Igreja Católica Patriótica de Xuanwumen, em Pequim: contradição entre Estado e religião na China.
A duas quadras do hotel, na Xuanwumen Nei Main, no próspero bairro de Xidan,em Pequim, repousa enigmática uma igreja. Cercada por muros, passa despercebida diante da avenida larga e movimentada, não fosse a cruz que se vê da calçada e o portão meio aberto, como que, se não convida à entrada, não a impede. Arriscamos. No átrio, um homem corcunda oferece informais boas-vindas, incompreensíveis até mesmo em chinês, traduzidas no gesto generoso: a mão aponta para a porta e se movimenta, como que dissesse “vá, sem problemas”. Adiante, uma estátua de São Francisco Xavier reluz sob o pouco sol do rigoroso inverno e, no interior do templo, uma velha interrompe a leitura para nos acolher, burocraticamente. Naquele mesmo lugar, em 1605, o lendário padre jesuíta italiano Matteo Ricci instalou o que se considera a primeira igreja católica na China e, depois de sucessivas destruições provocadas por desastres naturais, hoje se vê a mais recente construção, de 1904. O estilo neo-barroco transforma a construção num objeto fora de lugar. As mensagens em chinês, escritas em pendurados panos vermelhos, parecem emitir palavras de ordem políticas, embora não a façam. Tudo é estranhamente familiar. E familiarmente estranho.
A igreja se sustenta sobre uma curiosa contradição: como a China declarou-se um estado ateu e, ao mesmo tempo, constituiu uma estrutura estatal que regulamentasse o funcionamento das religiões, inclusive a Católica, situação que se arrasta desde Mao Tsé-Tung, que, em 1949 instituiu a República Popular e, dois anos depois, rompeu diplomaticamente com o Vaticano. Assim, a China permitiu que os cidadãos continuassem professando sua fé, agora sob a tutela da Igreja Patriótica, cujo ponto mais sensível é a insubordinação ao Papa e a nomeação de seus próprios bispos, com critérios mais políticos que religiosos, suponho.
O aparente paradoxo chinês revela um jogo nem sempre discutido: as relações entre fé e poder. O Brasil de nossos dias – cuja laicidade é garantida com uma mão, mas recusada com a outra – vê despertar uma simbiose muito perigosa entre o campo político e religioso. A evidência mais gritante dessa relação é o que se chama de “Bancada Evangélica”, grupo formado por pastores e fiéis que chegaram ao Congresso Nacional, legitimamente, por meio do voto popular, mas que nem sempre comportam-se de maneira republicana, como convém a um representante democraticamente escolhido pelo povo, ao utilizar o mandato para fazer valer o interesse do seu grupo religioso sobre o interesse ou a vontade pública. É uma espécie de China, mas ao contrário. Nos regimes autoritários, o Estado interfere nos assuntos de fé. Na democracia brasileira, a fé interfere nos assuntos de Estado. Entre os dois modelos, o melhor é nenhum.

"Religião é veneno. Proteja as crianças", alerta o cartaz soviético
Há um componente explosivo quando fé e política se encontram, não importa a via de conexão entre elas. Porque o poder da religião já é suficientemente grande: alcança o mais profundo horizonte humano, seu espírito. Esse movimento se dá de forma individual, no silêncio das escolhas privadas, na comunhão com seus pares, no coração, como muitos gostam de imaginar. As traquitanas dos deuses são engenharias complexas e eficientes, têm seus próprios manuais – da Torá aos sutras budistas, passando pelos Evangelhos, pelo Alcorão e toda sorte de livros ou discursos religiosos, ainda que oralizados –, seus modos de conduta, suas exigências, seus signos. No íntimo, o crente – qualquer que seja sua fé – é um homem de absurda metafísica: a rezas, as velas, os demônios, os santos, as cruzes, o sim e o não. Tudo isso, uma máquina de poder simbólico sobre o fiel.
Mas não bastasse isso, a fé também tem sua face pública. Se manifesta na rua, no trabalho, na escola. E, não satisfeita, também ocupa os lugares políticos, frequentemente reproduzindo as relações de poder que, de forma mais sutil, já existem na vida pública. Há um certo encontro genético, contudo, porque instituições como “Estado”, “Democracia”, “Política”, “Ideologia” e todas suas variáveis também pressupõem uma espécie de fé, de outra feição, mas com igual DNA. Até mesmo a defesa do Estado Laico é um ato “religioso”, de profunda crença no indivíduo, em sua moral e na autonomia de suas escolhas.
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Até mesmo a defesa do Estado Laico
é um ato “religioso”, de profunda crença no indivíduo,
em sua moral e na autonomia de suas escolhas
Não há, de todo modo, diálogo possível entre política e religião, porque o poder que sustenta cada uma delas emana de princípios muito diferentes e atinge circunstâncias bastante opostas. A democracia é a crença absoluta na vontade do coletivo. A religião é – ou deveria ser – a mais profunda conexão do individual. Ao se misturarem, política e religião permitem que as sintonias se confundam: o poder sobre o indivíduo se estende ao coletivo. E então vemos que o temos visto: uso de verba pública para interesses religiosos, intolerância à diferença, códigos morais obsoletos e proselitismo disfarçado de debate democrático. Nenhuma liberdade – nem mesmo a de culto – será garantida num cenário em que as regras do espírito recaiam sobre o corpo. Do outro, principalmente.
[Créditos | Ilustração e tradução: Rede Histórica | Foto: P.L., Pequim, inverno de 2010]
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