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14 Feb 11:49

Globo blinda FHC

by Luis Fausto

Do Brasil 247:

O direcionamento no noticiário da Globo, emissora dirigida pelo herdeiro João Roberto Marinho, a fim de prejudicar o atual governo da presidente Dilma Rousseff, e apoiando, assim, a campanha pelo impeachment, está mais do que comprovado. Neste fim de semana, a diretora da Central Globo de Jornalismo, Silvia Faria, enviou o seguinte email a todos os chefes de núcleo da emissora:

“Assunto: Tirar trecho que menciona FHC nos VTs sobre Lava a Jato

Atenção para a orientação

Sergio e Mazza: revisem os vts com atenção! Não vamos deixar ir ao ar nenhum com citação ao Fernando Henrique”.

O email foi divulgado pelo jornalista Luís Nassif neste domingo, em seu blog. O recado foi enviado após a veiculação de uma reportagem que procurou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para repercutir as declarações do ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco – de que recebia propinas na estatal desde 1997, antes do governo Lula. Barusco prometeu devolver aos cofres públicos uma fortuna de US$ 97 milhões em dinheiro desviado.

No Jornal Nacional, a acusação de Barusco sequer foi divulgada, mas deu-se todo destaque ao comentário de FHC sobre o caso. O tucano assegurou que, no seu governo, as propinas eram fruto de negociação individual entre Barusco e os fornecedores. Já no governo Lula, eram fruto de acertos políticos.

10 Feb 21:41

Estão todos soltos: Crucius celebra impunidade de Aníbal

by Daniel Dantas Lemos
Eu saúdo a todos os que estão preocupados com a corrupção. Mas, ao mesmo tempo, eu lamento a miopia da maior parte dos que se encontram nesta situação.
O bordão da presidenta Dilma Rousseff (PT) ao longo da campanha foi o "estão todos soltos". Do lado de lá. Do lado tucano. Mesmo com histórias cabeludas como as da privataria dos anos 90, das relações promíscuas entre o governador tucano Marconi Perillo e o bicheiro Carlinhos Cachoeira.  Ou do Trensalão Tucano em São Paulo.
Prova de que a justiça olha com outros olhos os tucanos se deu hoje com a extinção do inquérito contra o tucano José Aníbal, por envolvimento na máfia dos trens e metrôs em São Paulo.
Sintomático foi o tweet que eu flagrei há pouco: um post de Josias de Sousa (cada vez menos tímido em suas defesas do PSDB), tuitado por Yeda Crucius (lembram da máfia do DETRAN quando foi governadora do Rio Grande do Sul) e retuitada pelo próprio Aníbal.
Pode fechar o país para balanço?
Parabéns para você que só tem olhos para Dilma.

10 Feb 19:02

Destruição criativa

by Francisco Seixas da Costa
Há meses, num "Prós e Contras" em que eu participava, um dos parceiros de debate ficou chocado com a utilização do termo "destruição criativa", empregue por outro dos intervenientes. A conversa não era diretamente comigo, pelo que me coibi de clarificar que o conceito era bem antigo, de Schumpeter, e que estava longe de ser uma "trouvaille" neoliberal, embora fosse esta corrente quem obscenamente o utilizava. A ideia é simples: numa economia de mercado, o velho e inadequado sacrifica-se para dar lugar ao novo e mais criativo.

Hoje, ao passear por uma rua lisboeta, lembrei-me muito da "destruição criativa". Lojas de toda a espécie, com poucos anos ou mesmo meses, que não há muito faziam as colunas do "Time Out", estão irremediavelmente fechadas. Fui andando pela rua e o ambiente era estarrecedor.

Pus-me a pensar no que será feito dessa gente, quase sempre jovem, que investiu numa ideia para logo se dar conta que o mercado não respondia positivamente. Terão sido suficientemente cautelosos? Terão avaliado bem as hipóteses de sucesso daquilo em que se envolviam? Onde estão hoje? Na lógica da "destruição criativa", já deverão ter aberto um novo espaço? Mas será assim? Ou terão emigrado? Que aconteceu às suas famílias? E às suas dívidas?

Um dia, numa conversa transatlântica, tive uma longa conversa com um liberal lusitano, entretanto já desaparecido. Fiquei surpreendido com o seu entusiasmo, quase lírico, pelo futuro, com a sua crença na inevitabilidade do sucesso das suas ideias, numa lógica imparável de raciocínio que não tinha tempo a perder com ceticismos, que considerava como retrógrados e tributários de uma categoria inferior de abordagem. Ele era um homem maduro, com experiência, com bastante sucesso. Não se tratava de um miúdo voluntarista, desses que pululam pelos blogues, que têm o "Observador" como bíblia sintética, saídos das "business schools" e que se vestem como acham que os "yuppies" da City ou daWall Street se vestem.

Devo dizer que fiquei siderado com o tom da sua conversa. No fundo, ao ouvi-lo, via-me a mim nos meus vinte anos, com as ilusões do meu marxismo radical de então, na minha crença, também ela inabalável, nos inevitáveis "amanhãs que cantam". Num outro modelo, também eu acreditava então que uma certa "destruição criativa" era essencial, para a sociedade poder dar um salto em frente. À época, eu pensava que o caminho para o futuro implicava, necessariamente, queimar etapas, sacrificar gerações, para pavimentar esses dias radiosos e regeneradores.

Hoje, congratulo-me com o facto dessas minhas ideias não terem vingado, ciente de como elas eram perigosas e cruéis, por  muito generosas que fossem (e eram). Tal como os liberais que por aí andam, por alguns meses ainda com responsabilidades de poder doméstico, eu tinha por justo que a geração em que eu próprio vivia fosse sacrificada no altar de um futuro salvífico. Hoje não acredito em nada disso e, no que toca à "destruição criativa", acho mesmo que devemos atender em prioridade aos "destruídos" (desempregados, reformados, falidos, emigrados). O amanhã é amanhã e os nossos concidadãos têm de comer hoje.
10 Feb 13:52

Como o HSBC ajudou milionários a sonegar impostos na Suíça

by Diario do Centro do Mundo
Publicado na BBC Brasil.   O banco britânico HSBC “ajudou” clientes ricos a evitar o pagamento de milhões de dólares em impostos por meio de sua filial na Suíça. O programa de TV Panorama, da BBC, teve acesso a informações sobre contas de 106 mil clientes em 203 países vazadas em 20...
10 Feb 13:51

A República de Curitiba

by Luis Fausto

Artigo de Tereza Cruvinel, no Brasil 247:

“Com 25 anos de Supremo, eu nunca tinha visto nada parecido. E as normas continuam as mesmas”. É ninguém menos que o ministro do STF Marco Aurélio Mello que assim manifesta sua incredulidade diante das piruetas da Operação Lava Jato, em declarações ao site Consultor Jurídico.

Suas considerações são sobre as transgressões jurídicas mas as principais consequências têm sido calculadamente políticas. Não é o Executivo, nem o Congresso nem os partidos, instituições que teoricamente representam o povo ou segmentos dele, que está ditando a agenda nacional. Encerradas as eleições e empossados os eleitos, a agenda vem sendo imposta pela República de Curitiba, composta pelo juiz Sergio Moro, os procuradores Carlos Fernando dos Santos Lima e Deltan Dallagnol e o delegado federal Marcio Anselmo.

A presidente Dilma ajudou muito, na medida em que se fechou em copas depois da posse. O noticiário que jorrou de Curitiba sobre a corrupção na Petrobrás e o desgaste da empresa com a demora na substituição da diretoria animaram a oposição a ressuscitar a tese do impeachment. Somou-se uma enxurrada de notícias negativas imprecisas – sobre inflação, energia, economia e tudo o mais – que resultaram na vertiginosa queda em seus índices de aprovação há menos de dois meses do início do segundo mandato. O PT, encolhido, precisou ser admoestado pelo ex-presidente Lula na festa dos 35 anos, dominada pela calculada “condução coercitiva” do tesoureiro João Vaccari para um depoimento que não se recusara a prestar. O Congresso continua jogando o jogo do “não é comigo”, embora saiba que daqui a pouco a tempestade cairá sobre as duas Casas.

E a OAB, tão zelosa pelo Estado de Direito no passado, onde anda que não dá uma palavra sobre as coisas que espantam Marco Aurélio Mello e os que ainda têm consciência jurídica? “A Justiça brasileira passa por um momento crítico, em que a prisão passou a ser regra e a liberdade, exceção entre os acusados. O juiz acaba atropelando o processo, não sei se para ficar com a consciência em paz, e faz a anomalia em nome da segurança”, disse ainda o ministro do STF ao Conjur. Ele, que foi um duro algoz de petistas no julgamento da ação penal 470, do chamado mensalão, declarou-se impressionado com a condução coercitiva de um acusado que não resistir a prestar depoimento, como aconteceu com Vaccari Neto.

Mas se há abuso, por que o STF nega os habeas corpus pedidos pelos presos de Curitiba? Mello explica: eles têm sido rejeitados com base na súmula 691, de 2003, que veda a concessão de liminares pelo STF contra a decisão do relator de um caso, exceto em caso de flagrante ilegalidade. Marco Aurélio discorda da súmula e defende sua correção, pois ela acaba colocando o relator acima do colegiado. O relator do caso da Lava Jato, ministro Teori Zavascki, negou todos os pedidos de Habeas Corpus mas concedeu um, ao ex-diretor Renato Duque, o “My Way” de Pedro Barusco, dono de conta milionária no exterior.

Em Curitiba, mais de uma dezena de executivos e empresários enfrentam condições de prisão medievais e são submetidos a uma brutal pressão psicológica para que façam os acordos de delação premiada e produzam as informações que estão sendo buscadas. Agora que o corrupto desde 1997 Pedro Barusco declarou que o PT embolsou de 150 a 200 milhões de dólares derivados do esquema de propinas, o que Curitiba busca são revelações que incriminem o ex-presidente Lula e envolvam a presidente Dilma, criando bases ou para seu impeachment ou para a prolongada fritura de seu governo.

Em alguns interrogatórios, segundo advogado que atua indiretamente no caso, alguém sempre bate na mesa ostensivamente usando apenas nove dedos. É a senha, que os gravadores não podem registrar, para que o depoente fale de Lula.

É impressionante que nenhum grande veículo de imprensa tenha procurado saber o que se passa nas masmorras de Curitiba. O jornalista Paulo Henrique Amorim postou vídeo em sua TV Afiada, na Internet, em que narra o relato de um advogado sobre o que se passa no que chama “Guantánamo do Dr. Moro”.  Amontoados em grupos de quatro em celas de no máximo 2,5 m², os presos da Lava Jato – executivos e controladores de empresas que, se quebrarem, afetarão o PIB e deixarão milhares de pessoas no desemprego – não podem ler jornais, revistas, ouvir rádio ou ver televisão. Dormem em camas de cimento, em colchonetes finos e usam cobertores surrados nas frias noites curitibanas. Não há banheiro nem vaso sanitário na cela, mas um buraco no chão, o “boi”, onde fazem as necessidades. A descarga é um balde de água colhido na torneira. Nos finais de semana não tomam banho. Não há funcionários para acompanhá-los ao local dos chuveiros, dizem as autoridades, como se estivessem lidando com chefões do tráfico que podem aproveitar a saída para o bando para deflagrar um motim ou para fugir. Os parentes só podem levar biscoitos. E quando a comida chega, precisam se acocorar, de costas para a porta, diante do “boi”, até que o carcereiro disponha as bandejas no chão. Mas Youssef, o doleiro, consegue comprar iguarias e exercitar seus dotes de cozinheiro, compartilhando os pratos com os funcionários que lhe dão regalias. Se tudo isso é verdade, onde está a imprensa vigilante e as organizações de direitos humanos? Eles roubaram, dirão alguns, pagaram propinas para obter contratos superfaturados. São acusados de tudo isso mas não foram julgados nem condenados. Estão presos preventivamente, por um período maior que o devido, para que produzam delações premiadas.

Falar dos abusos da República de Curitiba não é compactuar com a corrupção ou pedir impunidade para os corruptos, como dirá logo um apressado da Internet. Abaixo a corrupção, mas abaixo também as violações do Estado de Direito, uma palavra de ordem das lutas democráticas no tempo da ditadura, que devia continuar tendo o mesmo valor. O que se passa sob nossos olhos abertos e cegos é outra coisa. Estes meios estão sendo usados para alcançar alguns propósitos. Um deles é desmantelar um esquema de corrupção. Outro é deslegitimar as forças políticas hoje hegemônicas. PT, PMDB e PP estão na mira, mas vai sobrar para todo mundo. Ainda que isto custe a ruína econômica e a instabilidade política do país.

10 Feb 11:47

A agonia sem fim da Abril

by Coleguinhas

Vocês lembram o que escrevi há seis meses sobre a Abril estar afundando (se não lembra, refresque a memória aqui)? Pois continua. Hoje, os Civita queimaram de vez a sua mais lucrativa operação (bem, a sua única lucrativa operação) e passou o que ainda tinha das ações da Abril Educação para o fundo de investimento Thunnus, gerido pela administradora Tarpon, que, em junho passado, já levara 19,9% e agora terá 40,64%, a diferença de 29,74% tendo sido adquirida por cerca de R$ 1,3 bilhão. Outro acionista significativo da companhia atualmente é o fundo soberano de Cingapura (GIC), dono de 18,5% das ações com direito a voto.

Essa transação é muito significativa porque a Abril Educação tem como seu maior ativo um contrato para fornecimento de livros escolares ao governo federal. Isso mesmo que você leu – os donos da Veja recebem do governo petista uma bolada. Pode se falar o que se quiser desse governo, menos que ele não é republicano…

O tal contrato é pouca porcaria não. À página 118 do último Formulário de Referência enviado pela Abril Educação à CVM, no início de 2014 (aqui), está escrito que a companhia recebeu, pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), R$ 304,8 milhões em 2013, o equivalente a 59,7% dos cerca de R$ 509 milhões do faturamento total – apontado na página 102 – das editoras Ática e Scipione (os selos da Abril Educação que trabalham no segmento), e 29,4% das receitas líquidas totais de R$ 1,036 bilhão da companhia como um todo. Como se não bastasse, logo abaixo, os dirigentes da empresa afirmam que “o segmento das editoras Ática e Scipione é diretamente afetado pela receitas provenientes do Governo Federal. Nos demais segmentos, as vendas são pulverizadas (…)”.

Assim, não precisa ser nenhum einstein para ver que se você mata sua galinha dos ovos de ouro ou você está completamente louco ou à beira da morte por inanição. Tenho a forte intuição de qual é a situação dos Civita e do negócio que lhes dá realmente poder, a editora Abril.


10 Feb 11:41

El misterio de las ballenas que se llenan de gas

by noreply@blogger.com (Antonio Martínez Ron)
Allan Patrick

O artigo também explica porque os animais aparecem mortos após manobras militares ou sondagens de petróleo.

1

En el año 2012 el equipo de Russel D. Andrews monitorizó los movimientos de ocho ballenas de pico (Ziphius cavirostris), de la familia de los zifios, en aguas del sur de California. Durante varios meses, los científicos siguieron los movimientos de estos animales para comprender mejor sus dotes de grandes buceadores. Los zifios, al igual que otros mamíferos marinos como los cachalotes o calderones, descienden a profundidades de hasta 1.000 metros para cazar, y este grupo lo hacía habitualmente hasta los 1.400 metros. Pero, en una de las jornadas, uno de los zifios decidió seguir bajando.

Los científicos siguieron la inmersión de este ejemplar durante 138 minutos y comprobaron que había descendido hasta los 2.992 m, un nuevo récord absoluto en el reino animal. Tres años antes, otro equipo de biólogos marinos había registrado el descenso de un elefante marino hasta los 2.388 metros, una profundidad en la que la oscuridad es absoluta y la presión podría aplastar a la mayoría de las criaturas. ¿Cómo lo hacen estos animales para descender tan abajo y aguantar tanto tiempo sin colapsar?

Seguir leyendo en: El misterio de las ballenas que se llenan de gas (Next)

Entrada publicada en Fogonazos http://www.fogonazos.es/
10 Feb 11:36

Graça Foster e Petrobras ganham 'Oscar' do petróleo e empresa passa a ser a maior do mundo. Resultado: - Fora, Graça!

by Antônio Mello

Contando fora do contexto da mídia, que quer privatizar a Petrobras, ninguém acredita. Mas a sequência é exatamente esta:

1. Graça Foster, que nasceu num morro do Rio, começou a vida como catadora de papel, tornou-se engenheira, entrou na Petrobras como estagiária e depois de 35 anos chegou à presidência, recebe o prêmio máximo da Sociedade Mundial dos Engenheiros de Petróleo (Society of Petroleum Engineers – SPE), o Distinguished Lifetime Achievement Award 2014. Pela primeira vez um brasileiro leva o prêmio.

2. A Petrobras dirigida por Graça Foster ganha o maior prêmio da indústria de petróleo e gás offshore mundial.

3. A Petrobras dirigida por Graça Foster torna-se maior produtora de petróleo do mundo entre empresas de capital aberto.

Logo, pela lógica entreguista e antipatriótica da mídia corporativa e de nossas elites, pedem a cabeça de Graça Foster.

Conseguem.

10 Feb 11:36

O syriza e o luto da direita

by noreply@blogger.com (Alexandre Abreu)

Negação, raiva, negociação. A direita tem reagido à vitória do Syriza com o atordoamento de quem faz um luto. É o luto pela sua própria hegemonia, enfim contestada.

O que ainda há pouco tempo parecia impossível aconteceu. O Syriza ganhou mesmo as eleições gregas, formou mesmo governo e começou mesmo a aplicar o seu programa. As medidas anunciadas nos primeiros dias quiseram-se simbólicas: congelamento das privatizações; recusa de negociação com os emissários técnicos da troika; aumento do salário mínimo; remoção das barreiras de segurança à frente do Parlamento; concessão de nacionalidade grega aos filhos de imigrantes nascidos na Grécia; reposição do 13º mês das pensões abaixo de 700€; reposição das pensões mínimas para os camponeses que não descontaram ao longo da vida; eliminação da taxa de 1€ sobre as receitas médicas; reintegração gradual dos funcionários públicos despedidos, especialmente nas escolas e universidades.

Do ponto de vista macroeconómico, o que o novo governo grego tem anunciado como posição negocial (saldos primários equilibrados ou até ligeiramente positivos, serviço da dívida em função do crescimento da economia) não tem nada de radical, como aliás muitos comentadores têm referido. É um mínimo de bom senso. Os enormes cortes na despesa pública levados a cabo nos últimos anos provocaram uma tal contracção da economia que o fardo da dívida pública não parou de aumentar: andava pelos 125% do PIB em 2010, quando tiveram início os programas de austeridade, anda actualmente pelos 175%. Não apesar da austeridade, mas por causa dela.


Neste plano, o governo grego não pretende mais do que o fim da insistência num absurdo: a imposição ao longo das próximas décadas de superávites primários constantes num país com uma economia deprimida e uma sociedade devastada. Uso o termo devastada com propriedade: trata-se de um país em que, entre 2008 e 2013, a percentagem da população em situação de privação material grave aumentou de 11,2% para 20,3% (em Portugal também aumentou, mas de 9,7% para 10,9%) e em que a austeridade deixou um milhão de pessoas sem acesso a cuidados de saúde, fazendo disparar a taxa de mortalidade infantil. É disto que falamos quando falamos da Grécia, mesmo que muitos não o saibam ou não o queiram saber.

Mas não é no plano macroeconómico que as propostas do Syriza constituem uma ameaça para as elites europeias. É que a dívida é um instrumento e não um fim. Aquilo que de mais central está em causa não é a dívida e o seu reembolso, mas a sua utilização como instrumento de dominação. O que não pode ser posto em causa do ponto de vista das elites não é o montante da dívida ou o seu calendário de pagamento: a esse nível, como se tem visto nos últimos dias, pode sempre haver cedências. O que não pode ser posto em causa, em contrapartida, são os eixos centrais da dominação: a compressão dos salários e pensões, as "reformas estruturais" no mercado de trabalho, o esvaziamento do Estado social, as privatizações.

Sucede, porém, que é precisamente isso que o novo governo grego ameaça pôr em causa. E é precisamente por isso que, pela Europa fora como em Portugal, a direita e os seus porta-vozes - os intelectuais públicos dos grupos dominantes - não suportam o Syriza e o que ele representa, e têm reagido à sua subida ao poder na Grécia com o choque e atordoamento com que se faz um luto ou reage a uma tragédia.

Primeiro foi a negação, a construção de uma realidade fantasiosa mas mais suportável. O Syriza está mais moderado, já não é o que era há dois anos. A sua retórica é meramente simbólica. Tsipras não passa de um novo Hollande. Em todo o caso, só ganharam devido à desorientação do eleitorado.

Em seguida, a raiva desorientada. Não tiveram mais que 36% e a abstenção foi superior. Aliaram-se à extrema-direita, vêem? Não têm mulheres no executivo, tão progressistas que eles são. Tsipras não merece respeito: chamou Ernesto ao filho.

E depois a negociação, à medida que a nova realidade começa aos poucos a ser aceite como inevitável, ainda que não na plenitude das suas implicações: Muito bem, podemos até acabar com a troika. Ceda-se nos juros, nos prazos e, quem sabe?, até mesmo no montante total da dívida. Desde que o Sr. Tsipras deixe cair o seu socialismo lunático, claro está.

Negação, raiva, negociação. Que luto é este que as elites europeias e os seus porta-vozes estão a fazer?

É o luto pela sua própria hegemonia no momento em que esta começa a ser seriamente contestada. Habituadas nas últimas décadas a uma História de sentido único, à constitucionalização das suas estruturas de dominação nos tratados europeus, à irrelevância das escolhas democráticas, ao sucesso na persuasão da maioria de que "não há alternativa", as elites reagem agora em choque perante a constatação de que a sua capacidade de produção de consensos em torno da sua própria dominação não é absoluta ou eterna e começa afinal a ser contestada. Há alternativas, que não só reúnem apoio popular crescente como até já começam a conquistar o poder.

Entendamo-nos, pois: a direita não podia estar menos preocupada com a participação da suposta 'extrema-direita' no governo grego ou com o número de mulheres no novo executivo. E também não está preocupada com as políticas do Syriza por achar que são melhores ou piores para os gregos, cujo bem-estar seguramente não lhe rouba o sono. Aliás, as elites europeias nem sequer estão preocupadas com o Syriza por causa do receio de sofrerem maiores ou menores perdas enquanto credores de uma dívida que em termos europeus representa pouco e que, em qualquer dos casos, todos sabem que não será reembolsada.

A direita está preocupada, isso sim, porque o governo grego é o primeiro a confrontar directamente os mecanismos de subjugação a que tem vindo a ser sujeito o seu povo e porque o seu exemplo tem um enorme potencial de alastramento. Não é por acaso que a maior hostilidade em relação às propostas europeias do governo grego provém precisamente das elites e governos servis de Portugal e Espanha, que estão precisamente na linha da frente desse potencial de alastramento. O novo governo grego tem de fracassar, custe o que custar, não vá dar-se o caso de mostrar às pessoas que é possível governar com elas e para elas em vez de contra elas.

É isto que está neste momento em causa na Grécia e na Europa - e é por isto que espero que o governo grego não tenha ilusões ingénuas sobre nobres ideais europeus que transcendam os interesses de classe. Pelo contrário: espero que o optimismo da disponibilidade para soluções cooperativas que os governantes gregos têm manifestado nos últimos dias se faça acompanhar, pelo menos em privado, pelo pessimismo racional da preparação dos cenários de confronto. Varoufakis é, entre outras coisas, especialista em teoria dos jogos: saberá por isso com certeza que não deve esperar que as elites europeias contribuam voluntariamente para minar as bases da sua própria dominação.

(publicado originalmente no Expresso online em 04/02/2015)

09 Feb 13:25

Carnaval dancer Camila Silva will make her acting debut in novela as a call girl; role and hot scenes again provoke question of black women in media

by gatasnegrasbrasileiras
Former "queen of the drumbeat" Camila Silva will make her acting debut as a call girl

Former “queen of the drumbeat” Camila Silva will make her acting debut as a call girl

Note from BW of Brazil: The debate is not new, especially among conscious black men and women in Brazil. Regardless of the rejection on the part of this segment of the population, Brazil’s media continues to keep black women in their ‘place’ when representing them on the nation’s airwaves. And the debate won’t be going away anytime soon as the controversial series Sexo e as negas only ended recently, the naked dancing Carnaval ‘mulata’ appearing on TV several times per day and the Carnaval season on full blast. Although Sexo e as negas ran its three month course even against widespread protest, in the US, a similar situation occurred in regards to yet another controversial reality show, Sorority Sisters, the latest in a long line of American reality shows depicting African-American women along very formulaic, stereotypical methods. Below is simply the latest in the continuous production of roles in which Afro-Brazilian women are shown as ‘the help’ or the ‘gostosa’ (sexually hot girl). 

Queen of the Drumbeat Camila Silva will debut on TV starring in hot scenes with actor Cauã Reymond

Courtesy of Extra

Dancer Camila Silva's debut as an actress re-ignites an ongoing debate

Dancer Camila Silva’s debut as an actress re-ignites an ongoing debate

It’s not only with Bárbara Evans that Cauã Reymond will grapple with in Dois irmãos (TV series). The actor will have super hot scenes with Camila Silva, the ex-rainha de bateria (former Queen of the drumbeat) of the Mocidade samba school in 2013, and owner of the post in the Vai Vai samba school of São Paulo.

In Itacoatiara, in the Amazonas, where part of the miniseries is being recorded, the two came to rotate scenes in which they appear completely nude in the street. In another scene, by recommendation of director, Luiz Fernando Carvalho, Camila recorded with her breasts out after the top she wore came undone by itself.

Camila Silva (left), Cauã Reymond and  Bárbara Evans

Camila Silva (left), Cauã Reymond and Bárbara Evans

In the miniseries, Camila plays Pau Mulato, a garota de programa (call girl) and the lover of Omar, the rebel twin played by Cauã. The two have an intensely sexual relationship, almost obsessive.

At 28, Camila will make her acting debut at Globo TV under the approval of her husband, Darly Silva, better known as Neguitão, the president of the Vai Vai samba school. Famous in the samba scene in São Paulo, the mulata had a passage through the school of Wolf Maya actors in the capital.

She had to audition to get the role in the miniseries and was trying to keep it a secret from her squad, by the recommendation of the network. In order for it not to leak, she anticipated commitments to Carnival to join the cast in the Amazon. Before embarking, she cut and dyed her long hair, a requirement of the role. She returned to São Paulo on the 11th, just three days before the parade of Vai Vai, in São Paulo.

Note from BW of Brazil: There are so many issues with this character, from the name to the description, which is exactly what happened when the series Sexo e as negas was announced last spring. The name of the character is ‘Pau Mulato’. The term ‘pau’ in Portuguese literally means ‘wood’ but it’s also a Brazilian slang term that refers to the male sexual organ. The topic of this announcement brought about a sort of “here we go again” reaction in social networks. Below are a few opinions of people who are concerned with what is clearly a trend in Brazil’s media. 

comment capa edit

“In the miniseries, Camila plays Pau Mulato, a garota de programa (call girl) and the lover of Omar, the rebel twin played by Cauã. The two have an intensely sexual relationship, almost obsessive.”

Sidnei: When we complain, we’re annoying. Look at the name of the character and then look at the description. We’re only good for sex for this racist, sexist media.

Maria – What I’m most outraged about is the lack of ownership of awareness of the facts that marked our history by the black woman in front of this capitalist, illusory model in which relegates us to a deepening chaotic via herself. This is an inexcusable impasse for us anti-racist fighters.

Va – The role she will represent says it all … and then not being the leading lady…..and like many she works for the money……and as much as what we think Globo’s not even here….so the deal is as follows….changing the channel turning it off is the same … when it comes to sex to sell this image, the products think about profit….and from there, the more clicks the product is well sold.

Mar – Souza, Ali Kamel (1) is one of the biggest racists of Globo. I read all of his books, his racism is very clear in every trace

She – The effed up thing is that the many alienated black women will find it all beautiful, and they will surely watch and imitate. A minority that boycotts doesn’t affect the sewage system.

Ma – The issue is not even the role, but ONLY these roles, as if how the white actors and actresses who do these but also others, #sqn…blacks only do this or subjugated roles, after this performance we know she will not be the next good girl girl of the novela (soap opera) or the matriarch of the successful black family. And there is no channel or even a program at any station to make a counterpoint.

S – Do you know what the real reason is for this happening? It’s a black man or woman not subjecting themselves to these roles. .It’s ceasing from wanting little…or nothing…there was a time in history that we were submissive or placed in horrible conditions for a human being……today with so much knowledge and advances…I say for sure… everything happens if there was permission. ..We are victims! We are forming agents of this society.

Van – unfortunately this point is as oppressive as to what we have already suffered, are you saying it is the fault of the oppressed? Never, we don’t have choices and opportunities, do you know what the financial situation of this woman is? Maybe she was already prostituting herself in real life, this is imposition not choice.

Pr – Vanessa she is the wife of the director of Vai Vai, surely she isn’t (in a) bad (condition), you don’t thing she came to Globo because of talent???

Van – So we have an exception, this was never the rule

Van – and a black woman married to whoever she wants, does not mean she has financial freedom, moreover I doubt that she has, most women are sex slaves and certainly subject themselves to anything for the minimal financial freedom

Sonia – So I am an exception…Because I believe and make my words my practices.

P – Excuse me I respect your opinion but the issue here is she is accepting a role that they always impose on a black woman in the media. I am also making this point. I’m (with) Sonia.

Note from BW of Brazil: Of course, if one isn’t familiar with Globo TV productions, the controversy may be hard to grasp. But suffice it to say, it’s simply more of the same. We have the title and occupation of the character making the direct association between a black woman and hyper-sexuality, similar to the title of Sexo e as negas, which was loaded with sexual scenarios. We have the director pushing the envelope of acceptability with the usage of nudity, which we also noted in Negas. The sexual relationship is described as ‘almost obsessive’, again making a connection with exacerbated sexuality. And let us not forget that the director of Globo’s latest scandal, Luiz Fernando Carvalho, was also accused of exploiting sexual connotations of black sexuality in the directing of the 2012 Globo TV series Subúrbia, which, after its promising expectations of presenting a 90% black cast, fizzled into a mess of familiar clichés and stereotypes. 

So what’s the verdict? Well, of course it’s always too early to say, but as a pattern in relation to Afro-Brazilian actors and actresses has existed for years in Brazil’s media, why would we expect anything of value from this latest offering? The description, occupation and title of Camila Silva’s character says it all! At this point, the bottom line is as follows. As long as black actors are willing to accept the scraps off of the racist media’s table, similar to Brazil’s 350 years of slavery, they will continue to remain in the senzala (slave quarters). Black representation is so minimal in Brazil’s media that it seems these performers are willing to accept anything for their shot at the big time. If that means whoring themselves, literally or figuratively, so be it, it seems.

Director of Rede Globo engages in dating series protagonist, newspaper says For Papelpop Conteúdo| Notes - Celebrities - Thu, Jan. 17, 2013 13:59 EST Luiz Fernando Carvalho and Erika Januza  The director and the protagonist of the series Subúrbia shown on the Globo network in 2012, are dating. The “Retratos da Vida” (column), of the Extra newspaper of this Thursday, said Luiz Fernando Carvalho, 52, and Erika Januza are having an affair.

Director of Rede Globo engages in dating series protagonist, newspaper says
For Papelpop Conteúdo| Notes – Celebrities – Thu, Jan. 17, 2013 13:59 EST
Luiz Fernando Carvalho and Erika Januza
The director and the protagonist of the series Subúrbia shown on the Globo network in 2012, are dating. The “Retratos da Vida” (column), of the Extra newspaper of this Thursday, said Luiz Fernando Carvalho, 52, and Erika Januza are having an affair.

Am I going a little to far in this analysis? I don’t think so. If one wants to gain fame and fortune in today’s scandalous, sex-obsessed media, they must be willing to go all the way. Only those involved know what that means but I found it intriguing a few years ago when I discovered that the protagonist of the aforementioned 2012 series Subúrbia, Erika Januza, was dating the director of the series, Luiz Fernando Carvalho.

Of course no one knows the details of what went down with that relationship, but what comes to your mind when you hear of an attractive, young, newcomer black actress dating a 52-year old white male who is the director of the program in which she makes her debut? I don’t include this detail to engage in tabloid style gossip, but rather to simply illustrate a point. When the power dynamics that dominate the relationship between a ruling group and another group that was formerly their property continue in the modern day and the former continues to accept whatever the former sees fit to give them, the relationship remains the same. Of course there will be those who will argue that the Camila Silva situation is only a TV role and as such, just entertainment. But if people still haven’t figured out that the media continuously use its power to not only depict life but also influence and maintain it through its thinly veiled portrayals of the real life power structure presented as fiction, then this conversation may be over their heads anyway. 

Comments in original Portuguese

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Source: Extra

Note

1. General director at the Globo TV network. Kamel has been a consistent controversial figure in his tenure at the network. See here and here.


09 Feb 12:45

Entrevista: um policial que matou pela primeira vez

by Danillo Ferreira

O policial que matou pela primeira vez

A entrevista que você lerá a seguir foi feita por mim a um policial militar brasileiro que não irei identificar, pois, por razões significativas, o entrevistado preferiu se manter anônimo.

Os fatos narrados se deram no ano passado, e desde lá conversamos sobre o ocorrido, após ele ter entrado em contato através de e-mail para desabafar algumas sensações e entendimentos. De lá para cá, além do contato por e-mail, também falamos via telefone e mídias sociais.

Hoje, alguns meses após a primeira mensagem, considero-o um amigo, a quem tive a grata oportunidade de ajudar. A entrevista (que fizemos no ano passado) foi a forma que ele encontrou de propagar sua experiência transformando-a em aprendizado coletivo, independentemente das vivências e concepções de cada leitor (policial ou não).

Só publicamos agora para que os fatos narrados não sejam identificados, em um momento em que todos os desdobramentos legais já foram encerrados.

Tenho certeza que será engrandecedora a leitura:

Abordagem Policial: você entrou em contato com o blog relatando uma ocorrência por que passou. Que ocorrência foi essa? 

Policial: Foi um auto de resistência, onde eu e o pessoal da minha viatura acabamos matando um criminoso.

Abordagem Policial: como a ocorrência se iniciou?

Policial: A gente fazia o patrulhamento normal, em um bairro da periferia, com alto índice criminal, e passaram dois homens em uma moto. Quando passaram o carona falou algo para o piloto. Acho que avisou que a viatura podia abordar eles.

Aí adiantaram e então acionamos a sirene para eles pararem. Eles não pararam e então a gente acompanhou. De uma hora pra outra o carona da moto atirou. Aí o motorista quase perde o controle da viatura.

Um colega deu dois tiros, mas não pegou em ninguém. A gente falou pra ele (o colega) segurar, porque os caras estavam de costa e podia dar merda. Só foram esses dois tiros enquanto eles estavam na moto. Daí nos afastamos mais, pra segurança, mas continuamos acompanhando.

Chegou um momento que eles caíram da moto. Então descemos da viatura e corremos. O carona correu para um lado e o piloto correu pra outro. A gente correu atrás do carona, o que tinha atirado. Chegou num ponto e ele não tinha mais pra onde ir, a não ser pular um muro. Aí ele virou com a arma na mão, e a gente atirou. Quatro tiros pegaram nele.

Abordagem Policial: vocês prestaram socorro?

Policial: Sim. Levamos ele para o hospital, mas já chegou lá sem vida.

Abordagem Policial: Como você se sentiu após os disparos contra o suspeito?

Policial: A primeira coisa que veio na cabeça é se aquilo tudo estava no padrão, se a gente atirou demais e houve excesso. O medo de ser preso, de ser punido.

Abordagem Policial: mas você tinha agido na legalidade… Por que o receio?

“Acho que por haver erros cometidos por outros policiais as pessoas já não acreditam quando a ação é correta”

Policial: Não sei. É que a gente vê tanta acusação contra esse tipo de ação. Acho que por haver erros cometidos por outros policiais as pessoas já não acreditam quando a ação é correta. E aí a gente acaba ficando com medo de ser julgado como um criminoso.

Abordagem Policial: alguém presenciou o momento dos disparos, além dos policiais?

Policial: Na verdade, logo depois que nos aproximamos do criminoso começou a chegar gente, e aí ficamos sabendo que ele morava ali perto. Uma mulher gritou e foi chamar os familiares dele. Mas daí só fomos ver os familiares no hospital, porque não demoramos muito no local dos disparos.

Abordagem Policial: como foi o contato com os familiares?

Policial: Na verdade não tivemos contato direto com eles. Mas vimos à distância no hospital. A mulher parecia conformada, acho que ela sabia que ele era envolvido com o tráfico na região (foi isso que ficamos sabendo depois).

Mas o que foi complicado foi ver o filho dele, que tinha uns oito anos. O moleque tava chorando bastante. É difícil esquecer da cena de ver uma criança triste e saber que as coisas não precisavam ser assim.

Abordagem Policial: você parece sentido com a morte do suspeito. Você considera que se não tivessem atirado talvez ele faria isso contra a guarnição?

Policial: A gente sabe disso. Mas mesmo assim a gente sente. Quem não sente é porque já perdeu a parte humana. E as pessoas pensam que é fácil chegar lá e matar. Tem gente que comemora, elogia e tudo, mas é difícil.

“Essa missão que o policial assume é muito difícil e muito dura”

Conheço colegas que já mataram várias vezes, e já perderam isso. Eu digo que perderam a capacidade de sentir, isso é um problema.

Essa missão que o policial assume é muito difícil e muito dura. Veja bem: você praticamente está dando sua alma por esse serviço. E tem medo de trabalhar para não ser punido. É complicado.

Abordagem Policial: como você lida com esses sentimentos depois de tudo isso?

Policial: Sinceramente? Cheguei a querer me afastar do serviço de rua, sair da polícia. Mas ficaria muito na cara para os colegas que saí por causa da ocorrência. Não quis isso. Também não tenho como criar a família sem ser pela polícia.

O apego a Deus é a maior força, porque você não vai falar disso com sua mulher, com o filho. É pesado demais. Mas estou perto de tirar férias também e daí vou dar uma descansada.

Abordagem Policial: E se você passar por uma ocorrência assim novamente?

Policial: Acho que tudo acontece como aconteceu. Na hora você não pensa, não tem tempo pra refletir. Se parar pra pensar você morre. Depois a gente vai se cuidando como dá, como estou fazendo.

Abordagem Policial: que conselho você daria para policiais que passam por circunstâncias semelhantes?

Policial: Primeiro é salvar sua vida. Tudo isso que eu falei aqui só acontece depois que sua vida foi salva. Se eu não atirasse nem estava aqui agora. Se acontecer com você, procure alguém pra conversar, pra falar disso. Por causa da minha leitura do Abordagem Policial em me senti à vontade pra falar contigo (Danillo Ferreira), e não queria conversar com alguém que me conhecesse pessoalmente*.

Isso tem ajudado muito, porque você desabafa. No mais é se apegar a Deus. Nossa missão é árdua, mas é dela que tiramos nosso sustento. E gosto muito dos amigos que tenho por causa da minha profissão.

 

*Conseguimos convencer o policial a procurar apoio psicológico especializado, algo que lhe garantiu bastante melhoras.

09 Feb 12:22

O PT e o mar

by Marcelo Manzano

Desde que Lula assumiu o mais alto cargo político do Brasil em 2003, são incontáveis as manifestações anunciando o fim do Partido dos Trabalhadores. O primeiro ato dessa procissão talvez tenha sido protagonizado pela turma que migrou para o PSOL.

O saudoso Plínio de Arruda Sampaio, em “entrevista explosiva” à revista Caros Amigos de maio de 2005, já tratava de jogar luz sobre a “crise terminal” do PT. De lá para cá, a despeito de o PT ter realizado uma transformação social sem precedentes no País e ter conseguido vencer mais três eleições seguidas para a Presidência, a obsessão com o fim do PT só faz crescer.

E tem pra todo gosto. Da extrema esquerda ao Instituto Millenium, de petistas históricos a jejunos, de sindicalistas a ilustres acadêmicos, fervilham palpites e maus agouros a respeito do tempo de vida do partido.

Entre os argumentos, o mais frequente, espécie de denominador comum entre todos os críticos – inclusive dentro do partido – é o de que “o PT já não é mais aquele”. Já não teria o vigor nem a ousadia que tão bem empunhou na campanha das Diretas, no inesquecível processo eleitoral de 1989, na defesa intransigente de utopias de um difuso socialismo democrático.

Será? De fato, o desgaste que o PT vem sofrendo lhe tira o lustro e traz dúvidas quanto à sua capacidade de continuar avançando como partido. Talvez tenha cometido erros que transformem a sigla em um fardo excessivamente pesado para se carregar nos próximos pleitos eleitorais. O tempo dirá.

Entretanto, é preciso tomar cuidado e separar a análise da viabilidade política da sigla nas próximas eleições da análise do significado da experiência do PT como vetor de um projeto de esquerda para o País.

Tal qual o velho pescador Santiago, protagonista do livro “O velho e o mar” de E. Hemingway, o PT se aventurou pelo mar bravo do sistema eleitoral brasileiro e, em busca de realizar seu sonho de longa data – a construção de um país mais justo, soberano e igualitário – fisgou o seu Marlin-azul: a Presidência do País.

Peixe grande, canoa pequena, a viagem desde então se transformou em intensa luta pela sobrevivência e trouxe à tona as ameaças inescapáveis que recaem sobre aqueles que ambicionam avançar para além da linha do horizonte. Assim como os ataques dos tubarões estraçalharam o peixe do valente Santiago, o exercício do poder produziu estragos irreparáveis sobre o corpo e a alma do PT.

Mas, quando finalmente é avistado da costa, o peixe está lá, estampado na canoa do velho: na forma de um esqueleto enorme, a lição de que parte do sonho era inalcançável, mas também que o cerne de osso, esticado de uma extremidade à outra, é a peça de resistência que dá sentido à luta.

O PT errou, muito – como, aliás, erraram todos os outros partidos de esquerda ao redor desse mundão capitalista em que estamos metidos. Mas errou não porque abriu mão dos sonhos de outrora. Errou principalmente por ter acreditado ser possível, a um só tempo, jogar o jogo sujo do sistema eleitoral brasileiro, enfrentar os interesses rentistas que há tantas décadas nos governam e garantir os avanços das instituições republicanas que emergiram com a Constituição de 1988. A equação não fecha.

Contudo, a despeito de ter sido seriamente avariado no percurso, há motivos para dizer que o PT de hoje, talvez apenas uma carcaça do vigoroso partido dos anos oitenta, é melhor do que aquele.

O PT sabe hoje que não se constrói um país com arroubos voluntaristas, com uma cesta de boas causas, com um catado de princípios valorosos. O PT – e parte importante da esquerda brasileira – aprendeu na marra que não se consegue avançar em um país capitalista da periferia se não houver um Estado que seja o protagonista do desenvolvimento econômico, isto é, que lidere a acumulação capitalista e, ao mesmo tempo, imponha limites aos interesses privatistas.

Aliás, vale recordar, o PT dos oitenta, das “Diretas Já”, da encantadora melodia do “Lula-lá”, dava de ombros para o tema do “desenvolvimento” – olhava torto, por exemplo, para debates sobre os rumos da nossa indústria, desconfiava dos empréstimos subsidiados do BNDES ao capital e acendia velas para a austeridade fiscal.

Com a estrela na testa, restringia-se à defesa valorosa dos direitos dos trabalhadores, dos sem terra, das minorias e dos desvalidos. Aquele PT foi, sim, fundamental no processo constituinte e na sua longa jornada regulatória: mas às bandeiras meritórias de então foi acrescido o cerne, o eixo estruturante que até 2003 passava ao largo do ideário petista.

Hoje, graças ao choque de realidade de ser governo, tanto o PT quanto a esquerda brasileira estão em outro patamar. Graças às contradições enfrentadas pelos governos de Lula e Dilma, sabe-se, por exemplo, como a defesa dos empregos e dos salários, exige uma musculatura do Estado e de outras instituições públicas que vai muito além da intransigente defesa dos direitos da pessoa humana ou da inocente prática do orçamento participativo.

Dizem os críticos – externos e internos – que o PT, na medida em que galgou a hierarquia política do País, permitiu-se enrijecer; que seus quadros se encantaram com os vícios do poder e da grana; enfim, que o projeto de transformação social do País foi reduzido a um projeto de poder.

Sim, em parte isso de fato aconteceu – o que não é novidade alguma em se tratando de seres humanos, sejam eles franceses, japoneses ou menonitas. Mas é verdade também que muito se fez para avançar no sentido do pleno emprego e da melhora sistemática da renda dos assalariados e dos mais pobres. Isso foi conquistado – e não é pouco: basta olhar ao redor do planeta.

Em última instância, portanto, esse é o esqueleto que mantivemos preso ao barco, e é ele que nos permite perceber, por um lado, o quão pouco sabíamos antes de nos lançarmos ao mar e, por outro, o quanto tivemos que enfrentar para conquistar avanços civilizatórios fundamentais para o povo deste País.

 

08 Feb 14:27

A natureza não tem nada a ver com o colapso do abastecimento da água em SP

by Diario do Centro do Mundo
Publicado no site Cosmopista. O autor é Gabriel Kogan, mestre em “Urban Water Studies” pela TU Delft, da Holanda.   Enquanto nos aproximamos do colapso total no abastecimento em São Paulo, políticos tentam desesperadamente culpar a natureza: “é por causa da falta de chuva”. Nada disso. O proble...
07 Feb 12:20

Justiça seletiva

by Luis Fausto

Já está ficando chato, cansativo, repetitivo, mas o tema é cada vez presente no dia-a-dia e as ações que levam a ele se repetem e até se perpetuam de uma maneira vergonhosamente escancarada.

Falo da Justiça brasileira, que de uns anos para cá vem se especializando na seletividade dos seus atos, das suas ações, das decisões que toma ou deixa de tomar.

Apoiada pela mídia conservadora, que alguns dizem golpista a partir do momento em que um torneiro mecânico ignorante ousou eleger-se presidente da República, a Justiça vem trilhando um caminho de mão única que está longe de ser democrático e às vezes beira as raias inconstitucionais que ela deveria evitar e combater.

E isso acontece em todas as instâncias, especialmente nas mais altas, mais graúdas e, por conseqüência, mais visíveis.

Tomemos como exemplo o cenário político dos últimos 15, 20 anos.

Ou, se preferirem, dos últimos 30 anos.

A partir do governo de José Sarney, que ele ganhou de presente por conta da morte de Tancredo Neves. Como achou que era mesmo um presente, transformou o poder central na sua cada-grande e entrou para a história não pela redemocratização do país, que viria com ou sem a sua presença, mas graças à corrupção endêmica verificada em superfaturamento de obras, em licitações viciadas (Ferrovia Norte-Sul…), em concessões de rádios e TVs para os amigos da hora.

O que se fez na esfera judicial?

Nada, nadica de nada.

Passemos então ao governo de Fernando Collor de Melo, o playboy alagoano que renunciou para não ser cassado. O próprio irmão, Pedro, meteu o dedo na ferida e denunciou a corrupção desenfreada que ocorria no Palácio do Planalto. Desta vez a Justiça foi acionada, foi acordada, mas tarde demais: Collor livrou-se, virou governador das Alagoas, hoje é senador da República e não sofreu qualquer dano ou condenação.

Fernando Henrique Cardoso. De 1995 a 2001 ele governou o país. De memória, sem a necessidade do Google, lembro de pelo menos quatro entre as dezenas de escândalos que ocorreram na sua administração. A privataria tucana investigada pelo então delegado Protógenes Queiroz, comprovando desvios de pelo menos R$ 124 bilhões dos cofres públicos. A compra da reeleição, aprovada por uma emenda constitucional que recheou os cofres de parlamentares daqui e daqui. As doações eleitorais ilegais, envolvendo principalmente os bancos, no caso que ficou famoso como a Pasta Rosa. E a corrupção e o tráfico de influência para a implantação do Sivam, o Sistema de Vigilância da Amazônia, envolvendo não só FHC mas também alguns de seus ministros mais graduados.

O que aconteceu, o que fez a Justiça?

Engavetou todos os processos, mandou para o lixo todos os inquéritos abertos pela Polícia Federal.

De lá para cá, os tucanos se sentiram livres para fazer o que quisessem. E fizeram, mas nunca foram punidos. Aécio Neves, então governador de Minas Gerais, foi acusado de desvias R$ 7,6 bilhões da saúde mas o Tribunal de Contas de lá, presidido por uma indicada por ele, arquivou o processo.

O mesmo Aécio construiu um aeroporto na fazenda de sua família, na pequena cidade de Cláudio, mas ninguém viu irregularidade alguma.

Alberto Yousseff e outros comparsas desmascarados pela Operação Lava Jato acusaram tucanos de peso de envolvimento no processo criminoso, mas não se fala no assunto e a Justiça o evita todo instante.

O mensalão começou como tucano, em 1998, mas o Supremo Tribunal Federal achou por bem adiantar-se no tempo, julgar apenas os envolvidos mais tarde no mensalão petista e esquecer esse período.

Alguém se lembra da Máfia do Cachoeira, que provocou uma CPI no Congresso e a renúncia do senador democrata Demóstenes Torres? Entrou para a história, apenas isso.

Como vai entrando para a história, também, a descoberta do cartel criminoso dos metrôs de São Paulo e do Distrito Federal, com desvios apurados de quase R$ 500 milhões e o envolvimento de tucanos, democratas e outros bichos.

O que não entra para a história, e vale processos, vale prisões, vale manchetes diárias e permanentes nos jornalões familiares, é o capítulo que envolve o PT em mal feitos apurados às pressas.

É, pois, uma Justiça claramente seletiva e muitas vezes partidária.

O que me lembra Luis Fernando Veríssimo, brilhante jornalista e escritor do Rio Grande do Sul, que recentemente escreveu o seguinte: “Proponho o fim da hipocrisia no julgamento de corrupção no Brasil. Oficialize-se já dois sistemas de pesos e medidas. Um que só vale para o PT. E outro para os outros, principalmente o PSDB.”

07 Feb 12:20

História da Ajuda à Grécia (aos quadradinhos)

by noreply@blogger.com (José Gusmão)
Na sequência dos resultados das últimas eleições gregas, têm-se construído grandes narrativas sobre a tragédia que tem fustigado aquele país. Depois de várias discussões sobre este assunto, resolvi coligir alguns dos dados mais importantes sobre os impactos do programa de ajustamento da troika naquele país. Poderá não ser tão colorido como histórias sobre cabeleireiras e paralíticos, mas espero que seja mais informativo.


Uma das afirmações mais repetidas acerca da Grécia é que os Gregos não cumpriram com o programa de austeridade, nomeadamente no que diz respeito aos cortes no Estado. Na realidade, os gregos cortaram muito mais do que estava previsto. O Memorando do primeiro programa de ajustamento previa 1.700 milhões de euros de redução da despesa pública nominal até 2014 mas, à medida que a austeridade se foi revelando ineficaz no ajustamento orçamental, várias vagas de medidas adicionais foram sendo introduzidas. No final, os gregos cortaram quase 20.000 milhões. Cerca de 12 vezes mais.

Esses cortes tiveram consequências desastrosas no sistema de educação e no sistema nacional de saúde, bem como noutros serviços públicos.

O único ano de alívio neste processo foi o ano de 2014 (antes destas eleições), em que o governo da direita grega parou a austeridade. Curiosamente, e como se verá à frente, essa suspensão da austeridade em 2014 produziu resultados positivos imediatos em todos os indicadores.



Esses cortes em salários e investimento público, associados à precarização do mercado de trabalho, que forçou à baixa dos salários, provocaram uma quebra sem precedentes da procura interna na Grécia. O Estado paga e investe menos e as pessoas consomem menos e, em consequência de tudo isso, o investimento privado também colapsou.


Entre os cortes no investimento público e a quebra do investimento privado, o investimento total desceu para metade do seu valor em 2009. Uma redução de 50% em 5 anos. De acordo, com os dados da AMECO (mais recentes), essa quebra ascende a 58% (43% no público, 65% no privado). As reformas estruturais que a Troika impôs para estimular o investimento privado falharam por completo.


O resultado destes desenvolvimentos foi uma recessão assustadora. O PIB real da Grécia caiu mais de 20% e só ensaiou uma ligeira recuperação em 2014, quando o governo de Samaras suspendeu a austeridade.


O desemprego na Grécia subiu para níveis nunca antes vistos, com o desemprego jovem a aproximar-se dos 60%. A previsão da Troika era muito mais optimista. Os peritos da troika asseguravam que as reformas no sentido da "flexibilização" do mercado de trabalho contribuiriam para a criação de emprego.


A quebra na actividade económica, rendimentos e consumo provocou uma redução a pique na receita pública, nomeadamente na receita fiscal, que comprometeu o esforço de ajustamento orçamental. Esta evolução ilustra bem porque é que uma recessão é sempre a pior forma de equilibrar as contas públicas.


A troika argumenta que, tendo falhado noutros indicadores, foi bem sucedida na "competitividade", prevendo que a balança comercial da Grécia se torne excedentária em 2014. Isso é verdade, mas convém perceber porquê.

A retoma do comércio internacional a seguir à crise financeira significou um aumento generalizado das exportações e das importações em toda a zona Euro. No entanto, na Grécia, as exportações estão a crescer bem abaixo do ritmo médio da Zona Euro. Ou seja, o argumento de que as reformas estruturais tornaram a Grécia mais "competitiva" é falso.


A verdadeira explicação para o equilíbrio da balança comercial da Grécia está neste gráfico. Enquanto em quase toda a Zona Euro, as importações crescem, acompanhando o crescimento das exportações, na Grécia aconteceu rigorosamente o contrário. As importações diminuíram 20%, ao mesmo tempo que, no resto da Zona Euro, aumentaram quase na mesma proporção.

Ou seja, o segredo do equilíbrio da balança comercial está no empobrecimento da população grega, no aumento do desemprego e consequente redução do poder de compra. Isso significa que nenhum problema estrutural foi resolvido. Se a economia retomar e o desemprego voltar a diminuir, o défice comercial voltará também.


O resultado da recessão provocada pelo memorando é que a dívida grega, apesar de várias vagas de austeridade, subiu a pique, muito acima das previsões da troika. Na realidade, a diferença em relação às previsões (cerca de 30 pontos percentuais), só não é muito maior porque, em 2012, a Troika empreendeu uma reestruturação da dívida.

Nessa reestruturação, porém, a troika impôs um corte da ordem dos 75% aos privados, mas não tocou nos seus próprios empréstimos, diminuindo o impacto da operação nas contas públicas da Grécia. Além disso, a (pouca) folga orçamental obtida não foi utilizada para estimular a economia. Pelo contrário, a austeridade continuou e reforçou-se.

No entanto, esta reestruturação serve para provar que as instituições europeias não têm nenhum problema com reestruturações da dívida (nem mesmo com perdões parciais) desde que não sejam afectadas nos seus próprios empréstimos e desde que a política de austeridade não seja beliscada. Mostra também que sem mudança de política económica, uma reestruturação é inútil ou contra-producente.


O fracasso do programa de "ajustamento" da troika é de tal ordem que os anos da austeridade (2010, 2011 e 2013) são precisamente os anos em que a dívida pública mais aumentou na história recente da Grécia. Foram anos piores até do que os que se seguiram à crise financeira de 2007/2008. A redução de 2012, claramente insuficiente, deve-se à reestruturação parcial promovida pela troika sobre os credores privados.


Este é um pequeno retrato do que foi a "ajuda" à Grécia.

E para quem possa estar a pensar que tudo isto acontece porque os gregos são uns grandessíssimos preguiçosos, leia este post do Nuno Teles
Esta apresentação foi inteiramente elaborada com base em números do FMI e da Comissão Europeia, nomeadamente dos relatórios sobre os programas de ajustamento da Grécia, sob supervisão da Troika. Fontes aqui, aqui, aqui e aqui.
06 Feb 00:18

Copacabana, bairro modelo

by Zé Lobo
Foto: Jéssica Martineli

Foto: Jéssica Martineli

Copacabana hoje oferece a oportunidade de se circular por todo o bairro em vias preferenciais para bicicletas. Foi uma longa pedalada. Tudo começou com as ciclovias da Orla no inicio dos anos 1990, na metade da década, vieram as ligações com Botafogo e Ipanema, em 2008 chegaram as primeiras Zona 30 da cidade em 33 ruas, todas as secundárias, no mesmo ano chegavam as primeiras estações de bicicletas públicas do Hemisfério Sul, eram apenas 6.

Atualmente, além das Zona 30 com sinalização vertical e horizontal, existem bike boxes em todos os cruzamentos com as vias principais, destas seis contam com ciclovias ou faixas, sendo uma das mais importantes a ligação Orla – Botafogo via Figueiredo Magalhães.

São ainda mais de 100 vagas em bicicletários U invertido espalhados pelo bairro, 18 estações de bicicletas públicas e 10 lojas de bicicletas para atender as necessidades dos ciclistas. Infraestrutura que se soma à integração com Metrô, em bicicletários internos em algumas estações e percursos praticamente 100% planos.

Certamente a densidade de moradias, empresas e serviços incentivam mais viagens em bicicleta. Tanto que é um bairro campeão na ciclo logística. Pesquisa feita em 2011 revelou mais de 11 mil entregas por dias feitas em bicicletas no bairro, isso somado a todos os deslocamentos por este modal fazem de Copacabana um bairro das Bicicletas.

História de Copacabana e as bicicletas

A história do bairro nos últimos anos, e as facilidades para a circulação cicloviárias foram um caminho pedalado através de diversas ações e principalmente com muita visibilidade dada a quem sempre pedalou na região. As Zona 30 por exemplo é quase uma ópera em 7 atos. Mas algo ainda mais fundamental para que hoje Copacabana seja um bairro com um número alto de viagens é bicicleta são as contagens. Foram 10 oportunidades em que foi possível primeiro comprovar o fluxo ciclístico e aos poucos atestar a relevância de investir no modal como solução para a mobilidade.

História das Zona 30 Copacabana: 

As contagens que deram suporte e foram a base de dados sobre o bairro:

  1. Cantagalo 1 – Quarta feira, 9 de julho de 2008.
  2. Cantagalo 2 – Quinta feira, 18 de agosto de 2011.
  3. Rodolfo Dantas 1 – Quinta feira, 4 de junho de 2009.
  4. Rodolfo Dantas 2 – Quinta feira, 5 de novembro de 2009.
  5. Túnel Velho - Quarta feira, 11 de março de 2009.
  6. Figueiredo de Magalhães 1 – Quinta feira, 2 de julho de 2009.
  7. Figueiredo de Magalhães 2 – Quarta-feira, 20 de março de 2013.
  8. Real Grandeza – Dias 7, 8 e 9 de junho de 2010.
  9. Carga e Entregas – Janeiro de 2011
  10. Bicicletas estacionadas – Dezembro de 2011.

Pra ficar perfeito, só falta a ligação com a Lagoa via Corte Cantagalo (palco das primeiras contagens) e maior educação por parte dos motoristas!

04 Feb 18:27

Prende primeiro, pergunta depois

by Andrea DiP

Francisco* estava no sofá assistindo televisão e aproveitando seu primeiro dia de férias, quando a polícia quebrou o portão e invadiu sua casa gritando, com armas em punho. Apesar de não saber do que se tratava, o coletor de lixo não reagiu nem para dizer que era trabalhador de carteira assinada. Por experiência anterior (ele já havia passado seis meses em um Centro de Detenção Provisória e depois inocentado) sabia que seria pior tentar argumentar naquele momento. A filha de 15 anos estava no banho, a esposa e a filha mais nova, de 5 anos, não estavam na casa, localizada no litoral sul de São Paulo. Foi levado algemado para a delegacia do DHPP, na capital. Só então ficou sabendo que a vítima de um sequestro, um homem que pagara 400 mil reais de resgate, havia supostamente reconhecido sua tatuagem em um álbum de pessoas com passagem pelo sistema carcerário, apresentado pela polícia. A vítima teria dito que o sequestrador tinha uma tatuagem no braço, e escolhido Francisco no álbum com fotos de ex-detentos que batiam com a descrição de tipo físico e da tatuagem mostrado pela polícia. Mesmo com provas e testemunhas de que estava trabalhando nos dias em que a vítima afirmou ter ficado 24 horas sob olhares do algoz, em outra cidade, Francisco ficou preso por dois meses no Centro de Detenção Provisória de Pinheiros, em São Paulo, em uma cela “pequenininha assim”, com mais de cinquenta pessoas, “às vezes mais, às vezes menos”, esperando que o delegado chamasse a vítima para um novo reconhecimento.

Francisco teve sua tatuagem confundida com a de sequestrador e passou dois meses preso / Foto: José Silva

Francisco teve sua tatuagem confundida com a de sequestrador e passou dois meses preso / Foto: Joseh Silva

“O delegado dizia que não estava encontrando o homem” conta a esposa de Francisco, que acabou ela mesma descobrindo o endereço e passando ao delegado. “Só aí que ele ficou sem graça e chamou pra reconhecer” lembra a mulher. Durante os dois meses em que esteve no CDP, Francisco não viu as filhas, porque não queria que as meninas passassem pela humilhação da revista vexatória. O que mais o marcou foram as revistas com cães dentro das celas, quando eram obrigados a se despir e se encolher “com os cães fungando no cangote”.

Quando saiu, perdeu o emprego. “Me disseram que foi porque a empresa foi vendida e tiveram que demitir algumas pessoas” explica. Diz que a filha pequena chora quando vê passar um carro de polícia na rua – tem medo que levem o pai mais uma vez. Sua esposa tem trabalhado dobrado pra sustentar a casa enquanto ele procura outro serviço. Mas com seu nome ainda não liberado do processo, “tá bem difícil”.

O caso de Francisco dá feição humana aos números escandalosos do encarceramento provisório no Brasil, denunciados por vários órgãos de defesa de direitos humanos e, mais recentemente, pelo Relatório Mundial 2015, da Human Rights Watch, publicado em janeiro, que analisa anualmente avanços e retrocessos na proteção dos direitos humanos em mais de 90 países. Sobre o Brasil destaca esse gargalo do sistema penitenciário entre denúncias de tortura, tratamento cruel, desumano ou degradante e falta de infraestrutura dos presídios. Em setembro de 2014, o Grupo de Trabalho da ONU sobre Prisão Arbitrária também apresentou um relatório apontando a superlotação endêmica, o acesso à justiça severamente deficiente e o encarceramento como regra e não exceção mesmo em casos de delitos leves e sem violência.

O “Mapa das Prisões” da organização de direitos humanos Conectas, mostra um crescimento de 317,9% na taxa de encarceramento (número de presos por cada grupo de 100 mil habitantes) do país entre 1992 e 2013, passando de 74 para 300,96 enquanto a Rússia, por exemplo, registrou redução de cerca de 4% no mesmo período.

Segundo os últimos dados disponibilizados pelo InfoPen do Ministério da Justiça de junho de 2013, o Brasil contava com mais de 581 mil pessoas privadas de liberdade, 41% delas em prisão provisória. É a quarta maior população carcerária do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, China e Rússia. O déficit de vagas supera 230 mil.

No estado do Amazonas mais de 70% dos encarcerados são presos provisórios e em São Paulo 36% do total, segundo os últimos dados do Ministério da Justiça. Mas de acordo com Bruno Shimizu, defensor público do Núcleo de Situação Carcerária de São Paulo, o número de provisórios é ainda maior já que esta conta diz respeito apenas aos presos sem julgamento, não incluindo os que não tiveram ainda o processo concluído: “Os dados apontados pelo Depen não mostram um número real porque quando a pessoa tem uma sentença de 1o grau ela continua sendo inocente até o fim do processo”.

Uma pesquisa feita em parceria entre Depen (Departamento Penitenciário Nacional) e IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) apontou que, em 37,2% dos casos em que há aplicação de prisão provisória, os réus não são condenados à prisão ao final do processo ou recebem penas menores que seu período de encarceramento inicial.

Pela ordem pública

“O Brasil é conhecido internacionalmente como um país que extrapola qualquer limite no número de prisões preventivas. É uma prisão que pela Constituição é excepcionalíssima e na prática ela é a regra. No fim das contas, serve como uma forma antecipada de pena e como forma de contenção social mesmo” diz o defensor público coordenador do Núcleo de Situação Carcerária Patrick Cacicedo. Ele explica que a prisão preventiva ou cautelar, segundo a lei, serve para garantir o andamento regular do processo. “Pela lei e pela nossa Constituição, que diz que ‘ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória’, ela só deve ser utilizada quando se tiver elementos concretos que mostrem que aquela pessoa vai atrapalhar o andamento do processo de alguma maneira, fugir, em casos de crimes contra a ordem econômica do país ou para a garantia da ordem pública. E é aí que se prende mais. Porque ninguém sabe o que é ‘ordem pública’. É um termo vago. Quando não se tem um motivo concreto – e quase nunca tem – ela faz valer a grande maioria das prisões preventivas” explica. Muitas vezes, como mostra a pesquisa Tecer Justiça – Presas e presos provisórios da cidade de São Paulo, feita pelo Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC) e Pastoral Carcerária, o primeiro contato entre o defensor e o acusado coincide com a realização da audiência de instrução, debates e julgamento, que pode vir a acontecer meses após a prisão.

10 anos no limbo

O processo de Gabriel*, ao qual a Pública teve acesso, chega a ser inacreditável. O homem, réu confesso de homicídio em 2004 teve o processo suspenso pouco tempo após sua prisão preventiva decretada a partir de um flagrante. O motivo foi um laudo psiquiátrico que considerou-o inimputável. O juiz determinou que ele fosse internado em um hospital-presídio para tratamento imediato. Por repetidas alegações de falta de vagas, permaneceu em Centros de Detenção Provisória por 10 anos. Durante esse período, foi avaliado periodicamente por especialistas que reafirmavam sua condição mental e a necessidade de tratamento urgente. Só em 2014, o caso foi parar no Supremo Tribunal Federal e Gabriel foi finalmente transferido para um hospital-presídio. E ele é exceção não por conta do longo tempo que passou esquecido – isso é mais ou menos comum – mas porque a parcela de presos provisórios por homicídios é ínfima perto de crimes como furto, roubo e tráfico de poucas quantidades de drogas, segundo a pesquisa do IITC. Enquanto as vítimas são majoritariamente brancas (mais de 70%) os réus são em sua maioria pretos e pardos (67%), têm entre 18 e 25 anos, um ou dois filhos, com expressiva incidência de situação de rua. Mais de 80% das mulheres presas são mães. O relatório aponta ainda que na unidade do CDPI de Pinheiros, muitos são usuários de drogas ou dependentes químicos e vivem em situação de rua.

Reprodução de trecho do processo de Gabriel*

Reprodução de trecho do processo de Gabriel*

“Quem a viatura para?” questiona o desembargador Marcelo Semer, membro e ex-presidente da Associação Juízes para a Democracia, que atua na área criminal há 25 anos e passou alguns deles em uma Vara Criminal de São Paulo. “90% dos processos que a gente tinha na Vara Criminal eram de flagrantes da Polícia Militar, era quem fazia nossa triagem. E a PM aborda muito mais na periferia que no centro, muito mais o jovem que o idoso, o negro que o branco, isso já traz uma seleção”, define. “E o réu é o último a ser ouvido, isso não acontece antes de dois meses”. Rafael Custódio, coordenador do programa de justiça da Conectas acrescenta: “Só depois desse período acontece o primeiro contato do réu com juiz e o defensor público. Se há tortura, como está o contato com a família, condições de saúde, tudo isso só vai ser avaliado depois desse tempo. Quer dizer, o Estado só sabe que esse cara existe depois de no mínimo dois meses”.

Segundo levantamento de 2013 da Anadep (Associação Nacional de Defensores Públicos) e do Ipea, o Brasil conta hoje com 11,8 mil juízes, 9,9 mil promotores e apenas 5 mil defensores. Só no Fórum da Barra Funda, em São Paulo, cada defensor é responsável por 2,5 mil processos criminais. 

Lei veio pra soltar, mas prende ainda mais

Em 2011, foi criada a lei 12.403/2011 para tentar melhorar esse cenário. Ela proibiu, por exemplo, a prisão preventiva nos casos em que mesmo se a pessoa fosse condenada não receberia pena de prisão. Também trouxe mais opções de medidas cautelares que podem substituir a prisão. Mas o que se tem visto, segundo os defensores públicos, é que a lei tem prendido mais do que soltado. “Uma das medidas que ganhou força com essa lei foi a fiança. Então para uma pessoa que não pode ter a prisão preventiva decretada, o juiz determina que pague tantos salários mínimos. E aí a gente descobriu uma coisa assustadora que é o número de pessoas presas simplesmente por não ter dinheiro para pagar essa fiança” explica Patrick. “No início tiveram casos absurdos de fiança de 5 mil reais para moradores de rua. O juiz diz ‘não estou decretando prisão, estou pedindo fiança’ e a pessoa não tem como pagar”. Bruno lembra um caso recente: “Nós acabamos de soltar uma mulher que tinha furtado uma barrinha de chocolate e o juiz sentenciou a pagar fiança de um salário mínimo. Obviamente ela não tinha o dinheiro, por isso ficou presa. E o juiz sabe disso, né? Ele não é inocente nessa história, a finalidade é essa, de continuar um projeto higienista de tirar a pobreza da rua e já que não dá pra jogar todo mundo na prisão a gente dá um jeito de fazer isso! A gente tinha várias reformas para diminuir a população carcerária no país que incrivelmente só incrementam”. Patrick lembra de um caso tocante: “Eu estava no Dipo (Departamento de Inquéritos Policiais e Polícia Judiciária de São Paulo), na Barra Funda e tinha dois casos de fiança. Chegaram duas famílias. Uma tinha juntado todo o dinheiro que podia e foi para o Fórum com 600 reais. A outra tinha um pouco mais. Mas as duas eram muito pobres. A decisão do juiz, para as duas famílias, foi fiança de um salário mínimo. Uma das famílias tinha e a outra não. O juiz não quis reduzir o valor. Então uma família deu a diferença para a outra. ‘Olha, meu filho foi liberado, não achamos justo o seu ficar. Toma aqui esses 180 reais’. Marcelo Semer acrescenta: “Com a nova lei aumentou o número de crimes afiançáveis e portanto o uso da fiança. Só que, para quem não tem condição de pagar fiança, significa prender. E eu vi isso muitas vezes na Vara Criminal. Em muitos casos o réu já podia ter pago a fiança mas não pagou e estava preso. A gente tem que somar isso a uma enorme seletividade da prisão. Acho que esse é o problema maior. A gente só tem esse volume grande de prisão provisória porque ela é seletiva. Só tem esses milhares de presos provisórios porque atinge uma camada excluída”. Outro ponto polêmico, segundo Semer, é o uso de tornozeleiras eletrônicas. “A ideia da tornozeleira seria interessante se tirasse as pessoas da prisão mas o que se faz, em via de regra, é levar um pouco de prisão para a liberdade. Naqueles casos em que a pessoa vai ser solta, o juiz manda por a tornozeleira para a pessoa não ficar totalmente solta”.

A advogada Gabriela Ferraz, do ITTC explica: “As tornozeleiras foram pensadas para favorecer o desencarceramento, mas, hoje, essa função foi deturpada já que acabam sendo usadas como uma forma adicional de punição, seguindo os passos das pessoas presas que, por lei, têm direito de gozar de saídas temporárias sem controle do estado”. Bruno Shimizu acrescenta: “Não é uma tornozeleira, é uma tornozeleira com uma mochila e um GPS bem difícil de carregar. A mochila não pode ficar distante da tornozeleira. Qual é o resultado disso? Quando a defesa pede que se aplique uma medida cautelar para que a pessoa não fique presa, o juiz responde não temos tornozeleiras então vamos decretar prisão. Mas quando a pessoa já teria direito a saída de natal, tem tornozeleira”. Patrick lembra que a Defensoria foi convidada a participar de uma Audiência Pública na Assembléia Legislativa, para discutir o uso de tornozeleiras e percebeu que o perfil da plateia estava diferente do usual. “A plateia estava cheia de pessoas engravatadas. Na hora em que abriram para as perguntas, todas as pessoas que levantaram as mãos eram representantes de empresas desse equipamento, querendo participar de licitação”. Semer observa que “o Estado natural do réu dentro do processo é a prisão quando na lógica tem que ser ao contrário. Quando você libera o réu diz que concede liberdade provisória. Só por esse nome a gente já vê o quão fugaz é a ideia de liberdade”.

O que o Estado me devolveu

Dona Rosa chega à sede da entidade “Mães dos Cárceres”, fundada e mantida pela rapper Andréia M.F na Praia Grande, com vários papéis dobrados nas mãos. São os laudos médicos e receitas que mostram os surtos que seu neto tem desde que saiu do CDP da Praia Grande há mais de 5 anos. A avó conta que ele foi pego, aos 18 anos, em uma batida policial em um salão onde cortava os cabelos e levado junto de pequenos traficantes. Ficou lá por dois anos. “Quando ele saiu, não era o mesmo. Eu percebi que ele foi mudando comigo, sabe? Quando eu ia visitar ele não me reconhecia, me mandava embora. E eu que criei ele, a gente era muito apegado”. Quando ele saiu, conta Dona Rosa, não reconhecia ninguém, não quis voltar a trabalhar e nas poucas vezes que abriu a boca foi pra dizer que comeu sabão, que sofreu, que quase morreu e para brigar com ela. “Ele nunca teve nada, daí agora o médico disse que é esquizofrenia. Ele quebrou minha casa inteira, me expulsou de casa. Eu vendo camarão na praia e ele não me deixa entrar lá pra cozinhar. Estou dormindo em um quartinho do lado da casa mas não sei como vou fazer. Internaram ele na Santa Casa mas mandaram de volta um mês depois. Ele não quer tomar o remédio, não quer fazer o tratamento, já apanhou na rua de uns meninos e da polícia. Você vê, foi isso que o Estado me entregou de volta”.

Dona Rosa* segura os laudos e receitas médicas do neto, que saiu do CDP da Praia grande com graves  transtornos psicológicos

Dona Rosa* segura os laudos e receitas médicas do neto, que saiu do CDP da Praia grande com graves transtornos psicológicos / Foto: Joseh Silva

Lei de drogas agrava o problema

Rafael Custódio acredita que a lei de drogas também agrava muito o uso abusivo da prisão provisória no país. “Não dá pra falar sobre presos provisórios sem falar sobre lei de drogas. Porque 90% dos presos relacionados a drogas são presos em flagrante, muitos de uma vez. 60%, 70% tem um perfil muito claro que é o cara da periferia, jovem, que é preso sem armas, já distante da sociedade de consumo estabelecida e que é preso por conta dessa estrutura a criminal que a gente tem. Quem mais age aí é PM, que é quem mais prende no Brasil. E ela trabalha na lógica da quantidade mesmo, que é uma lógica pouco inteligente e sofisticada, quase sem investigação. Você não está desarticulando o sistema do tráfico de drogas, sequer chegando perto disso. Você pega o menino que está nessa atividade que é rapidamente substituído. Nosso sistema hoje é construído para proteger o patrimônio e cumprir lei de drogas”.

Marcelo Semer acrescenta que a lei mais severa também criou um grande problema de encarceramento feminino. “Antes o número era pequeno mas elas passaram a a cumprir no mínimo três anos em regime fechado. Nem homicídio cumpre isso”.

Tortura e más condições

Na pesquisa do ITTC, abundantes foram os depoimentos de homens e mulheres que disseram ter vivenciado experiências de tortura como o “zigue-zague” (para desorientar e fazer com que as pessoas algemadas batam a cabeça), o “micro-ondas” (quando o suspeito fica horas “esquentando” dentro do camburão) , o uso de spray de pimenta diretamente nos olhos e no nariz, a invasão de domicilio, o flagrante forjado, a extorsão, a discriminação racial e a ameaça contra parentes (inclusive crianças). “Em se tratando da população feminina, também foram marcantes as denúncias de violência sexual, que abrangem pedido de propina sexual, apalpadas durante a revista por policial masculino, obrigação de ficar nua e ameaça de estupro” aponta. Os números chamam a atenção: dos entrevistados, 57% dos homens disseram ter sido abordados por policiais muitas vezes; 56% disseram ter sido agredidos verbalmente por policiais muitas vezes, 35,6% disseram ter sido agredidos fisicamente por policiais muitas vezes. Entre as mulheres o número cai para 19,4% abordadas muitas vezes por policiais; 23% agredidas verbalmente; 10,2% agredidas fisicamente muitas vezes e 43,7% que viram muitas vezes policiais agredirem pessoas.

As más condições dos Centros de Detenção Provisória também têm sido denunciadas pelos órgãos de direitos humanos. “O CDP de Pinheiros chegou a abrigar mais de 1700 presos ao passo que sua capacidade é de 520, tendo sido interditado em dezembro de 2010, período que foram interrompidas as inclusões. A penitenciária feminina de Santana possui capacidade para 2400 mulheres mas sua população, em 2010, era de 2700 (ver site da SAP) das quais 840 eram presas provisórias” relata a pesquisa do ITTC. No CDP da Praia Grande, a situação é tão grave – há mais de 1600 presos em um espaço com capacidade para 512 em instalações e condições extremamente precárias – que a Defensoria Pública entrou com uma Ação Civil Pública pedindo sua interdição parcial.

“O CDP de Pinheiros já tem essa alcunha de novo Carandiru, porque tem 6 mil homens onde cabem cerca de dois mil. E você conversa com os caras lá, são viciados em crack então roubaram, ou são viciados por isso traficam. Tem uma das unidades que fica a população de rua, a cracolândia, casos que não representam nenhum perigo” comenta Rafael Custódio. E acrescenta: “Os CDP’s geralmente são piores do que as penitenciárias porque em geral a estrutura física não é praquilo, não foi concebida para ter tanta gente, por tanto tempo. São grandes pra encher de gente. Falta médico, dentista, advogado, atendimento psicológico, roupa, comida de qualidade”.

O Centro de Detenção Provisória do Complexo de Pedrinhas, no Maranhão, também ganhou a mídia em 2014, quando mais de 15 homens foram encontrados mortos e mais de 100 fugiram.

Cárcere do Complexo Penitenciário de Pedrinhas, onde houve mais de 15 mortes e mais de 100 fugas em 2014

Cárcere do Complexo Penitenciário de Pedrinhas, onde houve mais de 15 mortes e mais de 100 fugas em 2014 / Foto: Conectas

Audiência de custódia

Ainda neste mês de fevereiro deve ser implementado em São Paulo um projeto piloto, de Audiência de Custódia. A ideia é que, dentro de 24 horas, o juiz entreviste o preso e ouça manifestações do seu advogado ou da Defensoria Pública, além do Ministério Público. Ele deve analisar se a prisão é necessária e poderá conceder a liberdade, com ou sem a imposição de outras medidas cautelares. Também poderá avaliar se houve tortura ou maus-tratos. Na verdade, isso não é algo novo. A audiência de Custódia está prevista em pactos e tratados internacionais assinados pelo Brasil como o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e a Convenção Interamericana de Direitos Humanos, conhecida como Pacto de San Jose. Caso não seja distorcido como a lei de 2011, deve começar uma mudança nesse cenário das prisões provisórias. Mas na opinião de quem trabalha com isso, é difícil de acreditar que uma política possa mudar um conceito maior, que está sob o guarda-chuva do encarceramento em massa.

“Qual é o centro do direito penal? A propriedade. Não é a vida. Quer ver? Para homicídio você tem uma pena que vai de 6 a 20 anos. O roubo com arma já começa com no mínimo 5 anos e 4 meses. E há uma chance muito maior do homicídio simples ganhar o semi-aberto do que o roubo. Você pega o sequestro que a gente tem como um crime grave. O sequestro em si é um crime leve. Quando você coloca sequestro com objetivos libidinosos ele fica um pouco mais duro. Mas ele se torna um crime grave quando é extorsão mediante sequestro. Quando tem dinheiro é um crime ‘top’. O latrocínio já começa com 20 anos. Mesmo que não tenha sido intencional. Se na hora do roubo a vítima morre, mínimo de 20 anos. Se furtar uma coisa pequena sua ou se ele te der um soco e você ficar internado no hospital é a mesma coisa. Todo o direito penal, o epicentro dele é a propriedade privada. Então se o crime contra a propriedade é mais importante, é obvio que o pobre vai ser mais preso do que o rico” explica Semer.

A coordenadora de pesquisa do Programa Justiça sem Muros do ITTC, Raquel da Cruz Lima, alerta: “A gente está chegando em um ponto insustentável. Mesmo o gestor mais entusiasta das prisões está em dificuldade. Faltam mais de 200 mil vagas e já se provou que com esse modelo não é possível. Essas alternativas que têm surgido também estão ligadas a essa insustentabilidade. Mas se o sistema continuar respondendo de forma dura, cruel, com a finalidade desse encarceramento compulsório, nada disso vai adiantar”.

*Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados

Assista ao minidoc do Instituto Terra, Trabalho e Cidadania sobre Como se Prende no Brasil

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02 Feb 16:37

O padrão Globo de cobertura de casos de sonegação fiscal alheios

by Joaquim de Carvalho
  Esta reportagem faz parte da série do DCM sobre o escândalo de sonegação da Globo. Elas foram produzidas com financiamento dos leitores através do Catarse. As demais estão aqui.   Quando um hotel em Brasília quis dar emprego a José Dirceu, na época preso pelo caso do mensalão, um repórte...
31 Jan 11:36

Golpe a galope

by Luis Fausto

Não se surpreendam, mas se assustem.

O golpe antes sussurrado, até pouco tempo restrito às quatro paredes de jornalistas inconseqüentes e políticos irresponsáveis, agora ganha voz, toma forma e já se pode vislumbrar aqui e ali porque os seus defensores perderam definitivamente a vergonha e mergulharam de vez no mar da insensatez.

Se não conseguiram nas urnas impedir a vitória de Dilma Rousseff, querem derrubar a presidente nos jornais inconformados com a livre democracia, nos tribunais viciados em sentenças inconstitucionais, nos palanques que nunca foram desmontados.

Assim ocorreu m 1954, quando Getúlio Vargas foi obrigado a suicidar-se para não submeter-se à ira dos seus inimigos.

Assim também em 1964, quando os militares tomaram o poder e mergulharam o país em 21 anos lamentáveis.

Em ambas as oportunidades, os personagens que tramaram, que conspiraram, eram os mesmos de agora em seus postos de comando.

Só os nomes mudaram, as estratégias continuam iguais.

Basta saber ler, e raciocinar com alguma clareza, para se chegar a essa conclusão.

Ontem mesmo, por exemplo, o senador tucano José Serra, duas vezes derrotado pelo PT na corrida presidencial, disse sem rodeios que Dilma não concluirá seu mandato., e repetiu-se dez anos depois com a tomada do poder pelos militares, que durou 21 anos, está. “Há um completo desgoverno, agravado pela crise econômica e pelas denúncias de corrupção” – foram as palavras de Serra que Ilimar Franco, jornalista de O Globo, transmitiu em sua coluna.

Há alguns dias foi a vez de Aécio Neves, também senador do PSDB, derrotado há meses por Dilma, soltar uma nota oficial para dizer que a presidente não tem “responsabilidade e coragem” para administrar o país.

Na Justiça, o magistrado Sérgio Moro, responsável pela operação (Lava Jato) que investiga desmandos na Petrobras, continua permitindo vazamentos seletivos do processo, todos eles incriminando apenas e somente o PT, e reconheceu recentemente que o doleiro Alberto Yousseff, principal responsável pelas delações premiadas, pode pegar apenas cinco anos de prisão e voltar para casa com um bônus de até 20 milhões de reais pela sua contribuição. Um expediente inconstitucional que nunca se viu e nem se registrou na história brasileira.

Na imprensa, o quadro de conspiração aberta, escancarada, não é diferente. Basta se ater ao cálculo recente feito por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mostrando claramente que “Dilma continua sob fogo cerrado da cobertura da imprensa familiar”. Segundo os pesquisadores, a presidente “não foi contemplada nem com o mais leve esboço de uma lua de mel. Pelo contrário, logo após o resultado eleitoral a oposição, novamente ancorada pela militância dos grandes meios de comunicação, tentou pelo menos duas maneiras de
inviabilizar sua posse: pedindo recontagem de votos por alegação de fraude e pressionando o TSE pela rejeição de suas contas de campanha.”

Daí a necessidade de se reagir enquanto é tempo, é hora.

Gilberto Carvalho, o ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, deu o primeiro tom ao despedir-se do governo pregando que ninguém deve levar desaforos para casa.

João Santana, o marqueteiro responsável pela propaganda de Dilma à reeleição, lançou um livreto onde conta a sua experiência e diz estarmos “vivendo um momento raro na nossa política, que é o dos derrotados fanfarrões.

E a própria Dilma, em reunião ministerial na última terça-feira, pediu à sua equipe que responda a todos os questionamentos feitos, a todas as acusações disparadas, mostrando didaticamente o que o seu governo já realizou e o que realizará até 2018.

Se deixarem, claro…

P.S. – Em tempo, só para atualizar. Em reportagem de hoje, o portal Brasil 247 reforça a tese do golpe a galope custe o que custar. Mostrando que a nova edição da revista Veja chega às bancas com a capa focada na Operação Lava Jato, mais precisamente no ex-presidente Lula e na presidente Dilma. O objetivo é levar Lula à cadeia e Dilma ao impeachment. Leiam aqui.

30 Jan 20:40

Esquina mais famosa de São Paulo ganha faixa para travessia em “X”

by Rachel Schein
Foto: Rachel Schein
Antes da faixa em X, travessia de pedestres era feita em duas etapas e durava 159 segundos. Agora, a caminhada é feita de uma só vez e dura 88 segundos.
30 Jan 20:24

Trieste ou uma estranha forma de vida

by Francisco Seixas da Costa

Eu devia ter aí uns dez ou onze anos. O nome surgiu numas palavras cruzadas, com que o meu pai e o meu avô materno entretinham as horas desses serões ainda sem televisão, lá por Vila Real: “Cidade livre no mar Adriático”, com sete letras.

A palavra era Trieste. Nome estranho. Nunca tinha ouvido falar e, no entanto, ela surgiu, fácil, ao meu pai e ao meu avô, que se entretiveram a falar sobre a história da cidade. Eu já tinha então o saudável vício de consultar dicionários por tudo e por nada, mas posso imaginar que me terá soado bem bizarro ler no gordo “Prático Ilustrado” da Lello (verifico agora) que se tratava de um porto na “Venécia Juliana”…

Na conversa dos mais velhos, ouvi então dizer que a tal Trieste tinha sido ou era uma “cidade livre” e isso, recordo bem, excitou a minha imaginação. O que seria uma “cidade livre”? Um lugar onde podia fazer-se o que se quisesse? Abandonando por algum tempo o jogo cruzadista, eles falavam de Trieste ter estado sujeito às mãos de vários poderes. Que coisa interessante! Como seria Trieste?

Um dia, o meu pai mostrou-me, na sua coleção de selos, um carimbo grosso com a palavra Trieste. Era um selo da “cidade livre”!

O nome de Trieste nunca mais abandonou a minha imaginação, num tempo em que o estrangeiro era apenas, para mim, a vilória galega de Verin. Porém, saber do destino trágico de uma urbe, que tinha tido uma existência sobressaltada por muitas guerras, casava bem com a quase homofonia que a ligava à palavra “triste”. Talvez por isso, e por alguma coisa mais que pudesse entretanto ter lido, era a imagem de uma cidade triste a que eu fixara para sempre desse porto do Adriático que não conhecia.

Trieste esteve, por muitos anos, fora das rotas das viagens a que a vida me conduziu. Um dia, numa ida a Veneza, ao sugerir a alguém que a organizou uma “saltada” a Trieste, ali perto, a minha ideia foi recebida com espanto. “Trieste? Mas para que quer ir a Trieste?”. Só faltou que dissessem: “Ninguém vai a Trieste!” Era difícil explicar que uma minha curiosidade de infância alterasse planos de viagem de um grupo. E, lá no fundo, eu sentia-me embaraçado em ter de confessar esse estranho e pouco adulto fascínio. Adiei assim a minha ida a Trieste.

Um dia, em Viena, numa conversa com uma colega, tendo vindo à baila o nome de Trieste, ela sugeriu-me, sobre a cidade, um livro então recente de uma escritora de viagens (até anos antes, escritor, porque entretanto mudou de sexo…), Ian Morris. O título do livro não podia ser mais mobilizador da minha curiosidade: “Trieste or the meaning of nowhere”… Comprei-o, devorei-o e era, de facto, interessante (o volume ainda deve andar por alguns caixotes, fechados desde a partida de Paris). Reforçou-se a minha curiosidade por Trieste.

Passaram uns tempos e, surpresa das surpresas, não é que o governo italiano me convidou um dia a integrar uma mesa redonda em Trieste, sobre questões de segurança internacional!? Aceitei com o entusiasmo de um neófito. Finalmente, Trieste surgia na minha rota de vida. Foi há pouco mais de dez anos.

Ido de carro da Áustria, através da Eslovénia, cheguei num fim de tarde a uma cidade serena, que apenas pela língua soava a italiana. Instalei-me no (então) excelente “Duchi d’Aosta”, na Piazza d’Unità d’Italia. A praça, sobre o mar, dava ares de uma miniatura da nossa Praça do Comércio. Dominava-a o edifício do Municipio. Olhando dela a baía, pressentia-se uma grandeza perdida. Por detrás da sede municipal, ficava a Cidade Velha, que conduzia ao Duomo e ao Castelo de San Giusto, bem como à Basilica de San Silvestro. Confirmei agora os nomes, que já deixara escapar com o tempo.

Nos dois dias seguintes, subi de taxi essa colina para estar nos debates, que tinham lugar na universidade. Pelo meio da tarde, descia a pé as ruelas, tentando perceber a vida fora das grandes artérias. Como viajante, esclareço, sou um “voyeur” de periferias, tenho um vício bisbilhoteiro dos bairros decadentes, encantam-me ruas com pouca gente, casas comerciais sem charme, becos esconsos. Acho que a alma das cidades está mais por aí do que está nas avenidas com lojas estandardizadas.

Trieste, nesse capítulo, não me desiludiu. Nela, os bairros juntam casas antigas com uma arquitetura estranha, idêntica àquela de que estão cheias as cidades do pós-guerra, de uma funcionalidade sem grande graça. Mas, ao mesmo tempo, consegue-se perceber por ali algo mediterrânico, no pálido manchado dos ocres, nas varandas com flores. Lembro-me de ver castanhas à venda, como em Lisboa, o que me confortou.

Perto do porto, os bares e os cafés tinham menos interesse do que eu esperava. Trieste chegou a ser o porto axial do Mediterrâneo e era muito vulgar que as linhas de transporte marítimo trouxessem a menção “via Trieste”, como marca dessa centralidade. Os tempos, porém, eram outros.

Na minha agenda, levava o nome de alguns cafés. Um deles, o “Pirona”, mais pastelaria que café, tinha a fama de ser frequentado por James Joyce, nos dez anos que passou em Trieste. Já o “Tommaseo” se diz ligado à libertação italiana no século XIX. Curiosamente, a sua arquitetura e decoração lembram mais um café de Viena do que um espaço de Itália. Acabei a tarde, frente ao meu hotel, com um “prosecco” no “Caffé del Specchi”, um local elegante, com toque turístico, mas, mesmo assim, incontornável, como alguns gostam agora de dizer.

Volto às origens da cidade. Não os queria maçar muito com a sua confusa história, bem como do território que lhe estava adjacente. Porém, sem ela, não é possível entender o seu caráter tão peculiar, na charneira de vários mundos.

Durante muito tempo, Trieste foi o porto meridional do império austríaco, com o alemão a ser a sua língua. A Itália sempre a cobiçou e viria a ocupá-la após a derrota alemã na primeira guerra mundial. Depois, foi a vez dos nazis, nos anos 40, que a utilizaram como centro para a repressão. Viria a tornar-se-ia jugoslava no termo da segunda guerra. Para ultrapassar o contínuo interesse conflitual da Itália e da Jugoslávia, os Aliados deram-lhe o estatuto de “território livre”, com a URSS e os EUA a terem sobre esse espaço uma dupla tutela, também ela sempre polémica, o que levou à sua divisão em duas zonas de ocupação militar, que se consagrariam mesmo numa partição institucional efetiva em 1954. Apenas em 1975, se encontrou uma solução, com a Jugoslávia (hoje a Eslovénia) a ter direito a territórios a leste e a Itália a fixar-se na cidade. Confuso? Deve ter sido bem mais para quem por lá vivia e foi sujeito a todas estas bolandas, sem direito a pronunciar-se sobre o seu próprio destino.

Flanar por Trieste implica uma visita obrigatória à estação ferroviária. Com alguma imaginação, poderemos ver por ali a sombra do Orient Express dos tempos áureos, na sua rota para Istambul. Se tivesse pretensões de guia turístico, teria também de recomendar o passeio pelas margens do Canal Grande, com uma entrada na bela igreja ortodoxa ou na impressionante Sinagoga, bem como uma sortida ao Palacio de Miramare. Pouco mais.

Recomendo Trieste aos nostálgicos irónicos da História, aos cultores da sociologia empírica que se entretêm a olhar as gentes e os costumes, sem pretensões de sínteses definitivas e inteligentes, mas apenas como forma de tentarem perceber, modestamente e com prazer, o que por ali resta dos mundos atravessados no seu passado. Aviso à navegação: para os amantes das cidades “óbvias”, Trieste pode ser uma imensa seca. Não tem nenhum do “glamour” típico da Itália ali ao lado. Repercute apenas uma distante dignidade dos tempos dos Habsburgos e de quantos lhes seguiram os caminhos. Nem sequer revela a rudeza da alma eslava do seu leste balcânico. De facto, Trieste não é já quase nada disso, ou melhor, é apenas o saldo sofisticado de tudo isso. Mas apenas para quem o souber ler, claro.
28 Jan 11:52

30% da água de SP foge pelo ladrão. Quem é o ladrão e quem mais consome a água que falta na sua casa

by Antônio Mello

Para tentar tirar o corpo fora, o governador Alckmin e a Sabesp estão querendo criar uma rede de intrigas entre vizinhos para que um denuncie o outro por lavar o carro, a calçada ou dar descarga demais.

Isso tudo é uma impostura. E explico por quê:

31% de toda a água de São Paulo é desperdiçada, vai para o lixo, graças aos vazamentos que a Sabesp não corrigiu.

Sobram 69%. A agricultura fica com 70% deles. A indústria com 22% e o consumidor, que está sendo apontado como vilão esbanjador, com míseros 8% - ou seja, em torno de 5,6% do total da água distribuída.

Portanto, meu amigo paulista, não caia na empulhação que querem lhe enfiar goela abaixo. Se todos os paulistas não consumirem uma gota de água sequer a economia para o sistema será de míseros 5,6%.

O maior vilão, aquele que não economiza, não produz, não gera riqueza é o vazamento que a Sabesp não cuida nem cuidou.

Repito: se todos os paulistas não usarem uma gota de água a economia será de 5,6%.

O desperdício pelos vazamentos não consertados pela Sabesp é de 31%.

Nao brigue com seu vizinho. Una-se a ele e cobre dos culpados, a Sabesp e o governo de São Paulo.

28 Jan 11:47

Morre um preso saharaui na Prisão Negra de El Aaiún devido a torturas e maus-tratos

by noreply@blogger.com (AAPSO)


Cidade ocupada de El Aaiún, 27/01/2015 (SPS) – Faleceu na tarde de ontem, segunda-feira, na prisão Negra de El Aaiún, o preso saharaui Abdul Baqi Aliyen Antahah em consequência de torturas e maus-tratos às mãos dos guardas prisionais marroquinos, informam fontes do Ministério dos Territórios Ocupados e da Diáspora.

Segundo a mesma fonte, Abdul Baqi, de 22 anos de idade, cumpria uma pena de um ano e meio desde a sua detenção há um mês, mas a sua "rejeição e insatisfação com as más condições da prisão, onde diariamente se humilham os presos saharauis, foram a causa para o terem levado para uma cela de isolamento onde foi barbaramente torturado."


A mesma fonte, referiu que Abdul Baqi tinha sido torturado desde a passada quarta-feira quando foi submetido a um regime de isolamento, e desde sexta-feira encontrava-se em estado de inconsciência total e não recebeu nenhuma atenção médica, o que o levou à morte.


Com o falecimento de Abdul Baqi Anthah, eleva-se para oito o número de saharauis mortos em prisões marroquinas nos últimos dois últimos anos sem que tenha havido a mínima investigação para determinar as causas dessas mortes e castigar os culpados.
28 Jan 11:45

JN amordaça oposição a Alckmin ao noticiar crise hídrica em SP

by eduguim

oposição capa

 

Quando o Jornal Nacional noticia alguma suposta deficiência do governo federal, certas figurinhas carimbadas da oposição a esse governo têm espaço garantido para criticá-lo. Álvaro Dias (PSDB-PR) ou Agripino Maia (DEM-RN) já se tornaram figuras familiares para boa parte dos brasileiros devido à grande exposição que têm naquele telejornal cotidianamente.

O assunto pode ser o escândalo na Petrobrás, a suposta crise de energia elétrica no país, o baixo crescimento da economia, a inflação, seja lá o que for que o JN – e congêneres – noticiar sobre problemas de responsabilidade do governo federal, lá estará algum oposicionista – de preferência, os dois supracitados – para acusar Dilma, hoje, assim como fazia com Lula, ontem.

Nesta terça-feira 27, porém, a matéria do Jornal Nacional sobre a crise hídrica em SP mais do que justificaria que a oposição ao governo do Estado fosse chamada a opinar sobre o assunto, assim como a oposição a Dilma é chamada a comentar problemas que dizem respeito ao governo dela, como os citados no parágrafo anterior. Porém, como de costume, não rolou.

O vídeo abaixo mostra a gravidade do que foi anunciado pelo governo paulista em relação ao racionamento de água que deve começar a viger em São Paulo em mais algumas semanas. Poucos suspeitaram de que o problema fosse tão grave. Os paulistanos terão água na torneira apenas 2 dias por semana.

Já se tornou ocioso repetir que responsabilidade o governo Geraldo Alckmin tem sobre o problema. Além da imensa responsabilidade do PSDB por governar SP desde 1995 (VINTE ANOS ATRÁS) com o mesmo Alckmin e com José Serra, o atual governador agravou sua responsabilidade ao esperar passar o período eleitoral e as festas de fim de ano para tomar medidas mais drásticas para poupar água.

Alguns dirão que Dilma também não tomou as medidas econômicas que está tomando agora e que são impopulares. Pode-se discutir essa questão. Durante o processo eleitoral, porém, tanto o programa de governo de Dilma quanto seus principais expoentes disseram várias vezes que seria necessário desmontar a política anticíclica que ao longo dos últimos 5 anos impediu que o país sentisse o auge da crise econômica internacional.

Em 2 de outubro de 2014, por exemplo, a três semanas da eleição presidencial em segundo turno, em entrevista ao portal G1, da Globo, o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse, com todas as letras, que seria preciso “(…) desmontar a política anticíclica, de expansão de gastos públicos para combater a desaceleração da economia (…)”.

Quem não prestou atenção na campanha de Dilma, paciência. Quem se informou direito sabia que as medidas de austeridade tomadas recentemente viriam, ainda que não tenham sido detalhadas na época, mas que eram imagináveis.

Seja como for, verdadeira ou não, a suposta contradição entre o que Dilma disse na campanha e o que fez após se reeleger foi apontada no Jornal Nacional, entre outros, por membros da oposição. Por que o mesmo Jornal Nacional não chama a oposição a Alckmin para comentar medidas como as que o governo dele acaba de noticiar, em relação à crise hídrica?

Então ficamos assim: o governo Alckmin adiou medidas urgentes por conta das eleições e, com isso, aumentou a dramaticidade do racionamento de água recém-anunciado pelo governo paulista. Os cinco dias sem água por semana poderiam ser três, talvez dois se, em meados do ano passado, o governo paulista tivesse feito o que era preciso.

Aliás, à oposição ao governo paulista caberia, também, dizer na Globo que a crise hídrica em SP é uma crise anunciada há mais de uma década, como mostram matérias da imprensa, à época.

O mais grave em tudo isso é que o amordaçamento da oposição a governos tucanos é regra na Globo. Só fala a oposição a governos petistas, sobretudo ao governo Dilma.

Nesse aspecto, em meados do ano passado o deputado estadual pelo PT de São Paulo Antonio Mentor deu entrevista a este Blog em que relatou a dificuldade da oposição ao governo Alckmin de se fazer ouvir pela mídia, sobretudo pela Globo, por falta de interesse desses veículos no que acontece em SP e, mais do que isso, no que tem a dizer essa oposição.

mentor

 

Dessa forma, como foi possível ver no vídeo acima, o Jornal Nacional – e congêneres – deixa em branco o espaço para que o seu telespectador questione os governantes, já que, sem a crítica que o telejornal permite à oposição ao governo Dilma fazer, o governo tucano de SP acaba blindado.

Contudo, uma coisa é certa: se os paulistas não aprendemos pelo amor quem é que controla a distribuição de água em São Paulo – e, por isso, mais da metade de nós pensa que a responsabilidade é do governo federal –, aprenderemos pela dor durante o longo e penoso racionamento de água que temos pela frente. Cedo ou tarde, os paulistas vão se revoltar.

27 Jan 15:42

Árvores, chuvas, falta e economia de água em São Paulo

by Ricardo Cardim

Ouvi o seguinte comentário essa semana “Tem que parar de plantar árvores, porque não podemos gastar água para regar até elas pegarem”. Na feira de plantas do Ceagesp, um tradicional vendedor reclamava que ninguém queria mais comprar plantas com o medo de não ter água para regar depois, e o movimento estava ruim.

Parece que está havendo uma inversão de valores: de “fábrica de água” que são as plantas, elas passaram a ser vilões e responsáveis ou exemplos de desperdício de água. Que situação. Continuando essa linha de pensamento, o futuro de São Paulo está claro, é um extenso deserto construído empoeirado e quente.

Daqui a pouco começam a indicar o plantio de cactos e plantas suculentas de deserto – que gastam pouca água, mas também não retornam quase nada para a atmosfera e mais chuvas – é o caminho para deixarmos de ser uma cidade na Mata Atlântica para uma estepe desértica.

Pouco se falou ultimamente na mídia, mas a vegetação tem um papel fundamental para a abundância de água na cidade. Através da fotossíntese, ocorre a liberação de vapor no ar, que o umidifica e favorece as precipitações. As árvores adultas, com suas profundas raízes, tiram milhares de litros de lugares inacessíveis do solo e a jogam na atmosfera.

E sem esquecer do mais importante na urbes: a chuva que cai não escorre e desaparece rapidamente no bueiro, ela se retem nas folhas e galhos, e  se houver espaço permeável, segue para alimentar o lençol freático, que abastece os rios e represas.

Estratégias de irrigação e reaproveitamento não faltam para regarmos as nossas “fábricas de água urbanas”. Desde a água da lavagem de alimentos até cobertura morta no solo podem ser usados. Água para áreas verdes urbanas, se usada com inteligência, não é desperdício, é investimento.

Para lembrar…

Ricardo Cardim

27 Jan 15:42

Síndroma de Estocolmo

by Francisco Seixas da Costa
Tem algo de patológico o conhecido "síndroma de Estocolmo", o estranho sentimento de afetividade que alguns raptados criam face aos seus raptores, depois um período de pressão psicológica. O governo português parece ter-se tomado de amores masoquistas pelas receitas da Alemanha, na lógica do "quanto mais me bates mais gosto de ti". Deve provocar sorrisos piedosos nos corredores da chancelaria berlinense este afadigado seguidismo face às versões mais radicais da austeridade, este extremado tropismo a fingir de "nórdico", este liberalismo obsessivo que atravessa a maioria cessante.

Lembrei-me ontem disso ao ouvir as lamentáveis declarações do primeiro-ministro, desqualificando de uma forma muito pouco elegante as propostas do Syriza, com o objetivo claro de agradar à tutela alemã. Foi triste e alguém deveria dizer ao dr. Passos Coelho que, nas relações internacionais, é de bom tom manter respeito pelos seus contrapartes, em especial tratando-se do líder eleito de um país aliado e amigo. Por maiores que sejam as divergências que tenha face às suas opções políticas, causa-me sempre um grande incómodo ver um qualquer dirigente do meu país fazer "tristes figuras" na ordem internacional, como ontem aconteceu. Já quanto aos comentários, também de grande infelicidade, do dr. Pires de Lima sobre o mesmo assunto, acho que já todos levamos isso à conta da sua estranha propensão recente para as graçolas de mau gosto, que tem vindo a desgastar a sua imagem. Estará o governo a perder a cabeça?
27 Jan 12:03

Campus, há 20 anos formando profissionais-cidadãos competentes

by Laconcia Santos

Há 20 anos formando profissionais-cidadãos, o Campus Mossoró é referência em enviar ao mercado de trabalho renomados trabalhadores. Um exemplo, é o ex-aluno Bruno W. Maia de Oliveira, formado na turma de ensino médio de 2001, uma época em que foi realizada a experiência de separar o ensino médio do técnico. Sempre dedicado e buscando meios para realizar seus objetivos, Bruno Oliveira conseguiu ingressar, logo após sua formatura, numa das principais empresa prestadora de serviços de petróleo do mundo, a Schlumberger. Uma empresa que emprega cerca de 126 mil funcionários, de mais de 140 nacionalidades e que trabalham em mais de 85 países. “Trabalho nessa empresa há mais de 11 anos, sou muito realizado e grato pela oportunidade que conquistei, graças a firme base chamada educação”, enfoca.

A história de Bruno Oliveira nesta instituição de ensino começou quando ele decidiu fazer uma visita, há quase 14 anos, objetivando conhecer de perto a escola que é sinônimo de compromisso com a educação eficaz. Pois tem preservado, ao longo de 20 anos, a arte de ensinar com qualidade. “Sou categórico em afirmar que o Campus teve uma influência positiva na preparação do meu futuro profissional”, acrescenta.

De acordo com o Ex-aluno, ele não acreditava que poderia ingressar nesta escola, mas, após uma visita que ele fez, seu pensamento mudou radicalmente. Desse dia em diante, Bruno Oliveira passou a estudar incansavelmente todos os dias, com o intuito de se preparar e conquistar a tão sonhada vaga. “Eu precisava garantir o meu lugar, falava para mim mesmo, e ficava repetindo dentro de mim: é isso que eu quero, é aqui que eu vou estudar”, revela, com sentimento de dever cumprido. Parabéns Bruno Oliveira, a sua determinação lhe proporcionou conquistas que jamais seriam possíveis caso você não tivesse acreditado que seria capaz de superar as limitações.

O referido fala sobre o que mais lhe chamava atenção, na época, ao ponto de lhe motivar para as incansáveis jornadas de estudo. “Eu pensava, após minha visita, essa escola foge do padrão de ensino oferecido nesta cidade”, diz, convicto. Muitas vezes, Bruno, ficava até tarde da noite estudando, por isso, o resultado do seu esforço não poderia ter sido diferente, pois o candidato foi aprovado no primeiro processo seletivo que participou. “Recordo bem esse dia, ele foi muito marcante para mim, senti imensa alegria ao ver meu nome da lista dos aprovados, risos,” frisa, alegremente.

 O segredo da conquista de Bruno Oliveira é que ele soube relacionar coerentemente preparação com oportunidade, a forma mais eficaz de vencer. “Desejo a todos os jovens que sonham em vencer profissionalmente, como eu, que vocês estudem, porque educação é tudo no meio social. No meio transformador sempre vale a pena investir em educação, pois ela garante um futuro melhor para todos. E o IFRN - Campus Mossoró é o melhor lugar de estudar nesta cidade”, explicita.  

Recentemente o Campus comemorou seus 20 anos de atuação no sistema educacional da cidade de Mossoró e Municípios adjacentes, formando profissionais-cidadãos que têm se destacado nos mercados de trabalhos regional, nacional e até internacional. Essas conquistas são frutos da dedicação tanto por parte dos professores, que se esforçam ao máximo, quanto por parte dos alunos que se encorajam diariamente para alcançarem seus objetivos.

 “Nesta escola, fiz amizades que levo comigo até hoje, uma delas é a do meu primeiro professor de matemática, Jailton Barbosa, pessoa que admiro e respeito. Sempre que posso venho aqui matar as saudades do tempo que guardo como boas recordações, agora mesmo estava olhando as placas do pessoal do meu tempo, nossa, passa um flash back na mente, que saudade!” Finaliza, sorridente.

Desejamos ao ex-aluno, Bruno Oliveira, sucesso e felicidade, que você possa realizar todos os seus ideais crescendo e conquistando, cada mais, os melhores espaços no mercado de trabalho. É com satisfação que o recebemos nesta escola, aqui você é sempre bem-vindo, tudo de bom.    

27 Jan 11:28

Como evitar que seu filho seja vítima de violência

by Danillo Ferreira

Como evitar que seu filho seja vítima de violência

“Matei mesmo. Ele disse que ia pegar meu irmão. Tirou onda… Matei.”

As palavras foram ditas por um suspeito de cometer homicídio, em uma ocorrência que participei há algum tempo, onde o jovem (uns 20 anos de idade) foi preso.

Sob o frescor do ar-condicionado, rolando o dedo na timeline do Facebook no celular, o público médio lê a manchete da prisão de um homicida e manifesta expressões que vão da ojeriza à indignação. Faz sentido: um ato ilegal, desumano, inconsequente.

Entretanto, para além da comodidade do julgamento, há uma reflexão necessária e essencial sobre fatos dessa natureza, que espelha a origem de muitas das violências que vivenciamos já quase como autômatos.

Antes de chegarmos ao ponto, há um dado elementar a se considerar: 93,9% dos encarcerados e 93,8% dos assassinados no Brasil são homens, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O que há de errado com os homens?

Talvez você ache absurdo que um jovem mate outro porque este último “tirou onda” com ele. Eu acho. Mas o que possibilita esse tipo de ato?

O fato é que nós, homens, somos péssimos em resolução de conflitos.

Desde muito novos aprendemos a lidar com os desacordos naturais da convivência com grosseria, arrogância e força bruta. Somos socialmente treinados para o embate, e a manifestação afetiva desde cedo é associada à negação da masculinidade.

“A forma de resolução de conflitos praticada por nós, homens, é certamente uma das fontes que faz brotar sangue em nossa sociedade”

Obviamente, essa generalização não dá conta das diversas formações, culturas e variações, mas expressa algo que, de maneira geral, é preocupante.

Mesmo não sendo a única explicação para a violência que nos assombra, a forma de resolução de conflitos praticada por nós, homens, é certamente uma das fontes que faz brotar sangue em nossa sociedade.

Os ciclos de violência e vingança

No livro “O Poder das Conexões”, Nicholas Christakis, estudioso de redes sociais, mostra como ciclos de violência são “virais”:

“Atos de agressão costumam se difundir externamente a partir de um ponto inicial – como uma briga em um bar que começa quando um homem tenta dar um soco em outro que se esquiva, resultando em um terceiro homem sendo atingido e, rapidamente (naquilo que se tornou clichê precisamente porque evoca noções arraigadas da agressão desencadeada), golpes são dados em todas as direções. Às vezes essas epidemias de violência, seja em aldeias do Mediterrâneo, seja em gangues urbanas, podem persistir por décadas”.

Christakis é certeiro quando aponta que, em 2002, 75% dos homicídios cometidos nos Estados Unidos envolvem pessoas que se conheciam, e arremata: “Se quiser saber quem poderia tirar sua vida, olhe as pessoas em volta de você”.

O que tudo isso tem a ver com a forma que os homens lidam com seus conflitos interpessoais?

Basta analisar quem são os brigões em festas e baladas, quem costuma discutir por pequenas questões no trânsito ou mesmo quem jura querer esganar o vizinho porque o incomodou de algum modo.

São nesses pequenos conflitos cotidianos que treinamos a capacidade de tolerância e perdão, ingredientes necessários para interromper ciclos de violência.

O que seu filho tem a ver com isso?

Filme "Em um Mundo Melhor"

Filme “Em um Mundo Melhor”: um pai tentando praticar e ensinar a tolerância.

 

Ensinar os meninos a perdoar, tolerar e desistir de brigas pode poupar muitas vidas.

Como mostra Christakis, a tendência natural é que a violência se propague com muita rapidez e facilidade, e podemos dizer que o fio condutor da brutalidade é a formação revanchista que os homens têm em nossa sociedade.

Quando um sujeito  abandona o ciclo de represálias, a propagação da violência é quebrada, e os efeitos (que fatalmente atingiriam esse mesmo sujeito) são suspensos.

Parece simples, mas é desafiador. Nosso modelo de masculinidade está arraigado há séculos.

O filme canadense “Eu um Mundo Melhor“, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2011, mostra bem o desafio de superar a masculinidade revanchista e agressiva, ao contar a história de um pai que tenta dar exemplos de tolerância aos seus filhos, mesmo quando é agredido ou presencia violências e injustiças.

Concluindo…

Perdoar, ser tolerante e abandonar embates com potencial violento não é ser frouxo ou covarde.

Ao ensinar isso aos nossos meninos, garantimos que eles não façam parte de ciclos de violência que lhes atinjam mesmo quando atacam com a intenção de se proteger.

Como bem diz Marcelo Camelo na canção “O Vencedor”: “Eu que já não quero mais ser um vencedor/Levo a vida devagar pra não faltar amor”.

26 Jan 17:40

O Syriza está a falar a sério

by noreply@blogger.com (José Gusmão)

Depois da vitória eleitoral de Domingo, o Syriza ficou obrigado a negociar um acordo de governo para viabilizar a sua política, naquilo que ela tem de mais central: a restruturação da dívida. Sem uma restruturação da dívida que imponha perdas substanciais aos credores, incluindo os credores institucionais que detêm, de longe, a maior fatia da dívida grega, qualquer discurso sobre o fim da austeridade é conversa.

Nesse sentido, temos já duas boas notícias: o acordo de governo com o Anel e a nomeação de Yanis Varoufakis como Ministro das Finanças. Sobre esta segunda notícia, a escolha parece-me incontroversa. Varoufakis tem sido um incansável e qualificado defensor da restruturação da dívida e o homem certo para conduzir o que será um processo dificílimo, do ponto de vista técnico e político.


Já a escolha do Anel como parceiro para um acordo de governo tem animado um debate esclarecedor entre a esquerda portuguesa. Não é surpreendente: este partido é conhecido por ter posições contra a imigração e os homossexuais que o colocam nos antípodas de um partido como o Syriza. A esse respeito, são relevantes duas notas: (1) a posição do Anel sobre imigração é semelhante à das grandes famílias europeias (PPE e Socialistas) e, portanto, compará-lo à Frente Nacional ou à Aurora Dourada é um exagero que só pode ter propósitos propagandísticos. (2) O acordo Syriza-Anel incidirá sobre as questões económicas e da dívida, deixando de parte qualquer compromisso sobre direitos individuais, área em que as posições são antagónicas e o Syriza tem parceiros bem mais frequentáveis. Era melhor que o Syriza tivesse tido maioria absoluta para dispensar más companhias? Era. Mas não teve.

Seria melhor o Syriza ter privilegiado outros parceiros? Quais, então? O Partido Comunista Grego aceitou reunir com o Syriza, mas apressou-se a adiantar que não faria qualquer acordo de Governo, em coerência aliás com o que já tinha feito na sequência das anteriores eleições. O Pasok defende o memorando e o "respeito pelos compromissos do Estado grego". Os compromissos com os credores, bem entendido, que com os cidadãos não há compromissos relevantes. O Partido de Papandreou não entrou no Parlamento, tal como o Dimar, reduzido à total irrelevância.

Restaria o Potami, um partido de centro, euro-entusiasta, que se tornou a esperança de vários comentadores para "moderar" o Syriza na sua relação com as instituições europeias. O Potami é um partido com o qual o Syriza tem pontos de convergência em muitas áreas e com o qual terá, com toda a probabilidade, muitas alianças pontuais. Tem um pequeno inconveniente: não é um aliado fiável para a condução de um processo de confronto com as instituições europeias sobre a questão da dívida. E esse confronto é decisivo.

Defender a restruturação dívida não é achar que era uma óptima ideia se toda a gente se pusesse de acordo sobre o assunto: Merkel, Tsipras, Juncker, Draghi, etc. Quem governar a Grécia tem de ter uma posição de força. Se essa posição depender de um acordo com quem andou a destruir a Grécia, então esse Governo não estará a negociar. Estará a pedir batatinhas. E terá o mesmo sucesso que tiveram os pedintes anteriores.

Ao contrário do Potami, o Anel mostrou-se disponível para esse confronto. O que resulta desse acordo é o que se poderia classificar como um Governo de unidade patriótica. Esse governo, se honrar o seu compromisso, terá um apoio social esmagador. E precisa dele para enfrentar dificuldades tremendas. Não sabemos se o Anel se aguentará à bronca. Sabemos, sim, que se o Syriza se amarrasse a um parceiro cuja primeira preocupação é entender-se com as instituições europeias, o Governo do Syriza não durava três meses. Nem um. Cairia na primeira chantagem, na primeira retaliação. E haverá muitas.

Estou naturalmente a excluir o cenário louco-furioso de rejeitar qualquer acordo de Governo e provocar novas eleições, exigindo uma maioria absoluta. Semelhante disparate deixaria o Syriza politicamente isolado e ainda mais distante da maioria absoluta ou mesmo… da relativa.

Naturalmente, está quase tudo por fazer. As dificuldades que o Syriza enfrentou até agora são uma brincadeira comparadas com o que agora os espera. Era bem mais fácil enfrentá-las com uma maioria absoluta. Os gregos não quiseram assim. Resta esperar que o Syriza consiga apoios sólidos no Parlamento. E saiba manter os que tem na rua.

25 Jan 00:54

GUEST POST: "NÃO HÁ O QUE PROVAR, E SIM O QUE FAZER"

by lola aronovich
Sempre me perguntam se o Nordeste é uma região mais machista que as outras. 
Eu não sinto essa diferença. Já vivi no Sul e Sudeste, e na Argentina e nos EUA, e vi machismo por todos os cantos. 
Mas o relato da J., que tem 40 anos e é professora e sindicalista, mostra uma realidade muito distante da minha: 

Venho de uma família com mais três irmãos. Hoje posso analisar com tranquilidade como é ser mulher entre homens. Meu pai veio de família muito pobre, sem estudos, a vida na roça afastava da escola. Encontrou no exército o caminho para mudar de vida. 
Minha mãe nos criou em meio a animais de todos os tipos; galinhas, porcas, cabras, patos, e até vacas para vender o leite. Plantava capim para os animais, milho, feijão. Por aí, já dá para perceber que somos do sertão do Seridó, RN. A seca nunca foi empecilho para continuar trabalhando. Meu pai sempre viajando, minha mãe sempre comandando tudo. 
Fomos criados debaixo do chicote, tudo era motivo para apanhar. Foi a forma com que minha mãe foi educada. Meu avô era muito bruto. Foi assassinado pelo genro, e isso gerou na minha mãe uma revolta capaz de fazer com que ela passasse anos e anos seguindo os passos dele. Pelos relatos, ela sempre foi à frente de seu tempo. Vestia calça, sapato, chapéu, e montava cavalo. 
Como foi o namoro dos meus pais, eu não sei. Mas ele diz que ela chegou um dia e perguntou: Quer casar? Se não, vá passando! Quando queria algo, não pedia, fazia. O que eu mais gostava era quando papai chegava depois de uma viagem longa. Era uma tranquilidade, só que ele levava meus três irmãos para passear, e eu ficava com mamãe, pilando pimenta para as buchadas que ela fazia, e que não conheço quem faça tão gostosa. 
Igreja do Rosário hoje, em Caicó,
região do Seridó, RN
Ela sempre nos levou para passear por todos os cantos. Dizia que tínhamos que expandir a ruindade. Ela era pai e mãe; em casa, na escola, na igreja, em todo canto, e ele sempre mais calado, calmo, brincalhão. Mamãe não fazia distinção na forma com que conversava com homens e mulheres. Em casa, todos tinham que fazer suas tarefas.  
Fui crescendo e vendo que a situação para mim era mais difícil que para meus irmãos. Na escola, sempre gostei de conversar com homens, tenho até hoje amizades cativas. Não fui criada com vaidades, a forma dura que minha mãe nos ensinou talvez tenha ficado gravada para sempre. 
Mas me revoltava quando queria sair e não podia. A verdade é que a escola era minha fuga. Nela, eu era dona de mim. Ficava impaciente quando via aquela turma de meninas de um lado e meninos do outro. Coisa mais chata. Não teria como ficar todos juntos, não? Ah, e eu fui. Na mesma hora, percebi como fui olhada por elas. E o que há de errado, pensei. Ali, me dei conta que somos diferentes, não podemos andar e conversar com homens se não for para namorar. Valha! 
Escola em Caicó (sem relação
com o texto)
Meu primeiro beijo foi horrível, o rapaz olhou para mim e disse: Você nem sabe beijar! Rebati: E você sabe? Ele ficou irado por eu enfrentá-lo. E as regras foram aumentando para mim. Não pode ir pra praça, vai virar rapariga. Não quero que você ande com essa menina, ela parece puta. 
Lembro de um dia em que levei um namorado para casa. Quando entrei, recebi uma mãozada na cara. Essa bicha nasceu para ser puta! Não apanhei mais, pois meu pai tomou a frente. Primeira vez que fui para uma festa, minha mãe mandou meu pai ir para a porta do clube. O tempo foi passando, eu não notava que ela definitivamente não queria que eu namorasse. Eu deveria estudar e terminar o segundo grau e ficar em casa. Faculdade? Nem sonhar, era coisa para os meninos. E fui me anulando. 
Mesmo assim, as coisas foram acontecendo. Perdi a virgindade. Nem lembro mais como mamãe soube. Acho que a família do rapaz começou a conversar. E já viu, né? Aqui, quando a moça perde a virgindade, é assunto de muitos anos. Poxa! Todo mundo comenta. Parece que é público. 
Estava trabalhando numa escola particular, mesmo sem que meu pai aceitasse, pois filha dele, ele podia sustentar. Com 18 anos, meu então namorado, atual ex-marido, me convenceu a abortar. Foi o pior dia da minha vida. Parecia que estava sendo enterrada viva. Era como aqueles filmes de terror que nunca amanhece. Ele conseguiu tudo. Parecia o capeta dizendo que agora não. Enfim, fiz. Quase morri, e ele pulando carnaval. Passou. Continuamos juntos, e um tempo depois, outra gravidez. 
Dessa vez ele disse: agora não tem como abortar, você pode morrer. Me senti como gado no pasto sendo levada para onde ele quisesse. O dia do casamento foi tão sem graça, precisava casar? Casei. 
No sexo, nunca fui santa. Levava para a escola as revistas dos meus irmãos. Aprendi oral sem nem fazer. Não entendia porque toda vez que fazíamos meu ex-marido perguntava com quem aprendi. Isso me deixava sem jeito. Depois, ele disse que a filha não era dele, já que era loirinha. Só vivemos bem durante dois anos. Depois disso, comecei a acordar. 
O jeito com que fui criada não batia com a criação que ele recebeu. A mãe não podia conversar com o vizinho que era chamada de rapariga pelo marido. Eu só podia sair de casa se fosse com alguém. Foram anos difíceis, tentei deixá-lo várias vezes. Queria estudar, ele dizia que mulher que queria estudar era pra passar chifre no marido. Se eu conversasse com um homem, estava chifrando. 
Um dia, ele me disse que a certidão de casamento era a posse dele sobre mim. Comecei a me revoltar. Comecei a estudar para concursos. Tentei um de Oficial de Justiça, naquela época bastava segundo grau. Foi um inferno. No dia das provas, só o ouvia dizer: Você não passa! Fiz um para professora do Estado, passei e nunca fui chamada. Tentei para o município, e ele dizia que este era bom, pois eu não receberia mais que ele. 
Fui chamada, fiz faculdade, e ele dizendo que não precisava. Tentei me separar três vezes. Ele dizia que eu queria ser rapariga. E cada dia foi ficando mais possessivo, me sufocando. Houve dias de ameaçar me bater. Reagi com o que tinha mais próximo das mãos, uma faca. Eu disse que se ele me batesse, que fosse para matar, pois se eu me levantasse, não teria médico neste mundo que o costurasse. 
E a revolta fez com que eu tivesse a atitude de dar um basta. Meus pais se separaram depois de trinta anos de casados, e eu tinha que me sujeitar a ser chamada de rapariga dentro da minha própria casa? Enfrentei. Ele me perseguiu. Primeiro disse que não era para eu sair de casa no Carnaval, pois iam dizer que ele era corno. Ainda passei seis meses tendo paciência. No fim, mandei que ele saísse de casa. Quando minha filha pediu para ele sair, ele saiu. 
Praça em Caicó hoje
Meu nome virou conversa de bar para ele e os amigos. Ele disse que se separou porque eu o traí. Que eu tinha virado prostituta, toda essa merda que eles dizem. Aqui em Caicó, na região de Seridó, quando uma mulher se separa, vira alvo dos amigos do ex. Eles apostam entre si quem vai pegar primeiro. 
O fato de dormir em paz era um sonho realizado. Enfrentei o preconceito da família dele. Minha mãe e meu pai estavam mais preocupados em ele como policial não me matar. Eu, estava mais preocupada em ser livre, e levar comigo minhas duas filhas. 
Ele tentou me deixar na rua, levar minhas filhas e minha reputação. Dane-se minha reputação! Uma de minhas filhas, com 18 anos hoje, foi minha maior cúmplice. Ela sabia que o salário que eu recebia como professora não nos sustentaria. Orientei que ela fosse comer na casa da avô materna. E eu me alimentava da merenda da escola. 
Sou uma sobrevivente de uma relação que poderia ter sido diferente, se não fosse o pensamento machista do meu ex-marido. Separei não por não gostar mais dele, mas por escolher respirar.
Tenho orgulho de educar minhas filhas para que não sofram e nem sejam objeto de perpetuação do machismo. Ser sindicalista é mais uma vitória nesse meio tão machista. Não preciso provar nada para ninguém. Não sinto que sou uma mulher, um ser diferente, no meio de muitos homens. Sinto que somos pessoas. Não há o que provar, e sim, o que fazer.