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05 Mar 19:09

Onde parir? Em um lugar onde se sente segura, responde Glauce Soares

Quando você pensa em segurança do parto, qual é o lugar que visualiza?

Por acaso, veio a imagem de um hospital?

Bingo! Bem-vinda ao poder midiático da política da saúde no Brasil. Você sabia que a segurança é a justificativa dos Conselhos Federais de Medicina para não recomendarem aos obstetras prestarem assistência à mulher em ambientes privados? 

O termo é utilizado pelas instituições como um valor exclusivo do hospital mesmo com uma quantidade considerável de pesquisas e evidências científicas que comprovam que há segurança em outros ambientes. É tão cultural a imagem de que o hospital é o único lugar de segurança  no nosso imaginário que os médicos são os principais multiplicadores dessa relação.

Para comprovar esse enigma basta conversar com uma mulher  - que já percebeu a relação absurda das cesáreas no Brasil com o modo como nosso sistema de saúde funciona - que seja médica ou tem vínculo familiar com um deles. A resistência é gritante. A boa notícia é que há muitas pesquisas e evidências científicas que revelam o outro lado desta construção imaginária.

Bem, se um médico tem o respaldo do Conselho de Medicina para lhe garantir que o hospital é o único lugar seguro, por que imaginaria um outro lugar seguro para parir seu filho?

Há mulheres que têm pânico de hospital. Outras perceberam a relação absurda de poder de gênero, que existe no ambiente obstétrico hospitalar e há ainda aquelas que desconfiam do interesse econômico por trás da taxa de quase 90% de cortes no corpo das mulheres que usam o sistema privado dos principais hospitais do Brasil.

Por isso, é tão comum ouvir das profissionais de saúde do parto humanizado que o lugar de parir é aquele onde a mulher se sente segura. Glauce Soares é uma dessas profissionais que, além da segurança, aprendeu na sua trajetória que existem também respeito, individualidade e apoio.

Vale refletir se a segurança que você sente no hospital está vinculada à sua consciência ou aos traumas culturais impregnados no seu corpo. Uma dica simples para tal investigação é perguntar a si mesmo se a segurança que sente está vinculada ao medo ou à confiança.

Quem tem medo, controla, esconde, finge que não sente.
Quem confia, entrega.

Contribua com a manutenção desta seção no site do Mamatraca no endereço: benfeitoria.com/clarear

05 Mar 19:08

O lugar que você vai parir promove diálogo?

Você já leu o livro Pedagogia do Oprimido, do Paulo Freire? Já o relacionou com a situação atual da assistência obstétrica do Brasil? Essa foi a razão pela qual fui conversar com Sônia Couto, do Instituto Paulo Freire, para refletir sobre a pergunta Onde eu vou parir, por que refletir sobre isso? que aguarda seu apoio no site da Benfeitoria para se transformar em revista.

Vale a pena ouvir as dicas de Sônia para entender o paradigma de gênero, tão denunciado pelas ativistas do parto humanizado, nas relações de poder existentes entre a mulher e os profissionais de saúde tradicionais. Sônia traz elementos muito relevantes para clarear a sombra que impede muitas famílias reconhecerem a violência impregnada nas relações obstétricas:
1- Existem lugares, cuja disposição das pessoas - ou seja, a posição que ela ocupa no ambiente - não favorece o diálogo
Pergunta: um corpo deitado, amarrado com fios é uma imagem ativa ou passiva?
2- O diálogo pressupõe a escuta.
Perguntas: A postura do seu médico é de interação ou de monólogo? Ele sabe mais que você ou ele presta assistência ao seu saber?
3- As relações são entre sujeitos. E não entre um profissional que assume o lugar do saber e ignora a individualidade dos outros
Pergunta: Sua equipe de parto está disposta a criar uma construção coletiva ou impõe um jeito de parir que exige muito esforço da sua parte?

 

 

 

04 Mar 14:12

Episiotomia: ela é realmente necessária?

by Juliana Oliveira

Priscilla_Episiotomia

 

Sempre que penso em parto normal, me vem à mente um processo extremamente natural, onde a mulher tem contrações estimuladas espontaneamente pelos hormônios que seu próprio corpo produz. Até que o colo dilata totalmente, a cabeça começa a coroar e se desprender após alguns puxos, vindo em seguida o corpinho até que todo o bebê está para fora, nos braços daquela que o carregou por cerca de 9 meses. Por último, nasce a placenta. Mas isso acontece porque sou parteira e é assim que vejo a grande maioria (porque mesmo nas gestações de baixo risco, encontramos “surpresas” nada agradáveis) das mulheres parindo seus bebês, de forma complexamente simples, sem drogas, sem “piques”, sem sofrimento, com muita determinação, paciência, amor e empoderamento.

Infelizmente, a grande maioria das pessoas não tem o privilégio de conhecer essa versão natural do parto por isso, quando pensam em parto normal imaginam, dentre tantas outras coisas que causam temor, a mutilação genital causada pela episiotomia. Não são poucas as pessoas que me perguntam, com os olhos cheios daquela expressão de inconformidade, “precisa mesmo do “piquezinho”” ou, o que para mim é pior, “mas no Parto Domiciliar vocês também fazem a episio, não é¿!” Como se fosse algo obrigatório!

Entendo a dúvida e imaginação de que a episio seja algo imprescindível, uma vez que vivemos num país que tem a cultura de cortar para fazer o bebê nascer. Além do Brasil ser campeão em cesáreas, conseguiu ser vencedor mundial no índice de episiotomia (cerca 94% entre 1995 e 1998). Mas essa vitória não é legal, porque a própria Organização Mundial da Saúde recomenda restringir a episio para apenas 10% dos partos. Atualmente, cerca de 60% das mulheres são submetidas à episiotomia em nosso país.

Então, para incitar a sua curiosidade e possível pesquisa para tomada de decisão a favor ou não da episiotomia, vou explicar algumas coisinhas:

  • Episiotomia-3Conceito
    A episiotomia é um corte, realizado com bisturi ou tesoura, na região do períneo (aquele espaço que há entre a vagina e o ânus), para ampliar o espaço da vagina e facilitar a saída do bebê. Quando a mulher se encontra no período expulsivo do trabalho de parto, o obstetra faz uma anestesia local no nervo pudendo e realiza o corte.

 

  • Resuminho Histórico
    Lá no século XVIII, o obstetra irlandês Sir Fielding Ould, introduziu a episiotomia para auxiliar no desprendimento do bebê em partos difíceis. Mas até o século XIX o procedimento não ganhou popularidade por causa das altas taxas de infecção e da falta de disponibilidade de anestesia.Quando o nascimento deixou de ser considerado um evento fisiológico e natural para ser entendido como um processo de doença, onde são “imprescindíveis” procedimentos médicos para prevenir mãe e bebê de lesões maiores, a episiotomia começou a ser utilizada em grande escala. Até que em 1920 o famigerado obstetra De Lee lançou um tratado onde recomendava que todas as primíparas (mulheres que estão parindo pela primeira vez) deveriam ser sistematicamente submetidas à episiotomia e ao fórceps (ferro para puxar o bebê do canal de parto). No entanto, tal recomendação não se justificou por evidencias científicas, apenas carregava o reflexo da percepção de que o corpo feminino era defeituoso e precisava de ajuda dos médicos para fazer a criança nascer. Esse pressuposto, apesar de não ter respaldo científico, tornou-se uma verdade incontestável que é repassado em tratados de Obstetrícia nos diversos países.A frequência das episiotomias foi aumentando a partir de vários fatores: 1) transferência do parto para o nível hospitalar, antes era comum o parto domiciliar por ser evento fisiológico e natural; 2) para diminuir o tempo de duração do período expulsivo, assim o médico daria conta de atender mais rapidamente cada um dos partos; 3) mulher rotineiramente passou a ser colocada em posição horizontal (deitada) para o nascimento do bebê, quando o ideal é que ela fique verticalizada;As mulheres começaram então a questionar a necessidade da episiotomia através de movimentos e campanhas pró-parto ativo. Foi quando, na década de 70, surgiram as primeiras pesquisas clínicas bem conduzidas. E pouco a pouco o número de episiotomias começou a reduzir, uma vez que as pesquisas mostram que o procedimento é mais prejudicial do que benéfico, pois causam: dor, edema, infecção, hematoma e dor na relação sexual, além de por si só, causarem um trauma perineal de segundo grau.
  • Indicações da Episiotomia
    Se você fizer uma busca séria das reais indicações da episiotomia, poderá chegar a afirmação da Drª Melania Amorin, sumidade em Medicina Baseada em Evidencias, “está bem claro que episiotomia de rotina DEVE ser evitada, não existem evidências sólidas corroborando QUALQUER indicação de episiotomia.O ideal é que não seja feita a episiotomia, porque ela pode causar dor, aumentar os gastos com analgésicos, de infecções, de dor durante a relação sexual, causar vergonha física e emocional na mulher. O fato é que a rotina médica da episio, faz com que o procedimento seja realizado, na grande maioria das vezes, de forma desnecessária e sem o consentimento das mulheres, o que implica em violação da integridade física que, para algumas, se compara a um estupro violento por causa do estado em que a vulva e o períneo se deformam.Por conta dessas “mutilações femininas” causadas pela episiotomia, as mulheres estão recorrendo à justiça alegando terem sido vítimas de violência física e psicológica, durante o trabalho de parto, e que o procedimento trouxe prejuízos emocionais e resultados bem negativos na vida social e sexual.

Vivemos num contexto sócio cultural, na qual o corpo da mulher não está apto para parir e que o bebê precisa de ajuda para nascer; que a vagina não abre, ou que se abrir sem corte vai rasgar tudo e ficar feia; que o marido não vai mais gostar porque a mulher ficou alargada; que a vagina tem dente e vai esmagar a cabeça do bebê se não passar por ali bem rapidinho. Mas isso tudo não passa de informação equivocada. Nosso corpo tem um design inteligente, a vagina, mucosa e períneo são macios e não precisam ser cortados, a cabeça do bebê é durinha e consegue ultrapassar e trabalhar todo o períneo para lacerar o mínimo possível, se lacerar. Optar por um parto normal, é também acreditar no corpo e nas evidencias científicas, mais do que acreditar no costume dos médicos em fazer episiotomia como verdade absoluta.

Acredito que não podemos ficar quietas e passivas diante da mutilação genital feminina que é uma forma terrível de violação à sexualidade e aos direitos humanos das mulheres. É preciso que Medicina Baseada em Evidencias seja conhecida pelas mulheres e praticada pela equipe de assistência ao parto, a fim de que se tenha humanização, dignidade e respeito para com o corpo da mulher.

Ilustração espisiotomia: Look Bebê

Assinatura_PriscillaTives

 

04 Mar 13:14

nasceu guadalupe!

by luíza diener
dia 01.03.2016, após 39 semanas e dois dias, ao completar 9 luas (ela foi gerada na lua minguante de junho e veio na virada da minguante de março) nasceu nossa pequena guadalupe. às 10h12 aqui na nossa casa, no meu quarto, num parto super planejado. foram 3 semanas de pródromos – incluindo um belo de um alarme falso -, 16 horas de um confuso trabalho de parto, sendo que dessas 16, 9 horas foram realmente trabalho de parto com contrações ultra doloridas. ela nasceu dentro da bolsa (em pérola, ou empelicada), que se rompeu somente depois que a cabeça saiu. hilan que segurou, que foi o primeiro a descobrir nossa […]
01 Mar 17:55

Quando uma enfermeira resolve parir em casa

by Kalu Brum

Por: Thalita Coelho, Enfermeira Neonatal Desde antes de engravidar, já tinha um sonho de um parto domiciliar. Aliás, desde quando assisti ao documentário “O Renascimento do Parto” junto ao meu esposo. Ele ficou surpreso com a realidade do Brasil e passou a defender o respeito ao nascimento e o verdadeiro poder da mulher em parir....

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25 Feb 18:53

Sugata Mitra

by Veronica Lacerda
“Há evidências que vieram da neurociência. A parte reptiliana do nosso cérebro, que fica no centro do cérebro, quando ameaçada, desliga todo o resto, desliga o córtex pré-frontal, as partes que aprendem. Punições e provas são vistos com ameaças. Nós pegamos nossas crianças, fazemos com que desliguem seus cérebros, e depois dizemos: ‘Performem’.”

Sugata Mitra está criando uma nova abordagem educacional que questiona a forma como ensinamos as crianças atuais numa era tecnológica. Ele é professor de Tecnologia Educacional na Newcastle University no Reino Unido e em 2013 ganhou o prêmio do TED com sua palestra: Build a School in the Cloud. 

Em sua pesquisa, Sugata chegou a conclusão que o senso inato de aprendizado das crianças aumenta quando elas têm liberdade para explorar.

(Nossa pesquisa empírica aqui em casa demonstra os mesmo resultados, 🙂 )

As conclusões de sua pesquisa são bem parecidas com a do pesquisador/psicólogo Peter Gray (mais sobre ele em breve aqui no blog): Crianças, quando colocadas em ambientes ricos e estimulantes, independentemente de quem são ou do idioma que utilizam, são capazes de buscar respostas para questões complexas e tirar conclusões lógicas e racionais. E, muitas vezes, estas questões são consideradas muito adiantadas em relação ao esperado no seu currículo escolar.

O experimento de Sugata inspirou o livro/filme  ‘Slumdog Millionaire’.

Se você ainda não viu a palestra no TED, pare o que está fazendo, vá até e fique maravilhado. Tudo bem, você pode me agradecer depois.

No dia 8 de março, eu vou pro Rio de Janeiro participar da GHEC (Global Home Education Conference) e uma das coisas mais empolgantes para mim vai ser conhecer esse cara! Espero ter a oportunidade de fazer algumas perguntas. (Se você, que está me lendo aqui, pensar em alguma pergunta legal que eu possa fazer para esse cara, por favor, escreva aqui nos comentários!)

24 Feb 19:48

Depois de uma cesárea, nascer e renascer

by Kalu Brum

Por: Letícia Renna, Jornalista, Mãe de Clara(2a) e Ana A experiência começou com o nascimento da Clara, nossa primeira filha, 2 anos atrás, por uma desnecessária e frustrante cesariana. O ginecologista obstetra que acompanhou o pré-natal começou a pressão pela cirurgia quando entrei na 38ª semana (gestações podem ir até 42!), mesmo tendo sido uma...

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21 Feb 12:08

36 semanas e muito amor

by Kalu Brum

Por Camilla Dutra COMO TUDO COMEÇOU: Em 2011 assistindo vídeos na internet me deparei com um vídeo de parto natural do Além D’Olhar, o famoso vídeo da Sabrina. Aquilo era novo e não entendia bem como poderia haver aquele tipo de nascimento sem intervenções. Era daquelas que pensava que os partos eram como nas novelas:...

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13 Feb 11:25

Mãe de menino ou mãe de menina, simplesmente mãe

by Jéssica Macêdo
Artur e Beatriz na piscina

Ser mãe de menino é diferente de ser mãe de menina? Confesso o meu erro em acreditar lá no passado, antes de me tornar mãe, nesta diferença escabrosa, sim. Mas a maternidade ensina muitas coisas, especialmente quando você se engaja nela e uma dessas coisas é a não segregação dos nossos filhos por conta do sexo. A amiga Michelle pediu minha opinião a respeito de uns textos dentro desta temática que circularam na rede esta semana.

Resolvi escrever a respeito porque considero este tema muito pertinente. Sou mãe de uma menina, Beatriz (3 anos e 4 meses), e de um menino, Artur (1 ano e 10 meses). A questão da luta por igualdade de gênero sempre me foi importante, mas ao me tornar mãe virou quase uma missão na vida e ela diz respeito ao tratamento e à educação dada aos meus filhos.

Biologicamente, eu os diferencio pelos seus órgãos sexuais. Dou o nome a cada um, por ora de forma infantilizada: pipiu de menino e pepeca de menina. Nisto, apenas para ajudá-los a identificar e compreender sua formatação física diferente entre eles. Se lá na frente, a forma orgânica não falar mais alto do que seu coração e sua cabeça, estarei lá para apoia-los.

De resto, não diferencio em nada.  Não precisa ser azul pra ele e rosa pra ela. Bola pra ele e boneca pra ela. Eles são livres para serem crianças, sem os estigmas impostos pela sociedade.  Na minha casa não tem essa de ser mais delicada por ser menina, de ser bruto por ser menino. Ambos tem que respeitar e saber se defender, por igual. Eu não ensino a minha filha a se esconder de um menino. Eu ensino ao meu filho a não causar motivos em uma menina pra ela ter que se esconder.

Artur e Beatriz na piscina

Ele de rosa e ela de azul, porque sim!

Ser mãe é difícil independente do sexo dos filhos, especialmente quando tratamos os dois de forma igual. Assim, gostaria de responder ponto a ponto o texto da Patricia, da qual eu respeito completamente a forma de pensar, até porque é a experiência dela.

  1. as amizades entre meninas só são tensas se nós, como sociedade, alimentamos esta absurda ideia de que mulheres são rivais. Nós devemos é nos apegar ao “juntas somos mais fortes” e seguir juntas.
  2. não sei de onde veio essa ideia de meninos são tranquilos. Meu irmão mais novo sempre foi mais mau-humorado do que eu, tal qual a minha irmã mais velha. Meu irmão do meio e eu éramos os mais tranquilos. Ou seja, isso varia de pessoa pra pessoa e não de gênero pra gênero.
  3. a objetividade na hora de se vestir para os meninos e a não-objetividade para as meninas estão relacionadas pura e simplesmente à criação: eu não tenho paciência pra firula. Seja pra ela, seja pra ele. Além da criação, tem essa coisa do consumo de moda ser voltado para mulheres, isso está mudando. Tenho muitos amigos que demoram mais do que muitas mulheres para se ‘vestirem’.
  4. acredito que esta excessividade em postar selfies também seja inerente à pessoa e não ao gênero. Às vezes na minha timeline está tomada de fotos de um determinado amigo.
  5. eu fui criada em pé de igualdade com meu irmão mais novo. Jogava futebol, jogava videogame e soltava pipa na rua. Ao mesmo tempo ele brincava com minhas bonecas. Esse negócio de festa de menina ter spa e ser focada em padrões de belezas diz muito mais sobre o que a sociedade de consumo impõe e a gente compra sem questionar. Na minha casa não vai ter isso!
  6. nem preciso dizer que na minha casa tem umas 30 bolas diferentes e a maioria é da Beatriz. Eu gostava mais de futebol do que de bonecas. Por que não fui impedida disso. Farei o mesmo pela minha filha.
  7. quantas vezes já não discuti com um amiga a ponto de querermos nos bater e logo em seguida estarmos abraçadas?! Mais uma vez, essa rivalidade e remorso é coisa que impõe às mulheres. Não vamos incentivar isso!
  8. troque canetinhas e carimbos por carrinhos hotweels e teremos o mesmo nível de exigência.
  9. objetividade, praticidade, tranquilidade, simplicidade estão relacionadas à personalidade, não ao gênero. Muitas vezes esta personalidade é moldada por nós e pela busca de aceitação às exigências da sociedade de consumo.

Se tratarmos meninas e meninos de forma igual, a maternidade de ambos será igualmente complexa, sim.

06 Feb 12:21

Cesárea humanizada?!

by Kalu Brum

  J. havia sonhado com um parto natural. Saiu do interior de Minas Gerais para parir no Hospital Sofia Feldman. Sua filha estava pélvica, mesmo depois da tentativa de uma manobra chamada versão externa cefálica. Permaneceu sentada. Mesmo assim estava disposta a parir quando sua bolsa rompeu. Ela foi para o hospital e mesmo depois de...

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03 Feb 18:08

Os princípios seguidos pela educação na Finlândia

by João Paulo Caldeira

Categoria: 

Educação

Da Revista Pazes

 
«É possível prepará-los para as provas ou para a vida. Escolhemos a segunda opção»
 
A terra do Papai Noel e das boas escolas. Esta é a Finlândia. Há pouco tempo, parte de nossa equipe esteve por lá para ver com seus próprios olhos como funciona o sistema educacional, considerado um dos melhores do mundo. Sem preguiça, nem perder tempo, reuniram o maior número de informações a respeito. O que descobriram deixou a todos nós, no Incrivel.club, boquiabertos. Eis os fatos:
 
Segundo pesquisas internacionais realizadas pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), três vezes ao ano as escolas finlandesas apresentam os índices de desempenho mais altos do mundo. Seus alunos (que são os que mais leem no planeta) ocuparam o segundo lugar em ciências naturais e o quinto em matemática. Porém, o que mais surpreende a comunidade pedagógica não é isso, mas sim que os alunos finlandeses são os que, por dia, passam menos tempo estudando.

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29 Jan 18:18

A estranha sensação de resgatar um cão à beira da morte. Por Marcelo Zorzanelli

by Marcelo Zorzanelli
Srjuliana

Allan Patrick, não pude deixar de me emocionar ao relembrar os dias felizes com a Preta Gil.

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Não era  meu amigo. Mas certamente foi o grande amigo de alguém. Durante o dia  em que tive de esperar para fazer algo por ele, algumas teorias sobre seu passado chegaram a frequentar minha cabeça. Teria sido o cão de um mendigo viajante, amigo de um desses párias cujo domicílio fixo é a garrafa de cachaça? Teria o amigo morrido e deixado-o para trás?

Seria velho? Quão velho? Não conheço sobre cães o quanto gostaria mas ouvi dizer que quando os de pelo preto e curto ficam salpicados de branco na cabeça e nas patas, é sinal de que estas últimas já cavaram muito e pedem descanso. Velhos sem dúvida eram seus olhos. Fiz questão de ter certeza se ele ainda enxergava quando nos vimos pela primeira vez. Nem precisava tê-lo feito seguir minha mão com o olhar. Dentro do preto das pupilas havia atenção, havia o suave alerta do bicho de que olha outro bicho nos olhos.

Não preciso nem vou me estender na descrição do estado físico de seu corpo. É triste o suficiente saber que moscas e formigas já haviam começado seu trabalho no grande esquema das coisas que chamamos cadeia alimentar. Basta também saber que o dei por morto quando lhe vi primeira vez em frente à árvore sob a qual se deitara na manhã sufocante do domingo de verão. Quando olhei para trás, metros adiante, quase caí da bicicleta ao perceber que sua cabeça havia se mexido. Ele a ergueu como se um fio invisível puxasse apenas um de um lado. Um instante depois, o fio imaginário estourou e a cabeça caiu de volta ao estado inicial entre as patas dianteiras estendidas no chão.

Alguns minutos depois, ainda pedalando para longe dele, estava decidido a fazer algo. Voltei e… cadê cachorro?  Não sei se inspirado por nossa troca de olhares — mas fato é que havia se escondido entre o mato mais alto atrás da árvore. Fui até lá: vivo, sem dúvida. A cabeca grande e retangular assumiu a posição mais altiva que a saúde do dono permitia e acabou produzindo um latido abafado. Quase cômico, o latido.

Não seria digno rir na hora mas, lembrando depois, sorrio com essa qualquer coisa de engraçado no bicho danado que mesmo na pior não cede e late até para a mão que alimenta. Esta comunicação verbal permitiu que eu avaliasse sua dentição: perfeita, com caninos avantajados que brilharam no sol. Seguiu-se uma pausa para respirar e, juro, um menear de ombros antes de voltar a deitar a cabeça. Uma esnonada.

Uma hora depois eu voltava com água e ração. Comeu, levantou-se para comer e pude ver que uma pata estava retraída e não tocava o chão, herança de um atropelamento. Tentei ajeitar o pote de ração e recebi um aviso na forma de um rosnar que se intensificava à medida que a mão se aproximava e terminava num latido corajoso. Coloquei água e bebeu um litro. Como, pensei, os barraqueiros que vendem banana e abacaxi a cinqüenta metros daqui não tiveram esta ideia antes? Um boiadeiro negro se aproximou de mim e disse que não sabia que o cachorro ainda comia. Disse que levaria leite para ele no outro dia.

Voltei mais tarde no mesmo domingo mais duas vezes para levar mais ração e água. Em casa, tentava contato com algum veterinário na cidade pequena de praia. Nada. Pela internet, no entanto, recebi de um grupo de mulheres que salvam cães na região com o próprio dinheiro e sem qualquer ajuda oficial a esperança de que ele seria consultado.

A história já está me saindo muito longa, então vamos lá: dormi pouco de domingo para segunda. Não tinha carro ou ajuda para tirá-lo de lá e esperar era a única escolha. Dia seguinte, o tenaz grupo de salvadoras conseguiu veterinária para a tarde. Esperei na chuva algumas horas e acabou que uma cesárea de emergência tomou o lugar do cão. Sem saber o que fazer, decidi que o cachorro não ficaria ao relento: peguei um carro de carroceria emprestado com um conhecido de um conhecido ao fim de seu expediente, comprei focinheira e lá fui sem um plano decente. Rodando o bicho, ainda tentando imaginar por onde pegar o corpo frágil (e com medo dos caninos), eis que ocorre um pequeno milagre para animar um pouco a história: estacionou atrás de mim um carro e dele saiu uma mulher falando meu nome.

Eu havia compartilhado o endereço do cão com as mulheres e uma delas apareceu com uma caixa de papelão e disposta a colocar o cachorro em seu próprio carro de passeio. Sem piscar, ela entrou no mato (de salto, acabara de sair do trabalho no escritório) e quando reparei já passava a mão na cabeça do cão que nem fez menção de latir. Distraiu-o enquanto meti nele a focinheira e comigo colocamos o velhinho na caixa. Minutos depois o cão estava na garagem de minha casa.

Nao é exagero dizer que fiquei feliz como há muito não acontecia; a noite avançava, o socorro ficava mais próximo e o cão parecia sorrir para mim. Sentado a seu lado, vigiando sua respiração, imaginava de novo as aventuras que ele havia vivido. Quantos filhos, netos e bisnetos nao teria pelo mundo? Quantas rodas de carro não teriam passado maus bocados com sua presença, seja com os jatos que demarcam território ou com os latidos das perseguições desembestadas?

Quantas pessoas chatas não teria mordido? Será que conheceu muitos lugares? Gostava do mar? Podia muito bem ter sido o cão de um pescador, coisa comum na cidade. De repente, a imagem de seu perfil elegante (era bonito e esguio de pé, mesmo naquela condição deletéria) na proa de um barco de pesca passou por minha mente e aqueceu meu coração. Disse para mim mesmo que o chamaria de Lázaro, como na Bíblia, se melhorasse. Mas não ainda. Ter esperança pode ser algo perigoso.

No dia seguinte, oito horas da manhã, seria consultado numa clínica das mais bem equipadas do lugar. Sonhei com ele. Era um sonho em que eu fazia ajustes em minha vida para tomar conta do animal doente. Vocês sabem como são essas coisas de sonho; o cachorro andava de cadeira de rodas num certo momento, depois corria num morro de grama verde, chegava a dizer algo, enfim, mas o importante é que era de minha responsabilidade. Nunca foi este o plano no mundo dos acordados (pensei em fazer campanha para achar outro lar para ele) mas eu já fazia carinho em sua cabeça e suas costas sem medo, então…

Seis da manhã, minha mãe diz que ele havia saído do canto em que o deixei. Está se mexendo, que ótimo, pensei. Sim, ele não respirava quando cheguei mais perto para ver. Estava morto e ainda um pouco quente. Algum tempo depois, eu mesmo o enterrei na terra preta de um descampado nos limites da cidade.

Não contei mais cedo o que disse a mulher que me ajudou a reagatá-lo. Ele está morrendo, ela disse, sem desesperança nem tristeza na voz, como se fosse uma informação óbvia. A verdade é que ele morreria sozinho no mato com ou sem os cuidados que dei durante um dia e meio.

Mas se eu não tivesse feito o que fiz, jamais recuperaria o direito de passar em frente àquela árvore sem sentir no coração a dor de ter abandonado um amigo para morrer. Mesmo que amigo por apenas um dia.

20 Jan 17:56

Porque eu não comemoro os peitos da deputada

by Gabi Sallit

Só se fala nos peitos das deputadas. Carolina Bescansa, congressista na Espanha, levou seu filho de 5 meses à sessão que elegeria o presidente da Casa. Ela era uma das candidatas. No fim de dezembro, Manuela D’ávila lamentou voltar ao … Continue lendo →

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18 Jan 23:25

Parto domiciliar: Bruna e Valentina

by Juliana Oliveira

12400965_761336987299220_2330773839582608916_nPeço desculpas se esqueci algum detalhe. Não lembro de muita coisa, sabem como é né ‘’estava embriagada de ocitocina’’.

Nunca antes havia pensado profundamente em vias de nascimento. Era parto normal, mas se não ”desse”, cesárea. Mas era algo fora de questão, algo que demoraria pra chegar minha vez. Não foi bem assim…
Logo que descobri a gravidez, veio o interesse por saber mais sobre parto normal, fui lendo, me informando, olhando vídeos, pesquisando artigos médicos, e dentre muitos destes, conheci o Parto Natural Humanizado, e também soube da existência de um grupo, que abortava questões sobre o mesmo, onde fui participando das rodas de conversa durante toda gestação.
Bruna1Conheci uma mulher, que foi o meu ‘’abre-alas’’ para este mundo, Pri. Veio em minha casa, conversou comigo, me mostrou inúmeras informações importantíssimas, e também comentamos sobre Parto Domiciliar. Eu estava super contente, animada, e louca pra ter meu PD, mas logo, tive que desistir desse sonho, pois algumas intercorrências aconteceram no caminho, e ficou decidido que eu tentaria um Parto Humanizado Hospitalar (!!!), e junto comigo estaria presente minha doula Hanna (Ô mulher que eu amo.)
Bruna3Com 36 semanas, uma amiga que é doula, me mandou mensagem e me questionou como estavam os preparativos para o meu parto, falei que havia desistido, e ela me falou para conversar com a Equipe, e dar um jeito nisso, que eu não deveria, nem poderia desistir do meu sonho. (Obrigada Ju, por sempre estar sempre quando precisei, por todos os conselhos, dicas, e a força que sempre me transmitiu, gratidão pela sua amizade). Então, seguindo o conselho dela, fui atrás, e tudo se ajeitou para prosseguir com o plano inicial do Parto Domiciliar Humanizado. Que felicidade, eu estava no meu caminho, me sentindo poderosa, e sabia que Deus iria abençoar minha escolha, e o que me restava era arrumar os preparativos e esperar a hora da minha princesa.
Bruna4Que ansiedade, os dias passavam rápido demais, e nada da Valentina vir ao mundo, somente medo, incertezas, insegurança tomavam conta de mim. Não sabia o que estava acontecendo, logo eu que sempre fui centrada no meu objetivo, estava me desviando? E após inúmeras conversas com amigas super importantes pra mim, eu consegui me desligar, e deixar as coisas fluírem, meu corpo trabalhar. Afinal, como ouvi diversas vezes: ‘’Parto é entrega!’’.
Eu estava muito tranquila, os dias iam e vinham, e eu ali, só aguardando minha hora. Dia 01 de Janeiro, dormi até tarde, levantei, tomei café e meu marido me convidou pra irmos a casa de alguns parentes dele em Três Coroas, então fomos lá almoçar, e a tarde fomos a um Camping. Retornamos a Gramado, e a noite fomos para o Centro, jantamos, e caminhamos pelo Centro, curtindo a linda noite, estava seguindo minha vida, como se não estivesse grávida, totalmente desligada… Retornamos pra casa por volta da 00:30. Quando estava desligando a luz pra deitar na cama, senti algo diferente, senti algo na calcinha, fui ao banheiro, e então saiu ‘’aquela gosminha’’, abri um sorriso e pensei ‘’Será mesmo que é o tampão?’’, decidi acreditar que sim. Na mesma noite avisei a Rachel, que havia pedido para que qualquer sinal a contatasse. Na manhã seguinte levantei cedo, fui ao banheiro e novamente o tampão estava ali… Mas não me exaltei muito, pois sabia que o parto poderia demorar a acontecer.
Bruna7Estava conversando com minha mãe, e senti algo como uma leve cólica, como estava atenta pois o tampão havia saído, olhei no relógio (não custava nada ‘’cronometrar’’ né), eram 10:28, não avisei ninguém. 20 minutos depois, mais uma dorzinha, e assim foi a sequência, avisei a Hanna, que pediu para que eu cuidasse os intervalos, e se fossem regulares, avisasse a Rachel para vir. Após 9 contrações de 4 em 4 minutos, fui para o banho, se fossem Braxton, iriam passar, porém, não passaram, e então avisei minha mãe e liguei para Rachel, que estava atendendo outro parto, mas em seguida viria para minha casa, e Hanna já estava a caminho.
Hanna chegou em minha casa por volta de 12:30, fomos conversando, sentei na bola, e fui me exercitando, e a cada contração que vinha, ela me amparava… Almoçamos e fomos para a casa do meu Nonno, pois devido ao espaço maior, lá seria melhor para o parto. Ficamos Hanna, minha mãe e eu. Certo momento, ficamos sozinhas Hanna e eu, e ela me disse ‘’acredito que tu realmente esteja em trabalho de parto’’, indescritível o que senti nesse momento, pois até então nada parecia real…
Bruna8Pri chegou alguns minutos depois, e sua companhia era ótima, me fazia massagem, me dava palavras de carinho e conforto, colocando musiquinhas, e fazendo chazinho pro pós-parto (essencial! kkk). Avisei a Ana que era a fotógrafa, e ela logo viria. Então lembrei ‘’aé, tenho que avisar meu marido, rsrsrs’’. Liguei para o Tael, e disse para continuar trabalhando, e não se apressar para vir, porque demoraria um pouco (mal sabia eu que realmente demoraria)
Bruna9As 16:00 Rachel e Paula, chegaram, e junto chegou minha irmã. Então nessa hora, as contrações espaçaram, e diminuíram a intensidade. Entrei em desespero. Não sabia o que fazer, desacreditei, não confiei. Estava caindo por dentro, aquele sentimento de impotência. Pedi para conversar em particular com a Hanna, e compartilhei meu medo, chorei, chorei muito, e Hanna me dando forças, me fazendo criar coragem, e percebi então que só eu poderia mudar essa cena. Levantei da cama, e fui ao encontro do meu ‘’ser’’. As contrações engrenaram mais uma vez, e ali fui, levando, tomando chá, dançando, rebolando, me alimentando, tirando fotos no quintal de casa, e curtindo cada dorzinha, sendo cuidada por mulheres que até pouco eu não conhecia, mas que minh’alma sim, as conhecia.
Eram cerca de 22:00 e as contrações haviam espaçado novamente, e de novo, eu meio que desacreditei, pedi para fazer um exame de toque, para ver a quantas andava, e então veio a surpresa, 6cm . Uhuuuuu! Era verdade, eu realmente ia parir, meu corpo sabia o que estava fazendo. Parece que nesta hora tomei uma injeção de ânimo, e as contrações retornaram, mais doloridas, e mais fortes! Que delícia… Que delícia…
Jantei, e as contrações ali, sempre presentes, fortes, intensas, maravilhosas… Fui para o chuveiro, e Hanna foi comigo, e enquanto fiquei lá, ela também ficou, se molhou, mas esteve comigo, me dando todo apoio que eu precisava, lá as contrações dispararam, era uma dor difícil de descrever. Sempre me perguntavam que nota eu daria pra dor, e eu respondia que não sabia, pois não tinha noção de como seria depois… O sinal de sangue começou a vir enquanto eu estava no chuveiro, e as dores cada vez mais fortes, nessa hora pensei em desistir, então Hanna me disse que eu devia estar na transição. Eu pensei comigo ‘’Estou perto, cada vez mais perto, só mais um pouco e vou conhecer minha filha.’’ Fui em frente. Decidi entrar na piscina. E as contrações? NADA! Simplesmente desapareceram dentro da piscina, e eu ficava cada vez mais desesperada, sem saber o que fazer, pensando que eu era o problema. Eram 2 da manhã, e eu novamente pedi exame de toque, e para o meu espanto, não tinha completado nem 7cm. Confesso, que nessa hora, morri por dentro. 4 horas e nem 1cm a mais… Que sensação horrível.
Todos se retiraram da sala, e foram descansar, havia gente dormindo por toda casa, e comigo, só permaneceu Tael, que já havia chego a algumas horas, mas tinha ficado na minha casa até então. Deitamos na cama, e ali ficamos, conversamos um pouco, e ele me deu forças. As contrações voltaram, a cada uma que vinha, eu apertava sua mão, e ele me amparava… Tentei descansar, e dormir um pouco, até cochilei entre as contrações, mas estava difícil, pois estavam muito próximas (Tael dormiu, apodreceu, nem me via gritando, e detalhe que estava deitado do meu lado, hahaha)
Certa hora levantei, estava cansada, e sozinha, entrei na piscina. Pararam-se as dores. E fiquei refletindo… Ou eu ficava ali, e deixava tudo assim, ou saia e me mantinha ativa, para sentir as contrações e minha filha nascer. Minha mãe entrou no quarto, e eu pedi para chamar a Hanna, que deixou a decisão nas minhas mãos, tomei forças não sei de onde, e levantei, sai da piscina e tomei coragem, havia chego a hora de cumprir meu papel. Após 1 hora de contrações ritmadas e fortes, fui para o chuveiro novamente, fiquei um tempo lá, cantando junto com a Hanna, me embalando, quando saí, sentei no vaso, e pedi para Hanna apagar a luz, e ali fiquei, viajando nas contrações, junto estava Paula, que também me dava muito apoio. Fizemos rebozo, e as dores aumentando, e aumentando…
Num colchão que havia sido posto na sala de jantar, colocaram uma pilha de travesseiros, me escorei nela, e fiquei de quatro apoios… Estava quase cochilando, ouvindo ao fundo uma música baixinha da Isadora Canto, quando comecei a sentir a vinda de uma nova contração, fui levantar minha cabeça, e ouvi um barulho, como o encaixar de uma cabecinha (rsrs), e minha bolsa rompeu.

AS CERCA DE 2 HORAS E E 46 MINUTOS QUE SE PASSARAM DESDE ENTÃO, EU RECORDO COMO 15 MINUTOS. PERDÃO PELO POBRE RELATO A SEGUIR.

Lembro-me de inclinar rapidamente as costas e dizer ‘’minha bolsa estourou’’, Hanna levantou o cobertor e confirmou o fato, e ouvi alguém dizer ‘’agora vai ir rápido’’ (Há-há, Pegadinha da Valentina).
Sentei na banqueta de parto, e Hanna estava sentada atrás de mim, as contrações estavam muito doloridas, e eu gritava a cada uma, soltava toda minha força, e via de canto, minha mãe as lágrimas… Que sensação estranha…
De repente senti vontade fazer força, e avisei, mas estava com medo de não ter a dilatação completa, então Rachel realizou um breve exame, e disse que já estava nos 10cm. Ô sensação boa!!! A cada força que eu fazia, realizava em mim mesma um exame de toque, para sentir onde estava Valentina, sentia a cabecinha dela, cada vez mais próxima… De repente, senti o famoso ‘círculo de fogo’. Sensação inexplicável. Valentina estava ali, estava nascendo, eu mal podia acreditar. Eu gritava, urrava, e a cada puxo minha bebê estava mais perto. Nesta hora estavam presentes, Rachel, Paula, Hanna, Pri, Ana, Tael, minha mãe e minha irmã (que foi chamada assim que perceberam que o nascimento estava próximo).
Tael estava sentado do meu lado, com a mão esquerda eu segurava a sua, e com a direita segurava a da Hanna. ‘’Meu Deus, que dor!!! ‘’ eu pensava, e ao mesmo tempo lembrava que minha bebê estava nascendo. Cada força que fazia, sentia ela descendo cada vez mais. Foi quando após uma força gigantesca que fiz (não sei de onde sai tanta força), lembro de olhar pra minha barriga, e ver Valentina se mexer por completo dentro dela, e se empurrar… ela nunca havia se mexido daquela maneira, e então a cabecinha dela saiu, e como diz o Tael ‘’se a Rachel piscasse, não dava tempo de pegar a nenê’’. Ela saiu como uma flechinha, rápido e certeira no meu coração, amparada por Rachel, e veio num piscar de olhos para o meu colo.
Bruna5Não há como descrever a sensação de pegar ela pela primeira vez no colo. Lembro de seu corpinho quente, e escorregadio, e aquele cheirinho de vérnix, aquele cheirinho de ‘’minha cria’’. Nesse momento meu coração se encheu, se preencheu, se inundou, e transbordou de amor. Ver aqueles olhinhos abertos, olhando nos meus, aquele chorinho que parece que dizia ‘’mamãe, estou aqui, acalma teu coração’’. Ahhh, não existem palavras que descrevam esse momento. Hanna havia cedido lugar para o Tael sentar atrás de mim, e ali ficamos, aninhando nossa filha, olhando a perfeição divina que Deus nos mandou.
Bruna6Levantei com ela no colo, e deitei no colchão, ali de imediato ela fez a pega correta, e já saiu mamando (logo após nascer, como num reflexo, ela procurou o peito, quando ainda estávamos sentadas). Papai cortou seu cordão, após parar de pulsar. E ficou conversando com Valentina. Era a hora dos selfies com a mamãe e a mais nova menina da casa. Após algum tempo Luana vestiu Valentina, que permaneceu sem banho até o anoitecer.
A placenta dequitou cerca de 1 hora pós-parto, e as dores então cessaram por completo. Rachel e Paula me cuidaram até o momento que se fez necessário, e após isso, Valentina e eu fomos para o quarto, e ficamos lá, somente eu e ela, nos conhecendo, e iniciando nosso vida como mãe-filha.
Não existe como agradecer todas as pessoas que se fizeram presentes nesse dia comigo. Todas tiveram seu papel essencial nessa jornada que trilhamos. Um agradecimento especial a Hanna, pois sem ela, eu não teria conseguido. Amo você!!! Foram pouco mais de 20 horas, mas passaram como se fossem apenas alguns minutos, mas são e sempre serão os minutos mais importantes e inesquecíveis de minha vida. O MEU MUITO OBRIGADA A TODOS.

Valentina Rissi dos Santos, nasceu dia 03 de Janeiro, ás 6h46min, as 39 semanas e 5 dias de gestação, chegando junto com os primeiros raios de sol, para iluminar a minha vida!

Eu fiz o melhor pela minha filha e por mim. Eu realizei o que meu corpo foi projetado pra fazer. E agradeço ao meu Deus, que sempre ouviu as minhas preces, e as atendeu!

Nós provamos pra esse sistema de cesáreas desnecessárias que eu podia sim parir. Que jovenzinha, com 17 anos meu corpo sabe o que fazer, e que bebês sabem nascer. Que dilatação pode até demorar, mas ela acontece, e que meu corpo teve passagem sim, pra uma bebê de 3.470kg, 49cm e detalhe: períneo íntegro.

Fazer o que né, nasci assim…

A Diferentona da família
Índia Parideira
Ocitocinada
Terror dos ginecos fofinhos
Rainha das contrações
Empoderada desbravadora
Quebradora de paradigmas
Sambista na cara da sociedade

Agradeço imensamente a Ana Pacheco pelos lindos registros.

Palavra de 2016: GRATIDÃO!!!

Por Bruna Rissi

18 Jan 17:56

O Brasil que dá certo fica escondido, por Elio Gaspari

by João Paulo Caldeira

Categoria: 

Educação

Jornal GGN - Em sua coluna no jornal O Globo, Elio Gaspari destaca o bom desempenho de alunos na Olimpíada de Matemática, citando o caso das trigêmeas Loterio, moradoras da zona rural de Santa Leopoldina, no Espírito, que conseguiramos primeiros lugares na classificação de seu estado. Ele também fala sobre a ex-freira Lucy Maria Degli Espositi Pereira, de 27 anos, que voltou as estudos em Bom Jesus de Itabapoana (RJ) e conseguiu uma medalha de ouro duas vezes. Para Gaspari, a Olimpíada de Matemática é uma boa iniciativa que a cada ano surpreende o país com a "força do seu povo". Leia mais abaixo:

Do O Globo

 
Elio Gaspari
 
Os jovens que disputam a Olimpíada de Matemática continuam ensinando ao Brasil a força de sua gente. No ano passado soube-se da história das trigêmeas Loterio, de 15 anos, que viviam numa casa sem internet, a 21 quilômetros da escola, na zona rural de Santa Leopoldina (ES). Elas conseguiram os três primeiros lugares na classificação de seu estado. Matriculadas no ensino médio, voltaram à Olimpíada e conseguiram uma medalha de prata (Fabiele) e duas de bronze (Fábia e Fabíola). Esse era um caso de dedicação ajudado pelo estímulo de uma professora, Andréia Biasutti. Conseguiram isso num município assolado por roubalheiras de políticos e empresários.
 
Pouco depois soube-se do caso de Lucy Maria Degli Espositi Pereira, de 27 anos. Ex-freira, ela voltara ao colégio, em Bom Jesus do Itabapoana (RJ), e conseguiu uma medalha de ouro na Olimpíada de 2014. Em agosto, Lucy completou dois meses sem aulas porque uma greve de motoristas suspendera o transporte escolar. Para quem frequentava o curso noturno, pois durante o dia ajudava o pai em serviços de pedreiro, era um tiro na testa. Engano. Ela participou da prova de 2015 e repetiu o ouro. Se pararem de atrapalhar a vida de Lucy ela continuará trabalhando na construção civil, como engenheira.

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07 Jan 12:01

Quando as mulheres sentem seus partos antes de pedir ajuda

by Cláudia Rodrigues
Srjuliana

"O prazer de parir, a despeito de toda dor real, existe. O tempo de domínio do corpo feminino pelo mercado, pelas leis, pelos machismos particulares e institucionais está entrando em declínio. As mulheres estão tomando de volta as rédeas de seus próprios corpos.
Religiosamente o parto costuma ser mal visto, na arquitetura dos hospitais não costuma ser considerado, politicamente é manipulado, economicamente precisa render lucros. Tornou-se tão chato e inoportuno que a cesariana imperou e ainda esperneia para dar ao parto o espaço reconquistado por mulheres que estudam e praticam conhecimentos sobre parir e partejar".

Cláudia Rodrigues

Em narrativas mais antigas do que atuais, partos ocorriam em desesperos de última hora. Com a entrada da medicina na labuta das parteiras, restaram relatos, vídeos, livros e algumas práticas, mas a maior parte das parteiras brasileiras foi banida por vários e insistentes levantes da sociedade médica.
Eles nunca terminam, sempre se renovam, pela esquerda, pela direita e de todos os lados.

Parteiras acodem mulheres. Tradicionalmente viajavam de carroça, a cavalo, bicicleta ou a pé para a casa em que eram chamadas e lá permaneciam até algumas horas após o nascimento.
Antes da parteira chegar a mulher poderia contar com uma tia ou a mãe, irmãs, primas, pessoas que a ajudariam a lidar com as dores que costumam ocorrer várias horas antes do período expulsivo.

A fase mais dolorosa do parto e mais demorada não tem a ver com o costumeiramente breve período expulsivo. Ela pode ser vivida solitariamente quando a mulher se sente bem e apta para observar seu corpo, tomar para si o trajeto das sensações e conectá-los aos sentimentos, unir às razões e seguir em frente, até a hora de chamar a doula, para maior sossego. A parteira ou no caso da resolução de buscar o hospital, somente na fase em que a mulher vê uma real necessidade de ajuda, que ela sente que o bebê está por vir. Depois disso, em primeiros filhos principalmente, costuma demorar ainda algum tempo.

A ajuda com hospital também é muito fácil hoje. Se uma mulher sente uma dor insuportável tal que só se sentirá salva no hospital, então ela deve ir sempre que sentir isso porque lá encontrará seu alívio. O hospital pode ser um lugar acolhedor para muitas pessoas e isso deve ser respeitado. Para assistência ou assistidos. Não há nada de ruim, menor ou negativo nisso ou há, como há em todo lugar, em todo ofício.

O lado bom de sentir a dor do parto é como o lado bom de qualquer dor. Amparo ou recolhimento. Quando estamos com dor gostamos de tentar recuperar nossas capacidades. Até gatos e cachorros, animais silvestres, com dor, diminuem o ritmo, respiram o melhor possível, bebem água, buscam saídas.
Com dor também podemos gostar de pedir massagem para alguém em quem confiamos e assim pode ser no parto, chamar alguém para nos acalmar e distrair durante as dores do trabalho de parto.

Vale o que cada pessoa sente e como transforma isso em atitudes corporais. Muitas pessoas preferem ficar sozinhas quando têm dor e escolhem descansar, perceberem melhor suas tensões e liberarem-se delas. Isso está bem também. Para o parto especificamente esse olhar para o corpo e o ritmo que vai tomando, o desafio de se auto-companhar com responsabilidade e deixar-se levar pelo avanço das sensações pode ser algo bom, desse tipo de prazer corporal; vencer limites internos é o que muda, é o vórtice real do momento em que estamos a respeito do parto.

O prazer de parir, a despeito de toda dor real, existe. O tempo de domínio do corpo feminino pelo mercado, pelas leis, pelos machismos particulares e institucionais está entrando em declínio. As mulheres estão tomando de volta as rédeas de seus próprios corpos.
Religiosamente o parto costuma ser mal visto, na arquitetura dos hospitais não costuma ser considerado, politicamente é manipulado, economicamente precisa render lucros. Tornou-se tão chato e inoportuno que a cesariana imperou e ainda esperneia para dar ao parto o espaço reconquistado por mulheres que estudam e praticam conhecimentos sobre parir e partejar.

Elas são muitas: enfermeiras, parteiras, obstetras, médicas de outras especialidades iniciais mas que voltaram-se para os estudos da obstetrícia. Parteiras são essas mulheres que aparam bebês, auscultam, verificam a posição, eventualmente fazem manobras para facilitar o parto.

Doulas são mulheres aprendizes de parteiras, que servem às parteiras, fazem as vezes de primas e tias de antigamente, que acolhiam a mulher enquanto a parteira não chegava. Essas simpatizantes do parto vêm de todas as formações, mas há entre elas muitas psicólogas, pedagogas, professoras de Yoga, terapeutas corporais, fisioterapeutas, biólogas que acabam aprofundando tanto estudos acadêmicos, quanto xamânicos, com parteiras tradicionais. Elas prestam um serviço qualificado que facilita o trabalho da parteira. Um parto natural, espontâneo, não deixa cicatrizes, nenhuma dor. Após o parto a mulher sente o útero contrair a cada mamada, mas está apta para banhar-se, caminhar normalmente, ereta, sem qualquer tipo de dor. A dor do parto acaba no parto.

No esquema dos hospitais, o trabalho de parto é acompanhado por técnicas de enfermagem ou enfermeiras e o médico é chamado um pouco antes do período expulsivo. O atendimento costuma ser mais controlado, a mulher é incitada a não reclamar, não chorar, não gemer e não se mover livremente. Se ela reclamar muito da dor pode receber uma analgesia, nem sempre inócua ao bebê, se demorar muito pode receber ocitocina sintética, o que acelera as contrações e aumenta a dor, mas promete abreviar o tempo do parto. Nem sempre dá certo. Muitos partos induzidos se transformam em cesarianas.

As cesarianas só precisam de agendamento. A maior parte não é de emergência e no Brasil ainda é comum o agendamento da cirurgia sem qualquer sinal de trabalho de parto. Durante a hospitalização e a cirurgia, a mulher não sente nada, a anestesia impede.
As dores de quem passa pela cirurgia começam após o parto e duram por 7 a 10 dias, o mesmo período em que os seios passam pelo processo de transformar colostro em produção maior de leite.

Há mulheres que por infinitos motivos, como traumas não acessados, detestam a ideia de parir, mas mesmo elas podem se beneficiar com as primeiras horas de trabalho de parto. Não há mal algum em esperar o dia do parto para pedir uma cesariana, mas esperar que o dia ocorra é um respeito responsável com a vida do bebê porque é algo interno importante para ele. Os hormônios que fluem durante o trabalho de parto ajudam a desencadear os hormônios ligados à amamentação. É preventivo para nascimentos de prematuros e complicações cardiorrespiratórias.

06 Jan 19:26

Pseudociência, preconceito e a falácia do "parto animalizado"

by Melania Amorim


No dia 31 de dezembro de 2015 foi divulgado na Internet o texto de um autor que até então eu desconhecia se propondo a falar sobre "parto animalizado". Segundo o autor, para quem pode ter estranhado o termo tão inusitado (e ofensivo), ele o fez porque se nega a chamar de "humanizado" o que ele descreve como "um parto que abre mão de tudo que a Humanidade desenvolveu para segurança da mãe e do bebê, voltando ao mesmo primitivismo de animais e povos selvagens."

Eu não dedicaria um minuto de meu precioso tempo para criticar uma postagem tão absurda, não fosse ter observado celebração e festa em certos grupelhos das redes sociais em resposta ao famigerado texto, alojado em um site deveras estranho que, pelo que entendi, se propõe a reunir autores para comentar diversos temas sob o "viés de direita" (eu ainda acho muito esquisita essa associação que se estabeleceu aqui no Brasil de parto normal/natural com esquerda e cesariana com direita, mas voltarei a esse ponto em outros posts deste blog, porque é outra viagem dos que se dizem expoentes da direita em nosso país). 

E, no final das contas, não é deixando de falar dos problemas que eles deixam de existir, então como o texto reproduz muitas ideias preconceituosas e descabidas circulando na Internet e vem sendo compartilhado até por médicos (!), cumpre elucidar alguns pontos que me parecem bastante problemáticos.

Primeiro, fiquei bastante surpresa ao descobrir que o autor é um médico neurologista. Não que eu negue o direito de um médico neurologista falar sobre parto, se o foco for, por exemplo, doenças neurológicas e parto, complicações neurológicas do parto (por sinal, uma viagem, porque paralisia cerebral NÃO tem a ver com parto vaginal, mas isso é outro tópico sobre o qual também tenho falado muito e não cabe aqui). 

Mas o "dotô" (sem doutorado) médico neurologista, NÃO está falando sobre nada vinculado a Neurologia e Parto e, até onde eu sei,  é um homem cis, cuja única relação com "parto" é um dia ter nascido (mas não sei como foi esse nascimento). Ou seja: não tem lugar de fala, nem é profissional diretamente envolvido na assistência ao parto e nunca pariu. 

Lógico que não precisa ser médico obstetra para falar sobre parto: as mulheres, todas as pessoas com útero, as doulas, os profissionais de saúde, as ativistas pela Humanização da Assistência ao Parto, toda essa gente que PODE PARIR e aqueles que são envolvidos com parto podem e devem falar sobre parto. Um homem médico neurologista, NÃO.

Também chama a atenção que para falar sobre parto um médico não use as ferramentas da Medicina Baseada em Evidências (MBE), recorra a concepções equivocadas caracterizando uma pseudociência arrogante e inverídica e não se dê ao trabalho de pesquisar minimamente sobre o tema em bancos de dados sérios, com os descritores adequados. Eu não vivo falando sobre o que desconheço baseada tão somente na minha pretensa autoridade como médica e "detentora do saber", embora como epidemiologista e metodóloga vez por outra faça reflexões críticas sobre novas descobertas médicas ou antigos questionamentos que continuam presentes, fora da ginecologia e obstetrícia, como rastreamento de câncer, epidemia de dengue e zika vírus, o porquê de a fosfoetanolamina não ser a nova panaceia para curar o câncer, enfim... Eu penso, reflito e publico sobre outras áreas que não a "minha", mas sempre considerando as evidências científicas no cuidado à saúde das pessoas.

Usar de arrogância, preconceito, desprezo e se basear em buscas de perfis de Facebook para falar sobre "parto animalizado" é muito triste. Não que eu não tenha críticas ao termo "parto humanizado", todas sabemos que dentro do próprio movimento há várias críticas e esse descritor ou MESH (Medical Subject Headings) nem existe em português ou inglês. Mas eu não sei ainda qual é o melhor nome e se vai surgir esse melhor nome, então por enquanto estou falando do que chamo de "humanização da assistência ao parto", porque o parto, obviamente, em nossa espécie, sempre é um evento humano, e o que se pretende fazer é humanizar a assistência. Isso vem ao encontro da proposta de humanização da assistência à saúde, como um todo.

E o que é humanizar a assistência ao parto? Como temos explicado há anos, a humanização da assistência ao parto consiste na integração harmoniosa e simétrica de três pontos fundamentais: a visão do parto como evento biopsicossocial e espiritual (não como ato médico) que deve ter assistência transdisciplinar, centrada na mulher, que retoma o seu protagonismo, ou seja, a sua autonomia sobre o parto, além de uma SÓLIDA VINCULAÇÃO com a Medicina Baseada em Evidências (Amorim, 2012).

Não se trata, portanto, de um retrocesso ou de negar os avanços da Ciência, mas sim de incorporá-los. Não que Medicina seja ciência, todos que estudamos filosofia da ciência sabemos bem disso, mas a prática médica deve se respaldar nas melhores evidências científicas correntemente disponíveis. Causa espécie ver um cidadão assumir publicamente o status de dono de uma visão equivocada da ciência, uma pseudociência, para destilar ódio e preconceito.

Isso eu, que também estudei seis anos de Medicina (o famoso argumento de poder) e percorri todo o caminho que a pessoa com CRM em questão afirma ser tão longo e sofrido, e que no meu caso incluiu, além da residência médica, mestrado, doutorado e alguns estágios pós-doutorado, não posso admitir. Até porque eu felizmente não estraguei a minha vida com a Medicina, entrei na Medicina por vocação e com alegria, seguindo o exemplo de meu Pai, com uma sensibilidade social muito grande. 

Quando a gente ama o que faz, há toda uma diferença: inclusive larguei o consultório para me dedicar ao SUS há seis anos, não sou picareta, não publico livros defendendo o parto domiciliar para ganhar dinheiro e quando publico artigos e postagens neste blog estou sempre indicando as referências, sou conscienciosa e não tenho conflito de interesse, não no sentido de estar à busca de auferir lucros com o movimento de humanização de assistência ao parto. 

Apenas declaro, por dever de consciência, que sou feminista e pesquisadora de questões de gênero, para que se entenda que sempre vou defender, além das evidências, a questão da autonomia feminina. Autonomia essa que é a tradução para a Medicina e a Bioética do que nós, mulheres, chamamos de "meu corpo, minhas regras", ou "PROTAGONISMO" do parto. 

Aliás, esse é um dos pressupostos da Medicina Baseada em Evidências, quando se fala que a prática de MBE "consiste na integração das melhores evidências científicas correntemente disponíveis com a experiência clínica individual E as características e expectativas de pacientes". Ou seja, não há uma contradição! Não se pode conceber que nós, médicos, continuemos nos arrogando na atualidade todos os privilégios de donos do saber, tomando decisões pelos pacientes sem considerar sua autonomia. Essa não é uma invenção comunista (esse povo obcecado vê comunismo em tudo), está contemplada pelo nosso próprio Código de Ética Médica.

Mas voltando ao texto, além de sair recortando falas e situações de um relato de parto divulgado no Facebook, o autor faz afirmações estapafúrdias sobre parto "assistido" por doulas, mecônio e episiotomia. Ele diz que o corretor ia trocando doulas por "doidas" e quase ele deixava, uma vez que doulas jamais iriam substituir a nós, médicos, que estudamos 1.456 anos para isso. Incorre no frequente erro, que aliás muitos médicos, por desconhecimento ou desonestidade cometem, de achar que doulas assistem partos, o que não é verdade. 

Como todas sabemos, doulas não são profissionais de saúde: são mulheres não ligadas à assistência, encarregadas de prestar apoio contínuo intraparto, elas não fazem nenhum procedimento médico ou de enfermagem, e claro que não irão nos substituir nunca, bem como não irão substituir enfermeiras-obstetras ou obstetrizes, seu trabalho é complementar acompanhando a mulher, e já foi demonstrado na revisão sistemática da Biblioteca Cochrane recentemente atualizada (2013) incluindo 22 ensaios clínicos randomizados e 15.288 mulheres que a presença de doulas prestando apoio contínuo durante o trabalho de parto reduz as taxas de cesariana, de parto instrumental, aumenta a chance de parto espontâneo, melhora os escores de Apgar no quinto minuto, reduz a necessidade de analgesia e aumenta a satisfação com a experiência do parto. 

Remetemos à afirmação de Kennel de que "se doula fosse um medicamento seria antiético não prescrever". Na época em que tentaram proibir a presença de doulas em algumas cidades do Brasil, como no Rio de Janeiro, em 2012 (o que ainda acontece, pasmem), nós lançamos nas redes sociais a campanha "Eu tive uma doula e foi tudo de bom".


Eu recebendo apoio contínuo intraparto


Eu tive uma doula e foi tudo de bom

Há uma certa confusão entre doulas e parteiras formadas, que aqui em nosso país podem ser as enfermeiras-obstetras e as obstetrizes, que fazem o curso superior de Obstetrícia. Essas últimas equivalem às midwives, em inglês, ou sage-femmes, em francês. Ambas são profissionais qualificadas para prestar assistência ao parto, conforme recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS). Elas não são doulas! Prestam assistência ao pré-natal, parto e puerpério de baixo risco (ou risco habitual), podendo trabalhar em domicílio, em casas de parto, centros de parto normal ou dentro de hospitais. 

Há várias vantagens em um modelo em que gestantes, parturientes e puérperas de baixo risco são atendidas por enfermeiras-obstetras ou obstetrizes, especialmente as últimas, formadas dentro de um paradigma mais fisiológico de assistência ao parto. O atual modelo brasileiro, no qual 92% dos partos são assistidos por médicos e é, portanto, medicalocêntrico e hospitalocêntrico, acaba sendo iatrocêntrico, ou seja, gera iatrogenias, como o excesso de cesarianas, de procedimentos desnecessários e de intervenções que são combatidas pelo movimento de humanização da assistência ao parto. 

Na pesquisa Nascer no Brasil (2014), documentou-se taxa de cesariana de 54% e de episiotomia de 54%, além de muitas situações em que se pode caracterizar violência obstétrica. De fato, a pesquisa da Fundação Perseu Abramo em 2010 já tinha demonstrado que uma em cada quatro brasileiras se percebeu vítima de violência obstétrica e é desse modelo tecnocrático, abusivo e que falha em produzir desfechos maternos e perinatais de excelência que muitas mulheres querem fugir quando fazem escolha por outros tipos de parto, quando procuram enfermeiras-obstetras ou obstetrizes e reclamam o direito à assistência humanizada ao parto.

A revisão sistemática da Biblioteca Cochrane sobre o modelo de assistência por midwives foi atualizada em 2015 e incorpora 15 ensaios clínicos randomizados (ECR) e 15.674 mulheres. Mulheres assistidas por midwives tiveram menor risco de analgesia regional, amniotomia, episiotomia, parto instrumental, parto prematuro, perda fetal/neonatal antes de 24 semanas e morte fetal/neonatal, com maior chance de ter parto vaginal espontâneo e ser atendida por uma midwife conhecida, sem riscos maternos ou perinatais associados. A revisão conclui que modelos de atenção continuada por midwives deveria ser oferecida para a maioria das mulheres.

A segunda afirmação falaciosa diz respeito à presença de mecônio, que o autor categoricamente afirma que sempre indica sofrimento fetal e ainda ironiza os comentários das mulheres quando disseram que “a presença de mecônio é diferente da síndrome de aspiração de mecônio" (o que é pura verdade, porque pode haver mecônio, muito frequentemente, sem síndrome de aspiração meconial - SAM). 

Mecônio isoladamente NÃO indica sofrimento fetal, vai se tornando cada vez mais frequente quando as gestações ultrapassam 40 semanas e na maioria das vezes é um achado fisiológico, como eu tenho explicado em linguagem acessível em diversos blogs. Cerca de 10% das gestações de baixo risco irão apresentar mecônio no líquido amniótico e embora mecônio possa estar relacionado com desfechos perinatais adversos, podendo indicar infecção intrauterina ou hipóxia, há vários casos decorrentes da maturidade intestinal fetal, de forma que mecônio no líquido amniótico isoladamente não é indicação de cesariana, sendo possível o parto normal com monitorização cuidadosa da frequência cardíaca fetal. Para maiores detalhes eu sugiro ler o excelente capítulo do Uptodate sobre prevenção da síndrome de aspiração meconial (até onde eu sei, nunca foi acusado de ser um site comunista).

Terceiro, o autor realmente está defasado anos-luz em relação à episiotomia, talvez porque esteja se remetendo ao que aprendeu na Faculdade de Medicina, e infelizmente nós temos ainda poucos cursos de Medicina em nosso país nos quais se pratica e ensina medicina baseada em evidências. Poucos, mas muito bons. De qualquer forma, como as evidências estão em constante atualização, é relativamente comum, como diria Raul Seixas, que a gente precise desdizer agora tudo que se disse antes. Mas é tão fácil achar as evidências! 


Procura aqui na Biblioteca Cochrane!

Vejamos o que escreve o Cujo do "parto animalizado" sobre episiotomia: "A episiotomia é um procedimento que visa evitar uma complicação do parto normal, que é a rotura do tecido que separa a vagina do ânus. Essa rotura leva a um problema seríssimo, que requer correção cirúrgica e que afeta bastante a autoestima da mulher. Para evitar isso, o médico faz um corte na parede lateral da vagina. Se a cabeça do bebê forçar algum rompimento, será para esse lado, o que será corrigido logo após o parto (o que não será possível se a rotura for em direção ao ânus).

Eu fico sinceramente consternada que alguém ainda pense assim em 2015, uma vez que a primeira revisão sobre episiotomia na literatura ocidental foi publicada em 1983 por Thacker e Banta, o primeiro ensaio clínico randomizado em 1984 (West Berkshire Trial) e desde então muitos outros estudos vieram à luz e foram sumariados na revisão sistemática da Biblioteca Cochrane, publicada originalmente em 2000, última versão em 2009. A revisão sistemática da Biblioteca Cochrane inclui atualmente oito estudos e 5541 mulheres comparando episiotomia de rotina com episiotomia restritiva e seus resultados apontam os diversos benefícios da prática restritiva: menor perda sanguínea, menor risco de trauma perineal grave (lacerações de terceiro e quarto grau) e menor chance de complicações de sutura. 

Em diversos outros posts deste blog temos abordado esse assunto e está absolutamente comprovado que NÃO se deve fazer episiotomia de rotina, sendo as atuais recomendações da OMS taxas de no máximo 10% de episiotomia. O que se discute, isso sim, é se existe qualquer uma indicação de episiotomia na Obstetrícia moderna, e vários autores,  não somente eu, achamos que não, e estamos publicando nossas casuísticas. Como todos sabem, agora em breve eu completarei 14 anos sem realizar uma única episiotomia, porque não acho necessário. Porque as mulheres não querem. Porque o desfecho que NÓS prezamos é ter integridade perineal, não no sentido de que SEMPRE o períneo irá ficar/deve ficar íntegro, mas integridade de gênero no sentido político, de não termos nossos corpos cortados para o processo do nascimento, na maioria das vezes fisiológico. 

Isso não se trata de achismo, tanto é que estamos publicando a respeito, tanto séries de casos sem episiotomia como um ensaio clínico randomizado comparando nunca se fazer episiotomia com o uso restritivo de episiotomia. Os resultados foram já apresentados nos congressos não do Foro de São Paulo, mas do Colégio Americano de Ginecologia e Obstetrícia (ACOG) de 2014, organização que eu creio em sã consciência ninguém vai acusar de socialista ou comunista, podendo ser acessado no Green Journal (Obstetrics and Gynecology), a revista verde. 

Há diversos outros estudos bem conduzidos já publicados demonstrando factibilidade e bons resultados de partos sem episiotomia. E vamos combinar, a única chance de uma mulher ter um períneo íntegro (em nosso estudo 60%) é se não tiver uma episiotomia, uma vez que TODA episiotomia é uma laceração de segundo grau, necessariamente vai cortar pele, mucosa e camada muscular.  E são bem diferentes as lacerações que fazem parte da história natural do parto, as lacerações ESPONTÂNEAS, de mais fácil reparo e melhor evolução, que muitas vezes nem requerem sutura.


Nossos resultados em 2015

Fora isso, eu lamento muito qualquer comentário pejorativo e gordofóbico sobre o peso das parturientes, bem como a falta de reconhecimento do direito reprodutivo básico que toda mulher tem, de decidir como, onde e com quem terá o seu parto. Desde que ela seja de baixo risco, as evidências de boa qualidade, só para citar os estudos mais recentes, apontam para a segurança do parto domiciliar quando esse é integrado dentro do sistema de saúde, como ocorre na Holanda e no Canadá. Não podemos admitir que achismos e preconceitos vistam a máscara da Ciência, porque de científico o texto em tela não tem nada. Só intolerância, preconceito e argumento de poder.  

Melania Amorim, MD, PhD
Médica Ginecologista e Obstetra
Professora de Ginecologia e Obstetrícia da UFCG
Professora da Pós-Graduação em Saúde Materno-Infantil do IMIP
Pós-doutorado em Tocoginecologia na Unicamp e em Saúde Reprodutiva na OMS
Bolsista de Produtividade em Pesquisa do  CNPq
Link Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4701186A6


P.S.: depois que publiquei o presente texto, muita gente da Academia me ligou ou escreveu para parabenizar pelo que escrevi, mas houve quem estranhasse tantas referências ao comunismo. Devo explicar: quem participa das redes sociais sabe bem que uma das acusações que nos fazem, a nós que defendemos o parto normal, é que somos "comunistas". Ou de participar de uma conspiração comunista-gayzista-abortista para dominar o mundo. Sério. Chegou a esse ponto. Um fantasma percorre as redes sociais, como diria Karl Marx...

P.S.2.: tenho uma séria aversão à seção de comentários das revistas, onde sob o pretexto da liberdade de opressão, ooops, de expressão, as pessoas se sentem livres para destilar ódio, preconceito e apresentar ao mundo o pior de si, ofendendo, caluniando e agredindo umas às outras. Por esse motivo, para quem não sabe, eu modero os comentários aqui neste blog.

P.S.3.: normalmente eu não saio por aí exibindo minhas credenciais acadêmicas nem assinando os meus posts com os meus títulos, mas sabem como é, quando você vê a arrogância com que algumas pessoas agridem as mulheres usando os típicos argumentos de poder, além de desconstruir essa fala precisa mostrar que sim, VOCÊ ESTUDOU PARA ISSO!














































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06 Jan 19:19

Ela transformou a doença em vida

by Kalu Brum

  Juliana descobriu que tinha Esclerose Múltipla e pensou que nunca poderia ser mãe. Além de uma gestação maravilhosa teve um parto natural na água, sem lacerações, depois de 36 horas de Bolsa Rota. por: Juliana Tristão, 33 anos, professora e mãe da Lara que nasceu no dia 05 de dezembro de 2015 em um parto...

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03 Jan 19:00

50 fotos de mulheres que sacudiram a história do mundo

by Lourdes Nassif

Categoria: 

Fotografia

mulheres que ajudaram a mudar a história do mundo (9)

do Ideiafixa

50 fotos de mulheres que sacudiram a história do mundo

Por Damaris de Angelo

Como resultado da realidade machista, predominante em culturas ao redor do mundo, podemos dizer perdemos metade da história da humanidade por simplesmente ignorarem a participação das mulheres nela.

Apesar de muitos relatos terem ficado para trás, abandonados, sabemos que elas não ficaram em casa, simplesmente, enquanto o mundo tomava forma.

Como prova, abaixo você verá alguns dos poucos registros da participação da mulher no desenvolvimento do mundo como sociedade e economia.

 

mulheres que ajudaram a mudar a história do mundo (1)
01. Jeanne Manford marcha com seu filho gay durante uma parada do orgulho LGBT em 1972.

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01 Jan 12:44

Escola pública no Quênia é modelo de superação contra sistema de ensino falho. Por Fernanda Kiehl

by Camila Nogueira
Alunos do colégio público Kyamulendu, no Quênia

Alunos do colégio público Kyamulendu, no Quênia

No tempo em que morou no Quênia, a jornalista Fernanda Kiehl (responsável pelo site Monday Feelings) entrou em contato com uma escola em Tala, no interior do país, que, trabalhando principalmente com medidas que envolvem sustentabilidade, empoderamento dos alunos e conscientização das famílias, conseguiu superar as adversidades impostas por um sistema de ensino falho. Sendo o sistema de ensino queniano semelhante ao brasileiro, muitas das mudanças adotadas na escola poderiam facilmente ser reproduzidas no Brasil. As fotos abaixo foram tiradas pelo marido da jornalista, Tiago Ferraro.

O sistema de ensino público queniano apresenta tantas falhas que fica difícil apontar os principais problemas. Com baixos salários a professores – um profissional em início de carreira recebe 16.692 shillings quenianos, equivalente a cerca de 522 reais – e um investimento governamental irrisório nas instalações e materiais para lecionar, as escolas são obrigadas a repassar custos básicos para que as famílias paguem, como por exemplo, a manutenção das carteiras, eletricidade e comida. Ou seja, o colégio público cobra mensalidade e o que era para ser gratuito acaba saindo caro.

O pai de um aluno no ensino primário público no Condado de Machakos – uma das áreas que apresenta maior crescimento econômico no Quênia, com população de 1 milhão de habitantes – tem de pagar em média 2.500 shillings quenianos (79 reais) para ingressar em uma escola pela primeira vez. A quantia é referente ao registro, custo dos livros, exames, sem contar em outras taxas durante o ano. O valor pode parecer baixo, mas se considerar o salário mínimo local, em torno de 5.000 shillings quenianos (158 reais), e o índice de pobreza que atinge 42% da população, percebe-se o porquê de muitas crianças estarem fora das escolas. Segundo dados de uma pesquisa feita pela Unicef em 2012, 85% dos jovens quenianos estão no ensino primário e o número cai para 75% quando se trata do ensino médio. Os privilegiados em frequentar as salas de aula enfrentam diversas dificuldades, como instalações decadentes, falta de material, professores despreparados e desmotivados, salas superlotadas, sem contar a falta de incentivo da própria família.

O governo não recomenda a reprovação de estudantes e é normal encontrar jovens de 13 anos no standard 5 (equivalente a 5ª série no Brasil) analfabetos. Um estudo conduzido em 2009 pela Uwezo Kenya, uma iniciativa que trabalha para melhorar a qualidade do ensino no leste africano, mostrou que 23% das crianças de 5ª série em áreas rurais do Quênia não sabem ler. Muitos desses alunos estão fadados ao fracasso. Isso porque quando ingressam no standard 8 (equivalente a 9ª série) todos são obrigados a prestar o KCPE, Certificado Queniano de Educação Primária em tradução livre, um exame que irá qualificá-los ou excluí-los do ensino médio. Por conta deste e de outros testes durante a vida acadêmica, o ensino queniano é muito focado no desempenho em provas e notas, deixando diferentes talentos, que poderiam ser trabalhados em atividades paralelas, fora da grade escolar.

Diante de tantas dificuldades, o colégio público Kyamulendu, localizado em Tala, cidade a 56 km da capital queniana Nairóbi e que faz parte do Condado de Machakos, parece ter descoberto uma fórmula para contornar as adversidades. Com medidas inovadoras que envolvem união, sustentabilidade, empoderamento dos alunos e conscientização das famílias, está transformando toda uma geração.

Há dois anos, Winfred Mbinya Sila, de 48 anos, assumiu o cargo de diretora de Kyamulendu. Winie, como é conhecida na região, passou seus primeiros meses observando o comportamento de alunos e professores para perceber uma desmotivação generalizada. Como primeira medida na nova posição, realocou os professores que já davam aula há muito tempo aos alunos das primeira, segunda e terceira séries para salas mais avançadas. “As primeiras séries são a base da escola. É importante que tenhamos pessoas com energia, paciência e compreensão para lidar com crianças que estão ingressando numa escola pela primeira vez na vida”, explica Winie. “Tentei mudar os professores com mais tempo de casa para as salas 5, 6, 7 ou 8, porque esses alunos já estão mais acostumados ao ritmo acadêmico. Evitei a 4ª série também, por se tratar de um ano chave na evolução das crianças, um período em que elas passam por grande transformação”.

Os professores e funcionários da escola

Os professores e funcionários da escola

Winie também empenhou-se em aproximar-se de seus funcionários e tentar motivá-los. Ela descobriu que muitos de seus professores tinham segundo emprego e chegavam ao colégio esgotados. Foi assim que teve a ideia de reunir-se com familiares dos alunos para propor que cada estudante pagasse uma taxa de motivação mensal no valor de 100 shillings quenianos (3,50 reais), esse dinheiro seria repassado integralmente ao lecionador, que poderia então se dedicar por inteiro à atividade acadêmica.

Em geral, as aulas no Quênia começam às 8 da manhã e terminam entre 3 e 5 da tarde. O governo não subsidia a comida e muitos alunos passam o dia de estômago vazio. Professores e pais se organizaram para eles mesmos trazerem ingredientes de casa e as refeições serem preparados para todos na escola. “Cada um traz o que pode e os pais que não têm condições de arcar com esse custo são absorvidos por outros que trazem um pouco a mais. Dessa forma, tanto pais quanto alunos se sentem queridos e amados. Muitos alunos, inclusive, começaram a vir pela comida, já que não têm em casa”, conta Winie.

"Professores e pais se organizaram para eles mesmos trazerem ingredientes de casa e as refeições serem preparados para todos na escola. “Cada um traz o que pode e os pais que não têm condições de arcar com esse custo são absorvidos por outros que trazem um pouco a mais".

“Professores e pais se organizaram para eles mesmos trazerem ingredientes de casa e as refeições serem preparados para todos na escola. “Cada um traz o que pode e os pais que não têm condições de arcar com esse custo são absorvidos por outros que trazem um pouco a mais”.

A intenção da diretora desde o início era fazer com que todos apreciassem e se sentissem parte da escola, para que trabalhassem juntos para um mesmo objetivo. E foi assim que resolveu que seu próximo passo seria transformar o espaço em um ambiente mais acolhedor, atraente e sustentável. Colocou em prática o Educational for Sustainable Development (Educação para o Desenvolvimento Sustentável), técnica que aprendeu durante um mês de curso em Israel. “Visitar Israel foi muito impactante para mim e um ponto crucial na minha carreira. Me fez pensar: que tipo de educação estamos dando às nossas crianças? O ensino no Quênia é muito voltado às notas… Eu não quero educação para o papel, eu quero educação para a vida.” Winie plantou flores pelo local, pintou as paredes com temas educativos e frases positivas e desenvolveu uma grande horta onde antes havia um terreno em desuso. Em Tala, praticamente todas as famílias sobrevivem da agricultura familiar e não foi difícil convencer as pessoas a embarcar no projeto. Inclusive Sila, seu marido e agrônomo, doou 150 mudas de banana.

A horta se tornou parte da grade escolar e responsabilidade integral dos alunos, que cavaram os buracos, adubaram e plantaram. “Nós queríamos que eles se sentissem precursores da mudança. Colocamos os nomes de cada aluno envolvido em uma muda e eles se encarregaram de regar todos os dias sua planta. Após oito meses, começou a dar frutos e isso teve um impacto muito positivo. Eles não podiam acreditar que a bananeira tinha crescido! Os alunos não faltavam mais à escola, porque queriam ver o progresso!”, se empolga Monica Mussioka, professora de ciências.

A horta, cuidada pelos próprios alunos

A horta, pela qual os próprios alunos são responsáveis

O colégio entrou em contato com o Giraffe Centre, uma organização que protege animais em extinção e promove a educação através de práticas sustentáveis, para contar sobre o sucesso do projeto. O pessoal do centro foi visitá-los, gostou do que viu e ao final firmou uma parceria com Kyamulendu: doaram mudas de diversas plantas, mais 70.000 shillings (2.200 reais) e promoveram um ecotour para 48 estudantes e professores. “Elegemos para a excursão os responsáveis pela horta e os melhores alunos de cada sala, afinal não podemos desvalorizar a educação”, diz Winie.

Todo o dinheiro doado foi investido na horta e a dedicação de todos só aumentou. “Acredita que eu tinha que ir buscar os alunos em casa de carro, porque eles estavam coletando tanto esterco nas ruas para utilizarmos como adubo que não aguentavam trazer a pé?!”, ri ela.

Durante o ecotour, viram pela primeira vez uma máquina que transforma lixo orgânico em carvão e, ao retornarem do passeio, conseguiram construir de forma rústica o aparato. Mais uma vez, são os alunos os responsáveis pela aplicação e manejo do maquinário e as técnicas aprendidas na escola são reproduzidas em casa, aumentando a produtividade e a renda familiar.

As bananas, abóboras, abacates, ararutas, entre outros, além do carvão, são utilizados na escola ou vendidos no mercado central e o dinheiro mantido pelos tesoureiros da escola. Kyamulendu possui prefeitos de classe, ministro da agricultura, tesoureiros, responsáveis pela horta e etc; são todos alunos votados pelos próprios alunos. “Eles se conhecem melhor do que nós, nada mais justo do que votarem em seus representantes. Eles respeitam seus líderes porque foram eles que escolheram”, explica Winie. “Nós os auxiliamos, mas são eles quem decidem em que será investido o dinheiro, afinal de contas, a plantação é deles”.

No momento, o dinheiro é utilizado para organizar excursões, pagar as taxas de alunos que estão passando por dificuldades financeiras e, mais recentemente, na construção de uma instalação para secar bananas. Já que todos na região fornecem a fruta, os professores tiveram uma ideia para transformar um produto de alta oferta em algo diferenciado. “Queremos ensinar os alunos a ter uma mentalidade inovadora e a pensar como empreendedores. Em pouco tempo poderemos vender farinha e crisp de banana a um preço mais alto”, conta Winie. Pouco a pouco, ou pole pole, como falam na língua nacional, o swahili, o projeto vai se tornando mais sustentável e viável.

Ainda assim, a diretora tinha de lidar com estudantes desmotivados em razão de problemas em casa: “As famílias daqui fazem empréstimo no banco e, sem nenhum tipo de consultoria administrativa, acabam tendo seus pertences levados por falta de pagamento. Eu vi isso acontecendo nas casas de muitos alunos, e com alguns pais se tornando inclusive violentos, isso estava afetando-os em classe”.

Foi pensando em amenizar esse problema que a escola entrou em contato com o Equity Bank para propor ao banco que organizassem workshops e aulas de administração e finanças aos familiares. Além disso, os parentes eram incentivados a abrir poupanças para os filhos, para que tivessem algum tipo de segurança em pagar estudos no futuro.

Diante de tanta inovação, mudanças e ideias, Kyamulendu aumentou em 50 pontos seu desempenho no KCPE. Quando Winie ocupou o cargo de diretora em 2013, a média era de 250 pontos (sendo 1 o mais baixo e 500 o mais alto), um ano e meio depois, o colégio obteve 300 pontos no exame.

No final do ano passado, no entanto, mais uma mudança foi estabelecida na escola que promete aumentar a performance dos estudantes. Kyamulendu conseguiu tornar-se o único colégio no distrito de Machakos a beneficiar-se de uma nova iniciativa do governo chamada National Leaders Programme. Nesse programa lançado pelo Ministério da Educação, Ciência e Tecnologia queniano, jovens recém-graduados em diferentes campos, são treinados e enviados para voluntariar em escolas públicas de todo o país. O National Leader Programme está embasado em três fundamentos: fortalecer o nível da educação primária por meio de reforço em leitura e matemática; criar oportunidade de trabalho para jovens recém-graduados; e promover coesão nacional através do envio de voluntários para viver e trabalhar em áreas distintas das suas.

Foi assim que Caroline Mutegi, 28 anos, e Morris Kimathi, 26, ambos da tribo Meru, foram parar em Tala, cidade de maioria tribal Kamba (o Quênia é formado por mais de 40 tribos). “Quando descobri que teria de morar com uma família que não conhecia, quase desisti. O fato da população aqui ser Kamba também me deixou receoso. Os Kambas são conhecidos por praticarem magia negra… meus amigos e familiares temiam por mim e não queriam que eu viesse”, conta Morris, que antes de se juntar ao programa trabalhava no Banco Comercial Queniano (KCB – Kenyan Commercial Bank). “Quando cheguei, vi que é muito diferente do que pensava. Eles têm um estilo de vida parecido com o meu e são muito receptivos. É uma cultura interessante”.

A

“Eu quero educação para a vida”, disse a diretora do colégio

Os dois voluntários ajudam 20 alunos que não sabem ler nem escrever em sessões de leitura particular diária. “Nós não somos professores treinados, aprendemos com a experiência. As crianças analfabetas são muito inseguras, estamos ajudando a construir sua autoestima”, explica Caroline.

Morris, no entanto, foi além. Ao perceber que muitos alunos gostariam de ter a oportunidade de ser orientados, mas por falta de vagas ficaram de fora, criou o Greatness Mentors Club (O Melhor Clube de Mentores, em tradução livre), um clube que promove a educação holística e tenta explorar talentos ignorados nas crianças. “Essas crianças têm muitas aptidões escondidas. Nem tudo se aprende na sala de aula”, explica Morris.

Os 110 aprendizes participantes do projeto se encontram de duas a três vezes por semana e são treinados em diferentes atividades, desde stand up comedy, música, moda, jornalismo a outras que reforçam a grade escolar como competições de matemática e ciências. “Eu quero inspirá-los a serem criadores de emprego e não candidatos a vagas de trabalho”, se entusiasma Morris.

Em estrutura, a escola primária Kyamulendu não diverge em nada dos outro colégios da região: tem 700 alunos, salas superlotadas (70 crianças em média), não há material suficiente para todos, o chão é de terra batida e os professores mal pagos. Entretanto, ela representa uma esperança e um modelo de sucesso a ser seguido em outros lugares. Não só crianças estão se preparando para uma vida adulta com diferentes aptidões, mas também toda uma comunidade está empenhada em mudar a maneira como se leciona no país.

“Ser professor é um trabalho desafiador, um trabalho que deveria ser visto como voluntário, para ajudar as crianças. Se você levá-lo como carreira, pode arruinar uma geração”, finaliza Winie Mbinya. Mbinya, que segunda a tradição Kamba de dar nomes com significado, quer dizer perseverança. Nada mais apropriado.

29 Dec 20:18

Mulheres de Fernando de Noronha não podem dar à luz no arquipélago

by João Paulo Caldeira

Categoria: 

Saúde

Jornal GGN -  No arquipélago pernambucano de Fernando de Noronha, um dos principais destinos turísticos do Brasil, as mulheres grávidas precisam deixar a ilha no sétimo mês de gestação para dar à luz em Recife, distante 545 km do local. 

Em 2004, a única maternidade da ilha foi desativada, com a justificativa de que os custos de manutenção eram muito altos para o número de partos realizados. O documentário Ninguém nasce no paraíso, de Alan Schvarsberg, relata a insatisfação de mães e moradores, que classificam o impedimento como "violação do direito de nascer". 

Da BBC Brasil

Por que não nascem bebês em Fernando de Noronha?

"É um pesadelo, você acha que nunca vai acabar. É uma sensação horrível você estar dentro de um quarto presa, às vezes sem dinheiro, longe da minha casa e da minha família."

A frase acima não descreve uma experiência de exílio ou na prisão, mas a espera da noronhense Laisy Francine Costa e Silva, de 19 anos, pelo primeiro filho. Como todas as gestantes do arquipélago pernambucano – que é um dos principais destinos turísticos do Brasil, santuário ecológico e Patrimônio Natural da Humanidade, segundo a Unesco –, ela precisa sair de casa no sétimo mês de gestação para dar à luz em Recife, a 545 km de distância.

Em 2004, foi desativada a única maternidade na ilha, no Hospital São Lucas, sob a justificativa de que o custo de manutenção da estrutura era alto demais para a média de 40 partos por ano realizados na ilha principal, a única habitada. Há 10 anos, no entanto, o impedimento causa indignação entre os moradores, que falam em "violação do direito de nascer".

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22 Dec 12:05

o bebê sem nome

by luíza diener
escolher nome de bebê não é tarefa fácil. nunca foi. mas parece que no primeiro filho o caminho tá mais livre, as possibilidades são maiores e até a criatividade tá mais solta. por outro lado, depois que você já nomeou dois filhos, a gente fica menos travado na hora de tomar essa decisão. o nome do benjamin ficou definido ainda na gestação, acho que mesmo antes de eu completar 20 semanas. como descobrimos durante a gravidez que esperávamos um menino, ficou mais fácil fazer lista de um gênero só (até porque acho nome de menina bem mais difícil). já constança, nós descobrimos que era menina depois de nascer e demoramos 9 dias pra bater o […]
18 Dec 18:17

Haddad testa primeiro ônibus elétrico em SP e cria cota feminina no transporte

by Cíntia Alves

Categoria: 

Transporte
 

São Paulo agora tem ônibus com LCD, LED e bateria. Ontem de manhã, testei o trajeto do Terminal de Transferência de Itaquera até o Terminal Parque Dom Pedro.Leia mais: http://goo.gl/atBzUx

Posted by Fernando Haddad on Quinta, 17 de dezembro de 2015

 

Jornal GGN - A Prefeitura de São Paulo, capitaneada por Fernando Haddad (PT), colocou nas ruas o primeiro ônibus elétrico em fase de teste, na tentativa de encampar um projeto de substituição de veículos poluentes por unidades que levam mais conforto ao usuário e menos prejuízo ao meio ambiente. Além disso, o Paço anunciou que, por meio de portaria, foi criada uma espécie de cota feminina para o transporte municipal.

Segundo informações da assessoria de imprensa da Prefeitua, Haddad entregou na quarta (16) três novos ônibus articulados, sendo um deles 100% elétrico, alimentado por bateria, que deve estar em operação até o final de fevereiro de 2016.

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17 Dec 11:29

Conceito do papel da doula

by Jéssica Macêdo
Conceito do papel da doula

Definir o papel da doula em algumas palavras realmente não é lá uma tarefa muito fácil. Começamos sempre pela etnologia da palavra para, talvez assim, dar sequência a um conceito, que muitas das vezes permanece vago. Do grego, que significa mulher que serve, a doula presta apoio físico e emocional às mulheres gestantes e em trabalho de parto.

Na melhor das hipóteses, após resumir com as palavras acima o papel da doula, você vai ouvir um “como assim?” A incógnita fica ainda mais visível na face do interlocutor e será quase um parto tirar do fundo do seu coração as melhores palavras para fazer esta interrogação desaparecer.

Mas não dá para culpar ninguém a respeito disso. Nem quem desconhece o trabalho da doula, nem quem tenta conceituá-lo. É difícil mesmo a compreensão, para depois a apresentação. Talvez, só na vivência para entender mesmo.

Quando eu trabalhava no Ministério da Saúde, como editora do blog, por diversas vezes tive oportunidade de ter contato com a conceituação do trabalho da doula. Mesmo grávida, mesmo editando matérias sobre o tema, aquilo tudo era sempre muito nebuloso pra mim. Se me perguntassem, obviamente eu não saberia o que responder.

Toda esta nebulosidade só parece ter tido fim quando finalmente fui abraçada pela minha doula, já na segunda gestação. Quando me envolvi no processo de busca por um parto humanizado, percebi a necessidade da figura da doula. Mesmo sem entender exatamente o que ela seria, mas eu precisava daquela mulher para dar algum rumo na minha caminhada. Então veio a primeira palavra para me ajudar no conceito: guia.

A minha doula foi guia! Segurou na minha mão e me puxou do meu berço esplêndido. Pois até encontrá-la, eu ainda achava a figura do médico a mais importante no cenário do parto. Ela me fez descobrir a verdade: a peça mais importante no parto é a mulher a parir. Ponto.

Essa mulher me empoderou! Me muniu de informações, jogou várias dúvidas na minha cabeça para que eu encontrasse, com o suporte dela, as soluções. Temos aqui duas palavras para o conceito: empoderadora e suporte.

Se nas dúvidas ela deu suporte, nos receios ela me deu consolo. Soube me ouvir e me mostrou a importância de viver estes momentos, refletir e tirar o melhor deles.

No parto, a minha doula reuniu tudo isso e um pouco mais. Ela me guiou, me amparou, me consolou, me empoderou, me acalmou, me motivou. Ela dispôs toda a sua energia física para que o meu corpo se mantivesse forte, assim como a minha mente, para vivenciar o processo do parto da melhor maneira possível. Quando eu cogitei fraquejar, foi nos olhos dela que eu encontrei a força necessária pra continuar.

Então, eu posso, sim, dizer muitas coisas sobre o papel da doula e ainda assim não chegar nem perto do que realmente é. A doula – esta mulher que serve, te mune de informações, ajuda a solucionar impasses na sua busca pelo parto, lhe ensina posições e exercícios, te faz massagens e carinhos –  é diferente para cada mulher. Para cada gestante, a cada gestação, a doula representará um papel diferente. Ela ainda será aquela que presta apoio físico e emocional, que não tem atribuições técnicas no cenário do parto, mas diferente para cada uma daquelas com uma doula à disposição.

Se você tem ou teve uma doula, como você conceituaria o papel dela?

Dia da Doula

Esta semana, celebramos o Dia da Doula (18/12) e em nome da Vanja Mendes, minha doula e minha inspiração para ter me tornado uma também, parabenizo todas estas mulheres que se dedicam a outras de forma tão sublime e renovadora. Nunca mais somos as mesmas após ter tido uma doula na vida. Beijo, Vanjoca!

12 Dec 19:11

A dor do parto

by Cláudia Rodrigues
Cláudia Rodrigues 

Raramente assisto partos, dá para contar nos dedos das mãos os que assisti, mas como muita gente sabe, trabalho com isso, com atendimento particular e em grupo para gestantes e doulas aprenderem a lidar com o mais difícil do parto: administrarem a dor, aprendendo ao longo da gestação suas tendências corporais para evitar aquela que é uma dor que necessita entrega para que ocorra o desfecho: coroação do bebê com saúde. Ou seja, não trabalho com não doer, mas como lidar para que a dor flua e traga o bebê em segurança.

A cada parto que assisto me convenço que a maior das faláceas é preparar a gestante para não ter dor porque ela fatalmente sentirá algo jamais imaginado e após ter seu bebê nos braços provavelmente esquecerá o que viveu e ajudará a multiplicar a ilusão do parto sem dor. Diz-se popularmente: "a dor do parto é a única dor que a gente esquece".

Raríssimas mulheres têm partos orgásmicos. Eu nunca vi pessoalmente nenhum desses partos a não ser em filmes bem editados ou no momento do expulsivo, que realmente não dói. A expulsão é caracterizada por sensações intensas que algumas mulheres até denominam como dor, mas o fato é que as dores do parto têm a ver com o trabalho de parto e são mais fortes para as mulheres que temem cada contração, que se apavoram com a evolução. Evitando sentir dor, dói mais porque demora mais, é uma sinuca de bico.



Simples e explicável: as contrações uterinas aumentam progressivamente e a cada uma é possível que a mulher tensione o corpo ou use outras estratégias internas para adiar o andamento. Uma das estratégias para adiar a dor ou desintensificá-la é pela respiração. Respirando mais curto, expirando menos, engolindo o ar, apertando-se, a parturiente consegue evitar o aprofundamento de cada contração e assim adia o processo. Isso é tão natural no ser humano que o parto tem fama de ser algo demorado: "ah, tal coisa demorou como um parto".

Não se encerram os dramas das mamíferas humanas em respirar e manter o corpo relaxado, há todo um complexo histórico, familiar e cultural associado ao parto que também se concentra no imaginário da parturiente em suas horas de trabalho de parto. Algumas têm mais medo da expulsão, outras do atendimento ao bebê, se precisar de algo, mas é verdade absoluta que a maioria das mulheres fantasia que parto é só expulsão, quando na realidade a expulsão não significa nem em dor, nem em tempo, sequer 1% do que significa o parto como um todo. Sem dúvida é a expulsão o momento clímax, o melhor momento, o prazer, o final de uma etapa e o presente maior, o bebê. Pensar em parto apenas imaginando o expulsivo é investir em ansiedade e ansiedade atrapalha.

Embora eu faça muitas piadas e até mesmo dramatizações sobre as dores do trabalho de parto, mesmo entre as mulheres do grupo existe a fala do "minimizei a dor". E claro, elas se referem às horas do trabalho de parto. Óbvio que para as que temem muito a expulsão, esse momento pode ser mais dramático, daí vai de cada uma ao longo da gestação ouvir suas histórias internas, as mais impressionantes, aquelas que cavaram um medo maior. Mas com medo ou não da expulsão, quando o bebê coroa não tem mais saída a não ser nascer e aí é questão de minutos. Medo de "rasgar" ou medo do bebê "trancar", é medo do expulsivo e quem sente isso provavelmente vai adiar o andamento enquanto puder, enquanto tiver estratégias para evitar "o mal interno maior".

Existem mulheres que conseguem parir em poucas horas desde os primeiros sintomas, mas essas são mulheres que sequer qualificam os primeiros sintomas. Quase sempre em um relato de parto rápido há revelações como: "achei que estivesse gripada", "estava sentindo uma dor de barriga", enfim, as raras mulheres que têm partos rápidos e ainda mais raras entre as primíparas, percebem seus partos já perto do período expulsivo, dilatam "sem sentir dor", só sensações administráveis que vão levando com vida normal. O foco na dor aumenta a sensação de dor e de medo da dor, o foco na respiração e em áreas do corpo mais agradáveis, nas sensações de alívio ao final de cada contração, facilitam o andamento e desencadeamento do parto, o que acaba, por tabela, dando a impressão de doer menos.

No mais, na maior parte das vezes, partos demoram e doem durante todo o amolecimento do colo do útero e dilatação, ainda podem demorar algumas horas no período expulsivo e aí sim depende mais da cabeça, do imaginário da mulher. No período expulsivo a gestante precisa encontrar um lugar seguro, ela mesma. Pode ser cantinho do banheiro, da sala, banheira de água morna ou hospital, quando o medo maior é de que haja alguma intercorrência com o bebê e ela não se sente segura de que ele estará amparado.

Independente de tudo isso, o melhor trabalho de parto, mais eficiente e mais confortável para a parturiente é em sua casa, com mais liberdade de movimentos, opções de comidas, líquidos e pessoas carinhosas que recebem sua dor, seus queixumes e suas necessidades de atenção.

Se ela sente-se bem pode parir ali mesmo, se vierem os puxos da expulsão é ali mesmo que ela pode parir, se já há dilatação completa, nenê baixo, tudo certo e a mulher nitidamente não se sente segura para expirar profundamente a fim de que venham os puxos e isso demorar muito, então talvez ela precise migrar para o hospital a fim de relaxar.


08 Dec 23:20

Parto normal em casa de parto: Aileen e Serena

by Juliana Oliveira

RelatoParto_Serena

2 de Março de 2015 descobri (diríamos: do nada!) que estava grávida de 6 semanas!
Através da minha mãe e da minha cunhada obtive conhecimento e informações sobre parto humanizado, slings, disciplina positiva, fraldas de pano, amamentação e tantas coisas que nem sonhava que existia…

Durante a gravidez fui para Brasília algumas vezes onde frequentei rodas de gestantes e rodas de doulas. Nesses locais pude trocar informações, emoções e histórias que me fortaleceram nas decisões que vinha tomando ao longo da gestação.
Foi lá onde descobri a Casa de Parto São Sebastião! Local destinado a partos naturais e humanizados. Logo me apeguei a ideia de parir lá, só havia um problema.. Faziam 3 meses que a Casa de Parto tinha sido regionalizada, ou seja, só se eu morasse naquela região da cidade eu poderia usufruir do serviço. Então comecei a pesquisar sobre outros locais onde um parto respeitoso e com direito a acompanhante fosse possível.

Dia 6 de Outubro com 36 + 6 semanas eu e meu barrigão saímos de Maringá e estávamos a bordo de um avião rumo a Brasília, onde seria o palco dos próximos acontecimentos… Meu marido Leandro só poderia ir pra Brasilia após dia 28 porque ele iria apresentar o TCC nessa data.

Muita ansiedade no ar, será que ela nasceria antes do pai chegar? Quem iria me acompanhar? queria um parto humanizado, mas não tinha doula, não tinha médico, não tinha local certo para parir, com quase 37 semanas e tinha que achar um médico ou hospital que atendesse pelo meu plano de saúde. Precisava de opções! Mas não encontrava um bendito que atendesse pelo meu plano! Estava tenso…

Mas mal sabia eu o que me esperava!
Deus já tinha feito um plano pra nós mesmo que não enxergássemos soluções!

Cheguei em Brasília e corri pra roda de gestante do HUB e qual foi minha surpresa ao descobrir que havia uma semana a Casa de Parto São Sebastião havia aberto as portas para gestantes que faziam pré-natal no HUB! Corri pra abrir um prontuário e marcar uma consulta pra semana seguinte!

(aqui vem outra história que não cabe aqui sobre como esse prontuário e essa única consulta me fizeram apta a parir na Casa de Parto…)

Parindo…

16 de outubro as 22:30 hrs começou um leve sangramento rosinha, durante essa semana senti quase imperceptíveis ‘cólicas menstruais’, dia 19 meu intestino descarregou o excesso, dia 20 fiquei sem fome e quase não comi, dia 21 as 2:30 da manha tive minha primeira contração! Fiquei meio assustada, meio incrédula, não esperava que ela nascesse antes de completar 39 semanas, mas a dor estava ali, estava acontecendo! Tive 3 contrações de 15 em 15 min de dor média (diríamos assim) então as 3 horas da manhã começou contrações de 3 em 3 minutos que durou o trabalho de parto quase inteiro. A partir daí só conseguia ficar de pé ou andando (a dor foi piorando a cada contração)
Não acordei nem avisei ninguém, as 5 da manhã minha mãe percebeu o movimento na casa e começou a se arrumar e arrumar as ‘traia’ (bolsa maternidade, roupas pra trocar, toalhas, comidas, chá de canela com gengibre, chinelo, almofadas, caixinha de som pra música relaxante (super recomendo!), bebe conforto…)
As 7 horas avisei o Leandro que estava indo parir! (a história dele é outtrraa história)..  Nesse hora já estava gemendo de dor um ‘pouco’ alto e andar de carro nessa situação não é legal!
Cheguei as 8 hrs na Casa de Parto com 5 pra 6 cm de dilatação a partir daí eu esqueci quase tudo… Mas vamos tentar contar o que eu lembro!

Tomei um banho quente que baixou minha pressão… saí meio mole, deixa pra lá essa água.. Sentei no “cavalinho’ (não sabe o que é pesquisa no Google) pra mim só não foi pior do que estar deitada durante as contrações! (o que é uma tortura, e quando digo tortura pode lembrar daquelas torturas da Idade média porque é assim mesmo!), a única posição que eu conseguia suportar a dor era em pé inclinada um pouco pra frente (segurando na parede ou espremendo as mãos da minha mãe, (é ótimo apertar alguém, mas dá dó .. na hora estava com mais dó de mim mesma! Rsrs). Mamãe foi praticamente minha doula! Ela fazia massagens, tirava fotos e postava no grupo do wats.. kkk deixava eu apertar loucamente os braços e até o pescoço dela foi vítima das minhas contrações rsrs
Cheguei um pouco desesperada de dor, não conseguia manter a calma na respiração (fundamental) Então a enfermeira falava pra eu respirar assim: Cheira flor e assopra vela (acho que a coisa mais difícil que já fiz na minha vida foi respirar assim durante a contração, custou cada grão de força de vontade, cada pedaço do meu cérebro e do meu corpo estavam concentrados em respirar com calma!) A minha cunhada que é doula ligou pra mim numa hora dessas e disse mais ou menos: amiga deixa a contração vir, não lute contra ela! Ela é amiga e está trazendo sua bebê pra você! Esse foi o momento que me entreguei pra partolândia, depois de umas horas sentava no vaso sanitário me encostava na caixa d’água e conseguia até cochilar entre as contrações, ouvia a música relaxante com sons da natureza que tinha levado e consegui suportar aquela fase!

Até que uma notícia me tirou daquele estado de transe…
Devido a uma cicatriz que tenho de uma fistulectomia anal havia um risco muito grande de acontecer uma laceração ali e ela acompanhar a cicatriz até o ânus de forma que se isso acontecesse eu teria que ser transferida imediatamente para um hospital próximo e um proctologista teria que operar o estrago…

 

Seria necessário uma episiotomia ou que eu fosse transferida na mesma hora para um hospital (isso já estava na metade do processo de parir).

No meio daquele mundo de dor entrou um desespero (preferia cesárea do que episitomia! Pensava: porque esse negócio entrou agora tem q sair!, Preciso sair daqui preciso de uma anestesia socorro!! )
Essa situação acabou fazendo com que o trabalho de parto fosse mais demorado por conta do meu psicológico que ficou um pouco perturbado e apreensivo. Foram mais de 1 hr com contrações de puxo.

 

Me explicaram o procedimento: o corte seria feito quando o bebê estivesse coroando e eu teria que estar de barriga pra cima (nada confortável como já comentei) logo feito o corte eu teria que me posicionar de 4 apoios para que o peso da gravidade puxasse para o lado oposto da cicatriz.

 

Então deitei na cama e essa bebê não descia… e a dor me matava …até que depois de uns 40 min minha mãe abençoada me tirou de lá e me fez ficar de cócoras apoiada numa barra na parede (que era a posição que eu gostaria de parir) nessa hora eu estava me descontrolando nos gritos rsrs acho que em 4 contrações nessa posição eu pus a mão e senti a cabecinha da Serena avisei as Enfermeiras e corri pra cama, quando deitei senti ela voltando (foi um processo…)
(Essa menina não vai nascer! Socorro! O que é que eu faço?!). A bolsa não tinha estourado e começou a nascer, então a enfermeira perguntou se podia romper, ( eu respondi: não sei o que isso quer dizer! elas explicaram rapidamente e eu concordei! )

12295449_1001045649938415_8006611688377415869_nEntão com 38+6 semanas, depois de 11 horas de TP aconteceu! de 4 apoios, com episiotomia, com laceração, minha Serena nasceu devagarinho em 2 contrações, com cordão enrroladinho no pescoço apertadinho, toda roxinha e quentinha, com as bochecas vermelhinhas! Ficou quase uma hora grudadinha em mim enquanto o processo de nascer placenta e ser costurada acontecia, ainda senti contrações, estava exausta, mas minha filha estava ali mamando lindamente nos meus braços! Não foi fácil, não foi simples, meu mundo era pura dor, meus músculos travaram até precisei de ajuda pra conseguir deitar do lado da Serena na cama, mas finalmente estava acabando!

A recuperação da episio e da laceração e do parto em si foi terrível nas 2 primeiras semanas! Achei que não ia sarar nunca, que nunca mais ia conseguir me sentar sem dor que nunca ia esquecer toda aquela dor, todo aquele trauma… Minha surpresa agora em 1 mês já esqueci quase tudo! Kkk Deus faz tudo perfeito!

Amamentação: foi tudo lindo! No 3 dia tive uns coágulos no bico do peito mas no outro dia sarou e foi só!

Sensações do Parto: 
Contrações: Você se desliga do mundo, só existe uma coisa: DOR, e entre a dor existe nada, só uma espera pra próxima dor!
Contrações de puxo: você engoliu uma sementinha de melancia.. agora ela está saindo… rsrs (rindo agora né porque na hora não é nada engraçado)
Expulsivo: agora a melancia está abrindo seus ossos e músculos lá embaixo
Parto: UFA! Você sente uma chacoalhada em todos seus órgãos internos, o alívio é imediato, então você acorda pro mundo real! Tem um trocinho roxo na sua frente balançando os bracinhos e de olho em tudo! Uma barriga acabou de se transformar em um bebê… como mágica!

Todo esse processo foi patrocinado por Deus, por mim e pelo Leandro Peres, pela minha mãe Dilza Holland, minha cunhada Tainara Andrade, pelo Grupo de Gestantes do HUB e pela Silvéria, pelas enfermeiras que me acompanharam na Casa de Parto e pela administração da Casa de Parto que permitiu que meu parto acontecesse naquele local, com respeito e humanizado!

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08 Dec 23:08

Para Jean Wyllys, carta de Temer foi feita sob medida para a imprensa

by João Paulo Caldeira

Categoria: 

Crise

Por Jean Wyllys, via facebook

O golpe da carta (temos algo a Temer?)

A carta que "vazou" para a imprensa teria sido escrita, supostamente, do vice-presidente Michel Temer para a presidenta Dilma Rousseff, um documento "confidencial e pessoal". Mas, vejam só, macacos velhos na comunicação nunca viram uma carta pessoal feita para ser manchete se o objetivo não fosse esse. A carta não tem nada de pessoal e confidencial; muito pelo contrário, é "bombástica" no estilo, conteúdo e formato, exatamente como aquelas em geral abertas para a imprensa. Leiam e percebam a construção do texto, claramente feita para exposição e consumo midiático. A destinatária da carta nunca foi a Dilma, mas a redação dos jornais! O nome disso é cinismo! 

O vice-presidente, um velho operador político do PMDB que estes anos todos foi muito bem pago pelo poder público para atuar como garantia da coligação desse partido com o PT (coligação cujo custo o PT está pagando), acha que ninguém vai perceber que, se o problema dele fosse a "desconfiança" da chefe Dilma com relação a ele e ao PMDB, seu partido, ele deveria ter enviado essa carta há uns bons anos, né não? Ela está chegando muito atrasada porque tem, na verdade, outro objetivo: deixar bem claro que Temer está disposto a assumir a Presidência. É uma mensagem para a bancada do PMDB no Congresso, para a oposição de direita que poderia compor um governo de transição com ele, para os jornais, para os mercados e, talvez, para o próprio PT, que entenderá que o preço para evitar tudo isso será caro, muito mais caro ainda do que foi, até agora, a "lealdade" dos seus supostos aliados.

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02 Dec 18:01

O real desafio para a humanização do nascimento

by Sá Brina
Carta-resposta à entrevista publicada no Diário do Pará, de 15 de novembro de 2015.
No dia 15 de novembro de 2015, o jornal Diário do Pará publicou entrevista com um ginecologista e obstetra com “30 anos de formado”, que critica o parto humanizado e o trabalho de doulas. Nós, do MOVIMENTO DE HUMANIZAÇÃO DO PARTO E DO NASCIMENTO, composto por mulheres, homens, gestantes, mães, companheiros, pais, doulas, enfermeiras/os obstetras, e médicas/os; e apoiadoras e apoiadores da causa; viemos por meio desta fazer notar que o jornal entrevistou um médico que desconhece o trabalho das doulas e o que seria a humanização do nascimento, divulgando conceitos errôneos e fantasiosos acerca do tema. Com o intuito de contribuir para a informação da sociedade, escrevemos o texto abaixo, explicando e fornecendo fontes sobre o que consideramos ser o trabalho das doulas e a assistência humanizada ao parto no Brasil.
Tendo em vista a correta informação das leitoras e dos leitores do Diário do Pará, precisamos desfazer inicialmente os dois maiores erros cometidos pelo médico:
1.Doulas não fazem partos.
Nem médicos.
Quem faz o parto é a mulher.
A palavra tem origem no grego e significa “mulher que serve”. Conforme consta no documento "Parto, Aborto e Puerpério - Assistência Humanizada da Mulher" elaborado pelo Ministério da Saúde, a doula é uma prestadora de serviços que recebeu um treinamento básico sobre parto e esta familiarizada com uma ampla variedade de assistência. Ela fornece apoio emocional, com elogios, reafirmação, medidas para aumentar o conforto materno, contato físico (tais como massagens para alívio da dor), explicações sobre o que está acontecendo durante o trabalho de parto e uma presença constante e empática à parturiente. Tudo para ajudar aquela mulher a ter uma experiência positiva de pré-parto, parto, e pós-parto.Médicos obstetras não deveriam "fazer o parto". Deveriam assistir ao parto, com o mínimo de intervenções, observar e avaliar o percurso fisiológico do nascimento e intervir apenas quando fosse realmente necessário. É o que apontam os estudos mais recentes e atuais. É o que indica o Guia de Boas Práticas de Atenção ao Parto e ao Nascimento, formulado pela Organização Mundial da Saúde, no ano de 1996..
Sabemos que na atual realidade brasileira, perpetuada e reforçada pela formação nas universidades e na prática cotidiana em hospitais e maternidades, os/as profissionais da obstetrícia, em sua grande maioria, continuam tratando a gestante/puérpera como um objeto, infantilizando-a e subjugando-a das mais diferentes formas. Esta afirmação pode ser constatada nos números assustadores de violência obstétrica em nosso país: 1 em cada 4 mulheres sofre algum tipo de violência física ou psicológica em algum dos estágios do parto (pré-,parto, pós-), como afirma pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo/SESC (2011). Nós, do MOVIMENTO DE HUMANIZAÇÃO DO PARTO E DO NASCIMENTO, acreditamos que este número seja ainda maior. Pois a violência obstétrica é tão naturalizada em nosso país, que é comum escutar que xingamentos e intervenções obsoletas (como kristeller - o empurrão na barriga; e a episiotomia - o corte entre o ânus e a vagina) fazem parte do parto normal. Vale ressaltar que mulheres negras e pobres estão ainda mais suscetíveis a serem vítimas deste tipo de violação.
O fato do Brasil ser o campeão mundial de cirurgias cesarianas também corrobora com o tratamento que nós mulheres recebemos durante o período gestacional e no ato do nascimento de nossos filhos. Segundo a pesquisa Nascer no Brasil, a maior pesquisa realizada sobre parto e nascimento no País, coordenada pela Fiocruz, publicada em 2014, 66% das mulheres preferiram o parto normal no inicio da gravidez. Mas, das 23.894 entrevistadas, 52% tiveram seus filhos por meio de uma cirurgia cesariana. Analisando apenas o setor privado, este número sobre para 88%. A OMS estima que apenas 15% das mulheres teriam a real necessidade de serem submetidas a uma cesárea no final da gravidez.
Desaprendemos a parir ou estamos sendo muito mal assistidas?
2. Parto Humanizado
Não é um “tipo de parto”, como afirmou erroneamente o médico entrevistado pelo jornal. Parto humanizado é um tipo de assistência. Não é um protocolo, não é um método, não se trata de ter uma banheira, uma bola, um quarto bonito, ou cheio de aparatos tecnológicos.Humanizar o parto quer dizer respeitar o protagonismo para a mulher. Ela toma as decisões informadas e embasadas - sobretudo no Guia de boas práticas da OMS - acerca de seu parto, assim como decide os procedimentos a serem adotados, posições e local onde deseja parir - seja no hospital, em casa, de cócoras, na piscina, na banqueta. As decisões são sempre embasadas em evidências e sob a supervisão de uma equipe que entenda que o parto é um evento fisiológico, natural, salvo algumas necessidades de intervenções.
Nos deparamos com comerciais de maternidades humanizadas, como se a humanização estivesse relacionada com as megas infraestruturas. De nada adiante ter tudo isso se os profissionais são totalmente intervencionistas, realizando procedimentos de rotinas sem ao menos apresentar indicação, como é o caso do soro com ocitocina, o corte no períneo, manobra de kristeller. Também devemos mencionar aqui os comentários pejorativos que a maioria das gestantes são obrigadas a ouvir durante o trabalho de parto.
Novamente citamos a Nascer no Brasil, apenas 5% das mulheres entrevistadas pela pesquisa não sofreram as intervenções citadas acima! Um profissional que trabalha dentro das boas práticas, ou seja, um profissional humanizado, não procede dessa forma. Antes de tudo acredita na capacidade da mulher em dar a luz, prioriza o respeito às decisões da parturiente e, caso necessário, informa o procedimento antes de praticá-lo.
Fonte: http://www6.ensp.fiocruz.br/…/sumario_executivo_nascer_no_b…
Dito isto, passemos aos pontos da entrevista:
“A saúde materno-infantil vem sendo cada vez mais perseguida através dos chamados partos humanizados que geram vários benefícios para mães e bebês, mas também trazem riscos sérios caso não sejam muito bem planejados e executados.”Segundo o site da FEBRASGO (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), o parto humanizado visa acima de tudo o bem estar da mãe e do bebê, inclusive, reforçando que o parto humanizado deve ser um direito de todas as mulheres.No mesmo artigo, se reforça que o parto humanizado não é “um tipo de parto”, mas sim um processo, onde se respeita o protagonismo da mulher. Segundo o Manual “parto aborto e puerpério: assistência humanizada à mulher”, do Ministério da Saúde, Febrasgo e Abenfo, de 2001, o conceito de atenção humanizada é amplo e envolve um conjunto de conhecimentos, práticas e atitudes que visam a promoção do parto e do nascimento saudáveis e a prevenção da morbimortalidade materna e perinatal. Inicia-se no pré-natal e procura garantir que a equipe de saúde realize procedimentos comprovadamente benéficos para a mulher e o bebê, que evite as intervenções desnecessárias e que preserve sua privacidade e autonomia
Fontes: http://www.febrasgo.org.br/site/?p=8495http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cd04_13.pdf
“Esse tipo de parto (humanizado) é a integração do trabalho de parto, com a participação do acompanhante da paciente, geralmente o esposo ou uma pessoa muito próxima da parturiente, que possa dar mais segurança à paciente no desenrolar do trabalho de parto”Não. Isso não é parto humanizado. Ter um acompanhante de escolha da mulher durante o trabalho de parto, parto e pós parto imediato é um direito garantido por lei (11.108/2005) há 10 anos! Mesmo tendo tanto tempo, a lei continua sendo, diariamente, desobedecida por hospitais e profissionais de saúde. Prova disso é que, em março de 2014, o Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública na Justiça Federal em Belém contra a União, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e contra cinco hospitais que, ao atenderem partos na capital paraense, não cumprem a chamada lei do acompanhante. A lei nº 8.080/90, alterada pela lei nº 11.108/2005, garante a toda gestante a presença de um acompanhante nos momentos de pré-parto, parto e pós-parto, sendo esse acompanhante de sua livre escolha e independente de qualquer pagamento adicional - negar este direito constitui violência obstétrica. As denúncias acerca do descumprimento da Lei do Acompanhante foram encaminhadas ao Ministério Público Federal em 2010, como parte de uma programação nacional da Parto do Princípio - Mulheres em Rede pela Maternidade Ativa.A presença de alguém conhecido e de seu convívio traz mais segurança à parturiente e também funciona como inibidor de violência obstétrica e más práticas.
“A cesariana deve ser aplicada em casos de complicações no trabalho de parto e que ponham em risco a vida da mãe e do bebê. São as chamadas cesarianas seletivas, que são agendadas e onde há impossibilidade do parto normal por vários motivos, como fetos atravessados, placentas prévias, entre outros”As cesarianas eletivas, são aquelas agendadas previamente e não aquelas realizadas a partir de complicações no trabalho de parto. Existem na verdade pouquíssimas indicações clínicas para cesarianas eletivas, como bem citado no texto, a placenta prévia completa. Porém, o que se sabe é que o abuso da marcação de cesarianas eletivas por motivos estapafúrdios como “cordão enrolado no pescoço”, “falta de passagem”, “bebês que não encaixaram antes do trabalho de parto” são a nossa realidade no Brasil. Podemos observar este abuso nos números do inquérito nacional sobre parto e nascimento “Nascer no Brasil” de 2014, que apontam que 34% das mulheres entrevistadas tiveram seus filhos por cesarianas realizadas ELETIVAS.
‘Estima-se que no país, quase um milhão de mulheres, todos os anos, são submetidas a cesariana sem indicação obstétrica adequada, perdem a oportunidade de ser protagonistas do nascimento de seus filhos, são expostas com eles a maiores riscos de morbidade e mortalidade e aumentam desnecessariamente os recursos gastos com saúde. Estudos recentes mostram também as consequências e repercussões da via de nascimento no curso natural do desenvolvimento intrauterino e sobre a saúde futura das crianças, incluindo o risco aumentado de obesidade, diabetes, asma, alergias e outras doenças não transmissíveis. -Sumário Executivo Temático da Pesquisa Nascer no Brasil, página 3.Fonte:http://www6.ensp.fiocruz.br/…/sumario_executivo_nascer_no_b…
“Para mim como médico, o parto humanizado é, acima de tudo, o parto seguro, com acompanhamento pré-natal e que garanta a integridade de mãe e bebê, realizado numa sala de parto toda equipada e com equipe capacitada e preparada para o procedimento.”Este não é o conceito de parto humanizado para o Ministério da Saúde, por exemplo. Não se trata do local de parto. Inclusive, existem estudos sérios que demonstram a segurança dos partos domiciliares planejados ou em casas de parto para gestações de baixo risco. Como o nome diz, os partos domiciliares que são planejados contam com material para atendimento de urgências e suporte para transferências. Inclusive, existe uma boa quantidade de artigos que apontam as vantagens do parto extra-hospitalar, para gestações de risco habitual, dentro das condições de segurança citadas. Dra. Melania Amorim, médica obstetra PHD pela OMS em Genebra, escreveu revisões e artigo sobre o assunto nos seguintes endereços eletrônicos:http://guiadobebe.uol.com.br/parto-em-casa-e-seguro/http://articles.mercola.com/…/hospital-birth-vs-home-birth.…http://estudamelania.blogspot.com.br/…/guest-post-o-mito-do…
“Partos realizados por doulas, por exemplo, são muito românticos, mas nada poéticos… Elas cobram pequenas fortunas para realizarem partos na casa das pacientes. Os valores podem variar de R$5 mil a R$10mil. A doula acompanha todo o trabalho de parto, que é feito de maneira artesanal, deixando a natureza agir e sem qualquer intervenção cirúrgica. Em caso de qualquer problema todos tem que correr para o hospital. Sem esquecer que doulas não possuem formação médica. São técnicas que não saberão o que fazer num caso de complicação no parto. Há partos normais feitos por doulas que duram dias.”
Há nestas afirmações um profundo desconhecimento do trabalho das doulas e uma boa parte de folclore. Vamos à realidade:Algumas doulas, como qualquer outro prestador de serviço, cobram pelo seu trabalho e disponibilidade, mas realmente no Brasil e especialmente em Belém, o valor varia bastante mas não chega próximo aos valores citados pelo entrevistado! Ser atendida por uma doula, atualmente, gira em torno de R$800 a R$1.500 reais, um serviço que não é apenas pelo parto. Inclui um acompanhamento prévio - para esclarecimento de dúvidas, troca de informações e elaboração do plano de parto -, o parto em si - pelo tempo que durar e no lugar que a mulher escolher (em casa ou no hospital) - e apoio após o parto para cuidados com bebê e ajuda com a amamentação.Certamente a doula não realiza cirurgias nem possui formação médica. Ela é uma ajudante leiga, então ela acompanha a parturiente durante todo o trabalho de parto, parto e pós parto imediato no sentido de estar junto e oferecer alívio não farmacológico através de massagens, uso de bolsas de água quente, ajuda para se locomover além do apoio emocional considerado por muitas mulheres o fator fundamental para a contratação deste serviço.Quando a família opta pelo parto domiciliar, ela precisa contratar um responsável técnico para acompanhamento do parto e avaliação constante da saúde de mãe e bebê. Este técnico pode ser a(o) médica (o) obstetra, a(o) médica (o) de família, o(a) enfermeira(o) obstetra ou obstetriz. Não existe parto apenas com doula. Nos cursos de formação realizados no Brasil e os que acontecem na cidade de Belém este é um assunto extremamente reforçado quando se fala sobre a ética da doula, que ainda não é uma profissão, mas já é uma ocupação reconhecida pelo Ministério do Trabalho.A decisão pela condução técnica do parto é realizada por algum dos profissionais citados anteriormente no intuito de garantir a segurança do binômio mãe e bebê e considerando as opções de transferência para realização de intervenções quando estas são necessárias. Definitivamente as doulas não se envolvem nestas decisões, mas estão lá ao lado da mulher, pelo tempo que for necessário, dando apoio contínuo.
“Agora, você fazer um parto dentro da água e cortar o cordão dentro desse meio promove o risco do bebê morrer afogado.”Sim. Certamente promove este risco. Por isso, a técnica de parto na água nunca incluiu esta prática. O bebê após nascer é colocado no colo da mãe, que não esta submerso, e independente do meio onde o parto acontece, se promove o corte oportuno do cordão, ou seja, aguarda-se alguns minutos para que o cordão pare de pulsar e o bebê possa realizar a transição da respiração placentária para pulmonar. Desta forma, não existe absolutamente nenhum risco de afogamento, devido o corte do cordão NUNCA acontecer com o bebê submerso.
Creio que tenhamos elucidado, com base em fontes nacionais e internacionais, as principais questões divulgadas erroneamente neste veículo. Gostaríamos de poder contar com um espaço similar no jornal para contribuirmos com o debate saudável acerca do tema e tendo em vista o que deve ser o maior compromisso do Diário do Pará: informar corretamente os seus leitores.
Assinam esta carta:iSHTAR - Espaço para GestantesParto do Princípio - Mulheres em Rede pela maternidade Ativa
02 Dec 11:22

Justiça determina que médicos recebam mais por parto normal

by João Paulo Caldeira

Categoria: 

Saúde

Jornal GGN - A Justiça Federal determinou que a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) coloque em prática medidas para diminuir o número de cesáreas na rede particular de saúde. No Brasil, 84% dos partos na rede privada são cesarianas, quando o recomendado pela Organização Mundial da Saúde é de 15%.

Uma das medidas diz que os planos de saúde terão de pagar no mínimo três vezes para os médicos que auxiliarem em um parto normal. A remuneração era uma reclamação dos médicos, já que eles recebiam quase o mesmo valor pelos dois tipos de parto, mas o parto normal pode levar mais de oito, enquanto a cesárea exige duas ou três horas.

Enviado por Vânia

Da BBC Brasil

Médicos vão receber três vezes mais por parto normal, determina Justiça

Em uma decisão considerada um "um divisor de águas", a Justiça Federal determinou que a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) coloque em prática três novas medidas para reduzir o número de cesáreas na rede particular de saúde.

O Brasil é o país com a maior taxa de cesáreas no mundo: 84% dos partos na rede privada são cesarianas (na rede pública, a taxa é de 40%), enquanto o recomendado pela OMS é de 15%.

Com a decisão, em um prazo máximo de 60 dias, os profissionais de saúde da rede particular que auxiliarem em um parto normal terão de receber dos planos de saúde no mínimo três vezes mais do que na realização de uma cesárea.

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29 Nov 18:52

Reflorestamento em área urbana ajuda a combater aquecimento global

by Lilian Milena

Categoria: 

Meio Ambiente
Sugerido por Odonir Oliveira

Jornal GGN - O reflorestamento ajuda no combate o aquecimento global. A proposta é, inclusive, um dos temas discutidos nas negociações para um acordo mundial, na COP-21, que começará na segunda (30) em Paris. O plantio de árvores em áreas urbanas, além de poder contribuir com essa meta global, ajuda diretamente a conter enchentes e o fenômeno de ilhas de calor, que ocorrem em cidades de todo o mundo, por conta do aumento da permeabilidade do solo e retirada da cobertura verde, aumentando consideravelmente a temperatura nas áreas urbanas.

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