
“O homem é a medida de todas as coisas”, proferiu certa vez um grego com sérios problemas narcísicos. Talvez, porém, ele estivesse certo, e a conseqüência imediata de um universo apreendido a partir do antropocentrismo é que, inevitavelmente, ele não escapará de ser um universo medíocre.
Digo isso sendo, eu, um homem medíocre, com gostos medíocres, erros medíocres e sonhos medíocres (e, medíocre que sou, supondo que o mundo é um espelho da minha própria condição). Na minha mediocridade estou confortável; o que me incomoda mesmo é ter de me deslocar da minha posição de comum. O simples fato de imaginar fazer parte de algo extraordinário me assombra.
Por isso torci contra o Brasil quando da escolha da sede da Copa do Mundo. Não por ser indiferente ao futebol; acompanhei quase todos os jogos de quase todas as Copas desejando, um dia, quem sabe, conseguir um ingresso para Eslováquia x Birmânia. Argumentei que talvez não tivéssemos condições para receber um evento desse porte, seria preciso investir muito dinheiro, o que significa muito dinheiro desviado, porque sabe como é o Brasil, o que fazer com os estádios depois?, será um grande banheiro do papa, pode apostar. Mas a verdade, a inconfessável verdade, é que meu cérebro dá cambalhotas com o fato de isso tudo acontecer aqui do lado da minha casa. Sou aquela senhora que morava do lado do muro de Berlim e, tendo seu sono perturbado pela chegada de milhares de pessoas com picaretas, martelos e mãos fortes em uma fatídica noite de 1989, botou a cabeça pra fora da janela e gritou: MAS ISSO LÁ É HORA DE FAZER REFORMA?
Minha relação com o futebol também não escapa à regra geral da mediocridade. Acompanho de longe, munido de informações suficientes para poder debater a meia-cancha do Grêmio no almoço com o pessoal da firma e criticar o desempenho da Seleção, seguindo as tendências da estação. Finjo que me abalo com os fracassos do meu time e, igualmente, finjo que outras coisas não me entristecem (e esse foi um final de semana especialmente carregado de outras coisas; aqui, um plano geral:).
Pois bem.
Ontem, dava carona para um amigo depois da ImpedNua e acabei passando na frente do HPS. Viaturas demais, mau sinal. Na internet, colhi as informações necessárias para entender o que se passou: manifestantes, policiais, tatu da Copa destruído, gente ferida.
Vejam: eu sou medíocre. Poderia ter feito uma piada no Twitter, poderia ter me posicionado (a favor ou contra os manifestantes, a favor ou contra a polícia, em cima do muro simplesmente me achando superior a tudo isso aí), poderia simplesmente ter ignorado e seguido a minha vida. É o normal a se fazer. Tentar escapar da angústia não se implicando, ou levantar uma defesa egoísta para igualmente obturar as questões mais graves. Limitado que sou, encontraria um anteparo qualquer para deixar minha mediocridade a salvo. É por isso que não sirvo para a política.
O homem comum nunca servirá, aliás. Porque a política – esqueça as escaramuças partidárias, estamos falando da arte de governar outras pessoas, sejam elas pertencentes a um país, uma cidade ou um clube de futebol – requer pessoas melhores. Que consigam fazer leituras apuradas e tomar as decisões certas mas, mais importante, deixar seu narcisismo de lado. Permitir-se não ser a medida de todas as coisas.
Suspeito que o que ocorreu ontem, no Largo Glênio Peres, não apenas não pode ser tomado simplesmente como “mais um confronto entre manifestantes e policiais”, mas que aqueles que se esforçarem para sustentar essa redução estarão exercendo a mediocridade em sua forma mais pura. Esse conflito tem uma gênese anterior, e “gênese” é diferente de “causa”. A causa da pancadaria foi o ataque ao boneco plástico. A gênese dela está em outros lugares. Em uma polícia que não sabe exatamente a quem deve servir. Em uma subtração gradual de espaços coletivos. Na imposição de regras de uma organização sediada na Suíça sobre como os brasileiros devem se portar. Na não tão discreta invasão do privado sobre o público. Na consciência velada de que boa parte do povo terá que assistir aos jogos sediados em suas cidades através da televisão, já que não terão grana para os ingressos. E em diversos outros fatores que minha compreensão rasteira se prova incapaz de alcançar. O que eu espero do homem político é que ele alcance.
Não sei, por exemplo, se a proibição da venda de bebidas nos estádios é correta ou não. Politicamente, contudo, isso já foi estabelecido. Meio esquizofrenicamente, já que não é permitido o consumo, mas se pode fazer propaganda. Tudo bem. Homem medíocre que sou, aceito a condição. O capitalista, todavia, encontra seus caminhos. Sendo suficientemente abonado, dará um jeito de impor sua vontade – a FIFA e a Dilma até pouco tempo atrás brigavam pela manutenção ou não da lei, e a Dilma perdeu. Assim como as vendedoras de acarajé, que agora duelam com o McDonalds. E os idosos e estudantes, ainda em busca da validade da meia-entrada para os jogos.
Eu, sujeito reles, fantasiava destruir o Tatu da Copa, criatura bizarra a qual nos foi delegado o poder de escolher o nome (dentre alternativas semelhantemente esdrúxulas). Não o fiz. E não sei exatamente quais as consequências de encontrar na realidade algo que habita o plano da fantasia. Talvez fosse necessário manter a ordem – gosto de pensar nisso e esquecer o quão arbitrário e contextual é o conceito de ordem. Alguém precisou se recusar a levantar de bancos de ônibus, enfiar barras de ferro nas engrenagens das fábricas, queimar sutiãs e apanhar muito da polícia para garantir coisas que, hoje, consideramos parte da ordem.
O homem político, ao contrário, não fantasia. Ele governa. E não o faz desde seu gosto ou interesse pessoal, mas sim de sua leitura sobre a coletividade. Ele sabe que, se assassinar o boneco promocional da Copa é a repetição da queima do relógio dos 500 anos, há coisas muito mais profundas em jogo do que um simples ato de vandalismo. Que é uma mensagem menos raivosa do que magoada, e essa mensagem há tempos vem sendo sufocada – talvez porque, nas esferas relevantes, temos negociantes demais e políticos de menos.
Honestamente, não sei se a manifestação ontem era contra o governo, contra a Copa, contra a Coca-Cola e contra tudo-isso-que-está-aí ou se ela trazia o grito desesperado de pessoas que não querem compactuar com a minha mediocridade de ver as coisas acontecendo do jeito que estão, mas eu já fiz minha opção.
Vou escolher “Amijubi”.
A foto é de Ramiro Furquim/Sul21
Gustavo Mano