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24 Dec 13:36

Quantas vezes matamos “Jesus” de fome com nossa complacência?

by Leonardo Sakamoto

Maria deu à luz sob o olhar insuspeito de uma vaca e um jegue – figurante sempre presente nessas ocasiões há quase dois mil anos.

José acompanhava a cena de perto, amparado pelas paredes de barro e um cigarro de palha. A fumaça esbranquiçada fugia pela porta e fundia-se à paisagem queimada de sol. E a pele do bebê à lavoura, que morreu ainda no pé por carência d`água. Mal presságio.

Ao contrário da outra criança – do outro José com a outra Maria – não recebeu reis, muito menos presentes. Compartilhavam, porém, o fato de seu destino já estar escrito.

Os anos se passaram e ela cismou em ficar do mesmo tamanho. Talvez por causa da água e da comida. Ou da falta de ambos. Certo mesmo é que adoeceu.

O pai, desesperado, correu de um lado para o outro e levou-a para se tratar. Diarreia, olhar longo, profundo, perdido. Os doutores fizeram o que podiam naquela altura das coisas e mandaram-na de volta para casa. Naquela tarde, rastejou pelo chão da sala, agonizando. Maria avisou ao marido que a criança estava indo embora. Mas sabiam que de nada adiantaria, pois há tempos a fome vinha comendo-a por dentro.

Então, José, resignado, foi à cidade fazer a única coisa que estava ao seu alcance: pedir uma caixão emprestado, prática comum por aquelas bandas.

Como repórter, a gente esbarra com histórias que, particulamente, não gosto de contar ou recontar. Mas parece que a vida não se importa de repeti-las, com outros nomes e em outros lugares.

Tanto que a cena se reproduziria mais cinco vezes na família Bezerra, no sertão de Alagoas.

Outros personagens, mesmo roteiro.

Assim como eles, muitos Josés e muitas Marias ainda enterraram a fome de seus filhos. E ainda chegam notícias de que o motivo disso tudo são as secas, que castigam o sertão de tempos em tempos – o que não poderia ser mais equivocado.

Os simples cordéis, pendurados nos varais das feiras livres das pequenas cidades do interior nordestino aos finais de semana, contam mais a verdade.

Remexendo neles, achei um que exemplifica:

Doutor, vixe, água não é o problema!
Aqui com a seca e com jeitinho nós se arresolve
O que dói mesmo e é difícil de entender
É a falta de terra, disso ninguém se comove
Falta não, me corrijo antes de tudo
Tem muita por aí, mas é do coroné o seu uso

De acordo com relatório divulgado pelo IBGE neste mês, o Brasil tem 7,2 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave. Mesmo com a significativa queda de 11,2 milhões, em 2009, ainda assim o número assusta. Porque estamos falando de fome.

Em se tratando de mundo, de acordo com as Nações Unidas, uma em cada oito almas sofrem de desnutrição crônica.

Os programas sociais de distribuição de renda e suas ações correlatas, além das atividades de organizações da sociedade civil como a Pastoral da Criança, melhoraram o quadro por aqui. Sem contar a geração de empregos e a própria estabilidade econômica.

Não é tão difícil reescrever o fim das histórias curtas, que se encerram precocemente, como as de José e Maria. Avançamos, mas precisamos fazer a parte que falta para que a história mude de vez e casos de desnutrição infantil seguidos de morte não ocorram.

Uma reforma agrária decente e a garantia do direito à terra aos povos indígenas e às comunidades tradicionais já seria de grande ajuda, por exemplo.

Essas famílias podem até ser ignoradas pelo “céu”, que não manda a chuva, mas se estrepam mesmo é com a ação direta do pessoal de carne e osso (que está de olho em suas terras ou sua força de trabalho), a inação do Estado e a complacência de muitos de nós.

Enfim, Feliz Natal a todos e todas que não ficam apenas na boa vontade.

20 Dec 21:27

NINGUÉM MERECE UM BOLSONARO

by lola aronovich
Voltei! Mas nem dá vontade de voltar. Quarta-feira de manhã ainda estava nadando no mar. Aí chego e tenho que passar horas deletando comentários ofensivos de trolls aqui no blog. E, em questão de horas, recebo algumas ameaças de morte por telefone dos mascus sanctos (escute uma aqui).
Uma das manifestações contra Bolso
Também precisei gastar um tempão para tentar acompanhar tudo que perdi em onze dias longe. Perdi a revolta diante do discurso de Jair Bolsonaro no dia 9. Após o discurso da deputada e ex-ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário (PT-RS) para comemorar o Dia Internacional dos Direitos Humanos, Bolso gritou, durante sessão plenária: "Fica aí, Maria do Rosário, fica! Há poucos dias você me chamou de estuprador, no Salão Verde, e eu falei que não ia estuprar você porque você não merece. Fica aqui pra ouvir!".
Bolso deve estar doido, pra confundir "poucos dias" com "muitos anos". Em 2003, ele e Maria do Rosário, então relatora da CPI da Exploração Sexual Infantil, estavam sendo entrevistados separadamente, um ao lado do outro. Bolso comentava a redução da maioridade penal, em pauta após os crimes bárbaros cometidos por Champinha, um psicopata de (na época) 16 anos com distúrbios mentais graves, preso numa unidade de saúde de SP desde que saiu da internação na Fundação Casa. Bolso disse a Maria do
Rosário: "Já que você é contra a redução da maioridade penal, e defende políticas sociais para esses vagabundos, então coloque o Champinha para dirigir o carro da sua filha". A deputada respondeu, calmamente: "O senhor é que promove essas violências".
Bolso disse para as câmeras: "Grava aí, eu sou estuprador agora".
Maria do Rosário: "É, o senhor é".
Bolsonaro: "Jamais iria estuprar você, porque você não merece".
Maria do Rosário: "Eu espero que não, se não te dou uma bofetada".
Bolsonaro, apontando um dedo para ela, e pressionando outro contra o peito dela: "Dá, que eu te dou outra. Dá que eu te dou outra. [Empurra a deputada]. Dá que eu te dou outra".
Maria do Rosário: "Olha aqui, segurança! Mas o que é isso?"
Ato de repúdio a Bolsonaro esta
semana (Maria do Rosário no centro)
Bolsonaro: "Você me chamou de estuprador, você não tem moral. Vagabunda!"
Maria do Rosário, em choque: "O que é isso aqui?! Desequilibrado! Mas o que é isso?"
Bolsonaro: "Ainda bem que ele gravou tudo aqui. Chora agora, chora agora!" (veja a cena aqui).
Na ocasião, houve representação contra o deputado, mas nada aconteceu. Daí ele aproveitou para, onze anos depois, desenterrar essa briga em que ele foi um grande covarde e repetir parte das ofensas. Só que muita coisa mudou de 2003 pra cá. Está ficando cada vez mais difícil pra reaças ameaçarem mulheres.
Por telefone aos jornais na semana passada, o deputado confirmou o que disse, sem arrependimento, mesmo depois de saber que haverá representações contra ele: "Ela [Maria do Rosário] não merece [ser estuprada] porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia. Não faz meu gênero. Jamais a estupraria". Quer dizer, ele não é estuprador mas fica decidindo que mulher vai ou não estuprar baseado na estética? 
De lambuja, Bolso defendeu na entrevista discriminar mulheres no mercado de trabalho:
Mais tarde, o deputado enviou uma carta à imprensa (ao lado), afirmando que jamais pedirá desculpas a Maria do Rosário, que a questão é ideológica, não de gênero (como se gênero -- e tudo mais -- não fosse ideológico), e colocando os "movimentos" que defendem as mulheres assim mesmo, entre aspas.
O Conselho de Ética abriu processo contra ele por quebra de decoro parlamentar, o que inclui "tratar com desrespeito os colegas", o que ele evidentemente fez. Porém, como seu mandato acaba agora, pode não haver prosseguimento. O favorito à presidência da Câmara, Eduardo Cunha (esta flor de pessoa), já avisou que Bolso não será cassado. 
Pro Conselho, Bolso exibiu o vídeo de 2003 como prova (!) de que, em 2014, reagiu no calor do momento. "Reação no calor do momento" a uma acusação feita indiretamente (pois Maria do Rosário dizia que ele era responsável por violência de forma geral, e nunca usou a palavra estuprador) onze anos atrás! 
Olha, é tanta insanidade dita por esse cara que nem dá pra cobrir tudo. Já houve manifestações de movimentos sociais pedindo a cassação do mandato do parlamentar. E outras virão (mais sérias do que esta de ontem do Bastardxs, ex-Femen Br). Uma hoje mesmo.
Na segunda, dia 15, cinco deputados estaduais do PSOL do RJ levantaram cartazes com a frase "A violência contra a mulher não pode ter voz no Parlamento". 
Na saída, duas jornalistas foram entrevistar Bolsonaro, e ele disse a uma delas: "Você merece ser estuprada? Estou perguntando! Responda!". O deputado fascistóide tem experiência em xingar repórteres. Em abril, ao ser perguntado sobre os 50 anos do golpe militar, chamou uma repórter da RedeTV de "idiota" e "analfabeta".
Algumas outras repercussões que acompanhei: no Programa do Jô, um jovem gritou "Viva o Bolsonaro!", e a reação do apresentador foi ótima (não costumo gostar do Jô): "Quem é que gritou esse absurdo?"
Já para o guru da direita brasileira Olavo de Carvalho, a declaração de Bolsonaro sobre Maria do Rosário foi injusta. Afinal, ela "não é tão feia assim". Ainda não foi criado um tópico que não possa ser piorado por um comentário do astrólogo. 
A jornalista Rachel Sheherazade usou seu espaço para mais uma vez ser uma reaça irresponsável. Chamou feministas de feminazis, narrou o episódio como se a fala de Bolso fosse uma reação a ter sido chamado de estuprador agora, e ainda deu uma nota de um site de notícias falsas (em que Maria do Rosário defenderia pena de morte para homofóbicos) como verdadeira. Nossa direita é muito sensata mesmo.
Surpreendentemente, um dos muitos blogueiros reaças da Veja, Reinaldo Azevedo, se posicionou contra a fala de Bolso. Em represália, foi chamado de traidor por reaças que costumam adorá-lo. Alguns até começaram uma petição pedindo para a Veja cancelar sua coluna. Li até um comentário do tipo "Constantino é melhor", denotando um claro desespero, pois não tem como Rodrigo Constrangido ser melhor que ninguém no mundo em qualquer coisa.
Os reaças compararam a revolta da esquerda com a fala do deputado com a de Paulo Ghiraldelli. Sim, entendo o que você está pensando: WTF? O que tem a ver? Ghiraldelli é deputado também e a gente nem sabia?
Talvez você nem saiba quem é a figura. Um ano atrás, o professor de filosofia da UFRRJ escreveu na sua página do FB: "Meus votos para 2014: que a Rachel Sherazedo seja estuprada". 
Não se sabe exatamente por que reaças pensam que Ghiraldelli é de esquerda. Ele é tão detestado por esquerdistas que, um mês antes do filósofo ter escrito essa declaração hedionda, uma palestra sua foi interrompida por protestos de estudantes que se manifestaram contra seus comentários machistas, racistas e homofóbicos em sala de aula. Eu, feminista, de esquerda, sem admiração nenhuma por ele ou por Sheherazade, escrevi um tweet assim que fui avisada por um leitor. Reaças mentem até hoje que eu e outras feministas não falamos nada.
Também vi comparações com Che Guevara (que, obviamente, de acordo com os reaças, era um estuprador assassino e sanguinário), com Lula (em 2009 um militante narrou uma piada de Lula durante a campanha presidencial de 1994 sobre ter tentado estuprar um outro prisioneiro, quando esteve preso em 1980 -- eu sei, é confuso, melhor resumir para "Lula é um estuprador e a esquerda silencia", vai que cola), com Gaievski (ex-assessor da Casa Civil e ex-prefeito de Realeza, PR, condenado em setembro a 18 anos de prisão por estupro de vulnerável, mas há outros processos contra ele, e as sentenças podem chegar a 250 anos; tem reaça que até hoje reclama de eu não ter escrito sobre um cara que eu nunca ouvira falar antes das acusações, como se meu blog fosse um programa sensacionalista de TV que repercute todos os casos de estupro).
Reaças parecem não entender como o comportamento de Bolsonaro é inadequado no Congresso. Deve ser porque estão acostumados a sua agressividade. Em 1999, Bolso, em discurso na Câmara, disse que o Congresso deveria ser fechado e lamentou a ação dos militares durante a ditadura: "Deveriam ter sido fuzilados uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique Cardoso". Apesar de representações contra ele, não perdeu o mandato.
Ato contra Bolsonaro esta semana
Em 2011, numa entrevista com Bolso levada em tom brincalhão pelo CQC, Preta Gil perguntou ao deputado o que ele faria se seu filho se apaixonasse por uma mulher negra. Ele respondeu com a arrogância típica dos "Você sabe com quem está falando?": "Não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Não corro esse risco porque os meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu". Diante da repercussão, Bolso se justificou: achou que Preta Gil se referia a gays, não negras. Mais de vinte deputados protocolaram representações contra o deputado racista. Novamente, nada. 
Vídeo de Bolsonaro difamando
professora universitária
Além disso, já tem mais de dois anos que Bolsonaro vem divulgando um vídeo editado por sua equipe para difamar uma professora universitária, a psicóloga Tatiana Lionço. Ele pegou uma fala dela num congresso sobre sexualidade infantil e combate à homofobia, deturpou o que ela e outros militantes disseram, e publicou um vídeo chamado "Deus Salve as Crianças". Como um deputado pode espalhar mentiras com tamanha impunidade?
Como os mascus veem Bolsonaro
Deputado federal mais votado do Rio, Bolsonaro é representante da extrema direita, do tipo que defende a ditadura militar e equipara direitos humanos à "vagabundagem". Ou seja, um podre total. Já anunciou que será candidato a presidente em 2018, uma iniciativa que apoio. Acho lindo quando a direita se divide, e um falastrão folclórico e caricato como Bolso jamais seria eleito para um cargo executivo. 
É terrível sim que ele tenha tantos votos de gente que pensa como ele (para tentar entender o fenômeno bolsonarete, recomendo este artigo da Ana). Entre os mascus, por exemplo, ele é tão idolatrado que é chamado de Bolsomito. Compreensível um misógino que chama uma deputada de vagabunda ser aplaudido por misóginos. Incompreensível é que a misoginia tenha lugar na Câmara. 
Exemplo do pensamento de um
bolsonarete qualquer
Não dá pra aceitar que um brucutu com imunidade parlamentar sinta-se no direito de decidir quem merece ou não ser estuprada -- critério baseado em questões estéticas, daquelas que Rafinha usa como material de piada ("estuprador de mulher feia não merece cadeia, merece um abraço"). Na melhor das hipóteses, que bom "saber que o Parlamento brasileiro não abriga um estuprador, apenas um apologista do estupro". 
Insultos como "Você não merece ser estuprada" e "Nenhum homem é louco de te estuprar" eu ouço toda semana, sem exagero. Tem que ser um misógino muito sem noção para não ver um "Você não merece ser estuprada" como ameaça de estupro. Alguns mascus sanctos num chan deles em outubro discutiram estratégias para me estuprar. Claro que, para eles, isso não foi uma ameaça de estupro.
Mas espera-se que o Congresso tenha inteligência e sensibilidade maior que os trolls da internet. Espera-se que nossos representantes sirvam de exemplo no combate à violência contra as mulheres. Quem usa o espaço privilegiado que tem para perpetuar esta violência simplesmente não merece estar lá. 

Update: Aqui, um tumblr recém-criado por uma leitora: A História de Bolsonazi, com "a ficha corrida de um dos maiores criminosos políticos da história do Brasil, detalhada desde 1987". 
20 Dec 19:44

Como Letícia Santos, filha de ex-agricultores sem terra, chegou à faculdade

by Conceição Lemes

leticia

Letícia Santos, 21 anos, estudante de Direito da turma Elizabeth Teixeira da Universidade Estadual de Feira de Santana, BA

por Patrick Mariano, especial para o Viomundo

Um amigo me enviou um texto sobre o livro de Jorge Amado A morte e a morte a Quincas Berro D’água.  Pediu que publicasse em meu blog Más caras?

Nunca tive muitas pretensões com o blog, sempre foi mais para meu desassossego e crônicas de cotidiano. Mas, gostei muito da sensibilidade da resenha do livro e perguntei quem era o autor ou autora.

Descobri que a autora se chama Letícia Santos. É de uma pequena localidade chamada Adustina, no nordeste baiano. Tem 21 anos e é filha de ex-trabalhadores rurais sem terra, hoje assentados da reforma agrária e estudante de Direito da turma Elizabeth Teixeira da Universidade Estadual de Feira de Santana. Junto com outros filhos de trabalhadores rurais, conseguiu chegar ao ensino superior através do PRONERA, programa do Ministério da Educação/Ministério do Desenvolvimento Agrário (MEC/MDA) que busca ampliar o acesso ao ensino superior à população que vive no meio rural.

O analfabetismo ainda assombra o meio rural brasileiro. Entre as pessoas de 15 anos ou mais, atinge 23,5%. É quase 5,5 vezes superior ao verificado na zona urbana: 4,3%. Um estudo do Observatório da Equidade alerta que se o “Brasil Rural” fosse um país, teria o 4º pior desempenho entre os países da América Latina e Caribe, melhor apenas que Haiti (45,2%), Nicarágua (31,9%) e Guatemala (28,2%).

Resolvi, diante disso, entrevistá-la para o Viomundo a fim de que pudesse falar sobre literatura, lutas, dificuldades no acesso ao conhecimento e um pouco sobre a trajetória de sua vida. A entrevista foi feita através de um chat.

Viomundo — Letícia, qual o significado da literatura para você, estudante de Direito e com uma trajetória familiar de luta pelo direito à terra?

Letícia Santos – Eu vejo na literatura um caminho a se percorrer. É uma porta que se abre à uma viagem intensa e fantástica. Por isso, é na literatura que eu consigo sentir a magia de uma bela obra literária. Não tenho o hábito de ler tanta literatura, mas cada vez que leio me sinto totalmente envolvida e percebo o quanto me faz bem. A melhor parte de tudo isso é se reconhecer dentro dos personagens e entender como a fantasia literária está ligada à vida real.

Viomundo — Jorge Amado escreveu com magia e retratou como poucos o povo baiano, sua simplicidade e as cores da Bahia. Como estudante de Direito você vê a literatura como necessária para o jurista conhecer melhor o mundo em que está metido?

Letícia Santos – Claro, não só o jurista. Todos devem aprender a entender melhor o mundo em que estamos e a literatura é um bom caminho para isso porque nos permite entender como os elementos culturais e como as regras sociais que as pessoas estabelecem estão descritas no nosso dia-a-dia.

Viomundo – Como foi sua chegada na Faculdade de Direito? Você sempre sonhou em fazer o curso? Conte um pouco da sua trajetória.

Letícia Santos – Eu nunca pensei em fazer Direito. Eu costumo dizer que eu não escolhi o Direito, o Direito me escolheu. Em um certo dia, meu pai chegou em casa com a notícia desse vestibular para beneficiários da reforma agraria. Era meu último ano no ensino médio, e resolvi me inscrever. Não tinha nada a perder, até porque mesmo que eu fosse reprovada, já seria uma grande experiência e no fim de tudo isso, felizmente, passei no vestibular.

Viomundo – Quais as maiores dificuldades que você encontrou para chegar ao ensino superior?

Letícia Santos – Uma das maiores dificuldades foi o medo, pois tudo aquilo era muito novo pra mim. Sair de casa, para uma cidade distante, ficar longe da família, era tão estranho pra mim que cheguei a pensar em desistir, mas hoje agradeço por não ter desistido, e por ter aprendido tanto.

Viomundo – Seus pais puderam estudar?

Letícia Santos –Eles não completaram o ensino fundamental.

Viomundo – Quantas pessoas da sua família têm curso superior? Você vê a academia brasileira distante da realidade dos trabalhadores rurais?

Letícia Santos – Eu sou uma das primeiras a fazer um curso superior. A academia aparece como algo distante da realidade dos trabalhadores e hoje se percebe que o saber acadêmico impera sobre o saber popular, e isso faz com que exista uma contradição entre essas duas realidades.

Viomundo – Quais seus planos para o futuro? O Direito pode ser um instrumento da transformação social?

Letícia Santos – Eu pretendo aproveitar essa oportunidade que a vida me deu porque acredito que o mundo pode ser melhor. O Direito é um instrumento de luta.

Viomundo –Você concorda com a frase de José Martí de que só o conhecimento liberta?

Letícia Santos –O conhecimento liberta, mas nem sempre o conhecimento é libertador.

Viomundo –Depende como é empregado, é isso?

Letícia Santos – Depende do sistema. Hoje estamos à mercê de um sistema opressor, que não tem nenhum intuito de que o povo tenha acesso ao conhecimento e de que ele possa se apoderar desse conhecimento.

Viomundo – Qual o recado que você gostaria de deixar para milhares de filhos e filhas de acampados da reforma agrária que sonham em um dia ter a terra, mas também romper as cercas do ensino superior no Brasil?

Letícia Santos – Para todos aqueles que acreditam num mundo menos egoísta e mais humano, digo que não parem de lutar, nós podemos romper todas as cercas que nos prendem.

Patrick Mariano é doutorando em Direito, Justiça e Cidadania no século XXI na Universidade de Coimbra, Portugal. Mestre em direito, estado e Constituição pela Universidade de Brasília, integrante da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares-RENAP, do coletivo Diálogos Lyrianos da UnB e autor do livro 11 Retratos por 20 Contos.

Veja também:

Dilma defende Petrobras, partilha e exigência de conteúdo nacional

O post Como Letícia Santos, filha de ex-agricultores sem terra, chegou à faculdade apareceu primeiro em Viomundo - O que você não vê na mídia.

17 Dec 19:38

Em nota, Prefeitura de Taquari justifica retirada de busto de Costa e Silva

by alexandrehaubrich

A Prefeitura da cidade de Taquari, no Rio Grande do Sul, retirou, na última terça-feira (16), um busto em homenagem ao presidente da ditadura Arthur da Costa e Silva, nascido na cidade. O busto, que ficava junto a uma lagoa que é o principal ponto turístico da cidade, havia sido colocado em 1976, homenageando o segundo presidente da ditadura civil-militar que perseguiu, torturou e assassinou brasileiros durante duas décadas.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Costa e Silva, que editou o Ato Institucional Nº 5 (que ampliou as perseguições e determinou um aprofundamento da ditadura), nasceu na cidade, onde tem inclusive um museu em sua memória (para onde o busto será agora levado).

Na nota divulgada pela Prefeitura, esclarece-se que a decisão está baseada na divulgação do relatório final da Comissão Nacional da Verdade, onde “restaram comprovadas as atrocidades cometidas no período da ditadura militar, especialmente naquele período conduzido por Costa e Silva”.

Leia abaixo a nota completa da Prefeitura de Taquari, que tem à frente o prefeito Emanuel Hassen de Jesus (PT):

NOTA OFICIAL

Em face da polêmica gerada pela retirada do busto existente junto à Lagoa Armênia, na cidade de Taquari – RS, a Prefeitura Municipal de Taquari informa que:

1. O busto em questão foi instalado no ano de 1976, em homenagem a Arthur da Costa e Silva, porque “nesta Lagoa Armênia, na infância, organizou seu primeiro pelotão de meninos. Em hora difícil, presidente da República, comandou com altruísmo o Brasil e o povo Brasileiro.”

2. Com a divulgação do Relatório da Comissão Nacional da Verdade, restaram comprovadas as atrocidades cometidas no período da ditadura militar, especialmente naquele período conduzido por Costa e Silva.

3. Portanto, a administração municipal de Taquari entendeu que não havia razão para manter uma homenagem no maior ponto turístico da cidade, espaço de demonstrações culturais, justamente a quem promoveu um período nebuloso na história do país. Cidadãos de Taquari, inclusive, sofreram as mazelas daquele período.

4. O busto, portanto, foi retirado e já está junto ao Museu Costa e Silva, existente no município e mantido pela Prefeitura Municipal. Junto com ele, também estará à disposição uma cópia do relatório da Comissão Nacional da Verdade, para que a história seja conhecida na totalidade em que foi possível escrevê-la.

5. A Lagoa Armênia continuará sendo, e cada vez mais será, um espaço para a livre manifestação cultural no município de Taquari.

16 Dec 11:12

Dá-lhe, Lula. Dá-lhe em Lula.

by Luis Fausto

E aí, de repente, uma pesquisa insuspeita do Datafolha, instituto ligado ao suspeitíssimo jornal Folha de S.Paulo, anuncia sem maior destaque, sem qualquer estardalhaço, que Luiz Inácio Lula da Silva é considerado o melhor presidente da históia do Brasil e que o Partido dos Trabalhadores, o PT, mesmo diante de um bombardeio permanente da mídia amestrada, voltou a crescer na preferência dos eleitores e já está bem à frente do seu maior adversário – o PSDB.

Lula, diz a pesquisa, tem o apoio, o aplauso e consequentemente o voto de 64% dos brasileiros.

Dá-lhe, Lula, pois. Porque não é fácil passar por que ele tem passado, viver o que ele tem vivido e continuar gozando da confiança, do respeito e da admiração de tanta gente.

Dá-lhe, Lula? – perguntaram os editores da Folha, do Estadão, do Globo, da Veja, do Correio, da IstoÉ, da Época e de todos os blogs que sistematicamente fazem oposição a ele, ao PT, a Dilma Rousseff  e a quem se atrever a contrariar as suas palavras cada vez mais tortas e vazias.

Não: a ordem é dá-lhe em Lula. A qualquer custo. A qualquer custo.

No raciocínio deles, esses números favoráveis ao ex-presidente da República o credenciam a retornar ao Palácio do Planalto em 2018 e aí, minha santa, não tem que o impeça a ficar até 2022 e completar um ciclo de 20 anos completos e encarrilhados do PT no poder.

Seria um disparate, pensaram os editores do quanto pior, melhor. Vai que Lula inventa de repetir o que fez com os pobres, elevando 35 milhões para a classe média, e tira os desvalidos e os miseráveis da sarjeta? Vai que inventa uma Bolsa Cidadã, tornando todos os brasileiros iguais e com os mesmos direitos?

Não, isso não pode e não deve acontecer.

No começo da semana, o jornal O Globo deu o primeiro passo para descontruir o mito, o herói dos brasileiros. Disse que o ex-presidente adquiriu um triplex de R$ 1,8 milhão, em reportagem repercutida planejadamente por outros jornais do mesmo naipe. Veja foi além, mostrando Lula como um supermarajá. A Folha e o Estadão abriram manchete para informar que o Lula depôs sobre o mensalão, a ação já julgada mas nunca enterrada.

Balas de festim, apenas. Nada de novo, nem de verdade. O triplex não é de Lula – mas poderá ser, que um ex-presidente que ganha entre 100 e 200 mil dólares para dar palestras pelo mundo afora tem lastro para adquirir um imóvel de R$ 1,8 milhão. Os ministros do STF, julgadores do mensalão, já o isentaram de qualquer culpa ou responsabilidade – direta ou indiretamente. E a Operação Lava Jato, em curso e na moda, não encontrou nenhum indício de envolvimento do ex-presidente.

Fim de papo, fim da linha? Infelizmente, não. Até 2018, com uma frequência que tende a ficar cada vez maior, Lula é o alvo a ser abatido, destruído, descontruído.

Se o povo grita dá-lhe, Lula, a mída suspeita, eternamente golpista, sussurra dá-lhe em Lula.

É do jogo.

Sujo.

16 Dec 09:41

Rio Branco discute direito a cidade com oficina de parklets

by greenmobility

A convite do Conselho de Arquitetura do Acre ( CAU-AC) o Instituto Mobilidade Verde está em Rio Branco para realização de uma oficina de Parklets durante a semana de Arquitetura. O objetivo é discutir o direito a cidade através do tema “Arquitetura e envolvimento”,  Rio Branco entra na lista das cidades que estão discutindo temas contemporâneos como o Urbanismo Caminhável e o direito a cidade através de intervenções urbanas que colocam o espaço público no caminho das pessoas.

O Parklet é um instrumento que permite que qualquer pessoa a pensar/refletir  o espaço público de forma equitativa, não apenas o direito de melhores espaços de convivência, ou espaço dedicado aos carros mas de ir além do Parklet, possibilitando a criação de novos percursos, conectar as pessoas a cidade e discutir que tipo de cidade queremos. O momento é agora, não podemos mais criar cidades inviáveis, incontroláveis e insustentáveis.DSCN3363 10433161_4836220879824_7793351341922390357_n

 

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16 Dec 09:39

When black elites sell out black activism: Female college professor fired over her protest of controversial TV series

by gatasnegrasbrasileiras

Faculdade Zumbi - Vicente - Ellen de Lima Souza

Note from BW of Brazil: The controversial television series Sexo e as negas comes to a close as its final episode airs tomorrow night. The debate over the writing, quality and depiction of black women on this program has raged since it was first announced last spring and only heated up with its subsequent debut and 12-week run. The series has been featured on this blog in various posts due to the importance of an open dialogue about a program that prominently features Afro-Brazilian women who have been continuously portrayed as maids and sexy ‘mulatas’ throughout the history of Brazilian television.

Actresses and creator of 'Sexo e as negas'

Actresses and creator of ‘Sexo e as negas’

As we near the end of the coverage of the program, past and recent events have revealed to us a number of important clues into the precarious situation of Brazil’s black rights organizations, the power structure, the dynamics of black elites vs. black activists as well as a re-visiting of black women activists’ claims of sexism within the ranks of black rights organizations. Between this post today and further posts in coming days, there is a lot to cover on these issues, so let’s get to it…

Several weeks ago, tension over the controversial series boiled over as a female professor at Brazil’s only black college was fired for her involvement in protests against the program. Here’s a quick breakdown of what happened…

Sexo e as Negas case – After letter of repudiation, coordinator is fired from college

October 14, 2014

Two days after publishing a text repudiating an invitation by the directors of the college to Miguel Falabella for a debate, Ellen de Souza Lima was removed from her position and barred from completing her classes of the semester in the course of Pedagogy

By Jarid Arraes

Originally posted at Revista Fórum

Professor Ellen de Souza Lima, left, was removed from position at the Zumbi dos Palmares College directed by José Vicente

Professor Ellen de Souza Lima, left, was removed from position at the Zumbi dos Palmares College directed by José Vicente

The controversy of the new series of Miguel Falabella, Sexo e as negas, and the subsequent invitation to the director to participate in a debate on the program hosted by Faculdade Zumbi dos Palmares (Zumbi dos Palmares College – Unipalmares or FAZP) in São Paulo, there has been a new controversial outcome: two days after launching on her personal Facebook profile a letter of rejection to an invitation by the rector, professor and coordinator of the pedagogy course in college, Ellen de Souza Lima, was removed from her position and barred from completing her classes for the semester.

In an interview with the Afropress website justifying the removal of the coordinator, the dean José Vicente said that the criticism of the Globo TV series would be by “fundamentalists”. Ellen de Souza Lima says the pedagogy course consists mostly of black women that felt just their right to express dissatisfaction with the Falabella invitation. In addition, Souza questions the fact that no black activist and researcher in the area were called to participate in the discussion.

Souza says that the note of rejection, also signed by the coordination and teaching and student bodies of the college, was read during an assembly at the institution and explains that it sought to address the issue with the dean. “I pointed out that the entrance of Miguel Falabella in a space like FAZP was inconsistent with the values ​​of the institution, especially in a moment in which the program shows black women solely as sexual objects.” However, the rector José Vicente rebuked the claim that led to the coordinator asking for removal from the position, but soliciting that she could complete all the remaining classes in term time – a request that was not met by the rector.

Black women from all over Brazil took to the streets to protests the Globo series. Photo from rally in Salvador, Bahia

Black women from all over Brazil took to the streets to protests the Globo series. Photo from rally in Salvador, Bahia

“I find it strange the fact of seeing a black man shouting demands for space to ensure the right to free speech and defense of the producer of a series underpinned with sexist and racist ideology in a black space like Zumbi dos Palmares College and this same black manager, hearing the manifestations of black women belonging to their space, partners in his project partner, treats our demands in a trivialized, uncharacteristic manner, and still understand the manifestations of these partners being worthy of punishment, as he himself declared,” Souza explains. “So, I wonder: how can a letter of repudiation be fundamentalist? They want to treat us as objects and make use of our bodies to legitimize something that harms us and we vehemently disagree and they expect us to do so in silence?” she asks.

Faculdade Zumbi dos Palmares in São Paulo

Faculdade Zumbi dos Palmares in São Paulo

The professor assesses the impact against the show as strong and positive, but asks that the protests do not stop and still asks for more union of black activists – also aiming to insert FAZP Pedagogy students in spaces where they can develop methodologies for egalitarian education. “I think in this moment it is important to show to those who have not yet understood that this repudiation against the show Sexo e as Negas is not that of Ellen the professor or the Pedagogy group, but is a national movement contrary to a sexist, racist and classist ideology that sustains said series,” she concludes.

Note from BW of Brazil: Shortly after Professor Souza was fired from her position at Zumbi dos Palmares College, the rector of the college was interviewed by Afropress, a well-known website that discusses racial issues in Brazil, to get his side of the story. Here is that interview in its entirety. 

For the dean of Brazil’s only black college, resistance to the Globo miniseries is fundamentalism

From the Editor of Afropress

Originally published at Afropress

The controversy surrounding the miniseries Sexo e as negas, directed by actor Miguel Falabella and presented on Tuesdays on Globo TV, still occupies space on social networks and has already caused at least one fall at the Faculdade dos Zumbi of Palmares (College): professor Ellen de Souza Lima, coordinator of the School of Pedagogy and responsible for launching a manifesto protesting against the the invitation to the director to discuss the topic in Sampa Flink, was removed by the director of the college.

In an exclusive interview with Afropress, the dean José Vicente, confirmed the removal of the course coordinator, and blamed the climate on “exaggerated emotionalism” that is permeating the public debate about the miniseries. “There was really an erroneous misreading and does not even consider the right to free expression of thought, the right, inclusive of at least arguing. We at no time invited Falabella to receive a trophy (at the Troféu Raça Negra awards), or even to attend the awards,” he said, stating that the director, at the initiative of production of Flink (1), was invited to a table of debates, however, he did not confirm his presence.

“Our desire is for him to come sit at the table and say what the fundamentals are, why he thinks it’s right, why he can’t do it differently, if he is aware that by doing so, he produces these effects. Really because this is what Flink is for, it’s to debate the different occurrences,” said the dean.

Vincente said he was concerned about the climate of intolerance that has marked these discussions and other issues by segments of the Movimento Negro (black movement). “What I have observed is that there is a radicalization of the debate and posture and a radicalization in which they are trying to appropriate the foundations of this Movimento Negro, of this black activism, the objectives of the struggle for purposes that are not consistent with what was constructed, with what it has addressed and what it needs to achieve. The purposes to where you want to take this discussion, this action is totally dissonant than traditionally has been the struggle of the black theme, which is a struggle for space, for respectability, for recognition, empowerment and appreciation of blacks, but starting with the assumption that the good Brazil is the Brazil that is good for blacks and whites,” he added.

See, in full, the interview of the dean José Vicente, to Afropress editor, journalist Dojival Vieira.

Afropress – How are you following the debate around the Globo miniseries Sexo e as negas? We have information that there have been people from the Pedagogy department resigning or being fired, due to a protest against the invitation to director Miguel Falabella. How are you seeing this?

José Vincent – I’m seeing it all, at least here on my side, like a very exaggerated emotionalism, whose exacerbation is, including, allowing one to take positions upon misreadings.

The emotionalism strengthened by this extraordinary dimension that it took. It was known that it should have consequences, but it was amazing the thunderous, viral repercussion and as a consequence of this a series of precepts of consensus, prudence and even responsibility trampled it, we’ll say it like this.

Our reading is this. What was a result of emotionalism, of this sensibilization of the theme as latency in this moment so it ended up trampling over, including, important fundamentals. There was even an erroneous misreading and does not even consider the right to free expression of thought, the right, inclusive of you at the least arguing.

We in no time invited Falabella to receive a trophy, or even to attend the awards. The thing happened in such a cartoonish way, that in the end it obliges us to get more upset.

In fact there is a production of the Flink Sampa team that is producing the content. Then they’re all day looking for some content that may stick or that is interesting. As we’re doing the centennial celebration of Carolina [de Jesus], we’re trying to discuss various aspects of the trajectory of Carolina and the black woman that in the group allows us to bring a general balance, to know where we’re going and how we can get there.

And the fact of the matter fits directly into a perspective of discussing precisely these stereotypes, caricatures etc. and such. And so without knowledge (and also not needing knowledge), the girl who was producing content sent an email asking if he couldn’t attend a debate, he and the entire cast at Flink Sampa.

And as he had been with us on two occasions in the Troféu, I think he got it wrong, or at the time of expressing himself ended up including a mixture of the things and got the impression that he was invited to participate in the Troféu awards. Then he says “look, I was invited to the Troféu Raça Negra, to debate the miniseries, the work etc. and such.” But logically Troféu doesn’t debate anything, he was invited to debate at Flink Sampa. I think he didn’t relate it to Flink Sampa, or the first thing that came to him was the Troféu Raça Negra and he ended up saying that he would participate in the Troféu Raça Negra and debating the miniseries. On top of that it seems that there was the understanding that he’d be invited to receive the Troféu Raça Negra award. Hence the most varied protests came about due to this misunderstanding.

Afropress – But don’t you think that his joining the debate in Flink Sampa is still very relevant?

JV – Our wish is that he would sit at the table and say what the fundamentals are, why he thinks it’s right, why he can’t do it differently, if he is aware that by doing so, it produces these effects. Really, this is what Flink is for, it’s for discussing the most different occurrences. We are even taking on the case of racism in futebol, racism in the labor market, ultimately. As always in Flink, one discusses all the important dimensions of this topic. And that was one dimension, black female, market, blacks in the media, in short, it was very important, very timely, and because of this the invitation for him to come join the discussion was made.

And so the invitation ended up being presented and understood from the thinking that he was being asked to receive an award, and it was not owed, was not deserved and soon the institution needed to be questioned, and coming from the idea that he could not even be invited to discuss the miniseries because of considering what he represents, what he could represent, then not even the discussion would be a due and reasonable act of opportunity.

So it became this he-said-she-said in social media and in the end, resulted in an internal problem because our coordinator of Pedagogy, in an unjustified and totally unprofessional manner met with students and faculty members making ​​a whole argument because in her view it was improper, illegal, inappropriate and questionable, and along with these people, eventually produced a manifest about it.

So this then generated a hassle, discomfort, because in the end of the story, the resentment of the freedom of expression being a basic foundation, this was an issue that should be debated internally, that in the position of trust that she found herself (was coordinator of course), she was in a position that was out of place, since the critical debate of ideas is the meaning and the foundation of the academy. Otherwise it makes no sense to participate in the academy if it was single-minded thought. In the case of coordination is a very delicate position. As a result there was discomfort and also attacks out of time, out of place and even unjust and we also had an internal drive, especially in the course of Pedagogy, which then culminated with the resignation of our coordinator, taking into account that logically, we were facing a different position – the institution could not maintain an attitude like that, for who was there in the lead of representing the institution and the institution’s values ​​and fundamentals. So she ended up being removed and we will keep moving forward.

Afropress – To what do you attribute this volume, it seems that this debate has acquired a very large dimension on social networks, what do you attribute this to?

JV – That’s true, man. First, because I am the most inappropriate man to answer that because I don’t watch TV. When things are on TV I’m working. I don’t even know what the hell this blessed miniseries Sexo e as negas is. I haven’t followed it, I haven’t watched it, I don’t watch it, much less this miniseries. The second is that I also just learned, amazing, I was taken by surprise because we only knew of this after the repercussion, because a few emails started coming to me, I didn’t know of such a production of the program … See, Flink must submit at least this year some 100 activities, there’s music, dance, debate,  it has everything. So in no time I became aware of what had been done, this invitation, when I found out I only heard of the repercussion. And then I didn’t follow it, I didn’t know of this business of Sexo e as negas, I only became aware afterwards.

But it seems to me that the Aranha case [Santos’s black goalkeeper who was a target of racism on the part of Grêmio fans], the background in the US, the Ferguson case [the black revolt in the American city of Ferguson] case, which happened in the last three months on this theme, I ended up moving toward a positioning of this nature, and things just took an inordinate proportion because the impression now is that he was being freed, that he was being then endorsed, what he was doing was correct, once they had been invited by a thematic institution that has a certain expression and referencing. So, I have the impression that this ended up affecting things further and then what appeared to be a normal and traditional positioning as they were previously went overboard.

It was a very difficult situation, but anyway it was a proposition that was a head above. We have a service record on this issue, it was an unprovoked, inelegant, uneducated aggression [by the course coordinator]. At the end of the whole work it’s a treatment, one is throwing out the bath water with the baby and everything.

Afropress – Don’t you think there is in certain sectors of the Movimento Negro (black movement), a posture that is resistant to discussion of the differences? That to me sounds like very single minded defense, doesn’t it seem to you?

JV – I am very concerned about these and other events, and they, in essence, at the end, they are appearing to send a signal that the debate is restricted. That can only be discussed if you, a priori, were to agree with the thought of the Movimento Negro or a certain representation of the black movement. I think it is also very dangerous and counter-productive, because construction will always have to be construction with the other. According to the interdiction of the debate, having diverse thoughts can lead us, ultimately, to a fanaticism to extremism.

Pretty soon it will determine how you behave, what you can think, what way you can think. And if you act differently, at the limit you can be at risk of suffering a stoning. I find it very dangerous, disturbing and I think we all need to review these positions, these referrals, because it seems to lead us to a confrontation. I don’t think it’s the best way to deliver the solutions that our theme needs.

Afropress – This doesn’t seem to be new, right dean, but it seems that it’s growing, this position of intolerance of difference that in reality is contradictory to what we stand for. We are victims of intolerance of difference and besides we are plural. We do not think the same thing and it would be odd that we would defend this single thought. So I’m always very careful when I hear in meetings, demonstrations, lectures and seminars such things as someone saying “the Movimento Negro decided this,” the “Movimento Negro decided that.” First: what Movimento Negro? What Movimento Negro is this? Doesn’t it appear to you that this thing is growing, because it’s not new?

JV – The reasoning is that these overtures, all these developments, all these achievements and qualifications of the debate of the people, would lead us to an action of more strategy, more ability, more intelligence and strategic points of view so that we now consolidate these achievements and we continue building conditions and reaching others. What I have observed is that there is a radicalization of the debate and posture and radicalization in which, as we said, are trying to appropriate the foundations of this Movimento Negro, of this black activism, of the objectives of this struggle for purposes that are not in agreement with what was constructed, with what was discoursed and what one needs to reach.

The purposes for which you want to take this discussion, this action, are totally dissonant from what traditionally has been the struggle of the black theme, which is a struggle for space, for respectability, for recognition, appreciation and empowerment for blacks but coming from the presumption of that the Brazil good for blacks is the Brazil that is good for blacks and good for whites.

And that the key element to be fought, to be attacked is intolerance, racism and discrimination against anyone, black or white. And the case here is positioning itself that racism and discrimination is only of the other, our worth, ours is referenced, approved and authorized. I am very worried, it was not for this that we did ​​the revolution. We want a Brazil in which people can have the right to discuss ideas, have contrary ideas and that people can make choices. Those girls have the individual, personal right to choose to work at Globo, on that series, where they wish.

Afropress – Now there was then a patrol that would say what black people can or cannot do on TV? What absurdity is this? This is more like North Korea, don’t you think?

JV – It’s the Taliban, an Islamic State of such…

Afropress – At the moment in which there is a norm in which blacks should behave, or they can assume these or those roles… because it is the following: the screaming is against Miguel, but also it reaches the black women that are part of this series, because they are also demonized by this campaign, don’t you think?

JV – Of course, what is this? A black or white actress…We will want that again, Sérgio Cardoso paint his face black to be play a black role [the actor painted himself for the novela A Cabana do Pai Tomás, in the 60s]. This is all that’s missing now. This discussion deserves a series of observations. If you turn on the TV and change the channel to a 7 or 9pm novela, there are Taís Araújo and Lázaro Ramos in the lead roles. And if you change the channel to the novela of whatever channel, you will see that all the white women and men are rubbing up against each other in lingerie in bed at 6 or 7 in the afternoon, or Vale a Pena ver de Novo at 2 pm. So I don’t know if it there’s a place, whether it’s fitting for a thought of that nature. Black women cannot. Is what they do immoral, illegal or fattening?

Afropress – It seems a fundamentalist thing, even the theme of sexuality…

JV – Only it cannot be black women, all the others can. You can’t understand this fight against sexism on only one side.

Afropress – Can you identify where this comes from?

JV – No. I need not dwell on these currents, these generating sources. We need time to look into this. What caught my attention is that I didn’t see much about it, but I saw very few black people positioning themselves. And I’m not even saying that they were not in defense of Miguel Falabella. It seems a bit of a pact of silence.

Afropress – We opened the debate, including with Professor Júlio Tavares of the Universidade Federal Fluminense. We had several articles about it, but it happens that these articles don’t reflect the radicalization then, with this attitude of this professor launching a manifesto against it, and subsequently being let go.

JV – I think we all have this trajectory in this struggle. These achievements, in which none of them are consolidated, are the responsibility of us all. And we all have to be called to responsibility. Responsibility means to continue leading this theme in a way that we continue to build without becoming, ourselves, our own capitães do mato (captains of the woods, or loosely meaning “house negroes”), the ones that will interdict the debate and further define what people can do or say.

Afropress – Would you make the invitation to Miguel Falabella to discuss the issue again?

JV – We will make an International Seminar to discuss discrimination, racism, and discuss various forms of bigotry. We are an institution that produces critical debate, we are lovers of free expression of thought. Logically, if the Sexo e as negas team wants to debate, of course that will be received with due respect and they will be allowed to put their case forward and we will respect that and also put ours (forward).

Afropress – He has not confirmed, but will the actresses come?

JV – I don’t know. I don’t know with all of these events that they weren’t scared, that they weren’t worried. But in every way if they can’t come now, it will remain open. It’s a sin what is being done to these girls, they didn’t even say what they think. It’s a sin. All our spaces will be open to them if they ever want to talk about it. We will discuss racism in futebol, police actions, this would be one among the eighty activities that will be developed.

Afropress – Do you plan to talk to Falabella?

JV – He is a person worthy of my respect, I have admiration for all his work. Falabella has already had been in Troféu, the Troféu has already been given to Chica Xavier [actress]. The Troféu Raça Negra is a space where we receive all. Be it in Flink, be it in Troféu or in another space, if Falabella wants to talk to me, I’ll have all the respect to sitting chatting, listening to make my considerations if necessary, if it were possible without any problem.

Note from BW of Brazil: Soon after the Vicente interview, one of the most prominent black women’s activist groups that led the charge in repudiation of the TV series posted their own response to not only the professor’s firing, but also the position of Vicente as well as that of Afropress  about the situation. Here is the response of the Blogueiras Negras group. 

Note of repudiation of the positioning of Zumbi dos Palmares college on Sexo e as negas

blogueiras negras

By Blogueiras Negras – October 15, 2014

Originally posted at the Blogueiras Negras blog

We Blogueiras Negras (Black Women Bloggers) vehemently reject the stance of institutional and ideological silencing of the Zumbi dos Palmares College regarding their attitudes towards all black women, inside and outside of the institution, that spoke out against the show Sexo e as Negas. We therefore declare our unqualified support for Ellen de Lima Souza, a black woman and course coordinator of Pedagogy of the institution, dismissed for expressing her point of contrast to the presence of (show creator) Miguel Falabella at the college, always remembering that it is not a personal issue, but the struggle for a representation of the black woman that is not stereotypical, sexist, racist; ultimately only human.

In a recent interview with the Afropress website (Originally published on its website, now offline due to computer hacking), the director of Zumbi dos Palmares College José Vicente says the spiteful way that the criticism of black women to the Falabella series it is simply “exaggerated emotionalism”, advocating that our observations and demands were based on an “erroneous misreading and that didn’t even consider that the right to free expression of thought, the law, inclusive of you at least arguing.”

Arguing that the criticism of black women has to do with pure emotion is the defense that we are not capable of constructing an insightful, astute and practical evaluation of a reality that speaks straightforwardly only to ourselves and not to black men. And the name of this is sexism. We have voice and arguments, we demand to be respected, welcomed and not brutally silenced as has been the historical practice of some sectors of the Movimento Negro (black movement), that prefers that we remain quiet.

In no time, did we black women that positioned ourselves against the show, inside and outside of the Zumbi dos Palmares institution, trample any “precepts of consensus, prudence or responsibility.” We will continue, through our ability to speak coherently for ourselves, denouncing the secular racism and sexism that the fall upon our bodies and lives. When a black man refuses to understand our struggle, belittles our speech and disrespects our place to speak, it only manifests his allegiance to a system of things where the woman is nothing more than an object.

The note in repudiating the presence of Miguel Falabella at the college never had “improper, illegal or questionable” character. Regardless of having been constructed when one suggested the possibility that the author be awarded by the institution or just participating in a discussion, it characterized only the collective right to free expression of ideas on the part of black women that the college intends to empower. One must understand that silencing the criticism of Sexo e as negas is also sexism, is also or racism or its reproduction.

The free exercise of ideas generates power, never discomfort, unless those bothered condone the racism and sexism that has been directed at us. We understand that the positioning of Zumbi dos Palmares College should of listening and welcoming all students and professors who signed the note, mostly black women. How the college, before such a serious fact of blatant ideological persecution, can simply “touch the lives” and “move on” when one of the most costly precepts  of the academy is severely disrespected? When the black woman continues to be violated inside and outside of the television?

How to make reference to “critical debate of ideas is the meaning and the foundation of the academy,” if those who disagree are silenced and persecuted because of their ideological opinions? If this law is defended only for the aggressor and its allies and not for the black woman, isn’t she once again the victim of symbolic violence? For the premise that motivated the construction of the Zumbi dos Palmares College to be fulfilled, it is necessary that the struggle of black women is considered nothing less than legitimate within the institution. Otherwise, we only have a litany of intentions that will never have as its purpose an equal society.

We, Blogueiras Negras, will insist and blacken. Considering that our reaction to sexism and racism that concerns us, once again and everything that was said in the note of repudiation is an “unprovoked aggression, tacky and disrespectful” speaks of a false symmetry that is not consistent with an academic institution, particularly in the context of a college that is motivated to empower the black population. We are only acting in self defense. And we will act as often as necessary, when it comes to violence from whoever it comes from.

In function of this, we also express our condemnation of the irresponsible way with which the newsroom of Afropress conducted the interview with director José Vicente, because it showed its agreement with the idea that criticism of the TV show Sexo e as negas was motivated by disrespect for differences and the unique thought. We are only exercising our right to debate, have a voice and not silencing ourselves. Understanding that this right speaks to “fanaticism”, “radicalism” is of an atrocious inhumanity, comparable to that which we have seen on the show.

Activists calls for the boycott of the program remained consistent throughtout the show's three month run

Activists calls for the boycott of the program remained consistent throughtout the show’s three month run

By chance is it through the silencing of black women that we will achieve an equal society? It speaks to a serious offense to suggest that we black women are capitãs do mato (captains of the woods), it is a serious disrespect to the struggle that it claims to defend. We are exercising our speech, through which we demand respect, which is diametrically opposed to the “intolerance of difference.” It should not be confused in any way to the reaction of who will pick up with the action of the one who strikes. Whoever does it in the first place asks which side is which of the debate to stand beside the aggressor. No black man tells us how we should militate in support of our interests. The one who knows where and how Sexo e as negas hurts is the black woman.

What some call “traditional Movimento Negro” always ignored our demands. However, we were never silent and didn’t accept staying behind the scenes so that all the black men have the lead role in combating racism that affects us in a flagrant and unique way as women. Or for this same black man to believe his sexism is justified. The struggle of the black woman is guided by the defense of equality. Accusing us of reverse intolerance and racism not only shows a profound ignorance of what racism is, but also of the sexism of which we are victims, sexism that also comes from black men.

At no time did we have as an objective to target black women who are working on the show. We are disputing meanings and the right for a dignified representation. We never said that the problem is sex, but it is hyper-sexualization, objectification, stereotyping, the reduction of social meaning, a whole range of symbolic violence that goes beyond the presence of black actors who, once again, we are not attacking. Our objective is that they are themselves on television and in the media, but not in any way. Without quality, the representation of black people only serves racism.

If Zumbi college really is an “institution that produces critical debate” and a lover of “free expression of thought,” it should consider the immediate return of Ellen de Souza Lima to the staff of the institution as well as the making of a debate in which all those who drafted and signed the note in repudiating the presence of Miguel Falabella at the college be heard and not silenced. Without this, it would be even more evident of what side the institution is on in the debate and what principles it defends.

Note from BW of Brazil: Having followed the situation and debate about this series from day one, this blog would like to express its disappointment in the actions of the leader of Brazil’s first and only black college. It’s unnecessary to say that we are not all inclined to agree on all issues, but there are some fundamental principles of the Afro-Brazilian struggle that were severely trampled upon by the institution that one would think would stand in solidarity with the female parcel of the population that has been most disrespected throughout Brazil’s history.

Over the years, there have been many rumblings from black women’s organizations that accuse various factions of Movimento Negro leadership of harboring sexist attitudes and I must admit that this is exact sentiment that came to mind as I read the Vicente interview. Like previous comments made by Afro-Brazilian actors in support of the program, it seems that the head of the college placed himself at the services of the white power structure by attempting to silence legitimate black feminine activism and aligning himself with the show’s creators even when the network itself has voiced its disappointment with the production. One has to wonder, if black female activists cannot depend on a black institution, leadership and male support on such a basic issue, is there any possibility of of black unity when the latter is so quick to turn his/its back on half of its population? 

Analyzing the interview, I have my own questions and comments…I highlight in bold the piece to be addressed from the Vicente interview followed by the blog’s comments/questions. 

“climate of intolerance”

A climate of intolerance? Interesting choice of words. White Brazilians have ALWAYS called the shots in Brazil. From the usage of black bodies for labor and sexual exploitation and mass murder that started on 16th century slaves ships and continues today in cities throughout Brazil as we see in the state-sponsored mass murders of black people at the hands of death squads and Military Police. In government, economics, sports, etc. whites continue to rule and descendants of Africans in Brazil have very little if any access to any power. In the media, white Brazilians continue to control how Afro-Brazilians are presented in the mass media which continues to maintain the “place” that this community has in the mind of Brazilian society. One of the reasons for the rise of black women’s branches of the Movimento Negro, at least from I understood, was to combat these negative images of which media critic Joel Zito Araújo masterfully exposed in his 2000 groundbreaking work on images of Afro-Brazilians in the media, A Negação do Brasil – O negro na telenovela brasileira (Denying Brazil: the Black/Negro in the Brazilian Soap Opera). With this in mind, I’m curious to know how black women can be accused of being “intolerant” if they reject the “places” where they have always been restricted to (the bedroom and the kitchen). That is unless one believes they should simply remain silent and stay there.

“radicalization”

Again, raising one’s voice in opposition to something that is found to be unacceptable is not radicalization; it is activism. I guess here this depends on how one defines “radical”. And in the context of social movements where there have been uprisings, violence, murder, fires, etc. the women who reject the series haven’t actually done anything “radical”.

“struggle for space, for respectability, for recognition, empowerment and appreciation of blacks”

Indeed, these are some of the things black and women’s groups stand for. But we must understand that not all “space” allows “respectability” and the two terms don’t always necessarily come together. There is nothing “empowering” about this program. No black woman (or man for that matter) contributed to the creative process, the characters weren’t in fact the protagonists and the narration was done by the white (male) director. This doesn’t even consider the questionable scenes in which sex supposedly resolved a conflict based in racism between two black characters and the women needing a white woman (or was it ‘savior’ (2) to defend them against racism. In closing, the often graphic sex scenes of the program seem to promote the director’s true “appreciation” of black skin. Not surprising considering the place of negra/mulata women in Brazilian history.

“exaggerated emotionalism”

Shameful choice of words. Many of the black women criticizing this program have college educations. Some have Master’s degrees, some are professors, but apparently in the dean’s mind, these black women cannot analytically articulate their concepts of this program because their thoughts are purely based on “emotions” rather than cognitive thinking skills. Not a good look from a black man who one would think would be a black woman’s natural ally. This is of course not to say that black people cannot disagree, but to reduce criticism to simple “emotionalism” is sexist in nature. As Vicente even revealed that he hadn’t even watched the program I ponder how he could even debate this topic without having seen the topic that is at the center of the debate. One other thought. Dennis Oliveira is a professor over the Brazil’s top university, the University of São Paulo, and he also soundly criticized the program. Should his criticism also be labeled “exaggerated emotionalism”?

“the right to free expression of thought”

Again, interesting choice of words. Is this to say that the author of the novela should have “the right to free expression of thought”? but the women should’t? Really?

“a perspective of discussing precisely these stereotypes, caricatures”

How can there be an open discussion when there is an immediate attempt to stifle voices of dissent?

“resentment of the freedom of expression being a basic foundation”

It seems to me that by attempting to silence dissent, the dean here is doing exactly what he seemingly purports to stand for.

“I don’t even know what the hell this blessed miniseries Sexo e as negas is”

Incredible! He chooses to censor and then fire a voice of dissent over a genuine issue that speaks to a stereotype that has plagued black women for five centuries and he hasn’t even seen the program?!? My question would be, had he seen a few episodes and agreed that the program was filled with stereotypes at worst or was simply badly written at best, would he have voiced his rejection/concern or would he have still cloaked his rebuttal in the principal of “freedom of expression”? Also, had professor Souza come to him before helping to draft the letter of repudiation, would he have still fired her, requested that she not participate in the manifestation or at least analyzed the complaint?

“lead to fanaticism to extremism”

“Fanaticism” and “extremism”? Again, how is repudiation of images based on historically-established representation considered fanaticism or extremism? Globo TV is the most powerful network in Brazil and Latin America and the spread of such images no doubt play a role in stereotypes long attributed to black women. If it were he that repudiated something I would be curious to know how he would go about expressing his displeasure. Again, considering armed movements in history in which people openly speak of the need to kill the opposition, how does he judge this to be extremism?

“foundations of this Movimento Negro”

Are the “foundations of this Movimento Negro” based on black female oppression? This tone of this interview seems to support the idea that black women remain in the kitchen and remain silent in sort of the same way they are often presented on television.

“the key element to be fought, to be attacked is intolerance”

Again, intolerance. It seems that the dean prefers to fight for the right of the (white) director/TV network to present black characters in any way they see fit with no challenge whatsoever. If that’s the case, why even have social activism, organizations or pretend that you stand for empowerment? After all, if we should just tolerate everything, what’s the point of struggle?

“Those girls have the individual, personal right to choose to work at Globo, on that series, where they wish”

No argument here. The women of Blogueiras Negras adequately pointed out that the attacks were never on the actresses of the program so this comment wasn’t even necessary. I personally never saw any attacks on the actresses online. All of the attacks I saw were always focused on the creator (Falabella) and the network (Globo).

Vieira: “This is more like North Korea, don’t you think?”

Baseless and completely unnecessary. Does Vieira also feel the same way about the voices that spoke out against the brutal 21 years of Military Dictatorship? I’m curious…should those voices of protest also have been considered simply “emotional”?

“The Taliban”

Ditto! Shameful to even make such a comparison!

Vieira: “but also it reaches the black women that are part of this series, because they are also demonized by this campaign, don’t you think?”

Disappointing here. It seems that Vieira (the interviewer) completely throws away impartiality here as a journalist to voice his agreement with the dean’s stance.

“white women and men are rubbing up against each other in lingerie in bed”

This comment deserves an entirely different conversation as it delves into questions of sexuality in the media and acceptability. I will simply state here that we all know (or maybe we don’t) that skin color can often provoke totally different attitudes toward given situations even they are identical. There has been a long debate in the US on the differences of perceptions of black women’s sexuality in comparison to white women and the debate also applies to Brazil, as one author pointed out in her text. Let us not forget the complete difference in SBT anchor Rachel Sheherazade’s opinion toward a black teen accused of crime in comparison to trouble teen pop idol Justin Beiber. I would think that anyone familiar with race in society and media would be familiar with how blacks and whites are imagined and depicted in different manners. Or have we forgotten the saying: “A white man running is an athlete; a black man running is a thief?” Or have we forgotten how differently beggars and drug addicts are treated when the skin is white or it is black? Disappointing that someone would need to explain this to an educated black man who, one would assume, represents black interests.

Vieira: “fundamentalist thing, even the theme of sexuality”

Fascinating the use of the term “fundamentalist” here. According to the definition I found on Google, fundamentalism refers to “strict adherence to the basic principles of any subject or discipline.” In this case, as Brazil’s media has clearly set a long-term precedent in how it chooses to depict black women as mostly maids or sexualized ‘mulatas’, the show Sexo e as negas could be accused of fundamentalism here as it clearly continues this imagery. The women who reject the show, on the other hand, seek a representation beyond the long-established stereotype. So really, who is it that should be accused of “fundamentalism”?

“we all have to be called to responsibility”

Totally agree here! And I would think this would also apply to Brazil and Latin America’s only primarily black university.

“without becoming, ourselves, our own capitães do mato”

Wow! Capitães do mato??? Just to refresh for those who are not familiar with this term. Capitão do mato (in the singular) was the title given to the black man whose main task was to hunt down, capture and return fugitive slaves to captivity in Brazil’s slavery era. Brazilians use the term to define blacks who collude to disrupt the success of other blacks, similar to the manner in which African-Americans refer to the “crabs in the barrel” mentality, “Uncle Tom” or “house negro”. We should be careful in how this term is used. If we are saying that Sexo e as negas attempts to keep black women in their “place” and there are those who reject their rejection of this “place”, it would appear that those who seek to continue the system intact are in fact the real “capitães do mato”. In other words, “massa, the slaves is tryin’ get away again!”

 “It’s a sin what is being done to these girls”

Again, disapproval of the program is not at all an attack on the actresses’ right to work. Perhaps the rector should do some research on the long-running 1970s African-American sitcom Good Times. Although the show remained a favorite among black audiences, two of the program’s prominent, well-seasoned actors, Esther Rolle and John Amos, grew weary of co-star Jimmie Walker’s “JJ” character, that they believed to be a pathetic role model for black teens.

Please stay tuned to the follow up to this piece as we dissect meanings of the series that far outweigh its run on television. 

Source: Afropress, Revista Fórum, Blogueiras Negras

Notes

1. A fair presenting various displays of black culture, music, dance and literature that takes place in São Paulo. Site

2. A similar use of the “white savior figure” was employed in another recent Globo TV production. See the report here.


15 Dec 22:42

Carros e centros

by raquelrolnik

A prefeita de Paris acaba de anunciar que, até 2020, quer reduzir drasticamente a poluição na cidade e, para isso, pretende radicalizar a mudança da matriz de mobilidade. Paris já implantou 652 km de ciclovias, tem um dos maiores sistemas de compartilhamento de bicicleta (vélib) e já oferece um de carros (autolib). A proposta agora é introduzir o compartilhamento de utilitários (utilib), dobrar a extensão das ciclovias e fechar o acesso aos quatro distritos centrais para carros particulares. A circulação no centro de Paris seria feita apenas por transporte público, bicicleta e a pé. As exceções seriam veículos de moradores, serviços de entrega e emergência, além dos táxis, com utilização de tipo específico de combustível.

No centro de São Paulo, desde o final dos anos 1970, temos uma extensa área de circulação exclusiva de pedestres -são os calçadões entre a Sé e a República, que ocupam hoje cerca de 400 mil m². Ao ler a notícia sobre Paris, lembrei que, não faz tanto tempo, a Associação Viva o Centro propunha, além de medidas para melhorar os calçadões, a ampliação dos pontos onde a circulação de carros é permitida.

A associação se queixava de que “mais de dois quilômetros lineares dos calçadões do centro estão situados a mais de cem metros de distância de um ponto acessível por veículos particulares ou mesmo de estações de metrô” e apresentava propostas de intervenção para reduzir esse trecho. A ideia partia da tese de que a “decadência” do centro estaria associada à dificuldade de acesso e estacionamento de veículos, o que teria contribuído com a “fuga” de empresários para outras áreas da cidade. Facilitar o acesso de carros particulares seria uma medida que ajudaria a “revitalizar” a região.

A tese não se sustenta. A migração de parte do setor empresarial começou antes mesmo da construção dos calçadões, motivada pela abertura de novas frentes de expansão imobiliária. Neste movimento, empresas abandonaram o centro na direção da Paulista para depois seguir em direção das margens do rio Pinheiros.

Além disso, a política de transportes transformou o centro em um grande terminal intermodal, com estações de metrô e vários terminais de ônibus. Ou seja, o que alguns definem como “decadência” nada mais é do que a popularização do centro. É certo, entretanto, que se os térreos comerciais continuam vivos, os andares superiores dos edifícios se esvaziaram, sem que qualquer política de reabilitação para novos usos –inclusive moradias– tenha sido implementada.

O debate sobre a abertura dos calçadões foi feito há uns dez anos -e imagino que hoje dificilmente alguém propusesse algo do tipo-, mas mostra a força do paradigma do urbanismo dependente do automóvel que estrutura nossa cidade há mais de meio século.

Apenas muito recentemente começamos a enfrentar com seriedade o tema da mobilidade, que aos poucos vem se traduzindo em ações concretas, mas ainda temos um longo caminho a percorrer.

Nele, repensar o centro, seus usos, a forma como o transporte público se insere na região, atualizando, inclusive, seus calçadões, é fundamental para uma São Paulo com menos carros, mais espaços públicos qualificados e formas mais saudáveis e confortáveis de circular, o que parece ser o desejo de cada vez mais paulistanos…

*Coluna originalmente publicada no Caderno Cotidiano da Folha.


15 Dec 22:35

Luciana Genro foi vítima da Veja e da Justiça

by Paulo Nogueira
Pulitzer, o editor húngaro-americano que inventou na segunda metade do século 19 o jornalismo como conhecemos, dizia que buscava no seu jornal “precisão, precisão e ainda precisão.” Era, para ele, a virtude surprema de uma publicação. Sem ela, você não tem nada. Precisão. Fiz esta introdução para fa...
13 Dec 23:31

Como os holandeses lutaram por um país de bicicletas

by Daniel Duclos

É fácil olhar a Holanda dominada por bicicletas hoje e pensar que sempre foi assim, que os holandeses ganharam um país ciclista devido a uma geografia plana e favorável. Não foi presente. Foi luta.

O artigo Como os holandeses lutaram por um país de bicicletas foi retirado de Ducs Amsterdam.

13 Dec 23:16

Licença maternidade não é férias

by Lika Sagi

Estava eu almoçando calmamente quando tive que ouvir na mesa ao lado um grupo de rapazes conversando, quando um deles soltou a pérola: “As feministas querem reivindicar mais direitos quando as mulheres são privilegiadas. Olha só, a fulana teve bebê e agora vai passar 6 meses de férias em casa. Assim até eu queria”

cersei

Enquanto a comida descia rasgando, eu pensava no quanto aquele cara estava errado. No quanto todos daquela mesa, que concordaram com ele, estavam errados e no quanto a falta de empatia faz diferença.

Eu não fiquei de licença maternidade porque estava desempregada, mas nem por isso agi assim. Durante os seis primeiros meses eu já havia decidido que ia receber meu auxílio maternidade e começar a trabalhar como se fosse apenas uma licença. Não podia me dar ao luxo de ficar mais tempo sem trabalho, uma vez que com menos de dois meses já era mãe solteira.

Os seis meses iniciais não foram nada fáceis. Logo nos primeiros 20 dias eu tive que enfrentar a dinâmica de cuidar de uma vida nova com uma dor excruciante de uma cesárea que não foi lá aquelas coisas, a ponto de ter que andar dobrada. Enfrentei a falta de leite, a pressão da família, a recém separação e todas as dúvidas que uma mãe de primeira viagem tem. O que seria de mim, o que seria dela, o que seria de todos nós.

O emocional ficou abalado e eu tive depressão, mas não quis contar para ninguém para não ser julgada e enfrentei alguns dias sombrios chorando de madrugada, achando que não seria capaz de cuidar bem daquela criança por não ter o pai junto.

Meus pais trabalhavam e eu, estando na casa deles com mais uma pessoa, queria ajudar, mas sentia algumas dores e passava mal constantemente por não comer direito e me enfiar em receitas malucas para produzir leite. Foi assim por 2 meses.

Quando as coisas se acalmaram, comecei a me empenhar na faculdade à distância. Como minha filha exigia atenção constante, reservava o horário da madrugada para fazer os trabalhos. Independente disso, ela acordava às 5 da manhã e eu tinha que estar pronta.

A rotina seguia a mesma: banho de sol, mamadeira, troca de fraldas, visitas ao pediatra, visitas ao ginecologista, casa para cuidar, roupas do bebê que eram cuidadas separadamente, estímulos constantes, aproveitar os horários da soneca para dar uma arrumada geral, estudar, procurar emprego, dar remédio, medir a febre, dar banho, esperar arrotar, esperar a cólica passar, descobrir por que ela estava chorando de novo, mais estímulo, receber visitas, agradar as visitas, planejar batizado, mais visitas ao pediatra, mais novidades na alimentação, mais estímulos, mais exames, mais mais mais.

Claro que eu tive muita ajuda, mas eu tive que aprender a comer com ela no colo e a ir ao banheiro também. Tive que aprender a tomar banho de porta aberta, a ouvir choro de bebê enquanto lavava o cabelo(e se chorasse, sair correndo de toalha e sabão na cabeça). Um mundo todo de descobertas bem na minha frente e eu com a pressão de que tinha que dar um jeito de ser mãe e pai ao mesmo tempo. Não era nada fácil.

Quem vê uma mulher de licença maternidade por 6 meses não sabe como é a rotina. É pensar constantemente na criança, é dar atenção em tempo integral para o bebê, é se encarregar da casa, das preocupações e de si mesma sem deixar de dar atenção ao bebê. Chega a ser divertido? Claro. Mas arrisco dizer que 80% é compromisso com o bebê. Ele é uma nova vida. É novo no mundo. É um ser totalmente dependente de nós para comer, beber, ser limpo, para viver. Quem é mãe e curte isso tudo diz que é uma das melhores coisas da vida. Mas se olhar de fora, meu amigo, é trabalho pra caramba full time. Não tem uma hora de almoço, não tem ticket alimentação, não ganha por hora extra, não tem férias, seu cliente é exigente e a cobrança é enorme. Arrisco dizer também que é o trabalho mais difícil do mundo.

Assistir TV? Só se for Galinha Pintadinha. Ouvir música? Que tal os grandes sucessos de Patati Patatá? Assistir um filminho? Que tal o da Peppa Pig? Claro, existem ações maravilhosas como o Cine Materna, mas nem tudo são flores. A licença maternidade de 6 meses é uma conquista recente, mas não são férias. Não achem que nossos direitos estão iguais e muito menos que somos privilegiadas. Aliás, estamos longe disso.

Um pouco de empatia faz bem.

13 Dec 09:18

Hora da diplomacia?

by Francisco Seixas da Costa
A tensão entre a Rússia e o ocidente, tendo a Ucrânia no centro do problema, não dá mostras de atenuar-se. O impacto cumulado das sanções e da queda do preço do petróleo começa a atingir fortemente a economia russa, como o revelam todos os sinais que chegam de Moscovo.

Para os adeptos de uma nova Guerra Fria, isto só podem ser boas notícias. Ver a Rússia em dificuldades é um cenário que agrada a quase todos os americanos e a muitos europeus, desejosos de prolongar a humilhação criada pela implosão da União Soviética e, mais recentemente, de punir a intrusão russa nas questões internas ucranianas.

A realidade das coisas, porém, não é tão simples assim. O isolamento internacional de Putin converteu-o, "em casa", numa espécie de herói. A sua margem de manobra interna, em termos do processo decisório, se já era imensa, agora dá-lhe mãos livres para a defesa dos interesses de um país que se sente cada vez mais acossado - o que, aliás, é um "remake" recorrente. 

Ora a Rússia pode hoje ter grandes fragilidades mas, tem de admitir-se, reserva ainda um significativo poder - e não vai esquecer tão cedo a arrogante qualificação de "poder regional" que lhe foi dada por Obama. Moscovo tem um considerável potencial nuclear e, podendo estar limitado no leque das suas alternativas políticas à escala global, mantém uma não despicienda capacidade de "perturbação". O que se passou, há anos, na Geórgia e se processa ainda na Ucrânia é algo a ter em conta. E talvez nos prepare ainda algumas surpresas nos Balcãs, esperando ainda que o ocidente esteja sereno quanto à Ásia Central.

Por essa razão, a grande preocupação que devemos, ter no tocante à Rússia, diz respeito ao impacto político-militar dos seus problemas económicos, isto é, ao modo como poderá atuar nessas áreas se acaso a pressão económica se tornar difícil de suportar. 

Todos estamos convencidos que a Rússia tem por adquirido que há uma "red line" que não pode ultrapassar: a fronteira NATO. Todos os sinais foram passados pelo ocidente a Moscovo nesse sentido. Mas as coisas da vida internacional não são necessariamente "a preto e branco". 

Nada exclui que possamos um dia vir a confrontar-nos, por exemplo, com um incidente (espontâneo ou provocado) em que a Rússia possa mesmo "ter razão", no seu relacionamento com um parceiro NATO, nosso aliado e seu vizinho. É que a Rússia não tem o monopólio da asneira. Num caso desses, em que o incidente pudesse legitimamente ser imputado a esse nosso parceiro, o automatismo de uma resposta ocidental perante uma reação russa, pela invocação do artigo 5º (solidariedade na defesa) do tratado da organização, não estaria necessariamente adquirido. Isso criaria a possibilidade de nos podermos ver confrontados com uma séria crise no seio da Aliança - e isso remete-nos de novo para a capacidade de "perturbação" que a Rússia detem. Um problema desse género baralharia, pelo nosso lado, alguns equilíbrios que vamos tendo por certos.

Chamo a atenção para o facto de que há uma assimetria política que devemos ter sempre presente na relação entre o mundo ocidental e a Rússia - e que às vezes temos tendência a esquecer. 

Do nosso lado, uma atitude ou uma reação militar é um processo que passa por um processo de escrutínio e decisão muito transparente, submetido aos "checks and balances" da separação de poderes, com uma opinião pública muito atenta, servida por uma comunicação social marcada pela diversidade. 

Nada disso existe do outro lado. Os "media" não têm essa liberdade, a voz popular está condicionada e marcada por um patriotismo algo acéfalo e Vladimir Putin está praticamente "à solta" no processo decisório. 

Não quero parecer sombrio, mas estas assimetrias foram, no passado, as condições que originaram alguns conflitos, que sempre começam de forma limiitada, como nos devemos lembrar.

Isso conduz a que tenhamos que identificar bem, e rapidamente, qual é o bloco de interesses comuns que, simultaneamente para ambos os lados, possa prevalecer e mostrar-se vantajosos sobre a hipótese de vir a encetar-se um qualquer conflito. Sem prescindir dos nossos princípios, temos de estar preparados para alguns compromissos e saber passar à Rússia as mensagens certas, para ela poder avaliar também o que a racionalidade a deve levar a fazer. A diplomacia serve para isso.

Lembrei-me disto agora, numa viagem aérea entre a Polónia e a Alemanha, dois países a quem a falta de uma atempada profilaxia diplomática "estragou" o século XX.
13 Dec 09:13

Nas asas da Panair, Laura Capriglione faz bela matéria sobre os empresários da ditadura

by Antônio Mello

O tema é amargo, espinhoso, macabro: os empresários que apoiaram solenemente ou a reservado contragosto a Ditadura civil-militar que violentou o Brasil de 1964 a 1985, longos 21 anos de prisões, torturas, exílio, desaparecimentos e mortes, que alguns desinformados comandados por canalhas querem trazer de volta.

Mas Laura Capriglione deu um show, iluminando a cena com a lembrança de Milton Nascimento, Elis Regina e dos empresários que disseram não à ditadura.

Laura conseguiu tornar leve, em alguns momentos até agradável, o horror daqueles tempos celebrado em palestras de Delfim Neto para os empresários aliados da ditadura, inclusive os de mídia, Mesquita, Frias e o que se deu melhor e mais se irmanou aos ditadores, Roberto Marinho.

Vou repetir a seguir trecho da matéria em que são citados alguns empresários que resistiram, para não ficar apenas nos colaboracionistas. Depois, o link para a matéria completa, que você não pode perder.

.....................
Anote os nomes de alguns homens que dignificam os homens justos:

José Mindlin (1914-2010), empresário, dono da Metal Leve, bibliófilo e escritor.
Antonio Ermírio de Moraes (1928-2014), empresário, dono do grupo Votorantim.
Fernando Gasparian (1930-2006), empresário, editor e político.
Mario Wallace Simonsen (1909-1965), empresário, foi um dos criadores da Panair do Brasil e da TV Excelsior.
Celso da Rocha Miranda (1917-1986), empresário, foi um dos criadores da Panair do Brasil e da TV Excelsior.

......................

Leia: https://br.noticias.yahoo.com/blogs/laura-capriglione/saudades-dos-avioes-da-panair-os-empresarios-que-191005796.html

12 Dec 13:29

Luciano Martins Costa: Jornais prefeririam não lidar com legado macabro

by Conceição Lemes

folha da tarde

Relatório coloca imprensa diante do espelho

por Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa  

A apresentação do relatório final da Comissão da Verdade, em solenidade oficial, marca o momento histórico em que as instituições brasileiras são colocadas diante da escolha entre consolidar a democracia ou manter ao relento os fantasmas da ditadura.

O destino do documento não é tão importante quanto as responsabilidades que ele coloca diante da sociedade, num contexto em que uma parcela da população, ainda que mínima, se sente encorajada a pedir a volta do regime de exceção.

Os três jornais de circulação nacional, que conduzem a agenda pública e ancoram os principais temas que circulam nas redes de comunicação, destacam o assunto em manchete e, em graus variados de sutileza, tratam de desencorajar o passo seguinte, que seria o processo de punição dos autores dos crimes de tortura, assassinato e desaparecimento de pessoas colocadas sob sua guarda.

A leitura criteriosa de cada um deles revela que tanto o Globo quanto a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo prefeririam não ter que lidar com esse legado macabro.

Mas a História, como se sabe, se desenrola em conjuntos de espirais e de cada uma delas se pode confrontar, periodicamente, tudo aquilo que não foi resolvido em seu devido tempo.Assim como a corrupção de hoje reflete a impunidade de antigas falcatruas, a vergonha que agora atinge algumas entidades do Estado, principalmente as Forças Armadas, é um reflexo da tentativa inútil de abafar sob o pó do tempo aquilo que não pode ficar oculto.

Os 377 criminosos apontados pela Comissão da Verdade representam não apenas o lado mais obscuro do regime deletério, mas também fazem lembrar aqueles que colaboraram ativamente, passivamente, ou na sombra da omissão, para que os crimes fossem cometidos com tanta naturalidade ao ponto de se transformarem em processos quase burocráticos na rotina do aparato de repressão.

Ativa, passiva ou na sombra da omissão, a imprensa tem sua parcela de responsabilidade, e nas edições de quinta-feira (11/12) pode-se observar como cada uma das grandes empresas de mídia reage diante do espelho.

Encarando o passado

Dos três principais diários do País, o único que evita abordar o assunto em editorial é a Folha de S. Paulo – que preferiu citar em nota curta o trecho do documento que se refere ao apoio que parte da imprensa deu ao golpe militar em 1964.

Também há referência ao trecho em que o relatório acusa a empresa Folha da Manhã de haver financiado a Oban (Operação Bandeirantes, nome que se deu a um dos grupos do sistema repressivo) e de ter cedido veículos para suas ações.

O texto reconhece que “em 1964, a Folha apoiou o golpe, como quase toda a grande imprensa”, mas nega que o jornal tenha dado suporte financeiro ao sistema repressivo ou emprestado carros de sua frota para as ações ilegais.

Não era necessário haver um esquema oficial: pelo menos dois dos jornais do grupo eram dirigidos por policiais e empregavam agentes ligados ao sistema, que faziam jornada dupla, servindo ao jornalismo e ao aparato do Estado e circulavam à vontade a bordo das peruas pintadas de amarelo.

Estado de S. Paulo e o Globo encaram em editoriais o passado que, confessadamente, prefeririam ver esquecido.

O jornal paulista propõe uma forma estranha de resolver pendências históricas, ao dizer que a Lei da Anistia cobre todos os atos daqueles tempos: “Não se tratava de perdoar crimes, mas de deixá-los no passado, no âmbito da história”, diz o texto.

Globo alinha as virtudes do relatório, principalmente o fato de iluminar os porões da repressão e ajudar a “manter viva a memória dos horrores da ditadura”, mas também se manifesta contra o julgamento dos acusados.

De modo geral, o conjunto das reportagens e trechos do documento citado e comentado pelos três diários contribui para dar ao leitor uma ideia do que foram aqueles tempos de horror.

Destaque-se o texto em que o Globo reproduz depoimentos de vítimas que sobreviveram às sevícias, cuja leitura ajuda a entender a extensão daqueles crimes.

Observe-se também que o título escolhido pela Folha para a reportagem principal distorce o sentido de justiça, propósito original da Comissão da Verdade: “Acerto de contas”, diz o jornal.

A linguagem jornalística tem dessas sutilezas

Leia também:

Folha sai pela tangente e diz que “quase toda a imprensa” apoiou golpe; jornal chamou governo Médici de “respeitável”

O post Luciano Martins Costa: Jornais prefeririam não lidar com legado macabro apareceu primeiro em Viomundo - O que você não vê na mídia.

12 Dec 09:23

Os “barões da mídia” e a Comissão Nacional da Verdade

by Coleguinhas

Não deu tempo de ler em profundidade, obviamente, mas, numa passada d´olhos, deu pra ver as menções aos “barões da mídia” no relatório da Comissão Nacional da Verdade. Está lá, preto no branco, que Julio de Mesquita Filho e Octávio Frias não deram apenas apoio institucional ao Golpe de 64, por meio de seus jornais, mas financiaram a deposição de um presidente legalmente eleito e, depois, a Operação Bandeirantes, a face mais cruel da bárbara repressão às organizações da luta armada de esquerda – no caso da Família Frias, chegando a dar apoio operacional à Oban (está lá o caso das caminhonetes da Folha da Tarde cedidas aos agentes da repressão para capturarem e/ou matarem os esquerdistas).

Já Roberto Marinho não aparece como financiador do Golpe, embora o tenha apoiado como os outros dois por meio de O Globo, mas foi o que, de longe, mais se locupletou com ele, obtendo o espólio da TV Excelsior, a de maior audiência na época por sua qualidade artística e técnica, e recebendo o apoio do Grupo Time-Life. A conjunção desses dois fatores – e mais alguns outros, ao longo dos anos, no mesmo caminho – levaram à Rede Globo.

As menções podem ser encontradas no Volume II do Relatório Final da CNV (pode ser baixado aqui), nas seguintes páginas:

307 – Apoio institucional do dono do Estado de São Paulo Júlio de Mesquita Filho ao IPES (think tank que preparou estratégica, ideológica e financeiramente o Golpe, o Instituto Millenium da época).

308 – Apoio financeiro de Júlio de Mesquita Filho e Octávio Frias, dono da Folha, ao IPES.

310 – Carta de Júlio de Mesquita Filho, datada de 20 de janeiro de 1962 (mais de dois anos antes do golpe, portanto), na qual defendia que, quando o golpe militar viesse, o Congresso e o Judiciário fossem fechados, com o ditador governando sob regime de Estado de Sítio (ou seja, como se o país estivesse em guerra). Note-se que, em nenhum momento, os militares foram tão radicais, mantendo o Parlamento e o Judiciário funcionando, mesmo como fachada.

317 – Roberto Marinho como beneficiário do fechamento da TV Excelsior, causado peo estrangulamento econômico do seu dono, o empresário Mário Wallace Simonsen, dos poucos de sua classe que não aderiu ao Golpe. Nesta página também está o resumo do acordo de Marinho com o grupo norte-americano Time-Life, que alavancou financeiramente a Rede Globo, apesar de esse apoio ser inconstitucional, como definido por uma CPI, cujo resultado foi ignorado pela Justiça, com apoio do Ministério Público.

320 – Menção ao uso de caminhonetes do jornal Folha da Tarde por parte de agentes da Oban.

Fora do âmbito da mídia, também está no relatório da CNV a gênese da Operação Lava-Jato. Na página 313 e seguintes, demonstra-se como surgiram e foram cevadas, durante a Ditadura Militar instalada em 1964, grandes grupos econômicos brasileiros, entre eles as empreiteiras (página 318), hoje flagradas em casos imensos de corrupção – incluindo aí a menção ao fato de que muitas patentes superiores das Forças Armadas foram nomeadas diretores dessas empresas. Assim, dá para fechar o círculo e entender o motivo que move o pessoal que faz convescote na Avenida Paulista todo o sábado.


11 Dec 23:48

De luto, jornalistas potiguares lutam por salário digno

by Daniel Dantas Lemos
Ontem foi um dia que me orgulhei dos jornalistas potiguares. Jornalistas potiguares sempre foram, ao longo da história, reconhecidos pela sua luta - nessa hora, é inevitável lembrar de gente como meu pai, Rubens Lemos.
No entanto, essa luta nem sempre se voltava aos seus próprios interesses. Exemplo disso: são 1,2 mil jornalistas profissionais no RN mas eu já participei de assembleia do sindicato com oito colegas.
Não deve ser a toa, portanto, que o RN tem o pior piso salarial do país, com R$ 1228,80. 
Por isso mesmo o dia de ontem, de luta da categoria, foi marcante. Tudo tem limite e a espoliação da categoria pelos patrões, que ofereceram 6% de reajuste, parece ter chegado ao limite.
O protesto, destaque no UOL (http://noticiasdatv.uol.com.br/mobile/noticia/televisao/jornalistas-protestam-e-aparecem-na-tv-de-luto-contra-baixos-salarios-5858) alcançou os principais veículos do estado, inclusive as tevês. 
Os jornalistas pedem um piso de R$ 2.172,00, auxílio-alimentação, auxílio-creche, vale-cultura (de R$ 50 e subsidiado pelo governo federal), plano de cargos, carreira e salários e ampliação da licença maternidade de 4 para 6 meses. Uma pauta, aliás, bastante razoável. Admiro-me, inclusive, que em 2014 ainda seja necessário lutar para que direitos básicos como esses sejam garantidos.
A categoria está em estado de paralisação.  Hoje, uma nova assembleia na sede do Sindjorn está marcada e uma greve não está descartada.
"Os patrões simplesmente não aceitaram nem negociar nenhumas dessas cláusulas e absurdamente ainda apresentaram a proposta de reajuste de apenas 6% (menor que a inflação). Vejam bem, 6%, é simplesmente uma VERGONHA para nós que já temos a VERGONHA maior de recebermos o pior salário do Brasil", disse Breno Perruci, presidente do Sindjorn.




10 Dec 17:33

A ‘guerra’ do Araguaia contada pelos Aikewara

by Marcelo F Grava
Foto: Orlando Calheiros

Foto: Orlando Calheiros

O avião pousou bem no meio da aldeia Aikewara  arrancando a cobertura das casas de palha, provocando pânico entre as famílias. Mulheres e crianças correram para se esconder na mata, mas foram surpreendidas pela tropa que vinha por terra, acompanhando os oficiais que vieram pelo ar. Furiosos, os militares perguntavam sobre o paradeiro dos “terroristas” – é assim que se referiam aos guerrilheiros –  apontando as armas para os indígenas atônitos que nada sabiam da perseguição aos militantes do PCdoB, nem mesmo sobre a ditadura militar. Depois, prenderam todos em suas casas, não podiam sair para a roça, nem para pescar ou caçar, e tocaram fogo no paiol lotado de milho e  mandioca armazenados para um ritual que aconteceria naquele mesmo período – o Karuwara, no início da estação seca.

Fizeram pior: enquanto as mulheres e as crianças passavam fome e medo na aldeia, prisioneiros em seu próprio território, os militares arrastaram os homens para lhes servirem de guia na mata que desconheciam atrás do rastro dos guerrilheiros e mandando-os à frente como escudos humanos. Também os forçaram a carregar corpos e a presenciar violência e tortura em uma guerra que não entendiam e que durou muitos anos – de 1972 a 1974, até que o último guerrilheiro na mata fosse exterminado.

Para os indígenas, as consequências perduraram: grávidas perderam seus bebês, nascidos prematuramente, houve um caso de um homem que ensurdeceu  pelos sons de rajadas de metralhadoras e explosões e outros vivem ainda assombrados pelas cenas macabras que foram forçados a presenciar. O alcoolismo, a insônia e pesadelos passaram a assaltar os Aikewara, hoje cerca de 400 indivíduos.

Como se isso não fosse o bastante, viram a história de seu sofrimento ser deturpada e contada como se tivessem colaborado com os militares por opção; seu território foi desrespeitado – invadido por guerrilheiros e propositadamente por militares. Ainda hoje os Aikewara aguardam o reconhecimento da porção do seu território tradicional, terra excluída da demarcação, que foi realizada ainda durante a Ditadura, em 1983.

Quarenta anos de mentiras

“Até aqui, os Aikewara, também conhecidos como Suruí do Pará, convivem com o estigma de terem sido ‘colaboradores’ das forças repressivas, imposto pelos familiares dos mortos e desaparecidos, pelos militantes sobreviventes, por pesquisadores, jornalistas, militares, agentes governamentais e, muitas vezes, também pelos regionais, seus vizinhos”, escreve a antropóloga Iara Ferraz, que junto com o antropólogo Orlando Calheiros, e dois integrantes do povo Aikewara – Tiapé Suruí e Ywynuhu Suruí – assinam o relatório enviado à Comissão Nacional da Verdade em maio deste ano: “O tempo de guerra – os Aikewara e a guerrilha do Araguaia”. O relatório será transformado em livro, atualmente no prelo.

Realizado a pedido dos Aikewara, os primeiros indígenas a cobrar a violação a seus direitos durante a ditadura militar brasileira, o relatório foi peça fundamental na Comissão de Anistia para que 13 integrantes desse povo obtivessem a condição de anistiados políticos e uma indenização de 120 salários mínimos em 19 de setembro deste ano. Também está entre documentos que serviram de base a investigações da Comissão Nacional da Verdade que divulga hoje (10 de dezembro), em seu relatório final, que cerca de 8 mil indígenas foram mortos durante a ditadura brasileira

“Os Aikewara aguardam a verdadeira reparação coletiva, que só acontecerá com o reconhecimento pelo Estado brasileiro do seu território tradicional – processo engavetado na Funai desde 1998”, pontua a antropóloga Iara Ferraz.

A história completa dos Aikewara será conhecida no próximo ano com a publicação do livro, trazendo as descobertas feitas ao longo de mais de três décadas de trabalho da antropóloga junto ao grupo. Em suas muitas estadas nas aldeias desde julho de 1975, com o objetivo de obter o reconhecimento oficial da Terra Indígena Sororó, Iara colheu depoimentos que lhe permitiram reconstruir o tempo da “guerra” como os próprios indígenas se referem àquele período. Foi um trabalho de paciência e confiança em que as histórias de terror brotavam esparsamente, à medida que a antropóloga tentava reconstruir a saga desse povo tupi-guarani cujas terras se localizam nos municípios de Brejo Grande do Araguaia, São Geraldo do Araguaia e Marabá.

Foto: Orlando Calheiros

Foto: Orlando Calheiros

“Com o seu território totalmente ocupado e interditado pelas forças repressivas, proibidos de ir à roça, de caçar, coletar ou pescar – às vésperas do ritual do karuwara, com o incêndio da provisão de arroz e de milho, assim como das casas na aldeia com seus pertences, os Aikewara tiveram deliberadamente destruídas pelos militares todas as suas bases materiais e simbólicas – e portanto, culturais, de existência”, escreve a antropóloga que desde os primeiros contatos com os indígenas, em plena ditadura, tentou denunciar o sofrimento provocado pelos militares.

Em 1976, quando prestava serviços à Funai, na coordenação do “projeto da castanha” entre os Gavião da Terra Indígena Mãe Maria e os “Surui” do PI Sororó, acompanhou o jornalista Palmério Dória e o fotógrafo Vincent Carelli à aldeia. As declarações dos “Surui” então recolhidas resultaram na primeira publicação sobre a guerrilha (A Guerrilha do Araguaia por Palmério Dória e outros, de 1978) e no seu afastamento compulsório, pela Funai, da coordenação do projeto.

A cumplicidade da Funai

A pesquisa documental e bibliográfica foi feita pela antropóloga para a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República em decorrência da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos de novembro de 2010 que condenou o Brasil a localizar os corpos dos guerrilheiros mortos no Araguaia.

Os arquivos das Forças Armadas relativos a este tema até hoje não foram entregues à sociedade brasileira. Segundo ela, “nos arquivos da Fundação Nacional do Índio (Funai), em Brasília, foram localizadas apenas duas portarias administrativas referentes ao Posto Indígena Sororó: a de sua criação (n. 040/N, de 20.12.71) e a de seu controle operacional (n.130/N de 06.9.73), vinculado à Base Avançada de Pucuruí (que se ocupava da atração dos Parakanã), mas subordinado de fato à então 2ª Delegacia Regional da Funai em Belém”.

Foto: Orlando Calheiros

Foto: Orlando Calheiros

As provas mais fortes das violência do Estado sofrida pelos indígenas, moradores da região e guerrilheiros estão nos depoimentos dos Aikewara reproduzidos no livro. A partir desses relatos, a antropóloga também concluiu que desde a primeira campanha militar (abril de 1972) os repressores contaram com a cumplicidade da Funai, entidade que deveria proteger os indígenas. “Enquanto a presença de missionários dominicanos entre os Aikewara desde de 1953 – notadamente de frei Gil Gomes Leitão – impediu o seu envolvimento com as forças repressivas, já a atuação dos agentes da Funai na aldeia do Sororó desde meados de 1972 obrigou os Aikewara a se tornarem guias e, ao mesmo tempo, prisioneiros das forças repressivas. O Posto da Funai foi instalado para que seus agentes intermediassem relações de força e imposição das ações repressivas. Por dois anos seguidos, de 1972 a 1974, ‘recrutaram’ de modo compulsório praticamente todos os homens adultos da aldeia para servir de guias na mata para a ‘caça’ aos guerrilheiros”, escreve.

“Tratados como prisioneiros de guerra, os homens da aldeia foram submetidos a um regime servil de privações e humilhações: sempre em duplas, desarmados, à frente dos soldados, servindo-lhes de escudos humanos, eram obrigados a caminhar, muitas vezes aos empurrões, horas e dias sem descanso ou alimentação adequados, carregando cargas pesadas às costas para os militares, com muita fome e sede, só ingerindo alimentos crus, dada a interdição de acender fogo, dormindo pouco, ao relento, no chão encharcado da mata na estação das chuvas. Foram obrigados ainda a depositar cadáveres nos helicópteros militares e a segurar corpos de guerrilheiros mortos para que soldados e moradores locais executassem a decapitação”, detalha Iara com base no relato dos indígenas como Teriweri, mulher com 60 anos atualmente e que perdeu filhos gêmeos prematuramente durante “aqueles tempos horríveis”.

Sei que esses tempo que nós passamo, foi…em 72 né? que nós viemos pra cá….aí quando eu cheguei na aldeia… já tava acontecendo mesmo! Pessoa dizia que… ia ter“guerra”, né? aí eu ficava com medo! Aí depois foi… foi a época mais é… mais ruim que nós passamo! 72, 73, no final de, é … no final de 74 terminou a ”guerra” né? E aí… eles [militares] levou nosso marido… nós via tanta coisa feia, né? Os pessoal trazendo nos helicóptero assim os pessoal preso… outro eles queriam enforcar! pra aparecer do avião lá de cima enforcado!…(…) Trazia tudo aí pro acampamento deles! Eles trazia o pessoal, pra enforcar o pessoal! Descia lá… enforcado assim, do avião, lá de cima!!”

Recrutas forçados

O livro também traz depoimentos dos homens recrutados à força pelos militares, como Umasu, à época com menos de 30 anos, casado com Arihêra, então grávida do seu quinto filho, que conta à antropóloga:

Tinha um coronel, mais mais… perigoso! trouxe corda – ele disse: Esse aqui é pra amarrar bandido! Eu falei assim: Pra quê isso aí?

- Esse aqui é pra amarrar esses doidos aí …

Aí ele combinou com velho Mariano, né? [trabalhador braçal do Posto da Funai]:

- Nós tamos precisando de… pra ir mostrar na mata, pra nós. Sabe que nós num sabe nem pra quê esse aí! Aí nós num sabia de nada, aí nós

foi assim mesmo, enganado!! Aí depois tava escutando tiro por ali, né?…

- Será que ta matando gente? Já num tem mais jeito não, eles tão aqui na mata, só tiro que a gente tava escutando por ali, tavam atirando!!

Ele [Mariano, trabalhador braçal do Posto da Funai] falou assim:

- Alguém de vocês que… cada um… eu vou… escolher pra vocês, andar cum eles… Você vai, cada um índio vai pra cá, cinco soldado acompanhando vocês. (…) Aí entremo na mata! Aí meu cunhado, né, finado Kuimuá, rapaz! meu cunhado num aguentou, ta com “pira‟ demais!… [feridas de picadas de insetos] tudo pintado, nós tava chegando, nós tudo pintado, só mosquito mesmo! Nós num aguentamo…fiquemo… nós procurou, nós vimos só rastro dele [kamará], que tava passando! Encontremo rastro dele… daí ele sumiu, num sei pra onde que ele foi!(…)

Aí começou, ele andou de novo aí… ele [militar] falou pra mim:

- Umasu, a hora que eu precisar de vocês de novo, nós vamos vir de novo! Talvez tem alguém ainda aí, tem muita gente! (sabe que índio num sabe de nada, né?)

- Tá bom – eu falei assim.

Depois que ele falou pra nós, ele falou pra mim:

- Tu sabe por quê que nós tamos levando vocês? Porque é “terrorista‟, rapaz! ele vai tomar todinha a terra de vocês! (ele falou pra mim). Esse aí é muito perigoso! você vai ficar sem terra de vocês! Eles já queria tomar tudinho – ele falou – a terra de vocês! por isso que nós tamos procurando!

Num sabia nem o que é nada… [N]aquele tempo a gente num sabia de nada… eu num sei pra quê que chama “terrorista”! Nós num sabia o que era “terrorista”, “comunista”, nós num entende o que era “terrorista”!

Depois que terminou, eu fiquei até o final, mataram tudo! Depois que terminou, foi embora, soldado espalharam tudo. Aí eu vim embora pra casa (agosto 2013).

Também recrutados à força, Tawé com 20 anos e Api, ainda mais jovem, testemunharam a tortura a moradores locais, suspeitos de dar alimentos e apoio aos guerrilheiros, como conta Tawé:

Aí começaram pegar aquelas pessoas, né? morador, começaram a judiar… e…fizeram muito serviço com eles, amarraram pela perna, a mão… pra trás… botaram a corda, dependuraram assim… através da casa assim, bateram muito! num podia falar nada, né? Aí tinha um deles que… morador ia correndo, fugindo né! pegaram ele correndo, metralharam atrás dele… sorte que num pegou nele, o tiro! pegaram ele, amarraram ele, judiaram ele, tudo! E nós… vendo aquilo, né? num podia falar nada!

Aí começaram pegar lá, os moradorzinho!… Eu acho que fizeram estupro com a família deles também tudo… eles era ruim, mau, esses povo aí… Batiam nas mulher, estupravam a família deles… tudo! O que nós vimos, a gente viu, né? a gente num podia… falar nada! Eles pegaram, um monte de gente… amarraram a mão pra trás, tudo… falando de morador em morador, onde é que morava mais pessoa… (…)

Também falam dos sofrimentos dos próprios indígenas na selva, como o jovem Api:

Api ficou doente, porque foi esporado muito de muriçoca, né? dormia no chão, quase num comia nada também… quando eles pedia comida, ele falava que só tinha bolachinha… Quando ele… acostumado comer carne, pra comer cru… O velho sempre conta pra mim que ele falou que perguntava pro polícia se podia acender fogo:

Não! num pode não! é pra vocês comer cru!

À espera de Justiça

Hoje, Api ainda não completou 60 anos, mas tem a saúde frágil, marcada pelo sofrimento e ainda aguarda a aposentadoria rural.Também “recrutado”, o indígena Marahy, hoje com mais de 80 anos, ficou surdo e tuberculoso crônico em consequência de rajadas de metralhadoras e explosões de bombas e das condições desumanas em que permaneceu na mata com os militares. Outros, como Tawé, ainda sofrem com a lembrança dos corpos enterrados e desenterrados pelos militares na terra indígena relata a antropóloga que destaca um trecho do depoimento dele:

Trouxeram só o corpo pra nossa terra aqui, do lado de cá, do S. Raimundo. Aí eles falaram pra nós… que… se tinha algum pessoal de nós pra acompanhar eles… que eles… ia jogar lá no buraco né, pra enterrar, ele falou:

- Nós vamo lá… na terra de vocês, pra lá, pra ninguém ver!

Esse povo, morador junto com eles! foi os morador que fizeram essas coisa com eles! porque eles era mandado, né? num podia fazer nada! o que eles pediam, tinha que fazer pra eles! Diz que cavaram lá, num sei como… num cheguemo a ver não… Enrolaram num plástico, numa lona lá, tudo… jogaram o corpo num mesmo buraco só! jogaram lá. Lá no São Raimundo, do lado de cá, na nossa terra. Até hoje ta lá o buracão desse que cavaram! Depois desse daí, já ta com dez anos! Vieram… pegar o corpo. Aí… bom, eu num sei explicar direito esse daí, eu também fiquei confuso, né? eles falaram que era do pessoal dessa pessoa que morreram, que eles falou pra nós que queria ver o corpo aonde que foi colocado. Ele falou que era da… da turma desse pessoal que foi… foi morto,né? que eles queria o corpo deles, se nós sabia onde eles colocaram, o pessoal do Exército. Aí nós tinha que contar pra ele, né? Agora… bom, daí pra lá, eu num sei se era a mesma tropa que fizeram, eu num sei dizer não eu só sei que eles falaram que era a turma do… pessoa que morreram, que tava procurando o corpo. Nós mostremo pra ele,

-Ó, foi por aqui que eles levaram!

Aí teve um deles que [falou],

- Num dá pra mostrar o local mesmo assim de perto pra nós ver?

Aí nós falemo,

- Vamos, nós vamos mostrar, porque… nós tem que mostrar né? porque… nós num tem culpa nenhuma!

Nós entremo com ele – tai o Kaká ta de prova – mostrou pra ele,

- É bem aqui que eles colocaram , ó o buraco aí!

Num tinha mais corpo não!! já tinham pegado já! Num sei quem foi que pegou!!

Em outubro de 2013, uma equipe de legistas do Grupo de Trabalho Araguaia, “com a devida autorização e acompanhados de representantes aikewara” – como destaca Iara –  “recolheram dois molares inteiros, que evidenciam os sepultamentos clandestinos havidos ali”. E pode haver mais pistas, dizem os indígenas, de acordo com a antropóloga: “Nos depoimentos recentes e mais objetivos, os Aikewara referiram-se a outros prováveis locais de sepultamento ou simples abandono de corpos de guerrilheiros que, no entanto, são atualmente de difícil reconhecimento por eles, dada a profunda transformação ocorrida em toda a região do baixo Araguaia, sobretudo devido aos desmatamentos e à formação de extensas pastagens. Embora não tenham testemunhado pessoalmente esses prováveis sepultamentos, as localidades incluem, ao sul, a bacia do rio Gameleira até a sua foz, em Santa Cruz (no rio Araguaia) e a noroeste, a bacia do Grotão dos Caboclos (Koronohuna), o centro do território tradicional aikewara”.

Foto: Orlando Calheiros

Foto: Orlando Calheiros

Por fim, a antropóloga conclui que a lenta recuperação dos Aikewara em termos populacionais, “embora os traumas profundos e as marcas psicológicas tenham permanecido”, deve-se principalmente ao esforço conjunto de antropólogos e indígenas pelo reconhecimento da Terra Indígena Tuwapekwakaukwera , que foi excluída da demarcação da Terra Indígena Sororó feita durante a ditadura, concedendo aos indígenas apenas 26.258 hectares, homologados por meio do Decreto 88.648 (publicado no Diário Oficial da União em 31.08.1983). “Os principais atos administrativos e o respectivo contexto político que compõem o processo de regularização fundiária da TI Sororó – processos Funai 1490/77, 3071/77, 1494/82 e 1778/82 e 2047/2004 – permitem verificar que, além dos equívocos técnicos, estão repletos de vícios inconstitucionais – portanto, de natureza política – cujas tentativas de solução sempre ficaram aquém das possibilidades de proteção aos direitos territoriais dos Aikewara”, diz ela.

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“De acordo com um processo administrativo em curso na Funai foi proposto um acréscimo de cerca de 11 mil hectares à Terra Indígena Sororó – denominada Gleba Tuwapekwakaukwera – para abranger porções significativas do território tradicional aikewara, como antigas aldeias, cemitérios, castanhais, áreas de caça e jazidas de argila para o fabrico de panelas, que foram excluídas na demarcação fraudulenta efetuada durante a ditadura.

A situação fundiária precária reflete-se até o presente, com a crescente vulnerabilidade às pressões existentes, sobretudo devido à rodovia – hoje BR153, a antiga OP2. Aberta pelo Exército em 1972, a estrada cortou o território aikewara trazendo consequências nefastas e progressivas, como roubos de madeiras e castanhas, diminuição da caça, invasões, assaltos, atropelamentos, incêndios criminosos, despejo de toda sorte de dejetos e cadáveres, contaminação do solo e dos cursos hídricos, ao lado do processo de desertificação que vem se verificando com a formação de pastagens em todo o entorno da Terra Indígena Sororó”.

Para Iara, a demarcacão e a recuperação desta área é a “única maneira de o Estado brasileiro ressarcir sua dívida histórica para com os Aikewara.”

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08 Dec 13:28

Mais da metade da população quilombola convive com a fome no Brasil

by Thadeu Angelo
Apesar dos avanços no combate à fome, comunidades quilombolas permanecem com dificuldades para acessar os programas sociais e em situação de alta vulnerabilidade.
 
Por Marcelo Pellegrini— na íntegra via Carta Capital
Fernanda Castro/ GEPR
 
Quilombola
Comunidades quilombolas sofrem com isolamento e falta de apoio dos municípios, que geralmente também são pobres e possuem baixo orçamento e IDH

Apesar do Brasil ter saído do mapa da fome no mundo, muitas comunidades tradicionais brasileiras localizadas em áreas de difícil acesso ainda vivem em situação de risco. O relatório divulgado pelo Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) no final de novembro revela que 55,6% dos adultos residentes em comunidades quilombolas vivem com fome ou sob o risco de inanição. A mesma realidade, embora em números um pouco menores, se reproduz na população infantil, na qual 41,1% das crianças e adolescentes quilombolas está sob esta condição. O cenário de fome não é o único problema. A pesquisa, realizada em 97 áreas, em 2011, revela grande vulnerabilidade social em outros índices como o acesso à água encanada, presente em menos da metade de domicílios, saúde e educação.
Majoritariamente compostas por negros, as comunidades quilombolas surgiram entre os séculos 16 e 19 durante escravidão, quando os quilombos eram refúgios de escravos fugidos da violência e da opressão de seus senhores. Com medo de serem recapturados, os escravos se forçaram a viver isolados, em regiões de difícil acesso, e de maneira autossuficiente. A lógica do isolamento prosseguiu depois da abolição da escravidão, quando muitos quilombos optaram por permanecer como povoados, e segue até hoje. Foi apenas com a Constituição Federal de 1988 que os moradores dos quilombos se transformaram em quilombolas e foram reconhecidos como comunidades tradicionais, com direito à propriedade e ao uso da terra ocupada.
Hoje, 2.431 comunidades quilombolas estão homologas pelo governo federal. O número é três vezes maior do que o reconhecido até 2003. Ainda estão à espera da decisão federal outras 330 comunidades e mais 21 estão para ser oficializadas.
A homologação da terra pelo governo, contudo, não garante a melhoria da qualidade de vida dentro das áreas quilombolas. Segundo o levantamento do MDS, mais de 60% das lideranças quilombolas afirmam que não ocorreram alterações positivas em relação à infraestrutura de água e esgoto após a titulação do território. Além disso, constatou-se que apenas 5% dos domicílios tinham acesso a esgoto sanitário e menos de uma em cada dez casas contava com coleta de lixo.
Alexandro Reis, diretor do Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro-brasileiro da Fundação Cultural Palmares, ligada ao Ministério da Cultura, diz que a melhora dos indicadores é uma corrida contra o relógio. “Os levantamentos do gênero começaram em 2003, antes não se sabia nem quem era quilombola. Desde então, houve uma reunião de esforços políticos e institucionais para se reconhecer áreas quilombolas e levantar suas demandas com o Programa Brasil Quilombola”, conta.
O Programa Brasil Quilombola envolve 23 ministérios e órgãos federais para garantir o acesso à terra e melhorar as condições de vida nas comunidades, entre outras ações. Faz parte do programa o atendimento das comunidades por programas sociais, como o Bolsa Família. A pesquisa do MDS, no entanto, indica que ainda existe dificuldade logística para acessar o programa de transferência de renda. De acordo com os dados, em 2011, apenas 61% dos domicílios contavam com o Bolsa Família, sendo que outras três em cada dez casa eram ajudadas com cestas básicas distribuídas por diferentes entidades. Ao todo, 45% da população quilombola na época vivia com até 70 reais ao mês. “A marginalização da população negra e quilombola no Brasil é algo histórico, diretamente ligado à discriminação e ao racismo. Equipá-los agora com programas de infraestrutura e transferência de renda é uma reparação histórica urgente”, argumenta Reis.
Além da pobreza, a pesquisa também revelou que não há agentes comunitários de saúde em 15% das comunidades visitadas. Em áreas como as regiões quilombolas, os agentes de saúde são considerados pelo Ministério da Saúde como a forma de assistência médica primária – sem eles não há nenhuma assistência de saúde para os moradores.
Isolamento e pobreza
A solução, segundo Reis, passa obrigatoriamente por aprofundar as relações entre o governo federal e os estados e municípios. “Muitas das áreas quilombolas se encontram em rincões de pobreza no País. A situação precária em que elas estão deve ser analisada considerando o entorno”, diz. Este é o caso de Ana Emília Moreira Santos, 53 anos, da comunidade Quilombo Matões dos Moreira, situada próximo ao município de Codó, no Maranhão.
Entre as cidades brasileiras, Codó se posiciona nas últimas posições do ranking que mede a qualidade de vida e o desenvolvimento econômico, o chamado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) criado pelas Nações Unidas (ONU). Entre os 5.565 municípios brasileiros, Codó está na 4.255ª posição.
Mais grave é a situação dentro da comunidade de Ana Santos, que está em processo de certificação e ainda reproduz as mesmas mazelas notadas na pesquisa de 2011. “A água aqui não presta. É salgada e não serve para lavar, beber ou banhar. Só presta para regar as plantas”, conta. O gosto salgado deve-se à alta concentração de calcário no poço artesiano de onde a água é extraída. “Água pra beber é só a do caximbão [nome dado ao poço cavado manualmente]”, completa.
O Quilombo Matões dos Moreira fica a 58 quilômetros de distância de Codó. Não há estrada que ligue a comunidade ao município, o que contribui para seu isolamento e vulnerabilidade social. “Carro mesmo só entra uma vez por semana e no verão. No inverno [temporada de chuva], só saímos de barco, depois de atravessar 6 quilômetros de lama a pé, até chegar na MA [estrada estadual] e daí pegar um pau-de-arara [caminhonete improvisada para o transporte de pessoas]”, conta Ana Santos. Para ela, isso impede que os moradores mais pobres da comunidade façam o cadastro único do governo federal e tenham direito ao Bolsa Família. “Nós vivemos do que a agricultura familiar nos dá e quem é mais pobre não tem condições. Temos que quebrar coco, colher babaçu ou vender galinhas e peixes para conseguir uma renda extra que pague a passagem para a cidade”, diz. “Se tivesse a estrada, ao menos, seria mais fácil, mas a impressão que dá é que eles querem que continuemos assim abestalhados para não reclamarmos de nada”, completa.
Outro problema é o descaso das prefeituras. De acordo com a pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social, uma em cada cinco prefeituras demonstrou desinteresse ou recusa em deslocar um agente social para cadastrar comunidades quilombolas no Cadastro Único, a base do pagamento do Bolsa Família. Em face disso, o governo espera que essas questões junto aos municípios sejam superadas nos próximos quatro anos.
Quilombola
Garoto no Quilombo Kalunga, no interior de Goiás. 
Um reflexo da insegurança alimentar, 
que acomete quase metaddas crianças quilombolas, 
é a baixa estatura dos jovens, aponta o estudo
Apesar dos obstáculos, o Quilombo Matões dos Moreira tem acumulado vitórias. “Vencemos uma disputa por terra na Justiça, no ano passado, e agora finalmente teremos nossa terra demarcada pelo Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária]. Agora temos duas escolas de alternância na comunidade, o que permite que as crianças estudem metade do mês na comunidade e a outra metade na cidade. E também conseguimos o dinheiro federal para construir a estrada há dois anos, agora só falta a prefeitura fazer o que ainda não fez”, relata Santos.
O atraso nas obras que atendem comunidades quilombolas é algo comum no Brasil. Segundo Alexandro Reis, da Fundação Palmares, muitos municípios usam verba destinada a comunidades tradicionais, como os quilombolas, para outras obras que não as beneficiam. “Isso ainda é visto no País, mas o governo federal tem cobrado mais os governos e estados para garantir que o dinheiro tenha a destinação correta”, afirma. Hoje, apenas a Fundação Palmares, que presta assistência aos quilombolas, conta com um orçamento de 13 milhões de reais por ano.
Para Reis, programas federais como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida têm melhorado a qualidade de vida nas comunidades e gerado renda. Ainda assim, é necessário articular melhor as ações e o diálogo com as cidades. “Após o relatório, o governo fez buscas ativas em comunidades de difícil acesso para cadastrar os moradores no programas”, conta. “Investimento e acompanhamento não faltam. O que falta agora é estabelecer um plano de metas claro para os quilombolas e um maior envolvimento com os municípios, que muitas vezes negligenciam as comunidades”, completa.
Em entrevista concedida para a CartaCapital, a ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, admitiu a dificuldade do governo em acessar as comunidades quilombolas, muitas vezes isoladas, e prometeu políticas públicas específicas para atendê-las. "Estamos fazendo políticas específicas. Desenvolvemos estratégias de busca ativa diferenciadas para indígenas, quilombolas e população de rua, na tentativa de incluí-los nos programas sociais do governo federal", afirma. Segundo Campello, o MDS também investiu na contratação de assistência técnica específica para quilombolas a fim de garantir o desenvolvimento das comunidades sem desrespeitar suas culturas tradicionais.
Hoje, as regiões quilombolas com maior vulnerabilidade se encontram no Baixo Amazonas, seguidas pelo Nordeste Paraense e o Norte do Maranhão, onde está o quilombo de Ana Emília Santos.
03 Dec 21:57

UM POUCO MAIS SOBRE O CASO DO PROFESSOR

by lola aronovich
Espero que este seja o último texto que escrevo sobre o professor de esquerda que manda selfie de pinto. O último por bastante tempo, pelo menos. Até porque vou viajar no sábado pra lugares maravilhosos sem conexão boa pra internet.
Mas por que escrever sobre isso de novo, pela terceira vez? Bom, porque as informações não param de chegar. Porque continua tendo muita gente só falando nisso. Porque as vítimas (as garotas que fizeram as denúncias, aquelas garotas que um montão de pessoas trata como culpadas) seguem sendo perseguidas e ameaçadas. O incrível é que o discurso geral é sempre "Denuncie!" 
Aí, quando a pessoa denuncia, vem uma multidão julgá-la e condená-la. Fica difícil convencer mulheres a denunciarem as violências contra elas quando 1) legalistas vem correndo dizer que a denúncia só pode ser feita pra uma justiça que tarda e falha; e 2) elas são tratadas desse jeito.

E elas não são vítimas passivas. Foram elas que se organizaram e decidiram fazer um Tumblr. Aliás, concordo muito com este comentário que foi deixado ontem aqui: você se sentir vítima não te faz uma pessoa fraca ou incapaz. Eu acrescento: nem quer dizer que você esteja 100% certa. Mas que deve ser escutada.

Ontem saiu numa coluna do Globo e na Folha algumas poucas linhas sobre o caso. 
O professor foi contatado por jornalistas, disse que não iria se manifestar, e os direcionou a sua advogada, que afirmou que as conversas eram consensuais. Reparem que ela não negou que as conversas existiram, nem que foram forjadas ou editadas (acusação de muitos dos defensores do professor), apenas que eram consensuais. 
Anteontem o Tumblr publicou mais dois relatos. Um falava de uma estudante de 17 anos que, alguns anos atrás, foi a um motel com o professor. Chegando lá, pouco depois das preliminares, o professor passou a chamá-la de puta e piranha. Ela travou, ficou chocada, porque a persona que ele cultivava em público não correspondia àquela figura no motel. Ele então a chamou de moralista, a xingou um pouco mais, a deixou num ponto de ônibus, e foi embora de táxi pro seu hotel. Aquilo a marcou: ela tinha decepcionado um intelectual tão genial! 
Pros amigões do peito do professor, esse relato foi uma prova incontestável da sua inocência:

Afinal, ele não estuprou! Estão vendo como ele é boa gente? Para outros bróders, se ele tivesse estuprado, a moça teria contribuído "com seu comportamento para a prática do estupro naquele momento". Quem mandou ir pro motel com o cara? 

Outros amigos do prof acharam o relato apenas ridículo, porque onde já se viu uma mina mudar de ideia já dentro do motel? E ainda ficar mal por ser xingada por um sujeito quase 30 anos mais velho que ela via como modelo? 

As meninas do Tumbrl retiraram o relato depois, a pedido da autora. 

Uma pena, mas muita gente está temerosa. Quase todo mundo só quer falar como anônimo. Foi o caso de dois comentários deixados no blog:

Dois dias atrás recebi um email de uma ex-aluna dele, que não quer ser identificada, com medo de represálias. Reproduzo algumas partes:
"Comigo ele foi absolutamente prepotente, arrogante, autoritário. Ele não me assediou, mas assediava uma amiga. Basicamente, em troca de encontros noturnos e jantares, ele a orientava com o trabalho. 
O fato é que, em Nova Orleans, e na Tulane, ninguém gosta dele. As mulheres, todas têm pavor. A comunidade brasileira de lá, que é pequena, não mantém relações com ele, pq a fama de cafajeste se concretiza a cada episódio. Uma amiga disse que ele a beijou à força, sem mais nem menos. Isso anos atrás. 
Soube também que ele tem um processo por assédio sexual nos EUA. Mas é um processo administrativo, e é por isso que ele, tão fodão, nunca conseguiu ir para nenhuma universidade mais conceituada como Harvard ou Columbia, já que a ficha dele é suja. E que ele foi demitido de outra universidade por ter tido um caso com uma aluna. 
Importante dizer que me parece que ele assume esse tipo de atitude apenas com brasileiras (talvez latinas em geral). Talvez por sermos mais "calientes". Ou talvez mais "dóceis". Mas creio que é porque uma cidadã americana o denunciaria, e a prisão seria imediata, bem como o processo seria certo. Você vai preso, para depois tentar provar que não é culpado. Nesse caso, duvido que ele saísse ileso.
Estou imensamente feliz que essa história toda esteja vindo à tona. Não por vingança por ele efetivamente ter me tratado mal e tentado me prejudicar gratuitamente. 
Mas porque ele é um predador, que precisa parar. 
Parabéns pela coragem, e, por favor, mande meu abraço e minha admiração para as vítimas. Vai dar tudo certo."

E hoje cedo recebi este email de Alex Castro, de quem várias radfems (feministas radicais) não gostam. Pra ele, teria sido muito mais cômodo ficar calado. Quem quiser se comunicar com ele, que está longe das redes sociais há mais de um ano, pode escrever para alexcastro.com.br/contato. Porém, emenda ele, "Tenham em mente que já escrevi esse texto com muita cautela e cuidado. o que eu podia escrever eu já escrevi." Segue o email do Alex:

"meu nome é alex castro e, por seis anos, fui estudante de pós-graduação do departamento de espanhol e português da universidade de tulane, em nova orleans, como orientando do professor idelber avelar.
pelos últimos dias, tem acontecido uma discussão sobre a conduta sexual do idelber na internet.
mas a maioria das pessoas no brasil apenas conhece o idelber dos blogs e, pessoalmente, em poucas botecadas e palestras ocasionais. já as pessoas nos estados unidos, via de regra, só conhecem o idelber professor e orientador, muito poderoso, capaz de fazer e desfazer carreiras. são dois mundos que pouco se comunicam. 
como ex-aluno de tulane, decidi escrever esse texto para revelar que esses episódios que estão surgindo não são casos isolados, nem aconteceram no vácuo, e só confirmam a fama dele em nossa universidade. 
infelizmente, não posso citar aqui as mulheres próximas a mim, acadêmicas, colegas, mestrandas, doutorandas, que relataram muitos episódios de assédio moral e sexual, pois estaria violando a privacidade delas. uma delas me pediu explicitamente que não falasse do seu caso nem de forma anônima. (posso afirmar que mais de uma abriu processo administrativo contra ele.)
falando da minha experiência, nunca me considerei amigo do idelber, mas eu o admirava muito (como tantas pessoas) e fui fazer mestrado e doutorado em tulane a convite dele em 2005. 
seis anos depois, em 2011, em grande parte pelo assédio moral que sofri, mas não só por isso, larguei o doutorado, voltei para o brasil sem diploma e, desde bem antes disso, eu já pouco falava dele. 
minha mensagem para todas as pessoas que estão defendendo o idelber é que o problema vai muito além de printscreens de conversas na internet.
essas mulheres fazendo denúncias não estão loucas, não estão inventando, não estão exagerando, não estão vendo coisas. 
e, mais importante, não estão sozinhas. 
o que aconteceu com elas é parte de um padrão que já acontece há muitos anos, e que vem sendo silenciado, relevado, e perdoado por pessoas que ou admiravam, ou temiam, ou precisavam do idelber.
hoje, felizmente, ganho a vida como escritor independente e não tenho rabo preso: não sou contratado por ninguém, não tenho vínculo com nenhuma empresa, organização, instituição. então, se esse tipo de liberdade, que construí a muito custo, não serve pra lutar contra a violência e para apoiar as vítimas, então serve para quê?"
Acho essa pergunta do Alex extremamente relevante.
Faz poucos dias Silvio, meu marido, me fez uma pergunta: o que você quer? Ele estava se referindo a trazer tudo isso a público. É sempre difícil responder. Primeiro, eu quero ouvir, acolher, apoiar, quem se considera vítima neste caso. Não tenho o menor interesse em patrulhar fetiches ou impor qualquer coisa. Deve ter um montão de gente que adora trocar mensagens eróticas. Este caso não é sobre vocês.
Segundo, eu quero que assédios baseados em relações de poder parem. Again, se vocês adoram BDSM, este caso não é sobre vocês. Mas tá cheio de mulher que é assediada por professores, e não gostam. Uma das perguntas que mais ouço nas palestras que dou sobre machismo na universidade é justamente "O que podemos fazer contra isso?" Eu recomendo falar com o professor e, se isso não resolver, procurar o coletivo feminista da universidade, que levará o caso ao departamento. 
Eu não quero que professores sejam demitidos. Mas quero que não abusem de sua posição de poder. Acho o fim um cara se fingir de feminista em público e, em emails privados, xingar feministas, dizer que são feias e mal-amadas, ao mesmo tempo em que lista as feministas que já "comeu" (algumas das quais ele sequer conheceu pessoalmente). 
Eu só gostaria de viver num mundo mais feminista e menos hipócrita mesmo. 
UPDATE: O professor reapareceu hoje (4/12) para se defender, negar qualquer infração, avisar que vai processar geral, e chamar feministas de inquisidoras moralistas macarthistas stalinistas. Ah, e sugerir que houve perseguição política. Leia aqui
03 Dec 18:02

Palha não entra: o seleto (e secreto) clube dos cannabiers ou maconheliers

by Cynara Menezes
cannabier

(Foto: coletivo Prensa420)

Toda vez que perguntam ao presidente do Uruguai, Pepe Mujica, o porquê de sua defesa da legalização da maconha, ele dá duas razões principais: o combate à violência resultante do narcotráfico e a necessidade de garantir ao usuário segurança sobre a erva que irá fumar. No Brasil, a realidade dos fumadores de maconha é se submeter ao risco de adquirir o produto das mãos de um traficante sem saber exatamente o que está comprando ou… burlar a lei e plantar alguns pés de maconha em casa para consumo próprio.

Embora proibido, o autocultivo  tem não só encontrado cada vez mais adeptos entre nós como começam a surgir verdadeiros connoisseurs da planta, capazes de identificar a qualidade ou não de um baseado apenas pela aparência da erva. Depois dos baristas (especialistas em café), sommeliers (vinho ou cerveja) e chocolatiers, eis que surgem os cannabiers ou maconheliers: os especialistas em maconha, uma elite de usuários preocupada com o sabor, o cheiro e o tipo de “onda” que a maconha vai dar.

O termo cannabier já foi utilizado em um artigo científico pelo antropólogo Marcos Verissimo, que apresentou, em 2013, sua tese de doutorado em Cultura Canábica na UFF (Universidade Federal Fluminense). O neologismo, escreveu Verissimo, “foi cunhado em função da aproximação significativa entre os círculos de apreciadores de cannabis oriundas de autocultivos domésticos e os círculos de apreciadores de vinhos (sommeliers). Quando as flores da maconha atingem o ponto de maturação, as plantas são cortadas, tratadas (processo denominado manicura), passando então à fase do secado (que pode durar algumas semanas). Portanto, da semeadura à degustação do resultado, o importante é ter sabedoria e paciência para se saber admirar o processo, como ocorre no caso dos vinhos mais consagrados”.

Assim como os vinhos, as floradas também ganham nomes –Moby Dick, Critical Mass, Destroyer, Blueberry– e são resultado da assemblage, digamos assim, entre plantas famosas no desconhecido mundo dos plantadores de maconha. Os cultivadores assinam suas criações sob pseudônimo e compartilham experiências pela internet, sobretudo através do site Growroom.

Quem é o cannabier? Em geral é jovem, profissional liberal e homem. Como me disse um deles, “um bando de machões que cultivam flores”. Há garotas, claro, que desfrutam dos blends especiais fornecidos por esta galera, mas as cultivadoras ainda são minoria. São os meninos que mais mergulham a fundo nas técnicas e macetes para produzir plantas dignas de campeonato. Verdadeiros nerds da maconha, os caras sabem absolutamente tudo sobre o assunto. Como seus congêneres especializados em cafés, chocolates, cervejas ou vinhos, é uma atividade que envolve muito orgulho e vaidade. Se chegarmos algum dia à legalização do uso e plantio, seguramente figurarão, ao lado dos enochatos, os maconhochatos.

tricomas

(A flor da maconha com os tricomas. Foto: coletivo Prensa420)

Alberto* é advogado e cultiva meia dúzia de pés de maconha em um quarto, em sua casa, no Rio, sob luz artificial. Sua produção costuma causar sensação entre os amigos. O segredo, conta, é “frustrar sexualmente” a planta. Como a maconha que dá barato é apenas a planta fêmea, cultivadores experientes como ele sabem que, quanto mais a planta estiver pronta para a polinização e ela for impedida de acontecer, mais produzirá tricomas (os “cristais”, parte da planta rica em canabinoides). Ou seja, ficará mais potente. Daí a expressão “sin semilla” (sem semente) para designar a erva que é um must entre os maconhólatras. Para maximizar a produção de tricomas pela planta, são usadas técnicas como pequenas “massagens” para quebrar os galhos, e a água e a luz é milimetricamente controlada –na última semana antes da colheita, água e luz são cortadas, potencializando ainda mais a maconha.

“Meu carma no reino vegetal está péssimo”, brinca Alberto. Além de garantir a frustração sexual da pobre plantinha para seu prazer, o advogado diz que também é fundamental oxidar a flor após a colheita, fechando-a em um recipiente hermético por semanas ou meses. Qual a diferença de uma maconha para outra? “Na verdade, tem um tipo de maconha para cada pessoa ou momento. Se a pessoa quer relaxar, pode fumar uma Indica. Se prefere algo mais estimulante, uma Sativa. Se fosse permitido o autocultivo, o ideal era ter pelo menos três tipos de planta em casa: uma Indica, uma híbrida e uma Sativa”. Em uma festa recente de cultivadores, ele conta, chegaram a aparecer 37 tipos de flores diferentes.

Se os vinhos possuem os taninos, a maconha possui terpenos, moléculas responsáveis pelo odor da planta. Os terpenos vão influenciar no cheiro e no sabor da erva ao ser fumada. Falam-me de “notas” de manga, madeira, limão… “Fumamos um beck que deixava retrogosto de queijo”, me garante o antropólogo Paulo. No quintal de sua casa em Brasília, meio oculto entre três pés de mandioca para confundir eventuais helicópteros, uma nova planta de maconha começa a florescer. Ele pratica o autocultivo há dez anos. Um único pé é o suficiente para o consumo dele e de sua mulher, Marina, e ainda sobra para apresentar aos amigos. Como o ciclo da planta pode chegar a um ano, enquanto a outra cresce, eles fumam a que colheram.

Paulo é um cultivador orgulhoso de sua produção, mas aponta o que vê como exageros de alguns colegas com suas plantinhas de estimação. “Tenho um amigo que comprou até uma máquina de moer coco para fazer uma palha que ele usa como terra. Outro, italiano, controlava pelo celular a milimetragem da água e os nutrientes da planta que estava cultivando lá em Roma”, ri. “O que eu faço é basicamente mijar na planta, que é um NPK (fertilizante) natural. Coloco uns nutrientes na terra, mas não muitos porque acho que interfere no gosto”.

blasézismo de seu comentário contrasta com o ar triunfal que exibe ao mostrar, dentro de um vidro, os “camarôes” ou berlotas (flores já secas) da última safra, em que chegou a um resultado “excepcional” –diz isso como se estivesse falando de grãos de café ou das uvas de um hipotético vinhedo. “Consegui produzir uma cannabis com resina leitosa, que dá uma onda mais excitante, criativa. A resina marrom é down, baqueia. Não serve para fumar e trabalhar, deixa a pessoa sem energia, largadona no sofá”, explana.

budtender

(Budtender em ação no Colorado)

No Colorado, nos Estados Unidos, onde o uso recreativo da maconha, além do medicinal, foi liberado, há inclusive uma profissão em alta, a de “budtender” (trocadilho com bartender, sendo que “bud” é “camarão”). Trata-se do cara ou da mina que atende os clientes das lojas de maconha, exatamente como os vendedores das cervejas artesanais agora em moda no Brasil –ou como os funcionários dos coffee shops holandeses que sempre fascinaram os brasileiros. Capazes de indicar qual o tipo de maconha que você “precisa”, os budtenders possuem formação profissional, fornecida por cursos especializados. O cannabusiness anda tão turbinado por lá que não estranhem se surgir um MBA em Maconha nos próximos anos.

“Que tipo de sensação você quer ter?”, “você é usuário frequente ou vai experimentar pela primeira vez?”, “quer maconha para trabalhar ou para jogar videogame e depois chapar?” pergunta o budtender ao freguês. A depender da resposta, o vendedor irá indicar que tipo de maconha é a ideal para o usuário. Apenas no primeiro mês de legalização para uso recreativo, estima-se que a economia da cannabis movimentou cerca de 14 milhões de dólares no Colorado, e ser budtender virou uma possibilidade de emprego atraente para os jovens –a mais “hot” delas, segundo alguns (leia mais aqui).

No Brasil, até outro dia, o máximo que se distinguia sobre os tipos de maconha era entre a maconha “solta”, produzida no Nordeste, ou a “prensada”, que vem do Paraguai. Algumas maconhas nacionais chegaram a alcançar fama, como a mítica “manga rosa”, de Pernambuco, ou a “cabeça-de-nego”, da Bahia. Reza a lenda que algumas maconhas campeãs mundo afora vieram delas. Houve um verão, em 1987, em que milhares de latas de maconha chegaram à costa brasileira, atiradas ao mar pela tripulação de um navio australiano interceptado pela Marinha, e, a partir daí, baseados potentes passaram a ser chamados de “da lata”. O curioso e hilário episódio virou um documentário dirigido por Tocha Alves e Haná Vaisman em 2012.

Mas sofisticação como se tem agora, nunca se viu. No site especializado Leafly, é possível descobrir que variedade de maconha “combina” mais com o temperamento ou necessidade do usuário, através de um teste online: se pretende ficar falante, relaxado, feliz, eufórico, sonolento… Ou por razões medicinais: as mais indicadas para insônia, fadiga, náusea (um efeito colateral comum a quem se submete à quimioterapia), pressão ocular, stress…

É tanto conhecimento que já começa a irritar. “Tem muita gente cuspindo no prato paraguaio que comeu”, provoca o psicanalista Pierre, de São Paulo. “Chegou-se a um nível de refinamento que outro dia fui numa festa e, quando souberam que o baseado que eu estava oferecendo era paraguaio disseram: ‘ah, não quero, não’. Que é isso? O fumo paraguaio tem seu valor, porque está sempre aí, nunca negou fogo. Qualquer dia acabará virando cult.”

O psicanalista admite, porém, que é muito difícil voltar para a maconha paraguaia, ou seja, para a erva vendida pelo narcotráfico, depois que se experimenta um baseado feito com cannabis autocultivada. “Quando se planta, além de fugir das redes de violência, se garante que a maconha não terá aditivos, porque o fumo paraguaio ninguém sabe o que contém. O nosso, não, é tóxico sem agrotóxico”, diz. Outra diferença é que, como em qualquer plantio em pequena escala, artesanal, todas as etapas são acompanhadas de perto pelo cultivador para que resulte numa erva “gourmet”, ao contrário do que ocorre com o narcotráfico, que utiliza grandes plantações e aproveita tudo da planta: galhos, folhas e até sementes. “O autocultivador, não, só aproveita as flores.”

Pierre cultivava um pezinho em casa, ao qual apelidara carinhosamente de “meu pé de maconha-lima”, e ter que causar a tal frustração sexual da planta lhe trouxe dilemas éticos. “Deixar a plantinha sem água na última semana mexia comigo, mas pensei em algo que me pacificou: adoro foie gras e não estou nem aí para o que fazem com o ganso. Então foda-se se a planta é torturada.” Acabou parando de plantar por achar trabalhoso demais e hoje fuma no “se-me-dão”, isto é, pede aos amigos maconheliers.

Rara mulher entre os cultivadores, a produtora musical Carla prefere não recorrer às “torturas”, fertilizantes e nutrientes em sua pequena plantação indoor em São Paulo. Sua maconha é inteiramente orgânica. Ela usa uma calda de fumo para combater os pulgões, estrume de composteira, casca de ovo, pó de café e… menstruação. Produz pouco, mas sua erva, diz, é perfumada e seu sabor pode ser frutado ou mais ácido. “Planto na lua nova e colho na lua cheia, e vou conversando com elas enquanto crescem.”

Ao contrário dos rapazes, Carla não usa seu talento como jardineira apenas para produzir maconha. Planta ainda maracujá, acerola e banana no quintal. Pergunto por que há mais meninos e meninas no clube dos cannabiers. “Acho que pela mesma razão pela qual há mais meninos na física e na matemática e mais meninas na pedagogia: o mundo é assim”, diz. “Mas eu vejo diferenças. Fui convidada para uma Cannabis Cup e me senti lisonjeada, mas percebi que era uma coisa de meninos, de competição. Acho que a gente vê diferente. Para mim plantar é uma forma de não depender dos homens para comprar ou fumar meu baseado.”

Se as plantas fêmeas cultivadas não germinam, onde essa turma consegue sementes? Trocando entre eles ou comprando pela internet em sites estrangeiros –o que, em tese, também é proibido por lei, mas decisões judiciais recentes têm dado certa segurança aos cultivadores. Em setembro, o juiz Fernando Américo de Souza, de São Paulo, livrou da cadeia um usuário que havia comprado, pela internet, 12 sementes de maconha na Bélgica e foi denunciado por “contrabando”. “O usuário que produz a própria droga deixa de financiar o tráfico, contribuindo para a diminuição da criminalidade”, disse o juiz (confira aqui).

Para os cultivadores, a prática da troca de sementes e da própria maconha para degustação entre os amigos é uma prova de que a idéia dos clubes de cannabis, como existem na Espanha e que estão previstos na lei uruguaia, pode ser a melhor saída para o problema, porque rompe o vínculo com o crime e tira do usuário a carga de “alimentar” o narcotráfico.

Enquanto isso não ocorre, a “elite” degusta iguarias e a enorme maioria dos usuários (estima-se que existam 1,5 milhão no Brasil) continua a consumir maconha malhada, palha e mofada. Será que até nisso quem nasceu para Sangue de Boi nunca chegará a Romanée Conti?

*Os nomes dos personagens desta reportagem foram trocados.

UPDATE: saiu no New York Times um perfil do primeiro crítico de maconha dos Estados Unidos (leia aqui). Profissão dos sonhos para muita gente…

UPDATE2: tenho que acrescentar ao post este vídeo sobre “os esnobes da maconha”. Hilário.

01 Dec 20:29

Conselho Federal de Medicina deu atestado de ignorância ao repudiar campanha contra racismo

by Conceição Lemes
Allan Patrick

A classe médica, definitivamente, perdeu o eixo.

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Fátima Oliveira: “O CFM não tem a menor noção do que é Saúde da População Negra. Deu atestado de ignorância em sua nota” 

por Conceição Lemes

Desde início da faculdade, todo estudante de Medicina aprende que o diagnóstico preciso é essencial para o tratamento adequado de qualquer doença.  Afinal,uma avaliação mal feita quase certamente resulta em “remédio” errado, que pode desde retardar a cura até agravar o estado de saúde do paciente.

Pois, com base nos meus 34 anos de repórter da área de saúde, eu ouso dizer que, na semana passada, o Conselho Federal de Medicina (CFM) foi reprovado numa questão crucial para a maioria da população brasileira: o racismo no SUS.

Explico. Na última terça-feira, 25 de novembro, o Ministério da Saúde e a Secretaria de Direitos Humanos lançaram uma campanha de conscientização para enfrentar a  discriminação racial no Sistema Único de Saúde (SUS).  Iniciativa oportuna, digna de aplausos.

Com o slogan Racismo faz mal à saúde. Denuncie, ligue 136!, a campanha é um alerta à sociedade em geral.  Ela busca envolver usuários e profissionais de saúde – leia-se médicos, enfermeiros, assistentes sociais, fisioterapeutas, nutricionistas  – na luta contra o racismo. Além disso, estimula as pessoas a não se calarem diante de atos de discriminação racial.

“Não podemos tolerar nenhuma forma de racismo”, enfatizou Arthur Chioro, ministro da Saúde, no lançamento.  “A desigualdade e o preconceito produzem mais doença, mais morte e mais sofrimento.”

Dois dias depois, na quinta-feira 27, o Conselho Federal de Medicina (CFM) divulgou Nota à Sociedade, na qual repudia a campanha.

Nela (na íntegra, ao final), o CFM acusa a campanha de ter tom racista, rejeita que o racismo é uma das causas de má assistência no SUS e acha que o Código de Ética Médica basta para prevenir a discriminação racial:

O Conselho Federal de Medicina (CFM) – em nome dos 400 mil médicos brasileiros – repudia o tom racista de campanha lançada pelo Ministério da Saúde, que desconsidera os problemas estruturais de atendimento que afetam toda a população.

Os médicos são contra qualquer tipo de preconceito na assistência a pacientes nas redes pública e privada. O Código de Ética Médica em vigor já estabelece que os médicos devem zelar para que “as pessoas não sejam discriminadas por nenhuma razão vinculada à  herança genética, protegendo-as em sua dignidade, identidade e integridade”.

…financiamento limitado, fechamento de leitos, falta de insumos e medicamentos e ausência de uma política de recursos humanos. Na verdade, são essas as causas do mau atendimento para a população no SUS, não importando questões de gênero, classe social ou etnia.

CFM EQUIVOCOU-SE TANTO NO “DIAGNÓSTICO” QUANTO NO “TRATAMENTO”

A partir da Nota à Sociedade, do CFM, eu me pergunto:

Seria  ignorância da instituição, como observa a médica Fátima Oliveira na entrevista mais adiante?

Viveria a sua diretoria numa redoma de vidro que a impediria de enxergar a realidade brasileira?

Seria uma tentativa de esconder o racismo debaixo do tapete?

Ao acusar a campanha de racista, o CFM não estaria escamoteando o seu próprio racismo?

Ou seria o CFM adepto da teoria Não somos racistas, do jornalista Ali Kamel, apesar de as pesquisas no Brasil demonstrarem o contrário?

O fato é que:

1. Ainda existe discriminação racial na rede pública de saúde, afetando o cotidiano da saúde da população negra.

2. O CFM passou nacionalmente atestado de inépcia. Equivocou-se tanto “diagnóstico” quanto no “tratamento”, que foi a sua Nota à Sociedade.

“A relação desigual no acolhimento e tratamento, os índices de mortalidade mais elevados e o estresse psicossocial gerado pelo preconceito continuam reduzindo o potencial e a qualidade de vida desta parcela de indivíduos”, alerta a Radis, revista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro. “Apesar de representar a maioria da população brasileira – 54% que se declaram pretos e pardos – a saúde da população negra permanece muito prejudicada pelo racismo, especialmente aquele oriundo das instituições.”

São 109,8 milhões de brasileiros e brasileiras, dos quais 70% são usuários do SUS, segundo cálculos da Secretaria de Promoção de Políticas de Igualdade Racial (Seppir). O pesquisador Marcelo Paixão diz que são 80%. De qualquer forma, a população total do País é estimada em 203,4 milhões.

O RACISMO REFLETE NA MORTALIDADE MATERNA E INFANTIL E NA ASSISTÊNCIA À SAÚDE

Alguns dados do Ministério da Saúde falam por si só:

Homens e mulheres negros são atendidos em consultas médicas com menos tempo que os homens e mulheres brancos.

* 46,2% das mulheres brancas tiveram acompanhantes no parto, enquanto apenas 27% das negras utilizaram esse direito.

* Às vezes o uso de anestesia é menor nos partos de mulheres negras.

* 77,7% das mulheres brancas foram orientadas para a importância do aleitamento materno; já apenas 62,5% das mulheres negras receberam essa informação.

* As taxas de mortalidade neonatal e infantil (até os 5 anos) entre os filhos de mães negras são mais altas e apresentaram redução menor nos últimos anos. Segundo a Radis, estudo feito por pesquisadores de Pelotas, Rio Grande do Sul, mostrou que, de 1982 a 2004, as mortes de recém-nascidos caíram 47% entre filhos de mães brancas e 11% entre os nascidos de mães negras.

*As taxas de mortalidade materna na população negra são bem maiores: 60% contra 34% nas mulheres brancas.

Detalhe: já nos anos 1970 o movimento negro alertava sobre fortes indícios de que a mortalidade materna das negras no Brasil era, expressivamente, maior que do que a das brancas.  O setor saúde e os governos nunca deram crédito à hipótese. Até que a enfermeira obstétrica negra e pesquisadora Alaerte Leandro Martins resolveu estudar o assunto. Alaerte integra a Comissão de Prevenção da Morte Materna do Ministério da Saúde.

“Devido à condição genética, a mortalidade materna é realmente maior entre as mulheres negras”, adverte Alaerte. “Mas o racismo também pesa.”

Hipertensão arterial, diabetes, anemia falciforme (ou doença falciforme) e deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase (anemia mais rara e mais fácil de tratar) são doenças mais comuns na população afro-brasileira e causas indiretas de óbito materno.

Mas não são as únicas.  Pesquisa sobre morte materna no Brasil feita por Alaerte Martins revela que, no Paraná, a gestante negra tem 7,3 vezes mais risco de ir a óbito; em Salvador, 3,7.

Ela mesma explica por quê. No Paraná, a população negra é só 24%. Você chega num hospital, numa escola, a maioria das pessoas é branca. A nossa mente é seletiva. Vai atender o pacote, que é a maioria. E vai deixar para depois a minoria. Em Salvador, onde a maioria é negra, acontece o contrário. Primeiro, é atendida a maioria que é negra. Isso não significa que o risco para as brancas seja maior em Salvador. O risco para as negras é que é menor.

“O racismo e o preconceito estão tão incrustados que as pessoas aprenderam a tratar as outras no pacote. E isso se reflete na mortalidade materna, na assistência à saúde, enfim”, observa Alaerte. “Primeiro, são atendidos os iguais, depois os diferentes.”

“Imagine em casos de abortamento. As mulheres negras são mais discriminadas do que as brancas”, atenta Alaerte Martins. “Serão as últimas das últimas a serem atendidas, correndo maior risco de morte.”

Não é à toa que entidades do movimento negro saíram em defesa da campanha do Ministério da Saúde e contra a posição do CFM. Entre elas, a União de Negros pela Igualdade – Uneagro.

Em Nota ao povo brasileiro (na íntegra, ao final desta reportagem), a Unegro afirma:

…apoiamos a iniciativa do Ministério da Saúde ao lançar campanha específica para combater o racismo nas esferas da saúde pública. Setor que ainda hoje a população negra vivencia um drama quase invisível para quem não é a vítima dessa logística ruim.

Ainda temos muitas pessoas morrendo de agravos sem diagnóstico, pois a ausência de um acolhimento humanizado ainda exclui muitas pacientes dos serviços públicos de saúde. Alguns profissionais da área dedicam menos tempo para um(a) negro(a) na hora da consulta médica e dos exames

…Convocamos a adesão a essa campanha aqueles que só têm o serviço público de saúde como única alternativa nas horas mais difíceis da vida, que é a hora da doença. Racismo faz mal à saúde. Denuncie!

“NEGAR A PRESENÇA DO RACISMO NA ASSISTÊNCIA À SAÚDE  É UMA FALÁCIA”

A primeira reação da médica, negra e feminista Fátima Oliveira foi de indignação.

“A rigor, possessa!”, frisa a médica. “Essa nota é um absurdo sem pé e sem cabeça.”

“O CFM preferiu o caminho da negação do óbvio. Negar a presença do racismo no cotidiano da atenção à saúde no Brasil é uma falácia, já desmascarada por várias pesquisas, que o CFM tem a obrigação ética e política de conhecer”, avalia Fátima, que já foi vítima de racismo.

“O CFM não tem a menor noção do que é Saúde da População Negra e nem da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População Negra”, vai mais fundo Fátima. “Deu atestado de ignorância em sua Nota à Sociedade.”

“Eu só não entendo a finalidade de tal postura e usando o nome de todo mundo que é médico no Brasil. Se não fui consultada, quero ser excluída de tais desatinos”, avisa. “Já disse em meu artigo e repito: “O CFM não me representa quando nega o racismo insidioso e cotidiano nos serviços e profissionais de saúde”.

Confira a íntegra da nossa entrevista com a doutora Fátima Oliveira, que fez questão de que esta repórter a tratasse por você.Vale a pena.  Ela não tem papas na língua.

Viomundo – Como médica, negra e feminista, você diria que pacientes negros são vítimas do racismo — velado ou explícito — por parte de médicos, enfermeiros e demais membros da equipe de saúde?

Fátima Oliveira — O racismo na atenção à saúde, seja por parte das instituições ou de profissionais, sobretudo de médicos, é um fato inconteste.

Há várias pesquisas comprobatórias de racismo na atenção e na pesquisa em saúde, no mundo! Duas delas clássicas, aparecem em quase todo livro de bioética.  O Estudo do Canto (assistência) e o Caso Tuskegee (pesquisa).

O estudo Canto, coordenado por John Canto, Universidade do Alabama (2000), mostra que negros, independentemente do sexo, têm probabilidades bem menores que brancos de receber tratamento de grande eficácia para ataques cardíacos.

O caso Tuskegee, história clássica de racismo descrita no filme/vídeo “Cobaias”, revela que, de 1932 a 1972, o Serviço de Saúde Pública dos EUA pesquisou, em Tuskegee, no Alabama, 600 homens negros – 399 com sífilis e 201 sem a doença (…). Nos anos 50, chegou a cura para a sífilis, com a penicilina – proibida para as cobaias do estudo Tuskegee. Após 40 anos, 74 sobreviventes. Mais de cem faleceram de sífilis ou de suas complicações. Em 1997, quando Bill Clinton pediu desculpas pelos erros e abusos cometidos pelo governo dos EUA, os sobreviventes eram apenas 8!”.

Viomundo – Há racismo na atenção à saúde no SUS?

Fátima Oliveira — No SUS, nos convênios e nos serviços particulares também! E a razão é elementar: negro ainda é considerado cidadão de última categoria em nosso país de cultura escravocrata, onde nada escapa das práticas racistas.

Eu me formei médica em 1978. Se eu contar as vezes em que como médica negra fui vítima de racismo e o que já presenciei de casos de racismo, daria um “romance”.

Há de tudo, desde a mãe de uma paciente depois que atendi – ouvi a história, examinei, pedi exames, passei e expliquei a receita – perguntou quem seria a médica que atenderia a filha dela. Na lata, disse-lhe: “A senhora quer outra?”

Há a do moço que queria que a mulher dele fosse atendida no pronto-socorro com uma provável DST [doença sexualmente transmissível]. Depois de eu orientar que, ali perto, havia um serviço que funcionava das 7h às 22h específico para aqueles casos, que atendia todo mundo que chegasse e ainda dava o remédio, ele, já com o endereço na mão, disse algo mais ou menos assim: “É nisso que dá uma mulher de fala estranha vir mandar em Minas Gerais”… Mandei que ele completasse o pensamento: “De fala estranha e preta”!

Uma colega dizia que não gostava de atender homem e sempre pedia: “Fátima, me dá uma mulher que eu te dou um homem!” Ia lá nas minhas fichas e escolhia por quem trocar… Levei anos para descobrir que ela evitava mesmo era atender negros – uma técnica de enfermagem cantou a pedra. Havia “Quesito cor” na ficha! Desde então nunca mais permiti troca de fichas.

Racismo explícito de colega, só aquele que o Viomundo publicou em 2013: “Vou chamar a polícia para deixar de ser safado”.

Viomundo — Qual a tua primeira reação ao ler a nota do CFM?

Fátima Oliveira — Fiquei indignada! A rigor, possessa. Porque é um absurdo sem pé e sem cabeça aquela nota. Eu a reli várias vezes, para recuperar um pouco de calma e de “sangue frio” para enfrentar aquela falta de noção, de senso…

Na noite de 27 de novembro fiquei tão angustiada que não conseguia dormir…  Naquela mesma noite comecei a escrever a minha coluna semanal de O TEMPO para o dia 2 de dezembro, que já enviei para o jornal, cujo título é: “Qual é a parte do racismo na saúde que o CFM não enxerga?”

E lá pelas tantas da madrugada senti uma pena profunda de quem teve a coragem de escrever aquela Nota do CFM… Pena pelo despudor que a ignorância produz nas pessoas. Pena de quem não se deu conta ainda que o racismo é uma fé bandida! Pena pelo CFM que parece não estar sediado no Brasil! Mas pena também do Roberto D’Ávila, colega que conheci na década de 1990 nos espaços de bioética que estavam despontando no Brasil. Pena, sobretudo,  porque sinto que ele desaprendeu bioética para assinar uma Nota como aquela do CFM… Sim, porque a bioética é antirracista e libertária em sua essência, pois a bioética jamais desconhece e/ou nega as opressões de qualquer etiologia, como eu falo exaustivamente em meu livro: Bioética – uma face da cidadania (Moderna, 1997).

Viomundo – A Nota demonstra que o CFM não tem noção da saúde população negra. Afinal, não basta saber tecnicamente que tais e tais doenças são mais frequentes. A saúde da população negra passa pelo enfrentamento do racismo no SUS, concorda?

Fátima Oliveira — O racismo na área de saúde, assistência e aparelho formador, é o fator determinante de porque o campo da medicina Saúde da População Negra foi construído fora da universidade, embora com o apoio decisivo de professores, como a demógrafa Elza Berquó e Marco Antônio Zago, hematologista, hoje reitor da USP, como relato no capítulo 13 do meu livro Saúde da População Negra, Brasil 2001

É o racismo quem explica porque tantos anos depois da formação teórica do campo (anos 1990) nenhuma Faculdade de Medicina tem Saúde da População Negra como disciplina!

É o racismo quem explica porque Saúde da População Negra não mereceu nenhuma hora de aula no curso ministrado a médicos do Programa Mais Médicos, pelo próprio Ministério da Saúde, o mesmíssimo que criou a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População Negra (PNAISPN), em 2009!

É o racismo quem explica porque tal política ficou hibernando durante quatro anos do governo Dilma sob a gestão do ministro Padilha!

O racismo no SUS começa dentro do governo, que encontrou uma política construída com suor e lágrimas e institucionalizada com muita luta e passou quatro anos ignorando-a solenemente. Se eu fosse a ministra Luiza Bairros, depois de dois anos malhando em ferro frio, teria pedido para sair, pelo desrespeito com que a saúde da população negra foi tratada. Mas cada pessoa sabe de si, não é?

O CFM não tem a menor noção do que é Saúde da População Negra e nem da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População Negra. Acusou o golpe e deu atestado de ignorância em sua Nota à Sociedade.

É lamentável! Desde que me entendo por médica, 1978, a endireitização do CFM é datada: a partir de 2000, visões estreitas tem sido a tônica de algumas ações políticas.

E se não estou enganada, ela foi bem explicitada quando da publicação da Norma Técnica de Atenção Humanizada ao Abortamento (2004), do ministro Humberto Costa, que dispensava o BO em caso de gravidez por estupro.

Lembro-me que fui a um evento do CRM de Pernambuco sobre Violência contra a Mulher, em Recife, e tive de pegar o voo após a minha fala (o evento atrasou, prejudicando a minha continuidade nele).

Depois soube que o presidente do CFM da época, que falou depois de mim, só não me chamou de santa, apenas porque a minha posição era diferente da dele (acreditar na palavra da mulher), que alardeava aos quatro costados do mundo que “Os meus médicos não vão fazer aborto previsto em Lei sem BO”!

Viomundo — Ao não reconhecer a existência do racismo no atendimento à saúde no SUS, o CFM não tenta escamotear o racismo da categoria?

Fátima Oliveira — O CFM preferiu o caminho da negação do óbvio. Negar a presença do racismo no cotidiano da atenção à saúde no Brasil é uma falácia, já desmascarada por várias pesquisas, que o CFM tem a obrigação ética e política de conhecer. Mas deu a entender que não conhece, o que eu duvido muito!

Talvez a Nota faça parte de uma tentativa política de manter o confronto com o governo, uma aposta de ser oposição a qualquer preço. Eu só não entendo a finalidade de tal postura e usando o nome de todo mundo que é médico no Brasil. Se não fui consultada, quero ser excluída de tais desatinos. Já disse em meu artigo e repito: “O CFM não me representa quando nega o racismo insidioso e cotidiano nos serviços e profissionais de saúde”.

Viomundo — Quais as consequências do racismo na assistência à saúde em geral?

Fátima Oliveira — Acho que é algo de porte incomensurável. De uma coisa tenho certeza: se médicos dessem conta de atender as pessoas considerando as suas singularidades digamos, biológicas, e o meio em que vivem, diminuiriam as mortes precoces causadas por doenças preveníveis.

Viomundo — Qual peso do racismo na saúde emocional, mental, do paciente negro?

Fátima Oliveira — São desastrosas, destruidoras e desestruturadoras de vidas, porque o que o racismo martela e quer é que introjetemos “Nós não somos nada nesta vida”, como disse Clara dos Anjos, de Lima Barreto (publicado em 1948, 26 anos após a morte do autor)…

Há um grupo que trabalha saúde mental e racismo, o Instituto AMMA Psique e Negritude, de São Paulo, SP.  Soube também que, em novembro de 2014, foi criado, numa das gavetinhas do Ministério da Saúde, o GT Racismo e Saúde Mental. O objetivo é “pressionar” o Ministério da Saúde para “Reconhecer o sofrimento psíquico oriundo das relações raciais violentas – vivenciadas pela sociedade negra brasileira – como uma categoria a ser incluída nas linhas de cuidado das RAPS – Redes de Atenção psicossocial”.  Dá para entender?  Eu não entendo! Mas saber que há gente pelejando na área é alentador.

Viomundo —  Em julho do ano passado, você disse em artigo que reproduzimos que a saúde da população negra era tratada com descasoDisse também que o ex-ministro Alexandre Padilha não compareceu à reunião com a presidenta Dilma, Seppir e representantes do movimento negro. O que acha de o Ministério da Saúde ter lançado agora uma campanha para enfrentamento do racismo no SUS?

Fátima Oliveira — Não é a primeira vez que o Ministério da Saúde torna pública a sua decisão política de que o racismo faz mal à saúde. Na gestão do ministro Humberto Costa, foi feita muita coisa.É a primeira vez no governo Dilma.

Na gestão do ministro Padilha, a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População Negra foi engavetada, literalmente. Até escrevi um artigo sobre tal fato e que o Viomundo, como você bem lembrou, republicou: Saúde da população negra enterrada em algum canto do MS.

Lá, eu disse:

“Se não estou enganada, é a primeira vez que a presidenta nos ouve presencialmente. Pelo que li até agora, considerei a reunião boa, pero… faltou Padilha! E parece que ninguém abriu a boca para falar em saúde da população negra, lacuna grave num momento em que o SUS está envolvido em um debate acirrado. Para o pesquisador Marcelo Paixão, 80% dos negros se internam pelo SUS.

Todo mundo reclama que a Rede Cegonha não dá a mínima para o recorte racial/étnico e não há santo que a faça avançar. E perdemos a chance de dizer de viva voz à presidenta que a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra está enterrada com uma caveira em algum canto do Ministério da Saúde, um descaso que eu sei que ela não sabe! Elementar: ou manda Padilha transversalizar o recorte racial/étnico em todas as ações da saúde, ou admite a omissão”.

E o motivo principal pelo qual escrevi o artigo foi porque naquela época, julho de 2013, fui contatada pela Seppir para uma interlocução/avaliação da PNAISPN. Recusei e argumentei que não me prestaria ao papelão de avaliar o NADA! Textualmente disse: “Adianto-lhe que não devo ser uma boa interlocutora para a área que você deseja, pois não tenho acompanhado nada do governo sobre saúde da população negra, até porque acredito que não está sendo feito NADA!”

Na verdade, o Padilha deu muita canseira fundamentalista ao feminismo e o meu veredicto é que ele era um “caso perdido” e eu não queria mais uma frente de problemas com ele, além da que ele estabeleceu publicamente porque seria pura perda de tempo! E estou numa idade que respeito muito meu tempo.

Viomundo – E, agora, o que fazer diante dessa estupidez do CFM?

Fátima Oliveira — “Meu bem, meu bem, a sua estupidez”… Se o CFM tiver interesse, estou à disposição para um debate presencial sobre o tema com o pleno do CFM.  Embora os conservadores tenham assumido o CFM desde 1999, a recente escalada de “endireitização”, cantada há muito tempo, em assuntos cruciais para o povo brasileiro, precisa ser contida, ou pelo menos precisa de um verniz civilizatório contemporâneo. O CFM “representa” médicos de diferentes ideologias, logo suas ações não podem contemplar apenas uma visão de mundo.

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CFM: NOTA À SOCIEDADE

O Conselho Federal de Medicina (CFM) – em nome dos 400 mil médicos brasileiros – repudia o tom racista de campanha lançada pelo Ministério da Saúde, que desconsidera os problemas estruturais de atendimento que afetam toda a população.

Os médicos são contra qualquer tipo de preconceito na assistência a pacientes nas redes pública e privada. O Código de Ética Médica em vigor já estabelece que os médicos devem zelar para que “as pessoas não sejam discriminadas por nenhuma razão vinculada à  herança genética, protegendo-as em sua dignidade, identidade e integridade”.

Por outro lado, o CFM reitera sua preocupação com as condições de trabalho e de atendimento oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o qual tem sido penalizado pelo financiamento limitado, fechamento de leitos, falta de insumos e medicamentos, e ausência de uma política de recursos humanos. Na verdade, são essas as causas do mau atendimento para a população no SUS, não importando questões de gênero, classe social ou etnia.

É tarefa dos gestores de todas as esferas – federal, estadual e municipal – tomarem providências para resolver estas questões, cujo enfrentamento efetivo contribuirá, sem dúvida, para melhorar a qualidade da assistência e reduzir os indicadores de mortalidade e morbidade.

Sem a adoção de medidas contra esses problemas, os pacientes que recorrem à rede pública continuarão a ser testemunhar o desrespeito aos princípios constitucionais do SUS (universalidade, equidade, integralidade), o que configura uma agressão aos direitos individuais e coletivos e à dignidade humana.

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA

Brasília, 27 de novembro de 2014

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UNEAGRO: NOTA AO POVO BRASILEIRO 

Após a realização da Conferência Mundial da ONU contra o racismo, em 2001, vimos reforçando e ampliando as denúncias de que o racismo é estrutural, contaminando não só elementos da sociedade, mas também as instâncias dos governos.

Portanto, transversaliza-se institucionalmente, por meio das relações de poder e nas articulações políticas, sociais, econômicas e culturais das sociedades, Estados e governos.

Dessa forma, apoiamos a iniciativa do Ministério da Saúde ao lançar campanha específica para combater o racismo nas esferas da saúde pública. Setor que ainda hoje a população negra vivencia um drama quase invisível para quem não é a vítima dessa logística ruim.

Não podemos esquecer, portanto, que a população negra brasileira é quase 51%, e as mulheres negras continuam sendo maioria entre as vítimas de violência e o desrespeito dos seus direitos.A juventude negra, por sua vez, continua sendo a maioria entre os jovens que sofrem da agressão pelos órgãos de segurança.

Ainda temos muitas pessoas morrendo de agravos sem diagnóstico, pois a ausência de um acolhimento humanizado ainda exclui muitas pacientes dos serviços públicos de saúde. Alguns profissionais da área dedicam menos tempo para um(a) negro(a) na hora da consulta médica e dos exames.

Precisamos lembrar também que é papel dos órgãos públicos de governo educar a população para a redução das desigualdades, porque saúde não é apenas o medicamento e o médico. Saúde é qualidade de vida, associada ao bem-estar e à cidadania.  Além do que, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu, por unanimidade, a legitimidade da adoção das Ações Afirmativas nas políticas públicas de educação. Agora, queremos que o Estado brasileiro, com base no artigo 3º da Constituição Brasileira, inclua essas ações afirmativas no setor da saúde, estratégicas para a eliminação das desigualdades sociais e raciais. Porém, queremos avançar não só com a Portaria 992/2009, que institui a Política Nacional de Saúde Integral para a População Negra, mas principalmente, que o SUS torne corriqueira a inserção, o acolhimento e a assistência transversal e integral da população negra brasileira.

Assim, apoiamos a campanha Racismo faz Mal à Saúde, criada pelo Ministério da Saúde e pela Secretaria de Direitos Humanos. Convocamos a adesão a essa campanha aqueles que só têm o serviço público de saúde como única alternativa nas horas mais difíceis da vida, que é a hora da doença.

Racismo faz mal à saúde. Denuncie!

UNEGRO-UNIÃO DE NEGROS PELA IGUALDADE

PS do Viomundo: Nós também apoiamos esta campanha. Lembre-se sempre: racismo faz mal à saúde. Enfrente-o. Não se cale.  Denuncie todo ato de discriminação na assistência à saúde. Ligue 136.

[A produção de conteúdo exclusivo só é possível graças à generosa colaboração de nossos leitores-assinantes. Torne--se um deles!]

Leia também:

Alaerte Martins: A morte materna invisível das mulheres negras

O post Conselho Federal de Medicina deu atestado de ignorância ao repudiar campanha contra racismo apareceu primeiro em Viomundo - O que você não vê na mídia.

01 Dec 12:56

Un atentado terrorista en Texas del que no nos habíamos enterado

by Iñigo Sáenz de Ugarte

“Un inmigrante musulmán de origen sirio disparó con un arma automática hace unos días a varios edificios del centro de Austin, Texas, entre ellos una comisaría y un tribunal. Ibrahim Fayad disparó al menos un centenar de proyectiles en un atentado terrorista sin víctimas que ha sido relacionado con el peligro que suponen los yihadistas sirios cuando tienen la oportunidad de volver al país en que residían y convertirse así en ‘lobos solitarios’ indetectables para los servicios de inteligencia. Fayad llegó a intentar prender fuego al consulado israelí en Austin sin poder conseguir su propósito. Finalmente, fue abatido a tiros por la policía, aunque algunos medios no descartan que se matara con su propia arma.”

Es raro que no nos hayamos enterado de esta noticia por nuestros medios de comunicación. Confirma muchas de las alertas que los expertos en terrorismo habían anunciado en los últimos meses. Más tarde o más temprano, algunos de los musulmanes residentes en EEUU y Europa que han acudido para unirse a las filas del ISIS terminarán regresando con la intención de cometer atentados indiscriminados.

Quizá sea porque algunos de los detalles de la noticia están equivocados. Veamos lo que dice USA Today:

“Un hombre armado de raza blanca y mediana edad disparó más de un centenar de veces contra varios edificios en el centro de Austin en la madrugada del viernes e intentó prender fuego al consulado mexicano antes de morir de una herida de bala en lo que parece ser un ataque por razones políticas contra el Gobierno relacionado con la inmigración”.

Claro, ahora lo entiendo. El agresor se llamaba Larry Steven McQuilliams. Es blanco, se llama McQuilliams y era probablemente un ultra cabreado con las últimas decisiones de Obama sobre inmigración. Eso automáticamente hace que no se le pueda considerar un terrorista, y por eso ninguna noticia ha mencionado que se tratara de un caso de terrorismo, a pesar de las aparentes motivaciones políticas.

Si hubiera sido musulmán, sería otra cosa, claro. Sus problemas mentales, si los tuviera, serían mencionados de pasada, sus ideas políticas, por desquiciadas que fueran, serían examinadas en detalle. Nuestros periódicos encargarían análisis a expertos en terrorismo, que explicarían que algo así podría ocurrir perfectamente en España y no tendríamos tanta suerte como en Texas.

Pero como el agresor de Austin se llama McQuilliams y es blanco, no tenemos que preocuparnos. Es un ataque de histeria que nos hemos ahorrado.

30 Nov 17:44

Viver na Holanda é conviver com ratos (ou melhor, camundongos)

by Daniel Duclos

Se preferir ler o artigo no Ducs Amsterdam. acesse aqui: Viver na Holanda é conviver com ratos (ou melhor, camundongos).

Uma das principais distinções expat - nativo aqui na Holanda é a capacidade de ser blasé diante de camundongos. Esqueça NT2 e falar holandês sem sotaque, Inburgeringscursus ou até mesmo gostar de drop, se você parou de dar piti diante de um camundonguinho, você está integrado.

Gato e Rato em Amsterdam

Aliás, nós brazucas chamamos tudo de rato, né? Nunca vi um brasileiro dizer "tem camundongo em casa", a gente sempre diz "tem um rato" -- mas diga que tem rato em casa e o holandês vai arregalar os olhos, porque aí a coisa ficou séria! A placidês é reservada para a cohabitação com muizen (singular muis), não ratten (singular rat).

Porque, tipo, sim, rola uma certa política e tolerância batavo-roedora. "Enquanto os bichos não comem minha comida", disse um amigo holandês para quem eu me queixava sobre meu primeiro encontro com camundonguinhos, "eu não tô nem aí. Durmo tranquilo, ignoro os barulhinhos deles e boa".

Eu falo pra vocês que choque cultural é algo forte...

Bom, mas isso foi na época em que tinha acabado de chegar, era meu primeiro econtro com os pestinhas. Fiz até post no blog (hoje um clássico da primeira era do Ducs Amsterdam), a gente nem tinha ainda trazido nossos gatos do Brasil.

Sem o reforço do batalhão felino, tentei de tudo. Aprendi algumas coisas (que são verdade no meu caso, sua experiência pode ser outra, eu nem vou discutir):

Armadilha com cola eu achei que era uma forma humana de pegar os bichos, mas é o inverso, é horrível, e me arrependo profundamente de ter usado. Eu não recomendo.

Ratoeira, o que funcionou de isca foi o clichezento queijo mesmo - povo fala pra usar pindakaas, pão, bacon, presunto e um monte de coisas, mas nada disso funcionou comigo. O que funcionou foi queijo.

Mas só pra rat... hã, pra camundonguinho pequeno. Os gordos e grandes cheiravam e saiam andando, pensando "não fiquei gordo assim pondo nariz em armadilha, queridão, qui qui qui". Malditos.

Veneno funcionou zero, rosca, donut, conjunto vazio. Nenhum camundongo jamais comeu nada de veneno. Nem do natural, de feijão moído, que falam na internet. Joguei tudo fora -- o veneno mesmo tem que jogar em lugar especial, porque é KCA - Kleine Chemisch Afval, lixo químico pequeno. Existem pontos de coleta, mas eu levei até um carro que vem uma vez por mês no meu bairro (e em diversos bairros de Amsterdam, procure pelo seu) coletar lixo químico e afins. Em geral a página do seu stadsdeel ("subprefeitura") tem informações sobre isso.

Você também pode contactar o GGD (Saúde Pública Municipal). Eles oferecem um serviço de desratização, mas o que eles fazem é vir por veneno e, bem, veja acima: adiantou nada no meu caso.

(Se quiser arriscar, toma o link de contato em inglês, pronto (eu tenho coração mole, eu sei)...)

O que adiantou foi pra nós foi... gato. Outro clichê verdadeiro. Quando eu importei as duas bolotas de pelo ronronentas do Brasil, os camundongos desenvolveram um saudável respeito pela nossa casa.

Gatinha Boo

A face do respeito, segundo roedores: Boo patrulhando a casa....

Graças, aliás, principalmente à Boo. A Boo preda e não perdoa. E se eu fico testemunhando a caça, ela aleija o bicho e me traz, pimpona e orgulhosa, pra eu finalizar o serviço:

— Vamos Dani, eu sei que você é um felino excepcionalmente desajeitado, grande e feio (pra Boo, é pré-requisito ser felino para ser da família), mas você consegue agora, eu te ajudo. Toma, vai *patadinha no bicho todo troncho que se mexe um tico e eu pensando AAAAAGHH, mas mantenho a compostura porque não quero passar muito vexame na frente da Boo*.

— Vamos, Dani, finaliza ele. *cutuca, bicho se mexe*

– AAAAAAAAGHHHHHHH!

Odeio rato. Hã, e camundongo também.

Mas enfim, graças à Boo, a patrulha na nossa casa é cerrada e o perímetro é mantido. Graças à Boo, não ao Linus.

O Linus, na primeira vez que encontrou um camundongo, recebeu um conjunto completo de deméritos por não estar de prontidão e falhar em manter vigília, mas o que ele fez a seguir resultou em corte marcial por comportamento pulsilânime face ao inimigo: ele virou nas quatro patas e fugiu.

Durante os procedimentos do processo, ele apresentou a seguinte defesa:

- Oooh, Dani, meu papel é ser fofo e fazer companhia colenta pra você e as crianças, eu não me misturo com roedores, não é higiênico. Segurança Interna é trabalho da Boo...

linus_atacando_flor

- Já flores e plantas eu não perdoo!

Eu absolvi o peste, já tava no meu colo ronronando mesmo... roooomrooomroooomrooomroooom...

Linus

ROOOOAAARRrrrrr....

Linus dormindo

...rrrrrrzzzrrrooooomzzzroooom....

O artigo Viver na Holanda é conviver com ratos (ou melhor, camundongos) foi retirado de Ducs Amsterdam.

29 Nov 14:23

"SE ELE FOSSE ASSIM PUBLICAMENTE, NÃO LHE DARIA NEM BOM DIA"

by lola aronovich
Allan Patrick

Estarrecido!

Em julho recebi um email da C. Tive que cortar várias partes, pois obviamente, temendo o julgamento, ela não quer se identificar: 

Por volta de 2010 conheci um blogueiro bastante famoso, que se diz feminista, através de uma postagem no seu blog. Virei fã do cara, li vários posts do blog dele, e passei a segui-lo nas redes sociais. Em 2012, fiz um comentário no facebook dele, e ele me adicionou. Achei estranho, pois ele não me conhecia. Pensei em não aceitar, mas acabei aceitando.
Ele me mandou uma mensagem privada dizendo algo como "Que sorriso lindo que vc tem". Depois disso, ele volta e meia aparecia e comentava alguma coisa, quando eu trocava minha foto de perfil. Eu não entendia nada e dizia apenas obrigada...
Um dia ele começou a falar de como as mulheres da cidade onde ele mora nos EUA são quentes, como as mulheres do nordeste são quentes. Comecei a dar umas evasivas. Pensei em excluir o cara porque achei que ele era doido, apaguei as mensagens e ignorei. Ainda assim não imaginava que ele estava dando em cima de mim.
Outro dia, ele apareceu novamente e começou a dizer que eu era linda, que adorava minhas fotos e falou da vida dele. Eu perguntei: "Vc já viu que eu sou casada?" Ele: "Claro". Daí, do nada, ele me mandou uma foto do pau dele, e disse que estava excitado e louco de vontade de me comer. Eu tomei um susto enorme, fiquei meio atordoada sem saber o que responder, não entendia que diabos esse cara que morava do outro lado do mundo queria com essas mensagens. Ele continuou me perguntando: "E aí, gostou da foto, o que achou?" 
Nessa época, eu estava muito mal, brigada com meu marido, e achei que seria legal entrar na brincadeira. Mas também disse a ele que ficava com vergonha, que não ia dar certo, que era casada, que ele estava brincando comigo, que ele tinha namorada, e ele dizia que nada disso importava. Que ele sempre vinha ao Brasil e passava boa parte do ano aqui, e que ele viria até a minha cidade porque estava louco de tesão por mim.
Apesar de envergonhada e com medo, eu comecei a gostar dessa brincadeira dele. Mais tarde ele cortou contato comigo, eu o excluí, mas voltamos a conversar. Depois de um mês sem falar com ele, o chamei no gtalk novamente, ele me perguntou porque eu o tinha excluído, disse que era besteira e falou que ainda sentia tesão por mim e tal. Disse que "sabia que eu ia voltar", que tinha me "deixado no cio". Eu estava com muito medo de me arrepender, mas por outro lado a curiosidade tinha me vencido.
Aí ele veio com história de horóscopo, dizendo que queria fazer meu mapa astral. Eu disse que não acreditava em signos e ele dizendo que tava curioso, queria saber meu signo, minha data de nascimento, essas besteiras. Fez o tal do mapa astral e ficou me contando que eu devia ceder as tentações, que tinha que entregar tudo. Quando eu passava alguns dias sem falar com ele, ou sem ficar online, ele aparecia, começava tudo de novo e dizia que tinha regras, que eu não podia sumir, que tinha que ficar quietinha, "e que podia aparecer de vez em quando pra pedir pica".
Como amansar um corno. Segundo
o intelectual de esquerda feminista,
é isso que uma mulher casada deve
dizer ao marido
Ele me pedia fotos e eu mandei várias. A partir de um certo tempo ele começou a me contar que já fazia isso há mais de 15 anos, que sempre procurava mulheres casadas. Começou a chamar meu marido de corno e em alguns momentos me chamava de putinha, vagabundinha, coisas do tipo. Ele contou que adorava brincar com os maridos (com o corno, como diz ele). 
Chegava ao ponto de ele me chamar pra bater papo com outras mulheres que ele já tinha pegado ou que ia pegar. Houve uma vez em que ele disse que uma delas queria me conhecer e me passou o contato dela, ela me adicionou, mas eu suspeitei da foto e tal. Quando fui ver descobri que era uma fake e que era ele mesmo.
Teve uma vez em que ele ficou doido, me chamou pra fazer um hangout, quando eu entrei ele estava se masturbando, e ficou comentando sobre mim.
Em maio ele disse que vinha ao Brasil e que tinha uma fila de mulheres pra ficar com ele, mas que ele também queria ficar comigo. Nunca nos encontramos. Um dia ele marcou um encontro comigo na minha cidade e não apareceu nem deu satisfações. Eu o excluí do meu facebook, o bloqueei no gtalk, mas não consigo esquecer isso, Lola. Meu marido está me apoiando, mas mesmo assim não sei o que fazer com essa situação, sei que o cara é um cafajeste, cretino e manipulador. 

Eu: Respondi que ela e o marido deveriam pensar em abrir o relacionamento, a fazer sexo com outras pessoas, mas não com um manipulador fetichista ególatra. Que certamente existe gente por aí que queira experimentar novas experiências sem humilhar os outros, sem comparar tamanho de pau, sem viver de "amansar o corno". Eu ainda não sabia quem era o cara. Desconfiava, óbvio. Não há muitos blogueiros que se dizem feministas com esse perfil. Ela contou quem era. 

A C. continuou: Vc precisava ver como eram as conversinhas dele no início, eu era tão boba que nem percebia o que tava se passando, ficava tipo o que é que esse cara quer mesmo, conversando comigo?
Segundo as palavras dele, em cada cidade que ele visita, já tem uma preparada esperando por ele, inclusive não é só aqui no Brasil, mas em todos os países que ele visita. É tão surreal essa história que eu fico repassando e me pergunto por que merda eu fui entrar nessa cilada, como é que eu fui acreditar em tanta besteira. Chega a ser inacreditável porque pra quem conhece a vida pública dele como eu conhecia, por acompanhar as coisas que ele escreve, parece que se trata de uma outra pessoa.
O papo sempre foi bem machista. Depois que eu entrei na dele e comecei a corresponder ele veio com o papo de que eu tava de quatro por ele, que quando quisesse passava aqui pra me comer, sempre teve essa história de corno, ele se gabava de "comer" várias mulheres, disse que levava os maridos pra assistir na casa dele, que ele pegava todas lá na universidade onde ele trabalha, que ele espera os maridos saírem pra "comer na cama do corno".
No começo eu ainda duvidava seriamente, mas depois que ele criou um chat e colocou eu e mais algumas pra conversar, não tive como não acreditar que ele realmente mantém várias no papo. Ele dizia que deixava todas viciadas, que o pau dele era irresistível, coisas do tipo. Realmente um ególatra...
No blog dele, em 2005, ele publicou uma entrevista de brincadeirinha se vangloriando, se chamando de Don Juan. Pergunta: "O senhor falou da sua relação com sua esposa. Mas não é verdade que o senhor atacou sem dó duas mulheres no referido chat? Resposta: Eu estava meramente demostrando quais são os métodos desse crápula: puxa conversa, diz que mora nos EUA, pergunta de onde é a garota, fala que passa bom tempo todo ano no Brasil e invariavelmente diz que chega pela cidade da felizarda, mesmo que seja Mossoró ou Uruguaiana."
Chega a ser tão insano que eu fico com nojo lendo aquelas porcarias que ele escrevia, me sinto muito idiota por ter caído. Conversei com uma outra pessoa sobre essa situação maluca (sem dizer de quem se tratava) e ela me perguntou se eu já havia lido sobre gaslighting -- é uma técnica usada por psicopatas para manipular suas vítimas.
Mas olha, é foda que tem mais de 15 anos que ele sai por aí fazendo isso, se gabando desse jeito, sendo que por fora o discurso que ele prega é justamente o contrário.  Se ele fosse assim publicamente, eu nunca sequer daria bom dia a ele.

Eu: Contei a ela que, depois de trocar esses emails, conversando com uma leitora querida que conheço pessoalmente, o nome da figura veio à tona. Eu pra essa leitora: "Fiquei sabendo de algo incrível sobre ele esta semana, mas não posso contar".
Ela me liga e a primeira coisa que pergunta é: "O QUÊ você ficou sabendo, que ele manda foto do pau dele pras meninas?!"
Quer dizer, mais uma vez, eu sou a última a saber. Parece que essa fama dele é notória. Eu não pensei que a história iria vazar, mas anteontem surgiu um texto não assinado que resumia bem o modus operandi do intelectual (clique para ampliar).
E ontem algumas das "vítimas" (coloco a palavra entre aspas porque, embora elas se considerem assim, certamente muitas das mulheres casadas que se relacionaram e se relacionam com ele não se sentem enganadas; além do mais, não tenho certeza se ele cometeu algum crime) fizeram um Tumblr chamado "O Estranho Caso do Prof", com alguns relatos e muitos prints de conversas. O objetivo da denúncia, segundo elas, é impedir que outras, que nem imaginam como ele é de verdade, entrem na onda. 
Esses prints são com uma menina que hoje tem 18 anos. Quando ele começou a assediá-la, ela tinha 15: 

Poliamorismo ou relacionamentos abertos não são a praia do prof. Ele prefere humilhar "cornos":

Nesta mensagem, ele conta vantagem pra menor de idade sobre como "amansou um corno", um policial, que segurou uma arma na cabeça da mulher.

Claro que amiguinho hipster do cara vai perdoar qualquer coisa, até um ateu curtir mapa astral ou escrever cinco pontos de exclamação.
Eu não me comunico com ele há algum tempo. Acho que a última vez foi sobre as eleições nos EUA, em que ele disse não se importar se ganhassem os democratas ou os republicanos, porque queria mais é que o país fosse pro poço mesmo. Nos últimos tempos, ele estava torcendo pelo "quanto pior, melhor", principalmente aqui no Brasil. Tornou-se inimigo declarado do PT e de qualquer eleitor do PT. 
Bem diferente de sua postura em 2010. Lembro que discuti com ele por email, porque eu estava super preocupada com as alianças de Dilma com os políticos evangélicos, e ele defendia essas alianças, considerava-as necessárias, e achava que Crivella e cia. nem eram tão ruins assim.
De resto, não acompanhava nada de sua vida pessoal, mas sabia que ele tinha ótima reputação entre grande parte das feministas. Por isso é tão chocante ver um discurso fetichista, vaidoso, arrogante, sem qualquer empatia com mulheres. Um discurso que manipula jovens, que gosta de se comparar a e humilhar maridos. Sei lá, a palavra "corno" nem deveria constar do vocabulário de um feminista. 
E fico deprimida que várias feministas se deixem levar por um discurso de "vou fazer de você uma puta". Por outro lado, ele conquista essas mulheres justamente se valendo da postura que tem em público. Como disse a C., se em público ele fosse um mascu, um machista que acha graça de homem traído colocar um revólver na cabeça da esposa, ela não teria chegado perto. Não teria falado com ele, nem sequer o adicionado nas redes sociais.
A zombaria começou anteontem. Os hipsters chamando feministas de moralistas (moralista, pra mim, é outra coisa. É gente que faz da traição um fetiche, que chama marido de corno, que chama mulher que faz sexo anal de puta), dizendo que não há nada de errado no que ele fez (mas no que as garotas fizeram, aí sim foi errado -- principalmente em trazer isso a público), batendo palma pro garanhão, assegurando que essas conversas são absolutamente normais numa relação. 
E eles estão certos. É tudo normal mesmo. Porque já vimos esse filme muitas vezes antes. E a culpa sempre cai na mulher. 
Eu, pessoalmente, continuo acreditando em homem feminista. Não vou perder a confiança em montes de aliados por causa de um. 

Mais aqui, respondendo às críticas: Moralismo é seu pau de óculos.
E mais, com novos desdobramentos: Um pouco mais sobre o caso do professor.
27 Nov 12:16

Matança dos 43 em Iguala: Pobre México, tão longe de Deus, tão perto dos EUA

by Luiz Carlos Azenha

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Da Redação

Governado pelo império da Televisa, o México é frequentemente apontado pelos neoliberais como exemplo a ser seguido pelo Brasil.

Porém, a realidade é que o país:

1. Teve seu mercado interno inundado por produtos vindos dos Estados Unidos, depois de aderir ao acordo comercial do Nafta;

2. De exportador tornou-se importador de milho, um dos alimentos básicos da população;

3. O deslocamento de população da zona rural para as cidades resultou em mão-de-obra barata para os grandes cartéis fornecedores de drogas para o gigantesco mercado dos Estados Unidos;

4. A exportação de mão-de-obra barata, via imigração, cresceu em vez de diminuir;

5. “A guerra contra as drogas”, que permitiu aos Estados Unidos assumirem o controle do México via aparato policial-militar, com investimento de bilhões de dólares em armamento e treinamento fornecidos pelos próprios EUA, desde 2006 resultou em 80 mil mortes e 25 mil desaparecidos. O assassinato de 43 estudantes, portanto, é apenas a ponta de um gigantesco iceberg que não sai na Televisa. Nem na Globo.

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O protesto abaixo aconteceu diante do Consulado do México em São Paulo e teve a cobertura de Caio Castor:

Leia também:

Jornalista alemão denuncia controle da CIA sobre a mídia

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27 Nov 12:02

Los disturbios raciales de Ferguson y la imagen de EEUU en el mundo

by Iñigo Sáenz de Ugarte

propaganda sovietica

Cuentas de Twitter de partidarios de ISIS han aprovechado los disturbios raciales de Ferguson para tirar de propaganda. Cuando representas a la última encarnación del mal, nunca viene mal resaltar que tu mayor enemigo no tiene mucho de lo que alardear. En Vox, recurren al inevitable experto, que comenta que ya en agosto con los primeros incidentes ocurridos por la muerte a tiros de Michael Brown los yihadistas estaban siguiendo de cerca los acontecimientos con la esperanza de que la tensión racial permitiera aumentar su capacidad de reclutar a musulmanes negros norteamericanos.

En realidad, no hay nada nuevo en todo esto, ni hay que imaginar que ISIS va a tener que aumentar sus comités de recepción de voluntarios. En otras zonas del mundo donde no están intentando matar a nadie también se contempla con satisfacción lo ocurrido en Ferguson. En realidad, eso lleva ocurriendo desde hace muchas décadas. El poder blando es un activo difícil de desarrollar y muy fácil de perder cuando no estás a la altura dentro de tus fronteras del mensaje que intentas propagar fuera.

En algunos países, la información internacional es un recurso propagandístico que no se desperdicia. De entrada, sirve para hacer ver a ciudadanos no demasiado contentos con el estado de cosas en el país que el resto del planeta también es un lugar inhóspito y repleto de problemas graves. Si el Gobierno está enfrentado a Washington, eso le permite cuestionar su papel autoproclamado de defensor de la libertad y la democracia.

Por tanto, esas cuentas de ISIS no forman parte de una estrategia original. Los informativos de televisiones públicas en Rusia, Egipto e Irán han hecho una amplia cobertura de Ferguson con sarcásticos comentarios adicionales. También los políticos. La cuenta de Twitter del Ministerio ruso de Exteriores destacó en agosto las declaraciones de un alto cargo que comentó que EEUU “debería preocuparse de sus propios problemas y no inmiscuirse en los de otros”. Y con este mensaje, iba incluida la foto de la detención de una superviviente del Holocausto de 90 años por manifestarse contra la decisión del gobernador de Missouri de enviar a Ferguson a la Guardia Nacional.

jpostMi comentario favorito es el del portavoz del Ministerio egipcio de Exteriores,  que ha hecho un llamamiento a las autoridades norteamericanas para que actúen con contención ante estos hechos y respondan a las manifestaciones de acuerdo con los principios de su país e internacionales. Con contención. Las palabras con las que el Departamento de Estado o la UE lanzan un aviso a los gobiernos de los países donde se producen graves conflictos internos.

Es un déjà vu que nos envía de vuelta a los años 40 y 50. En la época en que la segregación racial continuaba existiendo en el sur de EEUU y los negros sufrían todo tipo de obstáculos legales para ejercer su derecho al voto, las noticias con imágenes de Alabama, Mississippi y Luisiana eran una bendición para la propaganda de la URSS, dispuesta a convencer a los países del Tercer Mundo, con éxito en muchos casos, que Moscú ofrecía una alternativa de colaboración más civilizada que esos bárbaros que perseguían a sus minorías raciales. Era una forma de llevar el ‘y tú más’ a las relaciones internacionales.

La extensión de la descolonización de África ofrecía un campo de batalla propagandístico al que ningún bando podía renunciar en la Guerra Fría. Porque además no era sólo una cuestión de imagen.

Los grupos de derechos civiles eran muy conscientes del valor de ese debate internacional ya desde la década de los años 40, muy poco después de la formación de la ONU y la aprobación de su Declaración Universal de Derechos Humanos. En 1947 enviaron al secretario general de la ONU con vistas a que fuera discutida en la comisión correspondiente la “petición a Naciones Unidas en nombre de 13 millones de ciudadanos negros oprimidos de Estados Unidos”. Su lenguaje estaba pensado para impresionar a aquellos que recordaban lo que había ocurrido antes de 1945:

“Es con auténtica ira y disgusto que el pueblo negro, como otros amantes de la libertad, comprueba la hipocresía de los alegatos de nuestro Gobierno en favor de la “libertad y democracia” por todo el mundo. Estamos enfurecidos por saber que nuestro secretario de Estado, James Byrnes, de Carolina del Sur, apoya las mismas políticas de opresión antinegra del fallecido Adolf Hitler, como también lo hace el actual senador de Mississippi Theodore Bilbo”.

La presión norteamericana impidió que la iniciativa prosperara, lo que no quiere decir que pasara desapercibida. Recibió apoyos de dirigentes africanos como Jomo Kenyatta, Kwame Nkrumah y Nnamdi Azikiwe, que más tarde se convirtieron en los presidentes de Kenia, Ghana y Nigeria. Una nueva generación de líderes africanos tenían ya la vista puesta en sus hermanos de raza de EEUU.

Una petición similar llegó a la ONU en 1951, llamada “We Charge Genocide”. Sabiendo que se dirigía a una audiencia interesada, recordaba que “la historia demuestra que la teoría racista de gobierno en EEUU no es un asunto interno de los norteamericanos, sino una preocupación de toda la humanidad”.

racismoTampoco en esta ocasión el documento fue discutido oficialmente en una institución de la ONU, pero tuvo un amplio eco por todo el mundo hasta el punto de que en un viaje a la India del historiador de raza negra Jay Saunders Redding en 1952, patrocinado por el Departamento de Estado, los asistentes a una conferencia citaron el documento y le hicieron preguntas como: “¿Tienen prohibida los negros la educación pública en América?”. “¿Por qué no hay personas de color en altos cargos?”. “¿Es verdad que un negro en América puede ser linchado por mirar a una mujer blanca?”.

Los políticos del sur podían responder con la denuncia de una conspiración internacional dirigida por los soviéticos y afirmar que en el sur reinaba la “armonía racial”. En Washington no compartían ese perverso realismo mágico.

Ya en 1948 un dirigente de la NAACP Philip Randolph había advertido a los senadores en una comparecencia que “la segregación en las Fuerzas Armadas y en otras situaciones de nuestras vidas es el mayor golpe de propaganda y arma política en manos de Rusia y del comunismo internacional”.

Truman acabó con la segregación entre los militares en julio de 1948, en buena parte porque este tipo de avisos surtieron efecto. Lo hizo a golpe de decreto, lo que no quiere decir que en el mundo real de los cuarteles el racismo hubiera tocado a su fin. Generales como Douglas MacArthur se ocuparon de ello.

Algunos políticos conservadores eran muy conscientes de la pérdida de legitimidad internacional que el problema suponía para sus objetivos de política exterior. Un reaccionario como Dean Acheson, por entonces subsecretario de Estado, años después jefe de la diplomacia, lo tenía muy claro en 1946: “La existencia de la discriminación contra minorías en este país tiene un efecto adverso en nuestras relaciones con otros países”.

Otros halcones, ya en la Administración de Eisenhower, llegaron a la misma conclusión. John Foster Dulles, secretario de Estado, afirmó que la discriminación racial y su efecto en el exterior estaban “arruinando nuestra política exterior”, con unas consecuencias en Asia y África “peores para nosotros que lo que fue Hungría para los rusos”. El senador republicano Henry Cabot Lodge lo resumió en pocas palabras: el racismo era el “talón de Aquiles diplomático” de EEUU.

En la guerra de Corea, los soviéticos tenían el campo libre para cuestionar intenciones e ideales norteamericanos. No andaban muy equivocados cuando informaban en sus periódicos que los soldados negros que arriesgaban sus vidas defendiendo a su país no podían aspirar a que se respetaran sus derechos políticos cuando volvieran a casa. Como si alguien en EEUU hubiera querido confirmar punto por punto estos argumentos, se produjeron en 1951 en Cicero, Illinois, disturbios racistas cuando una turba de 4.000 personas atacó una vivienda sólo porque una familia negra se había trasladado a vivir a una zona habitada sólo por blancos. 60 policías estaban presentes y no movieron un dedo.

No había que ser secretario de Estado para conocer las repercusiones que tendrían esos actos en tiempo de guerra. En una carta al director, un lector de The New York Times escribió que los autores de los disturbios se merecían la la Orden de Lenin por el daño que habían causado a su país.

Mucho antes de Twitter, los hashtags y las cadenas de noticias, la gente ya sabía que la audiencia potencial de estas injusticias no se limitaba a la población de EEUU. “Cada incidente de violencia racial, el cierre de escuelas, la segregación y otros tipos de discriminación contra la gente de color, aparece en titulares de prensa de todo el mundo. ¿Cómo pueden esos países, especialmente los que tienen una alta población de color, dar crédito a nuestros ideales de democracia y libertad cuando leen esos titulares?”, dijo en la Cámara el congresista William Dawson, de Illinois, en 1959.

Lo que sí es seguro es que no encontraremos referencias al tratamiento de la población negra en el sistema penal norteamericano en el tradicional informe sobre derechos humanos del Departamento de Estado.

Documental propagandístico soviético de 1933.

22 Nov 13:31

Chegada da Amazon aquece debate no mercado sobre o preço fixo do livro - 17/11/2014 - Ilustrada - Folha de S.Paulo

A gigante americana Amazon ainda está mais para nanica no Brasil, onde vende livros impressos há três meses, mas editores e livreiros temem esperar para ver a varejista crescer ao ponto de monopolizar o mercado, como acontece nos EUA e a Inglaterra.

Após anos de discussões sobre uma legislação que estipule o preço fixo para o livro, e apesar de o tema ainda dividir o mercado, um projeto de lei deve ser apresentado em Brasília em 2015. A iniciativa será da senadora eleita Fátima Bezerra (PT-RN), com apoio da Associação Nacional de Livrarias (ANL).

As leis de preço fixo, em vigor em países como a França e a Espanha, impedem as lojas de darem descontos acima de 5% em lançamentos. Os grandes descontos, comuns às redes —que, ao comprar mais livros dos editores, conseguem adquiri-los e repassá-los ao consumidor por preços mais baixos— são considerados prejudiciais às livrarias independentes.

Antes de a discussão chegar ao Senado, nesta segunda (17) e nesta terça (18), no Rio e em São Paulo, dois seminários debaterão o tema —o segundo será capitaneado pela ANL, antiga defensora da lei do preço fixo, mas a surpresa fica por conta do primeiro encontro, coordenado pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), que por anos foi contrário à proposta.

"O Snel sempre acreditou que o preço é uma ferramenta de marketing e, como tal, pode ser utilizado como impulsionador de vendas. Está aí a Black Friday, em que promoções trazem resultados incríveis. Mas temos recebido queixas dos pequenos livreiros, que sofrem com a pressão da concorrência. Daí um seminário para entender como funciona o modelo em mercados mais maduros que o nosso", diz Sônia Jardim, presidente do Snel.

'A HORA É AGORA'

O seminário carioca reúne nesta segunda palestrantes de países que adotam a prática, como França e Alemanha, ou já adotaram, como a Inglaterra.

Entre os participantes, o britânico Sam Edenborough, presidente da Associação de Autores e Agentes do Reino Unido, país em que um acordo comercial para o preço fixo vigorou de 1890 a 1997, afirma que, se o Brasil quiser implantar uma lei, deve fazê-lo já.

"Há uma janela estreia de oportunidade no Brasil —e a hora é agora— para introduzir uma lei do preço fixo. Isso poderia estabilizar a indústria e impedir a Amazon de construir uma posição extremamente dominante. Nos EUA e no Reino Unido ela [a Amazon] fez isso; na Alemanha, na França e em outros países que têm regulamentação, ela não conseguiu", diz o especialista.

Para ele, uma lei protegeria autores, editores, livreiros e consumidores —que teriam mais títulos a escolher. "O importante é que os consumidores entendam por que a lei pode ser necessária e como poderia beneficiá-los."

Ednilson Xavier, presidente da ANL, diz que a regulamentação pode até baratear o livro. "Havendo mais livrarias para o escoamento do livro, este pode ser barateado pela escala." Para ele, um dos perigo dos grandes descontos é que eles reduzem a bibliodiversidade.

ERA DOS DESCONTOS

Um exemplo desse cenário pôde ser percebido no Reino Unido nas últimas décadas, desde que, em meados dos anos 1990, alguns editores abandonaram o acordo comercial que estabelecia o preço fixo.

"Com o fim do acordo, começou uma era de grandes descontos, especialmente nos best-sellers. Os editores passaram a focar em títulos mais comerciais —ficção de massa, biografias de celebridades, livros de filmes. O alcance e a diversidade dos livros sofreu, e essa situação permitiu que um único varejista passasse a dar as regras", diz Sam Edenborough, que não vê mais possibilidade de um novo acordo no Reino Unido.

O seminário do Snel reúne ainda nomes da França, onde uma lei permite descontos de apenas 5% até dois anos depois do lançamento, e da Alemanha, onde o controle é exercido pela indústria, mas não trouxe nenhum especialista dos EUA, que nunca exerceu controle do tipo.

A presidente do Snel, Sônia Jardim, tem dúvidas sobre qual modelo seria mais efetivo no caso de adoção no Brasil —na avaliação dela, o alemão seria o mais adequado, já que pode ser mais facilmente revertido caso não funcione.

"Mas não sei, por exemplo, como ficariam eventos promocionais, como as bienais do livro ou datas específicas. O desconto ficaria limitado ao previsto pela lei?"

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20 Nov 18:07

Para muita gente, basta saber que a outra pessoa é negra

by Leonardo Sakamoto

Aproveito o Dia da Consciência Negra, celebrado nesta quinta (20), para trazer um texto que já havia publicado aqui. Pois há amigos que nunca foram parados em uma blitz policial e continuam a estranhar os depoimentos dos que foram.

Normalmente, são brancos, caucasianos, bem vestidos, jeito de bom moço ou moça, com todos os dentes ou próteses bem feitas, dirigindo veículos que estão nos comerciais bonitos de TV. Aqueles anúncios com o relevo e a fauna características de nosso país, como montanhas nevadas e cervos.

Um deles, por exemplo, me explicou que pilota uma moto há tempos sem habilitação. “A polícia não para de jeito nenhum.” Enquadra-se perfeitamente na categoria acima descrita. Recentemente, um róseo conhecido foi parado em uma batida. Ficou transtornado. “Como se atrevem? Acham que sou um qualquer?”

Por outro lado, há aqueles que cansaram de cair na malha fina da polícia. Quase sempre, negros ou pardos.

De tanto ser parado, um colega negro já encara como hábito. Perguntei se isso não o revoltava. Explicou, com um certo cansaço, que, desde moleque, era sempre a mesma coisa. Então, se acostumou. Já chegou a cair em duas batidas na mesma noite. Procuravam um meliante.

Pesquisa do Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos da Universidade Federal de São Carlos, lançada neste ano, apontou que a mortalidade de negros devido à violência policial é três vezes maior que a de brancos no Estado de São Paulo – apesar dos negros serem minoria.

Coisa que os jovens negros e pobres da periferia das grandes cidades paulistas já sabem há muito tempo.

Quando falamos em cotas raciais para acesso à educação superior ou a postos no serviço público, muita gente fica possessa. Dizem que cotas deveriam valer apenas para pobres, não para negros. Pois, às vezes, filhos de pais de pele cor parda nascem brancos ou negros. Ou, por vezes, uma pele negra esconde um perfil genético com grande participação de ancestralidade europeia.

Na minha opinião, a questão genética não deveria influenciar. O preconceito não se traduz quando alguém tem conhecimento da ancestralidade do outro (“Ei, sem preconceito! Meu tataravô era branco e alemão”), mas ao observar a cor ou diferenças étnicas. Porque mesmo que essas diferenças visuais digam pouco sobre a origem da pessoa, séculos de racismo deram um significado bem claro para determinada cor de pele. E isso não pode ser alterado sem enfrentamento.

Na prática, muitos não esperam para perguntar o perfil genético do rapaz negro que vem no sentido contrário na rua escura. Simplesmente, atravessam para o outro lado ou correm. Balas perdidas com o DNA da polícia não são guiadas pelo perfil genético e pouco se importam que um rapaz de pele negra tenha 70% de ancestralidade europeia.

Talvez, posteriormente, o legista ache interessante.

E a herança desse preconceito não precisa ter sido sentida por gerações e mais gerações. Se uma criança nascer com a pele mais escura que sua família vai sofrer preconceito na sociedade mesmo que seus pais não tenham sofrido. Se for pobre, pior ainda. Tomando como referência a média salarial, os valores pagos para uma mesma função na sociedade coloca, em ordem decrescente: homem branco rico de um lado e mulher negra pobre do outro.

Ao me relacionar com os outros, não faço isso só. Imprimo séculos de biografias, séculos de acomodação cultural, de preconceitos e medos, reforçadas pela imagem do que sou hoje. Não só a genealogia pesa sobre os ombros, mas também a história e as condições sociais do país. De certa forma, no “agora” está presente toda a história humana.

A Justiça que se pretende fazer ao analisar e tentar reconstruir o Estado por um novo viés não é apenas a de saldar a dívida de uma escravidão mal abolida com os descendentes dos negros escravizados que não foram inseridos como deveriam no pós Lei Áurea. Mas sim a tentativa de mudar o pensamento e a ação de uma sociedade, ainda calcada na relação Casa Grande e Senzala, que trata as pessoas de forma desigual por conta da cor de pele.

Afinal, para muita gente, saber que alguém é negro já é o bastante.

18 Nov 20:43

Parasitas pequeninos

by noreply@blogger.com (José M. Castro Caldas)

Por que é que os abrigos fiscais são geralmente países pequenos?

Pequenos, grandes ou médios, todos os estados precisam de receitas fiscais. Mas os estados de países pequenos podem obter receitas descomunais, relativamente às suas despesas, se reduzindo a taxa de imposto sobre as empresas quase a zero conseguirem convencer muitas empresas a instalar a sua sede fiscal no seu pequeno território. Taxa pequena sobre muitas e grandes empresas equivale a receitas fabulosas para estados de países pequenos.

Já os estados dos países grandes não podem fazer o mesmo. Se descerem a taxa sobre todas as empresas conseguirão atrair algumas, mas a receitas do pequeno imposto pago pelas empresas atraídas não compensaria a perda de colecta de todas as outras que já lá estão sediadas.

Mudando de poiso as empresas deixam praticamente de pagar impostos, e os estados, à excepção dos parasitas, passam a não conseguir colecta-los. Qual é a consequência? Os estados, à excepção dos parasitas, voltam-se cada vez mais para os rendimentos do trabalho e das pensões como fonte de receita.

Nada disto faz sentido, mas na União Europeia é assim. A União Europeia que fixa em tratados os montantes dos défices e das dívidas e retira aos parlamentos a prerrogativa de deliberar sobre os Orçamentos do Estado é não só incapaz de se desparasitar, como promove a presidente o chefe de um governo parasita.

Caro Sr. Juncker vamos lá ver como é: nós ficamos com os estragos do grupo Espírito Santo, o seu pequeno (mas muito amigo) país fica com os impostos?

18 Nov 00:15

Chega de Fiu Fiu, o documentário

by Clara

Vocês já conhecem a campanha Chega de Fiu fiu, né mores?

Ninguém deveria ter medo de caminhar pelas ruas simplesmente por ser mulher. Mas infelizmente isso é algo que acontece todos os dias. E é um problema invisível. Pouco se discute e quase nada se sabe sobre o tamanho e a natureza do problema. Para tentar entender melhor o assédio sexual em locais públicos, a Olga colocou no ar, em agosto, uma pesquisa elaborada pela jornalista Karin Hueck, como parte da campanha Chega de Fiu Fiu. Contamos com 7762 participantes e 99,6% delas afirmaram que já foram assediadas  – um número tão alto que já dá a ideia da gravidade do problema.

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Já escrevemos exaustivamente sobre isso, todas nós.  Mas a televisão insiste em romantizar o assédio, muitas pessoas insistem em relativizar (“mas não pode nem um ~linda~?”) e, como vocês devem imaginar, boa parte dos homens insiste em minimizar as nossas reações a abordagens não-solicitadas na rua.

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Pois agora as lindas do Think Olga resolveram iniciar um financiamento coletivo pra fazer um documentário partindo da campanha Chega de Fiu Fiu.

Baseado em dados da pesquisa e do Mapa Chega de Fiu Fiu, o documentário quer estabelecer um diálogo entre as vítimas, os que praticam o assédio e as especialistas no tema. Essa abordagem permite uma visão completa sobre o assunto, investigando suas causas, suas motivações, seu contexto social e soluções para a violência.

 

A campanha, a pesquisa, a conversa, o documentário, isso é tudo é muito importante pra colocar esse assunto tão urgente na roda.

Colabora lá!

Porque chega, né.