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29 May 16:54

viver é mais barato do que parece

by alexcastro

cresci menino rico de condomínio da barra da tijuca. depois, a família teve a sensatez de falir, uma experiência educacional que recomendo para todas as pessoas que já foram ricas.

no mundo onde me criei, água não era apenas água: era uma perrier, garrafinha verde, de uma fonte naturalmente gasosa no sul da frança; o relógio de pulso não era só um relógio de pulso, era um hublot, lindo, discreto, minimalista, e assim por diante, da água mineral ao relógio de pulso, do carro à camiseta.

para uma criança, bastava um pouco de extrapolação e uma aritmética básica para concluir que viver era muito, muito caro. eu precisaria ganhar uma quantidade abissal de dinheiro só para continuar vivendo como sempre tinha vivido. só para ficar tudo igual.

buscando essa quimera, caí de cabeça na primeira bolha da internet. fui a seminários de web marketing, fiz business plans, levantei seed money com venture capitalists, fundei a minha própria startup dotcom onde era o chief visionary officer… e fali.

nessa época, minha família já não estava mais em condições de me ajudar financeiramente. vendi o carro (e o hublot) para pagar as dívidas e fiquei a pé pela primeira vez desde os dezessete anos. depois, meti o rabo entre as pernas e fui morar com a esposa em um quarto na casa da minha mãe, pagando aluguel.

então, no primeiro domingo de 2002, abri os classificados e fui tentar descobrir um jeito de ganhar dinheiro. aparentemente, minha única habilidade com demanda de mercado era falar inglês fluente, fruto da minha caríssima educação de primeiro mundo. passei dois meses distribuindo currículos até receber a primeira resposta.

eu nunca tinha andado de ônibus na vida. segundo as histórias que circulavam no meu mundo, sempre contadas por pessoas que também nunca tinham andado de ônibus, você era obrigatoriamente assaltado a cada dez minutos, ou algo assim. um horror.

e, agora, aqui estava eu pegando nove ônibus por dia, para dar duas ou três aulas em pontos diferentes da cidade.

foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido.

percebi que não precisava ter medo da vida. que não eram necessários quinze mil reais por mês para ter uma vida digna e ser feliz.

com poucas horas de aulas em dias alternados da semana, eu já conseguia ganhar o suficiente para pagar as contas básicas. se e quando eu precisasse de mais, bastava encher progressivamente os outros horários.

em finais de 2002, eu e minha esposa já estávamos em nosso próprio apartamento alugado. cozinhávamos em casa, andávamos de ônibus, baixávamos filmes da internet, tirávamos livros da biblioteca, íamos à praia, transávamos muito.

ela fazia mestrado de manhã e trabalhava de vendedora de loja de roupas à tarde e à noite. eu chegava no shopping algumas horas antes de ela sair, ficava na mega livraria lendo de graça aqueles novos romances brasileiros de cento e poucas páginas que se termina rapidinho, e voltávamos juntos pra casa.

não consumíamos quase nada e, mesmo assim, apesar disso, talvez por isso, éramos felizes. mais importante, éramos viáveis.

algumas das pessoas mais felizes que conheci eram ex-ricas, escreveu uma vez o psicólogo flávio gikovate. nossa sociedade é tão obcecada por dinheiro que pode ser libertador perdê-lo: percebe-se, de uma vez só, o quão pouca falta ele faz.

para mim, essa certeza de que conseguia me sustentar sozinho, com esforço mínimo, foi talvez a revelação mais importante da minha vida.

eu não precisava me escravizar dez horas por dia em um escritório sem janelas, realizando os projetos de outras pessoas, trocando a energia vital da minha juventude por água perrier e por relógios hublot.

percebi que vender minha alma ao mercado de trabalho não era o único modo de viver.

que se eu abdicasse da água perrier e dos relógios hublot, ou mesmo de água petrópolis e de relógios swatch, eu poderia trabalhar menos e ter mais tempo livre: criar mais, viver mais, dormir mais, transar mais, ir mais à praia.

e também ser um melhor filho, um melhor marido, um melhor amigo. ouvir mais, ajudar mais, me doar mais.

hoje, bebo água de um filtro de cerâmica são joão e, depois de vender o hublot, nunca mais usei relógio.

* * *

(trecho da prisão dinheiro, um dos meus melhores textos.)

* * *

as prisões são as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida. são as ideias pré-concebidas, as tradições mal-explicadas, os costumes sem-sentido. leia também a prisão dinheiro e, na sequência, a prisão trabalho.

29 May 00:39

Taxação de heranças: o problema não é herdar riqueza, e sim pobreza

by Leonardo Sakamoto

Dia desses, após participar de um debate, fui abordado por uma mulher muito simpática que tentou me convencer a abandonar o libelo comunista da taxação de grandes heranças. Explicou que poderia me recomendar boas leituras para entender como esse tipo de medida afundou Cuba.

Quando contei que um outro país notoriamente comunista, os Estados Unidos, mordia até 40% da herança, ela ficou indignada. Comigo, não com o Tio Sam. Afinal, isso não é argumento que se use! Afinal, nos Estados Unidos é diferente. Sempre é… Disse a ela que seria ótimo se, no Brasil houvesse algo semelhante, com progressividade (os mais ricos sendo mais cobrados) e teto de isenção (o do Tio Sam é de 5 milhões de dólares por pessoa). Por aqui, nós temos o Imposto sobre Transmissão, Causa Mortis e Doação (ITCMD), que pode adotar valores como 2,5%, 4% ou 6%, com tetos de isenção que chegam a algumas centenas de milhares de reais, variando de Estado para Estado. Não faz nem cócega.

Para quem não sabe, uma das razões que leva aos bilionários norte-americanos a criarem fundações é que essa doação conta com isenção tributária.

Já tratei de taxação de grandes heranças várias vezes, mas a história da desconsolada moça – como é que um rapaz que parece tão esperto pode defender um troço desses – me faz resgatar a discussão. É justo que todos que suaram a camisa e conseguiram guardar algum queiram deixar uma vida mais confortável para seus filhos e netos. Contudo, a partir de uma determinada quantidade de riqueza, o que seria apenas garantir conforto transforma-se em transmissão hereditária da desigualdade social e de suas consequências.

Thomas Pinketty cutucou a onça com vara curta em seu novo livro, que virou sucesso inclusive nos EUA. O jornalista Clóvis Rossi também passou anos discutindo a evolução da renda do capital e do trabalho em sua coluna na Folha de S.Paulo. Quem quiser resgatá-las, terá um ótimo debate sobre nossa realidade.

Enfim, como já disse aqui antes, quem tem muito deveria, ao passar desta para a melhor, entregar parte do possuía para proporcionar oportunidades a quem tem menos. Atenção: não estou dizendo para entregar dinheiro vivo a quem não tem nada, caros leitores que não gostam de ler. Estou falando em usar os recursos para a execução de políticas públicas de educação, cultura, lazer, moradia, alimentação, enfim, vocês entenderam, direitos básicos. Afinal de contas, como é possível que, por lei, todos nasçam iguais em direitos se alguns vêm ao mundo sistematicamente “mais iguais” que outros?

Dessa forma, dentro de algumas gerações, conseguiríamos suavizar esse degrau brutal entre as diferentes castas que convivem por aqui.

Novamente, não estou sugerindo que todos usem uniforme caqui, morem em alojamentos coletivos e cozinhem ensopado de batata.

Mas, como ouvi um dia de um político consciente, o ultrajante não é alguém morar em um apartamento de 400 metros quadrados enquanto outro vive em um de 40. O que desconcerta é alguém desfrutar de um apê de 4 mil metros quadrados enquanto outro apanha da polícia para manter seu barraco em uma ocupação de terreno, seja em Itaquera, Grajaú, Osasco, Pinheirinho, Eldorados dos Carajás, onde for.

Alguns vão dizer que estou louco, que isso vai contra a ideia de propriedade privada, pilar sobre o qual nossa civilização está construída (Zzzzzzzz…) E que, sem a possibilidade de herança, tudo vai desmoronar, ninguém vai querer investir no desenvolvimento do país, plantaremos juta para roupas costuradas com espinho de peixe e faremos chá de capeba ou pariparoba para curar todas as doenças. Nós vamos viver em cavernas! NÓS VAMOS VIVER EM CAVERNAS!

A força de um futuro imposto sobre heranças, que morda progressivamente, na proporção do tamanho da fortuna, não reside apenas nos recursos que ele é capaz de arrecadar, mas no simbolismo de um Estado que assume o papel de corrigir distorções históricas e de tratar desiguais de forma desigual.

Ele tem o mesmo DNA de projetos como a redução da jornada de trabalho sem redução de salário, aumento da licença maternidade, taxação de grandes fortunas, correção dos índices de produtividade da terra, entre outros, que são tratados por muitos como o tabu de dormir com a mãe.

Por isso a moça que me abordou pode dormir sossegada. Não estamos na iminência de mudanças que tornem o país estruturalmente mais justo. O momento agora é de transformação. Mas pequenininha, sabe? Para quê mexer em time com o qual se ganha horrores, não é mesmo?

28 May 14:22

Priscila Silva declara guerra aos chavões preguiçosos da rede

by Luiz Carlos Azenha

A estupidez da Veja corrói mentes, diz o Viomundo

O problema não é o Brasil. É você

por Priscila Silva, em seu blog

Toda vez que um assunto polêmico surge na mídia, viraliza nas redes sociais e chega às rodas de amigos, reuniões de família e mesas de bar, começam a pipocar, por toda parte, juízos de valor genéricos a respeito “do Brasil” e “do povo brasileiro”.

Essas “análises”, que estão em alta no atual período pré-Copa, costumam ser, mais especificamente, materializadas na forma de chavões babacas mais antigos que a minha avó: são os famosos “só no Brasil”, “isso é Brasil!”, e, ainda, o clássico e meu preferido “o problema é a cabeça do brasileiro” (que também pode aparecer na carinhosa versão “o povo brasileiro é burro”).

Que a internet e os círculos sociais estão recheados de ideias idiotas, preconceituosas e desprovidas de qualquer senso lógico ou nexo com a realidade não é novidade.

O problema aqui é que as pérolas pertencentes à categoria “Brasil é uma merda porque é uma merda, e eu não tenho nada a ver com isso” não vêm sendo enquadradas como apatia mental, como deveriam, mas como demonstração de revolta consciente e politizada “contra tudo que está aí”.

Um quarto dos brasileiros acha que uma mulher de shortinho merece ser estuprada? “Isso é Brasil!”. A Petrobrás fez um mau negócio em Pasadena? “Brasil, né?”. Algumas obras da Copa do Mundo atrasaram? “Só no Brasil mesmo!”.

Não. Não. E não. Na verdade, esse tipo de pensamento vazio, reducionista e arrogante empobrece o debate dos problemas que estão por detrás dos acontecimentos (que acabam sendo levianamente rotulados como “coisa do Brasil”), além de estimular e legitimar uma atitude resignada e egoísta ao melhor (ou pior) estilo Pôncio Pilatos (“lavo minhas mãos, porque a merda já estava feita quando eu cheguei aqui”).

“Só no Brasil”? Não.

Em primeiro lugar, vale uma pesquisa prévia a respeito do assunto sobre o qual se está emitindo opinião: será mesmo que o Brasil é o único país a enfrentar esse problema específico que você conheceu superficialmente através do link que seu amigo compartilhou no Facebook? Pode ter certeza que, em 99% dos casos, a gente carrega o fardo junto com mais algumas dezenas de países (se não com todas as nações do planeta), ainda que ele pese mais ou menos conforme o caso.

E não estamos falando apenas de países considerados “mais atrasados” e “menos civilizados” que o Brasil.

Tem corrupção na Europa, os Estados Unidos mal possuem um sistema público de saúde, o racismo segue forte em diversos países “desenvolvidos”, e a Inglaterra é descaradamente sexista. Por isso, antes de iniciar um festival de ignorância, babar ovo de gringo gratuitamente e resumir seu discurso a uma frase despolitizada como essa, lembre-se que o Google está a apenas um clique.

Caso contrário, você corre o risco de continuar contribuindo para que 40% dos nascidos no Brasil prefiram ter outra nacionalidade (apesar de o Brasil ser sonho de consumo internacionalmente).

Se “isso é Brasil”, então “isso” é você também.

Dou a qualquer um o direito de achar o Brasil uma merda monumental e sem precedentes, desde que admita ser uma merda de pessoa também. Assim, quando alguém disser “o Brasil é um lixo” ou “o povo brasileiro é burro”, na verdade estará dizendo “eu sou um lixo” e “eu sou burro”. Combinado?

Porque, caros amigos niilistas radicais, é estranhamente conveniente excluir-se, deliberadamente, do conjunto de brasileiros, negando a própria cultura e origem, bem na hora em que “a coisa aperta”, não é?

As expressões “isso é Brasil” ou “esse é o povo brasileiro” não são, portanto, apenas generalizantes e reducionistas, mas também um tanto arrogantes. Quem as profere se julga acima dos defeitos da sociedade brasileira, e é incapaz de perceber que suas próprias convicções, ideias e preconceitos são na verdade um reflexo das características e problemas da sociedade brasileira como um todo.

Nem é preciso nem dizer que esse tipo de perspectiva segregatória, em que o locutor se coloca em posição imparcial e de superioridade em relação ao restante da população, gera verdadeiros fenômenos de cegueira coletiva.

Um exemplo clássico é a inabilidade de algumas pessoas em enxergar o próprio racismo, o que popularizou expressões como “não sou racista, mas…”, culminando com a negação da existência de racismo no Brasil por determinadas “correntes ideológicas”.

Então, antes que comecemos a negar outros “ismos” por aí (o que, a bem da verdade, já acontece), vamos parar de subir em pedestais imaginários e nos colocar em nossos devidos lugares: na arquibancada junto com o resto do povão e toda a torcida do Flamengo.

Se “isso é Brasil”, repetir esse chavão não vai mudar nada (talvez só pra pior).

Imagine a seguinte situação hipotética: um sujeito dito “politizado” está surfando na rede, checando o feed de notícias do Facebook, dando um rolê pelo Twitter e teclando no WhatsApp, quando, casualmente, se depara com uma notícia revoltante (sabemos que a internet está cheia delas).

Indignado com a situação ultrajante da qual acaba de tomar conhecimento, nosso amigo resolve mostrar toda a sua revolta por meio de um comentário impactante no perfil de quem, muito sagazmente, compartilhou aquela notícia chocante com ele. “Fazer o que, né, colega? Isso é o país em que vivemos. Viva o Bra-ziu!”.

Satisfeito com sua contribuição, o internauta bem informado segue para os próximos “hits do dia” nas redes sociais, afinal, “isso é Brasil” — não tem jeito. E ele, pessoa politizada e, portanto, ciente do “beco sem saída” que é o nosso país, nem vai se dar ao trabalho de pensar sobre o assunto (e muito menos fazer algo a respeito), uma vez que essa nação é feita de pessoas naturalmente incompetentes e políticos naturalmente corruptos. Confere? Não confere. Na verdade, cidadão politizado, o problema, neste cenário, não é o Brasil. É você.

Quando um indivíduo, ao deparar-se com determinado problema que considera sério, resume seu pensamento e manifestação à depreciação verbal genérica e gratuita de seu país, só podemos concluir que ele atingiu um nível sobre-humano de apatia mental e social.

Além de não mover uma palha para mudar a situação que o indignou, contribui para difundir um clima negativo, conformista e preguiçoso por onde passa, contagiando outras pessoas com a ideia deturpada de que é impossível mudar as coisas para melhor (ou que simplesmente não vale a pena), porque “o povo brasileiro é assim mesmo”.

Resumo da ópera: quem não quiser realmente tentar entender o problema, trocar ideias sobre como solucioná-lo, contribuir com organizações e movimentos sociais envolvidos no assunto, criar ou participar de campanhas de conscientização, e procurar votar em políticos empenhados na causa em questão, que pelo menos pare de encher o saco com reducionismos pessimistas e burros. A esfera pública agradece.

“Isso é Brasil” agora, mas pode mudar. E depende de você também.

Imaginem se, há 30, 40 anos atrás, quando ainda vivíamos uma ditadura, todos pensassem que o “Brasil é assim mesmo”, que “somos um povo submisso que só funciona na ‘base da porrada’”?

Imaginem se a população tivesse desistido de exigir a redemocratização, e se resignado, limitando-se a comentar com seus conhecidos, em cafés e restaurantes, que “aquilo era o Brasil”.

Foi porque as pessoas não se conformaram com o que o Brasil era ou parecia ser que hoje nós vivemos uma democracia plena, onde todos podem se manifestar da forma que julgam melhor (até de forma superficial e não construtiva, como a que estamos tratando neste texto).

O direito à liberdade de pensamento e expressão é indiscutível, e o que deixo aqui é apenas um humilde conselho: vamos usar essas prerrogativasde verdade. Para debater, e não para cair em chavões limitados e vazios de que o país é uma porcaria generalizada, pior que qualquer outro, que nosso povo é burro e corrupto, que estamos no fundo poço e nunca sairemos dele, e que é impossível mudar a realidade em que vivemos.

Isso não quer dizer, de forma alguma, que devemos fugir dos problemas ou nos conformarmos com o que já foi conquistado, pois ainda existem inúmeros desafios a serem superados nesse Brasil continental. Se “isso” é mesmo o Brasil, a mudança só depende de nós.


Priscila Silva
 é jornalista, feminista e mais alguns outros “istas”. Fã de gastronomia e de literatura de esquerda. Procurando entender o mundo, um dia de cada vez.


Leia também:

O leitor que entrou na loja para protestar contra a síndrome do viralata

O post Priscila Silva declara guerra aos chavões preguiçosos da rede apareceu primeiro em Viomundo - O que você não vê na mídia.

26 May 23:38

QUEM A MISOGINIA MATOU HOJE?

by lola aronovich
Moça em Sta Barbara observa janela com buracos de bala


Na sexta à noite, Elliot Rodger, 22 anos, executou a missão que vinha planejando há meses: vingança. Retribuição. Aniquilação total. "Se não posso ter vocês, garotas, irei destruí-las", havia jurado ele num vídeo postado no mesmo dia do massacre.
Rodger começou matando a facadas três colegas de quarto em Santa Barbara. Depois foi com sua BMW para uma sororidade na Universidade da Califórnia, assassinando duas moças com sua pistola automática. Dirigiu até um supermercado e, na rua, do carro, passou a atirar em pessoas que passavam. No total, foram sete mortos (incluindo ele próprio) e treze feridos.
No vídeo perturbador, Rodger, entre uma e outra risada sinistra, se diz um homem alfa, ao mesmo tempo em que reclama ser virgem. Algumas de suas frases, dirigidas às mulheres: "Vocês me negaram uma vida feliz"; "Odeio todas vocês. A humanidade é nojenta"; "Vou dar a vocês o que vocês merecem por terem me rejeitado e se dado para outros homens. E aos homens por terem uma vida melhor que a minha"; e "Vou massacrar cada vagabunda loira, mimada e metida que via lá dentro, e todas essas garotas que eu tanto desejei e que me rejeitaram e me olharam com desprezo, como se eu fosse um homem inferior".
Rodger também deixou seu manifesto, ou suas memórias, um calhamaço de 140 páginas. Num típico pensamento mascu, ele protesta contra as mulheres: "As garotas se reúnem em torno do macho alfa, dos garotos que parecem ter mais poder e status". Ele conta que, ao ver um vídeo pornô, aos 13 anos, concluiu: "Sexo... as próprias palavras me enchem de ódio. Assim que cheguei à puberdade, eu sempre queria sexo, como qualquer outro garoto. Sempre desejava, sempre fantasiava, mas nunca iria fazer. Não conseguir sexo é o que formatará toda a fundação da minha juventude miserável". 
Evidentemente, Rodger também odiava feministas. Ele se considerava um incel (celibatário involuntário), e pedia a destruição do feminismo: "Um dia incels vão perceber sua verdadeira força e quantidade, e irão derrubar este sistema feminista opressivo. Comece a imaginar um mundo em que as mulheres te temem".
Em seu manifesto, ele escreve: "Mulheres são como uma praga. Elas não merecem ter qualquer direito. Sua maldade deve ser contida para prevenir gerações futuras da sua degeneração. Mulheres são animais malditos e barbáricos, e precisam ser tratadas como tais". Ele queria criar campos de concentração para mulheres em que todas passariam fome até morrer.
Racista, ele via conhecidos negros e latinos com namoradas, e não entendia como eles, feios e sujos, conseguiam mulheres brancas e bonitas, enquanto ele, "descendente da aristocracia britânica", não. Num vídeo, Rodger registra sua inveja ao ver um casal namorando na praia. "Não é justo", diz ele. "A vida não é justa". Noutro, ele exibe suas roupas e seus óculos de 300 dólares e afirma, "Eu mereço garotas. Muito mais que aqueles preguiçosos que vejo na universidade".
Mesmo sendo filho do diretor assistente de Jogos Vorazes, Rodger não se sentia rico.  Pelo contrário, era obcecado por ganhar na loteria e ficar milionário. Achava que assim seria capaz de atrair mulheres (outro típico pensamento mascu). 
Numa parte de seu manifesto, Rodger escreve que, ao ver um casal, sonhava em matá-lo lentamente, removendo sua pele: "Eles merecem. Os homens merecem por tirarem as fêmeas de mim, e as fêmeas merecem por escolherem esses homens em vez de mim".
Uma vez, conta Rodger, ele jogou café em duas "loiras gostosas" porque elas não sorriram de volta pra ele. "Elas mereceram a punição que dei a elas. Uma pena que meu café não estava quente o suficiente para queimá-las. Essas garotas merecem ser jogadas em água fervente pelo crime de não me darem a atenção e adoração que eu justamente mereço".
No final de 2012, Rodger comprou uma pistola automática e passou a se preparar para o "Dia da Retribuição" ("minha guerra contra as mulheres por me rejeitarem e me privarem de sexo e amor"). Ao comprar a arma, escreveu: "Quem é o homem alfa agora, vadias?"
Imagino que consegui provar que Rodger era um misógino de marca maior, que usava a mesma linguagem dos blogs e fóruns de ódio que frequentava, sites de masculinistas americanos e PUAs (Pick-Up Artists, ou "artistas da sedução"), que fingem ser adversários mas são exatamente a mesma coisa. 
Vigília com velas na universidade
Por exemplo, um dos mais conhecidos "puazeiros" mostrou-se preocupado com os inimigos que virão por causa das ações de Rodger: "Mas nós somos a solução para este tipo de massacre. Esta é a sociedade que os progressistas queriam, onde mulheres são capazes de escolher os 10% de homens alfas ao mesmo tempo que culpam a masculinidade, deixando homens betas com recursos modestos comendo poeira". Quer dizer, só mudam os números. Um popular mascu brasileiro costumava pregar que 20% dos homens pegam 80% das mulheres (estatística, aliás, que ele copiou dos mascus americanos).
Gráfico que Rodger deixava em sites misóginos para reclamar da "hipergamia feminina" (clique para ampliar)
Logicamente, Rodger não foi o primeiro (e infelizmente não será o último) misógino a colocar em ações concretas (violência) o seu ódio. Enquanto o feminismo nunca matou ninguém (pra quem citar Solanas: felizmente, Andy Warhol não morreu; pra quem citar aborto: primeiro que aborto não é invenção nem exclusividade feminista, segundo que considero vida quem já nasceu; pra quem citar alguma mulher que já matou alguém -- embora 90% de toda a violência no mundo seja causada por homens, mulheres também cometem atos de violência --, favor checar se a assassina em questão é feminista, afinal, nem toda mulher é feminista, "apenas" cerca de 30% a 40%, dependendo do país), o machismo mata todos os dias.
Cinco mulheres são assassinadas diariamente nos EUA pelos parceiros íntimos. Aqui no Brasil há quinze feminicídios todos os dias, a maior parte cometida por parceiros ou ex-parceiros, que não aceitam a separação. Pelos cálculos da ONU, um terço de todas as mulheres mortas no mundo são assassinadas pelo parceiro ou ex. E isso que estou falando apenas de feminicídios individuais, não em massa (aliás, pra quem jura que mulheres são tão violentas quanto homens, você vai ter que rebolar pra encontrar uma mulher que tenha cometido massacres em massa). 
Pra massacres coletivos, nada melhor que a forcinha de movimentos coletivos, como a misoginia organizada dos mascus e puazeiros. Gostaria de lembrar a vocês de outros misóginos que cometeram massacres.
Marc Lépine foi praticamente um pioneiro do masculinismo que mata. Em 1989, Lépine, um canadense de 25 anos que não estava conseguindo ingressar na universidade que queria, invadiu uma sala de aula da Escola Politécnica, em Montreal. Separou os homens das mulheres, ordenou que os homens se retirassem, e atirou nas mulheres, gritando: "Vocês são todas feministas! Eu odeio feministas!" Matou 14 mulheres, feriu outras dez (e 4 homens), e se suicidou. Numa carta, justificou sua revolta dizendo que a ideia de mulheres ocuparem um espaço masculino como engenharia era insuportável. Para muitos mascus ainda hoje, Lépine é um herói.
George Hennard foi responsável pelo massacre mais fatal a ocorrer nos EUA fora de uma escola. Em 1991, numa pequena cidade do Texas, Hennard invadiu um restaurante com sua caminhonete. Gritou "Hoje é o dia de dar o troco! Todas as mulheres de Killeen e Belton [cidadezinhas] são víboras!", e matou 24 pessoas, 14 delas mulheres, antes de se matar. Hennard era um sujeito de 35 anos que, pouco tempo antes, havia stalked duas jovens irmãs. Em uma das cartas que ele lhes enviou, escreveu: "Eu vou prevalecer no final". As garotas ficaram assustadas o bastante para entregarem a carta pra polícia, que não lhes deu bola e entendeu as ameaças de Hennard como um gesto romântico.
Charles C. Roberts, 32 anos, casado e pai de três filhos, em 2006 entrou numa escola numa comunidade Amish na Pensilvânia (ele não era Amish), separou os meninos das meninas, e expulsou da sala os meninos. Amarrou com fita colante onze meninas (entre 6 e 13 anos) e atirou nelas, matando cinco e ferindo seis. Em seguida, se suicidou. Não se sabe exatamente por que ele quis matar meninas. Rumores apontam que ele havia abusado sexualmente de duas garotas vinte anos antes e estava fantasiando abusar novamente. Para evitar isso, preferiu matá-las.
George Sodini, 48, estava tão desesperado por não transar havia 19 anos que pagou por vários cursos PUA. Durante nove meses, ele registrou em seu blog seu ódio pelas mulheres (neste post traduzi alguns de seus textos). Ele acreditava que tudo que precisava para conquistar lindas jovens era dinheiro, mas não estava dando certo. Em 2009, foi a uma academia de ginástica em Pittsburgh, entrou numa aula de aeróbica só para mulheres, e abriu fogo. Matou 3 mulheres, feriu outras nove, e se suicidou. Não conseguia entender por que 30 milhões de americanas (sua estimativa para o número de jovens desejáveis existentes) o recusaram. Segundo ele, elas lhe deviam sexo.
Pausa. No seu recente (e excelente) livro Angry White Men (Homens Brancos Furiosos: A Masculinidade Americana no Fim de uma Era), o sociólogo Michael Kimmel inclui comentários que ele pegou de blogs e fóruns masculinistas nos EUA sobre Sodini, em 2009. Vou traduzir alguns:
"George Sodini é um herói masculinista. Finalmente um assassino em massa escreve um manifesto relativamente coerente. Podia ser melhor, mas ao menos sugere que a culpa é do feminismo e que Sodini está tomando uma posição. Estava esperando por isso (quase pensei que eu mesmo teria que fazê-lo)! Parabéns!"
"As mulheres devem aceitar este incidente como um imposto. Elas conseguem homens para que lhes paguem bebidas e jantares e casamentos, e não dão nada em troca. De vez em quando, algumas mulheres são assassinadas. As mulheres, particularmente as feminazis, têm muito o que refletir."
"Um cara razoavelmente atraente que recebe um bom salário e não bate em mulheres MERECE fazer sexo. Ponto final. O fato de que muitos não fazem é um crime. E numa sociedade justa, todos os crimes são eventualmente punidos".
"Eu aplaudo estupro e violência contra as mulheres quando fica claro que homens amargurados as matam por elas não aceitarem fazer sexo. Só assim as mulheres abandonarão sua igualdade e serão forçadas a um casamento monogâmico por pura necessidade econômica."
Na época do massacre em Pittsburgh, uma colunista do The Guardian buscou explicações para um fenômeno: por que o fracasso na vida amorosa faz alguns homens irem pelo caminho de um Sodini, enquanto as mulheres no máximo tornam-se Bridget Jones? Você já viu alguma mulher virgem sair por aí atirando em caras porque ela merece sexo?
Ah, tem mais dois ou três misóginos que eu me lembro sem esforço. Outro que frequentava blogs e fóruns mascus era Jared Loughner, que em 2011, no Texas, atirou na cabeça da congressista Gabrielle Giffords, que milagrosamente sobreviveu. Outras seis pessoas não tiveram a mesma sorte. Loughner não se suicidou nem foi morto pela polícia. Após ser julgado mentalmente incapaz de responder por seus atos, foi condenado à prisão perpétua. Nos sites mascus que visitava, Loughner gostava de compartilhar histórias de como era rejeitado pelas mulheres, e de dizer que elas nunca deveriam ter posições de poder.
E quem não conhece o terrorista norueguês Anders Breivik, que em julho de 2011 matou oito funcionários públicos em prédios do governo, em Oslo, e 69 pessoas, a maior parte adolescentes, num acampamento? Sua motivação foi o combate à religião islâmica, ao marxismo cultural e, como não poderia deixar de ser, ao feminismo. Breivik era, e é ainda (talvez passe a vida toda na cadeia), um mascu. E como tal foi defendido por vários mascus. Um deles disse que, em outras épocas, Breivik seria chamado de herói. Por aqui, fotos suas ilustram muitos avatares misóginos.
E não devemos, é claro, nos esquecer do "nosso" Wellington, a prata da casa. Em abril de 2011, um jovem de 23 anos, Wellington Menezes de Oliveira, entrou numa escola municipal no Rio, em Realengo (onde havia sido aluno), e atirou nas meninas, principalmente nas bonitas, para matar, e nos meninos, para machucar. Matou dez meninas e dois meninos (todxs entre 12 e 14 anos), e se suicidou após ser acertado por um policial. 
Na ocasião do maior massacre desse tipo já cometido em solo brasileiro, a polícia federal investigou vários fóruns e blogs mascus, pois sabia que Wellington era um fiel frequentador. Silvio Koerich, responsável pelo maior fórum mascu, teve tanto medo das investigações que simplesmente sumiu, sem dar explicações. 
Um outro mascu brasileiro compreendeu o massacre, já que as meninas transavam com outros, não com Wellington: “esse mercado sexual seletivo cria homens errantes, como o caso deste assassino. Alguns homens com menos poder diante do mercado sexual adquirem uma extrema raiva e frustração contra o processo seletivo das mulheres”. Pois é, como elas ousam escolher!
Menos de um ano depois, os mascus sanctos que tomaram conta do blog de Koerich postaram o log da conversa que tiveram com Wellington (leia aqui). 
Eu não tenho a menor dúvida que Wellington era um mascu que, influenciado por outros mascus, cometeu seu ato de misoginia, seus feminicídios. Até hoje ele é tratado como grande herói pelos sanctos -- que, obviamente, agora tem uma nova inspiração na figura de Rodger Elliot. 
No sábado recebi várias mensagens de Marcelo Mello, o mascu sancto que, junto a Emerson, foi preso em março de 2012, por planejar um atentado no prédio de Ciências Sociais da UnB ("para matar esquerdistas e vadias"). Apesar de condenado a 6,5 anos, Marcelo está solto desde maio do ano passado, fazendo exatamente o que fazia antes de ser capturado (ameaçando e espalhando ódio):

Num fórum aberto recentemente, que parece ser dele, os membros comemoram:

Não faço a menor ideia quem seja Eric, mas o discurso racista de Rodger é parecido mesmo com o de Emerson. Já pensar que Rodger conversava com mascus brasileiros é delírio de grandeza dos insignificantes sanctos...
No único segmento mascu do Brasil em que os misóginos ainda crescem, nos blogs de finanças pessoais, o chorume à la Rodger corre solto. Este é um comentário de ontem:

E este é um dos trechos dos inúmeros manifestos de um mascu do Mato Grosso do Sul, cuja missão na terra é acabar com o feminismo. E, se bobear, com as mulheres:
Chris deve dedicar mais da metade dos seus muitos posts a minha pessoa:

Pois então, como uma feminista consegue acabar sozinha com o masculinismo? Deve ser porque gorda remelenta não confunde vítimas (Eliza) com algozes (goleiro Bruno). 
E há os machistas simplistas, que creem que, se Rodger (e Sodini, e Wellington -- isso não se aplica aos outros mascus citados acima) tivesse contratado uma prostituta para fazer sexo com ele, muita gente estaria viva hoje. Só que não é verdade. Prostitutas não resolveriam o problema de Rodger, porque mais do que sexo, mais do que amor, ele queria validação. Ele queria ser visto como um ótimo cara e merecedor de todas as coisas boas que lhe foram prometidas desde que ele nasceu, apenas por ter nascido homem. E, por mais narcisista que fosse, ele sabia que prostitutas só diriam que ele era um ótimo cara se ele pagasse.
Se você acha que estou exagerando, vá ao início deste post gigantesco e veja quantas vezes a palavra merecer aparece no discurso de Rodger. Esta é a razão principal da revolta dele e dos outros -- eles não estavam recebendo o que mereciam. A palavra-chave é entitlement, o sentimento de merecimento que está sempre associado à masculinidade. Homens, principalmente homens brancos e héteros de classe média pra cima, sentem-se no direito de ter bons empregos, de ganhar bem, de ingressar na faculdade, de ter poder, e, acima de tudo, de obter sexo com as mulheres que eles quiserem (e dane-se o que elas querem).
O site de humor inteligente Cracked resumiu este sentimento brilhantemente num post de dois anos atrás chamado "Cinco maneiras que rapazes são treinados para odiar mulheres"(minha tradução):
"Parece que os homens sentem-se meio merecedores de sexo? Parece que reagimos à rejeição com a maturidade de uma criança a quem é negada um brinquedo? O que aprendemos quando crianças é que homens merecem, e eventualmente serão recompensados com, uma linda mulher. [...] Então é muito frustrante, e quero dizer frustrante ao ponto de violência, quando não recebemos o que nos é devido. Um contrato se rompeu. Essas mulheres, ao exercerem suas próprias escolhas, estão negando isso a nós. É por isso que todo Carinha Legal se choca ao descobrir que comprar presentes pra uma garota e fazer favores pra ela não farão com que ele receba sexo. É por isso que usamos 'vadia' e 'puta' como insultos-padrão -- não estamos bravos que as mulheres gostem de sexo. Estamos bravos que as mulheres estão distribuindo a outras pessoas o sexo que elas devem a nós".
É evidente que todos os assassinos citados acima não eram/são apenas misóginos revoltados porque as mulheres e o mundo lhes devem alguma coisa. Eles também tinham/têm algum grau de psicopatia ou sociopatia, algum desvio (Rodger, por exemplo, tinha Síndrome de Asperger, fazia terapia, e seus pais haviam procurado a polícia em abril, alarmados com o conteúdo dos vídeos que ele postava no YT). 
Mas há milhares de pessoas (mulheres inclusive) que sofrem de algum transtorno e nem por isso matam gente. E suponho que existam misóginos que não sejam sociopatas e, portanto, não pegam em armas para metralhar mulheres (eles "só" motivam os misóginos sociopatas que pegam em armas para metralhar mulheres). É quando a misoginia se junta com a psicopatia que temos uma mistura explosiva -- e letal.
Porém, diante da diferença gritante com que homens e mulheres lidam com a rejeição e a frustração, fica difícil não se lembrar da célebre frase da escritora canadense Margaret Atwood: "Homens têm medo que mulheres riam deles. Mulheres têm medo que homens as matem".

Leia também: Aos homens, as desculpas; às mulheres, a culpa.
26 May 23:37

Mobilidade urbana: todos querem mudança, mas poucos querem mudar

by alexandrehaubrich

Marcelo Sgarbossa*, especial para o Jornalismo B

Se o século XX foi o século dos carros, o XXI será o século das pessoas. A sustentabilidade nos impõe que tomemos medidas para incentivar que mais gente volte a caminhar e pedalar para garantir o futuro da vida em nosso planeta.

Para que isso aconteça, precisamos evoluir no respeito e garantir a segurança dos mais frágeis. Assim como a construção de ciclovias incentiva o uso da bicicleta como alternativa de transporte, ampliar o tempo para pedestres nas sinaleiras fará com que mais pessoas voltem a caminhar, tendo também um contato direto com a cidade.

Foto: Prefeitura de Porto Alegre

Foto: Prefeitura de Porto Alegre

Apesar das diferenças, os grandes centros urbanos brasileiros têm enfrentado os mesmos problemas quando o assunto é mobilidade urbana. O modelo rodoviarista ultrapassado, que há décadas foi imposto pela pressão de empresas multinacionais, fez das áreas urbanas lugares inóspitos, onde o fluxo de carros parece ter mais valor que as vidas.

Contra a arrogância burocrática de alguns gestores públicos, vem ganhando força um movimento político voltado a retomar a escala humana no planejamento de nossas cidades. Este momento é de extrema importância, já que as prefeituras devem discutir a elaboração de Planos Municipais de Mobilidade Urbana, sob pena de perderem verbas federais a partir de maio de 2015, prazo final para a apresentação dos estudos traçados para um prazo de dez anos.

Com isso, temos a possibilidade de dar início a ações simples que podem ajudar a humanizar as cidades. Em 2013, discutimos uma série de propostas na Frente Parlamentar criada na Câmara Municipal de Porto Alegre. Foi numa dessas reuniões que nasceu a ideia de um movimento para lutar pelos direitos de pedestres, pois ficou clara a indignação de muitas pessoas com o tratamento que as autoridades dispensam aos caminhantes, o que não deve ser diferente em outras capitais. Entre as reclamações, passeios públicos em péssimo estado, desrespeito por parte de motoristas e o total descaso nos cruzamentos, obrigando as pessoas a longas esperas e ainda fazerem a travessia correndo.

Para garantir uma espera menor e um tempo maior para cruzar ruas e avenidas com sinaleiras, apresentamos o PL dos 30 segundos. Este Projeto de Lei propõe que a pessoa aguarde, no máximo, meio minuto antes de atravessar, após acionar a botoeira (aquele botão para pedestres que hoje parece não funcionar). Para a travessia, o tempo mínimo também será de 30 segundos, que é baseado no Parametric Study of Pedestrian Speeds at Midblock Crossings (Rastogi, 2011) e tem como base a velocidade de caminhada (0,79 metro por segundo) de quem anda devagar, como idosos, pessoas com bebês de colo, com deficiência ou problemas de locomoção. O estudo também orienta que é preciso adicionar sete segundos quando mais de dez pessoas atravessam juntas um cruzamento.

Na Capital gaúcha, a direção da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) desconsidera esse estudo e impõe uma técnica que se baseia na velocidade de um homem adulto (1 e 1,2 m/s). A escolha da tecnocracia atrasada privilegia o mais forte e deixa desprotegido o mais vulnerável, que deve correr para não ser atropelado, já que a prioridade garantida pelo Código de Trânsito não é respeitada.

Mudar a cultura para que pedestres e ciclistas deixem de ser vistos como cidadãos de segunda classe não é tarefa fácil. Se a técnica atual não atende às necessidades da população, mude-se a técnica! A tecnocracia não pode colocar de joelhos a política. Só por meio da política é que vamos construir um modelo mais humano de cidade, onde todas as pessoas possam pedalar e atravessar as ruas com segurança e dignidade.

*Vereador de Porto Alegre pelo PT

26 May 12:32

como funciona o privilégio

by alexcastro

um filme só sobre homens é um filme.

um filme só sobre mulheres é um filme feminino.

um ensaio fotográfico só de mulheres brancas é um ensaio de mulheres.

um ensaio fotográfico só de mulheres negras é um ensaio negro.

um romance sobre um casal hétero é um romance.

um romance sobre um casal homossexual é um romance gay.

quantas vezes não somos nós mesmas, na nossa fala e nas nossas ações, a perpetuar esse tipo de normatização tirânica?

como funciona o machismo

23 May 23:27

DUAS ÓTIMAS NOTÍCIAS PARA DERROTAR O ATRASO

by lola aronovich
Gente, zero de tempo pra escrever um post hoje (voltei faz pouco do Paraná, e lá foi tudo ótimo), mas só queria compartilhar duas excelentes notícias. Elas não estão relacionadas. Ou melhor, talvez a ligação entre elas é que ambas tenham causado a fúria dos fundamentalistas:

Comissão da Câmara aprova Lei da Palmada. Só mesmo gente muito retrógrada pra defender que pais sigam batendo nos seus filhos, tudo em nome da tradição, da educação, da moral e dos bons costumes. Bater é a prova de que a pessoa não sabe educar. Bater ensina muito sim, é totalmente pedagógico: ensina que violência doméstica é uma boa pra resolver conflitos. 
Parabéns a Xuxa, que teve grande participação na aprovação da lei. E é ridículo que continuem usando um filme de ficção (sabe, não é um documentário) que ela fez quando jovem para chamá-la de pedófila
Estive em Brasília na terça retrasada, e as quatro deputadas federais com quem eu e outras feministas conversamos foram categóricas em dizer: não basta protestar nas ruas, é preciso reunir gente pra protestar no Congresso. Pra pressionar mesmo. Foi o que Xuxa fez, e funcionou
Governo garante verba para realizar aborto nos casos previstos por lei. Nem dá pra entender direito a gritaria dos fundamentalistas. Afinal, o aborto só continua permitido no Brasil em três casos: interrupção da gravidez em decorrência de estupro, risco de vida para a gestante, e fetos anencéfalos. Abortar depois de engravidar por estupro, por exemplo, está longe de ser uma invenção deste governo -- a lei é de 1940. Mas pergunte pra qualquer mulher que quis fazer um aborto legal como é difícil conseguir realizá-lo. 
Com a portaria do Ministério da Saúde, o SUS repassará R$ 443 para cada procedimento (um valor que poderia ser reduzido se o aborto não fosse feito com cirurgia, e sim com um método mais indolor e barato: via remédios como o misoprostol, o conhecido Cytotec, mas os reaças não querem sequer permitir que este medicamento seja pronunciado). 
Vários reaças acham que possibilitar o cumprimento de uma lei equivale a legalizar o aborto. Sabe por quê? É aquela velha ideia de que o corpo da mulher deve sempre ser vigiado, e punido. Como a vítima de estupro que engravida e quer ter o direito de não continuar com a gravidez não precisa fazer boletim de ocorrência, os fundamentalistas acham que as mulheres, bichos traiçoeiros que somos, irão mentir pra poder abortar. Ou seja, inventaremos um estupro. 
É preciso ter muito pouca fé em metade da humanidade pra pensar que mulher é capaz de mentir sobre estupro, um dos crimes mais hediondos que existem. Mas parece que, em matéria de não ter fé nas mulheres, esses fundamentalistas são campeões. 
Vamos derrotar o atraso, gente!
Update: O governo refém do fundamentalismo cristão voltou atrás.
23 May 23:22

As 15 famílias com patrimônio maior que 14 milhões do Bolsa Família

by Luiz Carlos Azenha

Desigualdade
Patrimônio dos 15 mais ricos supera renda de 14 milhões do Bolsa Família

No topo da lista da Forbes está o clã Marinho, dono das Organizações Globo, que aparece com uma fortuna acumulada de 64 bilhões de reais.

por Samantha Maia — publicado 16/05/2014 05:24, última modificação 16/05/2014 11:32

Da CartaCapital

O patrimônio das 15 famílias mais ricas do Brasil, segundo lista divulgada pela revista Forbes, é dez vezes maior que a renda de 14 milhões de grupos familiares atendidos pelo programa Bolsa Família. De acordo com a publicação americana, os 15 clãs mais abastados do Brasil concentram uma fortuna de 270 bilhões de reais, cerca de 5% do PIB do País. O Bolsa Família, por sua vez, atendeu 14 milhões de famílias em 2013 com um orçamento de 24 bilhões de reais, equivalentes a 0,5% do PIB.

Lidera a lista da Forbes a família Marinho, dona das Organizações Globo. Os irmãos Roberto Irineu Marinho, João Roberto Marinho, José Roberto Marinho possuem uma fortuna de 64 bilhões de reais. Outra empresa de mídia que aparece na lista é o Grupo Abril, do clã Civita, com patrimônio de 7,3 bilhões de reais.

O setor bancário se destaca na origem das fortunas das famílias mais ricas do Brasil, representado pelos clãs Safra (Banco Safra), Moreira Salles (Itau/Unibanco), Villela (holding Itaúsa), Aguiar (Bradesco) e Setubal (Itaú).

Eram três os bilionários do Brasil em 1987, quando a Forbes produziu a primeira lista: Sebastião Camargo (Grupo Camargo Correa), Antônio Ermírio de Moraes (Grupo Votorantim) e Roberto Marinho (Organizações Globo). Hoje são 65, 25 deles parentes, o que leva a revista americana a constatar que para se tornar um bilionário no Brasil, o mais importante é ser um herdeiro.

Segue a lista das famílias mais ricas do Brasil:

1) Marinho, Organizações Globo, US$ 28,9 bilhões

2) Safra, Banco Safra, US$ 20,1 bilhões

3) Ermírio de Moraes, Grupo Votorantim, US$ 15,4 bilhões

4) Moreira Salles, Itaú/Unibanco, US$ 12,4 bilhões

5) Camargo, Grupo Camargo Corrêa, US$ 8 bilhões

6) Villela, holding Itaúsa, US$ 5 bilhões

7) Maggi, Soja, US$ 4,9 bilhões

8) Aguiar, Bradesco, US$ 4,5 bilhões

9) Batista, JBS, US$ 4,3 bilhões

10) Odebrecht, Organização Odebrecht US$ 3,9 bilhões

11) Civita, Grupo Abril, US$ 3,3 bilhões

12) Setubal, Itaú, US$ 3,3 bilhões

13) Igel, Grupo Ultra, US$ 3,2 bilhões

14) Marcondes Penido, CCR, US$ 2,8 bilhões

15) Feffer, Grupo Suzano, US$ 2,3 bilhões

Leia também:

Heloisa Villela antecipou: O economista francês que colocou a direita em pé de guerra

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22 May 22:36

Recife pra quem?

by raquelrolnik
Allan Patrick

Recife Antigo no rumo da destruição :(

Na noite de ontem, a população do Recife foi surpreendida com a notícia, nas redes sociais, da demolição dos armazéns do Cais José Estelita, no centro da cidade. Esta área, de mais de 100 mil m², pertencia à Rede Ferroviária Federal e foi arrematada à União por um grupo de empresas em leilão realizado em 2008. O consórcio formado por Moura Dubeux, Queiroz Galvão e GL Empreendimentos pretende implementar um megaprojeto imobiliário na área, o chamado projeto Novo Recife, que prevê a construção de torres residenciais e comerciais, totalizando 14 prédios com cerca de 40 andares.

Por todos os seus impactos – sociais, ambientais, na paisagem e no patrimônio histórico e cultural –, o projeto tem sido alvo de críticas de grupos e organizações da sociedade civil contrários à sua implementação. Para se ter uma ideia, ainda correm na Justiça cinco ações contra o projeto.

Ontem, ao tomarem conhecimento da demolição, integrantes do grupo Direitos Urbanos ocuparam a área e lá estão acampados até agora. O primeiro a chegar ao local, o Sérgio, relatou no Facebook que sofreu agressões físicas por parte de seguranças das empresas e registrou queixa na delegacia. Isso mais parece coisa de senhor de engenho…

demolicao estelita

Fonte: Grupo Direitos Urbanos

Hoje, moradores da comunidade do Coque, que fica bem próxima ao local e certamente será afetada pelos impactos do empreendimento, se somaram à ocupação. À tarde, a construtora Moura Dubeux divulgou nota na qual afirma que o processo de demolição tem como objetivo “iniciar as ações mitigadoras acordadas com os órgãos públicos” e que “obedece a todos os trâmites legais”. O Iphan, por sua vez, embargou a demolição, cobrando a apresentação de documentos que comprovem o atendimento a exigências feitas pelo órgão.

Os manifestantes divulgaram nota na qual reivindicam a suspensão imediata do alvará de demolição e a abertura de canal de diálogo paritário onde seja possível discutir o projeto. Além de exigir a abertura de uma discussão pública sobre o projeto, o grupo apresenta propostas para a área, como a “garantia da destinação de ao menos 30% do projeto para habitações populares; e a requalificação e revitalização do Cais Estelita orientada pelo uso misto do espaço, que atenda às diversas camadas sociais com seus equipamentos artísticos e culturais, em seus estabelecimentos comerciais e conjuntos de habitações.”

Para além das questões legais envolvidas neste e em outros tantos casos semelhantes Brasil afora, o que está acontecendo no Recife mostra mais uma vez como os moradores de nossas cidades estão cansados de transformações urbanísticas que ignoram solenemente a perspectiva dos cidadãos, suas relações históricas e afetivas com o lugar, suas propostas de transformação da cidade. Não há transparência, não há canais de diálogo, não há chance alguma de se discutir megaprojetos que afetam a paisagem e a vida de tanta gente.

A notícia da demolição na noite de ontem surpreendeu muitas pessoas. Mas, pensando bem, não estranha uma demolição na calada da noite quando absolutamente tudo acontece, também, às escuras. O que os ocupantes do Estelita – e muitos outros no Brasil – estão reivindicando é, simplesmente, que nossas cidades sejam planejadas e construídas às claras, com a participação ativa de todos.


22 May 21:56

Lei que limita uso de radares eletrônicos é publicada

by Carlos Santos
Allan Patrick

Ou seja, entre 22h e 05h, é a Lei do Cão.

Cerca de oito meses depois de ter sido aprovado pela Câmara Municipal de Mossoró, o projeto de lei denominado de “anti-radares” foi promulgado pela presidência do legislativo local. A agora Lei N° 3152 de 15 de maio de 2014 limita o uso de radares eletrônicos no trânsito da cidade.

A proposta, de iniciativa do vereador Lahyrinho Rosado (PSB), teve a promulgação publicada na edição do último dia 16 do Jornal Oficial do Município (JOM). A lei trata sobre a proibição de utilização de sistemas eletrônicos de aferição de velocidade (radares) ou qualquer outro meio tecnológico para comprovação de infração em semáforos ou em vias de competência do município no período que compreende os horários de 22h às 5h.

O texto da lei, que entrou em vigor na data da publicação, determina que o Poder Executivo local promoverá a regulamentação da medida, estabelecendo as normas complementares para o cumprimento da mesma, no prazo de trinta dias a contar do último dia 15.

A proposta foi apresentada ao legislativo mossoroense em março do ano passado e aprovada pela Casa seis meses depois.

Com informações da Assessoria de Imprensa de Lahyrinho Rosado.

22 May 21:42

Quem tem medo da Virada Cultural?

by raquelrolnik

No fim de semana passado aconteceu em São Paulo a décima edição da Virada Cultural. Em parte significativa da cobertura da imprensa os comentários giraram basicamente em torno de um suposto crescimento da violência durante os dias do evento, dando mais destaque às ocorrências policiais que à Virada em si.

Dados da Secretaria de Segurança Pública mostram que a média de ocorrências na área do evento, nos finais de semana, entre janeiro e abril deste ano, foi de 50,88 roubos. Durante a Virada, foram registradas 71 ocorrências. Embora o número seja superior à media, me parece que este está longe de ser o dado mais relevante a ser comentado a respeito do evento.

Nos dois dias que fui à Virada – sem atravessar toda a madrugada de sábado para domingo – não percebi essa tão alardeada sensação de insegurança. No sábado, vi o show da Baby no Palco Júlio Prestes, depois passei na Praça da República e assisti a um show de jazz. Em seguida, no Largo do Arouche, vi um pedaço do show da Kátia, cantando Roberto Carlos, e depois continuei caminhando pelo centro, fui até a Avenida Ipiranga, onde diversos grupos apresentavam coreografias de dança de rua. Estive também na Praça Roosevelt, onde grupos se apresentavam espontaneamente, fora da programação oficial.

No domingo, passei no Palco Braços Abertos, fui ao show do Luiz Melodia, na Júlio Prestes e, depois, pretendia ver o show da Céu, mas desisti por conta do temporal. Então fui ao Sesc Pompeia e peguei o final da apresentação das rodas de samba paulistano e ainda tive a grata surpresa de assistir a uma guerra de passinho e treme-treme e, em seguida, à apresentação de um grupo colombiano de afro/techno/funk.

Para mim, a experiência da Virada foi a de encontrar uma enorme diversidade de caras, cores, idades e jeitos, todo mundo dançando, conversando, curtindo, ocupando as ruas e praças da cidade. Uma multidão muito diferente da multidão-boiada nos metrôs e trens nos horários de pico, muito diferente da multidão que consome enlouquecidamente na Rua 25 de Março às vésperas do Natal. Uma outra multidão que, ao contrário do que muitos falaram, me pareceu bastante tranquila.

Também me chamou a atenção o serviço de limpeza, com grupos de varredores por toda a parte, recolhendo o lixo e dançando ao som do samba, do reggae ou do rock. No domingo, fui pra rua esperando encontrar sujeira e mal cheiro, mas surpreendentemente elas já estavam limpas. Assim como a limpeza, a organização e distribuição dos palcos também me pareceram melhores que em outras edições, sem muitos vazios entre um e outro.

Vale a pena destacar também a consolidação da Viradinha Cultural, que este ano ocupou a Praça Roosevelt. Amigos comentaram que crianças de várias partes da cidade e de classes sociais as mais diversas – que jamais se encontram – lotaram a praça, usufruindo uma programação de altíssimo nível. Também o Palco Braços Abertos, instalado na região da “cracolândia”, me pareceu uma iniciativa que sinaliza uma outra postura em relação àquele lugar: do abandono e criminalização para o acolhimento e tentativa de diálogo.

Numa cidade tão segregada e guetificada, a Virada é sinônimo de encontro. Evidentemente, por ser um evento que acontece uma vez ao ano, um espetáculo pontual, não dá conta de enfrentar nem de resolver as distâncias e conflitos que separam paulistanos, condenando-os no dia a dia a experiências tão restritas e limitadas de urbanidade. Diante da recusa de alguns em olhar para estas questões, fico me perguntando: a que serve uma leitura da Virada focada apenas na violência?

*Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.


22 May 10:05

Genoino só pode receber ‘livros religiosos’ na cadeia: o relato de uma visita da família

by Diario do Centro do Mundo
O texto abaixo foi escrito por Miruna Genoino. Meu pai sofreu uma isquemia cerebral transitória (ou o conhecido AVC) em agosto, quando se recuperava da cirurgia do coração e desde então vem sendo tratado com alimentação rigidamente controlada e medicação. Meu pai precisa ter sempre o índice de coagu...
21 May 22:02

Obrigada a todas e todos!

by raquelrolnik

boletim relatoria 47


21 May 22:00

É oficial: PSDB reconhece no TSE que é ‘passado’ e nefasto!

by mariafro

Não paro de rir ao ver os argumentos do PSDB, acatados pela Justiça Eleitoral ao barrar uma propaganda do PT que faz menção ao desemprego em contraposição à recuperação da economia e à inclusão de milhões de brasileiros que melhoraram de vida.

Vejamos a peça publicitária do PT:

Em nenhum momento da propaganda eleitoral o PT menciona tucanos, PSDB, governo de FHC, mas a carapuça serviu direitinho aos tucanos.
Reparem:

Os tucanos se reconhecem e são reconhecidos como “fantasmas do passado”, retrocesso, atraso.

Taí, desta vez concordo com os tucanos, nada mais fantasmagórico e atrasado que a era FHC, nada mais assustador do que tucanos no poder :P

21 May 12:31

Fátima Oliveira: O Estado brasileiro doou a minha vida para os bancos!

by Conceição Lemes

O Estado brasileiro doou a minha vida para os bancos!

Pelo tal empréstimo, temos o “direito” uma dívida vitalícia

Fátima Oliveira, em O TEMPO 

fatimaoliveira@ig.com @oliveirafatima_

“Aqui é fulana de tal, do setor do INSS do banco tal. Agora que a senhora está aposentada, o INSS colocou à sua disposição um empréstimo consignado de valor tal…”. São meses de desassossego, desde que o INSS homologou a minha aposentadoria, em 8.1.2014, que eu soube pelos telefonemas dos bancos, não apenas de Minas, mas de vários Estados do país, muitos dias antes de receber o comunicado do INSS!

Fiquei irada e impressionada desde o primeiro telefonema porque a moça sabia não apenas o meu telefone residencial, mas o dia da homologação e o valor mensal de minha aposentadoria, o montante do retroativo a setembro de 2013, quando fiz 60 anos, em qual banco eu receberia e a partir de quando! Fiquei atônita com a exposição da minha vida a um clique nos computadores de todos os bancos do país! Achei um abuso. Mas eu mal sabia que o assédio moral apenas começara…

Tenho sido assediada moralmente pelos bancos numa dimensão incomensurável desde que o dia amanhece! A insistência das funcionárias é algo de proporções abissais! Segurei a onda o quanto pude. Fui perdendo a paciência. Passei a cortar a fala tão logo diziam: “Aqui é fulana de tal, do setor do INSS…”. Mas as moças não se dão por vencidas!

Crendo que toda pessoa velha é babaca e facilmente enrolável, entram de sola na tentativa de convencimento das coisas maravilhosas que poderemos comprar com aquela “dinheirama” que oferecem colocar na nossa conta em dois dias, adiantando as graças da renovação “ad aeternum” do empréstimo, antes que acabemos de pagá-lo! Fiquei a imaginar que o tal empréstimo consignado “rotativo”, no qual temos o “direito” a uma dívida vitalícia, só pode ser um negócio da China para os bancos!

E quando a gente diz não, que, quando quiser, fará no banco onde recebe, enveredam por algo surreal e mais invasivo, indagando: “A senhora tem casa? Não quer reformá-la? Tem carro? Não quer trocá-lo por um zero? Já foi à Europa? A Nova York? Dizem que é lindo o Leste Europeu, a senhora já foi?”. Estava de lua e enchi a medida: “Para, querida, conheço mais de 50 países. Não quero mais viajar!”.

Chegam ao acintoso desplante: “Olhe, pense bem, a senhora não está precisando, mas pode ter um parente, filho ou filha, precisando e agora pode ajudar! Não quer mesmo ajudar alguém necessitado da família?”. Achei que era um carma! Fui tentando responder com educação, mas na última semana mudei de tática. Perdi a esportiva. Nem sequer sabia que tínhamos essa montanheira de bancos no Brasil!

A cada novo telefonema estou pedindo para riscarem meu nome da lista porque vou processar o governo e os bancos por invasão de privacidade e assédio moral. Enfatizo que é uma imoralidade o que os bancos estão fazendo com a posse dos meus dados financeiros…

Ao que elas respondem: “Senhora, estou fazendo o meu trabalho!”. Eu: “Sei, mas ele é imoral: invade a minha privacidade, faz chantagem contra o meu modo simples de viver, checa a minha resistência ao consumismo, induz-me a gastar mais do que posso como aposentada, ao insistir em ‘fazer a minha cabeça’ para coisas/necessidades que não tenho, além do que toma o meu tempo! Não quero ficar pendurada em bancos, entendeu?”.

Estou decidida a registrar queixa na polícia a cada novo telefonema. Vou engolir a raiva, anotar os dados e registrar um BO por invasão de privacidade. Os bancos, a partir de hoje, estão avisados. Exijo que não liguem para a minha casa, sob pena de processo por assédio e danos morais!

 Leia também:

Mário Scheffer: “ANS foi capturada pelos planos privados de saúde; SUS é que sai perdendo”

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19 May 17:53

Stedile: “Se Aécio ganhar, será uma guerra”

by Rodrigo Vianna

Por Patricia Fachin e Luciano Gallas, no IHU Online

A luta pela reforma agrária, que durante os séculos XIX e XX visava o combate ao latifúndio para democratizar o acesso à terra, hoje, tem outros adversários: “o capital financeiro, que domina a produção agrícola, as grandes empresas transnacionais e, óbvio, os fazendeiros que se modernizaram e aderiram a essa aliança”, esclarece João Pedro Stédile à IHU On-Line. Esses atores, que formariam a nova classe dominante do campo, se somam aos meios de comunicação para justificar “ideologicamente à população que o agronegócio é a única alternativa possível, que ele sustenta o Brasil, que produz alimentos baratos, etc.”, pontua.

Na entrevista a seguir, concedida pessoalmente, quando esteve na Unisinos, Stedile explica quais são as análises internas do MST em relação à reforma agrária, avalia os 12 anos dos governos Lula e Dilma e rebate as críticas, recebidas por setores intelectuais, de que os movimentos sociais foram cooptados pelo Estado a partir da ascensão do PT à presidência.

“Não é aí que devemos fazer a crítica”, assinala. E enfatiza: “O problema está quando um movimento social se subordina aos governos, e aí cada um que faça a sua avaliação. (…) O MST passou o tempo inteiro dos governos Lula e Dilma se mobilizando. Ninguém neste país tem moral para dizer que o MST parou de lutar. (…) Recomendaria que reflitam melhor a quem dirigem suas pedras, porque, na nossa concepção, mesmo que tenhamos críticas a outros parceiros da classe trabalhadora, temos de ter cuidado”.

Para Stédile, o ex-presidente Lula nunca “propôs reformas estruturais”. Ao contrário, acentua, o programa que Lula defendeu na campanha presidencial de 2002, e que lançou as bases do chamado neodesenvolvimentismo, tinha três objetivos claros: crescimento econômico, maior participação regulatória do Estado e distribuição de renda. “Nesse programa, não precisa fazer reforma agrária, não precisa tarifa zero [nos transportes], não precisa universidade para todos. Eu acho que Lula foi honesto; não enganou ninguém. Ele cumpriu o seu programa”, avalia.

O líder do MST também comenta as manifestações de junho de 2013 e assegura que elas “são parte da luta de classes”, ainda que alguns grupos não se identifiquem com essa análise. “Claro que eles são fruto da luta de classes, porque essa hegemonia da burguesia financeira e multinacional não resolve os problemas da classe trabalhadora — porque, se falta moradia, falta para a classe trabalhadora; se não há acesso à universidade, são os filhos da classe trabalhadora que não têm acesso; o transporte público afeta diretamente a classe trabalhadora”, acentua.

Em relação às eleições presidenciais deste ano, Stedile é pontual: “A candidatura Dilma e a candidatura Eduardo e Marina são candidaturas alternativas de um mesmo projeto: o neodesenvolvimentismo, cujos parâmetros estão bloqueados e não resolveram os problemas estruturais. A candidatura do Aécio seria o fim do mundo, a volta do modelo neoliberal”.

João Pedro Stédile é graduado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS e pós-graduado pela Universidade Nacional Autônoma do México. É membro da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST, do qual é um dos fundadores. Participa das atividades da luta pela reforma agrária no Brasil, pelo MST e pela Via Campesina.

IHU On-Line – O MST realizou recentemente mais uma mobilização do Abril Vermelho. Este ano, entretanto, praticamente não houve repercussão na mídia, ao contrário da mobilização realizada em anos anteriores. Na sua avaliação, por que ocorreu esta falta de repercussão?

Do ponto de vista do calendário de mobilizações, neste ano, o dia 17 de abril caiu na Semana Santa, e decidimos fazer uma jornada de outro tipo, mais prolongada e duradoura, de acordo com a conjuntura de cada estado. Em alguns estados foram realizadas ocupações, como em Pernambuco; em outros estados, recém iniciaram-se as marchas, como em São Paulo; em outros, ainda, realizamos atividades nas cidades, como as feiras agroecológicas em Alagoas, e o lançamento do documentário O veneno está na mesa II, de Sílvio Tendler, no Rio de Janeiro. Então, o processo de mobilização ainda está em curso e não ficou concentrado numa só semana.

Entretanto, de fato, um dos grandes problemas que a luta social enfrenta no Brasil é a natureza da mídia, porque, além de ser uma mídia concentrada entre seis ou sete grupos econômicos, que usam os meios de comunicação para acumular riquezas — e não é por nada que a família Marinho é a segunda ou terceira família mais rica do Brasil —, essa mídia, nos últimos 10, 15 anos, adquiriu um papel ainda mais ideológico na sociedade e, em especial, na relação com as lutas sociais no campo.

O olhar condescendente da burguesia

Na época do capitalismo industrial, a luta pela reforma agrária dos camponeses era contra o latifúndio. A própria burguesia industrial nos olhava com certa condescendência, porque, afinal, depois que nós conquistássemos a terra e se multiplicasse o campesinato, geraríamos mais compras na indústria, maior integração no mercado. A burguesia em si não se sentia afetada e foi por isso que ela nos tolerou.

Porém, de dez anos para cá, a nova classe dominante do campo não é mais nem o latifúndio, nem a burguesia industrial; formou-se uma nova classe dominante. E essa classe é formada pelo capital financeiro, que domina a produção agrícola, pelas grandes empresas transnacionais e, óbvio, pelos fazendeiros que se modernizaram e aderiram a essa aliança. E ainda há um quarto elemento da composição de classes: os meios de comunicação. A burguesia usa os meios de comunicação para justificar ideologicamente à população que o agronegócio é a única alternativa possível, que ele sustenta o Brasil, que produz alimentos baratos, etc. Quem faz esse discurso todos os dias? A mídia. Então, ela deixou de ser um canal informativo e passou a ser um palanque ideológico da burguesia. Ela participa permanentemente da luta de classes.

Basta ver as manifestações de junho de 2013 para saber como a mídia se comportou. No campo acontece a mesma coisa. A mídia procura invisibilizar as lutas sociais. Há companheiros nas universidades dizendo que o governo está criminalizando as lutas sociais. Não. Nosso problema não é só repressão policial. Nosso problema é a repressão ideológica que os meios de comunicação fazem contra qualquer luta social.

O que a mobilização organizada, a partir da realização dos grandes eventos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, indica sobre o estágio atual das articulações do MST? O Movimento dos Sem Terra perdeu seu papel de liderança na política nacional?

O MST nunca se propôs a ser protagonista nem vanguarda de nada. Nós queremos apenas contribuir na luta pela reforma agrária e para as mudanças na sociedade. A luta de classes no Brasil e em qualquer parte do mundo, de acordo com a teoria da escola britânica de marxistas — Eric Hobsbawm, Giovanni Arrighi, etc. —, se dá em ondas de enfrentamentos entre as classes antagônicas num mesmo período histórico.

No Brasil, desde 1989 houve um refluxo das massas após a classe trabalhadora ter sido derrotada no seu projeto democrático popular. A última grande greve no país foi em 1988, a última grande conquista que tivemos foi a Constituição de 88. Com a derrota [eleitoral] de 1989, quando de fato aflorou o neoliberalismo, e a burguesia virou hegemônica na sociedade brasileira, a classe trabalhadora refluiu e foi defender a sobrevivência.

O campesinato e as forças populares do campo, como não estavam ligados à luta direta pelo emprego, continuaram a mobilização até 2005. Então, a classe trabalhadora como um todo refluiu, porém os camponeses não. Nós, do MST, de 1997 a 2005, assumimos um protagonismo na luta contra o neoliberalismo que não esperávamos, porque continuamos mobilizados, e os outros não. De 2005 para cá, fruto de todo esse processo da luta, os camponeses também refluíram e, nós do MST juntos, como parte dessa onda histórica de refluxo.

“Nosso problema é a repressão ideológica que os meios de comunicação fazem contra qualquer luta social”

Significados das manifestações de junho

No ano passado, o ressurgimento das manifestações com a juventude teve dois significados: primeiro, que aquele programa de composição de classes do neodesenvolvimentismo, aplicado pelo Governo Lula-Dilma, não foi suficiente para resolver os problemas do povo e, em especial, da juventude (de universalização da educação, de moradia, de transporte público razoável), e por isso a juventude foi para a rua; o outro significado é que a juventude sempre é o termômetro que indica quando vai começar o reascenso, porque, como ela está fora do sistema de produção, enxerga e se mobiliza antes.

Então o grande anúncio das mobilizações do ano passado é de que há sinais de que será possível, a curto prazo, ocorrer um novo reascenso do movimento de massas, porém isso precisa ter um caráter classista. A classe trabalhadora organizada também está dando sinais de que está insatisfeita e quer mudanças. Onde encontramos o sinal que é invisibilizado pela mídia? A média anual das greves da classe trabalhadora industrial durante os 15 anos do neoliberalismo, inclusive no governo Lula, foi de 200 ações. Já no ano passado foram feitas 900 greves da classe trabalhadora, no setor industrial e dos bancários, que há anos não faziam uma greve nacional.

Essas 900 greves são um sinal de que a classe trabalhadora pode não estar na rua, em marcha, mas começou a estar disposta a se mobilizar. O que falta é, no próximo período, construirmos pontes de unidade entre a juventude e a classe trabalhadora, para que seja construído um programa unitário de mudanças e reformas estruturais e se aglutinem energias para mobilizações sociais.

IHU On-Line – Houve luta de classes nas manifestações de junho de 2013?

Claro. As manifestações são parte da luta de classes.

Embora os manifestantes não a identifiquem?

Embora não a identifiquem ou embora alguns grupos se considerem anarquistas. Claro que eles são fruto da luta de classes, porque essa hegemonia da burguesia financeira e multinacional (que inclusive maneteia o próprio governo, como diz Olívio Dutra), não resolve os problemas da classe trabalhadora — porque, se falta moradia, falta para a classe trabalhadora; se não há acesso à universidade, são os filhos da classe trabalhadora que não têm acesso; o transporte público afeta diretamente a classe trabalhadora.

Foi um segmento da juventude que levantou primeiro a bandeira da tarifa zero, mas é uma bandeira da classe trabalhadora. Os principais estopins para mobilizar o pessoal das cidades é a recuperação da qualidade do transporte público e a luta pela tarifa zero, porque é possível, do ponto de vista da economia brasileira, garantir transporte gratuito para todos os trabalhadores.

Estas manifestações do chamado Outono Brasileiro suscitaram críticas aos movimentos sociais tradicionais, no sentido de que eles deixaram de fazer mobilizações e de que estariam saturados. Como o senhor vê essas críticas?

Isso é natural. Os movimentos sociais têm as suas características e as suas especificidades, que vêm de 20 ou 30 anos. Ou seja, temos um modus operandi, temos uma metodologia para organizar a luta, mas isso não quer dizer que ela se contrapõe à liturgia que a juventude, que está desorganizada enquanto classe, utiliza para ir para a rua. Eles utilizam outras formas de propaganda, de motivação, de comunicação — o principal veículo deles era o Facebook. A classe trabalhadora que está dentro da fábrica não precisa de Facebook; ela utiliza outros métodos. Então, qual dos métodos é bom ou ruim? Os dois são bons.

Precisamos não cair nesse simplismo, que às vezes alguns porta-vozes da juventude utilizaram, de criticar os outros movimentos porque eles fazem diferente. O diferente é bom; não precisamos ser todos iguais. Mas o importante é que estejamos dispostos a criar condições para todos lutarmos juntos, porque as conquistas de tarifa zero, de melhoria nos transportes, de moradia e universidade para todos só serão possíveis se todas as formas de mobilização popular se organizarem para enfrentar o poder do outro lado.

“A classe trabalhadora que está dentro da fábrica não precisa de Facebook; ela utiliza outros métodos”


O movimento social recebeu muitas críticas após a eleição do governo Lula, entre elas, a de ter sido cooptado pelo Estado. Como o senhor recebe as críticas feitas aos movimentos sociais, inclusive ao MST, de terem sido cooptados pelo Estado?

É evidente que, dentro do movimento sindical, dos movimentos sociais, houve deslocamento de lideranças que tinham feito a luta de classes antes para assumir cargos públicos, mas isso não é problema nenhum. Ao contrário. As lideranças que se propuseram a trabalhar no governo não só têm o direito legítimo de fazer isso como contribuem para melhorar o governo. Porém, não é aí que devemos fazer a crítica. O problema está quando um movimento social se subordina aos governos, e aí cada um que faça a sua avaliação. Nós do MST assumimos, como princípio organizativo, que todo movimento social deve ser autônomo quanto ao governo, ao Estado, às igrejas, aos partidos. Isso não quer dizer que não vamos nos relacionar. Ao contrário, nós temos de nos relacionar, mas temos uma linha política própria, metas próprias, formas de organização próprias.

O MST passou o tempo inteiro dos governos Lula e Dilma se mobilizando. Ninguém neste país tem moral para dizer que o MST parou de lutar. Ao contrário, esses mesmos que nos criticam pela esquerda não estavam nas nossas marchas, nas ocupações de terras que ocupamos, não estavam nos enterros das vidas que pagamos na luta de classes. As críticas de que o MST parou de lutar e está cooptado pelo governo não nos atinge. Recomendaria àqueles que as fazem que reflitam melhor a quem dirigem suas pedras, porque, na nossa concepção, mesmo que tenhamos críticas a outros parceiros da classe trabalhadora, temos de ter cuidado. As críticas têm de ser fraternais e em ambientes de reunião para que sejam construtivas. A crítica ácida, dura e permanente tem de ser contra os nossos inimigos de classe: a burguesia, os latifundiários, as multinacionais, as empresas de comunicação.

Essas críticas argumentam que o MST deveria ter um questionamento mais intenso em relação à postura do governo federal nos incentivos ao agronegócio, por exemplo.

Vocês são testemunhas, na página do IHU, do discurso do MST, que é sempre de “pau e pau” no agronegócio, no governo, quando erra; é só pesquisar no Google, se tiver paciência. No ano passado nós ocupamos dois ministérios. Qual foi o movimento social que ocupou algum ministério? Nós não somos contra as críticas; elas em geral nos ajudam, mas temo que muitas dessas críticas que vêm de setores esquerdistas são para fazer uma disputa ideológica besta. Era sobre isso que Lenin afirmava: “o esquerdismo é uma doença infantil”. Para dizer que você é melhor que os outros, você chama o outro de pelego. Mas se estamos corretos ou não, se somos melhores ou não para o povo brasileiro, só a história poderá dizer. No futuro, o povo vai julgar se o MST errou e onde errou. Nosso compromisso é com as mudanças sociais.

Como a questão agrária se insere na atual conjuntura política nacional? Será um tema presente nas eleições previstas para este ano?

A reforma agrária está paralisada, porque, mesmo quando se desapropria uma fazenda para resolver algum problema de acampamento, isso não é reforma agrária; é uma solução de um problema político e social. Em geral, essas desapropriações pontuais só resolvem o problema de um acampamento específico e não afetam a estrutura da propriedade da terra.

Reforma agrária no sentido stricto sensu é um programa de governo para eliminar o latifúndio e democratizar a propriedade da terra. O que está em curso no Brasil é uma concentração da propriedade da terra. Agora, por que isso acontece? Não é só por causa da ação de tal ou qual ministro. Isso acontece porque o capital financeiro e multinacional tomou a iniciativa de disputar a terra, a água, as sementes, e isso gerou uma hegemonia do agronegócio. O modelo de dominação capitalista está presente na produção, nas mercadorias agrícolas, na mídia, no Estado, no governo, como a força majoritária, e isso bloqueou a discussão e as conquistas da reforma agrária.

Como esse tema será discutido nas eleições? Não temos muita expectativa, porque a candidatura Dilma e a candidatura Eduardo e Marina são candidaturas alternativas de um mesmo projeto: o neodesenvolvimentismo, cujos parâmetros estão bloqueados e não resolveram os problemas estruturais. A candidatura do Aécio seria o fim do mundo, a volta do modelo neoliberal, a candidatura mais claramente vinculada ao capital financeiro e das multinacionais, tanto que ele já anunciou que vai privatizar a Petrobras e dar independência ao Banco Central. E ainda que é o único legítimo representante do agronegócio! Então, mesmo as duas candidaturas mais fortes que vão disputar as eleições, não têm como propósito recolocar a questão da reforma agrária.

A questão agrária no Brasil só virá num futuro próximo quando houver a retomada das manifestações de massa, que vão pautar um projeto de país. As eleições também não representam mudanças estruturais na política institucional. Ganhe quem ganhe, continuará tudo igual. Só espero que não ganhe o Aécio, porque aí seria uma guerra.

O MST se posiciona apoiando alguma candidatura nas próximas eleições? Pretendem apoiar a candidatura da Dilma?

Como parte dos nossos princípios ao longo desses 30 anos, o MST nunca definiu em reunião nenhuma que vamos apoiar Beltrano ou Fulano como movimento; temos de ter autonomia. E, portanto, o movimento não participa eleitoralmente enquanto movimento. Porém, a nossa militância e a nossa base evidentemente participam da vida política, têm opinião política e consciência. E, naturalmente, a nossa base, por toda a sua trajetória de luta, se posiciona votando em candidatos progressistas, de esquerda.

A nossa base analisa a conjuntura e toma as suas decisões. Devemos votar em candidatos progressistas, ainda que — e lamento dizer isso — aqui e acolá há assentados que votam em candidatos da direita. Nós também temos as nossas contradições, mas em geral a nossa base sempre se posiciona ao lado dos partidos progressistas.

O senhor comentou, durante a palestra, que Lula nunca prometeu reformas estruturais. Dito isso, era de se esperar o atual quadro em relação a uma reforma agrária brasileira?

Não, não era de se esperar, embora programaticamente o PT tenha recuado. O que eu quis dizer com isso é que o programa que o Lula defendeu na campanha presidencial de 2002 não foi o programa democrático e popular. O programa que ele defendeu foi o de brecar o neoliberalismo. Assim, construiu um programa que, agora, a posteriori, estamos chamando de neodesenvolvimentismo e que está baseado em três pilares: 1) o crescimento econômico, ou seja, gerar mais produção e emprego; 2) o Estado retomar o seu papel na sociedade como indutor da economia e de criador de políticas públicas para os pobres — porque os neoliberais deixavam tudo para o mercado; e 3) distribuição de renda, que Lula fez com o aumento do salário mínimo e com os benefícios da previdência.

Esse foi o programa que ganhou. E, nesse programa, não precisa fazer reforma agrária, não precisa tarifa zero, não precisa universidade para todos. Eu acho que Lula foi honesto; não enganou ninguém. Ele cumpriu o seu programa: a economia cresceu, o Estado retomou sua atividade e houve início da distribuição de renda.

Problemas estruturais

Porém, ao longo desses 12 anos, os problemas sociais estruturais se avolumaram: a reforma agrária parou, os estudantes querem mais universidades (só 15% da juventude consegue entrar no ensino superior), nas cidades falta moradia e aumentou a especulação imobiliária, a saúde está um caos e precisaríamos criar uma nova política de transporte público. Todas essas mudanças que estou citando agora precisam de reformas estruturais.

O que isso significa? Que não adianta mais um programa de agradar a todos, no qual todos vão ganhar. Não. Para pôr metrô e transporte com qualidade e quantidade necessárias nas cidades, o Estado tem de pegar dinheiro do capital financeiro; ou seja, os bancos têm de perder, porque mesmo no neodesenvolvimentismo se manteve intacta a política de superávit primário que destina de 30% a 40% de toda a arrecadação dos impostos para pagar juros.

E sem mexer na taxa de juros e sem mexer no superávit primário, não é possível fazer reforma estrutural. Como destrinchar esse bloqueio? Pela via institucional ele continuará bloqueado, porque nem o Congresso quer, nem os governos têm força — a própria Dilma queria, mas não teve força. Para destrinchar isso, somente com mobilização de massa, para arrancar a reforma política. Por isso, além de eleger os mais progressistas, temos que impedir o Aécio, porque seu governo seria a volta do neoliberalismo. Temos que, ao mesmo tempo, seguir as mobilizações de massa para que elas alterem a correlação de forças na sociedade e produzam reformas estruturais, começando pela reforma política.

“No ano passado nós ocupamos dois ministérios. Qual foi o movimento social que ocupou algum ministério?”


Qual é a relevância da reforma agrária para a redução da pobreza e da desigualdade social nos dias atuais, já que a concentração de terra aumentou ao longo dos últimos anos?

A concentração da propriedade de terra aumentou porque a ação do capital independe do governo. Então, quando se compra uma fazenda, ninguém pede se o governo deixa ou não, se o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – Incra quer ou não. O capital tem uma lógica de acumulação e vai concentrando. Nós somos vítimas desse processo. Com a crise de 2008, vieram para o Brasil 200 bilhões de dólares de capital fictício que foram aplicados só em recursos naturais.

Esses 200 bilhões compraram terras, usinas de etanol, usinas hidrelétricas, etc. A Nestlé e a Coca-Cola compraram reservas de água no lençol freático. Isso produziu uma enorme concentração da terra, da produção e da propriedade dos recursos naturais no Brasil, fruto desse movimento do capital internacional. Inclusive a burguesia brasileira perdeu dinheiro com isso. O setor sucroalcooleiro (da cana), por exemplo, que afeta mais o estado de São Paulo, era um setor típico da burguesia brasileira, inclusive até familiar. Famílias eram donas da cana e das usinas.

De 2008 para cá, a avalanche de capital para controlar a cana-de-açúcar e o etanol foi tão grande que hoje 58% de toda a produção brasileira de cana-de-açúcar e etanol é controlada por três empresas multinacionais: a Bunge, a ADM e a Cagil; se colocar mais a Shell Química, que tem um pouquinho de participação, vai para 60% o controle sobre o etanol e a cana produzidos no Brasil. As melhores terras de São Paulo estão hoje dedicadas à cana e sob o controle dessas empresas.

Mas, voltando à questão da reforma agrária… No capitalismo industrial, no século XX, a reforma agrária cumpria um papel essencial de resolver um problema do campesinato, que era ter acesso à terra e deixar de trabalhar para os outros. Com a reforma agrária, se eliminava o arrendamento da terra, a renda da terra do grande proprietário. Portanto, o camponês iria ter renda para ele, e com essa renda ele comprava coisas da indústria, na cidade, e ativava a economia. Ou seja, a reforma agrária clássica tinha um papel também de desenvolvimento do capitalismo industrial e do mercado nacional. Ao mesmo tempo que, para o camponês, resolvia o seu problema de sobrevivência, de subsistência da sua família, e o integrava à sociedade. Porque ele, como sem terra, é um pária. Ele só é espoliado, não tem direito a nada. Mas essa reforma agrária clássica não se viabilizou no Brasil. Por quê? Porque a burguesia industrial não teve interesse. A burguesia industrial brasileira é tão espoliadora que, em vez de projetar um mercado nacional de massa para os seus produtos, preferiu bloquear a reforma agrária e usar o campesinato como mão de obra barata, como o seu exército reserva de mão de obra, e com isso garantir baixos salários aos operários, aumentando seu lucro por aí!

“Nosso problema é a repressão ideológica que os meios de comunicação fazem contra qualquer luta social”

 

O que a burguesia industrial fez no Brasil no século XX foi estimular o êxodo rural, para que essa massa viesse para a grande cidade e pressionasse os salários para baixo. Por isso, não fez a reforma agrária. O período mais próximo que tivemos de uma reforma agrária clássica foi na crise do capitalismo industrial da década de 1960, quando tínhamos um governo popular, o de João Goulart, formado por ministros fantásticos como Celso Furtado e Darcy Ribeiro. Celso Furtado propôs: “Presidente, para sairmos da crise do capitalismo industrial, só uma reforma agrária, assim como os países do hemisfério Norte fizeram”. O presidente topou e o governo apresentou um projeto de reforma agrária que foi fantástico, o melhor projeto de reforma agrária elaborado até hoje — previa, inclusive, a desapropriação de todas as fazendas acima de 500 hectares. Projeto proposto por Celso Furtado e João Goulart. Imagina se eu, João Pedro, em nome do MST, propusesse isso hoje: desapropriação de todas as fazendas acima de 500 hectares. A imprensa iria me chamar de louco, comunista, comedor de criancinhas…

Naquela época o projeto era viável?

Naquela época era viável e necessário. Tanto é que a burguesia se assustou, e qual foi a sua resposta? O golpe militar. Aliaram-se aos Estados Unidos. Tiveram que barrar a manu militari, à custa de vidas e toda esta repressão de 20 anos. O que mudou hoje? O próprio capitalismo industrial não está mais no centro do desenvolvimento capitalista. Portanto, nem sequer temos mais burguesia industrial como burguesia específica. Agora nós temos uma burguesia que é dominada pelo capital financeiro e que é dona de uma indústria, que é dona de um comércio, que é dona de terras, etc. Não há mais uma burguesia industrial típica, como foi gestada nos séculos XIX e XX.

Esta etapa do capitalismo criou para o campo o modelo do agronegócio. No agronegócio não precisa mais de camponês, nem sequer para o exército de mão de obra reserva, porque na cidade eles não precisam mais ampliar o número de operários industriais. O aumento da produtividade do trabalho, que o IHU acompanha, como tenho visto nos debates, foi reduzindo inclusive a classe trabalhadora industrial. Tanto é que quem migra hoje para as cidades vai cair onde? No trabalho informal, no comércio, na venda ambulante, nos serviços em geral. O trabalhador não vai mais à porta da fábrica pedir emprego, como a minha geração. Então, nestas circunstâncias, mudou também o caráter daquela reforma agrária do século XX. Agora a reforma agrária precisa ter outras balizas, outros paradigmas. Claro, começando pela democratização da propriedade da terra. Porque, sem ter posse real da terra, você não consegue produzir. A terra é um fator de natureza imprescindível para você produzir na agricultura, para você produzir riqueza.

Democratização da propriedade

Qualquer reforma agrária, de qualquer tipo, tem que partir da democratização da propriedade da terra. Porém, não pode ficar nisso. E o que há a mais? Agora a reforma agrária tem que ser planejada para produzir alimentos. E aí é que entra o interesse de toda a população: alimentos sadios e baratos. E isso só o campesinato pode produzir, porque o agronegócio só produz com veneno. E o veneno no seu estômago algum dia vai virar câncer.

“O período da Copa não é um período bom para você discutir um projeto para o país”

O Instituto Nacional do Câncer advertiu agora mesmo, em fevereiro, que para este ano a previsão é de 546 mil novos casos de câncer no Brasil. E eles, como cientistas da área, dizem: “se a população descobrir que está com câncer cedo, nós vamos salvar 60% destas pessoas”. Mas 40% delas irão a óbito. E quais são os tipos de câncer que estão mais proliferando: o câncer de mama e o câncer de próstata, porque são as células mais frágeis, onde aqueles princípios ativos químicos dos venenos agem. Então é aí que aparece a degradação do nosso organismo. É por isso que hoje, ao ler os jornais, ou nas nossas famílias, notamos que o câncer de mama aparece até nas meninas que nem menstruaram ainda.

Porque ele já não é resultado, digamos, da degradação das células pela idade, que em geral afetava as pessoas mais idosas. Agora não. A origem é outra, os alimentos contaminados.

Fazer uma reforma agrária apenas para produzir alimentos sadios e salvar a população desta tragédia já seria um sucesso. Mas, além disso, temos que adotar uma nova matriz tecnológica, a qual chamamos de agroecologia, que é a produção na agricultura em equilíbrio com a natureza. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE divulgou e o jornal O Estado de São Paulo publicou que, dos 5,5 mil municípios brasileiros, 2.276 tiveram ocorrências de tragédias naturais provocadas pelo homem, com graves consequências para toda sua população. Isso vem de onde? Vem da monocultura, da destruição da biodiversidade, realizada pelo agronegócio, que altera o clima. Nós temos que voltar a produzir alimentos com agroecologia para que haja um equilíbrio na natureza. Isso salva a cidade das tragédias anunciadas.

Outro parâmetro que nós temos adotado se refere à própria agroindústria. Ela é necessária para conservarmos os alimentos, mas nós temos que acabar com esse controle oligopólico de grandes grupos que controlam todas as agroindústrias. A indústria do leite, por exemplo, é controlada por três empresas: Nestlé, Parmalat e Danone. As cooperativas de agricultores têm os preços definidos pelos grandes grupos. A maior empresa nacional de leite, que é a Itaimbé, de Minas Gerais, foi comprada agora pelo grupo Friboi, o que concentra ainda mais a agroindústria. Nós poderíamos ter empresas de laticínios em todos os municípios do Brasil na forma de cooperativas, controladas pelos trabalhadores. Isso iria gerar renda, distribuir renda, iria equilibrar a nossa sociedade.

Reforma agrária popular

A reforma agrária de agora é de outro tipo. É uma reforma agrária que nós chamamos popular, porque ela interessa a todo o povo. Não é mais uma reforma agrária camponesa. Não é mais uma reforma agrária de sem terras. Os sem terras queriam reforma agrária para quê? Para ter terra. Mas ter terra não resolve o problema. Agora precisamos de uma reforma agrária mais ampla, que interesse a todo o povo. E por que é difícil ela sair? Porque a nossa forma de luta, de ocupar terras, de fazer marchas, era apropriada para enfrentar e derrotar o latifúndio. Era suficiente como tática de luta para conquistar a terra. Agora não.

Agora tu enfrentas uma Bunge, uma Monsanto, a Aracruz. Quando nós fizemos aquela ação das mulheres, há cinco anos, contra a Aracruz, veja o “massacre” que nós sofremos na mídia. Porque a população na cidade ainda não tinha consciência de que o eucalipto é um prejuízo também para a cidade. Nós pagamos sozinhos aquela conta. E nós seguramos no peito. A nossa sorte é que Deus existe e que o próprio capitalismo levou a Aracruz à falência. Aquele viveiro no qual destruímos as mudas, hoje está fechado. Foi fechado pela própria contradição do capital.

A reforma agrária popular vai ser mais demorada, mais difícil, porque nós vamos ter que conscientizar a população da cidade para que ela também se mobilize. É claro que a população da cidade não precisa ir a uma ocupação de terra, mas ela pode ir para a frente de um supermercado e dizer: “eu quero comida sadia, eu quero que coloquem no rótulo do arroz se ele tem ou não veneno”, para que a dona de casa que vai comprar arroz saiba — “este arroz tem glifosato, herbicida” — e possa decidir se quer comer o arroz com veneno, ou o arroz das cooperativas da reforma agrária, que não tem veneno. A população da cidade vai ter que se mobilizar em seu próprio interesse. E os caminhos podem ser esses, pelas contradições do agronegócio, dos alimentos, das mudanças climáticas, do meio ambiente, do emprego.

Como o senhor vê as mobilizações contrárias à Copa?

É natural que os jovens e alguns setores e categorias de trabalhadores aproveitem o evento da Copa para alcançar a visibilidade que o oligopólio encabeçado pela Globo esconde. Há fofocas por aí afirmando que até a Polícia Federal está ameaçando fazer greve. E se eles fizerem, vai ser um caos. Bom, quando fazem greve fora da Copa ninguém dá bola, então eles têm direito também, não é?! Há este aspecto do evento e da visibilidade, que é justo, e as categorias e os setores que quiserem lutar, acho que é apropriado.

Agora, a nossa reflexão como Movimento Sem Terra e na plenária nacional de movimentos é que o período da Copa não vai ainda nos ajudar a construir aquele programa unitário para debater o Brasil, porque parte do povo brasileiro quer ver a Copa. Então a palavra de ordem “não vai ter Copa” não consegue envolver todo o povo brasileiro.

“85% do povo brasileiro é formado pela classe trabalhadora, trabalha o dia todo para poder sobreviver”


Ao mesmo tempo em que se quer a Copa, há toda uma mobilização contrária aos gastos feitos.

Claro. Temos todo o direito de denunciar os maus gastos. Mas o período da Copa não é um período bom para você discutir um projeto para o país, porque você não consegue unidade. Então, nós estamos dizendo: “ótimo, quem quiser se mobilizar durante a copa, que se mobilize”. Mas nós temos que estimular um processo de mobilização de massas antes da Copa e depois da Copa, porque é isso que pode gerar a unidade necessária para um programa de reformas estruturais. Porque, por mais radical que sejam os black blocs, a única coisa que eles contestam é os gastos da Copa. O nosso problema, cá entre nós, não é só os gastos da Copa. Não é esse o nosso principal problema. Os R$ 8 bilhões que eles gastaram nos estádios corresponde a duas semanas de juros que o Tesouro Nacional repassa para os bancos, do nosso dinheiro recolhido nos impostos federais. E sobre os juros ninguém vai se mobilizar? Ninguém vai querer ocupar o Tesouro Nacional? Esta política econômica não tem futuro. Tem que mudar. O que eu temo é que estes temas não venham à tona nem na campanha eleitoral.

Como o senhor se sente tendo militado tantos anos por este projeto mais à esquerda, e agora se depara com todas estas contradições, no sentido de não serem vislumbradas mudanças significativas?

É preciso ter uma visão histórica dos processos. Pelo menos dentro do MST e, vamos dizer assim, da nossa formação ideológica, nós sempre defendemos, comungamos e propagamos que as únicas mudanças possíveis ocorrem a partir da organização do povo, da luta e da mobilização de massas. Nunca o MST e os movimentos sociais colocaram a via institucional como o único caminho. A via institucional faz parte da luta, mas não pode ser a única luta. O erro que o PT fez foi ficar só nisso. E essa crítica nós temos em relação ao PT e a todos os partidos, inclusive o PSOL. Quando o PSOL chega lá ele faz a mesma coisa, porque é da natureza, é da liturgia do cargo.

Os militantes que não têm esta clareza, de que as mudanças são conquistadas só pela luta de massas, só pelo povo organizado, caem nestes desvios. Quem entrar lá [no governo] e abandonar isso, vai achar que toda a crítica é para derrubar [o governo]. E eles nos criticam: “Vocês falam mal do governo Dilma, vão puxar votos para o Aécio”. Não estou preocupado com isso. É minha obrigação fazer críticas aos erros do governo. E isso não necessariamente é puxar voto para a direita. O pior dos mundos para a esquerda é evitar a politização. O que salva a esquerda é a politização do povo, para que ele tenha clareza da luta de classes.

O Ponto da curva

Por outro lado, e vivemos repetindo isso porque este debate está ausente da academia, a escola de pesquisadores britânicos marxistas — que se baseiam em Marx, Lenin e em todos os pensadores clássicos — interpreta que a luta de classes nos países capitalistas aparece na forma de ondas.

Há momentos em que tu tomas a iniciativa, há momentos em que há disputa, como foi o caso em 1964 e em 1989, e há momentos de refluxo. Como militante social e dirigente, é preciso identificar, no calendário que estamos vivendo, em que ponto da curvinha tu estás. Senão tu erras. Nós estamos aqui, neste baixo astral, no refluxo do movimento de massas, e aí vem o PSTU dizer que não, que nós estamos no ascenso do movimento de massas, que agora vai. Menos, não é?! Será que o povo brasileiro está lutando? Só porque aconteceu uma greve dos garis, que foi importante e vitoriosa, isso já é o ascenso [dos movimentos de trabalhadores]? É óbvio que não. Enquanto os garis estavam fazendo greve, havia dois milhões de foliões nas ruas, festejando — e 12 mil trabalhadores em greve. Essa é a sociedade brasileira.

“Só porque aconteceu uma greve dos garis, que foi importante e vitoriosa, isso já é o ascenso [dos movimentos de trabalhadores]? É óbvio que não.”

Nós temos que ter elementos científicos para entender qual etapa nós estamos vivenciando da luta de classes, para não utilizar critérios idealistas. Porque o idealismo é exatamente o que Marx combatia. O idealismo é só uma expressão da vontade pessoal, “eu quero que o governo seja socialista”, e não das forças reais que a sociedade coloca.

O socialismo que nós sonhamos, as mudanças sociais que nós sonhamos, não dependem da nossa vontade, dependem da capacidade da classe trabalhadora se organizar, lutar e querer. Nós só temos que interpretar em que parte nós estamos. Às vezes a classe quer, às vezes não quer, e fica em casa lutando pela sobrevivência.

A nova classe média em ascensão terá influência sobre os rumos do país?

Não existe uma nova classe média no Brasil. A classe média no Brasil é a mesma de antes do governo Lula. São aqueles 8% a 10% bem caracterizados, pela renda, pela ideologia e pela cultura que eles têm. No máximo 10% são classe média no Brasil. E outros 5% são a burguesia — Marcio Pochmann, em uma pesquisa fantástica publicada em livro, identificou inclusive o município onde moram os 5% de burgueses. Mas 85% do povo brasileiro é formado pela classe trabalhadora, trabalha o dia todo para poder sobreviver. Essa classe trabalhadora, do ponto de vista ideológico, foi cooptada pelo neoliberalismo, abandonou as ideias de mudanças? Eu tenho dúvidas. André Singer faz uma leitura de que esta classe trabalhadora está dividida em três partes: um terço está organizado em sindicatos, é filiado a partidos e não abandonou o projeto socialista de mudanças; um terço foi ideologicamente cooptado pelo viés do consumismo, ganha R$ 1,3 mil por mês, acha que é classe média, vota na direita — estes eram, por exemplo, os votos do Gilberto Kassab em São Paulo — e não quer mudanças; e tem um terço, bem no meio, que André Singer diz que é um eleitorado flutuante, que se guia pelo modismo e é muito influenciado pela mídia burguesa.

Este um terço restante pode ir para a Dilma Rousseff, pode ir para Eduardo Campos, pode ir para Aécio Neves. Por isso, as eleições não estão decididas, porque tem um terço que não tem ideologia, não está organizado, que flutua. É aquele que fica repetindo o que a televisão diz — e que pode votar pelo modismo, pelo senso comum.


19 May 10:04

Stedile: Juristas estão acovardados diante dos desmandos de Barbosa

by Conceição Lemes

João Pedro Stedile: ”O imperador Joaquim Barbosa está passando por cima da lei e fazendo clara perseguição a José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares e João Paulo Cunha”

por Conceição Lemes

Existe em São Paulo um comitê unitário, de caráter nacional, que acompanha o desenrolar da Ação Penal 470 (AP 470), o chamado mensalão.

Formado por representantes de movimentos sociais, entidades de defesa dos direitos humanos, PT, CUT e militantes históricos, ele é voltado apenas aos quatro réus petistas: José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares e João Paulo Cunha.

Pois esse comitê, criado desde as prisões em novembro do ano passado, está  muito preocupado com os desdobramentos do processo, que têm como protagonista o ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF).

“O imperador Joaquim Barbosa está passando por cima da lei e fazendo clara perseguição aos réus José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares e João Paulo Cunha”, diz José Pedro Stedile, líder do MST e integrante do comitê. ”A sociedade, inclusive o PT, está parada em relação a essas violações de direitos e nós decidimos reagir.”

O comitê realizará algumas atividades para denunciar a esdrúxula situação.

Entre elas, um manifesto, assinado por entidades e personalidades e dirigido ao Supremo.

A entrega será dia 29 de maio. Representantes de entidades, movimentos sociais e personalidades vão se reunir na Catedral de Brasília, às 14h. De lá, caminharão até o STF, onde protocolarão o documento.  O anúncio dessa ação foi feito no 4º Encontro Nacional de Blogueir@s e Ativistas Digitais, realizado em São Paulo.

O documento, que está sendo preparado, tratará de quatro temas políticos.

Stedile antecipou-os ao Viomundo:

Primeiro: A decisão do  imperador Joaquim Barbosa  de cancelar o direito dos presos em ter trabalho fora é um perigo à democracia brasileira.

Barbosa rompe um direito constitucional do preso. Cria jurisprudência que, segundo estimativas mais otimistas,  pode afetar 100 mil presos brasileiros que cumprem pena e trabalham fora do presídio. Só em Brasília  teria ao redor de 500 nessa condição.

E o pior. Fere todo o debate de direitos humanos que está sendo construído na sociedade brasileira de que as penas têm de ser educativas. O encarceramento deve ser reservado aos crimes hediondos.

Segundo:  O que Joaquim Barbosa fez é uma ilegalidade. Fere a lei. Ele como maior magistrado tem de respeitar a lei. O caso sobretudo demonstra a que ponto chegou o nosso Judiciário. A sociedade brasileira está refém da postura pessoal  de um cidadão, porque Joaquim Barbosa é um cidadão brasileiro tanto quanto eu.

Terceiro: Nós somos solidários aos quatro réus que estão sendo vítimas de Joaquim Barbosa. E que isso fique público, pois eles estão sendo injustiçados. São presos políticos do campo da esquerda.

Quarto:  Nós queremos que os recursos que os advogados desses réus já apresentaram sejam julgados o mais breve possível pelo pleno do STF.

“Do jeito que Joaquim Barbosa é prepotente,  pode deixar o julgamento dos recursos para depois das eleições e até para depois do final do seu mandato como presidente do STF, em novembro. Isso é um absurdo”, indigna-se Stedile. “Como até o Ives Gandra disse na imprensa: isso gerou uma injustiça tal que os réus têm o direito de exigir indenização do Estado brasileiro pelos problemas morais e pela falta de liberdade que estão tendo nesses seis meses completamente fora da sentença que o tribunal tomou.”

Para Stedile, é uma vergonha a postura dos juristas em geral ao caso.

“Os operadores do Direito, como eles dizem, foram achincalhados, estão acovardados diante desses desmandos de Joaquim Barbosa”, afirma. “Espero que despertem, porque isso não é um problema dos quatro réus. É um problema da democracia brasileira e dos perigos que essa jurisprudência pode causar.”

O fato é que o caso está causando revolta nos  movimentos sociais e gerando a convicção de que o Brasil precisa urgentemente de uma reforma política.

“Uma reforma do sistema político brasileiro, que mude não só sistema eleitoral, o financiamento de campanha, mas sobretudo uma reforma do poder Judiciário, junto com as demais instituições, e uma reforma [da legislação relativa aos] dos meios de comunicação”, defende Stedile. “Sem mudar esses três pilares de dominação, nós não teremos uma democracia de verdade no Brasil.”

Leia também:

Será preciso novo Sobral Pinto para cessar abusos contra Dirceu e Genoíno?

“Genoino não conseguirá atingir o nível ideal de anticoagulação na cadeia”

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19 May 10:02

A “babaquice” da pauta única da mídia concentrada sobre a fala de Lula no #4blogprog e na Virada Cultural

by mariafro

Qualquer pessoa que tem condições de fazer um exercício básico de confrontar o que a mídia diz sobre algo e o que de fato aconteceu aprende uma lição básica sobre comunicação: no Brasil, o monopólio midiático não faz jornalismo, porque briga com os fatos, no Brasil, o monopólio midiático faz, sem cerimônias, política em defesa do capital, dos interesses imperialistas, os quais ela representa e faz parte. No Brasil a mídia faz campanha diuturnamente contra toda e qualquer política pública de inclusão e defesa da soberania do país.

Professor Igor Fuser fez um desafio na mesa de ontem à noite no #4blogprog que discutiu a campanha global capitaneada pelo imperialismo contra a Venezuela, ele pediu aos participantes que fizessem um exercício simples: para que déssemos um único exemplo, onde a mídia reacionária e monopolista do Brasil tenha ido contra os interesses dos Estados Unidos. De fato não há, a mídia brasileira é contra a união latino-americana, prega todos os dias do ano em defesa dos interesses de Washington contra a soberania do Brasil e de qualquer país que busque uma política soberana.

Chamou-me muito a atenção o depoimento de uma educadora de Santana de Parnaíba que nunca tinha lido um blog de esquerda, um blog progressista e foi neste final de semana ao 4blogprog. Ela dizia que até então lia a Folha e se achava bem informada, mas estava escandalizada de como tinha sido enganada por tanto tempo.

Quem vê a chamada criminosa da Folha capitaneada pelos demais órgãos midiáticos da mídia velha monopolista sobre a palestra do ex-presidente Lula durante o 4º Encontro dos Blogueiros e ouve o que o presidente Lula falou por mais de uma hora compreende imediatamente que a grande mídia que foi cobrir o nosso evento não fez jornalismo, fez um malabarismo tosco tirando uma palavra do contexto, de um chiste do presidente numa pergunta sobre a copa,( tema que é preciso ressaltar não foi o foco da fala de Lula) e transformou em capa de todos os seus jornalões e em seus portais.

Lula, durante o 4º Encontro de Blogueiros e ativistas digitais, realizado em São Paulo, 16 a 18 de maio de 2014. Foto: Conceição Oliveira.

Faça você mesmo/a este exercício: veja e ouça na íntegra a fala do presidente e compare com as manchetes.

O presidente Lula toca no assunto da Copa no final de sua fala, por volta de 51 minutos e fala mais como um torcedor, sua fala não é de modo algum uma fala partidária sobre o assunto, é uma fala de quem deseja que a Copa seja um encontro de civilizações. Lula recupera a emoção de quando o Brasil ganhou a disputa para sediar a copa, volta à memória da copa de 1950 e esclarece dados sobre investimentos, mostra que não teve dinheiro público em estádios e fala das obras para o país, sem desqualificar movimento algum. Ao contrário, diz claramente que foi contra a Lei Anti-terrorismo, e ao usar o termo ‘babaquice’ mostra que ele enquanto torcedor vai até de jumento para estádio e que cansou de viajar de São Bernardo a outros estádios em SP para torcer para o seu time, o Corinthians. Lula ressalta que não tem de esconder nada do turista estrangeiro e que o importante é que qualquer um tenha segurança pública garantida para poder participar deste grande encontro dos povos. Lula vê a Copa como uma grande chance de nós brasileiros nos mostrarmos para o mundo, com nossa diversidade e riqueza cultural. Ao pinçar um termo fora do contexto como a grande mídia monopolizada fez com a fala pontual sobre o assunto “Copa”, tirando uma piada de Lula do contexto e transformando-a no centro de sua fala, manipulando todo o significado de sua ideia original é desonestidade intelectual, é crime.

Uma simples pesquisa no google nos mostra como a pauta da mídia monopolizada é única, os jornalões e portais dessa mídia não se acanham nem em repetir a mesma manchete:

Outro exercício: A cobertura partidarizada da mídia monopolizada sobre Virada Cultural para atacar o PT

Neste final de semana mais de um milhão de pessoas ocuparam as ruas de São Paulo na Virada Cultural. Compare a cobertura da mídia monopolista sobre a Virada Cultural nas gestões Serra e Kassab com os dois anos da Virada Cultural da gestão Haddad. Impressiona o partidarismo da mídia monopolista para atacar o evento nestes dois últimos anos. Imagine um milhão de pessoas nas ruas e a Folha indo nos registros policiais buscar incidentes isolados para atacar a gestão do Haddad.

Imagine a Folha pegando um fala de um cantor que em nenhum momento menciona a prefeitura de São Paulo e transformando-a em ataque ao prefeito Fernando Haddad, o único prefeito que iniciou uma política pública de cuidar como saúde pública a questão do crack.

Observe:

“Estamos em uma região da cidade em que está se alastrando uma doença, o vício do crack. Que o poder público trate os usuários com amor, como doentes que são. Porque eles precisam de auxílio médico, e não que os limpem da cidade como se fossem sujeira”. Nasi Valadão, vocalista do Ira!, durante o show da banda na Virada Cultural neste sábado.

Quem tem acompanhado o problema sabe que o governo do estado de SP, do PSDB, estourou a cracolândia, em janeiro de 2012, por meio da Operação Sufoco (também conhecida como “dor e sofrimento”), espalhando os usuários por várias regiões da cidade. Já a prefeitura de SP, na gestão de Fernando Haddad, do PT, desenvolveu a partir de 2014 o Programa Braços Abertos, oferecendo abrigo, alimentação e trabalho aos usuários.

Mas a manchete do UOL nesta noite de sábado foi a seguinte:
“Ira! abre Virada Cultural com críticas à Prefeitura de SP”.
Onde Nasi criticou a Prefeitura de SP em seu discurso??? Pergunta o professor Wagner Iglecias ao comentar o banditismo deste jornalismo partidarizado.

Ou como ressalta Fabrício Lima também em comentário no Facebook:

Já tinha escrito sobre isso ontem: “O relato do show do Ira descrito na Folha foi, NO MÍNIMO, desonesto. Começando pela distorção bizarra do contexto da fala do Nasi que foi nitidamente crítica ao hábito que o poder público costumava ter de sumir com os usuários de crack em atrapalhadas operações policiais que não chegaram nem a “fazer cosquinhas” no problema. Outro ponto bizarro da “matéria” foi sobre a breve fala do baixista Daniel Rocha em apoio ao Parque Augusta, que atacava diretamente o interesse de dois dos seus anunciantes – as incorporadoras Setim e Cyrela. Pra isso, só faltou chamar o rapaz de “feio”, “bobo” e “cara-de-mamão”. Na mesma fala, uma alfinetada sobre a crise da água que no caso a Folha se fez de cega, surda e muda.

Para atacar Haddad,  apostando no fracasso da Virada Cultural nem os bebês foram poupados:

Como brincou Débora Cruz no Facebook “Imagino a cara dos bebês chorando e levantando um cartaz com a hashtag #Shatyado

Seria cômico tanto malabarismo e nada de jornalismo se não fosse crime. Manipular, deturpar a informação como faz esta mídia monopolizada é crime. Sem democratizar a comunicação no Brasil, além de pôr em risco a democracia, somos enganados todos os dias. Por isso é importante que cada cidadão e cidadã brasileira se conscientize da importância do PLIP de Lei de Mídia Democrática. Leia o projeto, imprima, colete assinaturas e devolva-as para a organização da campanha.

Ou democratizamos a comunicação ou esse monopólio midiático, colaboracionista da ditadura militar, destruirá todas as conquistas democráticas

18 May 18:06

Jorge Furtado rebate surto de vira-latice de alguns artistas

by Miguel do Rosário

Sugerido por Julio Cesar Macedo Amorim, por email.

Após declarações de Wagner Moura, Jorge Furtado rebate críticas de artistas ao país

Diretor publicou em seu blog texto lamentando quem só vê “as coisas piorando” no Brasil

16/05/2014 | 11h43, no site da RBS.

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Após declarações de Wagner Moura, Jorge Furtado rebate críticas de artistas ao país. Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS

O diretor gaúcho Jorge Furtado usou seu blog pessoal para rebater as manifestações de artistas brasileiros que criticaram a atual situação social, política e econômica do Brasil. O texto foi publicado um dia após as declarações de Wagner Moura para jornal O Estado de S. Paulo, em que o ator se diz satisfeito em deixar o país por dois anos.

Na entrevista, em que fala sobre seu recém lançado Praia do Futuro, Moura reclamou do preconceito e do conservadorismo, criticou o PT – “O PT não inventou o toma lá, dá cá, mas o institucionalizou” – e o governo de Eduardo Paes (PMDB) no Rio de Janeiro: “Eduardo Paes governa com a iniciativa privada”.

Em seu blog, Furtado escreveu:

“Fico triste ao ver artistas brasileiros, meus colegas, tão mal informados. (…) Dizer que não dá mais para viver no Brasil logo agora, agora que milhões de pessoas conquistaram alguns direitos mínimos (…)”, escreveu o diretor em seu blog no site da Casa de Cinema de Porto Alegre. No texto, ele questiona: “Em que as coisas estão piorando? E piorando para quem? Quem disse? Qual sua fonte de informação?”

Jorge Furtado encerra o texto dizendo “o Brasil nos dá motivos diários de vergonha e tristeza, quem não sabe? Mas, estamos piorando? Tem certeza? Quem lhe disse? Qual sua fonte? E piorando para quem?”.

Recentemente, outros artistas brasileiros também se manifestaram sobre o tema, gerando grande repercussão: o cantor Ney Matogrosso deu entrevista para o canal de TV português RTP fazendo duras críticas ao governo, dizendo que “hoje em dia, a saúde pública no Brasil é uma vergonha” e “está piorando”, “a educação no país é vergonhosa” e “o transporte público é horroroso”.

Na semana passada, o vocalista Roger, do Ultraje a Rigor, rebateu declarações de que ele seria incoerente por tocar em um evento financiado pelo governo – que ele critica. Roger aproveitou para criticar planos como o Bolsa Família: “Tenho certeza que, se fôssemos bem educados, ninguém precisaria de esmola do governo, assim como eu próprio nunca precisei”.

:: Leia o texto de Jorge Furtado na íntegra:

“Fico triste ao ver artistas brasileiros, meus colegas, tão mal informados.

Imagino que, com suas agendas cheias, não tenham muito tempo para procurar diferentes fontes para a mesma informação, tempo para ouvir e ler outras versões dos acontecimentos, isso antes de falar sobre eles em entrevistas, amplificando equívocos com leituras rasas e impressionistas das manchetes de telejornais e revistas ou, pior, reproduzindo comentários de colunistas que escrevem suas manchetes em caixa alta, seguidas de ponto de exclamação.

Fico triste ao ler artistas dizendo que não dá mais para viver no Brasil, como se as coisas estivessem piorando, e muito, para a maioria. Dizer que não dá mais para viver no Brasil logo agora, agora que milhões de pessoas conquistaram alguns direitos mínimos, emprego, casa própria, luz elétrica, acesso às universidades e até, muitas vezes, a um prato de comida, não fica bem na boca de um artista, menos ainda de um artista popular, artista que este mesmo povo ama e admira. Em que as coisas estão piorando? E piorando para quem? Quem disse? Qual a fonte da sua informação?

Fico triste ao ouvir artistas que parecem sentir orgulho em dizer que odeiam política, que julgam as mudanças que aconteceram no Brasil nos últimos 12 anos insignificantes, ou ainda, ruins, acham que o país mudou sim, mas foi para pior. Artistas dizendo que pioramos tanto que não há mais jeito da coisa “voltar ao ‘normal ‘”, como se normal talvez fosse ter os pobres desempregados ou abrindo portas pelo salário mínimo de 60 dólares, pobres longe dos aeroportos, das lojas de automóvel e das universidades, se “normal” fosse a casa grande e a senzala, ou a ditadura militar. Quando o Brasil foi normal? Quando o Brasil foi melhor? E melhor para quem?

A mim, não enrolam. Desde que eu nasci (1959) o Brasil não foi melhor do que é que hoje. Há quem fale muito bem dos anos 50, antes da inflação explodir com a construção de Brasília, antes que o golpe civil-militar, adiado em 1954 pelo revólver de Getúlio, se desse em 1964 e nos mergulhasse na mais longa ditadura militar das américas. Pode ser, mas nos anos 50 a população era muito menor, muito mais rural e a pobreza era extrema em muitos lugares. Vivia-se bem na zona sul carioca e nos jardins paulistas, gaúchos e mineiros. No sertão, nas favelas, nos cortiços, vivia-se muito mal.

A desigualdade social brasileira continua um escândalo, a violência é um terror diário, 50 mil mortos a tiros por ano, somos campeões mundiais de assassinatos, sendo a maioria de meninos negros das periferias, nossos hospitais e escolas públicos são para lá de carentes, o Brasil nos dá motivos diários de vergonha e tristeza, quem não sabe? Mas, estamos piorando? Tem certeza? Quem lhe disse? Qual sua fonte? E piorando para quem?”

17 May 19:02

Na Argentina, lei põe no ar 56 emissoras de povos originários

by Luiz Carlos Azenha

A mesa de abertura do evento que tem como mote Por um Brasil onde todos possam ter voz! (Fotos Mohamad Hanjoura)

Lei que democratiza mídia argentina entra plenamente em vigor até agosto

Enquanto no Brasil, meios de comunicação se convertem em principais atores do cenário político, segundo jornalista espanhol

Por Lúcia Rodrigues

Se nos gramados de futebol a Argentina é vista como arquiinimiga, no campo da democratização da mídia deveria ser considerada exemplo. Os avanços conquistados com a Lei da Mídia, sancionada pela presidente Cristina Kirchner — que determinou, por exemplo, o fim da propriedade cruzada nos meios de comunicação — é modelo a ser seguido pelo Brasil.

O professor Venício Lima, estudioso do tema, antecipa que a lei argentina entrará plenamente em vigor até agosto. A legislação passou por um amplo debate na sociedade, que durou aproximadamente quatro anos. Ele ressalta ainda que a Lei da Mídia também foi chancelada pela Corte Suprema, apesar de protestos do Clarín, principal grupo midiático privado daquele país.

Desde que o texto foi sancionado, o docente explica que entraram no ar naquele país, 53 novas rádios e três canais de televisão de povos originários. Ele enfatiza que a legislação argentina não discorre sobre conteúdos, restringe-se ao combate ao monopólio. “A lei é anti-monopólio, não trata de conteúdo. É para regulamentar o mercado”, frisa.

Encontro vai até domingo, 18

Venício participou da mesa de abertura do 4° Encontro de Blogueiros e Ativistas Digitais, nesta sexta, 16, em São Paulo, ao lado do jornalista espanhol Pascual Serrano e do integrante do movimento estadunidense Democracy Now Andrés Conteris.

Para Pascual, a mídia brasileira se tornou o mais importante dos quatro poderes. “Se converteu no principal ator da política, apesar de não ter a legitimidade que os outros três poderes têm.”

Segundo o jornalista, o direito de informar e de ser informado deveria ser assegurado a todas as pessoas em uma democracia, mas na prática isso não acontece. O poder midiático é exercido por um grupo social: os donos da mídia, que impõe seu modelo político e ideológico à sociedade.

Lado

É contra isso que se levantam os blogueiros. A jornalista e editora do Viomundo Conceição Lemes, que coordenou a mesa em que o palestrante foi o ex-presidente Lula, fez questão de ressaltar em seu discurso, que os blogueiros têm lado. “Nós temos lado e é radicalmente o lado do povo brasileiro”, define.

O jornalista espanhol explica que em uma economia de mercado, como é o caso da brasileira, todos os poderes estão ameaçados pelo poder econômico, do qual a mídia é parte integrante. “Não lhes interessa a democracia, a verdade.”

Já o ativista digital Andrés reforça a suspeita sobre o monitoramento que os Estados Unidos exercem sobre seus compatriotas e cidadãos de outros países. Ele destacou a relevância das revelações de Edward Snowden para a elucidação desses fatos.

Andrés afirma que o presidente Obama persegue mais ativistas do que todos os seus antecessores juntos. “Eles querem diminuir a privacidade nas comunicações. Precisamos frear isso”, ressalta.

[Saiba aqui como é a Lei da Mídia que está em vigor na Argentina]

Blogueiros de todo o Brasil participam do encontro

Lula defende regulação da mídia

Com bom humor e sagacidade o ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, mandou vários recados à elite brasileira, durante seu discurso aos blogueiros progressistas e ativistas digitais que estão reunidos em São Paulo até este domingo, 18, para debater a democratização da mídia.

Ele reiterou mais uma vez que o tema é decisivo para o avanço da democracia no país. “Todas as sociedades democráticas contam com regulação (da mídia)”, alfineta ao se referir ao fato de no Brasil o assunto ser tratado como tabu pela mídia corporativa.

O ex-presidente aproveitou para traçar um panorama de como o tema vem sendo tratado no mundo. E elencou vários documentos que comprovam que a regulação é uma realidade, inclusive, nos Estados Unidos e na União Europeia.

“Não citei nenhum país socialista, para não dizerem que eu sou esquerdista, que isso é censura, que estou querendo controlar os meios de comunicação. Ninguém quer censurar ninguém. O que exigimos é que haja neutralidade e seriedade nas informações.”

Dois pesos e duas medidas

O tratamento diferenciado dado pela mídia ao governo federal e às administrações tucanas também foi ressaltado pelo ex-presidente durante o discurso.

“Nunca vi tanto ataque virulento contra a Dilma… E fico vendo o tratamento que dão à Cantareira (reservatório da Sabesp que secou em São Paulo). Ah… se fosse você Haddad…”, afirma ao se referir ao tratamento contundente que seria dado ao prefeito paulistano (que estava na platéia), caso o problema da falta de água fosse de âmbito municipal.

Para Lula, os blogueiros progressistas têm papel decisivo para reverter o monopólio da fala dos donos da mídia. “Não vale mais a pena chorar. Temos internet, site, blog. Precisamos utilizar o que está a nossa disposição”, frisa. A garantia da banda larga em todas as residências é um dos mecanismos apontados por ele para começar a reverter o quadro desfavorável.

Além da democratização da mídia, Lula considera a reforma política um dos pontos mais importante para o fortalecimento e a consolidação da democracia no Brasil. “Se a gente não fizer a reforma política, não vai acontecer nada. E esse Congresso não fará a reforma política. Isso só ocorrerá se tiver uma Constituinte exclusiva.”

Comparação

O ex-presidente aproveitou o diálogo com os blogueiros, para apresentar uma comparação entre os números das administrações do PT na Presidência da República, com os do PSDB e de países do G20, grupo que reúne os 20 países mais ricos do planeta.

“Qual é o país do mundo que está melhor do que o Brasil?”, questiona. “Eles jogaram fora 62 milhões de postos de trabalho, o Brasil criou 10 milhões de postos de trabalho. A nossa inflação está controlada, dentro da meta. Os tucanos querem desemprego, nós não”, completa.

Os avanços na educação também foram destacados por ele. “Em 11 anos fizemos 18 universidades. Precisou chegar à Presidência da República, um presidente e um vice, sem diploma, para cuidar da educação do país”, cutucou.

Lula também arrancou gargalhadas da platéia ao ironizar o ataque desferido pelo ex-governador de São Paulo, José Serra (PSDB), na campanha de 2010, contra os blogueiros progressistas.

“Aqui em São Paulo, se chamar de blogueiro sujo, a culpa é do Alckmin”, ironizou, ao se referir à falta de água que atinge a região metropolitana da capital.

A palestra do ex-presidente foi coordenada pela editora do Viomundo Conceição Lemes e pelo blogueiro Enio Barroso.

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Leia também:

Grupos que protestam contra a Copa explicam motivos da ação

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17 May 11:07

Amaury Ribeiro Jr.: Como funcionou a Privataria do futebol brasileiro

by Luiz Carlos Azenha

Da Redação

O Lado Sujo do Futebol, da Editora Planeta, entre outras histórias conta a da privatização do futebol brasileiro. Primeiro por João Havelange, em seguida por Ricardo Teixeira, que Amaury Ribeiro Jr., autor de A Privataria Tucana, define como “o quarto irmão Marinho”. Isso porque, obviamente, a privataria do futebol serviu a gente poderosa: Roberto Marinho e os filhos, por exemplo.

A investigação foi um trabalho coletivo, assinado por Amaury Ribeiro Jr., Leandro Cipoloni, Luiz Carlos Azenha e Tony Chastinet.

Abaixo, um aperitivo, conforme antecipado pelo blog do Juca:

Amigos íntimos

“Esse carro teve um desastre nos Estados Unidos. E faleceu uma pessoa que era muito querida minha.” – Ricardo Teixeira

O caminho que nos leva até a fonte do mistério corta os pântanos da Flórida, nos Estados Unidos. Nossa viagem vai de norte a sul, de Orlando a Miami. Paramos para abastecer. O bando de corvos que cerca a lanchonete anexa ao posto de gasolina dá um ar surreal à nossa missão, que faz lembrar os contos cavernosos de Edgar Allan Poe. Mas o nosso objetivo é justamente separar ficção de realidade. Estamos atrás da verdade escondida no acidente que pode ter mudado a história do futebol mundial.

Na saída 193, fazemos o retorno na Florida Turnpike e ajustamos o contador de quilometragem. Após 26 quilômetros, paramos no acostamento, no ponto exato indicado por um boletim de ocorrência em nossas mãos. Um carro da polícia rodoviária para em seguida. Educado, o policial nos adverte que só se pode estacionar ali em casos de emergência. Explicamos o motivo de nossa presença. “Façam o que for preciso e saiam depressa.”

Um de nós já está dentro da mata. Seus gritos fazem mais barulho que o motor da viatura policial que arrancava dali. No meio da lama, peças antigas de um automóvel – um friso de plástico, um pedaço de para‐choque. Coincidência ou não, aqueles pedaços de carro nos enfiam num túnel do tempo. Voltamos a outubro de 1995, uma sexta‐feira 13.

Passava pouco da meia‐noite quando um luxuoso BMW preto cortava em alta velocidade a Turnpike. Com o pé firme no acelerador, uma bela jovem carioca, morena, esguia, cabelos lisos escuros, sobrancelhas arqueadas. Adriane usava colares, pulseiras e anéis dourados. Estava acompanhada por Lorice, a quem havia buscado no Hotel Marriot, em Boca Raton.

Era uma noite típica dos outonos no Estado do Raio de Sol, lema oficial da Flórida: 25 graus, céu limpo. Numa fração de segundos, o carro se desgovernou a mais de 160 km/h. Rodopiou, capotou e caiu em um lago. A jovem morena ficou presa nas ferragens. A amiga, ferida, foi retirada do veículo por motoristas que pararam no local. Adriane de Almeida Cabete, de 23 anos, morreu afogada na madrugada daquela sexta‐feira. O acidente encerrou o conto de fadas que ela começara a viver meses antes no Brasil.

A maior parte desse conto de fadas havia se passado na Flórida, terra dos parques de diversão da Disney, em Orlando. Uma das principais atrações por lá é o Castelo da Cinderela, cópia do original de Neuschwanstein, na Alemanha, cenário da história da moça pobre que uma fada‐madrinha transforma em princesa. Para a estudante Adriane, nascida e criada perto do morro do Alemão, subúrbio do Rio de Janeiro, o condomínio de luxo Clube do Polo, em Delray Beach – de onde ela teria saído pilotando sua carruagem conversível –, era a materialização de um castelo. Na fábula, o encanto de Cinderela se quebra à meia‐noite.

O acidente que transformou em abóbora o mundo de Adriane ocorreu aos seis minutos da madrugada. Na história infantil, o sapato de cristal perdido por Cinderela ao descer correndo a escadaria do palácio do baile real leva até a moça o príncipe do final feliz. Na história de Adriane, o conversível puxa o fio da meada deste livro‐reportagem: o veículo estava em nome de Ricardo Teixeira – à época, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), dono do futebol brasileiro então tetracampeão mundial e casado com Lúcia Havelange, filha do na época todo‐poderoso presidente da Fifa, João Havelange.

Um eventual relacionamento de Ricardo Teixeira com Adriane, 35 anos mais nova que ele, seria uma questão privada se não houvesse no caso detalhes intrigantes. Lorice Sad Abuzaid, a amiga de Adriane, era na data do acidente empregada de Wagner José Abrahão, empresário de turismo, parceiro de negócios de Ricardo Teixeira e beneficiário de contratos suspeitos com a CBF. Desde 1995, as contas bancárias de Lorice, Wagner e Ricardo Teixeira só aumentaram. E, pelas revelações a serem feitas neste livro, vão crescer ainda mais com a Copa do Mundo do Brasil em 2014.

Adriane é apontada como pivô da separação do cartola e Lúcia Havelange e do estremecimento com o sogro que o havia lançado e protegido no futebol. O objetivo desta reportagem é separar boatos da realidade e responder perguntas que o episódio levanta. São questões de interesse público e não de vida privada. A investigação, como se verá, traz à luz uma rede de conexões, irregularidades e indícios que, embora tenham ocorrido na paisagem ensolarada de Miami, são de fato bastante sombrios.

*****

“Isso é um assunto pessoal. Vocês não têm autorização para falar sobre isso. Minha mãe e doutor Ricardo Teixeira estão afinados para processar vocês”, ameaçou por telefone, aos gritos, a advogada Yolanda, filha de Lorice, ao ser questionada por nós.

No final de 2013, documentos disponíveis na Junta Comercial do Rio de Janeiro, em repartições e cartórios públicos provavam que Yolanda está equivocada. O acidente não é assunto meramente pessoal. Ao contrário: desvenda o envolvimento do ex‐presidente da CBF com Wagner José Abrahão, um dos principais beneficiários dos negócios envolvendo CBF e Fifa em torno da Copa do Mundo no Brasil.

Os documentos mostram que, na época do acidente, Lorice, a sobrevivente, já era funcionária de Abrahão. Foi ela também quem arranjou trabalhos esporádicos para Adriane na agência de viagens contratada pela CBF. Esses primeiros contatos foram fundamentais para que a jovem frequentasse o mundo de Teixeira em Miami.

Com exceção da família de Adriane, que vive ainda no mesmo apartamento humilde na zona norte do Rio, as demais pessoas ligadas ao acidente enriqueceram, e muito, nas últimas duas décadas. Lorice era uma simples funcionária de uma das empresas de Abrahão, dono da agência contratada para organizar as viagens da seleção brasileira e dos dirigentes da CBF (inclusive na Copa de 1994, que acontecera no ano anterior, nos Estados Unidos). Na ocasião, aos 40 anos, morava com o marido, um advogado trabalhista. Os dois dividiam um apartamento de classe média no centro de Niterói.

No ano da Copa no Brasil, Lorice – vítima e testemunha do acidente – é ex‐sócia de Abrahão, que, por sua vez, tem negócios nem sempre claros com Ricardo Teixeira. Abrahão, dono do Grupo Águia, dividiu com outra empresa, a Traffic (de J. Hawilla, amigo pessoal do cartola), o direito de comercialização dos pacotes de “hospitality” (os ingressos VIPs) da Copa de 2014, uma das partes mais lucrativas do evento. A previsão era de que o negócio chegaria a quase R$ 1 bilhão somente com a venda dos 210 mil pacotes para o mercado brasileiro. Não é difícil adivinhar quem ajudou Abrahão na jogada: Ricardo Teixeira.

Divorciada, a hoje gerente de viagens Lorice deixou o apartamento de Niterói e vive com a filha Yolanda em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio. Investe em imóveis no bairro. É fã de Ronaldo Fenômeno, Kaká, Ronaldinho Gaúcho e Neymar. Admiradora da seleção brasileira, tornou‐se vizinha de artistas e jogadores de futebol. Como o círculo de amizades, também a aparência mudou substancialmente.

Aos 60 anos, em lugar da pele pálida da época do acidente, Lorice exibe corpo bronzeado e vestidos de grife. Apesar dos quase 20 anos decorridos da tragédia, aparenta estar mais jovem. “Em terra em que leoa reina, cachorra nenhuma põe a pata”, postou recentemente na rede social Facebook. Ilustra a frase a foto de um sapato de salto alto vermelho e preto, cores do Flamengo – time de seu coração, assim como de Ricardo Teixeira.

O momento que fez Lorice se sentir a rainha da floresta aconteceu em 12 de maio de 1999. Três anos e sete meses após o acidente, ela se tornou sócia e gerente em uma das empresas de turismo de Abrahão no Rio, a RM Freire Viagens e Turismo Ltda.

De acordo com a Junta Comercial do Rio de Janeiro, o empresário recorreu a um artifício para camuflar a sociedade com a ex‐funcionária. Em vez de entrar na companhia como pessoa física, usou duas firmas de sua propriedade para ingressar no quadro societário da RM: a Iron Tour Operadora Turística Ltda. e a Thathithas Empreendimentos e Participações Ltda. Lorice deixou o quadro da empresa em outubro de 2000. A agência passou a ser administrada pelo próprio Abrahão. Mas a agente de viagens continua no Grupo Águia. Despacha diariamente na Barra da Tijuca, onde se tornou uma das principais executivas da empresa.

Quanto a Wagner Abrahão, patrão e ex‐sócio de Lorice, ele se deu muito bem com a Copa de 2014. A expectativa era que ele faturasse cerca de meio bilhão de reais com o torneio. É uma grande fatia do bolo de turismo da Copa – bolo que, de acordo com estimativas talvez um tanto exageradas do Ministério do Esporte, divulgadas em 2010, movimentará R$ 9,4 bilhões durante o Mundial. Mais de 40% trazidos por turistas estrangeiros.

O amigo de Teixeira, no entanto, não se satisfez. Quatro agências de turismo do Grupo Águia foram indicadas pela CBF para operar o contrato de publicidade da entidade com a TAM: a Pallas Operadora de Turismo Ltda., a Top Service Turismo Ltda., a One Travel Turismo Ltda. e a Iron Tour Operadora Turística Ltda. Lembra dessa última? É a mesma agência que foi sócia de Lorice na RM Freire Viagens e Turismo Ltda. De acordo com o contrato assinado por Teixeira antes de deixar a CBF, a TAM pagava US$ 7 milhões por ano para patrocinar a seleção brasileira, uma bolada que era depositada mensalmente na conta de uma das quatro agências. (Em 2013, o sucessor de Ricardo Teixeira na CBF, José Maria Marin, quebrou esse esquema para montar o próprio: assinou com a Gol.)

O sucesso de Abrahão no ramo do turismo é antigo. Nasceu nos anos 70, com a Stella Barros, uma das pioneiras na venda de pacotes de viagens para a Disney. Mas os negócios do grupo aceleraram mesmo foi na relação com o futebol. Paulista, Abrahão, que sempre trabalhou no Rio, firmou‐se no mercado de turismo esportivo na Copa do Mundo da Espanha, em 1982. A trajetória de suas empresas nesses mais de 30 anos foi marcada por denúncias de fraude e polêmicas.

Em 1994, na Copa dos Estados Unidos, a empresa já era a agência oficial da CBF, contratada sem concorrência para organizar as viagens da seleção brasileira e dos dirigentes, sob o nome SBTR Passagens e Turismo Ltda. Na Copa da França, em 1998, o grupo foi acusado de lesar os torcedores. Apesar de comprarem ingressos com meses de antecedência, os clientes de Abrahão tiveram que assistir à final, entre Brasil e a seleção da casa, do lado de fora do Stade de France. O empresário foi processado e teve de pagar fiança para deixar o país.

Na Copa da Alemanha, oito anos depois, foi acusado de outra ilegalidade: obrigar os turistas a comprar ingressos dos jogos casados com pacotes turísticos. Ele e Ricardo Teixeira foram denunciados pelo Ministério Público e processados por crimes contra a ordem econômica e as relações de consumo, pela venda casada. Para os promotores, Teixeira deu vantagens indevidas à Iron Tour, de Abrahão, a única autorizada pela CBF a vender os ingressos. Em janeiro de 2007, porém, a Justiça absolveu a dupla. Alegou‐se que o Ministério Público não apresentou nenhuma prova de que outra empresa havia se interessado pelos pacotes.

Em 2000 e 2001, uma das agências de Abrahão, a Stella Barros, foi investigada pela CPI da Nike. Em apenas dois anos, entre 1998 e 2000, a SBTR recebeu da CBF R$ 31.104.293,89, quase três vezes mais que as 27 federações ligadas à entidade. Segundo o relatório da comissão, a agência, que operava para a CBF, teria montado esquema de lavagem de dinheiro por meio de superfaturamento de passagens aéreas e diárias de hotéis.

À CPI, Ricardo Teixeira tentou minimizar sua relação com Abrahão. Disse que, ao assumir a CBF, apenas manteve uma empresa que já prestava serviços à entidade e que tinha sido uma decisão “da diretoria”. Na ocasião, o deputado Dr. Rosinha pensou alto: “Há uma suspeita minha, pelo menos, que a Stella Barros está servindo como um dos caminhos de desvio de dinheiro da CBF”. Mas a CPI não foi além das suspeitas. O relacionamento seguiu íntimo e lucrativo. Sobrevive até hoje, com as operações milionárias da Copa no Brasil. Os segredos da Flórida, pelo jeito, ainda movimentam muito dinheiro.

Uma parcela desse dinheiro parece esconder‐se em transações imobiliárias favorecendo Ricardo Teixeira. Apesar de ter acumulado um patrimônio considerável nos 23 anos em que esteve no comando da CBF (1989‐2012), o dirigente também recebe agrados do amigo Abrahão. Em 2011, a apuração da série de reportagens sobre a Máfia do Futebol exibida pela TV Record revelou que, em escritura lavrada no 9o Cartório de Registro de Imóveis do Rio de Janeiro, Cláudio Abrahão – irmão e sócio de Wagner Abrahão no Grupo Águia – vendeu para o cartola uma cobertura na Barra da Tijuca, em 2009, por R$ 720 mil. É o mesmo valor que o empresário havia pago pelo imóvel cinco anos antes. Só que, na escritura, Cláudio lançou o valor de R$ 2 milhões para a base de cálculo do imposto. Na época, corretores da região avaliaram o imóvel em pelo menos R$ 4 milhões.

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Amaury com o pedaço de um automóvel encontrado exatamente onde se acidentou a amiga de Ricardo Teixeira, na Flórida. O friso estava enterrado na lama na mata além do acostamento. (Fotos Luiz Carlos Azenha)

A cobertura mais que subfaturada não é o único rolo imobiliário de Ricardo Teixeira. Situação bem semelhante se repete no contrato do aluguel da mansão do cartola no condomínio Polo Club, em Delray Beach, ao norte de Miami, como revelaremos adiante. O cartola frequentava o lugar até 2013.

Foi desse condomínio que Adriane, a amiga “muito querida” de Teixeira, teria partido para a morte no BMW preto conversível na noite de 12 de outubro de 1995. Estivemos na mansão, em janeiro de 2014, atrás de documentos e indícios do acidente em torno do qual giram as relações nebulosas entre Teixeira, Lorice e os irmãos Abrahão.

Na mesma viagem, conhecemos a State Road 91, ou Florida Turnpike, local da tragédia. Comparada às estradas brasileiras, a Turnpike é bastante segura. Com quatro pistas, duas de cada lado, possui boa drenagem e amplos acostamentos. Não se nota nenhuma falha ou buraco na pista. Vigilantes atentos fazem rondas em todos os trechos da rodovia. Basta um veículo encostar e em menos de cinco minutos um xerife se aproxima em carro oficial ou camuflado, como aconteceu conosco.

Bandos de corvos se amontoam sobre placas de sinalização. Embora tenham penas negras brilhantes e um grasnido muito semelhante ao das gaivotas, nos Estados Unidos esses pássaros são considerados um mau presságio. Mais impressionantes que as aves soturnas são os outdoors com fotos de advogados ao longo do trajeto. Sem nenhum constrangimento, eles se oferecem para processar o Estado da Flórida em caso de acidente na pista da morte.

No trecho em que se acidentou, Adriane enfrentou algumas curvas suaves – e só. O lugar de onde ela saiu da pista é no meio de uma longa reta, tornando improvável que tenha perdido o controle por causa da velocidade. Na noite da tragédia, a pista estava seca. De acordo com o laudo assinado pelo cabo Fredrick Brown, da Polícia Rodoviária da Flórida, encarregado da investigação 795.68.23, Adriane seguia na pista interna, rumo a Orlando, quando freou bruscamente e desviou para a direita, por motivo ignorado. O carro atravessou o acostamento e começou a rodopiar num gramado ao lado da rodovia. Capotou uma vez e meia e caiu de cabeça para baixo dentro de um lago, que hoje está seco. Resta uma imensa poça de lama. No acostamento, brotou um jardim natural de flores amarelas e lilases.

Testemunhas que passavam pelo mesmo trecho da rodovia disseram que o BMW dirigido por Adriane viajava a mais de 160 km/h. Uma delas, Michael Lyons, afirmou ter visto uma pequena nuvem de fumaça ou poeira saindo do lado esquerdo do conversível antes do acidente. Outro motorista, Mike Gonzalez, disse que o carro dirigido pela brasileira viajava em alta velocidade, com as luzes desligadas. Segundo a perícia, a primeira marca de freada no asfalto ficou a cerca de 340 metros de onde o automóvel parou, indício de que Adriane estava acima da velocidade recomendada para o local, de 100 km/h. Mike Gonzalez, o motorista que parou para socorrer, disse à polícia que, ao descer da rodovia para o lago, encontrou a passageira Lorice aos gritos, pedindo socorro.

“Eu e meu amigo corremos em direção ao carro, mas não conseguíamos ver nada. Quando enfiei a mão no carro, senti a mão da outra vítima, e comecei a gritar se ela estava OK. Não houve resposta. Dei a volta e comecei a chutar a porta até ela abrir, tirei a vítima e as outras pessoas ajudaram eu e meu amigo a carregá‐la”, contou no testemunho à polícia.

Adriane foi declarada morta à 1h30 da manhã, no Hospital St. Cloud, pelo serviço de emergência médica do condado de Osceola. Exames demonstraram que ela não tinha consumido álcool, nem drogas. “A motorista do veículo 1 se afogou ao ficar presa pelo solo úmido do fundo do canal”, registrou o cabo Brown. Ele culpou Adriane pela própria morte. Seguindo a recomendação do policial, a promotoria da Flórida não abriu inquérito para apurar homicídio. De acordo com o atestado de óbito, Adriane era estudante de secretariado.

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Pela primeira vez, a mãe de Adriane falou sobre o assunto fora do círculo familiar. Conversamos com Mariza pouco antes do Natal de 2013, uma época que acentua a saudade da família. “Deixem isso quieto. Minha filha é sagrada.” Em entrevista gravada pelo interfone de sua casa, contou um pouco sobre a vida de Adriane. “Minha filha foi para os Estados Unidos por intermédio da Lorice, amiga da família há anos. Ela (Adriane) estudava e trabalhava. Tudo que minha filha tinha era fruto do trabalho dela.” Mariza relata que Adriane prestava serviços para Lorice, que era agente de turismo da CBF. As duas viajavam sempre juntas.

Viúva há três anos e doente, Mariza conta que a família não se conforma até hoje com a perda da filha Adriane. Aos 73 anos, ela diz que nunca havia falado antes no nome do ex‐presidente da CBF. Qualquer insinuação de que a filha possa ter tido um caso com o Ricardo Teixeira provoca indignação em toda a família. “Não conheço esse moço, não sei quem ele é. Só sei que o carro era aquele, em que minha filha morreu”, disse. “Me esqueça, pelo amor de Deus. Eu nunca vou falar sobre isso. Passou. Já foi.”

Além da dor pela perda da filha, Mariza tem outro motivo para desejar ser esquecida pela imprensa. Segundo o jornalista Juca Kfouri, a CBF pagava, pelo menos até junho de 2011, o plano de saúde da mãe de Adriane, que nunca foi funcionária da confederação, no valor de R$ 612 mensais.

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Foi Juca Kfouri quem revelou o acidente que matou a filha de Mariza. Em sua coluna na Folha de S.Paulo de 23 de outubro de 1995, deu a notícia da tragédia e informou que, por causa de Adriane, o casamento entre Ricardo Teixeira e Lúcia Havelange havia entrado em crise.

“A pivô da possível separação – que traria consequências óbvias para o futuro do futebol brasileiro – morreu num acidente de automóvel no último dia 12 de outubro, na estrada que liga Miami a Orlando. Ela teria dormido ao volante, capotado três vezes e caído num lago à beira da estrada. Atendida, faleceu na ambulância”, escreveu.

A informação estava correta no geral, apesar da imprecisão nos detalhes: segundo a polícia da Flórida, o acidente aconteceu na madrugada do dia 13 e o número de capotagens noticiado não corresponde ao que consta na investigação oficial. O parágrafo seguinte deu uma informação nunca confirmada: “O presidente da CBF estava com ela, algo que a família da jovem nega, mas que os amigos íntimos confirmam detalhadamente, ressalvando que Teixeira prestou toda a ajuda necessária, embora buscando não se envolver publicamente com o episódio”.

A coluna, com o título Interesse público, causou um furacão no meio esportivo. Em longa entrevista à revista Playboy, em dezembro de 1999, o presidente da CBF foi questionado pelo repórter Carlos Maranhão se “teria se envolvido em um acidente de carro na Flórida em que morreu uma brasileira que seria sua namorada”. Teixeira respondeu: “Não houve nenhum acidente comigo. Eu não me encontrava na Flórida nem nos Estados Unidos nesse dia. Sabe onde eu estava? Assistindo a um jogo entre Brasil e Uruguai, em Salvador, ao lado de Antônio Carlos Magalhães. Como esse fato podia ser facilmente comprovado, surgiu depois uma nova versão: eu teria ido de Salvador para Miami de jatinho, apanhado um carro e me envolvido no tal acidente. Ora, fui de Salvador para o Rio de Janeiro junto com a delegação, e esse também é um fato público. Trata‐se de uma infâmia. Mas, para alguns, virou verdade”. Nenhum documento oficial sobre o acidente cita a presença de Teixeira no automóvel.

Sobre Adriane, nenhuma palavra. Não negou, nem assumiu que a vítima fosse sua namorada. Kfouri mantém a informação: “Ela era namorada dele. Consta até que ele foi muito correto com os familiares dela e que os atendeu muito bem”, conta o jornalista, que nunca foi desmentido ou processado pela revelação bombástica.

A notícia da morte da “pivô de sua separação” em um jornal de circulação nacional incomodou Teixeira. Pode ter enterrado de vez qualquer chance de reconciliação com Lúcia. Algum relacionamento existia entre Adriane e Teixeira. Ele mesmo admitiu em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito instaurada no Congresso Nacional em 2000 – cinco anos após o acidente – para investigar contratos da CBF com a Nike, fabricante de material esportivo e patrocinadora da seleção desde junho de 1996. O cartola falou sobre a jovem ao ser questionado pelo deputado Dr. Rosinha (PT‐PR).

– Tem também um BMW do senhor, que não está declarado no Imposto de Renda. O BMW dos Estados Unidos.

– Excelência, o senhor sabe que um carro ou qualquer propriedade que se tenha, e que ele entre e saia no mesmo ano, você não precisa declarar – respondeu Teixeira.

– Esse carro era do senhor, o senhor era proprietário e vendeu no mesmo ano?

– Excelência, acho que o senhor está querendo chegar a uma coisa que para mim é muito triste.

– Eu não vou chegar a lugar nenhum que seja triste para ninguém – retrucou o parlamentar

– Esse carro teve um desastre nos Estados Unidos… e faleceu uma pessoa que era muito querida minha.

Era tão querida que, segundo a investigação da polícia norte‐americana, o endereço que constava da carteira de habilitação de Adriane era no mesmo condomínio da casa de Teixeira. No documento da moça, estava registrado: 16881, Knightsbridge Lane, Delray Beach.

O automóvel do presidente da CBF estava registrado no número 16879 da mesma rua. Fomos investigar.

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O condomínio onde morava Ricardo Teixeira, em Delray Beach; de lá, mudou-se para uma casa ainda mais luxuosa, em Miami.

Delray Beach é fruto da tremenda expansão imobiliária ocorrida na Flórida a partir de Miami, ao sul em direção a Homestead e ao norte em direção a West Palm Beach. Na imensa faixa de areia banhada pelo oceano Atlântico se instalaram aposentados vindos de outras partes dos Estados Unidos para fugir do frio e investidores da América Latina, muitos deles trazendo dinheiro sujo para a “Lavanderia Flórida”. Ao contrário da areia branca e fina da maioria das praias do vizinho Caribe, ali a areia é escura e grossa. A paisagem deve muito em beleza se comparada com os destinos turísticos do Nordeste do Brasil. O grande atrativo fica aquém da areia barrenta: as mansões em condomínios oferecidas a preços relativamente acessíveis para quem quer investir dinheiro de forma segura, longe de casa.

Outra vantagem da Flórida é a facilidade de, a partir dali, fazer negócios com os paraísos fiscais, como as ilhas Cayman, no Caribe, e outros. Muita gente tem empresa registrada nas ilhas sem nunca ter estado lá: são meros ancoradouros para dinheiro de origem indefinida. No mundo das transações eletrônicas, o dinheiro gira fisicamente, de fato, nas contas bancárias de Miami. A cidade dispõe de um exército de advogados dispostos a ajudar quem pretende montar empresa ou esconder dinheiro.

Foi nesse cenário que Ricardo Teixeira se instalou. O condomínio Polo Club impressiona. Quem estaciona próximo à portaria assiste a um desfile de carrões: Mercedes, Camaros, Porsches. Um dos seguranças – de farda cáqui e chapéu, à semelhança dos xerifes do policiamento ostensivo norte‐americano – nos informou que o número 16881 da Knightsbridge Lane, que constava da carteira de motorista de Adriane, não corresponde a um imóvel. Mas o número 16879 é, sim, de uma casa: a de Ricardo Teixeira.

O visitante que percorre as ruas do condomínio encontra jardins bem cuidados, no estilo marcante da região: não há muro entre as casas. É um lugar silencioso, sem a violência e o estresse das metrópoles. A Knightsbridge Lane é uma rua circular. No meio dela há um lago artificial. A casa que Teixeira chegou a ocupar ali, a primeira dele na Flórida, é confortável, com 215 metros quadrados, três quartos e piscina integrada a um lago nos fundos, compartilhado com os vizinhos. O imóvel estava em nome de uma empresa, a Globul, com sede no principado de Liechtenstein, micropaís encravado nos Alpes, localizado entre a Áustria e a Suíça. O local é um refúgio fiscal europeu conhecido por garantir sigilo absoluto a quem usa seu sistema bancário.

Mas, no dia 13 de dezembro de 2000, foi autorizada a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Ricardo Teixeira no Brasil pela CPI da Nike, criada para investigar os negócios da CBF. Na declaração do Imposto de Renda do dirigente em 1997, apareceu um depósito de R$ 12.185,55 à Globul. Segundo Teixeira, tratava‐se do pagamento do aluguel da casa de Miami, referente a todo o ano anterior. Perto de R$ 1.000 por mês (R$ 5 mil em valores atuais). Os parlamentares desconfiaram da versão de Teixeira. Cobraram provas. O presidente da CBF enviou um contrato de aluguel, assinado em 15 de março de 1995 – sete meses antes do acidente de Adriane. O custo mensal: US$ 1.500. Mas os membros da CPI foram além: telefonaram para uma corretora de imóveis em Miami, que garantiu que o aluguel de uma casa como essa, naquela região, não sairia por menos de US$ 5 mil por mês.

Em 1996, poucos meses depois do acidente em que morreu Adriane, a casa foi vendida para um casal norte‐americano. Quem intermediou? A Solimare International Inc., empresa de um amigo de Ricardo Teixeira, o empresário paulista Waldemar Verdi Junior. Mas o dirigente não ficaria muito tempo sem ter um teto na região. Logo depois, em abril de 1997, a mesma Solimare intermediou a compra de uma casa no mesmo condomínio. Dessa vez, porém, o tamanho era três vezes maior. Adivinhe para quem! Para a mesma Globul.

Agora, chute quem foi morar lá! Não é preciso ser muito esperto: Ricardo Teixeira. Segundo consulta feita pela CPI junto ao registro de imóveis da Flórida, o valor da transação foi de US$ 924.400. Mais uma vez, Teixeira disse que não era o dono da casa, e que pagava aluguel à Globul pelo imóvel de 600 metros quadrados, no número 5896 da Vintage Oaks. Em 2001, o grand finale: a Globul vendeu a casa a Ricardo Teixeira, por US$ 800 mil. Ou seja, a empresa topou repassar ao cartola a propriedade com uma desvalorização de quase US$ 125 mil! É como se você vendesse sua casa por um valor 14% menor ao que você desembolsou quatro anos antes.

Nas páginas 192 e 193 de seu relatório final, a CPI lançou mais questionamentos sobre as transações de Teixeira: “Em 26 de dezembro de 2000 (a CPI CBF/NIKE acabava de ser instalada), no penúltimo dia útil do ano, numa mesma data, Ricardo Teixeira fez duas remessas de dinheiro para o exterior, transferências internacionais de reais, em seu próprio nome: uma de US$ 602.160,00 e outra de US$ 246.628,44. As duas remessas foram através do Rural International Bank, de Nova York”. São desconhecidos os objetivos dessas remessas.

Era um período em que o cartola estava sob a lupa de investigadores. Se pretendia regularizar a “compra” da casa em Miami, para poder declará‐la ao Imposto de Renda de 2001 no Brasil, livrando‐se de eventuais problemas, esse seria o caminho. Aliás, no seu depoimento à CPI Teixeira manifestou intenção de incluir a casa na próxima declaração de renda. Ainda assim, sempre negou ser dono ou sócio da Globul. Fez isso em relação a outra empresa muito mencionada mais adiante, neste livro: a Sanud. Porém, neste caso, foi desmentido espetacularmente.

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Cartola brasileiro protagonizou um caso digno dos corvos de Edgar Allan Poe

Quando a tragédia da morte de Adriane na Flórida aconteceu, o presidente da CBF tinha 48 anos de idade. Estava casado há 23 com Lúcia, a filha de João Havelange. Ainda saboreava as glórias de uma vitória recente. No ano anterior a seleção brasileira havia conquistado o primeiro título mundial sob o comando de Teixeira – curiosamente, ou não, nos mesmos Estados Unidos. A vitória nos pênaltis contra a Itália veio quando Roberto Baggio, principal craque rival, chutou a bola por cima do travessão defendido pelo goleiro Taffarel. Um chute nas arquibancadas consolidou a imagem do cartola como vencedor!

Enquanto milhões de brasileiros soltavam o grito da vitória entalado na garganta por 24 anos, Teixeira dava o seu grito da independência. Até aquele momento, ele ainda era somente o “genro”. Havia alcançado o cargo mais importante do esporte nacional, em 1989, sem ter dirigido um clube sequer. Fora alçado ao cargo de presidente da confederação de um país apaixonado por futebol pelas mãos de João Havelange.

Quando Dunga levantou a taça no estádio Rose Bowl, Teixeira finalmente começou a sair da sombra do sogro. Com uma distinção clara em relação a Havelange: enquanto este sempre se movimentou discretamente nos bastidores, tendo no jogo político sua principal arma, Teixeira era ousado e arrogante. Ao longo da carreira, o homem que nunca jogou bola trombou com alguns dos maiores ídolos do futebol brasileiro, dentre os quais Pelé, Zico, Romário e Ronaldo.

Na embriaguez da vitória na Copa dos Estados Unidos, Teixeira expôs outro traço de sua personalidade: a crença na impunidade. O cartola bancou o que se tornou conhecido na crônica esportiva como a mãe de todos os voos da muamba: 11 toneladas de bagagem extra de jogadores e cartolas entraram no avião que trouxe a delegação campeã de volta ao Brasil. Quando a Receita Federal interveio, Teixeira mexeu os pauzinhos em Brasília. Conseguiu liberar a bagagem da galera. Mais tarde, a CBF assumiu o pagamento de cerca de R$ 50 mil em impostos, por causa de uma ação na Justiça.

O escândalo nem chamuscou Teixeira. Para ele, o único voo que importava era o que o levaria a Zurique, para o lugar de Havelange. Depois de 20 anos, o presidente da Fifa pensava em aposentadoria – e, claro, em sua sucessão. O projeto era entregar o cargo ao genro e deixar tudo em família.

Tudo caminhava bem, até aquela sexta‐feira 13, em outubro de 1995, quando a morte de Adriane na rodovia dos corvos mudou a sorte de Teixeira. E alterou de forma definitiva sua relação com Havelange, iniciada quase 30 anos antes, sob uma chuva de confetes.

Leia também:

Veja a série de reportagens que deu origem ao livro O Lado Sujo do Futebol

O post Amaury Ribeiro Jr.: Como funcionou a Privataria do futebol brasileiro apareceu primeiro em Viomundo - O que você não vê na mídia.

16 May 10:31

33 anos depois…

by Luis Fausto

Da Folha de S.Paulo:

A Justiça Federal abriu processo contra seis ex-agentes da ditadura militar acusados de participar do atentado no Riocentro, em 1981. Com a decisão, eles poderão ir para o banco dos réus pela primeira vez depois de 33 anos.

A denúncia foi recebida pela juíza Ana Paula Vieira de Carvalho, da 6ª Vara Federal Criminal. Ela entendeu que os crimes não prescreveram e que seus responsáveis ainda podem ser condenados.

Entre os réus estão os generais reformados Newton Cruz, 89, que chefiava a agência central do SNI (Serviço Nacional de Informações), e Nilton Cerqueira, 83, que comandava a PM do Rio.

Também foram denunciados o coronel reformado Wilson Machado, que estava no carro em que uma das bombas do atentado explodiu, e o ex-delegado Cláudio Guerra, que admitiu ter participado da ação. Completam a lista o general reformado Edson Sá Rocha e o major reformado Divany Carvalho Barros, acusados de desempenhar papéis de apoio ao atentado.

O Ministério Público Federal pede que Cruz, Cerqueira, Machado e Guerra sejam condenados a penas de até 67 anos de prisão pela suposta prática dos crimes de tentativa de homicídio doloso, associação criminosa armada e transporte de explosivo.

Rocha foi denunciado por associação criminosa, e Barros, por fraude processual. Se condenados, cumpririam penas de até dois anos e meio.

A decisão não significa que os réus são culpados. Neste momento, a Justiça considerou apenas que a denúncia preencheu os requisitos para a abertura da ação. Os acusados terão prazo para se defender e também poderão recorrer a instâncias superiores para pedir o arquivamento da ação antes de serem julgados.

A juíza da 6ª Vara aceitou a tese de que a Justiça brasileira deve observar o princípio do direito internacional pelo qual crimes contra a humanidade não prescrevem: “Os fatos narrados na denúncia ocorreram em 30 de abril de 1981: há exatos 33 anos, portanto. Tenho, porém, que a prescrição não ocorreu”.

Para ela, crimes “cometidos por agentes do Estado como forma de perseguição política” durante a ditadura militar “configuram crimes contra a humanidade”.

A decisão, nesta terça (13), desconsiderou a tentativa dos acusados de se beneficiar da Lei da Anistia, de 1979, que perdoou crimes cometidos por agentes da ditadura, pois o atentado ocorreu em 1981.

A defesa de Newton Cruz sustentou que ele estaria anistiado. “Vou reunir os elementos necessários para provar a inocência do general, sem descartar ir ao Supremo Tribunal Federal”, disse o advogado Yuri Sahione.

Nilton Cerqueira negou ter participado do atentado e disse à Folha que a Justiça não deve agir por espírito de vingança: “Acho que é uma ação nefasta, remontando a situações que, graças a Deus, estão ultrapassadas”. Os outros réus não foram localizados.

16 May 00:44

Em reunião em Londres, MST oferece asilo a Julian Assange em assentamento

by alexandrehaubrich

Da Página do MST/Agência Pública

Por Maíra Kubík Mano 

Em frente à Embaixada do Equador em Londres, um grupo de cinco pessoas reúne-se todos os dias para protestar. Com alguns cartazes e uma faixa costurada à mão, exige a libertação de Julian Assange, o fundador do Wikileaks, confinado no prédio. “Em 19 de junho faremos um grande ato, você pode participar?”, perguntam aos curiosos que passam pela rua. A Embaixada fica em uma área turística da cidade, bem ao lado de uma grande loja de departamentos, e a manifestação chama atenção.

Julian-Assange

A prisão de Assange foi pedida pela Suécia em um processo de assédio sexual e ele, que é australiano, entrou na Embaixada do Equador para evitar a extradição. Recebeu asilo político do governo de Rafael Correa, mas se deixar o local será detido imediatamente. Ao menos dois policiais ficam 24 horas por dia à sua espreita, o que custa, por ano, módicos 3,8 milhões de libras (R$ 14,6 milhões), conforme revelou a polícia metropolitana. “Além de tudo estão gastando nosso dinheiro”, critica uma das ativistas, uma senhora chilena que vive em Londres desde o golpe contra Salvador Allende.

O isolamento forçado de Assange limita não só seus movimentos físicos como sua comunicação.  Quem quiser falar com ele precisa antes passar por seus assessores e ter sua vida checada. Ao entrar no prédio, celulares, câmeras e quaisquer outro tipo de aparelhos eletrônicos são confiscados, para garantir sua privacidade. Jornalistas são terminantemente proibidos. E expulsos, caso tentem — imagine como consegui essa informação.

Nesta quinta-feira (14), é um dos principais movimentos sociais do Brasil, o MST, quem vai encontrar o cabeça de uma organização que sacudiu a diplomacia internacional, bancos e até a igreja da Cientologia após vazar milhares de documentos em seus 7 anos de atividade. Na pauta, a aliança entre os movimentos sociais latino-americanos e o Wikileaks.

A reunião é longa e, às 18h, o grupo que protestava diante do prédio se retira. “Vou para a Embaixada da Síria. A situação está feia lá”, diz uma delas. Agora sou apenas eu e os policiais olhando para a Embaixada, que é uma lateral térrea de um prédio sofisticado. O espaço onde Assange está, dizem, tem poucos metros quadrados.

Após duas horas de conversa — e muitas voltas na quadra —, João Paulo Rodrigues, da direção nacional do MST, saiu afirmando que “é importantíssimo que os movimentos sociais estejam juntos na luta em defesa do asilo de Assange no Equador”. Segundo o dirigente, o papo “fluiu”, e o MST vai contribuir para pressionar a Suécia a permitir a ida dele ao país sul-americano.

O fundador do Wikileaks estaria também temeroso com a possibilidade de ser extraditado para os Estados Unidos. “Ele acha que, caso seja preso pela Suécia, vão mandá-lo para os Estados Unidos por conta das acusações de espionagem”, conta Rodrigues.

O MST prometeu então se juntar à mobilização do dia 19 de junho, quando Assange completa dois anos na Embaixada, realizando protestos nas representações diplomáticas suecas e estadunidenses. Os sem-terra vão circular ainda um abaixo-assinado junto com outros movimentos sociais e intelectuais, que deve ser entregue ao Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas).

Em troca de toda a solidariedade recebida, o Wikileaks se prontificou a repassar ao movimento informações que sejam de seu interesse e irá abrir seus arquivos para que os sem-terra contribuam na triagem das informações — Assange teria milhares de documentos que não foram analisados e cujo valor político não se tem ideia. Uma próxima reunião para combinar os detalhes será agendada em breve.

Ao final, os representantes do MST entregaram ao fundador do Wikileaks um cartaz assinado pelos “movimentos sociais da Alba” (Aliança Boliariana para os Povos da América) com as fotos de Assange, Chelsea Manning — condenada a 35 anos prisão pelo vazamento de dados confidencias dos EUA — e Edward Snowden, antigo funcionário da CIA e atualmente exilado na Rússia. “Toda solidariedade aos combatentes do Império”, dizia o poster.

Posaram para fotos juntos, todas tiradas pela assessora de Assange, que edita as imagens antes de liberá-las — até agora elas não chegaram. Muitos cliques com o boné vermelho do MST. Bem-humorado, Rodrigues colocou o movimento à sua disposição: “caso precise de um asilo no Brasil, oferecemos os nossos assentamentos”. Ganhou de volta um abraço.

À noite, sobraram só os policiais.

14 May 19:49

Lula analisa manchetes: “1 milhão de brasileiros ainda vivem sem luz”

by Luiz Carlos Azenha

DISCURSO DE LULA NO 2º CONGRESSO DOS DIÁRIOS DO INTERIOR

via Nina Santos, do Instituto Lula

É sempre um prazer dialogar com os jornalistas e empresários da imprensa regional brasileira. Por isso agradeço o convite da Associação dos Diários do Interior do Brasil para participar desse Congresso.

Vocês acompanharam as transformações que ocorreram no Brasil nesses 11 anos e que beneficiaram o conjunto do país, não apenas os privilegiados de sempre ou as grandes capitais.

Sabem exatamente como essa mudança chegou às cidades médias e aos mais distantes municípios.

O Brasil antigo, até 2002, era um país governado para apenas um terço dos brasileiros, que viviam principalmente nas capitais. A grande maioria da população estava condenada a ficar com as migalhas; excluída do processo econômico e dos serviços públicos, sofrendo com o desemprego, a pobreza e a fome.

Os que governavam antes de nós diziam que era preciso esperar o país crescer, para só depois distribuir a riqueza. Mas nem o país crescia o necessário nem se distribuía a riqueza.

Nós invertemos essa lógica perversa, adotando um modelo de desenvolvimento com inclusão social. Criamos o Fome Zero e o Bolsa Família, que hoje é um exemplo de combate à pobreza em muito países.

Adotamos uma política de valorização permanente do salário e de expansão do crédito, que despertaram a força do mercado interno, e ao mesmo tempo garantimos a estabilidade, controlando a inflação e reduzindo a dívida pública.

O resultado vocês conhecem: 36 milhões de pessoas saíram da extrema pobreza, 42 milhões alcançaram a classe média e mais de 20 milhões de empregos foram criados.

O Brasil não é mais um país acanhado e vulnerável. Não é mais o país que seguia como um cordeirinho a política externa ditada de fora. Não é só o país do futebol e do carnaval, embora tenhamos orgulho da alegria e do talento do nosso povo.

O Brasil tornou-se um competidor global – e isso incomoda muita gente, contraria interesses poderosos.

A imprensa cumpre o importante papel de traduzir essa nova realidade para a população. E isso não se faz sem uma imprensa regional fortalecida, voltada para aquela grande parcela do país que não aparece nas redes de TV.

Todo governo democrático tem a obrigação de prestar contas de seus atos à sociedade. E tem obrigação de divulgar os serviços públicos à disposição da população.

A publicidade oficial é o instrumento dessa divulgação, que se faz em parceria com os veículos de imprensa – desde a maior rede nacional até os jornais do interior profundo do país.

Uma das mudanças mais importantes que fizemos nestes 11 anos foi democratizar o critério de programação da publicidade oficial.

Quero recordar que esta medida encontrou muito mais resistências do que poderíamos imaginar, embora ela tenha sido muito importante para aumentar a eficiência da comunicação de governo.

Essa medida foi também uma questão de justiça, para reconhecer a importância do interior no desenvolvimento do Brasil.

Quando o companheiro Luiz Gushiken, que era o ministro da Secom em meu primeiro mandato, começou a democratizar a publicidade oficial, muita gente foi contra.

As agências de publicidade, os programadores de mídia e os representantes dos grandes veículos achavam que era uma mudança desnecessária.

Reclamaram quando o Luiz Dulci incluiu a imprensa regional na programação de publicidade do governo federal.

E reclamaram ainda mais quando o Franklin Martins aprofundou a política de democratização da publicidade, abrangendo as empresas estatais.

Diziam que para falar com o Brasil bastava anunciar nos jornais de circulação nacional e nas redes de rádio e TV.

Hoje é fácil ver como estavam errados, pois a imprensa regional está cada vez mais forte. São 380 diários que circulam 4 milhões de exemplares por dia, de acordo com os dados da ADI-Brasil.

Isso ocorre porque temos políticas que levam progresso e inclusão social ao interior do país.

De cada 3 empregos criados no ano passado, 2 se encontram em cidades do interior e apenas 1 nas regiões metropolitanas.

Nunca antes o governo federal investiu tanto no desenvolvimento regional, para combater desequilíbrios injustos e injustificáveis.

Nunca antes a relação entre o governo federal, os Estados e as prefeituras foi tão republicana quanto nestes 11 anos.

E são jornais do interior – e não os veículos nacionais – que traduzem essa realidade.

Quando chegamos ao governo, a publicidade oficial era veiculada em anunciava em 249 rádios e jornais. Em 2009, o governo federal já estava anunciando em 4.692 rádios e jornais de todo o país.

Meus amigos, minhas amigas

Pediram-me para contar aqui uma experiência com a imprensa regional no período em que fui presidente da República. Vou contar o que aprendi comparando a cobertura da imprensa regional com a que fazem os grandes jornais.

Quando o Luz Pra Todos chega numa localidade rural ou numa periferia pobre, está melhorando a vida daquelas pessoas e gerando empregos. Isso é uma notícia importante para os jornais da região.

Os grandes jornais nunca deram valor ao Luz Pra Todos, mas quando o programa superou todas as expectativas e alcançou 15 milhões de brasileiros, um desse jornais deu na primeira página: “1 milhão de brasileiros ainda vivem sem luz”. Está publicado, não é invenção.

Onde é que estava esse grande jornal quando 16 milhões de brasileiros não tinham luz?

Quando chega o momento de plantar a próxima safra, são os jornais regionais que informam sobre as datas, os prazos, os juros e as condições de financiamento nas agências bancárias locais.

Mas na hora de informar à sociedade que em 11 anos o crédito agrícola passou de R$ 30 bilhões para R$ 157 bilhões, o que a gente lê num grande jornal é que a inflação pode aumentar porque o governo está expandindo o crédito.

Quando uma agência bancária da sua cidade recebe uma linha do BNDES pra financiar a compra de tratores e veículos pelo Mais Alimentos, vocês sabem que isso aumenta a produtividade e aquece o comércio local. É uma boa notícia.

Mas quando o programa bate o recorde de 60 mil tratores e 50 mil veículos financiados, a notícia em alguns jornais é que o governo “está pressionando a dívida interna bruta”.

Quando nasce um novo bairro na cidade, construído pelo Minha Casa Minha Vida, essa é uma notícia local muito importante.

Mas um programa que contratou 3 milhões de unidades, e já entregou mais da metade, só aparece na TV e nos grandes jornais se eles encontram uma casa com goteira ou um caso qualquer de desvio.

Quando o governo federal inaugura um hospital regional, isso é manchete nos jornais de todas as cidades daquela região. O mesmo acontece quando chega o SAMU ou um posto do Brasil Sorridente.

Mas lendo os grandes jornais é difícil ficar sabendo das quase 300 UPAs, 3 mil ambulâncias do SAMU e mais de mil consultórios odontológicos que foram abertos por todo o país nestes 11 anos.

A maior cobertura de políticas públicas que os grandes jornais fizeram, nesse período, foi para apoiar o fim da CPMF, que tirou R$ 50 bilhões anuais do orçamento da Saúde.

Quando sua cidade recebe profissionais do Mais Médicos, vocês sabem o que isso representa para os que estavam desatendidos. Vão entrevistar os médicos, apresentá-los à população.

Mas quando 15 mil profissionais vão atender 50 milhões de pessoas no interior do país, a imprensa nacional só fala daquela senhora que abandonou o programa por razões políticas, ou daquele médico que foi falsamente acusado de errar numa receita.

Quando um novo câmpus universitário é aberto numa cidade, os jornais da região dão matérias sobre os novos cursos, as vagas abertas, debatem o currículo, acompanham o vestibular.

Lendo os grandes jornais é difícil ficar sabendo que nestes 11 anos foram criadas18 novas universidades e abertos 146 novos campi pelo interior do país.

É nos jornais do interior que se percebe a mudança na vida de milhões de jovens, porque eles não precisam mais sair de casa, deixar para trás a família e os valores, para cursar a universidade.

O número de universitários no Brasil dobrou para 7 milhões, graças ao Prouni, ao Reuni e ao FIES. Os grandes jornais não costumam falar disso, mas são capazes de fazer um escândalo quando uma prova do ENEM é roubada de dentro da gráfica – que por sinal era de um dos maiores jornais do país.

Quando uma escola técnica é aberta numa cidade do interior, essa é uma notícia muito importante para os jovens e para os seus pais, e vai sair com destaque em todos os jornais da região.

Quando eu informo que nesses 11 anos já abrimos 365 escolas técnicas, duas vezes e meia o que foi feito em século neste país, os grandes jornais dizem apenas que o Lula “exaltou o governo do PT e voltou a atacar a oposição”.

Quando chega na sua cidade um ônibus, um barco ou um lote de bicicletas para transportar os estudantes da zona rural, essa é uma boa notícia.

O programa Caminho da Escola já entregou 17 mil ônibus, 200 mil bicicletas e 700 embarcações, para transportar 2 milhões de alunos em todo o país. Mas só aparece na TV se faltar combustível ou se o motorista do ônibus não tiver habilitação.

Eu costumo dizer que os grandes jornais me tratam muito bem. Mas eu gostaria mesmo é que mostrassem as mudanças que ocorrem todos os dias em todos os cantos do Brasil.

Meus amigos, minhas amigas,

Quanto mais distante estiver da realidade, mais vai errar um veículo de comunicação. Basta ver o que anda publicando sobre o Brasil a imprensa econômica e financeira do Reino Unido.

O país deles tem uma dívida de mais de 90% do PIB, com índice recorde de desemprego, mas eles escrevem que o Brasil, com uma dívida líquida de 33%, é uma economia frágil.

Não conheço economia frágil com reservas de US$ 377 bilhões, inflação controlada, investimento crescente e vivendo no pleno emprego.

Escrevem que os investidores não confiam no Brasil, mas omitem que somos um dos cinco maiores destinos globais de investimento externo direto, à frente de qualquer país europeu.

Dizem que perdemos o rumo e devemos seguir o exemplo de países obedientes à cartilha deles. Mas esquecem que desde 2008, enquanto o mundo destruiu 62 milhões de postos de trabalho, o Brasil criou mais de 10 milhões de novos empregos.

O que eu lamento é que alguns jornalistas brasileiros fiquem repetindo notícias erradas que vêm de fora, como bonecos de ventríloquo. Isso é ruim para a imprensa, porque o público sabe distinguir o que é realidade do que não é.

Alguns jornalistas dos grandes veículos passaram o ano de 2013 dizendo que a inflação ia estourar, mas ela caiu. Passaram o ano dizendo que a inadimplência ia explodir, mas ela também caiu.

Diziam que o desemprego ia crescer, e nós terminamos o ano com a menor taxa da história. Chegaram a dizer que o Brasil entraria em recessão, mas a economia cresceu 2,3%, numa conjuntura internacional muito difícil.

Eu gostaria que esses jornalistas viajassem pelo interior do país, conhecessem melhor a nossa realidade, estudassem um pouco mais de economia, antes de repetir previsões pessimistas que não se confirmam.

E vou continuar defendendo a liberdade de imprensa e o direito de opinião, porque sei que, mesmo quando erra, a imprensa livre é protagonista essencial de uma sociedade democrática.

Meus amigos, minhas amigas,

A democracia é o único sistema que permite transformar um país para melhor. E ela não existe sem que as pessoas participem diretamente da vida política. Por isso digo sempre aos jovens: se querem mudar a política, façam política. E façam de um jeito melhor, diferente. Negar a política é o caminho mais curto para abolir a democracia.

Aprimorar a democracia significa também garantir ao cidadão o direito à informação correta e ao conhecimento da diversidade de ideias, numa sociedade plural. Esse tema passa pela construção do marco regulatório da comunicação eletrônica, conforme previsto na Constituição de 1988.

O Código Brasileiro de Telecomunicações é de 1962, quando no país inteiro havia apenas 2 milhões de aparelhos de TV. Como diz o Franklin Martins, havia mais televizinhos do que televisores.

É de um tempo em que não havia rádio FM, não havia computadores, não havia internet. De um tempo em que era preciso marcar hora para fazer interurbano.

No Brasil de hoje é preciso garantir a complementariedade de emissoras privadas, públicas e estatais. Promover a competição e evitar a contaminação do espectro por interesses políticos. Estimular a produção independente e respeitar a diversidade regional do país.

Uma regulação democrática vai incentivar os meios de comunicação de caráter comunitário e social, fortalecer a imprensa regional, ampliar o acesso à internet de banda larga. Por isso foi tão importante aprovar o Marco Civil da Internet.

Este é o desafio que se apresenta aos meios de comunicação, seus dirigentes e seus profissionais, nesse novo Brasil: o desafio de ser relevante num país com uma população cada vez mais educada, com um nível de renda que favorece a independência de opinião e com acesso cada vez mais amplo a outras fontes de informação.

Quero cumprimentar a ADI-Brasil, mais uma vez, pela realização desse Congresso, e dar os parabéns aos seus associados, que levam notícias para a população do interior desse imenso país.

Muito obrigado.

PS do Viomundo: E a manchete de O Globo para o evento foi…

Leia também:

Lúcia Rodrigues: Sabesp mascara o corte de água em São Paulo

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14 May 19:46

Reportagem premiada da Pública feita em HQ sobre exploração sexual de meninas no Ceará

by mariafro

Meninas em jogo, um projeto da Agência Pública premiado pelo Prêmio Tim Lopes de Jornalismo. Durante três meses, nossa equipe de repórter e quadrinista percorreu quilômetros de estradas do Ceará em busca da teia da exploração sexual de meninas para a Copa. Acompanhe essa trama na nossa reportagem em quadrinhos.
Dia 18 a Unicef lança globalmente uma campanha para a proteção de nossas crianças que no mundo todo, durante os grandes eventos correm mais riscos, pois ficam mais vulneráveis com as grandes aglomerações e aumentam a possibilidade de da violência e casos de abuso sexual.

Vamos ajudar a orientar os brasileiros para proteger nossas crianças desta terrível violência.
Para isso é preciso nos informar, conhecer a questão e saber como agir com responsabilidade.

Para ler toda a HQ, faça o download aqui

13 May 18:37

Escosteguy: Carta aberta a Ney Matogrosso

by mariafro

Luiz Afonso escreveu uma carta que não tive paciência para escrever, só acrescentaria os dados (que são públicos) para o desinformado Ney Matogrosso saber que absolutamente nada que ele disse sobre a realidade brasileira está correto. Mas eu tenho mais o que fazer que dedicar meu tempo para educar Ney Matogrosso. Mas não deixo de lamentar, uma pena ver Ney Matogrosso fazer o papagaio de pirata da mídia colaboracionista da ditadura militar.

Carta aberta ao Ney Matogrosso

Por: Luiz Afonso Alencastre Escosteguy em seu blog

11/05/2014

Querido Ney,

Depois que passamos dos setenta anos, resta-nos pouco tempo de vida. Ao menos de vida útil.

Aproveite, então, para seguir cantando. E nada mais.

Claro que tens todo o direito de se manifestar sobre o Brasil. E deves!

O que não podes, até pela tua posição no cenário nacional, é sair por aí dizendo bobagens! Podes não acreditar, mas há uma grande quantidade de pessoas que saem repetindo as asneiras que disseste em Portugal. Assim como tens o direito de manifestação, NÃO DEVERIAS, jamais, esquecer que tens o DEVER de bem orientar as pessoas que são tuas fãs.

Queres uma mentira dita por ti e por muita gente?

“Porque o governo brasileiro está gastando bilhões de reais para fazer esses estádios de futebol”.

És uma pessoa inteligente, que conseguiu sucesso pelos próprios méritos. Logo, deverias usar essa tua inteligência não para divulgar mentiras como essas, mas para ajudar a esclarecer que o governo não gastou com estádios.

Pelo jeito parece que foste influenciado pela grande mídia, interessada que é e por motivos político-econômicos, em acabar com um projeto que é um sucesso reconhecido no mundo inteiro. Ou vais me dizer que não viste o que disse o presidente do Banco Mundial. Ou o que dizem renomados economistas?

Procura te informar no lugar certo e verás a diferença entre financiamento e despesa. Ainda temos tempo de vida para aprender essas coisas.

Outra coisa, meu querido cantor: dizer que “Nos hospitais públicos, as pessoas estão sendo jogadas no chão” é cometer uma generalização do pior tipo, o tipo de quem nunca pisou em um hospital público e se aproveita – mais uma vez influenciado pela mídia – para retratar um país tendo um ou outro caso relatado.

Generalização não é artifício de gente inteligente, sabias?

Queres ver como o pecado da generalização pega gente “boba” como tu? Olha só o que dizes: “Nós somos o pais que mais paga imposto no mundo”.

Queres que eu coloque os dados aqui para mostrar que, das duas uma: ou estás de má-fé, o que não acredito, ou muito, mas muito mal informado, pois até minha filha de oito anos já aprendeu que isso é uma mentira deslavada.

Outra coisa, querido, é dizer que talvez esse imposto seja mal aplicado. Mas olha que interessante: o país funciona! Somos a 6ª maior economia do mundo, temos a menor taxa de desemprego, fomos o terceiro em crescimento em 2013, à frente dos EUA inclusive… Vai vendo… Vai vendo…

Os serviços públicos são ruins?  Na década que sequer tinhas noção de nada – a de 50 que citas como a melhor – o que tinha de melhor em relação a hoje? Que tal contribuir em vez de destruir? Vamos lá, diga aos brasileiros o que tinha de melhor na década de 50 e eu serei o primeiro a defender a volta aos velhos e bons tempos.

Temos corrupção “semanalmente, diariamente”? Querido: desliga a TV e para de ler jornal. São mais de 50.000 políticos eleitos que representam o povo em todo esse Brasil. Não poderias jamais generalizar, pois estás atingindo muita gente que é honesta e que trabalha em prol do povo. Inclusive os servidores públicos, milhões, que acreditam e trabalham por um Brasil para todos e não apenas para aqueles com os quais tens te informado.

Não somos o supra-sumo das nações? Não! Claro que não!

Mas deverias saber disso também: começamos a realmente fazer do Brasil uma nação há pouco tempo. Muito pouco mesmo. Diria que somente na década de 90 começamos os trabalhos de melhorar nossa vida. E foi justamente quando a Constituição começou a brotar seus efeitos, sendo o principal deles a consciência da cidadania.

Mas veja que interessante (repito a expressão): consciência da cidadania é algo que só adquirimos quando não temos fome; quando não temos desemprego; quando não temos uma vida dedicada apenas à sobrevivência.

Mas essas coisas não fazem parte do teu cotidiano, né? Por isso criticas o Bolsa Família. Mas como teu fã, como cantor, te perdoo. Afinal, deves sempre estar mais preocupado com as tuas coisas e tuas apresentações e gravações do que com quem morre de fome, de sede, sem teto, ser terra, sem esperança para dar aos filhos… Fica tranquilo, te entendo.

Só não entendo essa tua falta de vontade de ajudar ou, em outras palavras, tua vontade de apenas criticar e generalizar, incorrendo nos mais básicos erros de afirmar mentiras por todos sabidas como tal.

Para finalizar, só te pediria uma coisa: te informa melhor sobre o Brasil. Saia um pouco dos palcos e da mídia que te sustenta e passe a dar entrevistas apontando soluções para os problemas que temos. E os temos de sobra, bem sabemos.

Um abraço de quem te curte há mais de 40 anos…

PS: continua só cantando, tá bom?

13 May 12:09

“Volume Morto” vira manchete na Globo, mas Alckmin é poupado

by Rodrigo Vianna

O programa "seca, São Paulo" chegou ao JN

por Rodrigo Vianna

O “racionamento” de água entrou em pauta no JN da Globo. Entrou pela voz de Willian Bonner, que nesta segunda-feira avisou, com aquele tom que lembra os noticiários da Globo nos velhos tempos dos generais: “Por enquanto [ênfase], o racionamento está descartado na região metropolitana de São Paulo. Segundo especialistas, uma medida como essa tem efeitos colaterais que prejudicam a população [oh!!] de uma forma desigual”.

Fui assistir a cobertura do JN, na internet, por indicação do jornalista Eduardo Nunomura, que ficara abismado com o que viu na Globo:

Jornal Nacional, da TV Globo, dá manchete sobre a falta de água no sistema Cantareira. Mauro Arce, secretário tucano, aparece quatro vezes (repito, quatro sonoras). Quantas vezes aparece o nome do PSDB? Nenhuma. Quantas vezes apareceu o governador Geraldo Alckmin? Nenhuma. Racionamento? Não, não é bom, foi o tom geral. E as pessoas que já sofrem com a falta de água nas torneiras de suas casas? Nenhuma palavra. Por que não me surpreendo? (Eduardo Nunomura, no Facebook).

Achei que fosse exagero. Mas lá estavam as quatro falas do Mauro Arce, secretário de Alckmin: ele apareceu numa primeira reportagem, dizendo que não há risco ao se consumir água do ”Volume Morto”; depois, foi chamado pra rebater um técnico que defendia – sim -  o racionamento já (Arce disse, nessa hora, que se deve evitar a expressão ”volume morto”); por último, o secretário teve espaço na Globo para explicar a tese de Alckmin, de que o racionamento deve ser evitado porque o “liga-desliga” do sistema poderia provocar danos e rachaduras nas tubulações.

E Alckmin propriamente? Na Globo, ele sumiu. Não foi citado. Alckmin e Volume Morto são a mesma pessoa, brincou outro dia um internauta… Mas na Globo, não! 

As informações apresentadas pelos repórteres estavam corretas: as bombas para captar o tal volume morto, a quantidade que ainda há para se consumir nas próximas semanas, até a informação de que no fundo da represa “pode” haver metais pesados; tudo muito didático – com a competência técnica costumeira que se conhece nos telejornais da Globo.

Mas o diabo mora nos detalhes. E o detalhe foi que o governador sumiu. A falta de água foi tratada como um “dado da natureza”. E o racionamento como uma saída muito ruim – segundo “especialistas”.

O estranho é que, na reportagem mesmo, o único “especialista” que defendeu essa tese foi o próprio Arce. Um professor da USP – ouvido pelo repórter Fabio Turci – levantava dúvidas em relação ao que dizia Arce (ou seja: a dúvida estava lá, de forma discreta – mas factualmente correta). Só que a chamada da reportagem – na boca de Bonner – trazia o discurso que interessa a Alckmin propagar: “racionamento” deve ser evitado.

Não por motivos eleitorais. Mas porque afeta de forma desigual as pessoas. Ah, sim…

O nome do PSDB não foi citado, em nenhum momento – claro. O debate foi “técnico”. Igualzinho ao debate sobre Petrobras, não é?

Se o Álvaro Dias berra no JN quando o tema é Petrobras, por que ninguém do PT tem espaço para contestar o Mauro Arce e os tucanos? Por que? Tolinho esse escrevinhador… 

A emissora da família Marinho fez um belo serviço de assessoria de imprensa para o governador. E os tucanos sabem ser generosos: no intervalo do JN, havia um polpudo  anúncio do governo estadual.

Tudo muito civilizado. Limpo. Transparente – feito os balancetes da Sabesp.

Viva a liberdade de imprensa de Ali Kamel! 

 

12 May 23:23

Fátima Oliveira: Leis de proteção à vida esbarram no ‘achômetro’

by Conceição Lemes

Eliza Samúdio e Bernardo Boldrini

Os danos da subjetividade na aplicação das leis protetivas da vida

Os maiores entraves à execução da Lei Maria da Penha são os juízos de valor que cada operador da referida lei faz

Fátima Oliveira, em O TEMPO

fatimaoliveira@ig.com @oliveirafatima_

Na semana passada, uma amiga, separada há quase seis meses de uma convivência eivada de violência, foi comunicada por operadores da lei de uma Delegacia da Mulher da cidade do Rio de Janeiro que ela não precisava mais de proteção porque, desde a queixa, o sujeito não atentara mais contra a vida dela! No período ela foi, pelo menos, duas vezes à delegacia para comunicar novas perseguições e na última deu seus novos telefones: ela mudou os números porque seu algoz não lhe dava sossego!

Todavia, a sapiência e a subjetividade da delegada, sem ouvi-la, decidiram que ela não precisava mais de medidas protetivas, já que continuava viva!

Tais medidas não custam um centavo ao erário, no entanto possuem um alcance pedagógico de vulto na contenção da agressividade. Até mesmo quando o agressor é um sociopata, diante de medidas protetivas, ele pode recuar, aceitando a lei como limite. Em que se baseia uma delegada que, sem ter finalizado o inquérito, quase seis meses depois da queixa, retira medidas protetivas apenas pelo “achômetro” de sua subjetividade?

Os maiores entraves à execução da Lei Maria da Penha são os juízos de valor que cada operador da referida lei faz, interpretando-a segundo sua visão de mundo, em geral patriarcal, machista, racista e outros conservadorismos de diferentes laias.

Vide o caso Eliza Samudio, que deu queixa da violência sofrida, também numa Delegacia da Mulher da cidade do Rio de Janeiro, e não recebeu medidas protetivas de sua vida, às quais tinha direito. Foi assassinada a mando do seu algoz!

Relembrando: “O Estado brasileiro deve ser responsabilizado, pois se omitiu quando instado por ela a proteger a sua vida… A lei, quando chamada, não compareceu para dar limites ao agressor. Ao contrário, acariciou sua onipotência. Como uma juíza crê que, para não banalizar a Lei Maria da Penha, não deve aplicá-la quando o agressor não coabita com a violentada? O argumento dá um cordel de sentença de morte…” (“A personalidades delinquentes, só a lei é que pode impor limites”, Fátima Oliveira, O TEMPO, 13.7.2010).

Bernardo Uglione Boldrini, 11 anos, assassinado pela madrasta, Gracielle Uglione, em 4 de abril passado, procurou o Fórum de Três Passos (RS), cidade onde residia, em novembro de 2013, queixando-se de insultos da madrasta e abandono afetivo por parte do pai.

A promotora Dinamárcia de Oliveira preparou a ação judicial solicitando a guarda para a avó materna; porém, o juiz Fernando Vieira dos Santos, em audiência em 11.2.2014, optou por mantê-lo junto ao pai, o médico Leandro Boldrini, sob o argumento legalista de reconstituir laços familiares esgarçados.

A Justiça tangenciou diante do fato inusitado de uma criança, sozinha, procurá-la e pedir para trocar de família, tendo uma avó materna que, desde o suposto suicídio da mãe (2010), sofria de alienação parental, pois o ex-genro não permitia que visse seu único neto, filho de sua única filha.

Tais laços esgarçados foram olvidados!

A Justiça foi insensível a um ponto que descartou o alto potencial ofensivo de uma madrasta implicante e do desamor do pai, estando em jogo uma herança não desprezível. Tal subjetividade custou a vida de Bernardo! Não há outra conclusão ética possível: Bernardo está morto, e o Estado brasileiro deve ser responsabilizado, pois se omitiu quando instado por ele, uma criança, a proteger a sua vida!

Tenho a opinião de que, quando a vítima denuncia e, assim mesmo, perde a vida, o Estado deve ser acionado por omissão na proteção da vida.

Leia também:

Ministério da Saúde rebate doutor que previu “ruína” do Mais Médicos: Desistência dos cubanos é só de 0,06%

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12 May 18:36

Pais de menino boliviano morto em SP contam como é difícil retomar a vida

by Leonardo Sakamoto

Brayan, filho de Verónica e Edilberto, foi morto com um tiro na cabeça, aos cinco anos de idade, na frente dos pais, em um assalto à sua casa na Zona Leste de São Paulo. Na época, relendo as reportagens sobre o tema, vi muita coisa com relação à busca pelos culpados e a necessidade de aumentar as penas. Claro que a expectativa era de que todos os envolvidos fossem julgados e condenados de acordo com o que está previsto na lei brasileira, incluindo os agravantes pertinentes (quatro suspeitos apareceram mortos nos meses que se seguiram ao assassinato do menino). Mas usamos o caso para servir ao debate sobre segurança pública e pouco se acrescentou sobre a situação precária a que estão submetidos as dezenas de milhares de famílias imigrantes em São Paulo que tornam o nosso guarda-roupa viável.

Por que trabalham 14 horas por dia? Quanto ganham? Quais as dificuldades que eles enfrentavam por serem estrangeiros? Quais políticas educacionais e de saúde o poder público destinava a Brayan? Porque ele morava em um lugar precário e sem segurança? Estava com os documentos em dia, mas pouco importa, mesmo se não os tivesse, merecia ser tratado com dignidade. Então como garantíamos a ele uma cidadania de fato? Como garantimos cidadania aos mais pobres em geral?

Mas a verdade é que se dezenas, talvez centenas de milhares de bolivianos fossem às ruas, bloquear o Centro de São Paulo, pedindo para que fossem respeitados como os estrangeiros ricos que vêm trabalhar na cidade, seriam duramente reprimidos. Alguns deportados até. E parte da população que, na época, tuitou loucamente sobre a criança boliviana morta ficaria incomodada com isso: “O que eles querem mais? Calem a boca e continuem costurando!” Como sempre foi até agora.

Por isso vale a leitura da reportagem de Rocío Lloret Céspedes, enviado a Tacamara, na Bolívia, com a colaboração de Igor Ojeda, especial para a Repórter Brasil. Algumas necessárias reflexões sobre o Brasil que queremos e aquele que estamos construindo:

Para Edilberto Yanarico, São Paulo representa a única oportunidade que tem de trabalhar em costura e economizar algum dinheiro. Por isso diz que precisa voltar logo se quiser seguir em frente. Mas logo, para ele, pode ser tanto um mês como um ano, o tempo necessário para enfrentar suas lembranças. Porque para Edilberto Yanarico, São Paulo também representa a cidade onde mataram seu único filho Brayan, de cinco anos, com um tiro na cabeça.

É meio dia de um sábado de janeiro e a praça principal de Tacamara parece desolada. Um idoso encurvado caminha apoiado em um pau pelas estreitas ruazinhas de terra e uma mulher de pollera (saia típica), que carrega um volume nas costas, anda por uma ladeira que dá em um campo de futebol. A única loja aberta que se vê é escura e acaba de fechar sua pesada porta antiga de madeira. As casas, umas de tijolos e outras, menores, de adobe, parecem abandonadas. Se fosse um quadro, seria uma paisagem cinza com um sol raquítico, cujos raios se perdem entre as nuvens que anunciam uma tormenta.

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Edilberto e Verónica, pais de Brayan, em sua casa em Tacamara, na Bolívia. Foto: Rocío Lloret Céspedes/Repórter Brasil

Tacamara é um lugarejo da província de Omasuyos, no departamento de La Paz, e está a 3.200 quilômetros de São Paulo, a selva industrial brasileira. Tem menos de dois mil habitantes e se encontra a 3.900 metros acima do nível do mar. Para chegar até aqui, primeiro é preciso viajar três horas de carro, de La Paz até Achacachi, a capital da província, e depois outros 45 minutos em um dos poucos micro-ônibus que chega ao lugar.

Antigamente, era a fazenda de uma família de proprietários de terras de sobrenome Rada. Os patrões iam ao lugar unicamente para buscar a produção agrícola e pecuária, fruto do trabalho de famílias de indígenas que consideravam sua propriedade. Mas depois da Revolução Agrária de 1953 as terras passaram a ser daqueles homens e mulheres de rosto cor de cobre que, independentemente das condições ou das baixas temperaturas, trabalhavam de sol a sol para cumprir as exigências de seus “donos”.

“Fuga” de jovens – Edilberto nasceu nessa comunidade aymara há 28 anos. É descendente direto de Saturnino Yanarico, o homem que liderou a expulsão dos patrões, depois de séculos de abusos e escravidão, segundo um ensaio de Benedicto Yanarico sobre a história do lugar. Feliciano Yanarico, o pai de Edilberto, encarregou-se de fazer o que pôde para que nunca faltasse nada a sua família, embora sempre soubesse que para ter algo deveria trabalhar sem horário nem limite de força. “Fiquei órfão de pai, por isso desde pequeno aprendi a fazer de tudo. Vendia sorvetes, depois trabalhei de pedreiro, encanador, eletricista. Fazia de tudo, porque tinha de juntar dinheiro para que meus quatros filhos estudassem”, diz, esquecendo de mencionar que também é agricultor.

É que nesse lugar as crianças crescem sabendo que nem bem tenham alguma força devem se somar a seus pais ou a outras famílias para ajudar nos trabalhos do campo. Por isso, preparar a terra com bois e jogar sementes de batata, feijão, milho, cevada ou quinua, para depois capiná-las com as mãos, é tão habitual como levantar-se e preparar o café da manhã.

Já quando chega a época de colheita, depois do agradecimento à Pachamama, ou Mãe Terra, com rituais ancestrais, os habitantes da comunidade se reúnem para tirar os frutos e separá-los: os melhores para o consumo próprio e o resto para a venda em feiras de povoados maiores ou na cidade. Esse sistema de ajuda mútua prevalece desde tempos ancestrais.

Mas há muitos anos essa cerimônia deixou de ser numerosa, porque Tacamara viu seus filhos mais jovens irem embora para trabalhar como costureiros no Brasil. Por suas ruas se vê muitas crianças pequenas ao cuidado de seus avós e pessoas que superam os 50 anos de idade; mas não muitas entre 18 e 30. Embora os dados oficiais do Censo de 2012 sobre essa comunidade ainda não foram divulgados, se alguém consulta várias pessoas aleatoriamente percebe que cada uma conhece ou é familiar de alguém que saiu.

Alguns emigraram há mais de dez anos, como uns primos de Edilberto, que já têm “uma linda casa em São Paulo”. Essa ideia, a de ter uma melhor qualidade de vida, é a que lhes motiva a ir embora. Porque ainda que aqui haja uma escola com ensino primário e secundário, um centro médico e um par de campos de futebol e futsal – tudo entregue nos últimos cinco anos –, não há rede de esgoto e há muito pouco tempo chegou a dotação de água potável e a eletricidade. Mas o que pesa mais é que as novas gerações não veem um futuro profissional estável. “Aqui não tem em que trabalhar. Alguns são pedreiros, outros motoristas, mas nem sempre há trabalho, porque cada homem se encarrega de fazer sua casinha com adobe, e na cidade se ganha muito pouco”, assegura Feliciano, moreno e magro, com as mãos compridas e ossudas.

Como consequência, cada vez há mais graduados, mas poucos decidem continuar estudando, porque se veem obrigados a trabalhar para ajudar seus pais a manter seus irmãos mais novos, antes do que pensar em um futuro acadêmico. No caso dos homens, assim que deixam a escola prestam o serviço militar obrigatório por um ano e depois voltam a seu povoado para serem recebidos como heróis, o que significa que podem formar uma família. As mulheres, por sua vez, veem frustradas suas aspirações muito antes, pois seu papel é acompanhar seu marido, ajudar nas tarefas agrícolas e criar os filhos.

Durante muito tempo, Edilberto esperou pacientemente que Brayan crescesse para poder ir a São Paulo. De fato, ele foi o último dos quatro irmãos Yanarico a partir. Arriscou-se mesmo sabendo que lá as coisas seriam muito duras, pois seu irmão mais novo – Efraín – morreu doente em um hospital paulista, justamente no dia que seu pai estava para comprar uma passagem de 400 dólares para ir vê-lo, em outubro de 2011. Nunca se soube que doença acabou com sua vida.

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Brayan. Foto: Arquivo familiar

Assim, em janeiro do ano passado, seis meses depois que o menino cumpriu cinco anos, ele, sua esposa Verónica Capcha, 23 anos, e o pequeno embarcaram em um ônibus até Santa Cruz de la Sierra. De lá pegaram outro ônibus, até Puerto Quijarro, fronteira com Brasil e, segundo as instruções que lhes deram familiares que haviam emigrado muitos anos antes, por ali cruzaram a fronteira somente com seus documentos de identidade, como estabelece um convênio binacional. Dessa maneira evitaram os “coiotes”, que costumam enganar os bolivianos dizendo-lhes que é difícil passar e que pagando 100 dólares eles podem ajudar.

“Foram quatro dias de viagem. Só levávamos roupas nas malas, como nos haviam dito que fizéssemos”, lembra ele agora, sentado em uma cadeira velha, no segundo andar da casa que seu pai lhe cedeu para que vivesse com sua família; a 15 minutos a pé da praça principal de Tacamara, por umas trilhas estreitas nas quais não cabe nem um carro. De rosto moreno, pômulos proeminentes e cabelo preto, sua extrema magreza o faz parecer frágil apesar de sua grande estatura. Mas, quando fala, é claro e direto. “Minha ideia era voltar. Eu queria ir, fazer um pouco de dinheiro e voltar para que Brayan estudasse no colégio daqui, como eu. Este ano já teríamos que matriculá-lo, porque eu não queria que fosse ao colégio de lá. Então, eu deixaria a Verónica aqui, com a criança, e depois outra vez iria ao Brasil. Outra vez iria trabalhar, iria mandar dinheiro e assim… lá ficaria sozinho, para que ela ficasse tranquila aqui com a criança, depois voltaria, porque minha ideia nunca foi a de ficar para sempre.”

Os Yanarico Capcha chegaram primeiro na casa de outro irmão mais novo de Edilberto, Carlos, quem lhes ajudou a se estabelecerem rapidamente. Em pouco tempo compraram máquinas de costura para cada um e se integraram a um sistema de trabalho que muitos bolivianos que emigram seguem: as cooperativas familiares.

Carlos era o elo com os coreanos que encomendaram o trabalho, que consistia em costurar os corpos centrais das camisetas, sem mangas nem colarinho. As peças já vinham cortadas em moldes, por isso eles só passavam a máquina. Além disso, Edilberto havia aprendido costura na Bolívia, sempre com a ideia de emigrar. Por cada unidade lhes pagavam R$ 1,50: quanto maior a quantidade, maior o ganho. Por dia, entregavam de 150 a 200 peças.

Como acontece nesses casos, a oficina estava na casa que haviam alugado as famílias de Edilberto, de seu irmão Carlos, de sua irmã Francisca e do irmão mais novo de Verónica, Wilson, em um bairro periférico da capital paulista chamado São Mateus. Quando mataram Brayan, em junho do ano passado, faltavam dois meses para que vencesse o contrato de arrendamento e todos pensavam em se mudar “a outra região mais segura”.

“Não tínhamos horário fixo nem chefes que nos controlassem, mas trabalhávamos várias horas, às vezes começávamos às sete ou às oito da manhã e ficávamos até às nove ou dez da noite, às vezes até à meia-noite também para ganharmos algum dinheiro. Aos sábados e domingos descansávamos. Como meu primo tem carro, íamos visitar meu outro primo, que já tem uma casa no centro de São Paulo, ou íamos ao parque com o Brayan”, recorda Edilberto.

Enquanto seus pais trabalhavam, Brayan costumava ficar em outro cômodo vendo televisão. Como era a única criança da casa, procuravam formas de distraí-lo. Para sorte de Edilberto e Verónica, não foi difícil que ele se adaptasse rapidamente ao idioma, de forma que não se entediava. De vez em quando saía para brincar no pátio e outras vezes se sentava ao lado dos pais. Gostava de cantar para eles ou sair para conversar com as outras pessoas da oficina. No dia que iam matá-lo apareceu com um pacote de biscoitos nas mãos que alguém lhe ofereceu. Sem falar nada, dividiu entre todos os presentes. “Foi como se estivesse se despedindo”, diz agora seu pai, baixando o olhar para não chorar.

Combate ao trabalho escravo – Junho de 2013. Uma fiscalização coordenada pelo Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil resultou no resgate de 28 bolivianos, entre eles um menor de 16 anos, “em situação análoga à escravidão”, em três oficinas da rede Restoque S.A., empresa brasileira que produz roupa para marcas exclusivas. Os trabalhadores produziam para duas delas: Le Lis Blanc e Bourgeois Bohene (Bo.bo), cujas peças em lojas de luxo custam até R$ 2 mil.

O caso resultou na convocação, por parte da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), dos diretores da empresa para que dessem uma explicação. Isso porque em janeiro do ano passado foi promulgada a Lei 14.946, que, entre outras coisas, anula a licença de empresas que são flagradas beneficiando-se – direta ou indiretamente – de mão de obra em condição escrava. Dessa maneira, ficam impedidas de exercer a mesma atividade econômica ou abrir um novo negócio no setor por um período de dez anos no estado.

Seu elaborador, o deputado Carlos Bezerra, do PSDB, conta que conseguir sua aprovação foi um trabalho complexo, porque “infelizmente muita gente aceita o trabalho escravo como algo normal”. No entanto, com a promulgação da lei, São Paulo se converteu em pioneiro no mundo em ditar sanções duras e claras contra esse flagelo social.

O problema é que nem sempre é fácil provar esse delito, porque as grandes multinacionais terceirizam ou quarteirizam o trabalho, de maneira que é difícil demonstrar que as peças confeccionadas nas oficinas clandestinas são para suas diferentes marcas. Então, como contratam empresas intermediárias que, por sua vez, subcontratam microempresas e inclusive cooperativas familiares, é difícil detectar e sancionar os responsáveis diretos. O costureiro nem sempre sabe para quem trabalha.

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Caderno de dívidas encontrado durante operação em oficina que produzia para a Le Lis Blanc. Foto: Anali Dupré/Repórter Brasil

E foi precisamente com esse argumento que a Restoque se defendeu, por meio de seu diretor Livingston Bauermeister, que minimizou a responsabilidade da empresa. “A Restoque jamais se beneficiou desse tipo de exploração. Nós exigimos de nossos provedores que cumpram a legislação trabalhista. Dois deles romperam nosso contrato sem nosso conhecimento e nos inteiramos apenas por meio da notificação do Ministério do Trabalho”, disse, diante de uma série de perguntas que lhe fizeram na Alesp.

Luís Alexandre Faria é o auditor fiscal do trabalho que se encarrega de executar fiscalizações depois de fazer uma investigação e dar seguimento a esses casos. De fala serena e amável, é difícil encontrá-lo em seu escritório, porque quase sempre está em operações. Durante uma apresentação que fez no 1º Seminário Sobre Combate ao Trabalho Escravo no Estado de São Paulo, realizado em 21 de agosto do ano passado, ele mostrou cifras e indícios preocupantes de como vivem mais de 40 mil bolivianos em – segundo seus cálculos – 12 mil oficinas de costura que se estima haver na urbe paulista.

Revelou, por exemplo, que muitos casos de trabalho em condição análoga à escravidão estão ligados ao tráfico de pessoas. A cadeia costuma se iniciar em El Alto, onde em programas de rádio se solicita jovens que desejem trabalhar como costureiros no Brasil “com bom salário”. O único requisito é ter mais de 18 anos, ainda que, como se viu, nem sempre se cumpre. A maioria provém da área rural de La Paz, tornando-se presa fácil dos chamados “coiotes”, que são aqueles que se encarregam de fazê-los cruzar a fronteira. Uma vez que chegam lá, o coiote os faz chegar a São Paulo, e então começa um acúmulo de dívidas que nunca terminam de pagar. “Encontrei folhas de cadernos que mostravam que cobravam até por um ovo a mais que haviam comido”, assegura Faria.

Ainda que o problema date de décadas, foi somente em 1995 que o estado de São Paulo começou a trabalhar para erradicar o trabalho escravo, seis anos depois de se conhecer a primeira denúncia de irregularidades nas oficinas. “No Brasil, trabalhar por muitas horas, em condições desumanas, é um crime. Temos esse programa de fiscalização, por meio do qual tiramos as pessoas daquelas condições, calculamos quanto devem receber de acordo com as leis do Brasil, fazemos com que sejam pagas e colocamos multas em autos de infração contra os exploradores”, afirma.

Vítimas – No entanto, até agora o principal problema que as autoridades brasileiras têm enfrentado, embora pareça irônico, são as vítimas, que não assumem que sua condição trabalhista é análoga à escravidão. Edwin Laime e Martín Huanca, que se identificaram como pequenos empresários bolivianos, estiveram no seminário como representantes de parte da comunidade boliviana em São Paulo. O primeiro contou que desde criança aprendeu a trabalhar e explicou que para ele isso dignifica, não o degrada, assim que propôs – quase gritando – que o tema deve ser debatido a partir de outra ótica, por exemplo, a de reduzir os custos dos trâmites de residência legal no Brasil.

Mais tarde asseguraria que “todos” chegam assim e que, embora seja verdade que há muitos jovens que são submetidos a tratos desumanos e meninas que inclusive são vítimas de abuso sexual, “com o tempo terminam estabelecendo-se e trazendo a família”. Disse isso como uma conquista, como se esse fosse o caminho que todos tivessem de trilhar para chegar a algo bom.

De estatura baixa, magro e de pele morena, ele conta que agora administra “várias empresas”. Com uma garrafa de vinho que guarda em uma mochila e tira de vez em quando para tomar um gole, diz que nas regiões fora da capital paulista, onde vive a comunidade boliviana, não somente devem se enfrentar os abusos de brasileiros, como também de paraguaios e peruanos. Para ele, a forma de trabalho de seus compatriotas é dura, “mas não escravizante como dizem”, além de ser compensada com o que bebem nos fins de semana, “para esquecer o que nos acontece”.

Faria, que já escutou o argumento que tenta justificar o trabalho escravo até a exaustão, assegura que quando se resgata uma pessoa e se explica quanto deve ganhar, ela se dá conta de que alguém está se tornando milionário com seu suor e lágrimas. “Talvez as condições de onde saíram na Bolívia também sejam extremas, mas isso não é uma justificativa. Quando nós fazemos pagarem o que lhes corresponde se dão conta de que foram explorados. Nós, como país, não aceitamos as condições nas quais trabalham não apenas bolivianos, como também brasileiros de estados mais pobres, paraguaios e peruanos. Aqui a lei considera que o trabalho em condição de escravidão é um crime”, insiste.

O outro grande problema é a falta de conhecimento de milhares de migrantes sobre tratados internacionais que lhes permitem trabalhar legalmente, sem se exporem ao abuso de terem recolhidos os poucos documentos com os quais chegam, para extorqui-los. Eunice Cabral, presidenta do Sindicato das Costureiras de São Paulo, é uma mulata que criou seus filhos sozinha trabalhando em uma confecção. Incomodada, assegura que a postura que muitos bolivianos assumem diante das lutas sociais por melhores condições de vida terminam prejudicando todas as classes trabalhadoras. “Se eles dão de presente sua força de trabalho, o empresário entende que nós [brasileiros] também devemos fazê-lo. Nos despedem, porque sabem que há outro que fará o mesmo por um salário menor e piores condições. Eu conheço bolivianos que denunciaram essas irregularidades e hoje têm um bom emprego, com todos os benefícios que o país oferece para um trabalhador legalizado”, reclama.

Distante das discussões que se levam adiante sobre o assunto no estado de São Paulo, Edilberto diz que a única coisa que ele busca é poder trabalhar. Quando ocorreu o crime de seu filho, a comunidade boliviana saiu às ruas para protestar, exigindo que os responsáveis fossem punidos, e o caso foi imediatamente relacionado com as condições em que vivem e trabalham milhares de seus conterrâneos. “A cifra com a qual o consulado boliviano trabalha é de 40 mil sem documentos, mas nós acreditamos que sejam muitos mais. Todos os dias entra gente, porque aqui precisa de muita mão de obra, sempre há trabalho para quem chega com a ideia de progredir”, afirma Martín Huanca, um boliviano que se converteu no elo entre o Centro de Apoio ao Migrante (Cami), uma instituição da Igreja Católica, e seus compatriotas. Em um trabalho conjunto, ambos buscam que as pessoas que chegam se informem e sintam que podem receber ajuda para se legalizarem.

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Tacamara, de onde a família de Brayan saiu para trabalhar na indústria têxtil em São Paulo. Foto: Rocío Lloret Céspedes/Repórter Brasil

Semanas antes de Brayan morrer, Edilberto e Verónica começaram a ter sonhos estranhos. Um dia o pai viu os assassinos na esquina de sua casa. Tudo estava escuro e eles estavam reunidos ali, como costumavam fazer sempre. “O que será?, pensei”, conta agora. Ela, por sua vez, viu nos sonhos que esfaqueavam a criança e sentiu que algo ruim iria acontecer.

Na noite de 28 de junho, seus maus presságios foram cumpridos. Quando Edilberto e seu irmão Carlos voltaram em seu carro para casa, 20 minutos antes das 23 horas, apareceram cinco jovens armados que os agrediram e exigiram dinheiro. “Não me lembro bem, era como um filme, não entendia o que estava acontecendo. Demos todo o dinheiro, havíamos juntado R$ 4,5 mil, mas queriam mais. Entregamos até o cofrinho da criança, mas não era suficiente para eles”, diz Edilberto.

Brayan começou a chorar e Verónica o estreitou contra seu peito. “Ele não gritou. Só dizia ‘não me matem, não matem minha mamãe’. Aí as lágrimas começaram a cair pela sua carinha. Aí soou um estampido forte”, relata ela. Nesse momento Edilberto perdeu a noção do tempo. Quando voltou à razão estava no Hospital Geral de São Mateus, com o menino nos braços pedindo desesperadamente que o salvassem. Era tarde, tinha morrido no trajeto.

O crime causou comoção por conta da frieza com a qual os criminosos atuaram. Depois de dispararem na cabeça de Brayan, fugiram com o dinheiro e deixaram para trás uma família destruída. “Nós organizamos marchas porque nos sentíamos desprotegidos. Só precisávamos que naquele momento o cônsul ou alguma autoridade nos desse alguma palavra de esperança. Era como se um de nossos filhos tivesse morrido”, recorda agora Edwin Jimmy Laime, tomando um longo gole de vinho de sua garrafa.

Por causa da tragédia, Edilberto e Verónica voltaram a Tacamara com o ataúde de seu filho a tiracolo para enterrá-lo em um cemitério que está a poucos quarteirões de sua casinha. As autoridades bolivianas os ajudaram com os trâmites de repatriação e lhes prometeram um emprego estável a ele, para que ficasse no país. Acreditando nisso, dias depois viajou a La Paz e foi à Chancelaria, como lhe haviam dito, e responderam que ainda não havia vagas. “Na segunda vez em que fui, nem me deixaram entrar. Por isso, agora penso que tenho de voltar a São Paulo, assim que eu supere isso. Lá deixei minhas maquininhas, que devem estar se deteriorando. Estou esperando que Verónica fique boa e não sei, que passe um pouco mais de tempo, porque não sei como será ir e não ver mais o Brayan.”

Verónica ficou doente de desgosto. Pequena e morena, de mãos rechonchudas, durante a entrevista prefere manter esse silêncio de luto que é difícil de romper. Desde que a tragédia aconteceu não deixou de pensar em seu filho, e aos 23 anos parece uma mulher de 50. Envolta em uma manta para evitar que o frio andino lhe provoque outro mal, responde apenas que também pensar em ir, embora em seu caso o retorno ainda seja mais uma tortura do que uma esperança. “Muitas vezes sonho também. Brayan me diz que está bem, que não tem mais medo de dormir com a luz apagada, como quando era vivo”, balbucia.

Mas nenhum consolo é suficiente. Não chora mais e sua tristeza é mais forte que uma lágrima. Talvez por isso não sabe nem se importa que os assassinos de seu filho tenham sido mortos na prisão, depois de sua captura. Nenhum dos cinco passava dos 20 anos e a imprensa brasileira diz que o caso causou tanta indignação inclusive entre os presos, que os mataram um a um, como um ato de vingança pela morte de Brayan. “Não sei, não disseram nada para nós, nem a advogada que nos ajudou nos liga, de qualquer forma o que podemos fazer com isso?”, diz Edilberto.

Tanto ele como ela estão conscientes de que precisam voltar a trabalhar para terem algum dinheiro. Para o momento, Feliciano, o pai de Edilberto, lhes deu um carro que este usa como táxi, especialmente às quintas-feiras e domingos, quando há feira em Achacachi, mas o ganho bruto chega somente a 90 ou 100 bolivianos [entre R$ 28 e R$ 32, aproximadamente]. Nos outros dias ficam em casa, ajudando na semeadura ou sentados no pequeno pátio em frente ao quarto dos dois, ali onde Brayan costumava sair a cantar aplaudindo em volta deles: “Será papai, será mamãe?”.

12 May 17:33

Elite brasileira usa a Copa do Mundo para mostrar seu desconforto em ser brasileira

by Mauricio Savarese

ellusmatsukawa(First of all, thanks for reading and commenting on my previous post. It is already the most popular of this blog’s short history. I was requested to translate it into Portuguese and at first I refused it. Not only I am working loads, but I wanted to avoid the bigotry that usually comes along with enthusiasts of the two main political parties here. And I wanted to avoid denial by that big chunk of the elite which is disengaged with Brazil. But I was convinced to use some of my time in this because someone else could translate and include words I didn’t write. I want Brazilians who don’t speak English to have an original source. This blog is meant to be a bridge between Brazil and foreigners, almost all posts are and will be in English, but I can make exceptions when I want.)

“Abaixo este Brasil atrasado.” É assim que a marca Ellus decidiu se envolver com a Copa do Mundo — colocando essa mensagem em uma camisa. Eles devem ter uma resposta oficial tosca, dizendo que é contra os gargalos, e não contra o país. Ainda assim todos os brasileiros que entendem nossa síndrome de vira-lata sabem o que querem dizer as pessoas que usam essa peça. Afinal de contas, a maioria dos frequentadores da Ellus são pessoas que não usam o sistema público de saúde. Eles não estudam em escolas públicas. E eles raramente põe os pés em transporte público nas principais cidades do Brasil (embora tenham prazer em fazê-lo no exterior).

Então, por que eles frustrados? Seriam eles tão altruístas quanto os ativistas que protestam com um objetivo, seja qual for esse objetivo? Ou os brasileiros ricos expressam suas críticas por puro tédio?

Minha resposta é que os brasileiros ricos estão frustrados por serem brasileiros. E eles envenenam o tom sobre a Copa do Mundo no Brasil mais do que os erros e o mau planejamento na preparação do evento. Não é lá grande notícia para quem já foi a uma festa brasileira nos Jardins ou no Leblon. Mas este é provavelmente um bom momento para apontar o que está acontecendo.

Alguns elitistas lidam com essa realidade perturbadora de ser brasileiro de maneira pró-ativa : tentam conseguir um passaporte europeu, como se realmente tivessem uma ligação familiar importante com o exterior. Outros optam por distorcer símbolos que estão ligados ao país que rejeitam. Isso já foi feito antes. Samba, sertanejo, feijoada e todas as coisas muito do Brasil são descartadas ou transformadas em uma versão gourmet que se encaixa no gosto supostamente melhor da nossa elite.

O futebol até pouco estava no meio do caminho — não se pode desbrasilisar o futebol. Mas, agora, os clubes europeus estão cada vez mais popular aqui . Talvez isso mostre que a atenção também está mudando nessa área. Seria uma boa razão para explicar por que as críticas à Copa do Mundo, irrelevantes não muito tempo atrás, deram à elite brasileira a oportunidade de expressar seu aborrecimento.

Os protestos de junho de 2013 mudaram o cenário para as elites brasileiras. Depois que os protestos contra os aumentos nas tarifas de transporte se tornaram uma onda nacional, incluindo gente de todo tipo, os brasileiros ricos se fizeram muito barulho, pela primeira vez em muito tempo. Era o momento de eles mostrarem sua presença depois de anos e anos de movimentos frustrantes (vide Cansei). Eles usaram a legitimidade dos protestos iniciais para darem a impressão de que estávamos todos no mesmo barco. A Copa do Mundo foi certamente um grande elo de ligação para eles.

Os gastos da Copa do Mundo só entraram no debate depois que o movimento explodiu. Embora os preparativos certamente mereçam críticas, apenas um ano antes do torneio nossa elite descobriu que isso poderia chamar mais a atenção para tudo de que não gosta no Brasil. De repente, fizeram o Brasil parecer antidemocrático como a Coréia do Norte, pobre como o Paraguai, caótico como a Índia, agressor dos direitos humanos como a Arábia Saudita, corrupto como a Rússia. O Brasil tem certamente pedaços disso tudo, mas é bem diferente de todos esses países.

Mesmo se o Brasil fosse ruim assim, nossa elite teria que buscar explicações nela mesma, e não apontar o dedo. Claro que existem exceções, mas brasileiros ricos, educados, bem viajados e contrários à Copa do Mundo não parecem muito interessados ​​em compartilhar o país que receberá o torneio basicamente porque começou a compartilhar seus lucros com os pobres.

O fato de o Brasil ter distribuído alguma riqueza nos últimos 20 anos não casa bem com jovens riquinhos que ouvem os seus avós ricões dizerem maravilhas sobre o tempo do regime militar, por exemplo. Alguns se identificam com os partidos da oposição e por isso criticam, mas é apenas uma questão de gosto: no que importa, o PT não é muito diferente do PSDB. Incluindo a ideia de receber a Copa do Mundo.

Nada surpreendentemente, são essas pessoas que defendem um tratamento mais duro a quem está fora do seu quadrado. Eles querem reduzir a maioridade penal, ampliar o policiamento ostensivo, transformar corrupção em crime hediondo (somente para os funcionários públicos, não para quem suborna) e assim por diante.

Entre esses tipos também estão os críticos das medidas para trazer médicos estrangeiros. Outros são os próprios médicos que se recusam a trabalhar em comunidades pobres — eles querem ganhar mais trabalhando como dermatologistas nas capitais. Não me parece que as elites europeias, americanas ou asiáticas sejam tão egoístas. É provavelmente uma coisa bastante da nossa América Latina. Azar o nosso.

Que melhor símbolo para a elite brasileira canalizar a sua frustração com o Brasil diferente do desejado por ela do que atacar a Copa do Mundo, o evento que faz o país parar a cada quatro anos? O apoio dos brasileiros ao torneio certamente caiu no último ano, mas são os chavões espalhados pelos ricos brasileiros (às vezes em inglês ) que estão no centro das atenções, como se esses caras vivessem as queixas que abordam. A verdade é que a maioria deles nem sequer se preocupa com prioridade para saúde e educação. Não usariam o sistema público nem que pudesem. Muitos estão sequestrando a agenda social da qual discordam para fazer crítica superficial e politicamente desengajada .

Isso é um muitas vezes um disfarce para o desconforto da elite em ser brasileira , ao contrário das críticas daqueles que tentam dar um sentido a seu antagonismo.

A grande mídia já notou a rejeição elitista e a amplifica. Vídeos como o de Carla Dauden, sugerindo um boicote à Copa do Mundo, são usados ​​para mostrar que há um sentimento ruim sobre o torneio em todo o país. Mas esse é o sentimento da “classe média alta”, como eles gostam de se definir (PSC: entre os ricos, aparentemente não há ricos no Brasil.)

Sediar a Copa do Mundo, um prêmio dado por conta da inclusão social que promovemos, está sendo transformado em um simples “nós gastamos muito, recebemos pouco”. O tom usado por muitos brasileiros ricos não é “vamos ajeitar isso” — a maioria deles sabe muito pouco de política para realmente se envolver com substância. Sua mensagem é “dane-se tudo” (como vídeo boicote de Carla Dauden sugere). Parece que o Brasil atrasado merece ser constrangido pelos carrascos, não pelas vítimas. As vítimas sabem criticar, mas não se envergonham do seu país.

Os elitistas mais argutos que criticam a Copa do Mundo no Brasil também têm usado essa grande chance para mostrar que não se relacionam com o futebol como todos os outros — venderam a idéia de que quem se envolve com a Copa do Mundo é que está desengajado com o Brasil. Eles se mostram como agentes reais da mudança, embora sejam completamente o oposto — basta olhar para as suas outras sugestões e você verá que as elites brasileiras não poderiam se importar menos com quem foi despejado por causa dos novos estádios, por exemplo.

Não sou marxista. Mas é difícil defender uma das elites mais tacanhas do mundo. Muitos jornalistas estrangeiros que passaram tempo suficiente aqui concordam comigo.

As favelas do Brasil de alguma forma lembraram nossa elite pequerrucha, branca e às vezes fanática religiosa que as chaves da escravidão estavam nos seus bolsos. Também por isso, criticam a Copa do Mundo que será jogada não muito longe dessas senzalas modernas. Nos morros do Rio e na periferia de São Paulo, existem centenas de milhares de pessoas cujos bisavôs não poderiam ser contratados porque os ex-donos não iriam comprar a sua propriedade novamente.

Esses brasileiros ricos não culpam apenas os governos e o comitê organizador da Copa do Mundo por atrasos nas obras: eles consideram os pedreiros lentos e ineficazes. É assim que eles satisfazem seu fetiche: os pobres são responsáveis por sua pobreza.

Elitistas brasileiros muitas vezes vêem uma pessoa negra como empregada doméstica ou motorista em potencial, sabemos disso. Se eles não recebem um copo de suco de laranja às 8 horas provavelmente é porque essas os pobres são apenas um bando de ingratos preguiçosos. “Só no Brasil”, me disse uma vez um executivo numa situação parecida.

(Não é muito diferente do que a revista The Economist recentemente sugeriu em uma compreensão muito pobre da complexidade do Brasil.)

Grande parte da mídia brasileira gira em torno da nossa pequena elite para escrever suas histórias. Embora existam ativistas com preocupações razoáveis sobre direitos humanos e melhores serviços para todos, mesmo na elite, a maior parte da mensagem disseminada tem a ver com o que os brasileiros ricos podem expressar em inglês. É assim que eles se fazem conhecidos: lamentando tudo aquilo que não entendem no Brasil. (Veja o caso da Arena Corinthians. Fica em uma região pobre. Muitos elitistas dizem que não vão lá porque é “uma parte feia da cidade”.)

Essa camisa pela Ellus é um grande exemplo de um velho padrão dos ricos brasileiros : eles fingem tudo o que está errado no Brasil não tem nada a ver com eles. A corrupção não começa com suas empresas. A desigualdade não surge do fato de eles pagarem menos impostos do que todo mundo (e ainda burlam o fisco se puderem). Pilantras nunca foram eleitos por eles nem financiados por eles. As partes atrasadas do Brasil não devem ser corrigidas por meio de políticas — a ideia dos elitistas é provar que o sucesso depende exclusivamente de cada um.

Se os outros fracassam, nada tem a ver com eles.

É difícil prever se eles conseguirão constranger Brasil até o final da Copa. Os protestos são mais mensuráveis do que a campanha de humilhação. De todos os legados, o que mais quero ver é o Brasil atrasado vencendo seus críticos. Eu venho do Brasil atrasado. Se a Copa do Mundo fosse nosso maior problema, seria ótimo.

Se a Copa do Mundo não for um sucesso, estarei aqui para reportar o que acontecer. Mas torço para que seja. Não só por causa de experiências anteriores em grandes eventos esportivos . É porque eu quero ver as pessoas que usam essa camisa engolirem o Brasil atrasado muito em breve.

Abaixo a Ellus!