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Operação Sinal Fechado: Veja a reportagem do Fantástico sobre a propina paga a políticos como José Agripino
O feitiço contra o feiticeiro
O que todos os norte-rio-grandenses já sabiam desde 2011, mesmo diante do silêncio envergonhado da mídia tupiniquim, os brasileiros em geral souberam ontem em horário nobre graças a uma reportagem do Fantástico da Rede Globo.
Não chegou a ser um espanto para nós, acostumados que estamos aos 20, quase 30 anos de contorcionismo do senador potiguar José Agripino Maia, líder e presidente do Democratas, mas certamente foi uma surpresa para além fronteiras junto à legião de desavisados e de inocentes que ainda acreditavam no bom-mocismo do parlamentar potiguar.
O paradoxo, diria mesmo que a pegadinha inesperada e inexplicável, foi que José Agripino Maia caiu, ruiu, tombou, graças à delação premiada de seu acusador – o advogado natalense George Olimpio, que recorreu à delação premiada que ele tanto aplaudiu nas hostes petistas, na Operação Lava-Jato, para condenar a priori investigados que dizem o que dizem para não transformaram-se em réus.
O fato é, e consta nos autos e nas investigações do Ministério Público, que José Agripino Maia teria negociado uma ajuda de R$ 1 milhão para apressar a tramitação e a aprovação da inspeção veicular que se pretendia instalar no Rio Grande do Norte e que pelas contas peliminares renderia algo em torno de R$ 1 bilhão.
O fato é, também, que a governadora da época, a hoje vice-prefeita de Natal, deu sinal verde às negociações que eram tramadas por seu filho, Lauro Maia, e contavam com a leniência e a participação do então vice-governador Iberê Ferreira de Souza e do deputado Ezequiel Ferreira – à época um homem forte na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte.
Todos receberiam, e alguns até receberam, os seus mimos, os seus presentes, os prêmios prometidos.
As acusações, que se transformaram em delação premiada, foram devidamente gravadas, documentadas, e de acordo com uma integrante do Ministério Público batem perfeitamente bem com os documentos apreendidos.
Todos negaram, claro.
Alguns, laconicamente.
Outros, como o senador José Agripino Maia, em nota oficial que repete palavra por palavra o que dizem hoje os suspeitos da Operação Lava-Jato que ele tanto aplaude e aprova.
“Desconheço o teor da acusação de que sou vítima”, escreve o político potiguar logo na primeira linha da sua nota.
E diz, com todas as letras e vírgulas, que o advogado George Olímpio já teria assinado em cartório um documento isentando-o de qualquer participação no esquema criminoso.
Acontece, porém, que tal documento foi escrito e registrado antes da delação premiada a que George Olímpio se sujeitou.
Segue a mesma linha de Paulo Roberto Costa e Alberto Yousseff – os dois principais delatores da Operação Lava-Jato que só resolveram contar o que sabem sobre os desmandos na Petrobras quando protegidos estavam por esse dispositivo legal, mas pouco moral, que não mede palavras e nem consequências e nem exige provas cabais e documentadas.
O feitiço, pois, virou-se contra o feiticeiro. No caso mais grave, de maior repercussão, contra o senador democrata José Agripino Maia que até bem pouco tempo ousava e posava de vestal da moralidade, defensor dos bons costumes, um cidadão acima de qualquer suspeita.
Ele conhecia George Olímpio? Conhecia, tanto que o recebeu algumas vezes – uma na sua cobertura em Natal e outra na mansão que mantém em Brasília.
Era íntimo do cidadão, amigo de longas datas? Não, era apenas uma figura conhecida em Natal e amigo de meus pais.
Por que diabos, então, as visitas fora de hora, fora de ordem, para tratar de assuntos que ele não lembra ou se nega a revelar?
Quem dirá, será o Ministério Público.
Quem julgará, o Supremo Tribunal Federal.
Longe, bem longe, do apadrinhamento amigo que a Justiça do Rio Grande do Norte há anos mantém com políticos de menor ou maior tom.
Mas perto, muito perto, das surpresas que uma delação premiada pode proporcionar em casos parecidos ou semelhantes.
Feitiço contra o feiticeiro, pois.
E salve-se quem puder.
Dividida dura
Já falei aqui da compra da Esporte Interativo pela Turner e da briga envolvendo as duas e a Abert, representante do oligopólio que domina a TV do país há décadas, já começou a causar. Durante o descanso momescco, porém, me toquei que não tinha explicado a questão direito, deixando-a no ar. Vou tentar fazê-lo aqui e começo lá de trás.
Além do apoio financeiro (ilegal, aqui), os americanos trouxeram para a Globo, em seu início, há 50 anos, o conceito de “prime time”. Basicamente, é o bloco de programação que se estende das 19h às 23h, no qual os valores dos anúncios são os mais altos, já que as ví… quer dizer…os telespectadores estão lá, quietinhos e relaxados, na mesa do jantar, prontos para comprarem qualquer coisa, de sabão em pó a carros, passando por notícias com enfoque enviesado.
No Brasil , o chamado “horário nobre” é aquele, mas com muita concentração na primeira parte do período, ou seja, das 19h às 21h (se quiser ver como é em outros lugares, a wikipedia dá uma mão). A Globo montou essa grade colocando o esquema novela-telejornal-novela, que começou efetivamente no dia 1º de setembro de 1969, data da primeira exibição do Jornal Nacional (sim, eu vi e adorei a música de abertura, uma parte de Summer ’68, do Pink Floyd – mas essa que aparece no youtube já é a segunda abertura, depois que o Banco Nacional passou a ser o patrocinador exclusivo).
Funcionou que foi uma beleza e permanece desde então – com uma ou outra mudança, tipo “estica-e-puxa” do horário -, apesar de já não ter o mesmo sucesso, pois, a queda de audiência das novelas (primeiro) e do telejornalismo global (de uns 10 anos para cá) é público e notório, levando junto a audiência geral da emissora (aqui).
Com essa queda, a cobertura do futebol passou a ser estratégica para a Rede Globo, pois, apesar de também ter sido atingido pela queda geral de audiência, o produto futebol tem demonstrando uma resiliência maior à débâcle. O “esporte das multidões” entrou como terceiro pilar da audiência da Globo nos anos 90, depois que, em 1987, a emissora, junto com dirigentes dos maiores clubes do país, criar o Clube dos 13, visando forçar a CBF a mudar a organização do Brasileirão e fazer com que este ficasse nas mãos dos Marinho.
Já entendeu qual o problema, certo? Entendeu o geral, pois tem um pouco mais – e importante. Em 2011, o Cade, após mais de 10 anos de deliberações, decidiu que o contrato de exclusividade entre a Globo e o Clube dos 13 era ilegal por ferir a concorrência, e determinou que houvesse uma licitação aberta a todas as emissoras interessadas (depois você ainda se pergunta porque os Marinho odeiam os últimos governos do país…).
A Record entrou na disputa e corria o risco de ganhar, por ter obtido o apoio de alguns clubes. Daí, a Globo, com a inestimável ajuda de Ricardo Teixeira e sua CBF, pressionou os clubes, especialmente o Corinthians e o Inomi…quer dizer, o Flamengo, a assinarem por fora. Com eles, muito a contragosto, foram os outros ( exemplos aqui) e o Clube dos 13 implodiu porque Corinthians e Flamengo ficaram com uma parte muito maior parte do bolo.
Como você deve ter lido nos dois últimos links, os contratos terminam este ano, só que não –eles foram renovados para o período 2016-2019 (aqui, com os valores novos e antigos). Os novos acordos alargaram ainda mais a distância entre Corinthians e Flamengo e os outros (aumentando o temor da “espanholização” do futebol brasileiro, mas isso é outra discussão).
A questão é que é três anos passam rápido e agora há um garoto grande, forte e com cara de mau na vizinhança, de nome Turner. Ele comprou um brinquedo novo chamado Esporte Interativo, que possui contrato de aluguel de uma geradora (TV Eldorado, do grupo Estado de São Paulo), a qual transmite para 22 cidades incluindo São Paulo capital e algumas cidades importantes do estado (como Campinas e Santos), onde não só está o maior mercado publicitário do país, como é a sede de um daqueles dois clubes que mais recebem da TV Globo (a lista completa de cidades que recebe o sinal do EI está aqui – note o número de capitais e o fato de atingir o país todo via parabólica, sem contar que a presença na grade da Netflix não está na lista).
Assim, pode apostar que, já no ano que vem, os outros clubes – e, talvez, até Flamengo e Corinthians – comecem a reclamar do que andam recebendo (aliás, já começou…). A Globo está pagando R$ 1,6 bilhão (cerca de US$ 550 milhões ou 500 milhões de euros) para todo mundo – é uma boa grana, mas, como se pode ver aqui, fica apenas na sexta colocação entre as grandes ligas de futebol do mundo (podendo ser a sétima, já que a liga turca renovou este ano). O Turner está acostumado a brincar com um pessoal mais taludo, que disputa direitos pela NBA, NFL, MLB e Superbowl – assim oferecer R$ 2,5 bilhões que seja por três anos (pouco menos de US$ 900 milhões ou cerca de US$ 300 milhões por ano) não é algo capaz de assustá-lo.
Há ainda o fato de que, pela beiradas, o EI já vinha comendo o mingau – obteve a valiosa Liga dos Campeões para TV fechada e internet (aqui) e alguns estaduais de estados pobres (aqui uma lista de quem tem direitos sobre que campeonatos, antes da compra da Liga dos Campeões pela EI), e até promovendo campeonatos interestaduais com sucesso (Copa Nordeste e Copa Verde). Nesse caso, o Turner poderia, se ficasse realmente irritado, unir a Copa do Nordeste à Copa Verde (que reúne clubes do Centro-Oeste e do Norte) e partir para ampliá-la para todo o país, pegando os clubes que estão ganhando muito menos que a dupla gambá-urubu, formando uma liga nacional estilo Premier League inglesa, La Liga espanhola ou Liga Sagres, de Portugal.
Por isso, a Abert, que tradicionalmente é pau-mandado da Globo, deverá partir para um briga encarniçada para barrar a entrada da Turner na TV aberta, via EI e TV Eldorado. No fim, a decisão vai ficar com o Ministério das Comunicações (leia-se Ricardo Berzoini), e, muito provavelmente, com o STF.
Vai ser realmente divertido de ver…
Operação Sinal Fechado e o esforço por desqualificar as acusações contra Agripino e Ezequiel
Dois textos se destacam.
O primeiro da jornalista Thaisa Galvão. Em seu post, Thaísa critica as duas versões sobre o caso apresentadas por George Olímpio, sem levar em consideração que, em 2012, George era acusado mas não havia feito acordo de colaboração com o Ministério Público - acordo assinado no ano passado. E desconsidera, também, que George tenha apresentado provas, inclusive vídeos em que agentes políticos aparecem recebendo propinas.
O segundo texto é de Bruno Giovanni, atual diretor da TV Assembleia e subordinado a Ezequiel, acusado pelo recebimento de R$ 300 mil de propina para aprovar a lei que autorizava a inspeção veicular em 2009. Bruno fala que
o Ministério Público afirma que George pagou a suposta propina em duas parcelas, uma no final de dezembro de 2009 e outra em janeiro de 2010. O problema é que o saque para o pagamento no fim do mês de dezembro foi feito ainda no dia 17 de dezembro.Já a parcela supostamente paga em janeiro como está no documento do MP, no valor de R$ 150 mil, teve o saque ocorrido em 31 de março de 2010 como está no extrato entregue pelo próprio George como prova. Então as datas não batem.Bobagem. Basta ler o depoimento transcrito de George. Ele deixa claro que não se lembra exatamente das datas e apenas as estima. Não lembra, inclusive, se o dinheiro saiu da sua conta ou da conta do Instituto dos Cartórios, sugerindo que o MP averigue nos extratos as informações:
Olhe, eu não vou precisar saber se foi da minha conta pessoa física ou da conta do Instituto, mas entrou naquele rol de antecipação de lucros que teria das empresas pra mim, que fazia os registros. Então pode ter sido feito direto, saque direto do Instituto de Registradores, em nome... dinheiro que seria para as empresas, como uma antecipação de lucros das empresas por uma prestação de serviço ou na minha conta pessoa física ou das duas, certo, mas isso a gente tem como, pode identificar isso nos extratos.E as datas? George, que destaca a distância no tempo para justificar a incerteza quanto a algumas informações, fala achar que os pagamentos a Ezequiel foram feitas em duas parcelas em dezembro e janeiro:
George Olímpio: Dezembro e janeiro. Dezembro de 2009 e janeiro de 2010. A grande dificuldade, talvez, que nós tenhamos é porque ao mesmo tempo em que se pagava essa, tinha aquela propina mensal pra o registro. Então tem vários saques e como a gente já viu aqui em outros tópicos que nós falamos, girava em torno de R$ 120.000,00, R$ 130.000,00, por mês.E qual o fracionamento? George não tinha certeza se os saques foram em três parcelas de R$ 50 mil ou duas parcelas (de R$ 120 mil ou R$ 130 mil). "Pode ter sido R$ 50.000,00, R$ 100.000,00, dependia da disponibilidade do banco. Então, esse tempo todo, hoje a gente tá em 2014", diz George.
Ministério Público: Por mês dos registros.
George Olímpio: Era. Dos registros
Ministério Público: Então, além de R$ 130.000,00, se você pegar esses dois meses, haverá saques de R$ 300.000,00, embora fracionados ou do Instituto de Registradores ou da sua conta pessoal.
George Olímpio: Isso.
O MP chegou às datas cruzando os saques e o calendário de votação da assembleia e da licitação:
Corroborando as declarações do colaborador, extratos de- talhados da conta corrente do Instituto de Registradores de Títulos, Documentos e Pessoas Jurídicas do Estado do Rio Grande do Norte (IRTDPJ) registram duas retiradas expressivas e atípicas por meio de cheques nominais pagos a GEORGE ANDERSON OLÍMPIO, conforme relatado na delação, exatamente no período em que foram pagas as duas parcelas da vantagem indevida solicitada pelo agente público denunciado: dia 17.12.2009, R$120.000,00 (cento e vinte mil reais), data da publicação da Lei no 9.270/2009 (fl. 42); dia 31.03.2010, R$150.000,00 (cento e cinquenta mil reais), aproximadamente 30(trinta) dias depois da publicação do edital da Concorrência Pública no 001/2010-DETRAN-RN.
Na esteira destas informações, diligências revelaram que o número de telefone utilizado por GEORGE ANDERSON OLÍMPIO à época, (84)88461738, fez contatos com o número do telefone funcional do gabinete do deputado estadual, (84)88724943, exatamente no dia do pagamento da segunda parte da propina, 31/03/2010, assim como dois dias antes, não registrando outros contatos entre os dias 13/03/2010 a 13/04/2010.A imprecisão das datas não é, pois, suficiente para desqualificar o depoimento e as provas de George, assim como a denúncia contra Ezequiel - que, bom lembrar, como presidente da Assembleia, é chefe de Bruno Giovanni como diretor da TV Assembleia.
Em outro post, Bruno também acusa o depoimento de George de inconsistência, como Thaisa Galvão:
O suposto pagamento está envolto em contradições. Em acordo de delação premiada, um dos envolvidos, Alcides Barbosa, disse em 2012 que José Agripino recebeu propina. No mesmo ano, o advogado George Olímpio, acusado de ser o operador do esquema, declarou que as acusações feitas por Barbosa eram mentirosas.Olímpio, que agora aparece, no esquema de delação premiada como principal acusador, registrou declarações em cartório e emitiu nota aberta acusando Barbosa de mentir para se beneficiar com o perdão judicial. No documento registrado em cartório e na nota pública, George Olímpio assegura que não houve pagamento de propina a ninguém e nenhum político no RN.
...Na verdade, há convergência nos depoimentos dados em colaboração premiada, não apenas por George Olímpio, como também Alcides Barbosa e Marcus Vinicius Furtado. No que se refere ao milhão de Agripino ainda há o depoimento de Gilmar da Montana quando de sua prisão, ainda em 2011. No âmbito da delação premiada, é bom lembrar, o que foi dito sem acordo não deve ser levado em consideração.
Acordo de delação premiada, pedido perdão judicial, contradições nos depoimentos e acusações, envolvidos e suspeitos trocando acusações. Tudo isso torna o caso da Operação Sinal Fechado bastante nebuloso:
Antes mesmo de ir ao ar no Fantástico hoje, George Olímpio tornou-se alvo de esforços de desqualificação.
Vale perguntar, então, o que falei ontem - inclusive no que diz respeito à aparente contradição de depoimentos antes e depois do acordo de delação: delações contra Agripino valem menos que contra o PT?
Íntegra do nocaute que Haddad deu em Villa e Sheherazade e a reação dos sabujos da organização do jornalismo ficcional
A surra histórica que Haddad deu na dupla de entrevistadores reacionários e sem um mínimo de preparo virou febre na internet.
A estudante Kalianne Tosold comenta:
Passei a semana inteira protelando para terminar de ouvir a entrevista do prefeito de SP, Fernando Haddad, concedido a JP.
Não é por nada não, mas aguentar escutar a voz cínica e carregada de hipocrisia da “boa cristã” Sheherazade requer um bom humor (e estômago) que só uma sexta-feira pode proporcionar! O ataque dela ao plano piloto de Hadadd que busca timidamente dar dignidade a algumas – já que estamos falando de um plano piloto – travestis e transsexuais que procuram outro destino que não o da prostituição e da morte nas ruas, é de uma escrotidão intragável. Tentou engatar suas falácias contumazes para cima de Haddad e teve que escutar dele uma aula de civilidade e competencia.
Sou fã desse político e não me envergonho de afirmar que espero o milagre da multiplicação de Haddads nas administrações públicas desse pais.
Ouçam aí abaixo a íntegra.
Os cães de guarda do jornalismo ficcional da Globo ficaram feridos de morte.
E além de atacar Dilma diuturnamente reforçaram as trincheiras contra Haddad:
Um tal de Fucs fez a lista mais sabuja já vista no jornalismo ficcional da organização, (confira aqui). Acho que nem gente do naipe de tio Rei conseguiria fazer.
É tanta desfaçatez travestida de jornalismo que o sociólogo Wagner Iglesias dedicou alguns minutos decupando o texto:
O “jornalista” chegou a dizer que Haddad é um dos piores prefeitos da História de SP. Só se esqueceu de Serra, Kassab, Maluf e Jânio, para citar alguns. A histeria do texto chega a afirmar que “Haddad detonou a Vila Madalena”.
O titulo do artigo de Época é um primor. Fala em 7 barbaridades de Haddad que jamais esqueceremos. Sete por quê? Algo como as sete pragas do Egito? E que juízo de valor é este em relação a “barbaridades”? E o “jamais”, a troco de quê? Haddad teria feito algo assim tão recriminável que deva ser lembrado para todo o sempre, por gerações? E por fim, o velho artifício de sempre, a la Veja: colocar uma afirmação de interesse da publicação na 1a. pessoa do plural, no caso do jamais ESQUECEREMOS. Esqueceremos quem, cara pálida?
A direita sabe que Haddad, mesmo com todos os problemas de sua gestão em SP, é um nome com grande potencial para o futuro do petismo. Não nos admiremos que tentem macular a imagem dele antes que ele pense em vôos mais altos.
Sobre a mesma ‘matéria’ de Fucs, a estudante cearense Kalianne analisa:
7 ações que só gente besta de São Paulo é que pode achar ruim! Eu acho é ÓTIMO!!! A cidade finalmente está sendo do povo. Vila Madalena agora é frequentada por gente “diferenciada” que “assusta” os moradores locais com blocos de carnaval??? Eu rio litros aqui! ônibus tem preferência em vias estreitas ou nãoo em relação ao transporte individual???? Eu acho ÓTIMO!!! MSTS está conseguindo algum avanço??? Aplausos! “Nóias” têm sido tratados como sujeitos e não como objetos de repressão e higienização??? Estrelinhas para o prefeito!
Quanto mais esses escrotos choram seus mimimis e inventam palavras que Haddad jamais proferiu, eu acho é ótimo!!!!A entrevista da JP com Haddad demonstra bem como esses coxinhas paulistas merecem o governador que tem, mas jamais merecem o prefeito Haddad!
Eu moro em Viena, aqui as ciclofaixas também desbotam ( ohhhhh que pecado!) Aqui as ciclofaixas também entram sobre calçadas quando essas são mais largas. Aqui as ciclofaixas também acabam no fim de um cruzamento e não continuam, porque a partir daquele ponto o ciclista entra na via com os outros meios de transporte. Aqui também tem grafitti, e aqui também tem gueto de ‘nóias’ em lugares turísticos, inclusive! E eu moro na capital de melhor qualidade de vida do mundo, eleita por 4 anos consecutivos! Ah, mas Viena é vermelha, há mais de 30 anos.
A reação animalesca contra aquele que governa a cidade para todos da mídia sabuja nas organizações da famiglia Globo não é surpresa, não é mesmo?
Afinal, o jornalismo-negócio da Globo é vergonha nacional, é aquele jornalismo ficcional que em página de caderno de Economia fala de prédios assombrados. Não, não é uma metáfora, o Caderno de Economia de O Globo teve mesmo coragem de fazer este papel vergonhoso: Confira aqui:
O jornalismo-negócio da Globo é aquele que tem ordem da direção de não tocar no nome de FHC quando o assunto é a Lava Jato, que troca a data de afundamento da Plataforma P36 ocorrida durante o governo FHC e a coloca no governo Dilma, que não se incomoda sequer de usar suas novelas pra fazer campanha contra a Petrobras e o governo, afinal não há qualquer diferença entre o jornalismo-negócio-ficcional feito pela Globo e a ficção de suas novelas, confira aqui, aqui e aqui.
O jornalismo praticado dentro de todas as propriedades cruzadas da famiglia Globo não se incomoda sequer de inventar a matéria inteira sobre medo dos funcionários da Petrobras, mesmo sendo desmentidos pelos próprios funcionários citados que nunca foram entrevistados. Confira aqui.
Portanto, nenhuma surpresa com mais uma matéria reacionária de um jornalismo-negócio numa das propriedades cruzadas do Clarín tupiniquim.
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Mas é menino ou menina?
Estou grávida do meu primeiro filho. Na verdade, estamos prestes a entrar no nono mês de gestação. O bebê foi planejado (dentro do que é possível planejar uma criança, já que a vida às vezes toma conta da gente), e eu e meu marido discutimos antes muitas coisas a respeito do que queríamos para essa gravidez – claro, dentro do possível do querer.
A que gera mais polêmica e rege a minha gravidez até hoje é: nós não queremos saber o sexo do bebê¹. Parece simples, né? Não, não é nem um pouquinho.
A primeira intenção foi apenas ter uma surpresa. No começo, fomos completamente inocentes não sabendo o tamanho da briga que arrumamos.
Você lendo deve estar se perguntando: “Ai, não exagera! Que briga tu poderia comprar pornão saber o sexo da criança?” Minhas queridas e meus queridos, a mesma briga de sempre: aquela que diz respeito a gênero.
Bla! Eu sou um kraken vindo do mar!
Obviamente, a primeira pergunta que ouço quando as pessoas percebem minha gravidez é: “É menino ou menina?” A pergunta não ofende. Aliás, 99,9% das mulheres na minha fase gestacional sabem o sexo do bebê. O problema é quando respondemos: “Decidimos não saber o sexo”.
Muitos são inocentes e só me perguntam: “COMO VOCÊS NÃO SABEM O SEXO?” Entendo a ansiedade. Mas não sabemos o sexo e está tudo muito, muito bom. A assombração de não poder determinar meu filho em caixinhas termina aí.
Porém, em outros casos, começamos a ouvir: “Mas como vocês estão fazendo o enxoval? Tudo neutro, né? Branquinho, verdinho, amarelinho?” Então começa o pesadelo. Como explicar para as pessoas que cor é cor, por exemplo. Que rosa, azul, violeta, vermelho, preto são pigmentos e que não querem dizer absolutamente NADA em relação ao que meu filho será ou deixará de ser. Quando falamos que o enxoval tem TODAS as cores e que sim, compramos roupas azuis e rosas também, escutamos o sermão da montanha da perdição do NÃO PODE.
Não pode. Não pode porque se for menina, ela não pode se vestir de azul. Ela não pode ter um body de caveira. Ela não pode brincar com carrinhos. Ela não pode ter um Thor de pelúcia². Não pode porque se for menino, ele não pode se vestir de rosa. Ele não pode ter um lençol com detalhes “de menina”. Ele não pode ter uma Melissa do Nirvana. Não pode porque ele pode ser viado assim.
Para as pessoas, nosso filho não pode ser rotulado. E se não pode estar numa caixinha de macho ou fêmea, como lidar? Como comprar presentes? Como comprar roupas? Como chamá-lo? Como impor os papéis de gênero?
E a minha pergunta é: por que impor os papéis de gênero já na vida intrauterina? Não basta tudo o que a gente passa aqui do lado de fora com o como “devemos nos comportar para ser bem vistos”, pra que fazer um feto já passar por isso?
Eu estou tendo uma oportunidade de dar ao meu filho todas as possibilidades. Não que seja um exercício fácil. Estamos há oito meses o exercendo e vou dizer: às vezes ainda é difícil não sucumbir ao discurso do neutro.
E vou dizer que o mundo é bem mais legal quando a gente não acredita na cor menino e na cor menina!
Observação: o discurso aqui não é “faça como eu e não saiba o sexo do teu bebê”, mas é “saia das caixinhas do gênero e se dê a oportunidade de não rotular”!
¹ Na língua portuguesa, por uma questão gramática arbitrária, não temos um gênero gramatical exclusivamente neutro. Utilizamos o masculino nesse caso. Por esse motivo, toda referência será feita no masculino como gênero não marcado.
² Esta o marido ouviu quando comprou um Thor de pelúcia para o bebê e afirmou não saber o sexo.
Operação Sinal Fechado: Janot desarquivou investigação contra Agripino
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| Ximbica teria emprestado cheques a George Olímpio |
Diante dos depoimentos prestados por Gilmar da Montana e Alcides Barbosa, Agripino respondeu com declarações tomadas em cartório por Gilmar e George Olímpio em que se negava que o último houvera lhe repassado R$ 1 milhão de propina em 2010.
Na verdade, em cartório, George disse que jamais passou cheques, quatro, para José Agripino. O documento de Gurgel é de 2012. Ali se sabia da delação de Alcides Barbosa, que nunca disse que George tinha passado quatro cheques para José Agripino: os cheques, segundo aquela delação, haviam sido emprestados por José Bezerra Júnior, o Ximbica.
Tudo isso, no entanto, mudou de figura quando outros dois personagens decidiram fazer acordos de delação com o MP. O primeiro, o próprio George Olímpio. O outro foi Marcus Vinicius Furtado.
É o depoimento de George, em que afirma o pagamento de R$ 1 milhão e 150 mil a Agripino, que vai ao ar esta noite no Fantástico.
Além do depoimento, George, acusado de liderar o esquema no DETRAN,entregou gravações e outras provas ao Ministério Público. Alcides Barbosa, o primeiro delator do esquema, já dissera que George costumava gravar conversas e reuniões para se proteger futuramente.
Depois do depoimento de George, o atual Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, desarquivou, há cerca de cinco meses, a investigação contra o senador.
A decisão de Gurgel está abaixo:




10 coisas muito boas que descobri na Itália
Uma das melhores partes de viajar é, pra mim, descobrir novos ingredientes e ver o que os nativos gostam de fazer com eles. Nem sempre os pratos tradicionais que descubro nas minhas andanças pelo mundo são 100% vegetais, mas eles podem me inspirar de várias maneiras. Porém em alguns lugares os nativos têm uma admirável intimidade com vegetais e fazem as coisas mais surpreendentes e deliciosas com eles. É o caso da Toscana. Na última vez que estive por lá, em outubro, descobri algumas coisas muito boas. Ingredientes, receitas tradicionais e uma tradição gastronômica que eu imagino que deve se repetir em muitos lugares do mundo, mas que eu descobri, e pude participar pela primeira vez, durante essa viagem.
1- Macarrão semi integral Floriddia, feito com uma variedade de trigo mais rústica
Minha amiga Giada explicou que seu macarrão preferido é feito com uma variedade de trigo mais antiga e orgânico, produzido pertinho da casa dela. Visitei a fábrica e saí de lá com uns pacotes embaixo do braço, que degustei durante a semana que fiquei na Toscana. Achei esse macarrão rústico, semi integral e rico em gérmen de trigo muito saboroso e melhor do que todas as outras massas integrais que provei até hoje.
2- Biscoito de vinho branco
Na mesma fábrica descobri um pequeno tesouro: um biscoitinho feito com vinho branco e azeite. A lista de ingredientes é bem curtinha (a mesma farinha de trigo antigo do macarrão acima, azeite, vinho branco, açúcar e fermento natural), sem nenhum produto químico ou duvidoso e 100% vegetal. Fiquei ainda mais feliz ao ver que eles tinham escrito na embalagem a palavra ‘vegan’, prova de que estavam realmente procurando agradar a nossa tribo. Levei pra casa porque achei aquela combinação de ingredientes interessante e tive a agradável surpresa de descobrir que o sabor era muito melhor do que eu imaginava. O biscoito era leve, crocante, pouco doce e com um gostinho original e delicado, graças à mistura de azeite e vinho branco. Perfeito pra acompanhar o café da tarde (e melhor ainda com um quadradinho de chocolate amargo, como na foto acima).
3- Farro
Sempre quis provar esse cereal, uma variedade antiga, mas que perdeu a popularidade tempos atrás (está voltando a ficar na moda!). Descobri que na Toscana ele ainda é bastante apreciado, então é fácil encontrar por lá. Parece que tem alguma confusão ao redor desse grão. Farro e espelta são a mesma coisa (parece que na Itália os dois são chamados de ‘farro’) ou são dois cereais diferentes (Triticum dicoccum e Triticum spelta, respectivamente, segundo a Wikipedia)? Não sei qual dos dois comprei, já que no pacote tinha escrito simplesmente ‘farro’, mas gostei muito. Ele se prepara como arroz (com um tempo de cozimento mais longo do que o arroz integral) e tem um sabor mais marcante do que cereais como trigo ou aveia e uma textura mais densa. Achei uma delícia e até servi como parte do jantar pra vinte pessoas que preparei na Itália.
4- Cavolo nero
Mais uma comida que eu queria provar há tempos. Esse tipo de couve, também chamada de couve da Toscana, é enrugada, alongada e bem escura. Giada e o companheiro dela cultivam legumes orgânicos e me presentearam com um punhado de folhas de cavolo nero. Essas coisas me deixam mais feliz e saltitante do qualquer outro tipo de presente. O sabor é mais forte do que a couve que gostamos de comer no Brasil, mas como sou completamente louca por folhas verdes (minha comida preferida, junto com feijões), achei aquilo um manjar dos deuses. Lá na Toscana o pessoal gosta de prepará-lo em sopas e eles estão muito certos.
5- Flores de abobrinha
Dentro da caixa de legumes orgânicos oferecida pelos meus amigos italianos também havia flores de abobrinha. Durante a colheita me perguntaram se eu queria algumas e eu respondi ‘sim’ sem hesitação. Era mais uma comida na minha lista de ‘quero muito provar’. Apesar de ter uma ideia de como essa iguaria é preparada na Itália (recheada, empanada e frita) decidi que além de exigir um esforço muito maior do que eu estava disposta a fazer durante as férias, uma receita tão elaborada assim não seria a ideal pra me fazer descobrir o sabor delicado das flores. Então preparei de maneira bem simples, refogadas no azeite com um pouco de alho, e servi com o macarrão delicioso que mencionei acima. As flores foram aprovadíssimas!
6- Manjerona fresca
Na casa onde fiquei tinha um jardim com várias ervas pra perfumar as preparações culinárias que saiam da cozinha. Eu tenho costume de cozinhar com manjericão, alecrim e tomilho fresco, mas foi a primeira vez que tive manjerona fresca à disposição. Achei o sabor ainda mais complexo e delicioso do que a versão desidratada e ficou sublime no meu queijo de castanha e beterraba. Então fiz a seguinte anotação mental: ter um potinho com manjerona fresca na minha próxima casa.
Graças aos meus amigos agricultores visitei a feira orgânica que acontece quinzenalmente em Pisa, pertinho da famosa torre. Além dos vegetais encontrei vários produtos veganos, como biscoitos, pães, tortas doces e salgadas, bolos, patês… Que felicidade ver que o veganismo está crescendo e comidas vegetais estão se tornando cada vez mais populares. Adorei a feira, mas gostei ainda mais do que aconteceu depois dela. Os agricultores que vendem seus alimentos ali têm uma tradição: no final da feira eles armam uma mesa enorme onde cada um compartilha um prato trazido de casa, em um alegre almoço coletivo. Tive a honra de ser convidada pra sentar à mesa, onde dividimos um pouco do farro preparado no dia anterior e pude degustar muitas delícias, já que a mesa estava cheia de opções 100% vegetais. E qual não foi a minha surpresa ao escutar pessoas ao meu redor perguntarem, antes de aceitarem um prato, se aquilo era vegano. Alguns dos agricultores/artesãos sentados ali eram veganos, o que fez meu coração se encher de alegria e provou mais uma vez que veganismo não é só pra uma parte rica da população, que tem dinheiro pra comprar comida cara e exótica em loja de produtos naturais.
8- Patê de alho poró
Na famosa feira tinha uma barraca com vários tipos de patês e molhos, feitos artesanalmente por uma cooperativa de mulheres. Alguns eram feitos só com vegetais e um deles me intrigou: patê de alho poró. Fazer patê com esse vegetal nunca tinha me passado pela cabeça, então depois de ler a lista de ingredientes pra me assegurar que aquilo era vegano, provei um pedacinho de pão com o tal patê que estava sendo oferecido pra degustação. Adorei! Infelizmente a empolgação pra provar o patê fez com que eu lesse a lista de ingredientes rápido demais e ao checar o potinho novamente, dessa vez com calma, me dei conta que tinha ‘acciuga’ ali e essa palavra significa ‘anchova’. Ai! Acontece desses incidentes na vida de uma vegana. Por razões óbvias não levei o patê pra casa, mas depois de conversar com a senhora que produzia os patês descobri que ela usava uma quantidade ínfima de anchova naquela preparação (‘Só um pouquinho’, ela me garantiu), então me animei pra fazer uma versão vegana na minha cozinha, já que acredito que o peixinho poderá ser substituído por um ingrediente vegetal de sabor forte (tenho algumas ideias…).
9- Panforte
Mais uma receita tradicional toscana que, pra nossa grande felicidade, é geralmente vegana (algumas pessoas usam mel, então é preciso perguntar antes de degustar). Panforte é um doce feito com frutas secas, oleaginosas (geralmente amêndoas e avelãs), açúcar e farinha e é assado, tradicionalmente, em um forno à lenha. O resultado é mais denso e pesado do que um bolo, pois a quantidade de frutas secas é bem maior do que a de farinha, e se você me perguntar, ele é bem mais gostoso também. Um pedacinho é mais que suficiente pra adoçar a sua tarde. Na verdade eu já tinha provado panforte em outras visitas à Itália, mas aquele vendido na feira orgânica foi, de longe, o melhor de todos. Além de ser feito como manda o figurino (cozinho no forno à lenha), ele tinha uma mistura simples e harmoniosa de amêndoa, damasco, laranja e especiarias (além desses ingredientes só tinha mais farinha de trigo semi integral e açúcar na receita). Delícia com um café amargo. (Pra mim todo doce fica melhor com café amargo:)
10- Torta de ceci
Também chamada de cecina (ou farinata em outros lugares da Itália), é mais uma especialidade italiana naturalmente vegana e absurdamente deliciosa. Eu sabia que preparações à base de farinha de grão de bico eram comuns em várias regiões da Itália e nessa última viagem à Toscana pude, enfim, degustar essa maravilha. Provei pela primeira vez durante o almoço coletivo depois da feira orgânica e quase caio da cadeira com a deliciosidade da coisa e com o sabor aparentado com ovo. Não sei o quem tem na danada da farinha de grão de bico, mas fica realmente parecido com um omelete, só que muito melhor e sem aquele cheiro característico que desagrada muitos nos omeletes tradicionais. No mesmo dia, passeando sem roteiro definido por Livorno, encontrei por acaso o lugar onde é feito a torta de ceci mais famosa da região. Empolgada pela recente descoberta decidi entrar, apesar de ainda estar com a barriga cheia do almoço na feira. Era uma sala pequena, aquecida pelo grande forno à lenha, sem nenhuma placa ou letreiro na entrada. Só descobri que ali se vendia torta de ceci porque fui seguindo, discretamente, as pessoas que passavam com uma na mão. O lugar estava abarrotado de nativos degustando suas cecinas em pé, pois não tinha mesa ali. E como também não tinha cardápio, apenas números escritos em uma pequena lousa, que só os entendidos entendiam, não soube o que dizer quando a minha vez de fazer o pedido chegou. Apontei pro que a pessoa do meu lado estava comendo e a dona do local insistiu pra que eu repetisse o meu pedido em italiano: “5 e 5 con melanzane”. “5 e 5″ é um sanduíche típico de Livorno, recheado com torta de ceci. Tem o simples e o ‘con melanzane’, ou seja, com berinjela (frita). Foi um dos melhores sanduíches que já comi na vida e desde então sonho com ele.
Quando descubro que em algum lugar a comida mais popular e barata, encontrada em todas as esquinas, é naturalmente vegana (torta de ceci em Livorno, falafel em vários países árabes, kushari no Egito…) eu sempre penso na maravilha que é ser vegana(o) nessas latitudes. E me convenço mais uma vez que se no Brasil, e em muitos lugares do mundo, a comida mais barata e fácil de ser encontrada nas ruas é cachorro-quente e outros sanduíches entupidos de produtos de origem animal, é por razões puramente culturais. Não é impossível ter comida vegana acessível e popular, mesmo entre os onívoros, como prova a culinária tradicional desses lugares.
Mas voltando à torta de ceci, fiquei fascinada com esse prato e pedi pra Marco, o companheiro de Giada, me ensinar a receita. Desde que voltei da Toscana tento reproduzir a gostosura que provei em Livorno, mas apesar de ter obtido resultados satisfatórios depois de algumas tentativas, minha torta de ceci nunca fica tão maravilhosa quanto a que provei em Livorno. Tenho certeza que o forno à lenha faz toda a diferença, mas também desconfio que a farinha de grão de bico usada na Itália seja mais fina. Essa receita é parecida com meu omelete de grão de bico (minha receita foi inspirada da original, à base de farinha de grão de bico), mas o resultado é diferente. Gosto dos dois, mas a receita que usa farinha de grão de bico ganha no quesito praticidade. Por isso decidi compartilhá-la aqui no blog. E também porque mesmo sem ter sido assada no forno à lenha e degustada nas ruas de Livorno, em uma tarde de outono toscano (o que multiplica o sabor da receita por 3), essa torta de ceci é muito gostosa.
Torta de ceci (omelete de grão de bico italiano)
Dependendo da sua farinha de grão de bico, você vai precisar de mais ou menos água. Meu amigo italiano usa três medidas de água pra cada medida de farinha, mas não tive muito sucesso seguindo essas indicações. Eu uso 2 medidas de água pra cada medida de farinha, mas talvez sua farinha precise de um pouco mais de água do que a minha. Só testando pra saber. Se demorar muito pra cozinhar e ficar muito mole, use menos água da próxima vez. Se a torta ficou pesada, use menos. Também uso menos óleo que o meu amigo, mas ele é um ingrediente importante pro sucesso da receita, então não aconselho usar menos do que a quantidade indicada abaixo. Ele me explicou que não usa azeite nessa receita porque ele interfere no sabor. A massa precisa descansar pelo menos 6 horas antes de ser preparada, então essa não é uma receita pra fazer de última hora.
2 x de farinha de grão de bico
4 x de água
5 cs de óleo vegetal neutro (uso girassol, mas meu amigo usa óleo de amendoim)
Sal e pimenta do reino a gosto
Despeje 1 x de água sobre a farinha de grão de bico e bata bem com um garfo pra dissolver os grumos. Quando a massa estiver bem lisa junte o resto da água, uma pitada generosa de sal e misture bem. Deixe descansando, coberto com um pano de prato limpo, por no mínimo 6 horas. Pode deixar descansando de um dia pro outro, mas se o tempo estiver quente não deixe sua massa descansar mais de 8 horas, pois ela vai fermentar (pode consumir a massa fermentada sem problemas, mas o sabor não é tão bom). Depois do descanso junte 4cs de óleo e misture novamente. Prove e ajuste o sal, se necessário. Espalhe a última colher de óleo em uma forma ou placa média e despeje a massa. A camada não deve ficar muito espessa, nem muito fina, então o tamanho da forma é importante. Leve ao forno médio/alto (não precisa pré-aquecer) e deixe assar até ficar bem dourado. Dependendo do forno isso vai levar de 45 minutos à 1 hora. A torta de ceci está pronta quando tiver bem dourada nas bordas e em cima. Se seu forno tiver a função ‘grill’, use nos últimos minutos pra deixar sua torta ainda mais corada. Polvilhe com pimenta do reino (de preferência moída na hora) e deixe esfriar um pouco, pra que ela fique mais firme e mais fácil de ser cortada, antes de degustar. Rende aproximadamente 4 porções.
Operação Sinal Fechado: Delações contra Agripino valem menos que contra o PT?
Assistido por advogados pagos pelos demais envolvidos, Alcides percebe que a sua defesa, na verdade, não o defende e seu objetivo é mantê-lo encarcerado para garantir o seu silêncio.
Ciente disso e sabedor de que tem coisas a dizer que implicariam parte considerável da classe política do RN e alguns nomes de São Paulo, Alcides topa fazer um acordo de colaboração premiada com o Ministério Público.
No seu depoimento, confirma algo dito pelo empreiteiro Gilmar da Montana no dia de sua prisão: o líder do esquema, George Olímpio, deu um milhão de reais de propina para o senador José Agripino Maia, presidente nacional do Democratas. E detalha a história: o encontro se deu no apartamento do senador em Natal. O empresário José Bezerra de Araújo Júnior, o Ximbica, emprestou quatro cheques de R$ 250 mil para a transação. O objetivo era tentar garantir a manutenção do negócio de inspeção veicular para o grupo de George no futuro governo Rosalba. Como o objetivo não foi alcançado e temendo a repercussão do caso, Agripino recebeu George e Alcides em sua casa em Brasília no início de 2010 e devolveu metade dos cheques que ainda não tinham sido descontados. Alcides não sabia se Agripino devolvera os outros quinhentos mil reais.
Pano rápido.
Segundo semestre de 2014. Foi a vez do advogado George Olímpio, apontado como líder do esquema, realizar um acordo de delação premiada com o MP. A partir do seu depoimento, confirmando o que disse Alcides, o Procurador Geral de Justiça ofereceu denúncia contra o presidente da Assembleia Legislativa, Ezequiel Ferreira de Souza. Os dois disseram, e posteriormente o MP confirmou, que Ezequiel recebeu R$ 300 mil de George para aprovação da lei que autorizava o governo do Estado a contratar o serviço de inspeção veicular obrigatória.
Os depoimentos de George Olímpio também implicaram o senador democrata José Agripino - o MP confirmou em entrevista que remeteu à Procuradoria Geral da República informações acerca do envolvimento de políticos com foro privilegiado. Cabe à PGR investigar e denunciar senadores da República.
Pano rápido.
Operação Lava Jato. Dentre os vários delatores que já fizeram acordo para colaboração premiada com o Ministério Público Federal e a Justiça Federal, Pedro Barusco, ex-gerente da Petrobras que confessou receber propinas desde 1997, estimou que o PT teria recebido US$ 200 milhões decorrente de propinas das empreiteiras.
Pano rápido.
Diante dos dois fatos citados, é comum vermos duas posturas diferenciadas. Soube de um jornalista potiguar, com programa de grande audiência no rádio, que teria dito sobre as delações contra o PT: "Ninguém vai fazer uma delação premiada e mentir. Aí tem coisa". Aí, diante das denúncias contra Agripino e Ezequiel, o mesmo personagem afirmou que "são apenas depoimentos. Não há nenhuma prova e os dois têm uma vida limpa".
Qual motivo existe para que, na opinião não apenas desse jornalista, o depoimento de Pedro Barusco sobre o PT ter poder de verdade, enquanto as falas de George e Alcides sobre Agripino serem considerados apenas depoimentos sem prova? Como ele poderia explicar isso - se é que poderia?
Há outro depoimento sob delação premiada na Operação Sinal Fechado. Trata-se de Marcus Vinicius Furtado da Cunha, que foi procurador do Detran. Comenta-se que tanto Marcus como George haviam gravado encontros e guardado documentos com os fins de se protegerem. Esse material, se existente, foi repassado ao Ministério Público no âmbito da delação de ambos.
As barbas de Agripino e de seus defensores deveriam ficar de molho.
Aziza Brahim: a voz dos blues saharauis
HSBC: Amaury Ribeiro Jr. deixa o Comitê de Jornalistas Investigativos

Da Redação
A troca de correspondência entre o jornalista Amaury Ribeiro Jr. e a vice-diretora do ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos), Marina Walker Guevara, nos foi enviada pelo repórter. O ICIJ recebeu do diário francês Le Monde os Swiss Leaks –vazamento de dados referentes às contas secretas do banco HSBC na Suiça.
Os vazamentos estão sendo investigados por autoridades de vários países, uma vez que podem indicar que o banco era usado para sonegação de impostos ou simplesmente esconder dinheiro sujo.
No Brasil, o ICIJ repassou a tarefa de investigar e divulgar as contas ao UOL, do Grupo Folha, representado pelo jornalista Fernando Rodrigues, integrante do ICIJ, do qual Amaury também fazia parte.
O UOL e a mídia corporativa brasileira, por enquanto, só entraram no caso para denunciar contas no HSBC associadas ao escândalo da Petrobras.
*****
Querida Ms Walker:
O seu nome me foi indicado pelo amigo Rosenthal Calmon. Meu nome é Amaury Ribeiro Jr, sou jornalista, escritor e membro do ICIJ desde a fundação da organização em 1997, na Universidade de Harvard. Estava lá na companhia de Calmon e outros amigos. Tenho me dedicado durante os 30 anos de trabalho à publicação de livros, que ajudaram a elucidar vários casos de lavagem de dinheiro. Entre os meus livros públicados estão A Privataria Tucana (mais de duzentos mil cópias vendidas no Brasil) e O Lado Sujo do Futebol (compartilhado com amigos da TV Record e traduzido para o espanhol).
Desde que o ICIJ decidiu publicar as contas de políticos na Suiça, o meu telefone não pára de tocar. Ao me pedirem ajuda, os jornalistas de toda parte do Brasil dizem que o site UOL (escolhido pelo ICIJ para divulgar o caso), ao contrário do que vem ocorrendo em outros países, só tem divulgado o nome de políticos de esquerda, livrando os chamados políticos neoliberais apoiados pela grande mídia. Me comprometi, como membro do ICIJ, a tentar obter a lista.
Caso consiga com o ICIJ, me comprometi a divulgar somente as chamadas contas sujas e não declaradas ao Fisco, na íntegra, aos demais colegas da imprensa. O Brasil vive uma crise política sem precedentes, que poderá acabar para sempre com todo o esquema de corrupção que perdura há mais 50 anos. Mas, para que isso ocorra, a imprensa não deve colaborar com a manipulação de dados. Mando-lhe também, para a sede do ICIJ, os exemplares dos meus livros.
Grato,
Amaury Ribeiro Jr
*****
Amaury,
Bom ouvir de você. Tenho trabalhado para o ICIJ por quase 10 anos e penso que esta é a primeira vez que você entra em contato conosco em busca de uma reportagem.
Como você sabe, estamos trabalhando com o Fernando Rodrigues, que ainda está fazendo as reportagens. Ele vai publicar outras delas brevemente. Não sei no que você baseou sua afirmação de que Fernando está escondendo o nome de políticos neoliberais. Você viu os dados para fazer tal acusação tão séria contra seu colega e co-integrante do ICIJ?
Não estamos planejando abrir os dados para outras organizações de mídia do Brasil por agora. Se isso mudar, você será informado.
Obrigado,
Marina
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Marina,
Quem sabe talvez você, uma jornalista argentina, se interesse em conhecer o mínimo do que está acontecendo em seu país vizinho.
Não estou acusando o Fernando Rodrigues, colega há mais de 30 anos, e sim a empresa em que ele trabalha (UOL). Assim como todos os grandes grandes veículos de comunicação do Brasil, o UOL segue a cartilha neoliberal dos patrões.
A denúncia de que o UOL está escondendo as contas de políticos me foi feita por centenas de jornalistas. Eles viram meu nome na lista do ICIJ e passaram a me cobrar. Por isso eu te escrevi após conversar com o Rosenthal, que me indicou para o ICIJ.
A informação também me foi confirmada por fontes da Polícia Federal, que garantem que no HSBC está grande parte do dinheiro que foi desviado na época das privatizações. Te encaminhei a carta apenas para dar satisfação aos meus colegas do país.
Queria deixar bem claro que não estou escondendo nada de ninguém. Mas há uma maneira fácil de resolvermos o problema. Tire o meu nome da lista dos membros do ICIJ. A partir de hoje não faço mais parte da organização de jornalistas. Fico devendo a prova das contas dos ladrões neoliberais que vocês estão ajudando a esconder.
Nas contas offshores desses paraísos fiscais está amopitado o dinheiro que eles desviaram durante o processo de privatizações. Nós, jornalistas progressistas brasileiros, acostumados a tantos golpes da mídia patronal, não podiamos esperar nada de uma organização mantida pelo megassonegador George Soros.
Amaury Ribeiro Jr.
*****
Amaury,
Obrigado por compartilhar suas impressões. Não concordo com elas, mas respeito. Tal como você pediu, retiraremos sua biografia do site do ICIJ e aceitamos sua renúncia como membro.
Muito obrigado,
Marina Walker Guevara
ICIJ Deputy Director
mwalker@icij.org
PS do Viomundo: O fato de que existe um monopólio da informação sobre as mais de 8 mil contas de brasileiros significa que nunca saberemos se o UOL está divulgando os dados de forma manipulada ou não, pelo simples fato de que ninguém mais poderá se debruçar sobre as mesmas contas. Parece óbvio, não? Embora não comprovadas, as suspeitas de Amaury Ribeiro Jr. são absolutamente pertinentes. Aparentemente, elas permanecerão para sempre, já que o ICIJ não pretende jamais divulgar a lista completa das contas de brasileiros. Eterno mistério, pois: haverá ou não manipulação de dados? Pela cobertura que a mídia brasileira deu ao caso, até agora, sobram motivos para suspeitas: toda a ênfase é dada às contas no HSBC associadas ao escândalo da Petrobras, o “escândalo que interessa” ao baronato midiático.
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Funcionária da JBS demitida por se opor à cobrança das refeições


Andreia Pires e o abaixo-assinado com mais de 200 assinaturas
por Conceição Lemes
A empresa brasileira JBS é a maior produtora global de carnes. No terceiro trimestre de 2014, o seu lucro líquido cresceu 397% em relação a igual período de ano anterior. Foi R$ 219,8 milhões para R$1,1 bilhão.
No último ano, ela também “invadiu” a TV, via campanhas publicitárias de suas marcas Seara, estrelada por Fátima Bernardes, e Friboi, por Toni Ramos.
A JBS, porém, tem outro lado nada glamouroso. Tem sido denunciada por desrespeito a direitos trabalhistas de funcionários. Por exemplo, descumprimento da pausa de 20 minutos a cada 1h40min em ambientes frios. Falta de locais adequados para o intervalo de recuperação térmica dos trabalhadores expostos à temperaturas extremamente frias para o corpo humano (entre 5o C e -15o C). Excesso de jornadas de trabalho; há registros de até 12 horas seguidas. Infringir normas de saúde e segurança dos trabalhadores.
Apenas em 2014, teve quatro condenações por irregularidades trabalhistas em fábricas no Acre, Maranhão, Rio Grande do Sul e Mato Grosso, que lhe custaram R$ 8 milhões em indenizações.
Em 16 de janeiro de 2015, Andreia Pires de Oliveira, trabalhadora da JBS de Osasco, foi demitida por justa causa, apesar de ter estabilidade no emprego garantida por lei até setembro.
A justificativa da empresa foi o excesso de suspensões: oito (sete por atrasos no horário de entrada) em três anos de trabalho. A última em 15 de janeiro, por ter saído uma hora mais cedo no dia 12. A alegação é de que o supervisor não havia sido informado, configurando abandono de trabalho. Contudo, o superior imediato de Andreia, o líder, havia sido informado e encarregado de avisar ao supervisor, como é de costume.
Andreia trabalhava no terceiro turno no setor de higienização pré-operacional. Entrava às 23h e saía às 6h30.
“Na verdade, a razão para a minha demissão é outra. Fui demitida porque comecei a passar um abaixo-assinado, pedindo à JBS para rever a decisão de cobrar as nossas refeições”, afirma Andreia ao Viomundo. “Nós, funcionários, não pagávamos a refeição. De repente, arbitrariamente, a empresa passou a cobrar R$ 28,22 por mês. Já estávamos com mais de 200 assinaturas.”
“Além disso, eu não poderia ter sido demitida”, explica Andreia. “Fui membro da Cipa (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) de setembro de 2013 a setembro de 2014. Tinha estabilidade no emprego garantida por lei até setembro de 2015.”
O papel da Cipa, como bem lembra Andreia em sua carta aos colegas (na íntegra, abaixo), é cuidar pela segurança dos trabalhadores, observando o cumprimento de normas básicas, como o uso correto dos EPI´s (equipamentos de proteção individual), o excesso de trabalho e assédio moral da chefia para aumento de produtividade.
“São situações que contribuem para acidentes frequentes, além do surgimento de doenças”, observa.
“Essa postura de Andreia se fazia necessária frente à completa omissão do Sindicato dos Trabalhadores da Carne e dos Frios do Estado de São Paulo”, diz Diana Assunção, do Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da USP), que está dando apoio à trabalhadora demitida. “Nosso objetivo é a readmissão dela.”
O Viomundo perguntou à JBS o que tinha a dizer sobre a denúncia. A resposta, via sua assessoria de imprensa: “A JBS informa não comenta decisões sobre demissões e/ou contratações na empresa”.
Carta de Andreia Pires aos colegas de trabalho
“Como muitos devem saber, na última sexta-feira fui demitida por justa causa, segundo o supervisor porque levei muitas suspensões. Apesar de ainda estar com a estabilidade da CIPA. A última suspensão que levei foi na quinta, porque na segunda tinha pedido para sair 1h mais cedo. O supervisor esperou dois dias (terça e quarta) para “decidir” que não tinha sido avisado que eu sairia mais cedo e aplicou a suspensão. É claro que avisei, sabemos que a demissão não foi por causa disso.
Todos que me conhecem nessa fábrica sabem que não fico quieta frente a tanta coisa errada que fazem, seja com o trabalhador ou com o alimento que produzimos. Essa semana estávamos passando um abaixo assinado para não cobrarem nossas refeições, quase 200 assinaram e eu estava ajudando. Por isso é que fui demitida, porque não querem aceitar nem o mínimo que podemos fazer para nos defender. Eles tiram dentista, encarecem o convenio, tiram várias coisas de benefícios e quem fala alguma coisa é mandado sem direitos?!
Faz 3 anos que trabalho aqui, foram muitas noites de trabalho pesado junto com a equipe do terceiro turno. Assim como vários colegas, também tenho buraco de sabão corrosivo na mão, muitas vezes tive que correr pra torneira com os olhos ardendo, trinquei um dedo em acidente, arrastamos peso, esfregamos chão, parede, placas pesadas da formax, damos o sangue toda noite para essa fábrica ficar limpa e agora o que recebo em troca quando tento me defender?
Durante a minha atuação na CIPA conseguimos melhorar a situação, com bastante atenção a todos no chão de fábrica, acompanhando, falando para usar luva, óculos, viseira, não só no meu turno, mas em todos os turnos. Sempre levei muito a sério meu trabalho na higienização e como cipeira, isso ninguém pode duvidar.
Faço essa carta para denunciar a todos essa grande injustiça que fizeram comigo. Agradeço aos colegas de todos os turnos com os quais pude trabalhar, continuarei lutando com unhas e dentes, seja onde estiver, por melhores condições de trabalho, contra tanta exploração.”
Leia também:
Fernando Brito: Sobre um mau caráter que atua como jornalista
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Fora da caixa
A situação que se vive entre a Grécia e a União Europeia traz à discussão um problema interessante, sob o ponto de vista teórico, que poderá ser reforçado se acaso o Podemos vier a assumir responsabilidades de governo em Espanha ou mesmo se o Front National vier a ascender ao poder em França.
Javier Pérez de Cuellar possui uma conta secreta na Suíça
Nomes relacionados a tucanos começam a aparecer no escândalo de sonegação do HSBC
O texto abaixo é de Miguel do Rosário, no Cafezinho.

Os internautas acharam um nome genial para popularizar o escândalo de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal das contas de 8 mil brasileiros achadas no HSBC da Suíça.
Suiçalão!
Quem sabe se, com esse nome atraente ao público, o UOL não divulga os nomes que estão sendo mantidos em segredo, à diferença do que vem acontecendo no resto do mundo, onde as listas dos beneficiários estão vazando?
Os brasileiros tinham aproximadamente R$ 20 bilhões em contas no HSBC da Suíça.
Enquanto a mídia não se interessa, a blogosfera está indo atrás.
Alguns nomes, de brasileiros com contas no HSBC da Ásia, já vazaram, conforme se pode ver neste link.
A divulgação dos nomes ajudaria o Brasil a fazer uma campanha contra a sonegação, o maior problema do Brasil, bem maior, em escala, do que a corrupção, apesar da nossa mídia nunca abordar o tema.
Fernando Rodrigues, do UOL, disse que só iria divulgar os nomes que apresentassem “interesse público”.
Pois bem, o blog Megacidadania encontrou um nome de correntista do Suiçalão que apresenta “interesse público”.
Saul Sabbá.
Hoje dono do banco Máxima, Saul Sabbá está no banco de dados do site Off Shore Leaks, de responsabilidade do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ).
A sua conta secreta está ligada à offshore Maximizer International Bank S.A.
Máxima, Maximizer, sacou?
O banco de dados do Off Shore Leaks mostra o Maximizer, por sua vez, ligado a vários outros nomes.
Entre os nomes, o escritório Zalcberg Advogados Associados, cujo sócio Chaim Zalcberg, que também aparece no mapa do Offshore Leaks, já foi preso pela Polícia Federal, em 2012, na Operação Babilônia, suspeito de evasão de divisas e lavagem de dinheiro.
Zalcberg seria o cabeça da quadrilha, segundo a PF.
Aliás, é interessante lembrar que a PF já prendeu gente por lavagem de dinheiro e evasão de divisas… Pena que a mídia não dá ibope para esses casos, talvez porque ela mesmo seja uma grande sonegadora.
Sabbá é um daqueles tucanos que engordaram na privataria tucana: foi assessor de FHC no devastador processo de desestatização conduzido em seu governo. O seu banco deu consultoria para FHC na privatização da Vale e da CSN.
Agora só falta o UOL ter a generosidade de revelar quantos milhões de dólares Sabbá e seus colegas do Maximizer, todos “brasileiros honestos”, guardavam em suas contas secretas do HSBC.
Aliás, por falar em privataria, um internauta hoje nos brindou com uma deliciosa recordação: um artigo de Eliane Cantanhêde sobre a Petrobrás, de 1999.
Era o tempo em que os jornais falavam sobre a privatização das principais estatais com incrível naturalidade.
Cantanhede faz uma revelação bombástica no artigo: “Para ficar ainda mais claro: o que resta de equipe econômica está de olho gordo sobre a Petrobrás (“joia da coroa”), o Banco do Brasil e até a Caixa Econômica Federal.
Esses são os “brasileiros honestos” que pretendem privatizar a Petrobrás, para livrá-la do demônio petralha…

Don Romero, um santo progressista
Por Carlos Dada *
Penduradas na parede do meu escritório estão cópias de duas das várias ameaças de morte recebidas por Óscar Arnulfo Romero Galdámez, o monsenhor Romero, durante seus três anos de arcebispado em São Salvador, capital de El Salvador, entre 1977 e 1980. Uma delas, assinada pela “União Guerreira Branca” e dirigida ao “Assim Chamado Arcebispo Romero” o condena à morte “assim como temos matado a tantos padres comunistas”. A outra, assinada por A Falange, é de maio de 1979 e traz uma enorme suástica, “símbolo do inimigo acérrimo do comunismo” além de um texto no qual avisam que ele “está à cabeça de um grupo de clérigos que em qualquer momento receberão uns 30 projéteis na cara e no peito”.
Desde o assassinato do padre jesuíta Rutilio Grande em 1977 até 1989, mais de vinte religiosos católicos foram assassinados em El Salvador por membros das forças de segurança do governo ou por forças paramilitares (esquadrões da morte); outros foram expulsos do país; ainda outros, detidos e torturados. Todos aqueles da igreja católica salvadorenha dispostos a assumir as conclusões do Concilio Vaticano II e das conferências de Medellín e Puebla – que defenderam a opção preferencial pelos pobres na América Latina – se converteram em inimigos de quem queria manter um sistema de privilégios para uns poucos, e sofrimento e injustiça para a maioria.
Monsenhor Romero foi assassinado por um franco-atirador enquanto celebrava a missa, em 24 de março de 1980. A Comissão da Verdade de El Salvador estabeleceu que os autores intelectuais do crime foram o major Roberto D’Aubuisson, um militar reformado que fora treinado na Escola das Américas; e Mario Molina, filho do ex-presidente e general Arturo Molina. O assassinato encerrou a última possibilidade de evitar uma guerra civil; logo El Salvador foi tomado por um conflito armado que durou doze anos e deixou 100 mil mortos.
Como os assassinos de Romero eram gente de extrema direita, e sobretudo porque o major D’Aubuisson – fundador dos Esquadrões da Morte, grupos paramilitares cujo objetivo era eliminar qualquer suspeito de ser comunista ou apoiar à guerrilha de esquerda – se converteria depois em um renomado político, fundador e líder histórico do partido conservador Arena e em presidente da Assembleia Legislativa, o crime caiu na impunidade. A importância de Romero foi minimizada durante as duas décadas em que a Arena governou El Salvador. No resto do mundo, no entanto, parece que a figura de Romero seguiu crescendo.
Hoje em dia, a barbárie do assassinato é tão evidente que até o atual presidente da Arena reconheceu o monsenhor Romero como líder espiritual do país, e o seu candidato a prefeito de São Salvador incluiu entre as promessas de campanha erigir uma praça em homenagem ao arcebispo. Eles ainda estão longe de assumir também a responsabilidade do seu líder histórico neste crime (e em muitos outros) mas o reconhecimento da importância de Romero é um grande sintoma que vem de mãos dadas com o reconhecimento oficial do seu martírio pelo Papa Francisco. O Vaticano já anunciou que o beatificará o mais rápido possível; provavelmente ainda este ano.
À semelhança do fundador da Igreja
Sei que este é, ou deveria ser, um dia de celebração para todos os membros da comunidade católica salvadorenha. Mas falar da sua beatificação ou sua canonização desde uma perspectiva puramente católica me parece muito pouco. O martírio de Romero deve ser uma festa ecumênica na qual participem católicos, evangélicos, judeus, muçulmanos, agnósticos e ateus. (Conheço algumas pessoas que não creem em Deus mas acreditam, sim, no monsenhor Romero e rezam para ele. Por mais incongruente que pareça, não chega a ser anormal aqui na região. No México há mais devotos da virgem de Guadalupe do que católicos.)
O reconhecimento do martírio de Romero é uma reparação histórica
Trata-se de uma festa de todos porque, para além do aspecto religioso, o reconhecimento do martírio de Romero é uma reparação histórica: o estabelecimento inequívoco de que, na sua defesa dos pobres e indefesos, e na sua denúncia das graves violações de direitos humanos, ele agiu inspirado na doutrina social da Igreja e não no marxismo, como acusaram seus inimigos para justificar o ódio que os levou a assassiná-lo.
Romero se manteve apegado aos princípios mais elementares do cristianismo e do humanismo. Mediante a sua defesa dos mais desprotegidos, mediante o seu sacrifício pelos mais pobres, agiu à semelhança do fundador da sua igreja.
Isso se converteu em uma ameaça para todos aqueles que pretendiam manter os seus privilégios às custas da eliminação sistemática de qualquer um que os pusesse em risco. “Se me matarem”, ele disse, “eu ressuscitarei no povo salvadorenho”.
Entre os seus inimigos estavam não somente a ultradireita e os chefes militares daqueles anos. Havia também outro grupo, muito mais obscuro e do qual pouco se fala: vários bispos e sacerdotes que, em uma alta traição aos princípios cristãos e humanos mais elementares, bendisseram literalmente a repressão, conspiraram contra Romero, levaram a conspiração até Roma e se calaram diante do assassinato de seu próprio irmão. Abandonaram o seu arcebispo.
Se me matarem, eu ressuscitarei no povo salvadorenho.
A História é lenta para colocar tudo em seu lugar. Mas sempre termina colocando. Enquanto o monsenhor Romero é objeto de reconhecimento universal, os então todo-poderosos da cúpula militar, os coroneis Guillermo García, Eugenio Vides Casanova e Nicolás Carranza – que protegeram D’Aubuisson e o liberaram quando foi capturado com o plano da operação para assassinar o monsenhor – foram condenados nos Estados Unidos por crime de lesa humanidade.

O mártir da teologia da libertação, Dom Oscar Romero, e alguns seminaristas em Playa el Majahual, El Salvador, em 1978.
Vinte militares, entre eles quase toda a cúpula da geração militar conhecida “La Tandona”, esperam ainda um julgamento em Madri pelo assassinato de outros padres, incluindo os seis jesuítas massacrados pelo Batalhão Atlacatl em 1989. Devido a uma ordem de captura internacional, eles não podem sair de El Salvador, único país no qual agora estão (haja paradoxo!) em segurança.
Em 2010, o ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter revisou o diário de seus anos na Casa Branca e fez uma observação, trinta anos depois, que considero pertinente citar: “Quando cheguei à presidência, a maior parte dos regimes na América do Sul e Central eram ditaduras militares. Historicamente, os presidentes estadunidenses, tanto Democratas como Republicanos, apoiaram os ditadores e se opuseram energicamente – às vezes com a ajuda de tropas estadunidenses – a qualquer levantamento popular indígena ou de minorias que ameaçassem o statu quo. As razões para isso eram óbvias. Muitos desses líderes haviam sido treinados em West Point ou Annapolis, falavam inglês, eram familiarizados com o nosso sistema de livre comércio e estavam dispostos a formar sociedades lucrativas com corporações estadunidenses que tinham interesse nos recursos naturais desses países. Estes incluíam bananas, abacaxi, bauxita, ferro, estanho, madeiras exóticas. Era politicamente conveniente tachar os indígenas ou outros grupos de comunistas, ou simplesmente revolucionários. Os sacerdotes católicos que apoiavam os cidadãos pobres e subjugados eram condenados pelo Vaticano como praticantes da teologia da libertação…”
A História tarda, mas chega.
Era politicamente conveniente taxar os indígenas ou outros grupos de comunistas, ou simplesmente revolucionários.
Hoje contamos com suficientes provas testemunhais e documentais contra D’Aubuisson, incluindo as confissões de seu chefe de segurança, de seu chofer e uma testemunha incidental. Mas não foi D’Aubuisson o único responsável pelo crime. Escondidos à sua sombra permaneceram sempre os outros dois mandantes do assassinato: o Capitão Eduardo Ávila Ávila, que se suicidou anos depois, atormentado pelos seus incontáveis crimes; e Mario Molina, um piloto civil que segue vivo, filho do ex-presidente Arturo Armando Molina.
Escondidos também estão aqueles que financiaram essa e outras operações dos chamados esquadrões da morte: empresários milionários, poderosos, impunes. Que se aproveitaram do seu dinheiro, do seu poder e da impunidade para dispor da vida de muitos outros seres humanos. Nenhum deles pagou pelos seus crimes.
Mas sempre chega o julgamento da História. Por isso é tão importante a declaração do Papa Francisco.
Em maio de 1977, Romero realizou a missa de exéquias para o sacerdote Alfonso Navarro, assassinado poucos dias antes por um esquadrão da morte autodenominado Unión Guerrera Blanca (o mesmo autor de uma das ameaças que guardo pregadas na parede).
Naquele dia se cumpriam dois meses do assassinato do seu amigo pessoal, o padre Rutilio Grande. Ali Romero disse: “Se não se pode crer na Igreja, se estão confundido padres com guerrilheiros; se estão confundindo a nossa missão evangelizadora com marxismo e comunismo, isso não é justo, irmãos. Mas se a calúnia chegar a se propagar, perguntemos então às outras forças que restam no mundo: e vocês, o que fazem?”.
A sua própria Igreja tardou trinta e cinco anos a responder. Agora Francisco o fez.
Texto originalmente publicado por El Faro. Leia aqui o original em espanhol.
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Em 15 anos, O Brasil corre o risco de perder até 60 diferentes línguas indígenas
Em 2000, quando escrevi a primeira versão da minha coleção de história para crianças, prêmio Jabuti 2005 na categoria didático-paradidáticos, minha personagem Guarani que (na coleção, hoje, intitulada Manacá e publicada pela Editora Positivo) discute com as crianças a questão indígena, abria sua série na coleção de 4 volumes discutindo o direito de aprender a ler e escrever também em sua própria língua. Quinze anos depois a EBC faz uma matéria trazendo à tona o grave problema no processo de escolarização indígena que muitas vezes nega este direito. Espero que não seja tarde demais.
Eu falo Tupi Antigo, especial da Agência EBC
Textos: Vitor Abdala
Edição: Lilian Beraldo
Fotos: tânia Rêgo
Desenvolvimento: Pedro Ivo de OliveiraNos próximos 15 anos, o Brasil corre o risco de perder até 60 diferentes línguas indígenas – o que representa 30% do total estimado de idiomas falados pelas diversas etnias no país. Na avaliação de especialistas ouvidos pela Agência Brasil, isso representa uma perda irreparável tanto para as culturas indígenas quanto para o patrimônio linguístico cultural mundial. Eles também defendem que esses idiomas que levaram séculos para se desenvolver são fundamentais para a manutenção de outras manifestações culturais, como cantos e mitos.
“Esse é um patrimônio que pertence não só à comunidade brasileira como ao mundo.” José Carlos Levinho, diretor do Museu do Índio
Apesar de algumas iniciativas isoladas de valorizar as línguas desses povos – como a do município de São Gabriel da Cachoeira (AM) que, em 2002, tornou o tukano, o baniwa e o nheengatu línguas co-oficiais da cidade –, estima-se que mil idiomas indígenas brasileiros tenham sido extintos nos últimos 500 anos. Na maioria dos casos, isso ocorreu com a extinção da comunidade de falantes, ou seja, dos próprios índios. Hoje, entretanto, o maior risco não está mais no extermínio da população indígena, mas sim nos processos de escolarização, na exploração da mão de obra e inclusive nos programas sociais que favorecem a entrada da televisão em todas as aldeias.
Para os indígenas, o idioma materno é um instrumento de autoafirmação da identidade e da cultura. No Rio de Janeiro, em uma área de proteção ambiental, um grupo de 60 índios usa sua própria língua, o guarani, como forma de manter tradições e se comunicar.Atualmente, apenas cinco das cerca de 200 línguas indígenas faladas no Brasil têm mais de 10 mil falantes.
Línguas indígenas como o tupi deram importantes contribuições ao português.
Durante as primeiras décadas de ocupação portuguesa, o tupi antigo foi a principal língua de comunicação entre índios, europeus e uma geração de brasileiros mestiços que começava a povoar o território nacional. Mas perdeu a força em meados do século 18, quando o então primeiro-ministro português, Marquês de Pombal, proibiu o uso e o ensino do tupi no Brasil e decretou o português como língua oficial. Há ainda línguas indígenas que, por sua complexidade e dinâmica, acabaram virando objeto de estudo e desafiaram teorias consagradas da linguística, caso da língua pirahã.
Apesar de a Constituição garantir uma educação diferenciada aos indígenas, com escolas próprias que ensinem o idioma nativo, uma série de dificuldades estruturais comprometem a qualidade desse ensino. Faltam professores treinados e material didático, por exemplo. Diante disso, muitos jovens passam a frequentar escolas urbanas.
O governo afirma que tem buscado investir na formação de professores indígenas para garantir que a língua materna seja passada para as crianças nas escolas. O Ministério da Educação (MEC) também alega que tem investido na pesquisa e documentação de línguas indígenas, na preparação de materiais didáticos e na construção de escolas destinadas a esses povos. Para o diretor do Museu do Índio, entretanto, a forma como as escolas nas aldeias são estruturadas não contribui para a preservação da cultura e da língua desses povos.
Acesse a página da EBC para ler os demais artigos do Especial e ver as belíssimas fotos que os acompanham
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Haddad ensina como o PT deve travar a guerra da comunicação
Em um momento em que governos petistas de todo o país, em todos os níveis (federal, estadual e municipal), mergulham na impopularidade por razões justificáveis (campanha de oposição da mídia e crise econômica) e injustificáveis (por inação e medo do enfrentamento político), o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, deu uma aula de comunicação eficiente.
Ao fim deste texto o leitor poderá ouvir na íntegra, em três partes uma entrevista de Haddad que mostra luz no fim do túnel para o PT. Mas, antes, algumas considerações necessárias.
Na quarta-feira da semana passada (12/02), o alcaide paulista esteve no programa “Jornal da Manhã”, da rádio Jovem Pan. Para entrevistá-lo foram convocados dois antipetistas de carteirinha, o historiador tucano Marco Antonio Villa e a apresentadora de telejornal do SBT Raquel Sheherazade.
Foi um massacre. A disparidade de preparo intelectual entre os entrevistadores e o entrevistado ficou escandalosamente evidente. Villa foi quem mais apanhou, apesar de que, em nenhum momento, Haddad o desrespeitou. Apenas mostrou quão desinformado é o historiador tucano sobre os assuntos que pretendeu debater com um administrador que demonstrou dominar, de forma impressionante, cada aspecto da administração que comanda.
Sheherazade ficou aparentemente intimidada e pegou mais leve. Villa, porém, apesar de muito mais agressivo, ficou tão perdido que começou a apelar à ironia como forma de suprir sua falta de informações e de argumentos.
Nos primeiros minutos da ENORME entrevista que Haddad concedeu – de quase uma hora e meia –, o prefeito já deu um “chega-pra-lá” em Villa para ele perceber que não iria ter moleza. Confira, abaixo, o primeiro ataque do historiador tucano e a forma como Haddad repeliu a ofensiva.
Marco Antonio Villa – O senhor já percorreu mais da metade do mandato. A última avaliação Datafolha do senhor não foi positiva. Quando é uma avaliação no primeiro mês, no primeiro semestre, no primeiro ano, sempre há uma justificativa do mandato anterior; historicamente é no Brasil assim. Mas o senhor já cumpriu mais da metade do mandato e a avaliação ruim e péssimo é extremamente alta para os padrões inclusive de São Paulo, onde os prefeitos inclusive também foram mal avaliados; é de 44%. Como é que o senhor avalia? Quem é que está errado, a gestão do senhor ou os eleitores.
Fernando Haddad – Acho que você…
Marco Antonio Villa – É? Os dados estão errados?!
Fernando Haddad – Não, você. Vila, você é historiador…
Marco Antonio Villa – Sim…
Fernando Haddad – …Então você tem que fazer análise de série histórica…
Marco Antonio Villa – Sim…
Fernando Haddad – …Se fosse pegar o primeiro semestre do terceiro ano da gestão da Marta e do Kassab, vai ter, exatamente, a mesma avaliação…
Marco Antonio Villa – Sei, sei… Eu precisava consultor esses dados… Então o senhor acha normal ter 44% de ruim e péssimo depois de dois anos de gestão?
Fernando Haddad – Dependendo da conjuntura, sim.
Marco Antonio Villa – E que conjuntura que o senhor tem que o senhor pode explicar que a gestão… Que os eleitores estão errados, que eu estou errado, que o senhor está certo?
Fernando Haddad – Não, eu não estou dizendo que os eleitores estão errados…
Marco Antonio Villa – Sei…
Fernando Haddad – Estou dizendo que a sua análise está errada. Você falou que é a primeira vez que isso acontece e eu estou dizendo que não…
Marco Antonio Villa – Sim…
Fernando Haddad – Estou dizendo que na gestão da Marta aconteceu, na gestão do Kassab, antes da reeleição, aconteceu e, portanto, não é uma novidade em São Paulo…
Marco Antonio Villa – E por que que isso acontece?
Fernando Haddad – Olha, tem várias razões. Por exemplo, tarifa de ônibus. É uma coisa que afeta muito a popularidade no Brasil, mas, em São Paulo, em particular…
Marco Antonio Villa – Sim…
Fernando Haddad – Se você pegar os quatro anos de mandato da gestão da Marta e os quatro anos de mandato da gestão Kassab – o segundo mandato, porque o primeiro não houve reajuste e, no segundo, um reajuste muito acima da inflação – você vai ver que as pesquisas que foram feitas na sequência dos reajustes de tarifa, deram indicadores [negativos] superiores a esse que você acabou de se referir…
Raquel Sheherazade – Prefeito Haddad…
Fernando Haddad – … Em março de 2003, a Marta estava no terceiro ano de mandato, como eu. Teve 45% de ruim e péssimo. Imediatamente depois do reajuste da tarifa. Se você pegar os dois reajustes do Kassab no segundo mandato, chegou a 46% de ruim e péssimo. Basta você [Villa] pegar a série história – você é historiador, sabe fazer leitura de números – e vai ver que a coisa é bem diferente […]
Ufa! Haddad correu o risco de ser acusado de espancamento com requintes de crueldade. Ele mostrou que o “historiador” que tentou fustigá-lo não conhece nem a história recentíssima de sua cidade. Não teve nem o cuidado de ir ao site do Datafolha analisar como estava a popularidade dos antecessores de Haddad quando chegaram a terceiro ano de mandato nos primeiros meses do ano – quando a tarifa do transporte público aumenta em todo o país.
Ao longo da entrevista, Haddad mostrou um outro dado: é extremamente fácil rebater as críticas da mídia tucana. Só é necessário alguém com boa oratória e informado sobre dados políticos e técnicos da administração, dados que o prefeito paulistano mostrou que domina. Esse conhecimento, aliado a uma oratória extremamente fluente e precisa, triturou apresentadores despreparados.
Mais adiante, aliás, acuado por um entrevistado que já dominava completamente o debate, o “Jornal da Manhã” pôs no ar um ouvinte mal-educado que fez uma crítica boba ao prefeito, que já abordará a questão que esse ouvinte levantou. Vale a pena conferir, abaixo.
Ouvinte – Bom dia pessoal da Jovem Pan. Meu nome é [inaudível], eu sou de Carapicuíba. Em resposta a esse “prefeito Haddad”, o que define o mandato dele como péssimo são as ruas esburacadas, é esse preço do ônibus, a tarifa do ônibus, essa a saúde de São Paulo, é isso que define esse governo dele como péssimo. Esses números…
Fernando Haddad – É, você vê que a tarifa de ônibus fica na cabeça das pessoas. O que as pessoas não entendem é que o salário do motorista e do cobrador aumenta. Nos últimos quatro anos a tarifa ficou congelada […]. O último reajuste foi quatro anos atrás. O salário de motorista e cobrador aumentou 35%, nos últimos quatro anos; o reajuste da tarifa foi 17%. E ele [o ouvinte], você vê que ele não menciona o metrô. Ele poderia estar se referindo, também, ao metrô e ao trem. Ele não menciona. Provavelmente porque ele desconhece que é atribuição de outra esfera de governo… São dois governos de dois partidos diferentes que tomaram a mesma medida, não contra a população, mas porque tem custos aumentando […]
A entrevista foi longa – cerca de oitenta minutos, que o leitor poderá ouvir ao fim do texto –, mas os trechos que você leu acima sintetizam o que nela ocorreu. Haddad arrasou entrevistadores despreparados, ouvintes desinformados. Seguramente, pessoas de melhor nível intelectual entenderam e aprovaram os esclarecimentos do prefeito.
O que não se entende é por que um governante tão evidentemente sério, tão bem articulado, capaz de, inclusive, expor entrevistadores mal-intencionados ao ridículo só começou a falar, a travar o debate político de forma adequada, no terceiro ano de mandato.
Esse formato de entrevista favorece demais o prefeito. Ele tem que conseguir mais dessas entrevistas – e para o prefeito da maior cidade brasileira, não será difícil.
Futuramente, claro, a mídia antipetista tentará escalar adversários – não havia entrevistadores nessa entrevista da Jovem Pan, mas adversários – melhor preparados do que os sofríveis Marco Antonio Villa e Raquel Sheherazade. Mas isso talvez até facilite as coisas para um administrador que sabe do que fala e sabe como falar o que sabe.
Seja como for, Haddad ainda tem quase dois anos de mandato pela frente. Se se dispuser a enfrentar o debate democrático sobretudo nessas rádios que tanto fazem a cabeça dos paulistanos e que se dirigem a um público praticamente indefeso diante das manipulações tucano-midiáticas, fará esse público entender melhor sua excelente gestão.
Não há que nos debruçarmos muito sobre o conteúdo da entrevista, já que Haddad fala de problemas que, para a grande maioria dos leitores desta página, não dizem nada, pois essa maioria está em várias partes do Brasil. Mas há que ressaltar, além da atuação digna de aplausos do prefeito, o potencial político que alguém como ele detém.
Há poucos políticos tão preparados quanto Haddad, no país. E quando se alude a preparo não é só o administrativo, mas o comunicacional. O prefeito paulistano é um comunicador nato. Se se expuser mais, como vem fazendo, que não duvidem: ele pode chegar muito mais longe na política do que se espera. O PT já dispõe de um candidato a presidente para 2018.
Confira, abaixo, a íntegra da entrevista de Haddad à Jovem Pan. Em três partes.
*
Parte 1
Parte 2
Parte 3
ATUALIZAÇÃO ÀS 01H34M DE 20 DE FEVEREIRO DE 2015
Às vezes a gente tem que ter estômago para continuar sendo blogueiro.
Postaram um comentário no Blog da Cidadania naquele post que escrevi sobre a surra retórica que o prefeito Fernando Haddad deu no Marco Antonio Villa e na Raquel Sheherazade em entrevista na Jovem Pan.
Deem uma olhada:
—-
Flavio
1 aprovado
flavio_vr@hotmail.com
177.17.74.68 enviado em 20/02/2015 as 00:45
Dê os devidos créditos ao pragmatismo político! Isso que você fez é plágio!
http://www.pragmatismopolitico.com.br/…/fernando-haddad-enf…
—–
Fiquei meio desconcertado e fui ver o post do qual fui acusado de “plagiar”. Era o meu post, reproduzido por esse site sem me dar crédito. Fui acusado de plagiar a mim mesmo.
Talvez o site em questão nem tenha feito por mal, pode ter esquecido – se bem que publicou o texto como se fosse seu e citou um outro blogueiro em seguida -, mas o idiota que pôs esse comentário no meu blog nem se deu o trabalho de verificar a data em que eu publiquei o post e a data que o site em questão publicou.
Publiquei o post sobre Haddad em 16 de fevereiro às 12:58 hs e o site que publicou meu post sem me dar crédito o fez dia 19 às 17:37 hs.
Qualquer dúvida, eis o link do meu post
http://www.blogdacidadania.com.br/…/haddad-ensina-como-o-p…/
Não estou nem reclamando da publicação de meu texto sem me citar, mas não é duro você ser acusado dessa forma de plagiar a si mesmo? A gente tem que ter muita paciência…
Mas, enfim, são ossos do ofício – não remunerado
Algunos números sobre las víctimas civiles en los ataques a Gaza
La agencia AP ha hecho un análisis de 274 de los ataques aéreos israelíes sobre viviendas en las operaciones militares del verano. La conclusión es que 508 de las personas muertas (algo más del 60%) eran niños, mujeres y ancianos, por tanto civiles. No es que fueran los únicos civiles (muchos hombres también lo eran), pero sí aquellos con los que hay una seguridad completa de que no eran combatientes.
Otras conclusiones:
–Los niños menores de 16 años eran un tercio de esas bajas: 280 muertos, incluidos 19 bebés y 108 niños de entre uno y cinco años.
–Tres o más miembros de la misma familia murieron en 83 ataques.
–Entre los muertos, había 96 combatientes o probables combatientes (miembros de las milicias de Hamás o de otros grupos). Eso supone un 11% de esas bajas, aunque el número podría haber sido algo mayor porque las milicias no han difundido listados específicos.
–Los otros 240 muertos son hombres de entre 16 y 59 años. Sus nombres no parecen estar relacionados con las milicias al no haber aparecido en páginas web o en carteles en las calles que homenajean a los combatientes fallecidos.
—
Foto del documental ‘Nacido en Gaza’, de Hernán Zin.
The Fall, a série mais feminista no ar hoje
The Fall, série de investigação do canal BBC, é pouco conhecida aqui, infelizmente. Quando terminei de assistir a segunda temporada, na hora eu lembrei da Mari e do Lugar de Mulher.
Porque, além de um roteiro ótimo e uma investigação realista, o drama aborda o feminismo de diferentes formas. E, no meio de tantos exemplos ruins na cultura pop, é ótimo encontrar uma produção de qualidade e que traga exemplos de mulheres e dramas reais.
Vou tentar convencer vocês, com o mínimo de spoilers possíveis, a assistir essa delícia. Para quem nunca ouviu falar, The Fall é uma série de investigação, e tem duas temporadas de apenas seis episódios cada.
1) Protagonista forte e badass
Sim, isso não é novidade em produções de TV. E a atriz Gillian Anderson (famosa por Arquivo X), é linda, loura e maravilhosa. Qual a diferença? Stella Gibson, a protagonista, é competente, decidida, não é perfeita, mas sabe o que quer.
Em determinado momento, ela conhece alguém e explica, sem pestanejar o que quer.
Eu tou no hotel Hilton. Quarto 203.
Sabe a protagonista perfeita querendo justiça, que não faz sexo por que não confia nos homens mas no final, um cara a conquista e eles iniciam um relacionamento perfeito? Esqueça.
2) Ela é didática (mas isso é necessário)
Talvez pareça óbvio, mas não é. Durante a investigação, em vários momentos ela deixa claro algumas coisas que precisam explicadas na TV:
Mulher fode com homem. Mulher sujeito. Homem objeto. Isso não é muito confortável pra ti, né?
1. Por que as mulheres são emocional e espiritualmente tão mais fortes que os homens? 2. Porque a forma básica humana é feminina. Masculino é um defeito de nascença.
A mídia adora dividir as mulheres entre virginais e sedutoras, anjos e putas. Não vamos encorajar eles.
E decide não colaborar com isso <3
3) Não é não (insistir é tapa na cara)
Imaginem o seguinte: um colega de trabalho, que você já transou um dia, chega bêbado e tenta te agarrar. Você diz não. Ele insiste e usa a força. O que Stella faz?
Mas o melhor é no outro dia, quando a mesma pessoa que fez isso vem com o papo de que o assassino é um monstro (e é).
Ele: eu sou um homem. E espero não ser nada parecido com ele.
Stella: Não, você não é. Mas mesmo assim veio no meu quarto sem convite e tentou me atacar, bêbado.
Ele: Não foi um ataque, isso é injusto, foi…eu só queria…
4) Ela é foda
Madrugada, saindo de um bairro perigosos. Perto de seu carro, um bando que gosta de assustar. Seu chefe se oferece para acompanhá-la, mas ela rejeita. O que ela faz quando o imbecil tenta intimidá-la?
5) Essa fala



Uma mulher, esqueci quem, uma vez perguntou para um amigo homem por qual motivo os homens se sentiam ameaçados por mulheres. Ele disse que tinham medo que as mulheres rissem deles. Quando ela perguntou prum grupo de mulheres por qual motivo elas se sentiam ameaçadas por homens, elas disseram: “nós temos medo que eles possam nos matar”.
6) As coadjuvantes
A investigação busca um criminoso que mata mulheres e segue um padrão. Uma personagem coadjuvante, vítima de violência, vai para um abrigo de mulheres. Uma outra personagem é lésbica. A policial reclama que seu parceiro a trata como uma dama em perigo. A esposa do culpado, a adolescente rebelde apaixonada. Todas as representações são diferentes e bem desenvolvidas
7) A série passa no Teste de Bechdel
A Polly já falou sobre ele aqui, mas é basicamente isso: para passar no teste, um livro, filme ou série precisa
– Ter no mínimo duas mulheres, com NOMES.
– As mulheres conversam uma com a outra
– Sobre alguma coisa que não seja um homem.
E, obviamente, The Fall passa <3
Roubado do Buzzfeed, a dica que sigo para a vida:
São Paulo começa a instalar paraciclos ao longo das ciclovias
Só o Estado pode interromper o ciclo de tragédias

“Vagabundo tem que morrer mesmo.”
“Ladrão é uma desgraça. Se tivesse pena de morte, o país não estava assim.”
“Bandido bom é bandido morto.”
Qualquer ação policial no Brasil vira show. Boa parte da imprensa tem como principal insumo comercial o sangue dos que perdem a vida na guerra artificial criada para manter os de baixo onde estão (policiais ou não). A massa dos espectadores publica toneladas de comentários nas mídias sociais seguindo a orientação comum geral do “lado A” contra o “lado B”. Pior. Divulgam unanimidades impensadas como se estivessem praticando originalidade crítica.
Parece que vivemos, no Brasil, algo como um processo de psicopatia coletiva, onde a carnificina que algum dia gerou trauma tem levado ao deleite, à comemoração.
Assistimos à tragédia cotidiana que nos atinge como se estivéssemos entusiasmados com um filme hollywoodiano. Talvez porque, como disse Hannah Arendt, “toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história”.
Átila Roque está certo: “Convivemos com uma tragédia de proporções indescritíveis com uma normalidade que não será perdoada pela História”.
Se o título de geração exterminadora já nos é inevitável, resta-nos a ambição de estancar a sangria, e praticar o luto. Para isso, é essencial interromper o ciclo de incompreensões e tudo que o fortalece. Tudo que o incentiva.
“O principal dispositivo de justificação de barbaridades é a construção ideológica dos ‘lados'”
O principal dispositivo de justificação de barbaridades é a construção ideológica dos “lados”. Não à toa este é o imaginário presente em qualquer novela ou filme de ação vulgar. Sob o orgulho de serem “do mal”, jovens da periferia matam injustificadamente. Sob o orgulho de serem “do bem”, policiais (boa parte jovens e da periferia) matam injustificadamente. E o ciclo se retroalimenta, contado como história cinematográfica pela mídia sanguinária.
Já fui vítima de disparo de arma de fogo durante o serviço operacional. Já vi os resultados atrozes que a ação criminosa nas periferias gera. Não é fácil distanciar-se friamente desse contexto.
Mas creio que a interrupção do ciclo de irracionalidade cabe fundamentalmente ao Estado. De quem mais podemos esperar essa atitude?
Precisamos nos convencer de que a força do Estado não está na quantidade de mortes que produz, mas na capacidade de evitá-las. Toda e qualquer morte deve ser lamentada, mesmo as inevitáveis.
Não se trata de frouxidão. Não se trata de acovardamento. Não se trata de enaltecimento de quem comete crime. Estou falando de medida, de racionalidade, de humanidade. Ou o Estado admite sua responsabilidade ou o trágico maniqueísmo prevalecerá. E, como diz Eduardo Galeano, “Na luta do bem contra o mal, é sempre o povo que morre”.
DIA DO ORGULHO HÉTERO, O RETORNO
Um fundamentalista religioso como terceiro nome na sucessão presidencial!
E tem mais: o projeto também prevê a inclusão de uma disciplina chamada "Educação para a família", que obviamente vê "família" como apenas uma (casal hétero com filhos).
Porque, a gente sabe, a verdadeira vítima do racismo é o branco, a verdadeira vítima do sexismo é o homem, e a verdadeira vítima do preconceito contra orientação sexual é o hétero. Inclusive, milhares de brasileiros são mortos todos os anos por serem brancos, homens e héteros. Aham.![]() |
| Vários homens marchando para provar que são homens com H |
![]() |
| "Porque muitos são, mas poucos se orgulham" |
![]() |
| Marcha pela vida em Fortaleza, com bandeira integralista |
Mídia atropela a notícia para servir ao “governo anterior”

Foto do Facebook de Maurício Machado registra: “período que antecede o governo petista” é governo FHC!
por Luiz Carlos Azenha
Milhares de pessoas cercam o prédio de uma assembleia legislativa. Encaram bombas e balas de borracha. Impedem a votação do plano de austeridade de um dos principais governos estaduais do Brasil.
Manchete da Folha? Outra notícia, vinda também de Curitiba, extraída de um antigo depoimento do doleiro: José Dirceu sabia (dos desvios na Petrobras). Depoimento, aliás, desmentido pelo próprio. E pelo também citado tesoureiro do PT, João Vaccari. O doleiro disse à PF o que bem entendeu. No caso, ele é o réu confesso. Mas sua palavra é publicada como verdade absoluta e inquestionável.
O que está acontecendo?
O suposto envolvimento de Dirceu cai como uma luva no roteiro. Mensalão + petrolão = Lula derrotado em 2018. Mas, para que tenha credibilidade, é preciso eliminar do escândalo o que a Globonews chamou de “período que antecede o governo petista”. Sarney? Itamar? Médici?
É por isso que, como notou o presidente do PT, a curiosidade dos delegados que colhem depoimentos na Operação Lava Jato parece se fixar no período pós-2003.
É como se Youssef, o doleiro, não tivesse servido também a tucanos.
Aliás, a credibilidade do PT está no fim com os eleitores também pelo fato de o partido ter convivido muito bem, sempre, com a herança maldita dos antecessores.
A origem da máfia dos sanguessugas — que vendia ambulâncias superfaturadas — foi o ministério da Saúde sob José Serra, mas ela prosseguiu depois que Lula assumiu o poder.
O mesmo aconteceu com a máfia dos vampiros — que negociava hemoderivados.
O PT de Lula, em nome de um acordo em Minas, manteve no poder em Furnas o diretor Dimas Toledo, justamente o homem da Lista de Furnas, o esquema de financiamento de campanha de tucanos e aliados através dos fornecedores da estatal.
Marcos Valério serviu ao esquema de caixa 2 do PSDB e aliados antes de repetir a jogada com o PT e aliados.
Quando o PT no poder teve a oportunidade de provocar rupturas com o passado, não o fez.
CPI do Banestado? Terminou em acordão. CPI da Privataria? Nem então, nem depois do livro de Amaury Ribeiro Jr.
Quando um delegado da Polícia Federal teve a coragem de encanar o banqueiro, o governo se voltou… contra o delegado. O chefe da Polícia Federal foi mandado para o exílio. O banqueiro hoje financia um site de apoio ao governo Dilma!
Quando um repórter da Veja foi flagrado em aliança jornalística com o bicheiro, o PT olhou, olhou e fez que não viu.
Por isso, não foi surpresa quando o vice de um governador tucano — Afif Domingos — se tornou ministro de uma presidente petista.
Ninguém enrubesce com a perspectiva de ver Marta Suplicy, petista histórica, concorrendo à Prefeitura de São Paulo pelo PSB com o apoio de Geraldo Alckmin.
É nesta geleia geral que Curitiba assume relevância ainda maior. Não a Curitiba do Moro, mas a que impediu a austeridade de Beto Richa.
É junho de 2013, de novo.
Mas a mídia não entendeu isso. Ela está ocupada na campanha que parece não ter fim: criminalizar apenas um dos irmãos — eles estão ficando cada vez mais parecidos.
Não mencionem “PSDB” que ela enterra nas páginas internas. Na Globo, como famosamente saia no Jornal Nacional já na campanha de 2006, é “o governo anterior”.
Para esconder o grande desastre em andamento no Brasil, o apagão da água em São Paulo — este sim, não é um depoimento sem provas –, disfarça criando a perspectiva de um racionamento de energia que ainda nem é considerado.
É a mídia, em campanha permanente contra o trabalhismo desde 2003.
PS do Viomundo: Conforme dissemos anteriormente, quando a blogosfera entrou em surto com a eleição de Eduardo Cunha, ele nunca se interessou pelo impeachment de Dilma. Definido como lobista por Altamiro Borges, o deputado carioca é isso: serviçal da grana. Ele não vai entregar a chave do cofre para os tucanos. Jamais. Cunha é o artífice da reação da elite brasileira contra junho de 2003. Se deixarem, vai fazer uma reforma política que nos fará ficar com saudade daquele Congresso cercado pelos manifestantes.
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"E SE EU NÃO FOSSE FORTE?"
"Como eu contei alguns dias atrás, hoje faz 10 anos que eu fui estuprada. E disse o quanto eu fui forte e enfrentei isso de cabeça erguida. Consegui enfrentar isso da melhor forma possível, esquecendo, apagando, mostrando que o mundo pode ser melhor.Carta de repúdio: Estupro não é brincadeira.
"O QUE ACONTECEU QUANDO CONFRONTEI MEU TROLL MAIS CRUEL"
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| Manifestante em Marcha das Vadias |
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| Lindy recebendo um importante prêmio em NY |
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| Na internet vc pode ser o que quiser. É estranho que tanta gente escolha ser estúpida |
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| Lindy criança com seus pais |
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| Lindy com seu pai Paul West |
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| Com que idade você perdeu sua compaixão? |
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| Jezebel reclamou, Twitter rejeitou |
E então lá estava eu no estúdio com um telefone -– e o troll na outra ponta.![]() |
| Campanha contra cyber- bullying: O que vc diz de mim diz muito sobre você |
O assombroso silêncio no Brasil em torno do escândalo HSBC
O sentido e o Estado
O doce triunfo de Celso Amorim sobre a mídia e os embaixadores de pijama

A Veja (acima, ilustração publicada no site da revista) e a mídia em geral colocaram várias pedras no caminho de Amorim. No caso do Irã, a revista chamou de “explosivo” um acordo que tirava urânio do Irã e disse erroneamente que o ministro “costurou um acordo para desenvolvimento de tecnologia nuclear com o presidente do Irã”. Ou seja, aparentemente a turma da revista nem leu a Declaração de Teerã.
por Luiz Carlos Azenha
Quando viu Muammar Gaddafi fazendo gestos bruscos com um objeto na mão, dentro de uma tenda em um deserto nas proximidades de Trípoli, o então chanceler Celso Amorim chegou a imaginar que o líder líbio estava se autoflagelando diante de convidados importantes: o presidente Lula, o líder nicaraguense Daniel Ortega e o ex-presidente argelino Ben Bella.
Mas, não se tratava de um gesto de caráter religioso. Na verdade, Gaddafi usava uma espécie de abanador de fibra vegetal para se livrar das moscas que infestavam o ambiente.
Esta e muitas outras anedotas saborosas fazem parte do livro Teerã, Ramalá e Doha: memórias da política externa ativa e altiva, da editora Benvirá, o terceiro em que o ex-chanceler brasileiro narra fatos de sua passagem pelo Itamaraty. Os outros são Conversas com jovens dipomatas e Breves narrativas diplomáticas, lançados anteriormente pela mesma editora.
O novo livro — que será lançado em março em eventos no Rio, em São Paulo e Brasília — trata de alguns dos mais criticados aspectos da política externa que Amorim desenvolveu ao lado do ex-presidente Lula, a partir de 2002: a aproximação com o Irã e os países árabes.
Na mesma viagem em que encontrou Gaddafi, em dezembro de 2003, Lula já havia passado pela Síria, Líbano, Emirados Árabes Unidos e Egito. Lula foi criticado por se encontrar com Bashar al-Assad e Gaddafi, mas não com o emir de Abu Dhabi, aliado dos Estados Unidos.
Ao narrar a passagem por Tripoli, Amorim relembra: “Repetia [a mídia] aqui, com agravantes, o mesmo tipo de crítica que ouvimos em Damasco. Como podia o líder de um país democrático, que ascendera ao poder mediante eleições livres, ser recepcionado por um anfitrião que chefiava um regime sabidamente ditatorial? Mas, como na Síria, o que preocupava a nossa imprensa não era tanto a natureza autoritária ou ditatorial do regime, mas a falta de consulta prévia a Washington. Tanto assim que os mesmos veículos pareciam encarar com grande naturalidade os contatos de Colin Powell em Damasco e trataram de forma positiva, ou pelo menos indiferente, as viagens que os primeiros-ministros José María Aznar e Tony Blair viriam a fazer dentro de poucos meses à Líbia”.
Em outras palavras, os Estados Unidos podiam conversar com a Síria; o Reino Unido e a Espanha, com a Líbia. O Brasil, não!
A aproximação do Brasil com os países árabes, que culminou com a Cúpula América do Sul-Países Árabes (ASPA), além de ampliar mercados para produtos brasileiros visava reforçar um dos pilares centrais da política externa, a de promover o multilateralismo.
Mas a maior reação da mídia se deu contra a aproximação entre o Brasil e o Irã, que em 2010 resultou na Declaração de Teerã, pela qual o regime iraniano se comprometeu a “depositar 1200 quilos de urânio levemente enriquecido (LEU) na Turquia. Enquanto estiver na Turquia, esse urânio continuará a ser propriedade do Irã. O Irã e a AIEA [Agência Internacional de Energia Atômica] poderão estacionar observadores para monitorar a guarda do urânio na Turquia”. Feito o depósito dentro de um mês, “com base no mesmo acordo, o Grupo de Viena deve entregar 120 quilos do combustível requerido para o Reator de Pesquisas de Teerã em não mais que um ano”.
O acordo, em outras palavras, tirava do Irã o urânio levemente enriquecido que em tese poderia ser utilizado para fabricar a bomba atômica.

A iniciativa de Lula foi fuzilada pela mídia brasileira, com apoio dos “embaixadores de pijama” que serviram a FHC. O Brasil teria dado passo maior que a perna, disseram alguns. Teria sido usado pelos malévolos aiatolás, afirmaram outros.
Na verdade, a repercussão foi mundial.
Sobre a foto dos presidentes Lula, Mahmoud Ahmadinejad e do primeiro-ministro da Turquia, Recep Erdogan, a revista Newsweek perguntou: “É este o futuro? O poder americano e seus limites”.
No texto, Fareed Zakaria constatou: “Raramente uma única fotografia irritou tanta gente”.
Ele se referia aos críticos direitistas do presidente Barack Obama. O Wall Street Journal definiu a imagem como o debacle da política externa de Obama. Para o neocon Charles Krauthammer, escrevendo no Washington Post, a cena em Teerã demonstrou como “poderes em ascensão, aliados tradicionais dos Estados Unidos, depois de ver o governo Obama em ação, decidiram que não existe custo em se aliar a inimigos dos Estados Unidos e nenhuma vantagem em se aliar a um presidente [Obama] dado a pedidos de desculpas e appeasement“.
Como se sabe, naquele período muito se falava num “inevitável” ataque militar de Israel ao Irã para eliminar o programa nuclear iraniano. Os falcões batiam o bumbo da guerra e, ainda que reflexivamente, eram imitados pelos seus amigos na mídia brasileira.
Obama, aliás, foi quem estimulou a iniciativa turco-brasileira. Pessoalmente e por escrito. Assessores dele não acreditavam no sucesso de Lula e Erdogan. Quando deu certo, trataram de puxar o tapete dos aliados.
Àquela altura, os Estados Unidos já pretendiam ir ao Conselho de Segurança da ONU em busca de aprovar sanções contra o Irã, o que conseguiram com o apoio de todo o clube atômico — Rússia, China, França e Reino Unido.
Hoje, ironicamente, os Estados Unidos perseguem, dentro do chamado P5, um acordo parecido com o obtido por Brasil e Turquia, porém mais amplo.
Para Celso Amorim, aceitar a Declaração de Teerã como primeiro passo teria tido vantagens. Se em 2010 o Irã dispunha de urânio levemente enriquecido para fazer uma bomba, no início de 2014 tinha para três ou quatro artefatos. Se Washington sempre perseguiu medidas de “confidence building” com Teerã, poderia tê-las celebrado muito antes. Além disso, a população iraniana teria sido poupada do sofrimento das sanções.
“Não podemos esquecer que há na região um Estado — Israel — que, sabidamente, detém poderoso arsenal atômico. Por isso, temos insistido que a solução duradoura para a questão reside na conclusão de um acordo que faça do Oriente Médio uma zona livre de armas nucleares”, escreve o ex-chanceler no livro.
A iniciativa brasileira em conjunto com a Turquia acabou mais festejada fora do que dentro do Brasil. Ainda em 2010, Amorim foi incluído em sétimo lugar na lista dos 100 Maiores Pensadores Globais da revista Foreign Policy.
Dois pesquisadores norte-americanos — John Tirman, do MIT, e Malcolm Byrne, do National Security Archives –, entrevistaram Celso Amorim sobre a iniciativa em 2013. Eles escrevem justamente sobre oportunidades perdidas em política externa.
Ao longo de Teerã, Ramalá e Doha: memórias da política externa ativa e altiva, Celso Amorim demonstra que não há espaço em política externa para o maniqueísmo, o simplismo e o saber rattling, frequentes nas colunas de jornal brasileiras.
É um prazer vê-lo descrever todas as nuances que informam as decisões de Estado.
O livro é isso: você é convidado a viajar com Celso Amorim pelos bastidores da diplomacia.
Cotejando o conteúdo das memórias de Amorim — e sua ênfase em soluções negociadas — com a realidade dos dias de hoje, fica subentendido o “doce triunfo” a que nos referimos no título: o Iraque, onde o Brasil foi um dos países mais vocais na oposição à ocupação dos Estados Unidos, foi demolido de tal forma que perdeu controle de parte do território para o chamado Estado Islâmico; a Síria, onde o Brasil também rejeitou intervenção externa, está mergulhada em uma guerra civil que custou a vida de ao menos 200 mil pessoas; na Líbia, a intervenção da OTAN que derrubou Gaddafi — repudiada pelo Brasil — produziu o caos em um país que era estável e agora caminha para a desintegração; no Irã e em Cuba, grosseiramente, os Estados Unidos perseguem o caminho recomendado pelo Itamaraty.
O ex-ministro atribui a ousadia da política que praticou no Itamaraty à liberdade de ação dada pelo presidente Lula. Segundo Amorim, o ex-presidente é um “asset” da política externa brasileira tão importante quanto Nelson Mandela foi para a África do Sul.
Sobre as críticas recebidas ao longo dos anos, o ex-chanceler adota uma postura olímpica: “Intrigava-me o fato de que aqui [no Brasil], ao contrário [de outros países], as tentativas que fizemos [de participar das grandes questões] eram em geral consideradas uma intromissão desnecessária e perigosa em temas que não nos diziam respeito. Eu me perguntava (e ainda me pergunto) a razão desse apego a uma posição secundária e de dependência, com raizes aparentemente tão profundas em nossos formadores de opinião. [...] De certa forma, é como se temêssemos assumir os ônus, que são uma decorrência natural do crescimento e da maturidade, e preferíssemos viver ao abrigo de uma metrópole, real ou imaginária, ainda que isso custe o abandono de oportunidades e o sacrifício de interesses”.
Traduzindo em português castiço: complexo de viralatas.
Veja abaixo alguns trechos de nossa entrevista com Celso Amorim, feita em Brasília (para ver a entrevista completa, clique aqui):
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A histeria despolitizada com a falta de água; ou a velha e boa manipulação da mídia
Agora que a ameaça da falta de água se abateu de vez sobre os paulistas, uma histeria coletiva tomou a população que, em sua maioria, curiosamente não deu atenção ao fato há alguns meses, ou não o achou importante ao ponto de impedir que referendasse no primeiro turno o principal responsável por tal tragédia.
Quando a vaca foi pro brejo (sem água) de vez, assistimos a uma sutil, mas como sempre bem orquestrada, despolitização dos fatos. De umas semanas para cá, a questão da água, ao ler a grande mídia, não é mais um problema do Estado de São Paulo, mas do Brasil, senão do mundo. Apressam-se em noticiar que o Rio de Janeiro também está colapsando. Alguns aventaram que a falta de água em SP é causada por desequilíbrios na Amazônia. A seca, sempre ela, ainda é o centro das atenções, embora aos poucos o regime de chuvas de fevereiro e março esteja se instaurando, nem tão fora do normal quanto se anunciou. Até o prefeito Haddad vem sendo culpado por dar mais atenção às bicicletas do que à soluções para trazer água de volta (aviso: o abandono da prioridade ao automóvel é uma das melhores medidas a longo prazo para atender à questão hídrica).
Sutilmente, editoriais e colunistas começam a "despolitizar" a questão no âmbito estadual, para "politizá-la" no âmbito mais geral. São todos culpados, do prefeito à presidenta, o que dilui, evidentemente, as responsabilidades. Eliane Brum, em (bom) artigo recente (clique aqui), chega a escrever, ao desolar-se por não termos uma liderança estadista, que "nosso desamparo é maior porque não temos essa figura nem no governo de São Paulo nem no governo do pais". E continua: "no Planalto, temos uma presidente vendida como gerente (...) mas que se mostrou uma má gerente ainda no primeiro mandato". Não estou aqui escrevendo para discutir de Dilma é boa ou má gerente, sequer para defendê-la. O que quero dizer é que sutilmente se desloca uma responsabilidade muito específica no âmbito estadual para uma dimensão genérica, a "dos governantes em geral", logicamente envolvendo a Dilma. A lógica é clara: se é para afundar o governador por causa da água, que afundem todos no mesmo barco (ou melhor, encalhem, não há mais água). Porém, neste caso, não há por onde escapar: a responsabilidade e prerrogativa da política pública de água em São Paulo, nos mais de 350 municípios que têm convênio com a mesma, é da Sabesp, empresa controlada pelo Governo do Estado, que achou por bem lançar ações na bolsa de NY enquanto que aqui deixava armar-se o mais escandaloso e criminoso colapso de gestão pública de que tenhamos notícias.
É claro que em tempos atuais, a delicada questão da água tem a ver com a escassez da mesma no mundo, tem a ver com as políticas federais, tem a ver com a seca, etc. Porém, que não nos façam de tolos: para além de tudo isso, a crise específica que São Paulo vive é de total responsabilidade do Estado, que formula as políticas, e da Sabesp, que as aplica. Por isso, querer a estas alturas, face à emergência do colapso, levantar todas as outras causas, estruturais e históricas, é um embuste. A seca até pode afetar o sistema, mas um bom sistema tem que ter planejado inclusive a possibilidade de secas.
Ora, o que menos vemos aqui é planejamento. Há alguns dias em seu blog (leia aqui), o jornalista Maurício Tuffani relembrou entrevista do professor de ecologia da USP Paulo Nogueira Neto, que alertava que "a água de SP está no fim" em....1977! Nosso colapso não surgiu do nada por causa de secas (previstas, aliás), longe disso. Há anos e anos que a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) vive o que se chama de "estresse hídrico", ou seja, gasta mais água do que é capaz de obter. Aliás, a RMSP gasta mais de quatro vezes a capacidade de captação de todo o Estado. São, pelo que sei, cerca de 70 mil litros de água consumidos por segundo. Nesse ritmo, com ou sem seca, não há sistema que aguente, embora, como lembraremos adiante, isso não seja nada ao lado do consumo industrial e agropecuário. E os políticos que governaram nosso Estado sabiam disso, há décadas.
É comum as pessoas acharem que não há muito a fazer, que isso é decorrência "natural" de uma urbanização acelerada e caótica. É assim em qualquer lugar, pensam. É um pouco o mesmo raciocínio de quem pensa que a desigualdade social na cidade é fenômeno "normal" decorrente de uma "urbanização acelerada". Não são, nem um nem outro. O gigantismo de uma cidade dificulta sempre as coisas, mas há inúmeras metrópoles que atingiram tamanho gigantesco sem por isso nem ter problemas com água nem apresentar as nossas disparidades sociais. Não, nada disso é "natural": é sim resultado de uma falta crônica de planejamento, de um descaso absoluto do Estado ou, melhor, de um planejamento "as avessas" em que o que se objetivou foi um sistema de privilégio aos mais ricos e de promoção da desigualdade que, algum dia, teria que colapsar.
Ou seja, diante de um quadro que se evidenciava há tanto tempo, a obrigação do Governo do Estado era só uma: fazer o correto planejamento da política de abastecimento de águas, o que é muito, mas muito mais do que apenas construir um sistema de abastecimento (in)eficiente. Passava por trabalhar a gestão conjunta com os prefeitos da Grande São Paulo, montando um gabinete exclusivo para essa questão; por estruturar políticas de educação cidadã nas escolas, nas faculdades, nas repartições públicas, sobre o correto uso da água e a importância de sua economia; por criar políticas de incentivo ao reuso da água e à captação das águas pluviais em casas e condomínios; por refletir conjuntamente sobre as políticas municipais de regulação urbana para evitar a construção predatória que acaba com as nascentes e impermeabiliza o solo. E, sobretudo, por promover uma regulação do uso fenomenal de água pelas indústrias e o agronegócio, e estruturar uma política de captação de água em outras áreas, mais distantes às vezes, que se adiantasse ao crescimento da cidade, e não levasse o governo a correr atrás do prejuízo.Tudo isso deveria ter sido iniciado há pelo menos dez anos atrás.
Nova York, por exemplo, é famosa por ter realizado um planejamento a longo prazo e criado uma política de captação que vai buscar água puríssima em montanhas a centenas de quilômetros da cidade, sustentando com isso todo um programa de agricultura ambiental mas regiões de captação (leia aqui reportagem do Globo Rural). A cidade compra terras com antecedência, garantindo nascentes para suprir o crescimento da demanda. Enfim, a isso se dá uma nome: política pública bem realizada, planejada a longo prazo. Tudo que não tivemos e nem temos em São Paulo.
Aqui tudo foi bem diferente. Políticas públicas dessa magnitude apresentam a dificuldade de levarem tempo para serem operacionais. Nesse sentido, a possibilidade de continuidade de gestão, sem as interrupções que no Brasil, a cada quatro anos, levam ao desmonte de todas as políticas em andamento feitas pelo governo anterior, é um privilégio político invejável. Ora, o PSDB, ao conseguir manter-se por mais de duas décadas no poder, não tinha a obrigação, mas o dever de aproveitar-se dessa perenidade possível para estruturar políticas únicas no país. É o mesmo caso do metrô. Ao invés disso, deixou colapsar o sistema de abastecimento de água e fez um metrô a passo de tartaruga que hoje é cinco vezes menor que o da Cidade do México (iniciado na mesma época). E a mídia, em seu incrível esforço de blindagem, consegue desviar a atenção para um foco genérico em que a responsabilidade do Estado fica difusa. Um escândalo. Está certo falar da Petrobrás (pintando um quadro em que ela se afunda, o que está muito longe da realidade), mas não está nada certo que metrô e Sabesp, comparativamente, sumam do noticiário. Enquanto se transfere o "problema" da água para questões ambientais globais, a Sabesp, envergonhada, some com seu nome na fachada do cineclube que mantém em Pinheiros. Tenta ser esquecida.
Aqui, nunca nada foi feito. A água sempre foi dada por abundante, e a Sabesp tratou a questão com soberba. Um exemplo simbólico, mesmo que menor, da sua maneira de agir: há vários anos, em Pinheiros, um prédio alto de luxo construiu tantos subsolos que a água do lençol freático, desviada, começou a brotar permanentemente na calçada. Seus moradores pensaram em um sistema para recuperá-la e utilizá-la para lavagem das áreas comuns e da própria calçada. Foram proibidos pela Sabesp, sob pena de multa. A água jorra até hoje. Mas a falta de planejamento é muito mais grave do que esse fato corriqueiro. Poucos sabem que o uso doméstico de água no Brasil corresponde a menos de 10% do total, e que aqui também a maior parte da água fornecida pela Sabesp vai para uso industrial e para o agronegócio. Mas nunca foi apresentado à sociedade um plano de longo prazo, sobre o consumo e a responsabilidade dessas empresas, que estas sim consomem MUITA água. Quase 2 milhões de metros cúbicos ao mês. E sequer se sabe quanto elas pagam ou quanto gastam, a Sabesp dando-se o direito de recusar, em mais um ato escandaloso, a difusão dessas informações (leia aqui). Então, é claro que é importante você economizar água na hora escovar seus dentes, mas, convenhamos, soa pequeno se sequer sabemos o que as empresas, as grandes consumidoras, estão de fato fazendo nesse sentido, em processos que representam alguns milhões de escovações.
A Sabesp, aliás, perde mais de 30% da água que distribui, boa parte em vazamentos de seus canos. Verdade seja dita, esse é um problema de difícil controle e solução, e é assim em muitos países (a França tem perdas de cerca de 20% - veja aqui - e o Canadá, sujeito a variações térmicas fenomenais, de cerca de 15%). Mas cobrar do cidadão apavorado multa de R$ 1000,00 de quem desperdiçar água, como votaram os vereadores de SP recentemente, sem votar ao mesmo tempo ao menos uma campanhazinha de conscientização, quando a própria empresa não consegue resolver seu enorme desperdício, soa injusto.
Outra argumentação que de repente volta ao noticiário como grande vilã da falta de água é a da "urbanização predatória" de São Paulo e sua região metropolitana. É a pura verdade, mas, no meio dos urbanistas do qual faço parte, há décadas que alertamos sobre os efeitos maléficos da urbanização descontrolada, em que o mercado da construção civil faz mais ou menos o que quer onde quer, sem que seja dada lá muita atenção ao nosso esforço. Impermeabilização do solo, construção irrestrita com subsolos ambientalmente criminosos (como os andares de estacionamentos dos shoppings), desarborização, etc, etc, são atos que de fato têm consequência, irremediavelmente, sobre a permeabilidade do solo e o escoamento das águas, afetando a captação pelos rios e a alimentação dos mananciais.
Mas isso vem ocorrendo há anos, e quando apontava-se para o fato, ninguém deu muita bola. Prova disso a relativa indiferença que causou aos paulistanos um dos maiores escândalos já vistos nesse âmbito, que implicou muito de perto o nosso atual Ministro das Cidades. Sob sua gestão, o Diretor Geral de Aprovações da cidade montou uma verdadeira máquina de propinas para negociar novos empreendimentos. Até hoje não se foi a fundo nessa investigação, que curiosamente sumiu do noticiário (seria porque o ex-prefeito é agora ministro?). Os paulistanos pouco se opuseram ao estranhíssimo fenômeno de geração espontânea de shoppings na cidade (mediante bons pagamentos, como denunciou gente de uma das construtoras), ocorrido ao longo da última gestão, sem querer atentar que, ao mesmo tempo que garantem suas compras e finais de semana enclausurados, esses edifícios gigantescos contribuem, e muito, com a tal "urbanização predatória" e a falta de água.
Então, a histeria que agora tomou conta da cidade é um pouco deslocada, principalmente quando vêm das classes mais altas, que mais contribuem para o consumo de água (os grandes condomínios, mansões, carros a lavar, etc. etc.). Ao acusar tudo e todos, escamoteia o principal. Sim, nossa urbanização e nossa sociedade elitista e hiperconsumista ajudam para acabar com a água do mundo, mas nosso problema é um grave e inaceitável fiasco local de gestão, cujas responsabilidades devem ser cobradas. Dizem que em Araçatuba uma senhora atirou o carro contra outra moça que lavava a calçada. "A água do mundo está acabando!", gritou (sem sequer saber se a água da lavagem por ventura não era, por exemplo, de reuso, e sem atentar para o a insustentabilidade do uso do carro - talvez para ir ao shopping). A falta de água no mundo substituiu no imaginário coletivo a incompetência e improbidade da Sabesp e do Governo do Estado e suas secretarias.
Também é verdade que governo federal e municípios têm sua parte de responsabilidade, já que parte da gestão é compartilhada (como no caso do sistema cantareira em que algumas das represas são de gestão federal) e que a competência sobre o uso do solo é municipal. Mas, ainda assim, não se pode equiparar o nível de responsabilidade de cada um.Os Comitês de Bacias Hidrográficas, criados em 1988 junto com o Sistema Brasileiro de Gerenciamento de Recursos Hídricos apontaram um bom caminho para a gestão das águas. Mas, como muitas coisas em nosso país, salvo poucas exceções, se perderam nas disputas políticas e na burocratização.
É claro que precisamos economizar. É claro que este tipo de problema, quando se torna tão grave, passa a depender da ação individualmente responsável de cada cidadão. Mas, como sempre, a falta d´água os afetará de maneira bastante desigual. Os bairros ricos, consolidados,de baixa densidade habitacional, com caixas d´água enormes e funcionais, sobreviverão com algum desconforto ao racionamento e não terão problemas em comprar caminhões-pipas se necessário. Os mais pobres, porém, é que sofrerão, como diz a urbanista Marússia Whately em excelente texto (clique aqui):
"Uma coisa são cinco dias de racionamento em bairros consolidados e bem estruturados do centro expandido, com situações mais previsíveis. Outra coisa, bem diferente, é o racionamento em locais como a zona leste, com áreas inteiras de ocupações informais, poucas caixas d’água, vários moradores por casa, pessoas que costumam sair muito cedo para o trabalho e retornar às vezes muito tarde por conta do tempo no transporte (o que pode significar não estar em casa em nenhum horário de fornecimento de água)".
A prefeitura tem seu papel nisso. Já começou a agir quando reuniu os prefeitos da Região Metropolitana para emanar uma posição comum. Será melhor ainda se elaborar um plano de contingência e regular a maneira como se dará o uso racionado na cidade. Melhor seria se dispensasse de vez os serviços da Sabesp, municipalizasse o sistema e estruturasse uma política de gestão autônoma em parceria com os municípios da Região Metropolitana (melhor eu parar de sonhar). É claro que todos nós devemos nos envolver nesse mutirão de contenção. Mas uma coisa deve ficar clara: tudo isso são esforços meramente conjunturais, e não resolverão a situação da cidade, mesmo que comece a chover. Vale reiterar: falta água no mundo, mas o que estamos falando aqui é da falta de água na metrópole paulistana em decorrência de um colapso de gestão. São coisas bem diferentes. E a economia individual de cada um ao escovar os dentes e tomar banho, coisas que deveriam ser práticas preconizadas por políticas de conscientização da Sabesp há tempos, poderão ajudar um pouco, mas não resolverão o problema.
A grande questão é saber qual a "solução" que está por vir. Pois uma coisa é pouco falada: a Sabesp, como empresa com ações na bolsa de NY, com 51% delas em poder do Estado de São Paulo, é uma empresa quase privatizada. A desmoralização que ela enfrenta, por sua incapacidade de gestão, tem poder para abater o preço de suas ações, e até para ser condenada pela justiça norte-americana. Um passo muito pequeno para que surja, em uma sequencia quase previsível, o discurso de uma necessária e "eficaz" privatização total. Sabemos que companhias de águas - em especial europeias - interessam-se e muito pelo mercado brasileiro, o que dizer então da uma das maiores metrópoles do mundo. Quem viu o documentário "The Corporation" (recomendo) sabe do exemplo histórico de Cochabamba e o modus operando dessa empresas. Se estamos mal, ainda estamos longe de onde se pode chegar na privatização da água e sua transformação em mercadoria, escassa para os mais pobres.
Enquanto isso, o esforço genuíno dos cidadãos, responsáveis por pequena parte do uso total de água, e que parecem resignar-se com a situação, soa ainda mais ineficaz enquanto o Governo e a Sabesp não apresentarem um plano - público - de curto, médio e longo prazos para a recuperação da capacidade de provisão de água na metrópole. O que passa, evidentemente, por indicar o que está sendo feito para conter os 70% da água fornecida para uso industrial e para o agronegócio. Senão estamos fazendo papel de bobos. E ao mesmo tempo ajudando, ao assimilar sem protestos uma campanha erroneamente centrada no usuário comum e na sua "culpa" pelo desperdício, a fortalecer a blindagem que, espantosamente, protege o governo e sua empresa de água. A cidade pode sim ter água, e temos o direito de saber como isso será feito. O que me espanta é que São Paulo tenha mostrado energias para uma maravilhosa e histórica mobilização contra 20 centavos a mais no preço dos ônibus, mas parece resignar-se à economizar água sem mover uma palha para protestar contra o descalabro de terem deixado secar a quarta maior metrópole do mundo.






























































































