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O atentado
Parklets desenvolvidos pelo Instituto Mobilidade Verde e Design OK
Allan PatrickMenos vagas de carros, mais vida urbana!
Em parceria com o Design Ok, projetamos e construímos os 4 primeiros Parklets de São Paulo, estes projetos serviram para testar diversos sistemas de piso, guardacorpo, paisagismo, iluminação, novos materiais, as questões relacionadas com a rua, comunidade etc… todas estas informações foram reunidas num manual que a prefeitura de São Paulo vai divulgar em seu site. Acompanhe abaixo os principais Parklets desta parceria:
Parklet Rua Amauri (Itaim Bibi) – Agosto 2013 ( Design Weekend)
Parklet Rua Maria Antônia – Agosto de 2013
Parklet Rua Pe João – Novembro 2013 ( 10ª Bienal de Arquitetura de São Paulo)
Parklet Pe João Manuel – Parklet Permanente – Abril de 2014



Não é que não exportamos, é que não existe indústria brasileira
TEM DE SER NACIONAL, ESTÚPIDO!
Arnaldo Ferreira Marques, em seu Facebook
“A exportação [brasileira] de celulares [para a Argentina], por exemplo, que chegou a US$ 740 milhões, despencou para US$ 200 mil em 2013. Segundo a Abinee, que representa o setor, multinacionais como Nokia e Samsung, que usavam o Brasil como base para a região, agora atendem só o mercado doméstico.”
Folha de S.Paulo – Cotidiano – “China abocanha fatia do Brasil nas importações da Argentina” – 19/04/2014.
O que é o que é? Único país grande consumidor de automóveis (4º do mundo) que não possui montadora nacional?
Adivinhou?
Pois é, senhores. Não existe a “Samba Motores”.
Não existe uma indústria automobilística com matriz brasileira que forme um enorme centro de planejamento, pesquisa e projeto, cheio de engenheiros cumprindo uma ordem: pesquisem as necessidades e gostos dos brasileiros e projetem automóveis sob medida para eles.
Tudo seria muito diferente no Brasil com uma Samba Motores.
Incluindo as exportações. Principalmente as exportações.
Porque em um dado momento, com a necessidade de aumentar a escala da produção, os dirigentes da Samba Motores certamente enviariam uma nova ordem aos seus engenheiros: agora pesquisem as necessidades e gostos dos argentinos. Vamos lançar por lá o Tango em três versões. E logo os navios roll-on-roll-off começariam a sair carregados para Buenos Aires.
Depois dos hermanos, por que não o consumidor dos EUA? Da península Ibérica? Da Rússia? Da própria Europa automobilística (Alemanha, França, Itália, Inglaterra)?
Pesquisando e produzindo automóveis que só ela projetou, focando as necessidades de cada mercado no exterior, a Samba Motores seria dona de seu nariz e teria um enorme ímpeto exportador.
Afinal, se o consumidor internacional se encantou pelo Porto Belo, pelo Itapoã, pelo Vitória, o que a Volkswagen pode fazer? Ou a Fiat? Ou a Ford? O conceito é nosso, a marca é nossa, a mística é nossa. Quem quiser ter um deles na garagem, vai ter de pagar à Samba Motores.
A fábrica da VW no Brasil (ou da Fiat, Ford, Renault etc.) não tem como missão conquistar a todo custo os mercados externos. Ela é apenas uma peça da imensa estrutura internacional que obedece aos interesses e necessidades da matriz na Alemanha. Deve abastecer o mercado local com projetos de fora e, quando muito, exportar para a América do Sul.
Você acredita que, se algum engenheiro da VW Brasil criar uma super inovação de projeto, essa inovação gerará modelos brasileiros ultracompetitivos que desbancarão a produção da fábrica alemã da VW ou de outras fábricas VW ao redor do mundo? Nem em sonho, não é?
Não adianta termos montes de fábricas montadas no Brasil: só com uma Samba Motores poderíamos ser um verdadeiro exportador de automóveis.E quem diz automóveis, diz qualquer produto industrial. Telefones celulares. Alimentos de todo tipo.
Importamos da Itália caixas com uma massa endurecida de farinha de trigo e água (Barilla, Divella). Por que a Itália não importa do Brasil caixas com pães de queijo congelados, potes de geleia de jabuticaba, rolhas de paçoca de amendoim?
Nada disso é sonho. Tudo o que eu disse em relação à imaginária Samba Motores é real no mais inusitado dos produtos industriais: aviões.
A Samba Motores não existe (e deveria existir, dado que nenhum país sem fábrica própria de automóveis possui o corpo de engenheiros automobilísticos ultra formados que o Brasil tem).
Mas a Embraer existe.
E faz exatamente o que a Samba deveria fazer, projetando produtos inovadores e ultra competitivos focados para exportação, que avançam nos mercados mais ricos e exigentes.
Da próxima vez que você ler ou ouvir que “a indústria brasileira não exporta”, pense na única resposta real a esse problema: não existe indústria brasileira.
Esse é o problema central.
Juruna, o índio deputado
Parece incrível, mas em 125 anos de República o Brasil só teve um parlamentar indígena: Mario Juruna (1942-2002). E nunca mais foi Dia do Índio no parlamento desde que ele saiu de lá –em vez disso, multiplicaram-se no Congresso os inimigos da causa indígena. No final da década de 1970, Juruna se tornara conhecido por empunhar um gravador onde registrava as falsas promessas feitas por altos funcionários do governo de devolver as terras dos Xavante. Dizia: “homem branco mente muito”. Acabou eleito deputado federal pelo PDT de Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, com mais de 30 mil votos, na eleição de 1982.
Sua passagem pelo Congresso foi marcada pela tentativa de ridicularizá-lo e de transformá-lo num bufão. Jô Soares, em seu programa humorístico na Globo, logo criou um índio que mal sabia falar o português para que os telespectadores rissem dele. O general João Baptista de Figueiredo, último presidente militar, foi o primeiro a rosnar contra Juruna, dizendo que o Rio de Janeiro só tinha eleito “índios e cantores de rádio”. Seu ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Matos, verbalizou a definição inconfessável que estava em todas as cabeças da direita: “aculturado exótico”.
O líder xavante fora convencido a entrar na política por Darcy, que denunciou a campanha contra o índio deputado feita sobretudo pela imprensa. “Este índio novo, tão melhor armado para a sua própria defesa, provoca grandes antipatias. O seu símbolo maior, Mário Juruna, chega a desencadear ódios como se fosse um ser detestável. É profundamente lamentável que até a imprensa mais respeitável do país, a exemplo do Jornal do Brasil, tenha mantido, durante anos, uma campanha sistemática de desinformação contra o deputado Mário Juruna, através dos procedimentos mais antiéticos, indignos da sua tradição jornalística.” Segundo Darcy, foi “graças à mobilização que ele fez de todos os Xavantes e à declaração de guerra que impôs à sociedade brasileira, que recuperou para o seu povo mais da metade do território tribal, roubado com a conivência de funcionários da FUNAI”.
No dia da sua posse como deputado, em março de 1983, Juruna foi aplaudidíssimo, mais até que Ulysses Guimarães. Decidido a só fazer seu primeiro discurso no Dia do Índio, resolveu falar uns dias antes apenas para reclamar das alfinetadas de Figueiredo. “Estou muito revoltado. Este presidente da República tem que fazer serviço para garantir emprego ao povo brasileiro e não para fazer campanha de calúnia contra as pessoas. Eu sou contra a repressão, contra a violência e também contra a mentira e a sujeira. O presidente não pode falar besteira, que é contra a eleição, que é contra mim. Graças a Deus fui eleito pelo Rio de Janeiro. Os cariocas me deram oportunidade para vir a Brasília, onde existe pecado, existe treteiro, existe corrupto, para protestar contra o que está errado. O governo federal quer ganhar eleições em todos os Estados do Brasil, mas ele não vai ganhar a consciência do povo, do homem carecido. O presidente não pode meter o pau em nenhum companheiro, em nenhum deputado. Ele que salve o Brasil.”
No dia 19 de abril, como prometido, subiu à tribuna e voltou à carga, valente, criticando os ministros do governo militar e pedindo sua demissão. Em setembro de 1983, iria além e chamaria os ministros de ladrões. “Todo ministro é a mesma panelinha, é a mesma cabeça. Não tem ministro nenhum que presta. Pra mim todo ministro é corrupto, ladrão, sem vergonha e mau caráter. Não vou dizer que todo ministro é bom, legal e justo. Vou dizer que todo ministro é do mesmo saco que aproveita o suor do povo trabalhador”.
Figueiredo, furioso, chegou a pedir a cassação de Juruna, mas o deputado acabou recebendo apenas uma censura por parte da Mesa. Em 1985, Mário Juruna denunciaria a tentativa de Paulo Maluf de comprar seu voto no colégio eleitoral. Devolveu o dinheiro e votou em Tancredo Neves. Desgostoso com a política após não conseguir se reeleger em 1986, Juruna morreu em 2002, vítima de diabetes. O único índio deputado morreu pobre e esquecido.
Neste Dia do Índio tão pouco lembrado, reproduzo trechos daquele primeiro discurso histórico de Juruna como deputado federal. Triste constatar como muitas das críticas que ele fazia continuam atuais. Quando vai surgir um novo Juruna no Congresso?
***
Por Mário Juruna, 19/04/1983, Congresso Nacional
Eu quero apresentar exemplo com minha candidatura, porque hoje já podia ter deputado índio. Podia ter deputado aqui no Brasil mas nós não somos culpados. Quem é culpado, é responsável, é essas pessoas que não dão oportunidade pra índio. É por isso que nós só aprende, só estuda o primário.
Então primeiro eu quero falar em nome do companheiro trabalhador, porque vocês é a mesma coisa como índio, como posseiro, é a mesma coisa como lavrador e é a mesma coisa como a tribo. Esse pessoal que está lá em cima, que a gente sofre repressão da autoridade, esse pessoal é o filho do empresário, o filho do deputado, o filho do senador. Esse resto que é o pessoal filho de pobre, eu quero considerar mais ainda esse pessoal que leva sacrifício, pessoal que sofre muito mais que a gente que está vivendo muito bem aqui na Câmara Federal.
E muita gente que achava, quando eu entrei na política, muita gente falava contra Juruna, falava: “Imagina como que Juruna vai entrar no plenário, imagina, o índio, o que é que vai resolver no plenário, como é que índio vai representar índio?” E eu quero saber: imagina, o que é que o branco pode? Talvez índio pode representar melhor do que qualquer deputado, qualquer senador e qualquer da República.
Juruna é o primeiro índio que está representando brasileiro, porque o governo brasileiro não dá oporunidade pra índio, porque ele quer continuar tutelar toda vida índio. E nós não somos tutelados, somos responsáveis, nós somos gente, nós somos ser humano.
Quem não tem consciência, me trata como objeto, me trata como boneca. E quando eu passo aqui dentro de plenário e alguns companheiros à frente de mim e diz cara emburrada é ridículo. Eu não vim aqui fuxicar com ninguém, eu vim aqui pra trabalhar, pra defender povo, eu vim aqui pra lutar. Eu quero que gente começa a respeitar nome de Juruna. Eu quero que gente trata índio brasileiro o mais possível dentro do melhor.
Cada um de nós tem consciência e cada um de nós tem capacidade. Ninguém tem menos capacidade. Todos nós tem capacidade e todos nós tem inteligência e todos nós tem a vontade para assumir onde que existe poder. Eu acho esse já é fruto está nascendo aqui dentro do Brasil, esse já é sinal está nascendo aqui dentro do plenário. Único índio que tá falando hoje, único deputado que tá falando hoje: não é terceiro, não é quinto deputado, não é cinquenta deputado. Se tiver ao menos mais cinquenta Juruna, o Juruna já tinha mudado o Brasil.
Governo da República não pode ser indicado por uma pessoa. Presidente da República tem que ser mais votado com povo brasileiro. Até eu me lembro muito bem que antes de 64 Brasil tinha muito ouro, era muito sagrado e hoje Brasil não tem mais muito ouro não. Está estragado. O Brasil não tem mais ouro. Quem está estragando o Brasil é o próprio governo federal, é este presidente da República que está estragando nosso Brasil, junto com Delfim, esse responsável pelo Brasil.
Quero falar problema do Brizola. O Brizola é homem, foi cassado, como acontece com o índio, por isso eu apoio Brizola e por isso quero dar liberdade para Brizola, porque, como acontece com o posseiro, como acontece com o índio, o Brizola foi expulso do Brasil sem necessidade. E por que o governo não expulsa outro agora? Expulsa todo o ministério, tira todo o ministério! Bota na rua todo mundo!
Se o governo federal, ele tem capacidade, ao lado do povo, se o governo federal assume, como homem, tira meia dúzia de ministro que atrapalha o nosso Brasil. Tirava meia dúzia, o presidente da República, qualquer um de nós apoiava ele. Nós apoiamos o presidente da República e nós levava para crescer mais ainda o nome dele. Desse jeito, ninguém vai apoiar o presidente. Ninguém pode apoiar sujeira. Eu mesmo não pode apoiar sujeira porque eu quero que o presidente muda o nosso Brasil. Porque o presidente é responsável da Nação, o presidente é juízo do povo, o presidente é o pai do povo, o pai do Brasil. Agora, como está hoje, o presidente é o pai do povo? Não existe pai do povo, não. Aqui não tem pai do povo, não.
O presidente foi eleito com empresário, presidente foi compromisso com multinacional, com fazendeiro, com empresário e grande empresário. Se presidente pai do Brasil, presidente segurava toda barra que está acontecendo no Brasil. E aqui gente tá morrendo. E por quê? Porque não tem presidente, não tem autoridade. E toda autoridade é comprada, toda autoridade está se vendendo, quer o dinheiro, quer ganhar dinheiro.
Às vezes, presidente é bom e assessor diretor quem engana o presidente, assessor que não leva verdade para presidente. Por isso que presidente passa mal assessorado. Se tiver assessor bom, se tiver diretor bom que levava recomendação do povo, eu acredito que presidente atendia pedido do povo.
Sou homem do povo, sou homem de campo, quando me criei não encontrei nem um branco, não encontrei nem um avião, nem automóvel, nem estrada; onde me criei era sertão, eu só escutava canto do passarinho, e hoje eu encontro muito pressão contra índio, e invasor, e estrada. A gente está recebendo muita pressão.
Quando eu tive na Holanda, é país pequeno, todo holandês vive igual. Aqui Brasil é muito grande e muita gente tá precisando da terra. Aqui eu quero pedir a V.Excia., presidente, vamos pensar juntos, vamos reformar o nosso Brasil, viu? Vamos dividir, terra é para posseiro, é terra para fazendeiro, é terra para índio, vamos dividir a nossa terra.
Abaixo, trailer do documentário Juruna, o Espírito da Floresta, de Armando Lacerda (o filme será exibido hoje às 15h30 no Canal Brasil)
Novos leitores: Mais uma tentativa de assassinato de reputação

por Luiz Carlos Azenha
Os blogueiros sujos resistiram firmemente a mais uma tentativa de assassinato de reputação. Esta, aparentemente coordenada internamente nas Organizações Globo.
Quem é leitor diário da blogosfera pode abandonar a leitura aqui, já que este artigo é para os milhares de novos leitores que nos procuram, segundos estatísticas de nossa audiência, em função de recentes — e falsas — acusações, que envolvem também o nome do Viomundo.
Os que acompanham mais de perto a disputa judicial entre o bravo blogueiro Luís Nassif e a revista Veja, da Editora Abril, da família Civita, sabem exatamente do que estou falando. Nassif teve a coragem de denunciar as falcatruas da revista em sua série sobre os métodos da publicação. O trabalho de Nassif foi confirmado mais tarde, quando a Polícia Federal desmontou a associação entre o bicheiro Carlinhos Cachoeira, o senador Demóstenes Torres e aliados. Eles entregavam suas “produções” jornalísticas de bastidores, contra adversários, para a publicação da Abril.
As armações tinham o objetivo clássico da mídia empresarial brasileira: o “assassinato de reputação” com objetivos políticos, ideológicos ou comerciais. Tirar vantagem enfraquecendo os outros com denúncias falsas ou artificialmente turbinadas.
Ao deixar a TV Globo, mais tarde, em 2006, o hoje blogueiro Rodrigo Vianna, do Escrevinhador, teve a coragem de fazer o mesmo: denunciar publicamente a emissora. Foi dado por alguns como doido. Porém, abriu os olhos de uma pequena parcela da opinião pública e hoje há, sem medo de errar, dezenas de milhares de brasileiros capazes de identificar com clareza os métodos da cobertura política global, que foram modulados para evitar os casos de manipulação mais evidente — hoje rapidamente denunciáveis — e trabalhar a pauta do que é ou, principalmente, não é oferecido aos leitores, ouvintes e telespectadores das Organizações Globo, dando ênfase às notícias que interessam e escondendo as que não interessam.
Este é hoje o principal motivo de os blogueiros terem se tornado, eles próprios, alvos de contínuas tentativas de “assassinato de reputação” ou “destruição de caráter”.
Eles rompem o tabu dos assuntos proibidos, muitos dos quais envolvem as próprias empresas de mídia, o que ficou bem nítido no recente aniversário de 50 anos do golpe de 1964, por exemplo, aqui e aqui.
Se você é um jovem leitor ou chegou recentemente a este espaço, calma! Sabemos que há muitas novidades para você no que escrevo. Despreocupe-se. Vá seguindo os links e acumulando informação. Eventualmente, você vai se dar conta do que lerá, verá e ouvirá repetidamente na blogosfera: a grande mídia tem lado, apesar de se dizer “neutra”, “isenta” e “imparcial”.
O lado dela ficou claro no golpe que instalou a ditadura militar em 1964. Com raríssimas exceções, que pagaram caro por isso, a mídia apoiou os golpistas que agiram com ajuda material dos Estados Unidos e censuraram, torturaram, mataram e sumiram com os corpos de adversários. Alguns dos donos da mídia se envolveram diretamente na articulação golpista; outros deram publicidade ou apoio material a ações específicas da ditadura; muitos lucraram enormemente durante o período.
São, grosseiramente, os mesmos que sempre se opuseram a governos de caráter trabalhista ou popular, que chamam de “populistas”. Os mesmos que apoiam, sempre, governos elitistas voltados acima de tudo para o lucro das elites, sem que uma migalha sequer seja concedida aos de baixo, aos mais pobres, aos assalariados.

Entendeu agora o motivo de nos detonarem?
A ocasião mais recente foi a entrevista do ex-presidente Lula a blogueiros de esquerda, ou “progressistas”, por apoiarem uma série de medidas políticas e econômicas que representariam progresso social e material para os trabalhadores, os assalariados, os mais pobres — como o Bolsa Família, as cotas para negros e sociais nas universidades, o Sistema Único de Saúde.
Como jornalista com mais de 40 anos de experiência, sendo pelo menos 30 em emissoras de televisão, sustento que uma entrevista vale pelas notícias que produz. No caso de que tratamos aqui, a entrevista de Lula produziu numerosas manchetes, inclusive em toda a chamada mídia corporativa, ou seja, ligada ou defensora dos interesses das corporações que a patrocinam.
Lula falou de todos os assuntos relevantes daquele momento: as denúncias contra o deputado André Vargas, contra a Petrobras, a campanha para que ele seja candidato a presidente em 2014, os rumos da economia no governo Dilma, a Copa do Mundo, os protestos na rua do Brasil, a lei antiterrorismo, o financiamento da saúde pública, etc.
Ou seja, os entrevistadores atingiram seu objetivo sem usar grosserias, sem ofensas e sem embarcar no que chamamos de “antipetismo” movido pelo ódio. É um sentimento promovido por adversários políticos do PT, que querem negar direito de existência ao partido de Lula da mesma forma que os golpistas de 1964 negavam existência política a seus adversários. Depois do golpe, mesmo políticos que apoiaram a derrubada de João Goulart foram “extirpados” pelo militares, como o direitista Carlos Lacerda, que perdeu o direito de se candidatar.
Entenderam o paralelo entre os ditadores do passado e os “ditadores” de hoje? De formas distintas, tentam atingir os mesmos objetivos: negar o direito de expressão e organização àqueles dos quais discordam.
É nessa categoria que, em 2014, se encaixam os blogueiros, nove dos quais participaram da entrevista com o ex-presidente Lula. Para a mídia corporativa, são não-pessoas. A eles são negadas a individualidade, as características pessoais, os saberes específicos.
Você já andou por aí na blogosfera? Viu como concordamos em algumas coisas e discordamos em muitas? O Viomundo, por exemplo, apoia todas as manifestações de rua, inclusive as que estão sendo organizadas para o período da Copa do Mundo. O Eduardo Guimarães, do blog da Cidadania – para dar apenas um exemplo, discorda. Isso não nos impede de conviver democraticamente, ainda que expressando posições claramente distintas.
Não concordo com a postura do Eduardo em muitos outros pontos, porém defendo que ele participe, sim, de entrevistas com autoridades e políticos. Desde quando se convenciou que estas atividades devem ser exclusivas de jornalistas? Como representante comercial, exportador de autopeças e fã do Lula, o blogueiro não deixa de expressar o que pensa parte da opinião pública brasileira em relação ao ex-presidente.
Por outro lado, estavam presentes na mesma entrevista jornalistas com grande experiência, como a Conceição Lemes, deste site, com 33 anos de carreira. O que houve de errado com a pergunta que ela fez ao Lula sobre o financiamento da saúde pública? Lula culpou a extinção do imposto de cheque, promovida pelos adversários dele, pela falta de dinheiro para financiar o SUS. Acho que foi uma boa pergunta e que cabe ao leitor/ouvinte/telespectador decidir se concorda ou não com o ex-presidente.
Porém, os que negam direito de existência aos blogueiros no mundo da informação apagam a individualidade de cada um e o pluralismo da blogosfera, apelando para rótulos e acusações infundadas: seriam todos financiados pelo governo, hipnotizados por Lula ou defensores pagos do PT. Em uma palavra, “vendidos”.
Enfatizo: condenar “antipetismo” irracional não é o mesmo que ser petista. Não somos. Quer ler críticas ao PT/governos Lula e Dilma neste site? Comece por aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui.
Minha sugestão? Frequente os blogs abaixo citados. Com o tempo, baseando-se na sua leitura e não no que dizem para você, estou certo de que você perceberá as nuances, as diferenças que existem entre todos eles, indistintamente: Blog do Miro, Cafezinho, Sul 21, Carta Maior, Escrevinhador, Tijolaço, Blog da Cidadania, Diário do Centro do Mundo (há muitos outros, mas estes estavam representados na entrevista).
Estou certo de que, ao fazer isso, você vai encontrar uma pluralidade de opiniões que não vê na chamada mídia corporativa!
Quando no título deste texto, falei em “assassinato de reputação”, é por acreditar que as críticas feitas aos blogueiros nas Organizações Globo tinham este objetivo.
Primeiro, na rádio CBN, que pertence às Organizações Globo, em rede nacional, o âncora Carlos Alberto Sardenberg (o mesmo do Jornal da Globo, na TV) e o comentarista Merval Pereira (o mesmo do jornal O Globo, do Rio) sugeriram que os blogueiros que participaram da entrevista com Lula eram “vendidos”.
Depois, o jornal O Globo, do mesmo grupo, onde escreve Merval, pretendeu fazer uma “investigação” sobre quem eram os entrevistadores. Coincidência, não?
O método foi o mesmo utilizado na primeira entrevista de Lula a blogueiros, quando ainda estava na presidência da República, em 2009. Naquela ocasião, o jornal O Globo estampou, junto com uma foto de Lula com os entrevistadores, o título “Lula recebe Cloaca e outros amigos no Planalto”. Cloaca é um blogueiro do Rio Grande do Sul, que não participou da entrevista de 2014 e a cloaca a que ele se refere ao nomear seu blog é a mídia representada pelos grupos Folha-Abril-Globo-Estadão, ou seja, a mídia conservadora, de direita, que faz propaganda dos interesses da elite brasileira.
O Globo negou, então, credibilidade à entrevista. Agora, faz o mesmo usando métodos parecidos. Também usou uma foto dos blogueiros ao lado de Lula. E tascou, baseado em uma única declaração (a que aparece entre aspas), de um dos nove presentes: Café e bolotas de queijo, Conversa de Amigo; ‘Ninguém teve a intenção de ser isento’, Conversa de Camaradas.
É algo comum no jornalismo acusatório: tomar a parte pelo todo. Pega a opinião de um, destaca e com isso tenta desqualificar o todo.
Porém, onde foram publicadas as críticas específicas de O Globo às perguntas feitas pelos blogueiros? Quais as impropriedades jornalísticas cometidas durante a entrevista? Faltou notícia na entrevista de Lula?
A resposta, como as manchetes dos dias subsequentes na mídia corporativa deixaram claro: Não!
O que Lula antecipou aos blogueiros, inclusive, começou a acontecer: Dilma assumiu a defesa da Petrobras e anunciou ajustes futuros na economia brasileira. Tudo isso apenas confirma a relevância da entrevista em si.
Como jornalista com ampla experiência, percebi que O Globo montava uma armadilha para os blogueiros ao ler as perguntas endereçadas à Conceição Lemes. Se a entrevistadora do Viomundo não tivesse formação de jornalista ou não tivesse currículo, a inexperiência para enfrentar uma raposa politica como Lula seria destacada. Se tivesse tido qualquer despesa paga pelo Instituto Lula para ir até a entrevista, seria mencionada por isso. Seriam formas de desqualificar o trabalho de Conceição, já que o Viomundo não recebe propaganda oficial, seja de governos federal, estaduais ou municipais, seja de empresas públicas/estatatais — incluindo aí o Executivo, o Legislativo e o Judiciário.
Fazemos isso porque batalhamos pela extinção de tais gastos públicos, a não ser em casos de estrita necessidade, como campanhas de vacinação, para que o dinheiro seja aplicado em creches, hospitais e salários de funcionários públicos, não necessariamente nesta ordem. Quando governador do Paraná, o hoje senador Roberto Requião, do PMDB, fez isso e deu muito certo.
Finalmente, acrescento minha própria experiência como vítima de tentativa de assassinato de reputação, obviamente mal sucedida, caso contrário você não teria vindo ler o Viomundo.
Foi na campanha eleitoral de 2010, quando eu já havia pedido a extinção antecipada de meu contrato com a TV Globo.
Na ocasião, o jornal O Globo envolveu meu nome de forma infundada numa falsa denúncia contra a TV Brasil, que havia prorrogado — dentro de todas as normas legais — um contrato com a produtora Baboon, de São Paulo, que produzia o programa Nova África depois de ter ganho uma concorrência pública. Que eu saiba, foi o primeiro e único programa de TV no Brasil que foi resultado de uma concorrência pública!
Eu era empregado da Baboon, assalariado, para cumprir função em minha área de especialidade! No entanto, O Globo juntou meu nome com a cifra milionária de um contrato do qual eu não era parte e não tinha assinado — não sendo dono, nem sócio, nem gerente da Baboon, que pertence aos empresários Henry Ajl e Markus Bruno.
Viu como funciona? O Globo juntou meu nome com um valor milionário que nunca recebi e conseguiu produzir uma falsa denúncia contra um jornalista assalariado de uma produtora que havia ganho uma concorrência pública! No entanto, foi tudo tão transparente que, subsequentemente, a Baboon se classificou para disputar uma segunda concorrência e perdeu, ocasião em que o blogueiro Reinaldo Azevedo voltou a usar meu nome para me acusar… de perder a concorrência!
É assim que a direita age, entendeu?
Se você ficou curioso sobre o programa, clique aqui.
Portanto, expresso aqui minha solidariedade aos nove blogueiros vítimas da tentativa de assassinato de reputação movida pelas Organizações Globo por conta da mais recente entrevista do presidente Lula.
Sugiro a você, finalmente, jovem ou novo leitor do Viomundo, que dê uma olhada na tabela abaixo, publicada por Fernando Rodrigues em seu blog do UOL e na íntegra da entrevista do ex-presidente aos colegas blogueiros:

Agora nos diga: quem é mesmo que embolsa bilhões em dinheiro público?
A entrevista de Lula a blogueiros from Luiz Carlos Azenha on Vimeo.
O post Novos leitores: Mais uma tentativa de assassinato de reputação apareceu primeiro em Viomundo - O que você não vê na mídia.
Escravos não têm os nossos privilégios, afirmam médicos cubanos
O programa Mais Médicos convocou profissionais brasileiros e estrangeiros para trabalharem em locais carentes de atendimento. Se por um lado, isso gerou o descontentamento por parte dos médicos brasileiros (com argumentos que vão do fato de que o programa não resolve o déficit estrutural, material e de equipamentos até o puro corporativismo), por outro as manifestações de apoio mostram que ele foi bem recebido pela camada mais pobre da população.
No meio do tiroteio da falsa dicotomia entre “o Brasil precisa de médicos atendendo a população carente” contra “o Brasil precisa de condições para os médicos trabalharem”, o programa também foi criticado por conta da forma de contratação de médicos estrangeiros. Entidades de classe de medicina exigem que o diploma seja revalidado no país através de prova e chegaram a questionar a capacidade técnica dos visitantes.
Ao mesmo tempo, alguns críticos do programa e parlamentares de oposição ao governo federal afirmam que os médicos cubanos estão em situação análoga à de escravo, como os trabalhadores que são libertados de fazendas de cana ou de oficinas de costura. Um dos motivos seria o fato de não recebem a mesma remuneração que o restante dos médicos que fazem parte do programa (R$ 10 mil mensais), pois a maior parte fica com a empresa cubana responsável pelas missões médicas do país. Outro montante é pago a eles aqui e o restante era depositado em sua conta em Cuba.
Para falar do paradigma da saúde no Brasil, da reação da população à sua presença e de sua situação trabalhista, dois médicos cubanos pertencentes ao programa que atuam no município de Carapicuíba, um dos mais pobres da região metropolitana de São Paulo, concederam ao UOL uma entrevista.
Maria de Los Angeles Reyes e Mario Martinez elogiaram a competência dos médicos brasileiros, afirmam que o acolhimento dado pelo povo ao seu trabalho só é comparável ao de suas próprias famílias e – falando um bom “portunhol” – dizem que a língua não tem sido uma barreira. E demonstraram indignação ao serem questionados se seriam escravos do governo cubano.
Acreditam, contudo, que a presença dos médicos cubanos e sua prioridade com a medicina familiar e preventiva pode ajudar a mudar a forma com a qual encaramos o nosso sistema de saúde. “Não se precisa de muito dinheiro para fazer saúde preventiva. Os recursos que se necessitam são recursos humanos”, afirma Mario. “Cuba é um país subdesenvolvido, mas temos resultados na medicina comparados aos de países desenvolvidos”, completa Maria.
E citam os índices de mortalidade infantil de Cuba (4,2 mortes para cada mil nascidos vivos). Para efeito de comparação, o Brasil – que tem liderado a redução global desse indicador – apresentou, em 2012, 15,7 mortes para cada mil nascidos vivos, de acordo com o IBGE.
Para Mario, não se pode analisar a doença longe do estrato social onde a pessoa mora. “É a doença dentro do lugar onde mora, onde desenvolve sua vida.”
Contam que a maioria da população mais pobre, que não estava acostumada a ter médicos à disposição, ainda está entendendo o que a presença deles significa. Mario diz que teve que convencer pacientes de que ele estaria lá o tempo todo. “Não, senhora, não precisa agendar a consulta para seis meses, um ano. Vou ficar aqui de segunda a sexta. Se você precisar, você vem e eu atendo você.”
Questionados sobre as denúncias de que estariam submetidos a trabalho escravo contemporâneo, demonstram indignação. “Quem tá falando isso? Que somos presos? Que somos escravos? Escravos não têm esses privilégios”, responde Mario. Ele diz que sua família tem à disposição um sistema educacional e de saúde gratuitos e que funcionam. E que fez faculdade de medicina, residência e mestrado sem ter que pagar pelos cursos, livros ou materiais. Portanto acha justo colaborar para que esse sistema continua funcionando.
“Se não ajudamos nosso país com nosso aporte monetário, quem vai ajudar? Além do mais, nossa família fica lá. Recebem saúde e educação gratuita e quem vai ajudar? E por isso somos escravos?”, pergunta Maria. Também reclamam de “sensacionalismo” com relação à divulgação da saída de alguns cubanos do programa. Rebatem que, apesar de serem milhares os participantes, “não chegam a 20″ os que deixaram o Mais Médicos.
E afirmam que, com as críticas, o programa mudou a forma de remuneração. Eles estão recebendo mais do governo cubano para custear a sua presença, mas também passaram a receber no Brasil o que antes era depositado em Cuba. O que, para eles, é pior. Com o depósito na ilha, o dinheiro permanecia lá rendendo juros. Agora perderão ao pagar impostos e trocarem o câmbio quando levarem o dinheiro de volta.
“Nós viemos com vários objetivos. Ajudar nossa família, ajudar nosso país, ajudar a melhorar nossa condição econômica e ajudar este país, à população que estava carente de médicos”, afirma Maria.
Também conversei com Janos Valery Gyuricza, médico brasileiro de família e comunidade e supervisor de sete cubanos dentro do programa Mais Médicos.
“No Brasil, apesar de termos 300 mil médicos, poucos são capacitados para trabalhar na atenção básica, diferentemente da maioria que tem vindo para trabalhar no Mais Médicos”, afirma. “Precisaríamos de uns 100 mil médicos capacitados para trabalhar na atenção primária para dar conta da população brasileira.”
De acordo com ele, a presença de médicos que saibam ouvir e se comunicar com o paciente de uma forma que ele entenda e que estejam sempre presentes nas comunidades, prevenindo o que for possível para que não se gaste remediando, pode mudar a forma como encaramos a saúde por aqui. “A partir do momento em que 35 milhões de pessoas virem que existe outro jeito de ser atendido, talvez haja mudanças na formação médica brasileira”, explica.
Sobre a relação trabalhista, comenta que os cubanos sabiam da divisão do dinheiro como seria feita e não se sentem injustiçados. “Eles não se sentem escravizados.” Contudo, tem ouvido que o dinheiro não é suficiente em alguns municípios com custo de vida mais alto – Cuba repassa o mesmo valor independentemente do local onde os trabalhadores estejam.
Conversei com auditores fiscais do trabalho e procuradores do trabalho e não há um consenso sobre a questão da remuneração. Alguns apontam que o modelo de remuneração é correto, pois faz parte da contratação de uma missão de outro país. Parte afirma que o ideal seria se os médicos recebessem o mesmo que profissionais de outras nacionalidades e, caso necessário, o Brasil pagaria, à parte, pelos serviços à empresa cubana de saúde. Cuba aumentou em pouco mais de 200 dólares o repasse, além de pagar a totalidade da remuneração no Brasil, como já foi dito acima. Mas independentemente disso, a questão da remuneração dos médicos cubanos do programa em centros urbanos como São Paulo, Rio e Brasília terá que ser repensada por conta do custo de vida elevado.
Por fim, Janos lembra que o desafio é grande não é só financeiro. E vai levar tempo para ser vencido: “Temos uma massa amorfa de médicos no Brasil, não temos um grupo de médicos organizado para que dê conta de toda a população. A vinda dos cubanos tem um potencial transformador porque eles estão entrando em um lugar em que existe uma falta importante. Não acho que isso seja a única coisa que deva ser feita, é uma ação emergencial, mas que tem o potencial de mudar o entendimento da população em geral sobre o que é ter um sistema de saúde”.
Cerveró deu uma aula de Pasadena
Cemig aumenta energia em 14,7% e empurra para o governo federal
O vídeo do Sindifisco de Minas destroça a propaganda enganosa. Mas só sai no You Tube
TERÇA-FEIRA, 15 DE ABRIL DE 2014, 17:09 HS
O apagão moral da CEMIG: propaganda mentirosa é fundo do poço para a estatal
Do site do deputado Rogério Correia
Uma propaganda produzida pela Companhia Energética de Minas Gerais (CEMIG) causou indignação entre mineiros e mineiras esta semana ao veicular informações mentirosas para justificar mais um aumento na tarifa energética do estado. Na tentativa de se eximir da responsabilidade do aumento e ao mesmo tempo desmoralizar o Governo Federal, a companhia elétrica atribuiu à Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) a alta de 14% na conta de energia. Uma mentira que coloca mais uma mancha na história da empresa estatal e reafirma a ligação escusa entre a CEMIG e o PSDB mineiro.
Na peça publicitária, veiculada na TV aberta durante o último final de semana, o ator Jonas Bloch, prestando um papel irresponsável, afirma que “A tarifa da CEMIG não é decidida pela CEMIG. Quem define é um órgão do governo federal, a ANEEL [Agência Nacional de Energia Elétrica], que fica lá em Brasília. E o governo federal, por meio da ANEEL, acaba de determinar um reajuste da nossa conta de energia elétrica da ordem de 14%”.
A campanha publicitária da estatal presta um grande desserviço ao enganar o povo mineiro quanto à responsabilidade sobre os aumentos intermináveis da conta de luz. A verdade é que a ANEEL é responsável apenas por analisar e julgar a procedência dos pedidos de reajustes realizados pelas companhias elétricas, como explica Romeu Rufino, diretor geral da ANEEL: “O processo se dá por um pedido da concessionária, no caso da Cemig, algo em torno de 29,7%. A ANEEL entendeu que esse reajuste seria da ordem de 14%. Essa é a realidade dos fatos” . Rufino ainda explicou que a empresa — no caso a CEMIG — tem total liberdade para reajustar o valor com um aumento menor do que o autorizado.
Mesmo com a barração do aumento de 29% pela ANEEL, é importante ressaltar que atualmente, o Estado de Minas Gerais já possui a tarifa elétrica mais cara do Brasil e o reajuste de 14% autorizado pela ANEEL não é compulsório. Ou seja, se a CEMIG anda mesmo tão preocupada com o bolso do mineiro quanto tenta transparecer em sua propaganda falaciosa, que não aplique reajuste nenhum! Minas Gerais agradece!
PT pede a suspensão da campanha publicitária e TRE nega
O Partido dos Trabalhadores de Minas Gerais protocolou no Tribunal Regional Eleitoral um pedido de suspensão da propaganda da CEMIG. A justificativa seria o caráter mentiroso e eleitoreiro da peça publicitária, vinda de uma estatal claramente associada ao reduto tucano em Minas Gerais.
O diretório estadual do PT publicou uma nota em seu site oficial criticando a ação de marketing eleitoral da CEMIG e justificando a ação no TRE. “O PSDB mineiro parece não ter limites nas reiteradas tentativas de enganar a população com falsas propagandas. Como se não bastasse querer se apropriar dos programas federais implantados em Minas, agora os tucanos tentam transferir para o governo federal a culpa pelo aumento na conta de luz”, afirmou Odair Cunha, presidente do PT-MG.
Mesmo com bons argumentos e com a clara intenção do PSDB de enganar o povo mineiro, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) negou o pedido do PT.

Quando Jonas fala de aumento na TV, num dos anúncios da CEMIG, ao fundo aparece em cor destacada o endereço da Aneel
*****
12/04/2014
NOTA OFICIAL DO PT-MG
O PSDB mineiro parece não ter limites nas reiteradas tentativas de enganar a população com falsas propagandas. Como se não bastasse querer se apropriar dos programas federais implantados em Minas, agora os tucanos tentam transferir para o governo federal a culpa pelo aumento na conta de luz.
Nos últimos dias, a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) patrocinou uma massiva campanha publicitária com o objetivo de se isentar do reajuste de 14,76% nas contas pagas pelos mineiros. A verdade, que novamente não está ao lado da propaganda tucana, é que a Cemig solicitou um aumento de quase 30% na conta de luz. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), discordando dos argumentos apresentados pela estatal para reajustar as tarifas, concedeu um reajuste de 14,7%, metade do que solicitou a companhia. Vale ressaltar que a Aneel só autoriza aumentos nas tarifas após a solicitação das distribuidoras, no caso a Cemig.
O pedido de quase 30% de aumento na conta paga pelos mineiros foi feito na semana em que a companhia anunciou um lucro de R$ 3,1 bilhões, em 2013. Se fosse aceito pelo órgão regulador, sozinha, a correção na conta de luz poderia representar uma elevação de 0,8 ponto percentual na inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) na Grande BH.
O que surpreende, além da incompatibilidade entre o lucro de R$ 3,1 bilhões e os exorbitantes pedidos de aumentos nas tarifas, é um dos argumentos utilizados pela empresa para rever a definição da Base de Remuneração da Cemig Distribuição, com o conseqüente impacto no valor da conta de luz. Dizendo ter investido acima do previsto na implantação do programa Luz Para Todos, a Cemig vai, a partir de abril, repassar para os mineiros parte dos valores gastos neste importante programa social do governo federal.
A falta de planejamento, de sensibilidade social e de compromisso com o controle dos índices inflacionários revelam a distância existente entre a prática e a propaganda do governo de Minas. Enquanto o governo federal faz sacrifícios para resolver os problemas, inclusive na questão da energia, baixando tarifas e implantando projetos como o Luz Para Todos, o estado de Minas, através da Cemig, erra cálculos, não realiza um bom planejamento e transfere para a população o ônus pela má gestão do PSDB.
Odair Cunha
Presidente Estadual do PT-MG

Na propaganda mais recente, destaque para o verbo gigante associado ao governo federal
DECISÃO
Aneel rebate anúncio: “Cemig pode dar desconto”
Tribunal Regional Eleitoral nega liminar ao PT, que alegava propaganda eleitoral antecipada
PUBLICADO EM 16/04/14 – 03h00, no diário mineiro O Tempo
Brasília. O diretor geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Romeu Rufino, convocou uma entrevista coletiva nesta terça para explicar como é feito o processo de reajuste das tarifas de energia elétrica.
A explicação detalhada ocorre imediatamente após a divulgação de um anúncio publicitário, por parte da Cemig – estatal de energia de Minas Gerais, governada desde 2003 por uma aliança comandada pelo PSDB – na qual aponta o governo federal como responsável pelo aumento da tarifa de luz local. O reajuste autorizado pela Aneel foi de 14%. Na propaganda, o ator Jonas Bloch diz: “A tarifa da Cemig não é decidida pela Cemig”. Quem define, afirma, “é um órgão do governo federal, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), que fica lá em Brasília”.
A distribuidora é responsável por encaminhar um pleito de aumento para a agência reguladora. No caso da empresa mineira, o pedido feito pela empresa era ainda maior do que o autorizado. “O processo se dá por um pedido da concessionária, no caso da Cemig, algo em torno de 29,7%. A Aneel entendeu que esse reajuste seria da ordem de 14%. Essa é a realidade dos fatos”, disse. Ainda segundo Rufino, a empresa tem liberdade para aplicar um aumento menor que o autorizado.
Em nota, a Cemig diz que em nenhum momento a campanha “afronta ou desrespeita o governo federal” e nega qualquer motivação política ou eleitoral.
Propaganda. O Tribunal Regional Eleitoral Paulo Cezar Dias negou, nesta terça, o pedido de liminar feito pelo PT por suposta propaganda eleitoral antecipada negativa em relação ao governo federal, veiculada na publicidade da Cemig.
Segundo o desembargador Paulo Cezar Dias, “os fatos, da forma como foram expostos, não permitem sequer em tese, concluir pela ocorrência da citada irregularidade”.
Vídeo montado por El Cid compara o que diz a Cemig com a verdade factual (dica de Lamarca 73 nos comentários
PS do Viomundo: Quem são os grandes acionistas privados da Cemig? Hein? Financiam campanhas eleitorais?
Leia também:
Fim dos tempos: A corporação que comanda o planeta
O post Cemig aumenta energia em 14,7% e empurra para o governo federal apareceu primeiro em Viomundo - O que você não vê na mídia.
São Paulo é a primeira cidade da américa-latina a transformar os Parklets em políticas Públicas
Hoje prefeito Haddad assinou o decreto que tranformou os Parklets em políticas públicas na cidade de São Paulo. O Instituto Mobilidade Verde, vem desde 2010 trabalhando para implantação dos parklets na cidade de São Paulo e a sua transformação em políticas públicas, na prática significa que tanto pessoas físicas quanto jurídicas poderão sob regras da prefeitura instalar pequenos espaços de convivio. O Instituto ajudou no decreto e também no desenvolvimento de um manual que ajuda as pessoas a construirem seus próprios Parklets, o manual será impresso pela prefeitura e uma versão em PFD ficará a disposição no site : Gestão Urbana SP
Escute entrevista com o presidente do Instituto Mobilidade Verde: CBN Notícias
Lincoln Paiva ( dir) , presidente do Instituto Mobilidade Verde com Fernando Haddad Prefeito da cidade de São Paulo durante inauguração do Parkelt

Bicho de sete cabeças
Em janeiro, a Pública fez uma reportagem baseada em dados incompletos sobre repasses federais à educação nas 12 cidades-sede da Copa do Mundo. Foi um erro, já admitido em um editorial na época. Entre outras coisas, nosso infográfico comparava os valores dos financiamentos a estádios aos repasses federais em educação para cada cidade. Os valores tinham como base a Matriz de Responsabilidades do Ministério do Esporte e o Portal da Transparência, mantido pela Controladoria-Geral da União (CGU).
A reportagem foi prontamente rebatida pelo governo federal. Tanto o Ministério da Educação (MEC) como a CGU soltaram notas contestando os números. Ambos apontavam que o valor repassado era, na verdade, muito maior. O MEC publicou uma nota afirmando que o governo federal havia destinado R$ 49,4 bilhões à educação nas cidades-sede da Copa somente em 2013. Já a CGU dizia haver verbas destinadas a educação que estavam em outras rubricas no Portal da Transparência e que deveriam ser levadas em conta – nossa reportagem somou apenas as contabilizadas sob a rubrica “Educação”. Uma verba importante, segundo a nota da CGU, seria, por exemplo, a do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), que no site é tratada sob a rubrica “Encargos Especiais”. Feito o pedido de desculpas no nosso site, nossa reportagem decidiu reparar o erro e esclarecer o valor real dos repasses federais para educação. Só não imaginávamos o emaranhado de complicações que viria a seguir. Durante dois meses, nossos repórteres procuraram os dois órgãos federais, estudaram a legislação e conversaram com especialistas para chegar ao dado correto. Descobriram que não existe uma base de dados única, nem uma norma nacional de como contabilizar os repasses de verbas federais para educação. Os números, portanto, podem ser facilmente manipulados de acordo com as conveniências políticas do momento. Acompanhe a saga da Pública em busca dos dados e entenda esse bicho de sete cabeças.
Esconde-esconde
A primeira coisa que nossa equipe fez foi pedir ao MEC que enviasse um detalhamento dos dados citados na nota, isto é, que abrisse os números usados para chegar aos alegados R$ 49,4 bilhões em educação destinados às cidades-sede em 2013. O pedido foi pelo telefone no dia 13 de janeiro. Parecia simples. Afinal, bastava mostrar a soma que o MEC tinha feito para chegar ao valor publicado. Nos dias que se seguiram, a reportagem ligou insistentemente para o ministério sem conseguir falar com ninguém. No quarto dia de tentativas, o MEC negou-se formalmente, por e-mail, a fornecer os dados completos: “As informações disponíveis foram as já mencionadas na nota em questão”. O Ministério da Educação afirmava categoricamente que só iria disponibilizar os números fechados, sem que pudéssemos avaliar os critérios adotados para fazer a conta. A reportagem ligou novamente para a assessoria e ouviu que só poderiam fornecer os dados pedidos se a “área técnica” consentisse em fazê-lo. Mas e se a área técnica se recusasse a fornecer quaisquer dados, ficaríamos à mercê disso? Veio ao nosso socorro a Lei de Acesso à Informação (12.527/2011) que estabelece no seu artigo 5º que “é dever do Estado garantir o direito de acesso à informação, que será franqueada, mediante procedimentos objetivos e ágeis, de forma transparente, clara e em linguagem de fácil compreensão”. Fizemos então um pedido ao MEC, usando a lei. No final do prazo de 20 dias, o MEC pediu mais dez de prorrogação. Mais uma vez, não nos restou outro jeito a não ser esperar. Mesmo assim seguimos ligando quase todos os dias para a assessoria, em busca das respostas. No final de um mês, o MEC respondeu com um simples parágrafo – e nenhum dado: “Em atenção ao questionamento, esclarecemos que os valores mencionados referem-se aos seguintes recursos: Fundeb (complementação da União); Cota-Parte da União para o Salário-Educação; Apoio à Alimentação Escolar na Educação Básica; Livros e Materiais Didáticos e Pedagógicos para a Educação Básica; Infraestrutura e Manutenção da Educação Básica; Apoio ao Transporte Escolar na Educação Básica; Funcionamento, Manutenção, Expansão e Reestruturação da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica; Funcionamento, Manutenção, Expansão e Reestruturação das Universidades Federais; Funcionamento, Manutenção e Reestruturação dos Hospitais Universitários Federais”. [relacionados] Não forneceu, portanto, os números que usou para chegar aos valores totais de investimentos em educação, divulgados com alarde em janeiro. Ao mesmo tempo em que tentávamos obter uma resposta do MEC, entramos em contato com uma assessora de imprensa da CGU que prometeu dar a resposta em cinco dias, na sexta-feira seguinte. Isso não foi cumprido. Na segunda-feira, a assessora era outra. O esconde-esconde se repetia. Ligamos, ligamos, ligamos. Finalmente, onze dias depois do primeiro pedido, vieram algumas tabelas (baixe o material completo enviado pela CGU, referente a 2010, 2011, 2012 e 2013). Elas mostram que os números são bastante discrepantes daqueles que o MEC considera como repasses federais para educação. A CGU esclareceu que contabilizou apenas os valores repassados pelo MEC às prefeituras das cidades-sede da Copa e entidades sem fins lucrativos. “É importante observar que esses valores são diferentes daqueles divulgados pelo MEC, por não incluírem as despesas executadas diretamente pelo governo federal (que lá estão incluídas)”, escreveu a assessoria por e-mail. Os dados também são diferentes daqueles que qualquer cidadão acessa no Portal da Transparência (da própria CGU), pois falam de valores empenhados. Como assim?
O bê-á-bá
A educação é uma área especialmente difícil de monitorar, por se tratar de uma responsabilidade compartilhada da União, estados e municípios, cada qual com a sua participação (veja o que compete a quem no infográfico no final desta matéria). No nível federal há uma série de programas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) que podem ser contabilizados como gastos na área: Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE); Programa Nacional de Apoio ao Transporte Escolar (PNATE); Programa Nacional de Tecnologia Educacional (ProInfo); Programa Um Computador por Aluno (Prouca); dentre vários outros. Há também repasses diretos que o MEC, via FNDE, disponibiliza para secretarias municipais e estaduais para comprar materiais para creches e escolas, adquirir livros didáticos ou custear reformas, por exemplo. Existe ainda uma diferença entre os tipos de verba que constam dos dados. Há, por exemplo, as verbas empenhadas e executadas. Imagine que o governo federal tenha reservado no orçamento deste ano uma quantia para a construção de 20 creches, solicitada pela cidade de São Paulo pelo programa ProInfância. Essa verba é, então, empenhada. Ela fica disponível o ano todo, mas só será paga, ou seja, executada, à medida que o município fizer as creches. Se, por qualquer motivo, em vez de 20 forem erguidas apenas 12, São Paulo só receberá uma parte do total comprometido. Isso significa que, em muitos casos, o valor executado é menor do que o empenhado. Assim, dependendo de quem estiver falando, pode ser mais interessante usar o valor maior (empenhado) ou o menor (executado). “A apresentação dos dados depende muito da metodologia que você usar. E essa metodologia é política, claro”, explica Cleomar Manhas, assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), organização que acompanha os gastos do orçamento público. Definir o que é de fato dinheiro federal esbarra em outro problema. Embora o Ministério da Educação tenha o costume de incluir repasses constitucionais no total dos gastos (como fez no nosso caso), isso não está certo, de acordo com os especialistas. “São recursos federais apenas aqueles que, após serem arrecadados e repartidos pelas normas constitucionais, ficam disponíveis para uso pelo Executivo federal. Não é correto contabilizar como verbas federais para estados e municípios as transferências constitucionais, porque esses recursos não pertencem à União e devem ser transferidos aos demais entes. Da mesma forma, os 25% do ICMS devidos aos municípios não são contabilizados como verbas estaduais”, diz Luiz Araújo, especialista em políticas públicas em educação, ex-presidente do Inep e presidente do PSOL. Tanto é assim que os repasses constitucionais não entram na conta dos 18% da arrecadação de impostos que, por lei, o governo federal tem de aplicar em educação. A União aplica seus recursos na manutenção de sua própria rede escolar (universidades e institutos tecnológicos) e em programas direcionados para as diversas etapas e modalidades da educação. Parte do dinheiro vai para estados e municípios. Existem dois tipos de transferências: diretas (para livros didáticos, alimentação escolar, transporte escolar e outras, que não dependem de convênios) e voluntárias (que dependem de convênios com outras entidades, como a construção de creches). Nesse cenário, diferentes critérios podem levar a números completamente distintos em relação à distribuição de verbas para educação. Os dados da nota de resposta do MEC para a Pública e as tabelas obtidas por essa reportagem demonstram isso. Só em Cuiabá, por exemplo, o valor que o MEC diz que o governo destinou à cidade é 86% maior do que a tabela divulgada pela CGU. Sem os repasses constitucionais, a diferença é maior ainda. Para o professor e também especialista em educação José Marcelino de Rezende Pinto, da Universidade de São Paulo (USP), a falta de transparência sobre gastos e verbas utilizadas é proposital, e ocorre desde a década de 1980. “Há a obrigação de se aplicar um mínimo em manutenção e desenvolvimento do ensino e existe uma má vontade quanto a isso. Criou-se uma tradição, na prestação de contas, por parte da União, de estados e de municípios, de procurar mascarar um pouco as despesas”, afirma. Segundo ele, usar artifícios para inflar os números serve para dificultar a fiscalização. Mesmo assim, relatórios dos Tribunais de Contas costumam denunciar esse tipo de manobra. Por isso, detalhar para onde vai a verba também é complicado. “Quanto mais você vai para o município, mais difícil fica. Eu, por exemplo, tendo a trabalhar com cenários nacionais”, diz.
Telefone sem fio
Dificuldade real, como descobrimos ao entrar em contato com as secretarias de Educação dos 11 estados cujas capitais receberão a Copa, mais o Distrito Federal. Pedimos para que informassem quanto da verba federal destinada à educação, repassada pela União aos governos estaduais e ao Distrito Federal, havia sido aplicada em educação básica em cada município-sede (uma parte do dinheiro usado em cada cidade chega por esse caminho). Depois de dez dias de espera, nenhuma delas enviou os dados pedidos, apenas justificativas – diferentes. Das 12 secretarias, cinco informaram apenas o valor total dos repasses do governo federal ao governo estadual ou distrital (Amazonas, Bahia, Distrito Federal, Paraná e Pernambuco), sem especificar quanto chegou à cidade-sede. Três secretarias – Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo – responderam que, como a solicitação tratava de recursos federais, o mais correto seria pedir os dados para o governo federal. “As assessorias de comunicação dos órgãos responsáveis pela educação no âmbito federal têm a real dimensão de tudo que é posto como investimento em educação e que foi encaminhado aos estados e municípios”, afirmou, em nota enviada por e-mail, a assessoria de imprensa da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Segundo a Secretaria de Educação do Mato Grosso, a divisão do estado em 12 regiões administrativas dificulta o levantamento do volume de recursos federais para Cuiabá. “A identificação de todos os investimentos com recursos federais na cidade depende de um minucioso trabalho de levantamento de dados e informações, bem como da consolidação e análise das mesmas. Desta forma precisamos, para garantir tais informações de forma fidedigna, de um prazo razoável de três meses”, explicou o órgão, por e-mail. Procuramos, também, as secretarias da educação das cidades-sede da Copa. Poucas responderam de acordo com o pedido, e os dados eram absolutamente divergentes em relação aos declarados pelo governo federal. “Os dados são mal agregados, as rubricas não são claramente apresentadas; os municípios não têm contas exclusivas para as diferentes fontes de receita da educação”, analisa Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, uma rede de mais de 200 entidades que atua para garantir o direito a uma educação pública, gratuita e de qualidade para todos no Brasil. “Não dá pra colocar mais recursos na área sem analisar criteriosamente a maneira como o gasto está sendo feito hoje. Eventualmente, várias redes públicas brasileiras teriam condição de pagar melhor os seus professores, mas como não tem essa transparência, a gente não consegue dimensionar o que tem sido feito em relação ao que poderia ser feito. Então a gente não consegue planejar o futuro.”
Quebra-cabeça
Para além da discrepância e resistência das assessorias em passar informações públicas, existem as bases de dados disponibilizadas na internet, como prevê a Lei de Acesso no artigo terceiro: “divulgação de informações de interesse público, independentemente de solicitações”. Em tese, todas as informações sobre as despesas e repasses do governo federal estão disponíveis para consulta na internet. Mas não é bem assim que funciona. Os dados muitas vezes aparecem em estado bruto, em uma linguagem técnica acessível somente para quem conhece a fundo o orçamento federal. Outras vezes, é preciso saber exatamente onde procurá-los. Mais complicado ainda é encontrar informações abrangentes e detalhadas, como repasses por cidade e por programa. Assim, se você quiser descobrir quanto o governo federal gasta em educação na sua cidade, o máximo que terá como resposta são dados incompletos ou difíceis de entender. O Portal da Transparência deveria ser a página mais amigável e simples de usar. Afinal, seu objetivo principal é permitir que qualquer cidadão acompanhe e fiscalize as verbas federais repassadas a estados e municípios, como previsto na Lei de Acesso. Com as ferramentas disponíveis no site, é fácil fazer uma busca para descobrir as transferências de recursos para um estado ou cidade. Mas os resultados surgem discriminados de forma técnica, em uma tabela que inclui Função (a área orçamentária), Ação governamental (o nome do programa), Linguagem cidadã (nome amigável de uma iniciativa) e Total no ano (o quanto foi o gasto). A disposição das informações segue a lógica dos técnicos do orçamento, não a de torná-las mais acessíveis para o público. Falta também uma preocupação em centralizar os gastos por tema. Assim, alguém poderia ver apenas quais foram as quantias destinadas para educação ou saúde, sem precisar navegar por todos os dados ou se preocupar com rubricas diferentes para gastos em uma mesma área – o que acontece, por exemplo, com o Fundeb, que está fora da rubrica “Educação”. Informações um pouco mais detalhadas sobre repasses constitucionais e programas federais podem ser obtidas pelo site do FNDE, que traz links para páginas como a do Tesouro Nacional. Ali estão as transferências constitucionais para estados e municípios (ou seja, aquelas que são obrigatórias e previstas na constituição, não fruto de decisão de cada governo). Há outras bases de consulta na página, mas elas são voltadas para especialistas e gestores governamentais – e inacessíveis para o público. Para Cleomar Manhas, do Inesc, a uniformização dos dados é essencial para a transparência pública. “As plataformas teriam que usar os mesmos critérios e disponibilizar as metodologias. Isso teria que ser acessível, transformado numa planilha manipulável. E aí você deixa claro nessas planilhas o que são gastos obrigatórios, repasses fundo a fundo. Se você deixa essa metodologia clara, fica fácil para quem vai acompanhar, fazer o controle social e entender quais são as suas opções, seus critérios”, afirma Cleomar. Mesmo iniciativas alternativas criadas para facilitar o acompanhamento dos repasses do governo federal são de difícil acesso para quem não tem experiência com dados orçamentários. A mais conhecida delas é o Siga Brasil, um sistema do Senado que congrega pelo menos oito bases de dados constantemente atualizadas pelo governo. Informações orçamentárias e administrativas de cada ministério e empresa estatal estão disponíveis para consulta. A ferramenta é usada por assessores técnicos de políticos e, desde 2004, está disponível também para toda a população. O Siga permite que você consulte as planilhas existentes, cruze dados, crie novas tabelas, gráficos, classificações e ainda torne a estética desse material mais atraente. As planilhas podem ser exportadas ou salvas no próprio sistema, usando um login de “usuário especialista”. Mas, no caso da nossa repórter, levou 6 dias para a Subsecretaria de Apoio Técnico do Senado mandar o login por e-mail. E esse não foi nem de longe o maior desafio que ela encarou.
Nossa repórter enfrenta o bicho-papão do Siga (por Giulia Afiune) Entrei no Siga Brasil esperançosa de conseguir os dados exatos sobre verbas para educação. Mas a expectativa foi frustrada assim que a página carregou. À esquerda, uma longa lista de pastinhas com nomes indecifráveis como “PPA” e “Orçamento Fiscal e Seguridade – Execução”. Desconfiando da minha capacidade cognitiva, me perguntei: “Por onde começar?” O próprio site oferece uma apostila de 112 páginas que ensina o passo a passo para mexer na ferramenta. Topei o desafio. Apesar de a apostila indicar o uso do Internet Explorer, o sistema funciona também no Firefox. Mas às vezes é preciso correr para fazer as consultas: a qualquer momento o sistema pode travar e é preciso começar tudo de novo. Quando tentei descobrir quanto o Ministério da Educação repassa para cada cidade-sede da Copa, encontrei um documento confuso, com informações sem classificação clara, discriminando apenas os repasses gerais para prefeituras, programas de universidades federais e escolas municipais específicas. Não era possível saber que critério foi utilizado para agrupar esses dados, nem se eles correspondiam a todos os recursos enviados pelo MEC. Quando fui tentar fazer a pesquisa de novo: erro na página. A apostila esclarece que você precisa saber e-x-a-t-a-m-e-n-t-e o que está procurando. Para encontrar e interpretar os dados é preciso entender como funciona o orçamento, quais são os programas existentes dentro de cada área e qual é a terminologia correspondente usada pelo Siga. Nada perto da “linguagem de fácil compreensão” garantida pela lei. O site do Senado ainda tenta ajudar, disponibilizando uma seção de vídeos que explicam didaticamente como funciona o orçamento, e o do Inesc traz até um joguinho interativo. Mas nada disso é suficiente para facilitar o uso do Siga – que, no entanto, segue afirmando na sua apostila que o sistema “promoveu a transparência orçamentária e o controle social dos gastos públicos”.
Especialistas ouvidos pela Pública consideram urgente uma maior transparência nas contas da educação. Para Daniel Cara, sem saber os valores reais dos gastos é impossível melhorar a educação. Ou seja, a falta de transparência leva a um debate no escuro e revela a falta de compromisso com o que é público. “As prefeituras deveriam respeitar um formato unificado de termos e critérios. Separar: a conta do Fundeb, uma conta para os 5% que não são aplicados no Fundeb, uma conta para o resultado da aplicação financeira do Fundeb e uma conta para o Salário-Educação. Tornar públicos, em planilhas de Excel, o saldo, a movimentação dessas contas”, diz.
Moral da história
A Pública fez um guia básico sobre os repasses federais na educação. O infográfico foi produzido com a ajuda de Salomão Ximenes, da ONG Ação Educativa, de Daniel Cara, da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, e de José Marcelino de Rezende Pinto, da USP; também teve como fonte o livro Bicho de Sete Cabeças, de Madza Ednir e Marcos Bassi, lançado pela Ação Educativa em 2009. Navegue, explore e compartilhe! 
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Globo, que não mostrou o DARF, tenta intimidar blogueiros
“proponho à Redação de “O Globo” uma troca singela: dou entrevista e respondo tudo o que quiserem saber, desde que a família Marinho (que ficou bilionária graças a uma concessão pública) apresente o famoso DARF e esclareça se pagou (ou não) a suposta dívida com a Receita Federal.”
por Rodrigo Vianna
Não devo um tostão em impostos. Não sei se as “Organizações Globo” podem dizer o mesmo.
O fato é que os bilionários da família Marinho estão incomodados, e querem intimidar os blogueiros. É uma batalha descomunal. Eu – que batuco meus textos num escritório improvisado no fundo de casa – de repente virei tema de “reportagem” de um império midiático com centenas de jornalistas Brasil afora?
Vejam só. Na tarde de segunda-feira (14/abril), fui procurado por uma suposta jornalista de “O Globo”, que me enviou a singela mensagem: “Prezado Rodrigo, Sou repórter do jornal O Globo e estou fazendo uma matéria sobre a entrevista coletiva do ex-presidente Lula com blogueiros na semana passada. Nós poderíamos conversar por telefone? Atenciosamente, Barbara Marcolini -Jornal O Globo”.
Curioso que o jornal conservador da zona sul carioca tenha levado uma semana para se interessar pelo tema, não? A entrevista de Lula aos blogueiros foi um sucesso enorme, gerando manchetes Brasil afora. A imprensa velha passou recibo. Ficou furiosa.
Editoriais, comentários na TV e rádio, colunistas conservadores: muitos se mobilizaram para atacar os blogueiros “sujos”. Alguns ataques vieram com acusações graves: fomos acusados de ser “financiados” pelo governo federal. E os mais incomodados parecem ser os colunistas das chamadas “Organizações Globo”.
Nada disso é por acaso. Trabalhei na Globo. Sei como essas coisas são. Quando jornal, TV, internet e rádio da família Marinho começam a bater na mesma tecla – ao mesmo tempo – é porque há uma ordem superior, uma determinação do patrão (ou de seus prepostos) para ir fundo naquele assunto.
Pedi que a repórter Barbara me enviasse as perguntas por escrito. Tenho pela repórter (a quem não conheço) respeito profissional. Mas considero “O Globo” e as “Organizações Globo” adversários. E sei que os prepostos da família Marinho me tratam como inimigo. Pessoa de minha família foi demitida da TV Globo, em 2010, depois que passei a assumir um posicionamento político claro em meu blog. Eles chegam a esse nível. São vingativos. Por isso, não há hipótese de responder nada a “O Globo” – a não ser por escrito.
Até as 21h, as perguntas de Barbara não vieram. Mas eu soube que outros blogueiros também foram procurados por jornalistas de “O Globo” – com a mesma pauta: a entrevista de Lula. Pelo menos 3 repórteres diferentes do jornal foram mobilizados na Operação. Objetivo era estabelecer vinculações “comprometedoras” entre os blogueiros e determinadas empresas, entidades e/ou governo (veja aqui a resposta do Fernando Brito, do Tijolaço, à tentativa de intimidação).
Mas não era só isso. Uma das repórteres globais chegou a perguntar a um blogueiro (a entrevista está gravada) se ele tinha filiação partidária. Sim, o macartismo da Globo avançou até esse ponto.
Trata-se de uma Operação para intimidar aqueles que nos últimos anos – ainda que de forma limitada – criaram um contraponto ao poder da velha mídia. Os barões da imprensa velhaca não se conformam com o fato de meia dúzia de blogueiros “sujos” oferecerem uma outra narrativa ao Brasil. A Globo, a Abril e a Folha seguem a ter imenso poder. Mas já não falam sozinhas.
Seria bom que soubessem: com essa tentativa de cerco, em vez de intimidar, vão mobilizar ainda mais blogueiros e internautas.
A Globo não tem estatura moral para cobrar explicações de ninguém. Vamos relembrar alguns episódios recentes:
- a Globo foi acusada de sonegar impostos (mais de 1 bilhão em valores atualizados – clique aqui para saber mais), e até hoje não esclareceu o episódio;
- o processo fiscal em que a Globo era investigada por bilionária sonegação “sumiu” (na verdade, teria sido roubado) de uma agência da Receita Federal no Rio, e a Globo até hoje não explicou o caso;
- um diretor da Globo, Ali Kamel, processa pelos menos 6 blogueiros (entre eles este escrevinhador), numa tentativa clara de intimidação judicial, de calar as vozes que em 2006 e 2010 ajudaram a desmascarar a tentativa da Globo de interferir no processo eleitoral;
- por fim, a Globo (estou falando só da TV) recebeu quase 6 bilhões do governo federal nos últimos anos – como mostra a tabela abaixo, publicada pelo VioMundo e pelo jornalista Fernando Rodrigues.
E essa mesma Globo de 6 bilhões em recursos públicos (recursos dos seus, dos meus impostos!) quer acusar blogueiros de serem “financiados” pelo governo?!
É piada.
De minha parte, sou jornalista profissional. Vivo do trabalho como repórter de TV. Já vendi minha força de trabalho para a “Folha”, a “TV Cultura”, a “TV Globo” – e hoje sou repórter na “TV Record”. Jamais vendi meu cérebro para nenhum patrão. Tenho posições políticas claras. Públicas. E por conta delas comprei briga com a Globo em 2006 – deixando a emissora.
Não vejo nada de anormal em blogs e sites sem vinculação com a velha mídia pleitearem publicidade. Mas, felizmente, não preciso disso para seguir travando o bom combate. Nunca entrei na SECOM do governo federal para tratar de dinheiro. E nem em qualquer outra secretaria de Comunicação Brasil afora.
Minha questão é política. Encaro o debate de forma aberta – jamais de braços dados com ditadores, ou beneficiado por acordos obscuros com embaixadas e governos estrangeiros. O Escrevinhador não tem em seu currículo: TimeLife, apoio a uma ditadura assassina, escândalo Proconsult contra Brizola em 82, manipulação da cobertura das Diretas-Já, edição criminosa do debate Lula/Collor em 89, combate ao Bolsa-Família, oposição às quotas para negros, tentativa de transformar bolinha de papel num míssil em 2010…
Os gastos mensais para manter meu blog hoje são de aproximadamente 2,5 mil reais. Conto com anúncios do Google (valores irrisórios) e com a colaboração de leitores, e ainda tiro dinheiro do meu bolso para cobrir as despesas. Em 6 anos, devo ter recebido 6 anúncios pontuais de governos ou entidades sindicais. Nenhum deles por mais de um mês. Nenhum deles superior a 2 mil reais (ou seja, no total os anúncios não chegaram a 15 mil reais em quase 6 anos – contra despesas de aproximadamente 150 mil no mesmo período).
Tenho lutado para que os blogueiros se organizem, façam parcerias com empresas ou criem associações para disputar, sim, o direito a participar do bolo publicitário – inclusive as verbas oficiais, que ajudaram a família Marinho a ficar bilionária nos últimos anos.
Aliás, proponho à Redação de “O Globo” uma troca singela: dou entrevista e respondo tudo o que quiserem saber, desde que a família Marinho (que ficou bilionária graças a uma concessão pública) abra suas contas e apresente o famoso DARF – esclarecendo se pagou (ou não) a suposta dívida com a Receita Federal.
Que tal, Bárbara? Passa a sugestão pros seus chefes aí!
Galeano: “Eu não seria capaz de ler de novo ‘As Veias Abertas…’, cairia desmaiado”
Em 1998, entrevistei a escritora Rachel de Queiroz (1910-2003) e ela me confessou sentir “antipatia mortal” por O Quinze, o clássico da literatura brasileira que publicou aos 20 anos, em 1930, e que, desde então, seria sua “obra mais importante e mais popular” (tudo quanto é enciclopédia se refere assim ao livro). O mesmo acontece com As Veias Abertas da América Latina e o escritor uruguaio Eduardo Galeano. Publicado em 1971, quando Galeano tinha 30 anos, a obra até hoje o persegue. É sempre nomeado como “o autor de As Veias Abertas…“, o que, pelo visto, o incomoda –mesmo porque tem mais de 30 livros além dele.
Na entrevista coletiva que deu na sexta-feira 11 em Brasília, onde veio para ser o escritor homenageado da 2ª Bienal do Livro e da Leitura, Galeano ouviu provavelmente a milionésima pergunta sobre Veias Abertas. “Faz 40 anos que você escreveu As Veias Abertas da América Latina. Quais são as veias abertas hoje em dia?” E ele, em um português bastante razoável: “Seria para mim impossível responder a uma pergunta assim, especialmente porque, depois de tantos anos, não me sinto tão ligado a esse livro como quando o escrevi. O tempo passou, comecei a tentar outras coisas, a me aproximar mais à realidade humana em geral e em especial à economia política –porque As Veias Abertas tentou ser um livro de economia política, só que eu ainda não tinha a formação necessária. Não estou arrependido de tê-lo escrito, mas é uma etapa superada. Eu não seria capaz de ler de novo esse livro, cairia desmaiado. Para mim essa prosa de esquerda tradicional é chatíssima. O meu físico não aguentaria. Seria internado no pronto-socorro… ‘Tem alguma cama livre?’, perguntaria.” Risadas.
Aproveito e emendo: mas o que você achou de Chávez dar o livro para o Obama? Obama entenderia As Veias Abertas…? “Nem Obama nem Chávez”, responde Galeano para gargalhada geral. “Claro, porque ele entregou a Obama com a melhor intenção do mundo –Chávez era um santo, cara mais bondoso que esse eu não conheci–, mas deu de presente a Obama um livro em uma língua que ele não conhece. Então, foi um gesto generoso, mas um pouco cruel.”
Eu nunca tinha visto o grande escritor uruguaio de perto. É mais baixo do que imaginava, cerca de 1m70. Bastante frágil, aparenta ter mais do que seus 73 anos. Ele mesmo comenta que a maioria dos escritores é de esquerda e, como tal, chegados a uma boemia e isso não faz bem à saúde… Uma menina pergunta: “A idade não é boa para os jogadores de futebol. E para os escritores?” Galeano discorda. “Depende. Tem velhos muito mais jovens que os velhos velhíssimos e tem velhos que você acha que estão esperando a morte e surpreendentemente acabam ganhando uma partida por 8 a zero. Não depende da biologia nem do prognóstico dos profetas. Não depende de ninguém. O melhor que o futebol tem como esporte –a festa que o futebol é, a festa das pernas que jogam, a festa dos olhos– é a capacidade de surpresa, de assombro. Na verdade ninguém sabe o que vai acontecer. E menos ainda os especialistas. Aqueles doutores do futebol são seres temíveis, perigosíssimos para a sociedade e o mundo em geral.”
Outro jornalista espeta: “Por que a esquerda não deu certo na América Latina?” Galeano não se faz de rogado: “Algumas vezes deu certo, algumas vezes, não. A realidade é mutável, a realidade política e todas as outras –por sorte. Senão seríamos estátuas, estaríamos congelados no tempo. Não é verdade que a esquerda não deu certo. Deu certo e muitas vezes foi demolida por ter dado certo, por ter tido razão, porque o que a esquerda predicou, em certo momento na América Latina, resultou ser a verdade, então foi punida. Punida pelos golpes de Estado, ditaduras militares, períodos prolongadíssimos de terror de Estado, crimes horrorosos cometidos em nome da paz social, do progresso. Da convivência democrática, imaginem! Que democracia e que convivência são essas? Tinham que perguntar: ‘do que está falando, senhor?’ As coisas são muito mais complexas do que parecem. Em alguns períodos, também, a esquerda comete erros gravíssimos e em outros, não, faz o que deve ser feito da melhor maneira, até além do que o próprio movimento de massas estava esperando. A realidade sempre tem esse poder de surpresa. Te surpreende com a resposta que dá a perguntas nunca formuladas. E que são as mais tentadoras. O grande estímulo para a vida está aí, na capacidade de adivinhar possíveis perguntas não formuladas.”
Galeano está cansado, foram muitas horas de viagem para chegar à capital federal, e quer encerrar a entrevista. Eu protesto: “Mas e Mujica? Você não vai falar de Mujica?” Ele não resiste e se senta de novo. “Estou meio cansado, estou fatigado de falar de Mujica, porque todo mundo fala dele! Até em outros planetas se fala de Mujica. Em Marte, Júpiter… É incrível a capacidade de ressonância que Mujica tem. E ele é muito meu amigo, já faz muitos anos. A única coisa que posso fazer para incorporar um grão de areia a esta praia imensa de Mujica caminhando pelo mundo seria contar uma piccola história que dá ideia da qualidade humana do personagem.”
E começou a narrar, saborosamente, como é de seu feitio:
“Faz uns quatro anos –não tenho interesse em lembrar direito a data– fui operado de câncer. Foi um câncer sério, agudo. Tomei uma anestesia muito forte, dessas que não desaparecem rápido. E estava sozinho na cama do hospital, esperando que passasse o efeito da anestesia. Ou seja, mais dormido do que acordado. Sem saber muito o que acontecia, onde estava, delirando. E neste período, estando sozinho em uma cama –sozinho, não, acompanhado pelo câncer, mas o câncer não é um amigo confiável. Não te recomendo. Bem, estava eu ali e volta e meia delirava. Como sou muito futeboleiro, um religioso da bola, tinha delírios futebolistas que me levaram aos anos de infância, quando jogava na rua, com bolas improvisadas, feitas com trapos velhos. E em uma dessas fugas, comecei a bater bola. Como se fosse uma múmia egípcia que tinha errado de domicílio, jogando futebol contra ninguém e sem bola nenhuma, só na imaginação. Chutava a bola e ela voltava, chutava e ela voltava. Tudo debaixo do lençol. E nada, a bola continuava, como se estivesse morta de riso da minha estupidez de achar que podia com ela. ‘Não, você não pode comigo’. Numa dessas, senti um peso em cima dos meus joelhos. Aí começo a recobrar a realidade e vejo alguém que conheço, uma voz que reconheço, de um amigo. E pergunto:
–O que você está fazendo aqui?
E ele:
–Isso é maneira de receber um amigo?
–Não importa, quero saber o que você faz aqui. Está doente também?
–Que é isso, estou saudabilíssimo. O enfermo é você.
–Estou sabendo. Obrigado pela notícia, mas já estou sabendo.
–O doente é você, está fodido, irmão. Eu vim te visitar. Agora, não sabia que se recebia um amigo assim, chutando-o, chutando-o e chutando-o. Não é muito educado.
Continuamos nessa até que eu falei:
–Olhe, chega. Sua função não é estar aqui brincando comigo. Você é o presidente da Repoública e sua função é governar. Mujica, você é o presidente! Vai governar este país já! Estamos precisando de sua participação ativa, desinteressada, importantíssima para o nosso povo. Não perca mais tempo comigo.
–Ah, bela maneira de ser amigo, hein?
–Será bela ou será feia, mas é a única maneira para você. Você é o presidente! Além disso, para piorar, todo mundo gosta de você e quer que continue sendo presidente por uns 300 anos mais. Se você não gosta, foda-se.
E aí acabou.”
Na saída, consigo falar a Eduardo Galeano do enorme prazer que sinto em conhecê-lo pessoalmente e lhe conto que adoro O Livro dos Abraços. Ele olha para mim e diz: “Eu também”.
Ufa.
A city for men and women, boys and girls
Allan PatrickRola uma lágrima quando eu imagino que o decrépito viaduto do Baldo poderia ser demolido e um parque assim ser construído no seu lugar ;(
I was recently approached by two Danish teenage girls – Mira and Camille – who wanted to do a project about ‘urban worlds’ in Copenhagen, and it immediately sparkled my curiosity – why the interest in that topic? How did they themselves experience the urban worlds of the city? Do they have an urban world where they feel at home? Reflecting on these questions I started thinking more generally about the notion of democratic public spaces.
In recent years there has been an ongoing debate about girls in public spaces in Copenhagen. There seems to be a tendency towards girls using the newly redesigned public spaces far less than boys. Why is that? Can – and should – we do something about it? In the name of ‘the healthy city’ many of the new public spaces focus on ‘active spaces’ and it often results in trajectories and skate parks. Very few girls are active in these spaces, and if present they are to a large extent ‘reduced to passive spectators’.
A number of municipalities in the Copenhagen area have taken up the challenge of how to incorporate the girls’ perspective into planning. Some of the insights gained from this initiative (which were also echoed in my conversation with Mira and Camille) seem to indicate that many young girls simply spend time at home and not in the public space. Why is that? Are there hidden barriers that we’re unaware of? What types of public spaces could possibly attract young girls to be more ‘active’?
The presence of both men and women in public spaces are good indications of spaces with a high level of sense of security, and for this reason we at Gehl Architects also do gender mappings as part of our PSPL’s. But perhaps we need to sharpen our understanding of how – not only men and women but also boys and girls use and perceive the public spaces differently? Surely ‘girls’ are by no means a homogenous group and it may not – despite all good intentions – be possible to create ‘public spaces for all’ as is often stated in vision documents, but an increased awareness of the issues at stake seems to be an important place to start.
Vienna has since the early 1990’s worked consciously and strategically with the implementation of a gender mainstreaming program – an initiative which has led to an increased focus on the many different needs related to public spaces (Read more here) . Some would (rightly) argue that it would be a shame to start creating spaces for either men or women, but to see ‘defining needs as a continuous process’ doesn’t seem like such a bad idea.
Dois telespectadores que se espantaram com o Jornal Nacional

2 DE ABRIL DE 2014
ERRARAM
Plim plim: dois pesos, duas medidas
O equilíbrio é um princípio importante para o bom jornalismo. Especialmente quando está baseado em critérios objetivos e pode, de alguma forma, ser verificado. Junto à busca pela verdade e à pluralidade de opiniões, ele forja os princípios da atividade jornalística moderna.
Se você tem a impressão de que este equilíbrio é muitas vezes colocado de lado na cobertura dos casos mais rumorosos da política nacional, você está certo. O Muda Mais fez os cálculos do noticiário do Jornal Nacional sobre as denúncias de formação de cartel e pagamento de propinas no Metrô de São Paulo e os comparou com a cobertura da compra da refinaria de Pasadena pela Petrobrás. Resultado: a média de exposição diária do caso Petrobrás é nada menos do que 13 vezes maior do que o caso Alstom/Metrô de SP.
Entre 7 de novembro de 2013 e 25 de março último, ou seja, em 130 edições do JN, as denúncias e investigações sobre corrupção no Metrô de SP ocuparam cerca de 77 minutos do telejornal. Foram divulgadas 23 matérias. A mais longa teve 8 minutos e 15 segundos. Cinco delas duraram menos de 1 minuto. Em todas, o assunto era bem ponderado. Todos os acusados tinham direito de resposta para rebater as acusações. E todos, claro, refutaram. As expressões usadas nos textos das reportagem também são bem suaves. Para o Jornal Nacional, não há quadrilha, mas um “suposto cartel”. E não há acusados, mas suspeitos.
Em comparação, desde que o caso Petrobras/Pasadena eclodiu, há 11 dias, o Jornal Nacional dedicou a ele 64,5 minutos de cobertura. Foram 10 matérias, três delas com pelo menos 10 minutos cada. Nenhuma com menos de 3 minutos. E em todas não há suspeitos, mas acusados. E não há supostas questões contratuais no processo de aquisição da refinaria, mas irregularidades na compra da refinaria.
Vale a pena destrinchar os dados relativos às exposições dos dois casos no telejornal – que vai ao ar de segunda a sábado. Desde que surgiram as primeiras denúncias do caso do Metrô de São Paulo, os telespectadores ouviram “boa noite” da bancada do JN cerca de 130 vezes. Durante cinco meses completos, o tema foi abordado em 23 edições. Por outro lado, em apenas 11 dias – ou seja, 10 edições, excluindo-se o domingo – o caso Petrobras foi abordado em todas as oportunidades, ininterruptamente.
Portanto, se dividirmos o tempo total de exposição de cada um dos temas pelo número de edições que foram ao ar do telejornal desde a primeira aparição deles no noticiário, teremos algo curioso. Para o Metrô de São Paulo, nas 130 edições, houve 77 minutos de cobertura, ou seja, uma média de exposição diária de 35 segundos. Já o caso Petrobras chegou ao horário nobre da TV Globo por 64,5 minutos nas 10 edições, o equivalente a uma média de 6 minutos e 30 segundos de exposição diária. Os cálculos apontam para uma cobertura, proporcionalmente, 13 vezes maior do caso Petobrás em comparação ao do Metrô.
É compreensível que, em 130 edições, a temática acabe por se diluir e, portanto, apareça menos frequentemente ao longo do tempo. Chama a atenção, no entanto, que em apenas 10 edições, o caso Petrobras já tenha um tempo de exposição tão próximo ao caso do Metrô.
O tratamento desproporcional dado pelo Jornal Nacional a temas ligados ao PSDB e ao PT, ou, se você preferir, ao governo federal e ao governo do estado de São Paulo, não é propriamente uma novidade. Mas é sempre bom ir para a prancheta e colocar os pingos nos is. Se “ouvir os dois lados” é um princípio do bom jornalismo, que nome se dá quando eles são tratados com dois pesos e duas medidas?
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A resposta da Globo a Dilma
Eduardo Guimarães, no blog da Cidadania, em 14.02.2014
A coluna da jornalista Monica Bergamo na Folha de São Paulo da última quinta-feira feira (10) deu uma informação algo surpreendente: na segunda-feira (8), a presidente Dilma Rousseff recebeu o vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho, que foi a ela com pleitos sobre a suposta interferência da rede de telefonia celular 4G na transmissão de tevê digital.
Segundo a jornalista em questão, Dilma teria manifestado a Marinho desconforto com o noticiário da Globo contra o governo federal. A matéria, tal como foi veiculada na coluna de Bergamo, deixa entender que a presidente teria, de alguma forma, vinculado o atendimento do pleito do barão da mídia a maior comedimento no partidarismo político da Globo.
Não se sabe se houve mesmo algo nesse sentido, mas não parece verossímil que Dilma propusesse tal barganha. O mais provável é que ela apenas tenha aproveitado a oportunidade, mas sem proposição de qualquer troca de favores. Até porque, para os barões da mídia seria uma troca muito aquém de suas pretensões hegemônicas.
Seja como for, Dilma teria ponderado com Marinho que sua emissora vem “carregando nas tintas” do noticiário contra o governo federal, e não só no caso Petrobrás. O Jornal Nacional da mesma terça-feira em que o vice-presidente da Globo e a presidente da República se encontraram teve 16 minutos de pancadaria contra o governo.
O telejornal em questão tem duração de pouco mais de 30 minutos. Ou seja: a Globo gastou metade de seu principal telejornal para atacar o governo com atraso nas obras da Copa, críticas à economia e, claro, com ataques à Petrobrás.
Naquele mesmo dia, enquanto Dilma e Marinho se encontravam, Lula dava entrevista a blogueiros…
Na noite do mesmo 8 de abril, o Jornal Nacional começou a artilharia com uma matéria sobre atraso em obras da Copa que durou 4:01 minutos. Mais 2:27 minutos foram gastos com o tema que levou Marinho a Dilma, a interferência da rede 4G na TV digital. E mais pancadaria sobre o governo com matéria sobre baixo crescimento da economia que durou 35 segundos, com o caso do deputado André Vargas por 2:47 minutos, com ataques à Petrobrás por 3:08 minutos, com a CPI da Petrobrás por mais 2:36 minutos. No total, foram 15 minutos e 56 segundos de espancamento do governo.
Até aí, a ponderação de Dilma com Marinho talvez não pudesse ter surtido efeito; tinham conversado horas antes da edição massacrante do JN. Vejamos, então, o que ocorreu nos dias seguintes.
Em 9 de abril, em 5 minutos de Jornal Nacional, durante 21 segundos o primeiro ataque ao governo Dilma se dá na questão da energia elétrica, supostamente subfaturada aos brasileiros por razões políticas. Eis que, como que para afetar “isenção”, o JN apresenta uma reportagem de 1:05 minuto desfavorável ao PSDB, sobre o racionamento de água que já ocorre na grande São Paulo, mas a Globo não diz. E a reportagem não toca na responsabilidade do governo Alckmin, apenas apresenta o problema que pode se abater sobre a grande São Paulo. Porém, logo o telejornal retoma o ataque ao governo. Foram 2:38 minutos para o deputado André Vargas, 2:04 minutos para a inflação, 2:58 minutos para a CPI da Petrobrás. Ao total, foram 7:23 minutos contra o governo do PT e 1:05 minuto contra o do PSDB.
Em 10 de abril, dia da nota na Folha sobre a queixa de Dilma a Marinho, mais 2:19 minutos para inflação, 2:02 minutos para incentivar as pessoas a economizarem água em São Paulo (uma bela ajuda a Alckmin), 2:39 minutos para criticar atraso nas obras das Olimpíadas de 2016, 38 segundos (isso mesmo, 38 segundos) para noticiar que o ex-ministro de FHC e candidato de Aécio ao governo de Minas Gerais (Pimenta da Veiga) foi indiciado por lavagem de dinheiro, 43 segundos contra o deputado André Vargas, 4:25 minutos para vincular Dilma e Lula a compra por FHC em 2001 de usinas termelétricas da Alstom (o que obrigou os petistas a manterem contratos que o tucano assinou), 23 segundos contra a Petrobrás e 1:44 minutos para dar razão à oposição contra o governo na ampliação do escopo da CPI da Petrobrás, atacando decisão de Renan Calheiros de permitir a investigação, também, de escândalos envolvendo PSDB e PSB. No total, foram 12:23 minutos contra o governo, 2:02 minutos a favor de Alckmin e 43 segundos contra o PSDB.
Em 11 de abril, o JN começa com Dilma na defensiva, dando explicações sobre a inflação em matéria de 52 segundos. Em seguida, notícia distorcida de 2:21 minutos de duração sobre recuo na atividade econômica, reportagem de 23 segundos sobre problemas nas obras da Copa, reportagem de 1:57 minuto sobre corrupção na Petrobrás, mais 1:36 minuto sobre o mesmo tema e mais 33 segundos sobre o doleiro envolvido com o deputado André Vargas. Desta vez, foram “só” 7:10 minutos, mas só contra o governo Dilma e o PT, sem nada contra a oposição.
Em ano eleitoral, quando a mídia escolhe maioria tão avassaladora de matérias desfavoráveis a um lado e gasta tão pouco contra o outro lado, provoca efeitos eleitorais. Alguns dirão que tudo que o JN noticiou contra o governo Dilma e o PT tinha que ser noticiado. Só que não existem problemas só desse lado.
O caso de Pimenta da Veiga, candidato do presidenciável Aécio Neves ao governo de Minas e que foi indiciado por lavagem de dinheiro, por certo mereceria bem mais do que 38 segundos. O racionamento de água no maior centro urbano da América Latina – bem como as responsabilidades pelo problema – mereceria muito mais atenção de um jornalismo sério. O escândalo do cartel de trens em São Paulo, já em fase adiantada de investigação, inclusive com políticos do PSDB sendo investigados pelo STF, esse sumiu de vez.
Ao deputado André Vargas poder-se-ia contrapor Robson Marinho, homem forte do tucanato paulista no Tribunal de Contas do Estado de São Paulo e que está envolvido até o pescoço no escândalo dos trens paulistas, mas continua trabalhando normalmente. Ou poder-se-ia contrapor o caso de Pimenta da Veiga, muito mais grave. Mas o JN faz suas escolhas…
O que impressiona é a presidente Dilma ter achado – se é que a matéria de Monica Bergamo é verdadeira – que poderia chamar um dos irmãos Marinho à razão. Aliás, melhor dizendo, chamá-lo à responsabilidade, já que, por ser uma concessão pública, a faixa do espectro radioelétrico que a Globo ocupa não pode ser usada com fins político-partidários.
PS do Viomundo: Surpresos? Agora vocês entendem o que foi que revoltou um grupo de jornalistas da TV Globo de São Paulo, durante a campanha eleitoral de 2006. Além dos escândalos produzidos pelo serviço de inteligência da campanha tucana, que passam a dominar o noticiário, o viés do Jornal Nacional torna-se completamente amargo alguns meses antes das eleições. Mera coincidência.
Leia também:
Os ataques da Folha ao Ipea, na Venezuela
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GUEST POST: TROTES EM QUE ALUNAS SÃO ESTUPRADAS
Allan PatrickTrote = facismo
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| Trote de 2011, Unesp Botucatu |
Acreditamos que uma colega das vítimas fez a denúncia ao jornal local como forma de pedir socorro sobre a situação que estamos vivendo.Paulo Nogueira: O Estadão mente sobre a entrevista de Lula

A mentira do Estadão sobre a entrevista de Lula
Por Paulo Nogueira, em 10.04.2014, no DCM
Você avalia o compromisso com a verdade de algum veículo quando conhece o assunto.
Leio que o Estadão, em editorial, afirmou que os blogueiros convidados por Lula para uma entrevista tiveram que garantir que não fariam perguntas incômodas e nem contestariam respostas.
O DCM foi convidado, na pessoa de Kiko, e participou da entrevista, e podemos dizer: o Estadão mentiu.
Nenhuma instrução foi dada. O convite chegou a Kiko, e depois foram dadas breves explicações sobre como seria a entrevista. Foi só isso. Não houve um único pedido ou uma só recomendação.
Repito: o Estadão mentiu.
Que Lula tenha escolhido falar com representantes da internet, e não da mídia tradicional, é fácil de entender.
Primeiro, ele queria reconhecer formalmente a importância da internet no debate jornalístico brasileiro, e como contraponto ao conteúdo viciado das grandes empresas de jornalismo.
Depois, ele sabia que suas palavras não seriam deturpadas, e também que não lhe seriam preparadas armadilhas por quem tem recorrido a um abjeto valetudo para sabotar qualquer iniciativa destinada a retirar velhos privilégios que levaram o Brasil a ser um campeão mundial da desigualdade.
Lembro que Dilma concedeu, em seus primeiros tempos de presidência, uma entrevista à Veja. Não apenas ela foi editada ao gosto da revista como, na introdução, Dilma levou cacetadas absolutamente gratuitas.
Cada participante, isso foi avisado, poderia fazer uma pergunta. Num ambiente de neutralidade, que perguntas eram mais importantes do que as que giraram em torno da Petrobras, da Copa e da especulação em torno da candidatura de Lula em 2014?
Contraponha a isso à atitude de Augusto Nunes, que num Roda Viva com Lobão perguntou a ele: “O que você acha da Dilma?” Nunes sabia que Lobão diria as barbaridades de sempre.
Nunes deveria ser convidado? Ou Jabor? Ou Azevedo? Ou tantos outros que, para agradar a seus patrões, se esmeram em atacar o PT?
Entendamos. Existem muitas razões para criticar o PT, e o DCM tem feito isso com frequência. A lentidão do PT em fazer mudanças profundas que reduzam substancialmente a desigualdade é exasperante.
Mas os ataques da mídia vêm, sempre, pelas razões erradas – pela manutenção dos privilégios dela e de seus iguais.
Lula fez o que qualquer pessoa de bom senso faria. Cercou-se de uma bancada que não estava lá para destruí-lo.
Vi, pela internet, a entrevista, e disse a Kiko tão logo ela terminou que a achara “extraordinária”. Sobretudo por conta do entrevistado. Os que conhecem Lula sabem quanto ele é carismático e convincente. Conta histórias como poucos, e torna divertida qualquer conversa.
A entrevista só funcionou porque as pessoas reunidas ali não queriam matar Lula, e isto é um fato da vida.
Leio também que o Zero Hora escreveu que não houve “neutralidade” porque os blogueiros eram “assumidamente governistas”.
Um momento: será que eles conhecem o DCM? Nosso apartidarismo é uma cláusula pétrea em nossa missão.
Conectamos pessoas interessadas no projeto de um Brasil socialmente justo, um Brasil “escandinavo”, como tantas vezes escrevi.
Nosso partido é este, e apenas este: um Brasil melhor do que o que temos.
O Zero Hora, pelo visto, não nos conhece – e então não deveria escrever a tolice que escreveu.
Também este tipo de atitude – afirmações levianas baseadas na arrogância e na falta de informação – ajuda a entender a falta de representantes da mídia tradicional na entrevista de Lula.
PS do Viomundo: Reafirmamos que o Estadão mentiu. Não houve nenhuma instrução em qualquer sentido da assessoria do ex-presidente Lula quanto ao teor das perguntas. Nada foi dito a mim, Azenha, nem à Conceição Lemes. Portanto, mentira!
Leia também:
Entrevista de Lula a blogueiros: Zero Hora mente e omite informações
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Documentário lembra o grave atentado sofrido por Serra no Rio
O QUE SE PODE APRENDER COM O MAIOR ESTUDO JÁ FEITO SOBRE ESTUPRO
Muitas pessoas têm a ideia errada quanto ao que realmente constitui “estupro”. Os pesquisadores, intencionalmente, não utilizaram a palavra “estupro” em nenhum de seus questionários sobre o histórico sexual dos homens asiáticos. Em vez disso, perguntaram aos homens se eles já haviam “forçado uma mulher que não fosse sua esposa ou namorada no momento a fazer sexo”, ou se já haviam “feito sexo com uma mulher que estava bêbada ou drogada demais para consentir com o ato”. Provavelmente, essa abordagem ajudou os pesquisadores a reunirem informações mais precisas sobre atos sexuais não consentidos nos quais os homens haviam tomado parte.
Como muitas pessoas não compreendem os limites do consentimento, muitos adultos ativos sexualmente não entendem quando estão violando alguém -- e podem não acreditar que, de fato, estupraram alguém. “O estupro não envolve apenas alguém que aponta uma arma para a cabeça de uma mulher”, destacou Michele Decker, a professora de saúde pública que é coautora do comentário que acompanhou o novo estudo, à CBS News. “As pessoas tendem a pensar no estupro como algo que outra pessoa faria.”
Estupros também ocorrem dentro do casamento. De forma semelhante, muitas pessoas pensam no estupro como algo que ocorre entre desconhecidos, quando mulheres são abordadas por criminosos em becos escuros. Mas não é essa a realidade da violência sexual. A pesquisa da ONU descobriu que estupros entre parceiros casados são mais comuns que estupros entre pessoas que não estão em um relacionamento romântico. Estudos realizados nos Estados Unidos revelaram resultados semelhantes sobre a prevalência de violência entre parceiros íntimos no país. Quando se trata de educar as pessoas sobre a violência sexual, é importante enfatizar que o consentimento não é infinito – ou seja, mesmo quando falamos em cônjuges que fizeram sexo consentido muitas vezes no passado, nenhum dos dois consentiu em fazer sexo em todas as ocasiões em que o parceiro o exigir no futuro.
Os níveis de repetição do crime são muito altos entre estupradores. Quase metade dos entrevistados que afirmaram ter estuprado pelo menos uma vez acabaram, mais tarde, estuprando diversas vítimas. Quase 23% afirmaram ter estuprado de duas a três pessoas, 12% afirmaram ter estuprado de quatro a dez pessoas, e cerca de 4% afirmaram ter estuprado mais de dez pessoas. Nos Estados Unidos, algumas pesquisas chegaram a conclusões semelhantes sobre estupradores que repetem o ato no nível da faculdade. Um estudo da Universidade de Harvard descobriu que os jovens que estupram na faculdade têm probabilidade de se tornarem estupradores em série –- e muitos deles o fazem, uma vez que as políticas brandas relativas à violência sexual na faculdade frequentemente permitem que eles não sofram punições.
Defensores da prevenção contra a violência sexual nos EUA afirmam que esse tipo de educação por ter início com uma educação sexual abrangente. Ensinar as crianças sobre seus corpos quando são jovens ajuda a lhes conferir um senso de autoconfiança e propriedade sobre o próprio corpo. Dessa forma, elas teriam maior probabilidade de evitar violar o consentimento de alguém e estariam mais dispostas a se expressar quando alguém tentasse violar seu consentimento.
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| Por que alguns homens estupram? A maioria é porque pensa que tem direito sexual sobre as mulheres |
Os pesquisadores da ONU descobriram que este comportamento é amplamente difundido entre os estupradores entrevistados. Entre os homens que reconheceram ter praticado violência sexual contra alguém, mais de 70% afirmaram que o fizeram devido ao seu “direito sexual”. Além disso, 40% afirmaram que estavam com raiva ou queriam punir a mulher. Cerca de metade dos homens afirmaram que não se sentiam culpados.
Normalmente, não há punição pelo estupro no sudeste da Ásia. Apenas 23% dos homens que afirmaram ter estuprado alguém haviam, de fato, sido presos por seus crimes. Essa tendência é verdadeira em países de fora do sudeste da Ásia que foram incluídos no estudo. A RAINN (Rape, Abuse, and Incest National Network, Rede Nacional doa EUA de Assistência a Vítimas de Estupro, Abuso e Incesto) estima que, após levar em consideração o número extremamente alto de casos de estupro que não são denunciados à polícia, cerca de 3% dos estupradores dos EUA acabam na prisão. Este tem sido, ultimamente, um tema bastante conflituoso em campi universitários, onde muitos estupradores recebem punições extremamente leves, como ter que escrever redações e ser colocado em liberdade vigiada, em vez de serem expulsos.
Kubitschek, o provocador: “a escola pública é tão mal considerada quanto Valesca e o funk”
Depois de passar a terça-feira inteirinha dando entrevistas (até perdeu a conta de quantas deu), Antonio Kubitschek decidiu desligar o telefone. Era aniversário da mulher e ele, que nem Facebook tem, decidiu desconectar para se dedicar à família. O professor de filosofia do Centro de Ensino Médio 3, em Taguatinga, cidade-satélite de Brasília, vive dias de celebridade desde que uma prova sua causou furor nas redes sociais: nela, a funkeira Valesca Popozuda aparece como “pensadora contemporânea”.
Choveram, é claro, ataques ao professor e ao colégio da rede distrital onde ensina. Um blogueiro da direita raivosa chegou a decretar o fim da escola pública: “morreu, foi para o ralo. Virou lixo”, espumou. Mas aí veio a explicação de Kubitschek. O professor fizera a questão justamente para provocar o quiproquó que causou. Sua intenção era mostrar de que tipo de carniça se alimentam os urubus da mídia. E eles caíram feito patinhos.
A própria Valesca, bem mais inteligente do que a blogueirada reaça, percebeu de cara a intenção de Kubitschek. “E se o professor colocou a questão dentro do contexto da matéria? E se o professor quis ser irônico com o sucesso das músicas de hoje em dia?”, publicou a cantora em seu Face, atribuindo o escândalo a preconceito com o gênero musical. E ainda tirou onda: “Diva, Diva sambista, Lacradora, essas coisas, eu já estou pronta, mas PENSADORA CONTEMPORÂNEA ainda não (mas prometo que vou trabalhar isso)”, escreveu. “Vou ali ler um Machado de Assis e ir treinando pra quem sabe um dia conseguir ser uma pensadora de elite!” Beijinho no ombro.
Professor da rede pública no Distrito Federal há 19 anos, Kubitschek, 43, é, ao contrário do retrato pintado pelos apressados, um professor bastante conceituado na cidade, admirado por colegas e ex-alunos. Sua intenção era cumprir uma das principais tarefas do educador: estimular o debate entre os jovens. E conseguiu. O blog fez um pequeno pingue-pongue com o professor, que não tem parentesco algum com o presidente Juscelino. O Kubitschek, na verdade, é segundo nome. Uma homenagem do pai dele ao criador de Brasília.
Socialista Morena – Como foi que isso tudo começou?
Antonio Kubitschek – Nós tínhamos organizado uma exposição de fotografias dos alunos da escola, com 1300 fotos feitas pelos estudantes com o tema “Olhares”. Cada turma escolhia o que iria abordar a partir daí e saía fotografando. Avisamos a imprensa toda, porque era algo positivo e as fotos ficaram muito bonitas. Ninguém apareceu. Discutimos isto em classe e chegamos à conclusão que a imprensa só viria à escola em uma situação negativa. Vamos provocar?, disse a eles. Mas eu não podia colocar a imagem da escola em risco, porque ela faz um trabalho decente. Então decidi, de surpresa, sem avisá-los, colocar a questão da Valesca na prova, uma cantora que eu via todo mundo comentando e falando mal. Como eu sabia que os meninos compartilham tudo no Facebook, imaginei que ia haver repercussão, mas achei que fosse só a imprensa local. Nunca imaginei que viraria assunto no país inteiro.
SM – O que você acha do funk?
AK – É uma expressão da sociedade, de uma classe social. Tem gente que gosta e tem gente que não gosta. Particularmente, não é meu estilo de música favorito, não é o que eu coloco para tocar no carro, mas não tenho preconceito.
SM – Você acha mesmo que Valesca é uma pensadora?
AK – Sim. Ela é uma pensadora do funk, do ritmo dela. E algumas coisas que ela coloca têm a ver com a liberdade da mulher. Se as pessoas não concordam com a forma como ela diz isso, é outra história. Segundo Deleuze, aquele que cria um conceito é um pensador. Ela criou um conceito, portanto é uma pensadora, sim.
SM – O principal alvo de sua provocação foi a mídia. Por quê?
AK – A mídia tem um papel importante, que é o de trazer informação. Mas, por outro lado, é parte de um sistema que exige a vendagem, que se aproveita daquilo que pode vender. Ou seja, vive um dilema eterno entre o papel social que tem e o que será vendável. Vejo muitas críticas, por exemplo, a essa imprensa que vive à caça de fofocas sobre a família real, mas a mídia toda age da mesma maneira, só que não de forma assumida. Como se o que faz fosse algo mais sério, e não é. A imprensa de fofocas pelo menos assume que faz o que faz.
SM – Os blogueiros de direita só faltaram te amarrar a um poste virtual…
AK – Essa provocação foi feita exatamente para eles, porque, no fundo, eles têm preconceito com a escola pública. A escola pública é tão mal considerada quanto a Valesca e o funk. Para uma sociedade elitizada, que é quem estes blogueiros representam, ela não é considerada necessária.
SM – E a direção da escola, como reagiu?
AK – A direção me apoiou desde o primeiro momento. A secretaria de Educação, no começo, quando foi cobrada pelos veículos, me procurou pedindo explicações: “O que você vai fazer?” E eu disse: “Vou responder à mídia”. Depois que eu expliquei a proposta, creio que houve uma mudança na opinião pública e a secretaria também me apoiou.
SM – Percebe-se que o primeiro alvo dos que atacam a escola pública é o professor.
AK – E tem cada professor bom! Cada trabalho bem-feito! O que acontece é que o professor não é bom marqueteiro. É o ritmo dele. O professor normalmente pensa: “meu papel é educar, não fazer propaganda do que eu fiz”. Mas é uma categoria fantástica.
SM – Como você avalia a escola pública hoje?
AK – Tem melhorado, mas ainda está muito longe do que é necessário. Os governos precisam investir mais nas condições dos prédios, em segurança. A sociedade também precisa dar apoio, acreditar na escola pública. A classe média coloca seus filhos nas particulares porque elas dão mais oportunidades a seus filhos, mas o dia em que a classe média voltar para a escola pública e passar a cobrar, participar, ela também vai poder oferecer estas oportunidades. Melhorar a remuneração do professor também é importante, até para ele deixar de ouvir a frase: “Você é professor? Coitado!”
SM – Seus alunos também deram entrevistas estes dias, entraram no “circo da mídia”. Como é que você vai fazer para discutir este efeito colateral da provocação?
AK – (Risos) É, não vamos conseguir fugir de debater isso também.
***
UPDATE: Olhem abaixo o texto de um aluno de Kubitschek que está circulando no Facebook e julguem vocês mesmos o nível de educação que ele está transmitindo. E como sua incitação ao pensamento FUNCIONOU. Faço questão de colocar na íntegra:
“Olá pessoal. Sou um dos alunos do CEM 03 de Taguatinga, onde a prova foi aplicada. E queria dizer que é extremamente divertido ver a reação do público controlado pela mídia. Pessoas abaixo dizendo que ele é um cretino, babaca, só tem o diploma na parede… Que “esse é o motivo da educação estar tão ruim”.
Acontece que esta foi uma das 12 questões da prova bimestral de filosofia, onde o professor colocou esta questão (nº 11) por motivos que ele mesmo explicou na entrevista.
Mas não é aí onde quero chegar, e sim no fato de que o público, controlado pela mídia, tende a ver somente o que é exposto e julgar indiscriminadamente sem antes avaliar a situação como um todo. Isso entra em um dos assuntos que nos foram explicados pelo professor recentemente, sobre Kohlberg. A matéria dada pelo professor Antônio tratava a respeito da Teoria do Desenvolvimento Moral. Eu não vou explicar isso aqui, pois se acham-se no direito de julgarem um professor de filosofia, creio eu que devem ter conhecimento a respeito do assunto. No entanto, um dos tópicos foi o dilema de Heinz, proposto por Kohlberg. Ele diz que Heinz estava com a esposa doente, e o remédio que a salvaria custava mil dólares. Como não podia comprá-lo do farmacêutico que detinha a fórmula, após esgotadas as tentativas de obtê-lo de modo honesto, roubou-o. Kohlberg pergunta se o marido fez bem ou não em ter roubado, e analisa as respostas dadas, identificando o nível moral do entrevistado através destas. (texto retirado do livro Filosofando, ARRUDA, Maria Lúcia de; e MARTINS, Maria Helena Pires, com adaptações). O que acontece nesta situação é o mesmo. É possível “analisar” as diversas respostas do público em relação à questão da prova e identificar seus níveis morais. “Não devia ter colocado a questão na prova pois é um professor e isso é errado.” (nível convencional, terceiro estágio – pertencimento ao grupo). Quando suas respostas a isso, como adultos, deveriam estar no nível pós-convencional, destacando o conflito entre a ética profissional e o direito que cada pessoa tem de exercer a própria vida, ou no sexto estágio do nível pós-convencional. Mas, infelizmente, como diz Kohlberg, nem todos os adultos atingem este nível, devido à educação e vida que recebem, em condições diferentes.
Se chegou a ler até aqui, gostaria de ressaltar apenas algumas informações importantes sobre o conteúdo da prova. As demais 9 questões da prova tratavam de ética, moral, valores, e níveis de moralidade. Caso tenham alguma dúvida, podem pedir à direção da escola para liberar o resto do conteúdo da prova. Estes conteúdos que citei acima, foram todos tratados e explicados em sala pelo professor, conteúdos que também estão presentes no livro que nos foi dado pela escola e no componente curricular da terceira série do Ensino Médio. Então, para aqueles que gostam de dizer que o professor é incompetente por causa de uma única questão e que não estamos aprendendo nada em sala, saibam que estamos sim aprendendo, e não somente um ou dois alunos, mas a grande maioria.
E, para finalizar, posso dizer que apenas me sinto mal por vocês adultos que ainda se encontram no Estágio Intuitivo ou Simbólico de Piaget. Esse é aquele estágio em que a criança possui uma inteligência egocêntrica, sendo assim ela sente, pensa e age a partir de si mesma e não se coloca no lugar do outro. Digo isso porque, ao invés de avaliarem a situação corretamente, baseado em todo o contexto do ocorrido, simplesmente julgam o professor por sua questão sem avaliar o contexto todo, como se fossem perfeitos ou pudessem fazer melhor. Acontece que, olha só para o que estão fazendo: criticando, atrás de uma tela de computador, usando de argumentos incoerentes, palavras ofensivas e tudo o mais. Acham mesmo que pessoas nesse nível são capacitadas pra julgar a ética e moral dos outros?
Obrigado pela atenção, e BEIJINHO NO OMBRO PRO RECALQUE PASSAR LONGE.
Gabriel Guilherme, 3º G #39 CEM 03 de Taguatinga.
Entrevista de Lula a blogueiros: Zero Hora mente e omite informações

por Luiz Carlos Azenha
O Tijolaço nos informa que o diário direitista gaúcho Zero Hora teve o seguinte a dizer sobre a entrevista do ex-presidente Lula a blogueiros: “o ex-presidente sentou-se à mesa com pessoas que não têm como oferecer a neutralidade reclamada. Seus ouvintes eram responsáveis por blogs assumidamente governistas, muitos dos quais sustentados por verbas oficiais.”
O Zero Hora, como se sabe, pertence à família Sirotsky, do Grupo RBS, parceiro comercial e ideológico das Organizações Globo (olhem na lista acima) no Sul do país.
Se tivesse feito o trabalho jornalístico que se requer de uma poderosa empresa jornalística, teria descoberto o óbvio: a grande maioria dos blogueiros que entrevistaram o ex-presidente Lula não recebe um tostão sequer de “verbas oficiais”. Basta consultar as informações divulgadas pela Secom, a Secretaria de Comunicação Social ligada à Presidência da República.
Da entrevista participaram Renato Rovai (Revista Fórum e Blog do Rovai), Altamiro Borges (Blog do Miro), Conceição Lemes (Viomundo), Fernando Brito (Tijolaço), Marco Weissheimer (Sul 21 e Carta Maior), Eduardo Guimarães (Blog da Cidadania), Rodrigo Vianna (Escrevinhador), Kiko Nogueira (Diário do Centro do Mundo) e Miguel do Rosário (O Cafezinho).
Posso estar errado, mas dos veículos acima citados só a Carta Maior constava da listagem mais recente a que tive acesso, numa proporção absolutamente compatível com a importância que o site tem para a esquerda brasileira e para o público de esquerda existente no país.
Portanto, além de mentir neste ponto — “muitos dos quais sustentados por verbas oficiais” –, o Zero Hora sonegou de seus leitores outra informação fundamental, se realmente pretendia debater financiamento oficial da mídia e independência editorial.
Sonegou o fato de que o Grupo RBS certamente está na lista dos maiores receptores de dinheiro público dentre, digamos, os 50 maiores grupos de mídia do Brasil, pois recebe dinheiro do governo federal, de governos estaduais e de prefeituras. Se pretendia debater honestamente o assunto, o Zero Hora deveria contar aos leitores quanto exatamente a RBS recolhe em “verbas oficiais”.
O que levaria os leitores a concluir: se o Zero Hora, com todo o dinheiro oficial recebido pelo Grupo RBS, pode se declarar “independente”, por que blogueiros que não recebem um tostão em dinheiro oficial não podem ser independentes? Teriam sido abduzidos pelo lulismo? Hipnotizados pelo petismo?
Por que sonegar dos leitores que os entrevistadores de Lula representam blogues de esquerda, que se contrapõem ao jornalismo de direita do Zero Hora? Ah, sim, porque na cabeça dos editores do diário gaúcho o Zero Hora paira sobre a sociedade, “neutro”. Não é conservador, nem de direita.
Se eventualmente elogiamos medidas do governo, o que nos custa a pecha de “governistas”, sem receber nada em troca, isso deveria ser elogiável: é demonstração de que colocamos convicções políticas adiante de interesses comerciais, algo muito raro no jornalismo de hoje. As convicções políticas da família Sirotsky, aliás, ficam absolutamente explícitas na linha editorial dos órgãos midiáticos do grupo RBS. Por que, então, deveríamos esconder as nossas? Isso não nos dá, nem a eles, o direito de distorcer, manipular ou mentir. Na entrevista de Lula foram tratados todos os temas importantes da conjuntura política atual, da Petrobras ao caso do deputado André Vargas, de Lula candidato à Copa do Mundo. Sem antipetismo doentio, sem pré-julgamentos e dando ao ex-presidente o direito de se expressar.
O Viomundo, como vocês sabem, tem como política não receber “verbas oficiais”, de governos de todas as esferas ou de empresas públicas.
Por que o Zero Hora não adota a mesma diretriz, que contribuiria para cortar os gastos públicos? Quantas creches e hospitais poderiam ter sido construídos com o dinheiro que o Grupo RBS embolsou até hoje em “verbas oficiais”?
Taí um exercício que os editores do diário gaúcho ficam devendo a seus leitores, assim como aos ouvintes e telespectadores do Grupo RBS: um debate honesto sobre o financiamento da mídia.

É óbvio que sabemos exatamente o motivo da chiadeira da família Sirotsky (vista acima com os Marinho).
Ela se revolta com a perda do monopólio da informação, que até recentemente permitia ao grupo selecionar as notícias “existentes” ou não, os ângulos e as frases pinçadas de uma longa entrevista que permitiam empacotar a sua “versão” dos fatos.
Desculpem, mas a internet acabou com isso: entrevistas longas, em tempo real, ficam imediatamente disponíveis, na íntegra, em rede, permitindo a leitores/ouvintes/telespectadores que fiscalizem eles próprios as distorções, omissões e manipulações tão comuns na mídia corporativa (na mesma tarde da entrevista a assessoria do ex-presidente denunciou que Folha e O Globo haviam adulterado a fala de Lula).
Desde muito antes de Assis Chateaubriand, empresas jornalísticas brasileiras cresceram explorando a capacidade de extorquir dinheiro sob a ameaça de investigar/denunciar/desconhecer autoridades ou empresários; para os que abriram o cofre, em compensação, ficou o benefício do “espaço controlado” para falar à opinião pública.
Quando um líder como o ex-presidente Lula decide falar sem tal intermediação corporativa, paira no ar forte ameaça ao monopólio da palavra que sustenta o jornalismo chantagista.
A ação de Lula ameaça o bolso dos Sirotsky. É disso que se trata.
(Se o Zero Hora se desse ao trabalho de investigar antes de escrever besteira, encontraria críticas ao governo federal/Lula/PT no Viomundo, bastando clicar dentre dezenas de outros lugares aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui).
[O Viomundo é sustentado por contribuições voluntárias de seus leitores. Estamos trabalhando nas contribuições involuntárias, mas a grana ainda não deu para comprar o AK47. Torne-se um assinante antes disso!]
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Fernando Siqueira: Batalha da mídia é para entregar o pré-sal
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Repórter da Globo: “a ordem é ouvir só o Paulinho”
por Rodrigo Vianna
A informação apareceu primeiro no facebook de Marize Muniz, assessora de imprensa da CUT. Ela contou o que aconteceu nesta quarta-feira (9/abril) quando uma repórter da Globo, destacada para cobrir a manifestação das centrais sindicais no centro de São Paulo, teve um infeliz ataque de sinceridade. Vejam:
(por Marize Muniz, via facebook)
“Deu dó. Sempre tenho pena de pessoas inocentes.
Foquinha da TV Globo gravou sonora com os caras da Força Sindical (do Aécio Neves), na Praça da Sé, durante manifestação de seis centrais sindicais.
Aí, um militante cutista foi lá e perguntou: e a CUT, você não vai ouvir ninguém da maior central da America Latina?
A pobrezinha respondeu: Tenho ordens da redação para só ouvir os caras da Força.
Foi um quiprocó danado e a bichinha teve de ir embora do local.”
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Resolvi checar a informação com outros manifestantes. E aí vieram mais detalhes. A jovem repórter da Globo – movida por ingenuidade, como sugere Marize (ou, quem sabe, por arrogância) - teria dito, com todas as letras, que estava ali só para entrevistar o “Paulinho da Força”. Essa teria sido a instrução recebida, ao sair da Redação.
Como se sabe, Paulinho é o presidente de central sindical mais crítica ao governo Dilma. Rompeu com o governo, e declarou que vai apoiar Aécio (PSDB) a presidente.
Não há problema nenhum em entrevistar o Paulinho. Afinal ele é o presidente legítimo de uma central sindical importante. O problema é a repórter de uma TV que é concessão pública revelar que tinha instruções claras para entrevistar apenas Paulinho da Força.
Um militante da CUT teria insistido, apresentando: “olha, essa aqui é nossa vice-presidenta, a Carmen, você não quer ouvir a CUT?”
A jovem repórter teria respondido: “não, a orientação é ouvir só o Paulinho da Força”. A jornalista foi então vaiada e hostilizada pelos manifestantes – que passaram a gritar o tradicional “o povo não é bobo, fora a Rede Globo”.
“Ela não fez a entrevista. Ficou com medo e correu para uma agencia do Bradesco do outro lado da rua”, contou-me um manifestante com quem conversei há pouco.
Os manifestantes registraram a cena da jornalista escondida na agência – como mostram as fotos que o Escrevinhador publica com exclusividade.
Poucos minutos depois, Paulinho chegou e foi dar a entrevista, dentro da agência bancária. Manifestantes ligados à CUT seguiram vaiando e fotografando. Um segurança (da Globo? da Força Sindical?) teria se aproximado de uma manifestante que fazia as fotos, e tentado tomar o celular das mãos dela. Não conseguiu. Aparentemente, a jornalista também não conseguiu gravar com Paulinho da Força…
- a Globo (sob comando de Ali Kamel – aquele que adora processar blogueiros) segue pretendendo controlar a realidade; se é inevitável cobrir a manifestação, que se dê voz só aos amigos da casa e aos inimigos do governo petista;
- os jornalistas da Globo já foram mais espertos; por que a jovem repórter teve aquele ataque de sinceridade? Podia ter feito a entrevista com a dirigente da CUT, e a Redação depois se encarregaria de cortar…
Mas jornalistas criados no ar-condicionado, sem vivência de rua, talvez acreditem que ao carregar o microfone da Globo podem qualquer coisa; vão-se distanciando do mundo real, e acabam surpreendidos quando enfrentam uma situação dessa.
A Marize (que foi chefe da pauta da Globo, tem experiência de sobra) ficou com pena da moça. Eu também fiquei.
Por outro lado, fiquei feliz porque agora uma história dessa não passa em branco. A Globo mente sem parar no JN, JG etc. Mas, pelo menos nesse caso, as fotos e o relato completo estão na internet. A mídia velhaca já não fala sozinha…
Em tempo: o ato das centrais foi um sucesso em São Paulo; reuniu 10 mil pessoas segundo a PM, ou 40 mil segundo os manifestantes.
Entre as reivindicações, estão: redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais sem redução de salário, manutenção da política de valorização do salário mínimo, fim do fator previdenciário, redução da taxa básica de juros e correção e progressividade da tabela do Imposto de Renda.
Ninguém pode ficar preso indevidamente, só Dirceu
Por Paulo Moreira Leite, em seu blog
Há momentos em que a vida política deixa de ser um conflito de ideias e projetos para se transformar numa prova de caráter. Isso é o que acontece com a perseguição a José Dirceu na prisão.
A defesa dos direitos de Dirceu é, hoje, uma linha que define o limite da nossa decência, ajuda a mostrar aonde se encontra a democracia e o abuso, a tolerância diante do ataque aos direitos elementares de uma pessoa.
Ninguém precisa estar convencido de que Dirceu é inocente sobre as denúncias da AP 470. Nem precisa concordar com qualquer uma de suas ideias políticas para reconhecer que ele enfrenta uma situação inaceitável.
As questões de caráter envolvem nossos princípios e nossa formação. Definem a capacidade de homens e mulheres para reagir diante de uma injustiça de acordo com princípios e valores aprendidos em casa, na escola, ao longo da vida, como explica Hanna Arendt em Origens do Totalitarismo. São essas pessoas que, muitas vezes, ajudam a democracia a enfrentar as tentações de uma ditadura.
Um desses homens, e nós vamos saber seu nome dentro de alguns parágrafos, “não era herói e certamente não era um mártir. Era apenas aquele tipo de cidadão com interesse normal pelos negócios públicos que, na hora do perigo ( mas não um minuto antes) se ergue para defender o país da mesma forma como cumpre seus deveres diários, sem discutir.”
A mais recente iniciativa contra os direitos de Dirceu criou um situação nova.
O Ministério Público pede uma investigação telefônica-monstro envolvendo todas as ligações de celular – de 6 operadoras — entre a região do presídio da Papuda, em Brasília, onde ele se encontra prisioneiro desde 16 de novembro, e uma região em torno de Salvador, na Bahia. São milhares, quem sabe milhões de ligações que devem ser mapeadas, uma a uma, e transcritas – em formato de texto – para exame do ministério público em Brasília.
Você sabe qual é o motivo alegado dessa investigação: procurar rastros de uma conversa de celular entre Dirceu e um secretário do governo de Jaques Wagner. Detalhe: supõe-se que o telefonema, caso tenha sido feito, teria ocorrido em 6 de janeiro. Pede-se uma investigação de todas as conversas por um período de 16 dias.
Você sabe qual será seu efeito prático: manter a pressão sobre Dirceu e impedir que ele possa deixar o presídio para trabalhar durante o dia – direito que tem todas as condições legais de cumprir. Não só obteve uma oferta de emprego, como tem parecer Psicossocial favorável e também do Ministério Púbico.
Você pode “achar” – assim como “achamos” tantas coisas a respeito de tantas pessoas, não é mesmo? – que ele cometeu, mesmo, essa falta disciplinar, de natureza grave.
O fato é que desde 6 de janeiro procura-se uma prova desse diálogo e nada. O secretário de Estado deu uma entrevista a Folha de S. Paulo, dizendo que havia conversado com Dirceu. Mais tarde, ele se corrigiu e desmentiu o diálogo. Também confirmou o desmentido em depoimento oficial. Dirceu sempre negou ter mantido qualquer conversa nestas condições.
A conta telefônica do celular do Secretário de Estado não registra nenhuma ligação que, em tese, poderia confirmar a conversa. Uma investigação da policia do Distrito Federal também concluiu que não há o mais leve indício de que o diálogo tenha ocorrido.
Conforme todos os indícios disponíveis, portanto, quem mentiu foi o Secretário – não Dirceu.
Você pode continuar duvidando da inocência de Dirceu, claro. Mas não pode aceitar que seus direitos sejam subtraídos sem que sua culpa seja demonstrada. Mesmo na prisão, uma pessoa é inocente até que se prove o contrário.
É verdade que, no julgamento da AP 470, o ministro Luiz Fux chegou a dizer que cabe ao acusado provar sua inocência. Mas foi uma colocação tão fora de qualquer princípio jurídico posterior ao iluminismo que, nos acórdãos, a declaração foi suprimida.
O pedido para esse grampo-monstro foi feito pelo Ministério Público em 26 de fevereiro mas ficou engavetado pelo juiz Bruno Ribeiro por mais de um mês. Quando se retirou do caso, no fim de março, Bruno enviou o pedido a Joaquim Barbosa, a quem caberá a palavra final sobre o semiaberto de Dirceu. Joaquim pode acolher o pedido.
Mas também pode manter Dirceu em regime fechado enquanto aguarda pelos grampos Papuda-Bahia. Seria uma nova injustiça, mesmo para quem é favorável a uma investigação nessa natureza e acha que toda punição a Dirceu será pouca.
A liberdade de Dirceu não pode ser diminuída porque os responsáveis pela sua prisão levaram um tempo absurdo– mais de um mês – para decidir se acatavam a solicitação ou não.
Ninguém pode ficar preso indevidamente porque o Justiça está “pensando”. Quando foi preso, em 15 de novembro, Dirceu tinha direito ao regime semiaberto, provisoriamente. Antes que os embargos infringentes tivessem sido julgados, havia a possiblidade de que o Supremo confirmasse a condenação por formação de quadrilha.
Mas o STF derrubou a condenação, o que confirmou o semiaberto.
Assim, do ponto de vista de seus direitos, Dirceu perdeu perdeu quatro mês de liberdade.
Se o apreço abstrato do caro leitor pela liberdade dos indivíduos não lhe permite avaliar o que isso significa, sugiro uma experiência concreta.
Peça a um amigo trancar a porta de seu quarto por um dia e faça um diário sobre o que fez e viu. Evite ligar a TV, porque ela só é autorizada a quem tem bom comportamento – e ninguém sabe se você merece isso. Não leia jornais nem revistas.
Limite a leitura aos livros mas apague a luz às 22 horas. Desligue o telefone, não atenda a campainha e, se sentir fome, peça um resto de geladeira para aquecer em banho-maria. Pode ser qualquer coisa que sobrou da véspera mas lembre-se de que, comparado com o que se oferece na Papuda, sempre será um privilégio.
E se você achar que é inocente, e não fez nada para merecer o que está acontecendo, só quis passar por uma experiência existencial, lembre-se: esse pensamento só é válido para quem acredita que toda pessoa é inocente até que se prove o contrário. Esse é o princípio que garante nossa liberdade.
Também é o princípio que deveria definir a situação de Dirceu. Ele passou oito anos sendo acusado como chefe de quadrilha e era este ponto – a quadrilha – que poderia manter seu regime fechado.
Depois que a acusação de quadrilha caiu ele é chefe de que mesmo?
E aí podemos falar do personagem a que Hanna Arendt se refere. Ela está falando de George Picquard, major do Exército francês, que teve um papel decisivo no reestabelecimento da verdade no caso do capitão Alfred Dreyfus, condenado em 1894 à prisão perpétua na Ilha do Diabo, na Guiana Francesa, com bom base em provas falsas.
“Embora dotado de uma boa formação católica,” e, como Arendt sublinha para registrar os preconceitos da época, “ ‘adequada’ antipatia pelos judeus, ele ainda não havia adotado o princípio de que o fim justifica os meios. ” Ela recorda que “esse homem, completamente divorciado do classicismo social e da ambição profissional, espírito simples, calmo e politicamente desinteressado” iria mostrar que havia encontrado provas que apontavam para outro culpado, sugerindo que o caso fosse reaberto.
Picquard acabou processado e perseguido, a ponto de enfrentar uma condenação num tribunal militar e deixar um posto confortável em Paris por um posto sem perspectiva na África colonial. Mas cinco anos depois de condenado, Dreyfus acabou recebendo indulto presidencial, depois de enfrentar um segundo julgamento – que perdeu, mais uma vez.
A campanha pela libertação de Dreyfus não passou pelo parlamento, que rejeitou seguidos pedidos de um novo exame do caso. Foi fruto de uma movimentação da sociedade civil, a margem dos principais partidos políticos.
Mesmo os socialistas temiam perder votos se colocassem o assunto nos debates eleitorais. Atribui-se uma derrota de um de seus líderes históricos, Jean-Jaurés, hoje nome de boulevard em Paris, ao empenho a favor de Dreyfus. Ninguém recorda o nome dos que se omitiram.
O alto comando militar, responsável pela condenação de Dreyfus e, mais tarde, pela manutenção da farsa, alimentava a imprensa suja de Paris. Numa avaliação que nos ajuda a entender que a realidade que hoje se vê nos trópicos brasileiros tem muito a dever às asneiras cometidas na capital francesa daquele tempo, Arendt analisa o mais duro dos jornais contra Dreyfus para dizer: “direta ou indiretamente, através de seus artigos e da intervenção pessoal de editores, mobilizou estudantes, monarquistas, anarquistas, aventureiros e simples bandidos, e atirou-os nas ruas.” Essa turba espancava defensores de Dreyfus na rua e por várias vezes apedrejou as janelas de Emile Zola depois de seus artigos e conferencias mais contundentes.
Julgado pelo Eu Acuso, Zola recebeu pena máxima. Foi um alivio, pois se fosse absolvido “nenhum de nós sairia vivo do julgamento” recordou Georges Clemenceau, dono do jornal que publicou o artigo, L ‘Aurore.
Em 1975, em São Paulo, o rabino Henry Sobel deu uma demonstração de caráter semelhante. Ele sequer era o rabino principal da comunidade paulistana. Apenas substituía o rabino principal, que se encontrava em viagem. Norte-americano de nascimento, Sobel admirava John Kennedy e nunca teve simpatias pelo Partido Comunista.
Mas, quando foi informado que o corpo do jornalista Vladimir Herzog apresentava sinais de tortura, como fora percebido pelos funcionários do cemitério judeu que o preparavam para o enterro, Sobel tomou uma decisão de acordo com sua formação e suas convicções.
Impediu que Herzog fosse enterrado na área do cemitério reservada aos suicidas, como seria coerente com a versão oficial para a morte do jornalista – acompanhada até por uma fotografia forjada na cadeia – para lhe dar a dignidade de um enterro comum.
O resto é história, feita por um cidadão tão humano, tão comum, que mais tarde seria apanhado num pequeno e desagradável incidente num shopping em Miami, como todos nós sabemos.
Datafolha oculta que 60% dos eleitores poderiam votar em quem Lula indicar

Lula não precisa ser candidato
A Folha reteve por 24 horas o dado capaz de relativizar esmagadoramente a queda de seis pontos nas intenções de votos na presidenta Dilma.
por Saul Leblon, em Carta Maior
Por que o Datafolha não inclui em suas enquetes algumas perguntas destinadas a decifrar o modelo de desenvolvimento intrínseco à aspiração mudancista majoritária na sociedade brasileira, segundo o próprio Instituo?
Por que o Datafolha não pergunta claramente a esse clamor se ele inclui em seu escopo de mudanças um retorno às prioridades e políticas vigentes quando o país era governado pelo PSDB, com a agenda que o dispositivo midiático tenta restaurar com o lubrificante do alarmismo noticioso?
Não se trata de introduzir proselitismo nos questionários de sondagem. É mais transparente do que parece. E de pertinência jornalística tão óbvia que até espanta que ainda não tenha sido feito.
Por exemplo, por que o Datafolha não promove uma simulação que incluiria Fernando Henrique Cardoso e Lula como candidatos teóricos e assim avalia as preferências entre os modelos e ênfases de desenvolvimento que eles historicamente encarnam?
Por que o Datafolha não pergunta claramente ao leitor se prefere a Petrobras — e o pré-sal, que é disso que se trata, sejamos honestos – em mãos brasileiras ou fatiada e privatizada?
Por que o Datafolha não investiga quais políticas e decisões estão associadas à preferência pelo petista que há 12 anos está sob bombardeio ininterrupto da mídia e, ainda assim, conserva 52% das intenções de voto num país seviciado pelo monopólio midiático?
Por que o jornal que é dono da pesquisa – em mais de um sentido – não explicita em suas análises as relações (ostensivas) entre a resistência heroica do recall desfrutado por Lula; o desejo majoritário de mudança na sociedade e o vexaminoso arrastar dos pés-de-chumbo do conservadorismo, Aécio e Campos?
Por que a Folha reteve por 24 horas o dado capaz de relativizar esmagadoramente o impacto da queda de seis pontos que teria marcado as intenções de votos na presidenta Dilma – mas que ainda assim vence com folga (38%) seus dois principais oponentes juntos (26% de Aécio e Campos)?
O dado em questão não é singelo.
Só divulgado nesta noite de domingo – sem espaço na manchete e sequer registro na primeira página do diário dos Frias! — ele tem calibre para dissolver em partículas quânticas tudo o que foi dito no final de semana sobre a derrocada do governo na eleição para 2014.
Qual seja, a opinião de Lula — colheu o Datafolha – é uma referência positiva de impacto avassalador sobre as urnas de outubro: seu peso ordena e hierarquiza a definição de voto de nada menos que 60% do eleitorado brasileiro.
Seis em cada dez eleitores tem em Lula uma baliza do que farão na cabine eleitoral.
Segundo o Datafolha, 37% deles votariam com certeza em um candidato indicado pelo petista; e 23% talvez referendassem essa mesma indicação.
Note-se que os estragos que isso deixa pelo caminho não são triviais e de registro adiável.
Se divulgados junto com a pesquisa das intenções de voto, esmagariam, repita-se, o esforço do tipo ‘vamos lá, pessoal’, que os comodoros do conservadorismo tentaram injetar na esquadra de velas esfarrapadas de Campos e Neves.
Vejamos: ao contrário do que acontece com o cabo eleitoral de Dilma, 41% dos eleitores rejeitariam esfericamente um nome apoiado por Marina Silva – Eduardo Campos encontra-se nessa alça de mira contagiosa, ou não?
Já a rejeição a um candidato apoiado por FHC é de magníficos 57%.
Colosso. Sim, quase 2/3 do eleitorado, proporção só três pontos inferior à influência exercida por Lula, foge como o diabo da cruz da benção dada pelo ex-presidente tucano a um candidato; apenas 23% cogitariam sufragar um nome apoiado por ele.
Esse, o empolgante futuro reservado ao presidenciável Aécio Neves, ou será que a partir de agora ele imitará seus antecessores de dificuldades e esconderá o personagem que o imaginário brasileiro identifica ao saldo deixado pelo PSDB na economia e na política do país?
O fato é que a virada antipetista, ou antigovernista, ou ainda anti-dilmista que o dispositivo midiático tenta vender – e o fez com notável sofreguidão neste final de semana, guarda constrangedoramente pouca aderência com a realidade.
Exceto se tomarmos por realidade as redações da emissão conservadora, a zona sul do Rio ou o perímetro compreendido entre os bairros de Higienópolis, Morumbi e Vila Olímpia, em São Paulo, a disputa é uma pouco mais difícil.
Não significa edulcorar os desafios e gargalos reais enfrentados pelo país.
Mas na esmagadora superfície habitada por 60% da população brasileira o jogo pesado da eleição de 2014 envolve outras referências que não apenas a crispação do noticiário anti-petista em torno desses problemas.
Por certo envolve entender quem é quem e o que propõe cada projeto em disputa na dura transição de ciclo econômico em curso – e nessa luta ideológica pela conquista e o esclarecimento de corações e mentes, o governo Dilma e o PT estão em débito com a sociedade.
Sobretudo, o que os dados mais recentes indicam é que a verdadeira disputa de projetos precisa de mais luz e mais desassombro por parte dos alvos midiáticos.
Os institutos de pesquisas, a exemplo do Datafolha, em grande medida avaliam o alcance do seu eco quase solitário.
Bombardeia-se a Petrobras para em seguida mensurar o estrago que os obuses causaram na resistência adversária. Idem, com o tomate, a Standard & Poor’s, etc., etc., etc.
Ao largo das manchete do Brasil aos cacos, porém, seis em cada dez brasileiros aguardam o que tem a dizer aqueles que se tornaram uma referência confiável pelo que fizeram para a construção da democracia social nos últimos anos.
É aí que Lula entra. E o PT deve cuidar para que entre não apenas rememorando o passado, do qual já é uma síntese histórica.
Mas que coloque essa credibilidade a serviço de uma indispensável repactuação política do futuro, contra o roteiro conservador do caos que lubrifica a rendição ao mercadismo.
Dizer que Dilma perdeu seis pontos e retardar a divulgação do que fariam 60% dos eleitores diante de um apelo de Lula, é uma evidência do temor que essa agenda e esse cabo eleitoral causam no palanque de patas moles que a mídia, sofregamente, carrega nas costas.
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IMPOPULARES E AMARGOS EM 2014
O espantoso, na campanha, é que candidatos falam em medidas que prejudicam a maioria dos eleitores e nada acontece
por Paulo Moreira Leite, no seu blog
Só pode haver algo muito errado numa campanha eleitoral na qual um candidatos de oposição diz que não tem medo de tomar “medidas impopulares” e nada acontece.
Assessores de outro candidato de oposição, informa o Pedro Venceslau no Estado de S. Paulo de hoje, admitem em voz baixa que apoiam “medidas amargas.”
Vamos combinar.
Até por uma questão de respeito por cada um de nossos 100 milhões de eleitores, em especial a imensa maioria que é alvo de medidas impopulares e amargas, seria bom saber o que se quer dizer com isso.
Fazendo uma imagem para facilitar o entendimento, vou colocar a coisa em termos bem populares.
É como um sujeito que chega para jantar de luxo, avisa que dentro de alguns minutos pretendem passar na cozinha para bater a carteira dos empregados e nenhum convidado pergunta: como assim? Eles vão deixar?
Na lata? E ainda manda aviso prévio?
Quantos reais podem ser extraídas do bolso de cada brasileiro quando um governante pretende tomar medidas “impopulares?”
Quanto valem os “amargos?”
Este é o debate que importa, não?
Em situações normais, nossos New York Times, Guardian, CNN, El País, Le Monde não deixariam passar uma notícia dessas. Na disputar pelo olhar do público, teriam transformado uma afirmação dessas num escândalo.
Tenho certeza de que Adam Prezeworski, o brilhante cientista político que o PSDB adorava ler quando se considerava social-democrata, iria questionar: estamos abandonando a frágil mas necessária relação entre capitalismo e democracia?
Até por uma questão de etiqueta, no mundo inteiro políticos que defendem medidas “não-populares” gostam de disfarçar, dizendo que são na verdade “populares.”
Não é sincero mas é menos arrogante do que entrar numa campanha eleitoral dizendo que se pretende prejudicar a maioria.
Igual a isso é falar em medidas amargas quando faltam poucas semanas para a criançada ganhar os ovos de Páscoa, não é mesmo? No fundo, não espanta.
Um sorridente filósofo-economista em campanha já disse – longe, muito longe dos palanques — que acha que o país não pode conviver com um povo que come bife todo dia. É ruim para o meio ambiente, pretextou, pois gado solta gases para a camada de ozônio.
O cidadão comum – o “popular” que não estava naquele jantar de “impopulares”– , agora você começa a entender a coisa, tem direito a fazer perguntas. Diga rápido o que são medidas “impopulares” para 2015? Por exemplo:
a) o plano é acabar com a lei do salário mínimo?
b) revogar a CLT e informalizar o mercado de trabalho?
c) cortar gastos sociais, o que inclui, você sabe, o Bolsa Família?
d) cortar repasses a bancos oficiais que permitem manter crédito barato para investimentos e emprego?
O debate de política econômica na eleição de 2014 é este. O país vive o menor desemprego de sua história. A economia cresce. Sim. Não tivemos recessão – apesar da torcida impopular.
É preciso ser muito “não-popular” para encher a boca e dizer que “deu errado”, vamos combinar.
Qual a prioridade, para a maioria dos “populares”, num país onde a lei diz que um homem vale 1 voto?
É preciso devotar um desprezo impopular irresistível pela inteligência popular para querer apresentar uma boa folha corrida do PSDB na luta contra a inflação.
A média da inflação no governo FHC foi de 9,2% — depois da moeda nova. A de Lula, que recebeu uma inflação de 12,5%, foi de 5,7%. A de Dilma se encontra em 6,1%.
Em 1995, 1996, 1999 e 2002, a inflação atingiu sob FHC, um patamar que jamais seria repetido, em momento algum, após a chegada de Lula ao Planalto. Ocorreram perdas salariais, que não se verificaram a partir de 2002. Deu errado?
Esse debate distorcido acontece porque estamos em 2002, mais uma vez. Terror eleitoral programado, com ajuda de nossos News of the World. O terror deles funciona com a língua de significados invertidos, onde a verdade é seu oposto.
Você lembra. Em 2002, um economista do Goldman Sachs lançou o “lulômetro”, uma peça de marketing eleitoral disfarçada de cálculo econômico, que pretendia aterrorizar o eleitor com projeções sobre o futuro do país caso Luís Inácio Lula da Silva chegasse a presidência. Ajudou a criar pânico nas bolsas, deixou a classe média amedrontada, criando uma situação política que forçou Lula a fazer concessões além da conta para garantir o início de seu governo. Já vimos este filme. Dez anos depois do lulômetro, o economista-chefe do mesmo Goldman Sachs disse para a revista Época Negócios que Lula foi o mais competente presidente dos países do G-20.
Os mais espertos impopulares-amargos de 2014 apostam em todas as canoas – não podem se dar ao luxo da imprudência por motivos ideológicos — mas não deixam de notar que uma delas anda na frente. Podem até ter suas preferências profundas mas querem ganhar o jogo de qualquer maneira, não importa o vitorioso. Em caso de derrota, querem colocar uma faca no pescoço de Dilma. Este é o ponto. Por isso falam tanto em mudar o “modelo.” A crítica se concentra em 2009, quando o país enfrentou a maior crise do capitalismo desde 1929 sem desemprego nem recessão. Dizem que o erro foi cometido ali e agora é preciso arrumar a casa. Não perdoam o esforço para resistir a austeridade, as demissões em massa, aos cortes que jogaram a Velha Europa no atoleiro de hoje.
Em 2014, o condomínio Lula-Dilma disputa – como favorito – o quarto mandato consecutivo no Planalto, um feito sem igual na história de nossa República. Não teve ajuda “im-popular” de ninguém.
Em momentos de delírio, os adversários sonharam até com um impeachment auxiliado por um barítono da Baixada Fluminense, não é mesmo? A base é o reconhecimento pelas conquistas que os “populares” obtiveram até aqui. O que se pretende é revogar, uma a uma, aquelas conquistas alinhavadas nos ítens “a” a “d.”
Foi assim há 50 anos, não custa lembrar. Num gesto de grande dignidade, o avô das medidas impopulares chamou de “canalhas” aqueles que pretendiam derrubar, pelas baionetas, um governo que não tomava medidas “impopulares.”
O avô do amargo recusou-se a entregar o cargo, foi para a cadeia depois discursar no rádio em defesa da “revolução pernambucana.”
Está na hora de garantir transparência política na campanha, concorda?
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Natal deixa de receber navio com cerca de 4 mil turistas
Revista Panrotas
O navio MSC Divina, que trará cerca de quatro mil mexicanos ao Nordeste em junho, para os três jogos da seleção do México na Copa (em Natal, Fortaleza e Recife), não poderá atracar na capital potiguar. O transatlântico ficará baseado em Recife, de onde o grupo de mexicanos viajará num comboio de quase 80 ônibus para Natal.
O problema é técnico e inadmissível para uma cidade turística, como Natal. A altura da ponte Newton Navarro é de apenas 55 metros.
Um navio como o MSC Divina mede 67 metros e não passa sob a ponte, o que impede a captação de grandes cruzeiros para a capital do Rio Grande do Norte.
Terminal
Curiosamente, Natal está ganhando um novo terminal marítimo de passageiros, embora a ponte limite a chegada de grandes transatlânticos.
Com investimento de R$ 72 milhões, o espaço terá lojas comerciais, restaurante panorâmico e estará apto a receber até três mil passageiros simultaneamente.
O problema é que um navio com essa capacidade não pode atracar no porto de Natal.
Kenarik Boujikian: Do Leblon às favelas da Maré, mandado coletivo nunca!

Do diário carioca Extra

Justiça, valor supremo do Leblon à Maré
por Kenarik Boujikian
E a cidade que tem braços abertos
Num cartão postal
Com os punhos fechados da vida real
Lhes nega oportunidades
Mostra a face dura do mal
Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
(Alagados, de Hebert Viana, Bi Ribeiro e João Barrone )
Não é de hoje que se diz que o “Tribunal está fechado para os pobres” (Ovidio). Isso fica muito claro quando se faz um levantamento dos mandados de busca e apreensão coletivos e se observa que nunca são expedidos nos locais considerados mais nobres para se viver.
Na verdade, não podem ser expedidos de forma coletiva. Nunca!
Em São Paulo, faz um tempão, tais mandados eram frequentes, mas esta anomalia, ao que parece, não existe mais. Daqueles que se tinha notícia, rigorosamente, eram em favelas, para encontrar drogas ou armas, o que sabemos são encontráveis em qualquer lugar desta cidade.
O Direito Penal é seletivo, razão de não termos notícia de mandados de busca coletivo nos bairros considerados “mais ricos”, nos condomínios de alto luxo, em prédios dos “Jardins”.
A Constituição Federal elegeu a casa como o local sagrado de cada pessoa. Tanto que, só se pode nela entrar sem o consentimento do morador, em raras situações, como ter uma ordem judicial.
Mas para ter valor, não basta que o papel tenha a assinatura de um juiz. Necessário que o juiz respeite as regras para autorizar que o Estado, através da polícia, ingresse na casa. Se assim não fizer, o juiz é que será o grande violador dos direitos e garantias fundamentais, o juiz é que será o fora da lei.
Atentem: todos os atos que forem praticados com este mandado imprestável, não terão qualquer valia, pois a exigência primeira é que o mandado seja expedido dentro da apuração de um determinado crime. Logo, meras suspeitas de delitos não justificam um mandado. Tem que ser algo concreto.
Mais. Nos crimes comuns, a busca só pode ser solicitada e executada pela polícia judiciária, ou seja, só a polícia civil ou federal, o delegado de polícia e o delegado federal. Portanto, polícia militar, guarda civil, exército estão fora de cogitação para cumprimento de qualquer mandado de busca.
Coletivo: jamais, pois a lei exige que na hora da expedição haja um crime e indícios graves sobre determinada pessoa. Não pode ser genérico, incerto, vago, para busca em toda uma região, um quadrilátero, uma rua, uma favela, uma comunidade, na casa de qualquer pessoa. Tem que dizer quem é e qual o crime que consta da apuração e em qual casa se quer buscar.
No Estado de Direito, o processo penal é instrumento de proteção dos direitos fundamentais. Se a atuação for violadora, fatalmente a busca torna ineficaz a apreensão.
A casa é asilo inviolável do indivíduo e o Estado tem a obrigação de garantir que ela assim permaneça, do Leblon até a Maré, para que os direitos de todos nós não sejam vilipendiados.
Seres humanos não são divisíveis em categorias e todos deveriam fazer o exercício de se colocar no lugar do outro e pensar que o fio condutor para a atuação do Estado tem que ser sempre a dignidade humana.
A pergunta que fica é: a quem interessa?
Kenarik Boujikian é presidenta da Associação Juízes para a Democracia
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O verdadeiro humor é aquele que dá um soco no fígado de quem oprime
Pintora usa criatividade para transformar capacetes corretivos em arte

A artista Paula Strawn usou a criatividade para ajudar famílias que usam capacetes corretivos em bebês com síndrome da cabeça chata. No lugar do equipamento branco e plano, as crianças podem usar uma divertida obra de arte. Assim, o que antes causava estranhamento, passa a atrair uma curiosidade mais amistosa.
Segundo Paula, é uma forma de criar a oportunidade para conversar e explicar o uso do capacete. Confira imagens do trabalho da artista:




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Datafolha é acusado de fazer pesquisa eleitoral com método que condenava em 2010
Ao longo da semana que finda, surgiu boato relativo a pesquisa Datafolha que, no momento em que este texto está sendo escrito, ainda está em campo apurando as preferências do eleitorado por este ou aquele pré-candidato à sucessão de Dilma Rousseff.
O boato partiu de postagem do site Infomoney publicada na última terça-feira, antes de o Datafolha ir a campo. Trata-se do mesmo site que divulgou, há quase duas semanas, que pesquisa Ibope apontaria queda das intenções de voto em Dilma.
Detalhe: a queda das intenções de voto de Dilma não ocorreu, mas a presidente e seu governo, segundo o Ibope, perderam aprovação.
A matéria do Infomoney, porém, na terça-feira fazia uma previsão bastante inusitada: “Datafolha divulgará pesquisa eleitoral no próximo sábado e promete agitar mercado”.
O site não disse, nessa postagem cifrada, por que a pesquisa em tela “agitaria” o mercado, mas “agitação” só ocorreria se houvesse uma queda das intenções de voto em Dilma, pois ela subir ou manter os números anteriores seria o esperável.
Mas como seria possível o tal Infomoney prever o resultado de uma pesquisa que nem começara a ser feita? O site vidente deu essa notícia no dia 1º de abril e a pesquisa Datafolha foi a campo no dia 2 e só terminará o trabalho nesta sexta-feira, dia 4.
Matéria do site Muda Mais matou a charada. O Datafolha formulou um extenso questionário para apresentar às suas vítimas, digo, aos seus entrevistados. São 47 perguntas, mas as perguntas sobre intenção de voto são as últimas do questionário.
Ao reproduzir a matéria do Muda Mais, o site Brasil 247 colocou de outra forma o que está acontecendo. O título da sua matéria é: “Datafolha foi feito sob medida contra Dilma”. A chamada do site para a matéria deixa bem claro o que fez o Datafolha:
—–
“Questionário do instituto do grupo Folha, de Otávio Frias Filho, traz uma série de perguntas sobre insegurança, Pasadena e risco de apagão, antes de entrar no que realmente interessa, que é a sucessão presidencial; estrutura das perguntas tende a criar um certo mal-estar no entrevistado e, por isso, deve apontar índices menores da presidente Dilma Rousseff e maiores dos oposicionistas Aécio Neves e Eduardo Campos; resultado sai apenas no sábado, mas a especulação já corre solta na Bovespa, onde as estatais registraram ontem fortes altas”
—–
Agora vem a cereja do bolo: em maio de 2010, a Folha de São Paulo acusou o instituto Sensus de fazer o que o Datafolha está fazendo agora, ou seja, “esquentar o entrevistado” antes de fazer a pergunta objetiva sobre em quem ele pretende votar.
Abaixo, reprodução da matéria do Datafolha de 14 de maio de 2010. Preste atenção, leitor, no trecho sublinhado em vermelho.(clique na imagem para ir ao site original)

Em 2010, a troca de acusações entre institutos de pesquisa levou este blog e seu signatário, que preside a ONG Movimento dos Sem Mídia, a apresentar representação à Procuradoria Geral Eleitoral contra todos os grandes institutos de pesquisa devido ao fato de que é crime forjar ou manipular pesquisas eleitorais.
A Procuradoria acolheu a representação do Movimento dos Sem Mídia. A então sub procuradora-geral-eleitoral, Sandra Cureau, determinou abertura de inquérito na Polícia Federal para investigar quem falava a verdade, se o Datafolha ou Sensus e Vox Populi, pois o primeiro instituto dava 10 pontos percentuais de vantagem para Serra e os outros dois diziam que o tucano e a petista estavam empatados.
Abaixo, matéria do portal IG sobre o caso (clique na imagem para ver a matéria original)
O fato é que exatos 10 dias após a aceitação da representação pela Procuradoria e da abertura de inquérito pela PF, o Datafolha convergiu para os números de Sensus e Vox Populi. Em 22 de maio de 2010, manchete de primeira página da Folha de São Paulo reconhecia que Dilma e Serra estavam empatados – dez dias antes, o mesmo Datafolha dava 10 pontos de vantagem para o tucano.
Abaixo, fac-símile da capa do jornal naquele dia. (clique na imagem para ir ao site original)

A pergunta que não quer calar é: será que em 2014, praticamente na mesma época do ano de 2010, o Movimento dos Sem Mídia terá que apelar de novo à Justiça Eleitoral?
*
ATUALIZAÇÃO ÀS 19:18 HS
Através do Twitter, o blog recebeu informação de que, não, o questionário do Datafolha não começa pelas perguntas que “esquentam” o entrevistado. Ao menos não oficialmente…
Seja como for, vale prestar atenção nessas pesquisas. A quantidade de perguntas e o teor delas mostram preocupação em medir uma queda iminente ou possível de Dilma Rousseff.
O questionário não faz perguntas que lembram casos de suposta corrupção ou suposta incompetência em relação aos adversários de Dilma Rousseff.
































































