Moe moe kyun!
“Assim como Disney romantizou a natureza em relação à sociedade industrial, os japoneses romantizaram a infância em detrimento da idade adulta. Por idolatrar a infância e seus resquícios, os jovens japoneses implicitamente amaldiçoaram seus futuros como indivíduos adultos na sociedade” (Sharon Kinsella)
No Japão, a atração pelo kawaii (可愛い, lê-se cauaí) é uma força neo-romântica onipresente e poderosa. Os japoneses nascem e crescem observando uma paisagem saturada de algodão doce. Publicidade, mascotes, displays digitais, embalagens… Tudo está contaminado pela estética kawaii. O Japão de “Império dos Sentidos” rapidamente se converteu em “Império do Kawaii”. Mas afinal, o que significa isso? Traduzir conceitos do japonês é sempre uma tarefa ingrata. “Cute” ou “bonitinho” apenas resvalam a superfície do termo. São necessários parágrafos para explicar o real significado dessa palavra no imaginário japonês, com a certeza de não esgotá-la. Não há léxico correspondente nas línguas ocidentais. Neste texto procuro definir de modo profundo o significado do termo, introduzir o estudo de caso da Hello Kitty, rastrear brevemente sua história, e amarrar isso tudo a partir de algumas explicações sociológicas a respeito de sua disseminação na sociedade japonesa.
DEFINIÇÃO: O QUE SIGNIFICA “KAWAII”?

Kawaii é um conceito amplo, ele permeia o bonitinho, pequenininho, simples, mesmo tolo. É algo pueril, que remete à infância. A apreciação do kawaii celebra comportamentos sociais e aparência física que tendem à doçura, adorabilidade, genuinidade, inocência, pureza, gentileza, vulnerabilidade, fraqueza, carência e inexperiência. Mais do que aparência, tem a ver com empatia e comportamento. O significado do termo é ambíguo e seu uso, variado. É empregado para descrever pessoas, objetos, plantas, animais ou modos de agir. Kawaii é também um modo de falar, um estilo de vida, um comportamento jovem. Exato, o kawaii não se expressa apenas no design, nas artes plásticas, na publicidade e nos produtos de consumo – que vão de material escolar a produtos bancários -, mas é testemunhado na conduta e mesmo na sexualidade dos nipônicos. Um cachorro fofinho? É kawaii. Uma menina tímida? Kawaii. Uma personagem de mangá atrapalhada? Kawaii. Um chapéu bonito? Kawaii. Um sorvete de tutti-frutti? Kawaii. Com o tempo os japoneses estão abrindo cada vez mais o leque de possibilidade de uso do termo.
Meninas de comportamento kawaii aparentam (não necessariamente possuem!) a maioria dessas características: passividade, vulnerabilidade, carência, desamparo, impotência e inexperiência. São doces, GENUÍNAS – essa palavra é importante -, reservadas, obedientes e irresponsáveis. Em casos mais sérios, entortam os joelhos, fazem biquinho, olham de baixo para cima desnorteadas, batem o pé e falam com voz doce, beirando a tolice. Mesmo no colégio, onde são forçadas ao processo de padronização com os uniformes de marinheira, dão um toque infantilizado numa presilha, num modo de amarrotar a meia.

Diferente da “beleza”, caracterizada pela “raridade”, “distância” e “inacessibilidade”, o “kawaii” é interpretado pelos apreciadores como “próximo”, “cotidiano” e “material”. Ele atrai afeição em vez de admiração. O kawaii rejeita pedestais, por isso os membros de grupos femininos como AKB48 e Morning Musume são escolhidos a dedo para aparentar como garotas ordinárias que poderiam estar sentadas ao nosso lado na escola. Dentes tortos e franjinha são festejados. O kawaii também é mutável e possui nichos. Nos anos 80, por exemplo, ele era puramente infantil. Na década de 90 passou a ser mais andrógino e cômico, atualmente ele é mais “street fashion”. Há subdivisões, casos do erokawaii, busukawaii, kimokawaii, mas nisso não me alongarei. Na cultura kawaii, o lado mais perverso da infância também é emulado em casos extremos, como a automutilação. De modo geral, é o oposto do usualmente praticado pela indústria cultural dos EUA e a noção de “diva”, e em parte pelas agências de K-pop na Coreia do Sul.
A atração pelo infantilismo é transcultural e já explicada pela Psicologia Evolutiva. A atenção antes dada à proteção da prole saudável hoje é expressa pela afeição por eles, já que não precisamos mais escondê-los de ursos e cobras nas cavernas. Estudos sugerem que observar traços desproporcionais capazes de remeter à lembrança de bebês, mesmo em coisas ou vidas inumanas, estimulam a mesma região cerebral responsiva ao sexo, alimentos saborosos e drogas viciantes. Os americanos de fato criaram o Snoopy e os coreanos a Pucca, personagens essencialmente kawaii. No Japão, todavia, a proporção é outra. O bonitinho não é restrito às crianças. Exemplifico:

O Partido Comunista de Nagoya adotou uma girafa kawaii como logo nas eleições nacionais de 1993. As poderosas Forças de Autodefesa do Japão usam uma mascote kawaii chamado Prince Pickles para promover suas atividades, assim como quase todas as províncias possuem suas mascotes. O Partido Conservador usa as meninas do AKB48 para propagandear política em Tóquio. Bancos e seguradoras vendem serviços financeiros sob esta estética. Mecanismos kawaii são usados em placas informativas de assuntos sérios (risco de incêndio ou cartazes de busca de terroristas), protestos contra as bases militares americanas, ou mesmo em situações de repugnância, como em casos de estupro de menores.
“Usados sem hesitação por adultos e crianças, em espaços públicos e privados, antes mesmo de nos darmos conta, esses personagens se tornaram parte de nossa paisagem diária. Pode-se encontrá-los, por exemplo, impressos em cadernetas de movimentação bancária, em passes de trem, e, como indica a presença normal e aparentemente natural de bichinhos de pelúcia em estações policiais, eles se incorporaram à vida diária do Japão de um modo que seria inimaginável em outros países” (Fundação Japão)

Existem infinitas estampas kawaii em preservativos usados no ato sexual (foto acima), último momento no qual um ocidental gostaria de transparecer infantilidade. Na pornografia japonesa, mulheres mais velhas invariavelmente emulam o comportamento de meninas inábeis e ingênuas, enquanto os animes, mangás e jogos eletrônicos eróticos com freqüência ilustram crianças claramente pré-púberes praticando atos sexuais (tolerado pela legislação do Japão). O uso irrestrito na publicidade é evidência da penetração dessa estética na sociedade, pois a propaganda tende a adotar discursos, valores e trends já consagrados pelo status quo vigente. E nada melhor para exemplificar a divulgação do conceito kawaii que ela, a Kitty-chan.
ESTUDO DE CASO:
A MARCA BILIONÁRIA CHAMADA HELLO KITTY

“Tamanha é a simplicidade da concepção desta personagem, que chega a ser difícil descrever a Hello Kitty. Seu desenho é tão básico, tão sem efeito de volume, que qualquer criança é capaz de desenhá-la. Kitty é uma gatinha branca, de pequenos olhos, sem boca, e com um laço do lado direito da cabeça. Foi com tal aparência zen que ela conquistou o mundo, e permitiu que a empresa Sanrio construísse um império internacional” (Cristiane Sato)
Kitty-chan é uma gata antropomorfizada criada em 1960 pela designer Yuko Shimizu, então funcionária da japonesa Sanrio, com o objetivo de estampar artigos de papelaria. Hoje a marca Hello Kitty movimenta US$7 bilhões de dólares anualmente em mais de 110 países, com dezenas de milhares de produtos licenciados (fora a pirataria). Apesar de conhecida apenas pela Kitty-chan no Ocidente, a Sanrio possui mais de 450 personagens, muitos deles populares no Japão, como Chococat, Keroppi, Tuxedo Sam, Pochacco, My Melody e Badtz-Maru. Entre os produtos licenciados, além dos óbvios cadernos, existem: parques temáticos, cafeterias, carros, jornal, preservativos e bebidas alcoólicas. Detalhe: diferente dos personagens Disney, não havia gibi, desenho animado ou filme para alavancar o sucesso dela. Ela construiu essa fama global com a sua imagem estática nos produtos.

Como uma personagem embasbacante de tão simples, virou um Embaixador – literalmente, pois ela foi Embaixatriz da Unicef em 1983 – bilionário da cultura japonesa? Personagens kawaii possuem ingredientes fundamentais. Devem ser fofos, pequenos, tingidos em tons pastel, arredondados, macios, leves, amáveis, preferencialmente mamíferos, sem apêndices ou orifícios corporais (nariz, braço), inseguros, perdidos, desesperançados. Confeccionados em materiais simples e infantis, como pelúcia ou plástico. Desenvolvidos sob encomenda para emular as pessoas mais fracas da sociedade.
Sob uma perspectiva técnica, um design minimalista, sem detalhes ou relevo, facilita a reprodução industrial a custo baixo. O minimalismo é importante na criação de um personagem kawaii. Deve-se excluir tudo o que é descartável na transmissão da amabilidade do personagem. Braços, boca, pescoço, qualquer coisa que dilua aspectos kawaii. Reduz o desnecessário para estourar aquele traço simples e redondinho que faz as japonesas suspirarem “kawaaaaaiiii”, naquele misto de derretimento e desejo de posse. Pensando por uma ótica de mercado, menos é mais. A Hello Kitty tem de caber até na presilha de cabelo. Os caras entendem de design…

Alguns analistas superficialmente acusam uma “completa apropriação de estéticas ocidentais” enquanto ignoram o que realmente aconteceu: uma simbiose Japão-Oeste. A Hello Kitty, apesar de ter inspirações artísticas ocidentais, está enraizada com os dois pés no conceito japonês de Muhyo-Kyara, ou seja, de “personagem sem expressão”. Em contraste às afirmativas mascotes ocidentais, de expressões fortes, esse conceito prega feições inexpressivas capazes de levar a pessoa que se relaciona com o personagem a projetar suas próprias emoções nele. Por exemplo, a ginasial japonesa que não consegue dormir por não ter seus sentimentos correspondidos pelo amado pode se consolar com a ‘compreensiva’ Kitty-chan. Já numa segunda tentativa, dessa vez exitosa, ela poderá compartilhar sua alegria com a mesma pelúcia, a ‘amiga de todas as horas’. A Sanrio, segundo Sato, recebeu uma carta de uma garota com câncer. Nela, ela explicava que gostava da (inexpressiva) Kitty-chan por considerá-la ‘doce e afetuosa’ e por ela ser ‘alguém com quem se podia conversar’. A simplicidade ímpar da Hello Kitty encerra em si mesma uma profundidade difícil de intelectualizar, mas muito fácil de sentir.

Mas… de onde veio a força do kawaii? Por que a onipresença no Japão? No afã de compreender essa questão, primeiro é preciso mapear rapidamente a história do século XX no Japão, depois penetrar na mentalidade cultural que moldou a nação japonesa (confucionismo, zen-budismo, etc.), onde eu precisarei ser um pouco mais acadêmico. Essa análise é surpreendente e você só verá aqui, no Chuva de Nanquim!
DIFUSÃO DO KAWAII NO JAPÃO:
UMA BREVÍSSIMA HISTÓRIA

“Na raiz dessa afeição há uma sensibilidade estética tradicional e singular que é traduzida por meio de uma receptividade e predileção pela planicidade, abreviação, simbolismo e simplificação. É intrigante pensar que possa efetivamente haver uma base histórica comum entre a sensibilidade da Era Edo (1603-1868), que estava preocupada com os aspectos plano e raso do Ukiyo-e [xilogravura japonesa], e a do japonês contemporâneo, que vê os personagens de anime e mangá como entidades surpreendentemente reais” (Hiroyuki Aihara)
A histórica afinidade japonesa pelo bonitinho pode ser monitorada por suas manifestações artísticas. Na literatura, há mais de um milênio, Sei Shonagon descreveu com clareza esse paladar pelo frágil no livro Makura no Soshi. O mesmo pode ser observado na literatura moderna do século XX, em livros do genial Osamu Dazai. O conceito Kawaii contém em si similaridades com a tradição visual japonesa, de acordo com Peek, caso do ukiyo-e, plano e sem profundidade. Além disso, dialoga diretamente com as sensibilidades do povo japonês. Esse olhar kawaii enxerga trejeitos positivos em objetos ordinários (baratos, industriais, plásticos) ou de beleza questionável (dentes tortos ou coluna levemente vergada que humanizam a mulher), assim como o antigo conceito japonês de mono no aware cobra uma sensibilidade de apreciação em relação às coisas efêmeras, imperfeitas, simples e transitórias da vida, uma herança do pensamento zen-budista. A estética kawaii com bidimensionalidade estaria em comunhão com a sensibilidade estética japonesa tradicional.

Entretanto o kawaii propriamente dito foi criado no fim da Era Meiji (1868-1912) e início do Perído Taisho (1912-1926), dentro da shoujo bunka (“cultura das garotas”), ou seja, quando as mulheres do Japão passaram a absorver conteúdo ocidental e a interpretá-los a partir das lentes do repertório estético-cultural japonês. Esse choque Leste-Oeste encontrou uma atmosfera político-cultural favorável a sua proliferação.
Com a ocupação do Japão pelos EUA no fim da Segunda Guerra, os produtos comerciais americanos rechearam o Japão e influenciaram a produção cultural e industrial dos asiáticos. As garotas do país de modo paulatino e espontâneo abraçaram as criações infantilizadas de ambos (mais para frente explicarei as razões mais aceitas para isso). Para a loucura dos professores, elas inventaram uma incompreensível forma de escrever, com adoção de estrangeirismos, desenvolvimento de traços arredondados e inclusão aleatória de emojis no texto cursivo. A língua oral também foi afetada, Kakkoii, por exemplo, passou a ser pronunciado propositalmente errado como katchoii, dicção de um bebê incapaz de dizer a palavra corretamente. Uniformes escolares viraram item de guarda-roupa mesmo após a formatura.

As empresas japonesas perceberam esse momento e, sabendo do poder de compra das japonesas, adotaram essa estética como norte corporativo. Apesar da cultura kawaii não ter sido criada pelo universo business, foi por ele logo descoberta e rapidamente assimilada no início do boom consumista dos anos 70 – o auge da economia japonesa. Anualmente as japonesas gastam US$15 bilhões em cosméticos, sendo que US$2,5 bilhões são desembolsados por alunas ginasiais. O mercado abraçou a ideia e lojas como a 6% doki doki fizeram fortunas. Companhias aéreas pintaram a fuselagem de aviões 747 com temas de Pokémon e Mickey. Propagandas, embalagens, mangás, games, softwares de design incorporaram a estética. A Sanrio, detentora da marca Hello Kitty, já negociou seus personagens com mais de 20 instituições bancárias incapazes de diferenciar suas ofertas.

Na condição de país coletivista, o Japão tende a fomentar mais a geração de ‘coqueluches culturais’ porque todos querem e precisam fazer parte de um grupo. A conformidade faz parte da adesão à estética. Mas será que só questões mercadológicas dariam conta de explicar a singularidade do caso japonês? Acredita-se que não…
“O consumo de muitos produtos de estilo bonitinho, com poderosas propriedades de indução emocional, pode ironicamente disfarçar e compensar a grande alienação dos indivíduos em relação às outras pessoas na sociedade contemporânea” (Sharon Kinsella)
O QUE ESTÁ ESCONDIDO NAS SOMBRAS DA HELLO KITTY
Analistas feministas não tardaram a acusar no conceito kawaii uma ferramenta patriarcal do Japão para manter a mulher subjugada, conformada com os valores antigos no mundo moderno. Afinal, a fêmea atraente seria aquela passiva, obediente e imatura. Novos estudos culturais de visões menos paradigmáticas estão sugerindo exatamente o oposto: a cultura kawaii é uma rebelião juvenil, uma recusa de cooperação aos valores sociais vigentes e à realidade japonesa (não que não exista uma disparidade de gêneros no Japão, apenas que essa explicação sozinha não dá conta da realidade). Sua popularização revela um escapismo passivo e consciente em relação às expectativas da sociedade e dos distintos papéis de gênero, muito mais marcantes no Japão que no Ocidente. A ala masculina demonstra o mesmo mal-estar de outros modos, como os hikikomori, majoritariamente homens. Vamos explicar isso com calma. Em um livro clássico da antropologia americana sobre o Japão (hoje contestado em alguns pontos, mas a meu ver ainda real em outros tantos), Ruth Benedict afirma:

“[o arco da vida no Japão] É uma grande curva em U pouco acentuada, com a máxima liberdade e indulgência concedidas aos bebês e aos velhos. As restrições são lentamente aumentadas após a primeira infância, até que a satisfação da própria vontade atinge uma baixa logo antes e depois do casamento. Nesta linha prossegue por muitos anos, durante o vigor da mocidade, ascendendo gradualmente o arco de novo até que, após os sessenta, homens e mulheres acham-se tão desimpedidos pela vergonha quanto as criancinhas. Nos Estados Unidos viramos de cabeça para baixo esta curva. As disciplinas severas são dirigidas para a criança e aos poucos relaxadas, à medida que esta cresce em força, até passar a dirigir a própria vida ao arranjar um emprego que lhe garanta a subsistência e constituir lar próprio. O vigor da mocidade para nós [americanos] coincide com o ponto alto de liberdade e iniciativa. As restrições começam a aparecer quando os homens perdem o domínio, a energia, ou se tornam dependentes. É difícil para os americanos sequer imaginar uma vida arranjada de acordo com o padrão japonês. Parece-nos fugir em face da realidade.” (Ruth Benedict)
Envelhecer para o japonês não parece muito saudável: o homem estudará e trabalhará incontáveis horas, incluso horas extras e as culturais idas ao bar após o expediente (essenciais para garantir as desejadas promoções profissionais). A mulher não possui perspectivas de trabalho e está destinada ao papel de dona de casa com marido ausente. Jovens japoneses prestes a entrar na vida adulta, em sua maioria, classificam essa nova fase da vida como um período desanimador, árido demais. Temem mais que tudo o peso das responsabilidades com a família, sociedade, espaço público e política. Possuem uma visão muito nebulosa tanto do futuro quanto da sociedade japonesa. A vida adulta, diferente do Ocidente, não é vista como um período de liberdade e emancipação pessoal, muito pelo contrário, a fase é vista como décadas de claustro que limita as potências individuais apaga os sonhos e força o indivíduo a aceitar o destino imposto por outrém. Em pesquisas no Japão, a população atribuiu à vida adulta valores fundamentalmente vistos como negativos: solidão, responsabilidade, falta de tempo livre, excesso de trabalho, desaparecimento dos sonhos.

O que dá suporte à cultura kawaii é a noção romântica da infância como período puro, intocável, sem maldade. Yuuko Yamaguchi, gerente geral do departamento de character-design da Sanrio, diz que a estética kawaii cristaliza a vontade do japonês de nunca querer crescer, de permanecer no estágio infantil, de não abrir mão da candura, uma vez que a vida de adulto no Japão, mais do que em qualquer outra cultura, é um tempo extremamente penoso, de muitas responsabilidades e pressões (um país do tamanho do Mato Grosso do Sul, sem recursos naturais, que por muito tempo foi a 2ª maior economia do mundo).
“Maturidade, que no Ocidente tem sido associada à autoridade e direitos individuais, ainda tende a ser pensada de acordo com o modelo confuciano no Japão moderno. Ou seja, a maturidade é geralmente vista como a capacidade de cooperar bem dentro de um grupo, aceitar compromissos, cumprir obrigações com os pais e funcionários, e assim por diante” (Sharon Kinsella)

Essa infantilização da aparência que causa espanto no ocidente é justamente o que atrai o japonês. A criança, o assexuado ou a virgem é livre de responsabilidades e papeis sociais complexos e exigentes. Um adulto que, numa sociedade coletivista, se entrega aos seus desejos e fraquezas pode ser visto como moralmente fraco e egoísta. A cultura kawaii representa a vontade de criar uma sociedade horizontalmente estruturada, mais amigável e guiada pelas emoções, em detrimento da ânsia racional, expansionista, hierarquizada e baseada no poder que caracterizou o Japão do passado.
A sociedade e a família japonesa, tendo consciência do espinhoso cotidiano dos adultos japoneses, consideram a infância um momento da vida absolutamente idealizado, portanto permitem aos seus rebentos momentos de felicidade idílica antes que eles cresçam e encarem o quase desumano estilo de vida japonês. Cria-se um ciclo vicioso, onde algumas crianças, após uma infância artificialmente açucarada, sucumbem quando encaram a dura realidade da vida adulta, e, sofrendo síndrome de Peter Pan, consideram que ser adulto é intolerável, criando para seus próprios filhos a mesma tenda idílica para que eles aproveitem os únicos anos da vida que supostamente valem à pena. A ideia de que o comportamento kawaii é natural da pessoa, foi suprimido pelos deveres sociais e urge achar rachadura por onde pode liberar a tensão.

Diferente do uso da insinuação sexual por parte da juventude ocidental como meio de afirmação de maturidade que elas ainda não possuem (Miley Cyrus, Vanessa Hudgens), os jovens japoneses caminham no sentido oposto, enfatizando sua imaturidade e incapacidade de lidar com as responsabilidades da vida adulta, mesmo quando já as possuem. Meninas querem casar por amor, e não mais por compromisso. Adultos querem a ‘pureza perdida’. Políticos desejam de afastar do passado expansionista do país, a oposição quer condenar o status quo. Cada um encontra um uso particular para a mesma estética.
“Comportamento infantilizado foi considerado genuíno e puro [pelos entrevistados japoneses] – o que implica que as experiências e relações sociais adquiridas após a maturidade foram consideradas como formadoras de uma falsa superfície externa (…) embora, ironicamente, o bonitinho seja extremamente artificial e estilizado” (Sharon Kinsella)

Muitos intelectuais que estudam o Japão chamam a atmosfera kawaii do pós-guerra de uma contracultura passiva e paradoxal. Passiva porque, apesar de rejeitar o status quo, não tem a menor intenção de desconstruir o sistema social e colocar algo diferente no lugar, apenas pede que não solicitem sua colaboração. Os adeptos dessa cultura, em maior ou menor grau, são críticos da autodisciplina, da tolerância ao destino e das condições severas impostas pelo jogo social (que, faço questão de ressaltar, podem ser extremas no Japão). Paradoxal porque mantém estreitos laços estéticos e comerciais com a cultura que parece rejeitar. Como afirma Kinsella, negam a “falsidade do convívio social”, mas adotam como expressão da “pureza” algo ainda mais artificialmente arquitetado, idiossincrasias naturais de um termo tão abrangente. É necessário também deixar claro que essa postura não é consciente. Ninguém ou praticamente ninguém no Japão adota traquejos infantis com essa lucidez. Não é um ato político dessa juventude, longe disso, até porque eles estão muito mais para a alienação absoluta do que para uma consciência superior. É uma tentativa de compreensão de uma postura comportamental abstrata.

A estética kawaii também possui outras funções sociais secundárias e generalizadas. É um fluido lubrificante da comunicação, sobretudo quando envolve assuntos desagradáveis, ainda que isso possa ser usado de modo perigoso. Afinal, se o jovem não se interessa por política, a figura muda de cena quando o assunto é pautado pelo grupo AKB48 em Akihabara. A aparência pode se sobressair à essência. Outro uso social é a anulação do self, como uma máscara. Muitos japoneses se escondem socialmente atrás do véu socialmente aceito do ‘kawaii’ para não mostrar seu verdadeiro eu. Inclusive alguns estudos de cultura organizacional (a cultura praticada dentro das empresas) demonstram que a manifestação kawaii, no comportamento profissional ou na customização do ambiente de trabalho, é maior em empresas pequenas, onde o relacionamento e a exposição pessoal é maior (logo, precisam de maior proteção do olhar alheio), do que em grandes multinacionais, onde a tarefa de tornar as relações impessoais é toda guiada por processos e sistemas (horário, crachá, porta automática, relatórios padronizados, etc). Muitas mulheres inclusive afirmam fingir fragilidade kawaii para evitar broncas dos superiores.

“Kawaii é mais do que os seus diplomatas (Hello Kitty, Pikachu, Sailor Moon, etc.) que resumem a perspectiva global sobre a cultura popular japonesa. Sob a superfície de seu uso superficial como uma ferramenta de capitalismo consumista, [o conceito] kawaii atua como um lubrificante social onipresente. É uma forma de expressão que permite que o indivíduo japonês, mesmo que apenas por uma pequena fração, viva fora da exigente natureza de pressões sociais de uma forma não-combativa e socialmente aceitável.” (Cameron Peek)
Por fim, a estética kawaii pode ser usada inclusive para desconstruí-la de dentro. Muitos publicitários usam esse conceito como paródia de si mesmo em suas criações, com recortes e spoofs. Nas artes plásticas, o movimento Superflat do Takashi Murakami aponta violentamente seus dedos para a obsessão pelo kawaii que impregnou por toda a cultura japonesa – ainda que ele lucre milhões de dólares com essa massificação, numa postura tão dúbia quanto a das adolescentes japonesas que rejeitam certos valores da sociedade pagando fortunas pelas válvulas de escape que ela oferece.
Escrevo pílulas sobre cultura japonesa no perfil @JapopOtakismo. Sigam!
Fontes:
Um dia na vida do Japão, o Kingdom of Characters (Hiroyuki Aihara)
Japan, Kingdom of Characters (Exposição da Fundação Japão)
Cuties in Japan (Sharon Kinsella)
Japop – O poder da cultura pop japonesa (Cristiane Sato)
Kawaii as represented in scientific research: the possibilities of kawaii cultural studies (Kyoko Koma)
Capitalizing on “cuteness”: the aesthetics of social relations in a new postwar japanese order (Leila Madge)
Kawaii Aesthetics: the role of cutiness in Japanese society
Exploring kawaii in a sample of Japanese college women: a mixed-methods study (Stephanie Klapper)
Tokyo Girls (Patrick Macias/Izumi Evers)
O Crisântemo e a Espada – Padrões da cultura japonesa (Ruth Benedict)
Japanese schoolgirls: how teenage girls made a nation cool (Shoko Ueda/Brian Ashcraft)
Expression of kawaii: gender reinforcement of youth Japanese female school children (Yuko Asano-Cavanagh)
Exploring Japanese art and aesthetics as inspiration for emotionally durable design (Pui Ying Kwan)