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10 Nov 14:19

Pugliesi e a cultura da magreza a qualquer custo

by Clara

Ninguém se odeia “porque quer”.

Ninguém odeia o próprio corpo “porque quer”.

Ninguém entra em dieta maluca pra perder vinte quilos comendo abacaxi “porque quer”.

As pessoas buscam aceitação. Todas as pessoas. Existem muitas formas de buscar essa aceitação. Boa parte delas passa por se enquadrar em algum padrão.

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“Mas de onde você tira essas ideias de dieta?”

Eu não sabia que tinha distúrbios alimentares durante a minha adolescência. Pra mim era óbvio: precisava ser magra a qualquer custo. Ser magra era a única forma de ser aceita. Ser magra e bela era a única forma de ser amada. Se ser magra e bela era a única forma de ser aceita e amada, ora, então não medir esforços para alcançar esse “objetivo” era nada mais do que natural. Tomar mil remédios era necessário. Inibex, que delícia, ainda dava barato. Nada mais do que natural ir parando de comer, mas nada muito drástico para que meus pais não notassem. Comeu demais? Comeu porcaria? Mete o dedo na goela que essa bunda não pode crescer mais. Ela tem que diminuir. As coxas têm que diminuir, os peitos, eles precisam diminuir.

Diminuiu. A bunda, a cintura, as coxas. Os peitos foram na faca.

Eu diminuí.

Que linda! O que você fez?

Que linda! Que magra!

Que linda!

E lá estava a aceitação que eu tanto buscava. Custou nacos e nacos da minha sanidade mental que eu jamais vou recuperar.

Iguais a mim existem centenas de milhares. Iguais a mim existem meninas de 11, 12, 13, 14, 15 anos que acreditam que a única forma de ser aceita é estando dentro de um padrão cada vez mais surreal de beleza, cada vez mais inatingível, manipulado, photoshopado, impossível.

Hoje, aos 36 anos, eu ainda não estou curada dessa merda. Eu sei que sou um ser humano que não precisa se enquadrar em um padrão pra ser amada. Eu sei que sou mais que um corpo. Eu sei. Eu sei.

Às vezes me olho no espelho e esqueço tudo que sei.

Não odiar o próprio corpo é uma luta diária.

Vivemos em um mundo tóxico para as mulheres.

Todas sofrem.

As adolescentes sofrem mais. Daqui:

A anorexia e bulimia nervosa crescem a cada ano, principalmente entre mulheres, particularmente meninas adolescentes, com incidência maior aos 16 anos. Pesquisas norte-americanas revelam que esses transtornos têm nas mulheres 90% de seu alvo. Estão se tornando muito comuns em homens e mulheres em outras idades. Porém, aparece em apenas 5 a 10% nos homens. Muitas vezes esses distúrbios ocorrem em membros de famílias com nível socioeconômico alto e médio e onde há conflitos constantes entre os familiares.

Procurei estudos mais recentes, não consegui achar. Mas basta navegar pela internet, basta passear pelo instagram e pelo tumblr pra ver o óbvio: meninas cada vez mais novas estão sendo vítimas de distúrbios alimentares. Não precisa ter problema entre os familiares, não; eu vivia em um lar bastante equilibrado e cá estou, lutando contra isso até hoje e provavelmente pra sempre.

Basta passear pelas páginas de “musas fitness” pra ver um grande número de adolescentes acreditando em todo o tipo de “dica” esdrúxula pra “entrar na linha”, tudo com muitas aspas. Nada contra seguir um estilo de vida saudável; não é disso que estamos falando. Estamos falando da propagação de um padrão a qualquer custo que não tem como fazer bem A NINGUÉM.

Aí a musa-mor dessas paradas vai lá e posta o seguinte vídeo.

Eu vi isso e labaredas saíram de meus olhos.

Quanta irresponsabilidade.

Quanta falta de noção.

MANDA NUDES PRA AMIGA VAZAR SE SAIR DA DIETA?

Fia, Pugliesi, você por um acaso sabe o que acontece com as adolescentes que tem os nudes vazados? Você sabe que a vida delas acaba? Que elas precisam mudar de escola, às vezes de casa? E as que não podem mudar de casa, você sabe o que acontece? Teve até menina que foi estuprada porque vazou nude e né, já que era uma vagabunda mesmo… Você tem noção, mina, da irresponsabilidade da sua ideia “mara”? É possivelmente a pior ideia que já vi na minha vida. Irresponsável. Absurda. Porque né, de que vale a sua dignidade se você for uma gorda nojenta que não consegue focar na dieta? Não pode.

Num mundo doente, uma “musa” com discurso doente, que não deixa de ser uma vítima desse padrão, mas ganha zilhões de reais pra dar conselhos perigosíssimos sem conhecimento algum para meninas que a seguem como quem segue um culto.

Não porque “querem”.

Porque é assim o mundo em que a gente vive. Porque é esse o ideal de beleza, de normalidade, de felicidade. Porque dificilmente uma menina jovem vai ter discernimento, como eu não tinha, pra saber que a única beneficiada é ela, a Pugliesi, que ganha dinheiro pra espalhar insanidade sem escrúpulos.

E fica o questionamento: por que uma pessoa que espalha um discurso doentio e irresponsável sobre emagrecer ganha tanto dinheiro e sites body positive, que falam sobre aceitação do corpo, além de não ganhar nada, ainda têm que ouvir que não é que gordo seja feio, “só não é saudável“?

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06 Nov 21:33

A balela da femme fatale

by Mari

Podemos não gostar de assumir, mas todos somos humanos. E isso não é só glamour e desprendimento. Isso é sujo, confuso e cheio de choro e ranger de dentes.

Eu tenho uma teoria: a gente vive numa realidade ilusória, sustentada pelo culto do consumo. Conste aqui que não estou falando só de coisas que são naturalmente produtos, não. Nossa busca de otimização da vida é tão grande que acabamos comodificando tudo e todos, incluindo nós mesmos. Comodificar é um verbo que acabei de criar e não sei se existe, mas quer dizer que transformamos uma coisa ou alguém em commodity, ou seja, mercadoria.

Quando eu transformo uma coisa ou pessoa em um commodity eu controlo ela e/ou a situação. Isso, no caso de relacionamentos humanos, quer dizer que a coisa toda fica mais asséptica e menos inexata. E por qual motivo iríamos querer evitar os processos humanos? Porque quando nos transformamos em um produto não temos espaço nem tempo para os pequenos deslizes cotidianos, para a inexatidão dos sentimentos ou para existir, de fato.

Como disse o Sartre:

É um puta trabalho começar a se apaixonar por alguém. Tu precisa de energia, generosidade, cegueira. Tem até um momento, bem no começo, em que tu tem que pular no abismo: se tu pensar sobre isso, simplesmente não faz

E a glamourização das figuras de femme fatale é exatamente isso: uma forma de tratar a mulher como um produto hipersexualizado, mas desprovido das capacidades mais básicas, como sentir afeto e empatia. Então por qual motivo seguimos abraçando essas figuras distantes e bidimensionais como algo legal?

sentindo nadaDe repente, eu não senti nada

Boto fé que isso rola por dois motivos. O primeiro deles é porque as vezes tentamos nos livrar de opressões mimetizando elas. Ou seja, pros caras sempre rolou existir sem derivar absolutamente toda a vida deles da afetividade. Pra gente não. E o segundo creio que seja porque, dentro das construções de feminilidade, ela é a mais empoderada, aparentemente. E digo aparentemente porque as pessoas que conheço e se mantém distantes dos próprios sentimentos costumam ser as mais frágeis. Sentir é pros fortes porque, apesar da aparente fraqueza, sentir demanda aceitar influências alheias e falta de controle. E evitar isso, quando acontece individualmente é só uma merda, mas quando acontece universalmente é uma cultura de merda, que nos nega as tripas.

E saco vazio, nós sabemos, não para em pé.

Me dei conta disso quando, num período terrível da minha vida pensei: pelo menos ninguém sabe que eu estou sofrendo. E isso, eu achava, me dava mais dignidade e me valorizava socialmente como um produto. Maaaaas…

SPOILER: TODO MUNDO ESTÁ SOFRENDO. O TEMPO TODO.

E sendo feliz e trocando afeto e sendo rejeitado. Não importa. A afetividade está sempre lá por um motivo bem simples: somos humanos e é isso que fazemos.

mundo duroÉ um mundo duro

Não somos plástico nem margarina, somos criaturas cheias de complexidade interagindo com outras criaturas igualmente complexas. Todos. Até o Bolsonaro. Além disso, quando tratamos o outro como produto não somos só cruéis com a multiplicidade de existência dele, somos cruéis com nossa própria multiplicidade. Mas mesmo assim, ai meu saco, seguimos acreditando que patético é sentir, não usar esses subterfúgios bestas.

Quando passei por um período de luto notei que ficava angustiada sempre que me dava conta do que realmente estava rolando. Queria controlar, evitar a inexatidão, comprar memórias. Como se comprar fotos, festas, viagens, shows, filmes, fosse anular a morte. Mas nada anula a morte. E isso é terrivelmente doloroso, mas não é essencialmente ruim. A vida é um processo natural. E os sentimentos também.

E assim como é bobo escolher ver a natureza como uma coisa apenas boa, também é bobo acreditar que os sentimentos sejam só positivos. Ou seja, não é só sentir amor que é normal e mesmo sentir amor não é tão previsível e puro quanto gostaríamos.

Sentir, começando ou terminando, fodido ou bonito, também é o que nos valida como criaturas que existem.

life sucksA vida é uma merda, daí melhora, daí vira uma merda de novo.

E, enquanto eu ia notando isso e via como tinha sido bobinha de me isolar e não me permitir sentir em público, escrevi:

Ostentar consumo de dinheiro, gente ou experiências, me desculpem, mas é só mais um jeito de evitar estar plenamente presente em sua própria vida. E quando acaba, parabéns, você desperdiçou sua chance.

Parece que estamos nos treinando progressivamente como sociedade para não aceitar que vergamos. Tudo verga. Não somos alheios. Isso é o que mais nos deprime.

Somos obcecados por femme fatales e malandros e psicopatas, todos querem ser ou conviver com criaturas desprovidas de suas capacidades mais básicas. Sentir, existir, vergar segundo sopra o vento da sua vida, não ser alheio a nada.

Mas eu posso dizer que não sairei dessa ilesa.

Então, quando aceitamos nos hipersexualizar no estereótipo de uma vilã fria e distante o que estamos fazendo, na real, é aceitar calar nossa própria profundidade e multiplicidade, nos transformando em um produto mais facilmente compreensível e consumível. Negando nosso potencial e possibilidade de sentir. E sentir, caras, é foda.

(letra traduzida)

28 Mar 14:58

O amor acaba

by Diana (admin)
Rachel Dias

Crônica linda!

Paulo Mendes Campos (1922-1991) foi um dos maiores cronistas brasileiros, um verdadeiro clássico do texto leve e inteligente, fluido e sábio. Mas também foi um fino ensaísta, observador atilado dos nossos costumes, leitor dos melhores livros em diversos idiomas, poeta que merece ser descoberto.

A partir de abril a Companhia das Letras começa a reeditar sua obra, a começar por O amor acaba e O mais estranho dos países, que chegam às livrarias dia 4 de abril. Com projeto gráfico que recupera a linguagem arrojada de suas edições da década de 1960, os títulos do escritor mineiro ganharão novo fôlego e o farão ocupar o lugar que sempre mereceu: o daqueles autores que, sem abdicar por um segundo do prazer da leitura, nos ajudam a entender o Brasil — e a nós mesmos.

Para comemorar este lançamento, pedimos a alguns autores contemporâneos que escrevessem crônicas no estilo de Paulo Mendes Campos. A primeira, por Vanessa Barbara, você confere abaixo. Na próxima quarta-feira teremos também aqui no blog textos de João Paulo Cuenca e Sérgio Rodrigues.

* * * * *

As coisas que restam – Por Vanessa Barbara

Untitled

Aprender uma coreografia nova de sapateado que envolva pausas dramáticas e movimentos excêntricos com o calcanhar; passar a noite comendo sequilhos; ir ao cinema ver o mesmo filme pela quinta vez só para decorar as falas da voz em off; pesquisar sobre rastros de lesmas e recitar as informações obtidas para um desconhecido numa festa barulhenta; andar na rua como se fosse um enviado secreto do governo da Rússia, um pirata ou um viajante no tempo.

Às vezes perdemos coisas importantes na vida e um conjunto de lápis de cor é o que nos resta; a decisão de pintar as janelas; de nos concentrarmos em campeonatos de mímica; de bater coisas no liquidificador e olhar debaixo da cama só para ver se tem gente. Pessoas vão embora e, na partilha extrajudicial, ficamos com os restos.

O que geralmente nos resta é cantar músicas com os olhos fechados, chacoalhando a cabeça feito um Ray Charles; comprar o próprio peso em palavras cruzadas; praticar o pingue-pongue com estranhos num domingo à tarde e competir como se a vida dependesse disso. Resta é cuidar das plantas, cultivar tomates e manter na sala uma bola gigante de plástico; passar a noite no telhado examinando o céu e aguardando impacientemente a explosão da Eta Carinae; arrumar as gavetas; jogar fora coisas importantes; contar piadas ruins e aprender uma língua morta.

São coisas que nos salvam quando nada mais parece existir: ler um romance russo numa única madrugada e se afeiçoar ao mocinho; consertar um relógio de ponteiros; escrever uma carta; fingir que acabou a luz. Levar um tombo de bicicleta e se ralar inteiro; conversar com estátuas; convidar alguém para tomar chá com sucrilhos.

Resta girar muito rápido enquanto se dança e perder o equilíbrio; espirrar e perder o equilíbrio; dar risada e perder o equilíbrio; viver tropeçando; ter uma crise de soluços. Repetir o swing out até ficar com enjoo; fazer a segunda voz das músicas; fingir que a vida é um musical da Broadway e conversar com o taxista cantando; tomar sol com as tartarugas; vestir uma roupa excêntrica; atualizar as vacinas; correr para pegar o ônibus.

São coisas que nos restam: o vazio, a raiva e a tristeza, mas também os chinelos de pano, as pessoas que tocam tuba, as luzes coloridas, o sorvete de manga e os velhinhos ao sol. Restam-nos as noites de rockabilly, as crianças vestidas de Batman, as piscinas aquecidas, os amigos de infância e o centro histórico de Macau − isso sem falar numa barraca de rua que só vende pijamas de flanela.

Restam, enfim, o amarelo, o azul e o umami, os filmes tolos dos anos 40, as Olimpíadas, o vento, o suco de maçã. Amigos que gostam de mágica, astronomia, pôquer, carpintaria, triatlo, futebol americano e que estão sempre para operar o joelho. As lojas de R$1,99, os jardins, os telescópios e as viagens com escala em Dubai. Sair para comprar couve. Escolher um novo abajur.

O que, veja bem, não é pouco.

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04 Oct 19:20

O Tempo Passa? Não Passa

by Lya

O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amado,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer a toda hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade.

Drummond

Aos teus 30 (e nossos 7).