2012, que começou como um ano cheio de produções decepcionantes (
VALENTE, NA ESTRADA) ou realmente pavorosas (
BRANCA DE NEVE E CAÇADOR, O CORVO), felizmente conseguiu se redimir no final: de setembro pra cá, várias produções ambiciosas e provocadoras estrearam no cinema. Uma das temáticas mais presentes nos filmes desse ano (e especialmente na minha lista abaixo) é a relação entre o amor (pelo outro, pelo trabalho, pela vida, ou até mesmo amor-prório) e a morte. Abaixo, os melhores filmes que vi esse ano.
10- ARGO
Ben Affleck, que vem construindo uma sólida filmografia, realiza mais uma vez um ótimo filme.
ARGO acerta não só na abordagem direta com que lida com a trama do resgate dos funcionários da embaixada americana no Irã no início dos anos 80, mas também pela eletrizante meia-hora final que se transforma numa aula de suspense. Um extremamente competente thriller político que não fica nada a dever às produções de
Sidney Lumet dos anos 70.
9- OSLO, AUGUST 31ST
Narrando um dia na vida de um ex-viciado em drogas, o segundo filme do norueguês
Joachim Trier é uma experiência devastadora.
Anders Danielsen Lie, cujo personagem tem o mesmo primeiro nome, transmite em antológica atuação a tristeza de se encontrar um passado fragmentado onde as próprias lembranças se tornam acusações. Moralmente complexo, o filme transforma a própria cidade de Oslo em personagem, com sua frieza árida. A sequência final mais lindamente chocante do ano.
8- RUBY SPARKS
Zoe Kazan, a protagonista e roteirista de
RUBY SPARKS, espertamente usa as regras da construção de uma
manic pixie dream girl para desconstruí-las. Tanto ela quanto
Paul Dano (seu namorado na vida real), tranformaram uma história que poderia ser nada mais que uma série de esquetes sobre de uma narrativa de realismo mágico em uma profunda discussão sobre a (re-)construção de subjetividades que inevitavelmente acontece no meio de um relacionamento amoroso. Além disso, a mais triste cena de discussão de casal da história do cinema.
7- AS AVENTURAS DE PI
A partir do "infilmável" best-seller de
Yann Martel,
Ang Lee mostra mais uma vez porque é um dos mais inventivos e sensíveis cineastas do mundo hoje. A história do "menino e tigre num barco" ganha proporções épicas em um espetáculo visceral de imagens arrebatadoras. Se alguns momentos parecem "explicadinhos" demais, outros lançam luz sobre as escolhas morais, religiosas e narrativas do protagonistas.
6- AMOR
Nessa ode ao amor e à morte,
Michael Haneke mostra como seu cinema, geralmente associado à brutalidade e ao niilismo, também pode ter elementos de delicadeza. Apoiado pelas atuações monumentais de
Emmanuelle Riva e
Jean-Louis Trintignant, o filme mostra que certas vezes o limite do companheirismo é o mesmo do desapego.
5- MOONRISE KINGDOM
O cinema de
Wes Anderson, por ser tão fortemente apoiado em suas marcas visuais, na maioria das vezes parece distante e frio. Porém, em
MOONRISE KINGDOM o diretor consegue aliar o artificialismo das imagens (em uma fotografia absurda toda em tons de amarelo, bege e marrom) à singela história de amor entre duas crianças que só querem ser felizes. O elenco coadjuvante, especialmente
Bruce Willis e
Edward Norton, consegue em rápidas aparições construir um universo de lirismo e sensibilidade.
4- 007 - OPERAÇÃO SKYFALL
Com um requinte visual intocável (fotografia de
Roger Deakins) e uma profundidade temática insuspeita, James Bond retorna em grande estilo pelas mãos de
Sam Mendes. Para além das características usuais que fazem parte dos filmes da série,
SKYFALL coloca o agente 007 em territórios politicamente, socialmente e até sexualmente desconhecidos. E quem diria que um filme de James Bond teria o melhor elenco do ano? Mais sobre o filme, no
artigo que escrevi para o blog Ensaio Acadêmico.
3- COSMÓPOLIS
David Cronenberg, depois do decepcionante
UM MÉTODO PERIGOSO, retorna à boa forma com essa simbólica mas ao mesmo tempo precisa discussão sobre os males da sociedade contemporânea. Meio ficção especulativa, meio jornada individual,
COSMÓPOLIS é um tratado em forma narrativa que analisa os limites da liberdade individual onde a busca por novas sensações é principal moeda de troca.
2- THE DEEP BLUE SEA
Não é sempre que
Terence Davies lança um filme, mas quando lança - sai de baixo! Retomando o assunto-chave de sua filmografia - o anseio pela morte a partir da culpa (cristã) - o diretor adapta a peça de
Terence Rattigan em tons semi-operáticos.
Rachel Weisz, na atuação de sua carreira, consegue com pequenos gestos e olhares variar entre a depressão profunda, a desilusão e a mais genuína esperança. A sequência inicial está entre as coisas mais bonitas do cinema nos últimos anos, com sua sincronia perfeita de edição, música e movimentação de câmera. Em meio a uma história de amor rica em sentimento mas também em decepção, Davies ainda lança um olhar altamente refinado para os valores religiosos e sociais da Inglaterra da metade do século passado. Uma pequena jóia.
1- HOLY MOTORS
Quando terminei de assistir a
HOLY MOTORS, jamais pensei que acabaria escolhendo esse como o melhor filme que vi em 2012. Mas verdade é que desde então as imagens belas, assustadores e absurdas criadas pelo diretor
Leos Carax não saem de minha cabeça, assim como as diferentes personas vividas pelo enigmático Sr. Oscar (interpretado magistralmente por
Dennis Lavant). Dizer que o filme é uma experiência é pouco - se assemelha mais a uma viagem pelo inconsciente, com seus tortuosos caminhos e inevitáveis surpresas. Mais que tudo,
HOLY MOTORS é prova que o cinema ainda é capaz de encontrar soluções ricas e variadas para além de regras narrativas formulaicas - a verdadeira definição de um "filme-evento".
CATEGORIAS:Melhor ator: Anders Danielsen Lie -
OSLO, AUGUST 31STMelhor atriz: Rachel Weisz -
THE DEEP BLUE SEAMelhor cena: "Aborto" em
PROMETHEUS
Melhor atuação que ninguém esperava: Garrett Hedlund -
NA ESTRADAMelhor atuação de Marion Cotillard: FERRUGEM E OSSOPior atuação de Marion Cotillard: BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGEFilme que todo mundo detestou e eu gostei: PROMETHEUSFilme que todo mundo gostou e eu detestei: INTOCÁVEISMelhores vilões: Criancinhas iranianas de
ARGOMelhor uso de música pop: "Can't Get You Out of My Head" de Kylie Minogue em
HOLY MOTORS e "Firework" de Katy Perry em
FERRUGEM E OSSO.
Pior filme: IMORTAISFrases do ano:- "Puny God" -
OS VINGADORES- "Argo fuck yourself" -
ARGO- "What makes you think this is my first time?" -
007 - OPERAÇÃO SKYFALL