“Em todo o mundo, milhões de pessoas enfrentam violência e discriminação apenas por serem quem são.”
Fonte: Moça, você é machista.
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“Em todo o mundo, milhões de pessoas enfrentam violência e discriminação apenas por serem quem são.”
Fonte: Moça, você é machista.
Em um belo texto de belíssimo nome (Escritores Criativos e Devaneios), Sigmund Freud trata com rigor e originalidade a questão do manancial de onde brotam as águas da poesia concluindo, não sem uma emocionante argumentação, que “afinal, os próprios escritores criativos gostam de diminuir a distância entre a sua classe e o homem comum, assegurando-nos com muita frequência de que todos, no íntimo, somos poetas, e de que só com o último homem morrerá o último poeta.” (Freud, 1908). Freud parte de uma proximidade suposta entre os escritores criativos e as crianças assumindo que a criatividade literária surge em continuidade ao fim da experiência da infância. O oposto perfeito do lúdico-abstrato brincar não seria a seriedade, mas a concretude, de modo que o escritor criativo faz com sua obra o mesmo que faz uma criança: brinca abstrata e prazeirozamente com as palavras. Isso fazem muito bem os meninos que comigo costumam brincar: Drummond, Bandeira e Quintana, apenas para citar três. A infância volta a brincar nos olhos do adulto que descobre um novo poema, um brinquedo novo com que entreter e sanar a alma. Segue esse belo brinquedo escrito por Drummond: “O Elefante”.
O ELEFANTE
(por Carlos Drummond de Andrade)
“Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.
Eis o meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê em bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.
Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.
Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.
E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.”
Ministério Público no DF abre apuração sobre suspeita de sonegação envolvendo a Rede Globo
16/07/2013 – 19h35
Débora Zampier, Repórter da Agência Brasil
sugerido pelo Stanley Burburinho, Dica @marccdantas
Brasília – A Procuradoria da República no Distrito Federal (PR-DF) confirmou hoje (16) que abriu apuração criminal preliminar para investigar suspeitas de sonegação envolvendo a Rede Globo. O procedimento foi iniciado na segunda-feira (15), com a distribuição do caso para um procurador responsável.
A apuração foi solicitada na última sexta-feira (12) por 17 entidades da sociedade organizada, entre elas, o Centro de Estudo das Mídias Alternativas Barão de Itararé, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação. Eles alegam que o Ministério Público deve agir porque há indícios de lesão a bens federais.
De acordo com o grupo, as apurações tornaram-se necessárias devido a divulgação recente de documentos, até então sigilosos, sobre multa de mais de R$ 600 milhões à Rede Globo pela tentativa de sonegar impostos relativos à exibição da Copa do Mundo de 2002. Ainda segundo o grupo, também há suspeita de lavagem de dinheiro, de crimes contra órgãos da administração direta e indireta da União e de estelionato.
Com a abertura de procedimento preliminar, o Ministério Público tem prazo de 90 dias, prorrogáveis pelo mesmo tempo, para apurar as informações. Se houver indícios suficientes de crime, é aberto inquérito. Caso negativo, o procedimento é arquivado. A Procuradoria do DF ainda poderá encaminhar os documentos para o Rio de Janeiro, onde fica a sede da empresa.
Na semana passada, o Ministério Público Federal no Rio de Janeiro divulgou nota informando que acompanhava o caso desde 2005 e que não pediu abertura de inquérito policial por impeditivos legais relativos à restituição de valores fiscais. “Quanto aos demais tipos criminais aventados na mídia, o MPF entende que o enquadramento não seria aplicável por ausência de indícios”. O órgão também confirmou que documentos do caso foram extraviados por uma servidora da Receita Federal, que já foi processada e condenada pela Justiça.
Em nota, a Rede Globo disse que já não tem qualquer dívida em aberto com a Receita e que apenas optou, na época, por “uma forma menos onerosa e mais adequada no momento para realizar o negócio, como é facultado pela legislação brasileira a qualquer contribuinte”. A empresa informou que, após ser derrotada nos recursos apresentados à Receita, decidiu aderir ao Programa de Recuperação Fiscal da Receita Federal e fazer os pagamentos.
A empresa ainda destacou que desconhecia os fatos relativos a desvios de documentos no processso fiscal, pois não figurava como parte no processo. Segundo a Globo, os documentos perdidos foram restituídos com a colaboração da própria empresa, que desconhece os motivos que levaram a servidora a agir dessa forma.
Edição: Fernando Fraga
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Os anarquistas em passeata na Alemanha
13/07/2013 – 03h40
Em ‘assembleia’, ‘black blocs’ discutem como escapar da polícia
Com bandeiras pretas nas mãos, um grupo discutia estratégias para escapar do monitoramento de policiais e imprensa. Em sua maioria, eram jovens que vestiam roupas pretas, característica dos adeptos da filosofia anticapitalista “black bloc”.
A assembleia foi improvisada após protesto “pela democratização dos meios de comunicação”, que foi até a sede da TV Globo, zona sul de São Paulo, anteontem.
Antes, eles picharam muros da emissora e tentaram depredar um ponto de ônibus e uma agência bancária, alvo preferencial dos atos do grupo.
Os “blocs” surgiram na Europa, apoiando movimentos sociais em protestos. No Brasil, começaram a aparecer durante os atos do Movimento Passe Livre, em junho.
Segundo seus criadores, trata-se de uma forma de protestar — com a depredação de patrimônio público e privado –, e não um grupo.
Na reunião, acompanhada pela Folha, não havia líderes. Quem queria falar levantava o braço e aguardava sua vez. Quem concordava, sacudia as mãos de forma semelhante a palmas em libras, a língua brasileira de sinais.
O grupo discutia sua participação em protestos futuros e a melhor forma de comunicação entre os membros. Um deles, que dizia ser moderador da página “Black Bloc SP” no Facebook, reclamava que frequentemente tinha o acesso bloqueado.
A avaliação entre todos é que a página, por ser aberta, é monitorada “pelos P2″ (policiais disfarçados).
Uma garota sugeriu, então, que todos passassem a usar a rede social N-1 (alternativa ao Facebook) e que fosse criado um código de acesso.
Outro rapaz defendeu que fosse criada uma página hospedada em servidores na Rússia ou em Taiwan, “impossíveis de derrubar”. “A tecnologia evolui muito e na internet sempre vai ser uma disputa de gato e rato”, afirmou.
O assunto mudou quando outro jovem pediu para que adeptos participassem de seu programa na internet para falar da filosofia do grupo anarquista. Ele carregava uma bandeira preta e vermelha, que disse ter sido usada pelo avô anarquista na Guerra Civil Espanhola (1936-39).
Sem resposta, o jovem agradeceu e se despediu em francês: “Liberté, égalité, fraternité pour tout le monde” –liberdade, igualdade e fraternidade (um dos lemas da Revolução Francesa, 1789) para todo o mundo.
‘BLOCS CARIOCAS’
No Rio, quase uma hora depois de iniciada a passeata das centrais sindicais pelo Dia Nacional de Luta, surgiram jovens que tiraram camisetas, máscaras, casacos e bandeiras pretas de mochilas. Nas mãos, pedras e coquetéis molotov.
De repente, uma grande massa se formou e entrou na passeata: eram os “black blocs” cariocas. A presença de partidários do movimento era esperada, tanto que as centrais contrataram seguranças com a incumbência de mantê-los afastados da manifestação.
Grupos de anarcopunks, alguns deles estudantes de universidades como USP, PUC e Mackenzie, estão entre os que agem como “black blocs” em São Paulo, conforme apuração da Delegacia de Crimes de Intolerância (Decradi).
Segundo um investigador, que pediu anonimato, os grupos em atuação no país são diferentes dos europeus, que, em alguns casos, têm líderes.
Ele diz que o movimento de hoje tem entre seus adeptos universitários, de classe média, diferentes do MAP (Movimento Anarcopunk), nascido no Reino Unido dos anos 1970.
(ANDRÉ MONTEIRO, FLÁVIO FERREIRA, GIBA BERGAMIM JR. E MARCO ANTÔNIO MARTINS)
*****
Criminalização dos Black-Blocs: uma armadilha
por Mariana Corrêa dos Santos*, no Das Lutas, via Facebook
Observamos nos últimos dois dias, e bem de perto, a criminalização do jovem ativismo anarquista, como outros movimentos também foram criminalizados num passado não muito distante. Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, os movimentos do campo passaram por criminalizações similares, invenções midiáticas de invasão de terras “supostamente” produtivas, num claro revide contra a Reforma Agrária pleiteada. Com o auxílio da mídia convencional, esses movimentos foram taxados de vândalos, bárbaros, destruidores e um atraso para o desenvolvimento do país.
O que temos pra hoje são “caixas” e “mochilas” de molotovs confeccionados em garrafas de mesma marca, quase uma produção fabril, colocadas no chão por possíveis policiais infiltrados, ao lado dos Black Blocs que marchavam na Av. Rio Branco. Cenas que foram capturadas em câmera pelas mídias independentes. Esses mesmos infiltrados agem como se “descobrissem” os molotovs, e responsabilizam os grupos anarquistas. Ao reproduzir novamente o discurso de que esses jovens são os responsáveis pelos conflitos, a mídia convencional só pode partir da presunção de que toda uma população ainda está imbecilizada. É esquecer que, ao custo de muita bomba e bala de borracha, as mídias independentes retiraram o véu de qualquer mentira e armação, e estão acessíveis a quase todos aqueles que buscam informações.
Quem está desde junho nas ruas sabe que os movimentos anarquistas, em especial os Black Blocs, servem de proteção aos manifestantes, pois colocam-se na linha de frente, com escudos e proteções, prontos para devolver bombas aos seus atiradores. Sem essa linha de frente, quem estava na Presidente Vargas no dia 20/06 não teria saído a tempo sem ser pisoteado, baleado, ou fortemente intoxicado.
O que precisa ser discutido, e parece esquecido nessa busca por culpados e pela criminalização de novos grupos ativistas anti-sistema, é a violência escalonante da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Esse é o debate. Não pode ser naturalizado uma criança de cerca de 8 anos desmaiada no meio da Cinelândia por intoxicação de gás lacrimogênio. Não pode ser considerado normal que a polícia faça duas linhas fechando a Av. Rio Branco, e uma linha lateral onde obrigatoriamente seria o escoamento, e jogar spray de pimenta em todos que passavam.
A polícia carioca age na surdina, com carros envelopados sem identificação, atirando em manifestantes que já haviam dispersado. Persegue manifestantes por ruas, bairros, longos percursos, atirando bombas em hospitais, em residências, em passantes, bares, praças, deliberadamente, e planejadamente. Não são despreparados, são uma máquina de repressão comandada pelo Estado.
Aos que tem acesso à informação, não permitam que se criminalize mais um grupo social simplesmente por existir e por questionar o poder vigente. É preciso encampar essa luta, é preciso desmilitarizar, desarmar essa máquina de matar. Pois, como bem diz uma das faixas das manifestações: “A mesma polícia que reprime no asfalto é a que mata nas favelas”. E o que vai acontecer quando esse grupo que é a linha de frente das manifestações for criminalizado? As balas vão deixar de ser de borracha no asfalto também?
“É preciso estar atento e forte…”
*Mariana é integrante Das Lutas
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Na quinta-feira passada, fiz uma denúncia aqui no blog que provocou um bocado de polêmica. Vários comentaram dizendo que “distorci”, que falei “mentira”, etc. Mas eu não escrevi como jornalista. Não fiquei sabendo por terceiros. Eu estava lá. Eu vi com meus próprios olhos um bando de mascarados agirem com extrema agressividade contra os manifestantes. Eu socorri umas doze ou treze pessoas, levando-as para meu escritório ali perto, a maior parte senhoras de meia idade totalmente pacatas. O relato de todas elas era o mesmo: um bando de mascarados atacaram-nas durante a passeata.
Era um bando de 150 a 300 mascarados. Comentaristas vieram defender os Black Bocs, que eles não fazem isso, etc. Não sei. Mascarado para mim é tudo igual. Eu dou minha cara a tapa em qualquer parte. Sei que os mascarados podem às vezes ter objetivos em comum, como serem contra a Globo, por exemplo. Mas esse tipo de companhia não me interessa. Eu me interesso pelo cidadão que mostra o seu rosto.
Depois fiquei sabendo que muitos deles portavam coquetéis molotov, que foram quebrados por sindicalistas da CUT. Estes não estavam identificados com o símbolo da central. Sua função era justamente dar segurança a passeata. Os mascarados disseram que foram agredidos por P2s, mas na verdade foram pelos sindicalistas – justificadamente, visto que estavam com coquetéis, bombas caseiras e pretendiam incendiar os carros de som.
Deixem-me dizer uma coisa: nenhuma passeata é perfeita. A grande manifestação do dia 20 de junho, por exemplo, que reuniu 300 mil pessoas, teve seu lado bonito, mas teve também seu lado violento e fascista, com gente rasgando bandeiras com os dentes.
A passeata das centrais sindicais, na última quinta-feira, dia 11 de julho, teve seu lado bonito, de unir as centrais em torno das mesmas bandeiras, mas também foi um tanto cafona, com aqueles balões gigantes da UGT, da Força Sindical, da CUT. As bandeiras monótonas, repetitivas. Ausência terrível de criatividade.Até mesmo as demandas me pareceram descoladas da realidade: fim do fator previdenciário e 40 horas semanais.
Nada disso justifica, porém, a violência. Pessoas vem ao meu blog me xingar porque eu fiz uma denúncia baseado no que testemunhei pessoalmente.
Eu não gosto de máscaras e não gosto de violência. Não concordarei jamais com essas táticas de queimar carros na rua, tentar invadir prefeitura. Nem mesmo fechar estradas. A violência só é justificável se vier no bojo de uma revolução, com ideias e propostas por trás. Não é o que tenho visto.
A juventude coxinha, depois das manifestações, passou a se achar a última coca-cola gelada do isopor. São eles que vêm comentar por aqui, cheios de arrogância. São eles que idolatram os mascarados, ou são os próprios mascarados.
Também não acho producente essa histeria “fora Cabral”, sempre acompanhada de manifestações violentas. Querem expulsar o governador, então decidam qual partido apoiarão e comecem uma campanha para 2014. É incrível como as pessoas não estão vendo o rumo profundamente antidemocrático pelo qual estamos enveredando. Derrubar governante no grito é apenas um outro tipo de golpismo. O golpismo coxinha: ao invés de tanques na rua e editoriais bombásticos, coquetéis molotov e acampamentos no Leblon.
A grande mídia, sempre tão ciosa da ordem, de repente passou a glorificar manifestações, chamando-a de pacíficas mesmo que seus repórteres tenham que filmar tudo do alto de helicópteros ou terraço de prédios, para não serem linchados pela turba “pacífica”.
Apesar da minha crítica dura à grande mídia, não vejo com bons olhos agressão a jornalistas. As manifestações dos trabalhadores podem ser cafonas, mas jamais fizeram isso. Em São Paulo, um jornalista da Globo tentou uma fraudezinha fulera, ao pedir para um manifestante segurar um cartaz contra Dilma. Um diretor sindical observou a cena, antes de saber que era da Globo, e disse umas verdades ao repórter, que por sua vez reagiu com arrogância. A equipe da Globo levou umas vaias, e ponto. Ninguém os agrediu fisicamente nem incendiou seus equipamentos.
Violência não é brincadeira. Essa condescendência pode custar muito caro ao país. Não estou gostando nada de ver as pessoas achando “bonitinho” e “legal” ver jovens mascarados incendiando a lojinha da dona maricota, que não tem nada a ver com as injustiças históricas do país.
São estratégias inúteis.
A mídia aposta numa interpretação que separa totalmente governo e povo. Os governos são, mal ou bem, a expressão do povo, inclusive de seus aspectos mais egoístas. A corrupção está entranhada na sociedade, não apenas nos políticos ou nos governos.
Acho ridículo que as pessoas, em nome de um mundo melhor, destruam patrimônio público. Tornei-me absolutamente cético em relação à ações políticas “espontâneas”. As pessoas têm que se organizar, em movimentos sociais, em sindicatos, em partidos, em associações. É assim que se mudam as coisas, concretamente.
Em relação àqueles que se consideram anarquistas, tenho certeza que a maior parte não tem ideia do que está falando. De qualquer forma, o anarquismo é uma ideologia meio coringa. Todo mundo se apropria dela, capitalistas com rancor ao Estado, jovens coxinhas que odeiam o papai (e botam a culpa no Cabral), e ativistas de esquerda ressentidos com a burocracia partidária.
A violência anárquica, porém, se algum dia fez sentido, era num contexto histórico totalmente diferente, em países sem democracia, sem leis trabalhistas, sem liberdade de expressão, com um Estado altamente repressor, estagnados politicamente. Não é o caso do Brasil. Façam blogs, sites, jornais, é assim que se faz política.
Desculpem-me os que romantizavam os mascarados. Eu só posso falar do que vi. E não foi bom. Brutalizaram senhoras de meia idade. Fizeram o que nem a polícia do Cabral, que eles tanto odeiam, jamais fez: interromper uma manifestação democrática e pacífica. Se não concordavam com ela, então não participassem. Os mascarados, Black Bocs ou não, são piores que a PM.
Mencionei, no post anterior sobre este aassunto, a necessidade da ABIN investigar esses grupos porque tenho receio que haja infiltração estrangeira, o que é uma coisa extramemente perigosa. Aí vieram me abordar: “como alguém de esquerda pode pedir aumento dos serviços de inteligência do governo?”. Bem, não sei em que mundo essas pessoas vivem, mas no meu mundo a esquerda sempre, historicamente, defendeu a constituição de serviços de inteligência altamente profissionais. Não para causar nenhum dano aos movimentos sociais, mas para protegê-los de manipulação estrangeira. Não podemos ser ingênuos. O fato de um grupo incentivar o uso de máscara, é quase um convite à infiltração.
No mesmo dia 11, em São Paulo, houve uma grande manifestação em frente à Rede Globo, com presença de mais de 2 mil pessoas, incluindo vários movimentos sociais. Houve música, projeção na parede do edifício da emissora, dança, mas a Folha prefere publicar a seguinte foto (só na edição de SP, na edição nacional, não teve foto).
Vocês vão me perdoar, mas isso é queimação de filme.
Para piorar, a menção ao protesto diante da Globo vem numa nota cujo título é:
A tática do ódio e da violência pode até conquistar algumas coisas. Mas violência é como uma droga pesada: os efeitos são fortes e chegam rápido, mas o prazer não perdura, e a ressaca posterior é proporcional. Tomemos cuidado para não nos tornarmos um país dominado por coxinhas arrogantes, violentos e mascarados.
Foto Luiz Roberto Lima
CASAMENTO DE BEATRIZ BARATA: NOSSO 14 DE JULHO, NOSSA BASTILHA CARIOCA!
Publicado em 14/07/2013
por Hildegard Angel, em seu blog
Tendo o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e sra., como padrinhos, e como convidados os colecionadores de arte Sergio e Hecilda Fadel, que recentemente receberam a presidenta Dilma Rousseff para jantar em casa, no Rio, e cuja filha é casada com o filho do ministro Edison Lobão, das Minas e Energia, além do colunista social de Fortaleza, Lalá Medeiros, casaram-se ontem, com festa que varou madrugada, no Copacabana Palace, Beatriz Barata, neta do maior empresário de ônibus do Rio de Janeiro, Jacob Barata, e Francisco Feitosa Filho, cujo pai é o dono da maior empresa do ramo no Ceará.
Acompanhar, via mídias sociais e MSMs recebidos, o protesto indignado contra este casamento diante da Igreja N. Sra. do Monte do Carmo e da festa no Copacabana Palace, me fez sentir clima de Revolução Francesa, correndo um frio na espinha, um presságio ruim. E me veio à mente a princesa de Lamballe, melhor amiga de Maria Antonieta, com a cabeça espetada na ponta de uma lança, pela multidão que invadiu as Tulherias.
Estávamos numa madrugada de 14 de Julho, mesma data da Revolução Francesa, e toda aquela manifestação, que ontem começou alegre, até divertida, berrando bordões bem humorados, outros de gosto duvidoso, teve consequências desastrosas, com cabeça ensanguentada, decisões equivocadas, batalhão de choque, bombas de gás lacrimogênio, balas de borracha e gás de pimenta, às 3,30h, 4h da manhã, diante de nosso Palácio de Versailles, emblema máximo do luxo, da riqueza e da sofisticação do país: o Hotel Copacabana Palace!
Vou contar como foi, tal e qual… Aquietem-se, concentrem-se e me escutem…
Com gritaria na calçada, o protesto diante da igreja causou tensão nos convidados, perturbou todo o tempo o ofício do padre e a noiva, Beatriz, em vez de cortejo de daminhas e pajens, precisou de cordão de isolamento para entrar na igreja.
Enquanto padre Alexandre fazia a homilia, escutava-se nitidamente os manifestantes em coro dizerem coisas como “ha,ha, ha, o noivo vai broxar”, “também quero meu Louboutin”, “úúú, todo mundo pra Bangu” e tambores, buzinas e panelas, pó-pó-pó-pó-pó, pó-po-ro-po-pó, fon-fon-fon etc. O cerimonial de moças e rapazes impecáveis, pra lá e pra cá, cochichando baixinho, apreensivos sobre como solucionariam a saída dos noivos. Foi com PM e seguranças.
Beatriz, calada e retraída, permaneceu tensa todo o tempo – pudera! – mas manteve o controle. Foi altiva.
Já na recepção, no Copacabana Palace, todos se descontraíram e puderam se divertir, porque no interior do hotel não se percebia o que se passava lá fora, à exceção daqueles nas mesas da varanda.
No calçadão da Atlântica, uma garotada bonitinha da Zona Sul fazia manifestação até divertida, à la carioca, com meninas vestidas de noiva, rapazes alguns de terno e gravata, sacando bordões inspirados como “Eu também quero meu Louis Vuitton”, “Cadê minha Chanel?”, “Nesse hotel tem Barata!”, “Eu também paguei essa festa, quero meu bem-casado” e aquele clássico chulo da noite, citado acima, que se referia ao noivo…
E dá-lhe buzina, bateção de panela, de tabuleiro de alumínio, e desacatos para as mulheres (lindas!), que entravam ou saíam decotadas, cobertas de bordados: “piraaaaaanha!”. Não poupavam ninguém.
Com todas as quatro entradas do hotel bloqueadas por eles, ninguém entrava, ninguém saía, pela internet, os seguidores que assistiam à transmissão do canal “Mídia Ninja” postavam comentários mais pesados, do tipo “CABRAL VAI É DORMIR AÍ !!!!” (detalhe: Cabral sequer figurava na lista de convidados da festa!); “cadê as bombas???chama pa nois estraga a festa!”; “BA-FO-ME-TRO NO HOTEL”; “Rico não tem Lei Seca?” (referindo-se aos que embarcavam em seus carros mesmo aparentando ter bebido, quando ainda se podia sair); “chocada com o valor dos presentes que a Baratinha pediu no casamento. Veja a lista: http://migre.me/fsCZL” (localizaram a lista no site da H. Stern); “Candidato da Baratinha é Marcelo Freixo do PSOL” (foram checar no Face de Beatriz e descobriram); “ISSO.. TEM QUE JOGAR OVO MESMO…” (zangados porque a repórter foi maltratada por um policial à porta); “Todos RATOS engravatados, saindo pelos fundos constrangimento é a única arma do povo!!” (houve uma hora em que os convidados conseguiram sair pela porta da Av. Copacabana); “deixem suas mensagens de parabéns ao noivo”.
Vou omitir palavrões, baixarias e violências. Se é que já não transcrevi demais disso.
A horas tantas, chegou ao hotel a diretora-geral, Andréa Natal, que por força do cargo mora no Copa. Entrou pela porta lateral da Pérgola, junto ao Edifício Chopin. Aflita, vendo aquela multidão e a gritaria, parou para discutir com os manifestantes, iniciando rápido, bate-boca, logo sustado pelos seguranças, que a transportaram para dentro.
No interior do hotel mais lindo do Brasil, tudo eram maravilhas. No Golden Room, a apoteose do deslumbramento. O decorador Antonio Neves da Rocha plantou no meio do salão uma árvore frondosa, com os galhos alastrando-se por toda a área do teto, de onde pendiam fios com lampadário e buquês de flores. O chão coberto com grama. E a iluminação causava a sensação de se estar numa floresta-lounge, com estofados pretos.
Ali foi o show de Latino, que para entrar só conseguiu pela porta de serviço da Rodolfo Dantas, a da cozinha, driblando os manifestantes. Depois do bundalelê do Latino, houve ali a dança, com o DJ Papagaio e sandálias Havaiana vermelhas para todos os 1050 convidados que compareceram. Foram expedidos 1200 convites. Havia lugares sentados para todos, absolutamente todos.
No Salão Nobre, aquele comprido que sucede ao Golden Room, Neves da Rocha cobriu toda a parede de janelões que dá pra piscina com imenso painel único de Debret (ou seria Rugendas?) com super-mega-imensa-paisagem do Rio de Janeiro, abrangendo nossas montanhas, o mar, a Baía, florestas, do teto ao chão, criando visão fantástica.
Completavam o ambiente lustres enormes cobertos com heras, toalhas de damasco verde musgo cobriam as mesas até o piso.
O mesmo décor de toalhas musgo de damasco se repetia nos salões da frente e nas duas varandas, que foram cobertas e fechadas com paredes de muro inglês, com heras, e os mesmos lustres espetaculares. Cadeiras de medalhão suntuosas. Muito bonito.
Entre os três salões da frente, o do meio foi destinado a ser apenas o Salão dos Doces, com bem-casados da Elvira Bona, doces de Christiana Guinle, chocolates de Fabiana D’Angelo. Chá, café, brownies. O Céu, a Terra e o Mar também…
O champagne era Veuve Clicquot. Uísque Black Label. Aqueles coquetéis de sempre, Bellini, Marguerita etc. Vários bares de caipirinha, saquê etc. O bolo de Regina Rodrigues era um acontecimento, com vários andares, todo branco.
Buffet do Copacabana Palace, muito bem servido e elogiado. Na verdade, eram vários buffets, distribuídos por todos os salões e varandas. Mesas de frios. Pratos quentes. O cerimonial foi de Ricardo Stambowsky. As fotos, de Ribinhas.
Flores de Raimundo Basílio. Não houve exagero de flores, o verde deu o tom. Uma decoração em que prevaleceram o equilíbrio e a elegância. Luxo sem excessos.
Todo esse décor serviu de cenário à mais fantástica coleção de vestidos jamais reunida numa festa no Rio de Janeiro. Esta a opinião que ouvi de vários que lá estiveram, quer como convidados, quer prestando serviço ao evento. Um especialista em moda, que pediu para não ser identificado, falou: “Nunca vi tantos vestidos deslumbrantes como nessa festa. E de gente que ninguém conhece”. Acredita-se que a grande maioria das mulheres com essas roupas sensacionais, vestidos de alta costura, grandes marcas, fosse de convidadas do Ceará, que ocuparam vários apartamentos no hotel. O Copa bombou na festa e na ocupação.
Não apenas os vestidos eram extraordinários. As joias eram também fantásticas. A começar pelas da noiva, usando riviera de brilhantes fantástica no pescoço, dois enormes brilhantes nas orelhas e uma coroinha de ouro e grandes brilhantes, na cabeça, sempre usada pelas noivas da família. O vestido de Beatriz Barata foi obra da estilista Stela Fischer.
Tudo isso foi coordenado pela avó, Glória Barata, que durante a festa várias vezes se lembrou do filho assassinado naquela época da onda de sequestros no Rio de Janeiro. A família pagou o resgate, mesmo assim o jovem não foi poupado. Ela ainda guarda um grande sofrimento. Dona Glória é uma mulher sofrida e amável. Todos os que trabalham com ela e sua família a estimam.
Enquanto o minueto social seguia harmonioso, farfalhante e cintilante, entre as mesas de toalhas verde musgo adamascadas dos salões, no entorno do hotel, a contradança era outra.
Não têm pão? Comam bem-casados! Da varanda, convidados rebatiam as provocações verbais atirando bem-casados na “plebe” (bem à la Maria Antonieta, que ofereceu bolinhos, lembram?) e remetiam aviõezinhos de notas de R$ 20 (aí, a inspiração já era mais próxima, à la Silvio Santos).
Num crescendo dos protestos, bate panelas, mensagens de Face e Twitter, imagens postadas, provocações, bordões, os ânimos foram se acirrando e não houve nada que se tentasse para apaziguá-los. Ao contrário.
Na portaria do hotel da Av. Copacabana, o motorista de um dos convidados arrancou o celular da repórter “Ninja”, que, como Ninja, deu um salto e conseguiu recuperá-lo, botando o elemento pra correr. Ela recorreu a um policial, que a tratou com impertinência, parecendo alcoolizado. Tudo isso registrado pela câmera Ninja. E a rede social participando, reagindo, se indignando.
Em seguida, correm todos para a Atlântica, prosseguem a gritaria. Uma convidada insiste em deixar o hotel, é impedida e inicia uma briga, quando um convidado, lá da varanda, atira um cinzeiro de vidro na cabeça de um manifestante, que se fere muito.
Vendo aquela imagem ensanguentada na tela da internet, a galera começa a postar desacatos enfurecidamente. A repórter corre para buscar socorro na ambulância de plantão diante do hotel (é lei quando se trata de evento com mais de 600) e o paramédico. Mas o médico não está, “foi lá dentro”. O rapaz machucado tenta entrar no hotel para ser socorrido. Os seguranças e porteiros impedem sua entrada. Está aí cometido o grande erro da noite!
O Copa, neste momento, rompe sua tradição histórica de cordialidade com a população carioca e de diplomacia e assume uma postura hostil.
A multidão na rua se enfurece. A multidão virtual também e passa a convocar o envio geral de comentários negativos à página do hotel na internet. Uma guerra aberta contra o maior tesouro da hotelaria brasileira! Eu, confesso, quase choro. Adoro o Copa. O Copa é o Rio, nossa memória, nossa História.
Mais uns 10, 15 minutos, e chega ao local uma advogada dizendo-se da OAB, localiza uma testemunha da agressão, consegue recolher a “arma do crime”, fragmentos do cinzeiro que atingiu o rapaz, leva os dois para a delegacia, onde faz o registro da ocorrência: “tentativa de homicídio”. A vítima leva seis pontos na cabeça.
A garotada agitada continua nos impropérios, constrangimentos e panelaço, e eis que, quase quatro da manhã… chega o BOPE, marcando sua forte presença de sempre, soltando bombas de gás lacrimogênio, atirando com balas de borracha e, para completar a apoteose da alvorada dessa Bastilha carioca, espargindo spray de pimenta a torto e à direita.
Nessa altura, a multidão de manifestantes, que às três e meia da manhã já estava reduzida a uma centena, ficou ainda menor. Eram apenas uns 50 mais experientes, já com suas máscaras anti-spray nos rostos.
Enfim, os últimos convidados, que aguardavam no foyer do hotel pela oportunidade de deixar a festa, conseguem partir. Vão deixando o casamento Barata e tossem, viram os olhos, engasgam com o spray de pimenta. Os manifestantes de máscara anti-spray gozam, a repórter estica o microfone: “Tá gostando, cara?”.
Foi um acontecimento totalmente atípico, inédito. Já houve manifestações de protesto em casamentos de políticos e pessoas importantes. Como no da filha do senador Álvaro Pacheco, décadas atrás, tendo José Sarney, presidente da República, como padrinho, na Igreja do Largo de São Francisco.
Mas nada, jamais, em tempo algum, se comparou à ferocidade do acontecimento irado deste 14 de Julho carioca, em nosso Versailles, o Copa, que, ainda bem, nada teve de noite de Tulherias nem de cabeça espetada em ponta de lança.
Aliviada, vejo que meu frio na espinha não passou do frio de fato dessa noite de inverno carioca. O pressentimento era fajuto. O estrago se limitou a seis pontos na testa de um manifestante, que o responsável pelo estrago há de assumir e, se não assumir, os promotores da festa ou o próprio hotel há de tentar corrigir o ato infeliz de alguma forma.
Apesar de dizerem que cristal trincado não tem recuperação, acredito que o Copa tem credibilidade para se reabilitar aos olhos dos cariocas. Foi apenas um mau momento, espero…
PS do Viomundo: Bem que o José Arbex Jr. observou que a elite já não controla o que ela, elite, acredita ser o “andar de baixo”.
Veja também:
Os melhores vídeos das manifestações diante da Globo em SP, BH, Salvador e Maceió
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O extremismo dos doutores
por Paulo Moreira Leite, na IstoÉ
O mais equipado posto de saúde é apenas um hotel de luxo sem a presença de um médico. Uma simples garagem pode ser um consultório razoável se contar com um médico para atender quem precisa de seus serviços.
No início deste ano, centenas de prefeitos – quase a metade dos municípios do país – tiveram um encontro em Brasília com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. O boletim da Frente Nacional dos Prefeitos resumiu o espírito do encontro na manchete da edição de maio: “Prefeitos cobram do ministro da Saúde ações para a contratação de médicos estrangeiros”
Não é só. Um abaixo assinado de apoio à contratação de médicos recebeu o autógrafo de 2.500 prefeitos, que governam quase a metade das cidades brasileiras – e só não evoluiu para um número maior porque a Frente concluiu que já havia atingido um número suficiente para uma demonstração de força.
Não é surpresa, assim, que a cerimônia de lançamento do programa Mais Médicos, ocorrida no Palácio do Planalto, ontem, já tenha entrado para a história do governo Dilma Rousseff como um episódio relevante de seu mandato. O Palácio do Planalto estava cheio e em boa temperatura. Os aplausos que acompanharam diversos discursos não eram 100% ensaiados nem pura bajulação, como sempre ocorre nessas horas. Refletiam uma preocupação dos prefeitos do país, responsáveis — na ponta — pelo funcionamento de um sistema de saúde pública conhecido por ótimas intenções mas resultados nada empolgantes. Para quem ainda não entendeu como a política funciona na vida real, ali estava a demonstração dos vasos comunicantes entre as várias esferas da administração pública, indispensáveis para que um projeto de interesse universal e alcance amplo possa dar certo. Quem rastrear a história do Bolsa Família irá descobrir que este imenso programa de distribuição de renda só deixou o plano das utopias e entrou na vida real de 12 milhões de famílias depois que foi assumido pelas prefeituras.
Este antecedente indica que o Mais Médicos pode funcionar, pois responde a uma necessidade real, mas não é garantia de nada. O apoio dos prefeitos é um ótimo ponto de partida, mas o Planalto terá de aprovar sua medida provisória no Congresso, derrotando diversos adversários do plano, tanto aqueles que respondem a razões políticas e ideológicas, como aqueles que já procuram pescar nas correntezas ainda turvas da sucessão presidencial – e tentarão criar dificuldades para o governo de qualquer maneira.
Mas a necessidade óbvia de atender à saúde da população mais pobre pode criar condições para um debate bem sucedido, capaz de deixar claro para os adversários que o desgaste pela oposição ao projeto causará um prejuízo nada compensador aos olhos da maioria do eleitorado.
Não tenho formação nem condições de entrar num debate detalhado sobre as mudanças anunciadas pelo governo, ontem. Como linha geral, elas representam uma tentativa de dar novas prioridades na formação e tratamento dos médicos brasileiros. Além de poucos médicos em relação ao número de brasileiros, o Brasil tem médicos formados de acordo com as conveniências do mercado privado de saúde, que procura especialidades mais rentáveis e mais promissoras para suas respectivas carreiras – mas que nem sempre são aquelas que atendem às necessidades da maioria da população.
Chamado a administrar imensos recursos públicos envolvidos na formação de um médico – o cálculo é de R$ 800.000 per capta – o governo coloca-se no direito de definir para onde vai encaminhar seus doutores e suas prioridades. Você acha errado?
Eu não acho. Em nosso sistema, os governantes são eleitos justamente para fazer isso.
O errado seria manter aquilo que está aí.
A crítica das entidades médicas ao projeto já passou de uma postura racional. O centro de suas críticas se concentra na contratação de médicos estrangeiros, o que só seria um argumento a ser ouvido a sério se nossos doutores estivessem brigando por postos de trabalho para si ou para outros profissionais – brasileiros — fora do mercado. Poderiam ser acusados de corporativismo. Mas não. Eles não querem as vagas que o governo oferece e também não querem que elas sejam ocupadas por médicos estrangeiros.
O resultado prático de sua postura é impedir que milhões de brasileiros tenham acesso ao atendimento – mesmo precário, em muitos casos – que poderiam receber.
É uma atitude nociva, do ponto de vista social, e errada, como opção política. Eu vivia na França quando a extrema direita de Jean Marie Le Pen fez sua aparição na cena política. Seu movimento tinha um conteúdo racista e violento, mas é bom reconhecer que o discurso não excluía o estrangeiro. Dizia, apenas, que os franceses deveriam ter prioridade sobre os estrangeiros. Não se proibia argelinos nem marroquinos de ocupar empregos que os franceses não desejavam – em linhas de montagem na indústria, por exemplo – nem se queria impedir que tivessem acesso ao serviço social. A bandeira do Front National era pela preferência. Ele dizia: “os franceses em primeiro lugar.”
Nossos médicos têm uma postura mais extrema. Dizem “nunca” para os estrangeiros, exigindo que sejam aprovados num tipo de exame, Revalida, que contém dificuldades jamais oferecidas aos médicos brasileiros para formar-se no país.
O argumento de que não basta contratar médicos — é preciso investir em infraestrutura, medicamentos e outras melhorias — fala de uma questão real, mas de modo falacioso.
Se todos esses investimentos são bem-vindos e necessários, é óbvio que não se pode resolver todos os problemas criados por um histórico de passividade e abandono como se fosse possível tirar um coelho da cartola.
É absurdo negar que a simples presença de um médico numa localidade onde não existe um único profissional de saúde já faça uma diferença decisiva, como reconhece qualquer cidadão que já andou pelo interior do país. O mais equipado posto de saúde é apenas um hotel de luxo sem a presença de um médico. Uma simples garagem pode ser um consultório razoável se contar com um médico para atender quem precisa de seus serviços.
O debate começou.
Leia também:
Entidades médicas: Medidas de Dilma na saúde representam alto risco
Luciano Martins Costa: Médicos, solidariedade de classe e consciência social
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Quando descobrimos uma música e a ouvimos até enjoar. Desta, eu ainda não enjoei.
“Eu já sinto um calor de amor
Quando você chega aqui
Tava tudo tão facinho, no rasinho
E eu sem me dar conta
Assim fui indo
Agora sinto um calor de amor
Quando você chega aqui
E eu te peço que
Se aproxime de mim um pouco
Mas não tanto
A ponto de eu sentir sua falta
Quando você for embora”
Karina Buhr, em “Amor brando”.
“Há o amor, é claro.
E há a vida, sua inimiga.”
Jean Anouilh (na epígrafe de Histórias de Amor, Rubem Fonseca)
Antes de vir para a Índia eu li “Bombaim: Cidade Máxima”, do jornalista Suketu Mehta. Ele me preparou para o amor e para o caos que senti desde que cheguei a essa cidade.
Mehta passou a infância em Mumbai e partiu com a família para Nova York no meio da adolescência. Voltou quando já era adulto, casado com uma indiana que tinha uma trajetória parecida com a dele, só que em Londres. Ele passou a juventude se queixando por viver fora da Índia. Quando finalmente pode voltar, viu sua nostalgia se diluir na água suja da cidade, a mesma água que deixou seu filho — um americaninho sem anticorpos — doente.
Separei alguns trechos do livro e mesclei com fotos da cidade:
“India is the Country of the No. [...] That ‘no’ is your test. You have to get past it. It is India’s Great Wall; it keeps out foreign invaders. Pursuing it energetically and vanquishing it is your challenge. In the guru-shishya tradition, the novice is always rebuffed multiple times when he first approaches the guru. Then the guru stops saying no but doesn’t say yes either; he suffers the presence of the student. When he starts acknowledging him, he assigns a series of menial tasks, meant to drive him away. Only if the disciple sticks it out through all these stages of rejection and ill treatment is he considered worthy of the sublime knowledge. India is not a tourist-friendly country. It will reveal itself to you only if you stay on, against all odds. The ‘no’ might never become a ‘yes’. But you will stop asking questions”.
“There will soon be more people living in the city of Bombay than on the continent of Australia. The city is groaning under the pressure of the 1 million people per square mile. It doesn’t want me any more than the destitute migrant from Bihar, but it can’t kick either of us out. So it makes life uncomfortable for us by guerrilla warfare, by constant low-level sniping, by creating small crises every day”.
“For a Gujarati, cosmopolitan is not a term of approval. ‘Cosmopolitan’ means the whole world except Gujaratis and Marwaris. It includes Sindhis, Punjabis, Bengalis, Catholics, and God knows who else. Nonvegetarians. Divorcees”.
“The food and the water in Bombay, India’s most modern city, are contaminated with shit. Amebic dysentery is transferred through shit. We have been feeding our son shit. It could have come in the mango we gave him; it could have been in the pool we took him swimming in. It could have come from the taps in our own home, since the drainage pipes in Bombay, laid out during British times, leak into the freshwater pipes that run right alongside. There is no defense possible. Every thing is recycled in this filthy country, which poisons its children, raising them on a diet of its own shit”.
“I missed saying ‘bhenchod’ to people who understood it. It does not mean ‘sister fucker’. That is too literal, too crude. It is, rather, punctuation, or emphasis, as innocuous a word as ‘shit’ or ‘damn’. The different countries of India can be identified by the way each pronounces this word — from the Punjabi ‘bhaanchod’ to the thin Bambaiyya ‘pinchud’ to the Gujarati ‘bhenchow’ to the Bhopali elaboration ‘bhen-ka-lowda’. Parsis use it all the time, grandmothers, five-year-olds, casually and without any discernible purpose except as filler: ‘Here, bhenchod, get me a glass of water’. ‘Arre, bhenchod, I went to the bhenchod bank today’. As a boy, I would try consciously not to swear all day on the day of my birthday. I would take vows with the Jain kids: We will not use the B-word or the M-word”.
“This was what colonialism, fifty years after the Empire ended, had done to my son: It had rendered our language unspeakable, our food inedible”.
“Home is not a consumable entity. You can’t go home by eating certain foods, by replaying its films on your television screen. At some point you have to live there again”.
“You came to Bombay to pass through it”.
“Long before the millennium, Indians such as the late prime minister, Rajiv Gandhi, were talking about taking the country into the twenty-first century, as if the twentieth century could just be leapfrogged. India desires modernity; it desires computers, information technology, neural networks, video on demand. But there is no guarantee of a constant supply of electricity in most places in the country. In this as in every other area, the country is convinced it can pole-vault over the basics: develop world-class computer and management institutes without achieving basic literacy; provide advanced cardiac surgery and diagnostic imaging facilities while the most easily avoidable childhood diseases run rampant; sell washing machines that depend on a nonexistent water supply from shops that are dark most hours of the day because of power cuts; support a dozen private and public companies offering mobile phone service, while the basic land telephone network is in terrible shape; drive scores of new cars that go from 0 to 60 in ten seconds without any roads where they might do this without killing everything inside and out, man and beast”.
“It is an optimistic view of technological progress — that if you reach for the moon, you will somehow, automatically, span the inconvenient steps in between. India has the third largest pool of technical labor in the world, but a third of its 1 billion people can’t read or write. An Indian scientist can design a supercomputer, but it won’t work because the junior technician cannot maintain it properly. The country graduates the best technical brains in the world but neglects to teach my plumber how to fix a toilet so it stays fixed. It is still a Brahmin-oriented system of education; those who work with their hands have to learn for themselves”.
“‘When you were there, you wanted to come here. Now that you’re here, you want to go back’. It was when I first realized I had a new nationality: citizen of the country of longing. [...] As I have discovered, having once moved, it is difficult to stop moving”.

Calle Defensa, Buenos Aires, Argentina. Obrigado Lee Nee.
“Em toda relação desigual e sem nome nem reconhecimento explícito, alguém tende a tomar a iniciativa, a chamar e a propor de se encontrar, e a outra parte tem duas possibilidades ou caminhos para atingir a mesma meta se não se esfumar e desaparecer logo em seguida, embora creia que de todo modo será esse sey destino final. Uma é se limitar a esperar, nunca dar um passo, confiar em que deixará saudade e em que seu silêncio e sua ausência se revelarão insuspeitamente insuportáveis ou preocupantes, porque todo mundo logo se acostuma ao que lhe presenteiam ou ao que há. O segundo caminho é tentar aderir dissimuladamente ao cotidiano desse alguém, persistir sem insistir, criar espaço para si com pretextos variados, telefonar não para propor alguma coisa - isso ainda está vedado -, mas para fazer alguma consulta, para pedir um conselho ou favor, para contar o que acontece conosco - a maneira mais eficaz e drástia de envolver - ou para dar alguma informação; estar presente, agir como lembrete de si mesmo, trautear à distância, rumorejar, dar lugar a um hábito que se instala imperceptivelmente e como que às escondidas, até que um dia esse alguém se descobre sentindo falta do telefonema que se tornou costumeiro, sente algo parecido com uma afronta - ou a sombra de um desamparo - e, impaciente, pega o telefone sem naturalidade, improvisa uma desculpa absurda e se surpreende marcando encontro com o outro.”
Os Enamoramentos, Javier Marías - tradução de Eduardo Brandão

Williamsburg - NY (obrigada Ricardo Aum!)
Esta semana que passou, como muitxs de vocês sabem, começou o julgamento dos integrantes da banda New Hit.
No dia 26 de agosto de 2012, na cidade de Ruy Barbosa, na Bahia, duas adolescentes foram estupradas por nove homens integrantes da New Hit, dentro do ônibus do grupo. As meninas se dirigiram ao veículo para pedir autógrafos e parabenizar um dos integrantes, que fazia aniversário. Lá, foram violentadas de forma brutal, com a conivência e também violência de um policial militar.
Entre os dias 18 e 20 de fevereiro, também em Ruy Barbosa, aconteceu a primeira audiência de instrução. É o momento em que a juíza ouve vítimas, testemunhas, defesa e acusação. Como não foi crime contra a vida, os estupradores não vão a Júri Popular, são julgados pela própria juíza a partir dos materiais colhidos na audiência de instrução.
O julgamento começou, mas está longe de ser concluído. Foi adiado para setembro. E, por mais vergonhoso que possa parecer, a banda continuará fazendo shows pelo nordeste. Sim, eles estão faturando alto em cima da fama que conseguiram. A repercussão foi ótima pra eles. O estupro compensa -- é a mensagem que está sendo passada pela lerdeza da Justiça e o habeas corpus para que respondam em liberdade. Por isso é fundamental que haja protestos e boicotes aos patrocinadores em cada cidade que a banda for se apresentar. Todo o nosso apoio nas redes sociais é essencial.
Houve muitos protestos em frente ao fórum esta semana. Pedi a essas feministas, essas minhas heroínas incansáveis, que escrevessem um guest post contando como foi estar lá, lutando contra os estupradores, dando força pras vítimas. Maíra Guedes, 26 anos, professora e integrante da Marcha Mundial das Mulheres, na Bahia, atendeu o meu pedido.
Depois de quatro dias em Ruy Barbosa, voltamos para nossas casas. Mulheres vindas de diferentes lugares da Bahia: Salvador, Feira de Santana, Itabuna, Cruz das Almas, Cachoeira, Vitória da Conquista, Juazeiro... Todas com os olhos vibrantes, olhando umas para as outras com muita admiração, carinho e força. Seguiremos construindo ações em torno do caso New Hit. Firmamos um compromisso coletivo e não deixaremos que o caso caia no esquecimento, sabemos que é necessária a ação.
Chegamos em Rui Barbosa no dia 17, domingo, as 16h. Não imaginávamos como seria a recepção das moradoras e moradores da cidade. Assim que descemos do ônibus, colocamos nossas mochilas na escola municipal que ficamos alojadas, fomos pedir informações nas casas vizinhas. As moradoras saíram à porta e colocaram tudo a nossa disposição: panelas, chuveiros, gritos e punhos.
A decisão de ir a Ruy Barbosa foi tomada em outubro de 2012, quando o desembargador Lourival Trindade concedeu o habeas corpus aos nove integrantes da Banda New Hit e ao policial militar que foi conivente com a violência sofrida pelas duas adolescentes. Decidimos realizar um escracho feminista, inspiradas nas ações recentes realizadas no Chile, Argentina e Brasil para escrachar torturadores da ditadura militar. No caso dos escrachos contra torturadores da ditadura a palavra de ordem é: “Aqui mora um torturador” Em nosso caso, fomos até a casa de veraneio de Eduardo Martins, estuprador e vocalista da banda, e dissemos: “Aqui mora um estuprador!” Afirmamos que “Enquanto não houver justiça, haverá escracho feminista!”.
A possibilidade de mais uma vez os estupradores permanecerem livres e as vítimas encarceradas nos fez questionar, na ação, algumas questões: por que apenas 2% dos agressores de mulheres são condenados num país em que a cada 3 minutos uma mulher é violentada e que nos últimos 10 anos 43,7 mil mulheres foram assassinadas? Por que quando mulheres apanham, são estupradas, queimadas por homens, inúmeras são as justificativas aceitas pelo Estado de Direito Brasileiro para não condenar agressores e assassinos de mulheres? “Ela mereceu. Ela reagiu. Ela consentiu.” O caso New Hit traz mais uma vez à tona a discussão da conveniente culpabilização da vítima pela violência sofrida, da naturalização do estupro e das formas de prevenir e combater a violência contra a mulher.
Durante os quatro dias que ficamos em Rui Barbosa realizamos ações por toda a cidade. Todo dia tinha operação lambe-lambe, teatro, batucada, música e debates. Fizemos formação política auto-organizada com diversos temas, teve análise de conjuntura, desafios do projeto feminista e popular, debate sobre violência contra a mulher, sobre política de encarceramento, sobre políticas públicas e racismo.
Nos utilizamos de linguagens diferentes para exigir a condenação dos estupradores. E a cada ação mais mulheres juntavam-se a nós e mais fortes ficávamos. Caminhando na rua encontrávamos também com os defensores dos estupradores, entre eles o empresário e produtor da banda, Sacramento, que num dos dias passou de carro por nós, soltou um beijo e disse: “Senta na minha pick-up!” Isso só fez aumentar nossa raiva e revolta. O argumento “elas entraram no ônibus porque quiseram, sabiam o que iria acontecer”, foi um dos que mais enfrentamos com a síntese: “Isso não é sobre sexo, é sobre violência. Estupro é crime. A culpa nunca é da mulher.”
Na segunda-feira, dia 18, já em frente ao fórum, quando gritávamos palavras de ordem com punhos cerrados, uma senhora me disse: “Minha filha, pra que tanta raiva desses meninos? Eles erraram, mas são meninos bons.” Eu sorri e respondi: “Não minha senhora, eles não são meninos bons. Nove homens estupraram duas meninas. O que elas viveram foi uma sessão de tortura. Enquanto uma delas era penetrada à força, ao mesmo tempo era segurada por outro que se masturbava e tentava colocar o pênis na boca dela. Ela recebia tapas no rosto e na bunda. Sangrava. No mesmo momento, a outra menina era violentada no banheiro em alternância.” A senhora ficou em choque. Pediu que eu parasse. Eu olhava no olho dela sem piscar. E disse: “Minha senhora, isso é amor pela vida das mulheres, amor pela humanidade. Nossa luta é por justiça”. Ela ficou atônita.
Algum tempo depois os estupradores chegaram e de imediato, guiadas pela indignação, furamos o bloqueio policial e fomos pra cima deles. Nesse momento a força que explodia em nossas vozes e corpos fez com que 2, 3, até 4 policiais fossem necessários para segurar cada uma de nós. Quando fomos arrastadas de volta ao limite estabelecido pela juíza, a senhora que antes havia dito que os estupradores eram meninos bons, me ofereceu água com os olhos marejados e com a voz baixa agradeceu por fazê-la sentir viva.
Outro momento forte aconteceu depois da cena sobre estupro que fizemos em frente ao fórum. Foi quando uma fã do New Hit entrou em nossa ciranda. A amiga dela falou “Oxe! Sai dai!”, e ela respondeu “Eu não. Vou ficar aqui com as meninas.” O riso tomou conta. Cada mulher que conquistávamos era uma vitória. E todo dia a roda crescia.
Então aproveitei a oportunidade para agradecer a cada uma de vocês que saíram de suas cidades, de suas casas para vir até Ruy Barbosa nos dar força, mostrar que não estamos sozinhas e que temos que seguir esta batalha. Em vários momentos eu cheguei a mim (sic) culpar, a desisti de tudo. Mas sempre lembramos que não estamos sozinhas. Temos todas vocês nos apoiando e lutando junto com a gente (...)”.
Pulsávamos força, certeza, fogo e afago.
Vivemos um momento na conjuntura da vida das mulheres em que a classe dominante patriarcal tenta consolidar a ideia de que a igualdade já foi alcançada e a luta feminista não é mais necessária. Essa ideia tenta ser difundida principalmente nos países que, por exemplo, possuem mulheres na presidência, ou em outros cargos importantes do Estado.
Porém, os dados relativos aos índices de violência às mulheres da classe trabalhadora são alarmantes. O que aconteceu em Rui Barbosa acontece todos os dias. É preciso estar em luta todos os dias. A conivência com a violência contra a mulher não está dissociada da forma como a sociedade se estrutura. Reagir é organizar-se em torno de um projeto de sociedade que garanta nossos direitos sociais, entre eles saúde, educação, reforma agrária... Para nós é preciso mudar a vida das mulheres para mudar o mundo, mudar o mundo para mudar a vida das mulheres.
Não podemos permitir a naturalização de atrocidades como essa cometida pelos integrantes da banda New Hit, de tamanha barbaridade e crueldade, fundamentadas no machismo que subordina, oprime e assassina milhões de mulheres. É preciso reagir de forma coletiva. É preciso ser Mulheres.
Uma das coisas mais importantes que aprendemos com a luta feminista é a solidariedade entre as mulheres. É revigorante a todo momento olhar para os lados e enxergar companheiras. É preciso que nossos corpos se tornem as armas contra o machismo, que nossa voz junte-se a outras tantas vozes. “Se antes éramos carne, é hora de ser a navalha”. Enquanto não houver justiça, haverá escracho feminista.
À ação, mulheres! Sejamos nós raio, trovão e ventania. Porque sem feministas, não há feminismo! Mesmo quem não é mãe se emociona com esse vídeo. Eu choro toda vez que assisto.
Esta é a segunda parte da entrevista que fiz com a Monique, prostituta de Porto Alegre totalmente antenada à internet. A terceira e última parte está aqui. E olha, fica cada vez melhor...
Não faço sexo sem tesão. A ideia do "encontro às cegas", onde farei sexo com alguém a quem nunca vi, me excita. Saber que do outro lado da porta me espera alguém que, dentre as centenas de acompanhantes que anunciam em sites aqui de Porto Alegre, me escolheu e ME DESEJA, amplifica essa sensação. É meu modo particular de sentir essas coisas.
Certamente, não bate com a maneira como outras sentem... Agora, quanto a recusar atendimento por que "não fui com a cara" do cliente, considero isso inaceitável para quem tem um mínimo de consciência sobre a atividade que escolheu exercer. Lida-se muito, e talvez principalmente, com a auto-estima de PESSOAS. Seria lícito a um psicólogo recusar paciente por conta de sua aparência, por exemplo? Ou um professor recusar-se a ensinar? Não. É um compromisso que assumimos. Vejo assim.
No entanto, já recusei atendimento enquanto negociava ao telefone... Clientes que usam termos chulos, uma conversa onde fica claro que não haverá entendimento. Eu recuso. Dependendo eu trollo mesmo. Deve ser surpreendente para eles, pois não acredito que seja algo com que estejam acostumados.
Há uma ideia geral de que a prostituta deve abrir mão de seu prazer em detrimento do prazer do outro. Isso precisa ser combatido, não é possível que se exija ou estimule que alguém abra mão de seu prazer. Não entendo o sexo sem a busca do prazer. Sim, eu tenho orgasmo com clientes. Não tenho orgasmos em todos os encontros, mas procuro meu prazer em todos os encontros. Nunca fingi, nem pretendo.
Quanto a beijo, não há regras, não. Isso é lenda. Tenho percebido em alguns anúncios e foruns o beijo como diferencial de mercado: as garotas mais procuradas são as que beijam. Analisando as coisas com calma, penso que essa ideia tenha tido origem no pensamento masculino, na ideia de que "beijar puta é chupar pau por tabela, ou à óbvia rejeição em beijar homens alcoolizados e de mau hálito, além de doenças respiratórias graves como a tuberculose (lembremos de como a prostituição era exercida antigamente, em lupanares ou recantos boêmios). Criou-se uma tradição, com um propósito claro. Eu não vejo, nunca vi, beijo como algo mais íntimo que sexo. Não é.
Pra uma pessoa tímida como eu, agendar encontros pela internet é uma boa possibilidade de conhecer pessoas interessantes. Há quem argumente que eu poderia, então, fazê-lo de graça. Bom, eu até poderia. Mas precisaria encontrar outra forma de renda, e isso reduziria substancialmente o tempo que posso dedicar a esses encontros, assim como minha disposição. Além do mais, nenhum outro trabalho me daria a renda que me dá a prostituição. Não tenho formação alguma, começar uma carreira em qualquer área agora seria complicado pra mim... Tenho planos, estão em marcha, mas não implicam em saída imediata da atividade. Essa é minha situação pessoal, eu escolhi viver assim. Agora, isso muda de pessoa a pessoa.
Conheci muita gente nesse meio e sei que muitas escolhem essa atividade sem avaliar corretamente o peso da opção que está fazendo. Obviamente, o envolvimento com esse tipo de situação gera muitos problemas, a maior parte deles criada pelo preconceito e condenação moral, fatores quase insuperáveis. Há uma tensão constante em relação a serem "descobertas" (como se fossem criminosas), há o assédio constante das drogas, há o uso intenso de álcool como instrumento de facilitação das relações.
No fim das contas, entra-se para ficar um período, pagar os estudos, quitar dívidas, e acaba-se ficando por muito tempo, décadas, muitas vezes. Uma minoria consegue atingir seus objetivos. A prostituição acaba sendo uma "carreira" da qual só se sai pela "aposentadoria compulsória", por conta da idade ou morte (assassinatos de prostitutas por seus companheiros não são raridade), ou pela via do casamento (não que eu acredite em casamento como caminho para felicidade, mas é o que muitas buscam).
Pra muitos, o sexo continua sendo aquela coisa misteriosa, aquele doce proibido, o prazer secreto. É algo lúdico. E tem o fetiche do sexo pago, da profissional, da propaganda, da novela, de Hollywood... Afinal, qual a racionalidade em se tomar Coca-Cola? Engordar, ficar doente? Muitas mulheres também procuram isso em acompanhantes (femininos ou masculinos). Eu entendo que esse lado lúdico do sexo deve ser estimulado nas pessoas, pode ser visto como uma terapia alternativa. Assim é com a maior parte de meus clientes.
Há também os deficientes, e os atendo com gosto, entendo sexo como uma necessidade básica, e é inegável a dificuldade que tem um deficiente para ter sexo com quem entende suas necessidades e limitações, e lide bem com elas. Há os que considerem essa fugidinha como "a única contravenção possível" em um mundo onde são constantemente cobrados. E há os que querem apenas conversar -- muitos entendem a prostituta como uma psicoterapeuta e eu, nesses casos, recomendo que procurem um analista, não gosto dessa "mistura de funções", não me considero apta. Nem interessada... Mas existem meninas que preferem o cliente falante e perguntador, preferem matar o tempo do programa com conversa ao sexo em si.
Consideramos, por evidente, que todo o trabalhador aluga seu tempo e sua força de trabalho. Temos uma visão diferente em relação à prostituta. E por quê? Porque ainda temos uma visão romântica do sexo, do despir-se, do encontro. Porque ainda temos aquela visão arcaica, que eu combato incessantemente, de que a prostituta deve abrir mão de seu prazer, de seu desejo, em detrimento do desejo do outro. Mas eu vejo a cada dia mais acompanhantes dizendo não àquilo que não desejam, enquanto percebo que mulheres que não fazem sexo pago cedem cada vez mais em suas relações, estáveis ou casuais, para agradar ao parceiro.
Transito pelos dois meios, recebo relatos todos os dias, e sei bem do que estou falando. É falha, portanto, a ideia de quem contrata uma prostituta está comprando um corpo e dele pode dispor como quiser. Para isso, existem (e não estou ironizando) as bonecas infláveis e, sim, há gente que as compra. Há um mercado em franca ascensão de bonecas cada vez mais realísticas. Deste modo, posso dizer que talvez nem todo o homem que contrata uma prostituta saiba exatamente o que quer, e aos clientes que ainda insistem na ideia de que a prostituta vende o corpo eu recomendo enfaticamente que comprem uma boneca dessas. Embora o investimento inicial seja bem maior, vão servir-lhes para uma vida toda. Vida, a do comprador, sejamos claros. Mulheres de plástico não morrem.
Ainda sobre a ideia de alugar o tempo, lembro que todos os encontros têm sua duração pré-determinada e que, no meu caso, não ultrapasso as duas horas jamais. Também sou constantemente convidada para almoços, jantares, cafés, viagens, shopping... Eu cobro por isso, a não ser nas raras oportunidades em que eu mesma convido.
Essa é a maior ilusão na qual caem as prostitutas menos conscientes, a de que irão receber vantagens dos clientes. Muitas confusões desnecessárias começam assim, para os dois lados. Prostitutas, cobrem sempre, que a "paixão" por vocês diminui rapidinho. É uma maneira de se preservar, em realidade.
Sim, sou prostituta e feminista. Não vejo a prostituição como a exploração do corpo da mulher, e isso já está claro na resposta anterior. A publicidade é a exploração do (não apenas) corpo feminino para fins comerciais, não a prostituição. Sim, é verdade que transito em um meio extremamente machista, e enfrento muitas dificuldades por tentar impor meu modo de pensar -- perseguições veladas ou nem tanto em foruns que tratam do assunto, por exemplo. Não é uma situação fácil, não. Assim como não é fácil convencermos os homens a dividir tarefas, e, no entanto, não desistimos da ideia do casamento.
A consciência quanto ao feminismo veio das redes sociais: comecei a ler sobre o assunto e perceber que minhas posições e ideias eram claramente feministas. O passo seguinte, assumir meu feminismo, foi algo bastante complicado. Sentia receio da rejeição dentro do movimento. Em muitos aspectos, tenho visto que nós, prostitutas, enquanto categoria, vivemos em uma espécie de limbo: exploradas, subjugadas pelos homens e rejeitadas pelas mulheres -- feministas ou não. É necessário quebrar essa barreira. Precisamos abrir espaço para falar de direitos a quem nem sabe que tem direitos. Não considero a prostituição como algo empoderador da mulher, considero o feminismo como algo empoderador da prostituta enquanto mulher.

Casa Rosada, sede do governo argentino, Buenos Aires, Argentina.

Gafieira Elite, Centro, Rio de Janeiro, RJ.
Lívia."O amor é pura invasão." Tão verdade.