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16 Nov 19:17

‘Sei por experiência própria que a primeira geladeira a gente nunca esquece’

by Conceição Oliveira

Este blog argumenta questões como as expostas pelo colunista da BBC no texto reproduzido abaixo há muito tempo: uma boa dose do ódio contra o PT e seus membros vem do fato de termos uma classe média com valores escravistas, bem representada no comentário do conterrâneo britânico que Tim Vickery  encontra no Rio de Janeiro.

Talvez, lendo o testemunho de Vickery parte desta classe média irracional se dê conta que nunca fará parte de um país desenvolvido se não permitir a ascensão social dos mais pobres que os governos progressistas como os da coalização do PT vem promovendo no país desde 2003.

Há outra aspecto bastante interessante na fala de Tim, o papel da mídia em amplificar o ódio desta classe média cheia de ódio. O ex-jornalista da Globo News, Sidney Rezende deixa isso muito claro em seu último post.

Tim Vickery: Minha primeira geladeira e por que o Brasil de hoje lembra a Inglaterra dos anos 60

Por Tim Vickery* BBC Brasil
13/11/2015

Eduardo Martino
Foto: Eduardo Martino

Acho que nasci com alguma parte virada para a lua. Chegar ao mundo na Inglaterra em 1965 foi um golpe e tanto de sorte. Que momento! The Rolling Stones cantavam I Can’t Get no Satisfaction, mas a minha trilha sonora estava mais para uma música do The Who, Anyway, Anyhow, Anywhere.

Na minha infância, nossa família nunca teve carro ou telefone, e lembro a vida sem geladeira, televisão ou máquina de lavar. Mas eram apenas limitações, e não o medo e a pobreza que marcaram o início da vida dos meus pais.

Tive saúde e escolas dignas e de graça, um bairro novo e verde nos arredores de Londres, um apartamento com aluguel a preço popular – tudo fornecido pelo Estado. E tive oportunidades inéditas. Fui o primeiro da minha família a fazer faculdade, uma possibilidade além dos horizontes de gerações anteriores. E não era de graça. Melhor ainda, o Estado me bancava.

Olhando para trás, fica fácil identificar esse período como uma época de ouro. O curioso é que, quando lemos os jornais dessa época, a impressão é outra. Crise aqui, crise lá, turbulência econômica, política e de relações exteriores. Talvez isso revele um pouco a natureza do jornalismo, sempre procurando mazelas. É preciso dar um passo para trás das manchetes para ganhar perspectiva.

Será que, em parte, isso também se aplica ao Brasil de 2015?

Não tenho dúvidas de que o país é hoje melhor do que quando cheguei aqui, 21 anos atrás. A estabilidade relativa da moeda, o acesso ao crédito, a ampliação das oportunidades e as manchetes de crise – tudo me faz lembrar um pouco da Inglaterra da minha infância.

Por lá, a arquitetura das novas oportunidades foi construída pelo governo do Partido Trabalhista nos anos depois da Segunda Guerra (1945-55). E o Partido Conservador governou nos primeiros anos da expansão do consumo popular (1955-64). Eles contavam com um primeiro-ministro hábil e carismático, Harold Macmillan, que, em 1957, inventou a frase emblemática da época: “nunca foi tão bom para você” (“you’ve never had it so good”, em inglês).

É a versão britânica do “nunca antes na história desse país”. Impressionante, por sinal, como o discurso de Macmillan trazia quase as mesmas palavras, comemorando um “estado de prosperidade como nunca tivemos na história deste país” (“a state of prosperity such as we have never had in the history of this country”, em inglês).

Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal: Vickery volta ao local onde passou sua infância

Macmillan, “Supermac” na mídia, era inteligente o suficiente para saber que uma ação gera uma reação. Sentia na pele que setores da classe média, base de apoio principal de seu partido, ficaram incomodados com a ascensão popular.

Em 1958, em meio a greves e negociações com os sindicatos, notou “a raiva da classe média” e temeu uma “luta de classes”. Quatro anos mais tarde, com o seu partido indo mal nas pesquisas, ele interpretou o desempenho como resultado da “revolta da classe média e da classe média baixa”, que se ressentiam da intensa melhora das condições de vida dos mais pobres ou da chamada “classe trabalhadora” (“working class”, em inglês) na Inglaterra.

Em outras palavras, parte da crise política que ele enfrentava foi vista como um protesto contra o próprio progresso que o país tinha alcançado entre os mais pobres.

Mais uma vez, eu faço a pergunta – será que isso também se aplica ao Brasil de 2015?

Alguns anos atrás, encontrei um conterrâneo em uma pousada no litoral carioca. Ele, já senhor de idade, trabalhava como corretor da bolsa de valores. Me contou que saiu da Inglaterra no início da década de 70, revoltado porque a classe operária estava ganhando demais.

No Brasil semifeudal, achou o seu paraíso. Cortei a conversa, com vontade de vomitar. Como ele podia achar que suas atividades valessem mais do que as de trabalhadores em setores menos “nobres”? Me despedi do elemento com a mesquinha esperança de que um assalto pudesse mudar sua maneira de pensar a distribuição de renda.

Mais tarde, de cabeça fria, tentei entender. Ele crescera em uma ordem social que estava sendo ameaçada, e fugiu para um lugar onde as suas ultrapassadas certezas continuavam intactas.

Getty
Getty: ‘Parte da crise política da Inglaterra foi vista como protesto contra o progresso entre os mais pobres’, diz Vickery

Agora, não preciso nem fazer a pergunta. Posso fazer uma afirmação. Essa história se aplica perfeitamente ao Brasil de 2015. Tem muita gente por aqui com sentimentos parecidos. No fim das contas, estamos falando de uma sociedade com uma noção muito enraizada de hierarquia, onde, de uma maneira ainda leve e superficial, a ordem social está passando por transformações. Óbvio que isso vai gerar uma reação.

No cenário atual, sobram motivos para protestar. Um Estado ineficiente, um modelo econômico míope sofrendo desgaste, burocracia insana, corrupção generalizada, incentivada por um sistema político onde governabilidade se negocia.

A revolta contra tudo isso se sente na onda de protestos. Mas tem um outro fator muito mais nocivo que inegavelmente também faz parte dos protestos: uma reação contra o progresso popular. Há vozes estridentes incomodadas com o fato de que, agora, tem que dividir certos espaços (aeroportos, faculdades) com pessoas de origem mais humilde. Firme e forte é a mentalidade do: “de que adianta ir a Paris para cruzar com o meu porteiro?”.

Harold Macmillan, décadas atrás, teve que administrar o mesmo sentimento elitista de seus seguidores. Mas, apesar das manchetes alarmistas da época, foi mais fácil para ele. Há mais riscos e volatilidade neste lado do Atlântico. Uma crise prolongada ameaça, inclusive, anular algumas das conquistas dos últimos anos. Consumo não é tudo, mas tem seu valor. Sei por experiência própria que a primeira geladeira a gente nunca esquece.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick

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15 Nov 17:28

O que ninguém está falando na demissão de Sidney Rezende. Por Paulo Nogueira

by Paulo Nogueira
Sem direitos trabalhistas

Sem direitos trabalhistas

Não foi só a demissão de Sidney Rezende um dia depois de um artigo crítico sobre a mídia que me chamou a atenção.

Foi também um aspecto lateral.

Rezende não foi demitido. Não renovaram seu contrato.

É igual, mas é diferente.

Significa que ele sai da Globo News e da Globo sem os direitos trabalhistas clássicos.

Significa, também, que a Globo, confiante em sua impunidade, há muito armou um esquema de sonegação no seu RH.

Você pode até tentar aceitar a utilização de PJs em empresas em condição desesperadora.

Mas na Globo?

Basta ver o patrimônio multibilionário de seus donos para verificar que este tipo de sonegação é um escárnio contra a sociedade e contra a decência.

Basta ver também a transfusão copiosa de dinheiro público para a empresa para ver o tamanho do descaro.

Apenas o governo federal, com suas empresas, coloca 500 milhões de reais por ano na Globo. Não estamos falando nos ingressos adicionais derivados de governos estaduais – Aécio foi uma mãe em seus oito anos em Minas – e prefeituras.

Com tudo isso, a Globo se julga no direito de sonegar em seus funcionários mais caros.

É uma vergonha, e também é um passivo considerável.

Nos últimos meses, a história de Claudia Cruz, mulher de Eduardo Cunha, veio à tona.

Um dos fatos marcantes de sua biografia é que ela processou a Globo quando foi demitida.

Claudia era apresentadora como Sidney Resende.

Ela ganhou na Justiça da Globo. Recebeu uma indenização na saída que não teria como PJ.

É presumível, hoje, que mais demissões virão entre PJs da Globo. E é provável, igualmente, que mais gente processe a empresa.

Isto porque as circunstâncias são outras.

Antes, romper com  a Globo era uma decisão complicada para qualquer profissional. E um processo representa uma ruptura.

Agora mesmo Ali Kamel, ao falar da saída de Resende, disse que não renovar um contrato não quer dizer que o vínculo não pode ser retomado no futuro.

Não sei se existem casos assim na Globo.

Mas agora a Globo é uma empresa em declínio, e isso não vai mudar. A internet transformou as mídias da Globo em negócios declinantes, incluída aí a televisão aberta.

A Globo é a Abril amanhã.

Os profissionais sabem que seu futuro está na mídia digital, e não na Globo. Eles já não terão nada a perder acionando a Globo. Terão, na verdade, apenas a ganhar.

Isso muda tudo.

Será uma imensa surpresa se Sidney Rezende não for à Justiça contra a Globo.

Mas de novo.

É muita ganância dos donos da Globo a utilização de PJs.

E é inacreditável que o Estado – incluídos aí governos petistas nos últimos 13 anos – nunca tenha feito nada para coibir este crime contra o bolso do povo.

13 Nov 00:22

Samarco é acusada de estar por trás dos que a defendem na internet

by eduguim

samarco capa

O jornal O Tempo, de Belo Horizonte, divulgou nesta quinta-feira (12) que a página Somos Todos Samarco foi criada no Facebook no dia anterior e “ganhou visibilidade, com uma série de compartilhamentos, a maioria criticando a iniciativa”.

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A empresa, responsável pelas barragens que se romperam na última quinta-feira (5) e destruiu o distrito de Bento Rodrigues, na região Central de Minas, deixando pelo menos seis mortos, nega que tenha relação com a iniciativa.

“Esse movimento visa dar apoio a SAMARCO, uma empresa que gera milhares de empregos, hoje ela conta com o nosso apoio. SOMOS TODOS SAMARCO”, diz a descrição, que ressalta ainda que a iniciativa não foi da empresa.

Uma das postagens que mais revoltaram as pessoas exibe foto de lixo atirado nas ruas e diz que quem faz isso “não é melhor que a Samarco”.

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A reação foi imediata. Praticamente todos os comentários, compreensivelmente, foram de revolta com a comparação descabida entre uma empresa que, para lucrar, provocou um desastre de proporções gigantescas, perda de vidas e que riscou uma cidade do mapa com um problema que ocorre em regiões carentes até por omissão do poder público com a limpeza urbana.

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A última postagem publicada na página é um texto cheio de erros de português que aprofunda teorias tortas em defesa da empresa, que, como todas as outras postagens, provocou ainda mais indignação.

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Uma das postagens, em tom oficial, elenca uma série de medidas que a empresa estaria tomando para minimizar o desastre que causou.

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Clicando no link, a postagem remete a uma página com 12 comunicados oficiais da Samarco dando conta do que “está fazendo” após ter riscado comunidades inteiras da face da Terra.

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Na manhã desta quinta-feira, o Blog recebe mensagem via What’s App de uma pessoa que se diz irmão de funcionário da Samarco. A fonte afirma que a página “Somos Todos Samarco” é uma das várias iniciativas “fake” da empresa para se defender em redes sociais.

A pessoa diz que não pode dar maiores detalhe sobre essa ação de “limpeza de imagem” da Samarco porque se citar nomes seu irmão pode ser identificado.

A fonte ainda relata que funcionários da empresa estão recebendo pressões “sutis” para sair em sua defesa nas redes sociais, mas nenhum funcionário que trabalhava no local da tragédia faria defesa da empresa porque praticamente todos foram igualmente atingidos e estão igualmente revoltados.

O denunciante diz, ainda, que espera que “o governo seja duro na defesa dos funcionários”, que “não têm culpa pelos desatinos da empresa”, que é “muito rica” e, “além de ter que se responsabilizar pela indenização dos atingidos, tem que se responsabilizar pelas condições socioeconômicas de seus funcionários”.

Apesar do anonimato pedido pelo denunciante, o viés da página é claramente de iniciativa de alguém com interesse no saneamento da imagem da Samarco, como se isso fosse possível.

Na verdade, a possibilidade de essa empresa estar promovendo essa suposta “operação de limpeza de imagem” e pressionando funcionários a defendê-la, caso se confirme pode configurar mais um ato criminoso. Com a palavra, as autoridades.

12 Nov 23:50

Nem as netas de FHC votam no PSDB, e isso não é piada. Por Paulo Nogueira

by Paulo Nogueira
As netas de FHC  Joana e Helena com o pai Paulo Henrique

As netas de FHC Joana e Helena com o pai Paulo Henrique

 

A Piauí que está nas bancas tem um furo sensacional.

Nem as netas de FHC votam no PSDB.

Num perfil sobre Jean Wyllys, FHC revela que elas votaram nele, JW. Como sociólogo, ele afirma que JW, “um fenômeno”, defende as causas que comovem e mobilizam os jovens de hoje.

Isto tem um nome. Zeitgeist. Em alemão, espírito do tempo.

Jean Wyllys representa o Zeitgeist: defende as minorias, combate pelo meio ambiente contra a predação da plutocracia e daí por diante.

O que o avô FHC parece não ter se dado conta é que seu partido é o anti-Zeitgeist. É um partido que parece ser ainda mais velho que o próprio FHC com seus 84 anos.

Não há nenhum motivo para jovens se interessarem por um partido tão embolorado, tão sem graça, tão atrasado.

Que causa progressista os tucanos abraçaram nos últimos anos? Nenhuma. As causas conservadoras, em compensação, têm tido irrestrito apoio do PSDB.

Isto posto, você pondera o seguinte. Os jovens não querem nem saber dos tucanos. Eles olham para um lado e vêem Serra. Olham para o outro lado e vêem Aécio. Sobem numa escada para enxergar mais adiante e dão com Aécio ou FHC.

É um cenário absolutamente desolador para a juventude, e não só para ela, aliás.

Agora: neto é neto. Neta, mais ainda, dado o carinho das meninas. A neta pode não se empolgar pelo partido do avô, mas vota nele por amor, por devoção, por lealdade.

Isso quer dizer o seguinte: se nem as netas de FHC votam no PSDB é porque é um partido tecnicamente morto.

Como sociólogo, FHC deveria estudar este caso familiar. E tentar aprender.

Em vez de ir a programas irrelevantes como o Roda Viva para vender seu livro novo, deveria reunir os tucanos e dizer: “Amigos, nem minhas netas estão votando em nós. Que fazemos?”

Não adianta, como é costume entre os líderes tucanos, ir bater nas portas dos barões da mídia.

Foi isso, essencialmente, que o PSDB fez nestes últimos anos todos. Em vez de procurar o eleitor, o povo, foi atrás dos donos da mídia.

“Esse rapaz não faz nada sem me consultar”, Roberto Civita dizia de Aécio a seus interlocutores na Abril.

Nenhum conselho de um Civita, de um Marinho, de um Frias vai levar o PSDB a se reinventar e passar a fazer sentido para jovens como as netas de FHC.

O que elas estão dizendo, ao recusar os tucanos, é que o partido está em adiantado estado de putrefação.

Mas é aquela história.

FHC vê as netas votarem em Jean Wyllys e, em vez de aprender com isso, prefere dar uma entrevista sobre o assunto para a Piauí, viciado em mídia que é.

O PSDB não é mais um partido. É uma múmia.

Ponto, pelo menos, para a nova geração de Cardosos representada pelas netas de FHC.

11 Nov 19:56

Rogério Correia: Tucanos barraram CPI da Mineração agora aprovada pela Assembleia de Minas Gerais

by Luiz Carlos Azenha

MINAS SEMPRE FOI A ‘CASA DA MÃE JOANA’ PARA AS MINERADORAS

Mais uma herança maldita tucana que agora vamos consertar!

do Facebook do deputado Rogerio Correia

Em abril de 2013, o então bloco de oposição ao governador Anastasia, o Minas Sem Censura, tentou instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito — CPI — para investigar irregularidades e diversos danos causados ao meio ambiente e à população pela expansão e intensificação da atividade minerária em Minas Gerais.

Infelizmente os interesses dos poderosos falaram mais alto e não conseguimos.

Aí está pedido de CPI apresentado na época:

Captura de Tela 2015-11-11 às 17.07.07

 

PUBLICADO EM 10/11/15 – 19h03

ALMG

Deputados conseguem assinaturas para abertura da CPI das barragens

O foco do trabalho será analisar a responsabilidade pelo rompimento das barragens em Bento Rodrigues, em Mariana, na região Central do Estado, mas também analisar a situação das barragens em todo o Estado

TÂMARA TEIXEIRA, no jornal O Tempo

Os deputados Fred Costa (PEN) e João Magalhães (PMDB) unificaram os requerimentos para a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Barragens e do Mineroduto. Essa união fez com que conseguissem em um dia todas as assinaturas necessárias para a abertura da CPI e irão protocolar nesta quarta-feira (11) o pedido de abertura.

Ao todo são necessárias 26 assinaturas para instaurar a comissão. O foco do trabalho será analisar não só a responsabilidade pelo rompimento das barragens da empresa Samarco, em Bento Rodrigues, na cidade de Mariana, na região Central do Estado, mas também levantar a situação e os riscos que possam existir nas demais barragens em funcionamento pelo Estado.

A comissão irá analisar a legalidade e os trâmites dos licenciamentos ambientais concedidos para as mineradoras que atuam em Minas Gerais e a situação de risco de rompimento em outras barragens pelo Estado. Segundo o deputado Rogério Correia (PT), a CPI irá abordar os empreendimentos espalhados por todo o Estado. “Não foi a primeira vez que isso aconteceu.  Já vimos esse tipo de tragédia em Itabirito, Macacos e outras cidades. É um problema recorrente”, disse Correia.

Segundo o deputado, o foco não é apurar possíveis falhas em governos anteriores, mas, as responsabilidades pelo rompimento das barragens em Mariana e ainda propor mudanças que possam garantir a segurança dessas atividades no Estado. “Vamos apurar as causas e ver se é possível conviver ou não com as barragens. A intenção é propor também novas diretrizes de como deve ser o funcionamento de mineração no Estado, pois Minas é a casa da mãe Joana das mineradoras”, disse.

O deputado Fred Costa (PEN), que pertence ao bloco independente Compromisso com Minas Gerais, começa a colher assinaturas na Casa para uma outra CPI com o mesmo intuito na tarde desta terça-feira (10). Segundo o parlamentar, a tendência é que as duas frentes se unam no futuro.

“Queremos apurar, no caso de Mariana, os motivos que remeteram a essa catástrofe, quais eram os cuidados que a mineradora havia tomado para possíveis acidentes. Além disso, queremos saber como tem sido o processo de licenciamento de mineradoras no Estado. Enfim, queremos fazer um raio-x de como estão as barragens e as licenças ambientais dessas atividades para que novos acidentes não ocorram”, disse. Com relação ao movimento da base que já reúne assinaturas, ele diz que, como o tema é o mesmo, “com certeza vamos nos unir”.

Veja as imagens:

Do extermínio do rio Doce

Do extermínio do rio do Carmo

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11 Nov 12:29

A empresa brasileira que está fazendo as casas dos refugiados na Alemanha

by Diario do Centro do Mundo

casa refugiados

Publicado na DW.

 

A crise dos refugiados enfrentada pela Alemanha entrou na rota das exportações brasileiras. A MVC Plásticos, empresa baseada em São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, começará a exportar na semana que vem casas pré-fabricadas que devem abrigar algumas das milhares de pessoas que buscam asilo na Alemanha.

O kit da primeira unidade vai ser despachado na quinta-feira (12/11) por via aérea e montado na cidade de Bremen, no noroeste do país. A empresa espera que, em 2016, o total de casas exportadas chegue a 1.200 unidades, num negócio que deve render 65 milhões de reais.

As casas, que têm 64m² e dois dormitórios, são baseadas em chapas de compósitos e fibra de vidro. Elas serão adquiridas pelo consórcio alemão AMD, baseado em Bremen, que pretende revendê-las para empresas alemãs interessadas em doar as unidades para prefeituras e governos estaduais. Futuramente, a AMD espera negociar diretamente com as autoridades a venda das casas pré-fabricadas. O material usado é semelhante ao de trailers e turbinas eólicas.

De acordo com o diretor-geral da MVC, Gilmar Lima, a primeira casa exportada servirá de “cobaia” para avaliar a necessidade de eventuais modificações. Os kits já sofreram várias adaptações para se adequar ao clima europeu. “Tivemos que modificar algumas coisas, como reforçar o teto por causa do acúmulo de neve e adequar o layout ao gosto dos alemães”, afirma Lima. A empresa já exportou casas do mesmo modelo para Angola, Moçambique e Venezuela.

A primeira unidade será montada por uma equipe de técnicos brasileiros, em até 15 dias. O plano prevê que operários alemães sejam treinados para montar as unidades que serão exportadas em 2016. Após o período de testes, que também deve durar 15 dias, a previsão é que seja exportado um lote inicial de 40 casas. A partir de março, cem casas por mês deverão ser enviadas do Brasil para a Alemanha. A AMD não revela onde as casas serão distribuídas.

“Como prevemos que a demanda para casas de refugiados não deve diminuir tão cedo, estamos estudando aumentar a capacidade para eventualmente exportar até 400 casas por mês”, afirma Lima, da MVC.

Cada unidade vai custar 13.800 dólares (cerca de 52 mil reais) na fábrica brasileira. Além de paredes, forro e teto, os kits já incluem as instalações hidráulicas e elétricas. O acabamento final, que inclui janelas, portas e outros itens, vai ser fornecido por empresas alemãs, o que deve elevar o valor de cada unidade para 25 mil dólares (95 mil reais). A empresa afirma que as unidades são capazes de resistir por anos sem muita manutenção.

Segundo o diretor da MVC, empresa controlada pela Artecola Química e pelo grupo Marcopolo, o interesse pelas unidades brasileiras surgiu na Alemanha em parte devido à alta do dólar, que tornou o produto mais competitivo perante concorrentes da Turquia e da China.

O negócio envolvendo os refugiados é visto como um alívio para a empresa, que teve receitas de 670 milhões de reais em 2014, mas espera registrar pouco menos da metade disso em 2015 por causa da retração do mercado brasileiro de componentes automotivos e da construção de unidades para programas como o Minha Casa, Minha Vida, que vem sofrendo cortes.

Crise

Oficialmente, o governo alemão espera receber 800 mil solicitantes de asilo em 2015, principalmente refugiados que fogem das guerras na Síria e no Iraque e imigrantes que deixam seus países por razões econômicas, especialmente pessoas originárias dos Bálcãs.

A maioria dos que fogem do Oriente Médio tem grande chances de conseguir o documento de permanência. Já os imigrantes econômicos têm poucas chances de ficar na Alemanha – só que, até que seus casos sejam analisados (o que costuma demorar semanas), eles têm uma permissão temporária para permanecer no país.

Várias prefeituras e governos estaduais afirmam que estão sobrecarregados com as tarefas de abrigar e alimentar os recém-chegados. Algumas cidades estão tendo que improvisar abrigos e instalações. Em Berlim, um terminal do antigo aeroporto de Tempelhof foi convertido num dormitório para mil pessoas. Outras cidades, como Hamburgo, armaram barracas para abrigar famílias.

O temor é que, com a chegada do inverno, muitas dessas instalações provisórias se revelem inadequadas. Segundo um levantamento realizado em outubro pelo jornal Die Welt, pelo menos 42 mil refugiados estão abrigados em barracas instaladas em acampamentos improvisados por prefeituras e governos estaduais da Alemanha.

Algumas empresas alemãs já entraram no negócio de fornecer casas e alimentação para refugiados. Entre elas está a European Homecare, que fechou contratos com prefeituras e fornece abrigo e comida para 15 mil refugiados. O governo alemão estima que vai gastar 6 bilhões de euros (24 bilhões de reais) com os refugiados em 2015.

09 Nov 17:25

Entenda os riscos do rastreamento do câncer de próstata

by Redação
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09/11/2015

A eficácia e as consequências de um rastreamento desta doença, no entanto, têm sido questionadas.

Da Redação

A campanha Novembro Azul chama atenção neste mês para a prevenção do câncer de próstata. A eficácia e as consequências de um rastreamento desta doença, no entanto, têm sido questionadas por entidades médicas, como a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), e o Instituto Nacional do Câncer (Inca). O Saúde Popular já discutiu a questão no artigo “Novembro precisa ser azul?” da médica Natália Madureira Ferreira, integrante da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares.

Em comunicado aos apoiadores da campanha, a SBMFC destaca, a partir de dados de pesquisas, que “fazer PSA com ou sem toque retal não diminui a mortalidade geral dos homens, e muda muito pouco a mortalidade específica por câncer de próstata”.

A entidade lista alguns malefícios do rastreio desnecessário. “Homens que fazem o exame não morrem mais velhos, e morrem muito pouco menos de câncer de próstata. Esse pequeno benefício não compensa os potenciais malefícios, quase sempre relacionados à realização desnecessária de biópsia prostática (um procedimento que pode provocar sangramentos, febre, infecção prostática e retenção urinária), o impacto psicológico causado por um resultado falsopositivo, e as sequelas do tratamento – é muito comum que os homens tenham incontinência urinária ou impotência sexual após a retirada da próstata. Isso acontece porque o exame não consegue diferenciar cânceres graves e mortais de cânceres que cresceriam lentamente e não viriam a matar o homem – ou seja, muitos acabam tendo os malefícios desnecessariamente”.

O Inca, órgão ligado ao Ministério da Saúde, também não recomenda o rastreamento do câncer de próstata, como esclarece em nota técnica. “As taxas de incidências e mortalidade do câncer de próstata provocam um debate mundial entre diversos segmentos do Estado, da sociedade e da iniciativa privada sobre a real efetividade do rastreamento, sendo um ponto de consenso o entendimento quanto à necessidade do diagnóstico precoce e tratamento, em tempo oportuno, para a redução da mortalidade e controle da doença. Neste contexto, profissionais da atenção básica são fundamentais como o primeiro contato da população com o sistema de saúde e devem estar capacitados e alertas para identificar os principais sinais e sintomas da doença e providenciar o encaminhamento para a confirmação diagnóstica”.

A Liga Acadêmica de Medicina de Família e Comunidade da Universidade de Pernambuco (UPE) preparou um vídeo que explica de forma didática os riscos de exames desnecessários e os resultados de pesquisas sobre a eficiência do rastreio do câncer de próstata. Confira:

 

Foto: Reprodução

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09 Nov 11:38

Qual a revolução feminista das capas das revistas?

by Bia Cardoso

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Aconteceu. As capas dessa semana das revistas semanais Época (edição 909) e Isto É (edição 2397) trazem imagens e matérias sobre as recentes manifestações feministas contra a violência e contra o Projeto de Lei 5069/93, de autoria do deputado federal Eduardo Cunha.

Capas das revistas Época (edição 909) e Isto É (edição 2397).

Capas das revistas Época (edição 909) e Isto É (edição 2397).

Num primeiro momento, pensei: Lacramos! Mas, logo me vieram várias perguntas: que revolução é essa? Em pleno 2015, pedir o fim da violência contra a mulher é uma revolução? Estampar capas de revistas semanais com jovens mulheres politizadas nos causa surpresa? Por quê? Isso não deveria ser comum? Essas manifestações não pedem o mínimo para as mulheres, respeito? Quem são as mulheres feministas que estão ganhando espaço na mídia? Como a mídia tradicional quer apresentar o feminismo?

Celebro muito quando as mulheres fazem ações como o #PrimeiroAssedio ou saem as ruas em Marcha, mas sempre tenho uma desconfiança quando a imprensa passa a falar sobre o assunto. A Época chegou a lançar a hashtag: #PrimaveraDasMulheres, com uma campanha de imagens e de depoimentos na internet que parece ter bem mais diversidade que a matéria impressa. Carmela Zigoni me chamou a atenção para o fato de que tanto na capa, como na matéria interna, o nome de Eduardo Cunha não é citado. A matéria da Isto É me pareceu melhor, inclui questões como o racismo e a importância do feminismo contemplar problemas que dizem respeito a diferentes grupos sociais, além de trazer um gráfico apontando mulheres famosas bem diversas como fontes de inspiração para o feminismo atual: Chimamanda Ngozi Adichie, Judith Butler, Laverne Cox, Maria da Penha e Malala Yousafzai.

Num primeiro momento, me identifico com essas mulheres das capas, mas quem vejo ali? Mulheres jovens, em sua maioria brancas. O mesmo feminismo mainstream de sempre. Outras perguntas que me fiz foram: quem são essas mulheres dessa atual revolução feminista? Não teria sido mais revolucionário publicar a imagem de uma travesti? De uma moradora de rua? De uma rapper negra da periferia? De uma mãe carregando sua filha por um longo trajeto no meio da lama na tragédia da barragem de Bento Rodrigues em Minas Gerais? De que mulheres a Primavera da Época está falando? De que empoderamento estamos falando? Contra quais privilégios e desigualdades estamos lutando?

Para quem tem como preocupação buscar um feminismo interseccional, a luta é árdua. É preciso viver uma constante insatisfação, é preciso se perguntar o tempo inteiro quem está fora. É incrível ver mulheres marchando nas ruas, mas a empregada doméstica conseguiu chegar lá no horário? A trabalhadora da lanchonete tinha com quem deixar os filhos para participar? Mulheres com mobilidade reduzida tinham acesso? Quem não tem amplo acesso a internet foi avisada de alguma forma?

Nesses últimos dias também aconteceu o movimento #AgoraÉQueSãoElas, em que colunistas homens cederam espaço para mulheres escreverem. Considero uma ação interessante, que talvez não gere todos os frutos que queremos, mas muito válida para explicitar a quantidade de homens formadores de opinião, a quantidade de homens que tem espaço na mídia para falar o que quiserem, muitas vezes, até do que não entendem.

Fiquei numa grande expectativa: vai ter mulher negra? vai ter mulher trans? vai ter mulher indígena? vai ter lésbicas e bissexuais? E as idosas? E as mulheres com deficiência? E as trabalhadoras sexuais? Sei que houve por parte das organizadoras um esforço na busca por diversidade, mas como disse, não podemos nos dar por satisfeitas. Lutar por um feminismo inclusivo envolve reconhecer pontos positivos, mas também apontar o quanto ainda engatinhamos nessa questão.

Teve mulher negra, mulher trans e mulher militante sem-teto. Teve mulher colunista cedendo espaço para travesti feminista. Alguns colunistas como Leonardo Sakamoto e João Paulo Cuenca abriram bem mais espaço do que apenas uma coluna. E os temas em sua maioria falavam diretamente as mulheres, não me pareceram ser pautados pelos colunistas homens. Porém, como sempre vemos, houve contra-ataque. Porque quando se trata da mídia, toda vez que um espaço é aberto, logo o backlash também o ocupa com sua força e desserviço.

Para ficar só nos casos de dois colunistas da Folha de São Paulo, houve um editor que cedeu a coluna para a esposa escrever contra o amplo direito das mulheres ao aborto, finalizando com a frase: “Em meio à complexidade de raciocínios e emoções que a maternidade me trouxe, decidi aproveitar o movimento de dar voz às mulheres (apesar de me soar estranha e nada feminista a ideia de pedir espaço aos homens…) para dizer que, sinceramente, não sei se o direito que eu pudesse ter de interromper a vida de meus filhos deveria ser maior do que o deles de me convencer do contrário”. A “polemiquinha” Tati Bernardi convidou o “polemiquinho” escritor Reinaldo Moraes para ocupar sua coluna debochando da violência contra a mulher, usando termos como: “encoxar suas musas ocasionais no metrô” ou “cansei de cruzar com garotas sozinhas em shortinhos “me-fode-papito” e ainda perguntar: o que fazer com a mulher que passa esbanjando brejeirice e mexendo com o juízo dos homens? 

A mídia tradicional não abre espaço para o feminismo sem alfinetar, sem demonstrar quem é que manda ali. E, geralmente, usa o discurso hipócrita de que é preciso abrir espaço para todas as opiniões. Porém, a criminalização do aborto e a violência contra a mulher não são uma questão de opinião, são violações de direitos humanos.

Provavelmente, a mídia tradicional não está preocupada em construir uma sociedade mais igualitária, mas sim em surfar na onda feminista atual. O ponto positivo é que as jovens mulheres estão tendo espaço para falarem sobre suas ações, seja o movimento ‘Vamos Juntas?‘, as garotas do ‘Nós, Mulheres da Periferia’ ou novos apps para celular que são criados por elas para combater o assédio nas ruas. As denúncias de machismo também estão ganhando destaque e casos como a perseguição a Lola Aronovich finalmente ganharam espaço e atenção, porque é urgente fazer algo, denúncias são feitas há anos.

É preciso ocupar a mídia brasileira, e mesmo que as mulheres não tenham recebido remuneração para isso, pode ser um primeiro passo para termos mais mulheres falando por si mesmas. Porque sabemos que, em pleno 2015, nem isso nos é um direito garantido. O outro desafio que temos é apontado por Tica Moreno, na matéria da Isto É: “O desafio agora é que outros movimentos sociais possam incorporar em suas agendas as discussões do universo feminino: questões ligadas ao controle do corpo e da sexualidade da mulher”. Em pleno 2015, ainda somos invisíveis, umas mais que outras. O feminismo precisa estar atento a isso.

+ Sobre o assunto:

[+] O feminismo na capa das revistas duas vezes no mesmo domingo – duas resenhas em uma.

[+] O novo feminismo ou a boa e velha cooptação nossa de cada dia. Por Luka Franca.

05 Nov 20:10

O Efeito Scully

by Lady Sybylla
Dana Katherine Scully, médica e agente especial do FBI. Colocada como parceira de Fox Mulder para invalidar os Arquivos X, Dana acabou se tornando o braço direito de Mulder em centenas de casos bizarros, envolvendo monstros, vampiros e, principalmente, alienígenas. Sem os pesados estereótipos de gênero, racional, lógica, até antipática, Scully logo se tornou um fenômeno. Especialmente entre as mulheres que se sentiram motivadas a seguir carreira na ciência, na polícia e FBI, medicina e tecnologia em geral. Surgia assim o Efeito Scully.


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Gillian Anderson disse que tinha 27 anos aos produtores de Arquivo X quando se candidatou ao papel. Na verdade tinha 24 anos, mas a personagem já era alguém um pouco mais velha, alguém que teria uma idade compatível para ser agente do FBI. Em 1993, muitas séries tinham protagonistas ultra sexualizadas, como Baywatch e era nisso que os produtores pensavam para uma parceira de Mulder. Loira, com seios fartos, algo totalmente oposto ao personagem de David Duchovny. Eles não tinham certeza se conseguiriam manter a audiência sem ter um "bibelô" para atrair o público.

Mas Gillian era o oposto do que eles pensavam para o papel. Baixinha, corpo fora do padrão sexualizado, cabelos castanhos, que depois se tornaram ruivos e, consequentemente, também se tornaram sua característica mais marcante. O blazer que usava era emprestado de um amigo, o que a tornava ainda mais deslocada do conceito de personagem sexy que os produtores procuravam. Porém, a mágica começou quando ela começou a ler o roteiro junto de David Duchovny. Ali estava a química que os produtores queriam, a Scully estava escolhida e pronta para o papel.

Scully, para mim, sempre foi uma bela contradição, especialmente quando estava ao lado de Mulder. Enquanto ele era ateu, porém acreditava em qualquer coisa sobrenatural que aparecesse na sua frente, sempre adotando o lado menos lógico da equação, Scully era uma pessoa cética, fria em suas análises, médica e com especialização em física, uma cientista na sua forma mais lógica, mas com uma profunda fé em Deus e de família tradicional. Extremamente corajosa, inteligente e racional, é uma pessoa preocupada com a carreira e em fazer a coisa certa sempre que possível.

O que Scully fez na TV foi representar uma mulher que era ao mesmo tempo cientista, policial e um ser humano. Scully não precisava dos pesados estereótipos femininos para representar bem uma mulher. Sua competência e sua capacidade de agir a tornaram uma pessoa confiável, alguém com quem se poderia contar, alguém que sabia o que estava fazendo. Mas também víamos o lado trágico de sua vida devido às escolhas que fez para si: o pai não aceitava que ela tivesse largado a Medicina para se tornar agente do FBI e Scully se dedicava ao trabalho com uma intensidade que não víamos em sua vida pessoal.

O que víamos em cada episódio era uma mulher que tinha plena consciência de suas escolhas. E que não titubeou ao fazê-las, aceitou as consequências de seus atos, lutando pela verdade. Algo assim inspira as pessoas, como Uhura inspirou uma geração de mulheres negras a serem o que quisessem. Scully provava que nem sempre era fácil ser uma mulher na área de ciência e tecnologia, mas que era possível seguir essa carreira. E elas seguiram.


Gillian Anderson ficou feliz e muito surpresa ao saber do Efeito Scully. A produção de Arquivo X começou a receber toneladas de cartas de moças que diziam ter escolhido carreira na medicina, na polícia ou FBI, na ciência, por influência da agente Scully. Fã de Arquivo X como sou, tendo visto todos os episódios, de todas as temporadas, todos os filmes, compreendo profundamente o quanto essa personagem inspira as mulheres.

Isso é mais uma prova do quanto a representatividade importa e o quanto a ficção científica pode inspirar. O pioneirismo de Uhura em Star Trek, Princesa Leia, Ellen Ripley, Dana Scully, todas elas são grandes mulheres da ficção que inspiraram e inspiram gerações de moças e mulheres a seguir seus sonhos. As dificuldades estão lá, mas devem ser enfrentadas como desafios, não como obstáculos.

Quando alguém chia, homens em geral, que não entende porque a gente reclama tanto da falta de representatividade, esse alguém muito provavelmente já está bem representado em tudo. Nos filmes, na TV, nos quadrinhos, nos livros, nos games. Ele tem centenas de caras com quem podem se identificar.

Mulheres, por sua vez, sofrem com personagens sexualizadas, infantilizadas e que, normalmente, estão lá apenas para ser o bibelô da vez ou para justificar alguma ação do protagonista masculino, até mesmo para correr atrás dele como uma desvairada. Portanto, quando vemos uma Dana Scully representar toda uma geração de mulheres que buscam carreira nas ciências, na tecnologia, medicina e polícia, é algo a comemorar. São personagens assim que nos inspiram, nos guiam e nos representam. E precisamos mais delas.

Até mais!



Leia também:

Less “Big Bang Theory,” More Dana Scully: What It's Going to Take to Lead More Girls Into Science
10 Women Scientists You Should Follow on Twitter
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04 Nov 19:05

Por capa que definem como “sórdida mentira”, advogados de ex-presidente movem sexta ação de Lula contra Veja

by Luiz Carlos Azenha

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A capa criminosa e Giancarlo, o responsável por ela

NOTA À IMPRENSA

VEJA calunia Lula mais uma vez e ex-presidente vai à Justiça

do Instituto Lula

Advogados de Lula protocolam ação de reparação por danos morais devido a montagem grosseira da capa da revista

São Paulo, 4 de novembro de 2015,

Os advogados do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva protocolaram (íntegra aqui), nesta terça-feira (3), primeiro dia útil após o fim-de-semana, ação de reparação por danos morais contra a editora Abril, responsável pela revista Veja, no Foro Regional de Pinheiros. A edição de nº 2450 da publicação, que foi às bancas na última semana, exibe na capa uma montagem mentirosa, ofensiva e grotesca do rosto de Lula sobre corpo vestido com uniforme de presidiário estampado com nomes de envolvidos em investigações do Ministério Público Federal e da Polícia Federal.

Não há nenhuma ação penal em curso no país contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao contrário do que a capa faz parecer. Já a revista Veja sofre inúmeros processos pelas mentiras publicadas contra diversos pessoas e organizações, não apenas o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Recentemente, por exemplo, o senador Romário (PSB-RJ) anunciou processo contra o semanário.

“A imagem que a capa da revista VEJA pretendeu sugerir aos seus leitores e à sociedade em geral, portanto, não possui qualquer lastro na realidade fática ou jurídica. Independentemente das afirmações e críticas contidas no interior da própria revista — sempre com evidente manipulação e falta de critério jornalístico —, não poderia ela estampar em uma capa uma imagem falsa e ofensiva, como se verifica no vertente caso”, diz o texto da ação, que classifica de “sórdida mentira” a reportagem de capa da revista.

O texto destaca ainda que a exibição da imagem não se deu apenas nas bancas de revistas, mas também em pontos de publicidade espalhados pelo país, reafirmando a intenção da revista de denegrir a honra e a imagem de Lula.

“Note-se, ainda, que no vertente caso não se está diante de qualquer situação que possa ser enquadrada como direito de crítica ou, ainda, a configurar mero animus narrandi. Simplesmente porque, insista-se, não há qualquer situação jurídica que possa permitir que a Ré [editora Abril] possa difundir à sociedade uma imagem do Autor vestindo trajes peculiares àqueles que foram condenados pela Justiça e estão cumprindo pena privativa de liberdade”, conclui a ação.

Os advogados do ex-presidente já entraram com outras duas queixas-crime, uma interpelação criminal e uma ação de indenização contra jornalistas da revista, além de queixa-crime específica contra a apresentadora da TVeja, Joice Hasselman, por conta da prática recorrente da revista de atentar contra a honra do ex-presidente.

Leia também:

Antônio David: “Mataram” Lula antes da hora

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04 Nov 18:31

Cidades apostam no Urbanismo Caminhável

by greenmobility

urbanismo_caminhavel_P_112GJundiaí – SP , foi a primeira cidade brasileira a apostar numa ferramenta de auditoria de caminhabilidade  para avaliar o quão caminhável são as ruas do centro da cidade, a partir de um estudo aprofundado com técnicos, especialistas e participação da sociedade. O resultado foi um relatório com indicadores chave onde foi possível identificar as prioridades para investimentos em intervenções e projetos urbanos para mudar a lógica de mobilidade urbana. O trabalho contou com a consultoria do Instituto Mobilidade verde, Zoom Arquitetura e da Urbanista Thaisa Froes. Outras cidades começam a se interessar pelo tema, ocorre que cidades caminháveis são mais desenvolvidas e proporcionam maior qualidade de vida aos seus cidadãos… Cidades caminháveis são mais vibrantes, demandam menos recursos, as pessoas são mais felizes e economicamente viáveis.


26 Oct 20:04

Advogados dizem que empresa de filho de Lula foi criada quatro anos após MP

by Fernando Brito

Os advogados de Luís Claudio Lula da Silva, que teve o escritório invadido hoje pela Polícia Federal, sob a alegação de ter negócios com uma empresa que tinha negócios com outra que, supostamente, teria sido...

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26 Oct 16:45

#PrimeiroAssédio

by Think Olga

Para a minha fala no TEDxSão Paulo sobre a campanha Chega de Fiu Fiu, precisei juntar coragem. Contei, no Auditório do MASP, sobre minha história com violência sexual não apenas para o público de 450 pessoas, mas também para câmeras que eternizariam o momento – aos 11 anos, escutei comentários grotescos sobre meu corpo de um estranho na rua.

primeiro-assedio

Falar sobre o #PrimeiroAssedio é sempre dolorido. Relembrar que minha infância foi injustamente atravessada por interações de cunho sexual dá raiva. Mas o pior é carga de culpabilização que a lembrança acompanha. “O que será que eu fiz para provocar isso?”, me questionava. Vivo a vida como mulher, é a explicação.

Naquele mesmo palco, desabafei sobre isso: apesar da minha primeira experiência com o assédio ter acontecido na infância, só consegui voltar a falar sobre ele 16 anos depois. Aos 27 anos, ao ver, pela primeira vez em toda minha vida, uma amiga reclamar de assédio sexual em locais públicos de forma pública, em post no Facebook, tive forças para transformar aquela experiência em palavras. Decidi ali que não voltaria para um lugar de silêncio e medo.

Mas qual não foi minha surpresa quando alguns seres questionaram a veracidade do meu #primeiroassedio? Como se a sexualização de meninas não fosse algo absolutamente normatizado na sociedade! E, infelizmente, o caso do MasterChef Jr. jogou luz em um problema absolutamente frequente, mas ignorado ou tratado como questão de menor importância.

HASHTAG TRANSFORMAÇÃO

Uma menina de 12 anos se inscreve no programa de televisão, pois ama cozinhar. Na internet, homens se sentem atraídos por sua aparência e, ignorando sua idade, resolvem tecer comentários de cunho sexual sobre a criança. o fato gera revolta nas redes sociais, mas não é preciso ir longe para encontrar histórias parecidas: basta pedir para que as mulheres olhem para o próprio passado.

Quando elas são convidadas a contar a história da primeira vez que sofreram assédio, descobrimos que esse comportamento é muito mais comum do que se imagina – e só é preciso imaginar pois esse terror vive escondido sob um manto de culpa e segredo tecido pelo machismo para acobertar os homens e culpar as vítimas.

Não se pode lutar contra o que não acreditamos ou negamos ter acontecido. Uma engrenagem funciona para reverter a lógica e manter as vítimas no silêncio.  Ela não é operada por um super vilão, mas se manifesta cada vez que somos convencidas de que reclamar é um exagero,  que é preciso esquecer,  que “o que passou,  passou”,  e que reclamar disso é  “vitimismo”.  Quando somos vítimas desde os cinco anos de idade de um comportamento invasivo e desumano,  então existe algo muito poderoso em se descobrir vítima.

É a partir daí que a mulher começa a se despir das mordaças: entende que o que aconteceu é errado, que o suporte que não recebeu ou teve medo de buscar na época são também frutos do machismo, bem como qualquer noção de que tivesse provocado ou permitido que o fato acontecesse. Descobrem-se,  enfim, vítimas de assédio sexual, ainda na infância.  E, finalmente, podem enxergar com clareza que existe um culpado, e que não é ela.

Tudo isso pode acontecer no momento em que ela descobre que não está sozinha. Por isso, criamos a hashtag  #primeiroassedio no Twitter. Ali, eu, Juliana, dividi sobre meu primeiro assédio, aos 11 anos, e outros casos que ocorreram ainda na infância, pré-adolescência e adolescência. Convidamos nossas leitoras a fazer o mesmo. Não é uma missão simples, indolor, fácil. Mas se apoderar da própria história é importante, de forma que a vítima assim se reconhece como vítima. Não é vitimismo. É o empoderamento de enxergar que a opressão é, de fato, uma opressão e não “parte da vida”. Este é o primeiro e mais importante passo para a mudança.

think-olga

Demos ali a largada em um movimento catártico e gigantesco de mulheres que, até em 140 caracteres, ajudaram a mostrar que o que aconteceu com a cozinheirinha de 12 anos é a simples realidade das meninas brasileiras. E o quão absurdo é que uma criança tenha que passar por isso.

Os depoimentos recebidos até então pela campanha Chega de Fiu Fiu contra o assédio sexual em locais públicos já mostravam que o problema começava cedo, mas não há precedentes na quantidade de histórias recebidas sobre a prevalência desse problema na infância.  Recebemos depoimentos de mulheres que lembram ter passado por abusos com até cinco anos de idade.

Ao ler isso, a reação inicial de muitos é acreditar que ela foi vítima de um pedófilo, o que isola e minimiza a questão da cultura de pedofilia em que vivemos – retratada com louvor por seus próprios representantes na ocasião dos ataques à menina do programa de televisão.  Existe uma desinformação muito conveniente para os homens em relação à gravidade das “brincadeiras” com pedofilia,  estupro e assédio que os deixa confortáveis o suficiente para reproduzi-las sem se preocupar com as consequências.

ANÁLISE

Até a meia-noite de domingo, a hashtag foi replicada mais de 82 mil vezes, entre tweets e retweets.

Analisamos um grupo de 3.111 histórias compartilhadas no Twitter e chegamos a constatação de que a idade média do primeiro assédio é de 9,7 anos.

primeiro-assedio

A seguir, veja a cloud de palavras mais citadas nesse grupo de tweets:

assedio

Nossa jornada contra a violência contra a mulher, via Chega de Fiu Fiu, nos mostrou que, enquanto mulheres, NÃO temos o controle da nossa vida sexual. Somos iniciadas por meio de um ritual bárbaro e sádico e entramos nessa área tão delicada da vida de forma totalmente despreparada, cheias de dores, traumas e ansiedades.

Mas também descobrimos que anos de silêncio têm a capacidade de tornar as vozes ensurdecedores quando redescobertas.  Nunca duvide do poder das redes sociais para provocar reflexão e empoderamento. A Internet é feita de pessoas e é a partir delas que as mudanças acontecem.  Nesse caso,  para o bem e para mostrar um problema que está longe de acabar,  mas que felizmente a hashtag ajudou a mostrar que existe,  sim,  e muito, e que é preciso não ignorar as vítimas,  mas responsabilizar quem colabora com a manutenção de sua existência – nem que seja com uma “brincadeira” no Twitter.

Temos a honra de publicar essa colaboração da Juliana de Faria, fundadora da Think Olga e da campanha Chega de Fiu Fiu, e Luíse Bello, gerente de conteúdo e comunidades da Think Olga. O texto também pode ser lido aqui. Divulguem, façamos barulho <3

26 Oct 16:42

Filho de Lula sofre armação igual à sofrida pelo irmão do ex-presidente em 2007

by eduguim

filho capa

Em 4 de junho de 2007, a Polícia Federal levou a cabo uma espalhafatosa operação de busca e apreensão na casa de Genival Inácio da Silva, o Vavá, irmão mais velho do então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Ele fora indiciado por tráfico de influência no Executivo e exploração de prestígio do irmão no Judiciário.

A ação fez parte da Operação Xeque-Mate, que prendeu, naquele dia, 77 pessoas acusadas de pertencer à máfia dos caça-níqueis e a um esquema de corrupção de policiais militares e civis.

15 dias depois, em 19 de junho de 2007, o Ministério Público desindiciou – por assim dizer – o irmão do ex-presidente por falta de elementos que o ligassem ao caso.

À época, o jornalista Elio Gaspari já havia publicado em suas colunas nos jornais Folha de S. Paulo e O Globo que o “linchamento” que a mídia estava promovendo contra o irmão de Lula não se sustentava em fatos, apenas em indícios frágeis e tinha como objetivo, na verdade, prejudicar o presidente Lula.

Confira, abaixo, a coluna de Gaspari de 17 de junho de 2007.

filho 1

Vale lembrar que o ministro da Justiça, à época, era Tarso Genro, ex-governador do Rio Grande do Sul. Assim como José Eduardo Cardozo, hoje, Genro e todos os outros ministros da Justiça dos governos Lula e Dilma jamais atrapalharam ou tentaram impedir qualquer investigação mesmo que atingissem importantes figuras do PT.

Três anos e pouco depois, mais precisamente no ano eleitoral de 2010, a Folha de São Paulo publica matéria que comprova que Vavá foi vítima de uma farsa que visava atingir o irmão.

filho 2

Nesta segunda-feira (26), o Brasil assistiu a armação igual à que tentou atingir Lula através de seu irmão oito anos atrás. A Polícia Federal deflagrou mais uma fase da Operação Zelotes e fez operação de busca e apreensão na empresa LFT Marketing Esportivo, que pertence a Luís Claudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula.

No início do mês, o jornal O Estado de São Paulo publicou matéria que afirmara que uma das empresas de Luiz Cláudio, a LFT Marketing Esportivo, recebera pagamentos de Mauro Marcondes, um dos lobistas investigados por negociar a edição e aprovação da MP 471 durante o governo Lula.

A norma prorrogou incentivos fiscais para o setor automotivo.

Luiz Cláudio, que também é dono da empresa Touchdown, confirmara o recebimento de R$ 2,4 milhões. O filho de Lula, porém, sustentou que os valores se referem a projetos desenvolvidos para uma empresa de Mauro Marcondes, a Marcondes e Mautoni Empreendimentos, em sua “área de atuação”, o esporte.

Mas não é só. Luiz Cláudio tentou explicar ao Estadão que a acusação contra ele não se sustentava por várias razões que detalhou, mas o jornal se recusou a divulgá-las.

Diante da estranhíssima postura do jornal de não querer divulgar essas informações, Luiz Cláudio  está processando “cível e criminalmente” ‘O Estado de S. Paulo’. “Essa matéria é mais uma tentativa irresponsável de criminalização do PT, de Lula e de pessoas ligadas ao ex-presidente”, criticou o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS).

No texto, o jornal declarou que a Marcondes & Mautoni Empreendimentos teria pago à LFT Marketing Esportivo, de Luis Cláudio, para que Lula publicasse a medida provisória 471, de 2009, que oferecia benefícios fiscais às montadoras.

Os valores citados, no entanto, fazem parte de um projeto contratado e executado entre 2014 e 2015, cinco anos depois da aprovação da MP. “O valor recebido pela LFT Marketing Esportivo foi contabilizado e declarado legalmente”, declara a nota divulgada à imprensa por Luis Cláudio.

“A linha temporal destrói o argumento central ao tornar impossível a relação causal dos fatos”, destaca a nota. “É uma matéria que não se sustenta. Os fatos foram ignorados na elaboração da matéria e o simples conhecimento deles seria suficiente para desmontar o factoide criado”, disse Pimenta.

O deputado lembrou que a MP prorrogou incentivos que foram criados a partir de uma articulação em 1999, pelo então senador Antônio Carlos Magalhães, para incentivar a instalação de fábricas automobilísticas nas Regiões Norte e Nordeste.

“Em 2009, a proposta foi aprovada por unanimidade, defendida no Congresso por Tasso Jereissati (PSDB-CE), José Agripino (DEM-RN) e tendo como relator José Carlos Aleluia (DEM-BA)”, apontou.

A medida, de acordo com Paulo Pimenta, foi aprovada sem emendas. “A iniciativa do líder do PSDB (Aloysio Nunes) é reveladora de que tudo isso parte de uma estratégia mentirosa que cria a ideia de uma suposta irregularidade”, avaliou o deputado.

“Não há nenhuma lógica, nenhum sentido nas acusações do jornal. A MP era de interesse do País, beneficiava estados governados pelo PSDB, como Goiás e relatada por partidos de oposição”, rebateu Pimenta.

Luis Cláudio, filho de Lula, é proprietário da empresa LFT Marketing Esportivo, que presta serviços apenas para o setor privado. Os valores recebidos por trabalhos prestados para a Marcondes & Mautoni foram declarados em imposto de renda.

“Essas informações foram disponibilizadas para a imprensa, que ignorou para justificar uma relação espúria que nunca existiu”, disse Pimenta. Segundo o parlamentar, a matéria é um “factoide criminoso produzido com fundo partidário como parte de uma estratégia para o momento político que estamos vivendo”.

Contudo, assim como ocorreu com o irmão de Lula, a busca em seu escritório não dará em nada. Chega a ser ridículo acharem que encontrarão alguma evidência de negociata de uma medida tomada por Lula em 2009 no âmbito da crise econômica mundial que eclodira no fim do ano anterior.

Lula prorrogou incentivos fiscais às montadoras assim como para muitos outros setores da economia, em 2009, na tentativa de impedir que o país entrasse em recessão. Seu filho Luiz Cláudio fundou a empresa LFT marketing esportivo em 2011 e o contrato com a empresa de Mauro Marcondes foi fechado em 2014.

A tese maluca é a de que Lula emitiu uma medida provisória em 2009 para beneficiar o filho e a propina que o beneficiaria foi paga nada mais, nada menos do que CINCO ANOS DEPOIS. Alguém já viu isso, propina paga cinco anos após o ato de corrupção?

Pior de tudo é a conduta do Estadão ao se recusar a informar esse fato aos seus leitores. É isso mesmo, caro leitor: o jornal não quer que seu público saiba que a suposta “propina” ao filho de Lula só foi paga cinco anos após o suposto ato do pai para beneficiar montadoras de automóveis.

Essa artilharia contra Lula, não para. Todo santo dia há uma acusação diferente. Nada é provado, mas o noticiário ajuda a “fundamentar” os grupos antipetistas que, sob financiamento obscuro de milhões de dólares, mobilizam pessoas a não fazerem mais nada na vida além de atacar o PT com manifestações, bonecos gigantes e caríssimos etc.

Este Blog volta a dizer: esse tipo de informação que você está lendo deveria ser divulgada em escala internacional para que o mundo saiba da conspiração fascista que está tentando sepultar a democracia brasileira e inaugurar um regime autoritário no país, com perseguições políticas e até violência física, com ataques a bomba e espancamentos nas ruas.

26 Oct 14:26

Opinião | Quem reclama da CPMF é quem paga menos imposto

by Redação
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26/10/2015

Tributação sobre transações financeiras tem importância na luta contra a sonegação fiscal que, segundo estimativas, representa 10% do Produto Interno Bruto

Por Marcio Pochmann*, para a Rede Brasil Atual

O Brasil registra contrassensos importantes, como aquele em que o rico é o que mais reclama da elevada carga tributária. Justamente ele que quase nada paga. O pobre, que mais sofre as distorções da tributação que mais o atinge, nada diz.

Agora que o governo da presidenta Dilma Rousseff teve a iniciativa de novamente implementar a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), explicitam-se manifestações contrárias, sobretudo dos representantes dos mais ricos no Brasil. Criada originalmente para não ser permanente no governo Itamar, em 1993, quando o ministro da Fazenda era Fernando Henrique Cardoso, a CPMF registrou um rastro de provisoriedade, pois foi recriada em 1994 e em 1996.

Ao mesmo tempo foi reintroduzida em 1999, passando a ser prorrogada até 2007. De 2008 a 2015, apesar das tentativas governamentais de estabelecer o seu retorno, como em 2008 e 2011, o Brasil ficou livre desse tipo de tributação. Estranho, porque impostos sobre transações financeiras são conhecidos desde 1936 quando a Inglaterra, seguida por outros países, o introduziu como um objetivo maior do que o arrecadatório. Isto é, o objetivo de estabilizar os mercados especulativos.

Pela recente e provisória experiência brasileira, percebeu-se também que a tributação sobre transações financeiras tem grande importância na luta contra a sonegação fiscal, possuindo custos arrecadatório e de fiscalização reduzidos. Destaca-se que a sonegação fiscal no Brasil não é considerada crime, ao contrário de outros países, bem como da malversação do dinheiro público, conforme apontado pela Operação Lava Jato.

As estimativas para a sonegação tributária na economia brasileira equivalem a cada ano a cerca de 10% do Produto Interno Bruto. Com a existência da CPMF, por exemplo, a Secretaria da Receita Federal (SRF/MF) pode cruzar os dados da Declaração do Imposto de Renda com os pagantes (empresas e indivíduos) da tributação nas transações financeiras registradas pelo sistema bancário.

De acordo com estudo realizado em 2001 pela SRF/MF, com base nas informações da CPMF do ano de 1998, apenas um a cada grupo de quatro pessoas físicas que movimentaram recursos nos bancos brasileiros apresentou Declaração de Imposto de Renda. Ou seja, indício forte da sonegação fiscal de cerca de 75% dos indivíduos com movimentação de dinheiro no interior do sistema bancário.

Para ser preciso, 38,5 milhões de pessoas físicas fizeram operações financeiras em 50 bancos do Brasil acompanhados pela SRF/MF no ano de 1998, mas somente 9,9 milhões declararam Imposto de Renda. Ou seja, 28,5 milhões de pagantes da CPMF eram isentos ou omissos.

Pelo estudo da SRF/MF observa-se que possivelmente 139 pessoas físicas que não declararam Imposto de Renda movimentaram R$ 28,9 bilhões no ano de 1998, o que representou o valor médio de R$ 208 milhões por conta bancária. Noutra situação, registrou-se também que apenas 62 pessoas físicas que declaram Imposto de Renda foram isentas da tributação terminaram movimentando o valor médio de R$ 178 milhões em suas contas bancárias.

Certamente que a CPMF não constitui o imposto perfeito, mas diante das enormes distorções do sistema tributário brasileiro ela torna-se positiva. Possui baixo custo arrecadatório e de fiscalização, eleva imediatamente a arrecadação para financiar gastos essenciais como a saúde e se constitui excelente instrumento para enfrentar a gravidade da sonegação fiscal no país. Faltaria, apenas, tornar a sonegação fiscal crime, sobretudo inafiançável. Seria demais?

*Marcio Pochmann, economista e político brasileiro, é professor do Instituto de Economia da Unicamp e foi presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

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26 Oct 14:23

Sob a fumaça, a dependência

by Tiago Aguiar

Difícil acreditar que o solo de onde antes só brotava fumo, hoje dê morangos tão saborosos. Nem é necessário açúcar: basta colher e experimentar o fruto saído direto da terra. Isso é apenas parte do trabalho liderado por um rapaz de 20 anos – e que aparenta ter menos idade. O nome é Anderson Rodrigo, membro da família Richter.  A ascendência é alemã, algo que fica expresso no sotaque. Os antepassados chegaram ao Brasil durante o grande fluxo imigratório de alemães no século 19, caso da maioria das pessoas que mora na região do Vale do Rio Pardo, no interior do Rio Grande do Sul, especialmente nos municípios de Santa Cruz do Sul e Venâncio Aires. Os dois são uma espécie de capital informal da produção de fumo do Brasil, sede das principais empresas do setor. Venâncio, com pelo menos 3,7 mil famílias envolvidas na cultura, segundo estimativas da prefeitura da cidade, é conhecido também por ser a capital da erva-mate e carrega ainda o incômodo posto de ser um dos líderes de suicídios no país. 

O terreno na comunidade de Linha Santana em que se localiza a propriedade de Anderson, em Venâncio, era grande quando Adolfo Richter, o primeiro antepassado de que ele tem notícia, chegou. As casas, a igreja, muito se construiu em torno dela. Outros Richter vieram, formaram as próprias famílias. Dividiram a terra. E o fumo se espalhou por todos os pedaços. Anderson não escapou a essa herança. Conta que, quando se deu por gente, estava cercado por tabaco. “Nem vi acontecer. Quando eu nasci, já era assim fazia muito”, conta. E foi com a presença intensa desse monocultivo que ele cresceu. Ao lado dos pais, Heitor e Marilei, auxiliou no plantio até os 14 anos, em 2009. Foi então que começou a virada.       

Naquele ano, começou os estudos de agroecologia na Escola Família Agrícola de Santa Cruz do Sul (Efasc), onde se formou, em 2011. Atualmente estudante do curso superior de Tecnologia em Agroecologia na Horticultura, na Universidade do Estado do Rio Grande do Sul (Uergs), o rapaz fez uma aposta para escapar à cultura do tabaco e aos agrotóxicos. De início, contou com o apoio de duas jovens: a irmã mais nova, Andressa Rafaela, de 16 anos, e a namorada, Micaela Hister, de 19, que conheceu na Efasc. “Quando começamos, tínhamos apenas um pedacinho de terra na propriedade dos meus pais, que não acreditavam que daria certo. Agora, já conseguimos ampliar e eles estão ajudando”, conta o jovem, que sonha com a criação de lavouras demonstrativas para espalhar a cultura agroecológica em Venâncio Aires.

No entanto, a mudança não foi fácil. E não só pela resistência inicial dos pais, mas pelo caldo de cultura que influencia toda a comunidade. Um contexto erguido a partir da planta do tabaco, que fez brilhar os olhos de uma indústria ao enxergar a região. “Lembro de olhar em volta quando era pequeno e só ver folhas de fumo. Não só na propriedade da minha família, mas nas que estão no entorno. Tinha uma sensação de opressão por isso”, explica Anderson.

Hoje, as terras dos Richter não têm um só pé de fumo. Os jovens produzem morango, hortaliças, temperos. Entregam em feiras e para iniciativas de compras públicas, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). Na busca por diversificar receitas, também vendem a professores da Uergs. O esterco de suas vacas e porcos é a fonte para o adubo, em que aplicam um composto que reduz a presença de metais pesados. “O começo foi duro, mas a gente se libertou com isso. Tiramos os agrotóxicos das nossas vidas e das vidas das pessoas que compram nossos produtos. E saímos da cultura do fumo, que tira a autonomia do agricultor, desconsidera o saber dele. A empresa fumageira que faz contrato com ele decide tudo. O agricultor não é dono do processo que pratica na própria terra. Ele é só mão de obra”, critica Anderson Rodrigo.      

Entre a década de 1950 e o início dos anos 2000, o fumo carregou “tempos dourados” para Venâncio Aires e região. O tabaco dava dinheiro e, segundo os Richter, era mais fácil se concentrar “só em uma coisa”. “Era como o cara da fábrica que aperta só um botão. As pessoas se especializam em plantar fumo, sem perceber que nem isso é de verdade, porque chegam os técnicos das empresas e dizem como e quando tem que fazer”, diz o jovem produtor. Anderson se refere à figura do orientador das fumageiras, que, na realidade, é quem dita as regras de como o plantio tem de ser durante todo o ciclo produtivo. “É esse cara que chega e diz ao agricultor: ‘Por que você vai plantar horta, se você pode plantar fumo naquele pedaço de terra?’. E aí, quando você vê, já não faz nada de diferente do que a empresa manda fazer e outras culturas são abandonadas”, comenta.

O rapaz sabe do que fala. Viveu na pele os efeitos da prisão que é a cadeia do tabaco. Trabalhou, ainda criança, nas lavouras de fumo. Viu a família sofrer, inclusive fisicamente, e abrir mão de muito. Heitor, o pai de Anderson, hoje com 45 anos, foi um caso. Começou a plantar fumo aos 14 e passou 26 anos no cultivo. “Já não ia mais para a escola, nem concluí o ensino fundamental. Não dava para conciliar. O tabaco desgasta muito e eu tinha que ajudar meus pais”, recorda.

Heitor e a família chegaram a cultivar 94 mil pés de fumo nos picos de produção. E os problemas de saúde vieram. Dores de cabeça, indisposição, vômitos e manchas na pele eram recorrentes, mas o trabalho não podia parar. A dura época da colheita, entre novembro e janeiro, ficou marcada como o pior período. Com chuva forte ou sol escaldante, era preciso colher as folhas e secá-las na estufa. Depois, as plantas secas ficavam depositadas em um pequeno depósito quase sem ventilação. A família se reunia nesse local para classificar o fumo de acordo com a qualidade, o que definia o preço. “Não podíamos atrasar uma fornada. Senão, não conseguíamos mais o ponto certo do fumo e perdíamos o trabalho”, descreve Heitor.

A utilização de agroquímicos na plantação de tabaco foi compreendida pelos familiares como algo que atacava a saúde e também degradava o ambiente. O cultivo manual, a retirada folha por folha, deixava evidente que, independentemente do quanto se usa de veneno nas plantas, se mais ou menos do que em outros tipos de lavoura, era necessário encarar a realidade: os agroquímicos fazem entrar num ciclo penoso, pessoas adoecem e a terra também. Não sobra matéria orgânica para o solo. “Conforme não tem matéria orgânica, o solo vai se degradando e a planta não consegue se desenvolver. Os próprios adubos sintéticos perdem a eficácia, pois se espalham pela terra e a planta absorve só no ponto em que está a raiz. Então, tem que aumentar a dosagem para chegar ao que ela precisa para crescer. E, como o fumo toma todo o espaço da terra e as empresas colocam metas de tempo e quantidade para o agricultor entregar, o raciocínio é usar agrotóxico o tempo inteiro”, detalha Anderson.

Mesmo nessas condições, Heitor só saiu do plantio do fumo em 2010. Atualmente, cria gado leiteiro e auxilia os filhos nos cultivos agroecológicos. Ele queria ter parado antes, mas tinha dívida com uma fumageira, feita na aquisição de produtos e equipamentos prevista em contrato com a empresa. “Sempre quando eu tinha dívida, o preço que pagavam pelo fumo não era bom, foi difícil de sair.”

A saída se deu com o leite dado pelas vacas da propriedade e a diversificação da produção, estimulada pelos estudos de Anderson na Efasc. O débito, em 2009, quando o jovem ingressou na escola, já estava perto de ser quitado. “A dívida, se a gente tivesse feito mais, não ia ter como parar. É nisso que muito agricultor entra e perde, cada vez mais, o poder de decisão”, salienta Anderson.

Resistência e libertação - Anderson e Micaela saíram do cultivo do fumo para a agroecologia

Resistência e libertação – Anderson e Micaela saíram do cultivo do fumo para a agroecologia. Foto: Gustavo Nunes.

Micaela, a namorada dele, mora na propriedade da família Richter, mas é nascida em Sobrado, outra cidade da região. De lá, foi para General Câmara, a 66 quilômetros de distância de onde reside hoje. Foi nesse lugar, desde os 10 anos, que passou a ajudar no cultivo do fumo, no qual continuam seus pais, Jorge e Traudi Hister. “A propriedade que meu pai tem hoje [em General Câmara] é um local que uma pessoa comprou e não conseguiu pagar a dívida com a fumageira (a Alliance One, de origem norte-americana). Meu pai assumiu a dívida e ficou com o lote”, afirma Micaela.

Mais uma linha do modo de atuar das fumageiras está exposta. Na época do loteamento feito pela empresa, quem comprava uma porção de terra era obrigado a pagar plantando fumo. Muitos pequenos produtores não conseguiram dar conta das metas impostas pelos contratos e perderam os terrenos. Os pais de Micaela não chegaram a passar por isso. De qualquer forma, confrontaram situações que também os levam a querer parar com a atividade. “Meu pai começou a plantar porque era a tal história da cultura que tinha venda garantida. Chegou a ter oito hectares de fumo, 210 mil pés por safra”, conta a moça.

A fumageira, então, colocava mais metas e novos “investimentos” eram exigidos. Vieram as dívidas e a necessidade de muita mão de obra. Jorge passou a ir até a periferia de General Câmara para juntar gente que aceitasse trabalhar na colheita. Lotava uma Kombi com moradores de áreas pobres do município. Para agravar a situação, a filha e a esposa tiveram a saúde fragilizada. Micaela conta que, quando morava com os pais, estava “sempre mal”, com náuseas. Traudi, a mãe, tem dores de cabeça e tonturas que não a abandonam. “A fumageira defende que é a nicotina que tem na folha do tabaco que faz mal, mas a gente sabe que o agrotóxico tem parte aí”, lembra a jovem, que relacionou seus estudos universitários a pesquisas sobre o tema.   

Aos poucos, os pais de Mica, como a moça é chamada pelos familiares, diminuíram a produção de tabaco. Nos últimos anos, plantam, em média, “apenas” 60 mil pés. Passaram, assim como Heitor, a investir no leite, mas ainda têm medo: não estão certos de que “vai dar” se abolirem o fumo de suas vidas e partirem para outra cultura. “Eles têm muita dívida, de compra de máquinas. Mesmo a terra, ainda estão pagando para a empresa”, esclarece a jovem.

Anderson acredita que a dificuldade em encontrar alternativas ao tabaco passa pela falta de organização. Para ele, os agricultores engolem o sistema imposto pelas fumageiras e se acomodam. E, se buscam uma saída, vão geralmente na direção de outra cultura que os empurra para condições semelhantes, com a perda da autonomia e do saber camponês. “Isso não é saída. O agricultor tem que ser o dono do processo e só vai ser se usar aquilo que tiver de experiência em diversas culturas. Se sair do fumo de um ano para o outro porque viu que tem uma doença e for para um cultivo que traz um pacote igual, vai acabar voltando, já que o fumo tem a venda certa, ainda que de acordo com contratos ruins”, aconselha.

Para mudar de verdade, são fundamentais a paciência e a persistência, o que garantiria uma boa transição. “Claro que não é fácil, tem que modificar hábitos, aperfeiçoar a terra, mas dá para melhorar a qualidade de vida e também, com o tempo, ganhar melhor do que com o fumo, posso garantir. As pessoas que plantam no sistema oferecido pelas fumageiras são acostumadas a trabalhar com o corpo e não com a mente. A empresa traz tudo pronto. Quer sair? Então, o agricultor tem que pensar sua produção”, argumenta Anderson.  

Delicada de tocar, faltava abordar uma questão com os Richter. Eles teriam informações dos suicídios de agricultores em Venâncio Aires? A resposta vem demolidora, nas palavras de Anderson: “Meu bisavô se suicidou em junho, aqui pertinho, nas terras dele”. Waldemar Richter plantou fumo praticamente a vida toda. Fazia tempo, era vítima da depressão. Matou-se por enforcamento, aos 85 anos.

Anderson crê que o suicídio do bisavô se deu por dois motivos: dívidas e uma longa vida lidando com agrotóxicos. “O veneno te leva para o precipício e o endividamento te dá o ultimo chute”, diz, encerrando com um alerta: “Na comunidade, tem outros casos de suicídio, também com plantadores de tabaco”. 

A doença do suicídio

O Rio Grande do Sul é um dos estados que reúnem os melhores indicadores sociais no Brasil. Na contramão disso, está à frente também em suicídios, causa de tragédias familiares e debates efervescentes entre pesquisadores. As estatísticas do povo gaúcho atingem o dobro da média nacional. Entre 2007 e 2011, o estado teve 10,2 mortes por suicídio a cada 100 mil habitantes. Dados do Ministério da Saúde mostram que nove das vinte cidades acima de 50 mil habitantes que tiveram mais casos proporcionais estavam no Rio Grande do Sul. A maioria, no Vale do Rio Pardo.

Apesar de estar entre os municípios mais ricos do estado, Venâncio Aires, com 69 mil habitantes, teve 79 casos em cinco anos, o que equivale a 23,1 para cada 100 mil habitantes, na média extraída do período pesquisado pelo ministério. Isso deixa a cidade numa preocupante e mórbida segunda colocação na contagem dos suicídios no país e na primeira em solo gaúcho.

Em uma cidade que possui baixo índice de criminalidade, a polícia se ocupa muito da investigação de suicídios. E a hipótese predominante ao senso comum é a influência da cultura alemã e o rigor trazido por ela. Do ponto de vista da saúde, a informação é que 10% dos leitos do principal hospital local são reservados para a psiquiatria e a prefeitura investe em programas de prevenção, com internações e grupos de ajuda. Uma unidade do Centro de Valorização da Vida (CVV) foi instalada na cidade. Contudo, abrir o leque dos motivos de suicídios com os moradores, autoridades e associações é um tabu.   

A Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), que tem sede na região, rejeita a relação dos suicídios com o uso de agrotóxicos, mas, ainda assim, faz questão de afirmar que, hoje, o composto é pouco utilizado nas lavouras. Já o Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco), que representa as empresas, divulga a posição de que “atrelar casos de suicídio ao uso de agrotóxicos na cultura do tabaco é uma afirmação inconsistente”. O argumento de que lança mão a entidade é que, dos dez municípios com maior índice de tentativa de suicídios no Rio Grande do Sul, “apenas” três possuem “grande” produção de tabaco – Venâncio Aires, Santa Cruz do Sul e Canguçu.

A tentativa de atenuar o sofrimento dos agricultores da cultura do tabaco também parte das autoridades. Foi o que demonstrou, em setembro do ano passado, o prefeito de Venâncio Aires, Airton Artus (PDT), que está no segundo mandato. Durante a disputa à Presidência da República, ele procurou diálogo com a então candidata Marina Silva durante um evento em Porto Alegre. Artus não hesitou em aproveitar a oportunidade de falar sobre a “importância do setor fumageiro para as famílias de agricultores” e “desmistificar” as informações correntes sobre o segmento.

Ao entregar um documento sobre o setor, ele mencionou a relevância social e econômica do fumo. Basicamente, o que se fez foi compilar dados ofertados pelo SindiTabaco e pela Afubra. “Em 2013, o tabaco representou 1,3% do total das exportações brasileiras, com US$ 3,27 bilhões embarcados. Da produção de mais de 700 mil toneladas, mais de 85% foram destinados ao mercado externo. Para o Sul do país, a cultura é uma das atividades agroindustriais mais significativas. No Rio Grande do Sul, a participação do tabaco representou 9,3% no total das exportações; em Santa Catarina, 10,2%.” O Brasil é o maior exportador de fumo, posto disputado palmo a palmo com a Índia há duas décadas. Quase 90% da produção é enviada a uma centena de países, China à frente.

Em julho de 2015, Artus foi eleito o novo presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Tabaco, grupo técnico ligado ao Ministério da Agricultura. A se levar em conta: o prefeito é médico de formação e, além de pretender “desmistificar” a relação entre o cultivo do fumo e o sofrimento dos trabalhadores, quer mostrar ao governo federal que não existe relação direta entre a produção e o consumo de tabaco. Ele diz que, se o Brasil deixar de plantar, outro país assumirá esse mercado. “A fumicultura tem considerável importância socioeconômica no Rio Grande do Sul e em toda a região Sul do Brasil. Em Venâncio Aires, o setor tabagista, desde a produção, beneficiamento até a exportação, gera riquezas anuais superiores a R$ 600 milhões, o que representa cerca de 70% do valor adicionado do município”, defende.

Entretanto, ainda nos anos 1990, o primeiro arejamento de ideias sobre essa questão veio com uma pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que trouxe para o centro do debate o uso de agrotóxicos chamados organofosforados como causa para o alto número de suicídios entre fumicultores. O trabalho indicava a perspectiva de o veneno causar distúrbios comportamentais no agricultor.

Passadas duas décadas, a Pública entrevistou o engenheiro agrônomo e florestal Sebastião Pinheiro, hoje funcionário aposentado da UFRGS, mas ainda ativo na colaboração com o  Núcleo de Economia Alternativa da universidade. Ele foi um dos responsáveis pela pesquisa, divulgada em 1996, que já avaliava a relação entre o índice de suicídios, o cultivo de fumo em Venâncio Aires e os agrotóxicos. Pinheiro diz que novos estudos não chegaram a nenhuma conclusão porque “destoam da realidade”. O pesquisador diz que a causa do aumento de casos de suicídio e depressão na região é clara: “As pessoas, adultas ou não, colhem fumo com as mãos e carregam as folhas embaixo dos braços, o veneno entra no corpo e provoca depressão. Depois, a doença se agrava e vêm os suicídios”.

Após essa pesquisa, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) financiou um novo estudo, com médicos e pesquisadores, mas Pinheiro não participou. Alguns levantamentos foram feitos, mas restaram inconclusivos. “Suicídio não tem uma origem única e direta. Pode ter uma série de fatores. Assim, um grupo de médicos não tem condições de analisar alterações no campo eletromagnético (pequenos campos magnéticos que dão estabilidade e equilíbrio às moléculas do corpo humano) de pessoas expostas a praguicidas ou agrotóxicos e, se eles não têm capacidade de avaliar isso, o resultado do trabalho destoa da realidade”, sentencia Sebastião Pinheiro.

De acordo com o engenheiro, a maioria dos agrotóxicos é responsável por alterações no comportamento das pessoas, o que, entre diversos males, leva à predisposição ao suicídio. Ele conta que analisou documentos internacionais civis e militares e encontrou elementos científicos que comprovam a existência da depressão causada por intoxicação, desencadeadora de suicídios.

A pesquisa da UFRGS aqueceu o debate, mas, sozinha, pôde fazer pouco. Um projeto de lei que tenta banir o uso de agrotóxicos organofosforados chegou a ser encaminhado ao Congresso Nacional, tomando-a como base. A proposta, no entanto, está parada desde 2011.

Nas andanças pela região, Sebastião descobriu também que crianças em idade escolar, no município vizinho de Santa Cruz do Sul, onde se concentram as sedes das fumageiras, chegaram, nos anos 1990, a tomar medicamentos fornecidos pela prefeitura para conter os efeitos da depressão. “Como as lavouras envolvem toda a família na produção, porque o cultivo é muito trabalhoso, as crianças também participam e ficam expostas”, explica o agrônomo. Segundo Pinheiro, o trabalho com o fumo é algo que necessita de muito esmero do agricultor. “O agricultor que cultiva o fumo tem uma mão de obra muito qualificada, mas é mal remunerado e fica exposto a doenças terríveis. Enquanto isso, uma associação como a Afubra enriquece com o ciclo produtivo do tabaco. Vá até uma loja da associação, tem supermercado, eletrodomésticos. Já vi vendendo até automóvel”, diz.

Autor do livro Fumo: servidão moderna e violação de direitos humanos (Terra de Direitos, 2005), o também pesquisador Guilherme Eidt Gonçalves de Almeida, especialista em direito sanitário pela Fiocruz, chama atenção para a conexão entre os meses de uso mais intenso de agrotóxicos nas lavouras de fumo (outubro, novembro e dezembro) e o período com maior número de suicídios. O mês de abril, que apresenta também índices altos de suicídio, coincide com a época da preparação dos canteiros pelos plantadores de fumo, afirma Eidt.   

Sebastião Pinheiro lembra que o grau de toxidade dos agrotóxicos utilizados no país não é medido corretamente. “A classificação é enganosa para atender aos interesses da indústria do veneno. Assim, a periculosidade e a insalubridade a que estão expostos os agricultores não têm tamanho no Brasil, literalmente. E os mais vulneráveis são os que não podem mecanizar a produção, como os que trabalham com as folhas de tabaco”, enfatiza.

Outro estado, mesma tragédia

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O ano era 2011 quando esta história começou a ser apurada. E não só o frio de uma tarde de sábado de inverno trazia um ar cinzento ao lugar.  Os olhares de todos mostravam tristeza, como se estivessem à espera de notícias ruins em um corredor de hospital. A casa de Lídia Maria Bandacheski do Prado estava constantemente sob uma névoa de tensão. Ao fundo, finalmente, ela aparece, sentada – ou depositada – sobre uma cadeira. Não se permite sorrir em momento algum durante as horas de conversa. Não tem motivos. Até hoje.

Há dez anos, começou a apresentar náusea, perda de força muscular, desmaios, falhas de memória. Os primeiros médicos, sem saber o que fazer ou sem querer entender o problema, davam uma dose de soro e a mandavam de volta para casa. “Já cansei de passar mal e apagar, não lembrar de nada”, conta Lídia, que é de Rio Azul, no centro-sul do Paraná, terceiro maior estado produtor de fumo. “É difícil porque você tem filhos, quer lutar e dar o melhor para eles. Mas não posso mais dar o meu melhor.”

Quando tinha 9 anos, o pai morreu. E a garota assumiu tarefas pesadas da produção de fumo para que a mãe não sofresse tanto. “Eu dormia em cima das sacas que deixavam no paiol. A mãe cozinhava dentro do barracão. A gente ficava lá a semana inteira, nas terras arrendadas. Misturava o veneno com a mão, sem luva. Falavam que o veneno só fazia mal pro bichinho. Nunca a gente pensou que ia fazer mal pro ser humano.”

Mas faz. Lídia é a prova disso. Em 2009, depois de muitos anos de peregrinação hospitalar, finalmente médicos começaram a descobrir de que se tratava o caso. E ela virou o ponto de partida de uma pesquisa do Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Após seis anos, os resultados preliminares do trabalho, cedidos à Pública, dão conta do problema. A avaliação médica e toxicológica de 46 fumicultores da região central do Paraná mostra que em 20 deles há sinais claros de relação entre intoxicação crônica e o trabalho na roça. Desses, 18 sofrem de transtornos de humor e dois apresentam problemas musculares e de coordenação motora. “A indústria quer falar que foi o produtor que não usou equipamento de proteção, mas, mesmo usando, não protege”, constata Paulo de Oliveira Perna, coordenador do núcleo e professor do Departamento de Enfermagem da UFPR. “Qual é a cultura que tem garantia de compra? É o fumo. Por mais que seja ruim a relação, o agricultor plantou, sabe que vai vender.”

A fala de Paulo Perna resume o que pensam muitos agricultores, inclusive Lídia: como escapar a essa cultura do fumo? Quando não se escapa, acaba-se expulso. Ela relata que algumas vezes chegou a ter paralisia dos músculos dentro da empresa que lhe comprava o tabaco, durante o processo de pesagem. Ninguém lhe ofereceu auxílio. Pelo contrário. Acabou descadastrada e, de quebra, terminou com uma dívida que não tinha mais como saldar.

Quatro anos depois do encontro tenso em Rio Azul, telefonamos a Lídia. A tristeza continuou a ser a marca da conversa. “Eu pensava que ia ter uma cura. Pelo menos voltar a andar, ter uma vida normal. Com o tempo, as coisas pioraram e agora já estou numa situação que não tem mais o que fazer.” Sem poder sustentar a vida no campo, ela e o marido se mudaram para a cidade, onde tiram o sustento apertadinho do auxílio-doença da Previdência Social e do salário de servente de pedreiro. “Fiquei tão abalada. É difícil. Você leva uma pancada. Pensei várias vezes em acabar com a minha vida, mas continuo aqui pelas minhas filhas.”

Sem saída é a regra

De volta a Venâncio Aires, vem a dureza de constatar que Anderson Rodrigo Richter e sua família são exceções. A ideia predominante entre os moradores da região do Vale do Rio Pardo é que não existe porta de saída da cultura do fumo. Talvez as propriedades antigas que guardam lembranças dos avós e bisavós ou mesmo de antepassados mais distantes que iniciaram as lavouras de tabaco expliquem. Ali, o trabalho está cravado em mentes e corpos como parte da genealogia. Idosos, jovens e crianças. Mulheres e homens. A herança faz com que gerações sigam a espalhar o monocultivo das folhas de fumo por quilômetros de solo. Na maioria das vezes, sem pensar nas consequências. Doenças, suicídios e trabalho infantil são exemplos de questões naturalizadas por um sistema que violenta os saberes de milhares de famílias de agricultores, provocando abalos emocionais e fragilidade física, além de uma nociva dependência econômica individual e coletiva.

Em 22 hectares de terra localizados na comunidade da Linha Olavo Bilac, o casal Bohn persiste com o cultivo de tabaco em Venâncio Aires. Porém, a persistência de Hugo e Glacy não é sinônimo de querer. Aos 63 anos, o marido reconhece que herdou automaticamente hábitos dos quais mal se recorda de como e quando começaram. Sabe o ano de nascimento do pai, 1916. E que, antes disso, com o avô, ainda no século 19, o fumo já dominava o cotidiano da família. Do pouco que se lembra sobre o início do próprio trabalho, diz que ao menos desde os 13 anos já se envolvia na produção. “São pelo menos 50 anos trabalhando”, murmura, com ar cansado.

O casamento tem 37 anos. Dele, vieram três filhos, todos homens. Hoje adultos, preferiram cortar os laços com a lavoura. Depois de auxiliarem no cultivo até a adolescência, desistiram de plantar fumo e foram procurar novos ares, migrando para áreas urbanas. “Os filhos ajudavam. Agora, estão trabalhando fora. Ninguém quis saber da propriedade”, explica Hugo, sem esconder o pesar. No entanto, o casal admite que, recentemente, também “tentou sair”, como se tivesse buscado uma fuga. E assume: foi recapturado. “Faz três anos, deixamos o fumo, tentamos plantar milho”, conta Glacy. Voltaram ao tabaco, mas sem vontade. Hugo tenta brincar com a situação: “Voltamos querendo sem querer”.

O voltar “sem querer” é explicável, assim como o desinteresse dos filhos do casal em permanecer no campo. Os agricultores revelam que o cultivo do tabaco exige muito. O trabalho é todo manual, delicado. Não há mecanização que possa assessorar o produtor. Geralmente em maio, no caso gaúcho, inicia-se a feitura dos canteiros, o que dura até junho. De julho a setembro, milhares de mudas são plantadas, uma a uma. Na sequência, vem o ciclo de manutenção e a aplicação de agrotóxicos. O corpo fica em contato frequente com o veneno, essencialmente as mãos. Entre outubro e janeiro, a época é da colheita, que se dá por etapas. Verifica-se o amadurecimento de cada folha. Debaixo de forte calor, o agricultor as retira meticulosamente para garantir que tenham boa qualidade e aparência, algo de que vai necessitar muito no momento de negociar preços com os representantes das empresas.

São três meses no trabalho de colher. O dia é longo. Horário de verão. E a noite não traz refresco, principalmente porque, depois de retirada do solo, a planta é levada a fornalhas, para secagem. Além de trabalhar o dia todo na terra, é necessário cuidar do forno. O fumo é pendurado numa estufa. A lenha mantém a temperatura alta, o que permite a qualidade do processo de cura. De madrugada, o agricultor deve acordar várias vezes para verificar a quentura da fornalha, que, a depender do momento, varia de 90 °C a 170 °C. O tempo para o descanso é mínimo. Até sirenes são instaladas nas estufas para garantir que o produtor não perca a hora.

Nesse conjunto árduo de atividades, Glacy é quem sente mais. E revela os males que lhe atacam o corpo. Ela não o faz, contudo, em tom de desabafo. Conta a situação quase como uma confissão de culpa. Dá a impressão de se responsabilizar por ser “frágil”. “Fico ruim se colher fumo molhado de sereno. Tenho ânsia de vômito, dor de cabeça, acabo de cama. É a nicotina [liberada pela folha], acho, quando a folha do tabaco está verde.” Aponta para o marido: “Ele nunca teve nada, o problema é só comigo. Não sei se é porque sou mulher, mais fraca”.   

A agricultora de 59 anos responsabiliza, além de si mesma, o sereno e a nicotina pelo mal-estar que a persegue há anos. Ela não considera os agrotóxicos, mas, num repente, expõe desde quando trabalha e relembra que seu corpo não foi o único a reagir negativamente na família. “Eu já ia para a roça com o pai desde os 10 anos, para colher fumo.” Em seguida, confidencia ter dois irmãos que também sentiram o baque. “Eles iam parar na cama com o mesmo problema, os mesmos sintomas. Aí, o pai e a mãe tinham que fazer sozinhos, porque não dava pra ficar nem em pé. A gente não conseguia esticar os braços, as pernas. A dor começava na cabeça e tomava todo o corpo.”

O questionamento é inevitável: por que voltaram, então? Entreolham-se. “O fumo dá um pouco mais de dinheiro que o milho, um pouco mais”, comenta Hugo. Contido, ele admite que não diversificaram cultivos na propriedade. “Aí, o custo da produção [do milho] foi aumentando e não tivemos como escapar”, explica. Saíram de uma monocultura e pularam para outra. Aposentaram-se há três anos, mas voltaram ao tabaco para complementar a renda.  

Porém, o discurso de que o tabaco pode aumentar a renda se comparado a outras culturas não sai da boca com convicção. Não é o argumento de que o preço é melhor o que fez o casal retornar “sem querer”. Foi um contrato com a fumageira Alliance One, que trouxe a “certeza” de venda, o que os empurrou a plantar 20 mil pés de fumo neste ano. Já foram 55 mil, em outros tempos, quando “a gurizada ajudava”. “Eles eram obrigados a fazer, tinham que ajudar, era trabalho da família”, ressalta Glacy.  

A naturalidade com que Glacy e Hugo Bohn encaram o trabalho infantil que já existiu em sua família resulta da mesma força que os fez voltar a plantar o tabaco e negligenciar os riscos à saúde. Estão presos a um esquema poderoso que enredou toda uma região.

Adianta dizer não?

Enxada nas mãos, em meio a folhas de fumo, Maicon Inácio Wagner mora também na comunidade. Vê-se que idade não é critério para atrelar a vida ao cultivo do tabaco. Ele tem somente 33 anos. Os avós foram os primeiros a se instalar na localidade. “Que eu sei, sempre foi com o plantio do fumo que trabalharam. Meus pais continuaram e, depois, eu”, recorda.

As respostas são rápidas. Maicon conta que seu único irmão decidiu sair da “roça” e foi trabalhar “na cidade”, mais precisamente em Bento Gonçalves, município da Serra Gaúcha. “Eu não tive essa alternativa”, faz questão de destacar. Sobre gostar do trabalho que restou, breves palavras: “Decidi seguir. Não adianta dizer que não gosto”. E ele segue, faz 21 anos. Está desde os 12 na lida com a terra e o tabaco, que o levou a interromper os estudos no 6º ano do ensino fundamental. Vende o que produz para a norte-americana Universal Leaf Tabacos, líder mundial no comércio de tabaco em folha, que tem sede na cidade vizinha de Santa Cruz do Sul. A empresa, como fazem também as concorrentes, fechou contrato com o agricultor, o que o obriga a comprar todos os insumos e equipamentos necessários para o cultivo do fumo somente dela. “É o ano inteiro, direto. Vendem tudo”, diz.

Quando a conversa parecia se encaminhar para o fim, ele se abre um pouco mais. Avisa que já passou mal na colheita do fumo, mas busca ponderar: foi só uma vez. “Uma vez aconteceu, mas faz anos. Foi na lida com o fumo molhado, logo depois de uma chuva que a gente foi colher e senti um mal-estar. Sensação de ânsia de vômito, tontura, dor de cabeça. Nem foi aqui, estava ajudando um colega meu”, descreve o agricultor.

Uma mulher se aproxima. É a esposa de Maicon, Sandra Beatriz Hochscheidt, de 34 anos. Iniciou o trabalho com o plantio do fumo quando conheceu o marido, em 2003. Ainda mais calada do que ele, não reclama. Ao contrário, diz que gosta: “Nunca passei mal e está bom assim”. Mas e se mudassem de cultivo, diversificassem? “Para mim, tanto faz.”  Ao lado dela, o filho de apenas 3 anos já corre entre os 50 mil pés que o casal plantou este ano.

Mais uma amostra de poder e influência em Santa Cruz - bicicletários têm formas de folhas de fumo. Foto: Gustavo Nunes.

Mais uma amostra de poder e influência em Santa Cruz – bicicletários têm formas de folhas de fumo. Foto: Gustavo Nunes.

A prisão

É difícil encontrar quem negue que o fumo é a principal fonte de renda das pequenas propriedades agrícolas das cidades do Vale do Rio Pardo, já que é o único produto que tem garantia de compra, pela assinatura de contratos entre a indústria fumageira e os agricultores. É assim que se constrói a cadeia que coloca os pequenos produtores na condição de empregados na própria terra, num esquema imposto pelas empresas. Tal lógica persegue, realmente, a previsibilidade e a segurança, mas não para o trabalhador do campo. As garantias são voltadas para o cumprimento dos contratos de exportação de fumo em folha com o mercado internacional. O sistema integrado, como foi batizado pelas empresas, é a prisão dos camponeses.  

O ritual de assinatura dos contratos se repete todos os anos. Nos meses de abril e maio, o agricultor, procurado por funcionários chamados de “orientadores” das empresas, já acertou a venda de tabaco em folha, num acordo de prestação de serviços no qual não há nenhuma possibilidade de negociação por parte do pequeno produtor. É um documento de adesão em que resta especificar o tipo de fumo (Virgínia, Burley e Comum), o tamanho da área onde será feito o plantio, a variedade de semente a ser utilizada, a estimativa de pés que serão cultivados e a quantidade de tabaco, em quilos, a ser entregue às fumageiras. Do começo ao fim do processo, o agricultor está amarrado. Desde a compra de sementes, insumos, agrotóxicos e equipamentos de proteção até a comercialização das folhas de tabaco, que vai ocorrer, em média, a partir de março do ano seguinte, o dono da terra está comprometido, até mesmo correndo o risco de se endividar com a empresa se não cumprir a meta prevista na estimativa. Se entregar menos do que prometeu no documento, cai em dívida, já que, além de venderem grande variedade de itens aos camponeses, as fumageiras, muitas vezes, exigem investimentos dos produtores, como a construção de fornalhas para secagem do fumo.         

Sobre os contratos, é a procuradora Margaret Ramos de Carvalho, do Ministério Público do Trabalho no Paraná, quem diz: “Eles levam a sério. Rejeitaram todas as propostas que foram feitas. Não tinha como conciliar. Nenhum ponto era fácil de chegar a acordo. De um início de conversa, a gente passou a divergências sérias.” O “eles” com quem a procuradora tinha – e tem – divergências sérias é a indústria do tabaco. Em 2007, após um longo período de investigação, a procuradora apresentou três ações contra as empresas, em simultâneo a seus colegas de Santa Catarina, que impetraram outras três ações com a mesma fundamentação. Em linhas gerais, argumentavam que o contrato estabelecido entre produtor e empresa configurava uma relação de trabalho, e não um acordo entre fornecedor e comprador.

Ao jogar luzes sobre os contratos de compra e venda do tabaco, não restou dúvida de que a relação era muito desigual. Os produtores estavam obrigados a comprar das empresas um pacote tecnológico. Para isso, tinham de fechar um acordo de financiamento que, invariavelmente, era garantido por entidades ligadas à indústria, sempre com juros acima da média do mercado, numa trajetória que resultava em um endividamento que deixava agricultores totalmente atrelados a determinada corporação durante muitos anos. No final de uma safra dura, a comercialização era exclusividade da empresa, sem possibilidade de contestação dos preços apresentados. “Tudo é muito escabroso, muito impactante. Falam desse contrato de integração como se fosse uma coisa tão comum, como se não tivesse nenhuma ilegalidade. É muito naturalizado”, queixa-se a procuradora.

A maior parte dos pontos do contrato continua em vigor. Quando as ações foram apresentadas, a indústria do tabaco correu para deslocá-las a Brasília sob o argumento de que apenas na capital federal se poderia delimitar regras comuns que teriam validade para todo o Brasil. As empresas sabiam que, no Sul, a chance de vitória era reduzida. No Paraná, o juiz Cássio Colombo Filho havia concedido liminar suspendendo os contratos de compra e venda.

Pouco depois, o magistrado teve de aceitar o deslocamento do caso para a distante Brasília. “Ora, se o Ministério Público do Trabalho já investigou a fundo a questão e ajuizou esta demanda, há pelo menos um razoável indício de prova de que os contratos são celebrados de forma abusiva e necessitam ser IMEDIATAMENTE revistos”, protestou, em seu último despacho, no qual o juiz registrou a existência de pressões econômicas, sociais e políticas envolvendo o assunto.

Em 2011, o caso chegou à capital. E foi resolvido de maneira quase imediata. “Os procuradores de Brasília não participaram da investigação, que foi uma investigação cuidadosa, que demorou muito tempo para a gente amadurecer, decidir qual tipo de ação seria apresentado. Em menos de 15 dias, fizeram acordo. Minha investigação era de dez anos”, critica a procuradora, claramente medindo as palavras na tentativa de evitar novos problemas.

O que o acordo expressa é, basicamente, a linha de argumentação das empresas em seguidos pareceres, documentos, materiais de divulgação. Os produtores passam de vítimas a culpados por tudo o que ocorra de ruim na produção de fumo. Na questão dos agrotóxicos, de modo geral, o problema deixa de ser entendido como uma consequência da falta de opção do camponês diante de custos altos, e as dívidas passam a ser uma questão de ignorância que deve ser combatida mediante o oferecimento de cartilhas de esclarecimento.

No Paraná, a Justiça do Trabalho já havia reconhecido que a Afubra não tinha a menor condição de representar os trabalhadores. Em Brasília, a entidade voltou a figurar como parte da cadeia de divulgação das boas práticas do setor, em parceria com o SindiTabaco. Ambas deixam de ter responsabilidade central no caso, devolvendo a bomba ao produtor.

“Se fosse para fazer aquele acordo, eu teria feito há muito tempo aqui”, afirma Margaret. “Não é uma ação para ser resolvida por acordo. São coisas inconciliáveis. O certo seria a indústria pagar ao produtor como empregado, o que as empresas não aceitariam jamais.” Sem poder mexer em um tema sobre o qual o MPT firmou um acordo, Margaret e outros procuradores do Sul buscam saídas para a situação dos produtores. Para ela, o que resta é tentar encontrar a porta de saída dessa cultura, ampliando a oferta de ações de diversificação.

Sempre reféns

Além de acorrentados ao sistema integrado, os pequenos agricultores são reféns dos métodos das fumageiras no que se refere ao ritmo do mercado e aos preços do fumo. E as empresas têm peso político. Em 2007, ao chegar ao Ministério da Agricultura, o catarinense Reinhold Stephanes, que fez carreira política e empresarial no Paraná, firmou portaria revogando os dispositivos válidos desde a década de 1990 para a classificação do tabaco, o que baliza os preços impostos ao produtor. O que deveria ser solução para antigas reivindicações dos produtores acabou como nada mais que um remendo.

A nova tabela de classificação de fumo manteve uma margem enorme para que as empresas decidam quanto vale o produto entregue pelo agricultor. No caso da variedade Virgínia, a mais comum no Brasil, há 41 classes diferentes para que se encaixe o produto. É um complexo e subjetivo cruzamento de grupos, subgrupos, classes, subclasses, tipos e subtipos. Difícil entender? Imagine ter de fazer isso em questão de segundos, enquanto o trabalho de um ano inteiro rola pela esteira e o técnico da empresa define seu valor.

Se o representante da indústria disser que as folhas têm mais de metade da superfície tomadas por cores “castanho-claro a castanho-escuro”, o fumo terá um valor. Mas, se achar que a cor laranja predomina, passa-se a outro patamar. O problema é que ainda será preciso avaliar se o produto tem ou não elasticidade e qual o grau dessa elasticidade. Avalia-se também se há manchas esverdeadas, pálidas, acinzentadas, avermelhadas. Cruza-se tudo isso e tem-se o preço final da produção. Quem reclama está fora do jogo.

“O principal problema é que o agricultor não tem chance de comercializar o produto com o preço que deveria comercializar”, constata Vilmar Sergiki, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Palmeira, na região central do Paraná. Há muitos anos, ele é uma pedra no sapato da indústria devido a parcerias com organizações que criticam a produção do fumo e trabalham pela criação de portas de saída. “Não tem abertura para o agricultor discutir o contrato, principalmente na questão do preço. Não tem um mínimo. A empresa rebaixa a classe do jeito que entende. Eles rebaixam e o agricultor não tem autonomia nenhuma para discutir.”

Na prática, a existência de tantas classes serve para que a empresa opere sobre o preço de acordo com o momento do mercado. Com demanda em alta, os valores sobem. Com excesso de oferta, os valores descem, o que comprova que não se trata de uma questão técnica. Aquilo que parece muito bom no começo de uma safra pode ser trágico ao final dela. No papel, o acordo soa perfeito: garantia de produção comercializada, assistência técnica, crédito. A Afubra diz que o valor bruto médio por família é de R$ 72.200 ao ano, somando o fumo e outras culturas que se produza na propriedade.

Quando se coloca na ponta do lápis, a situação muda. O sindicato de Palmeira fez, entre 2007 e 2008, um cálculo de absolutamente todos os custos da produção, começando no valor da hora de trabalho e terminando na construção da estufa e do paiol, passando por agrotóxicos, combustível, lenha e energia elétrica. Cada quilo de fumo custava à época quase R$ 5 para um agricultor que obtivesse uma produtividade considerada boa, valor que subia para R$ 6 em caso de algum imprevisto. No final, sobravam menos de R$ 2 por quilo para os produtores de melhor sorte e nem um centavo para os que tinham gastos mais elevados.

Os cálculos não foram atualizados, mas a situação não se alterou em linhas gerais e os valores pagos por quilo de fumo continuam mais ou menos na mesma margem. No começo da última safra, os agricultores tomaram prejuízo devido a uma depreciação imposta pela indústria e considerada abusiva por alguns sindicatos. Quem deixou para vender no final, porém, conseguiu mais.

“Esta é mais uma das estratégias das empresas para fazer pressão sobre os produtores. Quando vendem no começo da safra, geralmente é para pagar a despesa. O produtor está há quase um ano sem receber. Então, precisa vender”, afirma Cleimary Zotti, técnica do Departamento de Estudos Socioeconômicos Rurais (Deser), sediado no Paraná. O Deser é uma referência no estudo sobre a cultura do tabaco. Desenvolve pesquisas, trabalha com perspectivas futuras, incomoda a indústria. Nos últimos anos, notou duas mudanças substanciais e interligadas na relação entre empresas e produtores. Primeiro, as corporações deixaram de avalizar processos de financiamento no Paraná. A consequência disso leva à segunda alteração. Antes, a queixa eram os empréstimos a juros altos, com endividamento quase inevitável. Agora, o tema é a falta de crédito, que acaba excluindo vários produtores.

“A empresa trazia um pacote e o agricultor era praticamente o empregado. Num processo de integração, o agricultor pagava pelo pacote. Agora, o agricultor tem de usar uma parte do valor da venda para já comprar da empresa os insumos. Para conseguir pagar as despesas, é um valor razoável. Não é qualquer família que consegue”, avalia Cleimary. “A tendência da indústria do fumo é concentrar. Concentrar em um número menor de municípios, concentrar em um número menor de produtores.”

Entre as safras de 2011 e 2014, a Afubra constatou que em torno de 25 mil famílias deixaram a cultura do tabaco. Na comparação com dez anos atrás, o número de 162 mil famílias envolvidas atualmente representa uma saída de 36 mil, com 115 mil hectares a menos de plantações. Motivo para comemoração? Depende. Se todas estivessem envolvidas em culturas menos agressivas e mais rentáveis, sim. Não é o caso.

A redução no número de fumicultores corresponde às mudanças na conjuntura internacional. A Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco, que completa dez anos em 2015, tem levado a um desestímulo global ao consumo de cigarros. Os pontos firmados entre a Organização Mundial da Saúde (OMS) e os 192 países signatários preveem restrições à publicidade e à produção de variedades atrativas para o público jovem, além de estimular o oferecimento de saídas aos agricultores. No Brasil, a prevalência do tabagismo na população adulta está em 10,8%, segundo dados do Ministério da Saúde, uma redução de 30,7% em relação a 2006, primeiro ano após a ratificação da convenção-quadro. No final da década de 1980, um em cada três brasileiros fumava.

À parte essa questão, a produção africana, em particular a do Zimbábue, cresce em ritmo chinês e já faz sombra à indústria brasileira. Diante disso, a Afubra e o SindiTabaco, mais uma vez, resolveram andar de mãos juntas. A tendência de bastidores é deixar ao Zimbábue a condição de produtor em larguíssima escala e reduzir a produção brasileira para que passe a contar com melhor padrão de qualidade – melhor valor agregado, em linguagem mercadológica. A associação que reivindica o direito de representação dos fumicultores emitiu comunicado no início da safra atual indicando sua solução imediata para o problema: reduzir em 12% a produção da variedade Virgínia e em 20% a Burley – um total de 607 mil toneladas, ou 90 mil a menos que na colheita anterior.

“Querem os produtores mais bem capitalizados, mais bem estruturados. O pessoal que tem área própria, que não usa mão de obra de fora, que tem lenha própria, que produz com mais qualidade. Estão fazendo esse tipo de seleção. Basicamente, é quem tem menos custo”, resume Nelson Dias da Silva, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São João do Triunfo, vizinha a Palmeira.

O problema é que uma fatia expressiva dos produtores não está nesse seleto grupo. Quase 30% não têm terras próprias e outros 34,7% produzem em unidades que têm entre um e dez hectares. De acordo com dados da Afubra, a escolaridade é baixa: 89,9% cursaram o fundamental incompleto e 6% terminaram o fundamental.

Silvana Rubano Turci, pesquisadora do Centro de Estudos sobre Tabaco e Saúde da Fiocruz, considera que esse é um entre vários fatores que dificultam a migração para outras culturas. Ela e seus colegas reforçaram, com um estudo conduzido com mulheres envolvidas na produção de fumo em Palmeira, uma impressão que já havia aparecido em pesquisas e em conversas: a maior parte das pessoas deixaria a produção de tabaco se tivesse alternativa.

“As trabalhadoras são mulheres muito inteligentes. Sabem a capacidade que têm de transformar o ambiente em que vivem. É muito difícil para uma família em pequena propriedade mudar de atividade sem um apoio muito forte para que isso aconteça. Tem que ver qual a vocação da família, qual a vocação do município”, diz. “É um trabalho muito pesado. E isso acaba gerando um êxodo, principalmente das filhas, que vão para a cidade na esperança de um emprego melhor.”

Esse êxodo dificulta ainda mais a migração para outras culturas. Uma lavoura agroecológica ou orgânica, sem aplicação de venenos, demanda um esforço físico muito elevado, difícil de ser cumprido pelos mais velhos. No ano de ratificação da convenção-quadro, o governo federal lançou o Programa Nacional de Diversificação em Áreas Cultivadas com Tabaco, sob a coordenação do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), com o objetivo de encontrar portas de saída para a produção do fumo.

Segundo o MDA, até agora foram desenvolvidas atividades em 800 municípios, num total de 45 mil famílias. Organizações da sociedade civil têm sido contratadas para trabalhar diretamente com os produtores. A última chamada pública, realizada em 2013, prevê o repasse de R$ 53 milhões até o final de 2016. Em termos de quantidade de recursos, uma luta inglória: a indústria do tabaco no Brasil diz auferir uma renda anual superior a R$ 5 bilhões.

O Deser trabalha a criação de alternativas com 1.200 famílias no Paraná e tem sentido a necessidade de acelerar esforços à medida que aumenta o número de dispensados pela indústria. “O resultado que temos mostra que as famílias têm diversos perfis. Em média, a quantidade de terra não é muito grande. Temos uns 20%, 30% de famílias que têm um hectare, um hectare e meio, e agricultores que produzem fumo na terra alheia. Como a gente trabalha diversificação nesse processo?”, questiona Cleimary, que conhece bem a dificuldade de lidar com um oponente que tem mais recursos e um escopo de argumentos que se renova a todo instante. “Quando a gente fala da indústria do tabaco, tem de saber que eles são profissionais. São bons no que fazem. Me admira a falta de escrúpulos. Quando chegam para argumentar com alguém que não tem muita noção da situação, conseguem comprar essa pessoa com muita facilidade. Essa pessoa passa a depender da indústria do tabaco.”

Em Santa Cruz do Sul, é a fumageira Souza Cruz quem dá as boas-vindas, mostra do poder das empresas na região

Em Santa Cruz do Sul, é a fumageira Souza Cruz quem dá as boas-vindas, mostra do poder das empresas na região. Foto: Gustavo Nunes.

Família “feliz”

José Henrique, 49 anos, natural de Venâncio Aires, hoje é quem comanda os negócios na propriedade da família Haas. Herdou do pai, Beno, o gosto pelas lavouras de fumo. “Vim para cá com 6, 7 anos, quando a família se mudou para esta propriedade. Sempre estava junto na lavoura. Em épocas de escola, ia para a aula e, quando podia, ajudava. Não tinha por que ficar sentado em casa”, diz logo de cara.

Sobre a comunidade onde vive, ele garante ter testemunhado o crescimento econômico proporcionado pelo tabaco, que é o único plantio alcançado pelos olhos por ali. Relata que antes havia a erva-mate, mas que o fumo criou condições para aumentar a renda dos produtores e prevaleceu, engolindo outras culturas. “Aqui está o nosso sustento, nosso pão. Tudo que você vê vem do fumo”, afirma, apontando para uma imponente caminhonete e às boas casas construídas nos 23 hectares de terreno, onde plantaram 85 mil pés de fumo para a safra 2015-2016.

Apesar de reforçar os ganhos materiais, o produtor não nega que o trabalho já lhe causou problemas físicos. “Quem não se cuida está sujeito. Quem vai colher o fumo molhado e não se protege pode passar mal. Você se molha e, até por causa do calor, por causa do sol, dá reação. Tem alguma parte tóxica que o corpo não resiste, mas nem todos têm problema. Eu já tive, mas agora estou me protegendo, usando essas roupas para a colheita, o que não é muito bom para usar, mas a gente usa”, confessa. Só depois da menção de José sobre o uso do equipamento de proteção individual (EPI) é que a voz da sua esposa, Dulce, se apresenta: “A gente coloca [o EPI] e chega certa hora, tipo nove, nove e meia, a hora que o fumo está mais enxuto, e tira. Daí, coloca roupa cumprida normal”, comenta. Logo em seguida, o marido retoma a palavra, para cair em contradição: “Não dá pra ficar [com o EPI]. É muito quente”.  

Os Haas têm contrato de prestação exclusiva com uma das fumageiras, a  Souza Cruz, de origem brasileira e hoje subsidiária da British American Tobacco no Brasil. “Só faço negócios com a Souza Cruz, nunca mudei. Desde que eu comecei, meu pai já estava com eles e assim ficou. Tem outras, mas optamos pela exclusividade”, explica José Henrique, que agora arrenda terras para outras duas famílias de agricultores. São os chamados “sócios”, pessoas que plantam na propriedade alheia e pagam com trabalho.

Atualmente, dos membros da família, somente José Henrique e Dulce vão à lavoura de fumo. Beno, o patriarca, tem 80 anos e não planta mais. Dessa forma, usam mão de obra de terceiros, principalmente na colheita, por três meses. “No último ano, assinei até carteira para eles”, declara José, com o tom de quem fez um favor ao registrar quem trabalha, entregando mais uma evidência de que o normal na região – não exatamente no caso isolado dos Haas – é a precarização das condições laborais.

O “normal”, também, é o trabalho de menores de idade. Após uma pergunta sobre os motivos de os jovens da região não gostarem do plantio do fumo, a resposta vem cortante: “Porque é um serviço mais pesado. Se o jovem ficou até os 18 anos sem fazer aquilo, vai no que é mais fácil depois”, julga José Henrique. “Desde pequenino, eu ajudo, não deixei de estudar. Não fiz uma faculdade, mas estudei até o segundo grau. Ia para a aula, chegava em casa e ajudava. Não me fez mal nenhum esse meio dia na roça”, conclui.  

Quem está doente?

As palavras mais contundentes ditas na propriedade da família Haas, porém, ainda estavam por vir. Sandra Helena Wagner, secretária do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Venâncio Aires, ligado à Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS), estava presente à entrevista. E resolveu intervir na questão. “Hoje, as nossas crianças não trabalham. Se vão ajudar, catam umas folhinhas que caem no chão. A preocupação dos pais é levar os filhos à aula. Se houve isso [trabalho infantil] faz muitos anos, mas, mesmo assim, as crianças que ajudaram na roça aprenderam uma profissão. Eu sou um exemplo, trabalhava na roça desde pequeninha. Aprendi a ser gente, ter valores, princípios, ter respeito pelos mais velhos, pela sociedade”, defende.

O discurso prossegue e o teor se acentua. Com uma crítica desmedida às gerações mais jovens e a defesa nada sutil do trabalho infantil, a representante do sindicato arremata: “Sou uma cidadã que trabalha, que tem carteira assinada, mas e a geração de hoje? Quer trabalhar? Estamos criando uma geração de vadios que só tem estudo, que acha que não pode mais trabalhar. E que geração vai ser essa, no futuro? Nem todo mundo pode ficar empregado no escritório. E se não tiver pegado gosto de trabalhar em qualquer área? O que a gente mais vê hoje é um bando de vadios, se drogando, outros se prostituindo, uma sociedade doente por falta de se ocupar desde pequeno”.

Uma pesquisa concluída no ano passado pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) identificou que 90% dos agricultores da região não completaram o ensino fundamental. Entre as crianças, 150 mil são de famílias de agricultores de tabaco. Um levantamento do Deser reforça o cenário. Feito com 1.128 fumicultores do Sul, em 2008, ele mostrou que 40% dos filhos homens e quase 20% das mulheres trabalham no cultivo. Além disso, 9% dos filhos abaixo de 12 anos contribuem na lavoura. Outros estudos da Unisc indicam que as crianças sofrem mais que os adultos com os agrotóxicos e citam déficit de crescimento e de cognição, além de desnutrição, como consequências do trabalho infantil nas plantações de fumo.

Também instituições internacionais se debruçaram sobre o tema e mostraram que o trabalho das crianças é somente um dos reflexos da perversidade do sistema. Em 2003, estudo realizado pela Christian Aid – organização de origem norte-americana e com sede no Brasil – afirmava que crianças brasileiras de famílias de agricultores do tabaco realmente vão à escola, mas a ajuda nas plantações, resultado de fatores socioeconômicos e culturais, é fundamental para alcançar as metas impositivas da indústria.  

No Paraná, antes de mergulhar na investigação dos contratos feitos entre empresas e agricultores, o que chamou atenção da procuradora Margaret Ramos de Carvalho foi a questão do trabalho infantil na produção de fumo. No ano de apresentação das ações contra as fumageiras, o MPT calculava haver 80 mil crianças lidando com essa cultura no Paraná e em Santa Catarina. “Quando fui discutir com os produtores a questão do trabalho infantil, cobrando deles essa responsabilidade, percebi que eles eram vítimas, tanto quanto as crianças e os adolescentes.”

O acordo feito em Brasília, que atropelou a ação do MPT no Paraná, seguiu a lógica de colocar somente o pequeno na linha de frente da culpa também nessa questão. Hoje, no caso de flagrante de trabalho de menores, só é prevista punição ao agricultor. Se isso ocorrer por duas vezes, o produtor deve ser automaticamente descadastrado pelas empresas. Além disso, os camponeses têm de se comprometer a apresentar às corporações comprovantes de frequência escolar, também sob o risco de exclusão.

Noite de angústia, dia de alívio

Já é noite de 1° de setembro em Venâncio Aires. O corpo sente o cansaço de quem circula desde as primeiras horas da manhã e a mente está atordoada depois das declarações na propriedade dos Haas. Ainda havia 31 quilômetros a percorrer até Santa Cruz do Sul. Ao menos uma parada era necessária antes da partida. No bar, a conversa com o proprietário tenta virar uma entrevista, barrada sem cerimônias. “Falar o quê do fumo? É ele que faz girar meu bar, que faz girar esta cidade. Sem tabaco, isso tudo aqui quebra. Você quer que eu fale dessas coisas delicadas?”, indaga o comerciante, que nem chega a pronunciar seu nome. O que disse, entretanto, foi o bastante.

Trinta minutos de estrada e a marca da líder do mercado de fumo do país dá as “boas-vindas” a quem chega. As folhas de tabaco esculpidas na madeira e o nome da Souza Cruz estampado logo nos primeiros metros de solo de Santa Cruz do Sul já dão uma ideia do tamanho do poder. Do símbolo mostrado no portal de entrada do município às lavouras cultivadas por 4 mil famílias da cidade, onde o fumo se espalha sufocando gente e outros cultivos, o cerco está imposto. E ele aprisiona desde os agricultores até a economia regional, em que comerciantes e trabalhadores urbanos são atingidos em cheio pelo discurso de que só há vida porque existe tabaco. Rodeados pelas poderosas empresas fumageiras, os pequenos produtores têm apenas brechas para contar a história a partir do ponto de vista de quem trabalha na terra. E são poucos os espaços que se abrem para quem deseja ouvi-los.

Passava das oito da noite e ainda havia trabalho pela frente. Um telefonema com hora marcada: 20h30. “Não posso ser identificado e não vou poder te encontrar pessoalmente, mas vou te passar alguns contatos que podem render algo sobre o tabaco em Santa Cruz”, diz a pessoa do outro lado da linha. Angústia. Há dias, os contatos tentados nos sindicatos de trabalhadores da cidade, na Unisc e no Ministério Público tinham dado em nada. Ninguém podia ou queria falar no município que ocupa o 11° posto em números de suicídio no país.        

Pudera. A sensação na cidade é que as fumageiras estão presentes em todos os cantos. Uma atendente de farmácia abaixa a cabeça e ignora a pergunta sobre a dependência do comércio municipal em relação ao tabaco. Outra moça, dessa vez numa padaria, passa um bom café, mas o olhar por cima do ombro do interlocutor denuncia o temor de que alguém esteja à espreita sempre que se toca no assunto. Não que exista uma pressão direta das empresas sobre a população, porém é permanente o discurso de que qualquer crítica à indústria do fumo é um estímulo para que ela se vá da cidade, o que causaria um estrago sem precedentes na economia local.

Se a marca da Souza Cruz está estampada na entrada do município, a da americana Universal Leaf Tabacos está em destaque no principal parque público da cidade. Os nomes delas, aliás, são lidos em muitos lugares. E os de outras fumageiras também: a estadunidense Alliance One, a britânica Philip Morris, a chinesa China Tobbacos e a japonesa JTI. Uma miríade de nomes e nacionalidades que confunde quem tenta entender a situação.

Enfim, chega o sol do dia 2. Acionado o telefone anotado na noite anterior. Do outro lado, uma voz feminina confirma o lugar e o nome do coordenador. “Aqui é do Capa, sim, e o Sighard está.” Capa é o Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia, uma organização não governamental nascida da Igreja Evangélica da Confissão Luterana. Sighard Hermany é quem coordena o projeto.

Do hotel ao Capa, o caminho é curto e a distância é percorrida a pé. Logo, um homem alto, barba e cabelos brancos, se apresenta. É Sighard e, pela primeira vez em todos os contatos feitos em Santa Cruz, a resposta sobre falar abertamente sobre a cultura do tabaco é positiva. Alívio.

Santa-cruzense de nascimento, o coordenador da organização explica que ele mesmo é filho de plantadores de fumo. “Os meus pais sempre plantaram, tentaram um ou dois anos não plantar, mas voltaram”, diz o descendente de alemães que tem 62 anos. Engenheiro agrônomo e com raízes familiares na cultura do tabaco, Sighard sabe bem dos problemas criados pelo monocultivo. Por isso, partiu da cidade para vivenciar e estudar métodos agroecológicos de diversificação de culturas. “Saí de Santa Cruz por um tempo. Voltei para cá no projeto do Capa, em 1984, para trabalhar em alternativas no campo, mas não é fácil. Nossa estrutura é pequena e os poderes das indústrias são grandes”, observa.

O coordenador do Capa fornece detalhes da vinda do fumo ao Vale do Rio Pardo. Com a chegada das primeiras famílias alemãs, veio também o tabaco, em 1849. No ano seguinte, brota a primeira safra. Em 1924, são introduzidos os primeiros contratos da indústria fumageira com os colonos alemães. Quem chega à frente é a Souza Cruz, que já introduz a adubação química do fumo e o sistema integrado de produção.

E Santa Cruz é o berço de tudo. A casa das fumageiras, o que faz entender tanto medo e tamanha sensação de vigilância. Mesmo nesse contexto, duas pessoas, além de Sighard, finalmente se candidatam a falar. Dois agricultores. Origens e idades diferentes. Em comum, o fumo que atravessou suas vidas.

Laércio André Frantz nasceu em Santa Cruz, no 3° distrito da cidade. Tem 30 anos. Cultivou tabaco por boa parte desse tempo. Como tantos na região, os avós começaram, os pais herdaram e ele continuou. A diferença é que buscou se libertar da indústria fumageira depois de um tempo. O ano da decisão foi 2006. “Levei meu pai para o hospital pensando que estava morto, o médico falou para ele: ‘Escolhe entre sua vida e o plantio do fumo’. Mesmo assim, ficamos mais três anos plantando, só que mudamos para o fumo agroecológico, sem aplicação de agrotóxicos”, diz Laércio.

A transição deu certo. Em 2009, a família Frantz deixou de vez o tabaco. Hoje, na mesma propriedade, cultivam verdura e frutas, fazem doces e criam gado de leite. “É outra qualidade de vida. Agradeço a minha labuta de hoje, que dá mais saúde para a minha família e garante a nossa renda. Se puder escolher, a última coisa que faço é voltar a plantar fumo”, ressalta o agricultor.

Nascido no município de Sinimbu, a 60 km de Santa Cruz do Sul, Guilherme Padilha, aos 19 anos, é estagiário no Capa, onde trabalha com assistência técnica e extensão rural. Na cidade de origem, mantém os laços com os pais, Paulo Sérgio e Vera Salete, e os irmãos, Gustavo e Milena, família que ainda vive do plantio de tabaco, algo que já foi diferente. “A atividade no cultivo de tabaco tinha uma pequena representação no trabalho da família, já que ela era, principalmente, produtora de alimentos e diversificava as fontes de renda. Nos anos 1990, a produção de alimentos diminuiu, em função das ações que a indústria fumageira realizou, oferecendo crédito às famílias, que, em troca disso, aumentavam a produção de tabaco”, relata Guilherme.

O jovem entra sem receio na polêmica sobre o tabaco ser a principal fonte de renda das pequenas propriedades no Vale do Rio Pardo. “Ele segue sendo o único produto que tem garantia de compra, mas, em um estudo que realizei sobre a produção de tabaco do meu pai, identifiquei que os custos de produção, com a mão de obra inclusa, chegavam a até 98% sobre o montante produzido”, menciona.

Guilherme, que trabalhou dos 14 aos 18 anos no cultivo de folhas de fumo, agora auxilia os parentes apenas aos finais de semana, com poucas horas de trabalho, já que passa a maior parte do tempo em Santa Cruz. Feliz, o rapaz conta que a família está em um quadro de conversão agroecológica, implementando outras atividades, como pomar, criação de cabras, árvores frutíferas nativas e cereais. Aos poucos, constroem canais de comercialização para esses produtos. “Além disso, toda a nossa alimentação é produzida na propriedade, o que diminui significativamente os custos fixos”, aponta.   

Em um país que ostenta até hoje um ramo de fumo no brasão oficial da República, evidência da ligação estreita e antiga com a planta e o poder da indústria fumageira, não à toa esta história começou a ser contada por Anderson Richter e terminou com Laércio Frantz e Guilherme Padilha. Enquanto algumas autoridades e a sociedade em geral não se atentam para o que está guardado dentro de cada cigarro, há quem resista e aponte as portas de saída.

 

Guilherme Padilha - jovem é membro de uma família de agricultores do tabaco que busca alternativas ao fumo na cidade de Sinimbu

Guilherme Padilha é membro de uma família de agricultores do tabaco que busca alternativas ao fumo na cidade de Sinimbu. Foto: Gustavo Nunes.

Outros estragos

Apesar dos avanços nos combates às doenças relacionadas ao tabaco, o Brasil ainda tem um caminho longo pela frente. O Ministério da Saúde ressalta que o hábito de fumar continua a ser a principal causa de mortes evitáveis e é um dos fatores centrais nas causas de doenças não transmissíveis, como câncer, enfermidades pulmonares e cardiovasculares, responsáveis por cerca de 70% dos óbitos no país.

Estudo financiado pela Aliança de Controle do Tabagismo (ACT) mostrou que o custo do fumo para o sistema de saúde brasileiro é de R$ 21 bilhões ao ano, ao passo que toda a arrecadação tributária com essa indústria fica em torno de R$ 6 bilhões. A pesquisa feita pela Fundação Oswaldo Cruz e pelo Instituto de Efectividad Clínica y Sanitária, da Argentina, analisou 2,4 milhões de casos de doenças. Desse total, 34% eram atribuíveis ao tabaco. Em registros de alguns tipos de câncer (laringe, boca e pulmão), esse percentual chegou a quatro em cada cinco casos. De 458 mil óbitos, 28% foram relacionados à questão.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima em 6 milhões o número de mortos anualmente pelo hábito de fumar, número que pode crescer para até 8 milhões se mantidos os ritmos atuais. Globalmente, o fumo causa em torno de 70% dos casos de câncer de pulmão, 40% das doenças respiratórias e 10% das cardiovasculares.

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21 Oct 19:20

Você acha “empoderamento” uma palavra feia? Vou citá-la 19 vezes neste texto

by Cynara Menezes

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Tenho lido e ouvido muita gente boa por aí cismando com a palavra empoderamento. Certamente, gente empoderada que já não PRECISA dela –ou nunca precisou. Gente que nasceu empoderada ou que ainda não se deu conta de que na verdade ainda não se empoderou.

Afinal, qual a origem desse termo? Ao que tudo indica, o psicólogo norte-americano Julian Rappaport foi o primeiro a enfatizar a ideia, em 1977, de que é preciso empoderar certos grupos para desenvolver a qualidade de vida do entorno social ao qual estão conectados. O educador brasileiro Paulo Freire subverteu um tanto o conceito, propondo que são os próprios grupos que devem empoderar-se a si próprios. E esta noção vingou.

No ano 2000, a declaração da ONU para o novo milênio incluiu o empoderamento das mulheres e a igualdade entre gêneros como “meios eficazes para combater a pobreza, a fome e a doença e de estimular o desenvolvimento de uma forma sustentável”. Nos últimos anos, as feministas têm utilizado com frequência o conceito de empoderamento, gerando ainda mais antipatia em alguns setores da mídia e da intelectualidade.

A explicação para a rejeição sem dúvida está na expressão “poder” embutida nela. Poder não é algo que vem de graça, é algo que se conquista, se disputa. Ninguém quer perder poder. E empoderar significa, claro, que alguém que não tem poder vai passar a tê-lo. Sobretudo, novamente lembrando Freire, quando se tratam de cidadãos historicamente oprimidos: mulheres, negros, LGBTs, pobres. Você acha mesmo que opressores vão deixar que oprimidos se empoderem, assim, sem mais nem menos, de uma hora para outra?

– Alto lá! Onde nós estamos? O Brasil não é bagunça, não! 

Meninos e meninas negras crescem assistindo na televisão pessoas iguais a elas sendo somente empregadas, copeiros, jardineiros; tendo como padrões de beleza pessoas brancas e de cabelo liso, isso num país mestiço como o nosso. Crescem sendo alvo da violência policial, que os pinça na multidão pela cor da pele; sendo vítimas do racismo, velado ou não, de patrões, colegas e até da família. Mesmo não sendo negro, é possível calcular a devastação que isto traz à auto-estima de alguém. Empoderar-se, para os afrodescendentes, é compreender a necessidade de lutar, de não aceitar passivamente as injustiças.

– Imaginem! Negros se revoltando contra a polícia que os mata. Isto seria a convulsão social! Os negros têm de se conformar que infelizmente parecem mais suspeitos do que os brancos. E que mal há em alisar aquele cabelo com produtos químicos desde a infância?

Mulheres crescem aprendendo que os homens são superiores e, ainda que não sejam ensinadas assim, um dia irão descobrir que os salários deles são superiores. Mulheres são vítimas de maridos violentos e têm medo de denunciá-los. Mulheres são mortas por companheiros e ex-companheiros. Mulheres sofrem bullying cotidiano (inclusive no trabalho) por não se adequar aos padrões de beleza impostos pela mídia. E quando são consideradas bonitas, são, lógico, “burras”. Pois quanto mais elas se empoderam, mais rejeitam a monotonia dos rótulos e a submissão ao homem. E obviamente não aceitam ganhar um salário menor pelo mesmo trabalho apenas por possuir vagina e não pênis.

– Vocês estão loucos? O que será das nossas famílias? Sempre foi assim e sempre funcionou. Feminista é tudo baranga! E para que salários maiores? Assim vocês vão quebrar as empresas! 

Gays e transexuais foram tratados ao longo dos anos como a escória da sociedade, proscritos que não podiam conviver com as pessoas normalmente, estudar, trabalhar, amar. Ter filhos. Sobretudo na última década, o empoderamento LGBT deu visibilidade aos homossexuais e transgêneros, mas a coisa não pára aí. Enquanto um só gay, lésbica ou trans do mundo continuar a sofrer discriminação, agressão e até morte por homofobia, o empoderamento não chegou ao fim. Principalmente no Brasil, campeão de assassinatos a homossexuais, e onde homofóbicos têm cadeira cativa no Congresso Nacional e na mídia.

– Casamento é homem e mulher! Criança com trejeitos tem que apanhar muito para consertar! É de menino que se torce o pepino! Lésbica é só uma mulher mal comida! Direitos humanos para travestis? Onde é que já se viu?

Os pobres são humilhados diariamente por quem está acima na pirâmide social e pela imprensa hegemônica, que só olha para eles na hora de fazer reportagens do tipo “mendigo gato”. As empregadas domésticas e os usuários do Bolsa Família que o digam. No discurso não-assumido dos “diferenciados”, é preciso colocar o pobre “em seu devido lugar”. Mas qual é o lugar do pobre? Viajar de avião, por exemplo, não podia. Frequentar faculdade também não. Todo este empoderamento tem visivelmente incomodado as classes sociais mais altas. Afinal, o pobre empoderado não leva desaforo para casa. Vem com teus preconceitos para o lado deles pra tu ver.

– Ah, aí já é comunismo! O aeroporto fica parecendo uma rodoviária! Comprar carro? Nossa, então é por isso que tem tanto trânsito! Foi o PT que inventou essa divisão idiota entre classes! 

Quem tem medo do empoderamento? Não seja ingênuo. Esta é uma das palavras que os conservadores adoram convencer você de que são chatas, bobas, anacrônicas. Tipo “ativismo”, “engajamento”, “politização”, “ideologia” ou “socialismo”. Sabem por que fazem isso? Para que os oprimidos não lutem pelo que vale a pena lutar. Fazem isso para que se conformem, abaixem a cabeça. E ajudem a manter intocado o status quo que privilegia adivinhem? os poderosos.

Há atualmente uma inversão bizarra do que é ser inteligente e do que é ser otário: quem não questiona nada é inteligente e quem questiona é otário. Como pode? Desde quando conformismo é sinal de inteligência? É exatamente o contrário: conformar-se é sinônimo de burrice.

Empodere-se!

 

21 Oct 16:53

Não fica triste, você é linda!

by Polly
Allan Patrick

É algo que a gente tem que se controlar pra não fazer, né? Porque a sociedade nos condiciona a dizer isso no automático.

Ontem começou o MasterChef Junior e uma coisa me incomodou um pouquinho (além de jovens cheios de sonhos e eu apenas cheia de aluguel atrasado e contas pra pagar).

O primeiro episódio teve seis crianças eliminadas e sempre que a eliminada era uma menina consolavam dizendo principalmente o quê? Você é linda! 

grrrr

Não que elas não sejam lindas, mas era uma competição de culinária, não um concurso de beleza. Não dava pra elogiar outra coisa além da aparência física das meninas?

Que tal:

Não fica triste, você é talentosa.

Você um dia será uma grande chef.

Você foi muito corajosa por participar do programa.

Você é criativa.

Você deu o melhor de si na competição.

O mundo precisa de mais crianças como você.

TANTA COISA melhor e mais importante na vida que ser linda, gente.

Isso vale pra fora do MasterChef também, tá? Na hora de elogiar meninas, tem coisa muito melhor que ser bonita ou uma princesa. Inteligente. Engraçada. Incrível. Bora virar o disco, por favor.

please

21 Oct 12:18

EUA romperam teto da dívida. O Nardes diria “not cycling, Obama”?

by Fernando Brito

  A maior potência econômica do planeta está “pedalando”.   O limite autorizado para a dívida pública dos Estados Unidos é de US$ 18,112 trilhões.   Agora cedo, quando escrevo esta nota, a dívida...

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21 Oct 12:17

Cunha “veta” existência de famílias que não tenham conta na Suiça

by Luiz Carlos Azenha

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Câmara veta imagens que mostram arranjos familiares diversos

Censura atingiu a campanha “Nossa Família Existe”, que recebeu cerca de mil fotos transformadas em vídeo em ato da Frente Parlamentar de Direitos Humanos

da assessoria do PSOL

A Presidência da Câmara dos Deputados proibiu nesta terça-feira (20.10) a exibição de um vídeo com 420 imagens encaminhadas por diferentes arranjos familiares de todo o Brasil como resposta ao conteúdo excludente do Estatuto da Família, que só considera família o núcleo formado por homem mulher e filhos biológicos.

As fotografias transformadas num galeria eletrônica foram escolhidas dentre um total de mais de mil imagens que foram enviadas espontaneamente pela população ao gabinete do deputado Jean Wyllys (RJ), dentro da campanha “Nossa Família Existe”.

São registros de famílias formadas por casais heterossexuais, casais de mesmo sexo, pais e mães solteir@s, entre outros arranjos familiares comuns no país e no mundo, como também os compostos apenas por avós e netos, irmãos cujos pais morreram, tios e sobrinhos e mesmo casais sem filhos, apenas com seus bichos de estimação – tudo com o intuito de mostrar que não existe um modelo único de família a ser adotado como concepção pelo estado, assim como demonstrar a pluralidade de arranjos familiares, constituídos pelos laços primordiais do afeto e do apoio mútuos, já reconhecidos como legítimos pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O vídeo seria exibido amanhã, quarta-feira (21.10), em telão ou nas paredes de entrada do Anexo II da Câmara dos Deputados, local de grande trânsito de pessoas, entre parlamentares, servidores e visitantes. O pedido havia sido encaminhado pela Liderança do PSOL em 6 de outubro. A assessoria administrativa do gabinete da Presidência da Câmara informou por telefone que o pedido foi negado, acrescentando que não haveria uma manifestação por escrito da presidência.

Após a negativa, um grupo de 15 parlamentares do PSOL, PT, PMDB, PDT, PSB e PTN encaminhou à Presidência da Câmara uma lista de apoio à exibição do vídeo. Os organizadores do Ato aguardam pronunciamento de Eduardo Cunha, já que os vídeos – que têm como trilha sonora a canção “Pensar em você”, do compositor Chico Cézar, interpretada por Rita Beneditto – não apresenta nenhuma imagem ofensiva.

A exibição do vídeo foi uma iniciativa da Frente Parlamentar de Direitos Humanos para lembrar o Dia Nacional de Valorização da Família, comemorado no dia 21 de outubro, de acordo com a Lei 12 646 de 2012.

ASSINAM A LISTA DE APOIAMENTO

CHICO ALENCAR (PSOL/RJ)
LUIZA ERUNDINA (PSB/SP)
PAULO PIMENTA (PT/RS)
ERIKA KOKAY (PT/DF)
PADRE JOÃO (PT/MG)
DARCISO PERONDI (PMDB/RS)
POMPEO DE MATTOS (PDT/RS)
EDMILSON RODRIGUES (PSOL/PA)
JANETE CAPIBERIBE (PSB/AP)
MARGARIDA SALOMÃO (PT/MG)
LEO DE BRITO (PT/AC)
RENATA ABREU (PTN/SP)
JEAN WYLLYS (PSOL/RJ)
PAULO TEIXEIRA (PT/SP)
GLAUBER BRAGA (PSOL/RJ)
IVAN VALENTE (PSOL/SP)

Leia também:

Sheherazade adota Eduardo Cunha

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19 Oct 18:06

O pior emprego da imprensa brasileira. Por Paulo Nogueira

by Paulo Nogueira
Pobre Vera

Pobre Vera

O pior emprego da imprensa no Brasil, hoje, é o da ombudsman da Folha, Vera Guimarães.

Vera é uma jornalista experiente e talentosa, como se vê a maior parte do tempo em suas colunas.

Ela acabou forçada a ver, de camarote, a transformação da Folha numa espécie de Veja diária.

Você pode dizer que eu estou exagerando. Mas atenção. A Veja não virou o panfleto indecente que é hoje numa única edição. Foi uma marcha, iniciada quando Lula assumiu.

A Folha está no meio dessa marcha.

E a ombudsman não pode fazer nada exceto registrar desabafos em sua coluna impotente.

Para ela, trata-se de preservar sua dignidade e sua reputação.

Nas duas últimas semanas, ela tratou de pontos vitais na cobertura desequilibrada da Folha.

Primeiro, foi o ridículo espaço concedido às denúncias contra Eduardo Cunha quando os fatos gritavam, à luz das denúncias espetaculares trazidas ao Brasil pelos suíços.

Demorou, e como demorou, para Cunha ser manchete.

Agora, é o mesmo tema mas pelo lado oposto. A ombudsman captou a compulsão do jornal em amplificar negativamente tudo que diga respeito a Lula.

Falar baixo com Cunha e berrar com Lula é a mesma coisa.

Vera rejeitou a manchete tardia da Folha segundo a qual um delator citara uma nora de Lula  como destinatária de 2 milhões de reais em dinheiro sujo.

A trapalhada na mídia começara com o novo colunista do Globo, Lauro Jardim. Em sua “estreia triunfal” no jornal, Lauro dissera que Lulinha fora mencionado. Fantástico, exceto pelo fato de que não fora.

Foi citada, na mais completa vagueza, uma nora de Lula, sequer nomeada. Era o chamado diz-que-diz que, em situações normais, não é aceito pelos editores de jornais e revistas.

Mas, como contra Lula vale tudo, a denúncia acabou na manchete da Folha.

Vai ficando cada vez mais difícil para jornalistas sérios como Vera trabalhar nas redações das grandes empresas jornalísticas.

Porque já não se faz jornalismo, mas política, e um tipo de política que, a rigor, só interessa aos donos. Você é pago para defender os interesses da plutocracia.

A Veja foi plural durante anos. Lembro, em meus dias de Abril, de uma campanha da Veja que dizia mais ou menos o seguinte. “A direita nos detesta e a esquerda nos abomina. Isso mostra por que os leitores nos adoram.”

Para a Folha valia mais ou menos a mesma lógica. Era o tal do “saco de gatos”, colunistas de direita e esquerda misturados num jornal “sem rabo preso com ninguém”.

Não dá mais para a Folha sustentar a tese do rabo. Se existem alguns colunistas de esquerda, o noticiário em si – manchetes etc etc – é francamente enviesado.

Para os leitores progressistas, que durante os anos 1980 e 1990 amavam a Folha, hoje ela faz parte do que o jornalista Paulo Henrique Amorim chama de PIG.

O jornal a serviço do Brasil, para citar um slogan tão marcante, é hoje um jornal a serviço da plutocracia.

É a Veja amanhã, só que em edição diária.

As colunas da ombudsman Vera Gumarães são uma espécie de registro dessa mutação macabra.

Xico Sá não aguentou trabalhar na Folha como ela é hoje, e saiu com estardalhaço num caso simbólico.

A ombudsman talvez tenha o mesmo desejo. Mas tem contas a pagar e um contrato a respeitar.

E então ela produz desabafos patéticos aos domingos, naquele que é, para mim, o pior cargo da imprensa brasileira nestes tempos tão antijornalísticos.

19 Oct 11:18

Valente: se Protógenes foi demitido por expor prisão de Pitta, o que dizer da Lava Jato?

by Fernando Brito

  Esta semana, o ex-delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz foi, como manda a lei, demitido do cargo por sentença de instância final por vazar informações à TV Globo, no episódio da prisão do...

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16 Oct 21:00

A denúncia de “Baiano” sobre Lula não tem prova nem tem lógica

by Fernando Brito

  Da leitura dos jornais, tudo o que se extrai da “denúncia” do ratinho de Eduardo Cunha nos negócios da Petrobras, o tal Fernando Baiano é que, em relação ao ex-presidente Lula o que ele...

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16 Oct 21:00

O filho do Lula, a nora do Lula, o amigo do Lula…Não tem também o vizinho e o papagaio?

by Fernando Brito

  Na impossibilidade de achar algum negócio escuso que incrimine o ex-presidente Lula, de alguns dias para cá, o assunto são os parentes, familiares, supostos amigos que estariam sendo presenteados “do nada” por corruptos...

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16 Oct 20:59

FHC AFIRMA QUE TOMAVA VINHOS APREENDIDOS PELA RECEITA FEDERAL, QUANDO ERA PRESIDENTE

by Antônio Mello



Em 5 de março de 2008, a coluna Panorama Político de O Globo trazia a notinha reproduzida aqui. Nela, fica-se sabendo que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, quando no exercício do cargo, se servia de vinhos apreendidos pela Receita Federal.

Como agora o Procurador Geral da República Rodrigo Janot pediu que fossem investigadas as contas de ex-presidentes, passando por Lula, FHC, Itamar etc., deixo duas questões:

  1. É correto um presidente se servir de vinhos apreendidos pela Receita? Havia um sommelier para cuidar das apreensões e servir ao presidente?
  2. Além dos vinhos, o que mais tomava, se é que o fazia, FHC? Porque a Receita apreende muita coisa, e, se vinho pode, o que mais pode, o que não pode? Uísque, perfume ("A situação não anda cheirando bem"...), fazenda, apartamento em Paris...

Li numa matéria de O Globo que só num leilão de uma única apreensão feita pela Receita seriam oferecidos "veículos, videogames, câmeras fotográficas, relógios, artigos de vestuário, estatuetas de bronze, equipamentos de informática, máquinas de fazer sorvete, artigos de decoração e outras mercadorias".



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Madame Flaubert, de Antonio Mello

16 Oct 13:03

As lições que Alckmin não vai tirar do protesto dos professores. Por Mauro Donato

by Mauro Donato

 

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O portão 2 do Palácio do Governo foi amplamente atacado por paus, pedras, rojões e garrafas nesta quinta-feira (15), Dia do Professor. É o melhor retrato de como a gestão Geraldo Alckmin vem tratando a educação.

O protesto desta vez foi contra a reorganização das escolas públicas estaduais mas o desgosto com o governador já não é de agora.

No início deste ano foram eliminadas mais de 3 mil salas de aula no estado de São Paulo. O resultado: escolas com mais de 50 alunos por classe. Algumas até com 90 alunos, conforme denuncia a Apeoesp.

Professores já fizeram uma greve de 89 dias no primeiro semestre e ela terminou sem que obtivessem nenhuma proposta. Foram ignorados, em suma.

O plano de agora é o de segmentar escolas por ciclos de ensino. Fundamental 1 (do 1º ao 5º ano), Fundamental 2 (do 6º ao 9º ano), e Ensino Médio. Daí Alckmin e seu Secretário de Educação, Herman Voorwald, cutucaram o vespeiro dos estudantes também. Todos estão contra.

À primeira vista até parece uma medida razoável. Mas alunos e professores, presentes ao protesto, expõe suas opiniões:

“Isso nada tem a ver com melhoria. Isso é corte nos custos. Vende a ilusão de melhoria do ensino mas fecha-se salas de aula. O Secretário diz que tem uma estrutura para atender 6 milhões de alunos e que está atendendo só 4 milhões mas em vez de diminuir o número de alunos por sala que proporcionaria um melhor atendimento na qualidade e no trabalho do docente, ele prefere ‘reorganizar’ e superlotar classes. O que poderia significar a contratação de professores, significará mais cortes. Essa é a mentalidade do governo”, afirma o professor Maurício Silveira que lecionava na E.E. Jardim Santa Maria, em Osasco, e exonerou-se do cargo após o fim da greve exatamente pela precarização das condições de trabalho e pelo arrocho salarial.

A insatisfação é muito grande e associada à insegurança. Todos estão completamente no escuro. Já estamos no meio de outubro e o governo diz estar analisando a situação de 3.600 escolas, sem definir ainda quais e quantas serão fechadas. Levantamento parcial da Apeoesp feito a partir de dados das próprias diretorias de ensino ligadas à Secretaria Estadual de Educação, indica que pelo menos 127 escolas serão fechadas. A medida vai afetar mais de 1 milhão de alunos.

Pelo plano de reestruturação, o estudante que necessite mudar de escola pela razão de que ela não mais comportará seu ciclo, será remanejado para uma unidade a 1,5 km de distância, no máximo. Qual bairro o leitor conhece que possui 3 escolas estaduais tão próximas uma das outras? A queixa de pais e alunos é porque sabem que serão transferidos para muito longe. E se a questão da distância é primordial, há mais outros fatores que fazem com que os alunos se revoltem.

Aline é da E.E. Diadema. Cursa o Ensino Médio na turma noturna da escola. Já foi informada de que este período será fechado. Ela precisaria se mudar para outra escola e estudar pela manhã ou à tarde. Mas ela trabalha durante o dia para ajudar com as despesas da família. Além disso, alega que a escola que está sendo indicada em substituição é de estrutura muito abaixo sua. Segundo, Aline, a E.E.Diadema é a melhor da região, estudantes de lá têm obtido excelentes resultados no ENEM e alguns já chegaram a entrar em Medicina na USP. Um aluno da E.E. Diadema já venceu um prêmio internacional do Senai.

Por que uma escola conceituada fechará a turma da noite de ensino médio? Só vejo duas respostas para explicar o descalabro. Uma delas foi corroborada por um outro professor que não quis se identificar. Ao queixar-se com a dirigente de que havia alunos em pé em sua sala devido a superlotação, ouviu: “Deixa estar, calma, esse povo logo logo vai parar de estudar.”

Traduzindo, contam com a evasão escolar ao invés de esforçarem-se pela permanência da criança e do jovem na instituição de ensino. O que, de quebra, gera mão-de-obra barata, captou?

A segunda explicação está no milionário mercado do ensino privado que não quer concorrência. O sucateamento da educação faz parte da velha estratégia de forçar os pais de alunos a pagar por educação.

Este ano a Secretaria Estadual da Educação de Alckmin já cortou 10 mil vagas no programa Vence (que oferece bolsas de estudo no ensino técnico a alunos do ensino médio).

É por tudo isso que a portaria 2 do Palácio hoje teve seu dia de fúria. E, claro, em virtude do procedimento padrão Geraldo Alckmin para debelar problemas. Em qualquer situação, envia-se a PM auxiliada pela Tropa de Choque e tudo bem.

No último protesto dos estudantes na Avenida Paulista, dia 9, a PM prendeu, bateu, jogou gás de pimenta na cara de adolescentes. Policiais faziam pouco caso, diziam aos menores que “se quisessem uma escola melhor deveriam estar na sala de aula, estudando”.

Se Alckmin colaborasse, eles estariam.

 

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16 Oct 12:57

Renan Quinalha: Ustra, o corpo de um torturador covarde, um corpo sem dignidade

by Conceição Lemes

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Ustra: um corpo sem dignidade

Quinta-feira, 15 de outubro de 2015

 por Renan Quinalha, no Justificando, sugestão de Artur Scavone

OBITUÁRIO COM HURRAS, de Mario Benedetti

(…)
viva
morreu o cretino
vamos festejá-lo
e não chorar como de hábito
que chorem os que são como ele
e que engulam suas lágrimas
foi-se embora o monstro magnata
acabou-se para sempre
vamos festejá-lo
sem ficar mornos
sem acreditar que este
é um morto qualquer
vamos festejá-lo
sem ficar frouxos
sem esquecer que este
é um morto de merda

***

Ustra morreu hoje. Com 83 anos, faleceu tranquilamente em um hospital, com tratamento médico adequado e na companhia de sua família. Em tudo o oposto do sofrimento atroz que impingiu às suas vítimas e seus familiares.

Coronel da ditadura, Ustra comandou o principal centro clandestino de detenção e tortura brasileiro. No DOI-CODI de São Paulo, onde era conhecido como ‘major Tibiriçá’, pelas suas mãos sujas de sangue, entre 1970 e 1974, passaram ao menos 50 pessoas que foram mortas ou estão até hoje desaparecidas, além de mais de 500 pessoas torturadas barbaramente.

Sua família terá um corpo presente para velar e consumar o luto da sua perda. Não será um corpo torturado como o dos milhares de presos políticos, que passaram pelos cárceres ilegais da ditadura brasileira. Não será um corpo enforcado como o de Vladimir Herzog. Não será um corpo desfigurado como o de Eduardo Leite (Bacuri). Não será um corpo mutilado, como o de Luiz Eduardo da Rocha Merlino. Não será um corpo desaparecido, como o de Hirohaki Torigoe. Não será um corpo baleado, como o de Carlos Marighella. Não será um corpo sepultado como indigente ou com nome falso, como no caso de Luiz Eurico Tejera Lisboa. Não será um corpo jogado em uma vala comum, como o de Flávio Carvalho Molina. Não será um corpo enterrado e desenterrado diversas vezes para depois ser atirado no alto mar, como o de Rubens Paiva.

Os médicos que trataram do Ustra não faltarão com a verdade, ao contrário dos peritos e legistas que o auxiliaram a encobrir seus crimes na ditadura. Seu atestado de óbito não será forjado com versão falsa da causa mortis como “atropelamento”, como no caso de Alexandre Vannucchi Leme, “tentativa de fuga”, como no caso de  Luiz Hirata, “tiroteio”, como no caso de Sonia Maria de Moraes Angel Jones, ou “suicídio”, como no caso de Manoel Fiel Filho. Tampouco constará, neste documento, uma morte fictícia e não esclarecida como nos atestados emitidos conforme a Lei dos Desaparecidos Políticos (Lei 9.140 de 1995).

Mas seu corpo, que será enterrado ou cremado inteiro, com atestado de óbito verdadeiro, com todos os cuidados médicos e na companhia de seus familiares que dele poderão se despedir, é um corpo sem dignidade. É o corpo de um torturador covarde. É o corpo de um violador dos direitos humanos. É o corpo de alguém que matou, torturou, desapareceu e ainda achava que agiu corretamente. Morre reivindicando seus atos em gozo da liberdade e da impunidade que os verdugos não merecem. É o corpo impune que atesta a falta de justiça da nossa democracia.

Ao menos ele foi um dos 377 torturadores reconhecidos oficialmente pela Comissão Nacional da Verdade e também foi declarado torturador pelo Judiciário paulista em histórica ação da família Teles.

Outros assassinos da ditadura ainda estão vivos. Cabe agora ao Judiciário parar de torturar a justiça e a verdade. Que a lembrança dos nomes daqueles e daquelas que tombaram resistindo à ditadura e que foram vítimas diretas da violência do Ustra não nos permita esquecer esse passado e nos motive a lutar ainda mais pela justiça:

Alceri Maria Gomes da Silva, Alex de Paula Xavier Pereira, Alexander José Ibsen Voerões, Alexandre Vannucchi Leme, Ana Maria Nacinovic Corrêa, Ângelo Arroyo, Antônio Benetazzo, Antônio Carlos Bicalho Lana, Antônio Sérgio de Mattos, Arnaldo Cardoso Rocha, Aylton Adalberto Mortati, Carlos Nicolau Danielli (Carlinhos), Dorival Ferreira, Edson Neves Quaresma, Eduardo Antônio da Fonseca, Emmanuel Bezerra dos Santos, Flávio Carvalho Molina, Francisco José de Oliveira (Chico Dialético), Francisco Seiko Okama, Frederico Eduardo Mayr, Gelson Reicher, Gerardo Magela Fernandes Torres da Costa, Grenaldo de Jesus da Silva, Helber José Gomes Goulart, Hélcio Pereira Fortes, Hiroaki Torigoe, Iuri Xavier Pereira, João Batista Franco Drummond, João Carlos Cavalcanti Reis, Joaquim Alencar de Seixas, Joelson Crispim, José Ferreira de Almeida, José Idésio Brianezi, José Júlio de Araújo, José Maria Ferreira Araújo, José Maximino de Andrade Netto, José Milton Barbosa, José Roberto Arantes de Almeida, Lauriberto José Reyes, Luiz Eduardo da Rocha Merlino, Luiz Eurico Tejera Lisboa, Luiz José da Cunha, Manoel Fiel Filho, Manoel Lisboa de Moura, Manuel José Nunes Mendes de Abreu, Marcos Nonato da Fonseca, Norberto Nehring, Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar, Raimundo Eduardo da Silva, Roberto Macarini, Ronaldo Mouth Queiroz, Rui Osvaldo Aguiar Pfützenreuter, Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones, Virgílio Gomes da Silva, Vladimir Herzog e Yoshitane Fujimori.

Leia também:

Veja os depoimentos de torturados por Ustra

O post Renan Quinalha: Ustra, o corpo de um torturador covarde, um corpo sem dignidade apareceu primeiro em Viomundo - O que você não vê na mídia.

16 Oct 12:49

HADDAD LANÇA EDITAL PARA TRANSPORTE PÚBLICO. ÔNIBUS COM AR CONDICIONADO E WIFI

by Antônio Mello



Além disso, serão mais viagens, mais ônibus e mais lugares nos ônibus.

O novo modelo prevê o aumento de 17% da oferta de viagens aos usuários e crescimento de 14% de assentos disponíveis nos coletivos, com a adoção de veículos maiores. O atual sistema oferece, durante as 24 horas, cerca de 186,3 mil viagens e o sistema projetado pela Secretaria Municipal de Transportes terá mais de 217,8 mil viagens diárias.

(...) Segundo a Prefeitura, entre as principais diferenças em relação a modelo atual, licitado em 2003, estão a redução da taxa de retorno das empresas contratadas, passando de 15% para 9,97% de teto, e o aumento da qualidade do serviço. O contrato do novo modelo terá duração de 20 anos, prorrogável por igual período, no valor de R$ 7 bilhões anuais – cerca de R$ 140 bilhões em todo o período.

De acordo com o prefeito Fernando Haddad, a redução da taxa de retorno das empresas ajudará na implementação de melhorias nos ônibus, como a instalação de sinal de internet sem fio e ar-condicionado nos coletivos: “Estamos investindo em ar condicionado e wifi. Isso tem um custo, mas não precisa onerar o sistema. Esses benefícios podem sair do lucro da empresa, da taxa de retorno do empresário. Ao invés de sair do bolso do usuário, sai do empresário”. [Leia mais na Agência Brasil]

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Madame Flaubert, de Antonio Mello

14 Oct 18:22

Direitos humanos é coisa de comunista? Por que decidi torcer para o meteoro

by Leonardo Sakamoto

– Você não tem vergonha de escrever aquelas bostas no seu blog?

Eu, que ando sem paciência alguma por conta de questões pessoais, olhei o transeunte com um misto de cansaço e uma certa resignação. Afinal de contas, sei onde moro… Se fosse um outro dia, teria tentado engatar um longo e saudável diálogo, que é o melhor remédio para a incapacidade crônica de conviver com a diferença.

Por exemplo, há algumas semanas, depois de ouvir um monte de coisa ruim de uma mulher no supermercado, não me dei por rogado e resolvi bater-papo. Ela se assustou, afinal de contas, essa não é a etiqueta de haters na internet: a gente tem que aceitar ser xingado e/ou xingar de volta. O que fazer, diante de um afável “querida, vamos conversar um pouco?” Daí, saí atrás dela pelo corredor de higiene pessoal, pedindo para que falássemos um pouquinho. Ela acelerou o passo ao chegar nos detergentes e, dando uma corridinha, optou por virar – de forma espantosa – à esquerda. Infelizmente, a perdi entre seção de peixes e a de leite em caixinha.

Mas dessa vez, queria apenas seguir meu caminho e ir até a lotérica para fazer um jogo da MegaSena. Sei que tenho mais chance de ser atingido por um meteoro do que ganhar nessa bodega, mas como tenho torcido muito para que o meteoro realmente venha e dê reset no planeta, acho que minhas chances sobem.

– Do que você está falando, meu amigo?
– Daquelas coisas bolivarianas e comunistas que você escreve?
– Me dá um exemplo que tento melhorar (#ironia).
– Você ataca a família. Não quero meu filho aprendendo a ser gay na escola com essas doutrinas. Você também fica defendendo vagabundo. Tinha que deixar a polícia resolver isso tudo. Por que você não fala da classe média que é quem é passa necessidade de verdade nesse país?

Aprendi que tenho que ficar a uma distância de segurança desses personagens. Pelos perdigotos, pela integridade física. No ano passado, uma me reconheceu, abriu a janela do carro, gritou “volta pra Cuba, filho da puta”, e cuspiu na minha direção. Não deu tempo de explicar que minha mãe faz salgados para festa, portanto, não é puta. E que putas são trabalhadoras que merecem todo o respeito. Quem não merece respeito é quem cospe nos outros. Mas ao menos, do episódio nasceu a ideia do Havana Connection, por isso a ela sou imensamente grato. Já, há algumas semanas, um jovem do tamanho de um armário me acertou uma ombrada na rua que quase me desconjuntou para depois sair rindo com os amigos por ter batido no comunista. Bater em mim é fácil, queria ver ele fazer isso com o Minotauro.

Existe uma diferença grande entre ameaças que chegam por via digital e a interação física, que demanda uma certa coragem (ou loucura) por parte do interlocutor. Mas o clima de polarização e de justiciamento diante da insatisfação está batendo nas tampas e, ao mesmo tempo, a percepção da fraqueza ou inutilidade das instituições públicas abrem a porteira dos dodóis.

Quem acompanha este blog sabe que, há tempos, sou perseguido em restaurantes, na rua, em aeroportos, dentro e fora do país – já tratei desse comportamento bizarro algumas vezes por aqui. Na maior parte do tempo, é divertido. O problema é quando as ações diretas acabam descambando para a violência ou as ameaças são executadas.

Por conta do risco, autoridades brasileiras e as Nações Unidas já foram informadas e há investigações que irão surpreender. Pois liberdade de expressão é uma coisa, já ameaças e agressões são outras.

Voltando ao senhor que usava um suéter:

– Você sabe que meu blog é sobre direitos humanos, né?
– Direitos humanos é coisa de comunista! É coisa de bolivariano!
– Meu amigo, isso é bobagem. Os direitos humanos modernos são uma referência mínima para garantia de um conceito bem ocidental de dignidade e nasceram no seio do liberalismo. A própria Declaração Universal das Nações Unidas, de 1948, sofreu resistência do bloco soviético na época por conta, entre outros temas, da presença da propriedade privada como direito humano.

Ele me olhou por um tempo, meio perdido e respondeu:

– A gente não precisa de liberalismos por aqui, de comunistas dizendo o que a gente tem ou não que fazer, de pouca vergonha. Na minha casa e na minha empresa não entram liberalismos.

Daí, desisti. Decidi fazer um jogo de Loteca também. E torcer para o meteoro.

A moral da história é: Você, irresponsável, que veicula desinformação, ignorância e estupidez pelas redes sociais, saiba que esse homem chegou a esse fundo do poço graças à sua ajuda. Espero que tenha muito orgulho disso. Pois a questão não é ser progressista ou conservador, mas é circular informações equivocadas, muitas delas com potencial para gerar violência – física ou simbólica. O que dói mais não é ser cuspido ou agredido na rua, mas saber que isso está sendo feito com base em desinformação distribuída com o objetivo de criar um exército de zumbis.

Ao mesmo tempo, congratulações aos veículos de comunicação que insuflam o Fla-Flu político sem se preocupar que seus leitores não foram formados para serem leitores. Muitos não veem necessidade em buscar pluralidade nas fontes que lhes informam e acreditam que estão sendo municiados para uma guerra.

E parabéns também aos outros tantos que sabem que tudo isso acontece, mas preferem ficar dentro de sua bolha na rede social, achando que o mundo lá fora é a barbárie e tudo o que você precisa está no seu bar vilamadalenizado ou no seu grupos de amigos praianos.

Pois a ignorância coletiva precisa, para se reproduzir, do silêncio dos que têm consciência, mas não falam.

12 Oct 12:39

El loco mundo de los republicanos de EEUU

by Iñigo Sáenz de Ugarte

Time for a new face for the Republican Party? Calling the cartoonists….@politico http://t.co/HwgLLF38mc pic.twitter.com/ELDGvysfHd

— Matt Wuerker (@wuerker) October 9, 2015

El Partido Republicano superó oficialmente la semana pasada a los New York Knicks como la organización peor gestionada y dirigida en EEUU. Cuando el número 1 de una institución anuncia la dimisión, es de suponer que los números 2,3, 4 o 5 empiecen a soñar con la posibilidad de ser ellos los elegidos. No si es la Cámara de Representantes y los candidatos son republicanos. En este caso, todos huyen buscando la puerta más cercana.

Lo que ocurrió en pocas palabras es que John Boehner anunció que dejaría la presidencia de la Cámara antes del fin de la legislatura. Boehner es un tipo de derechas, muy de derechas, pero la mayoría de los candidatos a la presidencia y el muy numeroso sector ultraconservador del grupo parlamentario (cosecha Tea Party) lo consideraban un vendido porque no estaba dispuesto a provocar otro cierre de la Administración federal si no se eliminaban los 500 millones anuales de financiación de la organización Planned Parenthood.

Como un loco armado de una bomba, los ‘teaparties’ sostienen un explosivo y están dispuestos a llevarse por delante a todo el mundo si no se respetan sus prejuicios ideológicos. Para ellos, el Gobierno es el mal, así que cerrar sus puertas sólo puede ser una misión divina. ¿Miles de personas se quedarían sin empleo? Son daños colaterales.

Boehner se iba y el sustituto más probable era Kevin McCarthy, con dos características: ser muy de derechas y un tipo simpático con capacidad para poner de acuerdo a gente enfrentada. Pero no, McCarthy declinó la oferta –se supone porque no contaba con los votos necesarios–, y ahí saltó todo por los aires.  Los republicanos parecen ahora más que nunca una banda disfuncional de locos peligrosos que no pueden ocuparse del funcionamiento de una institución.

En cualquier otro país, eso les dejaría fuera de juego en un par de ciclos electorales, pero en EEUU las elecciones al Congreso están muy condicionadas por la manipulación de los distritos electorales y el poder del dinero. Esos y otros factores hacen que la tasa de reelección de los miembros de la Cámara Baja fuera del 95% en 2014 (y no es que en años anteriores fuera muy inferior). No importa qué ataque de locura les dé a esos congresistas. Saben que serán reelegidos, a menos que les pillen con los pantalones bajados en el patio de un colegio. 

No es que los más conservadores de entre los republicanos tengan motivos para estar contentos. En los últimos años han perdido todas las batallas: reforma sanitaria, matrimonio gay, nivel máximo de deuda, acuerdo nuclear con Irán… Cuanto más convencidos están de que es ahora o nunca en determinado asunto fundamental, más fácil es que terminen derrotados. Estas cosas pasan cuando pierdes las elecciones presidenciales, y como las primarias republicanas ya están en marcha, habrá que examinar si los principales candidatos están a un nivel de inteligencia política algo superior al de los congresistas. 

carson

Ya sabemos de lo que es capaz Donald Trump, pero no está escrito que vaya a ganar él. Por ejemplo, en las últimas semanas otro candidato, digamos poco convencional, ha escalado posiciones y se ha colocado segundo en los sondeos nacionales. Ben Carson, de 64 años, de raza negra, neurocirujano de prestigio, y tan de derechas como sea necesario, es decir, mucho.

Le preguntaron una vez, tras decir que EEUU vive en la “era de la Gestapo”, a qué se refería con esa analogía histórica tan osada. Su respuesta: 

“Me refiero sin duda a la Alemania nazi, y sé que se supone que no debes hablar de la Alemania Nazi, pero no me importa la corrección política. Allí tenías un Gobierno que usaba sus métodos para intimidar a la población. Vivimos ahora en una sociedad donde la gente tiene miedo a decir en qué cree, y es por la policía de los políticamente correcto, es por los políticos, por las noticias, todas esas cosas se juntan para silenciar las discusiones de la gente”.

De la corrección política a Hitler, ese es un salto de grandes proporciones. Carson es otro político –aficionado, en su caso– que considera que las críticas a las ideas reaccionarias son una forma de acallar a la gente. Pero él tiene tanto derecho a criticar la realidad que no le gusta para proponer alternativas como los demás (ese es un ingrediente básico en la política), pero lo que digan los demás viene a ser una forma de censura totalitaria. 

Pero es un poco inútil buscar una lógica en las palabras de Carson. La realidad es que el supuesto segundo favorito en las primarias republicanas –con estudios universitarios y una fecunda carrera profesional en el pasado– es un ignorante.

Ben Carson on CNN: If Germans had guns, Hitler’s chances of successful genocide “would have been greatly diminished.”

— Daniel Dale (@ddale8) October 8, 2015

Todo esto venía de unas declaraciones anteriores de Carson en las que dijo que las víctimas de un tiroteo deberían haber cargado contra el hombre armado. Se supone que eso disuadiría a futuros asesinos múltiples. Ese comentario suscitó respuestas airadas, bastante lógicas en la medida en que parecía estar culpando a las víctimas de la matanza.

Supongo que un político de derechas en EEUU puede disponer de unos cuantos argumentos para defender el derecho a comprar armas libremente que tengan eco entre sus partidarios. La forma de detectar a un político sin mucha vergüenza es comprobar si recurre a algo que leyó hace tiempo y cuya relación con los hechos históricos es inexistente.

Todo se basa en una leyenda urbana, por llamarla de alguna manera, que la NRA y otros grupos conservadores difunden desde hace tiempo, que cuenta que Hitler ordenó que los alemanes entregaran las armas de su propiedad, lo que le facilitó hacerse con el poder absoluto.

Aparte de ser objetivamente falso, la tesis es absurda. La maquinaria del Estado alemán al servicio de los nazis no hubiera tenido ningún problema en pasar por encima de cualquier resistencia armada individual tras su llegada al poder.

De hecho, la legislación de control de armas era más estricta durante la República de Weimar, obligada por las imposiciones del Tratado de Versalles. Es cierto que los nazis prohibieron a los judíos tener armas y trabajar en la industria de armamento, pero eso era una de las muchas restricciones que sufrieron desde el momento en que dejaron de ser considerados ciudadanos con todos sus derechos.

Las palabras de Carson son además una forma, supongo que involuntaria, de suscribir una de las ideas más extendidas del antisemitismo, la que establece que los judíos controlaban la sociedad de forma secreta, pero a la hora de la verdad se entregaron sin resistirse cuando fueron a por ellos porque eran unos cobardes. Hubo quienes lo hicieron y otros no, como tampoco otros que no eran judíos, porque cuando un Estado se convierte en una dictadura criminal, da igual cuántas armas tengas debajo de la cama.

.@jakebackpack is the truth. Ben Carson’s moronic comments on the Holocaust are textbook antisemitism. pic.twitter.com/vO5oF5tDBY — Will Menaker (@willmenaker) octubre 9, 2015

¿Qué tiene que decir Carson a todo esto? Muy sencillo, la culpa es de los periodistas.