“Moço, você não deu comida pra ela?” Um vídeo que está correndo o mundo, mostra a reação de um garotinho que leva a amiga pela mão até um caminhão onde é feita distribuição de alimentos depois do terremoto que atingiu o Irã. #OutroMundoÉPossívelpic.twitter.com/GCDKkgZdlc
Este vídeo viralizou. A criança vê uma menina decepcionada depois que não conseguiu comida junto a um caminhão de distribuição de alimentos. Os dois são vítimas do terremoto. Ele pega a menina pela mão, se aproxima do caminhão e pergunta: “Você não deu comida para?” Ele não pede para si, pede para ela.
Publicado no Facebook de Luis Felipe Miguel, professor da UnB
O jornal paulistano continua dando gás ao representante neofascista do Rio de Janeiro. Hoje, dedica um terço de página às “feministas por Bolsonaro”, com título explicando o motivo desse apoio tão surpreendente (o pretenso “discurso duro contra assédio”).
Quem são essas “feministas por Bolsonaro”? Ninguém. Uma página de facebook que se dedica, em geral, a atacar o feminismo. As bolsonarianas ouvidas se declaram antifeministas. As feministas manifestam sua óbvia repugnância pelo ex-capitão terrorista.
A reportagem não é só a amplificação de algo sem importância, que ganharia zero na contagem dos tais “valores-notícias” que continuam a ser ensinados nos cursos de comunicação.
Seu propósito é transmitir uma impressão falsa a quem a lê. A Folha, que se empenha tanto em alertar sobre os perigos das fake news, podia começar se olhando no espelho.
Não tenho referência de quem é a repórter que assina o texto. Imagino que hoje ela esteja pouco orgulhosa do próprio trabalho.
Embora tenha se auto-absolvido numa auto-investigação interna, a TV Globo vai ter dificuldades de explicar como Marcelo Campos Pinto deu aval em nome da Globo para pagamento propina de US $ 15 milhões a dirigentes da FIFA e da CBF para conseguir direitos de transmissão das Copas de 2026 e 2030 não o fez em nome da Globo.
Segundo o delator Alejando Burzaco, em depoimento à Justiça dos EUA, a negociação se deu em um restaurante de Buenos Aires em março de 2013, coincidentemente o mesmo mês em que a Rede Globo fez uma procuração em cartório dando a Marcelo Campos Pinto direito de representá-la em negociações para a compra de direitos das Copas citadas.
Confira na reportagem abaixo da Rede Record, que briga com a Globo pela compra dos direitos milionários de transmissão, que não vai ser fácil usar nos Estados Unidos a justificativa de que não tem nada a ver com o caso, porque se auto-investigou e inocentou.
Se a eleição presidencial de 2018 fosse hoje, o ex-presidente Lula, admirado por 64% dos brasileiros, ganharia no primeiro turno, aponta nova pesquisa CUT/Vox Populi, realizada entre os dias 27 e 30 de outubro. Na pesquisa estimulada, quando os nomes dos candidatos são apresentados aos eleitores, o petista tem 42% das intenções de voto contra 16% do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ). [Leia íntegra na página da CUT]
Eu tava andando na rua depois de sair de uma balada por volta das 5h da manhã. Estava próximo do Terminal Parque Dom Pedro II quando fui abordado por dois homens, que pediram meu celular e meu dinheiro. Eu reagi e saí correndo pra tentar me abrigar no próprio Terminal de ônibus. Chegando lá, ainda sendo perseguido, eu tentei pedir ajuda pra uma segurança, que virou pra mim e disse: “Meu, só corre. Sai daqui”.
Eu corri pra pedir ajuda pra outros seguranças que estavam lá. E aí os mesmos homens que me abordaram poucos minutos antes, apareceram – agora em maior número – dizendo que era eu que tinha roubado eles. Os seguranças acreditaram neles sem pensar duas vezes e aí começaram a me segurar com força e violência.
Eu gritava tentando argumentar com os caras, dizendo que o celular que eu tinha no bolso era meu e que eu não tinha roubado porra nenhuma. Tentei provar isso mostrando o conteúdo que havia no aparelho, mas ele tava descarregado. Mas sempre que eu tentava falar algo, o segurança me mandava calar a boca. Assumindo logo de cara que eu era o culpado, ele me entregou pros caras, que me arrastaram para fora da estação, e lá do lado de fora eu fui ESPANCADO por eles.
O segurança chegou a perguntar o que eles iam fazer comigo, e disseram que iam me levar pro “rio”. Apavorado com o que poderiam fazer comigo, entrei em desespero e comecei a me debater. Quando consegui me soltar, saí correndo, mas os caras tinham três cachorros com eles. Eu fui atacado pelos cães. Pela misericórdia do meu pai Exu, uma das meninas que tava com eles pediu que parassem, que já tinham batido em mim o suficiente. Assim eu conseguiu fugir e voltar pro terminal. Eu fiquei cheio de mordidas e arranhões, além dos hematomas.
O segurança que há pouco me entregara apareceu na maior cara de pau me oferecendo uma cadeira de rodas e querendo me levar pra um AMA. Eu recusei e disse que apenas queria ir embora. Ainda insistindo, o segurança apenas disse “então você está por sua conta e risco”. E falei que tudo certo, entrei num ônibus e fui pra casa de um amigo pra pedir ajuda, ferido e coberto de sangue.
Com a ajuda dele e de duas amigas, eu fui pro hospital, recebi o devido tratamento médico e agora passo bem e estou me recuperando. Por pouco, eu não fui morto por uma injustiça e por conta de um ato racista. Racista, porque eu sou negro e estava simplesmente andando de madrugada. Racista porque ninguém naquela noite acreditou em mim, e além de ser assaltado, fui sentenciado por pessoas que nem quiseram me ouvir falar.
Por que diabos automaticamente o segurança assumiu que eu era o bandido e que os outros caras estavam falando a verdade? E o pior, o segurança também era negro. O que diabos levou a ele a não sentir sequer o mínimo de empatia por mim? Por que ele não chamou a polícia para resolver a situação, ao invés de simplesmente me enxergar como um bandido e me entregar pros cães?
As marcas das agressões
E eu não fiz porra nenhuma aquela noite. O meu crime foi ter reagido a um assalto ou simplesmente sair pra andar de madrugada na rua. Eu sou só um ator, um “vagabundo”, que passa dia e noite tentando manter minha dignidade, ganhando meu dinheirinho e fazendo o que eu posso através da Arte. Eu inclusive participei recentemente de uma peça de Teatro voltada ao público escolar para falar do quanto negros como eu são sentenciados à morte no nosso país, culpados por crimes simplesmente por serem negros. O racismo mata todos os dias!
Eu fui vítima não só de racismo, mas do absurdo e da violência que pessoas que tentam fazer “justiça com as próprias mãos” são capazes. Fui entregue por pessoas que provavelmente acharam estar fazendo o justo e o correto. Seguranças me entregaram só por ser negro a assaltantes que deixaram claro que iriam fazer muito mal a mim. Seguranças que concluíram, numa só olhada, que diante deles havia um ladrão.
A próxima vez que vocês ouvirem falar sobre racismo, e quiserem culpar a “galera do direitos humanos”, não pensem só no retrato estereotipado que vocês fazem dos negros no nosso país.
Peço que compartilhem esse texto. Encontraremos os responsáveis, e eles serão levados à justiça. E, até lá, iremos conscientizar todas as pessoas sobre o que ocorreu, porque todos os dias esse tipo de escândalo acontece. O meu caso é só mais um caso. Negros estão sendo assassinados todos os dias. Pelo nosso governo, pela nossa polícia, e por nossos cidadãos.
Imagine você estar em seu país, em sua casa, com sua família e seu grupo social e, de repente, ser sequestrado e levado à força em um navio, em condições degradantes, para outro país. Se não morresse durante a viagem, por doença, maus-tratos ou fome, seria vendido como mercadoria, para ser submetido a trabalhos forçados, e não ser reconhecido como ser humano. O seu proprietário poderia, inclusive, vendê-lo ou dispor da sua vida e de sua família, já que seus filhos se equiparavam a filhotes de um animal, pertenciam ao seu dono. As mulheres serviam de escravas sexuais para os seus “senhores” e filhos.
Como você reagiria a situação acima descrita? Acharia justa uma reparação por essa tragédia humana, ainda que tardia, aos descendentes dos que sofreram tais atrocidades?
A escravidão, página mais cruel da história do Brasil, aconteceu desta forma. Negros eram capturados na África e vendidos como mercadorias, para aqui perderem a condição de pessoa, trabalharem até a exaustão, sem direito a nada. Só ao sofrimento.
O Brasil foi o último país da América a abolir formalmente a escravidão, sendo a mão de obra africana a principal durante mais de três séculos.
A escravidão só foi formalmente erradicada em nosso país há 128 anos. Mas, apesar de formalmente abolida, os então ex-escravos não conseguiam se integrar ao meio social, pelo preconceito e pela falta de oportunidades, já que se tratava de mão de obra sem qualquer qualificação.
Os reflexos desta dantesca página histórica de nosso país permanecem vivos até hoje. Dados do IBGE informam que a população afrodescendente (pretos e pardos) representam 54% da população brasileira. Contudo, apesar de serem maioria, os negros representam apenas 17,4% da parcela mais rica do país, e, dentre os 1% mais ricos, 79% são brancos. Já entre os mais pobres os números se invertem: No o grupo dos 10% mais pobres (com renda média de R$ 130 por pessoa na família, dados de 2014), o percentual de negros é de 76%.
Documento recente sobre a inserção da população negra no mercado de trabalho produzido pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados na Região Metropolitana de São Paulo, divulgado esta semana, revelou que a diferença salarial entre negros e não-negros com nível universitário aumentou no país no último ano. Para cada R$1 mil ganhos por um trabalhador não-negro, os negros, com mesma escolaridade, ganham R$ 650. O estudo apresenta de forma detalhada a diferença salarial entre pessoas negras e não-negras, inclusive fazendo relação com o nível de escolaridade.
Esta realidade histórica explica o porquê de termos tão poucos negros ocupando espaços nas áreas que exigem maior qualificação, inclusive no serviço público. A nossa Suprema Corte só teve, até hoje, um negro como ministro. Vê-se poucos negros médicos, juízes, engenheiros, políticos, no Ministério Público, etc., são verdadeiramente exceções.
Para reverter esta triste realidade, combater a discriminação e reparar a dívida histórica do país para com a população negra, descendentes daqueles africanos que foram retirados à força de seu país, para aqui serem escravizados, o melhor caminho são as ações afirmativas.
As ações afirmativas foram aplicadas ao longo do tempo em vários países, não é, portanto, invenção brasileira. Nos EUA, por exemplo, após a implantação da Lei dos Direitos Civis de 1964 e das políticas afirmativas houve sensível redução da desigualdade entre negros e brancos. As ações tiveram a adesão de muitas corporações privadas.
No Brasil, o STF declarou constitucional, em junho deste ano, a Lei nº 12.990/2014, que instituiu cotas para negros em concursos públicos, entendendo inclusive que a reserva de 20% das vagas deve valer para todos os certames, tanto da administração direta quanto de empresas públicas e autarquias, e não apenas para ingresso em universidades. O relator da ação, o Ministro Luís Roberto Barroso, asseverou em seu voto, que o país tem o “dever de reparação histórica” devido à “existência de um racismo estrutural na sociedade brasileira”.
Em razão das políticas afirmativas estabelecidas em nosso país a partir do governo do Presidente Lula, o número de negros cursando o ensino superior dobrou, mas, mesmo assim, somente 12,8% da população negra chegou ao nível superior. Há, portanto, muito o que se caminhar para se conquistar a tão sonhada igualdade racial.
As ações afirmativas, portanto, estão relacionadas à reparação histórica de crimes cometidos contra uma população, em razão de sua cor, cujos reflexos perduram até os dias atuais, e se diferenciam das chamadas cotas sociais, embora, na maioria das vezes, tenha esta dupla função, reparatória e social.
No próximo dia 20 de novembro comemoramos o Dia Nacional da Consciência Negra, instituído pela Lei nº 12.519/2011, é um momento oportuno para refletirmos sobre a inegável herança histórica de desigualdade de oportunidades imposta à população negra e buscar formas de corrigi-la, reparando a vergonhosa dívida histórica para com esse contingente populacional. A data faz referência a data morte de Zumbi, o último líder do Quilombo dos Palmares, em consequência de sua morte. O Quilombo abrigava escravos fugitivos e chegou a ter uma população de mais de vinte mil habitantes.
É preciso desconstruir o racismo estrutural na sociedade brasileira, a que se referiu o Ministro Luís Roberto Barroso, que se manifesta às vezes de forma expressa, às vezes de forma velada. A declaração preconceituosa do jornalista William Waack, em vídeo que viralizou nas redes sociais semana passada é um exemplo desse racismo impregnado de forma quase cultural no Brasil.
Sexta-feira passada (10/11), Dia Nacional de Mobilização, foi duplamente de luta em Minas Gerais.
Pela manhã, trabalhadores de várias categorias dos setores público e privado, sindicatos e centrais, entre as quais a CUT, se uniram para protestar contra as reformas trabalhista e da previdência.
À tarde, o alvo da luta foi o projeto de lei da Escola sem Partido, a chamada lei da mordaça.
Durante uma audiência pública, que aconteceu na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e que contou com a presença de vários profissionais da educação pública e privada, a coordenadora-geral do Sind-UTE/MG, Beatriz Cerqueira, explicou por que esse projeto é tão maléfico à educação.
“A Escola sem Partido coloca os professores como opressores dos estudantes, dando uma falsa ideia de que na relação do ensinar do aprender existe a lei do mais forte.”
Outro ataque que esse projeto faz diz respeito ao conteúdo, ao que pode ou não pode se discutir no ambiente escolar. Ter pensamento crítico, fazer o debate sobre a realidade em vários aspectos não se deve permitir, segundo o projeto Escola Sem Partido.
Mas, a negação do direito a uma criança ou adolescente de discutir e ampliar o seu conhecimento sobre violência doméstica, por exemplo, estupro e outros tipos de situações foram considerados problemas sérios e que podem apontar uma corresponsabilidade da escola na formação e até no futuro dessas pessoas.
“Quando a gente nega o debate, não dá o direito às pessoas, aos nossos estudantes, de exercitarem o seu pensamento crítico, estamos impedindo-as de crescer e colaborando para a reprodução de erros graves, sendo a violência um desses males”, disse a coordenadora-geral do Sind-UTE/MG.
Ao lembrar que o problema da escola é um problema de classe e se todos não se juntarem nessa luta por uma escola inclusiva e democrática, a coordenadora-geral do Sind-UTE/MG afirmou que corre-se, ainda, o risco de termos uma sociedade cada vez mais intolerante, racista, homofóbica, misógina e que não respeita a diversidade.
Ela lembrou que esse projeto já foi considerado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e Ministério Público Federal (MPF) e também por isso precisa ser combatido.
Respeitar as crianças como elas são é um dever da escola e que deve ser colocado em prática com o propósito de não expulsar esse estudante do ambiente escolar.
Ao lembrar que é preciso ampliar o debate e, inclusive, conhecer o contraditório para não ficar preso a conceitos que levam ao obscurantismo, a coordenadora-geral do Sind-UTE/MG disse que o Projeto da Escola Sem Partido já foi considerado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal e o Ministério Público Federal.
Espaço onde as pessoas crescem
A audiência pública foi realizada a requerimento do deputado estadual, Rogério Correia, a pedido do Sind-UTE/MG e presidida pelo deputado estadual, Geraldo Pimenta que, ao destacar a importância deste encontro, referenciou o dramaturgo e poeta, Bertolt Brecht, para dizer que o pior analfabeto é o analfabeto político, que não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos e não sabe o custo de vida.
Já o deputado Rogério Correia lembrou que a escola é onde as coisas acontecem e as pessoas crescem.
“Agora querem amordaçar nossos professores e os estudantes também. Não queremos que todos pensem da mesma forma, mas que tenham pensamento crítico e liberdade de expressar”, afirmou.
Wladimir Coelho, representante da Secretaria Estadual de Educação, falou dos interesses econômicos, do grande capital, se sobrepondo aos interesses sociais e da educação, impedindo o crescimento do país e, consequentemente, fortalecendo projetos que são contra o povo brasileiro.
“É preciso combater e resistir a essas propostas que, inclusive, censuram a liberdade de expressão e oferecem prejuízos à educação.”, destacou.
A militante do Levante Popular da Juventude, Ana Júlia, estudante de Direito da UFMG, criticou o projeto da Escola Sem Partido e disse que ele não se justificaria caso não existisse uma pauta maior para desarticular a organização da educação e da escola.
“Eles querem criminalizar, inclusive, a luta dos estudantes e de quem constrói a escola. Essa é uma teia bem articulada, que visa precarizar cada vez mais a vida da classe trabalhadora e da sociedade brasileira”, alertou.
A presidenta do Sinpro-MG, Sindicato dos Professores e Professoras da Rede Privada de Minas Gerais, Valéria Morato, por sua vez, pontuou o quanto o projeto da Escola Sem Partido valoriza o notório saber e institui a possibilidade de qualquer um entrar numa sala de aula para ministrar qualquer tipo de conteúdo aos estudantes.
“Isso é desqualificar a nossa formação, jogar na luta do lixo todo o esforço que fazemos para nos preparar para exercer da melhor forma possível a nossa profissão.” Ela também falou da dificuldade que a categoria encontra de fazer a discussão do projeto pedagógico da escola e o projeto Escola Sem Partido, para ela, vem no sentido de piorar ainda mais essa situação.
Daniel Rittner (Valor, 24/10/17) informa que, em Pequim: torres de escritórios, bairros residenciais perto das estações de metrô e dos shopping centers espalhados pela cidade há sempre alguém que encosta uma bicicleta amarela na parede ou no poste, deixa o equipamento solto em qualquer ponto da calçada e sai andando. Chega outra pessoa, pega a mesma “bike“, passa rapidamente o telefone celular sobre um código digital afixado logo abaixo do guidão e vai embora.
Nos últimos anos, com a ascensão de uma próspera classe média e o rápido desenvolvimento da indústria automotiva local, milhões de consumidores na China trocaram bicicletas por carros novos. Junto com a poluição, os congestionamentos tornaram-se um drama nas grandes cidades. Graças à tecnologia e ao sucesso de uma startup que acaba de captar US$ 700 milhões com investidores liderados pelo grupo Alibaba para expandir suas operações, o velho hábito chinês de pedalar está de volta.
A Ofo, maior empresa de bicicletas compartilhadas do mundo e chamada frequentemente de “Uber das Bikes“, nasceu em 2014 e já começou a oferecer seus serviços em outros 15 países. Há planos de chegar à América Latina.
Sua sede está a poucos minutos de caminhada da Universidade de Pequim, onde um jovem estudante de administração de empresas quebrava a cabeça para inventar um sistema que libertasse os usuários da incômoda obrigatoriedade de devolver as “bikes” nas estações fixas – muitas vezes ainda relativamente distantes do destino final de cada viagem.
Quando colocou sua ideia em prática, o jovem Dai Wai juntou-se a um pequeno grupo de colegas e comprou algumas bicicletas para rodar no campus universitário. Hoje, aos 26 anos, ele é tido pela revista “Fortune” como um dos maiores empreendedores da Ásia e está à frente de uma companhia cujo valor de mercado já ultrapassa US$ 2 bilhões.
Um milhão de “bikes” da Ofo circulam somente em Pequim. Cada meia hora de uso custa um yuan – o equivalente a R$ 0,48 pela cotação oficial. Um aplicativo no celular mapeia as unidades disponíveis nas redondezas. Basta aproximar o telefone do “QR Code” situado abaixo do guidão que a trava nas rodas é solta automaticamente. Ao fim da viagem, em qualquer lugar da cidade, o sistema eletrônico debita o valor da conta corrente ou lança a fatura no cartão de crédito.
A praticidade do serviço fez a Ofo crescer em altíssima velocidade. Ela alcançou 180 cidades, tem uma frota de 10 milhões de unidades e atende a 25 milhões de pedidos por dia. No fim do ano passado, a empresa iniciou operações no exterior. Seattle (Estados Unidos), Melbourne (Austrália) e Praga (República Tcheca) já têm as bicicletas amarelas nas ruas. O lançamento em Moscou (Rússia) está previsto para a primavera europeia, semanas antes da Copa do Mundo, que começa em junho de 2018.
A vice-presidente sênior da Ofo, Nicole Nan, diz que há interesse em entrar na América Latina. Em todos os países onde atua, a Ofo tem operação própria, mas Nicole avisa que o estabelecimento de parcerias ou de franquias não está descartado.
Cidades com muitas ladeiras — como é o caso de São Paulo e Belo Horizonte — não devem se sentir desestimuladas. A empresa oferece 15 modelos diferentes justamente para se adaptar a cada mercado.
A lista inclui “bikes” elétricas para enfrentar o sobe-e-desce de algumas cidades e um modelo com rodas mais grossas do que o normal, usado para reforçar a estabilidade do ciclista em praias ou regiões desérticas, de solo arenoso.
Como a maioria dos executivos, que incorporaram a questão da sustentabilidade em seus discursos, Nicole fala com orgulho de como a prática de compartilhamento fomentada pela Ofo ajuda o meio ambiente. “A emissão de 2,16 milhões de toneladas de carbono foi evitada com 4 bilhões de viagens que possibilitamos”, diz a vice-presidente.
O fundador da companhia, que já revelou em algumas entrevistas ter sido ironizado por familiares quando confidenciava seus planos de abrir um negócio, tem uma previsão ousada. Até 2020, segundo Dai Wei, ninguém mais vai ter bicicletas próprias para transporte. Será tudo compartilhado e os únicos proprietários de “bikes” serão aqueles vidrados em atividades esportivas. Ao contrário de sua família, levando em conta o faro de Dai, parece melhor não chamá-lo de lunático.
A princípio, o Toronto Raptors parece ser um dos times menos interessantes para serem vistos e analisados neste começo de temporada. Depois de uma offseason com tantas mudanças, por que a pressa em olhar para um time que se esforçou justamente para não mudar demais? As maiores alterações no elenco nos últimos meses se deram …
O MASP tem batido recordes de visitação este ano e está sendo muito frequentada a exposição História da Sexualidade, que passou de classificação restritiva para maiores de 18 anos para classificação indicativa para maiores de 18 anos.
A mudança atendeu a uma sugestão do Ministério Público, que não viu razões para a proibição aos menores de 18 anos, embora a temática seja a sexualidade e haja obras com nus.
As organizações medievais, como o MBL, ameaçaram realizar protestos, mas não houve nada significativo até agora na porta do museu.
Uma visita ao acervo mais importante do Hemisfério Sul, que inclui a exposição permanente, conta a história de como a arte quebra tabus e provoca a reflexão.
Há no acervo permanente, por exemplo, um quadro de Giampietrino, da Lombardia, pintado por volta de 1500. Mostra a Virgem amamentando o Menino e São João Batista criança em adoração.
Se hoje os ignorantes (ou mal intencionados, que querem desviar o olhar da Nação, posto na corrupção, para a arte que dizem ser imoral) se escandalizariam com esse quadro, que mostra um seio belíssimo da Virgem, com o mamilo róseo de fora, imagine-se à época.
(Em pleno século XXI, surge a notícia de que o senador Magno Malta, que faz política conectado à pauta supostamente evangélica, conseguiu aprovar a condução coercitiva de um ator que se apresentou em instalação no MAM nu, como em praias brasileiras).
A arte seguiu adiante, como seguirá, para deleite da humanidade. Os ignorantes (ou mal intencionados) passaram. Mas seu espírito de quando em quando volta, para nos atormentar.
Após a conclusão da leitura do parecer do relator do projeto da reforma trabalhista, deputados de partidos de oposição protestam
POR RENATO BAZAN
Neste sábado (11), entra em vigor a reforma trabalhista de Michel Temer (Lei 13.467/2017).
Não é exagero dizer que as relações no mercado de trabalho retornam a um estado anterior ao da década de 30. A única coisa pior seria a própria revogação da Lei Áurea.
117 artigos da CLT foram alterados de forma incompetente e autoritária. Nem mesmo a aprovação popular de 6% apontada pelo Vox Populi nesta quinta-feira (9) foi suficiente para demovê-la. E o que isso cria, de forma imediata, é um clima de libertinagem patronal que prejudicará milhões de pessoas com jornadas de 12 horas, facilitação de demissões sem motivo, terceirização irrestrita.
As mudanças na legislação são tão extremas que a Unicamp classificou a reforma, em estudo publicado no início de julho, como algo que “rasga a Constituição brasileira, abandona os fundamentos da República e rompe com os seus objetivos, desconsiderando a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho”. Para além dos drama individuais, decorrerão consequências coletivas dramáticas no médio e longo prazos.
1.Círculo vicioso de salários menores e jornadas maiores
O primeiro desdobramento é contraditório: ficaremos mais pobres, embora trabalhemos mais. Entre as novas categorias de trabalho – terceirizados, temporários e eventuais -, há espaço de sobra para que os patrões perpetuem práticas de superexploração, seja através da substituição constante de funcionários, seja pela demissão facilitada de quem abrir o bico.
O DIEESE demonstrou através de dossiê que profissionais terceirizados recebem salários 25% menores que seus equivalentes com emprego fixo, além de terem poder de barganha menor em negociações coletivas. Ao mesmo tempo, trabalham 3 horas a mais por semana, pressionados pelo constante medo da substituição.
No caso dos temporários e eventuais, a coisa piora muito: por estarem sempre à beira do desemprego, acabam se deparando com ofertas degradantes, sem perspectiva de melhora. A nova lei permitirá inclusive que alguns deles recebam ABAIXO DO SALÁRIO MÍNIMO, se atrelarem o pagamento à produtividade ou carga horária.
A reforma afrouxa também os limites para jornadas de trabalho e horas extras. Ao mesmo tempo em que eleva o teto diário para 12 horas, exime as empresas de comunicarem a realização dessas horas extras ao Ministério do Trabalho. Quem se sentir lesado por jornadas excessivas deve, por conta própria, reunir evidências e denunciar o caso às autoridades (e ir dormir com a certeza de retaliação).
É um convite a uma espiral de abusos.
2. Expulsão das classes C e D das universidades
Essa clima de desvario opressivo irá desembocar na gradual aparição de uma classe trabalhadora desqualificada e deseducada, que sacrifica a própria formação pela estabilidade financeira.
“Como é que o trabalhador, especialmente o jovem, vai conseguir organizar a própria vida sob a perspectiva de perder a remuneração a qualquer momento, respondendo a pedidos de última hora?! Como ele vai estudar? Simples, ele não vai!”, questiona Eduardo Fagnani, professor de Economia da Unicamp.
Ele argumenta que a agonia constante de viver entre “bicos” servirá de incentivo para que parcelas das classes C e D optem por múltiplos sub-empregos, ou abandonem a educação para complementar a renda familiar. Isso comprometerá a capacidade de estudo desse segmento, alimentando o mercado de trabalho com mão de obra pouco qualificada.
No longo prazo, diante de um mundo em constante evolução tecnológica, essa dinâmica pode diminuir a capacidade competitiva do setor produtivo, retroalimentando o desespero dessa parcela da população. “É uma medida estúpida, que vai na contramão do que as nações desenvolvidas estão fazendo, que é deixar o jovem mais tempo na escola”.
3. Mortes em ambientes de trabalho
A terceira consequência será o aumento dramático no número de acidentes fatais nos ambientes de trabalho. Em 2015, foram 2.502 – 80% deles contra funcionários não-efetivados. Com o aumento do número de pessoas nessa categoria, o Brasil, que já ocupa o 4º lugar no ranking de acidentes de trabalho, subirá ainda mais.
Isso acontece porque não há preocupação em fornecer treinamento adequado para essa modalidade de profissionais, nem equipamento adequado. Eles são a bucha de canhão da maioria das empresas, encarados como aqueles que fazem o que ninguém mais quer fazer. Suas substituições ocorrem de forma burocrática, e por isso mesmo não recebem o mesmo nível de investimento de seus colegas.
No caso dos terceirizados, o drama é agravado pela falta de clareza jurídica sobre a responsabilidade trabalhista do óbito. Muitas das agências terceirizantes têm vida curta e atuam na informalidade, levando à impossibilidade da justiça.
4. Lei permitirá distinção entre ricos e pobres
Mesmo entre os que forem contemplados pela Justiça do Trabalho, haverá a partir de agora um elemento de estratificação econômica dos trabalhadores. De acordo com seus salários, a reforma trabalhista introduz um elemento de proporcionalidade às acusações de assédio moral em ambientes de trabalho.
Em outras palavras: os mais ricos receberão indenizações maiores pelo mesmo crime.
É um caso flagrante de discriminação econômica. Afinal, a integridade da faxineira vale menos do que a de sua chefe? Agredir um funcionário é menos condenável se ele estiver em início de carreira?
Com essa determinação, a camarilha de Temer introduz na própria CLT um elemento de discriminação classista na vida do trabalhador, algo expressamente proibido pela Constituição Brasileira.
5. A Justiça do Trabalho vai virar roleta russa
Não bastassem os ataques intermináveis contra a Justiça do Trabalho, o governo Temer dedicou uma porção da reforma para limitar o poder dos juízes.
Em primeiro lugar, dificultaram a concessão de Justiça Gratuita – a pessoa que pleiteá-la não poderá receber mais que R$ 1.659 (30% do limite da aposentadoria). Como se isso não bastasse, a Reforma cria um “Termo de Quitação Anual” em que o trabalhador declara ter recebido todas as parcelas das obrigações trabalhistas (como horas extras e adicionais por periculosidade) e exime o patrão das consequências legais daquele período.
Quem mesmo assim decidir recorrer à Justiça do Trabalho encontrará uma novidade tóxica: a possibilidade de acabar indenizando o próprio patrão. Com a Reforma, ficam estabelecidos os “Encargos de Sucumbência” – uma multa para quem perder a ação. O valor da punição pode variar entre 5% e 15% do valor inicial pedido, o que significa que aqueles que sofreram maiores danos podem ser também os maiores injustiçados.
Esse novo mecanismo fará com que os trabalhadores pensem duas vezes antes de entrar na Justiça. O medo de exigir os próprios direitos e acabar esmagado pelo Judiciário ajudará a manter impunes os maus empregadores.
P.S. Tudo isso é inconstitucional
Nunca é demais lembrar que, durante o processo de tramitação, foram inúmeras as denúncias de inconstitucionalidade contra esta lei. Todas as comissões legislativas fizeram um trabalho apressado, e nenhuma das mais de 200 emendas apresentadas no Senado foi sequer contemplada.
Na época, a Associação dos Magistrados Brasileiros publicou uma carta em que acusava a Reforma de “estar contaminada por inúmeras, evidentes e irreparáveis inconstitucionalidades e retrocessos de toda espécie, formais e materiais”. Assim também o fizeram outras dezenas de entidades importantíssimas, inclusive a OAB.
De nada adiantou. A ordem de Temer foi passar o rolo compressor.
No que depender da reforma trabalhista, a situação brasileira será de permanente caos social. Ou pelo menos foi o que disse Marcio Pochmann, presidente da Fundação Perseu Abramo, em entrevista recente: “Se não revertermos essa reforma, se não desfizermos o que está sendo levado adiante, o que veremos em 20 ou 30 anos será um cenário distópico no Brasil. Um conjunto de ilhas com padrão vida suíço rodeado por imensos territórios com o IDH do Haiti”.
O Juiz Carlos Alberto Gomes de Oliveira Paula vai direto ao ponto na carta renúncia enviada à Corregedoria Geral de Justiça: Ele abre mão dos auxílios moradia, saúde, alimentação e livro, porque são inconstitucionais, como ele mesmo destaca [veja imagem reproduzida].
De acordo com a Constituição, "o magistrado é remunerado exclusivamente por subsídio fixado em parcela única [popularmente, salário mensal], vedado o acréscimo de qualquer gratificação, adicional, abono, prêmio,verba de representação ou outra espécie remuneratória".
Sem contar que esses penduricalhos levam a remuneração de magistrados às alturas, ultrapassando em muito outra determinação da Constituição, a de que nenhum servidor pode receber mais do que o salário do ministro do STF, que é de pouco mais de R$ 33 mil.
O juiz Sérgio Moro, que se diz ético e respeitador da Constituição, a desobedece (como aliás 99% de seus pares), e não se sente na obrigação de proceder como o colega, que escreveu a carta renunciando aos penduricalhos ao salário. Por que não age assim?
Poderia inspirá-lo a frase que o juiz acrescenta a seu requerimento, de autoria do escritor Nicholas Sparks:
"Nunca é tarde demais para fazer a coisa certa"
Deem uma olhadinha em dois salários do juiz Moro, que desrespeitam a Constituição:
"Nunca é tarde demais para fazer a coisa certa", doutor Moro. Vale também para seus colegas.
No país que mais parece um circo dos horrores, reza a lenda, ainda acontecem coisas boas, e ainda há pessoas capazes de bons atos, embora seja de fato a cada dia mais difícil de acreditar.
Geraldo Casalli, um motorista de ônibus de São Carlos – SP, levava no ônibus, em um dia ordinário de expediente, quinze estudantes atrasados para o ENEM – que virariam meme, no máximo, e teriam que tentar de novo no ano que vem, enfrentando a sensação de desperdício de tempo, muito mais horrorosa quando se é jovem (e, consequentemente, imediatista).
Ele poderia seguir o trajeto – e as regras da empresa para a qual trabalha, e a essência coletiva do tipo de transporte que conduz – mas optou, humanamente, por mudar o trajeto e evitar que os estudantes se atrasassem.
Regras são feitas para seres humanos, de modo que, num sofismo barato, o ato de Geraldo não foi heroico, tampouco anti-heróico, foi humano.
Gosto de pensar que há dois tipos de motoristas de ônibus: aqueles que são muito mal humorados – não respondem ao seu “bom dia” – e aqueles que são gente finíssima, gente que finge que acredita em quem diz que foi assaltado porque não tem dinheiro para a passagem, gente que para fora do ponto para que mulheres saltem em ruas menos desertas, gente que pega a sensibilidade debaixo do travesseiro e leva pro trabalho.
Geraldo, é claro, está no segundo grupo.
Diz que pensou nas filhas quando mudou o trajeto – esse sentimento, esse lindo sentimento que alguns chamam de empatia – pode se manifestar em qualquer um, em qualquer lugar e em qualquer trajeto, gosto de crer.
Lembrei de uma coisa de ouvi de um filósofo que nunca terminou o segundo grau, o meu pai: “A gente não tem medo de nada, até ter filhos. Depois que você tem filhos, você treme só de pensar que alguma coisa pode acontecer com eles.”
Penso que talvez Geraldo tivesse visto a imagem das filhas nos estudantes que ajudou, e penso no quão bonito o amor paterno pode ser, quando floresce. Talvez tenha tremido só de pensar que suas filhas sofreriam a angústia de terem se preparado o ano inteiro para um exame que não aconteceria por uma questão de minutos, e talvez tenha sido levado por esse sentimento sublime a arriscar o próprio emprego para ajudar quinze desconhecidos.
Ou talvez seja só um motorista de ônibus gente finíssima.
Desta vez, apeteceu-me apresentar as razões por que ver o telejornal é uma actividade de alto risco. 1) O mundo está cheio de cães que mordem o homem — só que não aparecem nas notícias Se o homem que morde o cão é notícia e o cão que morde o homem nem por isso, isto […]
O professor Aldo Fornazieri escreveu um texto forte, cujo título é “Os golpistas não podem ser perdoados”. Com erudição e clareza próprias de tudo o que o professor escreve ele argumenta essencialmente que o “perdão” que o presidente Lula ofereceu retoricamente aos golpistas não foi apropriado, nem no tempo, nem numa análise de política mais fria. Fornazieri vai a Maquiavel, Arendt e Weber para justificar que Lula errou e completa dizendo “A impressão que dá é que, em alguns casos, o comando petista perdeu a dimensão desses paradoxos da política e da moral”.
Professor, permita-me discordar.
Em primeiro lugar, creio que todos temos ciência do perigo da política idealista. Aquela que acredita que fazer política é um exercício de liberdade volitiva. É preciso sempre lembrar do grande Garrincha que em 1958, antes do jogo contra a URSS, teria avisado ao treinador Feola que “é preciso combinar com os russos”. Neste sentido, é preciso perguntar qual o objetivo de uma candidatura de Lula. Se o objetivo de uma candidatura de Lula for “vingar-se” dos “golpistas”, “chamar-lhes às falas” ou de alguma forma ir à desforra, creio que estamos fazendo as coisas erradas, pelos meios errados e com as pessoas erradas.
Em toda a sua história, Lula sempre foi um conciliador. E nunca escondeu isto. Quando à frente do governo brasileiro, em parceria com Amorim, elevou esta capacidade à esfera global. O Brasil se apresentava ao mundo não como o país que tinha tanques, aviões e bombas, mas como o país que “podia conversar com todos e qualquer um”. Assim, tolher (ainda que moralmente) o presidente Lula de exercer a sua principal e diferenciada capacidade é, já de começo, um tiro no pé.
Se o objetivo é punir os golpistas isto deverá ser feito pelo povo nas urnas, já que o STF exercita uma pendular ética em que apenas algumas leis merecem rigorosa atenção e punição se forem quebradas. Outras, discricionariamente escolhidas pelos sacerdotes-supremos, são de “foro íntimo” ou não merecem atenção dos “11 grandes”. Se o STF se furtou de punir, apenas o povo – nas urnas – pode. Não é papel do presidente encabeçar uma postura que aumentaria a clivagem nacional em um momento, devemos reconhecer, que a esquerda não tem capacidade material para fazer impor seus pontos.
Por outro lado, se o objetivo da candidatura Lula for “estancar a sangria” de direitos sociais e trabalhistas perdidos diariamente, então é forçoso reconhecer que Lula precisará de todo apoio que ele puder amealhar. E isto, se olharmos a história da representação de esquerda no nosso parlamento, fica ainda mais evidente. Ou aqueles partidos que defendem uma cisão radical de cunho moral com tudo o que eles acham “espúrio” na política, vão eleger 250 deputados e 40 senadores? Se o objetivo é que o Brasil possa voltar a respirar e os trabalhadores parem um pouco de serem vilipendiados diuturnamente, creio que o único modo é a conciliação. E louvo diariamente a nossa sorte de ter Lula para fazer este papel. Com mais de 70 anos, tendo perdido a esposa, ameaçado de prisão e firme a carregar as esperanças dos mais pobres e dos mais necessitados.
Sabemos que uma parte significativa da divergência entre Lênin e Trotsky, por exemplo, era exatamente na incapacidade do último – em momentos-chave – compreender que as questões materiais são preponderantes. O olhar frio para a política brasileira atual, sem o idealismo das micro-candidaturas ou o moralismo da direita, nos remete a completa incapacidade de governar sem alianças, que a esquerda hoje experimenta. Aliás, não só Dilma não conseguiu governar, como sequer a esquerda conseguiu mantê-la institucionalmente no poder. Se isto não demonstra cabalmente a necessidade de fazer alianças, então nada mais o demonstrará.
Habermas, quando refletindo sobre a reconstrução da Alemanha no pós-Segunda Guerra, chamava a atenção para o “uso mediado das narrativas históricas”. Mediado não pela moral ou pela ciência histórica, mas pela consciência visando um projeto político efetivo. Alguns dirão que a comparação com a Alemanha é deveras descabida, ainda que o meu enfoque seja em cima das clivagens político-sociais existentes nos tempos. Mas se é verdade que o Brasil não está rachado como esteve a Alemanha, também é verdade que o projeto da direita conservadora brasileira não foi vencido nem moral e nem pelas armas, como foi o projeto nazista. “É preciso combinar com os russos”.
Eu ainda me atrevo a dizer que se Moro não estivesse jogando o papel de completo desestabilizador político da esquerda (papel que faz há mais de quatro anos sem freios) o discurso de Lula não seria tão afável, tão cedo. Não nos esqueçamos que a disputa eleitoral de Lula terá cinco turnos. O ex-presidente precisa passar pelo tribunal de exceção de Curitiba e seus prolongamentos em Porto Alegre. Em seguida, terá o primeiro turno eleitoral e o segundo. Após teremos uma batalha no STF e TSE e talvez, além de todos estes turnos, Lula tenha que superar o “coturno”. De outro lado, fica claro que o povo brasileiro, ao não se levantar quando todos estes tapas lhe são dados no rosto, diz claramente que quer a conciliação e não o embate.
Querer que Lula não faça uma política de conciliação e diálogo é como amarrar uma perna de Garrincha e mandar-lhe jogar. É possível que Garrincha jogasse com uma perna só (talvez até a torta) mais do que o outro time todo. É possível que Lula ganhasse as eleições com um discurso sectário e de cristalização das clivagens políticas atuais. Um discurso de moralismo político tão generalista que diz que se o PMDB apoiou o golpe, todo correligionário do PMDB é golpista. Entretanto, nossa função, a um ano da eleição, é maximizar nossas chances de chegar de novo ao poder, e não incitar um revanchismo sem sentido. Ainda que estejamos, reconheço, marcados na carne pelas recentes injustiças.
E quanto ao argumento de que a concertação de classes de Lula mostrou “não dar certo”, desculpe-me professor, mas hoje, a concertação de classe de Lula me parece um mundo maravilhoso a ser alcançado. Hoje, aquela sociedade, com todas as suas contradições e paradoxos, me parece muito melhor do que o que estamos vivenciando. Um dos mais perigosos erros políticos é a sobrevalorização das nossas possibilidades. O golpe mostrou que a esquerda sozinha pode pouco. Sem Lula, pode menos ainda.
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O alerta vermelho da Petrobras nunca soou tão alto como agora no Rio Grande do Norte. O recente rebaixamento da refinaria Clara Camarão, que volta a ser subordinada à diretoria de Exploração e Produção da empresa depois de oito anos, aumentou a tensão entre trabalhadores, especialistas, políticos e empresários do setor no Estado. Sem informações precisas sobre os motivos da mudança, a expetativa é de que o fim da refinaria seja uma sinalização real do que se especula há alguns anos: o encerramento a médio prazo das operações de petróleo e gás no Rio Grande do Norte.
A informação divulgada em nota sucinta e sem diálogo pela Petrobras surpreendeu o Estado, principalmente porque o rebaixamento da refinaria potiguar acontece num momento em que a Clara Camarão recebeu autorização da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para passar a processar 45 mil barris de petróleo por dia com possibilidade de expansão em curto prazo para 66 mil barris de capacidade. Com a ampliação, a refinaria potiguar ultrapassou em capacidade de processamento a refinaria de Manaus.
Como o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) em relação à energia elétrica e combustível é cobrado no destino, a mudança de status não deve comprometer a arrecadação do Estado. A importância da refinaria Clara Camarão é, sobretudo, estratégica porque além de gerar empregos direitos, indiretos e movimentar a economia local, também produz o querosene usado no combustível de aviação, um dos trunfos do Governo do Estado na disputa com estados vizinhos para atrair o hub da Latam. Outro ponto positivo está ligado à expansão no processo de petróleo. Com a Clara Camarão, o Rio Grande do Norte passou a ser autossuficiente e a exportar gasolina, diesel, combustível de aviação (qav) e gás de cozinha.
Em uma nota de três parágrafos enviada à imprensa, a Petrobras não quis se pronunciar sobre a possibilidade do encerramento das operações do Estado e informou que a mudança é parte do processo de reestruturação das unidades operacionais da Companhia iniciado em 2016, quando cargos gerenciais das áreas administrativas foram reduzidos em aproximadamente 40%. A nova fase, estabelecida no Plano de Negócio e Gestão 2017-2021, deve representar uma economia de R$ 35 milhões à estatal.
Embora não divulgue abertamente, o interesse da Petrobras, na verdade, está concentrado na exploração do pré-Sal. E em paralelo vem reduzindo drasticamente os investimentos nos campos terrestres. Em agosto deste ano, a estatal anunciou a venda de 34 campos terrestres no RN e outros 16 na Bahia. A título de comparação, o Rio Grande do Norte possui hoje aproximadamente 4 mil poços produzindo 52 mil barris de petróleo. Apenas um poço do pré-sal, chega a produzir quase 40 mil barris.
O quadro de pessoal da Petrobras no Estado é uma das provas da falta de investimentos da estatal no Estado. De acordo com o Sindicato dos Petroleiros do RN, o número de funcionários terceirizados contratados pela empresa já é quatro vezes maior que o de efetivos. A Petrobras emprega hoje 1.500 funcionários concursados e 6 mil terceirizados. A equação do quadro funcional da refinaria Clara Camarão é a mesma. São 150 efetivos e 600 contratados sem concurso.
Audiência
Nesta quarta-feira (8), uma audiência pública proposta pela senadora Fátima Bezerra (PT), no Senado Federal, vai reunir representantes da Petrobras, das empresas do setor energético, do sindicato patronal e dos trabalhadores, da federação das Indústrias e do Governo do Estado para cobrar explicações da estatal e debater as consequências do rebaixamento da refinaria para o Rio Grande do Norte.
A senadora potiguar justificou a convocação da audiência lembrando a importância histórica e econômica da refinaria Clara Camarão para o Estado:
– Sabe-se que a Refinaria Potiguar Clara Camarão é uma unidade lucrativa e que conta com um histórico de gestores e operadores técnicos competentes e bem-sucedidos nas suas respectivas missões. Foi uma conquista histórica para o Rio Grande do Norte, e um sinalizador de novos empreendimentos e investimentos no futuro. A exclusão desta unidade dos planos regulares quanto ao parque de refino nacional implicará, cedo ou tarde, no fechamento desta refinaria, que, acompanhado da redução e minimização da participação da Petrobras nos campos produtores ao longo do tempo, resultará na finalização gradual da presença da estatal brasileira no nosso Estado.
Sem autonomia
Na prática, o rebaixamento da refinaria Clara Camarão para a diretoria de Exploração e Produção da estatal significa a perda de autonomia. De acordo com o presidente do Sindicato das Empresas do Setor Energético do Estado, Jean Paul Prates, a mudança representa a eliminação do Rio Grande do Norte do mapa do refino no país.
– Essa mudança é política e simbólica porque, com a Clara Camarão, o Rio Grande do Norte entrou no mapa do refino nacional. Quando a diretoria de refino e gás natural se reúne anualmente para planejar o refino nacional tinha que chegar na Clara Camarão. E agora isso vai deixar de acontecer porque volta para a diretoria de exploração e produção, é um retrocesso muito grande. Não se falará mais de Guamaré, (esse rebaixamento) não faz o menor sentido.
Prates lembra que a medida já vinha sendo discutida há algum tempo internamente pela Petrobras e cobra da estatal uma satisfação ao Rio Grande do Norte. Para ele, independente de qual seja a intenção da Companhia no Estado, é fundamental que haja transparência na divulgação das informações para que a cadeia produtiva que depende hoje da Petrobras possa se planejar.
– A Petrobras precisa dizer o que quer fazer no Rio Grande do Norte. Se a empresa tem um plano estratégico para daqui a dez anos, todos que dependem da Petrobras precisam se planejar também. O que a Petrobras pretende ? Quando a empresa chegou, interagiu com os governos locais, formou pessoas e jogou expectativas em cima da sociedade local. Mas se quer se retirar, que faça isso do mesmo jeito do que quando chegou. Não pode ser de repente. A diretoria da empresa diz que o rebaixamento da Clara Camarão não muda nada. Se não muda nada, porque mexer agora ? Isso precisa ser explicado.
Petrobras diz em nota que ‘capacidade de produção’ será mantida
A Petrobras não deu detalhes sobre as razões do rebaixamento da refinaria Clara Camarão e afirmou em nota que a mudança faz parte do processo de reestruturação da empresa. O comunicado fala em modelo de gestão, eficiência, otimização de custos, mas não faz nenhuma menção ao papel social que a estatal possui e vinha desempenhando nos últimos anos. Abaixo, a nota na íntegra:
A Petrobras iniciou, no final do último mês, processo de reestruturação das unidades operacionais da companhia, que prevê ajustes internos nas áreas operacionais de Exploração e Produção e de Refino e Gás Natural. A Refinaria Potiguar Clara Camarão (RPCC), localizada no município de Guamaré, no Rio Grande do Norte, faz parte deste processo. A RPCC, hoje integrada ao ativo Industrial de Guamaré, manterá a capacidade de produção e continuará produzindo derivados e atendendo ao mercado potiguar. Não haverá demissões em função da reestruturação das áreas operacionais. O novo modelo de gestão reduz a complexidade operacional, otimiza custos e contribui para a eficiência do negócio, agregando valor e maior solidez à RPCC.
Os recordes de produção de querosene de aviação (QAV) obtidos em janeiro (18.323 m3) e setembro de 2017 (19.841 m3) reforçam o compromisso da Petrobras na otimização dos seus processos e ganhos de produção, premissas que não se alteram com a reestruturação interna da companhia.
O objetivo da reestruturação da Petrobras é adequar a estrutura e a gestão à visão e objetivos estabelecidos no Plano de Negócios e Gestão 2017-2021, dando mais competitividade à companhia. A iniciativa dá continuidade ao projeto de reestruturação da Petrobras, iniciado em 2016, quando os cargos gerenciais das áreas administrativas foram reduzidos em aproximadamente 40%. A economia estimada com essa nova fase é de R$ 35 milhões por ano para a companhia.
Petroleiros criam Frente Ampla do Nordeste em Defesa da Petrobras
Os petroleiros de sete estados do Nordeste e do Espírito Santo lançaram em outubro a Frente Ampla do Nordeste em Defesa da Petrobras. A luta é contra a privatização e pela retomada dos investimentos da estatal. Um dos pilares da Frente é a defesa da soberania nacional através de uma Petrobras pública e estatal, inserida em um projeto de desenvolvimento nacional e de combate às desigualdades regionais.
Um calendário de ações organizadas com movimentos sociais e sindicais está sendo organizado. Além do Rio Grande do Norte e do Espírito Santo, participam sindicato dos petroleiros da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Ceará.
O coordenador geral do SindPetro no Rio Grande do Norte José Araújo lembra que o parque de refino do Estado tem capacidade para abastecer todo o país. Para ele, o problema mais grave é o desmonte provocado pela redução sistemática de investimentos pela Petrobras no Estado.
– O que a Petrobras vem fazendo em relação ao refino é um crime. O nosso parque de refino tem capacidade de abastecer todo o Estado e ainda pode ser ampliado. A Petrobras abriu o mercado de importação de combustíveis, hoje importamos metade do que consumimos e ainda reduziu a carga de produção. Muitas refinarias estão produzindo abaixo da capacidade.
O sindicalista acredita que se o lucro obtido com a produção local de petróleo fosse revertido em investimentos na bacia potiguar, a situação seria outra no Estado.
– Precisaríamos de R$ 1,5 bilhão, que é o que se produz aqui. Se fosse a produção fosse revertida em investimentos não teria problema. Agora, deixando ou não de ser refinaria a Clara Camarão vai produzir a mesma coisa. O problema é: o governo vai reduzir a capacidade de produção ? Com a queda dos royalties, a produção toda caindo, a indústria precisa de investimento. A Petrobras responde hoje por 50% do PIB industrial do Rio Grande do Norte. Se deixar morrer, prejudica o Estado.
Um dos mistérios da “delação premiada” é o que ocorreu com Mariano Marcondes Ferraz.
Graças aos seus conhecimentos na Petrobras, Mariano passou a representar duas empresas: a italiana Decal e a holandesa Trafigura.
A Decal é uma empresa italiana que trabalha com gestão para terceiros de terminais de petróleo e produtos químicos. Fatura 190 milhões de euros, ou o equivalente a R$ 703 milhões por ano.
Mesmo para os padrões brasileiros, seria uma empresa média. E seu faturamento é quase 450 vezes menor que o da Trafigura.
A Trafigura é uma empresa suíço-holandesa, uma das maiores comercializadoras de petróleo do planeta. Fatura mais de U$$ 120 bilhões, ou R$ 384 bilhões ano. É a 54º maior empresa na lista da Fortune.
Ambas tinham três pontos em comum: os negócios com a Petrobras; o mesmo lobista, Mariano Marcondes Ferraz; e a mesma área de negócios, a Diretoria Internacional da Petrobras, sob supervisão do notório Paulo Roberto Costa. Donde se conclui que o grande trunfo do lobista comum, era o mesmo diretor Paulo Roberto Costa.
Eram diferentes as relações de Mariano com as duas empresas.
Na Decal, foi apenas um freelance que conseguiu um contrato com a Petrobras para a instalação de um terminal de tancagem e movimento de navios em Suape. Por conta do contrato, ganhou 5% de participação na empresa.
Já na Trafigura, Mariano fazia parte do Conselho mundial da empresa, ajudando a consolidar as relações com a Petrobras e com o mercado africano.
Sâo gritantes as diferenças de valores entre os contratos da Petrobras com a Decal e a Trafigura.
Entre 2004 e 2015, a Trafigura firmou contratos de afretamento de navios para a Petrobras no valor de US$ 169 milhões; entre 2003 e 2015, contratos de compra e venda de derivados no valor de US$ 8,7 bilhões, ou de US$ 580 milhões/ano. O último contrato da Decal com a Petrobras envolveu valores de R$ 56 milhões, ou US$ 18,7 milhões/ano, 31 vezes menor que os da Trafigura.
Não apenas isso.
Números
Trafigura
Decal
Trafigura/Decal
Faturamento Global (US$)
384.000.000.000
703.000.000
546 vezes
Negócios com Petrobras (US$/ano)
580.000.000
18.700.000
31 vezes
A Decal atua em um mercado controlado. A Petrobras paga pelo uso dos terminais. O máximo que se consegue é o reajuste das tarifas.
Já a Trafigura opera no mercado de compra e venda de combustíveis, que chega a 300 mil barris dia de petróleo cru, a grande mina de ouro da corrupção.
Duas das principais delações apontaram para a Lava Jato um alvo muito maior do que a corrupção até então investigada: o da comercialização de combustíveis.
A prisão de Mariano Marcondes Ferraz poderia abrir o leque de investigações da Lava Jato para uma macrocorrupção de dimensão global, dezenas de vezes maior que o da construção pesada, conforme atestaram duas delações de pessoas chaves, Nestor Cerveró e Delcídio do Amaral.
Em sua delação, Nestor Cerveró revelou que os negócios de comercialização de combustíveis era muito maior do que o de afretamento de navios (clique aqui). Ambas as operações não precisavam ser aprovadas previamente pela diretoria e cada centavo, nas compras, equivalia a milhões de dólares, dizia Cerveró, “razão de sempre ter havido ingerência política no setor”. Apontava como as maiores tradings do setor a Glencor e a Trafigura. E indicava Mariano Marcondes Ferraz como o grande operador de trading, “acreditando que estivesse vinculado à Glencor ou à Trafigura”.
Na página 80 da delação de Delcídio do Amaral, se lê:
DELCIDIO DO AMARAL tem conhecimento que uma das áreas mais cobiçadas da PETROBRAS e a de Abastecimento, principalmente, em razão da comercialização de petróleo no exterior, na medida em que são comercializados 300.000 barris diários de petróleo leve, em números atuais, isso representaria em media quase US$ 10 milhões por dia.
DELCIDIO sabe que as operações financeiras são todas feitas em Londres através de “brokers”, tal modo de comercialização permite que pequenas variações no preço do petróleo representem altos ganhos aos seus principais operadores, dando azo a um terreno fértil para várias ilicitudes, vez que os preços podem ser alterados artificialmente,
No entanto, Mariano foi indiciado pelas operações relacionadas com a Decal. Dez dias depois de detido foi liberado, mediante o pagamento de irrisórios R$ 3 milhões, e o nome da Trafigura sumiu das investigações e do noticiário.
O que aconteceu com a chamada maior operação anticorrupção do planeta?
Vamos entender esse jogo em cinco movimentos
Movimento 1 – de playboy a lobista
O primeiro passo é saber um pouco mais de Mariano Marcondes Ferraz.
Uma consulta nos sites especializados indica que, até 2.001, sua atividade empresarial não sugeria o super-lobista global dos anos recentes. A única empresa da qual participava era a Blue Moon Produções Ltda., uma produtora de vídeos aberta em 16/10/1997 (clique aqui).
Era mais conhecido por suas festas, sua vida social e pelo fato de ser filho da mitológica Silvia Amélia de Waldner, neé Silva Amélia Melo Franco Chagas, como diria o colunismo dos anos 70, neta do cientista Carlos Chagas, casada em primeiras núpcias com Paulo Marcondes Ferraz e, no já longínquo 1973, com Gerard de Waldnere, um autêntico barão francês.
Dos tempos de solteira, tornou-se musa de Roberto Carlos e Tarso de Castro e deixou a imagem de uma jovem alegre e cativante, estrela de um único filme, “Roleta Russa”, de 1972. Do casamento com Paulo Marcondes Ferraz, restou o rebento Mariano que, até 2001 era mais conhecido pelas festas de arromba e pelas colunas sociais.
Um artigo no JB, no início dos 90, descrevia o playboy e dizia que ele arrumou emprego em uma multinacional só para fazer número. O artigo mereceu uma carta queixosa do rapaz ao jornal.
Mariano fazia parte de um grupo de playboys, os meninos maus de famílias boas, frequentadores do Baixo Leblon, como Júlio Lopes e Antenor Mayrink Veiga, com quem disputava campeonatos de conquista. Durante todos os anos 90, das 39 menções ao seu nome, no Jornal do Brasil, apenas duas não se referiam a conquistas ou a eventos sociais.
Uma de 1995, quando furou o pneu de um carro na calçada do Country Club que atrapalhava a passagem do carrinho de sua filha recém-nascida. E outra, do início da década de 90, anunciando a criação de uma corretora, com mais um amigo e o apoio do Banco Icatu, que acabou desaparecendo com a crise da Bolsa do Rio.
Frequentador assíduo da prestigiosa Coluna do Zózimo, aparecia ora dançando lambada com Elba Ramalho, destroçando corações com seu amigo Antenor Mayrink Veiga, ou sendo derrotado, em uma vibrante semifinal de tênis no Country Club, enfrentando o campeão amador Jorge Paulo Lehman.
Foi nesse ambiente, na divina decadência dos estertores do Rio internacionalizado, que naufragou com o crack da Bolsa de Valores, que Mariano montou sua rede de relações.
Aliás, o fim do Rio, como centro financeiro, mudou o destino de dezenas de filhos de famílias tradicionais, que historicamente mantinham contatos com o exterior, especialmente na fase áurea da internacionalização do Rio, do período da guerra até os anos 1970. Foram aproveitados nos novos bancos de investimentos, como quadros da AMBEV, e em outros setores abertos pela internacionalização da economia e onde contam as redes de relacionamentos internacionais.
Internamente, Mariano se valeu das ligações da família Marcondes Ferraz e, no plano internacional, certamente das ligações da mãe, baronesa de Waldner, com o alto mundo europeu.
Suas aventuras petrolíferas começaram em 2001.
Em 12/09/2001 montou a Up Offshore Apoio Maritimo Ltda, com capital respeitável de R$ 50 milhões. Em 10/07/2002 a Firma Consultoria e Participações Ltda, para atividades não especificadas e com a qual se tornou sócio da Decal Brasil.
Quando as cotações do petróleo explodiram e a Petrobras se projetou no mundo, a rede de relações de Mariano, no Rio e na Europa, passaram a valer ouro negro.
Especialmente porque, no mundo do petróleo, surgia um candidato a gigante que via na explosão das commodities, com o advento da China, e nas riquezas minerais da África e da América Latina – e na sua capacidade de suborno -, o seu grande salto.
Movimento 2 – A gigante Trafigura
E, aqui, faz-se uma pausa para conhecer melhor esse gigante, a multinacional Trafigura.
Nos grandes números, sabe-se que tem escritórios em 36 países. Hoje em dia é o segundo maior comercializador de metais e o terceiro maior comercializador independente de petróleo do mundo, comercializando mais de 4 milhões de barris de petróleo por dia (clique aqui).
A Trafigura nasceu em 1993 com um pecado original. Foi fundada por ex-colaboradores do empresário norte-americano Marc Rich, condenado por evasão fiscal em grande escala e depois indultado pelo presidente Bill Clinton. O grande líder do grupo era Claude Dauphin, um dos mais atrevidos gestores dos últimos 50 anos, falecido em 2005. Irônico, sagaz, parecido com Mr. Bean, incutiu na equipe princípios que aprendeu no mercado de commodities, como controle compartilhado, participação nos lucros, foco total na rentabilidade, vida regrada em público, evitando ostentações com a riqueza, regra seguida por quase todos os grandes bilionários que surgiram nas últimas décadas.
Marc Rich e Claude Dauphin
Em uma época de grandes terremotos na geopolítica mundial, Dauphin apostou fortemente na corrupção como componente intrínseco da sua estratégia, porque focada na busca de reservas minerais – petróleo, ferro e outros –, e em investimentos complementares em infraestrutura em países de baixo controle institucional e democracia não consolidada.
A decisão de seguir adiante foi devidamente justificada após a virada do milênio, com o crescimento dos mercados emergentes e a decolagem na demanda de minerais industriais. A existência de duas divisões de negociação possibilitou um negócio mais estável e diversificado, e permanece um pilar da estratégia da Trafigura.
(…) Investimentos dirigidos em infraestrutura poderiam ajudar a empresa a obter acesso a volumes de negociação, especialmente em um momento de mudanças estruturais significativas nos fluxos comerciais internacionais.
A nova geografia mundial foi exemplarmente aproveitada pela empresa:
O crescimento de economias emergentes desde a China até a África e a América Latina gerou novos desequilíbrios no mercado e novas oportunidades globais de negociação para aqueles com os sistemas e infraestrutura necessários.
Em segundo lugar, houve uma aceleração na demanda de energia e matérias-primas industriais conforme as economias emergentes embarcavam em uma nova rota de crescimento, lideradas pela China.
Em um setor tradicionalmente corrupto, conseguiu algumas proezas. Como ser acusado pelo Greenpace de ter comprado os depoimentos de nove testemunhas da Costa do Marfim, para se safar de uma acusação de ter despejado lixo tóxico no mar. O que não impediu que Dauphin passasse seis meses na cadeia. Foi acusado também de ter desviado recursos de fundos humanitários da ONU, do programa de petróleo por comida montado na guerra do Iraque.
O auge da corrupção foi a conquista da Angola. E aqui se juntam os destinos da Trafigura e do ex-playboy Mariano Marcondes Ferraz, que se tornou um dos meninos de ouro de Claude Dauphin.
Movimento 3 – Mariano e a conquista de Angola
Mariano entrou na Trafigura em 2009. E foi alocado para comandar a Puma Energy, o mais promissor braço de negócios da empresa.
Em 2010 surgiu a operação Angola, e a Puma ganhou uma posição estratégica. Criou uma subsidiária, a Pumangol, associação da DTS (a empresa que controlava a Puma) com a Cochan S.A., empresa criada em 6 de abril de 2009, de propriedade dos principais políticos do país. A DTS ficou com 51% e a Cochan com 49%. E esse feito foi de responsabilidade de Jean-Pierre Valentini e Mariano.
Em 13/02/2014, o Foreign Policy publicou reportagem detalhada da jornalista Michael Weiss sobre a corrupção angolana. Consultor chefe do Ministro de Estado e Chefe do Gabinete de Segurança e testa-de-ferro do presidente José Eduardo dos Santos, o General Leopoldina Fragoso de Nascimento tinha 15% da Puma Energy, em valor estimado de US$ 750 milhões, o que o fazia o segundo homem mais rico do país.
De acordo com a reportagem, além do general Dino, participam do regabofe o vice-presidente da República Manuel Vicente, e o general Manuel Hélder Vieira Dias “Kopelipa”.
Kopelipa
Além da Trafigura, a Cochan tornou-se parceira da norte-americana Cobalt International, que opera os blocos 9 e 21 do pré-sal angolano. A Cobalt está sendo investigada nos EUA por suspeitas de violação das leis anticorrupção.
Os ganhos da Trafigura foram monumentais.
Em agosto de 2010, o presidente José Eduardo dos Santos assinou cinco contratos de investimento com o grupo avaliados em US$ 931 milhões.
O contrato garantia à Trafigura monopólio virtual sobre as importações de derivados e venda da produção própria em Angola através de seus escritórios em Singapura.
Dessa sociedade nasceram a Angofret (de cargas e logística), a AEMR, explorando a indústria siderúrgica, ferro e manganês, a DT Agro, para projetos agropecuários, a DTS Commercial & DTS Refining, comercializando petróleo e derivados, e a DT Shipping, operando transporte marítimo, a DTS Serviços, de serviços financeiros, e a DTS Imobiliária.
Apenas as importações de produtos petrolíferos em Angola renderam 3,25 milhões de toneladas métricas de derivados de petróleo, contrato avaliado em US$ 3,3 bilhões.
Tratava-se de um escândalo internacional, motivado pelas descobertas do pré-sal angolano.
No site Africaintelligence, edição de 16/11/2016, Mariano era apresentado como protegido de Claude Dauphin.
Entre os administradores do referido grupo encontram-se também Claude Dauphin, um dos fundadores da Trafigura, e o brasileiro Mariano Marcondes Ferraz, considerado como o ponta-de-lança da Trafigura em Angola. Foi este último quem assinou os acordos com o executivo angolano, no valor de quase um bilião de dólares.
Por todos esses sucessos, em setembro de 2014 Mariano foi elevado à condição de um dos nove membros do Conselho da Trafigura. Seria o mesmo que pertencer ao grupo de sócios controladores de uma Inbev.
Afinal, a estratégia da Puma Energy, agora, se voltara para a América Latina, preferencialmente atrás dos ativos da Petrobras na Colômbia e no Chile.
Uma mera consulta ao DHS, o departamento do governo dos Estados Unidos incumbido da cooperação internacional, bastaria para se saber da dimensão do fator Trafigura. Mas o MPF brasileiro não se moveu.
Movimento 4 – a Lava Jato e a delação de Mariano
Desde 09/10/2014 a delação de Paulo Roberto Costa já vazara para a imprensa, através da revista Época, alertando Mariano e a própria Trafigura sobre o que vinha pela frente.
Dizia a matéria que Paulo Roberto Costa
Entregou, também, multinacionais poderosas da indústria do petróleo, como Trafigura e Glencore, as grandes vendedoras de derivados de combustível no mercado internacional.
Quando a notícia vazou, advogados paulistas envolvidos com a Lava Jato perceberam que, ali, abria-se o leque para uma nova etapa, em que a corrupção se contava na casa dos bilhões. Batia-se no centro da mais deletéria das corrupções globais, a das empresas petrolíferas na África.
Após o vazamento, nenhuma medida preventiva foi tomada, visando resguardar provas, não se sabe de nenhuma investigação adicional. No fundo, o vazamento serviu para conceder dois anos de prazo para que Mariano e a Trafigura montassem suas estratégias de defesa.
Alertado pelo vazamento do MPF, nos meses seguintes Mariano tomou duas providências: em outubro de 2015 formalizou união com a atriz Luiza Valdetaro e a despachou para Londres com a filha, com a intenção óbvia de se mudar do Brasil; e tratou de montar seu álibi, junto com a Trafigura.
Quando se consumou sua prisão, não passou de jogo de cena, uma obrigação legal, já que seu nome foram mencionado em quatro delações.
No dia 26/10/2016, dois anos após o vazamento, a pedido do Ministério Público Federal o juiz Sérgio Moro autorizou busca e a prisão preventiva de Marcondes Ferraz.
Como a prisão se baseara nas delações, na fase inicial não havia modos de tirar a Trafigura do noticiáriol.
“Com a prisão preventiva do empresário Mariano Ferraz, detido no aeroporto de Guarulhos nesta quarta-feira, 26, quando estava prestes a embarcar para Londres, a força-tarefa da Lava Jato avança sobre uma área ainda não investigada na Petrobrás: o setor de compra e venda internacional de combustíveis e derivados”.
No pedido de busca e apreensão solicitado pelo Ministério Público Federal, e autorizado pelo juiz Sérgio Moro, (clique aqui) o nome da Trafigura aparecia claramente no mandado:
“Envolve o pagamento de propinas pelo Grupo Trafigura ou pela DECAL do Brasil, por intermédio de Mariano Marcondes Ferraz, ao então Diretor de Abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, em decorrência de contratos com a estatal brasileira. Mariano Marcondes Ferraz, de nacionalidade brasileira, é um dos diretores executivos do Grupo Trafigura.”
Mais. Mencionam delação de Paulo Roberto Costa atribuindo as propinas à Trafigura, representada por Mariano:
“Paulo Roberto Costa, exDiretor de Abastecimento da Petrobrás, revelou, após ter celebrado acordo de colaboração premiada, que a empresa Trafigura, representada por Mariano Marcondes Ferraz, ofereceu e pagou vantagem indevida em contratos da Petrobrás (termo de colaboração n.º 38, evento 1, anexo3).
No despacho em que autorizou a prisão preventiva de Mariano, eram elencados diversos motivos: o fato de ter dupla cidadania, de possuir recursos vultosos no exterior, de ter residência em Londres.
Apenas oito dias após sua prisão, Mariano Marcondes Ferraz foi liberado pelo juiz Sérgio Moro mediante a módica fiança de R$ 3 milhões, aceitando as explicações dos advogados do réu.
Os advogados explicaram que Mariano passou a morar em Londres por conta da gravidez de sua esposa, com receio da epidemia de zika, por isso veio pouco ao Brasil; que todas as vezes que veio ao Brasil, foi publicamente, sem se esconder; e que a esposa pretende voltar ao Brasil etc.
Foi o que bastou, para conseguir a liberdade imediata, ampla total e quase irrestrita. A única proibição mantida foi a de viajar para fora do país.
Movimento 5 – a Trafigura desaparece da Lava Jato
Quando o escândalo explodiu, com a prisão de Mariano em 26/10/2016, a Trafigura já tinha pronta uma nota oficial, atribuindo as propinas a Paulo Roberto Costa exclusivamente às operações de Mariano com a Decal.
Essa versão foi imediatamente divulgada, através de nota oficial e aceita pelo Financial Times e pela Reuters. Afinal, do lado das autoridades investigadoras, não havia nenhuma informação em contrário.
Nos meses seguintes Mariano contratou o advogado Figueiredo Bastos, o mais antigo e mais influente dos advogados das delações premiadas da Lava Jato. E a Trafigura magicamente sumiu do noticiário.
Quando saiu a denúncia da Lava Jato contra Mariano, a Trafigura não mais constava dela.
Síntese: Em 2006, a Petrobras contratou a Decal do Brasil para a prestação de serviços de armazenagem e acostagem de navios no Porto de Suape (PE), com prazo de duração de cinco anos. Ao final do contrato, havia resistência da estatal em realizar nova contratação da empresa, que insistia em renovar o contrato com preços majorados. Para resolver a situação a favor da Decal do Brasil, Mariano Marcondes Ferraz ajustou o pagamento de propina com Paulo Roberto Costa, então diretor de Abastecimento da estatal petrolífera.
Na íntegra da denúncia apresentada, datada de 11/01/2017, o MPF encampa totalmente a versão de que Mariano operara apenas para a Decal. A Trafigura aparece em uma nota de rodapé, em uma citação do depoimento de Paulo Roberto Costa, com um sic – termo que serve para apontar inconsistências do autor original dos trechos citados. Isso, apesar da informação colhida pela Lava Jato de que Mariano estivera em …. Oportunidades na sede da Petrobras, todas em nome da Trafigura.
Em despacho no dia 02/03/2017 o juiz Sérgio Moro aceitou a denúncia. É uma sentença curta de 6 páginas. As duas primeiras são as referências de praxe ao esquema de corrupção na Petrobras.
Depois, sintetiza a denúncia contra Mariano, mencionando que a corrupção se destinava a beneficiar o grupo Trafigura e/ou Decal.
Igualmente, instruída com o teor do depoimento do colaborador Fernando Antonio Falcão Soares, no qual ele afirma haver participado de um jantar na residência de Paulo Roberto Costa, no qual estava também presente Mariano Marcondes Ferraz, e no qual teria sido discutida a renovação de contrato de aluguel de tanques que a empresa Trafigura mantida com a Petrobrás na Refinaria do Nordeste Abreu e Lima RNEST, embora não tenha sido tratado especificamente do pagamento de propinas (anexo 15).
No despacho em que ordenou a prisão de Mariano, Moro deixava claro as dúvidas sobre as propinas, se provenientes da Trafigura ou da Decal.
Na página 6:
Não está totalmente claro se agiu, na ocasião, representando os interesses da Trafigura ou da Decal.
O despacho do juiz Sérgio Moro assegurava uma inédita tranquilidade a Mariano.
Tendo à sua frente um dos grandes lobistas internacionais, homem capaz de desvendar os segredos da corrupção da Trafigura no mundo, e tendo à sua mão a arma da delação premiada, Sérgio Moro e os procuradores nada fizeram.
No dia 17/10/2017 Mariano foi ouvido pelo próprio Moro e por procuradores.
Foi um interrogatório amável, de apenas 30 minutos, sem pegadinhas, sem agressividade. E sem nenhuma pergunta sobre a Trafigura.
No final, Moro indaga se alguém tem mais questão. Entra o procurador que considera o depoimento “bem completo” e se limita a indagar se houve algum contrato celebrado para disfarçar as propinas, entre outras perguntas igualmente irrelevantes. Quando saiu do Brasil? Passou a residir na Suíça? Todas as contas têm sua identificação? Quando saiu do Brasil deixou de pagar Imposto de Renda aqui?
Aos 27:52 minutos a audiência termina com uma formidável levantada de bola do procurador:
– Esse contrato da Decal com a Petrobras O senhor tem ideia de quanto representa de economia para a Petrobras em relação ao modelo anterior?
Modestamente, Mariano estimou em um ganho de R$ 30 milhões anuais para a Petrobras.
Seguiu-se uma breve sessão arrependimento de Mariano e a sessão terminou com todos se dando por satisfeitos.
Movimento 6 – as razões inexplicadas
Como entender essa blindagem da Trafigura por parte da Lava Jato? Deslumbramento com um lobista internacional, frequentador do alto mundo, da mesma maneira que se deslumbraram com madames cariocas? Desinteresse pelo fato de não ter nada a declarar contra Lula? Displicência? Confirmação de que o único objetivo da Lava Jato era destruir as empresas brasileiras mais competitivas internacionalmente, especialmente as que atuavam na África? Suborno, através da indústria da delação premiada?
Seja qual for o motivo, a Trafigura foi duplamente beneficiada pela Lava Jato. De um lado, através da destruição de suas maiores concorrentes naquelas bandas da África, a Petrobras e as empreiteiras brasileiras. De outro, pelo fato da Lava Jato tê-la livrado das denúncias de ter corrompido a própria Petrobras.
Hoje em dia, o portal da Lava Jato esmera-se em apresentar estatísticas sobre a maior operação anticorrupção do planeta. Não há explicações para o fato de ter estendido a rede, nela caído o principal tubarão da corrupção planetária, e a Lava Jato ter facilitado a sua fuga.
Não há explicações para a dupla vitória da Trafigura com a Lava Jato. De um lado, destruindo a influência brasileira em Angola, as principais concorrentes tanto no setor petrolífero quanto da infraestrutura, criminalizando financiamentos e até ação diplomática. De outro, por tê-la deixado escapar sem uma mancha sequer.
Indagado sobre o caso, o Ministério Público Federal do Paraná enviou-nos a seguinte nota, assinada pelo assessor de imprensa Rubens Chueire Jr.:
A denúncia e ação penal em andamento referem-se ao pagamento de propina relacionada ao contrato da Petrobras com a Decal. Os demais fatos seguem sob apuração.
Sobre colaboração, a força-tarefa do MPF/PR não faz comentários sobre supostas negociações de acordos ou a existência ou não dos mesmos.
A divulgação dos nomes de pessoas e empresas da lista dos Paradise Papers está nas mãos de um consórcio internacional de Jornalistas, que divulgam o que querem e na velocidade em que decidem. Dois nomes de brasileiros já foram divulgados, o dos ministros Henrique Meirelles e Blairo Maggi.
Embora também esteja na lista o nome de José Roberto Marinho e de seu filho Paulo Daudt Marinho também estão lá, mas não foram divulgados, talvez porque a existência dessas contas já tenha sido anunciada nos Panama Papers.
Mas no site de um portal do Paquistão, é possível ter acesso a todo o material e até baixá-lo para seu computador. Lá, é possível pesquisar pelo nome de pessoas e empresas. Foi onde descobri os nomes de José Roberto Marinho e seu filho.
Estou no Recife, no apartamento de uma amiga. A noite toda tentei dormir. No entanto, vizinho ao prédio, num pequeno bar popular, músicas são tocadas a toda altura. Indiferentes aos vizinhos, a quem, se supõe, têm o direito de dormir, no mínimo de escolherem as músicas que querem ouvir, seus gostos musicais são impostos a todo mundo, como se estivessem sozinhos no mundo, como se a rua, a cidade, o mundo fossem só deles. Agora são 8h35 da manhã, estou a exatamente dez horas ouvindo as mesmas músicas se repetirem infinitas vezes. Há cerca de uma hora escuto sem cessar “Sedutora”, a mesma música que convida a “apagar a luz e vir brincar”, mas minha vontade não é propriamente de brincar.
Vivo numa cidade que, desde que cheguei, me impressiona pela total falta de noção do coletivo, da existência em comum, fundamento da própria cidadania, do habitar a cidade. Em frente ao meu prédio, mora uma família típica da classe média brasileira. Moram em uma casa imensa, que ocupa o que antes foram dois lotes de terreno. Mas tanto espaço é muito pouco para nossa elite, dona do mundo. Ao construir a casa, o espaço reservado às calçadas de pedestres foi invadido. As calçadas deles têm metade da largura que deviam ter. Achando pouco, árvores foram plantadas no que sobrou, fazendo com que os pedestres tenham que caminhar pelo leito da rua. Mas não foi suficiente: quando raízes de uma das palmeiras que foram plantadas no jardim racharam o muro da casa, a solução não foi cortar a palmeira, mas fazer um bucho no muro para o lado de fora, reduzindo ainda mais o espaço de circulação de pedestres. Na curva que se formou no muro, foi feita uma espécie de jardineira, onde se plantou uma trepadeira que, ao crescer, não deixa os pedestres passarem. Sempre que se precisa tirar tralhas do quintal, elas são colocadas sobre a calçada. Os pedestres que se virem.
Todo ano, em algumas datas, a rua em frente a essa casa é simplesmente fechada, por essa família. Sem qualquer aviso à Prefeitura, ao Setor de Trânsito, um caminhão é atravessado na entrada da rua, tornando-se palco onde bandas tocam para que as pessoas dancem em plena rua. Não sei se com a anuência ou não dos vizinhos, gambiarras de lâmpadas são estendidas em frente aos imóveis alheios, mesas e cadeiras de plástico são espalhadas pela rua, brinquedos para crianças são instalados em frente a entrada das casas vizinhas. Sem qualquer sinalização de que a rua está bloqueada, os carros nela entram e têm, então, que voltar de ré. Toda a vizinhança é premiada com músicas tocadas até a meia noite. Numa casa que tem uma garagem que abriga seis carros das mais diferentes marcas e duas motos, não há espaço para fazer suas festas, é preciso privatizar o espaço público, invadir as ruas, atravancar o trânsito, ocupar as calçadas de pedestres, fazer da frente das casas dos vizinhos extensão da mansão, que parece ser sempre pequena para o ego, o poder e o falta de noção de vida coletiva de seus moradores.
A inação da Prefeitura Municipal, diante desse e de tantos outros casos, sempre me chamou atenção. Em Natal, os proprietários de imóveis não obedecem qualquer legislação na hora de construir as calçadas. Ser pedestre em Natal, notadamente se for idoso ou portador de necessidades especiais, é uma tarefa hercúlea. Calçadas são construídas como obstáculos à passagem, são elevadas, íngremes, irregulares, muitas desprovidas até de batentes. Fazendo caminhada, um dia, vi adolescentes usando uma calçada para fazer manobras de skate, de tão íngreme que era. Algumas calçadas são transformadas em continuação de jardim ou gramados, indicando que não devem ser pisadas, não são para passar. Continuamente as calçadas servem de extensão das casas comerciais, dos bares, das barracas. Mesas e cadeiras são instaladas, lanchonetes são improvisadas, fregueses comem tranquilamente sentados sobre as calçadas, por onde deveriam circular os pedestres, que se arriscam no leito da rua. Calçadas são constantemente obstruídas por carros e motos estacionados sobre elas. Por falta de ciclovias, ciclistas circulam sobre as calçadas. As oficinas mecânicas fazem das calçadas a continuação de seus prédios. As calçadas são privatizadas, obstruídas, ocupadas, sem que se veja qualquer ação por parte do poder público.
Um taxista me mostrou um sinal de trânsito, de proibido estacionar, colocado em frente a uma casa que, segundo ele, não foi colocado pela Prefeitura, mas por um ex-militar aposentado, que por ter dificuldade de manobrar e sair com o carro de sua garagem, principalmente quando havia carros estacionados próximos, resolveu mandar fazer um sinal clandestino e colocar no lugar, sem que o poder municipal nada faça. Os postos de gasolina se tornaram bares noturnos, onde carros são estacionados com aparelhos de som ligados a toda altura. Não satisfeitos em instalar paredes de som em seus veículos, que são capazes de tornar qualquer um surdo em pouco anos, o fazem voltados para o lado de fora. O som não é para ser escutado pelo proprietário, mas distribuído e imposto a todo e qualquer um, nas ruas por onde vai se passando, a qualquer hora do dia ou da noite, não importando proximidade com escolas, hospitais, creches, hotéis para idosos, etc.
Essas atitudes são resultado de uma sociedade em que a noção de público, de coletivo, em que o outro é muito pouco respeitado. Nossa formação histórica, assentada na instituição familiar, na prevalência da vida privada sobre a vida pública, no predomínio dos interesses privados, em relação aos interesses públicos, trouxe essas características para nosso modo de ser. Desprezamos o que é público, é aquilo que não é de ninguém, que pode ser invadido, depredado, destruído. Ao invés de ser o que é de todos, o que deve por todos ser usufruído, é o que deve ser privatizado, tomado para si ou, então, destruído, abandonado, não cuidado. A visão senhorial, que marca as nossas elites, faz com que elas enxerguem apenas o seu próprio nariz, que achem que o mundo existe só para elas, que o outro é apenas um atrapalho, um empecilho que deve ser superado. O outro sequer é enxergado, se ele existir e tiver seus próprios gostos e interesses, o problema é dele. Esse desconhecimento da existência do outro, se estendeu para as camadas populares, que introjetaram essa dificuldade em lidar com a alteridade, essa busca pela identidade completa entre a realidade, os outros e seus desejos. O que importa que a vizinhança queira dormir, se eu estou querendo beber e curtir um som, ela que se dane ou se mude. Se reclamar, ainda é chata, intolerante, estraga prazeres.
Se encontro a vaga para idoso ou deficiente físico disponível no shopping center, por que não a irei ocupar, com meu carrão? Se eu tenho aquela caminhoneta imensa, por que não estacioná-la atravessada, tomando parte da vaga vizinha? Se preciso fazer compras, por que não estacionar em fila dupla, na frente da loja, obstruindo a saída de outro veículo? Trata-se de sempre tirar vantagem da oportunidade oferecida, desde que ela favoreça os interesses e objetivos privados e imediatos. Não dá tempo nem de pensar que existe um outro que pode ser prejudicado, que está tendo seus direitos desrespeitados. Ele também não faria o mesmo, se tivesse oportunidade? Numa sociedade dos mais espertos, dos que chegam antes e primeiro que os outros para roubarem ou desobedecerem seus direitos, não é possível termos a noção de cidadania desenvolvida. Cidadania implica o reconhecimento do outro como um ser de direito, como o limite de meus próprios direitos, como sendo o que põe fronteiras a expansão de meu ego. Numa sociedade que durante muito tempo teve na relação senhor e escravo a relação fundamental, relação na qual o outro inexiste como ser de direitos, era visto como uma extensão da vontade do senhor, era visto como uma coisa, um objeto a ser utilizado, o respeito pela alteridade, pelos direitos do outro foi bastante atrofiado.
O egoísmo, a centralização em atitudes egóicas, a centralidade da vontade própria em detrimento da vontade coletiva, tem implicações políticas claras na sociedade brasileira. Somos uma sociedade que cultua e valoriza figuras ególatras, autocentradas, que atropelam o direito dos outros. O fascínio político que figuras como Vargas, Jânio Quadros, Carlos Lacerda, Antônio Carlos Magalhães, Fernando Collor, Jair Bolsonaro, exerceram e exercem sobre muita gente em nossa sociedade, vem desse culto a personalidades autoritárias, a esses líderes caracterizados pela prevalência de sua vontade individual sobre qualquer vontade coletiva, pelo “faz e arrebenta”, pelo “rouba mas faz”, típica de uma sociedade onde as figuras individuais imperam sobre as lideranças mais democráticas e republicanas. Se muita gente ama tiranetes e reivindica a volta dos militares, isso se deve a esse apreço de nossa sociedade por figuras que pouco se importam com os outros, que fazem de sua vida política a imposição de suas ideias, de seus projetos e de seus desejos. Não se admira o político que submete suas decisões a coletivos, ele parecerá fraco e sem iniciativa. No início de sua existência, o Partido dos Trabalhadores era muito criticado por discutir demais, por ser assembleísta, por tomar decisões coletivas. O surgimento da figura carismática e singular de Lula alimentou essa tendência política no Brasil de se buscar salvadores da pátria, de homens que sozinhos resolverão todos os problemas.
O que assistimos na política brasileira atual é a exposição, à luz do dia, de maneira despudorada, dessa prevalência do interesse privado sobre o interesse público. Claramente nossos parlamentares e governantes estão ali para atender seus interesses e vontades e não os da população, dos outros, no máximo os interesses de quem os paga e financia. Aquilo que era para ficar escondido, aquilo que era para ficar longe dos olhares e, no entanto, é mostrado em público é o que costumamos chamar de pornográfico. Podemos dizer que vivemos, no Brasil, nesse momento, sob o império da pornopolítica. Deputado aparece nu da cintura para cima exibindo o nome do presidente tatuado em seu corpinho. Negociações políticas são travadas a bordo da lancha Love Boat, acompanhadas de champanhe e garotas de programa. Parlamentar troca nudes pelo celular em pleno plenário. Aliado do governo confere em planilha quais dos deputados agraciados com verbas públicas honraram com seu voto o presidente acusado de corrupção. A situação do pinto do presidente eletriza o país, toda a nação querendo passar o dedo em sua próstata, para fazer o toque, alguns a querer salvá-lo, muitos querendo avaliar a possibilidade de sua morte iminente. Jornalistas, nas transcendentes entrevistas do presidente, querem saber como conheceu a moça com quem é casado, quem se declarou primeiro, qual o primeiro presente que a ofertou. Outro jornalista chegou a declarar que o presidente era bonitinho, uma gracinha. Nisso tudo, os outros, o país, a população, os trabalhadores, que se danem. Um golpe dado para atender, entre outras coisas, ao ego vaidoso de um ancião casado com uma jovem, a quem parece já não podia dar muitas emoções, é a expressão de uma pornopolítica, de uma política onde o privado se expõe na rua, onde o privado se estende e se mistura com o público, onde o privado se expõe sem pejo ou disfarce em todos os lugares.
Vou parando por aqui, porque tenho que me refugiar em algum lugar, em que possa escapar de mais uma vez ter que escutar “Sedutora”, Psirico e companhia. O som continua implacável, no bar, do outro lado da rua. Agora ataca de banda “A Loba”, ouço um uivo e penso que a fera que habita em mim vai esganar um a qualquer momento. Já são quase doze horas ininterruptas dessa tortura chinesa. Eu, o outro, quedo aqui aplastado, desrespeitado, invadido, perturbado, inexistente. Sou invisível e inaudível para aqueles que só enxergam a si mesmos, a seus desejos e vontades. A cidade é assim apropriada privadamente por uns, ela não é um ambiente em que todos possam conviver, respeitando regras coletivas e coletivamente estabelecidas, respeitando o direito dos outros, um ambiente de convivência civilizada das diferenças. Na cidade em que alguns são donos de tudo, podem fazer qualquer coisa que lhes dê na telha, têm mais diretos que outros, cidadania não existe. Esse parágrafo não havia terminado e eis que escuto novamente “Sedutora”, foi inevitável, o moto contínuo do desrespeito ao outro soa mais uma vez, nesse país de tempos tão pouco sedutores.
A senadora Fátima Bezerra (PT/RN) foi a representante do Nordeste mais bem colocada na 10ª edição do prêmio Parlamentar do Ano, promovido pelo portal Congresso em Foco. O primeiro lugar entre os políticos do Nordeste veio tanto na votação popular como na eleição realizada pelos jornalistas que cobrem o Congresso. No ranking geral, Fátima ficou […]
A Folha deu ontem com muito destaque online, hoje com menos na edição impressa, a informação de que “um quarto do Congresso Nacional vota defendendo Estado maior”. A pesquisa é atribuída ao Ranking dos Políticos, descrito como “organização civil que monitora o desempenho parlamentar”.
Graças a uma dica de Michel Costa, fui olhar o que é o tal Ranking. A “organização civil” que a Folha procurou é, na verdade, um braço da extrema-direita, liderado por um “conselho estratégico” de cinco membros que inclui Rogerio Chequer (o pretenso empresário que se projetou ao inventar o movimento golpista Vem Pra Rua) e assessorado por um “conselho de avaliação de leis” cuja estrela mais reluzente é Gustavo Franco, o ultraliberal fundamentalista.
O principal esforço é estabelecer, sim, um ranqueamento dos “melhores parlamentares”, em cuja pole-position está ninguém menos que a notória senadora gaúcha Ana Amélia. A nota do ranking inclui citação em processos judiciais, assiduidade em plenário e uso das verbas indenizatórias, mas o principal é a “qualidade legislativa”. Quem se interessa em entender como chegam a essa nota, percebe que é simples: para ser bem avaliado, o parlamentar deve tanto abraçar a bandeira convencional do combate à corrupção quanto apoiar os retrocessos do governo golpista. Ser a favor do fim da CLT, por exemplo, vale 20 pontos.
É uma daquelas manobras safadas, que querem transmitir a ideia de que uma atuação parlamentar é “boa” ou “ruim” por si mesma, não segundo os interesses que defende. O fato é que, ao usar, para produzir suas matérias, uma organização sem tradição, sem credibilidade e sem importância, cuja única credencial é seu alinhamento à direita extremada, a Folha apenas escancara uma vez mais qual o sentido de sua presença no debate público brasileiro.
.X.X.X
Luís Felipe Miguel é Professor de Ciência Política na na Universidade Federal de Brasília (UNB).
O empresário Carlos Velasco, que atualmente mora em Portugal, foi aluno do guru de Jair Bolsonaro e da extrema-direita nacional Olavo de Carvalho de 26 de agosto de 2009 até dezembro de 2013.
Ele fez o Curso Online de Filosofia (COF) interessado, segundo conta, nos “conhecimentos geopolíticos de Olavo”.
Ao romper com o mestre, tornou-se um de seus principais inimigo nas redes sociais. Em suas diatribes, Olavo chamado o ex-pupilo de “veadasco”.
“Testemunhei o início de iniciativas como a venda de souvenirs olavianos, como canecas, e a invenção de coisas como a página Musas Olavettes, com total apoio dele”, relata Velasco.
“Olavo é um mitômano, um generalista inculto que inventa teses bombásticas de acordo com a conveniência do momento”.
Abaixo, ele detalha como conheceu o ex-astrólogo, fala da briga e explica como os seguidores do homem cultuado por ministros bolsonaristas formam uma seita.
Guru
Conheci Olavo em 2003. Estudava a relação entre os grandes monopólios privados e a globalização e ele despertou minha atenção por ser o primeiro “jornalista/filósofo” que abordava o tema em português.
Acompanhei seus artigos e intervenções no programa de áudio “True Outspeak” com o mesmo interesse que tinha por outros jornalistas e investigadores estrangeiros. Mantinha divergências, como em relação ao papel da administração Bush, mas passei a dar maior valor à importância da religião como fundamento da civilização e descobri alguma bibliografia interessante.
No fundo, o que me interessava mais era a sua análise da situação brasileira e suas indicações bibliográficas, apesar de muita dessa bibliografia ser questionável em termos de rigor. Suas observações a respeito do perigo comunista, extrapoladas para o mundo, de certa forma se encaixavam nos meus estudos sobre o balanço militar mundial, ou melhor, forneciam um modelo explicativo satisfatório à luz do que sabia.
Apesar das lacunas no conhecimento histórico, algumas das suas observações eram interessantes e me pareciam corretas, imaginando serem fundamentadas num sólido conhecimento filosófico. Quanto aos “erros”, considerava que havia alguma ingenuidade, especialmente na geopolítica e na leitura do processo histórico, onde o lugar-comum era a regra.
Mas não ligava muito, pois até em pessoas com formação histórica isso é normal. Me correspondi com ele esporadicamente e cheguei a passar indicações bibliográficas que depois o vi utilizar, mas estranhando a falta de referência. Nada demais, pensava.
Motivado pela minha falta de conhecimento em filosofia, e dos tais instrumentos filosóficos que Olavo parecia possuir, decidi me inscrever no COF. Foi em fins 2010 e logo enviei o necrológio (registro de morte antes de uma transição).
Mais tarde me arrependeria, mas jamais suspeitei, vindo de décadas de materialismo, que tinha me deparado com algo bem diverso de um simples grupo de estudos. Quanto ao necrológio, mais tarde ele usaria contra a minha pessoa, lendo-o numa aula com o intuito de me ridicularizar. Até na pior das universidades isso levaria à expulsão.
Após as primeiras aulas, negligenciei o curso. Sendo empresário, não tinha tempo e disposição para as tarefas, que incluíam a transcrição das aulas, e a hora tardia das mesmas, pois vivo em Portugal e o fuso horário é outro. O fato era agravado pela impontualidade do guru. Quase todas as aulas me causavam tédio e sono.
Faltava organização e, excluindo as aulas em que Olavo se debruçava sobre temas da política contemporânea, em que meu interesse acendia justamente por causa das divergências, achava aquilo tedioso e inconclusivo. Nesse contexto, os “cursos suplementares” me levantavam alguma suspeita. Mais tarde entendi que Olavo falava para os iniciados e lançava a isca para os que desejavam ser iniciados na “tradição filosófica”. Quem não a buscava, se desinteressaria.
Também me incomodavam o ambiente de intriga constante, as habituais acusações de infiltração de espiões a serviço de Orlando Fedeli (falecido líder da TFP), que desconhecia e imaginava ser um maluco à Plínio Corrêa de Oliveira (fundador da TFP), e a incapacidade de Olavo lidar com as objeções de alguns alunos.
Pouco depois de me inscrever, fui contatado pelos estudantes residentes em Portugal e se organizou um encontro. Nesse grupo se destaca Mário Chainho, com o qual imaginei ter alguma amizade, e Luís Afonso, amigo de longa data de Olavo que mantinha o blog “Nadando contra a Maré Vermelha”.
Tirando o Mário Chainho, que me escutava com atenção e parecia interessado em aprender, e era bem próximo de Olavo de Carvalho, não hesito em dizer que desprezava os alunos olavianos. Me correspondi com a “nata” do olavismo nas redes sociais e fiquei perplexo ao constatar que muitos eram semi-analfabetos, como no caso de Graça Salgueiro.
Eram todos ignorantes, provincianos e pedantes, e muitos se transformaram em caricaturas do guru, chegando ao ponto de fumarem a mesma marca de cigarro americana. Me destacava naquele meio e, mesmo não sendo um estudante participativo, cheguei a ser citado nas aulas do Olavo por causa de observações enviadas ao guru. Nas tertúlias online iniciadas pelos alunos do COF em Portugal, cheguei a dar aulas de História aos meus colegas. Imaginei que algo de positivo pudesse nascer daí.
A minha estima inicial foi se transformando em desprezo e desconfiança e a evolução política do Brasil e do mundo catalisaram o que era inevitável. Afinal, eu estava em busca de conhecimento e não de um paizinho. Diante de certas questões que lhe punha, despertadas por afirmações que me causavam curiosidade e espanto, notei que o mesmo se esquivava a responder com a desculpa da falta de tempo, mas enquanto isso perdia tempo nas redes sociais discutindo banalidades nos termos mais vulgares.
Comecei a perceber que a idolatria em torno de Olavo não era acidental. O mesmo a incentivava. Testemunhei o início de iniciativas como a venda de souvenirs olavianos, como canecas, e a invenção de coisas como a página “Musas Olavettes”, com total apoio do guru.
Eu, que tinha virado as costas aos estudos na Universidade de Coimbra, sentia vergonha por ter me misturado àquele circo. O culto à personalidade era instigado pelos seus próprios relatos de grandes feitos, cada vez mais suspeitos aos meus olhos.
A título de exemplo, afirmava que certa vez calou centenas de militantes enfurecidos do MST e, noutra ocasião, impediu um assalto com um velho revólver enferrujado que lhe havia sido dado de presente (mais tarde descobri, graças à filha, que o assalto aconteceu, mas ele fingiu que dormia enquanto ela e os “habitantes da casa” o tentavam acordar desesperados sabendo que ele tinha revólver). Já não me encontrava no campo da mera discordância e enxergava desonestidade.
Mas Olavo não se emendava, apesar das advertências que lhe dirigia, e fingia saber do que falava quando abordava História. Para dar um exemplo, certa vez ele apresentou uma tese a respeito dos portugueses, que considerava como um povo covarde (tal e qual os brasileiros) devido ao fato de ter vivido durante muito tempo na incerteza reinante numa terra dividida entre cristãos e muçulmanos.
Para além de ser uma banalidade que prova a falta de conhecimento do que foi o processo de reconquista, e irrealista à luz do que conhecia da história militar portuguesa, a tese era ridícula pois espanhóis viveram nas mesmas circunstâncias e deles Olavo gabava a coragem.
Hoje Olavo afirma o contrário, dizendo que os portugueses são o povo mais corajoso do mundo, o que também é estúpido e pueril. Enfim, Olavo é assim. Um generalista inculto que inventa teses bombásticas de acordo com a conveniência do momento, e não alguém que muda de opinião gradualmente, à medida que suas investigações avançam e falsas imagens vão sendo desfeitas.
Duas coisas me motivaram a confrontar Olavo de Carvalho nas redes sociais, já que ele não respondia as minhas observações em privado. Tomei a priori as suas observações a respeito do professor Dugin como mentor de Vladimir Putin, e dos seus “planos macabros”, como verdadeiras (Dugin é um cientista político russo).
Jamais desconfiei que alguém na posição de Olavo poderia inventar mentiras tão descaradas e aquilo parecia explicar as contradições que descobri na tese da Rússia continuar comunista, ainda que sob uma fachada.
Ao estudar melhor o assunto após a famosa discussão entre os dois (registrada no livro “Os EUA e a nova ordem mundial: um debate entre Alexandre Dugin e Olavo de Carvalho”, de 2012), apesar da minha discordância com o professor Dugin a respeito de geopolítica se manter, concordando com ele fundamentalmente na defesa da multipolaridade, vi que era tudo um exagero grotesco e que Putin o tem apenas como mais uma referência entre várias.
Putin é um estadista e sabe qual é o lugar dos acadêmicos. Fiquei chateado por ter sido feito de tolo e por ter passado desinformação. Por outro lado, a evolução da ingerência na Síria expunha de forma cabal o total desajuste da tese dos “três globalismos” de Olavo de Carvalho, assim como a evolução da situação no Brasil, na qual Olavo teve um papel fundamental, que então estava claramente se encaminhando para uma “primavera”.
Carlos Velasco, ex-aluno de Olavo
Da mesma forma que Olavo mentia sobre a Síria, atribuindo tudo a uma cabala “comunista” e escondendo o papel americano (afirmando ser o Obama um agente do KGB), e o extremismo islamista uma ferramenta a serviço da Rússia, constatei que Olavo fazia o mesmo no Brasil. Via a situação no terreno e para mim era preocupante o que acontecia, e os sinais de ingerência e polarização induzida a partir de fora eram claros.
Ainda que fosse um crítico feroz da gestão PT, sem com isso deixar de ser crítico feroz das gestões anteriores e das “alternativas”, considerava que o futuro do Brasil passava por uma solução que isolasse tanto as lideranças corrompidas de direita quanto as de esquerda, e não pela formação de massas fanatizadas à direita para se chocarem contra massas fanatizadas à esquerda, como ele defende.
Olavo, como milhares de pessoas devem lembrar, repetia incessantemente coisas como “todos os comunistas são covardes”, “os comunistas são psicopatas perigosos, não são gente”, “todo aquele que manifesta o pensamento revolucionário deveria levar um tiro na cabeça” e “julgamento é coisa de comunista. É por isso que Stalin queria o julgamento dos nazistas, ao contrário de Churchill, que defendia que os mesmos fossem sumariamente fuzilados”.
Eu, que já tinha sido comunista, sabia que isso era uma imbecilidade e pensava comigo próprio: mas como Olavo pode dizer isso se ele próprio já foi comunista? Será que toma a si próprio como modelo do que é um comunista?
Enquanto o guru incitava as pessoas à violência fratricida, desde distância segura, vi os milhares de fanáticos por ele criados muito ativos nas redes sociais e convictos de que estavam numa cruzada. Eles geraram ondas que foram fundamentais para a reação direitista que se seguiu às manifestações de setores da esquerda radical em 2013, onda essa em que Bolsonaro soube surfar, com apoio de Olavo e de muitos nomes de relevo por ele angariados, como Lobão, Danilo Gentili e Joice Hasselmann.
Não seria melhor deixar o governo Dilma, já desgastado, chegar ao fim quando era certo que a oposição venceria as eleições de forma serena? Agora, diante da confusão instalada, estou ainda mais convicto da minha resposta na altura: sim! Quanto a Bolsonaro, que se aproximava cada vez mais de Olavo, constatei que deixou de ser um “político folclórico” graças ao impulso inicial olavista. Até porque Olavo, tido por muitos como um intelectual, foi o primeiro indivíduo com fama de culto a apoiá-lo publicamente, rompendo o isolamento que antes mantinha Bolsonaro no gueto.
Inspirado pelo ensinamento olaviano de que se deve humilhar publicamente um mau professor, decidi fazê-lo nas redes sociais, diante de todos, e me desliguei formalmente do curso, avisando os colegas. Incapaz de me rebater, e sempre mantive um tom elevado, não lhe restou outro recurso a não ser fugir e se proteger por detrás do séquito de fanáticos.
Trata-se de gente radicalizada ao ponto de romper laços com familiares em defesa do guru e disposta a tudo na sua guerra sagrada. Porém, eu não estava preparado para o que viria após essa decisão, e muito menos para o que acabaria descobrindo graças à reação desproporcional da qual fui alvo. Ao mesmo tempo, recebi uma estranha visita surpresa de Luís Afonso, que conhecia Olavo intimamente, que tentou me convencer que Olavo de Carvalho era um vovozinho caipira, sem nenhuma maldade e já um bocado senil, e que a minha reação era excessiva.
Mais tarde descobri que este era um recurso habitual. Só faltou mandar a sua mãe me telefonar. Está tudo documentado no blog Prometheo Liberto, que criei. Sendo assim, farei um resumo dessas descobertas e das conclusões a que cheguei com a colaboração de muitos, especialmente o meu irmão (Jorge Velasco) e Caio Rossi, sem os quais jamais teria compreendido a “filosofia” de Olavo.
Desmascarado nas redes sociais, isso numa altura em que pensava estar prestes a alcançar o zênite da sua carreira (Felipe Moura Brasil lançando o “Mínimo” e sendo contratado pela Veja, manifestações crescentes e aumento da percepção de que o impeachment era inevitável), Olavo de Carvalho partiu para a agressão sem limites, começando por afirmar que eu jamais tinha sido seu aluno.
Provada a sua mentira, depois disso fui acusado de ser agente do PT, satanista, agente do Lyndon la Rouche e, finalmente, agente do KGB. Está tudo no blog Prometheo Liberto. A situação chegou ao ponto de Olavo, apanhado em inúmeras mentiras, ter deitado a própria página abaixo atribuindo isso a um ataque da esquerda, e do episódio ter sido citado pelo deputado Marco Feliciano na Câmara.
Fui difamado no site Mídia sem Máscara por Mário Chainho e Juliana Chainho (Juliana Camargo Rodrigues), que mais tarde vim a saber que tinha sido membro da seita de Waldo Vieira (mineiro que foi parceiro de Chico Xavier). Quanto ao senhor Mário Chainho, que se fazia passar por meu amigo e rompeu todos os vínculos de forma súbita, lembro que foi ele que deu nome ao meu blog, Prometheo Liberto, o que levou Olavo a me acusar de satanismo, e que este possuía um blog chamado “Portas do Inferno”.
Certa vez, numa conversa muito estranha, o mesmo me contou que certas pessoas lhe haviam relatado que tinham uma tara bastante repulsiva: fazer sexo com mulheres grávidas que iriam abortar. Mais tarde, pensei: que situação mais estranha, afinal, quem contaria esse tipo de perversidade a outra pessoa sem haver qualquer tipo de cumplicidade? Nunca achei uma resposta satisfatória para a pergunta, mas não pude deixar de repensar nisso quando li a respeito das acusações de abortos rituais que Olavo fez contra a seita Tradição, da qual foi ele próprio membro.
A desconfiança de que havia algo muito errado com Olavo não parava de aumentar à medida que a memória era revisitada, assim como a convicção de que tudo deveria ser investigado.
Ao princípio, achamos uma série de informações que, mais tarde, descobrimos ser apenas a ponta do iceberg, como a iniciação de Olavo de Carvalho na maçonaria, e decidimos, sabedores de que Olavo era um mitômano, analisar o que Orlando Fedeli havia escrito sobre o mesmo.
Com a ajuda de alguém presente no terreno, colhemos relatos estranhos a respeito do que se havia passado em Curitiba, desde informações a respeito de famílias desfeitas, passando por orgias e casamentos arranjados, isolamento dos membros, casos de loucura e exorcismos, informação que batia com relatos que tinha ouvido do próprio Mário Chainho a respeito das trocas de casais que por lá ocorreram numa conversa em que eu falava da infantilidade e satirismo que notava nas olavettes, e do próprio Olavo, que disse publicamente no True Outspeak que o curso havia sido infiltrado por uma tariqa (tal e qual o seu curso online foi infiltrado por agentes de Orlando Fedeli e eu era um agente do KGB infiltrado).
Ouvi um bizarro relato de alguém, que pediu anonimato, e afirmou que um médico, conhecido como abortista, todos os anos visitava Olavo na Virgínia e lá ficava durante um mês. É algo bizarro, ainda mais quando Olavo se travestia de campeão na luta contra o aborto.
O que podemos dizer publicamente por depender apenas de provas documentais ou relatos de pessoas dispostas a vir a público confirmar o que afirmamos, estão no documentário “Adubando o Jardim das Aflições”, e as conclusões a respeito do culto por detrás de tudo estão na série de documentários “Desconstruindo Olavo de Carvalho”, onde não apenas confirmamos algumas coisas que Orlando Fedeli já havia descoberto a respeito do gnosticismo disfarçado de catolicismo de Olavo de Carvalho.
Desvendamos que Olavo, graças à investigação de Caio Rossi, cultua o “Eterno Feminino” sob um “véu mariano”, adaptando os ensinamentos do seu antigo mestre Frithjof Schuon. A ajuda do meu irmão, com seus insights a respeito dos textos em que Olavo aborda a religião e a sua intuição de que tudo aquilo era apenas a capa para uma unificação das lideranças religiosas num nível esotérico, mantendo a diversidade apenas a nível exotérico, foi fundamental.
Felipe Moura Brasil, pupilo de Olavo e ex-colunista da Veja
Caio Rossi testou a tese a todos os níveis, reticente a priori, e acabou desvendando os mistérios desse culto graças aos seus conhecimentos em relação ao perenialismo, e também ao conhecimento obtido in loco durante a fugaz convivência com o clã Carvalho, num trabalho digno de nota.
Para terminar, lembro que Olavo, conhecedor da desatenção do grande público e escudado por milhares de fanáticos, assim como por dezenas de iniciados nos mistérios olavianos mais próximos e bem situados, não apenas desvia as atenções nos atribuindo acusações absurdas e descabidas, como tem mudado a sua versão dos fatos que temos revelado.
Um exemplo é o do seu envolvimento com a astrologia. Neste caso, ele sempre negou que tivesse sido astrólogo, afirmando que tinha estudado a astrologia apenas para compreender o simbolismo medieval, mas a partir do momento em que revelamos provas de que realmente foi astrólogo, admitiu o que sempre negou e agora afirma que exerceu a profissão por um curto espaço de tempo, o que também desmentimos.
A desatenção da maioria e a força bruta do olavismo o protegem, assim como a trama de cumplicidade em torno dele, o que inclui até muitos dos seus desafetos.
Certas práticas criam elos que nem a inimizade mais renhida pode romper.
Quando a acusação de que o padrinho de casamento do juiz Moro, Carlos Zucolotto, teria pedido dinheiro por fora ao advogado da Odebrecht Rodrigo Tacla Durán para reduzir sua multa e melhorar sua delação como um todo junto à força tarefa da Lava Jato, o juiz Moro tomou as dores do padrinho e publicou uma nota em seu blog oficioso, O Antagonista, criticando a repórter Mônica Bergamo, por dar crédito à palavra de um foragido da Justiça (logo ele, que vive de conversa com criminosos, como seu doleiro de estimação Youssef, que o acompanha desde o Banestado).
Ou o juiz Moro não sabia com quem estava lidando (nas duas pontas) ou acreditava que seu poder era de tal ordem que uma nota autoritária abafaria o caso.
Só que não. Dois deputados do PT, enviados pela CPI da JBS, foram à Espanha, onde está Tacla Durán, que tem dupla nacionalidade, e conseguiram entrevistá-lo.
Tacla Durán não apenas confirmou o teor da publicação da jornalista, como deu mais detalhes de como foi a tratativa com o padrinho de Moro, quanto ele queria em dinheiro (cinco milhões de dólares), como queria receber (por fora, ou seja, sem recibo, no caixa 2), e afirmou ter documentado tudo isso, através de prints das mensagens e emails.
Leia a seguir trecho da transcrição do depoimento de Durán aos deputados Paulo Pimenta e Wadih Damous (que além de deputado é advogado e foi presidente da OAB-RJ), que você pode conferir na íntegra clicando aqui.
Tacla Durán — Eu não liguei para contratá-lo {Zucolotto]. Eu liguei e disse: olha, eu estou com um problema pessoal, ai em Curitiba, a Lava Jato, eu não sei se você tem como ajudar, trabalhar nisso, ou indicar alguém. Aí ele disse que a ia ver como estava o caso. (...) Pimenta — Estas tratativas que o senhor teve com ele, o senhor pode comprovar que elas realmente existiram? Tacla Durán — Eu tenho as mensagens, eu fotografei as mensagens. (...) Damous — Ele tem um cliente procurador, não tem? Tacla Durán — Eu não sabia, eu soube pela Folha de S. Paulo, Dr. Carlos Fernando. Damous — É cliente dele? Tacla Durán — Eu soube pela Folha. Carlos Fernando dos Santos Lima. Então conversamos sobre isso, ele ficou de verificar. Aí ele verificou, deu o retorno e falou que havia a possibilidade de reduzir a multa que estavam propondo. E que, então, pagaria um terço da multa. No acordo. E pagaria outro terço como honorários para ele. A partir daí a gente faria a minuta, essas coisas. (...) Damous — Esse terço que seria pago como honorário dele, como é que isso seria feito? Ele pediu para formalizar? Tacla Durán — Não. Informal. Ele, a princípio, pediu informal. Damous — Informal como? Por fora? Tacla Durán — Por fora. Pimenta — Que valor seria isso? Tacla Durán — Cinco milhões de dólares. (...) Pimenta — O senhor poderia nos disponibilizar cópia desse diálogo que o senhor teve com o dr. Zucolotto. Tacla Durán — Sim, eu já submeti à perícia, aqui no exterior [Durán está na Espanha]. Damous — Está sendo periciado. Tacla Durán — Sim, está sendo periciado. Pimenta — E essas tratativas, feitas no sentido de melhorá-las, foram feitas com qual procurador? Tacla Durán — Com quem ele falou? Para falar a verdade, ele não nominou. O email foi enviado pelos procuradores Roberson Pozzobon, Carlos Fernando Santos Lima e Júlio Noronha. Pimenta — Foram eles que encaminharam para o senhor? Tacla Durán — Enviaram. Enviaram numa sexta-feira e exigiram que eu fosse assinar na segunda. (...) Tacla Durán — O e-mail dos procuradores é absolutamente verdadeiro, é da rede do MPF. Pimenta — Está assinado? Tacla Durán — Sim, com cópia a três procuradores. Com cópia. Copiados três procuradores e copiado meu advogado. Meu advogado me encaminhou.
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A senadora Fátima Bezerra (PT/RN) foi a representante do Nordeste mais bem colocada na 10ª edição do prêmio Parlamentar do Ano, promovido pelo portal Congresso em Foco. O primeiro lugar entre os políticos do Nordeste veio tanto na votação popular como na eleição realizada pelos jornalistas que cobrem o Congresso. No ranking geral, Fátima ficou em 6º lugar na votação do público pela internet e em 7º pelo voto dos jornalistas. O senador campeão de votos pela internet foi Magno Malta (PR/ES), seguido de Ana Amélia (PP/RS) e Paulo Paim (PT/RS). Na votação dos jornalistas, os mais bem colocados foram Randolfe Rodrigues (Rede/AP), Paulo Paim (PT/RS) e Álvaro Dias (Podemos/PR).
A parlamentar potiguar foi a única senadora votada do Rio Grande do Norte porque, pelos critérios adotados na premiação, só concorrem ao prêmio políticos que não respondem a inquéritos no Supremo Tribunal Federal. Como José Agripino Maia (DEM) responde a quatro inquéritos e Garibaldi Filho (PMDB) é investigado em um procedimento no Supremo, os dois foram eliminados e nem chegaram a concorrer.
O mesmo critério de eliminação ocorreu na votação dos melhores deputados. Rogério Marinho (PSDB), Fábio Farias (PSD), Felipe Maia (DEM) e Walter Alves (PMDB) também ficaram de fora porque respondem, juntos, a oito inquéritos no STF. O campeão é o tucano Rogério Marinho (PSDB), investigado em cinco procedimentos por corrupção, lavagem de dinheiro, crimes contra a ordem tributária, falsidade ideológica e peculato.
Na votação pela internet, a deputada mais bem colocada do Rio Grande do Norte foi Zenaide Maia (PR), na 50ª colocação, com 914 votos. Ela foi seguida pelos deputados Antônio Jácome (103º), Beto Rosado (125º) e Rafael Motta (139º)
Beto Rosado (PP) foi o único deputado federal do Rio Grande do Norte que recebeu voto dos jornalistas e ficou na 50ª colocação. Os deputados Antônio Jácome (Podemos), Rafael Motta (PSB) e Zenaide Maia (PR) não foram votados pelos jornalistas.
Critérios
O prêmio Parlamentar do Ano, promovido pelo portal Congresso em Foco, chegou à décima edição e já virou uma tradição entre os congressistas. O diretor-executivo do portal Edson Sardinha comentou em setembro o alto índice de parlamentares investigados do Rio Grande do Norte. O critério de eliminação, segundo ele, foi criado para evitar injustiças.
– A bancada do Rio Grande do Norte apresenta índice de parlamentares com acusações criminais no Supremo Tribunal Federal acima da média do Congresso, que gira em torno de 40%. Outros estados também apresentam índices semelhantes. O prêmio não tem o papel de atuar como juiz nem referendar as acusações feitas pela Procuradoria Geral da República. Várias dessas investigações podem ser arquivadas ao longo da tramitação no Supremo. Mas decidimos utilizar esse critério para evitar que congressistas com ficha corrida possam ser eventualmente premiados em detrimento de parlamentares sobre os quais não recai no momento suspeitas de crimes.
Potiguares na eleição de Parlamentar do Ano, do Congresso em Foco
SENADO FEDERAL*
Júri popular
6º Fátima Bezerra (PT) – 14.923 votos
Júri jornalistas
7º Fátima Bezerra (PT) – 10 votos
Os senadores José Agripino Maia e Garibaldi Alves Filho foram eliminados porque são investigados pelo Supremo Tribunal Federal
CÂMARA FEDERAL*
Júri Popular
50º Zenaide Maia (PR) – 914 votos
103º Antônio Jácome (Podemos) – 352 votos
125º Beto Rosado (PP) – 260 votos
139º Rafael Motta (PSB) – 228 votos
Júri jornalistas
50º Beto Rosado (PP) – 2 votos
Antônio Jácome, Rafael Motta e Zenaide Maia não receberam votos deste júri
*Os deputados Rogério Marinho (PSDB), Fábio Farias (PSD), Felipe Maia (DEM) e Walter Alves (PMDB) foram eliminados porque são investigados pelo Supremo Tribunal Federal
Quando se anunciou que a caravana “Lula pelo Brasil” viria a Minas, houve quem previsse que aqui não teria a mobilização espantosa que alcançou no Nordeste. Erraram. Por onde passa, o ex-presidente arrasta multidões.
Acompanhei boa parte da caravana - que percorreu mais de 1.500 quilômetros em nosso Estado - e pude ver a emoção do povo mineiro. Desde aqueles que esperavam pelo caminho, debaixo de sol, para ver Lula por alguns momentos, dar um abraço, tirar uma foto ou receber um simples aceno, até os que viajavam longas distâncias para participar dos atos públicos e ouvir o ex-presidente. Pelas estradas mineiras, nosso eterno presidente teve ao seu lado o governador Fernando Pimentel, presente em várias atividades e também recebido com extremo carinho.
Mais uma vez, Lula vai ao encontro dos brasileiros. Do alto dos seus 72 anos, percorre o país de ônibus para conhecer as muitas realidades deste Brasil tão desigual. Que outro postulante à presidência teria a coragem de se apresentar desta forma à população?
Vi nos olhos de milhares e milhares de pessoas admiração, gratidão, esperança e, sobretudo, confiança. Uma certeza de que a volta de Lula resgatará a era de direitos interrompida pelo golpe e retomará as políticas sociais que retiraram milhões da miséria e da pobreza.
Não se concretizou também o corte feito por alguns analistas de que a caravana mobilizaria basicamente movimentos sociais, de trabalhadores e as classes populares prejudicadas pelo desmonte dos programas sociais promovido pelo governo golpista. Teve destaque em Minas a participação da intelectualidade, de estudantes, professores, artistas e – acreditem! – setores empresariais.
Em Montes Claros, por exemplo, pude presenciar a acolhida de Lula pelo empresariado. Já em Diamantina, o apoio recebido no encontro com reitores de universidades e institutos federais do Estado explicitou a grande expectativa da retomada dos avanços na educação obtidos nos governos do PT, os quais hoje, infelizmente, sofrem imenso retrocesso.
Durante o percurso, movimentos reacionários até tentaram esboçar alguma reação. Mas tiveram que amargar o fiasco de insignificantes protestos – ou meras provocações - que não conseguiram reunir 50 pessoas. Mais uma prova de que o governo golpista não tem qualquer respaldo popular e só se sustenta por um acordão mantido pela “quadrilha” do PMDB nacional e o PSDB - principalmente Aécio Neves, seu maior sustentáculo – em um grande “abraço dos afogados”.
Esses são somente alguns indicadores do crescimento da aceitação de Lula pelo País, inclusive pela classe média, o que foi confirmado pela última pesquisa do Ibope. Se as eleições fossem hoje, Lula venceria em qualquer cenário, com o mínimo de 35% das intenções de voto, seguido de longe por Jair Bolsonaro (PSC-RJ), com 15%. Os tucanos Geraldo Alckmin e João Doria teriam algo em torno de 5%.
Como diz o antigo adágio árabe, os “os cães ladram e a caravana passa”. Seu destino? A presidência da República do Brasil.
Durval Ângeloé Professor, está Deputado estadual (PT-MG) e líder do governo Fernando Pimental na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).
Se um padrinho de casamento de Lula pedisse 5 milhões de dólares para livrá-lo da cadeia... mas sendo padrinho de Moro nem notícia é.
Na quarta reportagem da série sobre a indústria da delação premiada da Lava Jato, feita em conjunto pelo Jornal GGN e o DCM, destacamos e explicamos os principais trechos do áudio do encontro dos deputados Paulo Pimenta e Wadih Damous com o advogado Rodrigo Tacla Durán.
Os deputados Paulo Pimenta e Wadih Damous, integrantes da CPI da JBS, viajaram por conta própria a Madri, na Espanha, e ouviram o advogado Rodrigo Tacla Durán, processado pela Lava Jato por lavagem de dinheiro.
O áudio foi protocolado na CPI e divulgado por alguns sites. O DCM e o GGN têm o áudio desde segunda-feira, mas, antes de ser publicado, foram checadas as informações e colocadas em seu contexto, com observações ao final dos trechos separados por tema.
Também se preferiu transcrever para facilitar o entendimento e dar oportunidade para reflexão e assimilação, dada a complexidade das informações e situações tratadas. O áudio está ao final do texto.
É uma forma de explicar um caso complexo e não apenas de jogar gasolina na fogueira.
Tacla Durán é um homem-bomba. Pode aprofundar cada caso abordado por ele. Fala com propriedade.
Mas, é claro, acusado tem interesse de fazer sua defesa.
É um direito dele, mas não se pode esquecer que ele vai até onde a lei não o alcance.
Foi, efetivamente, operador da Odebrecht. Trabalhou lá.
O depoimento de Tacla Durán à CPI da JBS é uma oportunidade para revelar ao Brasil as entranhas de um sistema que parece apodrecer antes mesmo de se tornar maduro.
É uma operação que atinge alvos pré-definidos, daí a plausibilidade das informações de que provas são montadas e versões criadas, como se juntassem peças de um enredo.
Os leitores desta série já estão tomando conhecimento dessa máquina perversa, que está longe de produzir justiça. Com o depoimento à CPI, transmitido ao vivo, o alcance será muito maior.
A CPI, se não não deve nada a ninguém, precisa aprovar o depoimento de Rodrigo Tacla Durán.
A TRANSCRIÇÃO DO ÁUDIO
Nós estamos aqui em Madri. Eu, deputado Paulo Pimenta, deputado Wadih Damous, juntamente com o Dr. Rodrigo Tacla Durán, e seu advogado, Emílio Naranjo, para buscarmos uma série de informações relativas a questões relevantes sobre a conjuntura do Brasil, que têm sido recorrentes objeto da atenção da imprensa, do País, a partir de informações prestadas pelo advogado Rodrigo Tacla Durán.
QUEM É RODRIGO TACLA DURÁN
Deputado Wadih: Rodrigo, os procuradores da chamada Operação Lava Jato sustentam que o senhor, na verdade, não atuava como advogado, o senhor não prestava serviço de advocacia à empresa Odebrechet, que seriam serviços de lavagem de dinheiro. O senhor pode esclarecer esta afirmação para nós? O senhor efetivamente prestava serviço de advocacia para a empresa Odebrecht?
Tacla Durán: Sim, eu trabalhei como advogado da Odebrecht de 2011 a 2016, é público que eles solicitaram a banco a abertura de conta para pagar meus honorários. E eu estou, inclusive, hoje respondendo a um processo de ética no Tribunal de Ética da OAB de São Paulo, justamente em razão de suposta violação de sigilo profissional. Isso não aconteceria se eu não tivesse trabalhado, de fato, como advogado da empresa.
Damous: O senhor recebia honorários da empresa pela prestação de serviços advocatícios?
Tacla Durán: Correto.
Damous: Esses honorários eram declarados para o imposto de renda brasileiro?
Tacla Durán: Todos. Todo o meu patrimônio no Brasil e no exterior foram declarados à Receita, inclusive os honorários que eu recebia da Odebrecht no exterior. Tanto é verdade que, depois de dois anos de fiscalização, eu não fui multado, não tive nenhuma sanção da Receita Federal.
Pimenta: Consta dos registros contáveis da construtora Norberto Odebredht pagamentos mensais de aproximadamente 10 mil reais ao seu escritório. Que pagamentos são esses?
Tacla Durán: Esse pagamento de valor aproximado de 10 mil reais não foi pago ao meu escritório, foi pago à minha pessoa física. Ele consta da minha declaração de imposto de renda pessoa física. E na verdade se trata de recebimentos de aluguéis, uma vez que eu alugava um apartamento de minha propriedade em São Paulo, para uso de seu Hilberto Silva, que era custeado, pago, pela Odebrecht.
Damous: Quem é Hilberto Silva?
Tacla Durán – Hilberto Silva era diretor da Odebrecht, diretor que coordenava o Departamento de Operações Estruturadas, meu superior hierárquico.
Pimenta: O apartamento que o senhor Hilberto Silva alugava em São Paulo, a empresa Odebrecht alugava diretamente do senhor?
Tacla Durán: Sim. Por isso, as acusações que me fazem, de doleiro, etc., não têm o menor cabimento porque jamais você iria alugar o apartamento do seu doleiro.
Pimenta: Evidentemente que esse pagamento, por si só, revela uma relação formal pública entre a empresa Odebrecht e a pessoa física do senhor.
Tacla Durán: Sim.
Pimenta: É atribuída ao senhor a propriedade de doze empresas. Essas empresas controladas, ou de propriedade do senhor, o senhor confirma a existência de todas essas empresas?
Tacla Durán: A existência sim, nem todas são de minha propriedade. Isso já foi, inclusive, esclarecido, porque a Odebrecht… Essas doze empresas foram declaradas pelo sr. Vinícius Borin.
Damous: Quem é o senhor Vinícius Borin?
Tacla Durán: Vinícius Borin foi um testa de ferro da Odebrecht como acionista do Meinl Bank Antígua. Ele declarou que havia doze empresas de minha propriedade. Na realidade, não são doze, são seis.
Damous: Quais são?
Tacla Durán: As minhas empresas são Vivosant Corporation, que não é offshore, é uma empresa espanhola, cuja tributação é inclusive mais cara que a do Brasil. A GVTEL, idem, é uma empresa espanhola, não é offshore, a Ocean, a Cumberland, a Bonarda, e a Nevada, e Discovery.
Damous: As demais não são suas.
Tacla Durán: Não são minhas. A Vivosant é uma empresa holding, está aqui o manual, as demais são subsidiárias delas. Estão declaradas tanto no imposto de renda pessoa física quanto da CBE
(Capitais Brasileiros no Exterior) do Banco Central Brasileiro.
Pimenta: As demais empresas o senhor reconhece?
Tacla: Essas outras empresas são de pessoas ligadas ao Meinl Bank.
Pimenta: Nicolas James Baker?.
Tacla: Nicolas James Baker é genro do Timothy Lee. Timothy Lee é amigo do Luiz França, um dos acionistas do Meinl Bank, inglês. Timothy foi, ou é, testa de ferro das empresas offshore da Odebrecht. O Timothy é inclusive proprietário do domínio web do Meinl Bank Antígua.
Pimenta: Importante que a gente consiga obter mais informações do Meinl Bank Antígua. O Meinl Bank é um banco que já existia nas Antígua. Ele já prestava serviços para a Odebrecht antes da mudança de seu nome, do banco?
Tacla: Eu não tenho conhecimento para te falar isso com precisão porque, nessa ocasião, eu não trabalhava para a Odebrecht. Mas entendo que não. Essa relação começou a partir da aquisição do banco.
Pimenta: Como se deu esse processo de aquisição do banco?
Tacla: Eu soube, já trabalhando na defesa, que foi comprado pelo Luiz França, pelo Vinícius Borin Marco Bilinski, Olívio Rodrigues, e pelo Luiz Eduardo Soares e Fernando Migliaccio, esses dois já vinculados diretamente à Odebrecht e, então, eles não apareciam no quadro de acionistas do banco. E, ao meu ver, e eu fiquei sabendo, a Odebrecht sequer sabia que eles eram sócios desse banco.
Pimenta: Foi adquirido um banco em Antígua para operar internacionalmente para a Odebrecht e parte dos acionistas desse banco era de executivos da própria Odebrecht…
Tacla: Sim, correto. Na verdade, esse time, esses seis nomes que estamos falando, eles operam aí juntos há muitos anos. Antes do Meinl Bank, eles trabalhavam via Antígua Overseas Bank (AOB), que era o mesmo sistema. Esse banco teve um problema de liquidez e foi o que levou eles a adquirir um novo banco. Inclusive essa relação desses seis personagens veio de antes do AOB, prestando serviços para inúmeras empresas, bancos, para a Odebrecht. Uma relação de mais de dez anos aí. Eles são sócios. Eles são funcionários da Odebrecht os dois, os outros não, prestam serviço para a Odebrecht em razão dos dois, mas na verdade eles têm um negócios à parte, em sociedade.
EXTRATOS MONTADOS
Pimenta – Parte deles são delatores da Odebrecht?
Tacla: Os dois: Fernando Migliaccio e Luiz Eduardo Soares.
Pimenta: Os extratos apresentados pela Odebrecht na sustentação das delações, emitidos pelo Meinl Bank…
Tacla: Não, não foram emitidos pelo Menl Bank. Aqueles extratos não são do padrão do banco. Pelo menos os que eu vi. Aqueles a que eu tive acesso. Não são do padrão do sistema do banco. Tem incongruência do sistema de datas. Tem incongruências de referência, de descrição de movimento.
Pimenta: O senhor afirma que aqueles extratos apresentados pela Odebrecht e aceitos pelo Ministério Público na delação da Odebrecht…
Tacla: São montados.
Pimenta: Não são extratos do padrão do Meinl Bank?
Tacla: Não.
Damous: O que leva o senhor a afirmar isso?
Tacla: Porque eu tenho contas no Meinl. As minhas contas no Meinl foram declaradas. Eu tenho os extratos verdadeiros, como o sistema emitia os extratos. Usei esses extratos em diversas situações legais porque minhas contas, ao contrário do que eles alegam, eram declaradas. E me estranha muito que eles tenham declarado que minhas contas são irregulares porque eles têm perfeito conhecimento de que o dinheiro chegava na minha conta no Meinl Bank Antígua via Banco Central do Brasil. Saía, debitava da minha conta no Banco Itaú, eu enviava o contrato de câmbio fechado com o Banco Itaú e ele sabia muito bem que a conta era de minha propriedade. Inclusive eu sempre documentei isso.
Damous: Perfeito. Em relação à sua conta, a seus extratos. Mas, em relação a terceiros, o senhor pôde verificar pelo padrão de emissão de extratos dos bancos que aquele que foi apresentado aos procuradores e os procuradores aceitaram como verdadeiros são planilhas de extratos falsos?
Tacla: Sim. Além dos extratos verdadeiros que são os da minha conta, tem outras incongruências, como movimentação na mesma data quando as pessoas já estavam presas e o sistema do banco travado. Ou seja, não era possível ter a movimentação.
Damous: O senhor pode apresentar algum caso concreto que o senhor pode constatar ao verificar esses documentos?
Tacla: Em um dos inquéritos que estão correndo no Supremo Tribunal Federal, um dos anexos apresenta um extrato que tem uma determinada data que tem saldo positivo. No mesmo anexo, juntado por um delator, no mesmo inquérito, o saldo está negativo. Com a mesma data. Ou seja.
Damous: Quem era o delatado?
Tacla: Os delatados eram o deputado Pedro Paulo, o ex-prefeito Eduardo Paes e, se não me engano, o senador Humberto Costa. Esse extrato só poderia ser verídico se houvesse movimentação nessa data, no mesmo dia, entre a emissão de um extrato e outro. Entretanto, essa movimentação é impossível. Primeiro porque as contas deveriam estar bloqueadas devido aos crimes, e de fato está. Segundo porque o beneficiário das contas estava detido em Curitiba.Terceiro porque ninguém mais movimentava conta nesse banco porque o sistema estava totalmente travado. Então era impossível haver movimentação nessa data.
Damous – Nós poderíamos chegar à conclusão de que se trata de uma tentativa de comprometer essas pessoas?
Tacla Durán – Sim, como com relação a mim próprio.
Pimenta – Se fosse fornecida a documentação original do Meinl Bank, ficaria evidente que esses extratos são falsos?
Tacla Durán — Correto. Entretanto, o sistema do banco também foi fraudado para impossibilitar o tracking (rastreamento) do dinheiro.
Pimenta — Na medida em que sócios do banco são também executivos da Odebrecht.
Tacla Durán — Aí havia interesse duplo. Um dos interesses era atender a empresa. Qual o interesse da empresa? Cortar o tracking do dinheiro. O dinheiro, a origem era da Odebrecht e tinha saída para um determinado pack estrangeiro ou o que seja. Com a fraude que foi feita no sistema, é inviável, como é inviável se rastrear o dinheiro, do momento que entrou, por exemplo a Odebrechet, até a saída ilegal. Então não dá para saber que a saída ilegal que aconteceu tem como origem a Odebrecht. Esse tracking foi cortado. E outro interesse que aí existe, é interesse deles próprios, evidente que havia dinheiro nessas contas e ninguém vai lá reclamar. E eles tiveram oito meses entre a delação do Vinícius e a intervenção no banco para movimentar. E mesmo antes da delação, houve um tempo para a movimentação.
Pimenta e Damous com Tacla Durán
SUBORNO A AUTORIDADE DE ANTÍGUA
Pimenta – O suposto pagamento ao primeiro ministro de Antígua (Gaston Alphanso Browne) teria por objetivo também omitir informações a respeito da movimentação do Meinl Bank?
Tacla Durán — A idéia…
Pimenta — Aconteceu esse pagamento?
Tacla Durán — Sim, aconteceu. A ideia era brecar a resposta à cooperação jurídica formulada pelo Brasil.
Pimenta — A respeito da transação do Meinl Bank.
Tacla Durán — Correto.
NEM TODAS AS CONTAS FORAM REVELADAS PELA OPERAÇÃO LAVA JATO
Pimenta — No caso da suspeita de que em determinadas delações são obtidas informações a respeito de contas como uma estratégia de negociação, onde o delator recebe determinados benefícios, entre eles a proteção de contas, envolve também essa movimentação no Meinl Bank?
Tacla Durán—Tem contas no Meinl Bank que, por exemplo, eu não vi reveladas na delação do Vinícius. Isso a própria Polícia Federal já constatou.
Damous — Por exemplo?
Tacla Durán — Por exemplo, de uma pessoa que é vinculada ao presidente do Panamá (Michelle Lasso). Não foi vinculado ali.
LAVA JATO ESCONDEU CONTA DE JOÃO SANTANA NAS ILHAS CAYMAN
Pimenta — Mas, sobre as delações no Brasil, você já ouviu falar na conta Deltora Company?
Tacla Durán— Sim, mas Delatora é uma offshore (Deltora Entrerprise Group) que não tinha conta no Meinl Bank. Tinha conta em outro banco, nas Ilhas Cayman.
Pimenta — Chaobin (grafia pode estar incorreta) também operava em banco nas Ilhas Cayman?
Tacla Durán — Não, Chaobin era conta, se não me engano, na Suíça.
Damous — Deltora é vinculada a quem?
Tacla Durán — João Santana.
Damous — Publicidade João Santana, e a mulher, Mônica Moura.
Tacla Durán — Sim.
Damous — E essa conta, Deltora, ela não aparece na delação da Mônica Moura e João Santana?
Tacla Durán — Não que eu tenha tomado conhecimento. Tudo que eu li, no que foi público, não vi nada mencionando.
Pimenta — E a conta Alpha Internacional Company, o senhor conhece?
Tacla Durán — Não, essa não.
Pimenta — E a Shellbill?
Tacla Durán — Shellbill faz parte de uma planilha que me pediram para fazer um estudo e buscar os beneficiários finais.
Pimenta — E, além da Shellbill, apareceu outra conta nesse estudo da planilha?
Tacla Durán — Sim. A Deltora e mais duas, uma pessoa física e outra pessoa jurídica.
Pimenta — Era João Santana…
Tacla Durán — Sim, essa conta era de contas vinculadas a pessoa de João Santana.
Pimenta — Essa planilha envolveu quatro contas.
Tacla Durán — Quatro contas.
Pimenta — E na delação aparece só a Shellbill.
Tacla Durán — Até hoje eu só vi a Shellbill.
ODEBRECHT PEDIU A TACLA DURÁN PARA RASTREAR CONTAS: QUERIA PRESSIONAR DILMA ROUSSEFF
Pimenta — As outras duas contas não apareceram?
Tacla Durán — Não.
Pimenta — Mas, nessa planilha que o senhor elaborou, elas aparecem.
Tacla Durán — Não, não fui eu que elaborei. Foi alguém do Departamento de Operações Estruturadas, uma das moças lá, eu não me lembro, acho que a Ângela, não me lembro, eu tenho o arquivo com o original.
Pimenta — O senhor tem arquivo original dessa planilha.
Tacla Durán —Sim, tenho.
Pimenta — Onde aparecem as outras quatro contas.
Tacla Durán — Sim. Quando eu não consegui localizar o beneficiário final das contas e relatei isso ao Hilberto, ele ficou muito chateado, porque, aí sim, ele me colocou que era o pagamento ao João Santana, que era muito importante a gente conseguir isso, porque a ideia da Odebrecht era pressionar a presidente Dilma, através dessa informação, a paralisar as investigações ou coisas nesse sentido.
Pimenta — A Odebrecht, de posse das informações de pagamentos a João Santana, usava essas informações para pressionar lideranças de outros países e foi também usada contra a presidenta Dilma? Chegou a ser utilizado?
Tacla Durán — Creio que não, porque o Hilberto ficou muito chateado porque eu não consegui ter sucesso naquele estudo.
Pimenta — O Hilberto que o senhor fala é?
Tacla Durán — Hilberto Silva.
Pimenta— O Hilberto Silva foi identificado como responsável pelo sistema Drousys.
Tacla Durán — Não, não. O Hilberto era o responsável pelo departamento.
Pimenta —De Operações Estruturadas.
Tacla Durán —Sim, sim.
Pimenta — Ficava na Bahia.
Tacla Durán — Ficava em São Paulo porque eu alugava o apartamento a ele.
O QUE FAZIA O DEPARTAMENTO DE OPERAÇÕES ESTRUTURADAS
Damous – Esse Departamento de Operações Estruturadas era de fato destinado ao pagamento de propinas?
Tacla Durán — Quando eu cheguei, já estava criado. Mas havia situações de pagamento também que não se trata de propina, situações estratégicas em que a empresa tinha que fazer pagamentos, em que a pessoa não queria aparecer, por uma questão fiscal. Eram coisas normais de uma empresa. Eu, por exemplo, comecei a trabalhar lá, eu não podia detectar que aquilo era voltado para esse tipo de prática ilícita, até porque, se havia esse tipo de prática ilícita, isso não era disseminado, falado com qualquer pessoa recém chegada. Eu trabalhei cinco anos com pessoas que tinham 30, 35 anos de casa. Claro que, a partir de determinado tempo, você tinha confiança, etc. Agora eu, em dois três anos, dizer que sabia de coisas. Não, o que eu via uma série de operações, procedimentos fiscais, que eram normais do dia a dia de uma empresa.
Pimenta — O Hilberto não era o responsável pelo Drousys?
Tacla Durán — Não. O Drousys, quem era o responsável era o irmão do Luiz Eduardo.
Damous — Explica para nós o que é o Drousys.
Tacla Durán — Drousys é o sistema de comunicação. São desk tops virtuais que criavam o login e senha, e você se comunicava.
Pimenta — Uma rede interna.
Tacla Durán — É, uma rede interna. Só que essa rede interna era controlada pelo Luiz Eduardo.
Pimenta — O Luiz Eduardo ficava no Departamento de Operações Estruturadas.
Tacla Durán – É. Uma pessoa só poderia falar com a outra e esta autorizasse.
Pimenta — Ele era da equipe do Hilberto.
Tacla Durán — É.
Damous – Mas o Drousys foi concebido com que objetivo?
Tacla Durán — A de comunicação segura.
Pimenta — Só para a gente entender aqui. O Luiz Eduardo fazia parte do Departamento de Operações Estruturadas, do Hilberto, mas ele era também sócio do banco em Antígua.
Tacla Durán — Sim, correto.
Pimenta — O Fernando era diretor de que setor da Odebrecht.
Tacla Durán — O Luiz Fernando era diretor, tesouraria.
Pimenta — Tesouraria.
Tacla Durán — Ele sempre trabalhou na área de tesouraria, ele estava na área de Operações Estruturadas e…
Pimenta — Os dois faziam operações em nome da Odebrecht no Meinl Bank sem que a Odebrecht soubesse que eles eram também sócios do banco.
Tacla Durán — Que a Odebrecht sabia que eles não eram sócios do banco, certeza. Que eles faziam operações que a Odebrecht sabia, não…
Pimenta — A Odebrecht não sabia que eles eram sócios.
Tacla Durán — Não, a Odebrecht não sabia que eles eram sócios. E eles faziam operações que a Odebrecht sabia e operações que a Odebrecht não sabia. Como eu falei, são sócios. Eles são tão sócios que o imóvel onde o banco se situava em São Paulo é de propriedade dos quatro acionistas banco, e do Fernando e do Luiz Eduardo. O imóvel é de propriedade dos seis.
EXECUTIVOS DESVIARAM DINHEIRO DA ODEBRECHT COM PROPINA SIMULADA
Damous – Salvo engano meu, o senhor teria declarado nas entrevistas à imprensa que algumas operações de entrega de dinheiro — para políticos ou seja lá para quem for, legais ou ilegais —, o dinheiro não chegava ao destinatário, eram embolsados por aqueles que deveriam entregar o dinheiro.
Tacla Durán — Sim, sim.
Pimenta — Eles lançavam no sistema como se fosse propina.
Tacla Durán — Sim. Havia entrega simulada de dinheiro por pessoas que roubavam dinheiro.
Damous — O senhor tem exemplos?
Tacla Durán — Dinheiro físico? Dinheiro em espécie?
Damous — Uma operação de dinheiro que seria destinado a políticos.
Pimenta — Consta no Drousys uma operação de pagamento para alguém, mas, na verdade, isso era uma simulação para que o próprio executivo ficasse com o dinheiro.
Tacla Durán — Veja bem, eu não posso assim… Um caso que chamou a atenção é que foi solicitada a entrega de… Houve uma discussão muito grande em relação a Leandro Azevedo.
Damos — Quem é Leandro Azevedo?
Tacla Durán — Leandro Azevedo era um diretor da Odebrecht responsável pelo Rio de Janeiro. Falar a verdade, eu não sei exatamente a função dele. Ele trabalhava no Rio de Janeiro e era responsável por esse tipo de serviço, obra, etc. Que aconteceu ali é que eu presenciei uma discussão o Álvaro Novis (diretor da empresa), o Luiz Eduardo e o Fernando Migliaccio, num almoço, que o Álvaro reclamou que o pedido de entrega, que ele teve que entregar recursos dentro do escritório da Odebrecht na mão do Leandro Azevedo, e que, eu não sei qual o valor, nada, eu vi a discussão. Não era um assunto meu e eles não foram tão transparentes, justamente por eu estar na mesa do almoço. Ficou claro que eles ficaram muito aborrecidos e transpareceu é que esse dinheiro foi para lá e ficou com uma pessoa, que não foi, e eles acharam que estava acontecendo algum tipo de desvio.
A CONTABILIDADE PARALELA DA ODEBRECHT
Pimenta — Uma última pergunta sobre esse mesmo assunto. O sistema My Web Day é um sistema que até agora não apareceu de maneira integral. Ocorreram várias solicitações de acesso a esse sistema e, nesse sistema, estão registradas todas as movimentações contábeis legais e ilegais da Odebrecht no mundo inteiro. O senhor tem ciência da existência desse sistema, e como é que ele funcionava.
Tacla Durán — Sim. Quando eu estava trabalhando na triagem de informações, na defesa da empresa, porque muitas informações, antes de ser passada aos advogados constituídos, internamente a gente fazia uma triagem — alguns advogados da empresa, no caso eu, dr. Gideon, dr. Marcos Simões e outros advogados, e os próprios funcionários, diretores. Nesse trabalho, eu não conhecia o sistema My Web Day, nesse trabalho que eu estava fazendo, aí me informaram que havia esse sistema e que esse sistema se tratava da contabilidade, era um sistema de contabilidade da empresa. Ficava também em servidores seguros. Na ocasião em que me contaram, me disseram que já estava desativado. Isso foi em 2015. Em 2015, ele já estaria desativado.
Pimenta — O My Web Day ficava hospedado onde?
Tacla Durán — No exterior também.
Pimenta — Sabe onde?
Tacla Durán — Que eu saiba, na Suíça.
Pimenta — E o Drousys?
Tacla Durán — Também.
Pimenta — Essas planilhas que têm sido apresentadas extraídas do My Web Day, o senhor acha que, sem o acesso ao sistema original, é possível afirmar que elas sejam verdadeiras, a exemplo do que foi feito com os extratos de Antígua?
Tacla Durán — Sem acessar o sistema, afirmar que é verdadeiro é tecnicamente impossível. Acho que nenhum perito faria isso.
Pimenta — E esse sistema, na sua opinião, hoje ele já não existe mais?
Tacla Durán — Quando eu soube, ele já era desativado, e eles não demonstraram tanta preocupação. Acho que não havia risco.
Damous — Ele pode servir de prova contra ou a favor de alguém?
Pimenta — Não quer dizer que algo que esteja dentro do sistema seja verdadeiro também.
Tacla Durán — Como eu disse, havia coisas que podem ter sido simuladas, sob o próprio interesse de algum dos diretores. É como um sistema normal, você gera uma despesa, e a despesa pode existir ou não. Nesse caso aqui, é uma despesa que não tinha suporte de documento, nota fiscal, nada.
Pimenta — Tanto o Drousys como o My Web Day eram alimentados por executivos da empresa.
Tacla Durán — O My Web Day 100% certeza, seguro.
Pimenta — Que lançavam a contabilidade da empresa, oficial e paralela.
Tacla Durán —E executivo de alto nivel.
Pimenta — Informações não obrigatoriamente verdadeiras, na medida em que estão surgindo informações de que executivos desviavam dinheiro.
Tacla Durán — Sim, com certeza há inconsistências. Seguro. Há inconsistências. Não é 100% verídico. Isso sem nenhum tipo de fraude no sistema. Havia inconsistência por lançamento individual.
Pimenta — Deve ter também operações registradas para além das relações da política. O mundo jurídico, grupos de comunicação.
Tacla Durán — É um sistema de contabilidade. Então ali consta, acredito, tudo. No My Web Day.
O Drousys é um sistema de comunicação.
Damous — Uma espécie de whatsapp.
Tacla Durán — Tinha o chat, tinha e-mail.
Observação: O juiz Sergio Moro negou todos os pedidos da defesa do ex-presidente Lula para ter acesso a esse sistema de contabilidade paralela da Odebrecht.
Zucolotto e Moro em show do Skank
COMO ZUCOLOTTO, O AMIGO DO JUIZ MORO, ENTROU NA HISTÓRIA
Damous — Eu gostaria mais de saber sobre sua situação jurídica. O senhor foi delatado.
Tacla Durán — Fui.
Damous — O senhor estava sendo investigado.
Tacla Durán — Por três anos.
Damous — E preocupado, como qualquer pessoa ficaria, resolveu contratar — e o senhor estava sendo investigado pela Operação Lava Jato — advogado em Curitiba, onde é a sede da Operação, e o senhor escolheu o escritório Zucolotto para…
Tacla Durán — Não, foi um um pouco diferente. Eu tomei conhecimento de que havia sido delatado pela UTC, pelo senhor Ricardo Pessoa e pelo diretor da UTC, Valmir Pinheiro. Tomei conhecimento disso por outros advogados que também trabalhavam para a UTC. E, com a desculpa de que queriam me ajudar com a indicação de advogados, talvez os mesmos advogados, poderia até ser. Até com as mesmas referências “a panela de Curitiba”, advogados da panela de Curitiba.
Damous – O que o senhor chama de panela de Curitiba?
Tacla Durán — Eles me disseram que eram advogados que tinham capacidade de resolver o assunto melhor, por estarem ali, por conhecerem o mecanismo, as pessoas. Uma proximidade de contato. Eu optei por não contratar ninguém que eles haviam indicado, continuei com meu advogado — na verdade, constituído na frente das negociações que eu travei com o Ministério Público, que foi o Leonardo Pantaleão —, tentei prestar meus esclarecimentos, ter as minhas prerrogativas de advogado respeitadas. Não tive. Vi algumas dificuldades. E o escritório do dr. Zucolotto era meu correspondente.
Damous — Que dificuldades?
Tacla Durán — Eles queriam me imputar crimes que eu não pratiquei.
Damous — Eles quem?
Tacla Durán — Os procuradores.
Damous — Os procuradores.
Tacla Durán – Me imputar crimes que eu não cometi, converter o trabalho de advogado. Eles queriam criminalizar o trabalho do advogado. Não é porque você tem uma informação que você está protegendo seu cliente ou você está orientando seu cliente, na prática, se ele praticou ou não crime, não é o caso de você ser criminoso. Não é porque você recebeu de um cliente que você está lavando dinheiro. Eles falam que eu saquei 61 milhões em uma entrevista coletiva e, ao mesmo tempo, um informe da Receita Federal mostra que em dez anos eu saquei 435 mil.
Pimenta — Quais eram os procuradores com quem o senhor conversava?
Tacla Durán — Roberson Pozzobon, Júlio Noronha, Carlos Fernando dos Santos Lima, Diogo Castor de Mattos, Deltan Dallagnol, Sérgio Bruno, Athayde (Athayde Ribeiro Costa) e Marcelo Miller.
Observação: Carlos Zucolotto é padrinho de casamento de Sergio e Rosângela Moro.
PROCURADORES AMEAÇAVAM ENVOLVER A FAMÍLIA PARA FORÇAR DELAÇÃO
Damous — O senhor se sentia constrangido nestas tratativas, nesses interrogatórios?
Tacla Durán — Com certeza. Eu sou advogado, Advogado há mais devinde anos e a gente tem um pouco de experiência com essa situação. Para nós advogados chegar ao ponto de se constranger, eu imagino quem não é operador do direito. Constranger no sentido de quererem trazer para dentro da investigação familiares que não tem nada a ver com isso.
Damous — Houve essa ameaça?
Tacla Durán — Sim.
Damous — De quererem trazer algum familiar seu?
Tacla Durán — Sim. Simplesmente por ser sócia no escritório de advocacia.
Damous — Quem é?
Tacla Durán — A minha irmã.
Damous — Sua irmã é advogada também?
Tacla Durán — Sócia no meu escritório, ela (Flávia Tacla Durán) nunca trabalhou para empreiteira nenhuma. Até porque ela trabalha em outra área. Ela faz direito de família, direito civil, trabalhista. Não trabalha na área de empreiteira. E eles colocavam: “é melhor fazer, é melhor por para dentro do acordo, que te protege.” Na verdade, é aquela coisa: diz que está ajudando, mas na verdade está te colocando…
Observação: Pela lei, as delações devem ser espontâneas, voluntárias.
TACLA DURÁN FOTOGRAFOU AS MENSAGENS TROCADAS COM ZUCOLOTTO DA PANELA DE CURITIBA
Damous — Mas, na verdade, essas ameaças objetivavam o quê? O que eles queriam do senhor?
Tacla Durán — Que eu celebrasse o acordo. Foram feitas as reuniões, eu acabei procurando o Zucolotto para tentar ajudar nessa questão .
Damous – É isso que eu quero saber: por que o escritório do Zucolotto?
Tacla Durán — Porque ele já era meu correspondente em Curitiba há tempos. Então é natural que eu procurasse uma pessoa de Curitiba, da comarca, que evidentemente teria mais acesso. E aí nós estamos falando o que não acesso ilegal, nada. Ali é uma negociação, é o direito penal negociado.
Pimenta — O Zucolotto não é advogado trabalhista?
Tacla Durán — Eu nunca fiz direito penal.
Pimenta — O senhor procurou o Zucolotto pela sua capacidade jurídica?
Tacla Durán — Ele fazia não só. Ele fazia execução fiscal, cuidava de execuções fiscais, cuidava de assuntos trabalhistas, na questão como correspondente. Essa questão, eu coloquei que era uma questão pessoal/penal, perguntei se ele podia ajudar.
Damous – O senhor sabia que a esposa do juiz Sergio Moro era sócia do escritório do dr. Zucolotto?
Tacla Durán — Sim, soube depois.
Damous – Depois ou?
Tacla Durán — Sim, depois que eu contratei ele. Antes disso aí. Antes de contratar, eu sabia.
Damous – Não, se o senhor sabia que a esposa do juiz era sócia do Zucolotto.
Tacla Durán — Sim, antes de contratar para ajudar na negociação, eu sabia.
Pimenta — O senhor acredita que um escritório de advocacia possa ajudar no processo de acordo de delação? Que tipo de relação é essa que o senhor esperava que ele pudesse ajudar?
Tacla Durán — Eu me pautei um pouco no que o pessoal da UTC havia comentado e falado: olha, a gente te arruma advogado, o pessoal da panela de Curitiba,
Damous – O Zucolotto faria parte da panela de Curitiba?
Tacla Durán — Eu não queria um advogado vinculado à UTC, eu queria um advogado meu. Então, eu não aceitei. Mas aquela questão de que advogado de Curitiba poderia resolver e, como por experiência própria eles já tinham feito o acordo do Ricardo e da própria companhia, eu acreditei que aquilo tinha algum fundamento. E como eu tinha um correspondente em Curitiba, não para assunto penal, mas para outros, eu liguei para perguntar: se ele não fosse, quem poderia indicar para tratar desse assunto para mim. E ele se prontificou a tentar aconselhar e resolver.
Damous — As tratativas com o dr. Zucolotto se deram como? Pessoalmente?
Tacla Durán — Não, eu já estava nos Estados Unidos, viajando, eu talvez até estivesse por alguns dias no Brasil. Eu estava viajando bastante porque eu também já estava tratando da colaboração com os Estados Unidos.
Damous – Como é que se deram essas tratativas?
Tacla Durán — Pelo Wickr, pelo aplicativo Wickr..
Damous – Wickr é o que criptografa.
Tacla Durán — Criptografa e apaga as mensagens automaticamente nos dois dispositivos.
Damous — O senhor se apresentou a ele e disse que precisava dos serviços.
Tacla Durán— Me apresentei não, ele já sabia que eu era correspondente.
Damous — Qual era a solicitação — quero contratá-lo para…
Tacla Durán — Eu não liguei para contratá-lo. Eu liguei e disse: olha, eu estou com um problema pessoal, ai em Curitiba, a Lava Jato, eu não sei se você tem como ajudar, trabalhar nisso, ou indicar alguém. Aí ele disse que a ia ver como estava o caso.
Damous — Ele fixou honorários?
Tacla Durán — Depois de algum tempo. A priori, não. Ele ia levantar como estava o caso.
Pimenta — Estas tratativas que o senhor teve com ele, o senhor pode comprovar que elas realmente existiram?
Tacla Durán — Eu tenho as mensagens, eu fotografei as mensagens.
Damous — Qual é o conteúdo dessas tratativas?
Tacla Durán — Eu pedi a ele, ele disse que ia verificar se havia possibilidade. Não falamos em honorários.
Damous — Verificar o quê?
Tacla Durán — Verificar se havia a possibilidade de fazer o acordo.
Damous — Como é que ele ia fazer isso?
Tacla Durán — Conversando com os contatos dele. Entendi que era o pessoal da Procuradoria. Um tratativa de uma negociação normal.
Observação: Essa panela, no que diz respeito aos advogados, já se formou também no caso da Máfia das Falências, revelada nesta série de reportagens. Segundo o ex-deputado Fábio de Souza Camargo, atual conselheiro do Tribunal de Contados do Estado, a Máfia dirige a administração de massas falidas para um restrito grupo de advogados. Marlus Arns e Rosângela Moro já atuaram nesse grupo.
ZUCOLOTTO É ADVOGADO DO PROCURADOR CARLOS FERNANDO
Damous — Ele tem um cliente procurador, não tem?
Tacla Durán — Eu não sabia, eu soube pela Folha de S. Paulo, Dr. Carlos Fernando.
Damous — É cliente dele?
Tacla Durán — Eu soube pela Folha. Carlos Fernando dos Santos Lima. Então conversamos sobre isso, ele ficou de verificar. Aí ele verificou, deu o retorno e falou que havia a possibilidade de reduzir a multa que estavam propondo. E que, então, pagaria um terço da multa. No acordo. E pagaria outro terço como honorários para ele. A partir daí a gente faria a minuta, essas coisas.
Damous — Formalizaria um contrato de prestação de serviços e honorários?
Tacla Durán — Não, isso não. A princípio, deixou claro que não. Eu também não avancei nessa conversa porque, primeiro, eu não fiquei satisfeito com o que estava sendo proposto. Não em questão de valores, mas em questões pessoais, porque eu continuava tendo minha atividade penalizada, de advogado, continuava sendo acusado de coisas que eu não havia cometido. E isso, por princípio, eu não aceitava. Como eu não aceitava essa questão pessoal, eu não me preocupei na questão financeira.
Damous — Esse terço que seria pago como honorário dele, como é que isso seria feito? Ele pediu para formalizar?
Tacla Durán — Não. Informal. Ele, a princípio, pediu informal.
Damous — Informal como? Por fora?
Tacla Durán — Por fora.
Pimenta — Que valor seria isso?
Tacla Durán — Cinco milhões de dólares.
Damous — E esses 5 milhões de dólares seriam para quê? Para ele? Para viabilizar o acordo?
Tacla Durán — Exato. Como motivo de horários .
Damous – Exato. Mas ele precisaria para ele?
Tacla Durán — Foi a forma como ele colocou. Se ele iria usar de outra forma, não sei.
Pimenta — O senhor poderia nos disponibilizar cópia desse diálogo que o senhor teve com o dr. Zucolotto.
Tacla Durán — Sim, eu já submeti à perícia, aqui no exterior.
Damous — Está sendo periciado.
Tacla Durán — Sim, está sendo periciado.
Pimenta — E essas tratativas, feitas no sentido de melhorá-las, foram feitas com qual procurador?
Tacla Durán — Com quem ele falou? Para falar a verdade, ele não nominou. O email foi enviado pelos procuradores Roberson Pozzobon, Carlos Fernando Santos Lima e Júlio Noronha.
Pimenta — Foram eles que encaminharam para o senhor?
Tacla Durán — Enviaram. Enviaram numa sexta-feira e exigiram que eu fosse assinar na segunda.
Pimenta — Foi antes ou depois da conversa com o Zucolotto?
Tacla Durán — Depois.
Zucolotto — Essa minuta é fruto do trabalho do Zucolotto?
Tacla Durán — Sim.
Damous — Numa dado momento, o dr. Zucolotto disse que traria o procurador para a negociação?
Tacla Durán — É.
Damous — Isso está nas mensagens?
Tacla Durán — Isso está nas mensagens.
Observação: No livro “Testimonio”, que está escrevendo, Tacla Durán disse muito mais do que isso.Veja um trecho: “Carlos Zucolotto então iniciou uma negociação paralela entrando por um caminho que jamais imaginei que seguiria e que não apenas colocou o juiz Sergio Moro na incômoda situação de ficar impedido de julgar e deliberar sobre o meu caso, como também expôs os procuradores da força-tarefa de Curitiba.”
Em outro trecho, ele escreveu: “Ao se prontificar a me ajudar, Zucolotto explicou que a condição era não aparecer na linha de frente. Revelou ter bons contatos na força-tarefa e poderia trabalhar nos bastidores”. Na troca de mensagens com Zucolotto, relevada pela jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, o amigo de Moro teria escrito:
“E você paga mais um terço de honorários para poder resolver isso, me entende? Mas por fora porque tenho de resolver o pessoal que vai ajudar nisso.”
Os deputados poderiam (e deveriam) ter aprofundando mais esse ponto. Haverá uma nova oportunidade, caso a CPI aprove o depoimento de Rodrigo Tacla Durán.
E-MAIL E MENSAGENS DESMENTEM O JUIZ SERGIO MORO
Damous — O juiz Sérgio Moro afirmou, peremptoriamente, quando essas informações foram divulgadas, se não me engano pelo jornal Folha de S. Paulo, o juiz Sérgio Moro veio em defesa do dr. Zucolotto, dizendo que ele atua na área trabalhista, não atua na área criminal. Disse peremptoriamente. O que o senhor tem a comentar a esse respeito?
Tacla Durán — Olha, o site do escritório do dr. Zucolotto tem no portfólio que ele atua, sim, na área criminal.
Damous — E mais. Disse mais o juiz Sergio Moro — eu estou abrindo aspas aqui. O relato de que esse advogado em questão, Zucolotto, teria tratado com o réu foragido, Rodrigo Tacla Durán, é absolutamente falso. Ou seja, esse documento que o senhor tem, da troca de e-mails e a conversa registrada com o dr. Zucolotto, desmentem o juiz Sergio Moro.
Tacla Durán — Não, eu não troquei e-mails com o dr. Zucolotto sobre esse assunto. Sobre esse assunto, eu troquei mensagens no Wickr. Há e-mails trocados do meu escritório com o dr. Zucolotto de anos, em razão do trabalho que ele prestava para meu escritório como correspondente.
Damous — Eu me refiro ao e-mail dos procuradores.
Tacla Durán — O e-mail dos procuradores é absolutamente verdadeiro, é da rede do MPF.
Pimenta — Está assinado?
Tacla Durán — Sim, com cópia a três procuradores. Com cópia. Copiados três procuradores e copiado meu advogado. Meu advogado me encaminhou.
Pimenta — Isso é importante. Depois da troca de mensagens com o Zucolotto.
Tacla Durán — Sim.
Pimenta — Se o senhor tivesse aceito, teria também subentendido que o senhor teria aceito também os temos propostos pelo Zucolotto.
Tacla Durán —Sim. Foi depois. Eles encaminharam o e-mail para meu advogado e meu advogado me encaminhou o e-mail. Nesse e-mail constavam três procuradores, são os três que eu falei e o meu advogado.
Pimenta — O senhor não aceitou?
Tacla Durán — Não aceitei.
Pimenta — Por quê? Porque continuava ainda penalizando minha atividade.
Tacla Durán — Pois é. Continuava penalizando. Eles não consideravam que meu patrimônio — uma das coisas que eles mencionavam como se nele houvesse irregularidade — é e era de fato declarado. Falava que eu sacava dinheiro. Minhas contas não têm saque. Que eu recebia de cliente, sacava e devolvia para o cliente. Isso não aconteceu.
Observação: O comportamento de Moro, diante da revelação da Folha de S. Paulo, de fazer a defesa do advogado é suspeitíssimo. E esta não é a única fragilidade. Zucolotto aparece como advogado do juiz — não só amigo —, em uma ação criminal contra o advogado Roberto Bertholdo, que acusou o juiz de favorecer Alberto Youssef, no primeiro acordo de colaboração dele, em 2004. Pela acusação, Bertholdo foi condenado por injúria e difamação. Ele queria provar que o que disse era verdade, mas a Justiça não abriu o processo para a possibilidade de exceção da verdade.
PROVAS OFERECIDAS POR TACLA DURÁN DESMONTAVAM VERSÃO DO MPF E, POR ISSO, FORAM RECUSADAS
Damous — O senhor tem conhecimento de que o procurador Pozzobon ameaçou com nova prisão o executivo da UTC, Ricardo Pessoa, para que ele fosse obrigado a dizer que seus trabalhos eram ilícitos?
Tacla Durán — Sim, foi o que me foi falado.
Damous — Por quem?
Tacla Durán — Pelo advogado Ivan Carratu.
Damous — O Dr. Ivan Carratu quem é?
Tacla Durán — É advogado da UTC. Aí depois eu vim a saber que, de fato, isso se confirmou, porque, nessa ocasião em que ele me contou, isso aí estava sob sigilo. Entretanto, quando foi pedida a minha prisão, eu tive acesso, aqui na Espanha, a cópia, a parte dos autos. Pelo menos é o que chegou aqui na Espanha. Aí, nesses autos, consta também uma complementação de delação premiada, com declarações do Ricardo Pessoa e do senhor Valmir Pinheiro. Essas declarações foram feitas no endereço do escritório da própria UTC, sem a presença de qualquer autoridade policial ou do Ministério Público. Subentende-se que estavam sentados na mesma mesa, sem qualquer autoridade, os dois delatores e seus respectivos advogados. E, diga-se de passagem, uma advogada deles também é advogada da Odebrecht.
Damous — Qual é o nome?
Tacla Durán — Dra. Carla Domênico. Eles dizem, basicamente, que o que eles me pagaram eu devolvi a eles em dinheiro. Como? Perguntados pelos advogados, deles próprios, eles disseram que eu ia regularmente, a cada determinado tempo, à garagem do prédio da UTC. Isso é mentira. Eu nunca estive no prédio da UTC, gostaria até de ter a oportunidade porque, até hoje, não tem inquérito policial, não tem investigação, gostaria de oferecer meus telefones para que fossem verificados que eu nunca estive nessa região, da UTC. E nessa situação da questão da UTC e, perguntados pelos advogados: o senhor tem algum registro da presença dele na garagem? Não, não há. Tem algum vídeo? Não, não tem. Outras perguntas que eles fazem lá — ao senhor Valmir —: o senhor sabe como o Rodrigo transformava ou convertia o dinheiro em espécie? Ele disse que não sabe nem nunca teve interesse em saber. E juntam documentos.
E quais são os documentos? Os meus recibos da sociedade de advogados, que tiveram impostos retidos. Documentos que não são nenhum plus, não são nenhuma prova que o Ministério Público não tivesse. Por exemplo, me chama muito a atenção que são documentos muito menos valiosos, muito menos importantes, que eu propus ao Ministério Público entregar, quando tentaram fazer o meu acordo. Entretanto, eram documentos que desconstituíam essa versão que o Ministério Público criou em muitos aspectos. Então eu senti, nesse momento, e hoje vendo o que a UTC fez comigo, e aceito, eu vejo que parte do meu problema — que o meu acordo não foi aceito — é que eu desconstituía uma versão que já vinha sendo criada. Então, em vez de eu somar, de eu construir uma versão de acusação, eu estava atrapalhando.
Damous — Com base nessa afirmação de agora, pela sua própria experiência nessas tratativas, nesse interrogatório, e aquilo que o senhor ouve ou possa ter ouvido de outras pessoas na mesma situação, o senhor acha que há um padrão, nessas tentativas de obtenção de delação, um padrão de selecionar aquilo que interessa, de selecionar aquilo que não interessa, do ponto de vista da verdade que a operação quer construir?
Tacla Durán — Sem dúvida. No meu caso, como eu trabalhei muito com a Odebrecht no exterior, eu tinha uma situação de ter mais informação do exterior, isso também nunca foi do interesse deles. O interesse deles é voltado ao Brasil, e principalmente voltado a políticos.
Damous — O advogado Vicente Paula Santos, o senhor conhece, já teve alguma relação profissional com ele?
Tacla Durán — Não, não tive. Mas ouvi falar agora, recente, que ele foi sócio do Zucolotto ou tem escritório no mesmo endereço. Ou defende ou defendeu o procurador Carlos Fernando.
Observação: O depoimento de Tacla Durán, nesse ponto, confirma que a Lava Jato arma situações para produzir resultados pré-definidos. No processo que envolve Lula, também existem graves acusações de uso de documentos falsos. Sergio Moro até hoje não autorizou perícia em e-mail que a defesa de Lula diz serem apócrifos.
Marcelo Miller
MARCELO MILLER QUERIA QUE TACLA DURÁN GRAVASSE REUNIÃO DE ADCOGADOS NA ODEBRECHT
Pimenta — O senhor teve algum contato com o procurador Marcelo Miller?
Tacla Durán — Sim, ele esteve presente em uma reunião em Curitiba, nas negociações.
Pimenta — O dr. Marcelo Miller era da equipe de Curitiba?
Tacla Durán — Não. Ele era de Brasília.
Pimenta — Mas participava da conversa com o senhor?
Tacla Durán — Participavam de Brasília o dr. Marcelo Miller e o dr. Sérgio Bruno. Eles participaram a partir da segunda ou terceira reunião que eu tive, não me lembro bem, mas a partir de um momento eles participaram sim. Eles tinham interesse de saber se eu tinha alguma informação ou situação que pudesse envolver pessoas de fórum privilegiado.
Pimenta — Marcelo Miller, no caso…
Tacla Durán — Foi a justificativa que me deram para que eles estivessem presentes na reunião.
Pimenta — O Marcelo Miller, o senhor se recorda de alguma situação especial dele, nos depoimentos que foram prestados ou nas conversas?
Tacla Durán — Sim. Como eu comentei que havia iniciado uma negociação, eu procurei ser, primeiro, mais leal e mais franco possível. Nesse meio, entre uma reunião e outra com a procuradoria, eu havia sido chamado para uma reunião na Odebrecht, com o advogado na Odebrecht, e para que não houvesse nenhuma dúvida do meu espírito leal de que eu queria colaborar, etc., de prestar esclarecimento e resolver a situação, eu comentei a eles que eu havia sido chamado para uma reunião na Odebrecht. Eu não queria deixar que eles soubessem de outra forma e parecer que eu estava enganando. Então eu comuniquei. Quando comuniquei, eles, o Marcelo Miller e o doutor Sé...
Quando Lula disse no seu discurso em Belo Horizonte que estava "perdoando os golpistas”, ele não estava aceitando o golpe, mas buscando estreitar a base de apoio social e político do comando golpista. Como Fidel Castro, um gigante da tática, Lula olha com profundidade o momento político e passa um recado de grande impacto para aqueles golpistas arrependidos, que caíram no conto do “se tirar Dilma, vai melhorar”. Ele percebe ainda que a desgraça que Temer está fazendo com a economia, com o povo e com o país está produzindo grande insatisfação em todas as classes e segmentos sociais e que isso pode ser unificado num amplo movimento nacional pela volta do Estado democrático de direito.
E, melhor do que ninguém, Lula sabe e as pesquisas apontam que somente a sua candidatura a presidente tem condições de representar essa saída democrática almejada pela maioria da sociedade brasileira.
Lula percebe a crescente mobilização popular produzida por suas caravanas e tem a certeza de que ela se repetirá como bola de neve por todo o país, criando a força de gravidade necessária para impulsionar essa ampla e diversificada frente democrática contra Temer e o golpe. A inegável força popular emergida das Caravanas de Lula age como um sol do Estado democrático de direito, atraindo planetas que foram seduzidos pelo lado sombrio da Força. É isso o que significa “saída democrática” do atoleiro golpista.
Como seria de se esperar, esse caminho é feroz e desesperadamente atacado pelos golpistas e sua grande mídia, que não se cansam de inventar mentiras contra Lula e dizer que as caravanas são um fracasso e, no entanto, evitam mostrá-las.
Mas essa tática de Lula e do PT não é atacada somente pelos golpistas, mas também pelos setores exclusivistas das esquerdas. Os primeiros, para não perderem o poder ilegítimo que compraram com o impeachment ilegal da presidenta Dilma. Os segundos, porque não aceitam alianças táticas e sonham conquistar sozinhos, a democracia. Se não é possível, como nunca foi nem será, preferem continuar na oposição, como guardiães da chama sagrada de seu exclusivismo ideológico de classe média. Contudo, para o povo o que importa mesmo é sair do sufoco em que entrou, enganado que foi pela mídia e desorganizado como que estava, por nossa própria culpa.
Na nossa retomada da luta democrática, e para podermos ir muito além da simples volta de Estado democrático de direito, o PT e as esquerdas precisam sempre considerar dois pontos: 1) as massas só se tornam ativas quando lutam por suas necessidades materiais e somente dessa forma e com essa medida é que elas entendem os significados de democracia e socialismo. 2) Temos de saber manter a nossa independência ideológica em qualquer tipo de aliança que sejamos obrigado, pela conjuntura, a fazer. Sozinhos, não somos independentes, mas apenas isolados. O caminho da luta de classe não é um desfile pelo tapete vermelho.
Val Carvalhoé militante histórico do Partido dos Trabalhadores (PT).