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13 Aug 17:07

O “14 Bis” de Nicolelis voou no Brasil: Pela primeira vez no mundo, pesquisa mostra que paraplégicos podem recuperar movimentos e tato

by Conceição Lemes

Nicolelis Capa

por Conceição Lemes

A função da verdade é aparecer. Sempre. Mesmo que às vezes demore. Em ciência, especificamente, costuma levar tempo.

Meados da década de 1990, Estados Unidos. O laboratório do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, na Universidade Duke, em colaboração com o de John Chapin na Filadélfia, criou o paradigma moderno da interface cérebro-máquina.

Através dessa combinação, qualquer pessoa pode usar apenas a sua atividade elétrica cerebral para controlar os movimentos de braços e pernas robóticos e virtuais, ou colaborar mentalmente na execução de tarefas motoras.

Publicado em 1999, o primeiro trabalho de Nicolelis, envolvendo cérebro-máquina, foi em ratos.

12 de junho de 2014, Brasil. Abertura da Copa do Mundo, Arena Corinthians, mais conhecida como Itaquerão, em São Paulo.

O Projeto Andar de Novo, liderado por Nicolelis e que envolveu 150 participantes (entre os quais, pesquisadores e técnicos) de 25 países, realizou uma demonstração científica inédita.

Usando a tecnologia interface cérebro-máquina, o jovem Juliano Pinto, com o corpo paralisado do peito para baixo, deu o chute inaugural da Copa.

Nas pernas, Juliano “vestia” um exoesqueleto. É uma “roupa robótica”.

Na cabeça, por baixo do capacete, múltiplos eletrodos (não invasivos) embutidos numa espécie de touca aplicada no couro cabeludo, imediatamente acima das áreas cerebrais envolvidas no controle motor.

Essa tecnologia permitiu que Juliano controlasse os movimentos do exoesqueleto e, ao mesmo tempo, recebesse dele sinais táteis nos pés e, assim, desse o pontapé inicial.

A Fifa, por motivos até hoje não esclarecidos, fez de tudo para derrubar a apresentação. Após longa batalha, só concedeu 29 segundos. Por razões misteriosas também, apenas 8 segundos foram exibidos na transmissão ao vivo, pela TV.

De pronto, a grande mídia e alguns cientistas brasileiros tacharam o êxito como “fracasso”.

Enquanto o feito era saudado na Europa e EUA, aqui Nicolelis e equipe sofreram toda a sorte de difamação e injúrias.

Uma perseguição  implacável. Por inveja, preconceito — ele escolheu o Nordeste para erguer o Instituto Internacional de Neurociência –, sabotagem — o nosso vira-latismo crônico insiste em desprezar o que é feito aqui –, picuinhas acadêmicas e suas posições políticas progressistas.

Mas, desespero dos desafetos e alegria de todos os que torcem por um mundo realmente melhor, 2 anos, 1 mês e 29 dias depois, a verdade apareceu.

11 de agosto de 2016. Nessa quinta-feira, a revista Scientific Reports, da Nature, publicou o primeiro artigo científico sobre Projeto Andar de Novo. São 16 páginas.

Nicolelis - Nature  combinação

O artigo relata os resultados obtidos por oito pacientes paraplégicos crônicos, entre os quais o Juliano Pinto, que treinaram durante um ano (janeiro a dezembro de 2014), usando interfaces cérebro-máquina. Entre elas, a realidade virtual para ajudá-los a imaginar que estavam se movimentando com as suas próprias pernas.

Nicolelis - óculos virtual

No início do estudo, os pacientes (duas mulheres e seis homens):

* Tinham entre 26 e 36 anos de idade.

* Estavam paralisados por lesão medular de três anos a 13 anos.

* Sete foram classificados como portadores de lesão medular completa e um como tendo lesão incompleta.

* Nenhum havia apresentado qualquer sinal de melhora clínica com métodos tradicionais de reabilitação antes da entrada no Projeto Andar de Novo.

* Nenhum também tinha movimentos voluntários abaixo do nível da sua lesão medular no início do treinamento.

Após um ano de treinamento com sistemas controlados pela atividade cerebral, incluindo um exoesqueleto motorizado e realidade virtual, descobertas fantásticas.

Os pacientes readquiriram a habilidade de mover voluntariamente alguns músculos das pernas e sentir o tato e dor.

Também recuperaram grau importante dos movimentos peristálticos do intestino e do controle da bexiga, além de melhora sensível das funções cardiovasculares.

Conclusão: Pela primeira vez no mundo, um estudo mostra a recuperação neurológica parcial em pacientes portadores de paraplegia completa, com base no uso de interfaces cérebro-máquina.

Uma esperança concreta para milhões de pessoas, que, até agora, tinham como única perspectiva a cadeira de rodas.

Nicolelis é pesquisador e professor da Duke University (EUA) e coordenador do Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS) (Brasil).

Eu o entrevistei sobre os resultados da pesquisa e o seu significado para milhões de pessoas com lesão medular.

Viomundo – Professor, o trabalho publicado nessa quinta-feira é o coroamento de três anos e meio do Projeto Andar de Novo?

Miguel Nicolelis – Mais do que isso. É o coroamento de 18 anos de pesquisa de interface cérebro-máquina, área que eu e John Chapin criamos.

Em 1999, quando publicamos o primeiro trabalho em ratos, nós achávamos que o máximo que se conseguiria era criar métodos para tecnologias assistidas, permitindo que pacientes severamente paralisados pudessem readquirir mobilidade por meios artificiais. Por exemplo, membros protéticos ou exoesqueletos controlados diretamente pela atividade dos seus cérebros.

Lá atrás, a gente nunca imaginou que o treinamento contínuo com interface máquina-cérebro pudesse levar a qualquer tipo de melhora clínica.

É justamente essa descoberta que relatamos neste trabalho publicado agora. É o primeiro de uma série. Outros já estão a caminho. Um inclusive já foi aceito.

Viomundo – Em resumo, o que demonstrou o estudo até agora?

Miguel Nicolelis – Aparentemente a prática crônica de reabilitação pode levar à melhoria da sensibilidade e à reativação do controle voluntário muscular abaixo da lesão em níveis que ninguém jamais registrou na literatura de lesões medulares.

Viomundo – Eu assisti ao vídeo da pesquisa. É possível ver pacientes fazendo movimentos nas pernas. Eles tinham esses movimentos antes?

Miguel Nicolelis – Nenhum deles tinha qualquer movimento das pernas. Sete deles foram classificados por anos – de 3 a 13 — como paraplégicos completos. No momento em que começaram a ter esses movimentos, eles passaram também a ter sensibilidade nos mesmos segmentos do corpo abaixo da lesão.

Viomundo – Exatamente começou esse trabalho com os pacientes?

Miguel Nicolelis – Desde dezembro de 2013. Nos primeiros 12 meses (janeiro a dezembro de 2014), quatro deles foram reclassificados como paraplégicos incompletos e mudaram de categoria.

Mas como a gente continua a acompanhá-los, agora em junho de 2016 todos os sete foram reclassificados como paraplégicos parciais. Todos os pacientes tiveram recuperação significativa.

Cada um mudou num momento diferente. O tempo de recuperação também é diferente de um para outro, assim como as lesões são diferentes.

Viomundo – São sete ou oito pacientes?

Miguel Nicolelis – Eram oito, mas um teve de deixar o projeto no final do ano passado, porque mudou de cidade.

Viomundo – O grupo é o mesmo desde o início?

Miguel Nicolelis — O mesmo.

Viomundo – Então, quando o senhor começou o projeto não cogitava essa melhora real dos pacientes?

Miguel Nicolelis – Ninguém no mundo esperava por isso. Eu nunca falei a respeito antes porque imaginei que isso não seria possível.

Viomundo – Em que momento percebeu que estava ocorrendo algo além do previsto inicialmente?

Miguel Nicolelis – Logo depois da Copa, quando refizemos os exames neurológicos. Á medida que o tempo foi passando, fomos percebendo que eles foram obtendo ganhos. Recuperando a possibilidade de controlar voluntariamente os músculos dos quadris, das pernas… Tem um paciente no vídeo que consegue mover ambas as pernas, envolvendo o quadril, o joelho e até o tornozelo. Ele estava há 13 anos numa cadeira de rodas sem movimentação alguma!

Viomundo — O tempo de lesão interfere? E a idade?

Miguel Nicolelis – Eles são jovens, numa faixa etária que vai de 26 a 36 anos. Mas o mais importante é o tempo de lesão. Variava de 3 a 13 anos quando entraram no projeto.

Eles são os chamados pacientes crônicos. Já tinham feito reabilitação convencional e não melhoraram nada clinicamente.

O mais interessante é que a melhora não se restringe à parte motora e sensorial. Há também um componente visceral muito importante. Esses pacientes recuperaram movimentação peristáltica intestinal. Adquiriram melhor controle da bexiga. Tiveram melhoras cardiovasculares. Enfim, uma recuperação fisiológica global. Algo inédito até agora.

Viomundo – Para o paciente conseguir esses resultados, qual a duração do tratamento?

Miguel Nicolelis – No paciente que parou de treinar, a gente já nota queda de performance. Portanto, é um caso mostrando que o treinamento é essencial.

Viomundo – Então tem de ter continuidade?

Miguel Nicolelis — Os efeitos não desaparecem imediatamente se o paciente parar. Leva alguns meses para começar a haver algum tipo de regressão. Mas até onde as melhoras continuam a gente não sabe. Até o momento a gente não tem um platô.

Viomundo – Qual é a sua hipótese para essa melhora?

Miguel Nicolelis — Essa prática de usar o cérebro para controlar um sistema e receber simultaneamente feedback visual e tátil leva a um processo de plasticidade cortical. E como os nossos pacientes estavam andando com exoesqueleto, que é um equipamento robótico, provavelmente houve plasticidade de medula espinhal também. Ou seja, se sobra algum nervo numa lesão espinhal talvez seja possível usá-lo para restabelecer um contato do córtex com os músculos.

Viomundo – Professor, como a gente explica para o leigo a questão do exoesqueleto, da interface cérebro-máquina?

Miguel Nicolelis — Basicamente o cérebro é como se fosse uma orquestra sinfônica que muda a configuração dos seus instrumentos cada vez que ele produz uma nota musical.

É o único sistema que a gente conhece que é capaz de se autorremodelar para otimizar a sua performance.

Então, a ênfase não é no exoesqueleto, na máquina. É no treinamento mental que faz o paciente tentar readquirir a capacidade de imaginar movimentos nas pernas.

O que interessa é o que o paciente faz mentalmente para isso e os sinais que ele emite.

Assim, por meio de eletroencefalograma, a gente captura esses sinais. É o suficiente para criar uma sensação de realismo de marcha autônoma.

O cérebro precisa de feedback, precisa de sinais do mundo para se autoconfigurar.

Nós inserimos feedback tátil na camiseta especial que o paciente usa – há sensores dela no pé. À medida que caminha, ele vai recebendo feedback tátil do contato do pé no solo, na pele dos braços.

E com isso a gente criou uma ilusão. O cérebro criou uma sensação de membro fantasma. E essa sensação dá a nítida impressão para o paciente de que ele está andando pelos próprios meios, que ele não está dependendo da tecnologia assistida que nós usamos.

Eu acho que isso que foi essencial para disparar o processo de plasticidade cerebral.

Quando os pacientes chegaram aqui, eles não tinham mais no córtex motor a representação dos membros inferiores ou a ideia de se locomover.

Isso tinha sido removido quase que completamente do cérebro. O nosso treinamento reinseriu no cérebro deles esse conceito de ter pernas e caminhar.

Viomundo – O que significa esse trabalho para as pessoas com lesões medulares?

Miguel Nicolelis — Abre uma perspectiva enorme para o mundo da reabilitação de lesões medulares. Existem no mundo pelo menos 25 milhões de pessoas sofrendo com paralisia severa, principalmente medula espinal. Existem também centenas de milhões de pessoas com déficit motor decorrente de derrames e outras doenças neurovegetativas.

Viomundo – E para a ciência?

Miguel Nicolelis — Esse trabalho é um coroamento daquilo que foi tentado no mundo. É mais um componente de esperança para todas essas pessoas, pois mostra que o cérebro tem formas de se autorreorganizar e tentar compensar o que foi perdido.

Nós precisamos entender qual é a linguagem da plasticidade cerebral para basicamente poder tirar vantagem dela e oferecer opções terapêuticas que aumentem a qualidade de vida.

E isso é o que a ciência faz. A ciência só tem sentido se ela é focada no bem da humanidade.

A propósito. Todo esse trabalho clínico foi totalmente desenvolvido no Brasil.

Sem a infraestrutura que foi criada no Instituto de Neurociência de Natal, nós nunca teríamos conseguido fazer esse projeto aqui.

Viomundo – Professor, especialmente nos últimos dois anos, o senhor sofreu ataque feroz por parte de alguns colegas desafetos e da grande mídia. O que diria para eles agora?

Miguel Nicolelis – A melhor resposta é o resultado da pesquisa. Ela demonstrou uma coisa que nunca tinha sido demonstrada antes no mundo. Além de sermos os pioneiros, os resultados foram em tempo recorde. A nossa perspectiva era isso ocorrer em cinco anos. Eles vieram com três anos e meio, já o Projeto Andar de Novo começou em dezembro de 2013.

Viomundo – E a tua equipe como está, já que ela também enfrentou uma pressão tremenda?

Miguel Nicolelis – Nós todos estamos muito felizes. Além da descoberta inédita, ele foi feito completamente aqui no Brasil. A ideia veio da minha carreira da Duke.
Mas este trabalho tem DNA brasileiro. Eu considero este trabalho o mais importante da minha carreira. O nosso “14 Bis” voou aqui.

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13 Aug 17:02

O governo interino está dando aos médicos o tratamento que os médicos deram a Dilma. Por Kiko Nogueira

by Kiko Nogueira

medicos

A RBA deu a seguinte notícia:

Na sexta, quando as atenções do país estavam voltadas para o início oficial dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, o Ministério da Saúde publicou no Diário Oficial a criação de um grupo de trabalho para discutir e elaborar projetos de convênios médicos privados de baixo custo, porém, de cobertura limitada.

O golpe são os chamados “planos populares” de saúde, que são defendidos pelo ministro interino da Saúde, Ricardo Barros. Para o Conselho Federal de Medicina (CFM), esses ‘planos populares’ distorcem os anseios da população.

Mais que isso, mas não explicitado pela nota do CFM, está a preocupação com a remuneração e as condições de trabalho dos médicos dos possíveis ‘planos populares’

Na nota oficial, o CFM se posicionou de maneira crítica à proposta do ministro Barros, que teve campanha financiada principalmente pelos planos de saúde.

Para a entidade, “a venda de ‘planos populares’ apenas beneficiará os empresários da saúde suplementar e não trará solução para os problemas do Sistema Único de Saúde”. (…)

Íntegra da nota:

“Em relação à portaria do Ministério da Saúde publicada no Diário Oficial da União desta sexta-feira (5), que cria Grupo de Trabalho para discutir e elaborar o projeto de plano de saúde com caráter popular, o Conselho Federal de Medicina (CFM) informa que:

A autorização da venda de “planos populares” apenas beneficiará os empresários da saúde suplementar, setor que movimentou, em 2015 e em 2016, em torno de R$ 180 bilhões, de acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS);

Se implementada, esta proposta não trará solução para os problemas do Sistema Único de Saúde (SUS), possivelmente sem a inclusão de doentes crônicos e idosos, resultando em planos limitados a consultas ambulatoriais e a exames subsidiários de menor complexidade. Portanto, não evitarão a procura pela rede pública ou impacto prejudicial ao financiamento do SUS;

Propostas como a de criação de “planos populares de saúde” apropriam-se e distorcem legítimos desejos e anseios da sociedade;

Na expectativa de um novo governo e de uma nova cultura de proficiência, eficácia e probidade na Nação, a sociedade conta, na verdade, com a adoção de medidas estruturantes para o SUS, como: o fim do subfinanciamento; o aperfeiçoamento dos mecanismos de gestão; a criação de políticas de valorização dos profissionais, como uma carreira de Estado para os médicos; e o combate à corrupção.

Somente a adoção de medidas dessa magnitude será capaz de devolver à rede pública condições de oferecer, de forma universal, o acesso à assistência segundo parâmetros previstos na Constituição de 1988 e com pleno respeito à dignidade humana. 

Brasília, 5 de agosto de 2016″

 

O interino nomeou para a pasta um sujeito que não passaria num teste para tirar carteira de motorista. Ou melhor, passaria, mas depois de molhar a mão dos funcionário da auto escola.

Antes de declarar que homens vão menos ao médico porque “trabalham mais que as mulheres”, contrariando o IBGE e o bom senso, Ricardo Barros já deu outras demonstrações cristalinas de indigência.

Defendeu a “pílula do câncer”, falou que quer discutir a legalização do aborto com a igreja católica e evangélica, descobriu que “a maioria das pessoas chega ao posto com efeitos psicossomáticos”.

Encontrou-se com uma senhora chamada Marisa Lobo, que se autodenomina “Psicóloga Cristã”. Marisa é uma das maiores advogadas da “cura gay”. No Facebook, ela revelou que lhe deu seu livro sobre a “ideologia de gênero” e ele a tranquilizou, lembrando que “o MEC agora é do DEM ”.

O maior doador individual da campanha de Barros a deputado federal no Paraná foi Elon Gomes de Almeida, sócio do Grupo Aliança Administradora de Benefícios de Saúde.

Gomes teve um mandado de busca e apreensão em sua casa por causa da operação Acrônimo. Em entrevista, Barros já mencionou a necessidade de redimensionar o SUS. Ligue os pontos.

A preocupação da classe de branco com relação ao ministro não deixa de ter uma dose de justiça poética.

Se houve uma categoria que surpreendeu nos últimos dois anos, pelas piores razões, é esta. Desde a gritaria xenófoba com os cubanos até o ódio aos nordestinos — uma senhora sugeriu um holocausto na região –, a maioria dos doutores foi responsável por uma sucessão de descalabros éticos.

O corporativismo deu as caras de um jeito feio, sujo e malvado. Mergulharam na “luta contra a corrupção” com amor e dedicação.

Em panfletos, uma Associação Médica Brasileira acusou o governo Dilma de “financiar a ditadura cubana”. Aécio era a solução porque ele pretendia que não houvesse “mais necessidade de estrangeiros no Brasil.”

Um doutor de Porto Alegre recebeu uma advertência carinhosa do presidente do Conselho Regional do Rio Grande do Sul (Cremers) depois de chamar Dilma de “uma grande filha da puta” nas redes e fazer uma versão assassina do Juramento de Hipócrates.

Ocorreram tentativas tímidas de acalmar os ânimos. Num debate sobre o mercado de trabalho na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, Miguel Srougi, professor titular de urologia da USP, ensaiou um mea culpa. “Erramos. Não soubemos fazer o diagnóstico da situação. A população ficou contra a gente”, admitiu, sobre os ataques ao Mais Médicos.

Um grupo criado no Facebook que recebeu o nome “Dignidade Médica”, reuniu um número assombroso de mentecaptos denunciando, por exemplo, a “necessidade de sermos terroristas para nos colocar no nível de conversa que pobre entende”.

Em março, uma ex-secretária do governo Tarso Genro contou que a pediatra de seu filho de um ano se recusou a atender o menino porque a mãe era “petista”.

O proselitismo de baixíssimo nível desse pessoal ajudou a dar a alegação de “apoio popular” ao golpe. Agora eles têm de lidar com um presidente interino e um ministro que não hesitarão em atropelar os interesses deles.

2014 será lembrada como o ano em que Mister Hyde prendeu Doutor Jekyll no armário. Deu nisso. Eles que agora lidem com os monstros que promoveram.

 

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11 Aug 23:43

Comentarista da BBC diz que Galvão Bueno “precisa calar a boca”

by Kiko Nogueira

“The commentator next to me needs to shut up during the start”. Adivinha quem é? 😛 pic.twitter.com/fWxbFjZurv

— Bruno Cassali (@brunocassali) 10 de agosto de 2016

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11 Aug 12:12

“O ex-presidente está lutando para preservar sua história”, diz Clara Ant, diretora do Instituto Lula. Por Pedro Zambarda

by Pedro Zambarda de Araujo
Clara Ant

Clara Ant

 

Filha de judeus que sobreviveram à Segunda Guerra Mundial e nascida em La Paz, na Bolívia, Clara Ant (68) é a atual diretora do Instituto Lula.

Militante histórica do PT, ex-deputada estadual, fundadora da CUT e arquiteta pela FAU-USP, Clara foi uma das vítimas de uma busca e apreensão em sua residência durante a condução coercitiva do ex-presidente no dia 4 de março. Ela também está acompanhando as recentes acusações contra o ex-presidente na Operação Lava Jato.

O DCM conversou com Clara sobre impeachment, sua história e como Lula está lidando com as investigações.

DCM: No processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, a senhora vê as mulheres com um papel importante contra o golpe?

Clara Ant: Penso que as mulheres tiveram um papel fundamental, principalmente no ano passado, para evidenciar o papel nefasto do senhor Eduardo Cunha. Há um recorte de lutas femininas no século 20 de controle do próprio corpo, enquanto este senhor e o governo Temer simplesmente removem isso. É uma ofensa e um ataque muito grande.

Por isso existem mobilizações muito fortes e muito espontâneas neste processo de impeachment contra o Cunha desde o começo. Foi um grito de mulheres que tiveram suas liberdades ceifadas. Essas manifestações serviram para mostrar quem é Eduardo Cunha e desde então ele não conseguiu se recuperar politicamente. Esperamos que ele não se recupere nunca.

Isso foi o que aconteceu no ano passado. Agora há um esforço conjunto de mulheres e dos jovens para defender o mandato da Dilma, além de setores mais beneficiados nos últimos anos. Essas pessoas mostram como políticos como o Eduardo Cunha e o governador Geraldo Alckmin machucam a sociedade ao retirar seus direitos sociais. O volta Dilma, ou o fica Dilma, carrega uma simbologia que significa: fora Cunha e todos os políticos da sua estirpe.

DCM: Qual é a sua história com o Lula e o PT? 

CA: Sou filha de judeus poloneses sobreviventes da Segunda Guerra e cheguei ao Brasil quando tinha 10 anos. E quando vejo a angústia dos refugiados na Europa hoje, lembro muito da perseguição que a minha família enfrentou.

Meu pai gostava muito de falar de política, embora não fosse militante, vendo o Repórter Esso. Aqui eu conheci um grupo de meninos que se diziam socialistas e eu perguntei qual era a diferença disso para o comunismo. “Eles também defendem a liberdade”. E foi assim que fui me tornando de esquerda.

Quando aconteceu o golpe de 64, eu já o entendi como golpe. Por isso é assustador ver o que está acontecendo com o mandato da Dilma hoje. E eu passei a participar de tudo o que era contra os militares. Estudei Marx, além do livro “Dependência e Desenvolvimento da América Latina” do Fernando Henrique Cardoso. Participei das Setembradas de 1966, dos movimentos estudantis e conheci o José Dirceu discursando no Largo do Paissandu.

Em 74, no curso de arquitetura na FAU-USP, eu fiz parte da Organização Socialista Internacionalista (OSI), que era trotskista e tinha o movimento dos estudantes do Liberdade e Luta (Libelu). Ao me formar, entrei na direção do sindicato dos arquitetos, fiz parte das articulações intersindicais e conheci o Lula durante a greve de 1977.

Participei da fundação, junto com diversos companheiros, o PT e a CUT a partir de 80. Na formação da Central Única dos Trabalhadores, só tínhamos eu e outra dirigente como mulheres em posições de liderança. E fui deputada estadual até 1991. Depois fui assessora do Lula e fui tesoureira de campanha em 98.

DCM: Como surgiu o Instituto Lula?

CA: Em 1989, Lula chegou ao segundo turno contra o Collor, perdeu e a frente política que o apoiou, por incrível que pareça, tinha o Mário Covas, o Roberto Freire e muita gente que hoje discursa contra o PT. Com Fernando Collor na presidência, Lula propôs uma articulação na mesma época, inspirada no “shadow cabinet” do Reino Unido, que eu achava um pouco inadequada pois fazia mais sentido num regime parlamentarista.

Esse grupo foi o embrião do Instituto. Eu acompanhei isso a distância, como deputada estadual. Lembro até do Cristovam Buarque, que hoje vota pelo impeachment da Dilma, como ministro paralelo da Educação.

Depois do trabalho do Josué de Castro, expoente mundial no combate à fome, o Instituto foi o primeiro a propor uma iniciativa relevante na mesma área. Este foi o Programa Nacional de Segurança Alimentar coordenado por José Gomes da Silva, que foi presidente do Incra durante o governo Sarney, e pai do José Graziano, diretor-geral FAO.

Após o impeachment de Collor, Lula levou este projeto ao então presidente Itamar Franco. O governo Itamar formou dois comitês: o de Combate à Fome, que foi liderado por Betinho, e o Conselho Nacional de Segurança Alimentar. Posteriormente essas iniciativas trouxeram 9o Fome Zero do primeiro governo do PT.

As reuniões aconteceram nesta casa onde está o Instituto Lula hoje, que foi apontada em reportagens como se tivesse sido comprada por milhões de reais há pouco tempo. Na verdade nós sempre nos reunimos aqui. Começou com o nome Instituto de Pesquisa e Estudos de Cidadania (Ipec), mais conhecido como Instituto Cidadania.

A origem do Instituto vem da vontade do próprio Lula de criar projetos para o país. Era uma usina de estudos nos anos 90, durante as duas tentativas de chegar à presidência. A entidade abriu portas para intelectuais, acadêmicos e políticos dentro e fora do PT, democratas e progressistas em geral.

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Organizamos também o Projeto Moradia, reunindo arquitetos e urbanistas, incluindo o próprio Nabil Bonduki. Ele foi a engenharia do Minha Casa, Minha Vida da Dilma, que foi muito mais elaborado. Depois veio o Fome Zero no primeiro mandato do Lula, com o José Graziano, seguido por um Projeto de Segurança Pública que teve participação de pessoas com experiência na Polícia Militar, juristas e promotores públicos.

Instituto Cidadania tem uma história curiosa. E peço que você preste atenção nisso: em 2001, antes do Lula de ser eleito presidente, nós já tínhamos um Projeto de Reforma Política. Esse livro foi distribuído para cada um dos parlamentares e ele fez ainda um discurso diante dos deputados. “Não cabe a mim, do Executivo, criar essa reforma política. Cabe aos partidos tocarem isso”, disse o Lula.

Você já ouviu falar desse projeto?

DCM: Não. Nunca ouvi falar.

CA: Pois é. Também fizemos o Projeto Juventude com o Lula no governo, além do Desenvolvimento Local. Detalhei todas essas coisas para que se entenda o trabalho do ex-presidente e do PT na construção de políticas sociais para o país. Lula chegou para governar com um projeto claro para contemplar quem mais estava sofrendo, além de ter a democracia como um pilar de existência.

Atualmente o Instituto é criminalizado, bem como o próprio Lula. E não é divulgado que entidades deste tipo de ex-presidentes são comuns. Participei ativamente das atividades desde o fim das eleições de 1998 e vi a entidade se tornar o Instituto Lula em 2011. O ex-presidente então se comprometeu a aprofundar a reflexão sobre a integração latino-americana e a disseminação dos programas sociais brasileiros nos países da África, além da construção de um Memorial da Democracia. Diante de dificuldades de implementação, o Memorial permaneceu forma virtual.

DCM: Como está o ex-presidente com as atuais acusações na Lava Jato?

CA: Lula está triste com o que está acontecendo no país, inclusive faz o que pode para ajudar a presidenta Dilma. O governo interino em sua base parlamentar está rebaixando a autoestima do brasileiro e provocando desconforto, ferindo a democracia.

O ex-presidente encaminhou uma petição à ONU por violação dos direitos humanos. Ele está batalhando para preservar sua história. Não é justo com os brasileiros que subiram de vida que a história do trabalho de Lula seja alterada.

DCM: O que aconteceu com seus dois celulares e dois notebooks solicitados em março? A Polícia Federal devolveu? Do que você foi acusada?

CA: Eles devolveram um HD com meus dados espelhados, que eu pedi três meses depois, junto de algumas folhas com anotações. Devolveram porque eu fiz uma solicitação para a PF três meses depois, quando não tinha notícia sobre os meus pertences. E eu não sei do que fui acusada.

DCM: Como funcionam as palestras pagas do Lula, que frequentemente são questionadas na imprensa?

CA: O meu principal trabalho desde 2011 é cuidar da agenda das atividades do Instituto Lula, que envolve meu trabalho e minha equipe de três pessoas. A realização das palestras, pagas ou não, requer providencias como tradução, transporte, local e o que for necessário.

O que muitos não sabem é que, para além das palestras pagas, o ex-presidente faz muitas outras apresentações que não são cobradas. Em 2011, por exemplo, ele recebeu o título honoris causa na Science Po, em Paris. Naquela viagem, ele recebeu também um prêmio na Polônia. Em Londres, ele participou de um seminário da revista Economist e fez uma única palestra paga para investidores no Museu de Ciência Natural a convite do Santander.

Um dos trabalhos principais do Instituto Lula é justamente organizar a logística dessas atividades, o que não é fácil no caso de uma pessoa atarefada como ele é.

DCM: A grande mídia criminaliza os projetos de Lula com a África. Isso é preconceito?

CA: As pessoas não deveriam desdenhar iniciativas de combate à fome, que foi o nosso foco no continente africano, porque a população de lá precisa combater esse mal com pressa. É fácil jogar pedras contra os governos africanos, mas o Lula no governo tinha uma lógica. Ele sempre colocou nas reuniões do G20 que se os países europeus investissem na melhoria da África, isso resolveria duas coisas: o padrão de vida iria subir e eles poluiriam menos.

Não foi por acaso que o Lula ganhou o prêmio World Food Prize, sendo o primeiro governante não estudioso a receber tal reconhecimento. Ele não fez pirotecnia pra conquistar isso, mas abriu escritório do Embrapa e tomou frente de medidas efetivas. Os golpistas então atacam esses projetos porque vale tudo pra atacar o ex-presidente Lula.

DCM: O número de palestras de Lula com o Instituto caiu depois das denúncias da Lava Jato? Como está o ritmo? 

CA: Houve uma redução de atividades em 2014, que é previsível em ano eleitoral. Em 2015 a conjuntura foi dominada pela crise política. O Instituto Lula mantém as iniciativas com países na África e na America Latina, bem como o trabalho do Memorial da Democracia que está dando sequência a dois novos módulos.

Eu não saberia te dizer se houve uma diminuição drástica das palestras. Mas estamos mantendo as iniciativas funcionando. As nossas atividades acontecem.

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08 Aug 20:44

UMA DÉCADA DA LEI MARIA DA PENHA

by lola aronovich
Ontem a Lei Maria da Penha completou dez anos!
A lei é considerada pela ONU uma das três melhores legislações do mundo no que se refere à violência contra as mulheres. A lei vale não só para o marido agressor, mas também para irmãos, pais, padrastos, cunhados, e até mesmo outra mulher -- qualquer um que conviva com a mulher. E a lei mulheres (cis e também trans) héteros e lésbicas. E, se a lei não acabou com a violência contra mulheres (não são leis que vão acabar com isso, como falarei mais no texto), é importante saber o que acontecia antes da Maria da Penha.
Como relatei recentemente, numa palestra dividi a mesa com uma delegada que contou que, antes da lei, se uma mulher chegava machucada na delegacia e relatava ter sido agredida pelo companheiro, não havia nada que ela podia fazer. Não podia mandar prender. A delegada usava "jeitinho": fazia o agressor aguardar duas horas no distrito e, enquanto isso, pedia para que a vítima voltasse para casa para pegar os filhos. Só. Quando (se?) o agressor era condenado, tudo que ele tinha que fazer era pagar alguma cesta básica. 
Isso mudou. O fim dessa impunidade deve ser comemorado por todo mundo como uma conquista da sociedade. Ainda assim, os índices de violência contra as mulheres seguem altíssimos. Uma mulher é morta a cada duas horas no Brasil. Em 2014, foram 4.832 mulheres mortas. A taxa de homicídio é de 4,8 mulheres para cada 100 mil habitantes, a quinta maior do mundo.
Só em 2014, quase 107 mil brasileiras precisaram de atendimento médico por conta de violência doméstica. Um em cada cinco dias que uma mulher falta ao trabalho é decorrência de violência doméstica. Não é só um problema social, é um problema econômico também. Pense em tudo que é gasto no combate e no atendimento a esta violência de gênero. Em vez de reclamar que mulheres se aposentam cinco anos antes, ou que tenham direito à licença maternidade (prejuízo pros pobres empresários, juram pessoas que odeiam mulheres), que tal avaliar a fortuna que não precisaria ser dispensada se homens simplesmente parassem de bater nas mulheres?
Só pra desenhar: se uma mulher é morta num assalto, isso não é feminicídio. É violência urbana, terrível, lamentável, que precisa ser igualmente combatida e eliminada, mas não é violência de gênero. Por isso é tão ridículo ouvir um bando de marmanjos gritar "Mas e os homens mortos?! Matam-se dez vezes mais homens que mulheres!". Homens não são mortos por serem homens, ao contrário de mulheres, que são mortas por serem vistas como inferiores, como não cidadãs, como propriedade de seus parceiros e ex-parceiros. 
Homens não são mortos por serem homens, mas talvez homens matem por serem homens. Ou seja, por terem aprendido desde que nasceram a seguir um modelo de masculinidade tóxica, uma masculinidade violenta, que no fundo é tão frágil que precisa provar ser máscula o tempo todo, através de exibições, de brigas, de rixas de carro, de mil e um testes. É por isso que discutir questões de gênero seria útil não só para mulheres, mas para a sociedade como um todo.
Vivemos uma epidemia de violência de gênero, e não só aqui no Brasil. É universal. A ONU tem um dado espantoso sobre feminicídios -- 38% de todas as mulheres assassinadas no planeta são mortas por parceiros ou ex-parceiros. E os feminicídios não acontecem de repente. Eles são decorrência de atitudes violentas, muitas vezes de um espiral de silêncio, e mais vezes ainda, os feminicídios ocorrem justamente quando a mulher se separa, tentando por um fim ao ciclo. Só no Brasil, só nos primeiros três meses de 2016 pelo Ligue 180, foram 38 mil denúncias. E 72% dos casos denunciados em 2015 foram cometidos por parceiros ou ex-parceiros. Calcula-se que 80% dos casos de violência doméstica são cometidos por parceiros ou ex-parceiros.  
O caso específico de Maria da Penha é conhecido. Enquanto dormia, ela recebeu um tiro nas costas do então marido. Era 1983, Fortaleza. Ficou paraplégica. Sofreu ainda uma outra tentativa de assassinato algumas semanas depois. Ela o denunciou, mas o caso estava quase prescrito, e nada era feito. Revoltada com a lentidão brasileira, Maria da Penha denunciou o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, em 1998. Três anos depois, o Brasil foi condenado por omissão e negligência. Esta condenação foi essencial, pois foi o reconhecimento de que o país não protegia as mulheres. Por isso, no dia 7 de agosto de 2006, a Lei Maria da Penha foi sancionada. 
Só ter uma lei não é suficiente. É preciso que essa lei seja cumprida. Não é só vencer a impunidade, mas também criar centros de referência, delegacias da mulher, juizados da mulher, casas abrigo, grupos de recuperação para agressores etc. A Casa da Mulher Brasileira é fantástica, porque reúne em um só lugar vários serviços de atendimento a mulheres em situação de violência. 
Mas, até agora, só foram inauguradas três das 26 prometidas (espera-se que a quarta a abrir as portas seja a de Fortaleza, em novembro). E ainda são apenas 8% de todas as cidades brasileiras que possuem alguma delegacia ou núcleo específico para lidar com violência contra a mulher. É absurdamente pouco. Afinal, enquanto a violência do dia a dia fica mais restringida aos grandes centros urbanos, a violência de gênero não escolhe vítimas. Esta violência ocorre tanto em metrópoles quanto em cidadezinhas.
Além do mais, mais importante que punição é a prevenção. É ensinar homens que não se pode resolver conflitos através de violência, que eles não são donos de namoradas, esposas, filhas, irmãs. Que mulheres são (somos!) tão gente como eles, e merecem todo o respeito. É preciso ensinar mulheres que devemos nos impor, que não se pode aceitar situações de abuso, que é melhor estar sozinha do que acompanhada de alguém que nos trata mal. Pra ensinar tudo isso, é imprescindível que as escolas tenham aulas sobre questões de gênero.
Como diz Leila Barsted, advogada e uma das diretoras da Cepia, entidade que participou do anteprojeto da lei Maria da Penha, "há uma parte [da legislação] que é fundamental ser implementada, na área de educação, na área cultural, de mudança de padrões culturais violentos. É preciso levar a discussão para o sistema de ensino".
A própria Maria da Penha afirma: "a educação é um dos fatores mais importantes que deviam ser observados pelo poder público para desconstruir a cultura machista que existe. Isso existe no agressor que bate na mulher porque acha que é normal. E existe também no gestor público que não acha necessário investir na criação de uma delegacia, de um juizado. E se a mulher acha que vai conseguir mudar aquele agressor por conta própria, ela deve ter experiência suficiente de saber que as promessas que ele fez não são cumpridas e ele vai voltar a agredi-la. Por isso que é importante focar na questão da educação. Para que as pessoas, as crianças, os jovens e universitários tenham a informação o quanto antes de que a mulher merece respeito. E que, agora, a lei prende". 
Quando a gente vê os comentários em praticamente qualquer texto que fala sobre violência doméstica e, mais ainda, sobre a Lei Maria da Penha, fica perplexa com a quantidade de ignorantes que vociferam "E a lei joão da penha?", alienação parental, lei para acabar com a família brasileira, coisa de feminazis, blablablá. E pensa que esses comentários representam a população. Não representam. Vem de grupos organizados de misóginos e reaças que batem ponto em tantas notícias justamente para passar a impressão de que brasileiro é retrógrado. 
Na vida real, só 2% nunca ouviram falar na Lei. Segundo uma pesquisa da Câmara dos Deputados de 2011, 95% da população apoia a lei. Mas só a lei não é suficiente para eliminar a violência contra as mulheres, que deveria ser objetivo de todo mundo. É preciso mudar a cultura. E aí, vamos mudar?
06 Aug 21:01

Metade dos recém-nascidos não é amamentada na primeira hora de vida, diz Unicef

by Redação
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05/08/2016

Este primeiro contato corpo a corpo é essencial para protegê-los de doenças e para contribuir com o sucesso da amamentação.
Por Marieta Cazarré,

Aproximadamente 77 milhões de recém-nascidos não são amamentados na primeira hora de vida, deixando de receber nutrientes e anticorpos e sendo privados do contato corporal com suas mães, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Este primeiro contato corpo a corpo é essencial para protegê-los de doenças e para contribuir com o sucesso da amamentação.

France Bégin, assessora sênior de Nutrição do Unicef, afirma que se todos os bebês fossem alimentados apenas com leite materno desde o momento do seu nascimento até os seis meses de idade, mais de 800 mil vidas seriam salvas a cada ano.

Quanto mais se atrasa o início da amamentação, maior é o risco de morte no primeiro mês de vida. Atrasar o aleitamento materno entre duas e 23 horas após o nascimento aumenta em 40% o risco de morte nos primeiros 28 dias de vida. Atrasá-la por 24 horas ou mais aumenta esse risco em 80%.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a amamentação comece ainda na primeira meia hora após o parto. No entanto, apenas metade de todos os recém-nascidos no mundo colhe os benefícios da amamentação imediata.

De acordo com o manual de aleitamento materno do Comitê Português para o Unicef, o leite materno previne infecções gastrointestinais, respiratórias e urinárias, além de ter efeito protetor sobre as alergias. No que diz respeito às vantagens para a mãe, amamentar ajuda o útero a voltar ao seu tamanho normal e reduz as probabilidades de câncer de mama.

A recomendação da OMS é de que o aleitamento materno seja exclusivo até o sexto mês e se estenda até os 2 anos ou mais, aí já com a introdução de outros alimentos, como frutas, legumes, verduras e carnes.

De acordo com o Unicef, apesar dos esforços, os avanços na amamentação na primeira hora de vida têm sido lentos. Na África Subsaariana, por exemplo, onde as taxas de mortalidade de menores de cinco anos são as mais altas do mundo, o aleitamento materno precoce cresceu apenas 10 pontos percentuais desde o ano 2000. Na Ásia Meridional, onde as taxas de iniciação precoce de aleitamento materno triplicaram, passando de 16% em 2000 para 45% em 2015, o aumento está longe de ser suficiente: 21 milhões de recém-nascidos ainda têm de esperar tempo demais para serem amamentados.

A análise do Unicef mostra que as mulheres não estão recebendo a ajuda de que necessitam para iniciar o aleitamento materno imediatamente após o nascimento, mesmo quando um médico, enfermeiro ou parteira assiste o parto. No Oriente Médio, no Norte da África e na Ásia Meridional, por exemplo, as mulheres que têm filho com o auxílio de uma parteira qualificada estão menos propensas a iniciar o aleitamento materno na primeira hora após o parto se comparadas àquelas que dão à luz com o apoio de parteiras não qualificadas ou familiares.

Outro motivo que dificulta a amamentação precoce é o hábito de alimentar os bebês com outros líquidos ou alimentos. Em muitos países, é costume alimentar o bebê com fórmula infantil, leite de vaca ou água com açúcar nos três primeiros dias de vida. Quase metade de todos os recém-nascidos é alimentada com esses líquidos. Quando os bebês recebem alternativas menos nutritivas do que o leite materno, eles mamam com menos frequência, fazendo com que seja mais difícil para as mães o início e a continuidade do aleitamento.

No mundo todo, apenas 43% dos bebês com menos de seis meses de idade são amamentados exclusivamente. Bebês que não são amamentados têm 14 vezes mais probabilidade de morrer do que aqueles que são alimentados apenas com leite materno, de acordo com o Unicef. No entanto, qualquer quantidade de leite materno reduz o risco de morte. Bebês que não recebem nenhum leite materno têm sete vezes mais chance de morrer de infecções do que aqueles que receberam pelo menos alguma quantidade de leite materno nos seis primeiros meses de vida.

Semana Mundial da Amamentação

A Semana Mundial da Amamentação é comemorada este ano entre 1º e 7 de agosto. A data é celebrada desde 1992 por iniciativa da Aliança Mundial para Ação em Aleitamento Materno (Waba, a sigla em inglês), órgão consultivo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Com o tema “Amamentação: uma chave para o desenvolvimento sustentável” e com o slogan “Amamentação: faz bem para o seu filho, para você e para o planeta”, a cerimônia oficial alusiva à semana será realizada amanhã (6), às 11h, na Casa Brasil das Olimpíadas, no Pier Mauá, no Rio de Janeiro.

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04 Aug 00:32

MARCO FELICIANO (DES)ACUSADO DE ESTUPRO

by lola aronovich
A treta de hoje é forte. Há montes de informações por todos os lados, que não param de surgir. Tentei escrever um texto juntando esses dados todos. (Leia este post também).
Coluna de 24/7
O UOL noticiou o ocorrido sem nomes numa curta coluna do dia 24 de julho. Ontem publicou uma matéria completa, em que noticia que o pastor e deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) foi acusado de assédio sexual, agressão e tentativa de estupro por uma estudante e militante da Juventude do PSC. A moça procurou o blog Coluna Esplanada e apresentou provas. 
Na manhã do dia 15 de junho, segundo P. (ou segundo o que o UOL disse que P. lhe relatou, na presença de um advogado da empresa), ela estava no apartamento funcional do deputado para tratar de uma pauta sobre a UNE. Ele a convidou para ser sua amante com alto salário e cargo comissionado no PSC. 
Ele já tinha outra no mesmo esquema, disse. P. recusou, até porque tinha namorado, e foi agredida com agressões físicas e verbais. O deputado tentou estuprá-la e P. gritou, pediu socorro. Uma vizinha ouviu os gritos e foi ao apartamento de Feliciano para ver se estava tudo bem. Pelo jeito, essa vizinha salvou P. de um estupro. Feliciano teria dito a P.: "Você está gritando muito, vai embora!". 
Dias mais tarde, P. trocou mensagens pelo Whatsapp com Feliciano. Essas transcrições foram entregues por ela para o UOL. O número do celular das mensagens era mesmo de Feliciano -- confirmado pela assessoria dele. O deputado trocou de celular alguns dias depois. Esta foi uma das mensagens de Feliciano, segundo o UOL: 
A mensagem mostra que desejo sexual é o de menos num estupro. O que o estuprador gosta é da sensação de poder: "Sabe do que mais tenho saudade?", pergunta a mensagem com o número do deputado. "De te agarrar e ficar olhando sua carinha linda de choro gritando 'não'".
Alguns dias depois, P., segundo o UOL, recebeu esta mensagem de Feliciano, e respondeu (ela em verde, ele em branco):
(Clique para ampliar)
Antes de conversar com o UOL, P. também falou com o jornalista Hugo Studart, da UnB, que havia sido seu professor na Universidade Católica de Brasília. Esta aparentemente foi a conversa trocada por eles (clique para ampliar):
O professor, preocupado com o "sumiço" de P. nas redes sociais, escreveu este post na sua conta no FB: 
Depois, o post foi removido, mas não por ele. O professor diz que o post caiu devido a denúncias de evangélicos, e que P. gravou um vídeo, com hematomas no olho, dizendo que ele inventou a história e que Feliciano é um amor de pessoa. 
O professor também descreveu a conversa que teve com P. pelo telefone. Segundo ele, P. contou-lhe que se encontrou com um assessor de Feliciano (um ex-policial suspeito de ligações com grupo de extermínio em SP, pelo que descobriu o professor) que ofereceu R$ 300 mil para que ela se calasse, ou poderia morrer. O professor relata também que um "assessor de crise" de Celso Russomano, Emerson (Biazon, segundo a coluna do UOL), pediu para que P. não fizesse o boletim de ocorrência e que fosse para SP. 
P. gravou um vídeo no banco traseiro de um carro negando a história. Vários canais gospel e reaças estão divulgando o vídeo, mas o canal não é o de P. Agora à tarde canais religiosos publicaram outro vídeo dela, em que ela fala que "jornalistas esquerdinhas" inventaram a história e que ela não está desaparecida: "o que vocês querem é destruir a direita, mas não é desse jeito que vocês vão conseguir". Ela diz que sua conta no email que surge nos prints é inventada, mas não menciona as transcrições que entregou ao UOL. 
Se P. foi forçada ou ameaçada a gravar os vídeos, não temos como saber. Mas o fato é que ela falou com a coluna do UOL e com o professor (por que eles mentiriam? Eles forjaram os prints? Sério?). Outro fato (além de que o deputado trocou seu número de celular depois de junho) é que, no dia 21 de julho Feliciano retirou sua candidatura à prefeitura de SP. Seus assessores alegaram que Feliciano estaria "adiando seu projeto", devido às muitas atividades que têm em Brasília. E que o PSC iria apoiar Celso Russomano, atualmente favorito nas pesquisas. 
Deve ser triste pro Feliciano que, quando presidente da Comissão de Direitos Humanos na Câmara, era tão conhecido que cogitava se candidatar a presidente, ver que não tem chance nenhuma de se eleger prefeito. E deve ser mais triste ainda que, com este escândalo muito mal explicado, o futuro político deste grande representante da família tradicional brasileira talvez se encerre de vez (certamente é a minha torcida). 
Todos nós já sabíamos quem era Marco Feliciano (aliás, num vídeo um líder religioso cita que três cantores gospel lhe telefonaram pra contar "das safadezas que [Feliciano] faz com as menininhas por aí"). Não é exatamente uma surpresa que gente tão preconceituosa, tão cheia de ódio, seja hipócrita e esconda muitos segredos.
No Facebook de P., em abril
Não vou citar o nome completo de P. aqui, a "vítima". Coloco aspas na palavra porque ela retirou as denúncias. Espera-se que a polícia investigue, porque o caso é sério. Eu ouvi falar de P. em abril quando, numa audiência no Senado, ela disse que feministas querem legalizar o aborto para "praticar sexo ilícito", pois "para a maior parte das feministas [transar] com dez homens em uma noite por exemplo, é normal! Isso se torna sexo ilícito!" Rimos bastante dessa imagem que a moça faz das feministas, e vimos montes de meninas querendo saber onde, pelamordedeus, se pode conseguir a carteirinha feminista. 
Depois vi que a moça deu uma palestra anti-feminista numa escola particular em Tocantins e lá discutiu com uma professora. Num texto no FB após a palestra, ela chamou a professora de "feminazi", a mandou "pentear esses cabelos", e aconselhou os pais: "cuidado com a educação de merda!"
Depois vi um vídeo que P. gravou com Sara Winter, também filiada ao PSC. Fiquei bastante surpresa, na época (maio? junho?), ao ver que Sara não foi levada ao PSC por Bolsonaro (como eu pensava), mas por Feliciano. Num vídeo, Sara disse que Feliciano era seu melhor amigo.
Agora, com a matéria do UOL, vejo que P. é "YouTuber e famosa na internet", com uma página no FB com mais de 200 mil seguidores (que "misteriosamente foi 'derrubada' do ar").
P. faz do seu anti-feminismo e da promoção de ignorância e preconceitos a sua militância. Ainda assim, sou solidária a ela. Deve ser terrível ser agredida e quase estuprada por um homem tão poderoso, tão rico e cheio de conexões -- se foi isso mesmo que aconteceu. E não é fácil ser ameaçada de morte, isso eu sei.
Agora, ao ilustrar o post, vi que dois homens reaças a acusaram de mentir sobre um estupro que ela havia relatado em maio. Eis o post dela na ocasião. Quer dizer, a história fica cada vez mais cabeluda... (Ficou menos cabeluda. Veja o update abaixo de tudo).
Porém, se a tentativa de estupro for comprovada, eu e muita gente gostaríamos de saber: o projeto de castração química de Jair Bolsonaro vale pro seu colega de partido?
Por falar em Bolso, amigo do Feliciano e tão reaça quanto, se não mais, anteontem o deputado pediu para que a polícia da Câmara prendesse duas ativistas que o chamaram de homofóbico. 
Eu não tinha entendido direito por que reaças estavam divulgando essa mensagem ridícula (ao lado). Afinal, eles negam que homofobia exista. Homofobia é apenas, segundo eles, uma estratégia gayzista de vitimização. E homofobia sequer é criminalizada -- tanto que reaças ficam totalmente à vontade para xingar e perseguir ativistas LGBT. Mas agora reaças querem que chamar alguém de homofóbico seja crime! 
Só hoje vi a ligação. Incrível como reaças se orgulham de mandar um batalhão policial prender duas estudantes. Imagina se fosse um deputado de esquerda que mandasse prender duas conservadoras que o chamaram de "Merda" ou sei lá o quê. Imagina o escarcéu que os reaças fariam. Imagina o choro de "E as feminazis não vão falar nada?!"
Mas como é um deputado reaça e ídolo deles, pode tudo. E é tanta cara de pau que nem dá pra saber por onde começar. Bolsonaro é, assim como Feliciano, um podre total que fez toda sua carreira política em cima do fascismo, da homofobia, da misoginia. 
Ele só é famoso por causa disso. Seus seguidores o idolatram justamente por isso, não por conta de algum projeto que Bolso tenha apresentado em suas mais de duas décadas de "mamador do Estado" (ué, é assim que reaças chamam qualquer servidor público, inclusive euzinha aqui, professora de uma universidade federal, então imagino que tal acusação valha pra juízes, policiais e políticos de direita também). Assume que é preconceituoso com orgulho, pô!
E se reaças mandarem prender todos que os chamam do que são -- machistas, misóginos, racistas, homofóbicos -- vai faltar cadeia, viu? Pode vir me prender, Bolso! 
Aproveite e mande investigar seus colegas de partido, aqueles que talvez tenham cometido crimes de verdade. 

UPDATE: O jornalista do UOL divulgou o áudio em que assessor de Marco Feliciano fala com P. Ou seja, ela mentiu com os vídeos ao dizer que era tudo mentira de jornalistas. Será que ela mentiu sobre o assédio e a tentativa de estupro? Leia. 
Diz P. ao assessor, entre mil e uma coisas muito comprometedoras: "O que eu coloco é o seguinte: Marco Feliciano errou, Marco Feliciano continua errando. Vc sabe o que ele faz. Custo a acreditar que não saiba. Eu tô falando em questão de mulheres. Custo a acreditar que não saiba. Eu vou trabalhar com essa hipótese, porque quando a gente convive quinze anos com uma pessoa, por mais que seja uma relação de trabalho, a gente sempre sabe de alguma coisa. Provavelmente eu não fui a primeira. Não vou ser a última. A diferença é que fui a primeira que vou falar".
“Sabe por que eu ainda não levei isso pra delegacia ainda?", pergunta P. (“Tenho certeza que não vai levar”, interrompe assessor). "Não foi por conta do Feliciano, não foi por conta de nada disso. Ainda não levei pra delegacia porque eu sou cristã. Eu amo a minha igreja". 
“Se esse negócio explodir, essa mulher vai junto comigo. Carla Pimentel, que é vereadora em Curitiba", diz P., sem explicar o que isso tem a ver com a vereadora.
E eu sei que o assunto é sério, mas eu engasguei de rir quando o assessor passa dois minutos mostrando fotos das filhas no celular e P. o interrompe com “Se vale um conselho, manda o Feliciano aquietar o pintinho dele, guardar o pintinho dele” (minuto 24).
Aliás, o áudio divulgado (aqui o áudio inteiro, todos os 57 minutos) com o tom condescendente do assessor, dizendo que P. é linda e pedindo para ser chamado de "você, não senhor" é mais uma prova de como o feminismo é necessário. Quiçá principalmente para as mulheres anti-feministas.

Este Thiago, membro do
PSC no Pará, não é o
Thiago citado na transcri-
ção ou no áudio
UPDATE 4/8/16: Coluna do UOL divulga cronograma do caso e revela mais uma bomba: a mãe de P. se reuniu com o jornalista da coluna num shopping em Brasília e contou que "foi buscar a filha machucada na faculdade, com boca e perna direita manchadas por pancadas".
A mãe também disse que P. ligou de SP e pediu uma conta para um depósito que não tivesse rastro de ligação com ela. Porém, pelo relato da mãe, nenhum depósito foi feito.
Talma Bauer, chefe de gabinete de Feliciano e a voz que pode ser ouvida no áudio, diz que é montagem eletrônica. A estratégia é esperar que o escândalo passe: "Isso é blog. Esses blogs daqui 24 horas ninguém mais fala mais sobre isso". 
Procuradoria Especial da Mulher no Senado exigiu ao Ministério Público que as denúncias sejam investigadas. 
Até agora, Marco Feliciano não se pronunciou sobre o caso. 
UPDATE 5/8/16: P. e sua mãe compareceram à delegacia em SP. Ainda não se sabe se foi para fazer BO contra Marco Feliciano. Esperamos que, agora que a mãe entrou no caso, P. conte a verdade que contou para o UOL. 
BOMBA! Game over pra Marco Feliciano! A Polícia Civil de SP prendeu em flagrante Talma Bauer, chefe de gabinete de Feliciano. É dele a voz ouvida no áudio. Bauer é acusado de manter P. em cárcere privado num hotel na Av. Consolação e de forçá-la a gravar os vídeos desmentido as primeiras denúncias que ela fez. A mãe de P. foi rápido de Brasília para SP para ajudar a filha. Um delegado disse que P. fará esta noite BO contra Feliciano. 
Talma Bauer, chefe de gabinete de
Feliciano e a voz no áudio divulgado
o BuzzFeed Br entrou em contato pelo celular com Bauer, e ele disse que não estava preso. Mas todo o resto -- P. ter falado duas horas na delegacia em SP -- está confirmado. O delegado do 4o DP disse que os dois crimes não podem ser registrados lá porque o "ataque" de Feliciano aconteceu em Brasília e porque a ameaça de morte que P. diz que Bauer fez a ela "é da alçada da corregedoria", pois o chefe de gabinete de Feliciano é investigador aposentado da polícia. Bauer, lógico, nega tudo e diz que a vítima (de calúnia) é Feliciano, que continua quieto, dando indiretas bíblicas pelo Twitter. 
Estadão confirmou a prisão de Bauer. Ainda disse que o presidente nacional do PSC, Pastor Everaldo, um dia depois do ataque de Feliciano a P. (no dia 15/6), deu a P. uma sacola de mercado cheia de dinheiro e a mandou se calar e também a ameaçou de morte. O pastor disse não conhecer essa história. 
Vídeo gravado por P. enquanto esteve na delegacia ontem. Tudo que está escrito acima ela fala no vídeo, só que com mais detalhes (por exemplo: Feliciano, no dia da tentativa do estupro, ofereceu a ela 15 mil reais por mês de salário para ser sua amante).
A mãe de P. também depôs à polícia: "Vi a boca dela machucada, com a marca dos dedos do Feliciano. A perna dela ficou toda roxa por causa de um chute, achei que tivesse quebrado". 
Ontem (sexta) de manhã, antes de P. ir à delegacia e de Bauer ser preso, ele ligou para P., em telefonema que ela também gravou. Ela diz para ele, reclamando de um telefonema ameaçador do Pastor Everaldo: "O meu medo é porque, assim, você sabe que o áudio é de verdade e todo mundo que nos conhece, que escuta a nossa voz, sabe que é a gente". Bauer responde: "Eu sei, querida, mas é pessoa de bem, pessoa de bem não tem problema". 
O delegado falou à mídia ontem sobre o caso, e as TVs agora estão começando a divulgar o escândalo. Enquanto isso, a mídia religiosa apela para a velha estratégia de sempre: culpar a vítima. 
UPDATE 6/8/16: Feliciano finalmente falou. Gravou um vídeo ao lado da esposa calada, dizendo que tudo não passa de uma armação, mas que perdoa P., e que confia na "justiça divina e dos homens". Também disse, cinicamente, que não sabe nada do que seu assessor tem feito, exceto que ele não está preso. 
Continuarei a atualizar o caso no meu novo post
01 Aug 13:29

Moro deveria tentar conter a violência de seus fãs, como os que agrediram Sabatella? Por Kiko Nogueira

by Kiko Nogueira

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Os agressores de Letícia Sabatella saíram todos do mesmo molde.

Vestiam o uniforme clássico do fascista brasileiro: camisa nas cores nacionais — uma delas ou todas juntas —, acessórios combinando, ou a variação roupa de grife com a bandeira do Brasil nas costas.

São de Curitiba, capital da Lava Jato, a cidade mais branca e europeia do Brasil, a nossa versão da Munique dos anos 20 e 30.

Por enquanto, alguns nomes teriam sido identificados: Gustavo Guga Abbage, empresário; Vanessa Lobo da Costa; Éder Borges, coordenador do MBL.

Uma das senhoras senhora que seguem Letícia grita-lhe impropérios da Guerra Fria; Gustavo é o sujeito que a chama de “puta” com a boca cheia.

Ele escreveu depois no Facebook: “De uma personalidade cínica, arrogante e prepotênte… (sic) não apanhou por muito pouco… Vamos comprar uma passagem só de ida para para ela, (sic) para Cuba”.

O que os une espiritualmente, sobretudo, é a devoção ao mesmo líder: o juiz Sérgio Moro. Moro é seu messias, sua tábua de salvação num mundo dominado pelo comunismo de Sabatella e seus pares.

A atriz escapou por pouco de ser linchada. Eles fazem o que fazem em nome de Moro e do que ele representa. Ele é usado para convocar manifestações. Estandartes com sua figura são onipresentes.

Não é a primeira vez que esse tipo de situação perigosa ocorre. Na Paulista, há meses, um casal de bicicleta vermelha chegou a ser cercado e agredido.

Não vai demorar muito para esse pessoal cometer uma bobagem e causar uma tragédia. Por que Moro está demorando para pedir a seus fãs que segurem seus cavalos?

Post na página de um dos agressores

Post na página de um dos agressores

 

O momento é esse. Os ânimos estão exaltados, não vão arrefecer depois do impeachment, a caçada a Lula prosseguirá. Moro seguirá como santo padroeiro de uma direita fascista e truculenta que tomou as ruas.

Ele deveria dar uma palavra para acalmar seu povo. Seus apoiadores estão vomitando rancor e ameaçando mulheres.

Onde está sua liderança e a preocupação com os rumos desse fanatismo? Onde uma declaração de que não tem nada a ver com atos dessa natureza?

Moro pode se mirar no exemplo de Ronald Reagan. Quando a candidatura de Reagan foi endossada pela Ku Klux Klan em 1984, ele escreveu uma carta falando que não queria nada com o grupo. Para ele, “a política de ódio racial e intolerância religiosa praticadas pela Klan e por outros não têm lugar neste país e são destruidoras dos valores que formaram os Estados Unidos”.

Bernie Sanders, recentemente, desautorizou apoiadores que fizeram comentários sexistas on-line contra Hillary Clinton. “É nojento”, disse.

Moro, evidentemente, nunca incentivou esses malucos. Mas seu silêncio não ajuda.

A menos que deixe claro que repudia inequivocamente as barbaridades cometidas por seus admiradores, ele vai encoraja-los a agir como têm feito: com a intenção de agradar seu guru.

O post Moro deveria tentar conter a violência de seus fãs, como os que agrediram Sabatella? Por Kiko Nogueira apareceu primeiro em Diário do Centro do Mundo.

29 Jul 14:31

Enquanto a esquerda se divide em São Paulo, a direita faz até vaca voar para tentar derrotar Haddad

by Antonio Mello


29 Jul 14:13

A resposta miserável de Moro à denúncia de Lula é uma cozinha. Por Paulo Nogueira

by Paulo Nogueira
A cozinha de Atibaia usada por Moro como retaliação

A cozinha de Atibaia usada por Moro como retaliação

Moro e sua mídia amiga são previsíveis. Pateticamente previsíveis.

Lula denuncia ao mundo a perseguição que lhe é movida por Moro e no mesmo dia a imprensa é abastecida com mais um vazamento requentado sobre um tema batidíssimo: o sítio de Atabaia.

Veja o nível a que chegamos: agora é uma reforma na cozinha que vem à cena. Pelo menos não são mais os pedalinhos, você pode pensar.

A brutal irrelevância da pseudodescoberta da Lava Jato pode ser aferida quando você compara a uma informação que foi apurada pelo jornal britânico Guardian.

Segundo o Guardian, o filho de delator Sérgio Machado comprou no espaço de doze meses imóveis em Londres no valor de 90 milhões de reais. Você pode avaliar de onde veio o dinheiro.

A reforma da cozinha do já célebre sítio foi avaliada em cerca de 250 mil reais, sabe-se lá com que grau de precisão. Os imóveis do filho de Machado em 90 milhões.

Numa matemática que não mente, uma coisa é 360 vezes maior que a outra. Mas Moro, a Lava Jato e a mídia brasileira se concentram na migalha para artificialmente criar notícias contra Lula.

Já tinha sido ventilado que um filho de Sérgio Machado vive em Londres fazendo negócios. A pergunta básica: por que Moro não mandou gente investigar tais negócios?

Foi preciso que um jornal inglês fizesse um trabalho que caberia às autoridades brasileiras incumbidas de cuidar da Lava Jato?

Lembremos que a principal descoberta da Lava Jato também foi feita por gente de fora: as contas secretas na Suíça de Eduardo Cunha. A revelação das contas acabou com o maior foco de corrupção da política nacional, Eduardo Cunha.

Os 90 milhões ligados à família Machado não interessam a Moro, à Lava Jato e muito menos à mídia brasileira.

Sérgio Machado não interessa, na verdade. Porque ele não tem nada a ver com Lula. Em sua delação ele mexeu com caciques do PMDB e do PSDB. Então, não serve.

Machado citou propina para Temer. Disse textualmente: “Quem não conhece o esquema do Aécio?” Afirmou também: “Fui do PSDB por dez anos. Não sobra ninguém.”

Ou seja: ele disse tudo que Moro e a mídia não queriam ouvir.

Como era de imaginar, ele sumiu da mídia e da Lava Jato. Até que o Guardian o devolveu espetacularmente ao noticiário.

A resposta miserável de Moro aos imóveis de luxo comprados pelo filho de Machado em Londres com dinheiro sujo foi a cozinha do sítio de Atibaia.

É uma resposta que conta tudo sobre Moro e sobre a mídia brasileira.

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22 Jul 14:33

O Porto Maravilha é negro

by Anna Beatriz Pouza

O Porto Maravilha esconde saberes fundamentais à costura do passado do Rio de Janeiro. Para juntar os pedaços de tecido naquela área, é necessário, primeiramente, saber onde se pisa. Em 1° de março de 2011, as obras do projeto de renovação do território portuário deixaram de ser somente um conceito moderno, que olha para o futuro. Naquele dia, por força de lei, uma equipe do Museu Nacional acompanhava as intervenções de drenagem no subsolo por escavadeiras das empreiteiras que constroem o arrojado empreendimento. Os arqueólogos já sabiam o que estava por vir à superfície da rua Barão de Tefé: o Cais do Valongo, onde centenas de milhares de escravos aportaram a partir do século 18, sobre o calçamento de pé de moleque – técnica construtiva do Brasil Colônia, com pedras arredondadas de rios acomodadas sobre a terra batida. Os seixos irregulares estavam sob outra camada, mais à moda do Brasil Império, com conjuntos de blocos de granitos empilhados para receber, em 1843, a imperatriz Teresa Cristina, então futura esposa de dom Pedro II. Por cima desse revestimento, havia ainda o aterro planejado pelo prefeito Pereira Passos no início do século 20, que pôs um fim à memória do passado imperial. E escondeu também o originário holocausto brasileiro.

Desembarque de escravos no Cais do Valongo (JM Rugendas) - 1835

Desembarque de escravos no Cais do Valongo, 1835, JM Rugendas

O Cais do Valongo foi o maior porto negreiro das Américas e, segundo o historiador Manolo Florentino, esteve em atividade nas últimas décadas do século 18 até final de 1830, ocupando uma área entre os bairros da Gamboa, da Saúde e do Santo Cristo. Nele desembarcaram mais de 700 mil escravos, vindos, sobretudo, do Congo e de Angola – pode-se dizer que o Valongo foi o ponto de convergência de 7% de todos os cerca de 10,7 milhões de escravos traficados às terras do Novo Mundo. Pelo menos mais 700 mil foram traficados para outros pontos do litoral do estado do Rio de Janeiro.

A capital, naquela época, era umas das cidades mais negras do mundo colonial. E o trecho mais agitado por essa migração compulsória era a rua do Valongo, atualmente rua Camerino. Sobre ela, como mencionado no livro 1808, do jornalista Laurentino Gomes, a viajante inglesa Maria Graham, amiga da imperatriz Leopoldina, escreveu em seu diário: “Vi hoje o Valongo. É o mercado de escravos do Rio. Quase todas as casas desta longuíssima rua são um depósito de escravos. Passando pelas suas portas à noite, vi na maior parte delas bancos colocados rente às paredes, nos quais filas de jovens criaturas estavam sentadas, com as cabeças raspadas, os corpos macilentos, tendo na pele sinais de sarna recente. Em alguns lugares, as pobres criaturas jazem sobre tapetes, evidentemente muito fracos para sentarem-se”.

Até as escavações, realizadas em 2011, o Cais do Valongo estava literalmente soterrado na memória dos cariocas. Por isso, a reportagem da Pública tentou averiguar como a cidade está lidando, cinco anos depois, com seu passado em meio ao processo de revitalização do porto, fundado num tempo em que pessoas se achavam superiores a outras a ponto de escravizá-las.

Para o pesquisador Rogério Jordão, cuja tese de doutorado discorreu sobre o próprio Cais do Valongo, a prefeitura se comporta de maneira paradoxal ao cuidar da memória da sofrida e pulsante Pequena África, como o artista e compositor Heitor dos Prazeres chamou aquela área no início do século 20. “É como se a prefeitura praticasse uma estranha dinâmica de lembrar esquecendo-se”, diz Jordão. Para ilustrar sua provocação, o pesquisador aponta para o Museu de Arte do Rio e Museu do Amanhã – este construído com investimento de R$ 215 milhões – ambos administrados pela Fundação Roberto Marinho e considerados símbolos do Projeto Porto Maravilha. “Estes dois museus começaram a ser construídos no mesmo período [da redescoberta do Cais do Valongo] e já estão em pleno funcionamento, enquanto os milhares de objetos de matriz africana encontrados nas obras [de escavação] ainda não estão disponíveis ao público”. São peças de barro, seguis [uma espécie de conta], monjolos, búzios, louças quebradas, ocutá [pedra que atrai o Orixá], como descreve Jordão em sua tese.

A prefeitura chegou a anunciar um projeto cujo nome seria Laboratório Aberto de Arqueologia, a ser inaugurado até o fim de 2015, bem antes da Olimpíada… A ideia era que o público acompanhasse in loco o processo de recuperação das peças. Mas até agora o projeto não saiu do papel.

Hoje o destino desses achados arqueológicos é conhecido por poucos. Eles estão no Galpão da Gamboa, no sopé do morro da Providência e bem próximo à Cidade do Samba, no centro. Segundo a assessoria de imprensa da prefeitura, os objetos já foram todos catalogados e estão embalados em contêineres.

Museu do Amanhã é símbolo do Projeto Porto Maravilha (Foto: Beth Santos)

Museu do Amanhã é símbolo do Projeto Porto Maravilha (Foto: Beth Santos)

Os artefatos têm tanta importância que a arqueóloga Tânia Andrade Lima, que coordenou as escavações no início das obras do Porto Maravilha, convidou quatro religiosos de matriz africana para explicar seus diferentes significados. “Quando percebi que estávamos encontrando objetos pessoais e também objetos relacionados a práticas mágico-religiosas dos africanos escravizados, entendi que a comunidade negra deveria ser chamada a participar do trabalho. Sou eurodescendente, de formação católica, assim como grande parte da equipe de arqueólogos que trabalharam no Valongo, de tal forma que meu entendimento foi o de que esses objetos constituem uma herança que aquelas pessoas deixaram para seus descendentes, e nessa condição lhes pertencem em primeiro lugar. Eles não puderam deixar nada senão aquelas poucas peças. Foi o que restou deles”, disse a antropóloga à Pública.

Mãe Celina de Xangô, uma das convidadas, interpretou objetos pelo jogo de búzios através do qual consultava os Orixás. Hoje presidente do Centro Cultural Pequena África, ela questiona: “A coleta desses artigos foi feita em 2011 e cinco anos depois ninguém sabe como e quando eles ficarão expostos. Há um projeto do Museu da Diáspora Africana, mas sem haver nada de concreto”, diz a mãe de santo do Candomblé. “É com muita tristeza que tomo conhecimento hoje que objetos tão importantes à nossa história, muitos deles pertencentes a cultos de matriz africana, estão em sacos plásticos dentro de contêineres”, lamenta.

Para o historiador Manolo Florentino, deveria haver um trabalho multidisciplinar contínuo, e não apenas esforços pontuais, para desvendar os inúmeros segredos que aquela área guarda sobre a cultura negra. “Tudo que envolve o Valongo e a presença negra de uma forma geral deveria ser mais pesquisado. Esse trabalho tem um custo altíssimo e, talvez por isso, não tem sido abordado da maneira adequada tecnicamente”, avalia.

Como considera que tal quadro não mudará em médio prazo, ele tem dúvidas se vai dar certo a ambição da prefeitura e do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) de obter da Unesco o reconhecimento do Cais do Valongo, da Pedra do Sal e do Cemitério dos Pretos Novos como Patrimônio da Humanidade. Os dois órgãos formaram equipes para produzir um dossiê sobre a importância dos três ícones da cultura negra local. O documento resultante faz uma defesa enfática do Cais do Valongo logo no primeiro parágrafo: “Merece ser considerado pela UNESCO patrimônio da humanidade porque é o sítio de memória da escravidão mais completo que se conhece. Ele tem importância não apenas para a história brasileira e, portanto, para a nossa vida como nação, mas também para a história do mundo”. A ONU acolheu a candidatura no último dia 3 de março.

Transportar um Hammock Coberto, Rio de Janeiro, Brasil, 1819-1820, Henry Chamberlain

Transportar um Hammock Coberto, Rio de Janeiro, Brasil, 1819-1820, Henry Chamberlain

Florentino considera que a aspiração à vaga deveria suscitar mais investimentos para a cultura negra local. Membro do Trans-Atlantic Slave Trade Voyages, uma iniciativa internacional de coleta de dados sobre viagens de navios negreiros, com sede na Universidade Emory, na Geórgia, Estados Unidos, o historiador afirma que entre 1790 e 1830, cerca de 700 mil escravos desembarcaram no Cais do Valongo, fazendo dele o maior porto negreiro das Américas. Até 1830, ano da proibição do tráfico negreiro, apenas a cidade do Rio de Janeiro – no porto antigo, no Largo de Santa Rita, e depois no Cais do Valongo – e o Cabo de Búzios foram ponto de desembarque no estado.

Após a proibição, o número de escravos desembarcados na capital cai vertiginosamente, ao mesmo tempo que um intenso desembarque começa a ocorrer nas faixas litorâneas, como Ponta Negra, Ilha Grande, Mangaratiba e Paraty. Alguns navios mais ousados optavam pela enseada de Botafogo e a praia de Copacabana, mas em quantidade menos expressiva. Em 1856, houve a última viagem registrada antes da abolição da escravatura, 32 anos depois. Na década de maior movimento, entre 1821 e 1830, o Cais do Valongo recebeu mais de 335 mil escravos, uma média de 33,5 mil a cada ano.

Veja a animação sobre todas as mais de 3 mil viagens de barcos negreiros até o Rio de Janeiro.

Animação – O tráfico de negros escravizados para o Rio de Janeiro from Agência Pública on Vimeo.

O circuito da prefeitura

Redescoberto, o Cais do Valongo traz os navios negreiros de volta ao imaginário do carioca. As águas da baía de Guanabara não batem mais àquela altura da rua Barão de Tefé, por obra do aterro feito na administração do prefeito Pereira Passos (1902-1906). No último ano de seu mandato, Passos inaugurou, na parte mais baixa do morro da Conceição, o Jardim Suspenso do Valongo, a cerca de cem metros do antigo cais. Seguiu à risca o modelo de transformação adotado em Paris no fim do século 19, excluindo as marcas do passado.

Surpreendentemente, o Jardim Suspenso do Valongo integra o denominado Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, que, criado em 2012 pela prefeitura, reúne apenas seis pontos de interesse. “O Jardim foi algo feito sob inspiração europeia justamente para ajudar a ocultar a importância do Cais do Valongo. Isso deveria ser explicado ao visitante”, afirma a historiadora Martha Abreu. Não há nenhuma menção ao fato de que, no espaço do jardim até 1831, funcionaram armazéns de venda de escravos e, posteriormente, café e outros produtos.

Cais do Valongo após as obras (Foto: Bruno Bartholini)

Cais do Valongo após as obras (Foto: Bruno Bartholini)

O próprio Cais do Valongo integra, é claro, o circuito, completado pelo Cemitério dos Pretos Novos, pela Pedra do Sal, pelo Centro Cultural José Bonifácio e pelo Largo do Depósito. O deslize na montagem do circuito é um indício de que o poder público não vem cumprindo sua missão de animar o debate sobre a herança africana no porto. Placas já mal conservadas trazem um texto superficial sobre a fenda aberta no meio da calçada com as diferentes camadas do Cais do Valongo e Cais da Imperatriz. Para Damião Braga, da Associação da Comunidade Remanescente de Quilombo da Pedra do Sal, a própria obra passou por cima de outros ancoradouros de navios negreiros. “Vi com meus olhos ancoradouros sendo cobertos na rua Coelho e Castro, próximo à praça Mauá”, disse ele à Pública. 

Um cemitério sob nossos pés

Filha de um português com uma espanhola, a carioca Ana Maria de la Merced Guimarães demonstrou muito interesse pelo passado. Não tinha a menor ideia de como sua vida mudaria após a compra de uma casa construída em 1866 na rua Pedro Ernesto, no bairro da Gamboa. Em 1996, ela e o marido, Petruccio dos Anjos, estavam às voltas com uma reforma no imóvel onde morariam com três filhas. Um dia, Merced, como é conhecida, recebeu um telefonema em seu trabalho. Escutou, atônita, que os pedreiros da obra, ao cavar um buraco, se depararam com um punhado de ossos.

Ela soube então que havia um sítio arqueológico sob seus pés. Até aquele momento, não havia nenhuma referência material da existência do Cemitério dos Pretos Novos, que servira para sepultar os escravos que morriam quando o navio negreiro já estava na baía de Guanabara, ou que faleciam após o desembarque.

Equipe verifica ossos encontrados no Cemitério dos Pretos Novos (Foto cedida por Ana Maria de la Merced Guimarães)

Equipe verifica ossos encontrados no Cemitério dos Pretos Novos (Foto cedida por Ana Maria de la Merced Guimarães)

Logo que chegou em casa, Merced se dirigiu à residência do vizinho Antônio Carlos Machado, presidente do Afoxé Filhos de Gandhi, que a aconselhou a procurar o Centro Cultural José Bonifácio, dedicado à cultura negra. De lá, saiu o aviso ao então Departamento Geral de Patrimônio Cultural, que, por sua vez, arregimentou membros do Instituto de Arqueologia Brasileira. De repente, a casa que escolhera para morar com a família passou a abrigar constantemente seis pessoas, entre arqueólogos e técnicos de escavação.

Vinte e oito esqueletos tiveram seus ossos reunidos e pesquisados. Os estudos trouxeram algumas características dos mortos: idade entre 3 e 25 anos, de ambos os sexos. O historiador Júlio Cesar Medeiros conta o horror dos enterros em seu livro À flor da terra: o Cemitério dos Pretos Novos no Rio de Janeiro. Nele, o autor descreve que os cadáveres eram enterrados a apenas um palmo de profundidade. Inicialmente o Cemitério dos Pretos Novos estava instalado no largo de Santa Rita, próximo à praça Mauá, onde havia um grande fluxo da burguesia da época: “O vice-rei marquês de Lavradio tirou o mercado dali, para esconder as cenas do desembarque dos escravos onde já havia uma burguesia vivendo. Consequentemente o cemitério que funcionava ali foi a para a Região do Valongo, na segunda metade do século 18, quando a região era desabitada”, diz o texto. Aos poucos, a área ao redor foi sendo ocupada por uma população pobre.

Mais de 6 mil escravos foram enterrados ali de 1824 a 1830, segundo registros históricos da Igreja de Santa Rita, então responsável pelo serviço, anota Medeiros em seu livro. À Pública, ele afirmou categoricamente: existem mais corpos enterrados na área do Cemitério dos Pretos Novos e também em casas vizinhas. “Digo isso porque só calculei o número de enterros no CNP [Cemitério dos Pretos Novos] em um período bem curto, com os registros do livro de óbitos da freguesia de Santa Rita, de 1824 a 1830.” Nesse momento, o historiador faz um desabafo: “Os dados de outros períodos relacionados a esses enterros estão no Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro, na Catedral do Rio de Janeiro, no centro. Ocorre que os livros estão em péssimo estado, e ainda tive dificuldade de acesso a eles na Cúria. Há um risco grande de se perder um material de riqueza inestimável”, alerta Medeiros.

Há outro risco de perda irreparável. O presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio (Cdurp), Alberto Silva, afirmou em entrevista à Pública que uma pesquisa do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, dá conta de que casas de mais três ruas estão na delimitação espacial do cemitério feita pela pesquisa. “Casas das ruas Pedro Ernesto, Leôncio de Albuquerque e do Propósito estão na área do cemitério”, afirmou. Indagado sobre por que a prefeitura não promoveu novas escavações nessas casas e na via, Silva respondeu: “Quem tem de definir isso é o Iphan. Não é uma atribuição da prefeitura”. Sobre a prefeitura não estimular novas escavações, Silva, que é sociólogo, declarou que o sofrimento dali está representado pelo cemitério – e que esse debate está “errado”. “O importante é que o Cemitério dos Pretos Novos está simbolizado na área da casa da Merced, que recebe em torno de R$ 90 mil por ano para preservá-lo. Os corpos foram queimados e revolvidos, o que dificultaria muito o trabalho. E teríamos de desapropriar casas para fazer novas pesquisas”, disse ele, que representa a prefeitura, que removeu mais famílias do que qualquer governo municipal da história do Rio.

O mercado de escravos, Rio de Janeiro, 1821, Henry Chamberlain, Acervo da Pinacoteca

O mercado de escravos, Rio de Janeiro, 1821, Henry Chamberlain, Acervo da Pinacoteca

A Pública procurou a presidente da Superintendência Regional do Iphan no Rio de Janeiro, Mônica da Costa. Pela assessoria de imprensa, ela respondeu que quem estava mais à frente desse assunto era o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, presidido pelo arquiteto Washington Fajardo, com quem a Pública entrou em contato, por intermédio da assessoria de imprensa, e não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

Medeiros acrescenta que há outro fato de grande importância que continua sendo subestimado: “Ninguém sabe até hoje onde ficava no Valongo o lazareto, uma enfermaria de quarentena dos escravos. Os escravos que não resistiam ali eram diretamente encaminhados ao CPN. Ainda há muito o que pesquisar no porto”.

As muitas mortes dos pretos novos

A expressão “pretos novos” era a denominação para os escravos recém-chegados ao Brasil. Os que não resistiam às intempéries das viagens nos navios negreiros iam sendo enterrados. Os registros desses enterros trazem o nome do traficante, data dos sepultamentos, a faixa etária do escravo, o nome da embarcação e do capitão. O porto de origem de cada africano também consta no livro de óbitos. No entanto, se havia algum tipo de organização dos registros, o desrespeito às cerimônias africanas, por sua vez, era imenso. “Na cultura banto, seguida pela maioria dos escravos vindos para o Rio de Janeiro, a morte significa a passagem do mundo dos vivos para o sobrenatural. O morto, se fosse enterrado de acordo com os rituais, tinha um encontro com seus antepassados, mantendo uma ligação com o mundo dos vivos. Sem isso, o morto passaria ser um infortúnio para os vivos. Trata-se de uma cosmovisão”, diz Medeiros.

"Boutique de la rue du Val-Longo", obra de Jean-Baptiste Debret , de 1834-1839, mostrando um dos mercados de escravos que se erguiam ao longo da rua do Valongo, atual rua Camerino

“Boutique de la rue du Val-Longo”, obra de Jean-Baptiste Debret , de 1834-1839, mostrando um dos mercados de escravos que se erguiam ao longo da rua do Valongo, atual rua Camerino

O historiador cita o cemitério de Nova York, na ilha de Manhattan, chamado African Burial Ground, no qual, no século 18, os africanos escravizados e seus descendentes eram enterrados de acordo com seus ritos. Ali, após uma grande luta da comunidade africana dos Estados Unidos, ergueu-se um memorial nos anos 1990. Os pesquisadores dizem que o trabalho ali é contínuo e deve durar pelo menos mais cem anos, segundo a dissertação de mestrado do arqueólogo Reinaldo Bernardes Tavares para o Museu Nacional.

Medeiros não entende por que não há mais investimentos no Cemitério dos Pretos Novos e em outras escavações em casas da vizinhança. “A fachada [da casa que abriga o cemitério] precisa ser reformada, e o próprio cemitério poderia estar mais bem estruturado”, afirmou ele. “O cemitério deveria ter seu próprio banco de dados e computadores para alunos e pesquisadores visualizarem, entre outras coisas, as rotas dos navios negreiros”, diz Medeiros. De fato, falta muita coisa ao cemitério. Os ossos encontrados não estão no museu. Repousam no Instituto de Arqueologia do Brasil, na cidade de Belford Roxo, na região metropolitana, a cerca de 30 quilômetros do centro do Rio.

Um depoimento do diplomata inglês James Herderson, reproduzido no livro 1808, do jornalista Laurentino Gomes, mostra o porquê da morte de tantos escravos: “Os navios negreiros que chegam ao Brasil apresentam um retrato terrível da miséria humana. O convés é abarrotado por criaturas, apertadas umas às outras tanto quanto possível. Suas faces melancólicas e seus corpos nus e esquálidos são o suficiente para encher de horror qualquer pessoa não habituada a esse tipo de cena. Muitos deles, enquanto caminham até os depósitos onde ficarão expostos para a venda, mais se parecem com esqueletos ambulantes, em especial as crianças”.

A chegada de crianças e adolescentes escravizados ao Cais do Valongo, por sinal, também parece pouco estudada; seu objetivo perverso era aumentar a vida útil do escravo e prolongar a escravidão. Dados do site The Trans-Atlantic Slave Trade Voyages revelam os efeitos da pressão para dar fim ao tráfico de escravos liderada pela Inglaterra, cuja produção manufatureira de suas colônias no Caribe com homens livres custava mais que a portuguesa assentada no escravismo. Houve um aumento exponencial de crianças de ambos os sexos em navios negreiros desembarcados no Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco entre 1811 e 1850.

Uma Família Brasileira, Rio de Janeiro, 1822, Henry Chamberlain

Uma Família Brasileira, Rio de Janeiro, 1822, Henry Chamberlain

Tais dados elevam a crença de Manolo Florentino de que há mais ossadas de escravos de meninos e meninas enterradas na região portuária. “Isso é um motivo mais do que suficiente para entender que aquela região não pode ser simplesmente ‘revitalizada’. Ela precisa ser estudada profundamente, e isso exige investimento”, diz o professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS). Florentino ficou apreensivo com a decisão da prefeitura de construir um VLT (veículo leve sobre trilhos) justamente na rua Pedro Ernesto, endereço do Cemitério dos Pretos Novos, onde mais pesquisas deveriam ser feitas, acredita. “Desejo que o VLT tenha sido instalado ali sem que se prejudiquem futuras pesquisas arqueológicas, que se mostram cada vez mais necessárias naquela área.” Segundo Alberto Silva, os trilhos foram instalados seguindo as regras do Iphan, e nada foi encontrado no caminho.

De qualquer forma, para o professor, é necessária uma prospecção técnica contínua para definir a real extensão do cemitério, tentativa já feita pelo Museu Nacional, com alguns avanços. Segundo estimativa do jornalista Laurentino Gomes, mais de 20 mil corpos de escravos devem ter sido enterrados na região do Valongo até a desativação do mercado negreiro. “Aquela área deveria ser palco de um grande estudo arqueológico e de genética para uma análise acurada dos ossos a serem encontrados, com uma ampla equipe multidisciplinar envolvendo também profissionais como antropólogos e historiadores. Nos Estados Unidos, onde o movimento black exigiu isso, foi feito esse trabalho em áreas na Costa Leste, assim como no Caribe. Não vejo iniciativas assim no Brasil”, diz Florentino.

Gráfico de Carlos Valencia-Villa (UFF-Campos) e Manolo Florentino (UFRJ- IH)

Gráfico de Carlos Valencia-Villa (UFF-Campos) e Manolo Florentino (UFRJ- IH)

 

42 lugares em vez de 6

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Dentre os seis pontos do Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, destaca-se o Centro Cultural José Bonifácio, em um prédio renascentista onde funciona desde os anos 1990, é um centro de referência da cultura afro-brasileira. A Pedra do Sal, na base do morro da Conceição, também integra o circuito. Sua rocha, na rua Argemiro Bulcão, era o lugar onde o sal era descarregado por escravos no século 18. A região foi palco do surgimento do samba nas duas primeiras décadas do século 20 pelas mãos de descendentes de escravos. Ranchos carnavalescos, afoxés e rodas de samba são parte de sua história. Atualmente, é ponto de convergência de sambistas da cidade.

As historiadoras Hebe Mattos, Martha Abreu e Keila Griberg consideram o circuito da prefeitura diminuto diante da presença histórica dos negros na zona portuária. As três criaram um aplicativo para celular  com 42 lugares representativos da cultura afro-brasileira na região, de nome “Passados presentes”. Ele inclui também a história do porto após a abolição da escravatura, na virada do século 19 para o 20, quando negros vieram da Bahia para antigas áreas cafeeiras do Vale do Paraíba. “É uma parte muito valiosa da história do porto, quando os escravos recém-libertos migram para a atividade portuária e se engajam em sindicatos de estivadores, influenciando em muito a ocupação do lugar”, diz Florentino.

“Mesmo os pontos indicados pela administração municipal apresentam problemas, como as placas rasgadas no Cais do Valongo”, diz Martha. “Ali, há terreiros de candomblé importantes, trapiches e cortiços que resistiram.” Ela aponta para a presença de cortiços no final do século 19, que abrigavam essa população de ex-escravos, como um marco. “A destruição do cortiço Cabeça de Porco determinada pelo então prefeito do Distrito Federal, Barata Ribeiro, expulsou mais de 4 mil pessoas dali”, diz o historiador Claudio Honorato. Esse cortiço ocupava quase toda a rua Barão de São Félix e se estendia até o morro da Providência. “Sua destruição foi algo nitidamente para dar exemplo.”

Há sete pontos indicados no aplicativo com tradicionais rodas de capoeira, o que sempre reforça a imagem do grande capoeirista da região, o Prata Preta, um dos líderes da Revolta da Vacina. A praça da Harmonia, onde houve a resistência, também está no aplicativo das historiadoras.

Quitandeiras da Lapa,1819-1820, Rio de Janeiro, Henry Chamberlain

Quitandeiras da Lapa,1819-1820, Rio de Janeiro, Henry Chamberlain

Um quilombo no meio do porto das remoções

Existe um quilombo na área da Pedra do Sal, explica Damião Braga, presidente da Associação da Comunidade Remanescente de Quilombo da Pedra do Sal, a quem quiser ouvir. E houve avanços rumo à sua demarcação.

O município sancionou em 2014 uma proposta do então vereador Eliomar Coelho (PSOL), criando a Área de Especial Interesse Cultural (AEIC) do Quilombo da Pedra do Sal. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) fez um Relatório Técnico de Identificação e Delimitação do Quilombo da Pedra do Sal. Em 2010, publicou nos diários oficiais do Estado do Rio e da União parte desse estudo, que consiste em um extenso relatório histórico e antropológico do quilombo, além de um levantamento fundiário. “Temos o reconhecimento da Fundação Palmares, que é um órgão do governo federal, como Patrimônio Afro-Brasileiro. Agora falta a titulação do Incra, do estado e do município”, diz Braga.

Moradores lutam para conseguir a demarcação do quilombo existente na região da Pedra do Sal (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Moradores lutam para conseguir a demarcação do quilombo existente na região da Pedra do Sal (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Segundo ele, o Incra tem o poder de titular cerca de 60% de toda a área, incluindo imóveis. Já o município tem um pouco menos de 40%, mas até agora não avançou na titulação. “Por que a prefeitura não faz a titulação?”, pergunta Braga. “Será porque ali é alvo de interesse imobiliário?”

Braga vê o processo de ocupação por negros como contraponto fundamental à gentrificação que vem ocorrendo no porto, por causa das obras de infraestrutura do Projeto Porto Maravilha. E garante que o quilombo fará seu papel de resistência nesse processo. Os argumentos para esse reconhecimento, reunidos no relatório do próprio Incra, são profundos. Ele ressalta que o porto é um ponto de convergência da cultura negra em diferentes épocas. Um trecho do documento mostra esse poder agregador da região. “O território da Pedra do Sal, como local de chegada, recepção e ajuda entre baianos, no final do século 19, pode ser ainda evidenciado pelas declarações de uma de suas ilustres representantes, Carmem Teixeira da Conceição, conhecida como Tia Carmem: ‘Tinha na Pedra do Sal, lá na Saúde, ali que era uma casa de baianos e africanos, quando chegavam da África ou da Bahia. Da casa deles se via o navio, aí já era uma bandeira branca, sinal de Oxalá, avisando que vinha chegando gente’”. O relatório conclui: “Esse modo de viver e receber os que chegavam incorporou-se ao modo de vida da região e pode ser verificado com outros exemplos. Os antepassados dos que hoje reivindicam a identidade de remanescentes quilombolas chegaram à região da mesma forma. Foram acolhidos por negros, portuários e irmãos de santo, chegados anteriormente. Trataram de recompor os pedaços de sua própria experiência de desterritorialização, formando agremiações ou realizando atividades coletivas de trabalho, culto ou lazer”.

Morador do porto, o arquiteto Felipe Nin chama a atenção para o número de ocupações populares organizadas de prédios abandonados que foram destruídas pela prefeitura, como a Quilombo das Guerreiras, Machado de Assis e Zumbi dos Palmares. “A prefeitura quer demonstrar apreço pela memória, enquanto quer tirar a população pobre da região”, critica ele. O fotógrafo Maurício Hora, morador do morro da Providência, também foi testemunha da sanha da prefeitura de remover famílias. Ele chegou a escrever um artigo para o New York Times denunciando a falta de critério da gestão pública. “Queriam tirar do morro da Providência o que lhe dá sentido: a população”. Nascido no morro, Maurício também está envolvido na luta pela demarcação do Quilombo da Pedra do Sal. “Nós somos negros e descendentes de escravos daqui. Temos de lutar pela nossa permanência”, afirma. Filho de estivador, Luiz Torres, pontua: “O Quilombo da Pedra do Sal vai ajudar a recuperar e preservar a história do negro no porto”.

A inglesa Maria Graham descreve o dia em que, no Valongo, flagrou o olhar assustado de negros adolescentes no mercado de escravos. Colocar-se no lugar daqueles jovens pode trazer uma reflexão importante sobre o passado que se soterra em nome da cobiça pelo amanhã: “Em uma casa, as portas estavam fechadas até meia altura e um grupo de rapazes e moças, que não pareciam ter mais de quinze anos, e alguns muito menos, debruçava-se sobre a meia porta e olhava a rua com faces curiosas. Eram evidentemente negros bem novos”.

Crédito da foto destacada: Bruno Bartholini

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22 Jul 13:34

A Folha publica recados da Lava Jato – assim como publicou recados dos militares na ditadura. Por Raymundo Gomes

by Diario do Centro do Mundo
A empresa da família Frias a serviço da ditadura com a Folha da Tarde

A empresa da família Frias a serviço da ditadura com a Folha da Tarde

Durante a ditadura, a Folha da Tarde notabilizou-se por publicar “recados” da ditadura sobre a sorte de “subversivos”. Agora jornalistas do primeiro time da Folha de S. Paulo se prestam ao mesmo papel, publicando ameaças anônimas da Lava Jato para fazer falar o marqueteiro do PT João Santana, há cinco meses preso – e que assim ficará o tempo necessário até abrir o bico.

No último dia 16 de julho, às 2 da manhã, o Painel, coluna de notas assinada pela repórter Natuza Nery, publicou o seguinte recado (http://painel.blogfolha.uol.com.br/2016/07/16/para-lava-jato-ex-marqueteiro-do-pt-corre-risco-de-perder-timing-da-delacao-se-demorar-a-falar/):

Para Lava Jato, ex-marqueteiro do PT corre risco de ‘perder timing’ da delação se demorar a falar
“POR PAINEL
“Corra, Lola
“Investigadores da Lava Jato alertam: é bom que o marqueteiro João Santana e sua mulher, Mônica Moura, não embromem muito para aceitar os termos da delação premiada. “Ou podem perder o timing”, dizem.
“Santana, até então reticente, decidiu entrar nas negociações do acordo de colaboração. Os investigadores não viam sentido em aceitar a delação de Mônica sem o depoimento do ex-marqueteiro do PT. O casal está preso desde fevereiro em Curitiba, mas o processo corre no STF. Foi remetido por Sérgio Moro à corte após a inclusão de políticos com foro privilegiado no inquérito.
“Santana tentou o quanto pôde evitar a delação. Temia muito afugentar futuros clientes. Para ele, o sigilo profissional era a garantia de que poderia continuar fazendo campanhas — ao menos em outros países.
“Investigadores afirmam que as negociações estão “mornas”. A defesa de João Santana nega que ele esteja negociando delação.”

Curiosamente, porém, no jornal impresso a nota saiu bem menor. Foi publicado apenas o seguinte na página A4 da edição de 16 de julho da Folha de S. Paulo:

“Corra, Lola
Investigadores da Lava Jato alertam: é bom que o marqueteiro João Santana e sua mulher, Mônica Moura, não embromem muito para aceitar os termos da delação premiada. “Ou podem perder o timing”, dizem.”

Mais curioso ainda é que NA VÉSPERA, a mesma seção Painel havia publicado que João Santana JÁ HAVIA aceitado negociar a delação premiada. Eis o que saiu no Painel em 15 de junho (inclusive com trechos idênticos aos da nota publicada na internet no dia seguinte).

“Ex-marqueteiro do PT, João Santana cogita aderir à delação premiada, já negociada por sua mulher
“POR PAINEL
“O marqueteiro fala
A proposta de delação de Mônica Moura, mulher de João Santana, ganhou um reforço de peso. O marido, até então reticente, decidiu entrar nas negociações do acordo de colaboração da Lava Jato. Os investigadores não viam sentido em aceitar a delação de Mônica sem o depoimento do ex-marqueteiro do PT. O casal está preso desde fevereiro em Curitiba, mas o processo corre no STF. Foi remetido por Sérgio Moro à corte após a inclusão de políticos com foro privilegiado no inquérito.

“Vai pegar mal
Santana tentou o quanto pôde evitar a delação. Temia muito afugentar futuros clientes. Para ele, o sigilo profissional era a garantia de que poderia continuar fazendo campanhas — ao menos em outros países.

“Passo a passo
A coluna confirmou as tratativas com diversas pessoas que atuam no caso. Investigadores afirmam que as negociações estão ‘mornas’. A defesa de João Santana nega que ele esteja negociando delação.”

Nesta quinta-feira, 21 de julho, por fim o jornal O Globo noticia, em reportagem assinada por Thiago Herdy:

“Ex-marqueteiro do PT assina acordo para iniciar delação
“CURITIBA — O ex-marqueteiro do PT João Santana e sua mulher e sócia, a empresária Mônica Moura, assinaram termo de confidencialidade com a Procuradoria-Geral da República (PGR), documento que marca o início do processo formal de colaboração premiada. Presos em Curitiba há cinco meses, dessa vez o casal tenta fechar uma delação em dupla — no início de abril Mônica tentou acordo individual, mas os termos não foram aceitos pelos procuradores.”

Aparentemente, João Santana parou de “embromar”, na expressão dos ventríloquos que falam pela boca da marionete Natuza Nery, e entendeu a mensagem. As negociações que estavam “mornas” foram subitamente aquecidas, depois do recado passado pelas páginas do jornal da família Frias.

Durante a ditadura, a Folha da Tarde, de propriedade de Octavio Frias de Oliveira (pai do atual diretor da Folha), notabilizou-se por publicar “recados” da ditadura militar a respeito do destino de “subversivos”. As mortes de guerrilheiros de esquerda eram noticiadas pelo vespertino paulistano antes da ocorrência real. É uma história bem documentada no livro “Cães de Guarda”, de Beatriz Kushnir. O livro pode ser baixado inteiro neste link, mediante cadastro na Unicamp: http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000231037

Na página 310 do livro de Kushnir, é relatado o episódio da morte anunciada de Joaquim Alencar de Seixas, militante do MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes). Noticiada em 17 de abril de 1971 pela Folha da Tarde, só veio a ocorrer no dia 19. A história também pode ser lida neste depoimento do filho de Seixas, Ivan, preso e torturado como o pai: http://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/ivan-seixas/

Agora a imprensa não noticia mortes antes da hora, mas noticia delações premiadas que ainda estão por ocorrer. Agora não há pau de arara, mas há prisões temporárias sem limite temporal. É lamentável que jornalistas do primeiro time da imprensa brasileira se prestem ao papel de meninos de recados de justiceiros que, escondidos atrás do anonimato, não querem limpar a política brasileira, mas apenas se livrar de políticos com os quais não concordam e que, apesar de toda a campanha contra, continuam liderando as pesquisas eleitorais.

O post A Folha publica recados da Lava Jato – assim como publicou recados dos militares na ditadura. Por Raymundo Gomes apareceu primeiro em Diário do Centro do Mundo.

15 Jul 17:08

AS FANTÁSTICAS TIRINHAS FEMINISTAS DA GUTA GARATUJA

by lola aronovich
Esta semana recebi um email da Kaká. Já tinha visto uma ou outra tirinha da sua personagem Guta Garatuja mas, como não tenho Facebook, não sabia bem quem era. 
Mas agora vi um monte de cartuns, e ela é excelente! Pedi pra ela se apresentar, e ela me enviou uma auto-entrevista. E também uma tirinha feita só pra cá.
Se você ainda não conhece, conheça a Guta Garatuja. Ela tem uma página já com mais de 35 mil seguidores no FB e um blog. Prazer, Kaká! (Clique nas tiras para ampliá-las).
1)      Você poderia se apresentar?
Meu nome é Karina (Kaká), tenho 30 anos e sou a criadora das tirinhas feministas da Guta Garatuja. 
2)      Desde quando você faz tirinhas?
A primeira tirinha que eu criei foi mais ou menos em outubro de 2015 após uma discussão que tive com um colega que tem um discurso bastante machista. Senti que saí da discussão com várias coisas “engasgadas”, mas que não valeria a pena continuar com a conversa, pois ele não estava aberto ao debate e apenas queria polemizar de forma agressiva. Decidi então fazer uma tirinha que expressasse aquilo que eu queria ter dito. Quando vi, eu já tinha 7 tirinhas feitas e toda minha raiva tinha passado. Escolhi uma delas e postei somente para meus amigos no Facebook. Imediatamente várias amigas minhas comentaram que já tinham passado por algo semelhante e senti um certo alívio de ver que nenhuma de nós estava sozinha nessa luta.
3)      Por que você escolheu as tirinhas?
Eu gosto muito de me comunicar através de humor e sou fã de tirinhas. Acho uma forma inteligente de passar uma mensagem rápida de forma descontraída.
Machismo é um problema extremamente sério que ofende, machuca, traumatiza e mata mulheres todos os dias no mundo todo. Uso um meio de comunicação leve para tratar um assunto tão pesado, pois essa foi a maneira que encontrei de me comunicar tanto com as feministas como também com pessoas que ainda não se engajaram no movimento mas que, ao ler a tirinha, param para refletir sobre o assunto. Para quem quer se aprofundar no feminismo, existem inúmeros blogs como o Escreva Lola Escreva que compartilham ótimo conteúdo de forma muito mais detalhada. 
4)      Suas tirinhas são autobiográficas?
No começo minhas tirinhas eram inspiradas nas minhas experiências, depois comecei a receber sugestões de amigas e seguidoras.  
5)      Qual é o seu objetivo com as tirinhas da Guta Garatuja?
Meu objetivo é compartilhar experiências (boas e ruins) com minhas seguidoras e também usar o humor para problematizar e levantar discussões sobre situações tidas como normais, mas que reproduzem algum tipo de opressão. Através da Guta Garatuja eu busco empoderar e unir mulheres.
6)      Por que você não posta fotos suas e nem revela sua identidade no site ou na página do Facebook?
Ser mulher nas redes sociais já nos expõe a algumas situações desagradáveis mesmo sendo “pessoa anônima”. Através da Guta eu abordo temas que geram bastante polêmica e embora a grande maioria das mensagens que recebo sejam inspiradoras e empoderadoras, também acabo recebendo contato de propagadores do discurso de ódio. Minha página no Facebook, por exemplo, já foi derrubada por pessoas mal intencionadas. Por esse tipo de situação eu prefiro manter minha identidade preservada. Não tenho a intenção de me tornar uma figura pública. Apenas quero me expressar e pra isso deixo a Guta falar por mim.
09 Jul 02:08

15 séries para ver no Netflix agora e esquecer o Temer. Por Pedro Zambarda

by Pedro Zambarda de Araujo

 

Eduardo Cunha renunciou à presidência da Câmara dos Deputados em Brasília nesta quinta-feira (7) e dizem que ele parece o personagem Frank Underwood de “House of Cards”. Mesmo com o noticiário político frenético, seriados no Netflix ajudam a explicar o atual momento — ou são puro e simples escapismo para quem quer dar um tempo da quadrilha do Temer.

Separamos 15 séries para você assistir agora.

House of Cards

Com quatro temporadas de 13 episódios, a série sobre o congressista Frank Underwood interpretado por Kevin Spacey dá um excelente exemplo de como os bastidores da política dos EUA são intrigantes. O político americano foi comparado diversas vezes com Cunha por suas articulações no Congresso e sua completa falta de escrúpulos, mas é em cargos executivos que ele dá seus piores golpes.

E mesmo criticando seu perfil psicopata, você torce para o protagonista se dar bem na série. House of Cards foi vencedor dos prêmos Emmy e Globo de Ouro. Sua produção foi realizada pela própria Netflix.

Narcos

Seriado com nova temporada prevista para 28 de agosto, a série do traficante colombiano Pablo Escobar, interpretado pelo brasileiro Wagner Moura, traz paralelos diretos com o narcotráfico brasileiro e com o escândalo Helicoca que envolveu Aécio Neves. A série atualmente tem uma temporada na Netflix de 10 episódios.

A direção fica nas mãos de José Padilha, o mesmo de Tropa de Elite que deve produzir em breve uma série baseada na Operação Lava Jato.

Marco Polo

No dia 30 de junho chegou uma nova temporada desta produção original da Netflix. Percorrendo a vida do explorador e mercador italiano Marco Polo, o seriado tem duas temporadas de 10 episódios cada.

A história atualmente passa pelo de Kublai Khan, imperador da Mongólia que dominou boa parte a Ásia. O enredo instiga o leitor a estudar a cultura oriental em combates sanguinários e, sim, políticos de um personagem que percorreu o mundo.

Orange is the New Black

A vida na cadeia da golpista Piper é plena de vida: relacionamentos, casos bissexuais e homicídios. Tudo baseado na biografia de uma americana que tomou o rumo errado.

A séria foi inspirado na livro de mesmo nome de Piper Kerman sobre sua temporada em cana. Menos romantizadas do que o seriado dirigido pela diretora Jenji Kohan, que começou trabalhando em Fresh Prince of Bel-Air de Will Smith nos anos 90, além de Friends.

Orange is the New Black tem quatro temporadas de 12 episódios e é uma produção original Netflix.

River

Esquizofrênico, o detetive John River tem que lidar com sua doença e com os casos que investiga. A série tem apenas seis capítulos e estreou em 2015 na BBC da Inglaterra, para chegar agora na Netflix.

O protagonista é interpretado pelo ator sueco Stellan Skarsgard, o mesmo que atuou em “Ninfomaníaca Partes 1 e 2” do diretor Lars Von Trier. No enredo, ele precisa investigar a morte de sua colega Jackie Stevenson, interpretada por Nicola Walker, enquanto outros crimes e fantasmas do passado o atormentam.

Vikings

Em três temporadas de 10 episódios, o seriado conta a história do viking Ragnar Lothbrok em sua missão de dominação dos nórdicos. O guerreiro é interpretado pelo ator australiano Travis Fimmel, o mesmo que faz o cavaleiro Anduin Lothar no filme Warcraft de Duncan Jones.

Disponível na Netflix, Vikings foi distribuída no History Channel e é dirigida por Michael Hirst, o mesmo do seriado de época The Tudors.

A série mostra os desdobramentos políticos de conflitos tribais, indo na direção de clima épico presente em outras ficções de guerra, como Game of Thrones.

The Tudors

Repleto de luxúria e violência, a série Tudors percorre a história da corte inglesa do século 16. Fala do reinado de Henrique VIII, pai da Igreja Anglicana e um dos responsáveis pelo rompimento da Inglaterra com o catolicismo.

O diretor é o mesmo de Vikings e trata a amante de Henrique, Ana Bolena, como uma protofeminista. Apesar de se inspirar em eventos reais, Tudors altera alguns acontecimentos históricos.

A princesa Margaret, por exemplo, é a representação de duas irmãs do rei na vida real. As idades também foram alteradas. A série tem quatro temporadas de 10 capítulos.

The Borgias

Tramas políticas também podem mergulhar na história nos Papas da Igreja Católica. Borgias tem três temporadas de 10 episódios e conta a história dos sacerdotes religiosos em Roma na época da Renascença entre os séculos 14 e 17.

O ator inglês Jeremy Irons protagoniza como o Papa Alexandre VI, que foi pai de muitos filhos de suas amantes. Distante do voto de castidade, o Santo Padre retratado pela série era visto como algo autoritário e libertido. Seu nepotismo colocou boa parte de seus parentes no poder do Vaticano.

Seu nome de batismo era Rodrigo, em inglês Roderic, em italiano Rodeiro Borgia — daí o nome do seriado.

Demolidor

A melhor adaptação do “Homem Sem Medo” da editora Marvel, Demolidor tem duas temporadas de 12 episódios. A série relembra super-heróis marcantes dos quadrinhos na sua segunda fase, incluindo o Justiceiro e Elektra, em pleno subúrbio nova-iorquino de Hell’s Kitchen.

Produzida pela Netflix, o seriado honra muito mais o legado do personagem cego que se torna combatente do crime do que um filme lançado em 2003 pela Fox e com Bem Affleck no papel principal. O Demolidor encarnado por Charlie Cox lembra muito mais um lutador de rua do subúrbio, tanto num uniforme improvisado com um lenço no rosto quanto na armadura oficial.

Jessica Jones

Outra heroína da Marvel, a história da investigadora Jessica tem apenas uma temporada de 12 capítulos. Decadente, bêbada e detive particular, a protagonista enfrenta o passado diante do vilão Kilgrave. O enredo original da Netflix vai fundo na questão do abuso feminino e mostra uma personagem realmente feminista.

O destaque principal vai para a interpretação de Krysten Ritter, que consegue contar a história principal muitas vezes sem muita fala. Há rumores que Jessica Jones vai fazer parte de uma nova formação dos Vingadores, ao lado do namorado Luke Cage, que terá também um seriado próprio na internet.

Bojack Horseman

Roteiro nonsense com um homem-cavalo ex-comediante e decadente? Esta é a viagem na maionese por trás do seriado Bojack Horseman. O cavalo protagonista é interpretado pelo canadense Will Arnett, enquanto seu roomate humano desempregado Todd Chavez é encarnado por Aaron Paul, estrela de Breaking Bad.

Repleto de referências à cultura pop, a série da Netflix tem duas temporadas de 12 episódios e personagens animalescos que lidam com drogas, questões existenciais e muito bom humor.

Sense 8

Oito personagens com poderes especiais compartilham sensações em um seriado de uma temporada com 12 episódios. Minorias como gays e trans são representadas nos capítulos. Sense 8 é repleto de lutas e momentos de tensão no conflito de sobrevivência de cada um dos protagonistas.

A história tem essa abrangência graças às diretoras trans Lana e Lilly Wachowski. Para quem não lembra, foram elas que cuidaram da trilogia Matrix no final dos anos 90 e no começo dos anos 2000.

American Horror Story

Série vencedora do prêmio Emmy e com episódios sobrenaturais, ela apresenta diferentes histórias com quatro temporadas com 12 capítulos. A ideia dos produtores Ryan Murphy e Brad Falchuk foi produzir um seriado com diferentes histórias com começo, meio e fim, alguns deles inspirados em fatos reais.

Diferentes atores já fizeram parte do elenco de terror, incluindo a popstar Lady Gaga.

Better Call Saul

Herdeiro direto de Breaking Bad, a série conta a história do infame advogado Saul Goodman. Trata-se de um prequel, ou seja, eventos que aconteceram seis anos antes do surgimento de Walter White e a fabricação de suas drogas.

Os fatos do universo de Breaking Bad pensado por Vince Gilligan são tratados de maneira superficial, para estabelecer a ligação. A produção é da própria Netflix e tem duas temporadas com 10 episódios cada.

Arrested Development

Com três temporadas lançadas entre 2003 e 2006 – e a última em 2013 na Netflix -, Arrested Development é uma série de comédia que vai na linha de Seinfeld. A história é de uma família disfuncional que vive desventuras de relacionamento e até brigas por conta de sexo.

O personagem central é Michael Bluth, interpretado pelo americano Jason Bateman, que tenta manter seus parentes unidos a despeito de todas as diferenças e egos. Seu filho mais novo, George Michael, só representa decepções nos planos do pai. Ele é interpretado por Michael Cera, que também atuou como o namorado do filme Juno (2007) e uma versão cinematográfica do herói dos quadrinhos Scott Pilgrim.

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06 Jul 20:35

Ministro de Temer abre o jogo: encolher o SUS para beneficiar planos privados

by Fernando Brito

Do Valor, com meu grifo: O ministro da Saúde, Ricardo Barros, defendeu nesta quarta-feira a criação de uma espécie de plano de saúde popular, com custos menores, numa tentativa de aliviar os gastos do...

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01 Jul 14:21

Os 5 super poderes da mãe holandesa

by Ana Paula Risson
Allan Patrick

País rico é aquele que gasta uma fortuna imensa em infraestrutura viária para o modal mais caro possível, o carro, né? (fim da ironia)

Mãe é assunto delicado, só tem uma e a sua – assim como a minha – é a melhor do mundo. E isso não se discute. Mas deixa eu te contar uma coisa: ser mãe na Holanda exige um tiquinho extra de coragem, porque na terra dos moinhos, criar filhos é jogo duro.

Eu explico.

É que para ser mãe aqui, você terá que usar todos esses super poderes:

1. O poder da bicicleta porta-tudo

Claro, a bike. Não basta voce pedalar pelas ruas e ciclovias da cidade – desviando de scooters e turistas (sorry) – mas depois que o filhote nascer, você desenvolverá um talento incrível para pedalar com bebê e sacolas de compras tudojunto, tudopendurado na bicicleta. E acredite, você vai achar a coisa mais prática do mundo. Muito mais fácil do que achar vaga e estacionar carro nos canais de Amsterdam.

Mãe holandesa com crianças pedalando na bike

Super mãe holandesa... ATIVAR!  (Foto: CC BY NC SA Nik Morris (van Leiden), editado por Daniel Duclos para esconder o rosto da criança)

2. O poder de enfrentar chuva, vento e (de vez em quando) sol

Já está pedalando com a cria pra cima e pra baixo? Ótimo! Agora pensa em uma chuva incessante e em um vento cortante. Pronto, você passou de nível. Envolva os filhotes em uma resistente capa de chuva, calce as galochas e vamos lá pedalar. Sim, porque se você esperar o tempo melhorar para sair de casa, olha, você vai sair pouco, e as crianças precisam ir para a escola, para o parquinho, faça sol ou faça chuva.

os filhos da Ana felizes da vida na bike... Crianças na Holanda

...Em geral chuva, pra falar a verdade... (Foto: Ana Paula Risson)

3. O poder de sempre acomodar mais um

Este aqui é level hard. Você vai buscar o filhote na escola e na saída ouve um “manhê, o Pietertje pode brincar em casa?” Pode. Então você coloca seu filho e o amigo na bicicleta, pendura as mochilas das crianças com a sua bolsa no guidão e vai embora. De saltinho ou chinelo – eu aliás acho mais fácil pedalar de salto alto do que de chinelo, mas é pessoal.

mae-holandesa-bike_criancas

Bike holandesa é que nem coração de mãe... (Foto: CC BY NC SA Nik Morris (van Leiden), editado por Daniel Duclos para esconder o rosto da criança)

4. O poder de dar conta de tudo sem ajuda

Você tem faxineira, cozinheira, jardineiro, piscineiro, babá e afins? Que sorte a sua! Aqui não tem disso, não. A mãe holandesa dá conta. Da casa, dos filhos, da comida, da roupa e da vida.

E olha, super normal, tá? “Por que gastar dinheiro com algo que eu posso fazer eu mesma?”, diria a mãe holandesa. Pois é, e aquela graninha que você pagaria para alguém limpar a sua casa, você pode usar para sair para jantar com as amigas ou com a família… uma questão de prioridades.

5. O poder da comida prática (e da criança feliz)

A alimentação aqui até que é balanceada, se come muitas frutas e verduras, mas o café da manhã começa com chocopasta (creme de chocolate), pindakaas (manteiga de amendoim) e hagelslag (chocolate granulado).

Café da manhã na Holanda

Impressionante como a criançada aprende rapidamente a pronunciar "hagelslag" direitinho... (Foto: CC BY ND Troy Tolley)

E por mais que a mãe holandesa crie seus filhos de maneira saudável, depois de um dia cansativo, ela não se sentirá culpada em oferecer um dos “Pês” para a criançada no jantar: patat, pannenkoek ou pizza. Ou seja, batata frita - com muita maionese -, panquecas - normalmente doces - ou pizza. Eu ainda adicionaria o pão (brood) a esta lista porque um tostex de vez em quando não faz mal à ninguém. Crianças felizes, mãe feliz, não? Ou seria ao contrário? Enfim.

E depois que todos estão alimentados, de banho tomado, na cama antes das 8 da noite, a mãe holandesa lê uma ou duas historias para as crianças, dá um beijo de boa noite e abre uma garrafa de vinho como recompensa. Ou solta os cabelos, passa um batom, pula na bike, pedala até o seu café favorito e pede uma biertje (cerveja) para relaxar.

Mão holandesa aproveitando a vida

O super poder de aproveitar a vida (Foto: Roberta Risson)

 

Sim, a mãe holandesa sai de casa sozinha, sem medo de ser feliz. Acredite, eu sou mãe de três holandeses.

O artigo Os 5 super poderes da mãe holandesa foi retirado de Ducs Amsterdam.

24 Jun 13:09

A classe média quer chutar a escada

by Camila Tribess

O que reunia todas essas diferenças, para além da defesa da lei, da ordem e dos bons costumes? Tinham todos uma profunda aversão ao protagonismo crescente das classes trabalhadoras na história republicana brasileira depois de 1945. Não se tratava, muitas vezes, de algo racional. No mais das vezes, era uma reação instintiva, uma coisa epidérmica, uma náusea, um desgosto ver aquelas gentes simplórias, subalternas, ascender a posições de influência e mando. Vindas não se sabia de onde, como que emergindo dos bueiros, estavam agora nos palácios, nas solenidades. Pessoas bregas, cafonas, não se vestiam direito, nem sabiam falar, como poderiam ser autorizadas a fazer política e a frequentar os palácios? Era urgente fazê-las voltar ao lugar de onde nunca deveriam ter saído: o andar de baixo.

(Daniel Aragão Reis – O colapso do populismo: acerca de uma herança maldita. 2001)

Friedrich List, economista alemão adepto do protecionismo, foi popularizado recentemente por um economista sul coreano que questiona as “receitas” dos países ricos para os países em desenvolvimento. Surge assim uma expressão interessante que define bem o que muita gente das classes médias estão querendo hoje no Brasil: chutar a escada!

É impressionante e urgente ouvir e compreender como pessoas que de fato trabalharam muito para fazer uma faculdade, ter um bom emprego – apesar de milhões de dificuldades financeiras e sociais – hoje se colocam como exemplos de pessoas bem-sucedidas e sentem uma raiva inexplicável, um verdadeiro ódio de classe contra aqueles que estão trilhando caminho parecido ao seu.

Os inimigos são a empregada doméstica que conseguiu que o filho faça faculdade; o porteiro que conseguiu financiar uma viagem em 10x; a prima pobre que conseguiu comprar um apartamento pelo Minha Casa Minha Vida.

As classes hoje favorecidas do país conseguiram subir – pelo seu trabalho e esforço, mas principalmente por uma conjuntura favorável de crescimento econômico nacional – e agora, na hora da crise, querem “chutar a escada”, ou seja, aplicar medidas de governos de direita ou liberais que impeçam de fato que aqueles que ainda estão na base da pirâmide possam subir também.

Não querem justiça social nem políticas públicas que garantam diminuição das desigualdades. Seu ódio de classe não é contra quem os explora, mas sim contra os que, supostamente, podem concorrer com eles.

Querem empregada doméstica barata e sem direitos trabalhistas, querem escola particular para os seus filhos e que os filhos dos pobres continuem nas escolas públicas sucateadas. Querem os negros longe das universidades e querem ir fazer algum trabalho voluntário, contar histórias pra velhinhos em asilos e dar alguma esmola na rua para afagarem seus corações em processo de congelamento. O que não percebem é que na rifa das classes sociais e econômicas do país (ou seria do mundo?) as classes médias também perdem – e muito – seu poder político e econômico com as guinadas à direita.

A questão central dessa ideia de “chutar a escada” (ou seja, impedir que novos grupos ascendam socialmente) é garantir privilégios, mas nisso quem é especialista são as classes de fato detentoras de capital e que não hesitam em criar crises para lucrar com especulações. Engana-se aquele que acredita nas medidas de austeridade e liberalismo para garantir seus privilégios de classe média, de país médio.

Essas medidas, como apontou List, não são as que os países que querem se tornar desenvolvidos deveriam utilizar e, como atualizou Ha-Joon Chang, se estes mesmos países utilizassem seus próprios “conselhos”, não teriam economias desenvolvidas e fortes hoje.

Da mesma forma, com o perdão da analogia simplista, se essa classe média que hoje esbraveja contra os programas sociais e defende o ajuste fiscal liberal tivesse que crescer social e economicamente num contexto liberal, provavelmente não teria tido o sucesso que teve em um contexto diverso. É o clássico caso daqueles jovens que defendem o Estado mínimo, mas estudam para passar em concursos públicos. O problema é que quando essas pessoas que hoje querem chutar a escada perceberem que também dependem de salários, de aposentadorias e de incentivos do governo… bem, aí eles já terão sido jogados pra baixo, junto com a escada que ajudaram a chutar.

22 Jun 13:34

A nova moda do corte de árvores em São Paulo: a degola

by Ricardo Cardim
Allan Patrick

A mesma tolice está sendo feita em Natal.

 

árvore cortada em São Paulo - foto de Alessandra Araújo

Destruição sem causa, uma verdadeira “caça as bruxas”

São Paulo vive nesse ano uma verdadeira moda de “degolar” as suas árvores em derrubadas travestidas de “podas”, que removem toda a copa do exemplar, como se assim ela pudesse sobreviver.

Essa epidemia se deve a população e prefeitura apavoradas com as árvores que insistem em cair por falta crônica de cuidados, seguindo talvez uma suposta lógica de que árvore boa é a árvore sem copa, porque aí não oferece riscos de queda.

Isso está ocorrendo em toda a cidade. Aqui no blog recebemos muitas denúncias semelhantes por dia, e que tem aumentado bem ultimamente. A vítima dessas fotos fica na Rua Sampaio Vidal, ao lado do restaurante Mercearia do Conde. Trata-se de um pau-ferro (Caesalpinia ferrea) da Mata Atlântica em estado fitossanitário aparentemente adequado, adulto, com as característica típicas da espécie, como sua madeira de resistência extraordinária, e que foi sumariamente destruído por motivações alheias que certamente não atendem o interesse coletivo e de qualidade de vida da metrópole. As perguntas são: a quem isso interessou? Qual técnico autorizou? Sob qual argumento?

árvore a ser cortada em São Paulo - foto de Alessandra Araújo

O frondoso pau-ferro (Caesalpinia ferrea) antes de sua destruição

 

árvore cortada em São Paulo - foto de Alessandra Araújo 2

Tronco em bom estado, com a madeira (cerne) em boas condições. Isso sem considerar a qualidade e dureza da madeira dessa espécie, tão resistente que recebeu no nome “FERRO”

árvore cortada em São Paulo 3- foto de Alessandra Araújo

Chega a ser cômico o “6 dias úteis para apresentar recurso a partir da publicação no DO” Qual cidadão tem tempo de ler o Diário Oficial todo dia para saber se as árvores de sua rua estão em perigo?

árvore cortada em São Paulo - foto de Ricardo Cardim

Aqui outra árvore degolada de forma idêntica na Avenida Europa, mostrando indícios de que existe um padrão na atual gestão.

Os cidadãos revoltados com esse corte elaboraram um abaixo assinado, abaixo:

https://secure.avaaz.org/po/petition/Subprefeitura_de_Pinheiros_Sao_Paulo_Capital_Criar_um_simbolo_de_maus_tratos_com_nossas_arvores/?cQbArab

Ricardo Cardim

12 Jun 22:36

Marina, o “caixa 2 da OAS” e o castigo da hipocrisia.

by Fernando Brito

A revelação do empresário Léo Pinheiro, da OAS, de que a campanha de Marina Silva recebeu dinheiro “por fora” da empreiteira na campanha de 2010 não tem, para mim, nada de surpreendente. Aliás, não...

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05 Jun 13:12

Mamãe, eu não te entendo

by Ruri

Ruth tem uma mania de não sair da cama quando acorda: ela grita. Se acorda de madrugada, ela começa a gritar “mamãe”, “mamãe”, “mamãe” em intervalos que começam com 5 segundos e vão reduzindo até chegar a 1 milésimo de segundo, e o tom de voz vai aumentando. Pode ser para arrumar o cobertor, reclamar de alguma dor imaginária, avisar que está chovendo ou pedir para fazer xixi, ela não se move um milímetro, ela abre os olhos e começa a gritar.

Num gosto não de ser acordada de madrugada.

Aí hoje, ao sair da minha cama com os berros, eu disse para ela:

– Você não precisar ficar gritando “mamãe” quando tiver vontade de fazer xixi. Levante, vá até o banheiro, aí você volta para o quarto e continua dormindo, que tal?

– Não dá.

– Por que não dá?

– Porque você brigou comigo quando saí do quarto uma vez.

Ruth, eu não quis te contar a verdade, então disse que você tinha razão e que a mamãe é confusa. Mas aconteceu esta semana que pus os dois para dormir e saí andando pela casa totalmente no escuro e sentei no sofá da sala com tudo apagado e resolvi que ia ler absolutamente todas as notícias do fidi do feicebuqui e quando olho para o lado e dou de cara com a versão O Chamado de cabelos cacheados e gritei igual quando vejo taturana.

Nunca mais quero passar por isso.


02 Jun 18:54

QUERO SER MULHER SEM TEMER

by lola aronovich
Cartum do Benett
Todxs nós reclamávamos muito da Dilma, que certamente não estava fazendo o governo de esquerda que esperávamos (lembrando, claro, que uma presidenta não governa sozinha; precisa, inclusive, dialogar com o Congresso mais retrógrado do Brasil desde o início dos anos 60). E só ter uma mulher no poder não fez com que o Brasil avançasse o necessário no combate a violência contra as mulheres nem na maior representatividade feminina. 
Porém, vendo este início de governo Temer, já dá pra dizer: nós éramos felizes e não sabíamos. 
Todos os homens do presidente
Governo entre aspas, porque este é um mandato ilegítimo de um golpista. Só com um ministério cheio de homens brancos, Temer fez com que o Brasil caísse 22 posições no ranking de igualdade de gênero, organizado pelo Fórum Econômico Mundial. O ranking ainda não saiu (sai no segundo semestre todo ano), mas, só por não ter ministras, nosso país irá da posição número 85 (entre 145 países) para a 107. Entre os 145 países pesquisados,  apenas 5 têm um número igual de mulheres e homens em seu ministério. E apenas 5 têm zero ministras. O Brasil agora entra nesta seleta lista. Isso sim é retrocesso! (E pros reaças que dizem, ah, não importa o que ministro tem entre as pernas, o que importa é a meritocracia -- bom, sua opinião é importantíssima pra gente, mas lamento informar que um ranking que põe o Brasil em 107o lugar é mais importante).
Um dado que não tem muito a ver com o governo, só que serve como mais um argumento contra os reaças do "gênero não importa": a consultoria McKinsey aponta que empresas com força de trabalho mista (tanto mista em gênero como em aspectos raciais) registram lucros 35% acima das empresas sem o que é chamado de "dividendo da diversidade". Ou seja: diversidade é boa para os negócios. E é ótima para o país também. 
Voltando a este desastroso governo, o tapa na cara da vez é a nomeação de Fátima Pelaes para ser Secretária Nacional de Políticas para as Mulheres. 
Ontem na Av. Paulista
Como explica Nana Soares, "Entre as medidas que chamaram atenção esteve o rebaixamento da Secretaria de Políticas para as Mulheres, que perdeu seu peso de Ministério. Já seria preocupação o suficiente, ainda mais considerando que as outras Pastas são todas chefiadas por homens brancos, mas o presidente interino mostrou que sempre pode piorar e indicou a ex-deputada Fátima Pelaes para chefiar a Secretaria daqui para a frente".
Evangélica, ex-deputada federal pelo Amapá, atual presidenta nacional do PMDB Mulher, Pelaes é contra a legalização do aborto em todos os casos, inclusive em casos de estupro. Ela já relatou, em 2010, que ela é fruto de um estupro. Ela já foi a favor da descriminalização do aborto, mas mudou de posição em 2002, quando "conheceu Jesus". E, pra finalizar, ela fez parte de uma articulação criminosa que está sendo investigada pelo Ministério Público Federal por desviar 4 milhões de suas emendas parlamentares.
É vergonhoso ter uma pessoa com posicionamentos tão arcaicos num cargo tão fundamental. Mas o que esperar do governo Temer, fora que acabe o mais rápido possível?
Foto do meu irmão Ig, que tem com a Lou o site Lost Art
Como disseram as guerreiras que participaram do ato #TodasPorElas, ontem na Av. Paulista, em SP (houve manifestações por todo o país, e haverá outras: este será um #JunhoFeminista): quero "ser mulher sem temer". Você entendeu o duplo sentido. 
01 Jun 17:41

A delação que foi desprezada porque inocentava Lula. Por Paulo Nogueira

by Paulo Nogueira
Esquadrão anti-Lula

Esquadrão anti-Lula

Qual surpresa em que uma delação foi desprezada porque não crucificava Lula no apartamento do Guarujá e no sítio de Atibaia?

Os pedalinhos não são a prova do crime? Não servem. A reforma no triplex que não é do Lula também não é prova do crime? Não serve.

O presidente da OAS que rearrange sua história para que ela caiba na narrativa do ‘Lula-chefe-de-quadrilha’, ou vai apodrecer na cadeia.

Pode mentir, pode fabricar coisas na delação: o importante é matar Lula. Depois a Justiça dá um jeito. Não haverá nenhuma intenção de checar os fatos. E a mídia publicará suas manchetes e colunas em que Lula é um gangster em meio a virgens como Aécio, FHC, Temer e outros protegidos dos Marinhos e côngeneres.

Isto é a Lava Jato. Isto é Moro. Isto é a plutocracia. Isto é, numa palavra, o golpe.

Tampouco surpreende que apenas agora a Folha publique textos desta natureza. Ela participou freneticamente do golpe. Agora, derrubada Dilma, é tempo de tentar reconstruir a credibilidade perdida. Enquanto Globo, Estado e Veja praticam o jornalismo chapa branca mais descarado possível, a Folha quer parecer imparcial.

Mas repito: este surto de imparcialidade pré-fabricada veio apenas depois que a vítima virou cadáver.

A natureza do caso da delação rejeitada mostra um aspecto que a sociedade mais informada sabia há muito tempo. A Lava Jato foi feita para arrasar Dilma, Lula e o PT.

Moro agiu como militante plutocrata fantasiado de juiz. Mal fantasiado, aliás. Como esquecer as imagens em que ele aparece, sorridente e deslumbrado, ao lado de João Roberto Marinho? E as fotos com caciques do PSDB como João Dória?

Todos os citados na Lava Jato que não eram ou não são petistas foram alcançados por balas perdidas.

Aécio, por exemplo. Delcídio contou, no meio de sua delação, que Aécio mamava em Furnas. A imprensa passou ao largo disso. A infame capa da IstoÉ com a delação de Delcídio ignorou Furnas. Porque aquele trecho não apenas incriminava Aécio como mostrava o papel de Dilma ao combater a roubalheira em Furnas.
Delcídio contou que a origem das hostilidades de Cunha contra Dilma se deveu a que, na limpeza feita por ela, um pau mandado dele foi mandado embora. Os donos das companhias jornalísticas e seus fâmulos nas redações e nas colunas fingiram que o caso Furnas não tinha importância na fala de Delcídio.

Era, repito, uma bala perdida.

Na trama golpista, a Lava Jato de Moro sempre teve um só alvo: o PT. Mais especificamente, Lula e Dilma.

O resto é silêncio, para usar a grande frase de Shakespeare.

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01 Jun 12:44

Túnel do tempo

by Ruri
Allan Patrick

Um vidro de azeitona que nem quebrou já nem parece tão grave assim :)

Acorda cedo, leva crianças na escola, corre 5k (apenas o que cabe no tempo disponível para academia), toma banho, pega três metrôs, um ônibus, trabalha o dia todo, faz todo o percurso de volta, chega na porta da escola.

– Olá, mamãe. Hoje Isaac pegou a cabeça da Ruth e bateu na parede e <outras coisitas mais relacionadas a quebrar regras e não respeitar os educadores>.

– E a Ruth enfiou a mão toda dentro da boca para vomitar de propósito e se sujou inteira.

Aí você anda os poucos metros que separam a escola de casa pensando que, em vez de relaxar e falar amenidades e brincar, você vai ter que conversar sobre não resolver os problemas batendo na irmã ou xingando a professora e sobre que história é essa de vomitar de propósito e ainda vai ter que lavar roupa fedendo vômito. Abre a porta e descobre que seu cachorro derrubou uma fruteira no chão e encontra cacos de vidro em toda cozinha, área de serviço e sala. Não só isso: ele derrubou a fruteira em cima de uma poça de xixi que ele fez no chão, já que ele também tinha comido o tapete higiênico que deveria servir como banheiro. Então você adia a conversa sobre questões da escola para decidir se é melhor varrer cacos de vidro molhados de xixi ou se é melhor passar um pano em xixi cheio de caco de vidro e demora uns 25 minutos para limpar a coisa toda.

Mano.

Tá muito difícil chegar viva aos 35. Meu melhor presente de aniversário este ano seria passar um dia inteiro em 2011, aos 30, bem longe dos 40, sem filhos, sem Temer no governo, sem cacos de vidro no chão da cozinha.


30 May 17:33

Greenwald versus os barões da mídia. Por Paulo Nogueira

by Paulo Nogueira
O casal Greenwald e Miranda: combatendo o bom combare

O casal Greenwald e Miranda: combatendo o bom combate

O jornalista Glenn Greenwald é um tipo raro de homem que pode ser qualificado como exército de um homem só.

Isso ficou particularmente claro no embate entre ele e toda a imprensa brasileira pela narrativa no plano internacional dos acontecimentos que levaram à derrubada de Dilma.

Greenwald ganhou. Por nocaute.

Por um motivo: ele é uma voz ouvida e admirada em todo o mundo ao contrário do que acontece com a provinciana mídia nacional.

Coube a Greenwald liquidar com as falácias que chegavam ao exterior pelos veículos dos Marinhos, Civitas, Frias e Mesquitas. Bastou uma entrevista sua à CNN em que ele descreveu o golpe como ele é.

Quase que simultaneamente, seu companheiro David Miranda publicou um texto extraordinário no Guardian britânico.

Pronto. Num lado e no outro do Atlântico, foram jogadas luzes sobre a conspiração plutocrata que levou um bando de corruptos para o Planalto.

É sorte para o Brasil que Greenwald tenha optado há onze anos pelo Rio de Janeiro por seu amor por Miranda. Isso lhe deu um conhecimento sobre o país e sua mídia que fez agora toda a diferença.

Numa entrevista a Lula, ele disse jamais ter visto uma mídia tão partidária, parcial e portanto desonesta quanto a brasileira. No Twitter, chamou o JN de uma piada depois de sugerir que Bonner pusesse um bigode para narrar, como fizera com Lula e Dilma, os diálogos de Jucá com Machado.

Greenwald é odiado pelos barões da imprensa e seus fâmulos que se fantasiam de jornalistas por duas razões. A primeira é que, ao contrário deles, é uma referência internacional. A segunda é que ele representa valores opostos aos defendidos pelo que ele acertadamente chama de mídia plutocrática brasileira.

Greenwald se bate por uma sociedade igualitária, justa, em que um pequeno grupo de poderosos não esmague imensas levas de desvalidos.

Não surpreende que os Mesquitas estejam agora defendendo a expulsão de Greenwald do Brasil. Ao longo de sua história, os Mesquitas sempre estiveram por trás das causas mais devastadoras para o avanço da sociedade brasileira. Conspiraram, como agora, para os golpes de 1954 e 1964.

São tão bons para conspirar e tão ruins para jazer jornalismo que estão perpetuamente insolventes, mesmo com todo o dinheiro público e todos os privilégios fiscais que, como toda a mídia, caem sobre seus colos ineptos. (Até hoje a imprensa tem reserva de mercado e desde sempre é isenta de impostos na compra do papel com que imprime seus jornais e revistas.)

Onde estão os Mesquitas e seus companheiros de mídia plutocrática, estão coisas nocivas à sociedade. Por eles, seremos sempre uma República de Bananas, e nunca uma Escandinávia.

Se há alguma justiça mesmo num país cuja suprema corte parece a plutocracia togada, Greenwald não será expulso e nem sua voz suprimida entre os brasileiros.

No futuro, quando os historiadores escreverem sobre os tristes dias de 2016, Greenwald estará entre as mais vivazes, lúcidas e justas referências.

Quanto à narrativa criminosa dos Marinhos, Civitas, Frias e Mesquitas, ela estará onde já está tudo que estas famílias disseram em golpes plutocratas passados.

No lixo.

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28 May 20:48

José Trajano, da ESPN, protesta contra a presença de Danilo Gentili num programa do canal

by Kiko Nogueira
25 May 14:08

O MACHISMO NÃO SALVOU ANA HICKMANN, O MACHISMO QUASE A MATOU

by lola aronovich
Ontem o projeto de escritor Rodrigo Constantino falou mais das suas tradicionais besteiras, desta vez sobre como a masculinidade salvou Ana Hickmann. 
Rodrigo, o stalker
Vale ressaltar que essa ideia ridícula de que o cunhado másculo de Ana a salvou não é exceção, mas regra entre reaças. Eles são incapazes de ver que Ana foi salva por um homem de outro homem. O cunhado herói que reagiu ao ataque representa a masculinidade? E por que o stalker com desejo de matar não representa? Se vamos usar o caso para falar de masculinidade, vamos falar de todos os homens envolvidos (incluindo o cabeleireiro de Ana que, segundo o cunhado, salvou a vida de Giovana ao levá-la de táxi pro hospital).
E tem algo muito interessante que está sendo completamente ignorado pela mídia: Giovana, a cunhada de Ana, esposa do herói, assessora da apresentadora, que levou dois tiros (mas felizmente passa bem), também foi uma heroína. 
Giovana e Gustavo: cunhados heróis
de Ana Hickmann
Veja a partir de 8:10 até o décimo minuto a entrevista da apresentadora. Ana diz que o stalker atirou nela duas vezes: "Pelo jeito que o tiro passou do meu lado e pegou na minha cunhada, ela deve ter feito um movimento com o corpo pra me proteger. Eu não consigo imaginar de outro jeito".
Mas todos só falam de Giovana como vítima, não como heroína! Porque o ato de auto-sacrifício de Giovanna não cabe na narrativa da "masculinidade heróica" que adoram contar. 
A advogada e feminista Kamilla Barizon deu uma excelente resposta a Constantino. Conheçam as ótimas páginas da Kamilla! 

O machismo não salvou Ana Hickmann, o machismo quase a matou.
O ex-blogueiro da Veja, Rodrigo Constantino (aquele do vídeo do Dá-Bilhão?! também conhecido por usar t-shirt do Che Guevara com orelhinhas de Mickey Mouse e ainda pelo episódio em que escreve uma carta aberta ao povo americano pedindo votos para Ted Cruz), resolveu comentar o caso Ana Hickmann.
Com toda sua sagacidade, o economista traz: ANA HICKMANN ESTÁ VIVA GRAÇAS ÀS CORAGEM E VIRILIDADE DE UM HOMEM QUE REAGIU como título de seu mais novo texto.
Pois muito que bem, o moçoilo começa o texto falando que raríssimos são os que têm coragem de falar abertamente em masculinidade (não é o caso de Constantino que vira e mexe está por aí perguntando onde estão os machos?), porque, segundo o economista, teriam receio de serem tachados de machistas.
Rodrigo não tem esse receio e passa a defender a macheza, a virilidade, e por que não, a brutalidade, natural desse ser tão iluminado: o homem.
Em um dos melhores momentos do texto ele diz que: Ana Hickmann está aí, literalmente, para provar a importância da masculinidade e da fortaleza que leva até o auto-sacrifício. 
Uma das declarações de Rodrigo
para Ana
Vamos resumir aqui o caso da Ana Hickmann para o leitor(a): a apresentadora tinha um “fã” fanático, obcecado. Rodrigo (não o Constantino, o fã obcecado) a desejava, em suas redes sociais encontramos declarações insanas para a apresentadora, recheadas de mensagens com conteúdos pornográficos. Ele “a amava”, segundo suas mensagens. Bem sabemos que esse louco sentimento de posse que Rodrigo apresentava não é amor porra nenhuma (ao contrário do que diz o irmão do atirador, quem ama não invade o quarto da pessoa amada, armado e gritando desaforos).
Outra declaração de Rodrigo
Em busca da mulher que deveria ser sua, Rodrigo vai atrás da apresentadora em um hotel, entra armado e rende todos os presentes (Ana, a assessora e o cunhado). Armado, o criminoso passa a ofender a apresentadora que não correspondia ao seu "amor". No meio de tudo isso o cunhado, em defesa de Ana, da assessora e em sua defesa (pois acompanhando o caso é evidente que o desfecho seria a morte dos três seguida do suicídio do criminoso), de forma sim, muito corajosa, trava uma luta com “o fã”, consegue tomar a arma e atira nele.
Em resumo: um homem armado tenta assassinar uma mulher que não corresponderia ao seu amor.
Adivinhem vocês, carxs colegas, o objeto da crítica feita por Rodrigo Constantino em seu texto?
A indústria das armas? Não. 
[Nota da Lola pra quem defende armamento: bebês de um a três anos mataram mais pessoas este ano nos EUA do que terroristas. Pela atenção, obrigada].
O sentimento doentio de posse que os homens ainda têm perante as mulheres que lhes são objeto de desejo?
Ana e Giovana
NÃÃÃÃÃO! Rodrigo critica os pacifistas (!) e, claro, óbvio, evidentemente AS FEMINISTAS!
Rodrigo não perde a oportunidade de defender o armamento enquanto, sutilmente, aproveita qualquer deixa para falar das feministas.
Pra fechar o texto com chave de ouro, ele manda: 
contra essas pessoas armadas que querem matar inocentes, nada como um homem igualmente armado ou capaz de enfrentar o perigo para defender os demais. Foi isso que salvou Ana Hickmann. É isso que as feministas tanto atacam e condenam.
Do alto de seu conhecimento sobre a vivencia feminista Rodrigo me traz um insight: claro, sim, é isso que as feministas atacam e condenam -- o cunhado bem intencionado da Ana Hickmann.
As feministas não atacam e condenam a covardia de homens como Rodrigo (o atirador, não o Constantino, se bem que… enfim), as feministas não atacam e condenam a forma como esses homens doentes facilmente têm acesso à posse de armas, as feministas não atacam e condenam a forma como os homens apoiados na cultura patriarcal imaginam possuir as mulheres, as feministas não atacam e condenam homens que diariamente agridem e matam. O que as feministas tanto atacam e condenam são os homens como o cunhado de Ana Hickmann que esboçou uma digna reação de defesa.
Não vamos nem entrar no mérito e sair colando aqui links para mostrar que em diversas situações existia uma mulher igualmente capaz de enfrentar o perigo para defender os demais. Vamos apenas, diferentemente de Rodrigo Constantino, enxergar o óbvio: o machismo não salvou Ana Hickmann, o machismo quase a matou, como mata milhares de mulheres todos os anos.
25 May 13:22

Ela não deu aumento para o STF, mas o Cunha deu: a autópsia do golpe só faz Dilma crescer na foto. Por Kiko Nogueira

by Kiko Nogueira
Ela

Ela

 

Usado como fiador do discurso de que não houve golpe e as instituições funcionam normalmente e blábláblá, o STF aparece cada vez menor à medida em que o governo do interino agoniza e detalhes da doença são revelados.

Não apenas o Supremo, mas o Congresso e, obviamente, Temer, o anão moral.

Em menos de duas semanas de um governo desastroso que se vendia para trouxa como de “pacificação nacional”, quem cresce na fita é Dilma.

A segunda parte da pornografia do complô nas gravações de Sergio Machado, ex-líder do PSDB investigado na Lava Jato, traz Renan Calheiros oferecendo outros detalhes da autopsia do impeachment.

Transcrevo uma parte do diálogo publicado hoje na Folha:

MACHADO – [Interrompendo] O Cunha, o Cunha. O Supremo. Fazer um pacto de Caxias, vamos passar uma borracha no Brasil e vamos daqui para a frente. Ninguém mexeu com isso. E esses caras do…

RENAN – Antes de passar a borracha, precisa fazer três coisas, que alguns do Supremo [inaudível] fazer. Primeiro, não pode fazer delação premiada preso. Primeira coisa. Porque aí você regulamenta a delação e estabelece isso.

MACHADO – Acaba com esse negócio da segunda instância, que está apavorando todo mundo.

RENAN – A lei diz que não pode prender depois da segunda instância, e ele aí dá uma decisão, interpreta isso e acaba isso.

MACHADO – Acaba isso.

RENAN – E, em segundo lugar, negocia a transição com eles [ministros do STF].

MACHADO – Com eles, eles têm que estar juntos. E eles não negociam com ela.

RENAN – Não negociam porque todos estão putos com ela. Ela me disse e é verdade mesmo, nessa crise toda –estavam dizendo que ela estava abatida, ela não está abatida, ela tem uma bravura pessoal que é uma coisa inacreditável, ela está gripada, muito gripada– aí ela disse: ‘Renan, eu recebi aqui o Lewandowski, querendo conversar um pouco sobre uma saída para o Brasil, sobre as dificuldades, sobre a necessidade de conter o Supremo como guardião da Constituição. O Lewandowski só veio falar de aumento, isso é uma coisa inacreditável’.

MACHADO – Eu nunca vi um Supremo tão merda, e o novo Supremo, com essa mulher, vai ser pior ainda. […]

 

É tragicômico. Segundo o bate papo, a presidente do Brasil convidou o presidente da corte mais alta para debater a crise aguda.

Sentados os dois num gabinete, cafezinho na mesa, copo d’água, Lewandowski propôs a solução: aumentar o salário. Não rolou. Os caras ficaram “putos”. Claro, ué. Quem nunca?

Fim.

Um flashback rápido: em 28 de abril, o reajuste salarial do Judiciário ganhou caráter de urgência na Câmara dos Deputados — graças a Eduardo Cunha. Ele havia sido vetado no ano passado por Dilma Rousseff como parte do esforço pelo ajuste fiscal.

Sob a batuta de Cunha, o plenário aprovou, por 277 votos a 4, o pedido de urgência do projeto de lei 2648/15. A proposta será incluída na pauta a qualquer momento, mas não há previsão de votação. A proposta tem impacto orçamentário para 2016 de R$ 1,160 bilhão.

O afastamento de Dilma teve o efeito contrário do truque de tirar o bode da sala. Ela desapareceu e tudo o que era podre ressurgiu em sua falsa normalidade.

Deu ruim. Fica claro que Dilma não topou o jogo sujo. Seu retrato aumenta na parede. Se vivêssemos numa democracia, o caminho natural seria devolver a ela, no Senado, o mandato que lhe foi retirado no tapetão.

Se vivêssemos numa democracia.

 

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25 May 13:18

O que a nova conversa revela sobre Lewandowski e o STF, Otávio Frias e a Lava Jato, Aécio e o golpe — e Dilma. Por Paulo Nogueira

by Paulo Nogueira
E o golpe vai sendo brutalmente exposto: Renan

E o golpe vai sendo brutalmente exposto: Renan

O grande mérito da publicação das conversas gravadas é tornar brutalmente claro aquilo que as pessoas mais informadas já sabiam e que era negado pela mídia liderada pela Globo.

Foi golpe. E foi um golpe imundo, em que homens e instituições moralmente putrefatos se uniram para derrubar uma mulher honesta que levou a investigação da corrupção a patamares jamais vistos.

A gravação de Renan, publicada hoje pela Folha, ajuda a compreender ainda melhor o que ocorreu.

Mais uma vez, o STF aparece com destaque na trama golpista. E isto é desesperador: você pode cassar políticos. Mas como lidar com um poder que julga a si mesmo?

Num mundo menos imperfeito, o STF seria imediatamente dissolvido, tais as acusações e as suspeitas que recaem sobre seus integrantes.

Mas como fazer isso?

Escrevi ontem e repito agora: o STF era o grande argumento pelo qual a Globo, em nome da plutocracia, atacava como “alucinação” e “conto da carochinha” a tese do golpe.

Na conversa agora divulgada, Renan diz que todos os eminentes juízes do Supremo estavam “putos” com Dilma.

O motivo não poderia ser mais canalha: dinheiro.

Renan relata uma visita que fez a Dilma. Ela conta que recebeu Lewandowski para o que imaginou que fosse ser um encontro de alto nível sobre a dramática situação política do país.

Mas.

Mas Lewandowski “só veio falar em dinheiro”, disse Dilma. “Isso é uma coisa inacreditável.”

Há muitas coisas inacreditáveis em relação ao STF, a rigor. A demora de quatro meses de Teori para acolher o pedido de afastamento de Eduardo Cunha é uma delas. As atitudes sistematicamente indecentes e partidárias de Gilmar Mendes e seu mascote Toffoli são outra delas.

O interlocutor de Renan na conversa, o mesmo Sérgio Machado de Jucá, produziu a melhor definição do STF destes tempos. “Nunca vi um Supremo tão merda.”

Outros personagens destacados do golpe aparecem neste diálogo vazado. A Folha, por exemplo, se bateu intensamente pela queda de Dilma. Mais especificamente, seu dono e editor, Otávio Frias Filho.

Ele é citado por Renan como tendo reconhecido exageros na cobertura da Lava Jato.

Ora, ora, ora.

Se reconheceu o caráter maligno do circo da Lava Jato, por que ele não fez nada? Ele era apenas o ombudsman do jornal, ou o porteiro do prédio?

Bastaria uma palavra sua para retirar o exagero da cobertura. Se não a pronunciou, é porque era conivente ou inepto como diretor.

Faça sua escolha.

Aécio surge acoelhado. Tinha medo da Lava Jato, diz Renan. Sabemos agora que Aécio não é apenas demagogo, hipócrita e corrupto.

É também covarde.

E é neste campo que, sem saber que era gravado, Renan presta um extraordinário tributo a Dilma. “Ela não está abatida, ela tem uma bravura pessoal que é uma coisa inacreditável.”

Os colunistas da imprensa, nestes dias, diziam freneticamente que Dilma estava abatida.  Era gripe, informa Renan. “Ela está gripada, muito gripada.”

Se existe algum tipo de decência no Brasil – de justiça não dá para falar, dado o STF – Dilma tem que receber um formidável pedido de desculpas dos brasileiros e ser reconduzida ao posto do qual canalhas golpistas a retiraram.

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25 May 13:05

'Renan, eu fui do PSDB dez anos, Renan. Não sobra ninguém, Renan', diz empresário em nova gravação

by Antonio Mello



A Folha divulgou hoje nos trechos de gravações com o empresário Sérgio Machado, que foi presidente da Transpetro. Desta vez, são conversas dele com o senador Renan Calheiros.

Num trecho da conversa, Sérgio Machado fala sobre o pânico que tomava os políticos com  medo da Lava Jato. Diz que todos estão sentindo um aperto no ombro.

MACHADO - E tá todo mundo sentindo um aperto nos ombros. Está todo mundo sentindo um aperto nos ombros.  

E Renan fala em Aécio Neves.

RENAN - Aécio está com medo. [me procurou] 'Renan, queria que você visse para mim esse negócio do Delcídio, se tem mais alguma coisa.' 

E o empresário, que foi filiado ao PSDB, mostra que a preocupação de Aécio não é só dele, mas dos tucanos como um todo:

MACHADO - Renan, eu fui do PSDB dez anos, Renan. Não sobra ninguém, Renan. 

O ministro Teori Zavascki homologou na noite de ontem (dia 24) a delação premiada do empresário Sérgio Machado, incorporando as denúncias ao processo.

O aperto no ombro da turma ficou ainda maior.

É lenha.

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Madame Flaubert, de Antonio Mello

25 May 13:04

Dilma recebeu presidente do STF pensando que ele queria falar sobre o Brasil. Mas ele só queria saber do aumento do Judiciário

by Antonio Mello



A revelação está em trecho do vazamento da delação do empresário Sérgio Machado, publicada hoje na Folha.

Em conversa com Renan Calheiros, presidente do Senado, este diz que havia conversado com a presidenta Dilma, ainda antes da aprovação do pedido de impeachment, e ela lhe confidenciou que havia recebido no Palácio o presidente do STF Ricardo Lewandowski.

RENAN - Estavam dizendo que ela [Dilma] estava abatida, ela não está abatida, ela tem uma bravura pessoal que é uma coisa inacreditável, ela está gripada, muito gripada– aí ela disse: 'Renan, eu recebi aqui o Lewandowski, querendo conversar um pouco sobre uma saída para o Brasil, sobre as dificuldades, sobre a necessidade de conter o Supremo como guardião da Constituição. O Lewandowski só veio falar de aumento, isso é uma coisa inacreditável'.

Inacreditável não é. Tanto que não só Lewandowski, como outros ministros do STF e até o PGR Janot procuraram Eduardo Cunha [imagem],quando este ainda era presidente da Câmara, para tratar desse mesmo assunto, o aumento do Judiciário. E, "coincidentemente", só aprovaram o afastamento dele, após terem recebido o que queriam. Leia sobre isto aqui: Cunha solto, golpe em marcha, desemprego, país paralisado, e STF pressiona por aumento do próprio salário.


Esta a verdadeira estatura de nosso STF, que em verdade deveria ser ITF, Ínfimo Tribunal Federal.


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