas coisas que não pode ser esquecida.
Homens que não entendem porque tanto alarde pelo câncer de útero
“Nunca esqueça! Nunca esqueça! Sai dessa, pô!”
Desconfie sempre de quem fala “sai dessa” quando o “essa” é algo que ele nunca experimentou.
Afinal, do ponto de vista de quem está bem acomodado e seco no convés do barco, não há motivo pra se debater tanto lá embaixo no mar só porque tem água entrando nos seus pulmões… SAI DESSA!
“Por que esses cadeirantes preguiçosos não deixam de se fazer de vítima e sobem as escadas como todo mundo, hein?”
A meritocracia do Brasil, em uma charge.
Pior ainda são aquelas pessoas (muitas negras) que são contra as cotas (e similares) argumentando que “nunca precisaram delas”.
E eu faço uma cara pensativa e respondo:
Concordo, claro, como não? E tem mais, também sou contra esse negócio de diálise em hospitais públicos e rampas para cadeirantes nos prédios.
Oras, se passei a vida inteira sem precisar de nenhuma dessas coisas, é porque não são tão importantes assim, certo?
Afinal, dado que eu sou o centro do universo e a medida de todas as coisas, as pessoas só deveriam receber o que eu recebi e as únicas necessidades válidas são as que eu também tenho!
Durante sete anos, morei em Nova Orleans, principal porto escravista norte-americano. Assim como o Rio de Janeiro, uma bela cidade, sexy e musical, turística e carismática, construída nas costas de escravos desesperados e agonizantes.
Um dia, enquanto passeava com meu cachorro pelo bairro universitário, uma soccer mom enfiava cuidadosamente seus quatro filhinhos, todos brancos e roliços, em seu jipão utilitário de luxo, também branco e roliço. Era uma senhora baixinha e gorducha, bochechas rosadas e orelhas de abano, carregando mochilas e merendeiras, parecendo dotada daquela infinita paciência que só uma mãe de quatro meninos pode ter. E, em seu para-choque traseiro, discretamente, estava o adesivo:
The South Will Rise Again (“O Sul se Erguerá Novamente”)
Como não se sentir ameaçado? Não conheço o contexto dessas palavras. Por tudo que sei, é um inocente desejo de revitalizar a economia local. Mas, ainda assim, nenhuma racionalização poderia apagar o meu calafrio ao ler aquela frase; nenhuma explicação lógica faria aquele adesivo soar menos sinistro. De certo modo, era como se o ressurgimento do Sul fosse indistinguível e indissociável do reescravizamento de toda uma raça.
E pensei: o Brasil foi tão ou mais escravista do que o Sul dos Estados Unidos, e resistiu por muito mais tempo até libertar seus escravos. Ainda mais doloroso pra mim, dos nove únicos deputados que tiveram a cara-de-pau e a temeridade de votar contra a Lei Áurea em pleno maio de 1888, já na véspera do século XX e na contra-mão de todos os ventos filosóficos do XIX, oito eram do Rio de Janeiro. Legítimos representantes eleitos do meu estado.
Entretanto, não ficamos nem o Rio e nem o Brasil maculados por essa nódoa. Um adesivo “O Brasil Crescerá” despertaria calafrios? Claro que não. Nem o Paraguai tem medo do Brasil. E concluí, aliviado: ainda bem que pelo menos o bom nome do meu país e do meu estado não estão ligados à escravidão.
Um segundo depois, bateu o estranhamento: mas… por que não?
A falta de calafrios não corresponde à falta de crimes. O Sul dos EUA teve, no Norte, um vizinho incômodo que manteve viva a memória de seus crimes. Já em nosso caso, simplesmente varremos nossos crimes para debaixo do tapete.
Não somos mais virtuosos: somos melhores em esconder o corpo.
(Ao contrário do que muita gente pensa, a Abolição não foi um “presente da monarquia”, mas uma lei disputada voto a voto no Parlamento, somente sancionada pelo Poder Executivo, naquele momento representado pela Princesa Isabel. Mais detalhes nesse meu rascunho de uma História da Abolição.)
“Shoah”, um documentário impossível
“Shoah”, o fim da viagem.
Shoah é uma palavra íidiche que significa “calamidade”. Para muitas pessoas, é um termo preferível à Holocausto – que, afinal, significa “oferenda aos deuses”.
“Shoah” também dá título a uma das grandes obras de arte, de qualquer arte, do século vinte, realizado pelo boy-toy de Simone Bouvoir, Claude Lanzmann.
São nove horas de filme, sem nenhuma imagem de arquivo: são somente depoimentos, e depoimentos, e depoimentos. Lanzmann entrevista três tipos de pessoa: sobreviventes, algozes (oficiais de campos de concentração) e testemunhas (poloneses que moravam perto dos campos).
Com os sobreviventes, Lanzmann é implacável. Ele praticamente os obriga a falar:
“Não foi uma crueldade fazê-las reviver, através da fala, tudo o que sofreram, no caso dos judeus. Era absolutamente necessário. Não acho que tenha sido sádico, mas fraternal. Durante as entrevistas, eu toco suas mãos, seus ombros, seus braços. Uma forma de dizer ‘eu estou com você’. Não faço interrogatórios para que alguém se diga culpado. Eles sofrem. Mas eu também sofro. Eu não os torturei. Eles se sentiram liberados. Eu não estava falando com uma pessoa qualquer, mas com um grupo muito especial de sobreviventes – e não há mais do que um punhado deles no mundo”.
Abaixo, talvez a cena mais emocionante no filme. O barbeiro não consegue falar, mas Lanzmann pressiona (em inglês):
Link YouTube | “Shoah”, e a impossibilidade de lembrar
“Shoah” é um filme de insuportáveis silêncios: das nove horas de filme, cinco horas e meia são de puro silêncio. Diz Lanzmann:
“Não é uma reconstituição, não é uma ficção, não é um documentário. O filme é uma ressurreição, uma reencarnação, tem uma arquitetura, uma construção em torno de uma obsessão pessoal. Eu fazia sempre as mesmas perguntas, geralmente referentes à primeira vez. E não tinha nenhuma intenção de acusar, denunciar, culpar. Nada disso, isso não me interessava.
Houve uma decisão consciente de fazer um filme sobre o presente, e não sobre o passado:
“O pior dos crimes, ao mesmo tempo de ordem moral e artística, quando se quer consagrar uma obra ao Holocausto, é considerá-lo como passado. Meu filme é uma anti-lenda, um contra-mito, vale dizer, uma investigação sobre o presente do Holocausto ou, ao menos, sobre um passado cujas cicatrizes estão ainda tão fresca e vivamente inscritas nos lugares e nas consciências que ele se dá a ver numa alucinante intemporalidade. … Os homens e as mulheres que falam diante da câmera dão sempre a impressão de não estarem contando lembranças, mas de as viverem mesmo, com força e clareza, no presente. … Enquanto fazia o filme, a distância entre o presente e o passado foi totalmente abolida. Em Treblinka só havia pedras, filmei as pedras como um louco, por todos os lados. Quando o espectador vê as pedras de Treblinka, ele vê os judeus sendo mortos. Da mesma maneira que quando o trem chega a Treblinka o espectador vê a tabuleta com o nome do campo exatamente como os judeus que iam para morte deviam ver. É um ato de cinema muito violento. Por isso o filme é fundamentalmente uma invenção, não uma lembrança. … O filme é sobretudo uma ressurreição, as pessoas entrevistadas revivem aquele tempo de tal maneira que, quando falam, até alternam os tempos dos verbos – presente e passado. … No filme, quando as pessoas falam, confundem presente e passado. Na mesma fala, dizem: eu estava lá e pouco depois: eu estou lá.”
Mais do que tudo, é um filme sobre a impossibilidade de recordar, de conceber, de articular o Mal:
Comecei precisamente com a impossibilidade de recontar essa história. Situei essa impossibilidade bem no início do meu trabalho. Quando comecei o filme, tive que lidar, por um lado, com o desaparecimento dos vestígios: não havia coisa alguma, absolutamente nada, e eu tinha que fazer um filme a partir desse nada. E por outro lado tive que lidar com a impossibilidade, até mesmo dos próprios sobreviventes, de contar essa história; a impossibilidade de falar, a dificuldade que pode ser vista ao longo do filme de trazer luz e a impossibilidade de nomear: seu caráter inominável.
Para celebrar os 30 anos de sua estréia, “Shoah” está sendo lançado em DVD pelo Instituto Moreira Salles. Recomendo nos mais enfáticos termos.
Segundo Mills, o racismo seria um sistema político e uma estrutura de poder baseados em um Contrato Social (na verdade, um Contrato Racial) no qual os membros da raça dominante formariam um acordo tácito de, ao mesmo tempo em que garantem para si a maior parte das riquezas/oportunidades/etc da sociedade, também consentem em não ver o próprio sistema, criando assim a “alucinação consensual” de um mundo sem raças, meritocrático e igualitário, que passa a mediar sua interpretação da realidade.
Raça, para eles, sera invisível porque o mundo seria estruturado em função deles; eles seriam a norma em oposição a qual seriam medidas as pessoas de outras raças (“esses outros tem raça, não eu!”). Assim como o peixe não vê a água, os membros da raça dominante não veriam o racismo.
Mills também embarca em uma comparação perigosa, mas praticamente inevitável, entre o racismo e o Holocausto.
Visto de fora pelos não-europeus, que sabem na pele que a civilização européia se baseia em praticar barbarismo fora da Eueropa, o Holocausto não representaria “uma anomalia transcendental no desenvolvimento do Ocidente”, mas, pelo contrário, sua unicidade estaria apenas no aplicação do Contrato Racial contra europeus.
Ao colocar o Holocausto no contínuo cultural de outras políticas exterminatórias colonialistas européias, Mills não deseja negar o seu horror, mas somente sua singularidade histórica.
Tudo o que o nazismo tinha de operacional já vinha sendo aplicado, legitimado, tolerado, negado e esquecido pelos europeus há muitos séculos: a maior transgressão de Hitler seria aplicar contra europeus métodos que antes eram aplicados exclusivamente contra árabes, negros e índios.
A própria percepção do Holocausto, de um horror tão fora de escala e colocado num plano moral muito diferente de todos os outros massacres de não-europeus por toda a história, seria evidência da força ideológica do Contrato Racial.
Além disso, ao narrar o racismo como uma invenção aberrante de figuras como Gobineau e Goebbels, o Holocausto presta à intelligentsia européia do pós-guerra um importante serviço: sanitizou seu passado racial.
Link YouTube | “Nação do Medo”, legendado, completo, um filmaço de ficção científica.
Por fim, Mills cita o romance de ficção científica “A Nação do Medo” (Fatherland), que mostra um futuro alternativo onde os nazistas ganharam a guerra e nunca existiu a memória do Holocausto.
Na verdade, aponta Mills, nós JÁ vivemos nesse mundo não-alternativo: a única diferença é que os vencedores foram outros, mas eles também apagaram a memória dos massacres que cometeram, esvaziando sua importância e subtraindo seu ultraje.
Nos Estados Unidos, a cidade de Williamsburg oferece uma janela ao passado. Em troca do passe diário de US$36, o visitante passa o dia em uma “autêntica” vila colonial, onde tudo é como antigamente (menos os banheiros!), todos estão vestidos à caráter, em roupas de época, falando em vocabulário antigo, essas coisas. É um dos destinos turísticos e educacionais mais famosos do país.
Entretanto, sempre foi criticado por apresentar uma versão muito fácil, sanitizada e maniqueísta da história. Mais do que tudo, cadê os escravos? Afinal, na época da colônia, os Estados Unidos tinham escravidão e metade da população de Williamburg era negra.
Hoje em dia, o parque faz um esforço consciente (e polêmico, claro) para retratar a escravidão: além de incluir mais atores negros, criou-se também um “passeio” chamado Enslaving Virginia (“Escravizando a Virgínia”) especificamente sobre os horrores da escravidão.
Deve ser horrível mesmo: vários atores negros já se recusaram a interpretar os escravos (por considerar muito humilhante), as crianças choram tanto que foram criadas sessões explicativas posteriores para enfatizar que era tudo faz-de-conta e já aconteceu de visitantes interromperem o passeio para “salvar os escravos”.
Melhor assim. Preferível ser repelido por um simulacro do horror que nos gerou do que fingir que ele nunca existiu.
Encenação da escravidão à brasileira
O guia do engenho, vestido de escravo, se oferece para ser chicoteado pelos turistas.
E no Brasil?
Vassouras, no estado do Rio de Janeiro, já foi uma das cidades mais ricas do país, no centro da região que produzia a mais importante riqueza nacional: café. Hoje, é uma cidadezinha de vinte mil habitantes, que vive dos turistas que atrai com seus palacetes e fazendas coloniais – algumas com polêmicas encenações históricas.
Na fazenda São João da Prosperidade, há cinco gerações com a mesma família, a proprietária recebe os turistas vestida de sinhá e suas empregadas, de escravas:
Da janela, aponta a senzala: “Tenho 300 escravos” orgulha-se, voz impostada e dedo em riste. De repente, entra correndo pela varanda uma negrinha com remendos de algodão e cabelos presos em tranças. A menina, de apenas seis anos, se agarra à barra da saia da sinhá, põe o dedo polegar na boca e fixa os olhos nos visitantes. Basta um gesto da sinhazinha para que a pequena escrava abaixe a cabeça e saia da sala. “Não vê que estou com visitas?” – esbraveja a senhora. A menina vai brincar no alambique. Pouco depois, uma mucama adentra o salão, sob ordens de servir café aos convidados. (fonte)
Em uma fazenda próxima, Cachoeira Grande, que eu visitei agora em novembro, são só os empregados que estão vestidos à caráter: os proprietários se vestem e falam como se estivessem no século vinte.
Mais para o norte, na Zona da Mata de Pernambuco, o engenho Uruaé também encena a escravidão:
Vestido como “escravo da casa”, o jovem guia mostra o “quarto da sinhazinha” e explica a genealogia da família proprietária do engenho através dos retratos na parede. Na senzala, que chegou a ter 300 escravos de uma vez, ele coloca uma peça de ferro no pescoço e anuncia, sorridente: “Quem era moreno como eu era aqui”. O mais constrangedor vem depois, do lado de fora: o guia se amarra no tronco e pede que um voluntário simule açoitá-lo. Foi difícil arranjar alguém disposto a interpretar o papel. (fonte)
O engenho Uruaé também está na mesma família há sete gerações. Durante a visita, a proprietária afirma:
“A gente tem mais é que se orgulhar dos nossos que vieram antes. Nós ainda não fizemos nada.”
Fui só eu que achei esse “ainda” um pouco sinistro? O que essa senhora ainda está planejando fazer, meu Deus? Re-escravizar todo mundo?
Mas isso é implicância minha. A raiz filosófica do problema é outra:
Como retratar os horrores do passado?
Qual é a medida certa do horror?
As encenações históricas da escravidão nas fazendas coloniais parecem não agradar ninguém.
Por um lado, argumenta-se que elas não são horríveis o suficiente. Que encenam somente os aspectos mais, digamos, reprodutíveis da escravidão, aqueles por definição mais doces e inofensivos. Que perpetuam a ideia de que a escravidão era somente uma forma de trabalho entre tantas outras.
Afinal, se a escravidão é algo que uma doméstica contemporânea pode reproduzir, se a escravidão se resumia a se vestir de branco e trazer café pra uma mulher que você chama de “sinhá”, bem, então não era tão ruim assim, né? (Ou talvez ser empregada doméstica é que é horrível demais, mas não entremos nisso.)
Por outro lado, argumenta-se que são horríveis demais. Que mesmo doces e meigas, ainda mais quando encenadas pelos descendentes das vítimas, são sempre humilhantes:
Outros, no entanto, não sabem como reagir diante da interação realista dos ‘escravos’, que circulam vestidos em pobre algodão e, não raro, se curvam para obedecer às ordens da sinhazinha. “Será que esta criança tem idéia do que está fazendo? Ela ainda não tem idade para entender e pode ficar com a idéia de que deve se comportar como escrava, de que isso é normal” – indigna-se uma visitante paulistana, depois de recusar um copo d’água servido pela ‘mucama’.
Já o historiador Milton Teixeira, que trabalha como guia de turismo nas fazendas do café, defende a prática:
Não é degradante representar um escravo. Se o turista se sente incomodado, muito bem. O passado de escravidão tem de incomodar bastante, e não deve ser esquecido. … Ora, representações são feitas em toda parte do mundo. Na Europa, tem famílias pré-históricas; nos Estados Unidos, há simulação das batalhas da Guerra de Secessão, e, aqui no Brasil, é natural que haja uma encenação com escravos. Muito pior seria querer mostrar que não houve escravidão. (fonte)
Não deixa de ser simbólico que muitas dessas fazendas ainda estejam nas mãos das mesmas famílias. Ontem, lucraram nos ombros de seus escravos plantando cana ou café. Hoje, a mesma família continua lucrando nos ombos dos descendentes dos escravos, agora reduzidos a guias de turismo que reproduzem para turistas curiosos o horror da vida de seus avós.
Como escreveu o historiador e jornalista Fabiano Maisonnave, para a Folha:
De forma explícita ou não, as visitas aos engenhos transformam esses verdadeiros campos de concentração numa bufonaria, diluindo um dos piores crimes da humanidade, principal responsável pela imenso fosso social brasileiro, em um exemplo acabado do “racismo cordial”. A escravidão é exaltada, a casa-grande, absolvida, e a cana-de-açúcar, revalorizada como “energia renovável”, se torna bênção econômica do passado e do presente.
Mas como reproduzir de forma correta e didática o verdadeiro horror da escravidão? Como mostrar os corpos jovens mas enfraquecidos e fragilizados pelo criminoso excesso de trabalho? Como mostrar as marcas da tortura? Como mostrar as frequentes mutilações causadas pelo machete durante o corte da cana ou pelas engrenagens dos engenhos durante a moagem? Como mostrar as feridas emocionais de famílias desfeitas e de vidas sem esperança? Como mostrar os escravos revoltosos que davam e tiravam vidas para não voltarem ao cativeiro?
Será possível mesmo começar a quantificar esse horror? Quem dirá reproduzi-lo?
Existem encenações históricas em Auchwitz? O que o mundo pensaria de ver sorridentes atores descendentes de arianos brincando de depositar chorosos descendentes de judeus dentro dos fornos? Mas é só mentirinha, gente! É educacional!
Holocausto reencenado na Polônia. Grande idéia. Só que não.
(Na verdade, como o instinto humano da burrice é inesgotável, já houve tentativas de encenar o holocausto, como essa aqui na Polônia. Muitas vezes, dá merda e acaba em processo, como dessa vez no Texas.)
Escravidão: essa pica é nossa!
A escravidão africana nas Américas foi talvez a maior tragédia da Era Moderna.
Estima-se que cerca de 11 milhões de pessoas tenham sido transportadas à força da África para a América.
(Outras estimativas mais agressivas calculam que cerca de 40 a 75 milhões de vidas africanas tenham sido perdidas por causa do tráfico, entre mortos em guerras para obter escravos, em emboscadas para capturar escravos, ou em marchas forçadas para os portos exportadores de escravos no litoral.)
Dentre as muitas nações responsáveis por esse lucrativo e criminoso tráfico, os maiores culpados são os portugueses.
Dentre os muitos portos brasileiros que receberam essa massa humana desgraçada, o principal foi o Rio de Janeiro. (Dos nove deputados que votaram contra a Lei Áurea, vamos lembrar, oito eram da província do Rio.)
Além disso, quem inventou esse lucrativo e terrível modelo de negócios foram os próprios portugueses – não por acaso, os primeiros homens brancos a explorar sistematicamente a África. Em 1441, Antão Gonçalves teve a dúbia honra de se tornar o primeiro europeu a comprar e trazer para casa escravos africanos.
Depois disso, a história se desenrolou rapidamente, comprovando o tino comercial dos portugueses: já em 1452, arrancaram do Papa uma bula autorizando-os formalmente à escravizar os infiéis; em meados de 1470, estavam comerciando escravos no golfo do Benim e no delta do rio Níger; e, finalmente, em 1482, construíram a Fortaleza de São Jorge da Mina, em Gana, que em 2009 seria indicada candidata a “maravilha de origem portuguesa do mundo”.
(Por si só, a escravidão é mais antiga que andar pra frente. Todos os povos de todos os continentes de todas as épocas já tiveram algum tipo de escravidão, mas quase sempre cerimonial e economicamente insignificante. A escravidão africana nas Américas é um novo tipo de fenômeno humano porque, pela primeira vez, temos nações economicamente dependentes de milhões de escravos que compõem muitas vezes a maior parte de suas populações.)
Por fim, muitos e muitos séculos depois, no outro extremo dessa triste história, a última nação das Américas a abolir essa escravidão africana inventada pelos portugueses, a nação que mais teimosamente se agarrou aos seus escravos até o último minuto possível, foi justamente a nação gerada do ventre português: o Brasil. Nós.
De um modo bem real e doloroso, é difícil evitar a conclusão que esse enorme crime contra a humanidade é, em grande parte, uma responsabilidade lusófona e, dentro disso, brasileira. (E, mais especificamente ainda, e não que os outros estados sejam inocentes, carioca e fluminense.)
Passei seis meses na Alemanha durante a década de noventa. Mesmo cinquenta anos depois da Segunda Guerra, mesmo entre meus amigos adolescentes cujos pais nem eram nascidos durante a guerra, basta uma menção a nazismo, Holocausto ou Auschwitz para fazê-los abaixar a cabeça em silêncio, envergonhados, culpados, tristes.
Nós, brasileiros, se tivéssemos vergonha na cara, se tivéssemos um pouco mais de memória, faríamos a mesma coisa ao ouvir menções a senzala, navio-negreiro, escravidão.
Essa pica é nossa.
Cais do Valongo, o elevador de serviço do século XIX
Desembarque de escravos no Cais do Valongo, pintado por Rugendas em 1835.
No Rio de Janeiro, o principal porto de desembarque de escravos foi o Cais do Valongo. Estima-se que, entre 1758 e 1843, tenham chegado por ele quase um milhão de pessoas. (897.748, segundo o The Transatlantic Slave Trade Database.)
Provando que não foi de repente que nos tornamos o povo que faz subir pelo elevador de serviço a doméstica que faz o nosso serviço sujo, em 1770 o desembarque de escravos é proibido no porto principal da cidade (onde hoje fica a Praça XV e o Paço Imperial) e transferido exclusivamente para o distante Valongo.
Afinal, quando se está chegando de um grand tour pela Europa, a última coisa que se quer ver é um escravo nu agonizando no cais perto de você! Pelo amor de Deus!
Por fim, em 1843, cada vez mais envergonhado com a escravidão que lhe pagava as contas, o Império desativa e aterra o Cais do Valongo, construindo por cima dele o elegante Cais da Imperatriz.
E fim de história. Assim esqueceu-se o Valongo. Afinal, nós nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre país!
Uma escavação arqueológica em pleno centro do Rio de Janeiro.
Fast-forward para o presente. Em meio a um frenesi de obras para preparar o Rio de Janeiro para a Copa e para os Jogos Olímpicos, a prefeitura acabou de descobrir e desencavar o Cais do Valongo em pleno centro da cidade.
Agora reformado e reembalado para turistas (“são nossas ruínas romanas!“, disse o empolgado prefeito), o Cais do Valongo foi inserido no recém-criadoCircuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, ao lado de outras atrações como a Pedra do Sal, o Cemitério dos Pretos Novos (onde eram enterradas as vítimas da travessia atlântica) e os Jardins Suspensos do Valongo, esses últimos uma das coisas mais lindas e surpreendentes que já vi nessa cidade. (Veja o mapinha abaixo.)
O recém-criado Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, no Rio de Janeiro.
Mas que não seja só um espaço para turista tirar fotos.
O que falta ao Brasil e ao Rio de Janeiro, e o que esse circuito histórico pode começar a timidamente fornecer, é uma verdadeira compreensão dos horrores que engendramos, um pálido retrato do terror que aconteceu (e ainda acontece) debaixo dos nossos olhos, nesse nosso chão, na nossa senzala, no nosso quartinho de empregadas.
O texto que você está lendo só existe porque calhei de visitar o Cais do Valongo no dia seguinte de assistir “Shoah”.
O Cais do Valongo, hoje, aberto à visitação pública.
É possível quantificar o horror?
O Holocausto perpetrado pelos alemães matou cerca de seis milhões de judeus, um terço de todos os judeus no mundo. Além de incontáveis milhões de outras pessoas.
Não é minha intenção negar nem suavizar esse horror.
Mas não foi nem de longe o único horror perpetrado por europeus em sua longa história de horrores.
É impossível visitar lugares de tortura e morte como Auschwitz, Treblinka, Sobibor sem uma atitude de respeito e reflexão, sem pensar na memória das centenas de milhares de pessoas que sofreram ali.
Mas por que nós, brasileiros, não temos a mesma atitude ao visitar uma senzala, o Pelourinho (onde os escravos eram castigados publicamente) ou o Cais do Valongo?
Auschwitz matou 1,1 milhão de pessoas, Treblinka, 900 mil, Sobibor, 200 mil.
Enquanto isso, o Brasil recebeu 4 milhões de escravos, sendo que um milhão só pelo Cais do Valongo, logo ali, no centro do Rio.
Quem consegue compreender a enormidade desses números? Quem consegue quantificar tamanho sofrimento?
O passado é presente
Por isso, ali de pé diante do Cais do Valongo, um dia depois de assistir “Shoah”, eu tentei esquecer os números e somente imaginar como teria sido a experiência individual, una, indivisível, de pisar em terra firme ali, naquelas pedras, naquele chão.
Imagino que fui arrancado de minha família e de tudo que conheci; que atravessei o oceano cercado de pessoas agonizantes em um navio infecto; que não pude trazer uma roupa, um livro, nenhum objeto pessoal; que não sabia se jamais veria minha terra; que estava condenado a um castigo literalmente e potencialmente infinito, pois a escravidão não seria apenas minha, mas sim herdada por todos os meus descendentes até o fim dos tempos.
Imagino que o Rio de Janeiro, para mim, escravo recém-chegado, era um lugar desconhecido e cheio de horrores. Era o porto onde meus companheiros mais fracos vinham morrer. Era o chão onde começava a escravidão do meu corpo. Era minha primeira experiência nesse novo mundo onde seria cativo e explorado.
Imagino então que hoje o Rio de Janeiro continua sendo um lugar de horror para os meus descendentes, que são ao mesmo tempo a maior parte das vítimas de assassinato e também a maior parte da população carcerária, e ainda têm que ouvir que racismo não existe no Brasil.
Tudo isso aconteceu ontem, e continua acontecendo hoje. O passado, como uma pedra jogada no lago, cria ondas concêntricas na água e repercute no presente. O passado é o presente.
As cotas raciais são necessárias hoje não para corrigir as injustiças históricas do passado, mas para corrigir as injustiças cotidianas de hoje. As cotas raciais são necessárias porque hoje a Polícia Militar não invade do mesmo jeito a cobertura do descendente do escravista e o barraco do descendente do escravo.
O que fica claro é que não dá pra pensar nesses fenômenos como se pertencessem a universos tão diferentes assim. Não faz sentido chorar assistindo A Lista de Schindler e depois ir espairecer tomando o milkshake do Senzala.
A escravidão deixa marcas. Na pele. Na história. Em nós.
How many model rocket engines would it take to launch a real rocket into space?
—Greg Schock, PA
About 65,000, give or take a few.
You’d have to arrange them like this:
The rocket would weigh about as much as a tow truck. There wouldn’t be room for anything except the engines, aerodynamic shell, and minimal staging equipment.
Each rocket motor would burn for about three seconds. The layer cake arrangement means that every three seconds, the bottom layer of spent rockets would detaches and the next stage would kick in. It would go through between 25 and 30 of these stages, burning for a total of a minute and a half, after which it would coast upward and just barely brush the edge of space.
(For this design, I’m assuming something akin to Estes E9-4 engines, which are on the large end of the common model rocket engines. There are larger ones—the classes go all the way up to O and beyond—but at a certain point, they stop being model rocket engines, and just become rocket engines.)
A 30-stage rocket is, to put it lightly, an engineering nightmare. This design assumes the non-engine portion of the vehicle is limited to the weight of a person (60 kg). In effect, the spaceship would be a solid block of rocket engines. They’d need to be insulated from each other so the upper stages didn’t ignite prematurely, and the staging and aerodynamics would both be a challenge.
The stack of engines narrows as you go from bottom to top. By the time the top stages are firing, the rocket will have shed most of its mass, so it won’t need as much thrust to get the same acceleration.
The reason the engine stack bulges in the middle is so that the acceleration profile will look like this:
Rockets work best when their thrust is several times greater than the force of gravity. But you don’t want to accelerate too quickly while you’re low down. Air drag increases with the square of your speed, and if you accelerate too quickly, you’ll find yourself wasting all your fuel just to maintain your speed. You want to accelerate slowly at first, then ramp it up as the air starts getting thinner.
Now, as you may have noticed, this rocket will get you into space (for a few seconds, at least), but not orbit. Can you use model rocket engines to dock with the ISS?
No.
Taking into account atmospheric drag, to get into space, you need a rocket capable of accelerating (in a vacuum) to about 2 kilometers per second. To get to orbit, you need a rocket capable of accelerating to about 10 kilometers per second.
If you try to produce an orbital rocket using the same design math we used for the suborbital rocket, it spits out a description of a pancake-shaped mountain of model rocket engines over a mile wide. It would taper to a 10-meter-high spire in the center and would weigh about as much as the Great Pyramid.
Not only would this vehicle never get out of the atmosphere, it would probably not stand up under its own weight.
Frankly, the word “vehicle” is a bit misleading. Essentially, what you’ve created is an unstable pile of gunpowder the size of Central Park. If it went up in flames—which it would—it would break the record for the largest manmade non-nuclear explosion in history. (Interestingly, the current holder of that dubious record is alsoa rocket that exploded during launch.)
The bottom line is that it would be very difficult, but perhaps not impossible, to launch something up to the edge of space using model rocket engines. However, if you try to build a ship capable of getting to orbit, you will not go to space today.
In today’s article, I give shorter answers to several reader questions. (Previous installment here.)
If my printer could literally print out money, would it have that big an effect on the world?
—Derek O'Brien
You can fit four bills on an 8.5”x11” sheet of paper:
If your printer can manage one page (front and back) of full-color high-quality printing per minute, that’s $200 million dollars a year.
This is enough to make you very rich, but not enough to put any kind of dent in the world economy. Since there are 7.8 billion \$100 bills in circulation, and the lifetime of a \$100 bill is about 90 months, that means there are about a billion produced each year. Your extra two million bills a year would barely be enough to notice.
What would happen if you exploded a nuclear bomb in the eye of a hurricane? Would the storm cell be immediately vaporized?
—Rupert Bainbridge (and hundreds of others)
This question gets submitted a lot.
It turns out the National Oceanic and Atmospheric Administration—the agency which runs the National Hurricane Center—gets it a lot, too. In fact, they’re asked about it so often that they’ve published a response.
I recommend you read the whole thing, but I think the last sentence of the first paragraph says it all:
“Needless to say, this is not a good idea.”
It makes me happy that an arm of the US government has, in some official capacity, issued an opinion on the subject of firing nuclear missiles into hurricanes.
If everyone put little turbine generators on the downspouts of their houses and businesses, how much power would we generate? Would we ever generate enough power to offset the cost of the generators?
—Damien
A house in a very rainy place, like the Alaska panhandle, might receive close to four meters of rain per year. Water turbines can be pretty efficient. If the house has a footprint of 1,500 square feet and gutters five meters off the ground, it would generate an average of less than a watt of power from rainfall, and the maximum electricity savings would be:
The rainiest hour on record occurred in 1947 in Holt, Missouri, where about 30 centimeters of rain fell in 42 minutes. For those 42 minutes, our hypothetical house could generate up to 800 watts of electricity, which might be enough to power everything inside it. For the rest of the year, it wouldn’t come close.
If the generator rig cost $100, residents of the rainiest place in the US—Ketchikan, Alaska—could potentially offset the cost in under a century.
Using only pronounceable letter combinations, how long would names have to be to give each star in the universe a unique one word name?
—Seamus Johnson
There are about 300,000,000,000,000,000,000,000 stars in the universe. If you make a word pronounceable by alternating vowels and consonants (there are better ways to make pronounceable words, but this will do for an approximation), then every pair of letters you add lets you name 105 times as many stars (21 consonants times 5 vowels). 105 possibilities per two characters is about the same information density that numbers have, which suggests the name will end up being about as long as the total number of stars written out:
I like doing math that involves measuring the lengths of numbers written out on the page—which is really just a way of loosely estimating log10x. It works, but it feels so wrong.
I bike to class sometimes. It's annoying biking in the wintertime, because it's so cold. How fast would I have to bike for my skin to warm up the way a spacecraft heats up during reentry?
—David Nai
Reentering spacecraft heat up because they’re compressing the air in front of them (not, as is commonly believed, because of air friction).
According to this calculator, to increase the temperature of the air layer in front of your body by twenty degrees Celsius (enough to go from freezing to room temperature), you would need to be biking at 200 m/s.
The fastest human-powered vehicles at sea levels are recumbent bicycles enclosed in streamlined aerodynamic shells. These vehicles have an upper speed limit near 40 m/s. This is the speed at which the human can just barely produce enough thrust to balance the drag force from the air.
Since drag increases with the square of the speed, this limit would be pretty hard to push any further. Biking at 200 m/s would require at least 25 times the power output needed to go 40 m/s.
At those speeds, you don’t really have to worry about the heating from the air—a quick back-of-the-envelope calculation suggests that if your body were doing that much work, your core temperature would reach fatal levels in a matter of seconds.
How much physical space does the internet take up?
—Max L
There are a lot of ways to estimate the amount of information stored on the internet, but we can put an interesting upper bound on the number just by looking at how much storage space we (as a species) have purchased.
The storage industry produces in the neighborhood of 650 million hard drives per year. If most of them are 3.5” drives, then that’s eight liters (two gallons) of hard drive per second.
This means the last few years of hard drive production—which, thanks to increasing size, represent a large chunk of global storage capacity—would just about fill an oil tanker. So, by that measure, the internet is smaller than an oil tanker.
What if you strapped C4 to a boomerang? Could this be an effective weapon, or would it be as stupid as it sounds?
—Chad Macziewski
Aerodynamics aside, I’m curious what tactical advantage you’re expecting to gain by having the high explosive fly back at you if it misses the target.
No que se trata do Regime Militar no Brasil, o nome de Sérgio Fleury é um dos com a maior ficha corrida. Ex-delegado do DOPS em São Paulo, Fleury ficou notoriamente conhecido pela capacidade em empilhar processos do Ministério Público. A maioria com o mesmo argumento: tortura.
Entre as participações efetivas e mais divulgadas de Fleury em missões, estão a tentativa de captura e morte de Carlos Marighella – ícone da esquerda revolucionária – e participação da Chacina da Lapa. Contudo, um importante capítulo da história brasileira destaca-se entre os, assim considerados na época, trunfos do militar: a chefia do supremo de interrogação de São Paulo durante o interrogatório [sic] de Vladimir Herzog, ex-diretor de jornalismo da TV Cultura e símbolo de resistência da imprensa da época.
A versão militar diz que Vladimir se enforcou na cela – como mostra a histórica e tão demasiadamente republicada imagem. Argumento que nunca convenceu, entre tantos, o ex-governador de São Paulo na época, Paulo Egydio Martins. Em entrevista ao programa Dossiê Globo News, Egydio defende que Vladimir foi assassinado pelo grupo liderado por Fleury. “Maquiou-se um suicídio (de Herzog), não houve suicídio, ele foi assassinado dentro das dependências do 2º Exército na rua Tutóia, em São Paulo”. Segundo o ex-governador, a morte do jornalista tinha como pano de fundo uma briga entre facções do Exército brasileiro à época: a Linha Dura e a Linha Branda, lideradas, respectivamente, pelos generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva.
Vladimir Herzog
Dezesseis dias antes da morte de Vladimir, na Assembléia Legistlativa de São Paulo, um então deputado da Arena pediu a palavra.
Cético, esse político prestou a oportunidade para tecer palavras de homenagens e elogios aos serviços prestados pelo delegado Sérgio Fleury e seu bando.
Fez mais. Engrossou denúncias contra comunistas e apontou a TV Cultura (já um canal do Estado) como uma emissora perigosa. E, mantendo o seu estilo agressivo e anti-comunistas, defendeu investigações mais árduas e atitudes de repressão a quem seguia uma doutrina anti-militar.
Esse discurso é tido como o maior incentivo para investigação, tortura e assassinato de Vladimir – mesmo com o jornalista tendo se dirigido ao orgão para um interrogatório sobre suas atividades “ilegais”. O assassinato de Herzog tornou-se central no movimento pela restauração da democracia no Brasil, sendo considerado, por muitos, um dos maiores símbolos da luta pela liberdade e justiça em nosso país.
Mas a justiça é só para alguns. O tal deputado caçador de comunistas seguiu sua vida pública. Foi vice-governador de São Paulo quando Paulo Maluf foi apontado governador biônico por São Paulo, em 1979. Exerceu o cargo de governador por dez meses, em virtude da desincompatibilização de Paulo Maluf. No ano de 1985 foi um dos principais coordenadores da vitoriosa campanha de Jânio Quadros à prefeitura de São Paulo. Parou aí.
Não teve mais sucesso político. Decidiu investir em outra paixão que já praticava desde 1982, na Federação Paulista: o futebol.
Deu certo.
Estamos falando de José Maria Marin: o presidente da Confederação Brasileira de Futebol.
Paulo Maluf e José Maria Marin: mesmos conceitos
É esse o filhote da Ditadura, assim como tantos outros, que administra o futebol brasileiro. Curiosamente, sucessor de Ricardo Teixeira, dono de um mandato recheado de coronelismo e pouquísimo democrático. Com um – maléfico – diferencial: foi o dedo duro no caso Herzog.
E é por isso, como já destacado pelo jornalista Juca Kfouri, que você jamais verá a presidente Dilma recebendo Marin.
Joseph Gordon-Levitt será o novo Batman numa continuação de O Cavaleiro das Trevas Ressurge? O universo da trilogia era realista mesmo? TDKR é um filme fascista ou uma critica ao capitalismo? A Warner deixou Christopher Nolan fazer os filmes que ele queria? E o que a Ópera tem a ver com isso?
O Diretor deu uma longa entrevista ao Film Comment sobre a Trilogia Dark Knight respondendo essas e outras questões.
Reboot, Richard Donner e Tim Burton
É um sinal de como as coisas mudam rapidamente no mundo do cinema, mas não havia tal coisa conceitualmente como um “reboot”. Essa idéia não existia quando eu vim dar minha visão para o Batman. Essa é a nova terminologia. A Warner Bros detinha esse personagem maravilhoso, e não sabia o que fazer com ele. Tinha chegado a um tipo de um beco sem saída com sua interação anterior. Fiquei animado com a idéia de preencher esta lacuna interessante, ninguém jamais contou a história da origem do Batman. É por isso mesmo que o filme de Tim Burton, tinha feito uma versão definitiva do personagem, que era uma visão muito peculiar de Tim Burton.
Eu tinha em mente uma espécie de tratamento de Batman que Richard Donner poderia ter feito nos anos setenta do jeito que ele fez com Superman. Para mim, o que o representava era em primeiro lugar uma narração detalhada da história de origem, que nem sequer foi realmente abordada nos quadrinhos de forma definitiva ao longo dos anos, curiosamente. E em segundo lugar, a tonalidade que eu estava procurando em caráter interpretativo que apresentasse uma figura extraordinária em um mundo normal. Então, eu queria que os habitantes de Gotham pudessem ver Batman como sendo estranho e extraordinário como ele é para nós.
Christian Bale
Christian foi na verdade o primeiro ator que eu conheci para o papel. Mas dadas as apostas, o estúdio estava sempre precisando de mim para reunir um grupo de atores para ser testado na tela. E nós tiramos a velha fantasia pra fora e Christian fez o teste propriamente de uma maneira que foi muito próxima da concepção que estávamos colocando junto com o roteiro.
Em termos de potencial de raiva que este personagem tem, o fardo que o personagem está carregando com ele, ele foi capaz de projetar isso muito bem em seu teste e ter que fundamentar não só Batman, mas também Bruce Wayne e seu lado playboy. Há uma escuridão causada por uma tragédia que administra a vida do personagem até uma idade avançada, e é o motor que impulsiona tudo o que ele faz.
O realismo dos filmes
O termo “realismo” é muitas vezes confuso e tipicamente utilizado de forma arbitrária. Suponho que “relacionável” é a palavra que eu usaria. Eu queria retratar de forma realista um mundo em que, apesar de acontecimentos estranhos poderem estar ocorrendo, essa figura extraordinária pode estar andando por essas ruas, as ruas que têm o mesmo peso e validade das ruas em qualquer dos outros filmes de ação. Então, eles seriam relacionáveis dessa forma. E assim fizemos a texturização de mais e mais camadas para que pudéssemos chegar a este filme, quanto mais tátil fosse, mais você iria sentir e ser animado pela ação. Então, só a nível técnico, eu realmente queria trabalhar essa idéia do que eu chamo a qualidade tátil.
Você quer realmente entender como as coisas iriam cheirar neste mundo, que sabor as coisas teriam quando os ossos começam a ser triturados ou carros começam a bater. Você sente estas coisas de uma forma, porque o mundo não é intensamente artificial e criado por computação gráfica, o que resultaria em uma qualidade anódina, estéril que não é tão emocionante para mim, que estava fazendo do personagem o mais especial ali. Se eu acredito nesse mundo porque eu o reconheço e me vejo andando pela rua, então, quando essa figura extraordinária de Batman vem descendo neste traje teatral e apresenta este aspecto muito teatral, vai ser mais emocionante para mim.
Gotham City
Queríamos nos afastar da noção de Gotham como uma aldeia, como uma espécie de ambiente claustrofóbico de outro mundo, que é o que ela sempre tinha sido antes. Queríamos mostrá-la como Nova York, em um mundo mais amplo. Assim, tendo Bruce Wayne viajando por todo o mundo, mostrando como ele constrói a si mesmo usando as habilidades adquiridas de todos esses lugares diferentes ao redor do mundo, nós sentimos que seria como posicionar Gotham como a cidade líder internacional de nosso mundo de Batman.
A Jornada de Bruce Para se Tornar Batman
Estou interessado no processo, o processo de transformação. Eu sou fascinado pela idéia de Bruce Wayne ser um homem comum, sem super-poderes, transformando-se nesta figura maior que a vida, que parece ter habilidades extraordinárias. E uma vez que você começa a descer a estrada, é como limpar a sujeira pra fora de alguma coisa. Uma vez que você limpa um local, uma vez que você descasca a lógica ou a realidade do que parece ser, você tem que ir por todo o caminho. Eu nunca gostei de filmes que vão a parte do caminho e depois dão um salto improvável. Portanto, em termos de imaginar como ele iria criar isso, nós realmente tentamos chegar com a melhor solução possível e apresentá-la no filme. O que descobrimos foi que, gosto muito da [comparação] com O Grande Truque[filme onde ele mostrava como os ilusionistas realizam suas mágicas], esse processo torna-se uma parte muito interessante do entretenimento do filme.
O Conflito entre Bruce Wayne e Batman
É paradoxal, mas a fim de obter a dualidade de Bruce Wayne, nós tivemos que fazê-lo em três pessoas. Sentei-me com Christian cedo e decidimos que há o Bruce Wayne privado, que só Alfred e Rachel realmente veêm, o Bruce Wayne público, que é essa máscara que ele coloca como playboy decadente e, em seguida, a criatura Batman que ele criou para contra-atacar o mundo. Fazendo-o nestes três aspectos, você realmente começa a ver a idéia de que você tem de uma pessoa privada que está lutando com todos os tipos de demônios e tentando fazer algo produtivo com isso.
Eu acho que o momento mais interessante para mim que Christian tira em Batman Begins é a cena na festa quando ele finge estar bêbado, com Bruce Wayne sendo rude com seus convidados para tirá-los do lugar, para salvá-los dos homens de Ra’s Al Ghul. Mas há alguma verdade que chega a superfície, e que você pode ver em seu desempenho. É um ato, mas Bruce Wayne como ator está chegando em algo que ele realmente sente. É bastante amargo, e eu gosto das camadas que Christian foi capaz de colocar lá.
A Trilogia
Acho que foi nos meses após o primeiro filme foi lançado [que ele decidiu que seria uma trilogia]. No final de Batman Begins, quando ele vira a carta do Coringa e acaba, eu encontrei-me perguntando: “Ok, como teria que ser o antagonista?” Visto através do prisma de Batman Begins. Eu queria ver como poderíamos traduzir o Coringa nesse mundo.
Esse foi o ponto de partida. E a natureza do antagonismo do Coringa foi tão diferente do que aconteceu em Batman Begins e era tão diferente a relação de Batman com Gotham, em particular. Assim, O Cavaleiro das Trevas é muito mais uma história sobre uma cidade, uma espécie de drama criminal, enquanto Batman Begins é mais uma história de aventura. Então, ele realmente se sentia como um gênero diferente, e então você sabe que você não está recauchutando o que você fez, você está expandindo-o.
Liberdade Criativa em uma Superprodução
Bem, foi intimidador na teoria, mas uma grande parte do desafio com a tomada de um grande filme está em não permitir-se ser pego na maneira que as outras pessoas fazem grandes filmes. Porque você pode colocar uma equipe em torno de você de pessoas muito experientes, e que lhe dá uma grande rede de segurança, mas que também tem um monte de armadilhas. No entanto, é possível fazer grandes filmes muito da maneira que você faz seus filmes menores, e é possível manter um pouco da espontaneidade e criatividade que você tem no set. Não toda ela. Você tem que ajustar seus métodos, mas você não quer ficar completamente fora da condução da coisa em um grande filme por medo e inexperiência.
Eu tinha conversas com o meu produtor de linha e ele dizia: “Ah não, vai haver alguns dias em que você só vai conseguir trabalhar de manhã”[provavelmente referindo-se ao fato de que nas grandes produções os diretores costumam usar uma segunda unidade comandada por outra pessoa], e eu disse, “Eu nunca vou trabalhar dessa forma, porque, francamente, é muito chato, e é criativamente estupidificante.” Com a equipe que eu tinha, fomos capazes de manter as coisas muito mais leves sob os pés, apesar da enorme escala. E a coisa que eu aprendi é que não importa o quão grande o filme tornou-se, as pessoas sempre reclamam que era muito pequeno.
Para o estúdio, nunca foi o suficiente. Então você aprende a relaxar com ele um pouco, e confiar em seus instintos sobre escala, como isso vai sentir ser grande o suficiente quando estiver na lata. Assim, quando cheguei a fazer O Cavaleiro das Trevas, fomos para um ambiente muito mais confortável do filme apenas em Gotham, em situações mais claustrofóbicas, porque tínhamos estabelecido todo o mundo de Batman Begins em uma escala muito grande, com um mosteiro explodindo e o personagem deslizando para baixo do penhasco e tudo para que, no momento em que chegamos a O Cavaleiro das Trevas tivemos a confiança para dizer:
“Se nós estamos colocando personagens e conflitos enormes enormes na tela, e fazemos esse tipo de drama policial urbano, a escala naturalmente está lá, apenas na maneira que nós mostramos o palhaço andando pela rua com uma metralhadora. Isso vai ser uma grande imagem.” Isso foi uma grande parte de investir nesse tipo de estilo de quadro de fotografia que eu realmente não tinha feito antes.
Os Vilões
Com o meu co-roteirista David Goyer e meu irmão [Jonathan Nolan], decidimos desde o início que os maiores vilões nos filmes, as pessoas que devem se parecer mais conosco, são as pessoas que falam a verdade. Assim, com Ra’s Al Ghul, queríamos que tudo o que ele dissesse fosse verdade, de alguma forma. Então, ele está olhando para o mundo de uma perspectiva muito honesta em que ele realmente acredita. E aplicamos a mesma coisa com o Coringa e Bane no terceiro. Tudo o que dizem é sincero. E em termos de sua ideologia, é realmente sobre os fins justificarem os meios. Era importante em Batman Begins ter Bruce indo muito longe nessa estrada com Ducard, até o ponto onde eles querem que ele corte a cabeça de alguém fora porque ele roubou alguma coisa.
E nesse ponto há um momento quase cômico onde Bruce se transforma em frente a Ducard e diz: “Você não pode estar falando sério.” Nesse ponto, você está surpreso o quão sedutor a formação e a doutrinação podem ser. E as escamas caem dos olhos. Mas mesmo mais tarde, quando Ra’s Al Ghul retorna e está prestes a destruir toda a Gotham, há uma lógica para tudo o que ele diz. Eu acho que realmente vilões ameaçadores são aqueles que têm uma ideologia coerente por trás do que eles estão dizendo. O desafio na aplicação para com o Coringa era termos parte da ideologia como sendo anarquia e também termos uma falta de ideologia que fizesse um sentido. Mas é muito específica a falta de preocupação com uma ideologia e por isso torna-se, paradoxalmente, uma ideologia em si.
E, enquanto Ra’s Al Ghul é um extremista quase religioso, Bane se vale de uma luta de classes, mas também em uma abordagem militarista ditatorial. Se você olhar para os três, Ra’s Al Ghul é quase uma figura religiosa, o Palhaço é a figura anti-religiosa, o anarquista anti-estrutural. E então Bane entra como um ditador militar. E ditadores militares podem ser baseados em ideologias, eles podem ser baseados em religiões, ou numa combinação delas.
Occupy Wall Street
Nós estávamos escrevendo anos antes do Occupy Wall Street, e nós estávamos realmente filmando no momento em que ele surgiu, mas eu acho que as semelhanças vêm do fato de Occupy ser uma resposta para a crise bancária de 2008. Nós estávamos sentados lá em um mundo onde, através das notícias, nós estávamos constantemente sendo apresentados a cenários hipotéticos. Como: “O que aconteceria se todos os bancos fossem à falência?” “E se o mercado de ações não valesse nada?”
Essas questões são terríveis, e nós estávamos tomando a visão de que deveríamos estar escrevendo sobre “o que é mais assustador?”. Nós viemos com a idéia de como na América nós garantimos uma estabilidade de classe e estrutura social, que nunca foi sustentada em outras partes do mundo. Em outras palavras, esse tipo de coisa tem acontecido em países de todo o mundo, por que não aqui? E por que não agora? Então, um monte de ideias subjacentes do filme vem de uma situação em que a economia estava em crise e, portanto, até mesmo sobre as questões de que notícias como essas estão levantando questionamentos impensáveis sobre o que pode acontecer na sociedade.
A Questão Política de TDKR
E depois você entra na questão filosófica: se uma energia ou um movimento pode ser cooptado para o mal, então isso é uma crítica ao próprio movimento? Todas estas diferentes interpretações são possíveis. O que foi surpreendente para mim é como muitos especialistas iriam escrever sobre sua interpretação política do filme e não entender que qualquer interpretação política necessariamente envolvia ignorar enormes pedaços do filme.
E isso me fez sentir bem sobre onde havíamos colocado o filme, porque não tem a intenção de ser politicamente específico. Seria absurdo tentar fazer um filme politicamente específico sobre este assunto, onde você está, na verdade, tentando sair das amarras da vida cotidiana e ir para um lugar mais assustador em que qualquer coisa é possível. Você está fora do espectro político convencional, por isso é muito sujeito a interpretação e a má interpretação.
Ópera
E então, como você vem para explorar o mundo de Gotham, e revisitá-lo, e voltar a ele novamente em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, porque você tem esse conjunto de estrelas maciçamente talentosas lá [referindo-se ao elenco], você é capaz de lidar com a verdade de algumas destas situações extraordinárias que a mitologia do personagem e seu giro sobre ela montou. Isso é algo que você raramente vê em filmes desta natureza. Christian disse isso muito bem quando disse que The Dark Knight Rises é sobre conseqüências. O que eu estava fazendo era dizer:
“Ok, eu sei que eu tenho Christian Bale e Michael Caine fazendo esta cena juntos, e eles são capazes de assumir a verdade de que se as coisas que aconteceram em The Dark Knight realmente aconteceram? E se eles realmente disseram as mentiras que disseram, a fim de chegar a uma verdade maior ou chegar a oportunidade de salvar uma cidade? O que é que isso vai fazer com eles ao longo do tempo? Qual é a realidade da relação entre Bruce e este servo da família Wayne, que foi encarregado de cuidar de seu único filho, o seu bem mais precioso no mundo, porque eles foram mortos a tiros em frente a ele? E o que esse garoto deve ter passado por?”
Eu estou olhando para esses atores e dizendo: “Eu vou te escrever uma cena em que essas coisas estão vindo para tona, essas conseqüências estão vindo à superfície.” E eu sei que eles estão indo de encontro a verdade, e que vai ser devastador às vezes e revigorante às vezes, e isso vai levar o drama para alturas operísticas, e aos extremos de emoção, onde você realmente sente alguma coisa, porque eles descobriram a verdade de uma situação. Você está experimentando emoções de uma forma muito intensa e operística.
[Nesse momento o entrevistador Scott Foundas recorda que os pais de Bruce Wayne foram assassinados diante dele na saída de uma ópera quando o personagem era criança em Batman Begins.]
Sim, absolutamente. E a teatralidade da ópera e da sua qualidade da apresentação de algo maior que a vida, mas também as emoções que ela gera, tem sempre se instalado sob a minha compreensão de como fazer esses trabalhos numa realidade amplificada. Por que eu estou trabalhando neste gênero [super-heróis]para o público? O que me permite fazer como um cineasta que eu não poderia fazer em um universo mais comum de todos os dias?
A resposta é esta qualidade de ópera. É essa capacidade de explodir coisas em emoções muito grandes que sejam acessíveis a um público universal. E é uma posição muito privilegiada em que você está como cineasta para com o seu público. Eu senti que eu não estava recebendo a experiência que vinha nos principais filmes comerciais do momento, então eu realmente queria aproveitar que como cineasta eu tive um grande momento com estes três filmes, gostando muito da relação com o público.
Público
Eu sempre a caracterizo como a fé na platéia [falando sobre fugir das fórmulas dos filmes comerciais], mas é também a fé nos filmes, a fé no cinema puro. Se você pode aproveitar-se do dispositivo cinematográfico apropriado para fazer o público sentir alguma coisa, então o cinema é um comunicador incrivelmente poderoso. Eu tenho fé no processo, que se eu acertar e colocar os pedaços juntos, então as pessoas vão entender o que elas precisam entender e sentir a intensidade da experiência que eu estou tentando dar-lhes.
O Final
Nós tentamos com todos os três filmes, mas de maneira mais extrema com The Dark Knight Rises, o que eu chamo desse tipo de abordagem bola de neve para a ação e eventos. Nós experimentamos isso em The Dark Knight, onde a ação não é baseada em um conjunto de peças independentes e, claro, o caminho traçado em Batman Begins também foi assim, mas empurramos [a bola de neve de eventos] muito mais neste filme. O escopo e a escala da ação é construída a partir de pedaços menores, que juntos numa transversal formam uma bola de neve, o que eu amo fazer, e tentar encontrar um ritmo em conjunto com a música e os efeitos sonoros. Então você está construindo e a construção de tensão contínua é sustentada durante uma longa parte do filme, e você não a libera até o último quadro. É uma estratégia arriscada, porque você corre o risco de esgotar o seu público, mas para mim é a maneira mais revigorante de aproximá-lo de um filme da ação.
É uma abordagem que foi aplicada também com Inception, tendo linhas paralelas de tensão subindo e subindo e depois se unindo. Em The Dark Knight Rises, a partir do momento em que silencia a música e o som para que o garoto comece a cantar o hino nacional, é uma espécie de momento de arregaçar as mangas. Fui surpreendido e fiquei encantado em como as pessoas aceitaram o extremo de até onde as coisas vão.
Para mim, The Dark Knight Rises é especificamente e definitivamente, o fim da história de Batman e do que eu queria dizer sobre ele, e a natureza aberta do final é simplesmente uma idéia temática muito importante que queríamos que entrasse no filme, de que Batman é um símbolo.
Ele pode ser qualquer um, e isso foi muito importante para nós. Nem todo fã de Batman necessariamente concorda com essa interpretação da filosofia do personagem, mas para mim tudo volta à cena entre Bruce Wayne e Alfred no jato particular em Batman Begins, onde a única maneira que eu poderia encontrar para fazer uma caracterização crível de um cara transformando-se em Batman é se ele fosse como um símbolo necessário, e ele se visse como um catalisador para a mudança.
E, portanto, era um processo temporário, talvez um plano de cinco anos que seria imposto para simbolicamente incentivar o bem de Gotham para assim ter de volta a sua cidade. Para mim, para que a missão seja bem sucedida, ela tem que acabar, por isso este é o fim para mim e, como eu disse, os elementos em aberto tem tudo a ver com a idéia temática de que Batman não era importante como um homem, ele é mais do que isso. Ele é um símbolo, e o símbolo vive além do homem.
O QUE EU ACHO?
Primeiro acho bom ver uma entrevista em que ele não fique o tempo todo só falando da tecnologia IMAX – eu cortei essas e outras partes pra não ficar mais longa ainda – e acredito que muito das críticas ao Nolan como diretor é exatamente por esses paradoxos que ele cita, como por exemplo a questão do realismo relativo. TDKR, particularmente, funciona melhor como uma grande fábula do mundo moderno.
Aliás, todos os filmes da trilogia tem essa característica de refletir o mundo atual. Por isso mesmo fico feliz em comprovar que ele realmente não quis passar uma visão política definitiva e sim mostrar os dois ou mais lados de ambas visões políticas. Ou seja, nenhum filme da Trilogia é de “Direita” ou de “Esquerda”, diferente do muito que foi falado por aí.
O final também eu francamente não entendi porque tanta gente interpretou como um gancho pra continuação. As cenas da preparação do Bruce em Begins – especialmente a citada cena do jato com o Alfred – são perfeitamente coerentes com o final apresentado do terceiro longa metragem e não deixam muito espaço pra dúvidas.
E, sei que muita gente vai discordar de mim, mas essa caracterização dos vilões como as pessoas que falam a verdade, é genial. Mas gostei mesmo der ler sobre as inspirações no trabalho do Richard Donner e em todo o conceito de Ópera. Acho que realmente é uma visão válida usar a Ópera como uma ponte entre Quadrinhos e Cinema -por ser um meio termo entre a linguagem de ambos – e que ninguém tinha imaginado antes.
Está rolando em San Franciso uma exposição em homenagem ao Wes Anderson. Vários novos artistas se reuniram para criar, à sua maneira, cenas e personagens dos filmes do diretor.
Editor’s note: This is a guest post from Matthew Pisarcik & Sebastian Sandersius, the founders of Bison Made.
Nothing is manlier than making something with your own two hands. It’s a source of pride to build something that you can call your own. However, nothing is more frustrating than purchasing something expensive with your hard-earned dollars and having it fail on you. In this article, we want to address a common problem for men: their wallets don’t hold up.
Your wallet gets more use and abuse than just about any other accessory throughout your daily life. And while most fashion label brands build their wallets to look nice in the store, seeing it a few months later is a different story. From unraveling thread to ripping liners, today’s average wallet is designed to wear out. So before dropping your dime on another department store wallet, consider the following guidelines to make your own that will last the rest of your life.
The first thing that you need to make a wallet is a well-engineered design. We have provided a basic blueprint that is streamlined with a clean, modern look. All the correct dimensions are accounted for to carry the tender of any world currency. This wallet design is known as an Ambrosian manifold, consisting of four pieces of leather that are folded and stitch-assembled into a bi-fold wallet with a single pocket for bills and six pockets for cards.
Materials
Leather
You will need about two square feet of material. We recommend vegetable-tanned leather that is of 2oz thickness. Yes, leather thickness is measured in ounces – it is possible to use 1oz of leather if you want your wallet to be extra thin, and 3oz if you don’t mind the extra bulk. It is possible to use other types of leather, but it is important that the leather be relatively rigid to ensure a firm wallet.
Stitching
Find a color that compliments the color of leather you chose. If unsure, consult the authority on matching in your household: your wife or mom. Using a thread color that is darker than your leather is usually a good start. As for size, we recommend using a thread that is no smaller than TEX138 or larger than TEX270.
Tools
Scissors
Razor blade
Straight rule
(2) pushpins
Awl (or something similar like an ice pick)
(2) ball point stitching needles.
Construction
STEP 1
Whether you decide to create your own design or use the pattern we have provided, the first thing you will need to do is to print the design and cut out the paper patterns. Next, trace the patterns onto a sheet of leather.
STEP 2
Now you will have to carefully cut the pieces out of the leather. Cutting the leather with clean lines will be made easy by using a rotary blade alongside a straight edge ruler. After the pieces are cut out, you need to punch stitching holes into the leather. Use push pins to tack the paper pattern to the leather piece and use an awl (or something like an ice pick) to punch evenly spaced holes. The holes only need to be big enough for your needles and thread to pass through without too much resistance.
STEP 3
Now you are ready to assemble the components together. The smaller pieces A and B are layered on top of C, which all goes on top of D. Next, fold the leather to see where the holes should line up. Creasing the leather thoroughly will make stitching much easier. We have provided a color-coded illustration showing stitching paths with start and end points for your thread. There are various methods for hand stitching but for this assembly, we recommend you use a method called hand saddle stitching. With saddle stitching, there is one thread and two needles (one at each end of the thread). To bind two pieces together, align the holes together and weave two needles through each aligned hole.
STEP 4
To begin, we recommend starting with the blue stitching path. For this path you need about two feet of thread. Pass one needle through the first hole at the starting point of piece B. Pull through until there are equal amounts of thread on both sides of the leather. Take one needle and start it through the next hole from the same side of the leather. Start the other needle through the same hole from the opposite side. Grasp both needles and pull through until the stitch is good and tight. After the fourth hole, you will need to begin binding piece D to piece B. Once you have reached the end point, you will need to pass both needles to the back side and weave the threads, as shown in the middle image, so they are both sticking out of the back side of B. Take these two needles from the back side of B and add on piece C.
STEP 5
To end the blue path, weave the needles between the two aligned holes of B and C, as shown in the images above. At this point, check that the stitching is good and tight all along the blue path and make any tension adjustments needed. If all is fine, you can tie off the two threads by making three consecutive overhand knots.
STEP 6
The red path is the inverse shape, but same technique as the blue path. Following the same routine, stitch piece A to D and C. Tie off the red path and leave about a quarter-inch of remnant thread.
STEP 7
At this point you are ready to move on to stitching paths green and yellow. The first 18 stitches of these paths will be spent binding A and B to C. Once you get to the corners, you will begin to include piece D into the stitching and close up the side of the wallet.
STEP 8
The end points of the green and yellow stitching paths bring you to the corner fold of part D. At these corners, you can bring the threads through the middle, tie them off with three knots, cut the remaining thread, and tuck the knot into the corner fold. Your wallet is DONE!
Final Thoughts
Now you will have a stylish wallet to slap on the table the next time you are out on the town. Like a well-made pair of shoes, this wallet is designed to be easily disassembled and refurbished to ensure you decades of service. Keep it looking sharp by buffing it with a horsehair brush now and again. When using it, you’ll be reminded of the skills learned while making something with attention to detail and pride. In your great-grandfather’s generation, people often made their own clothes, furniture, and shoes. When you work with your hands to build something that matters, you are making a statement that craftsmanship and pride in what you do are fundamental values still relevant for men today.
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Bison Made uses these same basic principles when producing quality leather carry goods. Instead of paper patterns and hand cutting, we use high precision cutting dies to create consistent leather components that are hand finished and stitched. We have taken a position that by starting with high-quality raw materials and detailed precision, beautiful and functional works that are designed for life will follow.
Hum, só depois que eu já tinha feito a tira que eu lembrei de uma vez que eu levei à um show uma moça com quem eu estava saindo e ela brigou comigo porque eu "batia palmas demais ao final das músicas." Ok... Outro dia eu estava conversando com uma amiga sobre a bizarrice dos foras que eu já tomei e ela me disse que eu deveria fazer uma série de tiras sobre isso, afinal algumas histórias são realmente inacreditáveis. Mas decidi não fazer isso pois o resultado seria um longo bestiário sobre a estupidez humana protagonizada por mulheres, o que me renderia infinitos xingamentos e acusações de misoginia e machismo. Não que os homens não façam as mesmas coisas com as mulheres, mas se eu for contar as minhas histórias, não tem como eu falar sobre o lado das mulheres da situação. Enfim, talvez um dia eu faça um livro chamado "Meus Problemas com as Mulheres"... ops, o Crumb já fez isso... e rendeu para ele infinitos xingamentos e acusações de misoginia e machismo, então é melhor não fazer.