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05 Sep 12:08

10 years ago next month, this letter to the NYT foresaw New York’s biking triumph


This seems like a particularly good week to share the very first time protected bike lanes were mentioned in The New York Times.

It happened on Oct. 10, 2004, in a letter to the editor from a man named Kenneth Coughlin. It was a response to a personal narrative the previous week from a young Times reporter who had made the daring decision to start riding her bicycle to work. In that article, then-Transportation Commissioner Iris Weinshall had made the prediction that New York City could one day be "one of the world's great bicycling cities."

It seemed like an obviously ridiculous claim. In a city of 8.2 million, fewer than 20,000 New Yorkers biked to work at the time. There was no Streetsblog, no Summer Streets, certainly no Citi Bike. The Times reporter, Lydia Polgreen (later a decorated Times correspondent in Africa, now the newspaper's deputy international editor), described an incident in which she spent 20 minutes just looking for a place to lock her bike. Still, Polgreen came away from her first summer of bike commuting convinced that New York ("flat and compact ... perfectly suited to biking") had potential.

You can still find Coughlin's 151-word reply to Polgreen on the NYT's website. Here it is:

To the Editor:

Your reporter's positive experiences with cycling in the city (''Spin City,'' Oct. 3) should embolden more New Yorkers to take to the streets on two wheels. But city government could do much more to make cycling safer and more widespread. What's stopping it, in many cases, is its co-dependent relationship with drivers.

Officially, the city laments car use and extols alternatives like cycling. But in practice it is loath to improve conditions for cyclists if it means constricting the flow of cars, such as by removing a car lane to create a physically separated bike lane.

Until the city grasps that it cannot enable the current level of driving and at the same time significantly improve the cycling environment, the transportation commissioner's vision of New York as ''one of the world's great bicycling cities'' will remain just a pleasant fantasy.

Kenneth M. Coughlin Upper West Side

Coughlin was exactly right. The following year, Danish planner Jan Gehl visited New York and helped persuade city leaders to install the country's first parking-protected bike lane on 9th Avenue in 2007. Just as Coughlin's letter argued would be necessary, adding a protected bike lane required removing one of the four lanes that cars had been driving in.

9th Avenue was the spark that lit the fire. Here's what happened next, as documented by mentions of the concept in U.S. newspapers.

Seven years later, protected bike lanes have spread to 24 states and 53 U.S. cities — almost every single one requiring a little less street space to be devoted to cars. Three out of four people who live near the lanes, whether they use them or not, say they want more, and that's exactly what cities are delivering. As you read this, dozens of protected lane projects are nearing completion around the country, from Los Angeles to Boston to Lincoln, Nebraska.

And this week, 9 years and 11 months after Coughlin's letter first appeared on page A15, Bicycling Magazine crowned New York City as the country's bicycle capital.

Never underestimate the power of an extremely good idea.

So thanks, Ken. Looks like we all owe you one.

The Green Lane Project is a PeopleForBikes program that helps U.S. cities build better bike lanes to create low-stress streets. You can follow us on Twitter or Facebook or sign up for our weekly news digest about protected bike lanes. Story tip? Write michael@peopleforbikes.org. Newspapers photo: Brian Dewey.

  

 

04 Sep 18:14

“Farei uma moção de repúdio contra Gilmar Mendes”: Vana Lopes, vítima de Roger Abdelmassih, fala ao DCM

by Pedro Zambarda de Araujo
  Vanuzia “Vana” Leite Lopes, de 54 anos, foi uma das 52 vítimas do médico Roger Abdelmassih e moverá uma moção de repúdio contra o ministro do STF Gilmar Mendes. Ela é advogada e foi agredida pelo réu em 1993, quando o denunciou ao conselho de medicina sem ser ouvida. Em 2008, Vana sofreu um c...
04 Sep 13:30

Por que Marina tergiversa tanto? Porque está na Bíblia

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04 Sep 12:59

O Grêmio mereceu

by Marcos Sacramento
  As agressões racistas da torcida do Grêmio contra o goleiro Aranha, do Santos, provocaram a exclusão do clube gaúcho na Copa do Brasil. A eliminação de uma grande equipe na segunda competição mais importante do calendário nacional por causa do racismo da sua torcida pode alertar os dirigentes para...
04 Sep 12:34

PMs que se recusaram a reprimir protestos são absolvidos

by Redação
Policiais militares paulistas atuam em manifestação.

Policiais militares paulistas atuam em manifestação. Foto: Oswaldo Corneti/ Fotos Públicas

A notícia é da semana passada, mas vale a pena colocar em discussão o tema: dois tenentes da Polícia Militar do Estado de São Paulo foram absolvidos da acusação de se recusarem a cumprir ordens de superiores durante protestos ocorridos em São Paulo. Entenda o caso:

O Tribunal de Justiça Militar absolveu dois tenentes da Polícia Militar que foram acusados de desobediência durante a repressão aos protestos de junho do ano passado. Eles se recusaram a cumprir ordens do Comando da PM, que, segundo a avaliação deles, podiam ferir civis que não cometiam crimes. Até o momento, nenhum caso de PM que agrediu civis durante as manifestações chegou à Justiça Militar.

O Tribunal de Justiça Militar absolveu dois tenentes da Polícia Militar que foram acusados de desobediência durante a repressão aos protestos de junho do ano passado. Eles se recusaram a cumprir ordens do Comando da PM, que, segundo a avaliação deles, podiam ferir civis que não cometiam crimes. Até o momento, nenhum caso de PM que agrediu civis durante as manifestações chegou à Justiça Militar.

Segundo a denúncia contra os PMs, feita pelo promotor de Justiça Militar Adalberto Danser de Sá Júnior, um grupo de PMs havia sido encurralado na Rua Direita, no interior de uma loja, onde “estavam sendo agredidos a pedradas”, nas palavras do promotor.

Para resgatar os PMs, o Comando de Policiamento Metropolitano deu ordem ao capitão Rogério Lemos de Toledo para “dispersar a multidão com forças integradas, com uso de viaturas da Força Tática à frente”. Para a missão, foram destacadas três viaturas.

O primeiro acusado, tenente Paulo Barbosa Siqueira Filho, ainda segundo a denúncia, “se recusou a cumprir a ordem (repassada por Toledo), dizendo que a manobra que lhe fora ordenada poderia machucar os manifestantes”, diz a denúncia.

“A ordem não encontrava previsão no Manual de Controle de Distúrbios Civis da Polícia Militar. Ela expunha os policiais que conduziriam a viatura a risco, uma vez que os manifestantes atiravam pedras. Havia risco também, por isso, de um policial perder controle da viatura caso fosse atingido”, afirmou o advogado de Siqueira, Fábio Menezes Ziliotti.

A recusa de Siqueira fez com que o capitão Toledo desse ordem de prisão ao tenente. Ele mandou o tenente Alex Oliveira de Azevedo, que também estava na operação, prender Siqueira. No entanto, “o tenente Azevedo decidiu ‘passar por cima’ da autoridade do capitão Toledo e decidiu telefonar para um oficial, o coronel Reynaldo (Rossi, então comandante da área), para saber o que deveria fazer”, diz a denúncia.

O coronel mandou o tenente passar o telefone para o capitão, “pois não tinha sentido conversar com um subordinado sobre a conduta do superior”, ainda de acordo com a denúncia do caso. Azevedo acabou sendo denunciado junto. Aquela manifestação ficou marcada pela demora do comando em usar a Tropa de Choque para dispersar a multidão. No fim, 49 pessoas foram presas e duas ficaram feridas.

Já em novembro, durante as investigações do caso, o sargento Iberê Mattei, que testemunhou a confusão entre os oficiais, acabou sendo acusado com os colegas de farda, supostamente por falso testemunho contra o capitão Toledo.

No dia 18 deste mês, ao analisar o caso, o Conselho Especial do Tribunal de Justiça Militar, composto por cinco juízes (quatro deles militares), avaliou que a ordem era um “improviso”, que não estava prevista nos manuais da PM e que tinha “um potencial lesivo considerável”. Assim, Siqueira foi absolvido do crime de desobediência. Azevedo e o sargento ligado ao caso também escaparam de condenação. O trio trabalha normalmente.

O Comando da PM alegou que o Manual de Controle de Distúrbios Civis da PM é sigiloso, por isso se negou a comentar o descumprimento às regras presentes ali. Disse que o abuso não foi punido por falta de testemunhas. “Estranhamente, nenhuma das partes supostamente agredidas por policiais auxiliou a investigação”, disse, em nota.

Fonte: Estadão.

Os fatos abrem campo para discutir a forma de atuação das polícias militares em protestos, e o quanto a doutrina para esses eventos é discutida internamente.

Dica do Capitão Rosuilson

04 Sep 12:31

Câmara dos Deputados do Brasil pede a Dilma Rousseff que reconheça a República Saharaui

by noreply@blogger.com (AAPSO)



EFE – O Governo brasileiro terá que posicionar-se em relação ao conflito do Sahara Ocidental após receber uma petição da Câmara de Deputados para que reconheça o Estado Saharaui e condene as violações de direitos humanos na antiga colónia espanhola, informaram hoje fontes diplomáticas.


A petição da Câmara de Deputados, com o apoio de todos os partidos políticos, foi entregue a semana passada ao Executivo pelo representante da Frente Polisario no Brasil, Mohamed Zrug, que aproveitou a ocasião para conversar sobre o assunto com o vice-ministro para Médio Oriente e África do Ministério de Negócios Estrangeiros do Brasil, Paulo Cordeiro.


"O Brasil defende uma solução justa, pacífica e mutuamente aceite para o território, baseada no princípio da autodeterminação", disseram fontes da chancelaria brasileira consultadas pela agência EFE sobre a petição, embora não tenham esclarecido se o Brasil reconhecerá a República Árabe Saharaui Democrática (RASD).


Na petição os deputados brasileiros pedem por unanimidade [a Câmara de Deputados conta com 513 membros, representando 21 partidos políticos] o estabelecimento de relações diplomáticas com o Estado saharaui e o apoio do Governo de Dilma Rousseff para que a missão da ONU encarregada de organizar o referendo de autodeterminação (MINURSO) inclua no seu mandato a observação dos direitos humanos no Sahara Ocidental.


O deputado Alfredo Sirkis, autor da petição, e um antigo exilado político em Portugal no pós 25 de Abril...

O deputado socialista Alfredo Sirkis, autor da petição aprovada pela Câmara dos Deputados, reconheceu que "existe uma pressão muito forte por parte de Marrocos" para que o Governo brasileiro não reconheça o Estado saharaui.


Nenhum representante do Reino de Marrocos no Brasil acedeu a responder à EFE sobre a decisão da Câmara de Deputados.


Brasil, Argentina e Chile são os únicos países da América Latina que ainda não reconhecem a República Saharaui.



Fonte: ABC

04 Sep 12:00

Leonardo Boff, sobre Marina: “Pobres perderam uma aliada e os opulentos ganharam uma legitimadora”

by Conceição Lemes

leonardoboff1

por Conceição Lemes

Leonardo Boff é um dos mais brilhantes e respeitados intelectuais do Brasil. Teólogo, escritor e professor universitário, expoente da Teologia da Libertação. Ficou conhecido pela sua história de defesa intransigente das causas sociais. Atualmente dedica-se sobretudo às questões ambientais.

Ele conhece Marina Silva, candidata do PSB à Presidência da República, desde os tempos em que ela atuava no  Acre e estava muito ligada à Teologia da Libertação. Acompanhou toda a sua trajetória.

Em 2010, chegou a sonhar com uma representante dos povos da floresta, dos caboclos, dos ribeirinhos, dos indígenas, dos peões vivendo em situação análoga à escravidão,  chegar a presidente do Brasil. Hoje, não.

“Está ficando cada vez mais claro que Marina tem um projeto pessoal de ser presidente, custe o que custar”, observa Boff em entrevista exclusiva ao Viomundo.

Para Boff, Marina acolheu plenamente o receituário neoliberal. 

“Ela o diz com certo orgulho inconsciente, sem dar-se conta do que isso realmente significa: mercado livre, redução dos gastos públicos (menos médicos, menos professores, menos agentes sociais etc), flutuação do dólar e contenção da inflação com a eventual alta de juros”, alerta.  “Como consequência, arrocho salarial, desemprego, fome nas famílias pobres, mortes evitáveis. É o pior que nos poderia acontecer. Tudo isso vem sob o nome genérico de ‘austeridade fiscal’ que está afundando as economias da zona do Euro”.

Sobre a  autonomia do Banco Central prevista no programa de Marina, Boff detona:  “Acho uma falta total de brasilidade. Significa renunciar à soberania monetária do país e entregá-la ao jogo do mercado, dos bancos e do sistema financeiro capitalista nacional e transnacional. A forma como o capital se impõe é manter sob seu controle os Bancos Centrais dos países”.

Veja a íntegra da nossa entrevista. Nela, Leonardo Boff aborda o  recuo de Marina em relação à criminalização da homofobia, a sua trajetória religiosa, a influência de Silas Malafaia, Neca Setúbal (Banco Itaú), Guilherme Leal (Natura) e do economista neoliberal Eduardo Gianetti da Fonseca. Também a autonomia formal do Banco Central e o risco de ela sofrer impeachment.

Viomundo — Na última sexta-feira, Marina lançou o seu programa de governo, que previa o reconhecimento da união homoafetiva e a criminalização da homofobia. Bastou o pastor Malafaia tuitar quatro frases para ela voltar atrás. O que achou dessa postura? É cristão não criminalizar a homofobia, que frequentemente provoca assassinatos?

Leonardo Boff — Está ficando cada vez mais claro que Marina tem um projeto pessoal de ser presidente, custe o que custar. Numa ocasião, ela chegou a declarar que um dos objetivos desta eleição é tirar o PT do poder, o que faz supor mágoas não digeridas contra o PT que ajudou a fundar.

O Malafaia, líder da Igreja Assembleia de Deus à qual Marina pertence, é o seu Papa. O Papa falou, ela, fundamentalisticamente obedece, pois vê nisso a vontade de Deus. E, aí, muda de opinião. Creio que não o faz por oportunismo político, mas por obediência à autoridade religiosa, o que acho, no regime democrático, injustificável.

Um presidente deve obediência à Constituição e ao povo que a elegeu e não a uma autoridade exterior à sociedade.

Viomundo — Qual o risco para a democracia brasileira de alguém na presidência estar submissa a visões tão retrógradas em pleno século XXI, ignorando os avanços, as modernidades?

Leonardo Boff — Um fundamentalista é um dos atores políticos menos indicado  para exercer o cargo da responsabilidade de um presidente. Este deve tomar decisões dentro dos parâmetros constitucionais, da democracia e de um estado laico e pluralista. Este tolera todas as expressões religiosas, não opta por nenhuma, embora reconheça o valor delas para a qualidade ética e espiritual da vida em sociedade.

Se um presidente obedece mais aos preceitos de sua religião do que aos da Constituição, fere a democracia e entra em conflito permanente com outros até de sua base de sustentação, pois os preceitos de uma religião particular não podem prevalecer sobre a totalidade da sociedade.

A seguir estritamente nesta linha, pode acontecer um impeachment à Marina, por inabilidade de coordenar as tensões políticas e gerenciar conflitos sempre presentes em sociedades abertas.

 Viomundo — Lá atrás Marina Silva esteve ligada à Teologia da Libertação. Atualmente, é da Assembleia de Deus. O que o senhor diria dessa trajetória religiosa? O que representa essa guinada para o conservadorismo exacerbado?

Leonardo Boff – Respeito a opção religiosa de Marina bem como de qualquer pessoa. Eu a conheço do Acre e ela participava dos cursos que meu irmão teólogo Frei Clodovis (trabalhava 6 meses na PUC do Rio e 6 meses na igreja do Acre) e eu dávamos sobre Fé e Política e sobre Teologia da Libertação.

Aqui se falava da opção pelos pobres contra a pobreza, a urgência de se pensar e criar um outro tipo de sociedade e de país, cujos principais protagonistas seriam as grandes maiorias pobres junto com seus aliados, vindos de outras classes sociais. Marina era uma liderança reconhecida e amada por toda a Igreja.

Depois, ao deixar o Acre, por razões pessoais, converteu-se à Igreja Assembleia de Deus. Esta se caracteriza por um cristianismo fundamentalista, pietista e afastado das causas da pobreza e da opressão do povo. Sua pregação é a Bíblia, preferentemente o Antigo Testamento, com uma leitura totalmente descontextualizada daquele tempo e do nosso tempo. Como fundamentalista é uma leitura literalista, no estilo dos muçulmanos.

Politicamente tem consequências graves: Marina pôs o foco no pietismo e no fundamentalismo, na vida espiritual descolada da história presente e quase não fala mais da opção pelos pobres e da libertação. Pelo menos não é este o foco de seu discurso.

A libertação para ela é espiritual, do pecado e das perversões do mundo. Com esse pensamento é fácil ser capturada pelo sistema vigente de mercado, da macroeconomia neoliberal e especulativa.

Isso é inegável, pois seus assessores são desse campo: a herdeira do Banco Itaú Maria Alice (Neca), Guilherme Leal da Natura e o economista neoliberal Eduardo Gianetti da Fonseca. Os pobres perderam uma aliada e os opulentos ganharam uma legitimadora.

E eu que em 2010 sonhava com uma representante dos povos da floresta, dos caboclos, dos ribeirinhos, dos indígenas, dos peões vivendo em situação análoga à escravidão, dos operários explorados das grandes fábricas, dos invisíveis, alguém que viria dos fundos da maior floresta úmida do mundo, a Amazônia, chegar a ser presidente de um dos maiores países do mundo, o Brasil?! Esse sonho foi uma ilusão que faz doer até os dias de hoje. Pelo menos vale como um sonho que nunca morre!

Viomundo — O programa de Marina prevê autonomia ao Banco Central. O que acha dessa medida?

Leonardo Boff — Eu me pergunto, autonomia de quem e para quem?

Acho uma falta total de brasilidade. Significa renunciar à soberania monetária do país e entregá-la ao jogo do mercado, dos bancos e do sistema financeiro capitalista nacional e transnacional. Um presidente/a é eleito para governar seu povo e um dos instrumentos principais é o controle monetário que assim lhe é subtraído. Isso é absolutamente antidemocrático e comporta submissão à tirania das finanças que são cada vez mais vorazes, pondo países inteiros à falência como é o caso da Grécia, da Espanha, da Itália, de Portugal e outros.

Viomundo — Essa medida expressa a influência de Neca Setúbal, herdeira do Itaú, no seu futuro governo?

Leonardo Boff — Quem controla a economia controla o país, ainda mais que vivemos numa sociedade de “Grande Transformação” denunciada pelo economista húngaro-americano Karl Polaniy ainda em 1944 quando, como diz, passamos de uma sociedade com mercado para uma sociedade só de mercado. Então tudo vira mercadoria, inclusive as coisas mais sagradas como água, alimentos, órgãos humanos.

A forma como o capital se impõe é manter sob seu controle os Bancos Centrais dos países. A partir desse controle, estabelecem os níveis dos juros, a meta da inflação, a flutuação do dólar e a porcentagem do superávit primário (aquela quantia tirada dos impostos e reservada para pagar os rentistas, aqueles que emprestaram dinheiro ao governo).

Os bancos jogam um papel decisivo, pois é através deles que se fazem os repasses dos empréstimos ao governo e se cobram juros pelos serviços. Quanto maior for o superávit primário a alíquota Selic mais lucram. Pode ser que a citada Neca Setúbal tenha tido influência para que a candidata Marina acreditasse neste receituário, velho, antipopular, danoso para as grandes maiorias, mas altamente benéfico para o sistema macroeconômico vigente.

Viomundo — As avaliações feitas até agora mostram que o programa econômico de Marina é o mesmo de Aécio Neves, candidato do PSDB à Presidência. São neoliberais. O que representaria para o Brasil o retorno a esse modelo? O senhor acha que, se eleita, o governo Marina teria conotações neoliberais?

Leonardo BoffMarina acolheu plenamente o receituário neoliberal. Ela o diz com certo orgulho inconsciente, sem dar-se conta do que isso realmente significa: mercado livre, redução dos gastos públicos (menos médicos, menos professores, menos agentes sociais etc), flutuação do dólar e contenção da inflação com a eventual alta de juros.

Como consequência, arrocho salarial, desemprego, fome nas famílias pobres, mortes evitáveis. É o pior que nos poderia acontecer. Tudo isso vem sob o nome genérico de “austeridade fiscal” ,que está afundando as economias da zona do Euro e não deram certo em lugar nenhum do mundo, se olharmos a política econômica a partir da maioria da população. Dão certo para os ricos que ficam cada vez mas ricos, como é o caso dos EUA onde 1% da população ganha o equivalente ao que ganham 99% das pessoas. Hoje os EUA são um dos países mais desiguais do mundo.

Viomundo – Foi amplamente divulgado que Marina consulta a Bíblia antes de tomar decisões complexas. Esta visão criacionista do mundo é compatível com um mundo laico?

Leonardo Boff — O que Marina pratica é o fundamentalismo. Este é uma patologia de muitas religiões, inclusive de grupos católicos. O fundamentalismo não é uma doutrina. É uma maneira de entender a doutrina: a minha é a única verdadeira e as demais estão erradas e como tais não têm direito nenhum.

Graças a Deus que isso fica apenas no plano das ideias. Mas facilmente pode passar para o plano da prática. E, aí, se vê evangélicos fundamentalistas invadirem centros de umbanda ou do candomblé e destruírem tudo ou fazerem exorcismos e espalharem sal para todo canto. E no Oriente Médio fazem-se guerras entre fundamentalistas de tendências diferentes com grande eliminação de vidas humanas como o faz atualmente o recém-criado Estado Islâmico. Este pratica limpeza étnica e mata todo mundo de outras etnias ou crenças diferentes das dele.

Marina não chega a tanto. Mas possui essa mentalidade teologicamente errônea e maléfica. No fundo, possui um conceito fúnebre de Deus. Não é um Deus vivo que fala pela história e pelos seres humanos, mas falou outrora, no passado, deixou um livro, como se ele nos dispensasse de pensar, de buscar caminhos bons para todos.

O primeiro livro que Deus escreveu são a criação e a natureza. Elas estão cheias de lições. Criou a inteligência humana para captarmos as mensagens da natureza e inventarmos soluções para nossos problemas.

A Bíblia não é um receituário de soluções ou um feixe de verdades fixadas, mas uma fonte de inspiração para decidirmos pelos melhores caminhos. Ela não foi feita para encobrir a realidade, mas para iluminá-la. Se um fundamentalista seguisse ao pé da letra o que está escrito no livro Levítico 20,13 cometeria um crime e iria para a cadeia, pois aí se diz textualmente:  “Se um homem dormir com outro, como se fosse com mulher, ambos cometem grave perversidade e serão punidos com a morte: são réus de morte”.

Viomundo — Marina fala em governar com os melhores. É possível promover inclusão social, manter políticas que favorecem os mais pobres com uma política econômica neoliberal?

Leonardo Boff — Marina parece que não conhece a realidade social na qual há conflitos de interesses, diversidade de opções políticas e ideológicas, algumas que se opõem completamente às outras.

Lendo o programa de governo do PSB de Marina parece que fazemos um passeio ao jardim do Éden. Tudo é harmonioso, sem conflitos, tudo se ordena para o bem do povo. Se entre os melhores estiver um político, para aceitar seu convite, deverá abandonar seu partido e com isso, segundo a atual legislação, perderia o mandato.

Ela necessariamente, se quiser governar, deverá fazer alianças, pois temos um presidencialismo de coalizão. Se fizer aliança com o PMDB deverá engolir o Sarney, o Renan Calheiros e outros exorcizados por Marina. Collor tentou governar com base parlamentar exígua e sofreu um impeachment.

Viomundo — Marina é preparada para presidir um país tão complexo como o Brasil?

Leonardo Boff — Eu pessoalmente estimo sua inteireza pessoal, sua visão espiritualista (abstraindo o fundamentalismo), sua busca de ética em tudo o que faz. Estimo a pessoa,  mas questiono o ator político. Acho que não tem a inteligência política para fazer as alianças certas. O presidente deve ser uma pessoa de síntese, capaz de equilibrar os interesses e resolver conflitos para que não sejam danosos e chegar a soluções de ganha-ganha. Para isso precisa-se de habilidade, coisa que em Lula sobrava. Marina, por causa de seu fundamentalismo, não é uma pessoa de síntese,  mas antes de divisão.

Viomundo — A preservação efetiva do meio ambiente é compatível com o capitalismo selvagem dos neoliberais?

Leonardo Boff — Entre capitalismo e ecologia há uma contradição direta e fundamental. O capitalismo quer acumular o mais que pode sem qualquer consideração dos bens e serviços limitados da Terra e da exploração das pessoas. Onde ele chega, cria duas injustiças: a social, gerando muita pobreza de um lado e grande riqueza do outro; e uma injustiça ecológica ao devastar ecossistemas e inteiras florestas úmidas.

Marina fala de sustentabilidade, o que é correto. Mas deve ficar claro que a sustentabilidade só é possível a partir de outro paradigma que inclui a sustentabilidade ambiental, político-social, mental e integral (envolvendo nossa relação com as energias de todo o universo).

Portanto, estamos diante de uma nova relação para com a natureza e a Terra, onde as medidas econômicas preconizadas por Marina contradizem esta visão. Temos que produzir, sim, para atender demandas humanas, mas produzir respeitando os limites de cada ecossistema, as leis da natureza e repondo aquilo que temos demasiadamente retirado dela.

Marina quer a produção sustentável, mas mantém a dominação do ser humano sobre a natureza. Este está dentro da natureza, é parte dela e responsável por sua conservação e reprodução, seja como valor em si mesmo, seja como matriz que atende nossas necessidades e das futuras gerações.

Ocorre que atualmente o sistema está destruindo as bases físico-químicas que sustentam a vida. Por isso, ele é perigoso e pode nos levar a uma grande catástrofe. E com certeza os que mais sofrerão, serão aqueles que sempre foram mais explorados e excluídos do sistema. Esta injustiça histórica nós não podemos aceitar e repetir.

Leia também:

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04 Sep 11:57

Um mito e algumas verdades sobre os tributos no Brasil

by justicafiscal
Debate questiona crença segundo a qual carga tributária brasileira é “altíssima”. Problema real é outro: ricos e poderosos pagam pouquíssimo; somos o país dos impostos injustos Ao longo do processo eleitoral deste ano, um mito voltará a bloquear o debate sobre a construção de uma sociedade mais justa. Todas as vezes em que se lançar […]
02 Sep 22:20

Casa Grande aluga Senzala loft a R$ 2.754,00

by Luiz Carlos Azenha

Sugerido por leitora do Facebook, que prefere não se indentificar

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Revista Época: 1. Terríveis dúvidas sobre o rumo ideológico do PT, como se eles, sim, fossem de esquerda; a educadora — e, assim, “só de passagem”, acionista do Banco Itaú, aquele, dos lucros bilionários – se educou nas Ciências Sociais da USP!

Estadão:  2. A educadora tem outra fonte de renda, ainda que indireta, com o marido de sobrenome quatrocentão (não foi possível checar se também é socialista). Assim o jornal descreveu:

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Trata-se da Fazenda Capoava, onde dentre outras escolhas você pode se sentir, em meio a uma decoração charmosa, um verdadeiro escravo:

Captura de Tela 2014-09-01 às 15.55.41

O hóspede pode escolher entre a senzala padrão e a senzala loft que, presumimos, deve ser algo com um toque novaiorquino, que ninguém é de ferro.

Ah, sim, para os que se interessarem — quem foi diz que é muito bonito e vale a pena –, o valor para um casal passar o fim de semana na Senzala Loft é de R$ 2.754,00.

Por telefone, checamos: não há desconto para socialistas.

Leia também:

Mídia chapa branca não fala em obra fake de Alckmin

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02 Sep 22:17

25 anos

by Francisco Seixas da Costa
Em 2014, deveríamos estar a celebrar a passagem de 25 anos sobre o fim do muro de Berlim, símbolo da Guerra Fria. Ora a verdade é que, pelo contrário, estamos a assistir à rápida reconstituição de um novo cenário de elevada tensão.



A Guerra Fria havia criado algumas “regras” na ordem internacional, numa leitura quase comum que ambos os lados iam aceitando daquilo que Ialta tinha desenhado. Fora desse indizível consenso, em várias zonas do mundo, onde conflituavam os poderes, continuaram-se a medir regularmente as forças, com avanços e recuos estratégicos que acabaram por evoluir de forma muito díspar.



O final da União Soviética mudou tudo isso e uma apressada revisão estratégica fez desaparecer quase todas as anteriores “regras”. Do lado ocidental, tudo foi visto como uma vitória, com maior ou menor exaltação. Do lado de Moscovo, nenhuma alegria foi partilhada e, pelo contrário, o fim do país foi sentido, pelos russos, como uma humilhação nacional.  



Aproveitando a janela de oportunidade criada pela fragilidade conjuntural de Moscovo, o Ocidente cuidou em alargar o seu modelo de segurança e de desenvolvimento a Estados do centro e leste do continente, na NATO e na União Europeia. Com os EUA como claro “backseat driver”, os europeus entenderam – e bem – que o acolhimento das novas democracias nesses “clubes” era, para além de um imperativo estratégico, um gesto de justiça histórica. Como forma de “compensação”, a Rússia seria cooptada para modelos de diálogo e cooperação cada vez mais integrados. Até na NATO, que mudaria de paradigma e que quase já só se preocupava com questões “out of area”. A UE deixou-se cair num diálogo economicista com Moscovo, descansada na miragem liberal de que já não pode haver guerras entre países onde se vendem Mac’Donalds.



A ressaca histórica russa gerou, entretanto, Vladimir Putin, que foi dando iniludíveis sinais da reconstituição de um modelo autoritário com que o Ocidente fingia poder ir convivendo. Do lado de cá, os traumas históricos bálticos e polacos, com uma cumplicidade errática de Berlim, foram influenciando a UE no sentido de “esticar a corda” com Moscovo. E viu-se então o espetáculo de Bruxelas a estimular, na Ucrânia, o derrube, por um golpe de Estado, de um presidente que havia sido democraticamente eleito, como forma a garantir em Kiev um governo favorável à relação privilegiada com o Ocidente.



A UE já havia sido complacente no modo inaceitável como as minorias russas foram tratadas nos Estados bálticos e, de forma irresponsável, nada cuidou em as tentar proteger na “nova” Ucrânia. O resultado está à vista: deu um pretexto nacionalista a Putin, para quem um tratado de Direito internacional é uma obra de ficção, e ao proteger sem limites nem moderação a tática prevalecente em Kiev, colocou-nos agora na soleira de uma guerra. Para regredirmos 25 anos, já só falta fazer ingressar a “Ucrânia de Kiev” na NATO.
Texto do artigo que hoje publico no "Diário Económico"
02 Sep 22:06

Marina tomou decisão sobre biografia depois de roleta bíblica

by Luiz Carlos Azenha

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Da página 20 do livro de Marília de Camargo César, “Marina”

PS do Viomundo: É curioso como muitos governantes tem seus rituais antes de tomar decisões. O presidente José Sarney consultava regularmente um jornalista-astrólogo. O presidente Ronald Reagan, depois da tentativa de assassinato à qual sobreviveu, em Washington, consultava através da primeira dama Nancy Reagan a astróloga Joan Quigley. No caso de George W. Bush, ex-alcoólatra que se tornou evangélico, também buscava inspiração divina antes de decisões importantes, como a da invasão do Iraque, que por baixo custou 200 mil mortes documentadas. Já Barack Obama, também segundo assessores, meditava com textos de São Tomás de Aquino antes de despachar drones para bombardear regiões remotas do Paquistão e Afeganistão, na qual morreram suspeitos de terrorismo mas também muitos civis. No caso do Brasil, mesmo uma decisão aparentemente simples de Marina Silva depende de ouvir Deus, mas através da chamada “roleta bíblica”.

Veja também:

Marina Silva: Deus criou tudo, inclusive a teoria que desafia a Criação

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02 Sep 01:25

Nós e a guerra que anda por aí

by Francisco Seixas da Costa
O meu amigo JP Garcia "desafia-me" a escrever sobre o que se passa na Ucrânia. Que posso dizer que já não tenha aqui escrito, há semanas atrás? Nada do que está a passar-se me surpreende, desde a atitude russa à reação dita ocidental, com relevo para o esbracejar patético da Europa e o franzir de sobrolho do SG da NATO.

Se eu disser - como penso - que a UE está "a colher aquilo que plantou", ao ter apoiado o derrube de um presidente legitimamente eleito e ter estimulado uma "escolha" estratégica por Kiev que um mínimo de razoabilidade política assumiria sempre como inviável, sem cuidar minimamente do estatuto das minorias russas (como também faz dolosamente em alguns Estados bálticos), serei considerado um "agente ao serviço de Moscovo".

Se eu disser - como penso - que Putin mantém a tradicional estratégia de destabilização do "near abroad" ex- soviético, que passou já algumas "red lines" que justificam plenamente as sanções que a Rússia está a sofrer e que devem ser agravadas e que, com o seu comportamento dúplice, mostra que a Rússia deixou de ser um parceiro fiável e que é necessário rever rapidamente o conceito estratégico da NATO, para não deixar os acontecimentos correrem à vontade do seu autoritarismo, vou ser crismado de "agente do imperialismo americano".

Se eu disser  - como penso - que ainda não percebi bem o que pensa Portugal (na UE e na NATO) sobre tudo isto, salvo que me parece que segue uma linha de "Maria vai com as outras", mandando uns soldadinhos e um C-130 para que lhe não marquem falta, fugindo entre os pingos da chuva da política europeia e euroatlântica, esperando que não se lembrem muito de nós, são capazes de me chamar anti-patriótico e de estar a pôr em causa a nossa "tradicional política de alianças" - que é, as mais das vezes, uma mera coreografia seguidista, sem opinião nem rumo próprio, rogando aos céus que não nos peçam para fazer muito.

Nestas condições, para que vale a pena eu estar aqui a "chover no molhado"?
02 Sep 01:04

Marina sai menor de debate dominado por juros; Aécio em saia justa

by Luiz Carlos Azenha

dilma e aécio

No SBT, ambos avançaram

por Luiz Carlos Azenha

O fato de que os juros bancários e o papel dos banqueiros na economia brasileira dominaram boa parte das falas dos sete candidatos no debate do SBT fez com que a candidata socialista, Marina Silva (PSB), saísse dele menor.

O assunto foi tratado, direta ou indiretamente, pelos candidatos Eduardo Jorge (PV), Luciana Genro (PSOL), Levy Fidelix (PRTB) e Dilma Rousseff (PT).

Marina, que sempre surfou em sua origem humilde, desta vez teve o nome e o projeto político associados a juros e banqueiros.

Fidelix chegou a nomear duas pessoas próximas a Marina — o empresário Guilherme Leal, da Natura, e a educadora Maria Alice Setubal, a Neca, acionista do banco Itaú — como devedores de impostos à União.

Embora não o tenha feito de forma didática, Dilma criticou a proposta de Marina de dar autonomia ao Banco Central. No governo Dilma a decisão do Banco Central de aumentar ou não os juros é tomada depois de consultas ao mercado. Num eventual governo Marina, o BC teria autonomia para fazê-lo independentemente da população ou de seus representantes eleitos.

Eduardo Jorge teve a melhor apresentação individual no debate, considerando a coerência e a ênfase com que defendeu pontos polêmicos. Por exemplo, creditou a falta de apoio popular a duas de suas propostas — descriminalização das drogas e direito à interrupção da gravidez — à falta de coragem dos políticos de debater o assunto com a população. Explicou bem o domínio dos dez maiores bancos sobre a economia brasileira e prometeu reduzir os juros. Na mesma linha, Luciana Genro afirmou acreditar que Dilma, Marina e Aécio são irmãos siameses, ou seja, representam todos interesses de banqueiros.

O maior confronto se deu entre as candidatas que lideram as pesquisas, com Marina afirmando que Dilma fracassou na economia e esta sugerindo que Marina usa “frases de efeito e frases genéricas”, típicas de campanha eleitoral, mas não sabe governar.

Diferentemente do que aconteceu no debate da Band, no debate do SBT os jornalistas se destacaram por perguntas apropriadas, duras e pertinentes, com destaque para Fernando Rodrigues, Fernando Canzian e Kennedy Alencar.

Alencar, que sugeriu ao candidato do PRTB que ele liderava uma legenda de aluguel, foi chamado por Levy Fidelix de “língua de aluguel” e “língua de trapo”.

Fernando Rodrigues encaixou um direto no rosto do pastor Everaldo (PSC), ao revelar que o candidato já foi acusado de agressão por uma mulher com a qual se relacionou. Ao informar que foi absolvido, o defensor dos “valores da família” acabou admitindo que seu primeiro casamento não deu certo, que tinha mesmo namorado a acusadora mas que agora, sim, estava casado de maneira estável. Fernando Rodrigues, de forma sagaz, escolheu Aécio Neves para comentar o assunto – o jornalista Juca Kfouri, do UOL, informou em seu blog que o tucano teria cometido, em 2009, uma “covardia” com uma “acompanhante” num evento no Rio. Foi a saia justa da noite. Aécio mudou de assunto.

A frase de efeito que marcou o debate partiu de Luciana Genro, que perguntou a Marina: “Tu és mesmo a segunda via do PSDB?”. Luciana também questionou o fato de Marina ter mudado seu programa de governo, no trecho que defendia o casamento entre pessoas do mesmo sexo, por pressão do pastor Silas Malafaia, ao que a socialista disse que tinha sido um erro “da equipe” responsável pelo processo.

Aécio Neves aproveitou sua fala final, quando já não havia direito de resposta, para alfinetar Marina Silva e dizer que ele, sim, é uma alternativa segura de mudança.

No conjunto da obra, é opinião deste blog que Marina Silva saiu menor que entrou no debate, por dois motivos: entrou no rol dos que defendem os banqueiros e sofreu acusações de que muda de posição de acordo com o vento.

Além disso, perdeu o debate com Dilma quando ambas trataram do pré-sal, especialmente quando a presidente informou que em breve o Brasil será o segundo maior produtor mundial de energia eólica.

Tanto a presidente Dilma quanto Aécio Neves sairam maiores, com o tucano se apresentando melhor que Dilma no geral, embora tenha perdido para a presidente o confronto específico que ambos travaram — sobre investimentos federais em transporte público.

PS do Viomundo: O leitor Ricardo quer saber qual é a minha métrica. Certamente não é a moral, pois nunca me considerei Deus para julgar a moralidade alheia. É apenas e tão somente minha percepção como eleitor e telejornalista com alguma experiência nas costas. Eu sempre achei que as tendências eleitorais levam um tempo para se cristalizar. Nunca subestimei a capacidade do chamado “povão” de decidir. Seria condescendente fazê-lo. Em minha opinião, o eleitor pergunta: vai mudar para melhor ou para pior? Dilma ainda não conseguiu suscitar esta dúvida. Pode ser por incompetência, mas acho que é estratégia de deixar mais para perto da eleição. Pelo menos no SBT, acho que Aécio foi bem mais convincente que Marina como “candidato da mudança”.

Leia também:

Priscila Silva: Candidato, esqueça minha família e cuide da sua. Grata

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01 Sep 13:20

Pedalar nos mostra o óbvio

by João Lacerda
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Placa proíbe pedalar em ciclopassarela. Foto: Renata Falzoni/Bike é Legal

Um flagrante jornalístico em São Paulo mostrou com clareza a mudança de visão que uma bicicleta é capaz de causar. Na inauguração de uma “ciclopassarela”, o prefeito de São Paulo deparou-se com a placa de “proibido pedalar na passarela”. Placa da mesma natureza das “pare e desça da bicicleta” que ainda são vistas nas cidades brasileiras.

Governar o mundo através de placas parece ser um vício brasileiro. É possível encontrar regras afixadas em locais públicos exigindo uma imensa diversidade de comportamentos. A bicicleta nesse contexto é o veículo perfeito para marcar o óbvio, tal e qual a água que escorre pelo caminho mais rápido e confortável, o ciclista procura ser sempre ágil e minimizar o próprio esforço.

O planejamento cicloviário sofre ainda hoje para enxergar, de dentro dos gabinetes, o ser humano que irá conduzir a bicicleta. Acima do que se deseja como conduta, é preciso entender a necessidade de sermos simples.

No caso da ciclopassarela foi preciso o prefeito da cidade mostrar o óbvio, do contrário seguranças estariam de prontidão para reforçar a regra imposta pela placa. E o que talvez seja pior, haveria uma enormidade de ciclistas dispostos a cumprir a regra simplesmente porque foi escrita uma placa.

Assista o momento da descoberta do óbvio:

Veja também como foi a inauguração da ciclopassarela.

01 Sep 13:17

Tirinha Policial (110)

by Danillo Ferreira
Tirinha Policial

Do Andre Dahmer

*Tirinha Policial é uma série de posts publicados no blog Abordagem Policial, com tirinhas ou charges que se relacionam direta ou indiretamente com o contexto da segurança pública.

01 Sep 13:06

Elite brasileira é quem paga menos impostos

by justicafiscal
O Ciclo de Debates sobre Democracia Econômica, promovido pela Fundação Perseu Abramo (FPA) em parceria com a campanha Taxas sobre Transações Financeiras (TTF-Brasil) teve nova sessão no dia 29 de agosto e debateu “O país dos impostos injustos: a urgência da Reforma Tributária”. A terceira sessão foi coordenada pelo jornalista Antonio Martins. O economista Evilásio […]
31 Aug 22:03

NÃO ÉRAMOS FELIZES

by lola aronovich
Parece que esta era a única felicidade para muitas avós

O post sobre os tempos da vovó rendeu comentários tão fantásticos que vou publicá-los em duas vezes, porque foi impossível escolher apenas uns poucos. 

Lei do Divórcio é sancionada no
Brasil em 1977: conquista feminista
"Minha mãe andou dizendo que antigamente é que era bom. Mas assim que eu contei que se tivesse nascido na época em que ela disse que queria nascer ela ainda teria que ser casada com meu pai, porque não existia divórcio e nem poderia trabalhar fora sem a permissão dele... bom, digamos que isso foi o suficiente pra ela ver o quanto as coisas são melhores pra gente agora nesta época." (Anônimo)

"Só diz que antes era melhor quem nunca conversou com a própria avó, fato. A minha, como a maioria, apanhou, foi sexualmente abusada, foi proibida de trabalhar... e foi muito guerreira, brigando com o portuga doido que era meu avo pra minha mãe poder fazer faculdade (ele queria proibir, porque achava que mulher não tinha que estudar). 
Cresci ouvindo as histórias dela. E por ter crescido vendo tudo isso, minha mãe se tornou militante feminista nos anos 80. Pude ver como a vida dela (com uma carreira, um relacionamento mais equilibrado com meu pai, mais autoestima) foi muito melhor que a da minha avó. Qualquer mulher que observar esses exemplos na própria família vai ver que precisa SIM do feminismo." (Maria Fernanda Lamim)

"Meus avôs se separaram na década de 70, depois de mais de 25 anos casados. Minha avó sofreu muito com ele, apanhava, sofria humilhações etc. No fim foi meu avô quem pediu a separação. E todos os filhos, 5 mulheres e 3 homens, na época jovens de 20 e poucos anos, se revoltaram com a minha avó. A coitada vivia e continuou vivendo uma vida miserável, porque os filhos não aceitaram a separação. Meu avô foi morar longe e não escutava as barbaridades ditas pelos filhos. 
Depois de alguns anos minha avó arrumou um namorado e queria se casar de novo. Quem disse que os filhos permitiram? Fizeram um escândalo e proibiram minha avó de encontrar o pretendente. Hoje minha avó é uma mulher extremamente amargurada. Hoje os filhos se arrependem muito de não ter deixado seguir o relacionamento, porque ninguém tem tempo de cuidar dela. Às vezes não são apenas os maridos que destroem a vida das mulheres, alguns filhos contribuem também." (Anônimo)

"Minha mãe conta que quando a minha avó se casou com o meu avô, na noite de núpcias, minha avó não sangrou. Então meu avó a levou numa delegacia para que fosse comprovada a virgindade dela. Ela tinha o hímen complacente. Precisou passar por uma espécie de exame de corpo de delito para atestar que era pura. Já imaginaram a humilhação?
Meu avô era policial em SP, minha avó costurava camisas para as lojas do Brás. Ela estudou até a terceira série.
Minha mãe é a mais velha de sete irmãos, ela conta que cada vez que a minha avó engravidava, ela ficava louca de raiva. De ter mais um filho com o meu avô. Brigavam o tempo todo. Meu avô bebia. Os filhos apartavam o pai com faca, revólver. Numa briga com a minha avó ele deu um tiro, pegou na parede do quarto onde eu estava, dentro do carrinho de bebê.
Foi assim desde que me entendo por gente. Ele já aposentado, mal parava em casa, vivia nos botecos até cair. Quando queria, pegava um trem ou ônibus e ia visitar parentes no RS, ficava fora por meses.
Minha avó foi uma pessoa amargurada. Ela renasceu quando entrou para um grupo da terceira idade. Meu avô, já doente, não conseguiu impedir que ela frequentasse o grupo, mas desmerecia tudo que ela fazia lá. Lá ela teve amigas, viajou muito, aprendeu a fazer ótimas fotografias, fez teatro e descobriu um dom: fazia poesias.
Ela descobriu um câncer intestinal, operou, mas ainda no hospital optou por não se alimentar. Ela não queria voltar para casa. Apesar do médico garantir que nem quimio ela ia precisar, só da possibilidade dela ficar presa em casa com o meu avô, ela desistiu de viver. Foi preciso por sonda alimentar, ela não comia. Mas aí era tarde. Ela morreu há 6 anos. Meu avô, ano passado.
Pra ela a vida de antigamente não foi nada boa.
Eu prefiro a vida hoje. Eu posso estudar, trabalhar, votar, posso casar ou não, me separar, posso falar. Preciso lutar por tudo isso. Foi e é preciso lutar por tudo isso.
Por outro lado, minha sogra admira uma conhecida dela, senhora bem idosa que tem nas palavras dela 'uma pele linda, quase sem rugas'. Por que? Porque diz que o marido foi muito bom pra ela, não deixou faltar nada em casa, ela nunca precisou trabalhar, nem 'passar nervoso', por isso está tão conservada. Já minha cunhada de 27 anos, sonha com o dia que conhecer um homem rico pra não precisar trabalhar, já que ela acha que mulher não tinha que trabalhar fora.
São opiniões completamente diferentes, mas eu ainda penso que graças à luta das mulheres hoje temos a escolha, podemos decidir.
Finalizo com um exemplo da minha mãe: uma vez, numa viagem de férias com meus pais e tios, paramos em Joinville. Entramos numa loja linda de roupas bordadas. Minha mãe e minha tia viram um roupão de banho lindo, todo bordado. Minha mãe escolheu o dela, fez o cheque e pagou (ela, hoje aposentada, trabalhou em banco). Minha tia é esposa de médico, nunca trabalhou fora, mas sempre estava lá com a casa impecável, as roupas brancas do meu tio um brinco, os filhos bem cuidados. 
Ela pegou o roupão que tinha gostado e pediu pro meu tio comprar, ele disse não. Eles têm muito dinheiro, mas mesmo assim, ele disse não. Nunca vou esquecer o rosto dela, o jeito que ela se encolheu e devolveu a peça.
Desculpem... eu prefiro o hoje e sonho com um amanhã melhor." (Freda)

"Isso me lembra a avó de uma colega de trabalho. Ela dizia que a mulher tinha que ser uma puta na cama para satisfazer o homem. Minha colega então perguntou-lhe que, sendo assim, ela deve ter tido muitos orgasmos. E ela perguntou: o que era isso? Minha colega, então, ensinou-lhe como consegui-los. E foi assim, depois de viúva, ela experimentou o orgasmo pela masturbação. Se o avô dela fosse mais carinhoso com a esposa e 'puto', como ela era com ele, ela poderia conhecer esse tal de orgasmo há muito mais tempo.
Muito fácil rotular uma mulher que não sente prazer na cama como frígida. Pudera, ser tratada mal não é afrodisíaco nenhum e só faz tremer de raiva e/ou frustração." (Hammandah)

"Vejo várias pessoas falando que 'também existiam mulheres felizes antigamente', mas a maioria dos exemplos aqui é de mulheres que sofreram nas mãos dos maridos machistas. 
A minha avó materna, por exemplo, foi uma delas. Ela morreu quando eu era muito nova, então quem me contou a história dela foi a minha mãe, por isso não tem muitos detalhes. Mas os danos causados por um marido machista estão lá, sim. 
Meu avô era muito rígido com os filhos, as meninas nunca podiam fazer o que os meninos podiam. Ele costumava beber, chegar em casa alterado e bater muito nas crianças. Pelo que minha mãe contou, um dia ele tentou agredir a minha avó. Ela estava na cozinha, pegou um pedaço de madeira em brasa, bateu nele com toda a força e fez com que ele caísse de uma escada pequena que tinha na casa. Meu avô não sofreu nada muito grave, mas depois disso, ele nunca mais tentou bater na minha avó. Não sei se ele a agrediu antes, provavelmente sim, mas eu não quis perguntar para a minha mãe.
Por causa dos gastos com álcool e outras dívidas, meu avô perdeu tudo o que a família tinha, inclusive a casa. Precisaram morar de favor por muito tempo. Minha avó ajudava com as despesas ganhando dinheiro com costura e cozinhando para fora, mas era uma vida muito difícil...
Meu avô morreu muito antes de eu nascer, não sei como a minha avó viveu desde a morte dele, provavelmente melhor, mas tendo que batalhar muito para criar 6 filhos. 
Não consigo imaginar como alguém pode dizer que viver dessa maneira pode ter sido 'bom."

"Minha tia-avó também passou um casamento muito difícil, o marido dela viajava e demorava muito tempo para voltar. Ela não trabalhava, mesmo sendo uma das melhores alunas da escola. Eu ainda me lembro que quando ela teve sua primeira menstruação nem sabia o que era aquilo, de tanto tabu acerca disso, mas foram as amigas dela da escola que a tranquilizaram e explicaram para ela. O marido morreu até cedo para os padrões da época, e quando apareceu outro homem querendo se relacionar com ela, ela nem quis saber, disse que nunca vai se casar de novo e que não quer saber mais de homem." (Anônimo)

"Minha amiga tem uma avó relativamente jovem -- teve a mãe dela jovem, a mãe dela foi mãe adolescente. O avô da minha amiga era um bêbado, que batia nos filhos e na mulher, mas daqueles que no fim da vida se arrependeu. A avó da minha amiga virou viúva relativamente cedo (uns 60 anos).
Num dia de semana, seis horas, a avó da minha amiga acorda ela de manhã, segurando o pãozinho do café. As duas se sentaram à mesa sozinhas. E a avó dela confessou que conheceu um senhor num clube de dança, e, meio tímida, comentou que tinha acabado de ter o primeiro orgasmo da vida dela. Ela passou a noite fora conhecendo um prazer do qual ela nunca tinha experimentado.
Isso mudou a vida dela. Ela rejuvenesceu uns 20 anos do dia pra noite. Deixou o cabelo bonito, comprou roupas novas e lindas que ela sempre quis ter, e foi lá ser feliz com o namorado novo, aproveitando uma coisa que ela nunca tinha aproveitado antes.
Foi uma história bonitinha.
Minha avó não quer mais homem nem pintado de ouro. Vários senhores já foram até que bem desrespeitosos dizendo que ela 'tava inteirona', meu avô já chegou na casa dela, tirou toda a roupa ('Mari, ele ficou pe-la-di-nho!') e ela expulsou ele sem pensar duas vezes. O negócio dela é ficar sozinha e aproveitar o tempo com as coisas que ela ama. E eu apoio, apesar dela não cozinhar mais aqueles doces incríveis nas festas de família, que, segundo ela, eram 'pura encheção de saco', hahahaha" (Normalidaderealidade)
31 Aug 21:54

Antônio David: Será que Marina também quer unir Malafaia e Jean Wyllis?

by Conceição Lemes

silas e wyllys

por Antônio David, especial para o Viomundo

Tendo recuado diante da movimentação de um representante da velha política e do velho fanatismo – Silas Malafaia -, Marina Silva apelou na hora de justificar.

Ela quer convencer os eleitores de que, na verdade, não houve recuo, mas apenas um mal-entendido, gerado exatamente – pasmem! – pela maneira de proceder da “nova política”.

“Na parte LGBT, o texto que foi para redação foi a parte apresentada pelos movimentos sociais. Todos os movimentos sociais apresentaram propostas e se contemplou tanto quanto possível as propostas” – disse a ex-senadora.

Marina quer fazer do limão uma limonada. Quer aproveitar a vexatória situação para tirar proveito e alimentar a (falsa) ideia de que, notem bem, sua candidatura é “aberta a propostas”. Afinal, seu partido não é bem um partido, mas uma “rede”. Na hora de compilar as propostas, a “rede” se confundiu. Deixou passar o que não deveria ter passado.

Reparem bem: o mal-entendido teria sido causado pelo fato de sua candidatura ser… boa demais! É tão boa, tão boa, tem tantas propostas vindas de tantos lugares, de tantos setores, de tantas pessoas… que ela até se confundiu, de tanta participação!

Seu demérito é, na verdade, um mérito.

Seu vício, uma virtude.

(Uma desculpa típica da velha política).

No final, para coroar, Marina solta: “Estado laico para defender os interesses de quem crê e de quem não crê”.

Que bonito!

Resta saber no que consistem os “interesses de quem crê e de quem não crê”.

Há crentes que são contra a homofobia, para quem atos de ódio a homosexuais devem ser considerados crime. Há crentes, ao contrário, que fecham os olhos para a homofobia e que, diante da luta pela criminalização da homofobia, opõem-se ao que chamam de “pauta gay”. Entre os não crentes, também há gregos e troianos.

Mas, tanto eu, como os crentes como os não crentes estamos ansiosos para saber: de que interesses Marina está falando? Dos interesses dos que se opõem à criminalização da homofobia? Ou dos interesses dos que reclamam pela criminalização da homofobia?

Os dois lados querem saber!

Contudo, não esperemos que Marina explique.

Sua tática eleitoral consiste em fugir de polêmicas.

Quanto mais abstrato, melhor. Nada de propostas concretas. Nada de compromissos.

Uma de suas principais assessoras – acionista do Itaú, banco devedor de bilhões em impostos (velha política) – declarou há alguns dias à Folha de S. Paulo que, se eleita, Marina conduzirá a inflação a 3% ao ano. Como Marina fará esse malabarismo sem que haja um expressivo aumento do desemprego, sobretudo entre aqueles que ganham até 3 salários mínimos?

Não sabemos. Ela não diz. Ela não quer pensar nisso e não quer que pensemos nisso.

O que Marina quer é “unir a todos” – foi o que ouvimos mais de uma vez no debate da Band. Marina quer unir FHC e Lula. Será que ela também quer unir Silas Malafaia e Jean Wyllis?

Marina parece ser aquele sujeito que, sem um tostão no bolso, entra no bar e passa a madrugada pedindo várias rodadas para todo mundo. Resta saber o que ela fará quando o dia amanhecer.

Leia também:

Toni Reis: Marina tem bipolaridade ideológica; recuo na política LGTB mostra que não dá para confiar 

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31 Aug 21:50

Gilson Caroni Filho: “Nova política” oferece aos jovens o pão que o diabo amassou em forma de arrocho e desemprego

by Luiz Carlos Azenha

daniel de oliveira

Marina Silva e o pastor Silas Malafaia. E quando a Chevron tuitar? [Ilustração de Daniel de Oliveira, via José Antonio Orlando, no Facebook]

Jovens, vocês querem mesmo Marina?

por Gilson Caroni Filho, especial para o Viomundo

 A simples leitura do programa de governo de Marina da Silva que, como todos sabem, foi escolhida pela “providência divina” e os acontecimentos recentes envolvendo as alterações no seu programa partidário permitem levar ao eleitorado jovem pontos fundamentais que revelam a natureza extremamente conservadora. Comecemos pelas questões macroeconômicas:

1) Marina pretende dar autonomia ao Banco Central, o BC. O que significa isso? Entregar o banco ao mercado financeiro. Não por acaso conta com o apoio de banqueiros em sua campanha.

2) No documento, consta que políticas fiscais e monetárias serão instrumentos de controle de inflação de curto prazo. Como podemos ler este ponto? Arrocho salarial e aumento nas taxas de desemprego.

3) O programa ainda menciona a diminuição de normas para o setor produtivo. Os mais açodados podem pensar em menos carga tributária e burocracia para as empresas. Não, trata-se de reduzir encargos trabalhistas com a supressão de direitos que facilitem as demissões. Há muito que a burguesia patrimonialista pede o fim da multa rescisória de 40% a ser paga a todo trabalhador demitido sem justa causa. O capital agradece.

4) Redução das prioridades de investimento da Petrobrás no pré-sal. O que significa? Abrir mão de uma decisão estratégica de obter investimentos para aplicar na Saúde e na Educação. Isso, meus amigos mais jovens, é música para hospitais privados, planos de saúde e conglomerados estrangeiros que atuam na educação. O que o grupo Galileo fez com a Gama Filho e Univercidade , aqui no Rio, é fichinha perto do que está por vir. Era com uma coisa desse tipo que vocês sonhavam quando foram às ruas em junho do ano passado?

5) Em vez do fortalecimento do Mercosul, o programa da candidata, que ” quer fazer a nova política,” prega o fortalecimento das relações bilaterais com os Estados Unidos e União Europeia.Vamos retroceder vinte anos e assistir a um aumento da desnacionalização da economia latino-americana. É isso que vocês querem?

6) Meus caros amigos, não sei se foi a providência divina quem derrubou o avião em que viajava Eduardo Campos. Mas o que a vice dele, uma candidata que está à direita de Aécio Neves, lhes oferece é o pão que o diabo amassou. Gosto da vida, gosto da juventude, mas, agora, cabe a vocês escolher o que desejam enfiar goela adentro. Não há mais ninguém inocente.

No campo dos costumes, cabem outras indagações. O Partido Socialista Brasileiro, que sempre teve uma agenda progressista, foi criado em 1947.

Ao ceder a pressões para lançar a candidatura de Marina da Silva, acabou. No lugar dele, surgiu um PSB capturado pelo “Rede” da candidata do Criador.

Pois bem, bastaram quatro tuitadas do Pastor Malafaia para o partido retirar de seu programa de governo o casamento civil igualitário. Se em quatro mensagens por twitter houve um retrocesso desse porte, imaginem em quatro anos de um eventual governo do consórcio Itaú-Assembléia de Deus. Descriminalização do aborto? Esqueçam. Descriminalização dos usuários de drogas? Nem pensar. No mínimo, procedimentos manicomiais para os dependentes. Pensem nos direitos conquistados pelas mulheres nos últimos anos sendo submetidos ao crivo de dogmas medievais. Nos homossexuais como anomalias apenas “toleradas”, jamais como sujeitos de direitos.

Sim, pois vislumbramos uma religião se transformando em política de Estado.

 É isso que vocês querem para o país? É isso que vocês querem para suas vidas e a dos filhos que vierem a ter? Em caso afirmativo, chamem Torquemada e me avisem: não quero ver ninguém ardendo em fogueiras. Tudo é força, mas só Malafaia é poder. Não acredito que vocês desejem isso. Melhor, não quero acreditar.

Leia também:

Patrick Mariano: Dilma em campanha enfrenta “crise de discurso”

O post Gilson Caroni Filho: “Nova política” oferece aos jovens o pão que o diabo amassou em forma de arrocho e desemprego apareceu primeiro em Viomundo - O que você não vê na mídia.

30 Aug 11:06

Traição programática

by Coleguinhas

Eu ia terminar a Coleguinhas da semana assim:

“(…). Por enquanto, a única definição firme ainda mantida pela candidata do PSB é seu veto à fonte nuclear como possibilidade de geração de energia elétrica, mas ainda tem muito tempo de campanha pela frente e até isso pode mudar – não sei como, mas com sua imensa habilidade de dizer a coisa e seu contrário, Marina pode muito bem flexibilizar isso também.”

Só que não deu. Marina antecipou-se e não precisou avançar muito na campanha para escantear com o que restava de coerência em seu discurso político. Na sexta-feira, ela apresentou o seu programa de governo (aqui ) e não hesitou em defender o que negara, veementemente, há pouco mais de dois anos (aqui ). Só que – espere um pouco! – o dia ainda não chegara ao fim e o comando da campanha já desdissera o que a candidata abonara horas antes e Marina voltou a ser contra a energia nuclear (aqui) – pelo menos até segunda ordem.

Essa contradição toda, esse vaivém ideológico, não foi apenas um mal-entendido, como tentaram fazer crer os marinistas. Ela é, até agora, o sinal mais evidente de algo mais profundo: a total falta de consistência da candidata. Uma falta de consistência que pôde ser vista na mesma sexta, pela manhã, quando Valor, o porta-voz dos bancos, avisou:  o mercado financeiro “marinou”.

Uma decisão que não surpreende ninguém mais atento – afinal, a principal assessora da candidata é Maria Alice “Neca” Setúbal, uma das herdeiras do Itaú, mas é simplesmente inconciliável com a defesa das bandeiras do pessoal que saiu às ruas em junho do ano passado, que exigia a extensão e a melhoria das redes de saúde, educação e transporte públicos, ou seja, mais dinheiro para o social – com melhor gestão dos recursos -, investimentos esses que são os maiores alvos dos banqueiros, que sempre pregam o corte fundo nos chamados “gastos públicos”.

Assim, se assumir o Palácio do Planalto, Marina trairá alguém. E sabendo que sua principal assessora é herdeira de um dos maiores bancos do país, em quem você apostaria que vai ser passado para trás?

 
A MORTE E A REENCARNAÇÃO DO PSDB
Diante da possibilidade concreta de não só não ganhar a eleição pela quarta vez seguida como nem ir para o segundo turno, o PSDB tende a implodir e se tornar um partido-sombra, como já o são PPS e DEM e está a caminho de ser o PSB, após a morte de Eduardo Campos levá-lo a ser comido por dentro pela Rede marinista.

As fortes bases em São Paulo e Minas, porém, ainda sobreviverão e, se conseguirem superar a amargura e as mágoas mútuas da derrota humilhante, podem evitar que o PSDB termine como as outras sombras partidárias, a vagar pelo Hades político. O partido poderá encarnar em um notório candidato a candidato:o agora sumido Joaquim Barbosa.


29 Aug 22:16

Filiado ao PSB contesta conteúdo do “Marina de Verdade”

by Luiz Carlos Azenha

Captura de Tela 2014-08-29 às 18.50.33

Ilustração originária do Marineitor

por Gustavo Castañon

Candidata Marina Silva, meu nome é Gustavo Castañon. Sou, entre outras coisas, filiado há mais de dez anos ao PSB, partido que hoje a senhora usa para se candidatar, professor na Universidade Federal de Juiz de Fora e um cristão convicto, como acredito que a Senhora também seja, do seu jeito.

Investida de seu eterno papel de vítima, sua campanha lançou um site na internet chamado “Marina de Verdade” (com V maiúsculo mesmo) para combater supostas “mentiras” espalhadas contra a senhora na internet. Vou aqui responder uma a uma as afirmações de seus marqueteiros no site citado, oferecendo os links de fontes das minhas afirmações.

1 – Não Marina, você não sofre preconceito por ser evangélica.

Você é que acredita que todos aqueles que não compartilham de suas crenças queimarão eternamente no fogo do inferno. É o que está claramente descrito no credo (credo 14) de sua agremiação religiosa. Que nome podemos dar a isso? Certamente é um nome mais assustador do que intolerância ou preconceito. Talvez essa seja a origem de seu maniqueísmo, já que separa o mundo entre os bons, que apoiarão seu possível governo, e os maus, que lhe fariam oposição, como eu. O seu problema não é ser protestante. É ser da Assembleia de Deus, associação pentecostal de vários ramos que interpreta literalmente o Antigo Testamento, e que tem entre seus pastores Marcos Feliciano, que vende curas a paraplégicos, e Silas Malafaia, este homem que hoje defende da “cura gay” à teologia da prosperidade e vende bênçãos de Deus. Eu me pergunto: o que alguém que faz parte de uma organização que faz comércio com a palavra de Cristo é capaz de fazer na vida política? Qual o nível de inteligência que pode possuir alguém que faz interpretações tão rasteiras do significado da Bíblia? Essas são perguntas legítimas que as pessoas se fazem, e não por preconceito, mas por conceito.

2 – Não Marina, o Estado Laico deve intervir nas práticas religiosas quando são fora da lei.

Se uma religião resolve reinstituir o sacrifício de virgens dos Astecas ou a amputação de clitóris comum em alguns países muçulmanos hoje, o estado tem que observar inerte essas práticas em nome da liberdade religiosa e do laicismo? Não, candidata. Nenhuma organização está acima da lei num Estado Laico.

3 – Não Marina, você não é moderna, você é uma fundamentalista mesmo.

O fundamentalismo religioso não é a negação do Estado Laico, essa é só uma espécie de fundamentalismo, o teocrático. O fundamentalismo se caracteriza pela crença de que algum texto ou preceito religioso seja infalível, e deva ser interpretado literalmente, tanto em suas afirmações históricas como comportamentais ou doutrinárias. E o ataque ao Estado Laico pode vir também pela incorporação de leis, que desrespeitem as minorias religiosas ou não religiosas, impondo um valor comportamental de determinada religião a todos os cidadãos. Isso faz da senhora uma fundamentalista (Assembleista) que compartilha das crenças de Feliciano e Malafaia, e uma adversária, se não do Estado Laico, do laicismo que deveria orientar todas as nossas leis, pois defende plebiscitos sobre esses temas para impor a vontade das maiorias religiosas sobre as minorias em questões comportamentais.

4 – Não Marina, você é, sim, contra o casamento gay.

Você agora diz que está sofrendo ataques mentirosos na internet sobre o tema, mas sempre se colocou abertamente contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, defendendo somente a união civil nesse caso. E não adianta simular que o que o movimento gay está reivindicando casamento religioso. O casamento é também uma instituição civil. Você só defende união de bens, sem todos os outros direitos que o casamento confere às pessoas. O vídeo acima e mais esse vídeo aqui provam esse fato de conhecimento público.

PS: Hoje, dia 29/08/2014, ao lançar seu programa de governo, a candidata mudou uma posição defendida por toda vida, faltando um mês para a eleição. Por que?

5 – Realmente Marina, você não é petista.

Você abandonou o partido que ajudou inestimavelmente a construir sua vida política, ao qual você deve todos os mandatos e o único cargo que ocupou até hoje, porque não tinha espaço para sua candidatura à presidência. Hoje, você busca se associar, sem qualquer pudor ou remorso, a inimigos ideológicos históricos do partido, repetindo as práticas que supostamente condena no PT e chama de “velha política”. Só que faz isso somente para chegar ao poder e construindo um projeto oposto àquilo a que defendeu toda a vida.

6 – Realmente Marina, você não é tucana. Mas sua equipe econômica é.

Sua equipe econômica conta com André Lara Resende e Eduardo Giannetti, ex-integrantes da equipe econômica do governo FHC, além de seu coordenador Walter Feldman, que fez toda sua história no PSDB. Suas propostas econômicas são as mesmas do PSDB. Agora, de fato, o que nem o PSDB jamais teve coragem de ter é uma banqueira como porta voz de sua política econômica… Você não quer alianças com governos atuais de nenhuma agremiação, como o de Alckmin, exatamente para manter sua imagem de anti-tudo-o-que-está-aí. Mas não se sente constrangida em ter o vice de Alckmin na coordenação financeira de sua campanha, nem de convidar o “bom” representante de sua “nova política” José Serra para seu governo…

7 – Não Marina. Você defendeu, sim, Marcos Feliciano.

Você afirmou que ele era perseguido na CDH não por causa de suas posições políticas, mas por ser evangélico. Disse que isso era insuflar o preconceito religioso. Não, candidata. Você está falando de seu companheiro de Assembleia de Deus, um homem processado por estelionato, que pede senha de cartão de crédito de seus fiéis, que defende que os gays são doentes e os descendentes de africanos amaldiçoados. Recentemente, esse homem que você afirma ser vítima do mesmo preconceito que você sofreria, afirmou à revista Veja: “Eu não disse que os africanos são todos amaldiçoados. Até porque o continente africano é grande demais. Não tem só negros. A África do Sul tem brancos”. Ao usar essa estratégia de defesa pra ele e para você, você reforça os preconceitos da sociedade e o comportamento de grande parte dos pentecostais de blindar qualquer satanás que clame “Senhor, Senhor” em suas Igrejas.

8 – Não Marina. Você não é só financiada por banqueiros. Eles coordenam seu programa!

Neca Setúbal, herdeira do Itaú, não é só sua doadora como pessoa física. Ela é a coordenadora de seu programa de governo e sua porta-voz, e já declarou que você se comprometeu a dar “independência” (do povo e do governo) ao Banco Central, que fixa os juros que remuneram os rendimentos dela. Da mesma forma, o banqueiro André Lara Resende, um dos responsáveis pelo confisco da poupança na era Collor e assessor especial de FHC, é o formulador de sua política econômica.

9 – Não Marina, você é desagregadora e vilipendia a classe política. Seu governo será o caos.

Você é divisionista e maniqueísta e implodiu meu partido em uma semana de candidatura. Vai deixar seus escombros para trás quando chegar ao poder, como sabemos e já anunciou, para delírio daqueles que criminalizam a política. Seu partido é nanico, e se não o criar com distribuição de cargos, continuará nanico. Com a oposição certa do PT, terá que governar com a mídia e os bancos, que cobrarão o apoio com juros. Precisará do PMDB, que você acusa de fisiologismo, e do PSDB e o DEM, que lhe exigirão não só cargos, empresas públicas e ministérios, mas também a volta das privatizações. A única base congressual que lhe será fiel é a bancada evangélica, que cobrará seu preço com sua pauta de controle dos costumes e seu fisiologismo extremo. Resultado, você vai entregar a alguém o trabalho sujo do fisiologismo ou mergulhará o país no caos.

10 – Não Marina, seu marido foi sim acusado de contrabando de madeira.

E não só isso, foi acusado pelo TCU de doação de madeira clandestina. A senhora usou sua força política de Ministra para impedir que o caso fosse investigado, como sempre fazem na “velha política”. Mais tarde o MP arquivou, como fazem com todas as denúncias contra membros da oposição. Mais uma vez, fato bem comum na “velha política”. Nada é investigado.

11 – Não Marina, Chico Mendes não era da elite. A elite é que o matou.

Em mais uma tergiversação semântica demagógica, num vilipêndio à memória de seu companheiro, a senhora tomou o termo “elite” pelo sentido de elite moral, para acusar de “divisionismo” os que lutam contra a elite econômica brasileira. Essa mesma elite que mantém o Brasil como um dos dez países mais desiguais do mundo e que hoje está acastelada no seu programa de governo e campanha. Seu discurso despolitizante busca mascarar a terrível e perversa divisão de classes no Brasil e é um insulto aos seus ex companheiros de luta. Seu uso demonstra bem à qual elite você serve hoje, e nós dois sabemos que não é à elite moral. A elite moral desse país está lutando contra a elite econômica para diminuir nossa terrível e cruel desigualdade social. E você, Marina, não é mais parte dela.

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29 Aug 22:09

Mais reaças que o rei

by Cynara Menezes

(Marina, Aécio e Dilma no debate da Band. Foto: Miguel Schinchariol/divulgação)

Entre todos os candidatos presentes ao primeiro debate entre os presidenciáveis na rede Bandeirantes, nem mesmo o pastor evangélico assumidamente de direita foi capaz de dizer que existe uma ameaça à democracia no Brasil sob o governo do PT. Nenhum deles falou que o PT defende censura à imprensa. Nem que os índios estão tomando a terra dos “brasileiros”. Quem fez isso foram dois jornalistas, Boris Casoy e José Paulo de Andrade, escolhidos pela emissora para fazer perguntas (ou editoriais disfarçados de perguntas) aos candidatos.

Casoy e Zé Paulo conseguiram ser mais reaças do que todos ali. Nunca vi, num debate, jornalistas se comportarem como opositores dos candidatos no caso, Dilma Rousseff, do PT, e Marina Silva, do PSB, porque com o tucano Aécio Neves foram só levantadas de bola para ele cortar. Nunca vi, num debate, um jornalista fazer pergunta para um candidato criticando outro concorrente. Sobriedade mandou lembranças.

Mas o que mais me espantou é que nem Dilma nem Marina e nem mesmo Luciana Genro, do PSOL, candidatas mais à esquerda no espectro político, foram capazes de denunciar, de retrucar com veemência, posturas tão arcaicas quanto às demonstradas pelos dois jornalistas, certamente com o aval dos patrões.

Colhi algumas das pérolas da noite, confiram.

De José Paulo para Luciana com comentário de Dilma:

 A questão indígena, que até no Rio Grande do Sul se agrava, com índios essa semana fazendo policiais de reféns. Na Bahia, como ocorreu em Roraima com a Raposa Serra do Sol, brasileiros trabalhadores estão sendo expulsos da terra onde estavam há gerações. A crítica à Funai é que só antropólogos determinam a política indigenista. Recentemente, em audiência na Câmara, o ministro da Justiça falou em fortalecimento da Funai, mas até agora nada se fez. A pretexto de incluir os excluídos, exclui-se os incluídos. Candidata, somos ou não iguais em direito? Qual seria sua política indigenista?

De José Paulo para Aécio com comentário de Dilma:

 O governo federal criou por decreto o Conselho de Participação Social. É uma instância direta vista com apreensão por muitos setores: seria uma ameaça ao Congresso Nacional e consequentemente ao equilíbrio institucional. Seria uma bolivarização do Brasil nos moldes chavistas e agora a própria candidata acaba de lançar a ideia de um plebiscito para fazer a reforma política, o que, me parece, deixa de lado o Congresso Nacional. Como o candidato vê a movimentação dessas peças no tabuleiro político?

(Aécio, é claro, surfa na onda da “preocupação” em “garantir a democracia”, mas Dilma dá uma boa resposta: “É estarrecedor que se considere plebiscito algo bolivariano. Então a Califórnia pratica o bolivarianismo.”)

De Boris para Marina com comentário de Aécio:

 Setores da economia criticam o que classificam, candidata, de seu “radicalismo ambientalista”. Segundo eles, esse tipo de posição tem criado obstáculos para o desenvolvimento da economia do país. Citam o exemplo da usina de Belo Monte, que poderia produzir 11 mil megawatts e, por exigências ambientais consideradas exageradas, só vão produzir 4 mil. Como a senhora responde a essas críticas?

De José Paulo para Everaldo com comentário de Aécio:

 Os candidatos de oposição temem perder votos com posições que não sejam favoráveis à manutenção dos programas sociais do governo, que acabam sendo cabos eleitorais importantes, e nisso exageram, prometendo aumentar os benefícios que no fim vão pesar na carga tributária já elevada, como é o caso da Poupança Jovem do candidato Aécio. Se há uma justificativa a curto prazo para incluir os brasileiros menos favorecidos, quando é que vamos ensiná-los a pescar?

(Até o Aécio acha Zé Paulo reaça demais neste momento.)

De Boris para Eduardo Jorge com comentário de Dilma:

 Por considerar um assunto importante e grave, que envolve a liberdade no país, vou voltar à questão do controle social da mídia. O partido da presidente, o PT, insiste num plano de censura à imprensa, que eufemisticamente chama de democratização da mídia. A bem da verdade, a presidente Dilma, a candidata Dilma, não adotou, criou uma barreira, não tem colocado em prática, apesar da insistência do partido, essa ideia. Eu queria perguntar: se eleito, o candidato Eduardo Jorge vai levar esse plano adiante?

(Eduardo Jorge, para riso geral, diz concordar com Dilma.)

Quando vejo os planos dos coronéis da mídia para o Brasil, transmitidos por seus funcionários em um debate supostamente jornalístico e “imparcial”, percebo o quão diferentes são minhas críticas ao governo Dilma das deles. Percebo o quanto minha ideia, meus sonhos de País, se diferenciam dos proprietários dos meios de comunicação como a Rede Bandeirantes.

Critico a Dilma porque ela precisava ser mais atenta à questão indígena e à ambiental a mídia acha que Dilma precisava ser ainda mais permissiva com os fazendeiros e o grande poder econômico (e o mesmo desejam de Marina).

Critico a Dilma por não ter concretizado a democratização da mídia, pondo fim à propriedade cruzada dos meios de comunicação, por exemplo, proibida em vários países. Isso nada tem a ver com censura eufemismo quem usa são eles, ao dizer que democratizar a mídia é censurar. Os donos da mídia não querem a democratização porque temem perder seu poder, derivado do fato de que menos de uma dúzia de famílias (como os Saad, da Band) detém a maioria dos meios de comunicação no País.

Aplaudo o PT pelos programas sociais que incluíram milhões de brasileiros e acho que deve haver cada vez mais inclusão a mídia acha os programas sociais, assim como as cotas nas universidades, desnecessários e excessivos.

Critico o PT por não ter batalhado mais pela reforma política e aplaudo a iniciativa de propor um plebiscito para fazê-la a mídia aponta o plebiscito como “antidemocrático”, sendo que ouvir a população sobre este tema seria justamente o contrário. Curioso é que eles são contrários a ouvir a população sobre a reforma, mas foram a favor de plebiscito para dar direito às pessoas de terem armas… No fundo, não querem a reforma política porque são contra o financiamento público de campanha. A mídia sabe que o financiamento privado favorece os candidatos com maior poder econômico os seus, e portanto é melhor que continue assim.

O País dos reaças da mídia não me interessa. Ele é pior do que o que temos hoje. Mais injusto, mais desigual, mais concentrado nas mãos de poucos. Exatamente como a própria mídia.

 

29 Aug 21:56

O jornalismo jihadista da Band no debate com os presidenciáveis

by Kiko Nogueira
  O trio de jornalistas que entrevistou os presidenciáveis no debate da Band virou notícia, não necessariamente pelos melhores motivos. Bonner e Patrícia Poeta deram o tom dos encontros com os candidatos no JN: agressivos, pretensamente equânimes, falando muito. Na Band, a fórmula foi aplicada ...
28 Aug 00:29

Celulares na mão, jovens empurram Marina; a difícil tarefa diante de Dilma

by Luiz Carlos Azenha

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pesquisa publicada no Estadão

por Luiz Carlos Azenha

Primeiro, as advertências: em 2012, por um bom tempo, Celso Russomano acreditava estar a caminho de se eleger prefeito de São Paulo.

Recuando um pouco mais no tempo, nos anos 80, em São Paulo, eu participei pessoalmente de um dos maiores vexames já dados no Brasil por uma empresa de pesquisas. Da redação da Folha de S. Paulo, na Barão de Limeira, anunciei pessoalmente, ao vivo, na TV Manchete, o resultado da pesquisa de boca-de-urna do Datafolha que dava vitória de Fernando Henrique Cardoso sobre Jânio Quadros na disputa pela Prefeitura de São Paulo. Jânio venceu com 4% de vantagem. Narrei este episódio aqui.

O que quero dizer é que os quadros eleitorais são altamente fluidos e que as pesquisas de opinião, pelo menos as que não são feitas de má fé, também erram muito. Para ler sobre um pesquisa maldosa, de encomenda, feita para influenciar as eleições na Venezuela, clique aqui.

Dito isso, é preciso considerar que o Brasil é um país extremamente provinciano. Todas as mais importantes emissoras de televisão do país estão sediadas no eixo São Paulo-Rio de Janeiro. Assim é com os grandes jornais. Com a academia, menos agora, mas USP, Unicamp e PUC do Rio continuam ocupando um espaço desigual na formulação do pensamento econômico. Os jornalistas dos aquários, porta-vozes dos patrões, formam uma imensa panela, que fica exposta quando a Veja publica uma resenha elogiosa do livro de um jornalista da Globo, que retribui convidando o jornalista da Veja para uma entrevista na TV.

Todos pontuam desde estes supostos centros irradiadores de opinião como se não houvesse mais Brasil. Outro Brasil. Muitos Brasis.

O ex-presidente Lula entendeu isso. Derivou da constatação a política adotada por ele de distribuir para um maior número de veículos, de todo o país, a publicidade oficial. Foi resultado disso, também, a ênfase dele e, posteriormente, de Dilma, nas entrevistas às rádios do interior.

O erro dos estrategistas do Planalto foi não considerar que havia e continua existindo uma matriz a partir da qual as notícias se disseminam em território nacional: Organizações Globo, grupos Folha, Abril e Estadão, muitas vezes atuando de forma conjunta. Como já escrevi anteriormente — nadando contra a corrente, diga-se — as redes sociais aumentaram, não diminuiram o poder destes grupos. Eles foram capazes, por seu alcance, de mobilizar milhões de usuários das redes sociais para reproduzir seu conteúdo, de graça. O contraponto da blogosfera também se fortaleceu, mas em menor escala.

Há mais de dez anos estas grandes corporações investem no discurso antipolítica. Este discurso as fortalece, na medida em que os barões da mídia podem extrair maiores concessões da iniciativa privada e de todos os poderes da República. Como? Por exemplo, atacando uma empresa que se negue a fazer campanhas publicitárias. Atacando um governo que contrarie interesses dos patrocinadores.Promovendo mutirões investigativos — como o que assistimos contra a Petrobras — com o objetivo de obter lucro direto ou indireto com a privatização do patrimônio público.

“Política é corrupção, todos os políticos são corruptos, o Congresso deveria ser bombardeado” — estas ideias foram incorporadas quase que naturalmente ao discurso dos brasileiros. O objetivo original do consórcio midiático era, naturalmente, tirar do poder governos voltados para reduzir a imensa desigualdade social do Brasil — ainda que cheios de defeitos, montados sobre alianças esdrúxulas e com uma boa dose de corrupção.

É fundamental, aqui, considerar o tratamento desigual dado aos casos de corrupção: os mensalões do DEM e do PSDB, hoje, nem parece que aconteceram, assim como o bilionário desfalque do trensalão em São Paulo, sem considerar casos mais graves e remotos, como a criminosa privatização da Companhia Vale do Rio Doce.

O fenômeno de Marina Silva é caudatário disso. Ela é a papisa da antipolítica, que inclui mas não abrange apenas o antipetismo. A essa altura, o fenômeno é semelhante à onda que levou Jânio Quadros a derrotar o favorito pelo controle da Prefeitura de São Paulo, que descrevi acima. Naquela ocasião, FHC contava com apoio majoritário e algumas vezes escandaloso da mídia. Jânio não dava entrevistas à Globo, por exemplo. Abertamente com ele, só a rádio Jovem Pan, que promovia pesquisas não científicas, com entrevistas de pessoas nas ruas. Pesquisas que, naturalmente, apontavam o petebista como provável vencedor.

Ou seja, foi uma onda do boca-a-boca, fora dos meios de comunicação convencionais, quase um protesto contra o partido que pretendia submeter São Paulo “ao candidato da Sorbonne”, como dizia Jânio, quando ele era produto legítimo do bairro de classe média baixa da Vila Maria.

Em 2010, eu estava em Manaus na véspera do primeiro turno das eleições presidenciais, quando ainda havia dúvidas se Dilma venceria ou não no primeiro turno. Estava em um lugar público quando testemunhei jovens engajados em levar a eleição para o segundo turno. Todos falavam em Marina. Era uma espécie de onda, de febre de última hora.

Em minha opinião, “fenômenos” como as manifestações de 2013 e ondas eleitorais como a deste momento continuam pegando de surpresa os próprios partidos, os “especialistas” e a “opinião publicada” por conta da desconexão entre os Brasis a que me referi acima.

A mídia que nos “forma e informa”, com seus repórteres e articulistas extremamente concentrados no eixo do Rio-São Paulo-Brasília, não conhece ou demora a reconhecer o país dos jovens brasileiros, conectados entre si por seus telefones celulares e facebooks, mas desconectados de partidos, sindicatos e outras instituições.

Cerca de 35% do eleitorado brasileiro tem menos de 30 anos de idade. É gente que não experimentou a ditadura militar na pele, tem vaga lembrança da inflação descontrolada dos tempos de José Sarney no Planalto, não viveu o desastre resultante da aventura de Fernando Collor e seu Partido da Reconstrução Nacional (PRN).  É gente que, ainda que tenha tirado proveito dos programas sociais do governo Lula — que reduziram a desigualdade e promoveram o consumismo — fez isso de forma despolitizada, em contato com as eleições quando muito através daquela “chatice” que consideram a propaganda eleitoral obrigatória, de dois em dois anos.

Estes jovens são politicamente voláteis, querem mudanças e, por conta da habilidade com as redes sociais, exercem uma influência sobre o eleitorado que nunca exerceram no passado. Na casa de dona Irla, em Itapajé, no interior do Ceará — modesta, de três cômodos, que sempre teve TV mas só agora tem geladeira de verdade — são os filhos conectados à internet que trazem as informações para dentro de casa, para os mais velhos da família. São eles que ensinam os pais a lidar com o celular e a montar uma página no Facebook. São eles que trocam mensagens, links, indicam vídeos e dizem que o filho do Lula é o dono da Friboi.

Estes jovens foram intensamente bombardeados pela propaganda “antipolítica” em anos recentes. Talvez não saibam absolutamente nada sobre os planos e projetos de Marina Silva, mas pouco importa. Ela é de origem humilde, evangélica — sinal, para muitos, de que leva a religião a sério — e, acima de tudo, “nova”, ainda não contaminada. É o voto de protesto. É o “Cacareco” do século 21, aquele rinoceronte do zoológico de São Paulo que recebeu um recorde de votos para a Câmara Municipal, no final dos anos 50.

O curioso é que, diante de tantas pesquisas qualitativas, milionárias, Dilma apareça com estes jovens de forma quase institucional em sua propaganda, separada por grades, embora rompa a barreira geracional com os selfies em que posa ao lado de muitos deles. Também é curioso que Aécio Neves, que se pretende candidato da mudança, tenha sido mostrado em seu primeiro programa de terno escuro, distante, oficial, como se precisasse antes de tudo provar sua seriedade.

Quando convidei petistas a refletirem profundamente sobre a irupção das ruas em 2013 — e não a criminalizá-la, atribuindo tudo a “coxinhas” — era justamente no sentido de tentar entender o que move estes jovens. Com certeza, é uma resposta complexa e repleta de nuances. Talvez nem a propaganda eleitoral, nem os debates entre os candidatos, nesta campanha de 2014, sejam suficientes para movê-los de forma maciça em outra direção. Duvido que muitos deles estejam na audiência.

A eleição de 2014, como alertei no primeiro parágrafo, está longe de ser definida. Quando muito, há tendências fortes: Dilma x Marina no segundo turno parece uma forte possibilidade.

Nos Estados Unidos, em 2008, quando Barack Obama se elegeu pela primeira vez, as novas tecnologias foram essenciais para promover a “mudança na qual se pode confiar”, especialmente com a arrecadação de campanha e a arregimentação de milhares de voluntários. Obama apostou quase todas as fichas no entusiasmo e no idealismo da molecada. Lembro-me que Obama fez mais de um evento de campanha em que se reunia num anfiteatro, cercado por jovens, para compartilhar ideias e sugestões com eles. Desceu da tribuna. Arregaçou as mangas. Ouviu. A ideia era se desfazer da tradicional hierarquia que tanto afasta os mais jovens da política institucional. Obama certamente frustrou muitos de seus apoiadores iniciais. Mais tarde, revelou-se mais do mesmo.

No Brasil, o que me parece extremamente curioso é que nem Dilma, nem Aécio, que exerceram cargos executivos simultaneamente, tenham se dado conta das mudanças que, cada um a seu jeito, ajudaram a promover no país, mudanças que alimentaram o desejo do novo dos que foram às ruas em 2013. Como disse Lula, sabiamente, quem experimenta mudanças quer mais e melhor. É natural.

Às vezes parece que ambos, Dilma e Aécio, se acostumaram com ou foram consumidos pela política dos bastidores.

Temos, ainda, um longo mês de campanha pela frente. Quase com certeza, outro tanto antecedendo o segundo turno. Pelo menos hoje, Dilma e Aécio são candidatos a reviver, do lado perdedor, 1989. Para o Brasil, com os mesmos riscos envolvidos 25 anos atrás.

PS do Viomundo: Só agora, depois de ter publicado o texto, soube da promessa feita hoje por Aécio Neves. Segundo a Reuters, “em mais um gesto de popularização de sua campanha, o candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, anunciou um programa social que prevê o pagamento de um salário mínimo para que jovens de 18 a 29 anos voltem as escolas para completar os ensinos fundamental e médio. O tucano afirmou que há no Brasil cerca de 20 milhões de jovens com ensino médio e fundamental incompletos (11 milhões no fundamental e 9 milhões no médio) que precisam melhorar o nível de estudo para ter mais chances de ingressar no mercado de trabalho”. Pois é, brasileiros entre 18 e 29 anos de idade…

PS do Viomundo2: Segundo o UOL, “entre os eleitores de 16 a 24 anos, a candidata do PT enfrenta uma rejeição de 43%. A taxa cai para 34% entre os que estão na faixa de 45 a 54 anos e para 27% entre os que têm 55 anos ou mais”.

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27 Aug 23:57

POBRE DE QUEM GANHA 20 MIL POR MÊS

by lola aronovich
Ontem um dos comentaristas menos inteligentes (pra ser gentil) deste blog deixou as seguintes mensagens:
"Radicalmente falando o Brasil é uma favela. Ninguém é rico no Brasil com exceção dos milionários. Não considero rico um juiz federal que ganha 20 mil por mês. 20 mil por mês é o preço da ração de um cachorro de um milionário. [...] Não dá nem pra comprar um carro popular no final do mês com este salário. Até o conceito de riqueza pro brasileiro é um conceito pobre".
Tudo bem, o comentarista em questão é o Danilo, um mascu e reaça (redundância) que, por definição, tem que falar muita besteira. Mas essa foi nova pra mim: rico é quem pode comprar um carro novo todo mês? Pra quê alguém vai querer um carro novo todo mês? E o meio ambiente, faz o quê com um cara que compra um carro novo todo mês?
Algumas pessoas falam como se o Brasil fosse um país miserável. Já foi, não é mais. Desculpem decepcioná-los. O Brasil mudou, e muita gente não acompanhou essas mudanças. O pessoal (mesmo os jovens) ainda acredita na lenda de que cada casal brasileiro tem em média seis filhos. Não é mais assim, e faz tempo -- desde que o país migrou do campo pra cidade. Uma década atrás, a média de filhos era de 2,36. Hoje, é de 1,9. Em 2020, calcula-se que cairá para 1,5. Isso não é necessariamente bom, porque um crescimento negativo vai se refletir num país com gente mais velha. E logo logo não ocuparemos mais a posição de quinto maior país do mundo em população.
Mas, sério: convém afinar o discurso com a realidade. O Brasil não é mais o que brasileiros preconceituosos pensam que é. Sabe, eu tenho alunos da África. Eles acham que o Brasil é um país rico. E eu moro no Nordeste -- que ainda é a região mais pobre do Brasil, mas uma sombra da miséria que já foi. Porém, algumas pessoas mal-informadas do Sul e Sudeste não compreendem essas mudanças. Uma aluna me contou que uma amiga veio visitá-la de SP. No Nordeste pela primeira vez, essa amiga surpreendeu-se: "Nossa, Fortaleza tem prédios!" (e depois a gente ri dos americanos que pensam que nos locomovemos através de cipós). 
Sobral by night
Uma amiga minha, uma senhora idosa, rica (não pros padrões do Danilo), que mora em SP e viaja pro exterior quase todo ano, não conhece o Nordeste. Ela nunca teve interesse de vir pra cá. Não que esse detalhe a impeça de tecer várias certezas sobre a região. Por exemplo, ela crê firmemente que em Sobral, quinta maior cidade cearense, com 200 mil habitantes, lava-se roupa no rio. Isso porque uma amiga paulista contou pra ela. 
Voltando ao comentário infeliz: é óbvio ululante que quem ganha R$ 20 mil no Brasil é rico. É a elite ínfima. Não sei se você acompanhou o escândalo do Santander enviar análise pros clientes fazendo terrorismo econômico caso a Dilma ganhe. O banco só enviou a tal análise pra clientes "select", os tops dos tops, la crème de la crème -- clientes que têm salário acima de 10 mil reais (não 20 mil, ok? Metade disso). Sabe quantos clientes se encaixam nesse perfil? 0,18%. De um banco particular!
Nos vários protestos "Occupy" (principalmente Occupy Wall Street, em 2011), o slogan que mais pegou foi o "We are the 99%". Nós somos os 99%. E, portanto, como a maioria absoluta, não dá pra aceitar que o 1% mande em tudo e governe só pra meia dúzia, ou que os 99% tenham que pagar pela irresponsabilidade do 1%. Só que 99% é um número altamente otimista. Nós não somos os 99%. Nós somos os 99,99%.
Tem um site muito bacana que calcula quão rico você é. É bacana porque nos põe no nosso lugar. Faz a gente se dar conta do nosso privilégio. Você vai, escolhe a moeda do país (o real aparece lá embaixo), e coloca quanto você ganha por ano. É, o pessoal de fora não se interessa muito por salário mensal ou por hora. Pra eles, o importante é a renda anual. Mas é fácil: é só multiplicar o valor mensal por treze (afinal, quem tem registro em carteira recebe 13o salário), mais um pouco das férias. Enfim, eu peguei os R$ 20 mil por mês, aquela migalhas que cobrem a ração de cachorro de milionário, e deu R$ 265 mil por ano. Que, pro meu leitor, não é rico porque com essa quantia irrisória, não pode comprar um carro novo todo mês. Aí o Globalrichlist calculou e deu esse resultado aqui:

E o site não está dizendo que quem ganha esse salário está entre os 0,06% mais ricos do Brasil. É do mundo mesmo.
No nosso mundo tão desigual, tão injusto, tão sem meritocracia -- ou você acha defensável que as 85 pessoas mais ricas do planeta (a maior parte homens e brancos) tenham o mesmo patrimônio de metade da população mundial? (inclusive, só pra você saber, os bilionários dobraram a riqueza deles de 2009 pra cá). Segundo o Globalrichlist, quem ganha 13 mil reais por ano (tipo, mil reais por mês) já está entre os 20% mais ricos do planeta. R$ 5 mil por ano, entre os 33% mais ricos. 2 mil por ano já te coloca mais ou menos no meio. 
Quem ganha cem mil reais por ano está entre os 0,24%. 200 mil por ano, entre os 0,08%. 
Tá difícil chegar ao 1%. Quem ganha um milhão de reais (não dólares) por ano está entre os 0,02% mais ricos do mundo. Quem ganha 2 milhões, está entre os 0,009% mais ricos. Por isso que a figura "We are the 99,99%" está bem mais próxima da realidade.
Não quer dizer que quem ganha R$ 13 mil por ano seja rico, só por estar no topo dos 20% do mundo. Mas quer dizer que sim, tudo é relativo, e que devemos ter noção de como somos privilegiados
Por exemplo, tem um mascu que se diz pobre (é até o nome do blog misógino dele), mas recebe mais de 5 mil reais por mês. Ele ganha mais que 99,3% do mundo. Porém, para ele e boa parte de seus leitores, ele está na miséria absoluta (principalmente sexual, mas isso é outra história).
Eu fui classe média minha vida toda, com exceção de alguns poucos meses de aperto na minha infância, quando ficamos sem ter onde morar. Esse tempinho serviu pra que eu repensasse meu relacionamento com dinheiro (virei pão-dura, ou, pra ser gentil, "economicamente responsável"). Mas hoje vejo que durante muitos anos o que meu pai ganhava nos colocava na classe média alta mesmo (ninguém se diz rico no Brasil, já notou? Higienópolis e Leblon são bairros de "classe média alta"). 
Hoje, com meu salário de professora universitária de federal, eu nem me considero mais classe média. Estatisticamente, estou na classe A. Quando morava em Joinville, era classe B. Eu não me considero rica (talvez, se eu ganhasse R$ 20 mil, o dobro do que ganho, eu me considerasse rica), mas sei muito bem que estou no topo da pirâmide. E tenho tudo que quero, e tudo que preciso.
Ontem um aluno adolescente disse pro meu marido, que é professor em escola particular e, portanto, ganha muito mal: "Eu vou arranjar um emprego que pague 8 mil, até que eu entre na faculdade e consiga um salário decente".
O mundo é bem maior que o nosso condomínio fechado. 
27 Aug 23:46

Entendendo a América para o Negro Não Americano: Reflexões sobre o Amigo Branco Especial

by admin

Por Ifemelu


Raceteenth ou Observações diversas sobre negros americanos (antigamente conhecidos como crioulos) feitas por uma negra não americana.

 

8. Viajar sendo negro

O amigo de uma amiga, um Negro Americano moderno e cheio da grana, está escrevendo um livro chamado Viajar sendo negro. Não só negro, diz ele, mas visivelmente negro, porque existe todo tipo de negro e, com todo respeito, ele não está falando daqueles que parecem ser porto-riquenhos ou brasileiros ou sei lá o quê, está falando de quem é visivelmente negro. Porque o mundo trata você de um jeito diferente. Nas palavras dele: “Tive a ideia de fazer o livro no Egito. Cheguei ao Cairo e um árabe egípcio me chamou de bárbaro negro. Eu pensei: ‘Ei, achei que eu estava na África!’. Então comecei a pensar em outras partes do mundo e em como seria viajar para lá quando se é negro. Tenho a pele bastante escura. Os brancos do sul de hoje, se me vissem, me chamariam de negão. Os guias de viagem dizem o que você deve esperar se for gay ou mulher. Precisam fazer isso com quem é visivelmente negro. Expliquem para os negros que viajam como são as coisas. Não é que alguém vai atirar em você nem nada, mas é muito bom saber os lugares em que vão te olhar com espanto. Na Floresta Negra, na Alemanha, é um olhar de espanto bastante hostil. Em Tóquio e Istambul, ninguém ligou para minha aparência. Em Shanghai, os olhares foram intensos; em Delhi, raivosos. Eu pensei: ‘Ei, nós não estamos meio que juntos nesse barco? Tipo, pessoas de cor?’. Eu tinha lido que o Brasil é a meca das raças, mas, quando fui ao Rio, ninguém que estava nos restaurantes e hotéis caros se parecia comigo. As pessoas reagem de forma estranha quando eu vou para a fila da primeira classe no aeroporto. É uma reação de simpatia, como quem diz você está cometendo um erro, não pode ter essa aparência e viajar de primeira classe. Fui ao México, e eles ficaram me olhando. Não foi nem um pouco hostil, mas faz você se dar conta de que chama atenção, é como se gostassem de você, mas mesmo assim você é o King Kong”. Nesse ponto, meu Professor Bonitão disse: “A América Latina como um todo tem um relacionamento muito complicado com a negritude, que é ofuscada por toda aquela história de ‘somos todos mestiços’ que eles contam para si mesmos. O México não é tão ruim quanto lugares como a Guatemala e o Peru, onde os privilégios dos brancos são tão mais óbvios, mas esses países têm uma população negra muito maior”. E então outro amigo disse: “Os negros nativos são sempre tratados de maneira pior do que os de outros países em todo lugar do mundo. Minha amiga, que tem pais togoleses e nasceu e foi criada na França, finge ser anglófona quando vai às compras em Paris, pois as vendedoras são mais simpáticas com os negros que não falam francês. Assim como os negros americanos são bastante respeitados nos países africanos”. O que vocês acham? Contem suas histórias de viagem nos comentários.

 

9. O que os acadêmicos querem dizer quando falam em privilégio dos brancos, ou Sim, é um saco ser pobre e branco, mas experimente ser pobre e não ser branco

Bom, um cara falou para o Professor Bonitão: “Essa história de privilégio dos brancos é besteira. Como posso ser privilegiado? Passei uma infância pobre pra cacete em West Virgínia. Sou um caipira dos Apalaches. Minha família recebe ajuda do governo”. Tudo bem. Mas o privilégio é sempre comparado a outra coisa. Agora imagine alguém como ele, alguém que seja tão pobre e fodido quanto ele, só que negro. Se ambos fossem presos por, digamos, posse de drogas, seria mais provável que o cara branco fosse mandado para um tratamento e mais provável que o cara negro fosse mandado para a cadeia. Todo o resto é igual, exceto a raça. Veja as estatísticas. O cara que é caipira dos Apalaches é um fodido, o que não é legal, mas, se ele fosse negro, ia ser fodido ao quadrado. Ele também disse para o Professor Bonitão: “Por que a gente sempre tem de falar em raça, aliás? Não podemos simplesmente ser humanos?”. E o Professor Bonitão respondeu: “É exatamente isso que é o privilégio dos brancos, o fato de você poder dizer isso. A raça não existe realmente para você, pois nunca foi uma barreira. Os negros não têm essa escolha. O negro que mora em Nova York não quer pensar em raça, até que tenta chamar um táxi, e não quer pensar em raça quando está dirigindo sua Mercedes dentro do limite de velocidade, até que um policial o manda parar. Por isso, o caipira dos Apalaches não tem privilégio de classe, mas tem privilégio de raça com certeza”. O que você acha? Dê sua opinião, leitor, e compartilhe sua experiência, principalmente se não for negro.

P.S. O Professor Bonitão sugeriu que eu postasse isso, é um teste para ver se você tem o privilégio dos brancos, inventado por uma mulher muito legal chamada Peggy McIntosh. Se você responder não para a maioria das perguntas, então parabéns, você tem o privilégio dos brancos. Quer saber para que serve isso? Quer saber a verdade? Não tenho ideia. Acho que é bom saber, só isso. Para você poder se gabar de tempos em tempos, para melhorar seu ânimo quando estiver deprimido, esse tipo de coisa. Aí vai:

Quando você quer entrar para um clube exclusivo, se pergunta se sua raça vai dificultar a entrada?

Quando você vai fazer compras sozinho numa loja cara, tem medo de ser seguido ou assediado?

Quando você liga numa emissora de televisão importante ou abre um jornal importante, encontra pessoas que são, em sua maioria, de outra raça?

Você se preocupa com o fato de que seus filhos não vão ter livros e material escolar que falem de pessoas da raça deles?

Quando você pede um empréstimo no banco, teme que, por causa de sua raça, vá ser considerado pouco confiável financeiramente?

Quando você xinga alguém ou se veste com roupas velhas, acha que as pessoas talvez digam que fez isso por causa da falta de moral, da pobreza ou da ignorância de sua raça?

Quando você se sai bem em alguma situação, espera que considerem uma honra para sua raça? Ou ser descrito como “diferente” da maioria das pessoas da sua raça?

Se você critica o governo, teme ser visto como um marginal cultural?

Ou teme que alguém te diga para “voltar para X”, X sendo um lugar fora dos Estados Unidos?

Se você é mal atendido numa loja cara e pede para ver um gerente, espera que essa pessoa seja de outra raça que não a sua?

Se um policial de trânsito manda você parar seu carro, você se pergunta se é por causa de sua raça?

Se você aceitar um emprego numa empresa que tenha uma cota de vagas para pessoas de cor, teme que seus colegas pensem que não é qualificado e que foi contratado apenas por causa de sua raça?

Se você quer se mudar para um bairro caro, teme não ser bem recebido por causa de sua raça?

Se precisar de ajuda legal ou médica, teme que sua raça possa prejudicá-lo?

Quando vê roupa de baixo ou curativos “cor da pele”, já sabe que eles não vão ser da cor da sua pele?

 

10. Entendendo a América para o Negro Não Americano: Reflexões sobre o Amigo Branco Especial

Uma grande dádiva para o Negro Enrustido é o Amigo Branco Que Entende a Situação. Infelizmente, isso não é tão comum quanto deveria ser, mas alguns têm a sorte de ter esse amigo branco para quem não é preciso explicar nada. Por favor, ponha esse amigo para trabalhar. Esses amigos não só entendem como têm um ótimo radar para hipocrisia e por isso sabem que podem dizer coisas que você não pode. A questão é que existe, em grande parte dos Estados Unidos, uma ideia dissimulada no coração de muita gente: a de que os brancos conseguiram emprego e vaga em escolas e universidades por mérito, enquanto os negros entraram porque eram negros. Mas a verdade é que, desde o início, os brancos têm conseguido empregos porque são brancos. Muitos brancos com as mesmas qualificações, mas com pele negra, não teriam o emprego que têm. Mas nunca diga isso publicamente. Deixe que seu amigo branco o faça. Se você cometer o erro de dizer isso, vai ser acusado de uma coisa curiosa que é “jogar a carta da raça”. Ninguém sabe exatamente o que isso significa.

Na época em que meu pai estava no colégio em meu país de negros não americanos, muitos negros americanos não podiam votar ou estudar em escolas boas. O motivo? A cor de sua pele. A cor da pele era o único problema. Hoje, muitos americanos dizem que a cor da pele não pode ser parte da solução. Se for, isso é chamado de um nome curioso que é “racismo invertido”. Peça para seu amigo branco comentar que a situação do Negro Americano é mais ou menos como se alguém ficasse preso injustamente durante muitos anos, mas aí de repente fosse solto, mas sem receber o valor da passagem de ônibus para voltar para casa. E, aliás, o ex-preso e o cara que o prendeu agora são automaticamente iguais. Se alguém mencionar que “a escravidão aconteceu há tanto tempo”, peça para seu amigo branco dizer que muitos brancos ainda estão herdando o dinheiro que suas famílias ganharam há cem anos. Portanto, se esse legado continua, por que não o legado da escravidão? E peça para seu amigo branco dizer como é engraçado quando as pessoas dos institutos de pesquisa americanos perguntam aos brancos e negros se o racismo acabou. Os brancos em geral dizem que sim e os negros em geral dizem que não. Engraçado mesmo. Mais sugestões sobre o que você deve pedir para seu amigo branco dizer? Por favor, coloquem nos comentários. E um brinde a todos os amigos brancos que entendem a situação.

* * * * *

Ifemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos e protagonista de Americanah, novo romance de Chimamanda Ngozi Adichie. Nos anos 1990, em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos, deixando para trás sua família e Obinze, seu primeiro namorado. Ao mesmo tempo em que se destaca no meio acadêmico, ela se depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra. O sucesso que obteve quinze anos depois, contudo, não atenuou o apego à sua terra natal, tampouco anulou sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência.

Americanah foi o romance vencedor do National Book Critics Circle Award e eleito um dos 10 melhores livros do ano pela New York Times Book Review. O livro já está em pré-venda e chega nas livrarias no começo de setembro.

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26 Aug 19:21

“Não pode ser negra e nem oriental”: procura-se uma modelo para propaganda eleitoral

by Marcos Sacramento
  Na última sexta-feira, uma postagem da agência Relíquia Casting no Facebook convocava mulheres para participar de um trabalho no programa eleitoral do candidato ao governo de São Paulo Geraldo Alckmin. As interessadas deveriam ter entre 25 e 35 anos, disposição para raspar a cabeça em cena e serem...
26 Aug 11:44

PSB debocha do país

by Luis Fausto

Do Brasil 247:

O PSB, aparentemente, decidiu debochar da sociedade brasileira. Nesta segunda, quando foi questionado sobre o avião fantasma utilizado por Eduardo Campos e Marina Silva, o deputado Márcio França (PSB/SP) escancarou a falta de argumentos para defender o que parece ser indefensável. “Documento de avião você carrega no avião. Se estava no avião, já não existem mais”, afirmou.

Isso indica que a estratégia do PSB parece a ser a de varrer o assunto para debaixo do tapete. Explica-se: caso não consiga demonstrar de quem é o avião e como ele era pago pela campanha, o partido estará sujeito à impugnação de sua candidatura.

A história é relativamente simples. O antigo dono da aeronave, um usineiro falido, repassou o jatinho a amigos de Eduardo Campos, que assumiram o pagamento de algumas parcelas do leasing. Tais empresários, sem capacidade financeira para comprar um jato de R$ 18,5 milhões, foram recusados pelo cadastro da Cessna, fabricante da aeronave.

No entanto, pertencendo ao usineiro ou aos amigos do ex-governador, o avião não poderia ser utilizado numa campanha política, por não estar registrado numa empresa de táxi aéreo. Daí o argumento de Marcio França sobre a possível destruição dos documentos.

Ele também insinuou que Marina Silva não prestará grandes esclarecimentos. “Responder ela tem que responder, no limite da responsabilidade dela”, disse ele. França disse acreditar que Marina não tenha conhecimento sobre como foi feita a negociação que colocou o avião à disposição de campanha.

Ao adotar essa posição, o PSB coloca as vítimas do desastre, sejam eles ex-colaboradores de Campos ou pessoas que perderam seus imóveis em Santos, a ver navios. O seguro não será pago e ninguém se responsabilizará pelas indenizações e reparações por danos materiais. Afinal, o documento estava no avião.

Um escárnio.

26 Aug 09:12

Leitora lembra que assessor de Marina é o homem do confisco

by Luiz Carlos Azenha

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O dele (de azul) está garantido

Tema sugerido pela Lenara Abreu, no Facebook

O dia em que Collor confiscou sua poupança

25 de junho de 2009, 09:02

Por Débora Pinho

16 de março de 1990. Um dia após a posse de Fernando Collor de Mello como primeiro presidente da República eleito pelo voto direto em mais de 25 anos, os brasileiros tiveram uma desagradável notícia. O governo resolveu botar a mão no dinheiro de poupadores com a justificativa de combate à inflação. Coube à economista Zélia Cardoso de Mello, primeira e única mulher a comandar o Ministério da Fazenda, anunciar o Plano Brasil Novo, que passou a história simplesmente como Plano Collor. Além de uma reforma administrativa ampla, da abertura da economia, de congelamento de preços e salários, a parte mais explosiva do plano consistia no bloqueio, por 18 meses, dos saldos superiores a NCz$ 50 mil nas contas correntes, de poupança e demais investimentos. Além do confisco, a ministra anunciou ainda o corte de três zeros no valor da moeda e a substituição do cruzado novo pelo cruzeiro.

Com a medida, calcula-se que foram congelados cerca de US$ 100 bilhões, equivalente a 30% do PIB. A inflação, que no último mês anterior ao anúncio fora de 81%, caiu para a média de 5% nos meses seguintes. Mas o tiro único desferido na inflação – como prometera o presidente eleito durante a campanha eleitoral – falhou e os preços voltaram a subir logo depois.

Economista formada na USP com passagens pela inicativa privada e pelo setor público, Zélia Cardoso de Mello era praticamente desconhecida do grande público. Mas por sua curta passagem pelo governo, foi considerada a mulher que mais poder teve na história republicana do país. Para montar o plano e o confisco, ela convocou uma equipe de economistas, com Antonio Kandir e Ibrahim Eris à frente.

O próprio Fernando Collor conta em seu livro de memórias que convenceu-se da necessidade de promover o confisco depois de uma reunião com um pequeno grupo de economistas. Faziam parte do grupo o professor Mário Henrique Simonsen, que já fora ministro da Fazenda e do Planejamento, e dois de seus mais brilhantes alunos: André Lara Rezende, uma das cabeças responsáveis pela elaboração do Plano Real, anos mais tarde; e o banqueiro Daniel Dantas, que ficaria mais conhecido não propriamente por seu conhecimento das ciências econômicas.Dantas, segundo Collor, foi radicalmente contra a medida.

O confisco criou um dilema para os seus ciadores: ou mantinha-se o arrocho monetário e corria-se o risco de uma forte recessão; ou afrouxava-se o aperto e corria-se o risco da volta da inflação. Aconteceram as duas coisas: no fim de 1990, a economia havia encolhido 4%. Em setembro do mesmo ano, a inflação já voltara a 20% e continuava em alta. O fracasso do plano foi reconhecido pelo sucessor de Zélia Cardoso. Marcílio Marques Moreira, que assumiu o Ministério da Fazenda em 1991 e ficou até o impeachment de Collor, considerou “exageradas” algumas medidas do plano. Tão exageradas que viraram casos de Justiça.

À época centenas de milhares de liminares foram concedidas pela Justiça para a liberação antecipada do bloqueio. Ainda hoje, tramitam na Justiça Estadual e Federal, 550 mil ações individuais e coletivas contra os planos Bresser e Verão, ambos editados durante o governo do presidente José Sarney, e os planos Collor I e II, do governo de Fernando Collor

O Supremo Tribunal Federal vai se manifestar sobre a constitucionalidade dos planos Bresser (87), Verão (89), Collor I (90) e Collor II (91) na ação movida pela Confederação Nacional do Sistema Financeiro (Consif). Os bancos defendem, no STF, que o estado tem o direito de definir a política monetária para zelar pela moeda nacional e combater a inflação. Eles argumentam que apenas implementaram os planos por determinações do Executivo.

Os bancos se defendem contra a pretensão dos correntistas e poupadores a respeito dos índices de correção da poupança aplicados por ocasião da decretação dos planos econômicos. Se os correntistas levarem a melhor, os bancos podem perder até R$ 100 bilhões, de acordo com dados da Febraban (Federação Brasileira de Banco). Se os bancos levarem a pior, a Consif já afirmou que a única alternativa será acionar o estado para tentar conseguir o ressarcimento da quantia.

Apesar do abalo provocado na economia do país e nas contas pessoais dos cidadãos, há quem considere o plano mirabolante de Zélia Cardoso como uma medida precursora que lançou as bases econômicas para o Plano Real, que cinco anos depois haveria de estabilizar de forma duradoura a economia brasileira.

PS do Viomundo: Lara Rezende, como se sabe, está de volta nas asas da socialista Marina Silva.

Leia também:

Altamiro Borges: Sobre o barulho dos blogueiros sujos

O post Leitora lembra que assessor de Marina é o homem do confisco apareceu primeiro em Viomundo - O que você não vê na mídia.

26 Aug 09:06

Prefeito de São Paulo, ciclistas e arquiteta da CET falam sobre ciclovia da Vergueiro (vídeo)

by Rachel Schein
Imagem: Rachel Schein
Conversamos com o prefeito Fernando Haddad, com ciclistas que já utilizavam a avenida mesmo sem ciclovia e com a arquiteta da CET Suzana Nogueira. Assista.