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15 Jan 01:05

Sobre Ter Vários Filhos e a Teoria do Pato

by Thiago Queiroz

Esse é, oficialmente, o primeiro texto que escrevo como um pai de três filhos. A Maya tem pouco mais de 1 mês de vida, mas já parece que eu sou pai dela há anos.

Caso você não me conheça, eu também tenho mais dois filhos: Dante, de 5 anos, e Gael, de 3 anos. Eu já mudei muito desde o nascimento do meu primeiro filho, mas também sinto como se tivesse mudado ainda mais só nesse último mês.

Uma dessas mudanças foi uma percepção de vida. Na verdade, foi a conscientização de uma limitação que já vinha aparecendo aqui e acolá, mas eu me recusava a percebê-la e abraçá-la. É o que eu chamo de Teoria do Pato.

Pois é, o pato. Sabe esse animal fofinho? Bem, há um ditado que diz:

O pato nada, o pato anda e o pato voa e o pato não faz nada direito!

É bem assim que eu venho me sentindo com a paternidade, e talvez você também se sinta assim na sua paternidade ou maternidade. Eu já me sentia assim quando eu era pai apenas do Dante e do Gael, mas hoje eu tenho toda certeza de que eu estava em negação.

Pense comigo: com mais de um filho, você percebe que é capaz de fazer muitas coisas diferentes, com os seus dois — ou três, ou mais –filhos, mas a sensação de que você nunca será suficiente para todos os seus filhos é uma sensação que não larga você.

Por muito tempo, eu pensei que isso era só um fator do cansaço de ser pai e mais um monte de outras coisas que eu inventei de ser, mas na verdade, é algo bem inerente à vida de quem tem filhos. O problema é que eu achava que assumir isso para mim mesmo era uma certa derrota. Era admitir que eu não era um pai bom o suficiente.

Mas será que é uma derrota mesmo? O que é ser um pai bom o suficiente?

Acontece que, com dois filhos, eu até conseguia jogar esse sentimento para debaixo do tapete, mas o nascimento da Maya, especificamente, foi o evento que fez a minha ficha cair: eu sou um pato.

Eu ainda escreverei sobre como foi a minha experiência no nascimento da Maya e tenho certeza que a Anne, em breve, fará o relato de parto dela — como eu sei que você talvez esteja interessado em saber. Contudo, o que eu posso adiantar para você foi que a sensação de que eu era um pato foi bem presente durante todo o parto.

Durante a maior parte do parto, a Anne ficou no nosso quarto. E, apesar de os meninos terem aparecido no quarto e visto um pouco da Anne durante o trabalho de parto, eles passaram a maior parte do tempo na sala, seja brincando ou assistindo televisão.

Eu ficava revezando entre estar com a Anne e estar com os meus filhos. E, claro, havia uma equipe acompanhando a Anne, então tínhamos amigos e profissionais que podiam ajudar tanto com a Anne quanto com os meninos.

Então, nos momentos em que eu estava com a Anne, eu podia vivenciar aqueles momentos tão especiais com ela, observando as contrações indo e vindo, dando o apoio que eu poderia dar a ela, e ficando admirado pela beleza e potência da Anne. Por outro lado, eu não conseguia parar de pensar também que, nesses momentos, eu não estava com os meus filhos e que eles provavelmente precisavam do pai deles naquele momento.

Já nos momentos em que eu estava com os meninos, era maravilhoso porque eu podia brincar com eles e tranquilizá-los com relação a tudo o que estava acontecendo na nossa casa. Só que, novamente, eu sentia que deveria estar com a Anne.

Em resumo, eu não me sentia inteiro em nenhum momento. Ou eu estava pensando nas crianças, ou na Anne, ou na piscina que precisava ser enchida com água quente.

Ao longo desse primeiro mês de vida, a sensação de pai pato também continuou. Não tão intensa quanto foi durante o nascimento da Maya, mas era inevitável não sentir isso quando eu precisava cuidar da bebê, ou quando precisava cuidar do Gael que se machucou, ou quando precisava intermediar uma das inúmeras brigas dos meninos.

Hoje, eu já consigo pensar mais gentilmente sobre isso. Não me sinto extremamente bem por não conseguir estar presente em todas as demandas, mas também não me sinto mais tão culpado. É, na verdade, um processo que eu preciso me lembrar constantemente de que estou fazendo o meu melhor e que eu não sou perfeito.

A propósito, penso que, olhando o copo meio cheio, essa é uma das coisas positivas dessa história toda, pois os nossos filhos podem vivenciar e entender a nossa humanidade. O Dante e o Gael já percebem que nem eu, muito menos a Anne, podemos atender prontamente a todas as demandas deles, mas que estamos fazendo o nosso melhor.

Só não se engane pensando que eles entendem e acolhem isso como um adulto faria. Eles ainda são crianças e vão demonstrar suas insatisfações, frustrações e demandas de acordo com a idade em que se encontram.

É difícil, mas fica aqui a minha sugestão: abrace o seu pato interior. Eu tento abraçar ele todos os dias.

E obrigado, Maya, minha filha. Você mal completou 1 mês de vida e já está me ensinando um monte de coisas.

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16 Oct 01:01

Cambridge Analytica e Bolsonaro - O Brasil está sendo manipulado

by Cláudia Rodrigues
10 Nov 21:45

A cada bebê nasce uma nova mãe

by Melina

Nunca esqueço das minhas expectativas em relação à chegada da minha segunda filha. Tinha certeza que tiraria de letra o trabalho de mãe. E tirei… nos seis primeiros meses.

Porque no começo o trabalho é braçal. É trocar, banhar, alimentar, ensinar a dormir, aprender a deixar as suas necessidades para depois para atender àquele pequeno ser totalmente dependente.

Na primeira viagem, essas coisas pegam a gente meio de surpresa, assustam, cansam até a exaustão. Na segunda gravidez, a gente já sabe como não tomar banho de xixi nas horas da troca, verifica a temperatura da banheira com qualquer parte do corpo e entende que por algum tempo “horas de sono” serão um sonho.

Mas daí a criança começa a sentar, engatinhar, andar… ela começa a interagir, comunicar e demonstrar toda a sua personalidade. Chega a hora de educar! Guiar, mostrar limites, ensinar como lidar com as emoções.

E aí, minha amiga, é quando o bicho pega. É quando você descobre que sua primeira experiência como mãe não vai te ajudar.

É aí que você entende que cada ser humano é diferente, que vai precisar aprender mais, se desdobrar, correr atrás e se esforçar para aprender a ser uma nova mãe. É então que você percebe que a cada bebê, nasce uma nova mãe. Que a cada filho, você se torna uma outra mulher.

E se você analisar com bastante calma e coração aberto, é quando você finalmente entende por que suas técnicas perfeitas e ótimas dicas de criação de filhos não funcionam para as crianças dos outros.

Se com as MINHAS filhas, a minha maneira de criar tem resultados diferentes, por que eu iria querer me meter na educação dos filhos dos outros?

Se com a minha primeira filha, eu aprendi a ser mãe e a me aceitar melhor nas minhas limitações; na minha segunda filha, eu aprendi a ser mais compreensiva e a aceitar as outras mães que estão se esforçando para fazer o melhor delas com seus filhos – que são diferentes dos meus.

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16 Oct 21:56

5 Dicas Para Lidar com a Birra de Forma Positiva

by Thiago Queiroz

Todo mundo que tem filho sabe: birra é um negócio que chega sem avisar e vem, quase sempre, nos piores momentos e piores lugares. Para piorar, às vezes, ainda arrasta você junto, principalmente se você já esta em um dia ruim.

Para ser bem sincero, eu não gosto muito de usar a palavra birra. Você pode ler mais sobre os meus motivos nesse texto, mas, resumidamente, eu evito usar esse termo porque não quero minimizar o que está acontecendo com os meus filhos. Se você parar para pensar, é bem fácil olhar para o seu filho, no meio de uma crise de choro, e dizer:

— Ahhh, ele tá fazendo birra!

Se você não diz isso, você terá que pensar e tentar descobrir o que está acontecendo com ele, quais seus motivos, sentimentos e necessidades. E, vamos admitir: é difícil. Ainda mais se você está com as suas reservas de empatia bem baixinhas.

Então, se você está disposto a enxergar a birra de uma maneira diferente, como resistir ao convite de entrar no meio da birra e ter uma crise junto com o seu filho?

A chave disso é entender que a birra pode parecer que chega sem motivo algum, mas isso é a nossa visão. Para os nossos filhos, sempre tem um motivo, e um motivo bem grande. Grande o suficiente para fazê-los desmontar em lágrimas.

O Gael, no auge dos seus dois anos, entrou com tudo nessa fase, que tem sido mais intensa do que foi com o Dante, quando ele tinha dois anos. Por isso, estamos aqui nesse esforço de repensar estratégias para lidar com todos os conflitos da rotina diária.

Pensando nisso, algumas coisas têm me ajudado muito nesses momentos estressantes, gostaria de compartilhá-las com você.

1- Não é sobre você

Quando seu filho começa a chorar, espernear, se jogar no chão e dar todo aquele show, sempre vem o mesmo pensamento, na forma de uma voz irritante, que vem lá do fundo das nossas cabeças, cobrando uma ação nossa:

— Você precisa tomar uma atitude! Você não pode deixá-lo fazer isso! Ele precisa aprender uma lição!

Por mais que tudo ao seu redor lhe diga que você precisa tomar uma atitude, tente ignorar esses olhares e a sua própria culpa para entender que essa é justamente a pior hora para conversar ou ensinar alguma coisa para o seu filho.

Nesse momento, a criança não tem abertura nenhuma para ouvir ou absorver nada que você queira passar. Mais ainda: não é sobre você. Aquela criança não está fazendo uma birra para provocar, manipular ou testar você, ela só está passando por uma crise com um sentimento grande demais para ela lidar de uma maneira socialmente aceitável.

2- Não se apaga incêndio com fogo

Imagine que você está em casa e alguma coisa no meio da sala começa a pegar fogo. Você pode tentar apagar esse fogo jogando mais fogo em cima, mas isso só vai fazer com que você se queime, né?

A ideia é a mesma com os nossos filhos. Se uma criança começa um ataque de birra, a pior coisa a se fazer é gritar com ela. Ou ameaçar com algum castigo ou punição. Muito pior se você responder com algum tipo de humilhação.

Por que? Simples, porque você só estará aumentando os motivos para aquela crise aumentar em intensidade e, consequentemente, as chances de você se queimar junto nesse incêndio.

O que fazer, então? Tente ajudar seu filho a apagar o incêndio que existe dentro dele, com alternativas que irão acalmá-lo. Você pode oferecer um abraço, pode ensiná-lo técnicas de respiração, ou pode falar calmamente com ele sobre o que ele deve estar sentindo.

Não existe uma fórmula mágica, infelizmente, mas sempre tente algo que acalmaria você, e suas chances de ter sucesso com o seu filho são grandes.

3- Nomeie e acolha sentimentos

Eu sei, pode parecer clichê dizer “nomeie e acolha sentimentos”, mas poucas coisas são tão poderosas quanto isso, quando se trata de lidar com as birras dos nossos filhos. Isso porque parte do que compõe uma birra é justamente o desconhecimento.

Imagine você, aos dois anos de idade: você está vivendo feliz, até que alguma coisa não ocorreu como você esperava. De repente, você é tomado por um sentimento esquisito que só faz você ter raiva e chorar. E o fato de você não entender o que está acontecendo com você faz com que você queira chorar ainda mais.

Percebe? Na birra, os nossos filhos também estão perdidos sobre os seus próprios sentimentos, sem entender por que aquilo tudo está acontecendo com eles. Por isso é muito importante que os ajudemos a entender o que está se passando.

— Eita, filho, acho que você está muito bravo, né?

Ajudar os nossos filhos a identificar seus sentimentos ajuda bastante, mas isso não é tudo. Precisamos dar a segurança a eles de que entendemos o que eles estão sentindo. Isso é empatia, que é extremamente diferente de ter compaixão, ou até pena, dos seus filhos.

— Puxa, eu entendo a sua raiva, filho, eu também ficaria assim se fosse comigo.

Pronto, você não precisa fazer mais nada. Quando somos acolhidos de verdade, as coisas começam a se acalmar dentro dos nossos corações.

Mas e se a criança não parar de chorar? Bem, então isso significa que ela ainda não botou todo aquele sentimento para fora, e tudo bem! Lembre-se: não existe fórmula mágica.

4- Abraço sempre pode ajudar

Às vezes, os nossos filhos podem estar tão imersos em suas crises de choro que palavras podem não ser tão eficientes. Nesses casos, o bom e velho contato físico pode ajudar.

— Filho, entendo que você está muito triste. Você quer um abraço? Ou um colo?

Estar no colo de quem você ama sempre ajuda a acalmar o coração, não é? Então por que seria diferente com os nossos filhos.

Por isso, na próxima vez que você ver seu filho fazendo birra, tente oferecer um abraço, ao invés de um castigo! Mas lembre-se, o seu filho pode não estar muito a fim de abraços e toques em alguns momentos, e tudo bem! Às vezes, nós também estamos tão tristes que não queremos ninguém por perto, e gostaríamos que as pessoas nos respeitassem. O mesmo vale para os nossos filhos, só que isso é bem diferente de deixar seu filho chorando desconsolado, tá?

— Tudo bem, filho, você não quer colo agora. Vou ficar aqui perto, se você precisar de mim, estou aqui.

5- Respeite a si mesmo

Eu deixei por último a dica que é uma das mais importantes: se respeite. Essa é a melhor coisa que você pode fazer por você, e também pelo seu filho. É o melhor modelo de auto-respeito e amor próprio que você pode dar para ele.

Quando os nossos filhos fazem birra, é como se eles estivessem nos convidando para uma briga. Cabe a nós decidir se aceitaremos o convite e entraremos na briga, ou não. Nos dias em que não estamos muito bem, a probabilidade de aceitar esse convite é alta, e quando isso acontece, é como se fossem duas crianças de três anos brigando entre si, com a diferença de que apenas uma dessas crianças tem três anos de verdade.

Por isso é importante se respeitar. Não entre na crise junto com o seu filho: respire, se acalme. Mesmo que, para isso, você precise se afastar um pouco. Ainda assim, será ainda mais respeitoso do que explodir com ele:

— Olha, filho, eu estou muito bravo agora e não consigo falar com você. Vou para o banheiro me acalmar um pouco e já volto para conversarmos.

Fazendo isso, você mostra ao seu filho que você não é perfeito e, de quebra, ainda mostra a ele como ele também pode fazer quando estiver muito bravo. E antes que você pense que isso é uma punição, não é. Você não está fazendo isso com o objetivo de fazer seu filho se sentir mal, você só está se afastando para se acalmar. E isso é completamente diferente de falar algo como:

— Filho, você fez essa coisa horrível e, por isso, não quero você perto de mim.


Espero que essas dicas ajudem você na próxima crise! E se você tem mais dicas, deixe nos comentários! Tenho certeza que ajudará outros pais e mães!

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12 Oct 13:11

Aqueles dias

by Melina

Tem dias que aquela fofura em forma de gente parece que está fazendo um experimento científico para descobrir todas as formas de te irritar.

Tudo é motivo para chorar, para reclamar, para brigar com a irmã.

Qualquer coisa que você peça demora ao menos 15 minutos, precisa ser ordenada 7 vezes. Muitas dessas ordens são simplesmente ignoradas ou têm “não” como resposta.

Esses dias são mais looooongos que o normal. Dizem que todos têm 24 horas, mas não é verdade! Não pode ser. Esses têm umas 46, no mínimo.

A hora de dormir não chega nunca, as refeições parecem durar uma eternidade e todos os programas de tevê falham no entretenimento. Até aquele aplicativo favorito que você guarda para momentos muito especiais parece uma lista telefônica para a tal “fofura em forma de gente que está no meio de um experimento científico”.

Posso usar de todas as teorias para explicar as razões desses dias. Posso até buscar a empatia para lembrar que eu também tenho meus dias desses. Dou abraço, carinho, digo “eu te amo” para eu mesma ouvir e me lembrar.

Mas mesmo com todos os meus esforços, eu deito na cama como um soldado pós-batalha. Avalio meu desempenho. Penso no que fiz de certo, mas não consigo parar de avaliar o que eu fiz de errado e o que eu poderia ter feito diferente.

Durmo mais exausta que o normal, torcendo para que eu possa reagir melhor no próximo “dia desses”; mas torço mais ainda para que ele demore a se repetir.

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03 Oct 22:19

Não crie filhos chatos!

by Melina

Mesmo com medo das reações, preciso falar uma verdade: existem crianças muito chatas no mundo! Às vezes, eu falo para a Manuela: “- Filha, isso que você faz é chato. As pessoas não gostam”. Eu tenho consciência disso e preciso que a Manuela também entenda quais atitudes não são agradáveis; mesmo que isso seja dolorido para ela ouvir. Porque senão ela vai ser uma criança que ninguém quer perto por muito tempo.

Quando a gente fala em criar filhos, muitas vezes estamos tão preocupados com a autoestima e tal (na melhor das intenções, eu sei), que esquecemos de pensar: eles são crianças chatas? Crianças com que outras crianças e também adultos não conseguem se relacionar?

Sim, eu sei que criança fala alto e faz bagunça. Faz perguntas demais e quer mexer em tudo. Se estressa e às vezes não sabe se relacionar com os outros. Mas TUDO isso tem que ser pontuado, pois nós pais precisamos ensinar o que é adequado e o que não é adequado em diferentes contextos da vida em sociedade.

Vamos dar exemplos bem práticos? Essas são algumas coisas que eu tenho tentado ensinar para as minhas filhas e que são atitudes chatas:

– Falar demais e interromper as conversas dos outros

– Mexer ou ficar pedindo para mexer em coisas que estão fora do alcance delas nas casas dos outros

– Reclamar da comida, bebida ou programação na casa dos outros. Eu explico: “você não é obrigada a comer o que te servem. Agradeça e diga que não quer. Não precisa ficar falando que não gosta disso, está horrível e etc.”

– Ficar pedindo comida ou bebida na casa dos outros. Eu sempre falo: “peçam para mim o que vocês quiserem, sem os donos da casa ouvirem. Se der, eu providencio para vocês”

– Correr sem parar, falar alto ou fazer bagunça em lugares que não se pode correr, falar alto ou fazer bagunça. Sim, existem lugares que não se pode agir simplesmente como criança; um casamento, por exemplo. Nesses lugares, elas precisam se comportar da maneira apropriada para o contexto. Se seu filho não pode agir da maneira que se espera porque ainda não tem idade ou não está preparado – ou se você não acha justo cobrar dele essa atitude – então não frequente esses lugares até que ele possa.

– Ficar falando com pessoas estranhas no restaurante sem ser “convidada”. Sabe quando a criança vira no banco da lanchonete e fica mexendo ou falando com o casal da mesa de trás? Tem gente que gosta e chama a atenção da criança, mas tem pessoas querem comer em paz.

– Ficar se convidando para programas na casa dos outros. Muito comum isso acontecer na idade da Manuela. “Tia mãe da coleguinha, posso dormir na sua casa?”

E você pode dar mais todos os exemplos que você quiser.

E eu te digo o porquê. Além de a sociedade ser mais feliz quando as crianças não são chatas, o seu filho vai ser mais feliz! Porque se ele tiver atitudes chatas que não são corrigidas, muito em breve ele vai começar a ser isolado pelos colegas e as pessoas passarão a se afastar dele. E a culpa não vai ser “dos outros”. Entende? As pessoas podem até ser educadas, se relacionar, não falar mal. Mas sempre que for possível, vão evitar a convivência.

Então, pelo bem da sociedade, da sua família e do seu próprio filho: não crie seres humanos chatos!

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22 Sep 13:23

A carta de Freud à mãe de um homossexual: “A homossexualidade não pode ser qualificada como uma doença”

by Kiko Nogueira
A carta de Sigmund Freud

Em 1935, Sigmund Freud respondeu a uma mãe preocupada com o filho. Em carta, Freud registra que não acreditava que a homossexualidade fosse uma doença.

“Não supõe vício nem degradação alguma”, afirma.

A missiva tem circulado nas redes em reação à liminar que autoriza psicólogos a venderem “terapias de reversão sexual”, também conhecidas como “cura gay”.

Freud faz referência a Platão, Michelangelo e Leonardo Da Vinci: “É uma grande injustiça perseguir a homossexualidade como crime – e uma crueldade, também. Se você não acredita em mim, leia os livros de Havelock Ellis”.

Ellis (1859-1939), médico e psicólogo britânico, foi co-autor do primeiro livro britânico sobre homossexualidade, lançado em 1897.

A carta de Freud acabou chegando às mãos do sexólogo americano Alfred Kinsey, responsável por um estudo até então inédito sobre comportamentos sexuais masculinos (1948) e femininos (1953), e foi publicada em uma edição do Jornal Americano de Psiquiatria em 1951.

O original está exposto no Museu da Sexologia, em Londres.

Além de deturpar as palavras de Jesus, os “psicólogos cristãos” estupram as lições do pai da psicanálise.

19 de abril de 1935

Minha querida Senhora,

Lendo a sua carta, deduzo que seu filho é homossexual. Chamou fortemente a minha atenção o fato de a senhora não mencionar este termo na informação que acerca dele me enviou. Poderia lhe perguntar por que razão? Não tenho dúvidas que a homossexualidade não representa uma vantagem. No entanto, também não existem motivos para se envergonhar dela, já que isso não supõe vício nem degradação alguma.

Não pode ser qualificada como uma doença e nós a consideramos como uma variante da função sexual, produto de certa interrupção no desenvolvimento sexual. Muitos homens de grande respeito da Antiguidade e Atualidade foram homossexuais, e dentre eles, alguns dos personagens de maior destaque na história como Platão, Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci, etc. É uma grande injustiça e também uma crueldade, perseguir a homossexualidade como se esta fosse um delito. Caso não acredite na minha palavra, sugiro-lhe a leitura dos livros de Havelock Ellis.

Ao me perguntar se eu posso lhe oferecer a minha ajuda, imagino que isso seja uma tentativa de indagar acerca da minha posição em relação à abolição da homossexualidade, visando substituí-la por uma heterossexualidade normal. A minha resposta é que, em termos gerais, nada parecido podemos prometer. Em certos casos conseguimos desenvolver rudimentos das tendências heterossexuais presentes em todo homossexual, embora na maioria dos casos não seja possível. A questão fundamenta-se principalmente, na qualidade e idade do sujeito, sem possibilidade de determinar o resultado do tratamento.

A análise pode fazer outra coisa pelo seu filho. Se ele estiver experimentando descontentamento por causa de milhares de conflitos e inibição em relação à sua vida social a análise poderá lhe proporcionar tranqüilidade, paz psíquica e plena eficiência, independentemente de continuar sendo homossexual ou de mudar sua condição.

Sigmund Freud

 

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22 Sep 13:10

chamaram meu filho de viado

by hilan diener
dia desses, voltando da escola, meu filho veio com uma conversa assim: – pai, meu amigo falou aquela palavra pra mim. – qual palavra? pode falar. (fiz como se tivesse liberado dizer o palavrão) – viado. ele me chamou de viado. – poxa, isso não tá certo. – o que é viado, pai? – viado é um jeito ofensivo e errado de chamar homosexuais ou gays. outro dia aconteceu basicamente a mesma coisa. mas, ao invés de chamarem de viado, foi de mulherzinha. filho, mulherzinha não é xingamento! mulheres não são fracas! veja sua mãe, suas irmãs, suas avós! elas são mulheres e não são nada fracotes. são fortes, corajosas, […]
20 Sep 11:59

Da tentativa de não intermediar as relações do filho com o mundo

by Cinthia Dalpino

Já faz um tempo que decidi tentar parar de intermediar a relação das minhas filhas com o mundo. Digo tentar, porque nem sempre é possível. Em todo o lugar que circulamos, os adultos – em sua grande maioria – têm a incrível capacidade de imbecilizar as crianças e tratá-las como seres limitados e incapazes de tomar qualquer tipo de decisão.

E como a minha curiosidade em observar o comportamento humano é insaciável, sempre dou um jeito de fazer com que as pessoas tentem estabelecer suas formas de comunicação com a criança.

Hoje tivemos um episódio curioso: levei Eva e Aurora para uma aula experimental de natação. Eva, que gosta de água, mal podia esperar o momento de mergulhar. Aurora, que no auge dos seus quatro anos corre ao ouvir a palavra ‘banho’, colocou o maio, e ficou atrás do vidro espiando a aula da irmã.

Eis que chega a professora.

– Qual é o seu nome?

Como de costume, ela nem se deu ao trabalho de virar o rosto para ver quem estava falando com ela. Continuou assistindo a irmã na piscina.

– Qual é seu nome? – tentou a moça pela segunda vez.

Sem resposta, ela disse:

– Ih, acho que ela não gostou de mim.

Enquanto observava aquele diálogo infantilizado da professora, e a expressão da minha filha, fiquei muda. Não sou daquelas mães que sorri e diz ‘fala filha, ela está falando com você’. Simplesmente observo e respeito a reação dela, sem impor as minhas vontades.

– Mamãe, qual é o nome dela?

– O nome dela é Aurora.

– Ah, Aurora. Que nem o da princesa Aurora?

Controlei o impulso de responder que não era por causa do da princesa, mas deixei ela tentar fazer com que a conversa fluísse.

Minutos antes, Aurora havia decidido que não faria a aula experimental:

– Não vou fazer aula caranguejo, nem peixe, nem tubarão. Nadinha. De jeito nenhum – decretou.
Então, quando a professora perguntou se ela queria entrar na piscina, Aurora virou-se para ela e disse ‘não’.

A professora, insistente, entrou na água e disse ‘nossa, tá quentinha!’

Aurora virou-se e disse:

– Não gosto de água quente

Ela colocou a água numa caneca, deu para Aurora colocar os dedinhos e disse

– Ah, acho que nem tá tão quente.

Aurora parecia reagir. Sozinha, decidiu sentar na borda da piscina sem buscar qualquer olhar de aprovação da minha parte.

Fiquei ali, duvidando da capacidade da professora em convencê-la entrar na piscina, mas observando a relação entre as duas.

Então ela estendeu o braço e pediu que minha filha fosse no seu colo. Quase reagi, dizendo para ela respeitar a vontade da menina, mas para minha surpresa, Aurora se jogou nos braços dela. E defendê-la não fazia parte do pacote ‘não interferir’. Quando me dei conta, ela já estava na água, por vontade própria.
Depois de trinta minutos ininterruptos de saltos, mergulhos e tentativas de nadar, acabou a aula.

Fomos para o vestiário e eu evitei qualquer comentário. Entramos no carro e perguntei:

– Aurora, você disse que não ia fazer a aula. Por que mudou de ideia?

A resposta não poderia ser melhor.

– Porque ela me seduziu!

Eu e Eva rimos. Suspirei. Ainda bem que não intermediei a relação.

11 Sep 12:18

A vida é dura aos 3 anos e como deveríamos agir em relação a isso

by Melina

A criança está brincando com a chave do carro da tia. Aperta um botão que não deve. O alarme do carro dispara. A mãe leva um susto e fala alto “filha, não podia ter apertado aí”. A chave é tirada da mão e as pessoas correm para resolver o problema do carro. Resultado: a criança fica profundamente brava e de cara feia.

Leitura do adulto: fez o que não devia e agora está brava e me desafiando.

Leitura da criança: eu fiz alguma coisa que não podia fazer, eu não sei se estragou ou não, todo mundo ficou agitado, e agora? O que será que está acontecendo? Eu não deva ter feito isso. Estou brava comigo mesmo e não quero ninguém falando comigo.

Como agir?

Essa situação aconteceu essa semana com a Ana Júlia. A foto é exatamente do momento e ela me disse que poderia compartilhar. Na hora, eu não agi corretamente. Mas depois consegui entender exatamente como ela estava se sentindo. Como eu deveria ter agido? Explicado: “filha, você não sabia que não podia apertar aquele botão, o alarme disparou e todo mundo ficou agitado porque não estava conseguindo resolver. Não precisa ficar tão brava, acontece. Agora a gente já sabe que você não pode brincar com a chave da tia, né? Mas ninguém está bravo com você. Foi sem querer. Está tudo bem!”

Haja paciência

Sim, haja paciência e frieza para não deixar as emoções tomarem conta. Mas lembra que eu falei no vídeo do Terrible Two? A gente já sabe (ou deveria saber) como lidar com o turbilhão de emoções que a gente sente. A criança ainda não. Ela precisa que a gente explique o que ela está sentindo e qual é a resposta apropriada para esse sentimento.

Até com os mais velhos

Até hoje eu ainda preciso ter esse cuidado com a Manuela, aos 8 anos. É claro que, no dia a dia, ela já aprendeu a lidar com muitas emoções, mas ainda não é 100% (aliás, acho que ninguém fica 100%, por isso é tão bom as pessoas fazerem terapia).

Estávamos na igreja essa semana e uma amiga da Manuela, que é um ano mais velha, pôde ajudar com as crianças pequenas. Mas a Mani não podia, ela precisava ficar na sala dela, por causa da idade. Ela ficou profundamente chateada e brava! Eu precisei sentar com ela e explicar: “filha, você está frustrada e isso é normal. Nem sempre a gente consegue as coisas da maneira que a gente quer. Mas não podemos ficar emburradas e dando patada em todo mundo por causa disso. Logo você terá idade para fazer o que você quer!”

Educação emocional

Para mim, essa educação emocional é uma das partes mais importantes para o desenvolvimento saudável dos nossos filhos. Quem fala muito sobre isso é a psicóloga Camila Machuca. Ela dá umas dicas bem bacanas no Instagram. Segue lá: www.instagram.com/camilamachucapsi

 

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10 Sep 12:29

Maternidade à lá brasileira (classe média)

by Alaya
A Maternidade que você consome

[esse texto não é uma intenção de julgar ou atacar ninguém, é só uma caricatura]


Custa 450 reais um exame pra saber o sexo do bebê dois meses antes do que o ultrassom de rotina mostraria (o sexo do bebê não vai mudar ou sair correndo). Se paga pela ansiedade.

Enxoval feito em Miami (ou comprado novinho em qualquer loja) com direito a mil apetrechos, cacarecos e firulas inúteis. Convenceram-te que você será uma mãe melhor se tiver tudo isso. Convenceram-te que você será uma péssima mãe se não comprar tudo isso. Seu bebê precisa!


Quarto reformado, papel de parede de 200 reais. Berço americano, Mobile importado. Kit berço (não recomendado por pediatras) devidamente comprado, bordado a mão, cheio de laços: 600 reais. (poeira acumulada e risco de sufocamento pro bebê). Saída de maternidade, vermelha, claro! O pacote completo, caro!




Carrinho de marca, super trambolho, vira pra frente e pra trás, tração de offroad, encaixa o bebê conforto, capota conversível! 2 mil reais!

A melhor banheira, a babá eletrônica com câmera, aspirador nasal, capa de chuva pro carrinho, lixeira que disfarça o cheiro das fraldas (sim, existe!) kit higiene decorado personalizado, enfeite de porta encomendado, toda a parafernália de mamadeiras (até kit de esterilização!)


Encomendou pomada importada (à base de petróleo, mas todo mundo diz que é ótima), comprou mil remédios, termômetro de banheira modelo infantil e uma colônia para bebês, pra ficar cheiroso! E você até encomendou saquinhos para separar os conjuntinhos de roupa com a costureira. Jura que é super necessário!


O bebê que não anda tem sapatos, caros. Cadeirinha que balança sozinha. Até aquecedor de lenço umedecido você comprou (você não acreditou que algodão com água morna era melhor). Tudo para dar o melhor para o seu bebê.


A poltrona de amamentação foi devidamente comprada combinando com a decoração do quarto. (você não contava que ia se sentir solitária lá e ia preferir ficar acompanhada de outras pessoas no sofá da sala). Pagou curso pra aprender a dar banho e trocar fralda. Fez chá de bebê, chá revelação, chá recepção. Tirou fotos com sapatinhos na barriga, paetês, pai ajoelhado beijando sua barriga. Pacote completo!


Pagou o plano de saúde, fez questão de usar o plano de saúde (afinal está pagando né). Visitou o hospital e adorou os quartos, tudo confortável. Confiou no seu médico de convênio (ele estudou pra isso né). Pesquisou mais a fundo quando comprou sua televisão do que quando escolheu o médico que ia estar no dia mais importante da sua vida. Mas o convênio é seguro não é mesmo?! SUS de jeito nenhum! Pagar particular? “Imagina! Meu médico é um fofo!”


Falou com aquela sua amiga que já tem filhos, mas achou ela muito “radical”. Foi convidada pra frequentar uma roda de gestantes gratuita onde dizem teria muitas boas informações, mas é gratuita, deve ser ruim, deve ser coisa de bicho grilo, pro seu filho você só quer dar do melhor!


Comprou os livros de “adestramento” de bebês, aqueles da moda, como fazer o seu bebê entrar na rotina e não afetar sua vida! Entrou num grupo de gestantes no whatsap mas achou todas muito exageradas no pós parto, fazendo o maior drama, até parece que maternidade é complicado, você já está se preparando com tudo! Saiu do grupo...


A barriga cresce e você tenta ouvir o coração do bebê com aquele sonar que comprou lá no início. Complicado se conectar ao bebê assim né? Dependendo de um som, de um aparelho externo... É medo de olhar pra dentro, de sentir os movimentos, de confiar e acreditar no bebê que ali está? Às vezes é bom procurar terapia, maternidade é muita transformação. Olhar pra dentro é importante!


A barriga cresce e você compra creme especial pras estrias. A barriga cresce e o medo cresce junto, você não quer nem ouvir falar em parto, em puerpério... que gente chata! E se concentra nos últimos detalhes do seu bolo de fraldas para o chá...


38 semanas de gestação, ansiedade lá em cima. Doula? Nah... bobagem, cara...
Alívio quando seu médico dá qualquer desculpa pra agendar sua cesárea (é cômodo pra ele e pra todo o sistema, mas não é o mais seguro) -- o mais importante é conhecer seu bebê -- que venha com muita saúde! (o médico não informou que na cesárea o bebê corre 3x mais riscos do que no parto normal). Cesárea feita, sem necessidade. Bebê não estava pronto pra nascer, ficou ‘cansadinho’, mas “tudo bem”, só um diazinho na UTI. Você preferiu o hospital que tinha UTI ao que era adaptado ao parto humanizado, o importante é ter o melhor pro seu bebê não é mesmo?! (Melhor seria se não precisasse de UTI por causa de uma intervenção desnecessária).


Bebê recebeu alta, você nem se lembrou da saída de maternidade especial, era tão mais importante tê-lo nos braços não é mesmo!?
Como amamentar está sendo difícil, você achava que era só oferecer e pronto. Eu sei, dói, eu sei, chora... Procura uma consultora de amamentação, vai te ajudar! (Ah não? É caro? Poxa... podia resolver seus problemas.. custa menos que 1 mês de latas de fórmula). Bebê chora, você chora. Quem disse mesmo que RN dorme o tempo todo? Dorme, mas só no colo. Como era aquele negócio que sua amiga ‘bicho grilo’ usava? Sling né...


O quartinho todo enfeitado -- você só entra pra usar o trocador, mas daqui a pouco já está trocando em cima da sua cama mesmo. O berço? Virou depósito de roupas lavadas empilhadas esperando que alguém as passe. Você está cansada demais, decidiu manter o bebê com você na sua cama, só assim ele não chora, só assim, no colo, do seu lado, grudado na sua cama - 

ele quer se conectar com você!


O móbile importado que toca Mozart você jogou pela janela, seu bebê chora quando o vê, ele quer seu colo. O carrinho de bebê, dobrado na lavanderia, já faz um mês que o bebê nasceu e você nem usou, tem medo de sair de casa.

O pediatra (desatualizado) conta as gramas que seu bebê ganha toda semana, você se sente pressionada. Como amamentar é difícil. Aquela sua amiga que já teve filho te falou sobre consultora de amamentação, que salvou a amamentação dela, nunca mais doeu, o bebê cresceu que foi uma beleza! Mas agora você já está complementando com fórmula mesmo né, o pediatra mandou. 40 reais por semana...


Como era mesmo aquele grupo de mães onde se podia desabafar sobre como era difícil sem ser julgada?! Pede pra aquela sua amiga te colocar lá de volta!



Um dia você se dá conta. No próximo filho vai fazer diferente! Se dá conta que foi enganada pelo marketing (gestantes e mães são considerados o mais lucrativo publico alvo, compram tudo pela ideia de estar dando o melhor pro seu filho).


Um dia você se dá conta que seu médico te enganou e não priorizou nem sua saúde nem a do seu bebê, que aquele GO particular estava mais alinhado com boas práticas em medicina e ia te atender com mais ética. Se dá conta que aquela doula poderia ter te ajudado a ter tido uma boa experiência de nascimento! Que o sistema é cruel e que todas aquelas compras não te ajudaram a lidar melhor com o bebê quando ele nasceu.


A informação está disponível! Mais importante que o enxoval é você perceber que não está fazendo uma escolha quando não te deram a informação completa! No setor privado no Brasil 9 a cada 10 mulheres passam por cesarianas, 7 dessas poderiam ter sido evitadas! No Brasil mulheres procuram cesáreas por medo de partos violentos, mas o parto (bem assistido) não precisa ser um sofrimento!

No próximo filho você pode viver uma maternidade mais leve. Pode tentar dar mais chances à sua experiência de parto, à saúde do seu filho (que nasce melhor e mais pronto de parto normal se for possível). Pode se prevenir pra acertar com a amamentação, pode priorizar onde investir, e rever o que é realmente importante no fim das contas.

 
A oportunidade de nascimento que você dá ao seu filho e a si mesma, é um dia único na sua vida, que todos os anos você vai reviver e ressignificar. As coisas que você comprou, tão ‘essenciais’, seguem acumulando poeira.

Quando a gente segue olhando a maternidade como bem de consumo, a gente segue desconectada do bebê, desconectada de nós mesmas, alheias às nossas emoções mais profundas, não vivendo a maternidade, mas sendo CONSUMIDA por ela.


Dê uma chance a si mesma e ao seu bebê, repense, se informe, questione! Pense no seu plano de parto, reveja a equipe que vai te atender. Aprenda sobre as intervenções no parto, as intervenções feitas com o bebê, faça escolhas, aí sim, conscientes, informadas, SUAS! Estude sobre amamentação, não rejeite aquela amiga que quer te estender a mão por que sabe como pode ser difícil e não queria ver você chorar perdida.

Não transforme a maternidade em algo a ser consumido, mas numa linda e transformadora EXPERIÊNCIA de vida. Dar o melhor ao seu bebê não está no que você compra ou no plano de saúde que você paga, às vezes está em abrir mão dessas coisas, por outras!


Depois que o bebê nasce, são as impressões sutis e emocionais que ficarão marcadas em você, as impressões do nascimento, das primeiras semanas. Do amor e do cuidado. O resto perde a importância. 


 É claro que é gostoso o carinho com que a gente cuida de tudo e monta o ‘ninho’. É claro que algumas mulheres precisarão de intervenções médicas mais drásticas, cirurgias. Eu mesma precisei de uma cesariana! Algumas mulheres terão problemas reais com amamentação, precisarão de fórmula. Agradecemos à existência da cesárea, da fórmula, e até dos apetrechos que facilitam às vezes (nem sempre) nossa vida.

Esse texto não é para julgar as mães, ou trazer culpa. Mas para sacudir e dizer “olha tem outras coisas mais importantes!”


Se você se sentiu atingida, olhe pra dentro, e se perdoe no que você sentiu que errou, e tente novamente, e siga em frente. Vai ficar tudo bem!


A maioria das mulheres sofre cesarianas no Brasil não por que “escolheram”, mas foram induzidas a pensar assim, por quem deveriam poder confiar, e pela cultura que vivemos, pelo sistema falho de saúde que temos, por medo, por desinformação...


Sou a favor de livre escolha, mas só há escolha quando há acesso real à informação fidedigna e clara sobre todas as nuances de nossas escolhas, sem isso estamos apenas sendo levadas...


Quando aquela sua amiga te convidar pra uma roda de gestantes, sugerir um documentário, um vídeo, um livro, saiba que ela só está querendo com carinho te estender a mão, pois ela sabe com o é ‘punk’ passar por tudo isso, e ela sabe como pode ser diferente!


Viva sua maternidade como achar melhor, mas saiba que há outras escolhas, e nem sempre o “melhor pro bebê” está em algo que você comprou...




To falando com carinho ;)

09 Sep 12:20

É só ouvir a criança! Disciplina positiva

by Alaya
No meu último vídeo (“Estratégias para Educar sem Bater” https://youtu.be/NvITQurTMgU, que é continuação do “O que a Palmada Ensina” https://youtu.be/ugZPRUJRfw4) eu compartilhei uma experiência pessoal.
Uma situação que vivi muito desafiadora com minha filha, uma daquelas típicas ‘cenas’ de birra ‘homéricas’ que podem virar algo feio em segundos. Nele eu conto como minha filha se recusou a tomar banho e eu perdi a paciência e como ela gritou e esperneou e foi muito difícil voltar à calma e solucionar a situação.
Hoje aconteceu novamente, e tentando ouvir as minhas próprias dicas, eu consegui manejar a situação de uma forma muito melhor! Quis vir contar pra vocês pra dizer “Gente! Disciplina Positiva funciona vejam!”, pois o que eu testemunhei hoje foi que não precisamos ‘mostrar quem manda’ ou oprimir e dar bronca em nossos filhos, precisamos escutar.
A imagem pode conter: 1 pessoa, criança e close-up
Depois de tentar me enrolar e me dobrar de todas as formas, a Lara finalmente foi ao banheiro comigo, um pouco à força (no colo, reclamando). Ao entrar no banheiro começou a ‘birra’. Tentativas de abrir a porta e fugir (tive que trancar), tentativas de me bater, gritos de que não queria tomar banho, sapateados no chão “não quero tomar banho, não quero não quero”. Choro...
Respirei fundo e pensei “ok, segundo o que eu mesma acredito, o que é melhor pra resolver a situação agora?”.
Ela, contrariada e com raiva, se encostou no canto da parede chorando e brigando, tentando evitar que eu tirasse sua roupa para colocar no banho à força.
Me recusei a forçar dessa vez, eu ia vencer no diálogo ou na persistência da paciência.
Me abaixei e falei “Calma filha, mamãe não está brigando, tá tudo bem”
E fui tentando acalma-la.
Expliquei novamente que estava de noite, que todos os dias ela toma banho antes de dormir, e já estava na hora de dormir. Ela já tinha feito tudo que queria e eu já tinha cedido a alguns pedidos, mas agora era hora do banho.
Ela continuava contrariada e descontrolada, um pouco menos, mas ainda. E dizia que não iria tomar banho, que não queria, e chorava.
“Calma filha, respira, não estamos brigando” (Lembrei que ela estava com medo ‘da minha briga’ – como ela se refere – na última vez).
Voltei a contar como ela tinha brincado muito hoje e estava suja e fedida e que todo dia tomamos banho antes de dormir. Lembrei da caminha nova dela que ela adora com a coberta de unicórnio e que a gente não poderia deitar suja na cama pra não deixar a cama suja e fedida.
“Fedida igual um gambá mamãe?!” – E ela foi parando de chorar
“È, imagina, credo, seria horrível uma cama com cheiro de gambá! Rs! Você toda suja , não pode deitar na cama filha, vai sujar sua coberta”
“Mas eu não quero lavar a cama, se ela sujar tem que molhar, eu não quero ter que tomar banho pra não molhar a cama!”
“Ah mas pra isso a gente vai usar aquela sua toalha pra te deixar bem sequinha e cheirosa, e ai sua cama vai ficar limpinha”
“Hm.....” – e o choro já havia cessado
“Vamos entrar no banho? Eu tomo junto com você, deixo você me ajudar” – E estendi a mão para ela. Ela me deu as mãos e se levantou, tirou a roupa sozinha e veio toda feliz no meu colo.
E pronto, fomos dormir felizes e sem dramas!
Ela não precisava de uma bronca, de uma ‘lição de obediência’, ela precisava ser ouvida.
12 Jul 18:06

Temos que ensinar nossos filhos a fazer sexo

by Gabi Sallit

Tenho pensado muito sobre sexo. Obsessivamente. Tô #alocadosexo. Antes que vocês fiquem impressionadas e com inveja da minha enorme disposição, vou logo contando: o que vim falar não tem nada a ver com o Kama Sutra ou o Rodrigo Hilbert – … Continue lendo →

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03 Jul 20:17

100 fotos emocionantes de homens no exato momento do nascimento de seus filhos

by Breno França

Eu me acho muito novo para pensar em paternidade. E sei que sou. Mas não tenho como negar que já pensei sobre a questão 'ter ou não ter' filhos algumas vezes. Acho que, no fim das contas, simplesmente considerar a opção "não ter filhos" já mostra um pouco da minha inclinação, uma vez que a maioria das pessoas nem considera essa possibilidade.

Admito, porém, que em momentos mais sensíveis ou vulneráveis, me deixo levar pelas emoções e me imagino pensando nas incríveis experiências que estarei abrindo mão ao fazer a opção contra-intuitiva de não proliferar minha espécie e passar meus genes adiante. Vários desses momentos aconteceram ao ver a lista de fotos abaixo.

A reação tão diversa de tantos homens ao nascimento de seus filhos me fez ter uma série de reações. Algumas delas são capazes de captar a sensação indescritível de colocar um novo ser humano no mundo.

Abaixo, veja essa coletânea de fotos de homens (e mulheres) no momento do parto, ou momentos imediatamente anteriores ou posteriores a ele. Se não tiver tempo de ver todas em detalhes, tudo bem, passe os olhos rapidamente, algumas certamente chamarão mais a sua atenção do que outras. E no final, esteja convidado para compartilhar quais foram as mais marcantes para você, lá nos comentários.

As minhas foram a 6, a 12 e a 33. 

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30 Jun 19:30

O fim do Ciência sem Fronteiras depois de R$ 13 bilhões investidos em bolsas no exterior

by João Paulo Caldeira

Categoria: 

Ciência
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Dilma Rousseff com estudantes durante cerimônia de lançamento da segunda etapa do Programa Ciência Sem Fronteiras, em 2014. Foto: Roberto Stuckert Filho
 
Jornal GGN - Depois de ter concedido quase 104 mil bolsas no exterior e ter investido R$ 13,2 bilhões entre 2011 e 2017, o programa Ciência Sem Fronteiras teve seu fim decretado em abril deste ano pelo Ministério da Educação. 
 
O programa enfrentou dificuldades devida ao câmbio, já que o momento em que havia o maior número de estudantes fora do país coincidiu com a valorização do dólar. Alguns especialistas afirmam que faltou uma avaliação do impacto do investimento do programa. 
 
“Internacionalizar a ciência requer uma estratégia elaborada e de longo prazo e em nenhum país do mundo se baseia só em mandar alunos de graduação para o exterior”, diz Helena Nader, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). 
 
Já estudantes que participaram do programa elogiam o CsF e defendem sua continuidade. “Conheço inúmeros casos positivos entre os estudantes que fizeram estágio no exterior e tenho certeza de que, no longo prazo, o impacto do programa vai ficar claro”, afirma Guilherme Rosso, cofundador da rede de bolsistas e ex-bolsistas do Ciência sem Fronteiras.

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30 Jun 12:33

O gestor da destruição

by João Sette Whitaker

A "desfuncionalidade" do aparato estatal-administrativo, um dos traços mais comuns do atraso político brasileiro, não é nem um pouco culpa do acaso, mas demonstração da eficácia de um histórico sistema de dominação, muito útil para permitir outras dinâmicas de governança, marcadas pelas relações clientelistas, de favor, de mandonismo, de promiscuidade com os interesses privados dos mais poderosos.

É assim no Brasil desde sempre: destrói-se sistematicamente tudo que tiver sido feito em gestões anteriores, que possa de alguma maneira trazer prestígio político ao governante anterior. A lógica é tão perversa que quanto melhor a política implementada - e, portanto, maior a popularidade do político que a criou -, mais radical será sua destruição. Basta lembrar como a gestão Serra-Kassab não fez em oito anos nem um único km de corredor de ônibus, iniciados por Marta Suplicy e fator de grande prestígio para sua gestão. 

As exceções existem quando sobem ao poder políticos que não transformaram a carreira em um atalho para fortuna e poder pessoais, e que ainda são políticos por uma causa e não por puro carreirismo. Ou seja, que não colocam os benefícios eleitorais de uma ação à frente do interesse dos cidadãos que representam. Eles são cada vez mais raros. Isso porque políticas públicas de verdade são políticas de Estado, ou seja, transcendem a uma única gestão, precisam de anos, as vezes décadas para darem resultados. Por isso, ninguém as faz. Para que fazer metrô se leva tempo, faz buracos, racha casas, gera trânsito e atrapalha a classe média, se além do mais será inaugurado lá na frente, talvez por um opositor político? Talvez seja por isso que, por décadas, o metrô de São Paulo andou a passo de tartaruga, na média de 1,5 km construído por ano.

Me acho insuspeito para falar da gestão passada, e de Fernando Haddad, já que tive a honra de trabalhar na condução da política habitacional, e acredito muito na qualidade do que fizemos. Uma das características que mais me impressionou e que mais admiro em Haddad foi sua capacidade de, nestes tempos em que o habitual é o oposto, fazer políticas motivado pelo seu caráter estrutural de transformação em longo prazo, e não movido pelo imediatismo eleitoreiro. Mesmo que o preço eleitoral a pagar seja alto, o que vale, acima de tudo, é fazer política pública de verdade, para o bem da cidade e de seus moradores. Não importava se fazer corredor de ônibus e tirar o privilégio dos carros fosse gerar protestos da classe-média alta e demorar para vingar. Era isso que a cidade precisava. Não importava se fazer um sistema cicloviário iria gerar ataques até mesmo do Ministério Público, começando a ser efetivamente usado no fimzinho da gestão. Era importante para a cidade. Não importava se dois dos três hospitais construídos (na gestão anterior nenhuma havia sido feito) não iam ser inaugurados, por pouco, em sua gestão. O importante era a cidade - e sobretudo, a população das periferias - ter novos hospitais. O Plano Diretor Estratégico, que foi premiado pela ONU, prevê uma política de Estado para a cidade para as próximas três décadas. Na habitação, fizemos um Plano Municipal em que não aparece nem meu nome nem o do então prefeito, mas sim o da Prefeitura, para ser implementado nos próximos 16 anos (está lá na Câmara, parado).

Se esse desprendimento com o preço eleitoral a ser pago é uma qualidade enorme de Haddad, tão rara hoje em dia, a verdade é que Dória tem exatamente o perfil contrário. Faz políticas com factoides políticos, somente pelo potencial eleitoral, pelo impacto midiático, sem sequer saber do que se trata do ponto de vista da política pública, como já escrevi aqui antes (leia aqui). E como até FHC percebeu (leia aqui).

A questão é que Dória está levando isso a um extremo que beira a insanidade. Para introjetar a imagem eleitoreira do "bom gestor", ele está simplesmente promovendo a destruição mais sistemática que se tenha tido notícia nesta cidade. Nem o pior de seus antecessores havia ousado promover tal desmonte, prejudicando, obviamente, a cidade e seus moradores e moradoras. Seis meses depois de assumir, há áreas, como a da habitação, em que nem um Real foi sequer empenhado. O hospital de Parelheiros está ali, com mais de 95% da obra pronta, mas nada foi feito, assim como no da Brasilândia, na Zona Norte (leia aqui). É o caso dos nove CEUs com obras paradas, que fazem parte das 54 obras públicas, entre creches, escolas, etc., paralizadas na cidade (leia aqui). A desculpa da falta de dinheiro só é aceitável no que diz respeito ao seu aliado, o governo Temer, que não manda mais dinheiro algum. Pois no âmbito Municipal, a gestão anterior deixou R$ 6 bi em caixa e reduziu a dívida pública em R$ 50 bi.

Mas vejamos um pouco mais em detalhes como é a política da destruição sistemática. Todos os dias, ficamos sabendo de algum novo desmonte, de políticas que estavam sendo construídas de forma participativa, a duras penas, e com muita coisa ainda por fazer.

No primeiro dia de governo, o obscurantismo cultural se anunciou ao vermos a prefeitura acinzentando os coloridos muros do que queria ser a a capital mundial de arte de rua. Desenhos fomentados e financiados por programas municipais foram devidamente apagados, substituídos pelo cinza. O prefeito esquivou-se com um discurso de que iria fazer no lugar muros verdes (o que já vinha sendo feito, por exemplo no Minhocão), ação que aliás não avançou, exceto uns tapumes recobertos de parcas plantas que apareceram na 23 de maio.

O mais cruel e violento talvez tenha sido o desmonte da política de atendimento à população pobre em situação de dependência química com redução de danos, a De Braços Abertos, internacionalmente premiada, e que vinha obtendo resultados significativos (leia aqui). Para promover uma mal disfarçada higienização social, com vistas a alavancar uma pseudo-política de habitação social na região, e abrir caminho para os investimentos imobiliários. A violência para com os mais pobres, como na abordagem abusiva da Guarda Civil aos moradores em situação de rua, já havia chocado a todos (leia aqui).

Mas essa é a ponta do iceberg, pois as mudanças são muitas vezes mais sutis. Como o corte da merenda escolar orgânica e agroecológica (leia aqui). Ou o sucateamento - pela interrupção da manutenção - das ciclofaixas, quando não o seu desfazimento puro e simples. A tentativa de deixar aos domingos a Paulista fechada aos carros só pela metade não vingou, tal o sucesso da iniciativa junto aos paulistanos, mas as ruas que aos domingos, nos bairros, também eram abertas aos pedestres, no âmbito do Programa Ruas Abertas, como grandes áreas de lazer urbano, não o estão sendo mais (leia aqui).

O retrocesso no controle de velocidade nas marginais, na contramão de todas as grandes cidades do mundo (em Londres, o limite é de 30 km/h em boa parte da cidade), rendeu um aumento de 30% no número de mortes por atropelamentos no trânsito no primeiro trimestre do ano em relação ao mesmo período no ano passado (leia aqui). Os acidentes nas Marginais aumentaram nada menso do que 67% ! (leia aqui). Se um dos motes mais desonestos da campanha contra Haddad foi o de "Raddard" em alusão a uma suposta "indústria da multa" (por exigir que se respeite as leis de trânsito), isso não impediu que Dória aumentasse o valor das mesmas e com isso arrecadasse 18% a mais em multas no primeiro trimestre, em relação ao ano passado (leia aqui).

O desmonte sutil passou também pelo esvaziamento do Carnaval, que teve ações policiais na madrugada, restrições de percurso aos blocos de rua, confinamento dos foliões em (perigosos) espaços cercados, esvaziando a Vila Madalena, refutando a rua em vez de transformá-la no palco das festas. A Virada Cultural foi também um fiasco bem planejado, com uma descentralização atabalhoada, shows no Anhembi sem público nenhum (leia aqui e aqui). No campo da cultura, aliás, o que ficou marcado foi a tentativa de agressão do secretário a lideranças da rede de coletivos de cultura (leia aqui), que reclama estar sendo desmontada, quando era uma das mobilizações mais florescentes e ricas que a cidade vinha vivendo.

Junto com tudo isso, o novo Prefeito abriu a porteira para relações mal explicadas e mais do que promíscuas com o setor privado, aquele que o apoiou com "doações" no início do governo, para construir a imagem de que seria um gestor competente tratando a cidade como se fosse uma empresa. Recebeu doações de remédios em vias de vencimento, em troca de dar mais de 60 milhões de Reais em isenções (leia aqui). Recebeu proposta de reforma "de graça" das quadras do Ibirapuera pela Ambev, mas depois descobriu-se que esta fora beneficiada com informações privilegiadas para ganhar a concorrência de exclusividade no Carnaval (leia aqui). Flertou com o mercado imobiliário logo ao iniciar a gestão, recebendo "de presente" a consultoria do urbanista Jaime Lerner para renovar o centro da cidade (leia aqui). Por "coincidência", a Prefeitura promove agora uma revisão do Plano Diretor e da Lei de Zoneamento, nos moldes, ora vejam só, dos interesses do setor (leia aqui).

Para coroar esse movimento, o prefeito tenta passar a toque de caixa os pacotes de privatizações, que incluem o Pacaembu, mas também aberrações como o direito de vender terrenos públicos de menos de 10 mil m² (adeus, praças). Por sorte,  Dória já vê sua base na Câmara esfacelar-se em disputas internas, e a mobilização cidadã está fazendo com que esses projetos tenham mais resistência do que previsto. Conseguiu-se até, por esforço de movimentos ativistas, os votos necessários para protocolar a obrigatoriedade de plebiscito para essas privatizações. Um alento.

Todo esse esforço foi obra de uma nova secretaria (enquanto reduziram-se as secretarias sociais), que recebeu para sua missão privatista cerca de R$ 30 milhões, retirados de verbas para enchentes e transporte (leia aqui). Por fim, Dória nomeou o presidente da sua empresa para dirigir o setor de parcerias com o setor privado da Prefeitura. Sem constrangimento algum (leia aqui). É o patrimonialismo em sua essência, quando público e privado parecem ser, de fato, uma coisa só.

A lista, parece, não acaba mais: é a intenção de cobrar os mortos (leia aqui) pelos jazigos nos cemitérios municipais (quando na gestão anterior viu-se uma inédita e incrível política de recuperação dos cemitérios como espaços abertos de cultura e memória da cidade), é a retirada das cooperativas de catadores no centro, e assim por diante.

O maior ganho da gestão anterior havia sido a reapropriação, gradual mas muito sólida, da cidade pelos seus cidadãos. A re-valorização dos espaços públicos, das ruas, das praças, das atividades ao ar livre, das manifestações culturais, da diversidade, da tolerância, aspectos que fazem uma cidade de verdade. É isso, no fundo, que estamos vendo ser asfixiado sob camadas e camadas do mais triste dos cinzas. Com direito a assistir a esse trágico marketing às avessas pelas mídias sociais. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

12 May 22:29

Neab lança livro e documentário sobre o candomblé em evento no dia 16

by thereza.marinho

O programa de extensão “Africanidades: Identidades, Religiosidades e Patrimônio Cultural” do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab) da Ufes realiza na terça-feira, 16 de maio, no Teatro Universitário, o encontro “Diálogos de saberes tradicionais em comunidades de Matriz Africana”, que terá a participação de grupos tradicionais de candomblé do estado.

O evento será realizado das 18 às 20 horas e vai apresentar os trabalhos desenvolvidos pela equipe de pesquisadores do programa em seus dois anos de atuação. Como parte da programação será lançado o livro “Africanidades e Seus Zeladores: identidades, religiosidades e patrimônio”, o documentário “Africanidades: Candomblés na Grande Vitória”, e a exposição fotográfica “Zeladores de Candomblé na Grande Vitória”.

Para a coordenadora do projeto, professora Cleyde Rodrigues Amorim, a Universidade é um espaço aberto a todos, por isso, é importante que essas comunidades tradicionais ocupem esse espaço e sejam contempladas pela Instituição.

Visibilidade

O programa conta com a atuação de 12 estudantes e 10 professores, que atuam para promover o fortalecimento cultural e político desses grupos. “As comunidades estão num processo de intolerância muito grande no país e precisam de mais visibilidade e contato social, inclusive para se informarem e reivindicarem seus direitos”, afirma.

A estudante de bacharelado em Ciências Sociais e atuante do programa Africanidades, Rosa Maria de Oliveira, acredita que é muito importante esse tipo de iniciativa dentro da Universidade. Para ela, que também pertence à comunidade candomblé do Estado, o programa ajuda a diminuir o preconceito, uma vez que um dos principais propósitos é levar o conteúdo estudado para as escolas e a comunidade em geral.

Segundo a coordenadora, o programa pretende continuar com os trabalhos, mapeando novas comunidades de terreiro no Espírito Santo. Dessa vez, incluindo também as comunidades de umbanda.

Para saber mais sobre o programa e suas atividades, ligar para o 4009-2957 ou pelo e-mail africanidades [dot] ufes [at] gmail [dot] com.

Neab

O Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (Neab) foi criado em 1980 e realiza ações de ensino, pesquisa e extensão referentes às questões da população afrodescendente. O Neab tem desenvolvido atividades interdisciplinares e cursos de formação de professores visando lutar contra o racismo e contribuir para a efetiva aplicação da Lei 10.639/03, que determina para a educação brasileira o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana em todos os níveis.

Texto: Ana Luisa Monteiro
Texto: Thereza Marinho

 

Categoria: 
Manchete
04 May 11:39

"Mamãe, eu gosto muito de dormir"

by Alaya
Sobre choros e relaxamento

“Eu gosto muito de dormir” - Foi o que a pequena de 2 anos e 10 meses me disse hoje ao deitar. À parte a privação de sono comum a todas as mães, e os sonos picados nos picos de crescimento, nos dentes, nas doencinhas, nas mamadas a cada 2 horas… tirando tudo isso, sono aqui nunca foi um problema.

Tá certo que eu só voltei a dormir a noite toda (leia 6 horas seguidas) depois que ela tinha 2 anos e 3 meses, mas o ano que a isso precedeu foi de apenas 1 ou 2 acordadas por noite, geralmente 1, para mamar.

Ela gosta de dormir, ela aprendeu que dormir é bom. Não foi nenhuma fórmula, mas meu coração suspira aliviado. Ela nunca foi abandonada chorando, nunca dormiu por exaustão emocional. Nunca pegou no sono depois de ter desistido de clamar por ajuda, sentindo que o mundo é um lugar escuro e solitário onde não vale a pena viver, onde nem a mãe atende. Largar um bebê chorando até dormir sozinho é uma das coisas mais cruéis que considero que podemos fazer com um ser humano, ainda mais um bebê! Isso não é um “método” (só se for de tortura).

Dormir tem relação com se entregar ao sono, com relaxar e sentir cada parte do seu corpo pesada e entregue à maciez do colchão. Dormir é sentir o calorzinho das cobertas ou o toque suave da mãe ou do pai, é se sentir amado e acolhido, feliz em descansar para recomeçar um novo dia.

Frequentemente no consultório de acupuntura me deparo com pessoas que têm dificuldade em dormir. Se recusam a relaxar, não conseguem desligar a cabeça que roda como um disco riscado cheio de pensamentos que não se resolvem. Encontro pessoas que tem medo da noite, do silêncio que ela traz, que precisam dormir com  a televisão ligada, ou manterem-se acordadas até a completa exaustão, para então “apagarem” de sono. Dormir não é isso. Não sei como foram os primeiros meses de vida, os primeiros anos dessas pessoas. Se se sentiram acolhidas e amadas, se aprenderam a relaxar sozinhas. Muitas dependem de remédios alopáticos para desligarem, ou lutam horas no colchão contra um relaxamento que não vem. O mundo girando em torno dos pensamentos, das preocupações, da sensação de que o corpo é um incômodo a ser lidado apenas. Não querem desligar em silêncio para não arriscar ouvir o barulho que sai de dentro delas, a inquietação, o sofrimento. Não gostam de dormir, será que tiveram alguma chance de aprender a gostar quando eram bebês? Ou será que relacionam essa hora da noite a sentimentos ruins, ao choro do abandono?

Minha filha gosta de dormir, e eu sorrio! Ela gosta de se aconchegar na cama e pede para eu cobrir os três (sim, três!) bichinhos de pelúcia que dividem a cama com ela. Ela me beija e me deseja boa noite e pede que eu deite ao lado dela (o que é possível graças ao colchão de solteiro que usamos no chão, estilo quarto montessori). Ela pede contato, às vezes basta eu largar o peso do meu braço no flanco dela, ou minha mão encostar em seu braço. Outras vezes ela pede carinho, e eu faço nas costas dela com alegria, lembrando do carinho que minha mãe me dava. Antes de adormecer ela dá boa noite para cada um dos três bichinhos, e finaliza com “boa noite mamãe, dorme bem, eu amo muito você”. Toda noite sou preenchida pelo amor dela, e isso vale todas as noites que acordei para acalentá-la e amamentar.

Essa noite ela me contou um pouco mais: “Mamãe, eu gosto muito de dormir, mas às vezes, só às vezes, eu não quero dormir, e eu choro. É porque eu gosto de brincar, e não queria ter que dormir, mas aí eu fico muito cansada. Mamãe, às vezes eu durmo, e eu acordo, e eu durmo de novo, é bom dormir.” Nada como um relato espontâneo para termos um vislumbre do que se passa no universo de uma criança.

Dorme bem minha querida, dorme a noite toda, e me recebe amanhã com um enorme sorriso, e que você nunca desaprenda a relaxar nesse mundo tão cheio cobranças.
29 Apr 19:29

Licença-paternidade: fiquei um ano em casa cuidando do meu filho | Caixa-Preta #8

by Carol Rocha

Link do Youtube

Editar os textos do Rodrigo Cambiaghi, na coluna Vida de Pai, me fez entender muitas nuances da paternidade que sempre passaram despercebidas por mim (e por muitas outras pessoas, creio). Conversar com o Marco Antônio, nosso oitavo entrevistado do Caixa-Preta, potencializou ainda mais essas descobertas.

Ele é pai, jornalista e faz o que foi considerado papel exclusivo da mãe por muito tempo: fica em casa cuidando do pequeno Mudrik enquanto a esposa trabalha. 

"Não é uma questão de me anular. É uma questão de fazer o que tem que se fazer, dentro de um acordo e de uma nova experiência"

Essa forma incomum (mas não anormal) de gerenciar os cuidados com o filho abre espaço para questionar uma questão familiar importante e pouco discutida: a licença-paternidade

Segundo nossa constituição, o período de dispensa do trabalho para o pai é de 5 dias, podendo chegar a 20 caso o mesmo pertença ao programa Empresa Cidadã ou seja servidor público federal. Para a mãe, a licença é de 4 meses

Esse mapa, de reportagem da BBC, mostra, em uma escala de dias, o período de licença-paternidade oferecido pelos países ao redor do mundo.

Movimentos para que haja uma presença maior do pai nos primeiros meses da criança estão acontecendo, sejam eles por meio grupos de apoio e discussão entre homens, projetos incentivadores ou medidas tomadas por grandes empresas.

Na Suécia, primeiro país do mundo a conceder o benefício ao time masculino em 1974, a licença é parental, ou seja, garante 480 dias a serem distribuídos entre o casal, sendo 90 exclusivos para a mãe. Nos EUA, são 84 dias para ambos os sexos (mas sem lei que obrigue o pagamento de licença remunerada), e na Colômbia apenas 8. 

Em 2015, o Netflix anunciou que passaria a dar 1 ano de licença-paternidade e maternidade aos seus funcionários. O Twitter concede 5 meses, e o Facebook 120 dias remunerados, sem distinção de gênero.

Essa foto faz parte do projeto Swedish Dads, do fotógrafo Johan Bävman, cuja proposta foi construir um ensaio fotográfico com pais "que ficam em casa"

De volta à realidade da legislação brasileira, o que cabe ser questionado aqui são os parâmetros que consideram apenas 5 dias tempo suficiente para um pai permanecer ao lado criança recém-nascida. Questões de extrema importância estão em jogo, como acompanhamento do pré-natal, primeiros contatos com a criança, apoio pós-parto e o auxílio em geral que o companheiro pode oferecer à esposa.

Durante o papo, nosso entrevistado compartilhou algumas vivências que teve ao lado do filho e comentou a respeito do choque que ainda existe quando um homem se coloca como cuidador. Para ele, permanecer durante um período de tempo maior ao lado de Mudrik (muito mais do que a legislação permitiria) foi uma chance única para acompanhar de perto os primeiros passos do filho.

Expandir esse debate e reunir forças que permitam mudanças efetivas em relação ao limitado tempo de licença-paternidade, pode multiplicar experiências como a que Marcos nos contou.

Por hora, deixo aqui alguns links que serão úteis na jornada, sejam como espaços de encontros e debates construtivos entre pais, sejam como manuais colaborativos e dicas práticas: 

- É importante deixar os homens serem pais;

- Paizinho, Virgula, canal que discute a jornada da paternidade, criação com apego e disciplina positiva;

- Tricô de pais, podcast do Paizinho, Virgula;

- Diário Illustrado da Paternidade, fã page do Facebook;

- Projeto Swedish Dads;

- 19 links que me fizeram um pai melhor;

- Tretas que não me contaram sobre o começo da paternidade e diversos outros textos da coluna Vida de Pai.

A caixa de comentários, é claro, está sempre aberta para ouvir mais histórias e dicas. Vem com a gente?

27 Apr 12:09

Os primeiros dias do bebê sob o olhar (respeitoso) da fotografia

by Melina

Na minha opinião, poucas coisas nessa vida são tão fofas como bebês. Dá vontade de ficar olhando eles dormindo ou brincando por um tempão, né? Acho que foi por isso que a Anne Guedes fez tanto sucesso quando começou a fazer aqueles cartazes com fotos desses fofuchos lá nos anos 1990 (lembram dela?). Agora, as fotos de recém-nascido já são mais acessíveis. Na época da Manuela, não se existia ensaio newborn (ou se existia, a notícia não chegou no meu círculo de amigos). Com a Ana Júlia, eu já estava preparada para fazer as fotos nos primeiros dias, mas ela ficou com uma alergia horrível no rosto e eu me recusei a fotografar.

Analisando hoje, eu acho tenho certeza que foi bobeira minha. Na verdade, eu tinha uma ideia do ensaio newborn que não se adequava à situação da Ana. Mas, eu podia muito bem, ter feito outro tipo de fotos – se eu tivesse a cabeça mais aberta. Eu poderia ter feito um ensaio no estilo lifestyle – que tem como premissa tirar fotos do estilo de vida de família.

Ou seja, tirar fotos em casa, no horário que a mãe preferir, registrando a rotina natural da família. O bebê dormindo, acordando, mamando, tomando banho, se distraindo no berço, sendo trocado… qualquer coisa que ele precisar e quiser fazer naquele período que a fotógrafa estiver por ali. “A ideia é registrar a vida daquele bebezinho no lugar confortável para ele. Claro que fazemos direção de fotografia, escolhemos a melhor posição, o cômodo com boa luz, mas rapidamente fazemos as fotos. Dentro de 1h no máximo finalizamos a sessão”, comenta a fotógrafa Mariana Giamiundo, que faz fotografia de família aqui em Curitiba.

No estilo de fotos que a Mari faz, ela não usa apetrechos ou figurinos que não sejam do próprio bebê e busca respeitar completamente a vontade e o ritmo da mãe. A verdade é que uma mãe de primeira viagem também tem um ritmo diferenciado que, muitas vezes, não se encaixa em um ensaio fotográfico cronometrado e quadradinho.

As fotos ficaram MA-RA-VI-LHO-SAS, como vocês podem perceber nesse post (todas as fotos são do ensaio que a Mari fez com a minha irmã e meu sobrinho lindo). Mas, para mim, o mais especial (e que até me gerou um pouquinho de inveja, confesso hahaha) foi quando eu vi as fotos que a minha mãe apareceu. Ela foi ajudar minha irmã no dia do ensaio e a Mari, com toda sua sensibilidade, chamou ela para fotografar junto para a Nicole ter essa lembrança tão especial. “Ter uma vizinha, uma tia que ajuda nesses primeiros dias é tão importante e registrarmos esse gesto é muito válido”, opina a fotógrafa.

E você, fez foto com o bebê pequenininho?

Serviço
A Mariana Giamundo (www.facebook.com/mgiamundofotografia) é fotógrafa de família em Curitiba. Ela também as fotos de gestante da minha irmã. Você também pode segui-la lá no Instagram.

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21 Apr 11:22

maternidade solitária

by luíza diener
certa vez, antes de ter filhos, ouvi uma conhecida dizer “eu quero ter filhos porque me sinto muito sozinha. um filho é uma companhia pra vida toda”. o tempo passou e isso nunca saiu da minha cabeça. nunca consegui concordar com o que ela disse. esclareço: meus filhos são – sim – meus companheirinhos, mas são meus companheirinhos crianças. estão sempre comigo (muitas vezes amontoados em cima de mim – tipo enquanto eu escrevo este post – sem dar sossego) e passamos bons bocados juntos também. é muito amor, é muita delícia. mas preciso confessar: eu nunca me senti tão sozinha em toda a minha vida. não tenho embasamento nenhum para discorrer sobre […]
11 Apr 19:36

Brincadeira é quando todos se divertem. Isso tem outro nome. Por Elika Takimoto

by Diario do Centro do Mundo

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Publicado no blog “Minha vida é um blog aberto” de Elika Takimoto

 

Quando eu tinha dez anos fui ao oftalmologista. Ele apagou as luzes para eu ler as letrinhas iluminadas ali na frente. Com a minha mãe no consultório, ele colocou o pênis dele para fora, me sarrou o braço e forçou a minha mão para mexer nele. Eu não sabia o que fazer. Minha mãe não percebeu nada porque estava olhando para as letrinhas iluminadas. Saí de lá. Não conseguia falar. Fiquei com medo de sabe Deus o quê.

A história se repetiu com um ginecologista que me apalpou de um jeito estranho. Era adolescente e também não soube reagir. Tive medo de novo de contar para alguém e ser criticada porque não fiz nada ou, pior, me culparem por isso.

Daí, vejo essa foto. Futuros médicos fazendo apologia ao estupro da Universidade Vila Velha, ES, com calça arriada fazendo sinal obsceno com as mãos. Um deles, disseram, postou a foto no perfil com a hashtag #pintonervoso.

E quando afirmamos que todo homem é um estuprador em potencial porque não sabemos de onde pode vir o ataque somos criticadas por generalizar. Entendam: não é sobre você. É sobre como nos sentimos ameaçadas e sem saber quando e em quem confiar até mesmo nos locais que deveriam ser nosso porto seguro, como um consultório em que vamos procurando cuidados.

Que esses “futuros médicos” jamais sejam médicos. Que a Universidade expulse todos e a sociedade entenda que não mais aceitaremos esse tipo de apologia ao estupro e “brincadeiras” com esse tipo de coisa.

Mais uma vez, brincadeira é quando todos se divertem. Se um lado sente medo, isso tem outro nome. Vejam se aprendem de vez.

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08 Apr 17:01

9 dicas para lidar com a birra

by Melina

Acho que essa é a pergunta de um milhão de dólares para todos os pais: como lidar com a birra? A gente fala muito de cenas escandalosas de crianças se jogando no chão do mercado, mas também tem aquelas cenas de birra cotidianas, quando qualquer tarefa simples – como escovar os dentes ou colocar o pijama – se torna uma batalha homérica.

Eu não tenho essa resposta definitiva. Como eu sempre falo, não sou especialista em educação ou criação de filhos. Sou somente uma mãe de duas filhas que procura sempre melhorar. E nessa busca por melhoria senti uma grande diferença quando passei a olhar a birra de maneira diferente. Coloquei nas redes sociais essa reflexão que eu já tinha feito aqui no blog antes.

Vamos pensar juntos e achar alguns caminhos:

Quer entender por que seu filho faz birra?

Programe uma viagem super bacana de férias por um ano, chegue na véspera e descubra que você não vai poder ir porque aconteceu algum imprevisto com seu passaporte. Calcule o tamanho da frustração de perder a viagem dos sonhos e a grana que você pagou por ela. Agora pense que cada “não” que você fala para seu filho de dois anos acarreta esse mesmo nível de frustração.

No exemplo acima, dependendo da sua maturidade, você pode xingar, gritar, rasgar as roupas, chorar quietinho, ficar emburrado por uma semana… Mas você, dificilmente (para não dizer “nunca” porque pode ser que haja uma Madre Teresa de Calcutá lendo esse texto), vai dizer “isso acontece”, desfazer as malas com um sorriso no rosto e continuar a vida como se nada tivesse acontecido.

Entenda que frustrações são difíceis para os adultos; ainda mais para uma criança. A gente precisa educar e ensinar a criança a lidar com a frustração? Sim! Devemos mostrar que a birra não é um comportamento aceitável? Com certeza! Mas só faremos isso de maneira eficiente quando entendermos que a birra não é um desafio da criança contra nós, é apenas uma resposta natural à frustração por parte de um ser humano em formação.

Mas como ajudar a criança a lidar com essa frustração?

Como já falei, não sou especialista, mas vou compartilhar as minhas experiências. Dá para diminuir muito as crises de birra e também minimizar o estresse se a gente tomar algumas atitudes e colocar em prática algumas estratégias. Pelo menos, foi o que eu senti aqui em casa.

Acho importante fazer um parênteses: antes de ser mãe eu julgava as cenas de birra e, depois que a Manuela nasceu, eu continuei julgando!! Isso porque a Manuela aprendeu nas primeiras crises que o comportamento não era aceitável e parou de fazer. Então, na minha cabeça, esses escândalos eram, sim, culpa dos pais.

Mas daí a Ana Júlia nasceu para “dar na minha cara” hahahahaha. Ela começou a fazer cenas de birra homéricas antes dos dois anos e foram alguns meses para eu conseguir lidar com a situação. Até hoje temos alguns episódios, mas são muito menores e mais esporádicos. Foi um aprendizado que tive que ter na prática! E tudo isso eu compartilho abaixo.

#1 Não leve para o lado pessoal

A primeira atitude fundamental ao lidar com a crise de birra é entender que aquela reação não é um desafio pessoal contra a sua pessoa – pai, mãe, responsável. Se a gente levar para o lado pessoal, ficaremos irritados, estressados, teremos reações exageradas. Pense assim: você está trabalhando, diz algo para seu colega e ele começa a gritar com você porque não gostou. Você vai ficar muito bravo e, dependendo do seu nível de paciência, vai gritar também e bater boca. Não é legal, mas é compreensível. Afinal, você está sendo diretamente afrontado.

Se você vir a birra como uma afronta pessoal da criança, a sua reação vai ser baseada na ira, na raiva e não vai de maneira alguma ajudar o seu filho.

#2 Respire fundo e seja compassivo

Tendo em vista que a criança está passando por um momento de “sofrimento” (lembra a frustração de perder a viagem dos sonhos?), seja compassivo. Amor e compreensão são as palavras-chave. Seu sentimento precisa ser “filho, tá difícil, eu sei, mas eu te amo e a gente vai superar isso juntos”. Eu sei que é muito difícil. Não vivo num conto de fadas e não acho que isso seja fácil. Mas o que na maternidade é fácil, né?

Passos práticos:
Ofereça carinho. Nem sempre um abraço é bom porque se a criança está jogada no chão, ela vai escorregar do seu colo ou vai se debater e vai te deixar ainda mais irritado. Se der, colo é bom e abraço também. Se não, faça um carinho na cabeça, nas costas, na barriga.

– Fale com calma. Tente não gritar e manter o tom de voz calmo e baixo. Converse com a criança, ofereça compreensão em palavras. “Filho, eu sei que você não queria isso ou que queria aquilo, mas agora não dá. Se acalme. A mamãe/ o papai está aqui com você. Eu amo você.”

– Espere. Ali na frente vou falar de algumas formas de tentar terminar a crise, mas às vezes nada funciona. Se for o caso, mantenha a criança segura (às vezes, ela está tão agitada que pode se machucar) e espere passar. Nesse caso, quando a criança parece rejeitar as intervenções do responsável, eu sou a favor de ignorar a atitude. Ficar próximo da criança, mas não focar mais na crise.

#3 Tire a criança da situação

Uma das melhores estratégias para lidar com a birra, na minha opinião, é tirar a criança da situação e oferecer uma distração. Por exemplo, a criança ficou frustrada porque o copo rosa que ela queria usar está sujo (sim, tem motivos bestas complexos como esse), você dá a bebida em outro copo, mas chama ela para brincar com o bichinho de pelúcia. A criança quer ver o programa de televisão, mas acabou e ela entrou em crise; ofereça outra atividade. Essa, para mim, é a regra de ouro e que funciona melhor aqui em casa.

#4 Prevenção: avise o que vai acontecer

Uma criança de dois anos não pode ser pega de surpresa. Essa é minha percepção. Vai parar de ver televisão para tomar banho? Então avise: “quando acabar esse desenho, a gente vai para o banho, ok?”. A temida hora de sair do parquinho pode ser mais tranquila com um “você pode escorregar mais duas vezes no escorregador e daí a gente vai embora, ok?”. E assim por diante. A criança precisa se preparar para o que vai acontecer nos próximos minutos. Isso diminuiu drasticamente as cenas de birra aqui em casa.

#5 Prevenção: dê opções

Outra estratégia maravilhosa de prevenção de birra é dar opções para a criança. Aos dois anos, aquele serumaninho está aprendendo que ele é um ser independente dos seus pais e está querendo explorar esse mundo novo, fazendo valer sua vontade. Por isso, todo dia, você pode ter uma guerra para fazer algo simples, como trocar a roupa. Então, aqui em casa, eu sempre usei a técnica das opções. Pegue duas calças e pergunte qual a criança quer. Pegue duas blusas e deixe o seu filho escolher qual vai usar. Na verdade, é você que está definindo qual é a roupa, mas dá a falsa sensação de que ela que escolheu! E dá para transpor isso para muitas situações.

#6 Prevenção: entenda como a criança está (sono, fome, cansaço, tédio…)

Caminhar no shopping quando você está cansado. Precisar ficar em um restaurante lotado quando você está morrendo de sono. Terminar de assistir um filme quando você está com muita fome. Todas essas situações são horríveis, mas a gente – adulto e maduro – já sabe lidar com isso. As crianças ainda não. E tentar forçá-las a aguentar a fome, o sono, o cansaço, aos dois anos de idade, é muita sacanagem, não é? E se você quer insistir, prepare-se para a crise de birra! Agora, se você quer evitar o escândalo, deixe a criança dormir, leve-a para se distrair, dê comida etc.

Eu já contei aqui no blog que, nas nossas férias na Disney, presenciei a pior crise de birra da vida. Ana Júlia, com sono e com fome, gritou e se jogou no chão por uns 20 minutos enquanto a gente esperava o restaurante reservado liberar a nossa mesa. As pessoas olhavam, eu tentei de tudo e nada funcionava. Foi tenso, desesperador. Eu deixei ela jogada gritando na minha frente. Depois de muito tempo, meu marido conseguiu diminuir o escândalo e eu a levei para jogar gravetos no lago até que finalmente a gente fosse almoçar. Esses minutos no lago foram milagrosos para acalmá-la e distrai-la.

#7 Brinque mais

A vida pode ser bem mais divertida se você se permitir brincar mais. Como assim? Manda uma criança cansada de dois anos arrumar os brinquedos espalhados pela sala. Em 90% dos casos, vai rolar briga e tensão. Agora, experimente propor uma corrida: “Vamos ver quem coloca mais brinquedos na caixa?” Eu faço isso direto. Outra crise que eu resolvi com a brincadeira foi o xixi na época de desfralde. Ana Júlia não queria parar de brincar para ir ao banheiro a cada 30 minutos (algo completamente compreensível; pense em você largando sua série favorita no meio porque alguém mandou você tentar fazer xixi). Então, eu comecei a brincadeira: “vamos ver quem coloca o pocoyo (redutor de assento) primeiro? Eu vou ganhar!”. Já faz uns seis meses e até hoje ela sai correndo para o banheiro. Obrigada. De nada!

#8 Faça (e cumpra) os acordos (lembre que a criança é inteligente)

Essa questão dos acordos tem um pressuposto básico: entender que a criança é um ser inteligente. Você pode fazer acordos, solicitar comportamentos e aplicar as sanções, claaaaaaro, dentro da realidade etária em questão. Deixa eu exemplificar para facilitar a vida:

– No parquinho: – Filho, se você fizer escândalo na hora de ir embora, nós não vamos voltar ao parquinho amanhã.
– Em casa: – Filho, se você não guardar tal brinquedo, amanhã você não poderá brincar com esse novamente.
– No cotidiano: – Filho, você pode assistir dois desenhos na televisão e daí vamos desligar (Aqui, a dica é saber a programação e já dizer: “Você vai assistir a Princesinha Sofia e Guarda do Leão. Quando acabar, vou desligar a tevê”)

#9 Não ceda à birra

Nunca, nunca, nunca, nunca, NUNCA, ceda à birra. Você distrair a criança, abraçar, dar amor, oferecer alternativas não é ceder à birra. Ceder à birra é, voltando ao exemplo do copo, sair correndo lavar o copo desejado só porque a criança se jogou no chão. É comprar o produto, dar o doce, desfazer o acordo só porque está rolando escândalo. Lembre-se: ceder uma vez é o começo para ceder sempre.

E você tem alguma dica para lidar com a birra? Tem uma experiência diferente? Conte para nós!

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07 Apr 18:01

6 macetes para "negociar" com crianças

by Rodrigo Cambiaghi

Costumo brincar que nos meus 10 anos de experiência atendendo clientes, o meu job mais difícil apareceu quando minha filha começou a ter vontades próprias. 

Para a criança, o "não" pode ser algo muito abstrato de entender. Ela não vê sentido em parar de brincar para tomar banho, ou não consegue entender porque brincar com uma faca afiada na cozinha não é permitido.

Em alguns casos é complicado fazer o que precisaser feito, na hora em que precisa ser feito, sem que se abra o berreiro. E é ai que entram alguns macetes para "negociar" com a criança.

A lógica por trás de todos eles é a mesma: chegar a um acordo entre as duas partes sem precisar bater de frente.

Não é questão de ser permissivo ou nunca frustrar a criança, mas diminuir a quantidade de vezes em que a minha filha escuta não durante o dia.

Importante: Níveis de sono, fome, irritação, dor ou doença podem anular completamente a eficiência dessas técnicas.

1. Redirecionar  

Esse é o clássico e mais eficiente método usado entre os pais mais malandros.

A ideia é propor algo muito mais interessante do que a criança está fazendo naquele momento, ou desviar a atenção da criança quando ela está chorando.

Cena: Festinha de criança, Clara entretida com algum brinquedo e o relógio diz que precisamos ir embora.

- Clara vamos para nossa casa?

- Não qué. Qué binca aqui.

- Clara, será que nasceu alguma florzinha na plantinha de casa? 

...

- O que você acha tomar um pouco de tetê agora, passear de carro e a gente vai pra casa procurar uma florzinha na plantinha?

- Qué tetê 

Não fale do problema, mostre o que dá para ganhar com ele.

2. Causa e consequência de forma prática

Cena: Forno ligado a 280ºC, Clara entra e começa a brincar na cozinha, zanzando para lá e para cá.

Meu impulso é falar "Não pode ficar na cozinha" e levá-la para a sala, mas penso que em questão de segundos ela vai voltar para a cozinha.

Pego ela no colo e explico.

- Filha o forno está muito quente, você pode se queimar brincando aqui. O papai vai te mostrar.

Aproximo a mãozinha dela com muito cuidado e bem devagar em direção ao forno, até ela começar a sentir o calor. Antes de encostar a mão na superfície (obviamente não vou machucá-la) ela instintivamente tira a mão e me olha assustada.

- Ta quente, papai.

- Vamos brincar na sala pra gente não se machucar no forno?

- Vamo

3. Sim, mas vamos fazer isso antes?

Cena:

- Papai, pega a massinha pra Clara?

Olho para a sala e vejo brinquedos espalhados por todos os cantos.

- Vamos guardar os brinquedos antes da gente brincar de massinha? Ajuda o papai e guarda na gaveta.

Começo a recolher as coisas do chão e ela me ajuda.

4. "Levar no embalo"

Aproveitar os momentos de empolgação em que estamos brincando para conduzi-la a fazer coisas que ela normalmente não gosta de parar para fazer, como trocar a fralda, tomar banho ou até tomar remédio.

Como meu trabalho ensinou, é muito mais fácil fechar acordo quando seu cliente está feliz.

Não é a toa que levamos eles para jantar e tomar cerveja.

5. Será que o seu brinquedo não quer ir?

As vezes é mais fácil convencê-la a fazer algo para o brinquedo do que para ela mesma.

Cena:

- Clara, vamos fazer a boneca ir dormir? Acho que ela está com sono. Coloca ela para deitar na cama e faz carinho.

Mesmo que ela não vá dormir de imediato, tirá-la da sala e levá-la para o quarto por vontade própria já é o primeiro passo.

Os comerciais de dia dos namorados, dia das mães e dia dos pais seguem essa mesma lógica.

Não é para você, é para alguém que você gosta.

6. A ilusão da escolha

Transformar uma ordem em uma opção de escolha.

Aqui escapamos do perigo da criança simplesmente dizer "não quero" e travar o diálogo. Oferecemos a possibilidade de escolher, mesmo que o resultado final seja o mesmo.

Cena:

- Você quer tomar banho com o papai ou com a mamãe?

- Você vai comer seu jantar com a colher azul ou a rosa?

É a velha história do "Não gostou? nós temos o modelo azul"

***

E vocês? Quais os macetes que usam?

Nos encontramos nos comentários!

31 Mar 11:44

O silêncio das doulas

by Alaya
Uma doula ao atender um parto está o tempo todo fazendo escolhas. Como ajudar mais? Como atrapalhar menos? Na maioria das vezes a gente sente, está no ar, está no silêncio, nas expressões faciais, nos murmúrios e gestos. Não está nas palavras.

Optamos por apagar uma luz, por sugerir ou não uma posição, por massagear ou não durante uma contração. Estamos o tempo todo sentindo e avaliando, observando amorosamente como deixar a gestante mais confortável, ou diminuir alguma interferência. Um suor na testa para secar; um gole de água para ajudar a tomar; um sorriso, um gesto ou simplesmente cuidar do “resto” para a mulher poder ficar em paz em seu trabalho de parto, sem ter que atender outras demandas, responder perguntas, se preocupar.

Doula é apoio, é apoio quando aquela mulher, de pé, se depara com uma contração que toma todo o seu corpo, e estando de pé às vezes não consegue uma posição a tempo -- antes da contração a preencher por inteiro. A doula dá a si mesma, seu corpo de apoio, sua mão para manter o foco, seus ombros para segurar. “Aqui estou”, e a mulher pode se entregar à onda que a atravessa.

As vezes queremos ajudar, e na ânsia de incentivar atrapalhamos. O que dizemos marca, pode tirar o foco, gerar culpas. É um comentário mal colocado que remete a uma memória ruim, uma palavra mal usada que lembra sentimentos de fraqueza; ou o contrário. Palavras são carregadas! Também podem gerar presença, conforto. Incentivo alegre pode dar força, torcemos e rimos a cada contração mais dolorosa... ôoo dorzinha boa! “Era isso que queríamos não é mesmo”? E um sorriso lembra a mulher que sim, era aquilo mesmo que ela queria, sim que dor boa e bem vinda!


Com o tempo tenho aprendido a ser cada vez mais silenciosa. É tentador o risco de cairmos em clichês. Ocasionalmente podem até ajudar, mas muitas vezes só irritam e tiram a concentração. A doula precisa adivinhar, captar no ar, tentar acertar (e nem sempre acertamos). É fácil transformar um atendimento a um parto em uma torcida de “força você consegue” “é uma contração a menos” “chama seu bebê” “se entrega”. 

Difícil é calar, é permitir dar vazão pra tudo aquilo fluir sem interferência -- não apenas das intervenções do médico, mas até mesmo das interferências de “vamos fazer isso” “vamos fazer aquilo”. Perguntam-me se faço acupuntura durante um trabalho de parto: raramente. Uma mulher parindo não precisa de tratamentos, ela só precisa ser deixada parir.


Trabalho de parto é muito delicado. Podemos dizer palavras de incentivo, podemos ser leves e tirar algumas risadas e ajudar a descontrair o ambiente, podemos ser firmes na hora que bate aquele medo. Mas muitas vezes somos silêncio que abraça. E ao não fazer nada, permitimos que a mulher possa ser tudo, pois o parto não é sobre nós, é sobre elas, é sobre aquele bebê, aquela família. É muito mais sobre saber ouvir do que sobre saber falar...


Somos, as doulas, vela acessa na escuridão. Não somos sol. Sol é a mulher parindo, ela só precisa descobrir-se sol. A doula é vela, tímida, ilumina mas não aponta o caminho igual lanterna, não fala “é por aqui”, apenas sugestiona, dá a mão, pergunta “quer ir junto?”. A doula é vento que sopra as nuvens pro sol brilhar. E como brilha! E Raia o dia, chega a luz, vem o bebê iluminar. E a doula se recolhe, e continua apoiando.

07 Mar 19:07

Alimentação escolar – parte 1

by Francine Lima
Como deveria ser a comida servida nas escolas? Este é o primeiro vídeo de uma série sobre alimentação escolar.       Este conteúdo tem o apoio da ACT Promoção da Saúde, organização não governamental focada na promoção de políticas públicas de saúde que contribuam para a criação de ambientes saudáveis, em quatro áreas-chave: controle […]
27 Nov 19:12

29 coisas úteis que poderiam ser ensinadas na escola

by Breno França

A educação anda em pauta.

Com centenas de escolas públicas ocupadas pelo Brasil, com uma PEC sobre a mudança do currículo do Ensino Médio tramitando no Congresso Nacional e com uma fase do ano sempre repleta de vestibulares, matérias sobre estes e outros assuntos relacionados pipocaram nos telejornais e nos portais de notícias nas últimas semanas.

Diante da exposição, o assunto também rendeu debates na sociedade civil e alimentou o sonho de muita gente que já passou pela escola e gostaria de vê-la um lugar melhor.

Fora o artigo sobre vestibulares, sobre modelos internacionais de ensino e até sobre os temidos 'apagões' na hora da prova, queremos aproveitar a onda para abordar a pauta de uma maneira um pouco mais lúdica.

A seguir, uma pequena reunião de coisas que poderiam ser ensinadas na escola se, quem sabe um dia, pudéssemos fazer uma tentativa menos pautada no 'passar de ano e prestar vestibular' e mais nos verdadeiros desafios da vida real e na formação ampla como cidadãos e indivíduos.

Para não alimentar polêmicas desnecessárias, vale fazer a ressalva: não se trata de uma proposta de reforma da educação, da defesa de uma escola partidária (sic) ou de uma tese super bem sustentada de quem passou anos estudando a questão. Não temos essa ambição. Trata-se apenas de uma lista despretensiosa de coisas que nós do PapodeHomem, com nossas visões e experiências limitadas, sentimos falta de ter aprendido (melhor?) em algum lugar em algum momento da vida.

Dito isso, reitero o convite para sua participação nos comentários. Nesse caso, alimentado pela pergunta: O que você gostaria de ter aprendido na escola?

Habilidades pessoais

1. Falar em público/se expressar

Uma das primeiras dificuldades que surgiram quando levantamos a pauta aqui na redação foi a de saber se comunicar. A questão vai desde fazer discursos para grandes plateias, escrever um bom email para seu futuro chefe (foi assim que acabei contratado pelo Guilherme, sabia?) ou abrir um problema na relação para seu(a) parceiro(a).

2. Libras e formas de acessibilidade

Segundo o último censo realizado pela IBGE em 2010, quase 10 milhões de pessoas são surdas e quase 6 milhões são cegas no Brasil. Isso dá algo em torno de 5% da população do país. E uma grande parcela delas simplesmente não consegue se comunicar direito com os outros 95%.

Eu nunca tive um amigo surdo ou mudo, mas também nunca poderia ter tido. Das poucas vezes que trombei com um indivíduo com uma dessas deficiências, fiquei totalmente deslocado e foi completamente inútil para ele. Me parece uma boa política ensinar às crianças como se comunicar com essas pessoas, não só através da Língua Brasileira de Sinais como outras práticas. É um horizonte que se expande para os dois lados.

3. Noção espacial

De tempos em tempos a gente se pega numa conversa que gira em torno de: será que tal objeto cabe ali? Será que aquele lugar fica mais perto ou mais longe do que aquele outro? Quanto tempo será que leva pra fazer isso ou aquilo?

Na escola a gente aprende as formas geométricas, as direções, os fuso-horários, os mapas, mas nenhum de nós por aqui chegou a participar de uma dinâmica que ensinasse proporções da vida real ou como se localizar. E isso já acabou nos fazendo falta.

4. Defesa pessoal

Mês que vem um de nós, não vou falar quem, vai fazer exame de faixa no Krav Maga. E toda vez que essa pessoa fala sobre a experiência de estar aprendendo uma forma de se defender, me lembro de como não sei fazer absolutamente nada nesse sentido e fico me cobrando: um dia ainda vou aprender a lutar alguma coisa.

Não se trata de estimular as pessoas a reagir a um assalto. Pelo contrário. Pessoas iniciadas em algum tipo de luta geralmente têm mais autocontrole e sabem usar a violência apenas em momentos de extrema necessidade. Isso fora a filosofia belíssima que várias lutam têm e que nós poderíamos aprender e reaplicar na vida.

5. Ter paciência

Você está aguardando um ônibus, esperando para ser atendido no consultório ou mesmo pleiteando uma promoção na empresa e aí se pega ansioso ou confuso por não saber o que fazer enquanto o tempo passa.

Na escola, como na vida, situações como essa se repetem. A gente já tomou muita bronca da inspetora por sair correndo da sala pra ver quem chega primeiro na fila da cantina, mas ninguém nunca nos propôs uma conversa sobre ter paciência e aguardar a sua vez. Todos os dias no trânsito de São Paulo somos lembrados o quanto isso poderia ajudar.

6. Cozinhar

Seja para se tornar menos dependente da indústria alimentícia, para aprender a saborear melhor os alimentos, para economizar dinheiro mesmo ou para se livrar da divisão da louça suja, saber cozinhar é uma das coisas que mais faz falta para uma porção de nós.

Tirando que quem sabe cozinhar quase nunca se queixa de ter gastado tempo fazendo isso, tem uma porção de coisas que passar esse tempo na cozinha pode te ensinar sobre a vida. E não é difícil imaginar aplicações das matérias de física, química, biologia, matemática, etc, né? 

7. Nutrição

Junto com as aulas sobre cozinhar poderiam vir as aulas sobre nutrição, afinal de contas, quem sabe quantas calorias têm as coisas? Qual o impacto que os alimentos têm no nosso corpo? Qual o real motivo pelo qual nós devemos nos alimentar melhor fora o 'porque sim' dos nossos pais?

A lição poderia estimular as crianças a cuidarem de uma horta, aprender a ler o rótulo das embalagens ou que o pastel e a coxinha ficam mais gostosos se você não come ele todos os dias da semana.

Cuidados pessoais

8. Fazer exercícios

A gente já falou diversas vezes sobre a importância de fazer exercícios e todo mundo tá careca de saber como eles podem aumentar nossa qualidade vida e nossa própria percepção sobre nós mesmos, mas se hoje sofremos tanto para mudar nossos hábitos sedentários, porque não tentamos impedir que eles comecem.

Eu tive a sorte de ter alguns bons professores de educação física que passavam séries de aquecimento e nos ensinavam modalidades novas ao invés de só soltar uma bola de futsal e deixar a gente brincar. Mas tenho conhecimento de que, via de regra, não é assim.

Além do mais, acredito que fazer exercício todo dia ao chegar ou sair da escola seria mais benéfico do que cantar o hino nacional, mas é só a minha opinião.

9. Primeiros socorros

Seja sincero comigo: O que você faria se alguém começasse a passar mal na sua frente na rua? E se fosse alguém da sua família? Sinceramente, ligar pra ambulância e aguardar ou torcer pra ter um médico por perto nem sempre pode ser o suficiente.

Para além do lavar, soprar ou dar um copo d'água com açúcar, porque não aprendemos a fazer pequenos curativos, ajudar alguém a desengasgar e outros procedimentos básicos. Acho que colocar um pouco disso nas escolas não ia matar ninguém. Pelo contrário.

10. Como se vestir bem

A gente também já disse que, na verdade, estilo importa e fingir que não se importa é fazer um estilo, então que tal se a gente aprendesse a se vestir bem nem que fosse só para determinadas ocasiões?

Uma entrevista de emprego. Um casamento. A própria formatura. A gente não precisa colocar regras de etiqueta no lugar da aula de matemática. Mas poder consultar alguém sobre o assunto uma ou duas vezes por ano não seria ruim.

Enquanto isso não acontece, a gente tem o Bruno Passos.

Tarefas comuns

11. Fazer compras

Então você se pega sabendo se alimentar melhor, vestir melhor, viver melhor, mas tudo descamba porque você vai às compras e sente como se não tivesse dinheiro pra fazer nada.

A sociedade nos estimula a comprar o tempo inteiro, então que tal a escola, que ocupa tanto do nosso tempo, passasse a fazer um contrapeso nos ensinando a fazer boas compras?

Analisar o preço e o custo das coisas, deixar os congelados pro final, conter o impulso para levar apenas o necessário, escolher bem frutas, legumes e verduras, ler os rótulos, não cair na tentação das promoções, economizar mais, etc. Eu gostaria e vejo soluções possíveis para abordar diversas matérias também. 

12. Pequenos reparos domésticos

Quem aí já trocou a resistência do chuveiro? Trocou uma lâmpada? Consertou a maçaneta? Instalou uma prateleira?

Quando a gente passa a morar sozinho, topa com esses problemas todos os dias e muitos de nós batemos cabeça, adiamos ou simplesmente pagamos caro por não saber fazer coisas básicas. A internet ensina como fazer tudo isso? Ensina! Mas a oportunidade de mostrar a importância de zelar pelas suas próprias coisas seria importante pra muita gente.

13. Noções de mecânica

Agora imagine que você tem uma sala cheio de crianças que adoram saber como as coisas funcionam. Desde um relógio de pulso até um avião. Imagine as opções que se apresentam para estimular a turma a ser curiosa e aprender a entender sobre tudo!

Ninguém precisa sair da escola com diploma de engenharia, mas seria útil não ser mais enganado pelo mecânico de estrada por saber que o radiador não tem nada a ver com o disco de freio. Ou tem?

14. Noções de informática

Se noções de mecânica não te convenceram, que tal aprender um pouco sobre informática? A área só cresce, as coisas estão cada vez mais digitais e o emprego das pessoas que estão na escola hoje provavelmente vai lidar com isso diariamente.

Então que tal dar uma noção de como sites e aplicativos são criados, como podemos consertar um ou outro problema no nosso próprio computador, e até mesmo como dá pra melhorar aquele seu joguinho favorito de código aberto? Conheço uns caras que fizeram isso e se deram bem, mas não graças à escola.

15. Segurança virtual

No mesmo pacote vinha as noções de segurança virtual.

Que tal saber reconhecer um site seguro, não se expor desnecessariamente a vírus, criar uma senha segura e escapar de pessoas mal intencionadas na internet? Vai ser difícil dar conta de todas as variáveis possíveis, mas dá pra evitar que as histórias, cada vez mais comuns, de gente que se deu mal por bobeira na internet. 

16. Gerenciamento de tempo

Ainda na pegada do fazer compras, que tal aprender a distribuir melhor o seu tempo. Fazendo nossos projetos e orçamentos, percebemos que nossa principal dificuldade é mensurar quanto tempo gastaremos fazendo as coisas. Ninguém nunca nos ensinou isso.

Seja porque é uma habilidade importante pro mercado ou porque nós queremos ter uma vida mais ajustada, aprender a lidar com o tempo se mostra cada vez mais importante hoje em dia.

Noções financeiras

17. Pagar impostos

Eu não sei vocês, mas eu fico desesperado ao saber que num futuro próximo vou ter que declarar meu imposto de renda. Se um dia eu abrir uma empresa então, me dá dor de barriga só de saber como funciona o esquema do ICMS.

Se pagar imposto é uma das únicas certezas da vida e uma das maiores dificuldades dos brasileiros, por que não aproveitar para ensinar a gente a fazer direito e estabelecer uma boa relação com nosso dinheiro? Por que não aprender qual a parcela de grana que a gente dá pro governo resolver os problemas a cada transação? A conscientização sobre nossos direitos e deveres pode começar por aqui.

18. Economizar/Guardar dinheiro

Muito se fala sobre como ganhar dinheiro, mas eu tenho percebido que tão importante quanto ganhar é saber como e onde guardar. Se você tivesse 500, mil, 5 mil, 10 mil, 100 mil reais economizados, onde você aplicaria?

A verdade é que nós brasileiros sabemos muito pouco sobre como as regras do jogo funcionam e o dinheiro que é duro de entrar acabar escapando facilmente pelo ralo. Para saber como economizar e como fazer o nosso suado dinheirinho render, que tal aprender e valorizar isso desde pequenos? Imagina que louco ter educação financeira nas escolas?

Enquanto isso não acontece, temos o Eduardo Amuri.

19. Conseguir crédito

Agora vamos sonhar com o dia em que o brasileiro médio passar a exercer um pouco mais o pensamento empreendedor. Imagina o dia em que essa criatividade que o brasileiro já provou que tem for colocada cada vez mais a serviço de bons negócios e novas empresas?

Para tirar tudo isso do papel, será preciso uma boa dose de equilíbrio e ajuda por parte do governo (desde que seja não atrapalhar), mas parte disso também depende da iniciativa privada de dar crédito.

Uma vez fizemos um exercício muito interessante na minha escola e aquilo foi tão marcante que eu gostaria de ver replicado por aí. Resumidamente, nós inventávamos um negócio com base na matéria, defendíamos pra turma, conseguíamos determinado crédito e tentávamos manter o 'falso negócio' de pé numa espécie de software criado pra isso. Não passava de um joguinho, mas dava uma tremenda visão de como essa coisa de criar empresa funciona na prática.

20. Fazer contratos

Outra coisa tão importante quanto é aprender a fazer contratos. Eu te desafio a passar uma vida inteira sem precisar fazer algum. Impossível. Não importa qual escolha você faça, você terá que assinar um contrato com alguém, desde esses "termo de compromisso" que você só dá check na internet, até o seu contrato de trabalho ou de aluguel.

E cara, sinceramente, se a gente aprender a escrever tanta coisa chata na escola, será que não dava pra roubar uns minutinhos pra introduzir essa forma real de manifestação da língua portuguesa?

21. Negociar

Por último, ainda dentro dessa questão financeira, que tal aprender a arte da negociação?

Se somarmos todos as pequenas perdas que tivemos ao longo da vida por não barganhar uma condição melhor de trabalho e de remuneração, vamos perceber o tamanho do prejuízo. É claro que ser um bom negociador não vai secar a fonte do desperdício, mas vai fazer você se vender melhor, aprender a dizer não pra determinadas coisas, conseguir mais prazo para realizar tarefas chatas e mais tempo para tarefas legais.

Dava até pra argumentar com a professora a quantidade de lição de casa. Já pensou?

Relações pessoais

22. Direitos e deveres civis

Se é importante aprender sobre os impostos que você paga, como fazer boas compras e como economizar dinheiro, o que dizer sobre os direitos e deveres civis, não é mesmo?

Me parece tão óbvio que nem vou me estender muito nesse tópico. Imagine apenas que você soubesse lidar tão bem com a justiça quanto os advogados do Fluminense.

23. Sobreviver sem tecnologia

Me diz aí o que você faz quando acaba a luz na sua casa? Pior, o que você faz quando acaba só a internet da sua casa?

Estamos dialogando com uma era onde estamos cada vez mais dependentes da internet, mas e no dia que der o bug no milênio, você saberá o que fazer? A escola pode cumprir um papel importante tanto na valorização das relações humanas como nas orientações de segurança para o caso de se perder e ficar sem sinal no celular.

24. Noções de sustentabilidade

E se você aprendesse a economizar energia e água? E se você aprendesse a não desperdiçar comida?

Me lembro que da sexta à oitava série só se falava de aquecimento global nas aulas de geografia, mas muito pouco ou nada se falava sobre o desperdício de comida, sobre a importância de separar o lixo, sobre subir poucos andares de escada, etc. A gente tem duas chances de fazer alguma coisa pelo planeta: presenciar uma grande merda que não vai nos dar outra alternativa a não ser mudar radicalmente de estilo de vida ou começar a propor coisas novas a partir das crianças. Alguma palpite sobre o que é melhor? 

25. Fazer amigos

Quantos anos você tem? Com quantos amigos da escola você ainda fala?

As escolas não estão realmente preocupadas em construir laços de amizade. Você pode até ter feito muitos trabalhos em grupo, mas é muito improvável que você tenha contato com mais de cinco pessoas da sua sétima série.

Você pode até dizer que ter amigos é coisa rara, mas a escola poderia minimamente se importar em saber se você se dá bem com as outras pessoas da sua sala de aula, afinal de contas, ali é provavelmente onde você passa a maior parte do seu tempo durante anos fundamentais, né não?

26. Começar um relacionamento

Os dois próximos tópicos vão falar basicamente sobre ajuste de expectativas.

A verdade é que a cabeça de um adolescente é uma tremenda bagunça. Nessa idade, a gente se empolga e se frustra umas três vezes por dia e ninguém se propõem a falar pra nós o que está acontecendo ou apontar direções e ajustes.

Eu aposto que seria um exercício válido ensinar os jovens a alinhar suas expectativas e exercitar sua autoconfiança para começar relacionamentos novos sejam eles afetivos ou profissionais.

27. Terminar um relacionamento

Da mesmíssima forma, ao cultivar um relação mais franca conosco e com os outros, a gente pode ter muito mais liberdade para pular fora do barco quando achar que fora a hora, minimizando os traumas.

A verdade é que saber como comunicar pros outros que você não está mais a fim é uma tarefa das mais difíceis, não é a toa que muita gente legal tem uma atitude escrota nessa hora.

No fim das contas, tem muito jovem por aí precisando de ajuda psicológica ao invés de professor particular. Tive muitos colegas que transformaram problemas pequenos em grandes traumas que acabaram prejudicando várias atividades de sua vida inclusive e principalmente o rendimento na escola.

28. Sexualidade

Se no campo das emoções, as dúvidas são tantas. Imagine no sexo.

Eu fico indignado como a escola é a parte que mais ocupa tempo na vida das pessoas justamente no momento onde elas estão passando por transformações tão profundas e como o problema é tratado como tabu. Se a escola não ocupa o espaço de dar informação sobre o assunto, os jovens vão buscar em outros lugares, e sabe-se lá onde vão encontrar.

Posso ter uma visão pessoal muito influenciada, mas, no meu caso, não se falou de sexo mais do que duas vezes nas aulas de ciência.

29. Planejamento familiar

Assim como seria importante ter orientações sobre a vida sexual, eu gostaria de ver pessoas dispostas a conversar com os jovens sobre seus objetivos de vida.

Vejo escolas transmitindo aos jovens a ambição de prestar vestibular e fazer uma faculdade unicamente porque isso interessa a elas. Mas vejo muito pouca conversa e conselhos sobre o que os jovens esperam da vida, como se relacionam com seus pais, quando pensam em ter um filho ou quando querem sair de casa.

Sinceramente, os momentos que mais admirei meus professores foram quando tivemos conversas sinceras sobre a vida. E gostaria de ter tido mais oportunidades.

***

E você? O que pensa?

23 Nov 01:40

Como ser um homem com saúde de menino

by Gustavo Machado

A presença de rituais que marcam a transição da infância para a vida adulta já foi uma coisa comum entre os homens de diferentes civilizações. Com o nosso avanço como sociedade urbana e industrializada, porém, os ritos foram ficando cada vez mais raros e hoje só podemos encontrá-los em culturas muito específicas.

Os índios

A tribo dos Caiapós, uma antiga congregação indígena brasileira que vive até hoje nas margens do rio Xingu (um afluente do Amazonas), é um desses casos. Dentre as várias crenças e tradições que eles preservam está um ritual de provação dos jovens realizado afim de torná-los guerreiros aptos para batalhas.

O rito do processo constitui-se em identificar um ninho de vespas no alto de uma árvore e organizar um ataque a ele. Trata-se de uma experiência difícil e dolorosa já que, ao primeiro ataque, as vespas identificam sua ameaça e passam a distribuir ferroadas a todos que insistem em incomodá-las.

Aos jovens índios, soma-se a dificuldade de subir uma escada rudimentar de madeira até a copa das árvores e depois descê-la sofrendo com os ferrões dos insetos incrustados na pele. Mas é justamente no sofrer que o sentido do ritual indígena se encontra. Isto porque os Caiapós acreditam que suportar a dor do contra-ataque das vespas é o que faz o guerreiro absorver sua força e seu potencial de dor, tornando-se mais forte e resistente a partir daquele momento.

Depois do processo, o índio deixa de ser considerado criança que precisa ser cuidada e alimentada e passa a ser julgado como um homem com o qual os demais integrantes da tribo podem contar em batalhas, mas também no dia a dia da comunidade.

Vamos aprender algo com a sabedoria indígena?

As meninas

Assim como nosso contexto social impôs uma diferença entre a forma como os Caiapós e nós fazemos a passagem da infância para a vida adulta, ele também o fez entre meninos e meninas sob o ponto de vista específico dos seus cuidados com a saúde e com sua transformação corporal.

Desde o nascimento, e mesmo durante a infância, crianças de ambos os sexos que têm acesso a cuidados médicos são avaliados regularmente por seus pediatras. Estes especialistas acompanham o desenvolvimento das crianças e vão tratando os problemas de saúde que surgem nessa fase da vida. Mas essas crianças vão crescendo e as visitas ao médico se tornam cada vez menos frequentes até chegar aos 10 ou 12 anos (variando entre 8 e 14) onde as meninas passam pela menarca (primeira menstruação) e os meninos não.

Neste momento a natureza se encarrega de firmar um marco importante na vida delas, deixando bem claro que aquela "criança" se aproxima da maturidade fisiológica para procriação. Os seus pais então se encarregam de acompanhar o processo, levando a menina a uma avaliação no ginecologista.

Essa avaliação inicial com um médico especializado na saúde da mulher se transforma num importante vínculo de rotina e cuidado com a saúde. A partir dali, as mulheres recebem as primeiras orientações quanto a sua sexualidade e também fazem uma avaliação clínica anual mais completa. A consulta ao ginecologista trata-se, portanto, de mais do que uma orientação quanto a saúde de seus órgãos sexuais, ela acaba por identificar outros problemas e direcionar a paciente a outros especialistas.

Meninas vão no ginecologista, meninos jogam videogame. Eita.

Os meninos

Mas no caso dos meninos, esse marco fisiológico proeminente não existe e acaba não sendo "substituído" de nenhuma maneira que possibilite aos seus pais conversarem de igual maneira sobre assuntos como: a importância dos cuidados com a saúde, as visitas regulares ao médico, a prática de atividades físicas e mesmo o abuso de álcool, tabaco e outras drogas. 

Dessa forma, os cuidados com a saúde e outros problemas passam à margem do processo de crescimento e desenvolvimento dos homens. Estes, com alguma sorte, vão encontrar seus marcos em outros momentos da vida como aprovações no vestibular, formaturas, mudança de casa, primeiro emprego, nascimento do primeiro filho, morte de alguém da família ou algo semelhante.

Porém, o que observamos clínica e socialmente cada vez mais frequentemente são casos de homens que acabaram nunca realizando tal transição. Eles substituem seus carrinhos de brinquedo por carros de verdade, videogames violentos por alguma forma "mais real", balas e refrigerantes por gordura e álcool e mesmo a relação com as pessoas é apenas substituída, nunca transformada. Alguns desses homens são casados com esposas que, na prática, funcionam como suas próprias mães.

O impacto disso na saúde é semelhante. Sem nunca ter realizado tal marco transitório, os homens simplesmente seguem acreditando que são tão saudáveis e imbatíveis como eram quando jovens, independente do que passa a incomodá-los ou das dúvidas que têm em relação as mudanças de seu próprio corpo que seguem acontecendo tanto aos 15 quanto aos 50 anos. Dessa forma, não é de se espantar que o respectivos carros façam mais revisões de funcionamento e estética do que os próprios donos.

Meninos brincam de carrinhos, depois homens brincam de carrões.

Os médicos

Em parte, nós médicos podemos ter sido corresponsáveis por esse processo. Como membros integrantes de uma sociedade que não está acostumada a ouvir queixas masculinas, nós mesmos, enquanto cuidadores, podemos ao longo dos anos ter sido um pouco negligentes por não valorizar ou estimular como deveríamos o vínculo que homens e meninos deveriam ter com sua própria saúde.

No famoso caso do livro/filme Clube da Luta, por mais que a obra seja muito famosa e já tenha sido amplamente discutida, uma cena quase sempre passa desapercebida. Muito antes de buscar suporte em grupos de apoio que não lhe cabiam, o protagonista procura um médico para tratar de sua insônia ao passo que o médico responde que existem pessoas sofrendo muito mais do que ele e dá cabo dizendo que ele não morrerá de insônia, negando-lhe acesso a medicações adequadas.

É tão verdade que existem pessoas sofrendo mais e que insônia não oferece risco de morte sozinha quanto o fato do médico não poder subestimar a dor de um paciente e negar a ele um tratamento adequado. Mas infelizmente, nesse caso específico, a ficção representa uma realidade que eu mesmo presenciei como médico, paciente ou acompanhante: quando se trata de um homem no consultório é muito mais difícil orientar quanto aos seus problemas e queixas, indicar possíveis tratamentos, esclarecer os riscos e cobrar um acompanhamento regular.

Os homens, de forma geral só são orientados da mesma maneira quando o problema já esta instalado de forma mais grave. Depois de uma vida repleta de álcool e cigarro, o indivíduo terá que tratar um câncer de garganta sem nunca ter sido avisado ou orientado sobre o risco que corria. Tudo porque ele não frequentou um médico sequer nos últimos 20 anos.

Imagina que louco: três homens no mesmo consultório?

Os homens

Nos consultórios ou emergências por onde passei é cena recorrente a de homens que procuram assistência "tarde demais" para cuidados preventivos. Estes pacientes chegam lá "arrastados" pela esposa, mãe, filha, irmã ou qualquer outra figura feminina próxima.

O médico vê-se obrigado a assumir o delicado papel de cuidador, sem paternalismo, orientando sobre como é importante o acompanhamento regular, a adesão ao tratamento e aos hábitos indicados, além da realização de exames complementares, quando necessário.

Perdi a conta de quantas vezes atendi na emergência, homens entre 40 e 50 anos (idade extremamente produtiva) que estavam acima do peso ou eventualmente obesos já diagnosticados com hipertensão ou diabetes e se queixando de uma forte dor no peito. O que esses homens tinham em comum? Uma negligência com a própria saúde ao longo de décadas.

Não se tratava de um problema que tinha começado aos 40. Ele tinha começado aos 20 quando o paciente parou de ir ao dentista anualmente por falta de tempo entre as provas da faculdade, iniciou um consumo de álcool acima do tolerável para mostrar que aguentava beber mais nas festas, parou de fazer atividade física regular ou fazia apenas pelo apelo social/estético sem orientação, assim como se alimentava de qualquer coisa em qualquer horário e não se importava de virar 3 noites seguidas ao longo de uma semana onde não tinha conseguido manter um mínimo de 6 horas de sono por dia.

Da mesma forma, quando passei a trabalhar num posto de saúde da família no subúrbio de Salvador (cidade onde nasci e me forme), passei por diversos turnos até chegar no turno da saúde do homem. Infelizmente esse era o horário de atendimento mais vazio e mesmo as poucas consultas que tínhamos eram rotineiramente desmarcadas ou apenas resultavam em faltas. Identificamos tristemente que tais consultas eram quase sempre marcadas pelas esposas e que os homens não admitiam faltar ao trabalho para ir numa consulta sem que estivesse "morrendo" ou tendo um problema que o impedisse de trabalhar.

Seria mais fácil se você soubesse que até o super homem fica doente.

As escolhas

Ao longo da minha ainda breve carreira médica, escolhi me especializar numa área onde a maioria das doenças não oferecem risco iminente: a dermatologia. Nesta área, o incômodo de um paciente por um determinado problema pode ser óbvio ou extremamente subjetivo. É fácil aceitar que homens com dores, coceiras ou descamação muito extensas na pele procurem assistência especializada, mas não é tão simples para o próprio homem e seu médico aceitarem que existirão consultas por falhas na barba, queda de cabelos ou espinhas que não melhoram ao longo de anos, apenas para citar algumas das mais de 3 mil doenças descritas da área.

O que importa é que seja a dermatologia, a cardiologia, oncologia, psiquiatria, ortopedia ou qualquer outra área da medicina, as histórias se repetem. São médicos e pacientes que não sabem lidar com a nossa própria fragilidade enquanto tentam se enganar e se revestir de um poder ilusório com frases do tipo: 'só adoece quem faz exames' ou 'quem procura acha'.

Olhando por uma perspectiva macro das coisas, não é surpresa se eu te contar que a presença de mulheres em consultórios e hospitais é muito maior. Como profissionais, pacientes ou simples acompanhantes, em geral, as mulheres lidam muito melhor com a noção de fragilidade da saúde e se utilizam muito menos da ilusão de controle e poder as quais os homens são submetidos desde cedo.

Torna-se evidente uma falta de habilidade comunicativa entre os homens e como isso afeta seu dia a dia, subjugando até mesmo sua própria saúde. Conversas entre pais e filhos sobre assuntos como o cuidado com seu próprio corpo e mente são tão importantes como cada vez mais raras. Seja por ausência física, distanciamento emocional ou simplesmente por subestimar a importância disso, homens vêm sendo criados geração após geração sem saber como demonstrar preocupação ou fraqueza.

Assim sendo, nós vivemos num constante transtorno de personalidade bipartida semelhante ao de Dr. Jerckyl e Mr. Hyde (no livro O Médico e o Monstro) no qual devemos estar socialmente apresentáveis e saudáveis no trabalho e nas festas o tempo inteiro, ainda que uma dor ou incômodo pelo que quer que nos acometa nos corroa por dentro. Nesse sentido, seguimos passando adiante esses papéis e empurrando aos nossos pais, filhos e amigos o conceito "engula sua dor" ou "só procure um médico quando não houve outra opção" ainda que nós nunca tenhamos verbalizado uma dessas frases na vida.

E se a gente assumisse que nossas fraquezas dão as caras de vez em quando?

Um pacto

Escrevo este artigo agora, no mês de novembro, onde existe uma grande campanha em favor da saúde do homem. Por mais que haja uma discordância a respeito da eficácia do uso das cores em cada mês, acredito em tentativas como esta de estimular uma discussão sobre os cuidados com a saúde masculina que ajudam a promover mais qualidade de vida para todos nós sem ofender a virilidade e os níveis de testosterona de cada um.

A medicina se dedica ao estudo das doenças, descrevendo-as a fundo em todas as suas variações e alterações e buscando soluções para cada problema da melhor forma, mas de nada vale tudo isso se não atinge seu objetivo fundamental que é o de cuidar das pessoas. Por mais avançados que estejam os tratamentos e diagnósticos nas diversas áreas, se os pacientes não estão chegando aos consultórios para encontrar essas soluções então todos nós, profissionais da saúde, estamos falhando em nossas missões.

Entretanto, sei que apesar desta ser a nossa missão, justamente por ser um problema de causa maior, precisamos da ajuda de todos. E um bom jeito de começar é cuidando de nós mesmos. Por isso, proponho um pacto: que tal nunca mais levar seu carro para a revisão antes de você mesmo fazer uma?

23 Nov 01:32

O gauche do parto humanizado no Rio Grande do Sul

by Cláudia Rodrigues
O gauche do parto humanizado no Rio Grande do Sul, Ricardo Herbert Jones, foi cassado pelo Conselho Regional de Medicina do RS.
Por motivos políticos, depois de uma defesa irretocável do ponto de vista clínico. O que se fortalece é  o ideal de nascimentos hospitalares, a garantia de que o sistema, riquíssimo em cirurgias desnecessárias e iatrogenias, continue a pleno vapor. O que se persegue é o atendimento humano e o respeito pelo desejo das mulheres que desejam parir em posições livres nos hospitais ou em casa.

Compartilho entrevista concedida em 2012


Cláudia Rodrigues


Autor de Memórias de um Homem de Vidro – Reminiscências de um Obstetra Humanista, já na 3ª edição, esse obstetra gaúcho é o único médico em Porto Alegre que assiste partos domiciliares. Respeitado internacionalmente por grandes nomes da humanização, como Michel Odent, Robbie Davis-Floyd e Debra Pascali-Bonaro, ele dá cursos e palestras em Portugal, Uruguai, México e nas capitais brasileiras que estão à frente do movimento pela humanização do parto e do nascimento.


Filho de um funcionário da CEEE e de uma funcionária da GE que deixou de trabalhar para formar família, Ricardo Herbert Jones nasceu em novembro de 1959 no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. A família Jones chegou a morar em São Leopoldo para facilitar o trajeto do pai, que trabalhava nessa cidade, mas voltou para Porto Alegre quando Ricardo estava com 6 anos. Foi criado no bairro Menino Deus no tempo em que as pessoas colocavam cadeiras na calçada nos finais de tarde de verão. Atravessava a praça para ir à Escola Estadual Presidente Roosevelt, andava solto, sem medo de nada. Um de seus maiores prazeres era sentir o cheiro da comida que a própria mãe estava a preparar quando ele voltava do colégio. O último ano do 2º grau acumulou com o cursinho pré-vestibular Mauá e não deu outra: entrou na já disputada medicina da UFRGS em 1977, aos 17 anos.


Sul 21: Os cursos de medicina têm fama de serem divertidos, ainda que se estude muito os estudantes saem, tem as patotas, como todos os cursos. Como foi essa fase para o Sr.?


Ricardo Jones: Não tive isso, fui pai aos 22 anos e adorei descobrir a paternidade tão cedo. Para mim a faculdade era uma referência profissional, de formação e já no segundo ano eu estava trabalhando, fazia muitos plantões. Nunca fui de festas, políticas, o tempo em que não estava estudando e trabalhando, ficava em casa, eu era pai, sempre brinquei muito com meus filhos. Apesar de a paternidade ter surgido em minha vida de forma prematura, eu jamais me senti prejudicado por esta extemporaneidade. Ser pai muito jovem foi o grande estímulo que tive para me dedicar à minha grande paixão: o trabalho com o feminino e o nascimento humano, os meus filhos foram o motor do meu crescimento.


Sul21: Os teus filhos nasceram de parto normal...


R.J.: Sim, os dois, Lucas nasceu em 1982 e Isabel em 1985, ambos de parto normal, isso não era uma questão, nunca imaginamos, Zeza e eu, uma cesariana. A opção pelo parto normal, na época, não estava relacionada com um ativismo consciente, mas apenas com a ideia de que “essa era a forma normal de ter um filho”. Temo que os pais que estão tendo seus filhos hoje sofram com uma imagem pervertida dessa situação: o “normal” passa a ser planejar uma grande cirurgia abdominal para a extração de um bebê. E isso me parece uma tragédia, visto que é um modelo estético-cultural que favorece instituições e corporações, mas que sacrifica o bem estar de mães e bebês.


Ele levanta, abre um armário e traz um maço de fichas datadas desde 1985, quando atendeu seu primeiro parto oficial. Nome da mãe, do bebê, o histórico do atendimento em letras de forma caprichadas. A cada 100 casos ele fecha os índices: apgar – nota que se dá ao bebê ao nascer, o endereço da mãe, o peso, sexo. Observa e mostra. “Olha, aqui um ano que obtive 11% de cesarianas, aqui nesse maço 22%, aqui as justificativas para cada cesariana realizada, vamos aprendendo, tenho tudo anotado desde essa primeira parturiente, que por acaso tem o nome da minha esposa.”


Sul21: Como se explica que no RS, em 2012, na capital do Estado, apenas um médico atenda partos domiciliares?

R.J.: A formação de médicos humanistas obedece dois modelos essenciais, que simulam os processos adaptativos na zoologia. Podemos produzir médicos humanistas por seleção natural ou por mutação. Eu sou uma “mutação”, visto que nunca recebi de outros colegas do meu meio o estímulo para estudar e trabalhar em um modelo de humanização.  Entretanto, espero que através de uma maior conscientização da sociedade civil sobre direitos reprodutivos e sexuais ocorra uma exigência maior pelo respeito aos aspectos subjetivos do nascimento. Com isso, novos médicos serão levados a ter uma postura mais humanizada por “seleção natural”, pois a atitude mais cidadã dos clientes forçará uma reação adaptativa dos profissionais. O RS é um dos estados mais atrasados do Brasil na humanização do nascimento, a questão não se encerra em ser domiciliar. Parto domiciliar é um direito da mulher, um direito de escolha a que recorrem mulheres bem informadas, que lêem muito, consultam evidências, são críticas em relação a esse sistema obstétrico que é iatrocêntrico, centrado no médico; etiocêntrico, centrado na patologia e hospitalocêntrico, centrado no hospital. Podemos citar o caso da episiotomia de rotina, http://www.scielo.br/pdf/rbgo/v29n1/a01v29n1.pdf procedimento que está derrubado em termos científicos desde 1983 e continua acontecendo.


Sul21: O Sr. Não faz episiotomia?

R.J. Vê bem como é complicado, eu não faço desde 1990, levei anos para conseguir parar porque procedimentos na medicina são ritualísticos, repetidos, padronizados e é difícil parar um ritual daquilo que sempre se fez igual, é como uma reza e o sistema médico segue essa religião, é isso que o fortalece, a repetição. Estamos em 2012 e aqui no RS 80% das mulheres sofrem episiotomia ainda! É assim com a tricotomia também http://www.scielo.br/pdf/csc/v10n3/a20v10n3.pdf, não tem valor científico, é mais arriscado inclusive, não se justifica raspar os pelos pubianos da mulher para o parto. Isso já se sabe, mas então o que se faz para manter o ritual? Deixa-se um chumaço de pelos aparentes e raspa-se a parte de baixo, é uma maneira de infantilizar a mulher, como o tratamento muito comum de chamar as parturientes de “mãezinha”. Como as mulheres podem se sentir fortes para parir sendo tratadas como meninas?


Sul21: Como o Sr. age quando uma cliente pede uma cesariana eletiva, quer agendar?


R.J. Não faço cesarianas eletivas a pedido, sem qualquer indicação clínica, mas as minhas clientes, 45% delas chega pedindo parto hospitalar humanizado, elas são atendidas por mim hoje no Hospital Divina Providência e cerca de 65% delas pedem parto domiciliar, já vieram com indicação de uma amiga ou conhecida que viveu a experiência de um parto. As minhas clientes são pessoas que sabem o que querem em sua maioria, elas buscam um atendimento humanizado, seja hospitalar ou domiciliar.


Sul21: Como é um atendimento fora do padrão de um hospital e porque esse “hoje” atendo no Divina Providência?


R.J: Não usamos medicamentos rotineiramente; em algumas circunstancias usamos, não dopamos, a dor é tratada prioritariamente com massagens, carinho, apoio, a mulher é dona do parto, é a protagonista, nós estamos ali para servir, assistir e esperar o tempo dela tornando esse tempo o mais agradável possível. Sobre “hoje”: o Divina Providência é o hospital que aceita de maneira mais tranquila o modo humanizado de atendimento ao parto, mas em qualquer hospital um obstetra como eu, que entra com uma equipe, uma doula, uma enfermeira obstetra, a Zeza, e com as pessoas que a gestante escolhe porque a parturiente tem o direito de querer o marido ali ativo ou a mãe, que seja; é um obstetra que incomoda. É luz baixa, horas a mais que se ocupa o ambiente, tudo isso é desconfortável do ponto de vista institucional e causa estranhamento, incômodos, não deixa de ser uma crítica ao sistema que existe ali como um todo, é diferente do que todos fazem, então não é uma situação cativa estabelecida.


Sul21: Não há apoio de universidades aqui no RS, não há vínculos entre a universidade e as maternidades públicas e privadas, como isso tende a ficar agora que a Rede Cegonha está aí querendo humanizar os partos no SUS?


R.J.: Aqui no RS o professor Alberto Abech, da UFRGS, é simpático ao ideário da humanização aliando-o a uma conhecida competência profissional. Não lembro de outro nome do ambiente acadêmico. No RS o parto é feito sob o modelo da década de 1950 e o mais comum é a cesariana, mais prática para os obstetras, mais rentável.

Nesse momento temos pessoas de alto nível técnico da humanização no Governo Federal, como Esther Vilela, coordenadora da Área Técnica da Saúde da Mulher. Mulheres de linha de frente como Daphne Ratter, Mazé e Tânia Lago têm trabalhado para que a humanização do parto e do nascimento se desenvolva no Brasil. O representante na sede brasileira da OPAS –Organização Pan-Americana da Saúde é o Rodolfo Gomez, que foi diretor executivo da International MotherBaby Childbirth Initiative http://midwiferytoday.com/articles/IMBCI.asp, então temos aí um time que trabalha com base em evidências por uma humanização do atendimento ao parto e ao nascimento e a ideia é colocar em prática nacionalmente. Um nome que não posso deixar de citar é o da Dra Melania Amorim, que não está trabalhando diretamente na Rede Cegonha, mas é um exemplo, talvez o maior Brasil, ela tem um trabalho e uma trajetória profissional incontestável e também atende partos domiciliares. http://guiadobebe.uol.com.br/parto-em-casa-e-seguro/

 

 

Sul21: Como o Sr. vê uma mudança de atitudes dos obstetras do RS se eles consideram parto domiciliar um risco, acham frescura o atendimento humanizado, não freqüentam palestras sobre humanização, não se atualizam, continuam fazendo episiotomias de rotina, tricotomia e principalmente cesarianas sem indicação clínica, muitas vezes eletivas?

 

R.J. Parte do montante de 9 bilhões que serão aplicados pela Rede Cegonha será investido em casas de parto. Aqui em Porto Alegre não temos nenhuma e pelo modelo que se pretende implantar, é fundamental a presença da enfermeira obstetra. Uma casa de parto deve ser coordenada por enfermeiras obstetras, é assim em todo o mundo quando se utiliza sistema de referências para partos de baixo risco. A Rede Cegonha prevê que seja assim e é ótimo, melhor para as mulheres. Em outros lugares do Brasil isso já é uma realidade, mas no RS a enfermeira ainda é a mulher da bandeja, que serve o médico. Aqui no RS uma enfermeira obstetra só atende parto se for uma emergência e não houver um médico por perto, mas isso é inadequado, basta ver o modelo existente em países europeus onde as taxas de morbimortalidade são muito menores e a assistência é baseada no trabalho das enfermeiras obstetras, sempre com respaldo de obstetras em caso de necessidade. As enfermeiras obstetras são capacitadas para atender partos, mas como aqui não existe essa função, não podem praticar, sendo assim pode haver um problema de falta de experiência, será algo novo para elas. Em São Paulo tem um curso na USP para formar obstetrizes e em várias capitais já existem casas de parto coordenadas por enfermeiras obstetras e parteiras profissionais. http://www.ims.uerj.br/lappis/index.php/incubadora/62-casa-de-parto/249-casa-da-gestante-zilda-arns-melhor-iniciativa-institucional-segundo-a-opasoms.html

 

Sul21: Em outros lugares do Brasil é fácil essa relação entre a assistência humanizada pró-parto e o universo cesarista criado pela obstetrícia sob o poder dos médicos? No Rio de Janeiro não há problemas com as casas de parto?

R.J.: Sim, as casas de parto frequentemente sofrem embargos dos conselhos de medicina e os poucos médicos que apoiam a humanização acabam sendo punidos, é uma maneira de intimidar os simpatizantes que vêm da medicina a manter os rituais, o poder, a proteção à corporação médica como dona do parto fisiológico, mas a situação de atendimento ao parto, os abusos e os problemas vêm se agravando nos últimos anos porque os médicos não querem despender o tempo necessário para acompanhar partos, somos treinados para a cirurgia e muitos estão focados exclusivamente na questão tempo=dinheiro. O que aconteceu recentemente com o Marcos Dias, no Rio de Janeiro, é inominável, mas a reação, por parte de colegas, de redes de mulheres, http://partodoprincipio.blogspot.com/2011/12/nos-tambem-apoiamos-marcos-dias.html

 da Rehuna, http://www.rehuna.org.br/ veio com força. Há reações a esses linchamentos morais, quando se ataca a pessoa porque não se consegue combater as ideias.

 

Sul21: Esses linchamentos morais, ameaças, como no caso do Dr. Marcos Dias, acontecem em decorrência de um parto malsucedido, de um natimorto. Como é isso em números?

R.J.: É simples, se um bebê nasce via cesariana eletiva com 36 semanas e morre dentro do hospital, considera-se uma fatalidade, essas coisas são essencialmente impunes porque estão dentro da mitologia contemporânea de veneração à tecnologia. Esse procedimento é condenado pela Organização Mundial de Saúde, mas a cesariana eletiva sem indicação clínica é muito comum no Brasil. Além de causar mortes, acarreta problemas cardiorrespiratórios em bebês, baixo peso, problemas de pega na amamentação, mas está protegida pela corporação e pelas instituições. Os números são alarmantes, há pesquisas, evidências, a cesariana eletiva sem indicação clínica já está sendo estudada como epidemia, está banalizada. Sabe-se também que 27% das mulheres reclamam de maus tratos na hora do parto dentro do hospital, isso tudo fica assim, há uma proteção da corporação e fica subentendido que aquele bebê não teria salvação. Já o caso de transferência para hospital a partir de uma casa de parto ou do domicílio da mulher, basta um caso em 10 anos, isso aconteceu comigo, para que seja aberto um processo. O parto domiciliar ou em casas de parto no Brasil, ainda que seja seguro e baseado em evidências, é atacado e a melhor forma de atacar é a perseguição ao indivíduo, que é frágil dentro do sistema. A cesariana salva vidas, sempre vai salvar, em gestações de alto risco, o que se verifica durante o pré-natal, não devem ser encaminhadas para um parto domiciliar, embora nem sempre um alto risco seja necessariamente indicação para cirurgia. Em casos de gestação gemelar, de pressão alta e diabetes, nem sempre a cesariana é uma indicação imediata, embora o acompanhamento do trabalho de parto  e o parto deva ocorrer em uma maternidade. Isso conforme as evidências. Na prática o mais comum é que uma diabética tenha sua cesariana agendada.

 

Sul21: Ser médico obstetra e atender partos domiciliares é muito arriscado, então por que o Sr. entrou nisso, por que correr esse risco em vez de atender apenas em hospitais? É um bom filão no mercado, ganha-se bem atendendo esse público seleto e bem informado?

R.J: Não sei se é um bom filão, não sou um sujeito ligado em dinheiro e status, meu carro tem dez anos e como médico atendo pessoas e essa necessidade que existe, para algumas mulheres, de parir seus filhos, viver essa experiência que é de vida e não de doença. Também porque é um direito da mulher escolher o local em que se sente mais segura para parir, portanto essa é uma questão, assim como o aborto, que extrapola o debate puramente médico; é uma discussão que envolve uma compreensão mais complexa de direitos humanos reprodutivos e sexuais. Tem a ver com liberdade e autonomia das mulheres, e é por essa razão que países de larga tradição democrática da Europa, como a Inglaterra, estimulam a livre escolha do lugar de parir. Há evidências de que com um bom pré-natal, não sendo a gestante de alto risco, o parto fisiológico é tão seguro em casa quanto no hospital e além disso respeita-se o ritual familiar, vive-se com aquela família a intensidade de um momento muito especial. Do ponto de vista humano é extremamente gratificante acompanhar a dimensão familiar e emocional do parto; é uma riqueza que o modelo tradicional não oferece para a família e que muitos médicos não se interessam, mas a mim me interessa e me toca.

“É assim”, diz, acessando um vídeo de um parto que assistiu. As imagens brotam na tela e ele vai narrando a história daquela família com ele. Uma gaúcha, casada com um indiano, decide ter o bebê no RS, optam pelo hospitalar humanizado. O primeiro filho nasceu de cesariana na Índia. Ela luta, recebe massagens da doula, o marido se mantém sorridente. “Os pais ajudam muito quando se mantêm confiantes.” A doula faz massagens, conversa, acalma a parturiente. “Ela lutou, foi um parto longo, mas os batimentos cardíacos do bebê estiveram sempre bem, o estado geral dela também, muita segurança, ela foi corajosa.”

 

O bebê vem, é uma menina, nasce rosada, o médico recebe, desenrola o cordão e entrega para a mãe imediatamente. Ele volta para a câmera e filma a felicidade dos envolvidos em um momento pessoal só deles. Sem intervenções desnecessárias, o bebê procura o seio, a mãe vai reconhecendo o filho fora da barriga pela primeira vez. O pai comemora e o menino, filho mais velho, chega para ver a irmã.

 

“Olha, o menino, filho deles, muito alegre esse menino, muito bonito, ele faz aí a imitação de um  Tiranossaurus rex, ele fez questão de me mostrar como era sua imitação perfeita de tiranossauros rex e fiz questão de colocar a imagem aí na edição do vídeo, pareceu importante incorporar imagens do menino no parto da irmã, na festa íntima e particular deles”.

 

Depois de tantos anos assistindo partos e vídeos que ele mesmo produz para presentear às famílias, o médico se emociona, assim como o fotógrafo e a repórter. Está plenamente compreendida por que, apesar dos dissabores, dos linchamentos morais, dos riscos para a carreira, um obstetra escolhe atender partos assim, fora do modelo tradicional e hoje, em 2012, já com evidências de segurança.

 




15 Nov 16:07

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