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07 May 13:58

“Ainda tenho que ouvir o governador e o secretário da Segurança dizerem que eu fui para cima do cachorro”

by Conceição Lemes

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Cinegrafista choca e comove com relato do ataque de pitbull

 do Blog do Esmael Morais

O depoimento do cinegrafista Luiz Carlos de Jesus, da Band, conseguiu emocionar senadores e deputados que participaram na manhã desta quarta-feira (6), em Brasília, da audiência pública na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), que discutiu o massacre dos professores pela Polícia Militar no último dia 29 abril, em Curitiba.

Jesus relatava o ataque contra professores com bombas e cães quando foi às lágrimas ao mostrar a calça que usava rasgada por mordida de um pitbull. Ele disse que poderia ter morrido devido ao ferimento.

Os senadores pelo Paraná Roberto Requião (PMDB) e Gleisi Hoffman (PT) presenciaram o confronto e corroboraram a brutalidade da ação policial, que deixou mais de 200 manifestantes.

Assista ao vídeo:

Veja também:

“Dos 392 feridos, mais de 90% foram atingidos em cabeça, tronco, rosto, até nos olhos”

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07 May 13:54

Bem-vindos à cidade neoliberal

by noreply@blogger.com (Nuno Serra)

Ao longo dos últimos três anos, segundo uma investigação do The Independent, mais de 50 mil famílias terão sido compelidas a abandonar as suas casas, localizadas nos bairros do centro de Londres, sendo posteriormente deslocadas para zonas administrativas situadas na periferia da cidade. Um movimento silencioso, quase imperceptível, que o periódico britânico rotula de «limpeza social» (social cleansing) e que traduz fundamentalmente o impacto, nos agregados familiares pobres, da subida das rendas e dos cortes em protecção social, a partir de 2010 (com a fixação de um tecto nos apoios sociais e com a introdução do «imposto de quarto», nos alojamentos sociais).

A informação a que o The Independent teve acesso, e que consta de documentos que as autoridades recusaram inicialmente divulgar, permite constatar a existência de «um número sem precedentes de famílias que deixaram de poder pagar a casa em que viviam, sendo arrancadas dos seus bairros e deslocadas para localidades cada vez mais longe da capital, quebrando-se deste modo os laços com familiares e redes de apoio». No total, entre o início de 2012 e o final de 2014, o êxodo de famílias pobres da capital quase quadruplicou, tendo vindo entretanto a acelerar-se o ritmo das deslocações administrativas (que se estima rondar actualmente as 500 famílias por semana).

Ou seja, está a verificar-se precisamente o contrário do que prometera o Mayor de Londres, Boris Johnson, quando disse em 2010 que as reformas que iria implementar não conduziriam a uma «limpeza social de tipo Kosovo», assegurando que os londrinos jamais veriam «milhares de famílias a serem removidas dos lugares onde vivem». Emma Reynolds, a ministra-sombra do Partido Trabalhista para a Habitação, considera tratar-se de «uma tragédia, o facto de tantas pessoas estarem sem casa ou a lutar por manter um tecto e, como se isso não bastasse, serem ainda confrontadas com o cenário de ficarem a milhas de distância da sua actual casa».

Bem-vindos pois às novas cidades, socialmente desenhadas pelo fomento deliberado das desigualdades, pela recusa do papel do Estado e das políticas sociais públicas na promoção do bem-estar e da igualdade de oportunidades, para não já não falar da consagração das lógicas mais selvagens de mercado. Não configurando, como é óbvio, nenhuma nova etapa interessante nas formas de organização urbana das sociedades, a cidade neoliberal antes reconstitui, e reproduz, as lógicas de segregação e as «muralhas» que caracterizavam a cidade medieval.

06 May 18:03

Pode sim: casar gorda

by Polly

Uma amiga acabou de ficar noiva e quando foi contar a novidade para a família a primeira coisa que ouviu, em vez de “parabéns” ou “não faz isso, coisa ridícula casar”, foi: vai ter que fechar a boca até o casamento pra caber no vestido, né? 

Infelizmente ela não foi a primeira e não será a última noiva do mundo a ouvir esse tipo de asneira, então estamos aqui para lembrar umas coisinhas:

1. Seu pedido de casamento não foi “Amor da minha vida, quer perder 12kgs em um mês e casar comigo?” Pare de achar que precisa emagrecer antes de poder casar.

2. Está permitido mandar cagar quem tentar te convencer do contrário, mesmo que seja um ente querido. “Mamãe, te amo, mas vá cagar que o casamento é meu e caso do tamanho que quiser”.

3. Não existe esse negócio de “pra caber no vestido”. Não vivemos dentro de Quatro Amigas E Um Jeans Viajante, não há um único vestido de noiva que precisa caber em todas as noivas do mundo. Seu vestido tem que caber em você, não você caber nele.

Para servir de inspiração, separei algumas noivas lindas, felizes e gordas:

 

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Ao longo da semana nós postaremos mais noivas maravilhosas no nosso Instagram. Se quiser aparecer por lá, é só postar sua foto sendo uma noiva maravilhosa (ou alguma noiva maravilhosa que conhece ou viu por aí) com a tag #podesim ou taggear @mulherdelugar nas suas fotos para podermos acompanhar todas.

05 May 17:42

Proporcionalmente ao uso de bicicletas, mortes de ciclistas diminuíram 10% em São Paulo

by Willian Cruz
Em comparação com o aumento de ciclistas nas ruas, taxa de mortalidade caiu 10%. Foto: Willian Cruz
Para entender por que mortes teriam aumentado, analisamos os números e sua relação com as ciclovias. E descobrimos que a situação real é oposta à divulgada.
05 May 17:42

Sete mil trezentos e cinco dias de resistência: A greve dos petroleiros de 1995

by Beatriz Gomes

O ano de 2015 marca exatamente duas décadas de um dos principais momentos de luta e resistência do movimento sindical brasileiro. Especificamente no dia 3 de maio de 1995 é deflagrada uma greve geral, organizada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), que contou com a participação de importantes categorias do movimento operário brasileiro.

Os petroleiros vinham de um intenso processo de greves, paralisações e debates a respeito da proposta de reajuste sistematizada pela Federação Unificada dos Petroleiros (FUP). Além da justeza da pauta econômica de reivindicações, dois outros importantes elementos alimentaram o sentimento de revolta por parte dos petroleiros.

O primeiro foi o sentimento de traição, em função de Fernando Henrique Cardoso – recém-eleito presidente da República – ter se negado a cumprir o acordo firmado entre o ex-presidente Itamar Franco e a FUP. E o segundo elemento, que aguçou a luta dos petroleiros, foi compreender que a política econômica de desenvolvimento nacional proposta por FHC, em conformidade com a perspectiva neoliberal, ia à contramão das conquistas dos trabalhadores e do povo brasileiro na década de 1980.

Essa foi uma greve paradigmática, uma vez que o ideário neoliberal tem como estratégia formar um senso comum antiestatismo. Dessa forma, utilizam os sindicatos, no caso, os petroleiros, como artifício de controle do descontentamento da sociedade frente às políticas salariais e diminuição dos gastos sociais: tenta-se convencer a opinião pública de que os trabalhadores sindicalizados são exageradamente protegidos.

Os 32 dias dessa greve que abalou o final do século 20 foram uma verdadeira queda de braço entre a impossibilidade do neoliberalismo de atender às reivindicações sindicais e a impossibilidade de os petroleiros aceitarem o descumprimento de um acordo firmado anteriormente e ceder à ofensiva neoliberal.

Famosa foi a frase proferida por Fernando Henrique Cardoso, que disse que “quebraria a espinha dorsal do movimento sindical”. Essa sinalização do ex-presidente reflete a construção política de um projeto neoliberal de desenvolvimento, que tinha como objetivo central desconstruir as organizações das classes trabalhadoras, consolidadas e em ascensão desde o fim da ditadura militar.

Para isso, a mídia e a justiça mostraram que estão a serviço da ordem, do conservadorismo e da desmoralização e criminalização dos movimentos sociais. No dia 10 de maio, ao final do Jornal Nacional da Rede Globo, é anunciada uma lista de 25 demitidos do sistema Petrobrás, entre eles Antonio Carlos Spis, coordenador nacional da FUP.

O governo se manteve firme e intransigente na tentativa de negociação. A única ação do governo com relação à greve parece ter sido dar ordem para o exército ocupar as refinarias. Isso em um contexto de renascença da democracia brasileira, ou seja, uma afronta à transição democrática e à negociação política.

Findadas as tentativas de negociação e desgastados pelo cerco midiático e judicial, os petroleiros definiram pelo fim da greve, porém pela permanência da situação de mobilização e alerta. Embora os ganhos econômicos e as pautas reivindicativas não tenham sido conquistados, a “grande greve de 1995” teve significativos ganhos políticos e sociais.

Em 32 dias, os petroleiros deram uma verdadeira aula de solidariedade de classe, de resistência, de organização social e principalmente de esperança com o aprendizado de que é só com o povo organizado que se conquista vitórias.

Após 20 anos, as lições e desafios permanecem vivos para os brasileiros. A Operação Lava Jato ilustra como a mídia e seus ataques continuam e a necessidade de ainda lutar pelo caráter estatal da Petrobrás. A Câmara dos Deputados aprovou a PL 4330, que significa um grande retrocesso na luta dos trabalhadores. Maio de 2015 e ainda se faz necessário lutar – com o espírito dos petroleiros de 1995 – para não cairmos nas armadilhas conservadoras e, pior, retrocedermos anos de resistência.

No Brasil, tendo a greve dos petroleiros de 1995 como primeiro grande embate dos trabalhadores à ofensiva neoliberal, são sete mil trezentos e cinco dias de resistência. Seguimos firmes!

Crédito da foto da página inicial: Acervo Sindipetro Rio de Janeiro

05 May 17:27

Tragédia, mentira & Goebbels - Sentença sobre desastre do voo 1952 da TAM coloca em questão cobertura da mídia, que fez um esforço absurdo para criminalizar governo na maior tragédia da aviação civil brasileira

by Paulo Moreira Leite

Paulo Moreira Leite

Sete anos e nove meses depois da tragédia do Air Bus da TAM, em que morreram 199 pessoas em Congonhas, a Justiça inocentou os três principais…

04 May 19:46

O que acontece depois que morre um ciclista?

by Bicicletada Natal
Natal/RN, 04 de Maio de 2015



E depois que tudo passa: o espanto, a comoção, o medo, a lembrança. E depois que a rotina volta em sua segunda feira. A chuva bate na janela, o tempo ameno, feriadão bem aproveitado. E o que fica? Para os próximos dias em que a vida segue em sua rima: trabalho, trânsito, congestionamento e buzina. Depois que você lamenta e chora, depois que você se revolta nas redes sociais. O que acontece depois que morre um ciclista?



Acordamos em meio a notícia da morte de um ciclista. A gente tenta conseguir o máximo de informação e então a gente se mobiliza. O dia não pode seguir seu curso normal como se nada tivesse acontecido. Estou aflita no meu trabalho. A angústia envolve todas as lembranças de minha mãe me pedindo: “minha filha, por favor, não vá de bicicleta para o trabalho!”.  Tento confortá-la dizendo: “Não se preocupe tenho muito cuidado!”. Mas depende de mim, apenas de mim que nenhum incidente/acidente ocorra? São 10 meses desde que comecei a utilizar a bicicleta como transporte e o tempo te ensina muita coisa nessas pistas. E então, você ganha confiança e realmente acha que está fazendo tudo certo, que está tendo toda a atenção necessária para que sua vida não corra risco algum – inocência de principiante – na pista há uma selvageria louca que provavelmente nem Freud explica!

Há semanas em que você pensa muito se deve continuar a usar a bicicleta. E quando me veio a notícia da morte de Carlos, um ciclista atropelado na rota do sol por um motorista alcoolizado, fiquei realmente sensível, e hoje, nessa segunda, estou mais sensível ainda, porque é quando vem o silêncio, o silêncio depois do luto, depois que todos vão embora, é esse silêncio que me angustia: “Como os dias seguem depois do luto!”. Acordo ainda com a memória quente. Estava me preparando para me aventurar e aproveitar o feriado, mas esqueci de tudo para que nenhum silêncio se fizesse naquele dia, e, estou aqui de novo para que o silêncio não nos assombre mais um dia. O silêncio não pode nos amedrontar e nos convencer de que o melhor, o mais prudente é deixar de pedalar. Quebrar o silêncio diante da barbárie que naturalizamos é um ato de amor pela vida!

Saímos em marcha na quinta feira, dia 30 de abril de 2015 em protesto pela vida, não “contra a insegurança para passeios” como dizia a Tribuna do Norte. Nossa luta diária é pelo direito puro e simples de ir e vir, um direito básico de todos e todas. Mas, temos vivido em tempos de tão profunda limitação: nosso tempo, o espaço que temos, o que podemos ter, tudo é tão limitado que não conseguimos mais enxergar as possibilidades, nossas possibilidades de construirmos nossas vidas, de questionarmos o que nos é imposto – o certo, o justo... – e por aí vai uma gama de mecanismos que nos domesticam, colonizam nossas mentes e nossos corpos.

Precisamos de faixas para garantir nossa segurança? Em um mundo no mínimo sensato responderíamos: NÃO. Afinal, já construímos pistas para nos locomovermos. Geralmente nas capitais de nosso país, as pistas são divididas em duas e três faixas. Três faixas não seriam suficientes para todos nos locomovermos? SIM. Mas qual é a lógica imperante? Pista para carros! ??? A via não pode ser compartilhada por qualquer veículo que apresente uma velocidade menor que 80km. O imperativo é correr por mais que as estatísticas estejam aí mostrando que essa lógica que estamos utilizando está nos matando! Mais e mais carros entupindo as vias e uma cultura de desrespeito e violência se propagando como um vírus. Não há via para ser compartilhada. Não tenho porque sinalizar ou dar passagem a outro. Não há qualquer valor de gratificação vinda da cultura/cultuação dos carros.

O que estamos todos os dias tentando dizer não é o que alguns em seu uso do senso comum tentam nos jogar na cara, de que estamos querendo acabar com os carros. Não estamos impondo um novo conceito, ou lei, ou qualquer outra coisa. Estamos tentando discutir sobre os nossos espaços de convivência, sobre nosso bem estar no lugar que vivemos. Estamos falando de nossas ruas, nossas praças, nossas calçadas, tudo que tem sido privatizado ignorando o direito natural de todos e todas. A liberdade que tanto prega a democracia e pelo qual ela foi instituída (não efetivamente). Receio que se não formos capazes de construir um diálogo saudável sobre essas necessidades tão básicas, então continuaremos chorando nossos mortos calados, e continuaremos invisíveis até que nos tornemos mais um nessas estatísticas cruas.

O que deveria ser feito agora com a morte de Carlos? O que estaria em nossas mãos para que reivindicássemos nosso direito de também estar na pista? Os órgãos públicos não dirão nada, ou dirão: a culpa é do motorista alcoolizado! Mas, enquanto a nossa culpa de omissão? Omissão por não questionarmos. Omissão por não reivindicarmos. Omissão para mim é a palavra mais cruel nos tempos modernos. Omissão para mim significa apatia e covardia. É covarde que nos calemos. Que continuemos em nossos “passeios” em horários que não incomode o trânsito achando que assim estamos bem resguardados quando ignoramos todos os companheiros e companheiras que tem utilizado a bem mais tempo, suas bicicletas como meio de transporte ao trabalho. Fico imaginando todos que atravessam a ponte de igapó todos os dias e quantos ali já entraram para as estatísticas.


Não estamos falando de segurança unicamente para passeios, estamos falando do nosso direito à vida!



À Carlos Augusto de Souza! Presente!!!


Por Eva Timboo
Uma Ciclista na Cidade Grande
04 May 19:46

Arthur Meucci: Não confundam a direita liberal com os escravistas

by Luiz Carlos Azenha

AliceRuiz (1)

A MÁSCARA SELVAGEM DO ESTADÃO

por Arthur Meucci, via Conversa Afiada

Senti uma imensa tristeza ao receber o jornal O Estado de S. Paulo em pleno dia do trabalho. O jornal publicou um editorial, “Lições de Selvageria” (A3, 01/05/2015), classificando os professores como “partidários” e “selvagens”, chamando-os implicitamente de vagabundos, justificando assim o massacre da Polícia Militar contra a nossa categoria no Paraná com argumentos baseados em distorções: “não se poderia esperar outra reação da força de segurança destacada”. Fez-me adoecer tamanha insensatez e ignorância.

Alguns colegas me disseram: “Este jornal é de direita, já era de se esperar”. Não concordo. A verdadeira direita, liberal e republicana, jamais teria justificado o uso da força nem trataria os professores como “inimigos da democracia”.

Pelo contrário, uma das bandeiras da direita é a educação pública de qualidade para garantir as condições de igualdade do livre mercado e o exercício da democracia. Os verdadeiros liberais flertam com os professores, os defendem mesmo quando discordam de suas opiniões.

Por esse motivo os países liberais pagam excelente salários no campo da educação enquanto as ditaduras comunistas fizeram suas “revoluções culturais” aos moldes truculentos do PSDB. A “confusão de valores, a desinformação e a desmoralização das instituições” não advém dos professores como escreveram, mas da imprensa servil aos obscuros interesses políticos.

Os fundadores deste jornal, Francisco Rangel Pestana (1839-1903), Julio Mesquita (1862-1927) e Julio de Mesquita Filho (1892-1969), liberais autênticos, lutaram ao lado dos professores e intelectuais por escolas e universidades públicas de qualidade – ao contrário do que faz a atual geração, representada pelo sr. Francisco Mesquita Neto.

A direita no Brasil é um fenômeno raro e não tem um partido de verdade. UDN, Arena, PFL/DEM, PSDB, PSC e outros partidos considerados de “direita” estão em um leque entre “reacionários” e “fascistas”, defensores de uma sociedade de casta. Para disfarçar seus reais interesses autoritários, mão de obra barata e subserviente, distinção de espaços entre os senhores e seus servos, eles utilizam o discurso liberal como bem lhes convém e se autoproclamam como “direita”.

Thomas Jefferson, Ludwig von Mises e Milton Friedman servem somente como figura retórica – os seus textos e ideias são recortados e descontextualizados para que os ideólogos ligados à elite possam mascarar suas políticas de exploração social. Como alguns religiosos fazem para ludibriar seus fiéis.

Afinal, não convém escrever nos editoriais que os negros, pobres e nordestinos são inferiores e não merecem as benesses do Estado brasileiro. A sociedade defendida hoje pelas elites representadas por este editorial não é a sociedade ideal da verdadeira direita, defendida pelos pais fundadores do jornal que militavam pelos ideais abolicionistas, republicanos e liberais da igualdade entre os cidadãos, bem comum e de progresso social.

Para ter uma sociedade capitalista bem-sucedida é preciso uma boa educação e, pasmem, para que haja uma boa educação é preciso ter professores motivados e bem pagos. Os Mesquitas sabem, pois seus ancestrais ensinaram. Mas quem disse que nossa elite quer uma sociedade capitalista bem-sucedida? O pensamento crítico, a participação democrática da população e a igualdade social são tudo o que as novas gerações de empresários não querem – acham que a ralé não precisa de boa educação, mas de trabalho braçal para se ocupar e da violência policial para acabar com as subversões.

É de se questionar que tipo de jornalismo estão fazendo.

Veja também:

Em vídeo, a cronologia da barbárie cometida por Beto Richa no Paraná

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04 May 19:43

“Dos 392 professores feridos, mais de 90% foram atingidos da cintura para cima: cabeça, tronco, rosto, até nos olhos”

by Conceição Lemes

professores feridos do Paraná

Quatro dos 392 professores feridos: Elaine Antunes, Marcio Henrique dos Santos, Affonso Cardoso e Cláudio Franco. Cláudio é agente penitenciário e professor da rede particular de ensino

por Conceição Lemes

Curitiba, 29 de abril de 2015. Pela manhã, professores, funcionários da rede estadual de ensino e de outras categorias do serviço público do Paraná começaram a chegar à Praça dos Três Poderes. O Centro Cívico da cidade. Aí, ficam a Assembleia Legislativa (Alep), o Palácio Iguaçu (sede do governo do Estado) e o Tribunal de Justiça.

Já havia policiais a postos, por todo lado. O governador Beto Richa (PSDB) trouxe 1.600 do interior, que se juntaram aos 4 mil de Curitiba e Região Metropolitana. Eles ficaram se revezando.

Os trabalhadores resolveram permanecer o dia todo em frente à Alep para fazer pressão sobre os deputados estaduais para que não votassem o projeto de lei que confisca a poupança previdenciária de 200 mil servidores públicos do Estado. A votação estava prevista para as 14h30.

O projeto, agora lei aprovada pelos parlamentares e já sancionada por Richa, permite ao governo tucano sacar mensalmente R$ 150 milhões – ou R$ 2 bilhões ao ano em valores corrigidos – do fundo ParanaPrevidência.

Havia uma liminar para que 480 trabalhadores acompanhassem a votação dentro da Assembleia. Só que o Tribunal de Justiça cassou-a.

Por volta das 14h, um grupo de deputados pró-professores foi até o presidente da Alep, Ademar Traiano (PSDB), para tentar convencê-lo a liberar a entrada dos 480.

O presidente da Assembleia não liberou o acesso nem mesmo dos diretores da APP-Sindicato dos Trabalhadores da Educação Pública do Estado do Paraná.

Parêntese. APP significa Associação dos Professores do Paraná (APP). Como até 1988, funcionário público não podia ser sindicalizado, os professores criaram-na . A partir de 1989, a proibição caiu e os professores puderem criar o seu sindicato. Só que eles quiseram manter a marca APP. O sindicato é de professores e funcionários de escolas públicas.  Fechando o parêntese.

Tarso, Mario Sérgio e José CândidoO advogado/blogueiro Tarso Violin e os professores Mário Sérgio Ferreira Souza e José Cândido de Moraes

“Na hora em que essa notícia chegou lá fora, um helicóptero com policiais militares começou a fazer voos rasantes sobre os milhares de professores que estavam na praça”, relembra José Cândido de Moraes. “O intento, acredito, era desviar a atenção dos professores para começar o ataque. Foi o que ocorreu.”

José Cândido é professor de História e Filosofia e integra um grupo chamado Cinema da Luta, que nasceu em fevereiro deste ano. Ele está fotografando e fazendo vídeos da greve e das manifestações, para produzir um documentário.

“Como os professores já estavam  bastante assustados com os voos a baixíssima altitude do helicóptero, ficou mais fácil iniciar o ataque”, expõe. “De repente, os policiais começaram a lançar bombas e tiros de balas sobre os professores e demais funcionários públicos.”

Concentrados na Praça dos Três Poderes, eles foram atacados covardemente pelas tropas do tucano Beto Richa e do seu secretário de Segurança, o delegado  Fernando Franscischini, reeleito deputado federal em 2014 pelo Solidariedade.

Durante quase duas horas, 1.800 policiais lançaram sobre os manifestantes aproximadamente 1.500 bombas de efeito moral, além de balas de balas de borracha, gás lacrimogêneo, spray de pimenta e cães. Isso sem falar dos cassetetes pra todo lado.

“Eu nunca vi tamanho aparato policial”, avalia, ainda perplexo, Mário Sérgio Ferreira Souza. “Nós não esperávamos nem estávamos preparados para o massacre do dia 29.”

Mário Sérgio é professor aposentado rede pública estadual (deu aula de matemática) e secretário de Assuntos Jurídicos da APP-Sindicato.

“Os policiais não agiram para conter ou dispersar a manifestação, como é a norma; eles nos atacaram”, prossegue. “Foi um ataque premeditado. Ao entrar na área do Centro Cívico, a tropa de choque foi dividindo e encurralando o pessoal que estava na praça. Ao mesmo tempo, jogava bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo, balas de borracha, spray de pimenta e cães em cima da gente.”

Sobrou até para o jornalista da Band, que foi mordido por um pitbull do Richa.

“Por ordem do governador e do secretário de Segurança, os policiais vieram preparados para o massacre”, observa Mário Sérgio. “Tanto que foram jogando as bombas  indiscriminadamente em todos os cantos da praça, a ponto de atingir duas creches do outro lado da rua, deixando as crianças muito assustadas.”

Mário Sérgio participou de todas as mobilizações de professores nos últimos 35 anos: 1978, 1980, 1981, 1982, 1986, 1988, 1990, 2001, 2014 e 2015.

Há divergência sobre o número de feridos. Segundo a Prefeitura de Curitiba, seriam 213. Para a APP-Sindicato,  bem mais.

“Dos 392 professores feridos, mais de 90% foram atingidos da cintura para cima: cabeça, tronco, rosto, até nos olhos”, denuncia Mário Sérgio, secretário de Assuntos Jurídicos da entidade. “Na nossa avaliação, foi ordem do comando para que os policiais atirassem assim nas pessoas.”

Um dos feridos é o advogado e blogueiro Tarso Cabral Violin. É dele o Blog do Tarso.

O vídeo abaixo retrata o início do massacre. Mostra o exato momento em que o rosto de Tarso foi atingido por estilhaço de uma bomba. “Por dois centímetros, não fiquei cego”, observa o blogueiro, que fez BO e exame de corpo de delito.

“Os tiros de balas de borracha visavam atingir o rosto das pessoas. Os soldados miravam as nossas cabeças”, reforça José Cândido. “A impressão é de que queriam nos acertar de qualquer forma. Depois de um ataque com bombas e tiros, eles paravam um pouco. Esperavam a gente se aproximar e reiniciavam o ataque. Esse processo durou aproximadamente duas horas.”

“Mulheres, senhoras idosas, estudantes e professores aposentados, todos foram atacados como bandidos”, continua, indignado. “Havia a intenção de ferir as pessoas. Os policiais miravam para acertar. Parecia que estavam fazendo um treinamento, utilizando os professores e professoras como alvo!”

A truculência e covardia dos ataques não pararam por aí.

Bastava ter um aglomerado de três ou quatro pessoas, para os policiais atirarem nelas.

“Eles não respeitaram sequer a retirada dos feridos da praça”, enfatiza Mário Sérgio.

Do caminhão de som da APP-Sindicato, o pessoal implorava para que os policiais esperassem a retirada dos feridos. Mas os pedidos eram ignorados e as bombas sucediam.

Os feridos tinham que ser resgatados sob o “fogo” cerrado das balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral lançadas às vezes de longa distância.

“Os que caíam no chão eram ainda agredidos com cassetetes até que os colegas conseguissem levá-los para longe da linha de frente”, observa José Cândido.

Os policiais não portavam apenas as chamadas armas não letais, mas que podem matar, sim. Muitos carregavam também no coldre armas de fogo, como este soldado que está atrás das professoras. Na mão, ele tinha escopeta calibre 12 para balas de borracha. Na cintura, aparentemente uma pistola 380, que usa no dia-a-dia de trabalho.

professores do paraná e soldado

A foto dessas professoras foi feita na parte da manhã de 29 de abril; a barbárie foi à tarde

Além disso, muitos dos policiais, que estavam dentro da Assembleia Legislativa na hora da votação, portavam uma submetralhadora.

“Portar armas de fogo em manifestações é um perigo a mais”, atenta Mário Sérgio. “O soldado é um ser humano. Na hora da pressão, pode acabar atirando.”

Ele observa: “90% dos professores da rede pública do Estado do Paraná são mulheres. E a mulher tem mais o espírito de cuidar. Não é uma categoria que vai atropelando o outro. Ao contrário. Se a categoria tivesse mais homens, o massacre teria sido maior”.

“Na verdade, não foram as bombas e balas que me assustaram”, conclui José Cândido. “O que mais ainda me assusta é que os policiais não demonstraram qualquer compaixão, qualquer senso de humanidade.”

Vergonha nacional. A excessiva violência do governo Richa no fatídico 29 de abril maculou a história do Paraná e do Brasil inteiro, como bem observaram os professores da USP num abaixo-assinado em solidariedade “com os todos os professores, funcionários e estudantes em luta”.

Agora veja quais deputados estaduais, mesmo sabendo do massacre dos trabalhadores na praça. votaram a favor da reforma da ParanaPrevidência. Veja também quem votou contra. O infográfico é de jornal Gazeta do Povo.

paraná pacotaço 1-001 Paraná pacotaço 2Abaixo dois trechos do vídeo de quase duas horas gravado pelo professor José Cândido de Moraes. A íntegra será entregue ao Ministério Público estadual.

Vídeo da  Abridor de Latas Comunicação Sindical, sugerido por Larissa e Guilherme Mikami, no Facebook

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 Leia também:

Dr. Rosinha, sobre o Beto “Hitler” e o Fernando “Fascischini”: A dor não se expressa 

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03 May 01:55

A propósito da ditadura

by Francisco Seixas da Costa
Alguém, de uma geração bem mais nova, comentava comigo numa conversa o texto que anteontem aqui publiquei, sobre uma pequena e inocente "aventura" num 1º de maio. Para se mostrar surpreendido com a violência e o arbítrio da repressão política nesse tempo da ditadura, agora que está na moda absolvê-la dos crimes e interpretá-la como um tempo de "lei e ordem", em que a "paz social" reinava, onde os portugueses "viviam habitualmente", como gostava de dizer o déspota de Santa Comba. É claro que as perseguições, os presos políticos, as torturas, os assassinatos, os crimes coloniais, somados à condenação do país à miséria de décadas foram, para alguns, apenas "detalhes", como diria Le Pen sobre os campos de concentração nazis.

Às vezes, torna-se difícil explicar aos jovens os arbítrios e os métodos da ditadura. A censura da imprensa, numa era de internet e de circulação livre de informação, é, por exemplo, algo que eles têm dificuldade em imaginar e conceber.

Há semanas, numa palestra pública para um auditório de jovens, dei-lhes três exemplos muito simples, que eu pressentia que ninguém na sala conhecia. E era verdade, todos ficaram surpreendidos. Não posso é garantir se todos ficaram escandalizados.

O primeiro teve a ver com o referendo para aprovação da Constituição de 1933. Ao revelar que as abstenções contaram como votos a favor - porque quem não se opõe é porque está de acordo... - a sala caiu num espanto.

O segundo caso, que muita gente bem adulta ainda hoje desconhece, é que, nos atos eleitorais da ditadura, as pessoas levavam os boletins de voto de casa. As listas (quase sempre só uma, salvo os raros casos em que a oposição se apresentou a voto) eram entregues na residência dos potenciais votantes, pelo correio ou pessoalmente (corri as ruas de Vila Real, em horas mortas, nessa tarefa, pela oposição local, em 1969). À oposição não era dada cópia dos cadernos eleitorais e, não havendo fotocópias à época, era necessário copiar à mão os nomes e moradas de cada um, em escassas horas em que a leitura das listas era permitida. A impressão dos boletins de voto era da responsabilidade dos candidatos, ficando o votante sempre na dúvida sobre se o tipo de papel escolhido era, de facto, o mesmo e se, na hora do escrutínio, ao entregar o seu voto, não podia ficar identificada a sua opção.

Mas a maior surpresa para meus jovens auditores foi a revelação do conceito de "medidas de segurança". Para quem não saiba, o cumprimento de uma pena de prisão por "crime político" podia não significar a saída imediata da prisão. Se as autoridades viessem a considerar que havia um perigo público com o regresso do cidadão à liberdade (e mesmo em certos casos de absolvição!), podiam ser instituídas "medidas de segurança" por um período de dois anos - decisão que era renovável, sem um limite legal, o que teoricamente poderia configurar uma prisão perpétua. Leia-se esta elucidativa peça (decreto-lei 40.550) : "O caráter indefinido do internamento permite dizer àquele que o sofre que nas suas mãos está o merecer a liberdade, o que poderá ser um meio eficaz de estimular no seu espírito reações salutares"...

Era isto o fascismo. Querer branqueá-lo não é apenas uma desonestidade, é um crime. Que a democracia não pune com prisão, mas deve punir com imenso desprezo.
02 May 22:00

A sensação de ser uma fraude

by Nessa Guedes

Meu dia estava uma bosta. E não era por causa do meu cabelo com um corte que eu simplesmente não sei como arrumar. Nem minha unha por fazer. Nem os quilos a mais que eu engordei no ultimo mês e a barriga saliente que eu não sei onde enfiar.

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Eu tenho 25 anos de idade e uma empresa de tecnologia. Desde os dezoito anos eu respondo entrevistas sobre como é ser mulher e programadora; e agora eu respondo entrevistas sobre como é ser empreendedora. Mas ninguém sabe que eu tenho mesmo é um desejozinho eterno de sumir do mapa dia sim, dia não. Simplesmente porque é muito assustador fazer o que você gosta. E é muito assustador ser dona o próprio destino. É assustador não conseguir aceitar elogios das pessoas, porque embora tudo esteja dando certo, você não consegue tirar da mente a ideia de que você é uma fraude.

Essa sensação me persegue o tempo inteiro.

No início da minha carreira, há uns dez anos, eu estava em uma aula do curso técnico e nós simulamos uma rede de computadores local para aprender sobre segurança. O exercício que o professor passou consistia em realizar uma série de ataques aos computadores dos colegas e nossa avaliação se daria pelo modo com que defenderíamos nossas máquinas. Eu era a única mulher da turma, e, em poucos segundos, minha máquina foi bombardeada de tentativas de ataques. Porque todos os colegas da turma, sem exceção, tentaram atacar o meu computador – claro, a única mina. No final da aula, após várias rodadas de ataques, descobrimos que o único ataque que estava funcionando era um específico, que usava uma ferramenta que filtrava tudo o que você digitava no navegador de internet (um modo antigo de conseguir senhas e usuários) – e o único computador que passou ileso foi o meu. O professor foi verificar o que eu havia feito, porque eu não sabia explicar, e descobriu: eu simplesmente estava usando um sistema operacional seguro (GNU Linux) e um navegador que não era o Internet Explorer. A galera ficou comentando sobre o episódio por muitas semanas e sempre me elogiavam pelo desempenho.

Mas eu sempre me desmanchava em explicações para fazer os caras pararem de acreditar que eu tinha feito algo grandioso – afinal, eram só as ferramentas que eu usava no dia a dia. Eu era uma fraude, óbvio. Enganei todo mundo, e um dia alguém iria me descobrir. Só que eu usava GNU Linux porque eu sabia que era mais seguro. Posso não ter feito nada para me defender dos ataques, mas eu tinha pensado diferente da maioria – e era isso que o professor esperava que a gente fizesse. Mas a sensação de fraude era absoluta.

Eu tenho dois medos na vida: a pressão e o fracasso. Na maioria das vezes eles vem juntos, e foi o caso.

Abril, 2015. Eu tinha uma reunião da empresa para ir, e eu não queria ir. Porque ia ter que admitir que havia falhado de verdade, e aquilo me aterrorizava como se fosse a prova cabal de que eu realmente era uma fraude. Era a prova pela qual esperei a vida inteira. Trouxe na bolsa um licor de vinho do Porto e um maço de cigarros. Porque claro que seria horrível o suficiente para precisar de suporte moral depois. Cheguei com duas horas de antecedência para me esconder no fundo da Starbucks antes, tomar uma bebida quente, e ficar encolhida em posição fetal até o momento de levantar e caminhar para a minha forca de nó apertado e corda grossa. Metaforicamente falando, claro. O problema do fracasso é que ele pode vir em pequenos shots que você vai engolindo e tentando assimilar – ou ele vem como um piano que cai na sua cabeça, direto do quinto andar. E você não tem muito tempo para gritar “epa!” antes de ser esmagada. Era assim que eu me sentia: esmagada.

Como profissional, sempre me sinto empoderada para assumir que levo comigo a responsabilidade pelo meu próprio ganha-pão. Como ser humano, já cresci o suficiente para não ter problemas em admitir quando erro e pedir desculpas. Mas quando uno a profissional com a ser humana, eu amarelo. Me sinto uma completa fraude. E nesse dia em especial eu havia respondido uma entrevista sobre minha carreira para, ironicamente, seis horas depois ter que encarar que eu havia falhado.

Sim, aquele projeto teve um contratempo que não era culpa minha, nem de ninguém, mas quem teria que responder pelo problema era eu, claro. A fraude viria à tona finalmente.

Sentei ali no Starbucks com um copo gigante de chá indiano, e liguei o Kindle. Na minha frente pairava o recém lançado livro que reúne textos do Lugar de Mulher, e resolvi lê-los para me distrair. À medida que eu ia lendo os textos, fui assimilando e absorvendo que eu não era a única mulher da Terra que se sentia uma fraude, carregando mundo nas costas. De repente não me senti mais tão sozinha em meio aos meus dilemas. Lembrei das minhas respostas à entrevista, onde eu afirmava que o problema da falta de mulheres na área de tecnologia era a representatividade. Que temos poucas mulheres em quem nos espelhar, dividir as mazelas, e acabamos nos sentindo muito sozinhas. Fui para a reunião me sentindo mais leve e mais segura. Eu não estava mais sozinha, tinha uma legião de mulheres poderosas vivendo os mesmos dilemas que eu.

No final das contas, consegui segurar o tranco, e a reunião foi absurdamente melhor do que eu poderia imaginar. A sensação de fraude foi temporariamente apagada pelas palavras “confiamos no seu trabalho, foi por isso que viemos até você”. E se aquelas pessoas (que conhecem meu trabalho há anos) estavam motivadas o bastante para me dizer aquilo, quem era eu para desmenti-las? E na boa; o problema nem era aquele bicho de sete cabeças que eu estava tentando provar para mim mesma.

Saí com a cabeça erguida e um plano bem elaborado para lidar com a situação. Me senti bem. Pensei em quantas mulheres deixam de fazer coisas, ou de sentir o gostinho do reconhecimento, por causa dessa sensação constante de fraude em que se colocam. Que o mundo nos coloca. Vivemos com essas neuras desde que somos crianças. Mas existe luz no fim do túnel. A gente pode se dar as mãos e se apoiar.

Você já se sentiu uma fraude hoje?

Me dá um abraço.

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(Aqui e aqui tem alguns textos interessantes sobre “o sentimento de fraude” ou “a síndrome do impostor”, sensação que acomete muitas mulheres no mercado de trabalho)

02 May 21:49

A Petrobras e a teoria do domínio do boato

by Diario do Centro do Mundo
Por Mauro Santayana, na RBA.   Os jornais foram para as ruas, na última semana, dando como favas contadas um prejuízo de 6 bilhões de reais na Petrobras, devido a casos de corrupção em investigação na Operação Lava Jato. Seis bilhões de reais que não existem. E que foram colocados no “balanço”,...
02 May 21:49

Marcelo Zero: Porque a reportagem da Época e a ação do MP-DF são jabuticabas

by Conceição Lemes

Mariel

O investimento no porto de Mariel não tem, assim, nada de ideológico. Trata-se, na verdade, de um investimento pragmático em comércio, exportação e na internacionalização de empresas brasileiras

Obras no Exterior e Exportação de Serviços: Esclarecimentos Elementares

( ou porque é bom ter o Lula operando pelo Brasil ou ainda porque a reportagem da Época e a ação do MP-DF são jabuticabas)

por Marcelo Zero, enviado pela assessoria de imprensa da Liderança do PT na Câmara dos Deputados

Em primeiro lugar, é preciso desmitificar algumas ideias equivocadas, propagadas pela mídia, sobre esse tipo de exportação, quais sejam:

* A exportação de serviços gera empregos no exterior e desemprego no Brasil.

* O Brasil financia obras de infraestrutura no exterior, prejudicando o financiamento da infraestrutura nacional.

* Tais obras são financiadas sem licitação e contratadas de forma não transparentes.

* Há financiamento de bens estrangeiros, prejudicando a indústria nacional.

A bem da verdade, o que se constata é que:

1. Brasil não financia gastos locais e empregos de estrangeiros, apesar de Agências Créditos à Exportação de outros países financiarem.

2. Os financiamentos BNDES cobrem apenas empregos no Brasil e bens nacionais.

3. Os financiamentos são liberados ao exportador em reais, no Brasil. Nenhum centavo é remetido exterior.

4. O país importador paga o BNDES, em dólares, o valor do principal e juros, o que é muito interessante numa conjuntura de apreciação da moeda norte-americana.

5. Os financiamentos desses pacotes, incluindo insumos, seguem práticas mundiais.

6. As exportações financiadas de serviços de engenharia são registradas no Siscomex e no Siscoserv, auditadas pelo TCU, e submetidas à fiscalização usual da Receita Federal.

7. Qualquer juiz, ou ainda qualquer parlamentar, pode requerer abertura do sigilo das operações financeiras envolvidas nessas exportações, com base no disposto na Lei Complementar nº 105, de 2001.

8. Os empréstimos do BNDES para empresas que exportam serviços ou bens (EMBRAER, por exemplo) para o exterior correspondem a somente 2% do total financiado pelo banco.

Na realidade, o setor de serviços representa, hoje, cerca de 80% do PIB dos países mais desenvolvidos e ao redor de 25% do comércio mundial, movimentando US$ 6 trilhões/ano.

Somente o mercado mundial de serviços de engenharia movimenta cerca de US$ 400 bilhões anuais e as exportações correspondem a 30% desse mercado. Considerando-se as maiores firmas exportadoras de serviços de engenharia, a posição brasileira no mercado mundial é ainda relativamente pequena, oscilando entre US$ 1 bilhão e US$ 2,5 bilhões, desde o início da década de 1990.

Assim, enquanto, que no período de 2008 a 2012, o apoio financeiro do Brasil às suas empresas exportadoras de serviços foi, em média, de US$ 2,2 bilhões por ano, o apoio oficial da China às suas empresas exportadoras alcançou, nesse mesmo período, a média anual de US$ 45,2 bilhões; o dos Estados Unidos US$ 18,6 bilhões; o da Alemanha, US$ 15,6 bilhões; o da Índia, US$ 9,9 bilhões.

Por conseguinte, o Brasil ainda tem deficiências, no que concerne ao apoio às suas empresas exportadoras de serviços. Ao contrário do que se afirma, o nosso país financia relativamente pouco as suas empresas exportadoras de serviços.

Entretanto, mesmo com o apoio oficial ainda muito aquém do concedido nos outros países, é notável o impacto positivo sobre empregos, no Brasil, e sobre as exportações de bens, dos financiamentos que são concedidos.

É que a cadeia da construção civil, principalmente da construção civil pesada, é bastante longa e robusta, de modo que a dinamização do setor via exportações de serviços têm impacto muito positivo sobre uma série de atividades econômicas.

No período 1998-2011, os gastos com mão de obra brasileira expatriada, em virtude desses financiamentos a exportação do BNDES, ascenderam a US$ 600 milhões. Frise-se que se trata de mão de obra qualificada, que tem empregos de boa remuneração. Estima-se que, apenas em 2010, as exportações de serviços de engenharia tenham gerado cerca de 150 mil empregos diretos e indiretos no País.

Além disso, os gastos com a importação de bens brasileiros em países como Peru, Argentina, Angola, Venezuela, República Dominicana, Uruguai, etc., em função de algumas dessas exportações financiadas pelo BNDES, ascenderam a US$ 1,6 bilhão, no período 1998-2011. Entre tais bens, estão os aços, os cimentos, vidros, material elétrico, material plástico, metais, tintas e vários outros.

Somente os gastos que outros países tiveram com consultorias brasileiras, em razão dessas exportações, ascenderam a quase US$ 60 milhões, no período considerado.

É óbvio, portanto, que essas exportações têm um impacto direto e muito positivo sobre uma longa cadeia de produção de insumos e serviços relacionados à engenharia.

Além disso, elas ajudam a diminuir o nosso déficit em conta corrente.

Quando o BNDES faz um empréstimo para a Odebrecht, por exemplo, construir uma obra no exterior, ele está financiando também, de modo indireto, um número grande de outras empresas que participam da cadeia da construção civil brasileira, beneficiando, sobretudo, o Brasil e sua economia. O mesmo faz Lula, quando defende essas empresas no exterior.

Mas se não trata somente disso. É oportuno entender que essas obras no exterior funcionam como uma espécie de ponta de lança para outros bens e serviços do Brasil.

Elas criam interesses comuns, fortalecem a presença brasileira no exterior e abrem as portas de mercados externos para a produção nacional.

É por isso que a China e outros países investem cada vez mais nesse mercado, consolidando a sua presença no mundo.

A China, aliás, já se prontificou, em recentes acordos bilaterais com a Argentina, a construir hidrelétricas na Patagônia e uma nova central nuclear naquele país. Também já se dispôs a construir um porto no Uruguai. Se não se tomar muito cuidado, o Brasil perderá o mercado criado pela integração regional.

Somente a chinesa CRCC, especializada em construção de ferrovias, tem US$ 95 bilhões investidos no exterior. Muito mais que todas as empresas brasileiras juntas .

Afinal, esse mercado mundial de obras é muito concorrido e os países fazem poderosos lobbies para obter contratos. Presidentes, primeiros-ministros e até monarcas se empenham pessoalmente para que as empresas de seus países consigam obras no exterior. Assim como se empenham também para que comprem os produtos de seus países. E isso envolve também ex-presidentes.

Nos EUA, e em outros países, isso é considerado muito natural. Há até grupos econômicos, como o Carlyle Group, que se especializam na contratação de ex-presidentes e ex-secretários de Estado para fazer lobby no exterior para empresas norte-americanas. Só no Brasil é que inventaram a jabuticaba jurídica do tráfico de influência internacional contra Lula, por ter, supostamente, usado sua influência para obter obras para empresas brasileiras, principalmente a Odebrecht.

Considere-se que  empresas capazes de realizar obras no exterior são poucas, pois é necessária muita musculatura técnica, operacional e financeira para disputar esse mercado. No Brasil, são pouquíssimas. Odebrecht, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão, basicamente. A Odebrecht é a principal. É a que mais tem obras e que mais concorre .

Em relação especificamente ao Porto de Mariel, tão criticado por nossos asnos globalizados, deve-se levar em consideração que tal obra custou 957 milhões de dólares, sendo 682 milhões de dólares financiados pelo BNDES. Mas, em contrapartida, 802 milhões de dólares investidos na obra foram gastos no Brasil, na compra de bens e serviços comprovadamente brasileiros. Estima-se que tal obra gerou 156 mil empregos diretos e indiretos no País.

Mas os benefícios não se restringem a esses efeitos imediatos de dinamização da nossa economia.

O porto de Mariel será acompanhado de uma Zona Especial de Desenvolvimento Econômico, criada nos moldes das existentes na China. Nessa zona, ao contrário do que ocorre no resto do país, as empresas poderão ter capital 100% estrangeiro. Assim, o Brasil está criando as condições para que empresas brasileiras lá se estabeleçam e desfrutem desse regime jurídico privilegiado. Por isso, o Brasil já abriu uma linha de crédito de 290 milhões de dólares, para a implantação desta Zona Especial em Mariel.

Frise-se que a localização de Mariel é absolutamente estratégica e privilegiada. Com efeito, tal porto está a menos de 150 quilômetros do maior mercado do mundo, o dos Estados Unidos. E o embargo comercial imposto há décadas, como se sabe, está em vias de extinção. Com isso, as empresas brasileiras terão à sua disposição, além da localização estratégica, num moderno porto que comporta navios gigantes, post panamax, uma plataforma de exportação que as colocará às portas do maior mercado mundial.

O investimento no porto de Mariel não tem, assim, nada de ideológico. Trata-se, na verdade, de um investimento pragmático em comércio, exportação e na internacionalização de empresas brasileiras. Tal observação também se aplica a todos os outros investimentos feitos pelo Brasil no exterior.

Marcelo Zero, sociólogo, é assessor da bancada do PT no Senado Federal.

Leia também:

BNDES rebate revista: criamos empregos e geramos renda no Brasil

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01 May 22:15

Cinco anos depois

by papacapim

Esse blog nasceu na Palestina, cinco anos atrás, no inverno. Fazia meses que eu dizia querer começar um blog, sem nunca colocar a ideia em prática. Anne insistia que a ideia era boa, que minhas receitas eram boas, que a minha escrita era boa… Mas no fundo uma voz me dizia: ‘Quem vai querer ler o que você tem pra dizer?’, então eu tratava de me ocupar com outras coisas e desistia do blog. Até que nesse famoso inverno Anne foi pra Gaza e eu fiquei em Belém. Uma noite eu perdi o sono e, sozinha na sala da minha linda casa de pedra, a dois passos da igreja da Natividade (onde Jesus nasceu), criei o Papacapim.

Meu objetivo era, como está escrito lá em cima, desmistificar a culinária vegetal. Eu queria mostrar que veganos não comem só folhas, que comida vegetal pode ser extremamente interessante, variada, acessível, saborosa e capaz de seduzir até onívoros. Os blogs veganos em Português que cruzaram o meu caminho nessa época ofereciam receitas que agradariam a Sandra de 15 anos, se eu tivesse me tornado vegana durante a adolescência. Acabei percebendo que isso faz sentido, já que muitas pessoas se tornam veganas no final da adolescência e nessa fase geralmente temos uma quedinha por junk food (por isso via tanta receita de coxinha, bolo de caneca e estrogonofe de proteína texturizada de soja). Mas aos 26, com um paladar adulto e mais exigente, eu queria comida de verdade, cheia de vegetais, com sabores mais intrigantes e mais sofisticados. Talvez eu não tenha procurado direito, talvez as receitas que apareciam na minha cozinha já estavam sendo publicadas em outros blogs brasileiros, mas o fato é que o Papacapim nasceu porque eu achava que tinha um buraquinho virtual que eu podia preencher. Na pior das hipóteses, pensei com meus botões, eu terei um registro on-line das minhas invenções, desocupando o espaço que elas ocupavam na minha mente.

Minhas aspirações eram tão modestas que levei alguns meses antes de começar a contar às pessoas ao meu redor que eu tinha um blog. Apesar de ter nascido em fevereiro de 2010 o blog se manteve secreto até o final de abril, início de maio. Por isso resolvi comemorar o aniversário do Papacapim nesse período do ano, que foi quando ele se tornou público.

Durante meses eu só tinha duas leitoras: minha irmã Lila e minha amiga Monalisa. Mas o prazer que eu sentia ao preparar os posts (criar as receitas, fotografá-las e escrever os textos) era tão grande que a falta de popularidade não me desencorajou e segui em frente, feliz da vida. Eu tinha arrumado meu lar virtual, preparava comida com todo o amor do mundo, colocava na mesa e esperava os convidados aparecerem. E aos poucos eles foram chegando. Pelos comentários que vocês fizeram, a maioria das pessoas chegou no blog procurando uma ou outra receita específica e acabou ficando porque , além de terem sido seduzidas pelas receitas, se encantaram com a conversa.

Ao mesmo tempo que a turma participando desse banquete virtual aumentava, fui explorando outros assuntos. Primeiro timidamente, com medo de algumas pessoas pensarem que, agora que eu tinha fisgado a atenção delas com receitas veganas, eu ia aproveitar a audiência conquistada e mudar de assunto. Pra minha grande felicidade ninguém reclamou. Assim a Palestina e o meu ativismo pelos direitos humanos entraram no blog e nunca mais saíram. A partir daí fiquei tão à vontade que tirei a roupa (metaforicamente). Abri meu coração várias vezes e descobri que tenho os melhores leitores que passeiam por essa world wide web.

Depois do nascimento do blog naquela noite de inverno palestino, mudei de casa (e país) duas vezes. Perdi a conta das atividades em que me envolvi (remuneradas ou não, mas todas lícitas, juro!). Meu ativismo se expandiu. Meus interesses se alargaram. Descobri novas paixões, novas lutas. Meu estilo de culinária evoluiu. Meu estilo de fotografia também evoluiu. E tudo isso ficou refletido aqui no blog. Posso abrir qualquer post, ao acaso, e ao lê-lo sei exatamente onde eu estava e como eu me sentia, as dificuldades e felicidades que povoavam minha vida naquele exato momento. O que era pra ser um blog de receitas veganas virou algo com um significado muito maior pra mim. É uma plataforma onde minhas três paixões (culinária vegetal, ativismo e escrever) se encontram. É onde eu reúno as coisas que são importantes pra mim e compartilho com quem quiser ouvir. Porque a mágica só acontece quando o que eu tenho pra dizer passa pro lado de lá da tela.

De vez em quando também acontece de algumas coisas passarem pro lado de CÁ da tela. Muitas pessoas que acompanham o blog me escreveram nesses cinco anos. Não caberia em um post todas as coisas lindas que elas me disseram. Muitas histórias me tocaram na alma e encheram meus olhos de lágrimas. Muitas me fizeram passar um dia inteiro com um sorriso de orelha à orelha e com o coração inchado de alegria. As pessoas que escrevem esses emails geralmente querem me agradecer pela inspiração, pela ajuda que encontraram no blog, pelas dicas que tiveram um impacto positivo na vida delas e pelas receitas que alegraram seus almoços de domingo. Algumas foram além da comida. Nunca esquecerei da enfermeira que me escreveu contando que só depois de ter começado a ler o meu blog tinha descoberto algo que até então estava totalmente ausente na sua profissão: que ‘alimentar’ também era uma parte fundamental do ‘cuidar’. Desde então a alimentação tinha adquirido uma outra dimensão e tinha se integrado aos cuidados que ela oferecia à mãe doente de câncer. Ou da jovem que me escreveu contando que depois de ter falado pros pais que era lésbica eles reagiram com violência verbal e física e enquanto ela atravessava esse inferno, meu blog tinha sido um refúgio pra ela e que “foi lendo o seu blog e suas histórias inspiradoras que eu achava forças para seguir em frente.” Então percebi que o blog tinha se transformado em algo muito maior do que uma coleção de receitas veganas.

A comida foi o ponto de partida da minha revolução pessoal. Primeiro me tornei vegana, depois abandonei o mestrado em Linguística pra me dedicar à culinária vegetal, em seguida me mudei pra Palestina e ajudei a criar um projeto de empoderamento pra mulheres refugiadas, criei o Papacapim… E a comida estava sempre no centro de tudo. Hoje, depois de ter passado vários anos na cozinha, meditando, transformando o meu alimento, criando, alimentando as pessoas que eu amo, afogando minhas mágoas, celebrando vitórias, relembrando, distribuindo amor com cada garfada, inspirando, compartilhando meus conhecimentos e ajudando a construindo um futuro melhor, me convenci de que cozinhar é um ato emancipador, empoderador e revolucionário. É uma maneira de resistir (à ocupação militar israelense, como as mulheres do campo estão fazendo, às doenças que atingem a população mundial e já causam mais morte do que a fome e a pobreza) e de lutar (por um mundo mais justo, por mais compaixão com os animais humanos e não humanos, contra a destruição do planeta, por uma vida mais vibrante e cheia de energia). Então comer é um ato político e cozinhar é um ato revolucionário, de resistência e empoderador.

E exatamente no mês em que o blog completou cinco anos recebi o email de uma leitora que foi o melhor presente que alguém poderia ter me oferecido. Violeta contou sua história de uma maneira lindíssima, cheia de humor e lirismo e me mostrou mais uma vez o poder transformador que cozinhar o seu próprio alimento tem. Esse email, que li no andar de cima de um daqueles ônibus típicos que tem aqui em Londres, no caminho do trabalho, me emocionou ao ponto de me fazer chorar. Duas vezes. Depois saí contando pros amigos, pra família e pra quem ia passando pela minha frente. Aquilo era lindo e inspirador demais, eu precisava dividir com o mundo! Então perguntei à Violeta se poderia publicar o email dela aqui e ela fez a gentileza de aceitar.

Oi, Sandra!

(ou [A] Papa, como eu gosto de chamar, quando tenho conversas imaginárias contigo ou quando falo pras pessoas que esse pão delicioso aí é receita da Papa e pra elas, por favor, entrarem no site pra poderem mudar a vida delas também)

[AVISO: conteúdo do texto altamente metafórico, a autora teima em achar que sabe filosofar (e pior ainda, poetisar!). Você foi avisada!]

 Apesar de tudo isso, eu só comentei no site duas vezes, há uns dois anos, acho. Você com certeza não se lembra, nem faz ideia de que QUASE botei a mochila nas costas e fui pra Natal no começo do ano, só pra poder te conhecer (e não aconteceu porque na época eu estava organizando uma mudança de casa envolvendo quatro cidades diferentes e não consegui terminar tudo a tempo de te [stalkear] conhecer)

Há muito tempo que fico procrastinando esse meu e-mail! Acho que a gente gosta muito de viver na terra da fantasia, de ficar só imaginando que “um dia vou mandar um email, e vai ser lindo, e vou chorar…) mas trazer as coisas pra vida real dói, dá medo e a gente vai deixando tudo nos braços de Morfeu.

Então hoje eu vim fazer uma visitinha no site e vi a notícia do Tour e falei, nossa, tem que mandar email pra saber mais. Pensei em deixar pra lá (MUITO provavelmente não tenho bufunfa suficiente pra ele, hello!, estudante universitária falando aqui!), mas dessa vez falei, NÃO! Vou mandar o email e vou falar, e vou jogar Morfeu pra escanteio! HA!

Sabe, querídissima Papa, o momento em que eu abri o seu Papacapim foi uma virada na minha vida. Eu não sabia, não tinha idéia, só queria fazer um blog, tive a ideia de chamar *papacapim*, fui ver se já existia, BANG!

(Pausa pra imaginar o poderoso punho do ativismo político-gastronômico me acertando no estômago!)

Aquele foi o momento que descobri: eu tinha vivido uma vida sem paixões. Nada. Eu me julgava tão bem informada, tão militante pelas minhas causas, tão íntegra e na verdade eu só era… chata. entediante. desapaixonada pelo mundo.

Não, eu não tinha me apaixonado pela vida e ficado decepcionada. Eu simplesmente tinha decidido, desde muito nova, que aquilo tudo era uma droga mesmo, e eu não queria nada com aquela realidade enquanto ela não fosse um pouco melhor. Então eu esperneava e lutava, desprezando o mundo, me mantendo longe dele, sem dar uma chance pra ser conquistada…. E quando viver numa torre de mármore doía demais, eu permitia um affair, um caso de alegria e prazer com a vida, vivido nas sombras da noite, amando ilicitamente essa coisa sem nome, linda demais, que é viver. E então me repudiava, me maltratava, sendo fora-da-lei e carrasco no mesmo corpo. Eu tinha sim, paixões!, dizia a mim mesma. Era a mais apaixonada das criaturas, navegando numa cruzada contra o mundo! Isso sim era paixão nobre, merecedora! Não tinha tempo a perder com bobagens!

Tola criança!

Vivia uma vida cinza e sem prazer, me vangloriando disso – e, horror dos horrores, desejando o mesmo para todo o mundo!

Então, exatamente como qualquer comédia-romântica-hollywoodiana-com-mulher-séria-profissional-que-desconhece-o-amor-e-se-apaixona-sem-querer-numa-aventura-cheia-de-diversão-na-sua-Sessão-da-Tarde!, em alguns momentos, mal sabia eu, a vida me seduziu, e o caminho não teve volta.

E foi no seu site. E foi porque você decidiu compartilhar todo o amor que tem por viver com o mundo inteiro. E foi porque você colocou alma nas suas receitas, suas palavras, porque você salgou seus quitutes com lágrimas, adoçou com cafuné, temperou com risos. Como casais sempre vão se lembrar do primeiro encontro, eu sempre vou me lembrar daqueles primeiros dias, quando aquela coisa maravilhosa tomou conta de mim, quando eu acordava sorrindo pensando em aveia dormida, e ia dormir pra sonhar que rolava na feira abraçada com uma melancia. Pra mim, foi onde tudo começou de verdade.

Ah, eu vivia a mais maravilhosa Lua de Mel de Ágave com o mundo!

Me apaixonar pela comida foi só o primeiro affair dessa festa swing loucona que ando vivendo desde então. Em dois meses, dei um pé na bunda da minha cidade quente, poeirenta e elitista; pé na estrada, fui viajar um pouquinho – que virou um poucão e, um mês depois, fui parar em Natal!

É um filme lindimais, o tal Forrest Gump – e só faço arrepiar toda vez que vejo aquela menininha, tão pequena, com os joelhos na terra, olhar pro alto e sussurrar: “Dear God, make me a bird, so I can fly far far away from here”. Queria asas. Todos queremos nossas asas.

E foi naquela viagem pra Natal que dei meus primeiros voos. A minha professora podia não estar ali, mas aquele lugar falou comigo. A liberdade que encontrei ali sussurrou e encontrou seu caminho pra dentro dos meus ossos, de pássaro agora.

Um mês depois, estava morando na minha casa nova, no interior de Minas dessa vez. Nossa, como vivi! Trazia gente querida pra casa, fazia sanduíches de hommus, lasanha de berinjela e vitamina de banana e aveia. Fiz piqueniques de falafel no parque, enquanto lia sobre a necessidade de sermos humanos, mamíferos pulsantes, ao invés de homens de lata. Escrevi poesia enquanto tomava sopa cremosa com lentilhas. Eu não precisava me reinventar. Eu precisava me inventar!

Em dias menos gloriosos, comi pão com feijão re-amanhecido várias vezes na geladeira, cremosíssimo, cheio de pimenta e alegria, como se comesse um banquete. Em dias menos gloriosos ainda, miojo com gengibre, tomate e shoyo, imaginando um yakissoba todo colorido. Cada item da minha cozinha era um tesouro à parte, cheio de receitas para sussurrarem nos meus ouvidos famintos de ideias.

Cantei recolher cada bago do trigo/forjar no trigo o milagre do pão/e se fartar de pão para cada bola de massa que botava pra dormir, amando cada dia mais o pão nosso de cada dia.

E, quando o ano terminou de novo, com a mochila nas costas e esse caso de amor – agora incurável – pela vida, fui viajar. Na beira do asfalto, pedindo bondade e alguns quilômetros a mais para todos que passavam, aprendi tantas outras coisas, que a comida não poderia me ensinar, mas que só o alimento pôde sustentar. Muitas vezes, esse alimento era água e banana. Mas ah, as coisas que vi! Amei o calor, o suor, o frio, a fome, a barriga cheia demais, o céu nublado e as estrelas. Odiei também. E senti medo. Muito medo. Daí fiquei viva.

Andei descalça. Aprendi que eu era bicho também. Esqueci e tive que aprender de novo. Desaprendi mais do que aprendi, porque ficar vazia é tão mais interessante às vezes.

E agora, a viagem acabou, outras coisas surgem. Como aplicar tudo isso nessa vida louca de cidade grande que levo agora? Morar na capital é lindo, e essa roça grande de Belzônti é deliciosa, mas cadê essa vida linda? E ser bicho? E cadê minha lasanha de berinjela quando fico 12, 14 horas fora de casa todo dia? E as sopas demoradas? Os mingaus? E quando é preciso pegar ônibus pra poder fazer piquenique no parque?

Como ser mamífero num ambiente que me ensina todos os dias a sermos homens de lata? Pior ainda, como tratar de outras gentes, conhecendo-as humanas, mamíferas, quando nos pedem o tempo inteiro para sabê-las apenas como átomos, células, tecidos, cânceres e nos dizem que suas histórias só nos servem se forem histórico clínico? Suas dores de nada nos interessam se não forem físicas, seus sofrimentos devem ser tratados apenas com cartelinhas mágicas, não com palavras e abraços reais. Como lutar contra isso sem precisar guerrear?

Não tenho resposta para nada disso ainda. Mas agora já aprendi a me inventar. Me empoderei. Preparo minha vida com carinho e banho-maria. E tudo, tudo isso começou aqui, nesse seu site lindo, com suas aulas de vida disfarçadas de culinária. Porque preparar o próprio alimento não é simplesmente picar, aquecer, salgar. É dizer que somos poderosos o suficiente para escolhermos o que entra na nossa vida, na nossa alma, em nosso corpo.

Porque cozinhar é poder.

Obrigada, querida Sandra, por me apontar esse caminho.

 Amor e chá com biscoitos,

Violeta Braga.

Eu é que te agradeço, Violeta. Obrigada a todos vocês por estarem aqui. Obrigada por voltarem sempre, deixarem comentários, me enviarem emails. Obrigada pelo apoio, por me deixarem entrar em suas casas com minhas histórias e receitas. Por me convidarem pra mesa de vocês. Pelo carinho e por me inspirarem e me encorajarem a continuar com o blog. Bendita a noite em que eu criei o Papacapim! Graças ao blog e à comida que eu crio entrei em contato com pessoas incríveis e fiz amigos maravilhosos. A minha gratidão será eterna. Talvez ele tenha inspirado e transformado a vida de várias pessoas, mas podem ter certeza que a maior transformação de todas aconteceu do lado de cá.

PS Estou pensando seriamente em imprimir em uma camiseta a frase “Cozinhar é poder.” E de substituir “Eu te amo” por “Você é o tahine do meu hummus” (uma versão romântica de outra frase ótima que Violeta me mandou:)

01 May 19:20

Domenico de Masi: Intelectual Brasileiro tem mentalidade de 3 mundo via o potiguar

by admin

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DOMENICO DE MASI: INTELECTUAL BRASILEIRO TEM MENTALIDE DE 3 MUNDO

por Daniel Menezes
Da Folha – Se trabalho é vida e vida é trabalho, o sociólogo italiano Domenico De Masi, 77, que estuda atividades produtivas na era pós-industrial, paradoxalmente reitera como solução para o crescente desemprego no mundo a antiga reivindicação dos proletários: redução das jornadas.

O professor da Universidade La Sapienza, em Roma, celebrizou-se por conceitos como “ócio criativo” (aliar trabalho, estudo e lazer a um só tempo) e “teletrabalho” (produção à distância facilitada por meios tecnológicos).

Fã do Brasil e da cultura brasileira, que já destacou como “exemplo” de produção criativa, De Masi esteve em São Paulo para um ciclo de palestras intitulado “Utopia e Realidade: trabalho produtivo e qualidade de vida”.

Em entrevista à Folha, ele diz que os brasileiros têm complexo de vira-latas: o país coleciona posições de Primeiro Mundo, mas seus intelectuais só conseguem deixar de enxergar o país como Terceiro Mundo quando confrontados com dados. Leia a seguir.

Folha – Suas teorias sobre ócio criativo e redução das jornadas de trabalho são, em geral, encaradas como utopia. Essas ideias podem ser aplicadas?

Domenico de Masi – À medida que a tecnologia avança, engole postos de trabalho nas mais diversas áreas. Mas suplanta principalmente os trabalhos executivos, físicos ou intelectuais, que são 77% das atividades laborais do mundo, restando os trabalhos criativos, que correspondem a 33%.

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É como se tivéssemos uma mesma torta para dividir por um número crescente de pessoas. O que fazer? Dividi-la em pedacinhos menores para que todos possam comer. Assim funciona com o trabalho. Precisamos reduzir as jornadas de trabalho para que todos possam trabalhar.

Mas não se pode esperar que os setores produtivos estejam dispostos a reduzir jornadas para ter mais funcionários…

Não. Empresas são organizações conservadoras. Olham para trabalho como se fosse a era industrial. Só que apenas 33% da atividade produtiva hoje é braçal, o restante é trabalho intelectual.

Para produzir cem automóveis, antes eram necessárias cem horas. Se hoje são necessárias 50 horas, ou o total de empregados trabalha metade do tempo de antes ou teremos metade dos funcionários. Os que ficarem sem trabalho não poderão mais consumir. E, se não puderem consumir, para quem vou produzir tantos automóveis? A conta não fecha.

É esse o motor de muitas das crises econômicas?

Não. Crise é algo transitório. Isso é uma reestruturação mundial da riqueza.

Na Itália, dez pessoas têm a mesma riqueza de 6 milhões. No mundo, 85 pessoas, incluindo 12 brasileiros, têm a riqueza de 3,5 milhões de pessoas. Esses 85 bilionários podem ter duas, três, dez Ferraris, mas não vão comprar 3,5 milhões de calças, vestidos e sapatos. O consumo cai, a produção cai junto.

Como mudar essa reestruturação da riqueza?

Pagando impostos –e impostos altos. Na verdade, a maioria das 85 pessoas mais ricas do mundo é formada por ladrões de impostos. Eles sonegam impostos e, quando pagam, o fazem na Holanda, onde são mais baixos.

São pessoas que financiam campanhas eleitorais em barganha por leis que os favoreçam. E isso alimenta o ciclo da desigualdade.

Trata-se de uma luta de classes às avessas?

É uma vendeta. O neoliberalismo da era Thatcher inverteu as coisas: a luta de classes dos pobres contra os ricos se tornou a luta dos ricos contra os pobres.

Isso ocorre no Brasil também. Os oito anos de governo Fernando Henrique Cardoso adotaram uma política social-liberal, estabilizaram a economia e iniciaram uma política social. Os oito anos de Lula redistribuíram parte da riqueza que FHC criou, com uma política social-democrata, que permitiu a muitos brasileiros ascenderem.

Hoje, Dilma é vítima de uma vingança neoliberal. Aécio Neves (PSDB) perdeu as eleições, e o movimento neoliberal se voltou contra Dilma, que não é pior que outros presidentes. A corrupção sempre existiu no país. O Brasil tem mil outros problemas para resolver… Há um grande desencontro entre o Brasil real e o Brasil intelectual.

Que desencontro é esse?

O Brasil tem uma taxa de desemprego que é um terço da italiana ou metade da norte-americana…

Mas espera-se um aumento…

No Brasil é assim: se algo vai mal, vai mal; se algo vai bem, no futuro vai piorar (risos). Esse é um pensamento típico dos brasileiros. Confrontadas com a realidade, essas ideias não param de pé.

Terminei uma pesquisa com 11 intelectuais brasileiros sobre como estará o Brasil em 2025. Grande parte desses intelectuais é pessimista.

O PIB brasileiro é o sétimo do mundo, à frente da Itália e da Inglaterra. O Brasil está em quinto em produção industrial. Está em terceiro lugar em acesso à internet, atrás dos EUA e da Suécia. Ou seja, o Brasil ocupa posições de Primeiro Mundo, mas os brasileiros ainda se enxergam como Terceiro Mundo.

Quando esses mesmos intelectuais foram confrontados com dados reais, eles se mostram mais otimistas do que quando discutiram entre si. Os brasileiros têm complexo de vira-lata.

30 Apr 12:40

De quem é a culpa da repressão aos professores no Paraná?

by Danillo Ferreira
Atuação policial no Paraná

Professores cercam a Assembleia Legislativa do Paraná. Policiais tentam impedir. Foto: Agência Brasil

Atuar em manifestações populares é um dos maiores desafios operacionais para um policial. É muito difícil, para não dizer impossível, manter total controle dos movimentos coletivos na rua, dada a variedade de intenções (tanto de integrantes das manifestações quanto de infiltrados que, muitas vezes, tem intenções políticas ao causar algum distúrbio num movimento a princípio pacífico).

O ideal é atuar de maneira pontual, cessando cirurgicamente a prática de alguma violência, reagindo apenas contra o responsável por ela. Mas isso é o ideal. Nem sempre há treinamento e equipamento para isso. Às vezes simplesmente não é possível identificar responsáveis. Às vezes falta paciência, preparo psicológico e controle das emoções.

Considerar todos esses elementos é essencial para analisar qualquer atuação policial em manifestações, como a que ocorre agora em Curitiba, onde mais de 200 manifestantes (a maioria professores) já foram feridos por conta da ação policial no Paraná. Os professores estão se opondo a um pacote de austeridade do Governo Estadual, suprimindo direitos trabalhistas e previdenciários.

Para quem não lembra, o atual Governador do Paraná é o mesmo que, ano passado, declarou que “uma pessoa com curso superior muitas vezes não aceita cumprir ordens de um oficial ou um superior, uma patente maior”, se opondo à exigência de curso superior para os policiais militares.

Na operação para reprimir a manifestação dos professores, o efetivo utilizado é maior que o aplicado na capital curitibana diariamente!

Para ter uma noção do clima que se encontra a cúpula do Governo paranaense com a repressão aos professores, segue um vídeo divulgado pelo Blog do Esmael, recebido de um integrante do primeiro escalão do executivo estadual, onde o clima de “oba oba” é escandaloso:

Sobre as condições de trabalho em que se encontram os policiais militares, o Abordagem Policial recebeu algumas manifestações de PMs reclamando dos turnos de trabalho e das instalações a que estão submetidos. Em um caso específico, a própria imprensa divulgou que policiais militares do interior convocados para atuar na capital foram expulsos de um hotel por falta de pagamento das diárias por parte do Governo.

PMs punidos por se recusarem a atuar

Não bastassem todos esses detalhes que mostram como a situação está sendo conduzida com o fígado, e não com o cérebro, adiciona-se o fato de policiais militares estarem presos por se recusarem a participar do cerco contra professores.

Outra fonte informa que cerca de 50 policiais militares teriam sido presos.

De quem é a culpa?

Está claro que há uma orientação política irresponsável do Governo para a utilização do aparato policial (composto por trabalhadores) para reprimir trabalhadores se manifestando. Aliás, é o que parece, desrespeitando até mesmo condições básicas para a atuação dos policiais.

Estando os policiais subordinados a um Governo que se comporta desta forma, é preciso ter muita inteligência e moderação para conduzir esse tipo de ação, pois não é o governador que responde objetivamente pelo tiro disparado, pelo bastão lançado e pelo agente químico utilizado.

Todo policial sabe que entre a ordem e a execução existe a capacidade de ser razoável no cumprimento da missão. Depois não adianta dizer que “só estava cumprindo ordens”, ainda mais em uma operação para conter professores, colegas de funcionalismo público, reivindicando direitos.

30 Apr 12:35

Uma viagem pelo Oriente Médio e o meu senso comum

by Cecilia Olliveira

Texto de Cecilia Olliveira.

Passei o último mês viajando pelo Oriente Médio. Tenho uma amiga que mora em Beirute, Líbano, e minha primeira preocupação foi perguntar: o que levo pra vestir ai? A resposta dela: o mesmo que você vestiria aí, só que está frio. A surpresa pode vir ancorada no senso-comum-delineadamente-midiático que questiona: “Como assim lá é igual aqui”? Vários “eu acho” caem por terra, um a um, com a convivência e o interesse em saber mais de forma desarmada.

Sou feminista, cristã protestante e defensora árdua do “meu corpo, minhas regras”. Por mais que isso pareça contraditório, só o é pelo mesmo motivo que podemos achar que as muçulmanas e árabes são uma maça uniforme de oprimidas e opressores: o desconhecimento. Nada é uma massa uniforme. As cristãs não são todas fundamentalistas, nem árabes e muçulmanas são necessariamente opressores e oprimidas. Ter uma religião é uma opção que deve ser respeitada. As regras e dogmas que uma religião pode impor arbitrariamente e aleatoriamente é que devem ser questionadas.

Visitei a Universidade Americana em Beirute. Cheia de mulheres, uma escola particular caríssima. Vi ainda, por onde passei, mulheres dirigindo, levando crianças na escola, lotando as lojas dos Souks (Mercadões tipo Madureira e 25 de março), brincando entre ruinas históricas. A vida segue, cotidiana, com a religião e com suas convicções.

A viagem começou pelo Líbano, em Beirute. A cidade parece um misto de Rio de Janeiro e São Paulo: uma cidade cosmopolita com uma UPP em cada esquina. Com a “pequena diferença” de que eles enfrentaram uma guerra civil que acabou em 2006 e tem várias desavenças com Israel, que teima em tomar territórios de todos na região. Há muitas lojas como as da Oscar Freire numa área que é foco de gentrificação.

Nesta área, muito turística por ser praiana, a realidade é bem dicotômica: por um lado mulheres vestidas como as ocidentais que conhecemos, e por outro, parte da praia é coberta com um toldo para que quem passe de longe não aviste os corpos relativamente despidos na praia.

Orla de Beirute, Líbano. Março de 2015. Foto de Cecilia Olliveira no Flickr.

Orla de Beirute, Líbano. Março de 2015. Foto de Cecilia Olliveira no Flickr.

Mais roupa ao sul

Em viagem para uma cidade mais ao sul do país, chamada Sur – área onde o Hezbollah é oficialmente sediado (e onde o jargão “poder paralelo” faz sentido), a religiosidade é mais presente. É possível ver mais o xador, roupas femininas para muçulmanas, como um vestido. Mas vi mulheres vestidas de todas as formas: de calça jeans, blazer, de legging e a parte de cima mais comprida, cobrindo os quadris. Outras usam xador coloridos, estampados, com muito brilho. Sempre de hijab, o lenço sobre a cabeça. Algumas mulheres muçulmanas cobrem a face com um “niqab”, lenço que cobre todo o rosto, deixando a mostra somente os olhos. Mas vi poucas destas por onde andei (Palestina, Líbano, Jordânia, Israel).

Não vi nenhuma muçulmana usando burca, que cobre o rosto e os olhos, porém nos olhos há uma rede para se poder enxergar. Isto porque ela é usada pelas mulheres do Afeganistão e do Paquistão, e em áreas próximas à fronteira com o Afeganistão. Ela é um símbolo do Talibã, movimento fundamentalista islâmico, portador do ideal político-religioso de recuperar todos os principais aspectos do Islã (cultural, social, jurídico e económico), com a criação de um Estado teocrático.

Agora, o que me impressionou muito foi ver a quantidade de lojas de lingerie por onde passei. Cobrir o corpo não seria sinônimo de anulamento sexual? Não. Pelo que aprendi, em casa é outra coisa: você usa roupas comuns, não precisa necessariamente cobrir os cabelos e sim, você pode usar (e é estimulada!) roupas sensuais entre quatro paredes. Meu estranhamento foi ver que quase não há vendedoras mulheres nestas lojas.

Tiro, cidade do Líbano. Março, 2015. Foto de Cecilia Olliveira no Flickr.

Tiro, cidade do Líbano. Março, 2015. Foto de Cecilia Olliveira no Flickr.

Lá e Cá

Tudo isso pode parecer muito estranho e para alguns até assustador. O que é ainda mais estranho é que isso é seletivo, já que no Brasil achamos coisas muito similares.

Membras da Congregação Cristã Apostólica usam o véu durante os cultos. A igreja é segregada e homens e mulheres cultuam em lados diferentes do Templo. O mesmo acontece com os judeus que oram em frente ao Muro das Lamentações. O “cada um no seu quadrado” é bem comum em religiões monoteístas.

Já na Igreja Evangélica Assembleia de Deus dos Últimos Dias, as mulheres usam algo muito similar ao Xador. E assim como as muçulmanas, capricham nos adereços. Bolsas, sapatos são a chance de diversificar. Aqui no Rio de Janeiro esta igreja tem muitos fiéis.

Na Igreja Assembleia de Deus (sim, é outra igreja) o cabelo é considerado o véu. Então, as mulheres não o cortam. É o “adorno da noiva”. Elas usam também roupas mais compridas, sempre saias abaixo dos joelhos e nunca deixam o colo a mostra.

Eu cobri minha cabeça uma vez, quando estava em Al-Khalil (que conhecemos como Hebron) ao visitar a Mesquita Ibhraim (Mesquita de Abrãao), onde estão enterrados Abraão e Sara. Ali na porta ficam umas capas para que as turistas se cubram ao entrar.

Mercado em Al-Khalil (Hebron). Março, 2015. Foto de Cecilia Olliveira no Flickr.

Mercado em Al-Khalil (Hebron) na Palestina. Março, 2015. Foto de Cecilia Olliveira no Flickr.

Andanças

Depois de passar por Líbano, fui para Amã, Jordânia. Uma cidade pequena, muito movimentada. Pausa: Já na chegada invejei. Tinha uma loja enorme da IKEA. Amo badulaques de casa. Voltando: percorrendo a distancia entre o aeroporto e o centro fui observando aquela paisagem sem cor, seca. Coisa de cidade no meio do deserto. A grande maioria das casas são pintadas de branco, apesar da poeira do lugar.

Neste dia jantamos com um casal de amigos. Íamos ser apresentados à comida local. Chegou o casal. Cumprimentos verbais tranquilos, embora homem toque homem, mulher toque mulher. Nada de aperto de mãos ou beijinho. Eu particularmente prefiro. Odeio isso de beijar quando chega e beijar quando sai. Ainda mais em Minas, onde nasci, que são 3 beijinhos. Hoje moro no Rio e economizo um beijinho.

Meher é uma mulher paquistanesa, casada com um americano de ascendência árabe. Mudou-se para Jordânia após casar. Não pude ver seus cabelos (tenho fixação com cabelos. Adoro). Mas amei sua bolsa. Então ela me explicou que é designer de bolsas e que está abrindo um negócio que terá ramificações no Oriente Médio, Europa e Estados Unidos. Como ela soube que o Brasil tem grande tradição na indústria de couros, me pediu ajuda para mapear possíveis exportadores. Ela tira o celular da bolsa e começa a me mostrar os modelos que já estão prontos. Impressionante. Bolsas delicadíssimas, com muitos detalhes. Apesar de seu marido ser genuinamente americano, ambos tem muita dificuldade de entrar e sair dos EUA, assim como transitar por outros países devido ao cerceamento que árabes sofrem por imposições políticas. O mundo perde sem Mehers por aí.

De Amã, fomos para Petra. Que lugar, minha gente. Que lugar! Eu, que tenho eterna preguiça de exercícios físicos, andei cada palmo dessa cidade incrível, que fica num vale, no meio do “nada”. “Nada” entre aspas porque no meio das paredes de dezenas de metros de pedra tinha uma barraca com wifi.

Fiquei muito impressionada com a força das mulheres beduínas. Subir e descer aquelas montanhas de pedras e caminhar longas distancias pelo deserto não é pros fracos. Tive a sorte de estar ali no inverno e pegar cerca de 20 graus de dia. Não consigo imaginar a vida ali no verão. Os beduínos tem forte tradição de comércio. Assim sendo, por todo o caminho era possível ver mulheres vendendo de um tudo: colares, brincos, pulseiras, hijab.

Depois de Petra, passamos pelo Mar Morto. No hotel onde nos hospedamos havia muitos “tipos” de mulheres. Biquínis de meio palmo, como o meu, maiôs, biquínis maiores e conjuntos de natação para muçulmanas. São como agasalhos de corrida, de marcas como adidas mesmo. Lembrei de quando era adolescente e ia nos acampamentos da igreja (Batista, à época) e as senhoras mais velhas entravam na piscina de camisa e bermuda. Eu achava estranho, mas se para elas estava ok, para mim também estava. Não gosto da ideia de isso ser imposto, apenas.

Dali ia começar a parte que eu estava mais ansiosa. Finalmente, Palestina! Mas me incomodava demais ter que solicitar entrada à Israel. (Suspiros profundos de desgosto). Chegando na fronteira entre Jordânia e a Palestina Ocupada – onde fica a base militar israelense, um alivio: chegamos no último ônibus antes de fechar a fronteira. Momentos de apreensão porque eles são chatíssimos para dar vistos de entrada. Depois de quatro horas, fomos liberados. Consegui meu visto relativamente fácil. Mas meu namorado, jornalista, americano e usando um segundo passaporte, não teve a mesma sorte. Foi levado para uma sala onde foi novamente entrevistado e questionado. Ok, liberados.

Finalmente fora daquele ambiente hostil, rumo à Palestina. Pegamos a ultima van para Jerusalém. Ao nosso lado, Fida, uma jordaniana que vestia xador preto e hijab amarelo com pedrarias nas pontas. O xador também tinha muitos brilhos na região do peito. Fida se dividia em duas. Morava 6 meses na Jordânia e 6 meses na Palestina ocupada. Ficamos amigas na van, enquanto ela contava em meio a mímicas sua vida.

Como o árabe era mais que o inglês, a gente se falava por fotos. Ela mostrou casa, família, os pratos que cozinhava. Disse que a filha dela está na faculdade, cursando enfermagem. Tirou da bolsa um lenço, jogou seu perfume e disse que era pra eu me lembrar dela. E que se precisasse, poderia ficar com a família dela. Dei para ela um creme que tinha na bolsa, feito de cupuaçu. Bem Brasil para ela. Quando desceu em Jerusalém, muitas malas vindas dos 6 meses de vida na Jordânia. Tirou da mala um par de meias e me deu também.  Quando aceitei a solicitação dela no Facebook, minha primeira alegria foi ver o compartilhamento da Página Feminists Of Jordan. Apesar de não entender árabe, pude ver os símbolos da resistência. Coisa linda de ver!

Estar na Palestina me fez olhar o cristianismo, as pessoas e o mundo por um novo ângulo. Me senti minúscula, impotente, oprimida. Me senti uma pessoa branca nos Estados Unidos de 1960, 70, tamanho o privilégio em que me sentia inserida. Eu podia andar por onde árabes não podiam. Podia cruzar check points que eles não podiam. Os check points são Barreiras militares dentro da Palestina ocupada onde soldados judeus (de qualquer nacionalidade) impedem o ir e vir de árabes, justificando “segurança”.

Apesar de todo o mal estar que sentia ao cruzar estes lugares, fiquei levemente aliviada ao avistar duas mulheres e um homem, fotografo, ao passar em um check point em Al-Khalil. Eles são parte da Christian Peacemaker Teams – Palestine e ficam ali para flagrar abusos e arbitrariedades cometidas pelos soldados e auxiliar palestinos a lidar com a situação.

Vida longa às mulheres árabes. Vida longa e livre à Palestina.

30 Apr 00:06

PM de Beto Richa usa gás lacrimogêneo, bombas e balas de borracha contra manifestantes: Há 150 feridos, oito em estado mais grave, diz o Samu

by Conceição Lemes

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Créditos das fotos: Mulher ferida, no topo, de Jornalistas Livres; homem ferido, de Giuliano Gomes /PRPRESS, via Affonso Cardoso; as demais, de Ivonaldo Alexandre e Daniel Castellano/ Gazeta do Povo

Batalhão de choque entra em confronto com manifestantes no Centro Cívico.SERVIDORES X GOVERNO

PM e manifestantes entram em confronto e sessão continua; siga votação e protestos

Antonio Senkovski, Diego Antonelli, Katia Brembatti, Katna Baran, Rogério Galindo, Kelli Kadanus e Felipe Vanini,especial para a Gazeta do Povo

Atualizado em 29/04/2015 às 17h20

O clima é tenso no Centro Cívico durante a manifestação dos professores da rede estadual que estão em greve contra o projeto de mudanças na Paranáprevidência. Por volta das 15h horas desta quarta-feira, policiais militares e manifestantes entraram em confronto na frente da Assembleia Legislativa. Imagens mostram que os policiais usaram bombas de gás lacrimogênio, balas de borracha e jatos de água são lançados contra os manifestantes.

Segundo o Samu, há 150 pessoas feridas, 42 delas foram encaminhadas para o Hospital Cajuru e oito estão em estado grave. Também há outros feridos sendo atendidos no Centro Médico do Tribunal de Justiça, mas ainda não há total de atendimentos lá. Quatro ambulâncias fizeram atendimento no local. Muitos professores e manifestantes feridos são atendidos na rua e na prefeitura. Até o momento, cinco pessoas foram presas.

O prefeito Gustavo Fruet (PDT) disse que até o momento houve 34 pessoas encaminhadas ao hospital e mais de 100 atendimentos. O prédio da prefeitura está aberto para o acolhimento de feridos na a ação da polícia contra os manifestantes no Centro Cívico. As ambulâncias não foram suficientes e equipes da Guarda Municipal foram acionadas para ajudar no deslocamento dos manifestantes feridos.

Fruet repassou as informações em uma entrevista a jornalistas durante o confronto, por volta das 16 horas. Durante a conversa, bombas de gás lacrimogêneo continuavam sendo disparadas pela polícia. O prefeito disse que a ação do governo do estado tem um grau violência desnecessário. “Há dias a prefeitura vem alertando da desproporcionalidade da força.”

O Centro Municipal de Educação Infantil (Cemei) Centro Cívico , que atende cerca de 150 crianças, entrou em contato com os pais das crianças para que fossem buscá-las com urgência. Algumas delas estavam passando mal por causa do gás lacrimogênio utilizado pelos policiais.

Imagens da RPCTV mostram a confusão no Centro Cívico.

Dentro da Alep

Mesmo com o tumulto do lado de fora, deputados estão votando o projeto de mudanças na Paranáprevidência. Houver bate-boca entre os deputados e a sessão chegou a ser interrompida, mas a dicussão foi retomada.

O deputado Tadeu Veneri disse que o governo vai conseguir aprovar projeto, mas questionou o preço a ser pago. “Este é um momento triste do parlamento”.

Mais cedo, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa aprovou o parecer do relator das emendas feito pelo líder do governo, Luiz Cláudio Romanelli (PMDB). Em sessão relâmpago, os deputados aprovaram quinze emendas e substitutivos e mandaram o projeto para plenário. A tendência é de que apenas três emendas sejam aprovadas em plenário.

Acompanhe as manifestações e votação na Assembleia Legislativa do Paraná do pacote que vai retirar dinheiro das aposentadorias dos professores públicos.

A transmissão é da Rede TV 15, do senador Roberto Requião (PMDB).

Veja também:

Requião: Comportamento déspota do governador mancha para sempre nome da família na política do Paraná

O post PM de Beto Richa usa gás lacrimogêneo, bombas e balas de borracha contra manifestantes: Há 150 feridos, oito em estado mais grave, diz o Samu apareceu primeiro em Viomundo - O que você não vê na mídia.

29 Apr 16:22

O preconceito

by Vitor Angelo

Nas últimas semanas, rolou e polemizou-se na web sobre uma foto de um casal gay de mãos dadas andando no metrô. A discussão partiu não por ser pessoas do mesmo sexo manifestando afeto, muito menos por expô-lo em público, dentro de um vagão de metrô. A raiva das “haters” estava no fato do casal ser formado por um ocidental, branco, barbado e dentro dos padrões convencionais de beleza e o outro asiático, mais feminino, cabelo pintado, estatura mediana. A raiva da diferença, do outro.

O casal Naparuj Mond Kaendi e Thorsten Mid de mãos dadas no metrô (Reprodução/Facebook)

O casal Naparuj Mond Kaendi e Thorsten Mid de mãos dadas no metrô (Reprodução/Facebook)

Os comentários, principalmente entre os homossexuais, eram cruéis pois atingia algo que desconforta, como se a foto fosse uma afronta. Uma parte do casal apresenta-se mais feminino (e a sociedade ainda vê a mulher como um ser de segunda classe e ainda a maioria dos gays tem problema com sua feminilidade ou de assumí-la, todos se acham muito macho), e é asiático sem traços ocidentais ( em um belo ensaio em seu livro, “Banalogias”, Francisco Bosco escreve: “Hoje assistimos, sem qualquer assombro, as negras louras como Mariah Carey ou Beyoncé Knowles: louras de cabelo liso e traços finos […] o que se nota é que a beleza de todas as ‘raças’ é admitida desde que seja mediada por traços ocidentais. Em outras palavras, isso quer dizer que o japonês será mais bonito quanto mais ocidental e menos japonês ele for, o negro idem, o chinês, também etc. Em suma, o multiculturalismo estético é, em sentido profundo, a negação da diversidade das culturas”), e como, muitos gays protestaram, ele está com um homem tão belo? Tudo isto estava simbolizado na figura de Naparuj Mond Kaendi, um diretor criativo de uma agência de modelos, na Tailândia.

Comentários desconcertantes sobre o casal  coletados pela página no Facebook "Sou/Curto Afeminado" (Reprodução/Facebook)

Comentários desconcertantes sobre o casal coletados pela página no Facebook “Sou/Curto Afeminado” (Reprodução/Facebook)

Logo, levantou-se a suposição que o namorado, o alemão Thorsten Mid era modelo, devido à beleza e que a relação, é óbvio, seria de interesse. Mas ele é engenheiro. E, é claro, que os comentários maldosos e, depois, as respostas em defesa do casal chegaram até eles, que responderam: “Obrigado a todos vocês pela ajuda e por toda a positividade. Para ser honesto, eu não fiquei tão surpreso quando pessoas do nada foram falar comigo ontem à noite e mostraram para a gente todas as nossas fotos que foram postadas a tarde inteira. Isso já tinha acontecido antes, exatamente um ano atrás, e todos os comentários desagradáveis me deixaram em lágrimas e cheio de preocupações. Este ano, porém, Thorsten e eu inesperadamente estamos nos sentindo tão agradecidos e cercado por essa onda de enorme apoio. Nós nunca quisemos estar sob os holofotes, mas muito obrigado, de qualquer forma.”

Chama muito a atenção sempre, numa primeira leitura, uma minoria ter preconceitos. É mesmo lamentável a crueldade com que trataram o casal, muitos deles homossexuais, pessoas que também sofrem preconceito. Entretanto, a defesa do casal também partiu da comunidade LGBT.

Porém, é importante atentar que na nossa formação somos alimentados de preconceitos de toda a natureza. Nossa formação cultural têm dificuldade com o outro, com o diferente e, em algum momento, mesmo que por um período, ou mesmo muito rapidamente, também sofremos preconceito porque em outro prisma também somos o outro de alguém, a alteridade de outro.

Claro que isto não é desculpa para defender o preconceito, mas para atentar para a falsidade dos que se dizem sem preconceito (eu mesmo tenho inúmeros, civilizadamente educados ou até que já foram expulsos). Faz parte da humanidade o preconceito, e quando reclamam que é um absurdo gays terem preconceitos, eu digo que é perfeitamente compreensível, pois os homossexuais também fazem parte da raça humana, por mais que os fundamentalistas queiram nos colocar como sub-raça.

É humano, demasiadamente humano, o preconceito, agora alimentá-lo já é uma forma perversa e obscura do homem. Vida longa ao casal Naparuj Mond Kaendi e Thorsten Mid!

29 Apr 12:26

Sandro Abreu: O choro da elite mineira sobre a medalha entregue a Stédile

by Luiz Carlos Azenha

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A medalha da Inconfidência e a insatisfação da elite mineira

por Sandro Abreu, via Facebook

A indignação de políticos conservadores e de parte do empresariado mineiro com a medalha da Inconfidência concedida ao líder do MST, João Pedro Stédile, escancara o que está posto no Brasil neste momento: a elite não aceita mais o povo no Poder. É isso.

Isso é mais forte do que a crise econômica e do que a corrupção que está sendo desvendada após décadas de assaltos aos cofres públicos.

Não é por simples insatisfação que entidades empresariais gastaram uma boa grana para publicar uma nota de repúdio em jornais mineiros. Curiosamente, a nota saiu publicada na mesma página que trouxe a notícia da aprovação da terceirização.

Políticos, artistas, juristas, empresários, jornalistas, ativistas e uma gama enorme de pessoas de todo o Brasil já foram condecoradas com a medalha, incluindo o amigo do rei Luciano Huck e o “grande empresário” Eike Batista, que tanto explorou as riquezas mineiras de Minas Gerais, prejudicando gente simples e humilde das comunidades rurais do interior, como por exemplo, em Conceição do Mato Dentro.

Mas o Stédile não pode ganhar. O “grande jornal dos mineiros” chegou a colocar como intertítulo da matéria sobre o evento: bandido.

Alguns homenageados mais conservadores já anunciaram que irão devolver suas medalhas e o PSDB protocolou Projeto de Resolução na Assembleia Legislativa para cassar a medalha de Stédile.

Hoje deputados da oposição e alguns manifestantes nas galerias do Plenário da ALMG, entre eles, o filho de Pimenta da Veiga, candidato do PSDB ao governo do Estado, derrotado pelo PT, usaram cordas vermelhas no pescoço para continuar o lamento sobre a medalha concedida a um líder de movimento popular. Então é isso, a aristocracia pode receber, o rebelde não.

O interessante é que foi justamente isso o que aconteceu com Tiradentes. De todos os inconfidentes, ele foi o único sentenciado à morte. O motivo? Ao contrário dos outros, não tinha alta patente, era de classe baixa e não pertencia à elite das minas gerais. Os demais receberam penas mais brandas.

Embora a Inconfidência Mineira tenha sido um movimento da elite mineira revoltada com a derrama, alguns ideais marcaram o movimento como a luta contra a exploração das terras mineiras pela Coroa portuguesa, luta pelo direito dos colonos e por liberdade.

Bandeiras parecidas com as do MST. Tiradentes foi alçado a herói após a proclamação da República, e sua imagem trabalhada estrategicamente para associá-lo a Jesus e à simplicidade, reforçando a representação de homem do povo e do bem. Mas um homem do povo, um rebelde não pode receber a medalha que lembra justamente a conjuração e a rebeldia dos mineiros.

Mas além da medalha a Stédile, a cerimônia dos Inconfidentes promovida pelo governo petista, em Ouro Preto, no último dia 21, trouxe mais uma novidade: a praça foi aberta ao povo após 12 anos de cerimônias fechadas.

O governador enfrentou manifestação, mas manteve sua postura democrática e popular.

Stédile é povo. Esse foi o 21 de abril deste ano em Minas Gerais. Talvez Tiradentes, pelo menos a imagem forjada ao longo do tempo, esteja mais satisfeito agora…

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27 Apr 17:12

Marta desembarca do PT direto nas páginas amarelas da Veja, a mesma que arrasta Lula “para o meio do escândalo”

by Luiz Carlos Azenha

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por Luiz Carlos Azenha

Marta descobriu que o PT traiu os brasileiros. Com uma “avalanche de corrupção”. Mas ela só fez a descoberta entre o mensalão e o petrolão. “Se você não estava ali naquela meia dúzia, você não sabia”, afirma a ex-prefeita na entrevista que deu às páginas amarelas da revista Veja.

Mas, quando foi mesmo que ela descobriu a verdade? Ah, sim, depois de não ter o seu nome nem cogitado para a corrida ao governo de São Paulo em 2014, “embora eu tivesse 30% das intenções de voto”. Foi aí que ela viu a luz.

Marta acha Dilma uma péssima presidente. O entrevistador da revista, bem ao estilo Veja, ataca de leading question e aproveita para encaixar sua conclusão na pergunta: “É ruim também pelo fato de ter uma mulher na Presidência e que não deu certo”.

Marta é profissional, não vai cair numa pergunta ensaboada como esta sendo mulher. “A sensibilidade do gênero feminino faz a diferença na hora de governar. São séculos e séculos cuidando de crianças, dos velhos e dos doentes. A Dilma tem essa sensibilidade, mas o temperamento prevaleceu sobre ela”. Boa, Marta!

Marta não pode dizer que saiu do PT porque não tinha mais espaço no partido, desde que não se reelegeu prefeita e foi em seguida escanteada por Fernando Haddad. Poderia parecer mero oportunismo político fazê-lo às vésperas da campanha de 2016. “Não estou saindo do PT porque quero ser candidata”, garante. Mas, em seguida, ela faz comparações com Haddad. “Qual a marca dele? Ciclovia? É muito óbvio”, alfineta.

Marta e Veja são igualmente óbvias. A entrevista dela saiu na mesma edição em que a revista tenta pautar a delação premiada de Léo Pinheiro, ex-presidente da empreiteira OAS preso em Curitiba à disposição do juiz Sergio Moro. Pinheiro teria ajudado Lula na reforma de um sítio que não pertence ao ex-presidente, na conclusão de um apartamento em Guarujá e arranjando emprego para o marido de Rosemary Noronha.

Mas, tudo depende de uma delação premiada com a qual Pinheiro ainda não se comprometeu. Veja simplesmente adivinha quais seriam os termos da delação.

Manda um recado nada discreto ao ministro Teori Zavascki, do STF, que preside a turma que poderá dar habeas corpus e livrar da cadeia os executivos presos em Curitiba. Veja publica a foto do ministro na reportagem-denúncia contra Lula com a legenda “para o bem ou para o mal”.

A reportagem seguinte à denúncia contra Lula tem o título “A delação compensa”. Nela, Veja demonstra que Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef se deram bem com as penas recebidas do juiz Sergio Moro. Parece até jogo casado.

Como escrevi acima, Veja é cristalinamente óbvia. Assim como Marta “descobri agora e não saio para disputar eleição” Suplicy.

Marta, em sua entrevista, não fala mal de Lula. Ela sabe que, se falar, pode perder votos na periferia de São Paulo, votos sem os quais jamais conseguiria derrotar Haddad num eventual segundo turno em 2016.

Por outro lado, Marta também precisa dos votos da direita, que até hoje a demonizou.

Por isso, ela explica que deixou o ex-marido Eduardo Suplicy por ter se apaixonado por outro. “Quando não se ama mais alguém, a separação é a saída natural”, pontifica, o que as madames dos Jardins certamente vão entender.

O toque final é dado pela cor do vestido que Marta escolheu para sair na Veja: verde. Compõe muito bem com a cor das página da revista.

Verde-amarelo. É a nova Marta. Obviamente.

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27 Apr 13:13

As reformas urbanas no centro de Buenos Aires

by Marcos O. Costa
Iniciado em 2008, 0 Prioridad Peatón (Prioridade Pedestre) é o plano ambiental urbano elaborado pelo Gobierno de la Ciudad de Buenos Aires para a área central da cidade. Ele busca uma “otimização” do espaço público, que reverta o processo de … Continuar lendo →
27 Apr 13:13

O custo das cidades rodoviaristas nos EUA: U$ 1 trilhão

by Marcos O. Costa
A London School of Economics – LSE -publicou uma série de estudos sobre a cidade contemporânea. Eles são parte integrante do New Climate Economy Report realizado para a Global Commission on the Economy and Climate, organização formada por sete países: … Continuar lendo →
23 Apr 21:58

Deputado Rogério Marinho proferiu discurso na Câmara defendendo a Lei da Terceirização

by Renato Dantas
Rogério Marinho – o homem da terceirização

Conhecido como o ‘rei da terceirização’ o deputado federal fez um pronunciamento, hoje (23) na tribuna da Câmara dos Deputados dizendo que a terceirização á a salvação do Brasil.

Segundo o deputado potiguar, a terceirização é um avanço para a especialização dos trabalhadores, e os deputados que são contrários ” ou não leram o projeto de lei, ou estão com má fé” disse o tucano.

Rogério Marinho é o maior defensor dos serviços terceirizados, ele foi um dos responsáveis pela terceirização da coleta de lixo pela Prefeitura de Natal e foi acusado no escândalo do Saco Preto, de fazer caixa dois recebendo dinheiro de um prestador de serviços terceirizado da URBANA .

Segundo comenta-se ele tem envolvimento com empresas de terceirização de mão de obra em Natal.

23 Apr 11:50

Um menino com saudade, sua mãe doente na cadeia e um juiz que solta

by Cynara Menezes
buch

(O juiz catarinense João Marcos Buch. Foto: divulgação)

A história saiu no Diário Catarinense na semana passada. Um menino de 11 anos enviara uma mensagem agradecendo ao juiz João Marcos Buch, da Vara de Execuções Penais de Joinville, por ter permitido que sua mãe deixasse a cadeia e fosse morrer em casa. A moça, de 30 anos, era soropositiva e foi encontrada por Buch algemada a uma cama, embora estivesse com metade do corpo paralisado em virtude da doença.

Em dezembro de 2014, o menino havia ido, em companhia da avó, até o gabinete do juiz para pedir que ele se apiedasse da situação da mãe. Naquela ocasião, o garoto nada falou. Após passar os últimos três meses de vida da mãe a seu lado, cuidando-a até na hora do sono, a criança enviou uma mensagem no Facebook a Buch, agradecendo em seu nome e do irmão, de 9 anos, pela chance que teve de se despedir.

Fiquei curiosa em saber por que ela tinha sido presa. Em todas as matérias que foram publicadas depois, não se dizia a razão. Pois bem, a moça havia sido condenada a quatro anos de prisão por ter furtado carteiras em duas lojas de São Bento do Sul. Me parece um exagero ser encarcerada durante quatro anos por furto, um crime que não envolve violência contra a pessoa, porque é praticado sem que a vítima perceba. Enredo real que parece saído de Os Miseráveis de Victor Hugo…

Num momento em que se fala de diminuição da maioridade penal, é lamentável que a questão prisional, no entanto, continue a ser ignorada e só chame a atenção da mídia quando ocorre uma rebelião nos dantescos presídios brasileiros. Nosso país já é um dos que mais encarceram pessoas no mundo, com 574 mil presos, 44% deles sem sequer terem sido julgados. E o que quer o Congresso? Prender mais gente –agora, adolescentes.

Na contramão deste movimento, João Marcos Buch, o juiz que libertou a mãe do menino para morrer dignamente em casa, está ficando conhecido como “o juiz que solta” e pela defesa que faz do desencarceramento. “Não existe absolutamente uma perspectiva de melhora do sistema, em razão do custo que isso ia demandar. O único caminho é um desencarceramento, mesmo porque a pena não contribui para o objetivo que é a redução da violência”, defende. A propósito: ele é contra a redução da maioridade. Leia a entrevista.

Socialista Morena  A moça que o senhor soltou havia sido condenada a quatro anos de prisão por furto. Não é uma pena excessiva?

João Marcos Buch – Sem fazer juízo de valor a respeito, a condenação foi de mais de quatro anos em razão da reincidência. Ela já tinha tido uma condenação anterior por furto. Não posso fazer este juízo de valor, por uma questão ética.

SM – Quando o senhor a encontrou, ela estava em que estado?

JMB – Acompanho a execução da pena de todos os detentos –é um complexo penal de mais de 1000 apenados e uma parcela de apenadas que ficam num anexo. Quando existem problemas de saúde, não só acompanho como requisito a intervenção da saúde, cobro prazos, enfim, tento, de uma forma ou de outra, que a lei seja aplicada dentro de uma sociedade prisional. Eu tinha conhecimento de que ela estava passando por problemas de saúde, que era soropositiva, e isso veio a fazer com que o quadro se agravasse, acabou adquirindo toxoplasmose e teve uma lesão cerebral com paralisia da metade do corpo. Isso estava comunicado no processo. Mas recebo muitas pessoas aqui no meu trabalho, não só egressos do sistema criminal como familiares, advogados, me cabe fazer essa recepção com minha assessoria. Diariamente, muitas pessoas vêm me procurar sobre situações diversas. E a avó veio com o menino aqui no meu gabinete. Lembro especificamente dessa data porque a partir da intervenção dessa avó (o menino ficou em silêncio), fui naquele mesmo horário ao hospital para avaliar a situação da detenta. No hospital, a médica me passou todo o quadro clínico e os encaminhamentos que foram feitos. Mas, no momento em que pedi para vê-la, fiquei surpreso porque, mesmo com a metade do corpo paralisado, ela estava algemada à cama. Não era razoável isso. Muito embora entenda que os protocolos de segurança da secretaria do Estado devam ser seguidos, devem se observar situações específicas de cada pessoa. E ela não oferecia absolutamente nenhuma periculosidade, nada justificava a algema. Mais do que isso, nada mais justificava que, se recebesse alta do hospital, voltasse ao presídio. Aquilo não era razoável. Por uma questão humanitária, determinei a retirada das algemas e a prisão domiciliar dela. Uma vez que tivesse alta, iria para casa.

SM – Depois de tudo, o filho dela entrou em contato com o senhor para agradecer e isso virou notícia.

JMB – Até ali, sou franco em dizer, o drama das pessoas, neste ambiente, é diário. Eu presencio muitas dificuldades, muitos problemas no sistema prisional brasileiro. A característica desse fato é que esse menino de 11 anos acabou mandando essa mensagem para mim. Uma mensagem que, realmente, sensibiliza.

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(As mensagens do menino no Facebook)

SM – Ela sobreviveu muito tempo ainda?

JMB – Morreu no final de março. Sobreviveu três meses.

SM – Então ela estava em estado terminal e presa?

JMB – Sim.

SM – O senhor é a favor da aplicação de penas alternativas?

JMB – Absolutamente a favor. Na realidade, eu vejo e já andei pelo País fazendo inspeções em unidades prisionais, e Santa Catarina não é diferente do restante do Brasil. Vejo que o problema do encarceramento é muito grave, não existe absolutamente uma perspectiva de melhora do sistema em razão do custo que isso ia demandar. O único caminho é um desencarceramento, mesmo porque a pena, depois de tudo que tenho visto e trabalhado muito embora eu deva aplicar a lei, então aplico a lei, tenho que determinar a prisão de quem deve ser preso, soltar quem deve ser solto, entendo que a pena não contribui para o objetivo que é a redução da violência. Além disso, o desencarceramento é o único caminho viável para que possamos começar a pensar numa política pública de sistema prisional, através de medidas alternativas, da prisão apenas naqueles casos em que a pessoa é perigosa para com a vida de outro ser humano.

SM – Tem aquelas tornozeleiras eletrônicas também, não é?

JMB – A tornozeleira é mais uma alternativa que pode ser dada, mas realmente tem que haver uma política de Estado, dos governos estaduais, especialmente, porque não depende só da União, o sistema é estadual. Tem que haver uma política de Estado para fazer essa grande mudança de paradigma, porque o encarceramento por si só está violando cada vez mais os direitos humanos, não está sendo racional e não está sendo útil. Só está fazendo com que a violência se reproduza.

SM – Existem muitas pessoas na mesma situação que essa moça?

JMB – Existem. Salvo ilhas de exceção, o apenado adoece dentro do sistema, pela falta de saneamento, de higiene, de um auxílio médico, de um vestuário adequado, de uma cama para dormir, da falta de atividade, porque não é oferecido a ele trabalho, estudo. Isso tudo faz com que a pessoa adoeça e fique vulnerável, que acentue eventuais problemas que já tinha ali fora, quando livre, ou que tenha novos problemas ali dentro. Se o estado não tem condições sequer de tratar as pessoas que estão livres, imagina como vai conseguir tratar essas pessoas lá dentro, com falta de recursos humanos, o número de agentes penitenciários não valorizados, não reconhecidos. É muito difícil trabalhar nesse sistema. Resulta que pessoas adoecem e acabam falecendo dentro do sistema prisional. Eu procuro, na medida do possível, como juiz, fazer estas inspeções quase que semanais na penitenciária para avaliar pelo menos a questão de saúde, para que com base num laudo médico eu decida se mandarei essa pessoa para casa ou a manterei dentro da unidade prisional.

SM – O senhor está ganhando fama de juiz que solta. É o que está fazendo falta no Brasil, mais juízes que soltam?

JMB – Acho que precisava, e aí não vai crítica alguma aos colegas, olhar mais para nossa Constituição, tratar a sério nossa Constituição. Essa não é uma opção nossa, o poder Judiciário é um guardião da Constituição. E se nós começarmos a fazer um filtro constitucional das leis penais, perceberemos que o juiz é o juiz que solta e não o que prende. A prisão, conforme a Constituição, é uma exceção.

SM – O senhor se orgulha de ser um juiz que solta em vez de um juiz que prende?

JMB – Sim. Isso não significa que eu já não tenha condenado muitas pessoas. Hoje estou na execução penal e tem situações em que nego a soltura, digo ‘não é o momento adequado ainda, vamos aguardar mais seis meses’, mas tudo com base na lei. Não é algo sem um fundamento. As pessoas que trabalham comigo, Ministério Público, advogados, eles não têm surpresas a meu respeito, sabem minha linha de pensamento e sabem como provavelmente vou decidir, o que é bem previsível. Na época que fui da Justiça criminal, que processava e julgava, já condenei muitas pessoas, sequestradores a 70, 80 anos de prisão. Nós temos que aplicar a lei. Mas, dentro dessa lei, nós sabemos que a exceção é a prisão, a regra é a liberdade, é tentar de outras formas fazer com que a pessoa crie aquele link com o Estado, aquela responsabilidade, e consiga conviver em comunhão com todos. A prisão não resolve dessa forma. Em resumo, não vejo problema nenhum, pelo contrário, acho que é até interessante eu ser conhecido como o juiz que solta.

 

22 Apr 20:12

Alckmin quer partidarizar greve dos professores para não atender reivindicações

by Conceição Lemes

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Governo Estadual quer partidarizar a greve  para não atender reivindicações dos professores

da Assessoria de Imprensa da Apeoesp, via e-mail

Conforme alertamos ontem, 21 de abril, o jornal “Diário de S. Paulo” publica hoje, 22 de abril, matéria e editorial destinados a desqualificar a greve dos professores da rede estadual de ensino, acusando-a de ter motivações partidárias.

Na realidade, a reportagem está bem afinada com a intenção do Governo do Estado, do PSDB, de partidarizar a nossa greve como um pretexto para não atender nossas reivindicações, que vão da questão salarial, passando pela aplicação da lei federal sobre a jornada de trabalho, questões profissionais, até a melhoria das condições de trabalho para os docentes e de ensino-aprendizagem para os estudantes.

A greve atinge todas as regiões do estado e conta com apoio dos estudantes, dos pais, de personalidades, artistas e entidades de diversos segmentos da sociedade civil organizada. Na medida em que os meios de comunicação publicam reportagens sérias sobre o assunto, mais claras ficam a justeza e a seriedade de nossos pleitos, como a apresentação de um plano para o cumprimento da meta 17 do Plano Nacional de Educação (equiparação salarial entre os professores e demais categorias com formação de nível superior completo); reabertura de milhares de classes fechadas; fim da superlotação das salas de aula e outras.

O jornal utiliza um tom policialesco para “acusar” diretores da APEOESP (citando nomes e sobrenomes) de terem filiação a partidos de esquerda, sobretudo o PT, como se isto constituísse um crime. Qual é a incompatibilidade entre ser filiado a partido e ser sindicalista? Como sindicalistas que somos, deixamos de ser cidadãos e cidadãs? Por que, então, não se questionam outros sindicalistas que também têm filiação partidária. Será que é porque são aliados do Governo do PSDB no estado de São Paulo?

Devemos todos respeitar e defender o Estado Democrático de Direito, que garante a todos nós os direitos da cidadania. Para nós, sindicalistas, não querem reconhecer esses direitos, mas a reportagem diz que o Governador Alckmin será pré-candidato do PSDB à Presidência da República. É mesmo? Não sabíamos disto e nos espantamos, pois faz apenas seis meses que houve eleições presidenciais no Brasil e o Governador de São Paulo já está em campanha eleitoral.

Talvez o Governador do Estado de São Paulo esteja se utilizando deste tipo de reportagem para atender nossas reivindicações. Não seria novidade, para quem cortou verbas da educação – um setor que diz priorizar; fechou mais de 3.390 classes, superlotando as salas de aula; deixou escolas sem manutenção e sem materiais essenciais, como papel sulfite e papel higiênico; e cometeu outras barbaridades contra professores e estudantes da rede estadual de ensino.  O Governo cortou verbas e agora está sendo vítima de sua própria armadilha. Tudo, porém, é questão de prioridade. Cabe ao Governador defini-las.

A reportagem do “Diário de S. Paulo” diz que nós não valorizamos o bônus pago pelo Governo Estadual. Não valorizamos mesmo, nesta forma. Se R$ 1 bilhão fosse convertido em reajuste salarial, aí sim, haveria razão para o valorizarmos.

Nossa greve prossegue. Seus rumos são deliberados de forma aberta e transparente em assembleias que reúnem dezenas de milhares de professores à luz do dia, nas ruas e praças da cidade de São Paulo, precedidas de assembleias regionais em todas as regiões do estado de São Paulo. Nessas assembleias não há bandeiras do PT e desde logo deixo claro que nada temos contra a presença de bandeiras de outros partidos, pois não é isto que determina as nossas deliberações.

Não temos o que esconder. Não nos guiam interesses partidários e sim a luta incessante e permanente por uma escola pública de qualidade para todos e todas, com valorização dos profissionais da educação. Não nos intimidaremos. Nossa luta continua.

Maria Izabel Azevedo Noronha
Presidenta da APEOESP

 Leia também:

Diário de São Paulo ataca professores para blindar governo do PSDB 

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21 Apr 16:58

Imigrantes querem direitos? Calem a boca, sejam invisíveis e trabalhem!

by Leonardo Sakamoto

Cerca de 800 imigrantes que tentavam a travessia entre a África e a Itália morreram após um naufrágio, no mar Mediterrâneo, neste domingo (19), estimam representantes do Alto Comissariado das para Refugiados (Acnur) e a Organização Internacional para as Migrações, ambos das Nações Unidas.

Ou, na palavras de Zeid Ra’ad Al Husein, Alto Comissário para os Direitos Humanos das Nações Unidas: “A Europa dá as costas a alguns dos emigrantes mais vulneráveis do mundo e corre o risco de transformar o Mediterrâneo em um vasto cemitério”.

Não foram os primeiros mortos, nem serão os últimos, consequência direta de políticas tacanhas, medrosas e xenófobas de migração da União Europeia. E, sobretudo, hipócritas. Porque há demanda por empregos preenchida por esses migrantes, ao contrário dos discursos vazios de “roubo” de postos de trabalho usados pela extrema direita de muitos países.

Mas lá como aqui. Enquanto não aprovarmos uma nova lei de migrações, substituindo o Estatuto do Estrangeiro produzido na ditadura militar (que vê a imigração não como um direito humano mas como uma questão de segurança nacional), abrindo espaço para o amparo legal a esse grupos, continuaremos a criminalizar e a escravizar trabalhadores estrangeiros que vêm ajudar a construir o Brasil.

Chegada à Sicília de sobreviventes de naufrágios vindos da África (Francesco Malavolta/OIM)

Chegada à Sicília de sobreviventes de naufrágios vindos da África (Francesco Malavolta/OIM)

Não vou debater as origens da xenofobia, a relação entre estabelecidos e outsiders, o entendimento da alteridade… enfim. Afinal isto é um post, não uma missa. Mas é ridículo que pessoas que reclamam serem barradas nos aeroportos na Europa e nos Estados Unidos reservem um tratamento preconceituoso aos que vêm de fora por aqui.

O ser humano aprende com a experiência coletiva? Faz-me rir.

Muitos dos latino-americanos, africanos e asiáticos não vêm para cá atrás das belezas naturais do Brasil, mas sim de oportunidades melhores ou fugindo da miséria.

Miséria da qual, muitas vezes, somos co-responsáveis por explorar terra, trabalho e recursos naturais lá. Não? Vejam a lambança que algumas multinacionais brasileiras fazem na Áfricas e na América do Sul.

Guardadas as proporções, é a mesma coisa que empresas e governos do hemisfério Norte fazem com a gente. Reclamamos de estrangeiras operando no Brasil, porém, quando alguém na Bolívia ou no Paraguai pensa em rever contratos para tornar menos injusta a relação com o nosso país, parte da opinião pública daqui brada aos quatro ventos o absurdo que é essa ousadia.

Quem eles pensam que são? Iguais a nós? Que respeitem os contratos, por mais injustos que eles sejam.

São Paulo, por exemplo, conseguiu se tornar o que é por conta de quem veio de fora. Por exemplo, deveríamos ter orgulho em ser a maior cidade nordestina fora do Nordeste e toda a diversidade que isso traz. Mas chamar alguém de “baiano” como se fosse um xingamento horrível ainda é tão comum quanto contar piada de gay.

Não faz sentido que viremos às costas aos que vêm de fora e adotam São Paulo ou o Brasil, mesmo que a contragosto.

Eles são tão paulistanos e brasileiros quanto eu e você, trabalham pelo desenvolvimento do país, entregam sua força e sua dignidade para que possamos estar todos na moda sem gastar, consumamos carne barata e moremos em confortáveis apartamentos mas normalmente passam invisíveis aos olhos da administração pública e do resto de nós.

O aumento da imigração de pessoas que procuram uma vida melhor em um país com maior oportunidade de emprego tem mostrado o que certas nações têm de pior.

Os Estados Unidos erguem uma cerca entre eles e o México, para regular o fluxo de faxineiros, operários e serventes.

Na Inglaterra, brasileiros levam bala.

Na Espanha, turistas, se piscarem, são tidas como prostitutas querendo invadir o território.

A União Europeia transforma o Mediterrâneo em um cemitério.

Lembrando que boa parte dos imigrantes faz o trabalho sujo que poucos europeus ocidentais querem fazer, limpando latrinas, recolhendo o lixo, extraindo carvão. Até porque os países que recebem esses trabalhadores ganham com sua situação de subemprego e o não pagamento de todos os direitos.

Em todo o mundo, culpamos os migrantes de roubar empregos, trazer violência, sobrecarregar os serviços públicos porque é mais fácil jogar a responsabilidade em quem não tem voz (apesar de darem braços para gerarem riqueza para o lugar em que vivem) do que criar mecanismos para trazê-los para o lado de dentro do muro que os separa da dignidade – que, inclusive, geraria recursos através de impostos.

Adoraria que o Brasil desse um exemplo aos países do Norte, derrubando de vez os muros que criam trabalhadores de primeira e terceira classe (coloco-os atrás dos brasileiros pobres, os cidadãos de segunda classe, porque esses – apesar de maltratados – ao menos existem para algumas políticas públicas), garantindo a mesma dignidade para quem vive em solo nacional.

Há legislação que já garante isso no caso do Mercosul e Estados parceiros, mas interpretações diferentes dentro na Polícia Federal, por exemplo, fazem com que as coisas mudem muito lentamente. Mesmo com direito a permanecer por aqui, gente tem sido deportada por conta de ignorância estatal.

Vivemos sim uma dúvida parecida àquela enfrentada pelo Velho Mundo. Não, não é se haverá trabalho e espaço para todos com os deslocamentos de imigrantes em busca de emprego (ou fugindo de catástrofes ambientais). Mas se as características que nos fazem humanos não estarão corroídas até lá.

Se centenas de milhares de bolivianos, paraguaios, haitianos, senegaleses, chineses fossem às ruas, bloquear São Paulo, pedindo para que fossem respeitados como os estrangeiros ricos que vêm trabalhar na cidade, seriam duramente reprimidos. Deportados até.

E muitos autointitulados “cidadãos de bem” ficariam incomodados com isso.

“O que eles querem mais? Calem a boca e continuem costurando!”

Como sempre foi até agora.

21 Apr 11:15

Vaga viva, do ativismo à política pública

by João Lacerda
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Parklet em sorveteria paulistana

 

A prefeitura do Rio de Janeiro anunciou em 13 de abril de 2015 a criação da “Parada Carioca”. Trata-se basicamente de um programa que concede uma licença renovável de instalação para uma vaga viva permanente.

Instalar no espaço público de estacionamento nas vias um espaço de convivência é uma idéia que nasceu na Califórnia como intervenção artística, chegou no Brasil em 2006, se espalhou pelo país e agora ganha contornos definitivos. São Paulo já autorizou a criação de “parklets” (nome original em inglês), Fortaleza também tem iniciativa similar e agora é a vez dos cariocas de poderem requalificar o espaço público adjacente às calçadas.

História das vagas vivas

Era preciso acordar cedo, reservar um espaço, trazer móveis, grama artificial, armar um bicicletário. Era necessário também obter uma autorização junto à prefeitura e também fazer uma política de boa vizinhança junto ao guardador de carro responsável pela área. Tudo isso para apenas um dia em que no lugar de dois ou três carros estacionados haveria um pequeno espaço de convivência.

A comparação para quem frequentava a área era sempre marcante. Ao invés de um espaço intransponível com veículos grudados uns aos outros, sem espaço para atravessar a rua, havia a possibilidade de fluxo livre e pausa para descansar.

Crianças, bicicletas e cães

Crianças, bicicletas e cães

Desafios futuros para o uso do espaço público

Quando uma iniciativa artesanal, feita por pessoas apaixonadas por uma causa vira política pública surgem alguns desafios. A criatividade torna-se mais necessária para provocar reflexão e mudança de comportamento. Além disso, o espaço para o estacionamento em via pública ainda segue em disputa. Já é cada dia mais fácil visualizar uma cidade com mais locais para pessoas, o desafio passa a ser o de reconquistar de maneira permanente espaços urbanos adequados ao fluxo, descanso e interação humanos.

Duas novas disputas estão postas. Quem instala um vaga viva permanente (ou parklet, ou parada carioca) em frente ao seu estabelecimento comercial ganha um diferencial de atração e induz uma mudança na comunidade ao redor. O ativismo com isso deixa de ser necessário no aspecto imediato, mas torna-se ainda mais urgente para catalizar mudanças permanentes.

Um manual para ocupar o espaço público

Para as cidades que ainda não tem a regulamentação para vagas vivas permanentes, é possível consultar o manual de como fazer uma vaga viva (PDF), trabalho conjunto da Transporte Ativo com o blog Quintal. Trata-se de uma adaptação para o Brasil do original em inglês.

Sigamos em frente por mais pessoas, em mais e melhores espaços públicos, mais vezes.

Saiba mais:

– Vagas vivas cariocas para lembrar… 2007, 2008 e 2012

Prefeitura do Rio cria programa Paradas Cariocas – site da prefeitura

– Espaços públicos como políticas públicas – Quintal

21 Apr 11:10

Ficção científica e as aventuras dos garotos brancos

by Lady Sybylla
Desde que a polêmica com o Hugo estourou eu venho acompanhado em portais gringos e nacionais o que vem sendo discutido. Infelizmente, quase tudo ainda está em inglês. Aqui pela terra brasilis parece que ninguém liga, desconhece, ou ambos. E até os escritores nacionais estão em um silêncio estrondoso, tirando raras exceções. Mas uma coisa que fica de lição sobre o assunto é que FC ainda é considerada uma aventura para os garotos brancos. E se você que não é um garoto branco quiser participar da brincadeira, será excluído.


Siga a @Sybylla_


Acho que é meio óbvio dizer que não há problema em ter aventuras com e para homens brancos cis heteros. Sempre que toco neste assunto aparece alguém pra vir com "ain, qual é o problema, ain heterofobia??", como se heterofobia existisse. O problema é ficar somente neste modelo, neste padrão, que vem dominado a ficção científica há décadas e que também dominou o Prêmio Hugo de 2015, um dos mais importantes prêmios de ficção científica e fantasia que existe. Sequestrar o prêmio para torná-lo "mais justo", porque um bando de gente que já tem tudo se sente discriminada, foi algo infantil e desonesto.

Desonesto no sentido dos motivos para isso, pois o sistema de nomeações do Hugo permite que as pessoas votem em quem quiser e indiquem quem quiser, desde que comprem as associações e se tornem membros. Ele é um prêmio que, apesar de não ser perfeito, foi feito com a intenção de tentar, veja bem, TENTAR, ser justo e avaliar o gosto do público.

Homens brancos cis heteros everywhere.

E o que levou ao sequestro desse ano e sim, considero isso um sequestro? Nos últimos anos o prêmio vem sendo povoado por mulheres, por negros, por escritores da comunidade LGBT, que estão trazendo pautas para suas ficções que fujam das tradicionais aventuras da ficção científica mais clássica. São enredos que possuem personagens das minorias e nem sempre existe uma preocupação em defender uma pauta ou agenda da comunidade feminista, negra ou LGBT.

No entanto, não é isso o que Torgersen, Correia e Vox Day pensam. Na cabeça deles e de muitos escrotos sujeitos que os apoiam, o prêmio Hugo deixou de representar a "ficção científica de raiz", aquela com aventuras e exploração do espaço, para levantar bandeiras de esquerda e bandeiras de pessoas que, sem qualidade literária, estariam vendendo suas ideias por meio de seus livros e sendo indicados por isso ao Hugo. Desta maneira, eles acharam que eram melhor fazer o que fizeram e indicar aqueles livros QUE ELES ACHAM que representam a "ficção científica de raiz".

Mimimimimimimimi

Acontece que a ficção científica SEMPRE foi dominada por obras de homens brancos cis heteros, que escreviam seus livros, novelas e contos para outros homens brancos cis heteros. O próprio prêmio Hugo foi dominado por eles por décadas. Se o público leitor começou a colocar livros no prêmio com uma maior representatividade, isso não é nenhum tipo de conspiração para exterminar homens brancos cis heteros da face do planeta, é um sinal de mudança de mentalidade e de mundo. As coisas evoluem, mentalidades mudam, direitos são adquiridos, a literatura, junto de outras vertentes da arte, acabam evoluindo com ela.

Se tem algo errado aqui é a mentalidade ultrapassada de escritores que acham que o mundo lhes deve algo. Eles se sentem discriminados por serem homens brancos cis heteros sendo que o mundo inteiro JÁ É DOMINADO POR ELES! Suas histórias, seus dramas, seus amores, suas lutas, suas naves, suas perseguições, suas aventuras estão o TEMPO TODO na TV, nos cinemas, nos livros, nas séries, nas HQs. Mas a cegueira intelectual e a desonestidade de quem acha que deve ser recompensado por isso fez com o prêmio Hugo virasse um palco para todo o tipo de absurdos.

Pra gente entender porque essa "luta" dos Sad e Rabbid Puppies é sem propósito, vamos voltar aos tempos dourados da ficção científica e das revistas de FC, e da forma como elas tratavam autores negros e mulheres. Desde que o gênero se popularizou (e muito disso por conta de Hugo Gernsback, que cunhou o termo ficção científica) que a FC é um clube do Bolinha. Por décadas, as únicas mulheres que fizeram sucesso nessa área precisaram publicar por pseudônimos ou abreviando seus nomes para não denotar gênero: C.L. Moore, Leigh Brackett, James Tiptree, Jr., são alguns exemplos. Até quem não fez isso, admitiu ter que usar um ponto de vista masculino em suas obras para conseguir editora.

Ursula K. LeGuin assim disse para a Paris Heview:

Escrever era algo para o qual os homens fizeram as regras e eu nunca questionei. As mulheres que questionavam essas regras eram muito revolucionárias para que eu pudesse até mesmo conhecê-las. Então, eu tive que me ajustar ao mundo masculino da escrita e escrever como um homem, apresentando apenas um ponto de vista masculino. Meus primeiros livros são todos ambientados em um mundo dos homens.

Samuel R. Delany tem muito a dizer a respeito do fandom norte-americano de FC, já que ele é negro e gay. Isaac Asimov disse, quando Delany ganhou o Hugo em 1968, que ele ganhou por ser "Negro", um termo pejorativo, como nigger. Seus enredos tinham personagens negros e de origens diversas, em um grau de realidade e experiência que muitos leitores adoravam, como personagens de origens multiétnicas.

Samuel R. Delany
Samuel R. Delany

O editor da revista Analog, John W. Campbell, um dos mais influentes editores de ficção científica do século XX, disse que curtia sacudir a audiência com este tipo de enredo, mas um das obras de Delany, Nova, chegou a incomodar até mesmo a ele. Tudo porque ele acreditava que seus leitores "não conseguiriam se identificar com um protagonista negro", personagem este com origens norueguesas e senegalesas, e avisou ao agente de Delany sobre isso.

Campbell acabou se utilizando da desculpa do despreparo de seus leitores para ocultar seu racismo, pois em 1968, ele endossou a candidatura de um famoso segregacionista, George Wallace, para presidente. E antes disso, Campbell também publicou editoriais argumentando que a escravidão era um sistema perfeito para as sociedades pré-industriais e que uma das razões para o povo negro ter tanto problema em aceitar isso é que os negros não estariam fazendo um bom trabalho para disciplinar seu próprio povo (!). Delany precisou aceitar que suas publicações passassem pelo filtro de Campbell para poder ser publicado.

Se uma pessoa de tal relevância para alavancar tantos autores como Asimov, Sturgeon, Heinlein, Herbert, entre outros e que comandou as publicações em uma revista de grande circulação e importância para tantos jovens leitores pensava desta maneira, o que dizer dos leitores e, posteriormente, os escritores que cresceram vendo uma ficção científica pasteurizada pelos preconceitos de seus editores?

Star Trek Deep Space 9, spin off de sucesso e, para mim, a mais subversiva de todas, explorou o racismo na ficção científica de maneira simplesmente genial, na figura de Benny Russel. E olha que Star Trek é um grande clube do Bolinha desde os anos 60. Benny Russel era uma identidade que o comandante da estação, Benjamin Sisko, adquiria quando recebia visões dos profetas. Benny era um escritor de ficção científica muito bom nos anos 50 e que queria mais espaço para publicar suas obras em uma famosa revista. Seus contos eram publicados, mas o editor era extremamente relutante em revelar que Benny era negro.

Benny Russel - Deep Space 9

Benny estava determinado a ter seus textos devidamente publicados com sua identidade racial à vista. Mas seus amigos, conhecidos e até sua noiva diziam que era perda de tempo lutar por isso, pois aquela era uma sociedade branca que não aceitava ler histórias escritas por um negro. Mas Benny rebatia, dizendo que a voz dos negros precisava ser ouvida. No fim, a tarefa o consume e o desconsola de tal forma, que Benny acaba parando em um hospital psiquiátrico.

Se o mundo não está preparado para uma mulher escritora - imagine o que aconteceria se ele soubesse que um negro é um escritor - corra para as colinas! É o fim da civilização!

Herbert (Quark) - DS9

O silêncio estrondoso que vejo de muitos escritores brasileiros é o que mais me entristece. E tem gente que acha que existe mesmo uma conspiração editorial para promover agendas das minorias e que o que foi feito no Hugo foi uma maneira de revidar. Eu não sei se choro ou se corto os pulsos com faquinha de rocambole. Ou os escritores nacionais não ligam a mínima para o que vem ocorrendo, ou no mínimo concordam com as ideias de quem fez isso.

Os apoiadores do sequestro do Hugo acham que a ficção científica de hoje perdeu a nostalgia e a diversão, pois ela ficou muito consciente socialmente e pretensiosa devido à uma "conspiração da esquerda" para doutrinar seus leitores e que a ficção científica tem que ser apolítica. Gente, isso já é caso para psiquiatra. Isso é fruto de uma histeria coletiva, no melhor estilo "os russos estão chegando!". A Guerra Fria acabou, minha gente. O trem do mundo passou e vocês ficaram na estação.


Dizer que a ficção científica é apolítica é fechar os olhos para todos os enredos em que homens brancos cis heteros são os guerreiros, os presidentes, os fundadores, os heróis, os libertadores, os soldados, os cientistas, os gênios criativos. É óbvio que eles vão enxergar chifre em cabeça de cavalo, eles não enxergam os próprios privilégios. E reconhecer os próprios privilégios é coisa para os fortes, para aqueles dotados de empatia.

E para mostrar bem como reconhecer os privilégios que possui é para poucos, este foi um comentário que vi numa discussão sobre a representatividade feminina em videogames e porque ela é importante:

Mas por que essa necessidade de se sentir representado?

Ou seja, o comentário mostra que a gente que pede por diversidade e representatividade não tem porque se sentir representado. Mas ele que está muitíssimo bem representando em TUDO, está questionando a importância disso. É fácil reclamar quando não é você que se sente frustrado e desanimado com uma produção cultural que te ignora, porque representatividade importa, empondera, diverte e significa, pois estabelece que todas as pessoas são seres humanos e, como tais, merecem respeito e boas histórias.


Foi como eu disse antes. A diversidade veio para ficar. E tudo o que foi feito antes não vai ser queimado numa mega fogueira em praça pública. Todos podem ter seu espaço, por que só eles querem os holofotes?

Até!



Bonus track:

Recomendo muito a leitura deste artigo (em inglês) e o podcast do AntiCast 178 – A Polêmica do Hugo Awards, que tem a participação de Fábio Fernandes, que manja muito de ficção científica, de Hugo Awards e de mercado nacional.
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20 Apr 14:02

O último suspiro da abelha

by Georges Bourdoukan




Saíd Hillis, 60 anos está inconsolável. Palestino, dos arredores de Gaza, não se conforma com a brutalidade dos israelenses.

Saíd  vivia da venda de mel. Não vive mais porque seus apiários foram destruídos pelo exército de Israel.

“Gostaria de entender que mal minhas abelhas causaram”, fala pausadamente enquanto observa  as desesperadas tentativas de algumas abelhas buscando a vida.

“ Eu ainda implorei para que poupassem as abelhas, murmura diante do apiário totalmente destruído, mas não me ouviram. Alias ouviram sim. Disseram que estavam explodindo o apiário porque uma abelha teria picado um soldado” ...

“Nem adiantou eu dizer que as abelhas só atacam quando ameaçadas, mas não quiseram saber...

“Um dos soldados até argumentou com o comandante que ele conhecia as abelhas e que elas nunca atacaram ninguém. Mas o comandante foi irredutível”.

Explodiram tudo. Até as oliveiras centenárias, que resistiram até hoje, eles destruíram, alegando que poderiam abrigar terroristas”...

Vizinhos se aproximam para consolá-lo, mas não conseguem evitar suas lágrimas.

Saíd segura uma das abelhas moribundas e carinhosamente sopra sobre o seu frágil corpinho.

Ela expira olhando para ele.