
Eu estava em Corinthians x River em 2006 com a namorada. Eu não tentei entrar no campo, nem ela. Estávamos na arquibancada, lá em cima. Vimos tudo do alto. Quando aparentemente tinha parado, a PM, essa excelente e bem treinada força que só “às vezes” faz merda, começou a atirar bomba de gás lá pra cima. Onde tinha quem? Quem não desceu pra brigar nem invadir campo, um monte de mulher, criança.
Subimos mais, demos a volta, saímos do estádio. Do lado de fora, tivemos que subir as escadas laterais CORRENDO, sob ameaça da polícia que ATIRAVA BALAS DE BORRACHA pra cima. Dava pra ouvir elas pegando nas árvores e nas folhas acima da nossa cabeça. Chegamos lá em cima sem ar e brancos, amarelos, azuis de cagaço de tomar um tiro. Não tinha como saber que era de borracha, aliás. Nunca senti tanto medo na vida – e já fui assaltado com faca levando murro na cara.
Jogo seguinte, Corinthians x Alguém pelo Brasileiro. Armaram uma praça de guerra na Charles Miller. Até lá embaixo no Pacaembu. Por ali, a gente longe, começou uma merda qualquer. Começaram as bombas e balas. Corremos pra entrar logo no estádio. A PM começou a atirar bombas NA NOSSA DIREÇÃO, onde não acontecia absolutamente NADA. A PM resolve FECHAR a entrada do estádio, encurralar TODO MUNDO. Gás começa a voar e ser respirado. Do meu lado e de um amigo, uma mulher com criança de colo pede pra entrar. O PM responde:
- Vocês não gostam de criar confusão? Agora aguenta.
Nunca na vida tive TANTA vontade de esmurrar alguém. E eu nunca esmurrei ninguém.
Final da Libertadores, Buenos Aires. Os argentinos trogloditas arrogantes. Policiamento pra entrar no estádio, exaustivo, burro. Apertam as filas e fazem demorar. Lá pela terceira barreira de policiais, alguns resolvem pular as grades. Um PM vai até lá, com o cacetete na mão, calmamente arrasta a barreira de metal de volta pro lugar e para na frente pra ninguém mais pular. Não espanca ninguém, os que pularam já se foram, nem sequer ameaçados. Na sequência, um outro PM percebe que uma mulher está sendo esmagada por 500 homens e abre espaço no meio deles, tira ela de lá e deixa ela passar por entre as barreiras de metal. Sim, um policial argentino. E nós todos brasileiros.
Veja bem, eu odeio a polícia, qualquer polícia. Todas servem pra reprimir, oprimir e manter a mesma ordem que tá aí todo dia. Mas não posso negar o que vi.
Jogo da volta, Pacaembu. A PM faz uma praça de guerra de novo. Entrei até sem maiores problemas. Faltando uns 20min pro começo do jogo, bombas, gás, cacetete. Subo as bancadas pra ver, era a PM espancando a torto e a direito, INCLUSIVE TORCEDORES COM INGRESSO.
Não adianta negar que há uma diferença cultural enorme. ENORME. Um policial argentino tem muito mais respeito – e medo, porque sabe que a população média não gosta dele e o liga à ditadura – por um torcedor do que um brasileiro. Na Argentina a polícia não rela a mão nas bandeiras (trapos) dos torcedores. Aliás, na Argentina PODE levar QUALQUER bandeira pro jogo, sem precisar pedir autorização pra polícia. Uma torcida argentina, quando a PM agride a outra torcida, fica do lado da outra torcida, não da polícia. Faz protesto unificado na rua, entende ser torcedor como uma classe.
Um policial brasileiro quer que torcedor se foda, trata como gado porque sabe que tem um poder que nunca será questionado de fato, não quando agride a massa. É treinado pra agir assim, pensar assim, sabe que a população média tem medo ou idolatra ele – viva o Tropa de Elite. A PM é herança da ditadura. Não tem polícia MILITAR na Argentina – aqui não só tem como mesmo após o regime continuou sendo uma instituição violenta, permitida e com enorme poder. Uma torcida brasileira celebra quando a torcida adversária toma pau da PM. Dá risada, faz piada no Facebook.
Não tem como não olhar pra tudo isso e não entender porque o brasileiro médio acha que a PM de Minas tá certa e que os argentinos folgados começaram e pediram. E que essa é a coisa certa a se fazer, o jeito de se parar uma confusão entre jogadores e juiz, principalmente entre selvagens argentinos e juiz. Nós somos mais, somos melhores, não fazemos esse tipo de merda quando perdemos.
Não, não. O que somos é patéticos, patéticos de permitir não só que a PM continue existindo como que continue agindo como age. Cagamos de medo, isso sim.
Se você é daqueles que curte Tropa de Elite porque a PM mata bandido, não deve ter visto o segundo filme. Quando o celebrado Capitão Nascimento diz, com todas as letras:
- A PM do estado do Rio de Janeiro tem que acabar.
Vamos além, Nascimento: a PM do Brasil todo tem que acabar, faz tempo. Difícil é achar que isso vai acontecer no país que ao invés de julgar ditadores e torturadores os homenageia colocando seus nomes em rodovias – Dutra, Castelo Branco, Fleury, a lista é interminável.
Não custa lembrar aonde estava o atual presidente da CBF durante o regime militar.
Mas isso tudo é papo de esquerdinha. Argentino tem que apanhar mesmo. Xenofóbico? Não, não sou, apenas sensato.
Afinal, foram eles que começaram.
P.S.: em nome da nossa memória falha, fica aqui a lembrança de Nilton César de Jesus, morto em 2008 em Goiânia por um policial, mesmo após se render, antes do Goiás x São Paulo que decidiria o Brasileirão: http://manihot.wordpress.com/2008/12/09/de-novo-a-policia/
Eternamente em vossos corações,
Kadj Oman
(ensejado por um comentário neste post)
* * *
ERRATA: na versão original do texto, listou-se absurdamente o nome de Mário Covas entre torturadores/ditadores homenageados por aí. Como percebido amplamente pelos comentários, tal identificação de Covas com o regime nunca existiu, de modo que corrigimos agora e pedimos sinceras desculpas.