“A democracia precisa de inteligência, e a inteligência necessita de condições de inteligibilidade. A escalada de agressão não nos acorda. Pelo contrário, deixa-nos anestesiados. Depois de já não sentirmos os socos, o que mais se seguirá?”
Vi a semana passada uma coisa que me chocou. Era um mero anúncio de campanha política, realizado para uma eleição primária num partido ecologista andaluz, em que o candidato aparecia como que amarrado a uma cadeira, de tronco nu e com uma luz apontada à cara, imitando um interrogatório policial ou uma cena de sequestro. De cada vez que o candidato dizia uma verdade sobre a situação na Andaluzia, levava um soco.
Reparem: em teoria, eu não teria grande desacordo com as palavras que eram ditas, com o tipo de eleições a que se destinava o anúncio, e poderia até admitir que houve imaginação na realização dele. O que me perturbou foi outra coisa: será que estamos já tão anestesiados pelo excesso de estímulos, pelo abuso do efeito de choque, que a tendência para a degradação da mensagem política é inevitável? O autor do vídeo teve, evidentemente, milhares de visualizações na internet e partilhas nas redes sociais, e desse ponto de vista ideia foi um sucesso. Mesmo uma menção numa crónica como esta constitui, é claro, um prolongamento a contra-gosto da longevidade do dito vídeo. O problema é o que isso nos diz sobre as possibilidades da democracia neste ambiente.
O problema nos socos, fictícios, que levava o protagonista do filme, está nos socos reais que leva a nossa inteligência quando a política começa a ser feita desta maneira. Ora a democracia precisa de inteligência, e a inteligência necessita de condições de inteligibilidade. A escalada de agressão não nos acorda. Pelo contrário, deixa-nos anestesiados. Depois de já não sentirmos os socos, o que mais se seguirá?
Em tempos de crise, não há como não nos escandalizarmos. Há, por todo o lado, verdadeiros motivos para tal. A diferença relevante está entre o escândalo verdadeiro que sentimos por ser humanos, e a manutenção e prolongamento artificial de um estado de excitação permanente a que eu chamaria o escandalismo. Às vezes ele serve os nossos propósitos, ou os dos nossos adversários, mas acaba desservindo a todos.
O escandalismo é resultado de uma leitura errónea da democratização da imagem e da palavra e da globalização da internet. Hoje as pessoas têm acesso a mais informação, a mais pontos de vista e a mais possibilidades de verificação de factos do que nunca. Ignorando essa verdade, o escandalismo prefere gritar aos sentidos do que falar às inteligências. O escandalismo acredita que as pessoas só podem ser captadas pelos instintos mais básicos. Isso não é verdade — mas a crença basta para tornar o próprio discurso mais básico. A única mensagem que fica é: olhem para mim!
Numa crónica de há muitos anos chamei a este período uma “crise de complexidade”, e disse que ela poderia levar dois tipos de resposta: a simplicidade inteligente (a democracia, o civismo, a paz, a cooperação) ou a simplicidade estúpida (a demagogia, a agressividade, o racismo, o conflito). Este tipo de sinais levam-me por vezes a temer que a janela para a simplicidade inteligente se possa, um dia, fechar.
(Crónica publicada no jornal Público em 09 de Setembro de 2013)




























































































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