
Você gosta de rock. Eu também. Que bom, né? Eu também curto outros gêneros, como blues, jazz, funk e pop. Imagino que você também. Afinal, quem ama de verdade a música tem sempre uma curiosidade constante em descobrir novos sons. Esse comportamento faz parte do nosso DNA.
O que não faz, ou não poderia fazer, é o preconceito. Como estamos em um site que fala sobre música, sobre som, vamos nos prender ao preconceito musical. Para gostar de um estilo você não precisa falar mal do outro. É desnecessário. Michel Teló faz sucesso? Que bom pra ele. Tem gente que adora o Michel Teló? Deixa elas. Não existe nada mais chato do que alguém querendo impor a sua verdade como se ela fosse a única que existisse.
É claro que temos músicas e artistas bons e ruins, as eles estão em qualquer gênero musical. Assim como não há nada de bom na obra de um cara como Latino, não há nada de bom em diversas bandas de rock que apenas repetem o que já foi feito há décadas. Cabe a você julgar. E é justamente fazendo uma volta ao primeiro parágrafo deste texto que você conseguirá reunir elementos para identificar, logo de cara, o joio do trigo.
Quanto mais se faz uma determinada coisa, melhor a gente fica nela. Com a música acontece o mesmo: quanto mais ouvimos, melhor fica o nosso ouvido. Quanto mais contato temos com diferentes tipos de música, maior fica a nossa capacidade de julgamento e o nosso conhecimento sobre os sons. Ouvir, por exemplo, um disco como
Bitches Brew, de Miles Davis, é uma barreira quase que intransponível em um primeiro momento. Mas, ao insistir na luta, aos poucos vamos nos acostumando com o formato pouco usual das canções que estão no álbum, e elas vão sendo absorvidas pelo nosso sistema auditivo. E aí, sem mais nem menos, ao mergulhar em um trabalho como
Bitches Brew e entender o som que ele propõe ao ouvinte, fica mais fácil e rápido digerir sonoridades que julgávamos anteriormente intrincadas, mas que agora se revelam em toda a sua plenitude.
A arrogância estúpida e desnecessária presente no título deste post se refere à postura que cada vez mais pessoas que curtem rock fazem questão de ostentar, de maneira clara, em suas redes sociais. Uma propagação de preconceito que é inaceitável em uma forma de arte como a música, que carrega consigo uma grande parcela de experiência pessoal para determinar o que é importante para cada indivíduo. Exemplos não faltam. O Linkin Park tocou recentemente no Brasil e diversas manifestações contrárias ao grupo pipocaram de todos os lados. Acusações de que os caras não eram “rock” foram as mais comuns. Estilisticamente, o grupo toca rock acrescentado de elementos de rap e pop. Como qualquer mistura, ou qualquer sonoridade, ou qualquer banda, agrada alguns e não agrada outros. Quem não gosta, simplesmente deveria seguir a vida e deixar quem curte em paz. E, só para constar, o som do Linkin Park não faz a minha cabeça, mas tenho mais o que fazer do que ficar xingando muito no Twitter ou seja mais onde for.
O mesmo vale para Lady Gaga. A passagem da cantora norte-americana pelo Brasil foi marcada por uma venda muito menor de ingressos do que se esperava. Fracasso não foi, já que Gaga colocou 30 mil pessoas, embaixo de chuva, em São Paulo. Porém, o buraco aqui é mais embaixo, pois aponta para uma espécie de saturação no mercado de shows internacionais no Brasil, regado a preços fora de órbita, em uma conjuntura que reflete diretamente em artistas e fãs de todos os gêneros musicais. Mas, é claro, a grande maioria dos sábios e evoluídos rockeiros não percebe isso, desejando que as apresentações sejam realmente um fracasso simplesmente por se tratar de uma artista pop e, logo e portanto, “descartável” em sua miopia.
Rockeiros esses que, em sua maioria, são dignos de riso. Pessoas que afirmam amar o Led Zeppelin mas só conhecem “Rock and Roll” e “Stairway to Heaven”, quando muito. Indivíduos que acreditam piamente que Slash é mais importante que Hendrix - e afirmam que esse último fazia apenas ruídos com sua guitarra. Mentes fechadas que não ouvem Machine Head ou qualquer outra banda que tenha cometido a heresia de um dia ter flertado com o new metal ou outra sonoridade estranha ao som pesado.
Ninguém é melhor ou pior do que outra pessoa devido aquilo que ouve. Acredito que cada indivíduo é o que consome. O que assistimos, o que lemos, o que ouvimos, reflete de forma direta na maneira que vemos o mundo. E. automaticamente, procuramos nos relacionar com outros que possuem os gostos afinados com os nossos. Porém, o fato de eu gostar de algo que uma pessoa não gosta não faz de mim um indivíduo melhor. Me preocupa essa propagação gratuita e desnecessária de ódio, de preconceito puro e simples.
Mais um exemplo: para uma parcela do público rocker brasileiro, notadamente o fã de som pesado, mencionar a palavra “Nirvana” é um ato digno de apedrejamento. Parem, né? O Nirvana, e o grunge e toda a turma de Seattle, não acabaram com a cena hard rock do início da década de 1990. O que levou a isso foi a própria saturação daquela sonoridade, levada a extremos, tanto no aspecto musical como no comportamental, pelos próprios grupos. E, sinceramente, prefiro mil vezes ouvir
Nevermind do que qualquer disco do chamado glam metal, ou hard farofa, de grupos como Def Leppard, Winger e afins. Porém, jamais foquei os meus esforços em escrever matérias denegrindo essas bandas. Entendo que seria uma perda de tempo falar sobre artistas que não gosto. Prefiro focar as minhas energias no que me dá prazer, escrevendo sobre bandas novas, por exemplo. E mais: apesar de não ser um fã de hair metal, não deixo de reconhecer o excelente trabalho de grupos que são muito influenciados por essa sonoridade, como é o caso do H.E.A.T. e do Dynasty.
Você não gosta de funk carioca? Ok, deixe o estilo para quem gosta. E falo isso totalmente, em todos os sentidos. Não perca o seu tempo, não gaste a sua energia, falando mal do que não lhe agrada. Em que esse tipo de atitude irá acrescentar algo na sua vida? A resposta é clara: em nada. Respeite a opinião alheia. Você não precisa concordar com o que os outros ouvem ou pensam, mas use argumentos para discutir sobre isso. Se for partir para xingamentos simplesmente, estará se comportando como um troglodita sem cérebro. E, acredito eu, você não é assim.
Mantenha a mente aberta para coisas novas. Estamos sempre aprendendo, todos os dias, sobre tudo. Seja curioso, procure, pesquise. A música é tão apaixonante que é perda de tempo ficar falando mal do que você não curte. Use essa energia para se aprofundar nas bandas que você gosta, na sonoridade que lhe agrada. Pesquise as influências de suas bandas preferidas, vá atrás do que está sendo feito agora, mergulhe fundo nas obscuridades que não chegaram ao topo. Em suma: não se contente com o que lhe é entregue, queira sempre mais. E deixe aqueles que não estão na mesma sintonia que você seguirem o seu caminho, sem ressentimentos.
Afinal, há muito mais o que fazer na vida do que perder tempo falando mal dos outros.


