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17 Feb 13:41

São Paulo segundo seu novo prefeito

by raquelrolnik
50-bilionarios

Trecho da peça publicitária. Toda em inglês, vídeo ressalta qualidades da cidade, na perspectiva da gestão Doria.

Em um vídeo destinado a atrair investidores internacionais para seu programa de privatizações de serviços e espaços públicos de São Paulo, a gestão Doria deixou bem claro com que cidade e com quais moradores se relaciona. A imagem transmitida é a da São Paulo corporativa, meca do consumo e dos negócios, o lugar de moradia e circulação do 1%: rico e poderoso. Não por acaso, no vídeo não aparecem negros e negras, não aparecem jovens, não aparecem ciclistas, grafites e pixações. Nessa cidade, à venda no mercado financeiro global, realmente não há espaço para manifestações culturais transgressoras e heterogêneas como o grafite. Essa é a Cidade Linda de Doria. Seguramente não é a nossa. Confira aqui o vídeo.

Falei um pouco mais sobre o assunto na minha coluna na Rádio USP dessa semana. Confira a íntegra no site.


17 Feb 13:11

“Não existiria Bolsonaro como opção viável sem a Globo”, diz o sociólogo Jessé Souza

by Kiko Nogueira
Bolsonaro no aeroporto do Recife

Bolsonaro no aeroporto do Recife

 

“O público não é imbecil, ele é tornado imbecil pela mídia comprada, direta ou indiretamente, para fazer este papel”. A sentença é do sociólogo Jessé Souza, ex-presidente do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea).

Autor de “A tolice da inteligência brasileira” e “A radiografia do golpe”, Jessé explica na entrevista a seguir, concedida ao jornalista Paulo Henrique Arantes, como e por quê pregadores do ódio ganham espaço no mundo, o papel da Globo no fenômeno Bolsonaro e a maneira como o capital financeiro se apossa do estado.

Por que a extrema-direita ganha espaço no mundo?

Eu acho que o avanço da direita tem a ver com uma relação de forças que é internacional. O capitalismo financeiro cria uma nova relação com a política que é desvalorizada para ser capturada. A política sempre foi influenciada pelo dinheiro, obviamente, mas você tinha contrapesos antes, os quais você não tem mais. O capital financeiro age globalmente, planetariamente, e a reação a ele é nacional, local, fragmentada, frágil.

O golpe no Brasil teve uma articulação internacional, foi o interesse do capital financeiro em se apropriar de tudo que possa rapinar: pré-sal, Petrobrás, destruir o capital tecnológico de empreiteiras, orçamento público, etc. Tudo com ajuda nacional da mídia e dos seus sócios internos. Dentre eles o aparelho jurídico do Estado que funcionou e funciona, com ou em consciência disso, como “advogados do capital financeiro” internacional.  O capital financeiro quer uma captura direta da política e do Estado.

O primeiro motivo é que a própria realização de lucro do capital financeiro exige e vai exigir cada vez mais desigualdade. Isso reflete numa nova forma de expropriação do trabalho coletivo que é via orçamento – aliás pago pelos pobres e apropriado pelos rentistas -, e é precisamente o que acontece no Brasil, o golpe foi feito para isso. Agora, inclusive, a ação do capital financeiro ficou mais nítida no Brasil do que em qualquer outro lugar.

Como o capital financeiro se apodera da política?

Quando ele desvaloriza a política, as instituições políticas, usando a mídia e a balela da “corrupção seletiva”, só dos políticos, escondendo a corrupção legal e ilegal do mercado que compra direta ou indiretamente a mídia e a própria política. Nesta quadra histórica, o dinheiro está se apropriando da política completamente.

A própria linguagem do dinheiro criminalizou a política. O Dória no Brasil é o melhor exemplo disso, e o Trump nos EUA, quando diz: “você deve me eleger porque eu não sou político”. Você só pode dizer isso porque a “corrupção real”, que é a do mercado, por meios legais e ilegais, é tornada invisível pela mídia.

A base de tudo tem a ver com isso: você tem que imbecilizar o público. O público não é imbecil, ele é tornado imbecil pela mídia comprada direta ou indiretamente para fazer este papel.

O populismo de direita que vemos hoje crescer no mundo todo carrega o risco de um novo fascismo?

O fascismo assumiu a forma que assumiu nos anos 30 pelas circunstâncias históricas. Eu acho que o que está acontecendo agora é sim uma forma de fascismo. Ele não precisa assumir a forma que assumiu na década de 30. Hoje ele exerce mais uma violência simbólica, “imbecilizando” o público, por exemplo, ao invés de usar  majoritariamente a violência física, como o antigo fascismo, embora a violência física seja utilizada hoje em dia também.

Esses novos líderes, todos eles, têm a ver com a reação dos perdedores do capital financeiro que são a imensa maioria. O Bernie Sanders foi uma reação racional, que conseguiu forte penetração na juventude intelectualizada. O Trump é a resposta menos inteligente, emotiva, que pede um “bode expiatório”, lá os mexicanos e aqui os pobres beneficiados pelo PT, o ódio, é a linguagem fascista sobre o medo. É a versão que está ganhando aqui.

Por que o discurso populista de direita, que prega o ódio, alcance tanta receptividade?

A base do fascismo no Brasil é a classe média. A mídia manipula o falso moralismo dessa classe para que sirva de “tropa de choque” dos interesses inconfessos das elites. O grande elemento aí, que é sempre esquecido, é a mídia. A mídia é o partido da elite que rapina o país.

A mídia representa, antes de tudo, interesses, mas “tira onda” de neutra. Como esses interesses elitistas são difusos, a mídia concentra e sistematiza esses interesses e dá boca para eles. O capitalismo, o dinheiro, não tem boca – a mídia é a boca do dinheiro, então ela vai manipular o povo a partir disso.

Não há um papel positivo na atuação da mídia?

Não sei se concordo contigo. De que papel e de que mídia você se refere? Não existiria Bolsonaro como opção viável sem a Rede Globo. Você tem que lembrar, apenas para ficar num único exemplo que pode ser multiplicado milhares de vezes, como eu me lembro, do jornalista Merval Pereira, no jornal da “Globo News”, falando que vazamento ilegal não é nenhum problema real, que isso é “normal” e acontece sempre – imagine coisas assim ditas 500 vezes ao dia.

Como não existe contraposição de opiniões, você vai criando um terreno favorável a preconceitos contra os direitos individuais e, portanto, contra a própria democracia. Quando você cria o terreno, fica fácil para um cara como o Bolsonaro entrar, pois ele vai ocupar um espaço que foi “construído” para ele.

É a mesma coisa do Trump. Você criou esse discurso virulento com a criminalização da esquerda. Você criminaliza e torna suspeito todo discurso que tenta proteger os mais frágeis. E quando você criminaliza esse discurso, você abre espaço para a violência explícita. E quem fez isso foi a imprensa, não o Bolsonaro.

Dias atrás, outro exemplo entre milhares, eu vi, também na “Globo News” – que a classe média feita de tola assiste massivamente – a turma de “analistas”  dizendo no Jornal das Dez que foi Cabral quem quebrou o Rio. É uma deslavada mentira. Quem quebrou o Rio foi a mídia, comandada pela Globo, associada à Lava Jato, que destruiu os empregos da Petrobrás e de toda sua cadeia produtiva que é vital ao Rio.

Foram bilhões de reais e milhões de empregos perdidos. Depois você diz que foi a propina do Cabral. É claro que Cabral perdeu a noção das coisas. Mas o que ele roubou é uma gota nesse oceano. É assim que você produz uma fábrica de mentira cotidiana. O público não tem defesa contra isso.

Alguns políticos evangélicos não se enquadrariam entre os populistas de direita?

É claro que sim, mas eu acho que temos de separar muito bem essas coisas. O fato de esses indivíduos serem demagogos de direita não significa que toda a clientela evangélica o seja. Ela está sendo obviamente cooptada, de novo pelo trabalho da imprensa.

Como esses evangélicos são de classes populares, isso vira mais um preconceito da classe média contra as classes populares, contra a “burrice” das classes populares etc. Isso é uma coisa ruim, e falsa: em termos de inteligência, a mais burra, melhor, a mais feita de tola de todas as classes foi a classe média, que a partir de agora vai ter obrigatoriamente de pagar muito mais que pagava antes por tudo. Já está acontecendo.

Para você apoiar a destruição do Estado via captura do orçamento para o rentismo e a privatização, agora muito mais cara, dos serviços que o Estado presta, você tem que ser uma entre duas coisas: rico ou otário. É essa a questão que as pessoas que têm que responder sem medo e com sinceridade.

Mais uma vez: as pessoas não nascem tolas, elas são feitas de tolas. E para mim a fábrica da tolice no Brasil é uma mídia que se apresenta como neutra e “serviço público” para, sorrateiramente, destilar seu veneno todo dia. Ela ganha dinheiro e poder com isso e representa os interesses de uma elite predatória.

Jessé Souza

Jessé Souza

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09 Feb 19:38

Fatores Morfológicos da Vitalidade no ArchDaily

by Renato Saboya

Estou escrevendo uma série para o Archdaily sobre os fatores morfológicos da vitalidade urbana. Na verdade, trata-se da revisão e ampliação de uma série de postspublicados aqui no Urbanidades. O primeiro texto já está disponível:

Fatores morfológicos da vitalidade urbana – Parte 1: Densidade de usos e pessoas

“Vitalidade urbana refere-se à vida nas ruas, praças, passeios e demais espaços públicos abertos. Mais especificamente, dizemos que um lugar possui vitalidade quando há pessoas usando seus espaços: caminhando, indo e vindo de seus afazeres diários ou eventuais; interagindo, conversando, encontrando-se; olhando a paisagem e as outras pessoas; divertindo-se das mais variadas maneiras e nos mais diversos locais; brincando, especialmente em parques e praças, mas também na rua; e assistindo apresentações artísticas, especialmente as informais e improvisadas, entre outras manifestações. Inclui também toda uma gama de atividades relacionadas às trocas comerciais, tais como entrar e sair de lojas, perguntar e pesquisar preços, olhar vitrines, comprar, pechinchar, etc.”

 

À medida que as novas partes forem publicadas, vou atualizando por aqui.

09 Feb 18:16

Médicos brasileiros fariam Hipócrates corar de vergonha

by eduguim

hipocrates

 

Quando era mais jovem (bem, bem mais jovem) via os médicos quase como sacerdotes. Pessoas do bem, dedicadas a minorar o sofrimento humano. Ainda era criança quando, enternecido, li pela primeira vez o juramento de Hipócrates.

Hipócrates foi um ateniense que rejeitava explicações supersticiosas para problemas de saúde. Enquanto outros pensadores gregos se concentravam na natureza em geral ou na moral e na política, ele se dedicava a observar e compreender o funcionamento do organismo humano.

É atribuído a Hipócrates texto de um “juramento” utilizado hoje para a profissão de medicina, embora estudiosos afirmem que o juramento é posterior.

Abaixo, reprodução do pergaminho grafado em grego antigo que contém o “juramento de Hipócrates”.

hipocrates 1Minha visão sobre os médicos começou a mudar lá por 2009, quando a síndrome neurológica de minha filha caçula, então com 11 anos, começou a se agravar. Durante os 4 anos seguintes, eu e a minha família viveríamos mais dentro de hospitais – em intermináveis internações da menina – do que em casa.

Foi nesse período que descobri que os médicos brasileiros formam uma casta arrogante, gananciosa e insensível. Ao longo daqueles anos, lidar com médicos naquelas longas internações requereu paciência e autocontrole para não ultrapassar a civilidade com pessoas que deixavam claro que viam minha filha como trabalho e fonte de lucro, não como um ser humano.

Os honorários que os médicos brasileiros podem cobrar são pornográficos. Consultas de poucos minutos chegam a custar um mês inteiro de salário de um trabalhador, incluídos os encargos sociais.

E, quanto mais eles ganham, mais querem ganhar. Nunca acham que ganharam o suficiente.

Há, claro, os que trabalham em hospitais públicos em longos plantões madrugada a dentro. Uma rara exceção é a de alguns poucos médicos que se esforçam para levar conforto aos pacientes e lhes salvar vidas. A maioria dos profissionais que trabalham em condições menos confortáveis, porém, é revoltada, apesar de não existirem baixos salários para médicos.

Mas a prova definitiva do espírito que permeia hoje essa profissão foi vista com a implantação do programa Mais Médicos, durante o governo Dilma Rousseff.

Vai ficar na história o comportamento selvagem de médicos brasileiros de classe alta em 2013, vaiando colegas cubanos que chegavam para suprir carência crônica de médicos nas regiões humildes, nas quais os profissionais brasileiros se recusavam a atuar mas não queriam que médicos estrangeiros atuassem.

Já em 2016, eclodiu escândalo que ficou conhecido como “máfia das próteses”. Depoimentos obtidos com exclusividade pela TV Globo revelaram o esquema desbaratado pela operação Mr. Hyde, da Polícia Civil do Distrito Federal.

Funcionários da empresa TM Medical deram detalhes aos investigadores sobre o pagamento de propina a médicos e hospitais que resultava em cirurgias e implantes desnecessários e de baixa qualidade.

O esquema incluía a reprodução de lacres falsos de próteses em uma gráfica. O material era grampeado nos relatórios de cirurgias entregues aos planos de saúde como forma de aumentar o valor ressarcido pelas operadoras. Cada lacre era “reciclado” por até 50 vezes.

Funcionário da empresa TM Medical revelou que os médicos ficavam aguardando a propina nos estacionamentos dos hospitais. No depoimento, ela também afirma que a propina é “tão comum no setor que nenhuma empresa de próteses sobrevive sem pagar 30% aos médicos”.

Há de tudo, até neurocirurgiões, especialistas cujos salários são tão enormes que permitem a esses profissionais viverem como nababos. Ainda assim, por mais e mais dinheiro implantam próteses falsas que irão torturar os pacientes operados pelo resto da vida, podendo até matá-los.

Diante de tudo isso, por que alguém se surpreenderia com o procedimento da jovem e bela médica Gabriela Munhoz, que trabalhava no hospital Sírio Libanês e acaba de ser demitida da instituição após ter sido descoberto que roubara exames de Marisa Letícia, esposa recém-falecida do ex-presidente Lula, e divulgara nas redes sociais para debochar da tragédia que acometeu a família?

hipocrates 2Gabriela foi uma das ativistas mais furiosas contra a implantação do programa mais médicos, que permitiu que pessoas de regiões pobres que nunca tinham se consultado com um médico na vida finalmente tivessem acesso a uma consulta médica.

Por que nos chocarmos com as palavras do neurocirurgião Richam Ellakkis, do Hospital das Clínicas de São Paulo, que sugeriu em um grupo do whats app procedimentos que matariam a dona Marisa na mesa de cirurgia.

hipocrates 3

“Esses fdp vão embolizar ainda por cima. Tem que romper no procedimento. Daí já abre a pupila e o capeta abraça ela”, afirmou neurocirurgião em um grupo do whats app só de médicos, os quais se contorciam de rir enquanto elencavam meios de matar um paciente com AVC.

O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) soltou uma nota hipócrita condenando o procedimento dos médicos supracitados, mas, ao lado do Conselho Federal de Medicina essa entidade é uma entre os grandes responsáveis pelas condutas hidrófobas da categoria.

Voltemos ao juramento que fizeram todos esses pervertidos que se regozijam com o sofrimento alheio e chegam a elaborar métodos de assassinato de seus pacientes, o “juramento de Hipócrates”. Vamos dar uma olhada na versão que o Cremesp adotou para os médicos paulistas que se formam.

Juramento de Hipócrates

“Eu juro, por Apolo médico, por Esculápio, Hígia e Panacea, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue:

Estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes.

Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém.

A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva. 

Conservarei imaculada minha vida e minha arte.

Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam.

Em toda casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução, sobretudo dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados.

Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto.

Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça.”

“Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém”, diz o juramento em certo ponto. Alguém diria que as condutas de tantos médicos abordada acima se coaduna com esse juramento?

*

PS: Estão criticando Lula por ter recebido FHC, Temer et caterva. Dizem que ao fazê-lo fragilizou o discurso do golpe. Só quero lembrar que Dona Marisa nem foi sepultada ainda. Lula está fragilizado. Não deve ter cabeça para cálculos políticos. Não chamou ninguém lá, apenas não comprou uma briga.

08 Feb 18:28

Secretária tenta nova convocação de concursados

by Carlos Santos

A secretária de Estado da Educação, Cláudia Santa Rosa, reitera empenho para fazer convocação de concursados para a sala de aula. Há poucos minutos, ela encerrou mais uma reunião sobre o tema, no Tribunal de Contas do Estado (TCE).

“Acabamos de sair do TCE/RN. Mais uma rodada de discussão com o Conselheiro Paulo Roberto Alves sobre o Concurso/2015. Esperamos um desfecho que libere para novas convocações pela Educação”, comenta.

“O informativo técnico encontra-se com o Ministério Público de Contas para pronunciamento e em seguida o parecer do Conselheiro. Há meses trabalhamos para liberar esse concurso e a razão é somente uma: a Educação do RN precisa recompor o seu quadro”, desabafa.

Suspensão da convocação ocorreu ano passado (veja AQUI). TCE questiona se convocações são relativas a preenchimento de vagas deixadas por aposentadorias, desligamento e falecimentos, temendo que possa ferir legislação de responsabilidade fiscal.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI.

06 Feb 14:29

problemas de primeiro mundo em cuba

by alexcastro

só pode ter “problema de primeiro mundo” quem resolveu os básicos “problemas de terceiro mundo”: educação, saúde, moradia.

* * *

as pessoas norte-americanas têm uma expressão chamada “first world problem”, ou “problema de primeiro mundo”: quando o maior problema da pessoa é que o seu iphone caiu no chão, etc, ao invés de problemas de “verdade”.

mas é engraçado.

eu morei por seis anos em nova orleans, uma cidade majoritariamente negra, a mais violenta e a mais desigual dos eua, virtualmente abandonada pelo seu governo durante a maior catástrofe natural do país. (eu estava lá.)

grande parte das pessoas norte-americanas hoje não sabem como vão pagar suas contas médicas se ficarem doentes, como vão manter os planos de saúde se perderem os empregos, como vão mandar os filhos para as caríssimas universidades, e, por isso, passam a vida estressadas, preocupadas, nervosas com essas questões básicas e vitais.

por outro lado, todas as pessoas cubanas moram em casa própria, tem abundante cultura gratuita, saúde e educação gratuita do berço ao túmulo, e nunca, nunca, nunca precisaram se estressar ou se preocupar com despesas médicas ou escolares. para as pessoas, essas questões, que tanto consomem as norte-americanas, são não-questões.

não é que as pessoas cubanas não tenham problemas, claro. elas têm muitos, da pobreza à falta de liberdade: elas só não têm ESSES problemas de saúde e educação.

mas repara a diferença.

a pessoa norte-americana que troca de iphone todo ano mas não tem como pagar o tratamento do câncer ou a faculdade da filha, essa sim está lidando com “problemas de terceiro mundo”.

já a pessoa cubana, que tem todos esses problemas já pré-resolvidos e pode se preocupar com o fato de não poder comprar iphones ou não poder escrever editoriais contra o governo, essa sim tem verdadeiros “problemas de primeiro mundo”.

só pode ter “problema de primeiro mundo” quem resolveu os básicos “problemas de terceiro mundo”: educação, saúde, moradia.

não é o caso das pessoas norte-americanas: breaking bad jamais aconteceria em cuba.

breaking bad in cuba

* * *

A próxima imersão “As Prisões” vai acontecer em Viamão, RS, de 17 a 19 de fevereiro. Você vem?

imersão as prisões de alex castro

imersão as prisões de alex castro

03 Feb 12:06

Em setembro, Ives Gandra Filho mandou substituir servidora de carreira por padre no TST

by Diario do Centro do Mundo
Ives Gandra da Silva Martins Filho

Ives Gandra da Silva Martins Filho

Publicado no Justificando.

 

No dia primeiro de setembro de 2016 o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Ives Gandra Filho, exonerou a servidora pública Jumara Cristina Cerqueira Borges, funcionária de carreira no TST desde 91, para nomear o padre Placimário de Sousa Leite Ferreira para exercer o cargo em comissão de Ouvidor Auxiliar. A nomeação foi publicada no Diário Oficial da União e está dentro das atribuições legais e regimentais do ministro.

A indicação de um padre pode indicar a tendência do atual presidente do TST e candidato ao Supremo Tribunal Federal (STF) de misturar a religião com o direito. Gandra Filho, membro da Opus Dei, corrente católica ultra conservadora, esteve no centro do debate em razão de ter afirmado em 2012, quando publicou artigo acadêmico que as mulheres devem submissão aos maridos; que casamento deve ser indissociável e deve apenas acontecer entre o homem e a mulher. Além disso, ainda comparou uniões homoafetivas ao bestialismo, usando como exemplo uma mulher casada com um cavalo, como revelou a matéria do Justificando.

Justificando questionou a assessoria de comunicação do TST sobre o porquê da nomeação de um padre para o cargo e quais as qualificações do Padre Placimário. A comunicação interna do TST afirmou que dentro da política de reestruturação que ocorre a cada gestão, foram aprovadas, em 2016, diversas medidas voltadas para a ampliação e fusão de vários setores.

“Dessa forma cabe esclarecer que todas as mudanças se deram dentro dos princípios da legalidade, e sem que houvesse qualquer afronta ao Regimento Interno do TST, que prevê, dentro das competências da presidência, “nomear os servidores para os cargos em comissão e designar os servidores para o exercício de funções comissionadas nos Gabinetes de Ministros” (artigo 35, inciso XIX)”, diz a nota de esclarecimento.

Em sua defesa, Ives soltou uma nota à imprensa, dizendo que suas falas foram descontextualizadas. Disse que “as pessoas homossexuais devem ser respeitadas em sua orientação e ter seus direitos garantidos, ainda que não sob a moralidade de matrimônio para sua união”. Além disso, o ministro afirmou que fez “referência apenas, de passagem, (sic) ao princípio da autoridade como incito (sic) a qualquer comunidade humana, com os filhos obedecendo aos pais e a mulher ao marido no âmbito familiar”.

Como prova de que não seria machista, Ives ressaltou a decisão de sua relatoria que teria “garantido às mulheres o direito ao intervalo de 15 minutos antes de qualquer sobrejornada de trabalho, decisão referendada pela Suprema Corte”.

Conforme revelou o Justificando, essa decisão citou no acórdão Edith Stein, canonizada como Santa Teresa Benedita da Cruz, uma teóloga nascida judia que se converteu ao catolicismo e tornou-se freira carmelita descalça. Nas palavras de Stein, reproduzidas por Ives no julgamento: “cada um dos sexos teria sua vocação primária e secundária, em que, nesta segunda, seria colaborador do outro: a vocação primária do homem seria o domínio sobre a terra e a da mulher a geração e educação dos filhos (A primeira vocação profissional da mulher é a construção da família)”. 

O que é a ouvidoria

A ouvidoria é um canal para que os usuários possam reclamar do que não está satisfatório nos procedimentos do TST, por exemplo, um processo que não é movimento há muito tempo, ou alguma decisão que pode ser compreendida como erro do juiz. Basicamente, a ouvidoria recebe reclamações e verifica o que está acontecendo, tendo de informar sempre ao presidente. Ou seja, um cargo de extrema importância.

 

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02 Feb 11:45

A cidade de São Paulo na contramão do mundo

by Rafael da Silva Barbosa

Na contramão das maiores cidades do mundo, a cidade de São Paulo tomou uma decisão que poderá aumentar o seu número de acidentes. A recente decisão do atual prefeito da cidade de elevar os limites da velocidade em suas principais vias arteriais, marginais Tietê e Pinheiros, passando de 50 para 70 quilômetros por hora, na pista local, e de 70 para 90 quilômetros por hora, na expressa, fere recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) de limites de 50 km/h em vias arteriais e 30 km/h para áreas pavimentadas de circulação de pedestres e ciclistas.

Essa política chama a atenção da sociedade quando os maiores centros urbanos do planeta estão debruçados no desenvolvimento de formas eficientes para o deslocamento urbano com segurança, ou seja, que reduzam os congestionamentos e acidentes a partir da redução do limite da velocidade. A atual gestão paulistana parece regredir em relação à tendência global de uma gestão do tráfego viário mais eficiente.

grafico sp rafael1

A mudança atual da gestão viária da cidade traz grande preocupação local e nacional, já que, em última instância, a cidade de São Paulo é um farol para outros grandes centros urbanos do país e o seu modelo de gestão tende a ser copiado pela grande maioria dos municípios. Um exemplo foi a abertura das avenidas aos pedestres aos domingos, política reproduzida por quase todas as capitais. Dessa forma, a cidade de São Paulo é um grande parâmetro para as demais grandes cidades.

Segundo a organização internacional World Resources Institute (WRI), o Brasil é o 4º no ranking entre os países que mais matam no trânsito e uma das principais causas para essa colocação é o limite da velocidade estabelecido nas regiões do país. Na América Latina, o Brasil é um dos países que apresentam um dos maiores limites de velocidade do continente, em conjunto com a Colômbia, México e Guatemala (ver mapa I).

mapa sp rafael2

Em contrapartida, atualmente 114 países do mundo têm limites iguais ou inferiores a 50 km/h em vias urbanas. Tal quadro foi estimulado pelos efeitos deletérios em termos econômicos e sociais dos acidentes de trânsito nos respectivos países, visto que esse acometimento atinge principalmente a população em idade ativa, os jovens, ocasionando incapacidade laboral e insegurança social no trânsito.

Para se ter uma ideia, no ano 2000, a Austrália reduziu em 10 km/h a sua velocidade – de 60 para 50 km/h – e o impacto estadual (South Austrália) foi de 100 vidas salvas e uma economia de mais de US$ 1 bilhão com despesas decorrentes dos acidentes de trânsito, entre os anos de 2003 e 2013, o que representou queda de 40% do número de fatalidades.

Outro caso a ser destacado foi o de Nova York. O projeto “Green Light for Midtown” trouxe mudanças do desenho viário e redução das velocidades nos bairros adjacentes da Broadway, e os resultados foram: redução do tempo de viagem de 15%; queda de 63% dos feridos na modalidade condutores e passageiros; e redução de 35% feridos na modalidade pedestre. Com o sucesso das medidas, em 2014, a proposta foi ampliada para toda a cidade, reduzindo o limite “padrão de velocidade urbana em 30 milhas/h (48 km/h) para 25 milhas/h, o equivalente a 40 km/h”.

No Brasil, o custo estimado, considerando custos médicos/hospitalares, danos materiais e prejuízo de produtividade devido ao acidente, alcançou R$ 39 bilhões em 2012, sendo os jovens entre 15 e 29 os mais atingidos. Em outras palavras, o trânsito mata parte não desprezível da nossa população, capacidade produtiva e geração de riqueza.

Em São Paulo, em média, após o acidente, 94% das vítimas necessitam de ajuda de terceiros para realizar suas atividades diárias e 18% param de trabalhar em decorrência das lesões, além daqueles que buscam indenizações por invalidez (WRI, 2015).

Hoje, é mais do que nítido que o limite de velocidade tem forte associação com os custos em saúde, pois um acidente de trânsito provocado a uma velocidade entre 60 e 90 km/h exige cuidados em Pronto Socorro (PS) com custo mais elevado, enquanto a ocorrência na faixa dos 10 a 50 km/h tende a acarretar atendimento mais básico por Unidade Básica de Saúde (UBS) e custos/danos menores. Nesse sentido, o perfil da demanda hospitalar dos acidentados no trânsito irá depender do padrão do limite de velocidade viário adotado.

figura sp rafael3

Em 2015, o advento da política de redução da velocidade nas vias arteriais foi o fator que mais contribuiu para segurança do trânsito em São Paulo. Ao se analisar a série histórica da gestão, verifica-se que é a partir daquele ano que as tendências básicas dos números mudam significativamente. O que resultou ao longo do período na diminuição de 257 mortes, 8.980 feridos e uma economia de aproximadamente R$ 143 milhões. Ademais, em termos operacionais, teve efeito direto no nível de utilização da capacidade instalada hospitalar, com 147 leitos hospitalares liberados por dia, reduzindo a demanda pelo SUS e os seus custos.

Nesse contexto, é temerário o regresso aos limites anteriores de velocidade da cidade, ainda mais sob o slogan “Acelera São Paulo”. Além dos efeitos sociais (segurança social no trânsito) e econômicos (custos trabalhistas e de saúde), a mudança de trajetória tem fortes impactos no padrão educacional e político da gestão das cidades. As contradições da democracia permitem a vitória de agendas diversas no campo político, todavia, todo cidadão espera do novo gestor avanços em relação à gestão precedente, alcançar níveis melhores em políticas exitosas e desenvolver áreas as quais não se obteve resultado satisfatório. Independentemente do partido, existe uma expectativa da gestão municipal focada na cidade e, principalmente, para as pessoas que vivam nela, dela e para ela.

Referências

PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO PAULO. Com menos feridos em acidentes, redução dos limites de velocidade libera 147 leitos hospitalares por dia. São Paulo: Notícias, 01 out 2016. Acesso em: 26 jan 2017. Disponível em: <http://capital.sp.gov.br/noticia/com-menos-feridos-em-acidentes-reducao-dos-limites-de-velocidade-libera-147-leitos-hospitalares-por-dia>.

WRI.BRASIL. Impactos da redução dos limites de velocidade em áreas urbanas. São Paulo: Embarq.Brasil,  maio 2015. Acesso em: 26 jan 2017. Disponível em: <http://wricidades.org/research/publication/impactos-da-redu%C3%A7%C3%A3o-dos-limites-de-velocidade-em-%C3%A1reas-urbanas>.

Crédito da foto da página inicial: Oswaldo Corneti/Fotos Públicas

01 Feb 20:02

A atriz obrigada a defender o parto da neta em hospital público mostrou que o Brasil está doente. Por Donato

by Mauro Donato
Antonia Fontenelle

Antonia Fontenelle

 

O Brasil está doente. A chaga talvez não esteja classificada na literatura médica, mas existe, é perniciosa e seus portadores não querem ser tratados pelo SUS. É coisa de pobre.

A atriz Antonia Fontenelle, cuja carreira já trilhou novelas de TV, acompanhou e postou nas redes sociais o nascimento de sua neta.

Famosa, Antonia tem muitos seguidores. O que a surpreendeu foi a repercussão negativa de boa parte deles a respeito de um detalhe do parto: ele ocorreu em um hospital da rede pública, o Miguel Couto, no Rio de Janeiro.

De tão descabidos, e em quantidade espantosa, Antonia Fontenelle viu-se compelida a se explicar.

“Quando soube que a Tabil (namorada de seu filho) estava grávida, ela estava com três meses de gestação. Fiz um bom plano de saúde para ela, mas para parto existe uma carência de um ano. Para os exames não tem. Eu já sabia disso, mas não ia deixar ela tratar a gravidez toda na rede pública porque soube de situações passadas em que ela passou mal, precisou fazer exames e não conseguiu. Meu obstetra a acompanhou do começo ao fim. Só que um parto custa em torno de R$ 40 mil na rede particular e não tenho, hoje, condições de pagar isso”, disse.

Ao que tudo indica, foi a condição financeira que fez com que sua neta nascesse de parto natural num hospital público. Para Antonia, também parece ter sido uma experiência nova.

E não de todo ruim, pelo contrário. Mas parece ter sido isso um acinte para seus seguidores que possuem a cultura já mais que inculcada em suas cabeças de que tudo que é público é péssimo e é exclusivo para pobres.

“Miguel Couto???”, perguntou um deles, assim, abismado.

Também não faltaram os que fizessem conexões rasteiras: “Olha a crise, até a neta da Fontenelle nascendo em hospital público”, disse outra.

Que doença é essa que estabelece que serviços públicos são para pobres e os demais devem utilizar os fornecedores da rede privada?

Quem conseguiu inocular esse vírus que faz com que contribuintes fiquem constrangidos de usar o serviço que foi pago na forma de impostos e que todos têm direito? E como foi feito para que se acredite piamente que tudo que é público é péssimo?

A atriz fez questão de relatar seu contato com o que chamou de ‘mundo paralelo’:

“Se estivesse em outro momento da minha vida iria proporcionar a Tabil um parto como o meu, mas não pude. Mesmo assim, foi tudo digno. E pensando nessa experiência, em que pude estar lá conversando com ela, vendo as mães chegando muito nervosas e depois as acalmando, vejo que foi um dia muito especial e de muita reflexão. Porque a verdade é que a gente vive em um mundo paralelo”, afirmou Antonia.

Claro, ela observou aspectos negativos, mas o ‘caos’ que ela (e muitos de seus seguidores imaginam) não existia.

“Vi que o Miguel Couto tem uma boa direção, mas precisa de mais aparato (…) Ontem a obstetra que nos atendeu, eu contei, fez uns dez partos, isso só no horário que eu estava lá.” Pelo visto, ninguém morreu. “O que vejo nas redes sociais é gente dizendo que sou rica e fui tirar o lugar de uma pessoa pobre. Eu pago impostos, a Tabil também, assim como meu filho. O serviço público é para a população. Daí as pessoas vêm me criticar? Eu estava lá, do começo ao fim, acompanhando, dando apoio e amor. Se alguma coisa desse errado ou ela fosse mal-atendida, o Brasil inteiro ia saber disso. Não vejo nada de errado em usar o serviço público”, afirmou Antonia.

O National Health Service é o sistema público de saúde inglês. Emprega 1,3 milhão de pessoas, atende a 1 milhão de pacientes a cada 36 horas e é considerado a maior estrutura de saúde pública do mundo.

De tão querido pela população satisfeita com o atendimento, foi homenageado na festa de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres.

Já por aqui, como bem diagnosticou Antonia Fontenelle, criaram-se mundos paralelos, de ricos e de pobres. Essa doença se chama classismo, apartheid, segregação. Tem em genéricos e de marcas também. É vendida não em anúncios, mas em reportagens de TV.

O post A atriz obrigada a defender o parto da neta em hospital público mostrou que o Brasil está doente. Por Donato apareceu primeiro em Diário do Centro do Mundo.

31 Jan 19:01

Sobre a política habitacional de Haddad e o conluio da mídia com o Estado

by João Sette Whitaker

João Whitaker e Geraldo Juncal*

Quando a Folha deixa de ser um jornal para ser panfleto político

Neste início de ano, o Secretário de Estado de Habitação, Rodrigo Garcia, concedeu entrevista à Folha de S. Paulo (clique aqui), na qual permitiu-se lançar uma série de opiniões, bastante questionáveis e em grande parte inverídicas, atacado nossa gestão na SEHAB e na COHAB e o governo de Fernando Haddad.

Surpreendeu-nos o fato de que um Secretário de Estado venha à grande imprensa para discorrer sobre a política de habitação do município. Afinal, há um Prefeito e um Secretário Municipal em exercício, com quem aliás realizamos excelente transição, e é sintomático que um membro do alto escalão do Estado apareça como porta-voz da política municipal. É de se perguntar se a política da cidade será conduzida de fato a partir da prefeitura, ou diretamente do Palácio dos Bandeirantes.

A Folha de SP pareceu atuar quase como porta-voz oficial do Governo do Estado. Perguntas habilmente dirigidas para fomentar confusão e induzir os leitores a conclusões fáceis. O título da entrevista, sobretudo, trazia manchete suspeitíssima: “PT deu vez a movimentos de moradia 'amigos do rei'”. A entrevista procurava passar ao leitor três ideias-chave, todas elas bastante duvidosas:

1) a de que o governo de Fernando Haddad “favoreceu” (não explicando no que e nem como) os movimentos sociais “amigos”, dando a entender tratar-se do MTST do Boulos, em detrimento de uma suposta “lista de espera” que teria sido assim desrespeitada. Levantava suspeitas levianas (“ouvi dizer que”) sobre a honestidade dos movimentos sociais. Com isso, o jornal e o secretário, em dupla afinada, reforçavam o atual esforço conjunto do governo golpista, de parte do Ministério Público e da mídia, de criminalizar os movimentos sociais e inculcar a ideia de que os governos petistas são coniventes ou até mesmos cúmplices dessa suposta criminalização, que na verdade não existe.

2) a de que a gestão de Fernando Haddad foi omissa em relação à ocupação de prédios no centro da cidade – que a direita chama indiscriminadamente de “invasões”, mesmo se os casos são bastante variados e envolvem desde ocupações legítimas até invasões comandadas pelo crime organizado;

3) a de que o Estado é muito mais eficiente do que nós fomos, no município, na produção habitacional, no que se alinha à própria Folha para martelar o argumento, falacioso também, de que não cumprimos nossas metas nesse setor.

Conseguimos, em esforço da equipe de comunicação do governo Haddad, espaço para resposta junto ao jornal, que concedeu-nos entrevista no dia 14 de janeiro (clique aqui). Ingenuidade nossa. Caímos na armadilha da Folha. Generalizando algumas passagens específicas da longa entrevista, em que comentamos e alertamos sobre o nefasto crescimento da presença do crime organizado em ALGUMAS ocupações do centro, e o enorme desserviço que isso traz aos movimentos legítimos, pois ajuda a articulação para criminalizá-los indiscriminadamente, a Folha intitulou de forma irresponsável a entrevista, com a seguinte falsidade: “Criminosos estão por trás de invasões no país, diz ex-secretário de Haddad”. Em nenhum momento da entrevista, devidamente gravada, tal afirmação foi feita.

A intenção era clara: manipular nossos argumentos dando a entender que não só os petistas favorecem movimentos amigos (afirmação feita pelo secretário Garcia em sua entrevista), como esses movimentos são generalizadamente criminosos, atuando em todo o país. A resposta dada à Folha, em nota nas redes sociais, está replicada ao fim deste texto, para os interessados. O que ficava claro disso tudo, porém, era que a Folha atuou não para fazer jornalismo, mas política, mostrando que participa conscientemente do esforço conservador do novo governo golpista e do governo estadual em criminalizar os movimentos sociais.

A manobra tornou-se ainda mais cristalina quando, poucos dias depois, Guilherme Boulos foi detido ao defender a população despejada de um terreno em São Mateus em violenta e desnecessária reintegração de posse. Em capciosa interpretação livre, o jornal faz crer que quando, na entrevista, falávamos do crime organizado (referindo-nos ao tráfico de drogas e suas organizações que atuam no centro da cidade), estávamos incluindo todos os movimentos e, em especial, o MTST de Boulos. Na reportagem sobre a prisão de Boulos, a Folha publicou a seguinte frase: “A prisão ocorre após Boulos ser criticado pelo secretário estadual de Habitação do governo Geraldo Alckmin (PSDB), Rodrigo Garcia (DEM), que afirmou em entrevista à Folha que Boulos foi favorecido durante a gestão de Fernando Haddad (PT). O ex-secretário de Haddad, arquiteto João Sette Whitaker, disse também à Folha que há movimentos sem-teto de fachada criados por criminosos".

Manipulação insidiosa das palavras, obra do pior jornalismo. Ao trazer uma afirmação de outra entrevista, de forma deslocada, a Folha insinua não só que concordamos com o secretário estadual sobre algum tipo de favorecimento a Boulos, como dá a entender que também achamos que seu movimento faz parte daqueles criados por criminosos. Disso tudo, pelo menos fica escancarado ao leitor o papel nefasto que os grandes jornais, como a Folha, vêm tendo neste país. E que quando Estado e mídia se unem com o mesmo objetivo de manipulação política, o resultado pode ser devastador.

Estado tucano eficiente, prefeitura petista não

Retomemos então os três argumentos-chave alinhavados pelo Secretário de Estado e pela Folha. Comecemos pelo último, de que o Estado seria muito mais eficiente do que nós fomos no município na produção habitacional, e que a nova gestão municipal tucana contratará em um semestre 12 mil unidades na cidade, para entregar em dois anos. A previsão parece otimista se consideraremos que o Estado, entre 2010 e 2016, em seis anos e não em seis meses, produziu na cidade, ao todo, 7.888 unidades apenas (dados da CDHU). É no município que se concentra 57% da demanda por moradia no Estado, e a CDHU, empresa estatal de habitação, lhe destina apenas 12% da sua produção. Uma clara demonstração de que o Governo do Estado não faz política onde precisa, ou seja, onde há de fato demanda habitacional de baixa renda (a Região Metropolitana), mas onde lhe interessa politicamente, mesmo que não haja demanda significativa. Assim, direcionou nos últimos anos 88% de seus investimentos para o interior, onde está apenas 43% da demanda, mas onde o governo constitui assim importante rede política para a manutenção de seu poder no Estado

A produção do Governo do Estado nos últimos anos limitou-se, e isso o secretário “esquece” de mencionar, a apenas uma complementação de recursos para a política federal do Minha Casa, Minha Vida (MCMV), criado por Lula. Nem de longe a CDHU gasta, aliás, os 1% do ICMS a que tem obrigação, para produção de moradia, o Estado preferindo garantir seu superávit a enfrentar com seus recursos uma questão tão importante.

Se a nova gestão da Prefeitura contratar 12 mil unidades em seis meses, como prometem, isso só poderá acontecer porque a gestão Fernando Haddad deixou nada menos do que 34.659 unidades já licenciadas e prontas para início de obra. Aliás, contradizendo a ladainha das metas não-cumpridas, vale reforçar que na nossa gestão entregaram-se cerca de 15 mil unidades (14.951), apesar da interrupção dos recursos do MCMV a partir de 2014, e deixaram-se outras 21.828 unidades em obras. Somando-se os três, temos que a gestão viabilizou, entre obras concluídas, iniciadas ou projetos licenciados prontos para início (porque o processo de produção com entrega final de uma moradia é longo e quase sempre demora mais do que quatro anos), nada menos do que 71.375 unidades, um recorde absoluto na cidade. Tudo isso foi possível, e continuará sendo na próxima gestão, pelo fato de que o novo Plano Diretor Estratégico aprovado em 2014 por Fernando Haddad e premiado recentemente pela ONU, abriu a possibilidade de uma verdadeira política de terras na cidade, que dobrou as áreas especiais para habitação social, as ZEIS, e alavancou R$ 617 milhões em desapropriações de áreas bem localizadas e infraestruturadas para a produção habitacional. Com isso tudo, prometer contratar pouco mais de dez mil unidades soa até modesto, para falar a verdade.

É desonesta a afirmação da entrevista de que na nossa gestão “São Paulo foi das cidades que menos contratou” projetos do MCMV. Isso de fato ocorreu, porém....na gestão anterior, de Kassab, na qual aliás Rodrigo Garcia era secretário. Entre 2009 e 2012, anos de pico do programa federal, Kassab, ex-vice de Serra e hoje novamente aliado do PSDB, optou pelo não-alinhamento ao MCMV e por isso a cidade produziu apenas 8.064 unidades de HIS para as faixas de mais baixa renda, no auge do programa, enquanto que o Rio de Janeiro, por exemplo, fez nada menos do que 27.376 no mesmo período, cerca de três vezes mais. A gestão Haddad teve, portanto, árdua tarefa em realinhar a cidade ao programa e fazer as mudanças necessárias, inclusive no plano diretor. Na Gestão Haddad, São Paulo tornou-se a primeira e única cidade do país a fazer também uma complementação ao MCMV, de R$ 20 mil, criando o chamado programa Minha Casa Paulistana.

Todo esse esforço, entretanto, pode ter sido em vão. A grande qualidade do MCMV era a de subsidiar s unidades habitacionais, conseguindo assim beneficiar de fato os realmente mais pobres, sem nenhuma condição de pagamento, ao que a Prefeitura fazia um aporte para viabilizar os projetos apesar do alto custo da terra na cidade. Porém, como vem anunciando o governo, o MCMV irá a partir de agora quase que exclusivamente focar a chamada Faixa 1,5. Ou seja, fim dos subsídios e do atendimento aos realmente mais necessitados. Como nos tempos do regime militar, a política federal irá focar aqueles que podem pagar por sua casa, e deixar de fora a demanda mais premente dos mais pobres. Formas de se entender o que deve ser a política pública….

Surpreende também o discurso da nova gestão municipal (por meio de seu porta-voz do Governo do Estado), de que havia na nossa gestão uma suposta morosidade na produção habitacional, anunciando com a mesma pompa com que se anuncia que a cidade será pintada de cinza, uma “desburocratização” dos licenciamentos habitacionais. Discurso vazio e puramente enganador, já que a gestão Haddad bateu todos os recordes nesse sentido. Atualmente, há extraordinários 85.735 projetos de HIS em licenciamento na Prefeitura, o que com os já viabilizados, soma 157.110 licenciamentos de unidades de habitação sociais iniciados em uma única gestão, algo nunca antes visto no Brasil. Para alcançar tal feito, a gestão Haddad tomou uma série de iniciativas, que estranhamente a nova gestão vem sistematicamente desmontando: criou uma secretaria especial para a aprovação de projetos, a Secretaria Municipal de Licenciamento-SEL, com o intuito de combater a corrupção endêmica que existia no setor na gestões anteriores. Dentro dela, em trabalho conjunto com a Secretaria de Habitação-SEHAB, formou departamento e procedimentos específicos e celeres para as aprovações de habitações de interesse social. Além disso, Haddad como se sabe criou a Controladoria Geral do Município-CGM, responsável por dar transparência à administração e sobretudo coibir clientelismo e corrupção. Pois bem, Dória Jr. já desfez a imprescindível autonomia da CGM, subordinando-a à Secretaria de Justiça, e extinguiu a SEL, voltando a colocá-la dentro de outra secretaria. Ações muito estranhas para quem diz querer desburocratizar e agilizar os processos de licenciamento.

Prédios no centro

A segunda ideia colocada, de que a gestão de Fernando Haddad foi omissa em relação à ocupação de prédios no centro da cidade, é mais uma vez pura retórica enganosa. Donos de prédios particulares vazios são geralmente improvidentes quanto ao cumprimento da função social da propriedade. Em outras palavras, seus imóveis custam caro para a sociedade em infraestrutura, para ficarem sem uso. Muitos movimentos de moradia, cientes dessa questão e usando-a como instrumento para demonstrar o absurdo da falta de moradia para os mais pobres quando há tantos imóveis ociosos, os ocupam para pressionar seus proprietários a vendê-los. Em alguns casos, a negociação entre eles – da qual a prefeitura sequer é parte – dá certo e os prédios conseguem ser adquiridos pelos movimentos e reabilitados para habitação, com financiamento da política habitacional do MCMV, como ocorreu na exemplar recuperação de prédio na Rua Conselheiro Crispiniano, financiada pela Caixa. Importante observar que nesses casos não há relação nenhuma com qualquer lista de atendimento da prefeitura, com prioridades ou o que quer que seja, diferentemente do que deixa entender a enganosa entrevista. É errônea, e por isso maldosa, a insinuação da reportagem de que a Prefeitura deveria solicitar a ação policial para reintegrar prédios particulares, já que essa não é uma atribuição do Município, que nem tem poder para tal ato. A reintegração sempre é pedida pelo proprietário, corre na Justiça e é aplicada pela polícia, estadual, como se sabe.

Para evitar confrontos violentos, o que é uma responsabilidade pública, como o que ocorreu no Hotel Aquarius, a SEHAB promoveu sempre que possível a mediação nesses processos, conseguindo, algumas vezes, uma solução de consenso que evitasse a efetivação da reintegração de posse. Atuamos até para evitar reintegração em área do Estado, da CDHU, que iria afetar cerca de duas mil famílias. Em algumas situações, em que o preço do imóvel e o custo da reabilitação estão dentro dos valores praticados pelo Poder Público, é até possível promover a desapropriação do prédio para fins de moradia, observando porém que, nesses casos, a lista de beneficiários passa a ser a da SEHAB, e o prédio, na nossa gestão, destinado prioritariamente à locação social. Porém, é fato de que muitas vezes as avaliações realizadas pelos peritos judiciais é estranhamente acima do razoável, como no caso do Aquárius, em que foram pedidos surreais R$ 40 milhões pelo prédio, inviabilizando qualquer possibilidade de desapropriação.

Outra afirmação estapafúrdia feita para desqualificar nossa gestão é a de que a prefeitura foi “relaxada” em relação aos prédios de sua propriedade que foram ocupados. Mais uma mentira: todos os imóveis públicos (prédios e glebas) municipais ocupados, alguns inclusive na gestão Kassab, foram objeto de ações de reintegração de posse ou aguardam a devida autorização judicial, pois tinham uso definido ou projetos em andamento. Vale dizer que não há cabimento o Poder Público deixar prédios próprios ociosos, como ocorre por exemplo com o da Rua do Ouvidor, propriedade do Estado e vazio há décadas. Na Prefeitura, sob o comando do Prefeito Fernando Haddad, não foi assim. Todos os prédios vazios foram objeto de políticas públicas, seja visando sua reabilitação para habitação – essencialmente para locação social, as vezes para públicos específicos, como idosos, população em situação de rua, etc. – seja para atividades da própria administração. Mais do que isso, nossa gestão fez inédita negociação com o INSS, adquirindo cerca de 15 imóveis ou terrenos daquela instituição, em troca da sua dívida com a Prefeitura, para destiná-los ao programa de locação social.

Mas, o leitor pode indagar, com razão, por que afinal os movimentos ocupam prédios públicos com políticas previstas para eles? Pois é, porque nesses casos, QUE SÃO APENAS ALGUNS CASOS, não são exatamente “movimentos”, mas geralmente grupos associados ao crime organizado que se travestem em “movimento”, invadem esses prédios, para prejudicar politicamente a Prefeitura e a Gestão Haddad e para instalar ali biqueiras de venda de drogas, e coagir gente pobre e indefesa – quase sempre imigrantes recém-chegados do Haiti, da Bolívia, da Síria – oferecendo moradia com cobrança indevida e abusiva de aluguel e tratamento violento, como ocorreu, por exemplo, no famoso Cine Marrocos. Nesse caso, o “nome” do movimento, MSTS, só ajuda (propositalmente?) a confusão. Esses grupos fazem enorme desfavor ao movimento de moradia, ao criar confusão e ajudar a grande imprensa e os setores conservadores a tratar também o movimento legítimo como se fossem criminosos. Foi o que fez o secretário de Estado, e a Folha reforçou na semana seguinte, ao “confundir” o MTST de Boulos com esses movimentos criminosos. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, e isso foi dito muito claramente na nossa entrevista, posteriormente manipulada. Muito pelo contrário, o que dissemos é que os movimentos legítimos são fundamentais para a política pública de moradia, até mesmo porque ajudam a diferenciar os movimentos ilegítimos e apontar a ação do crime organizado que tanto os prejudica. Se uns fazem ocupações como forma de luta pela causa da moradia, os outros fazem invasões à mão armada, o que é bem diferente.

Afirmar que com essas explicações, estávamos dizendo que “o crime organizado está por trás de invasões no Brasil” é fazer uma generalização, no mínimo, mal intencionada. O secretário de Estado deveria ser cuidadoso ao criminalizar os movimentos, pois os verdadeiros criminosos, estes sim, às vezes estão mais perto do que parece. No caso dos do Cine Marrocos, que promoveram um mês de “acampamento” em frente a prefeitura, com barracas reluzentes de novas (quem pagou?), para reclamar que não os atendíamos (com razão, pois não negociamos com bandidos), se aproximaram muito dos comitês eleitorais tucanos, como mostrou reportagem do Diário do Centro do Mundo (clique aqui). Os oportunistas ligados ao crime se aproximam de qualquer um, fazem campanha política em troca de espaço, e não raramente políticos são surpreendidos por terem posado em fotos com eles. Mas, neste caso, não fomos nós, pelo contrário: enfrentamos sem titubear. Quatro meses depois do acampamento na prefeitura, o líder da invasão (neste caso, é o termo correto) do Cine Marrocos foi preso em operação policial no edifício, com mais de 15 Kg de crack, duas escopetas, e sistemas de video segurança instalados no prédio. Revelou-se que o sujeito era dono de uma mansão e de boate em Santana. É disso que estamos falando, e juntar tudo numa entrevista como se fosse uma coisa só é apenas mais um movimento no sentido de gerar confusão e criminalizar injustamente os movimentos que combatem o não cumprimento da função social da propriedade. Pois vale lembrar, manter um prédio vazio em área infraestruturada é, desde a aprovação do Estatuto da Cidade, em 2001, também ilegal.

"Favorecimento" a movimentos

Passemos enfim à primeira das questões que alimentaram o ataque à nossa gestão. A de que nosso governo favoreceu alguns movimentos sociais “amigos”, e em especial o MTST do Boulos, no atendimento habitacional, em detrimento de uma suposta “lista de espera” que teria sido assim desrespeitada. O secretário de Estado, em sua entrevista, cita nominalmente dois empreendimentos do MTST, o Copa do Povo e o Palestina. Mais uma vez, discurso falacioso, que só pode visar a enganação. Primeiro porque esses dois empreendimentos são privados, ou seja, promovidos pela própria entidade, sem a participação da prefeitura ou recursos municipais para a aquisição e desenvolvimento do empreendimento. Jogar uma “culpa” da ocupação na falta de atenção da prefeitura é falacioso, pois esse não é o seu papel. A GCM tem como missão a proteção dos bens públicos municipais, não de áreas particulares. A “proteção” dessas glebas fica a cargo de seus proprietários e, caso estejam em áreas de proteção, da polícia ambiental, estadual.

Há enormes glebas mantidas vazias durante décadas por seus proprietários nas periferias da cidade, muitas perto dos mananciais, mas não nas bordas, e com condições de adensamento, até mesmo para retirar a população que vive às margens da represa em condições precárias. Pura especulação imobiliária, não raramente são de propriedade de grandes empresários do setor imobiliário, que um dia lucrarão com sua venda e até trabalham para que alí se aprovem empreendimentos, por exemplo, do MCMV. Não é errado que tais áreas sejam adensadas, com unidades habitacionais conectadas à rede de esgoto, pois isso é uma ação ambiental importante para esvaziar as áreas lindeiras à água, onde a população acaba lançando o esgoto in natura para a água. Por isso foram criadas, já no Plano Diretor de 2002, as ZEIS 4, destinadas a promover habitação social em áreas possíveis dos mananciais. Com um detalhe: pela lei estadual dos mananciais, nenhum empreendimento pode ser ocupado por famílias que não tenham sido retiradas, obrigatoriamente, da própria área dos mananciais. Nem o Boulos, nem ninguém.

Se a ocupação dessas áreas ociosas como método político de pressão pela sua ocupação é uma ação aceitável ou não, é uma questão de opinião. O fato é que o MTST ocupou a área e conseguiu posteriormente adquirí-la, e pressionou a Câmara para que fosse designada como ZEIS 4 na Lei de Zoneamento. Coisa que não conseguiu para o Copa do Povo, onde a ZEIS 2 pretendida não foi demarcada, mantendo-se uma ZPI (Zona Predominantemente Industrial, que permite também a construção de moradias, mas em menor número). Não adianta querer dizer que isso foi feito ou desfeito pela Prefeitura, que houve “favorecimentos”: o zoneamento e a definição de ZEIS é lei, acolhida e votada pela Câmara Municipal, e representa a vontade do legislativo. Se tem gente que não concorda está em seu direito, mas deve ir cobrar a Câmara, e não acusar o executivo do que quer que seja. Pois bem, uma vez adquirida a área, o MTST apresentou projeto de moradias para um financiamento do MCMV, absolutamente legal, e o obteve, passando por todas – e são muitas – as exigências da Caixa. À Prefeitura cabe tão somente licenciar o mesmo, dentro das exigências legais, fortemente enquadradas pelas regras ambientais, o que foi feito. Vale anotar: nesse caso, os dois empreendimentos preveem a implantação de parques para o uso publico, integrando-os a seu entorno.

Mas a reportagem da Folha se vale de outra pequena manobra, na entrevista com o Secretário de Estado. Dando a entender que estão falando da prefeitura, passam a analisar o funcionamento interno dos movimentos, porém sem deixar isso claro. Argumentam sobre favorecimentos internos a quem comparece ou não às assembleias, a quem tem identidade partidária com as lideranças, dizendo que como recompensa “furam” a lista e são colocados na frente. Ora, estão falando das listas internas do próprio movimento, nada a ver com qualquer lista de atendimento habitacional do Poder Público. Mas o texto é de tal forma construído que dá a impressão de que quem faz isso, favorecer seus “amigos” é a Prefeitura e o PT, essa insinuação servindo até como título para a reportagem. Os movimentos, internamente, geralmente definem quem será atendido em um ou outro empreendimento em função da mobilização e da participação das famílias, sua disposição em participar das atividades de mutirão, etc. Isso é absolutamente normal. Se há movimentos que abusam dessa lógica, contaminam-se por critérios partidários ou de amizade com as lideranças, temos certeza que eles não terão vida longa, desfazendo-se por si mesmo. Afinal, um movimento, para ser forte, precisa ter coesão interna e legitimação de suas lideranças, o que dificilmente ocorreria se as práticas apontadas fossem assim tão comuns. Mas, de qualquer modo, sempre vale ressaltar que, ao contrário do que se insinua, o que ocorre ali não tem nada, absolutamente nada a ver com a administração pública, ou com o PT.

Para aprofundar a confusão, o Secretário Garcia diz em sua entrevista: “Aqui no Estado, quem invade vai para o fim da lista…os movimentos de moradia amigos do rei tiveram vez na administração petista”. Não sabemos a qual ação do Estado o Secretário se refere, já que lá, não se fazem chamamentos públicos para empreendimentos habitacionais dos movimentos desde 2011. No caso da Prefeitura, foram feitos 12 chamamentos pela COHAB, para empresas e entidades sociais, nesta gestão. Todos no formato de licitações públicas, com sistemas rígidos de pontuação, e nenhuma possibilidade de favorecimento a quem quer que seja. Aliás, a verificação é simples, e a observar os vencedores dos chamamentos, fica fácil identificar muitas entidades simpatizantes de todo o espectro político-partidário, inclusive do PSDB.

Mas o que são, exatamente, esses chamamentos? Muito simples: o programa federal MCMV oferece – ou melhor, oferecia, antes do golpe – financiamento para empreendimentos particulares, seja de movimentos ou de empresas, realizados em terrenos próprios, como é o caso dos empreendimentos do MTST citados. Para ajudar essas operações, tanto o Estado quanto o Município entram com um aporte adicional, de R$ 20 mil. Além disso, o município participa do empreendimento apenas na parte das aprovações. Mas há outra modalidade, em que os municípios participam de forma mais efetiva, entrando com a terra. Na maioria das cidades brasileiras, “sobram” para o MCMV terrenos distantes e com pouca infraestrutura. No caso de São Paulo, os avanços do Plano Diretor permitiram grande número de desapropriações e a destinação de número inédito de terrenos para projetos de habitação social em áreas com infraestrutura. Esses terrenos são então oferecidos por meio dos “chamamentos”, para a escolha por licitação das empresas e das entidades que ficarão responsáveis pela construção, em cada uma das modalidades do programa (FAR-Empresas ou FDS-Entidades), recebendo o financiamento da Caixa.

A escolha é feita por critérios rigorosos e pontuações, em que se pesa o histórico da empresa ou do movimento, sua capacidade de assumir a produção pretendida, o projeto existente, etc. Não há a menor possibilidade de favorecimento, como se insinua. Alás, é interessante observar como a mídia e os governos conservadores se atém a falar dos movimentos, mas nunca levantam favorecimentos a empresas. Nenhum dos dois ocorre, mas se é para desconfiar, por que sempre se visa o movimento social e não o empresariado? Ainda mais considerando que a modalidade Entidades, proporcionalmente, é quase insignificante ao lado da produção das grandes construtoras. Como na administração Haddad deu-se um pouco mais de espaço à produção autogestionária dos movimentos em relação às demais cidades brasileiras (sem entretanto mudar muito a proporção), isso foi mal visto politicamente pelos que acham que os movimentos devem ser alijados do processo. Questões de ponto de vista.

A COHAB disponibilizou 124 terrenos ou imóveis, 42 na modalidade FAR-Empresas/Faixa 1, com potencial para a construção de 16.361 unidades, e outros 82 na modalidade FDS-Entidades/Faixa 1, correspondendo a um potencial de mais 13.143 unidades habitacionais. O maior número de terrenos para as entidades, para um total de unidades quase equivalente, se explica porque os terrenos são menores do que os oferecidos às empresas, que trabalham com quantidades de produção bem maiores. Empresas e entidades venceram as licitações e passaram a trabalhar com a Caixa para a contratação dos projetos. Infelizmente, com as mudanças políticas sofridas e a interrupção do PMCMV, grande parte desses empreendimentos está hoje apenas à espera da liberação das verbas federais. Por isso é fácil dizer que a Prefeitura contratará rapidamente 12 mil unidades. Não duvidamos, o trabalho foi, de fato, bem feito.

E as pessoas beneficiadas, afinal, são de uma “lista”, a qual pode eventualmente ser “furada”? Não. Isso é mais uma falácia alimentada pela má-fé. Nos empreendimentos do MCMV Empresas, metade dos beneficiados é sorteado, de uma lista da COHAB na qual qualquer cidadão pode se inscrever, mas da qual serão contemplados apenas aqueles que estejam dentro dos diversos critérios do programa, a começar pela baixa renda (mas também outros fatores de prioridade, como mulheres chefe de família, pessoas deficientes ou doentes na família, mulheres vítimas de violência, etc.). A outra metade é da lista da própria prefeitura, que é basicamente a das 30 mil famílias que recebem auxílio-aluguel, tendo sido retiradas de áreas de risco, por obras, etc. Tal atendimento é devidamente controlado, inclusive pelo Ministério Público. No caso de empreendimentos feitos por empresas no âmbito do PAC, toda a demanda é definida pela prefeitura, mas obrigatoriamente de famílias retiradas de áreas com obras do mesmo programa. No caso de urbanização de favelas, a lista parte da relação dos moradores da área afetada, e assim por diante. Não há, portanto, exatamente uma lista, mas sim formas de atendimento variadas dependendo de cada programa, de cada modalidade. No caso da modalidade “Entidades”, é a regra do programa que a entidade selecionada seja responsável pela indicação dos beneficiados. Na maioria das vezes, há cruzamentos, os participantes dos movimentos estando, como já dito, em algumas dessas listas de atendimento. A política habitacional correta é aquela que faz uma composição adequada entre as diferentes demandas, atendendo suas emergências, os movimentos, as regras dos diferentes programas de financiamento, etc.

Desejamos êxito à nova gestão: afinal, são os mais pobres que pagam o preço das disputas políticas

Alimentar a desinformação, o ódio partidário e o preconceito com os movimentos sociais em nome da disputa política é, a nosso ver, o inverso da boa política. A política desejável é aquela que se faz em nome e para o bem dos cidadãos, e não em função da disputa pessoal do poder. Saímos da prefeitura de cabeça erguida e com o orgulho do trabalho bem feito, em prol dos paulistanos, em especial os mais pobres. Abrimos diálogos, construímos com participação e transparência. Essa foi a marca da Gestão Haddad. Por isso, não entraremos na guerra da difamação. Apenas responderemos, item por item, qualquer inverdade dita sobre nosso trabalho. E desejamos êxito às equipes da Secretaria de Habitação e da Cohab, certos de que a nova equipe, se quiser trabalhar sério, certamente encontrara melhores condições para que a cidade consiga finalmente uma produção de HIS adequada ao tamanho das necessidades da população. Pois afinal, quem sofre com essa escalada difamatória são os que mais dependem das políticas habitacionais. Para além dos projetos já citados que dependem dos recursos do governo federal, deixamos quase 1500 unidades contratadas, outras 3 mil em obras e aproximadamente 4 mil em condição de contratação, nas operações urbanas. E, é claro, um Plano de Habitação inovador, construído com a participação presencial de 5 mil paulistanos e outros 15 mil por internet, que foi enviado à Câmara na forma de Projeto de Lei e dá uma linha para a política de moradia na cidade para os próximos 16 anos. Não será por falta do que fazer. Quando a cidade se cobre de cinza por sobre o colorido e a liberdade da arte de rua, quando os acidentes crescem pelo aumento irresponsável dos limites de velocidade nas marginais, quando farmácias do SUS na periferia são fechadas, torcemos para que pelo menos na habitação, área tão esquecida, o trabalho sério continue.

 

*João Whitaker foi Secretário de Habitação e Geraldo JUncal presidente da COHAB na Gestão Fernando Haddad


ANEXO

RESPOSTA À ENTREVISTA CONCEDIDA À FOLHA DE S.PAULO EM 14/01, EM NOTA PUBLICADA NAS REDES SOCIAIS

Quando a Folha desiste do jornalismo para fazer política

Na semana passada, a Folha realizou entrevista com Rodrigo Garcia, secretário de Estado de habitação, na qual ele, no seu papel de político com uma ajudinha da grande imprensa, desqualifica a gestão Haddad e nosso trabalho à frente da Sehab, com uma série de informações equivocadas e nada verdadeiras.

Ainda amanhã estarei postando em meu blog artigo meu e do Gera Juncal, brilhante gestor que me deu a honra de presidir a Cohab na minha gestão, respondendo em detalhes a entrevista de Garcia.

Embora em férias, concedi longa entrevista ao mesmo repórter, de mais de uma hora. Confesso que dada a duração da conversa o repórter até que conseguiu reproduzir partes da minha fala corretamente, claro que selecionando os temas que mais lhe pareciam importantes, e resumindo muito, muito mesmo. Mas ok.

Em compensação, fiquei enojado, esse é o termo, com a manipulação do editor ao escolher o título. Mais ainda com o.titulo.que apareceu no UOL. A Folha com isso veste a carapuça: mostra que participa conscientemente do esforço conservador do novo governo golpista em criminalizar os movimentos sociais, fazer o grande público acreditar que movimentos de moradia são criminosos. Para polemizar sem fazer jornalismo (que seria o ato de informar sem tomar partido e procurando ser fiel ao meu pensamento, para o que dispõe de uma hora e tanto de reflexões gravada), se alinha aos objetivos do entrevistado tucano da semana passada: para os leitores desavisados que só lêem manchetes, fica a dupla mensagem: os movimentos são criminosos e favorecidos pelo PT.

Para que fique bem claro, vamos colocar os pingos nos is. Segue um resumo, sob o meu prisma, do que eu mesmo falei, especificamente sobre o tema do título, dentre muitos outros assuntos, e que tenho gravado, evidentemente:

1) que os movimentos de moradia são a organização mais legítima de luta por moradia, que a grande maioria são movimentos orgânicos e sérios, que lutam há décadas por essa causa;

2) que as políticas que dão espaço para a produção autogestionada são muito importantes, como o MCMV Entidades, pois essa é uma das formas mais interessantes de fazer moradia, que tem tradição e vem demostrando excelentes resultados - senão os melhores do ponto de vista da qualidade arquitetônica. Disse que, aliás, um dos primeiros mutirões foi criado pelo Mário Covas, o que relativiza a partidarização que se faz dessa modalidade;

3) que a manutenção de imóveis e glebas vazias - muitas para fazer especulação - é ilegal pelo Estatuto da Cidade, pois não cumprem a função social da propriedade, e que ocupá-los, gostem ou não, é uma forma legítima que os movimentos têm de fazer política, apontando para o grande número de imóveis nessas condições, e muitas vezes conseguindo com sua pressão uma solução para reabilitá-los para moradia. Vale dizer que no Brasil são cerca de 5 milhões de unidades habitacionais vazias, quase o tamanho do déficit.

4) que nesse embate jurídico-político, os entes em disputa são os proprietários e os movimentos, ou seja, todos privados, e que a prefeitura em geral não tem muito o que fazer ou falar em casos de reintegração pedida pelos proprietários, já que nem é parte jurídica do processo. Quando possível, faz a mediação para evitar confrontos violentos na cidade, e verifica a possibilidade de desapropriação para destinar o prédio, no caso da nossa gestão, preferencialmente para a política de locação social. Que as avaliações periciais pedidas pelos juízes são quase sempre ultra valorizadas, inviabilizando a operação pelo poder público (como ocorreu no Hotel Aquarius).

5) que nossa gestão diferenciou as ocupações feitas por movimentos conhecidos e legítimos de ALGUMAS outras, infelizmente cada vez mais frequentes nestes últimos anos, que OPORTUNISTICAMENTE fazem não ocupações mas sim invasões, as vezes à mão armada, travestindo-se de "movimentos" para fazer coação contra imigrantes pobres alugando unidades e quase sempre usando o prédio como fachada para o tráfico de drogas. São invasões, neste caso, infelizmente comandadas pelo crime organizado. Foi o que aconteceu no Cine Marrocos

6) que esses grupos que, neste caso, fazem invasões e não ocupações, não raramente o fazem em prédios públicos municipais, com uso definido e projetos em andamento, para fazer provocação política, evidenciando a vezes sua manipulação política. Que todos os prédios municipais em esta situação tiveram pedido de reintegração feito pela prefeitura.

7) que estes grupos têm um papel nefasto pois criam confusão, atrapalham os movimentos legítimos, e ajudam a difundir no grande público a ideia de criminalização dos movimentos, processo de manipulação da informação de que a Folha mostrou hoje fazer parte.

8) enfim, que os movimentos têm grande importância na construção da política habitacional até mesmo para ajudar, com seu diálogo e suas propostas, o poder público a fazer a correta diferenciação entre uns e outros.

Além disso que está acima, e que falei, o que os títulos da Folha e do UOL insinuam é pura ilação.

Aproveitando, informo também aos arquitetos que o que disse em relação aos projetos de HIS é que a categoria deve assumir o desafio de pensar qual a correta solução da equação entre, de um lado, E projetos ruins e baratos decorrentes da conjunção "vontade política de quantidade x velocidade x necessidade real de produzir em massa para atender o déficit gigantesco x busca de lucro das construtora" e, de outro lado, projetos vistosos que dão capa de revista mas são caros demais para a política pública e para satisfazer minimamente essas condicionantes listadas, e não raramente geram excessiva gentrificação. E disse, aliás, que infelizmente a classe dos arquitetos não assumiu essa discussão em suas entidades representativas.

É isso.

31 Jan 17:33

Três docs para entender a diferença entre grafite e pichação (e respeitar ambos)

by Cynara Menezes

cidadecinza

Vi muita gente expondo ignorância nas redes para defender o vandalismo do prefeito João Doria Jr. contra a arte de rua em São Paulo, ao transformar muros grafitados em cinza. Para poder opinar, estas pessoas pelo menos deveriam saber a diferença entre pichação e grafite, não? Pensando em ajudá-las a entender melhor o mundo que as cerca resolvi postar no blog três documentários, um sobre pichação, e outros dois sobre grafite.

pixo

O primeiro deles é PIXO, de 2010, dirigido por João Wainer e Roberto T.Oliveira, que mostra a realidade dos jovens da periferia que fazem pichações em prédios e ruas em São Paulo. João passou dois anos se encontrando com os pichadores para entender o porquê de eles fazerem esta ação. O fotógrafo defende que, como o pixo é uma espécie de protesto, sempre será perseguido. Esta semana ele publicou um texto na Folha de S.Paulo onde criticou o prefeito da cidade por apagar a arte de rua e confundir grafite com pichação.

“Pichadores buscam sempre o enfrentamento com o poder público. Declarar guerra à a pichação de forma midiática pode trazer votos, mas é tudo o que os pichadores mais querem e terá um efeito devastador para a cidade, pois a reação será fortíssima”, alertou Wainer. “Pichação se resolve com escola de qualidade e não com tinta cinza e bravatas na televisão” (leia o texto completo aqui, para assinantes). Assista PIXO no Vimeo.

O segundo documentário tem um título emblemático para o momento: Cidade Cinza, de 2013. Dirigido por Marcelo Mesquita e Guilherme Valiengo, com músicas de Criolo e Daniel Ganjaman, o filme questiona o cinza em que os governantes conservadores pretendem transformar as cidades. O doc foi feito depois que, em 2008, o então prefeito Gilberto Kassab, como Doria hoje, mandou apagar os grafites da avenida 23 de Maio, angariando uma forte repercussão negativa internacional. Em tempo: o slogan de Kassab era Cidade Limpa; o de Doria é Cidade Linda.

É hilário ver como os funcionários das empresas terceirizadas se transformam, como os reaças nas redes, em críticos de arte, decidindo autoritariamente sobre o que deve ou não deve ficar e o que tem de ser apagado.

O terceiro doc é o premiado curta Graffiti Fine Art, que mostra a chegada de 65 grafiteiros de 13 países para a I Bienal Internacional de Grafite, em 2010. Promovida pelo MUBE (Museu Brasileiro de Escultura), a proposta da bienal é justamente mostrar a diversidade e a qualidade da arte de rua.

No filme dirigido por Jared Levy, os grafiteiros dizem frases como: “Uma cidade sem grafite é uma cidade onde está faltando um membro, um órgão” (Nove); “Uma cidade que não tem grafite é uma cidade oprimida, muito controlada” (Anarkia); “Uma cidade sem grafite é uma cidade mais cinza do que já é” (Graphis).

Assistam e comentem, ampliem seus horizontes antes de opinar.

 

 

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31 Jan 17:32

Mini-guia Socialista Morena de esquerdismo caviar: mercados

by Cynara Menezes
saojoaquim

(Feira de São Joaquim, Salvador)

Tem gente que ama shopping, eu adoro mercados. Toda vez que chego a uma cidade, faço questão de conhecer o mercado municipal. Aquela profusão de frutas, verduras, peixes, carnes, ervas, artesanato, causa um estranho efeito calmante sobre mim. Me diverte e enriquece conversar com os donos das bancas, com a freguesia, e também comprar produtos feitos na região para levar para casa.

Como tinha feito antes com o mini-guia de São Paulo, preparei estas dicas de mercados que conheci no Brasil e no exterior. O único critério utilizado foi que só entraram aqueles onde estive pessoalmente; ou seja, este guia pode crescer a qualquer momento. Se estiverem de férias nestas cidades, aproveitem para conhecer os mercados. Tenho certeza que vão entender do que estou falando…

NO BRASIL

Feira de São Joaquim, Salvador – Vou começar por um dos mercados mais incríveis do Brasil: a gigante feira de São Joaquim, considerada a maior feira do Nordeste, com quatro mil boxes. Uma verdadeira cidade! Tem de tudo por lá, de temperos a carne de bode, mas chama a atenção a variedade de bancas dedicadas ao candomblé, com imagens de orixás em ferro e gesso, belíssimos. É coisa para várias horas percorrer os corredores de São Joaquim vendo tudo, uma experiência antropológica. Onde: Avenida Conselheiro Pontes, Comércio. De segunda a sábado, das 5h às 18h, e domingo, das 5h às 14h. No domingo de manhã tem roda de samba.

farinha

(Farinhas de mandioca na feira de São Joaquim)

orixas

(Sincretismo: presente!)

lampioes

(Miniaturas de lamparinas em São Joaquim)

Ceasinha do Rio Vermelho, Salvador – É o lugar ideal para comprar coisas para levar antes de viajar de volta para casa quando for visitar a capital baiana. Tem carne de sol e de fumeiro, e muitas bancas que vendem todo tipo de biscoitinhos, doces e beijus de tapioca feitos no interior. Aqueles de tomar com café, sabem? No mercado, todo reformado, também tem uma praça de alimentação onde se pode comer pratos típicos que não se encontram nos restaurantes “para turistas”, como o sarapatel e o cozido. Onde: Av. Juracy Magalhães Neto, 1624. De segunda a sábado, de 7 às 20h; domingos de 7 às 14h.

Mercado da Lapa, São Paulo – Todo mundo comenta o Mercado Municipal de São Paulo, com seu sanduíche de mortadela e pastel de bacalhau, mas, para fazer compras, em minha opinião, não há lugar melhor do que o Mercado da Lapa. Quem gosta de carne de jabá (ou carne seca ou charque; na capital paulista, chamam de carne de sol) vai se espantar com a variedade, feitas com qualquer parte do boi, não só “traseiro” e “dianteiro”, como no supermercado. Tem até filé de carne seca! A peixaria também é muito boa e as lojas populares ao redor são ótimas para comprar coisas para casa a preços baixos. Onde: rua Herbart, 47, Lapa. De segunda a sexta, de 8h às 19h e sábados de 8h às 18h.

Mercado Municipal de Sorocaba, São Paulo – Outro dia fui fazer uma palestra em Sorocaba e acabei conhecendo o mercado de lá, muito simpático, limpo e organizado. O prédio, de 1938, tem estilo art-déco. Tem uma boa banca de ervas medicinais e também encontrei bons queijos e linguiças caseiras. Onde: rua Comendador Nicolau Scarpa, 80, centro. De segunda a sexta, de 7 às 18h30 e sábado até às 14h.

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(Fachada neomourisca do Mercado de Campinas)

Mercado Municipal de Campinas de Campinas, São Paulo – Projetado pelo arquiteto Ramos de Azevedo em estilo neomourisco, lembra, por fora, uma mesquita. Gostei de comprar lá: café da região torrado na hora, tabaco orgânico, lentilhas e feijão. Há uma variedade enorme de feijões, destes que não se encontram no supermercado, como o feijão-manteiga. Do lado de fora ficam os peixes e carnes. Onde: Praça Carlos Botelho, centro. De segunda a sábado de 7h às 18h.

Mercado Público de Porto Alegre, Rio Grande do Sul – Adoro! Já fui várias vezes. O prédio é lindo, bem no centro da cidade, e tem um monte de coisas gostosas e diferentes, tipo linguiças, queijos e frios artesanais das colônias italiana e alemã. Também pode-se comprar massas artesanais prontas para cozinhar em casa. E o melhor para mim: a salada de frutas com nata da Banca 40, verdadeiro patrimônio da capital gaúcha. A salada de frutas é fresquinha e a nata ninguém nunca viu igual… É como um chantilly só que beeemmm mais firme e saboroso… Onde: Galeria Mercado Público, 85 – Centro. De segunda a sexta-feira, das 7h30 às 19h30 e sábados das 7h30 às 18h30.

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(Detalhe da fachada do Mercado Público de Porto Alegre…)

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(…e a incrível salada de frutas com nata da banca 40)

Mercado Ver-o-Peso, em Belém, Pará – Faz muitos anos que estive lá, e li que está sendo submetido a um polêmico projeto de reforma. Mas é uma experiência inesquecível sentir os cheiros e ver as cores dos peixes e plantas típicos da região no Ver-o-Peso, histórico mercado brasileiro com mais de três séculos de história. Não vá sem um local acompanhando, para descobrir cada recanto da feira e também saber onde comprar o melhor açaí fresquinho… Atração à parte são as bancas onde se vendem produtos medicinais feitos com plantas amazônicas que prometem curar tudo, de disfunção erétil a diabetes. Onde: Tv. Marquês de Pombal, 75, Cidade Velha. De segunda a domingo, de 4h às 20h.

Mercado Público da Redinha, em Natal, Rio Grande do Norte – O grande atrativo deste pequeno mercado, que fica à beira-mar, é comer “ginga com tapioca”, que são pequenos peixinhos (ginga) fritos no azeite de dendê e servidos dentro do beiju, algo que me pareceu ancestral, dos tempos pré-colonização. De fato, o acepipe acabou recebendo recentemente o título de “patrimônio imaterial” do Estado, e o mercado, com mais de 100 anos, foi tombado pelo patrimônio histórico. Onde: Largo João Alfredo, SN, Praia da Redinha. De segunda a sábado, de 8h às 17h.

Mercado de Peixe São Pedro em Niterói, Rio de Janeiro – Este lugar é um paraíso para quem gosta de frutos do mar. Antes ou depois de visitar o incrível museu Oscar Niemeyer, não deixe de conhecer. O barato é comprar, por exemplo, camarões frescos no andar de baixo e pedir para algum dos bares que ficam no andar de cima preparar para você. Prove também as incríveis sardinhas fritas que os botecos do mercado fazem, hipercrocantes, entre as melhores que já comi na vida. Onde: Rua Visconde do Rio Branco, 55, Ponta d’Areia. De terça a sábado, de 6h às 15h, segundas de 6h às 12h30 e domingos de 6h às 13h.

Feira do Guará, em Brasília – Além de frutas, verduras, peixes e da melhor banca de tapioca do centro-oeste, a feira do Guará também tem roupas para adultos e crianças. É um lugar que todo turista que aparece por aqui adora conhecer. Como na capital federal tem gente de toda parte, na feira se encontram produtos nordestinos e também do Norte do país. Se você está achando difícil fazer uma receita da sua terra, lá irá encontrar os ingredientes que faltam, com certeza. E comer um dos melhores pastéis de Brasília. Único defeito: é uma feira cara. Onde: Guará II QE 25. De quarta a domingo, de 8h às 18h.

Mercado Municipal de Curitiba, Paraná  Como tudo na capital paranaense, é organizadíssimo e limpíssimo, talvez até demais, porque senti falta do barulho e agitação típicos dos mercados. Não abre cedo: o horário oficial é 7h, mas cheguei cedinho e a maioria das bancas ainda estava fechada. Tem uma variedade muito boa de grãos e, como o de Porto Alegre, muitos produtos coloniais: queijos, linguiças, frios… Onde: Avenida Sete de Setembro, 1865. De terça a sábado, de 7h às 18h; segundas de 7h às 14h; e domingos de 7h às 13h.

Mercado Central de Belo Horizonte, Minas Gerais – É outro dos meus favoritos, faço questão de ir lá toda vez que viajo à capital mineira. Para comprar todo tipo de queijo, goiabada, cachaça e linguiças artesanais e voltar para casa com o embornal cheio! No primeiro andar tem também várias lojas de artesanato. E o que é melhor: ir só para tomar uma cachacinha ou uma cerveja acompanhada dos sensacionais petiscos mineiros. Recomendo o fígado acebolado com jiló. Onde: Av. Augusto de Lima, 744, centro. De segunda a sábado, das 7h às 18h; domingos e feriados de 7 às 13h.

NO EXTERIOR

Mercado de Maravillas, em Madri, Espanha – Na Espanha eles aproveitam todas as partes do porco, até o focinho e a cara. Neste mercado, portanto, se podem encontrar todos os ingredientes para uma boa feijoada longe de casa… O legal também é que, em Madri, que os espanhóis brincam ser “o maior porto da Espanha” (sem ter porto), os mariscos e peixes podem ser comprados fresquíssimos, ainda vivos! Se estiver por lá, aconselho buscar os produtos da estação, como os aspargos ou as picotas (espécie de cereja), deliciosos. Este mercado tradicional fica um pouco afastado da área central, mas tem metrô pertinho. Fiquem atentos que fecha no horário da siesta. Onde: calle Bravo Murillo, 122 (metrô Cuatro Caminos). De segunda a sábado, das 9h às 14h e das 17h às 20h.

Mercado Central de Santiago, no Chile – Confesso que estava muito ansiosa para conhecer este mercado principalmente pelo que me falavam dos restaurantes de lá, onde se podem comer frutos do mar que não se encontram no Brasil, como centollas e um tal de picoroco. Mas achei a comida meio para turistas, cara e nem tão saborosa. Enfim, de qualquer maneira é um ponto turístico de Santiago e vale a pena conhecer. O prédio é histórico, de 1872, e bem bonito. Quem sabe vocês não têm melhor sorte do que eu com os restaurantes? Onde: calle San Pablo, 943 (metrô: Puente Cal y Canto). De segunda a domingo, de 8h às 19h.

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(Mercado del Puerto, em Montevidéu. Foto: Artigas Pessio/Intendencia de Montevideo)

Mercado del Puerto de Montevidéu, no Uruguai – É o melhor lugar para se comer uma boa carne na capital sul-americana que já possui a fama de ter a melhor carne do mundo. Tem tantos restaurantes de parrilla que eu nem me lembro de ter visto bancas de verduras ou frutas… Artesanato, sim. Para quem não come carne, também há restaurantes que oferecem massas e frutos do mar. Onde: Piedras, 237, Cidade Velha. Horários: no interior, só no almoço; fora, almoço e jantar.

Mercado Pesquero El Mosquero de La Guaira, na Venezuela – É um mercado de peixes perto do aeroporto de Caracas, portanto bem distante do centro da capital venezuelana. Mas vale muito a pena conhecer e sobretudo comer nos restaurantes que ficam do lado de fora. Eu provei um prato típico delicioso, com fama de ser afrodisíaco, a Fosforera Siete Potencia, uma espécie de sopa com sete frutos do mar! Também são famosas as empanadas de arraia. É um lugar simples, frequentado por locais, perfeito para conversar e conhecer a realidade venezuelana por eles mesmos. Onde: Maiquetía, Vargas. De terça a domingo, das 5h30 às 16h.

 

 

 

 

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20 Jan 13:19

Computadores esquecidos

by Lady Sybylla
Antes da Apple, da IBM e antes da definição moderna de uma unidade de processamento central provida de memória eletrônica, a palavra "computador" simplesmente se referia à uma pessoa que computava. Alguém que com lápis, papel e borracha calculava vetores, resolvia longas equações com números sobre impulso, combustível, carga. A indústria espacial, em seus primórdios, com uma Segunda Guerra Mundial batendo às portas, se valia do trabalho destes computadores humanos. E a grande maioria destes computadores eram mulheres.


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Com os esforços durante a Segunda Guerra Mundial e com a ida de um grande contingente de homens para o front europeu, muitas empresas se viram obrigadas a contratar mulheres. Para o cargo de computadores, onde não era exigido formação, elas eram contratadas em massa, devido ao enorme esforço de conseguir mísseis balísticos, especialmente pelo recém-formado JPL. Quando crianças e adolescentes, essas pioneiras tinham aulas extras de matemática, por pura diversão, mas sabiam que o mercado para mulheres era muito restrito. Os empregos disponíveis, geralmente eram de professora, enfermeira, bibliotecária, secretária e muitas nem mesmo iam à faculdade. Elas se casavam assim que terminavam o ensino médio. A ciência ainda era um mundo muito distante para a maioria.

Enquanto isso, na Caltech, um grupo de jovens inconsequentes apaixonados por foguetes criaram um grupo chamado Suicide Squad no final dos anos 30. Eles faziam misturas perigosas de propelentes e oxidantes para fazer com que seus foguetes subissem o máximo possível. Chegaram a destruir um túnel de vento nessa brincadeira. Foguetes eram muito mal vistos na época, algo relegado às histórias de ficção científica das revistas. Falar que estudava foguetes era arrancar risadas até mesmo dos mais renomados cientistas. Mas esse grupo se empenhou tanto e obteve testes bem sucedidos que acabaram conseguindo financiamento militar para criar foguetes capazes de levar armas. Um dos membros da equipe era Barbara Canright, Barbie, que junto de outras pioneiras mulheres apaixonadas por cálculos, compunham o setor de computadores da empresa formada pelo grupo. Essa empresa se tornaria, futuramente, o JPL - Jet Propulsion Laboratory - da NASA.

O que é curioso de ir a fundo nesse assunto é como as mulheres que colocaram os astronautas e satélites em órbita foram apagadas da história da agência. John Glenn, famoso astronauta e que faleceu recentemente, se recusava a sair em missão se os cálculos não fossem revistos por Katherine Johnson. Elas preenchiam dezenas de cadernos, com linhas e mais linhas de números, símbolos e equações, fornecendo as informações necessárias para a construção de foguetes. O que hoje nós levamos poucos segundos para fazer com uma calculadora científica ou em um programa de computador, essas mulheres levavam dias, com calos nos dedos, fazendo à mão os cálculos. Algumas começaram a escrever linhas de programação desta maneira, antes de qualquer computador valvulado chegar ao JPL.

Lembro de assistir Apollo 13 pela primeira vez e achei estranho só ter homens trabalhando no comando da missão. As únicas mulheres eram as esposas e namoradas dos astronautas. E pensei "bem, as coisas estão mudando, mas naquela época...". Esse pensamento ainda é muito presente, mas em muitos casos onde imaginamos que as mulheres não estejam presentes é porque seus nomes foram apagados ou esquecidos. O Efeito Matilda mesmo. Várias mulheres computadoras trabalharam junto dos homens para trazer os três astronautas da missão são e salvos. E elas não apareceram em nenhum momento no filme.

A bioquímica Nathalia Holt resgatou a história de várias dessas mulheres em seu livro Rise of the Rocket Girls e a escritora Margot Lee Sheeterly tratou as mulheres, especialmente as mulheres negras, da NASA em Hidden Figures (Estrelas Além do Tempo). Desde o grupo Suicide Squad até os anos recentes de missões da NASA, elas contam sobre as dificuldades que muitas delas enfrentavam, especialmente com o machismo. Leis retrógradas na Virgínia colocavam placas em banheiros e no refeitório, para separar brancos de negros. Em uma época em que era raro ter mulheres em posição de destaque dentro de empresas, ainda mais na área de ciências como o JPL, os administradores acharam que seria ~maneiro~ fazer um concurso de beleza, o Miss Guided Missile 1952, para valorizar suas funcionárias. Pois é. A imagem abaixo é com as ganhadoras.

Miss Guided Missile 1952. Fonte: NASA JPL-Caltech

Barbara Paulson (à esquerda, de vestido preto) foi chefe do departamento de computação do JPL no início dos anos 60. Aos sete meses de gravidez, ela pediu uma vaga de estacionamento mais próxima do prédio para não ter que andar tanto sob o sol quente da Califórnia. O chefe do RH disse que ali não era lugar para grávidas. E ela foi mandada embora por pedir isso. Várias delas eram mandadas embora e ficavam vários anos em casa apenas cuidando dos filhos e eram chamadas de volta para o departamento. Licença maternidade era um conceito inexistente. Muitas mulheres com graduação em áreas de exatas aceitavam o emprego de computadores no JPL, que requeria apenas conhecimento avançado em matemática, pois sabiam que não conseguiriam emprego em outras empresas e até mesmo em sua própria área.

O filme Hidden Figures (Estrelas Além do Tempo, em português) tenta sanar a obscuridade na qual essas mulheres foram jogadas pelas próprias empresas para as quais trabalhavam. Nele, Taraji P. Henson, Janelle Monáe e Octavia Spencer interpretam Katherine Johnson, Mary Jackson e Dorothy Vaughan, matemáticas e engenheiras aeroespaciais da NASA, responsáveis por calcular as missões Apollo e vários projetos da agência, como o Projeto Mercury. Por serem negras, elas ainda sofreram com a segregação racial, trabalhando em uma área segregada no complexo industrial, chamado de West Area Computers. Elas eram chamadas de "computadores de cor" e eram obrigadas a usar banheiros, ambientes de trabalho e refeitórios diferentes dos colegas brancos. Mas isso não se deu sem resistência delas. Todos os dias, as placar eram removidas do refeitório e dos banheiros, até que alguém misterioso se cansou de colocá-las.

Eu mudava o que podia e o que não podia, eu suportava.

Dorothy Vaughan

Enquanto a NACA (National Advisory Committee for Aeronautics), que viria a se tornar a NASA, acabou com a segregação de banheiros e departamentos nos anos 60, o estado da Virgínia ainda se valia de escolas públicas segregadas e famílias brancas começaram um boicote às escolas, que acabaram fechadas por cinco anos, a chamada Geração Perdida. Para os políticos da época, acabar com a segregação era se igualar aos "comunistas" e desfavorecer os "valores das famílias americanas". As mulheres que começaram como computadores na NACA viriam a se tornar engenheiras da NASA e lá trabalharam por muito tempo, mesmo com o racismo e com o machismo de alguns colegas.


Sempre que alguém disser que mulher não gosta de ciência, explique a respeito dessas mulheres computadores. Toda a ciência aeroespacial do século XX e XXI teve a matemática e a engenharia dessas mulheres. Elas apenas foram esquecidas pelas próprias empresas para as quais trabalhavam e você não aprendeu sobre elas nas aulas de história ou nas aulas de engenharia da faculdade. Felizmente temos escritoras audaciosamente indo onde ninguém jamais esteve para resgatar seus nomes, seus feitos, suas lutas e trazer para nós.

Vida longa e próspera!

Leia também:
The incredible story of NASA's forgotten rocket girls
The first computers were women – these top 8 women shaped space exploration and propelled us beyond the Moon

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20 Jan 13:08

Resenha: Estrelas Além do Tempo, de Margot Lee Shetterly

by Lady Sybylla
Quando descobri a respeito do livro, eu ainda não sabia sobre o filme. Foi quando um pôster com as maravilhosas Janelle Monaé, Taraji P. Henson e Octavia Spencer surgiu que me vi diante de algo primoroso: a história das mulheres negras computadoras da NASA, que ajudaram a colocar astronautas na Lua. Uma história longa, por muito tempo esquecida pelas próprias agências espaciais, que nos mostra que sim, mulheres sempre estiveram lá. Suas histórias é que ficaram no esquecimento. Mas não mais.

Este é um livro do Desafio Literário 2017!

Siga a @Sybylla_

O livro
Margot Lee Shetterly é filha de cientistas. Ela cresceu indo aos piqueniques anuais da NASA, vivia rodeada de pessoas que faziam ciência no dia a dia. Para ela, a ciência sempre teve um rosto feminino e negro, como o dela. Infelizmente, para o resto do mundo, não era assim. O mundo não conhecia os nomes das mulheres negras da West Aerea Computers da NACA, que se tornou a NASA, uma área segregada do complexo militar-industrial em Langley, Virgínia. No auge da segregação racial e com a escassez de mão-de-obra, anúncios começaram a pipocar de que se precisava de mulheres para a área de cálculos e computação do governo.


Dorothy Vaughan foi uma das pioneiras. As cinco primeiras mulheres chegaram na NACA nos anos 30, mas Dorothy, professora de matemática que lutava para sustentar a família, enviou sua candidatura ao cargo, nos anos 40, após a aprovação da Ordem Executiva 8802, que acabava com a segregação nas contratações e entrevistas de emprego. Era o começo do fim da política de "separados mas iguais", que na real mesmo nunca igualou nada, apenas contribuiu para a segregação, periferização e violência contra os negros no país todo. Por incrível que pareça, muita gente comparava a dessegregação com "comunismo" e que isso ia contra "aos valores das famílias americanas". É absurdo, mas devemos lembrar que isso não foi a tanto tempo assim.

Em 1958, cerca de 1/3 dos cientistas soviéticos eram mulheres, enquanto que nos Estados Unidos mulheres e negros ainda não eram adequadamente incorporados à sociedade. Muitas mulheres tiveram que entrar com processos na justiça apenas para serem admitidas nas universidades. E com o lançamento do Sputnik, que deixou todo o mundo boquiaberto com feito notável de engenharia, muitos jornais de comunidades negras e periódicos universitários nos Estados Unidos se perguntavam se excluir parte de sua população de ter acesso à educação e ciência não era o motivo de o país perder a corrida espacial.

O trabalho de Dorothy Vaughan, Mary Jackson e, especialmente, de Katherine Johnson, junto dos movimentos por direitos civis e pelo fim da segregação, começaram a dar à ciência uma face feminina e negra. A NASA ainda tinha um rosto predominantemente masculino e branco, questionado por líderes de movimentos e jornalistas que, animados com a ida de John Glenn para órbita da Terra, criou um frenesi ao redor da agência que não existia antes.

Dorothy, que foi chefe do setor da West Area Computers, tornou-se programadora e começou a treinar outras mulheres a usar o FORTRAN quando os computadores não-humanos começaram a chegar. Mary Jackson nunca deixou seu lado de educadora e divulgadora científica, mesmo trabalhando com túneis de vento, fazendo contato com escolas e universidades, onde palestrava sobre a carreira de cientista da NASA e mostrava que os negros e as mulheres tinham o direito a seguir carreiras, assim como os homens e como os brancos. Katherine Johnson virou uma celebridade e seu rosto estampava reportagens em jornais de comunidades negras, que não apenas a enalteciam, como também se questionavam onde estavam os outros cientistas negros?

A segregação, infelizmente, era praticada com força na Virgínia, mesmo que o governo federal viesse agindo para exterminá-la. Um dia, Mary Jackson estava trabalhando com outras mulheres matemáticas, mas era a única negra do grupo. Quando perguntou onde ficava o banheiro, as colegas riram dela. Não havia banheiro para "gente de cor" naquele prédio.

Comparada às mulheres brancas, ela chegou ao laboratório com a mesma formação, se não mais. Ela se vestia todos os dias como se fosse encontrar o presidente. Treinava suas meninas Bandeirantes para acreditarem que podiam ser o que quisessem e fazia o possível para prevenir que estereótipos negativos de sua raça pudessem moldar as visões pessoais que os negros tinham de si mesmos. Era difícil demais crescer além dos lembretes silenciosos de placas em portas de banheiros e em mesas da cafeteria. Mas ser confrontada com o preconceito tão diretamente, bem ali, no templo da excelência intelectual e do pensamento racional, por algo tão mundano, tão ridículo, tão universal quanto ir ao banheiro... No momento em que as mulheres brancas riram, Mary foi desprovida de seu cargo de matemática profissional para um ser humano de segunda classe, lembrada de que era uma negra, cujo mijo não era bom o bastante para a privada dos brancos.

Eu li o livro em inglês, depois descobri que ela já estava disponível em português e li de novo! Por isso as duas capas lá em cima. A tradução ficou ótima e a edição do ebook ficou melhor até do que o ebook original, com notas acessíveis e uma extensa bibliografia no final. Uma coisa que senti falta foram fotos. Em Rise of The Rocket Girls, temos fotos das incríveis mulheres do JPL e de foguetes. Senti falta disso. Uma coisa ótima da narrativa de Margot é como ela interconectou os eventos da NASA com a luta pela queda da segregação, algo vergonhoso que era apontado como uma das grandes manchas na história dos Estados Unidos já naquela época.

Logo no começo há um aviso sobre certas palavras usadas como preto, de cor, índios, garotas, para tentar retratar da maneira mais fiel aquele momento histórico, por isso não se assuste.

Ficção e realidade
Margot vendeu os direitos do filme quando o livro ainda era um rascunho. As três atrizes ficaram surpresas enquanto liam o roteiro, pois elas mesmas nunca ouviram aqueles nomes, aquela história e a importância de seu trabalho na corrida espacial. Nunca tiveram aulas que falasse desse trabalho tão importante de computação manual que levou os seres humanos ao espaço. A gente não ouve esses nomes, nem vê seus rostos nos filmes que recontam os feitos do período. Eram mulheres e negras, de repente sua competência, trabalho e inteligência ficavam em segundo plano, consideradas inferiores pela cor da pele e pelo gênero.

Hoje as atrizes estão ajudando pessoas que não têm dinheiro a irem aos cinemas para assistirem ao filme. Grupos escolares estão juntando dinheiro para levar turmas inteiras para ver o longa, em alguns casos sendo a primeira experiência desses jovens em um cinema. E fazem isso porque sabem que representatividade importa. E já sabemos bem disso, com histórias como as de Whoopi Goldberg, Lupita Nyong'o e Leslie Jones que ao verem atrizes negras em papel de destaque e protagonistas de suas vidas se inspiraram nelas.

Esse é um daqueles filmes que entrarão para a história, pois seus efeitos ainda serão sentidos nas próximas gerações. Ainda temos uma sociedade racista, misógina e homofóbica, mas são obras como este livro, este longa, que nos dão a outra face, a face da oportunidade.

Quem melhor conhecia a democracia norte-americana que os negros? Eles conheciam cada virtude, vício e limitação, sua voz e contorno, por sua profunda e persistente ausência em suas vidas. A falha em assegurar as bênçãos da democracia era a falha que mais definia sua existência no país. Todo domingo, eles tomavam o rumo de seus santuários e, fervorosamente, pediam a Deus que mandasse um sinal de que a democracia chegaria até eles.

Pontos positivos
Ciência aeroespacial
A vida das mulheres computadoras
Corrida espacial
Pontos negativos
Final abrupto
Não tem fotos


Título: Estrelas Além do Tempo
Título original: Hidden Figures
Autora: Margot Lee Shetterly
Editora: Harper Collins Brasil
Páginas: 352
Ano de lançamento: 2017
Onde comprar: em português e inglês


Avaliação do MS?
O que mais posso dizer além de pedir que você compre o livro e acompanhe a vida dessas incríveis mulheres? O que mais posso pedir além de esperar 2 de fevereiro para ver o longa, que é quando ele estreia no Brasil? Não podemos mais ignorar essas mulheres. Seus feitos definiram todo um capítulo da história humana. Toda a ciência aeroespacial dos séculos XX e XXI contaram com elas. O reconhecimento demorou, mas chegou. Vamos celebrá-las!

Até mais!

Já que você chegou aqui...
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20 Jan 13:04

Resenha: Rise of the Rocket Girls, de Nathalia Holt

by Lady Sybylla
Antes de serem máquinas, os computadores eram mulheres com formação em matemática ou engenharia, ou apenas um profundo conhecimento de cálculos e logaritmos, que tinham aulas extras de matemática por pura diversão na escola e na faculdade. Elas foram contratadas às centenas pelas agências espaciais no esforço de guerra e depois para vencer a corrida espacial. Por muito tempo não soubemos que elas estavam lá, pois suas histórias foram esquecidas. Mas isso mudou.

Este é um livro do Desafio Literário 2017!

Siga a @Sybylla_

O livro
Nathalia Holt, bioquímica e escritora, estava tentando decidir o nome da filha que estava por vir. Ela então escolheu um nome que achava bonito, Eleanor Frances, e jogou o nome no Google para ver se a combinação era boa. Ela então caiu na primeira página da Wikipedia que tratava de Eleanor Frances Helin, cientista da NASA/JPL, chefe do departamento que rastreava asteroides próximos à Terra. Nathalia ficou surpresa por nunca ter ouvido seu nome antes. Quando que ela trabalhou na NASA? Existiam mais mulheres trabalhando para as agências espaciais? Como é que ninguém falava delas?


Sua busca por mais informações a respeito de Eleanor Frances a levou a descobrir a história oculta do público sobre as centenas de mulheres que passaram pelos departamento de computação do JPL. Elas foram recrutadas nos anos 40 e 50 para fazerem os cálculos críticos para o funcionamento de foguetes e mísseis, depois para os primeiros satélites, em seguida para as primeiras missões a Vênus, Mercúrio, Marte e para os planetas gasosos, para as missões não tripuladas à Lua e para as sondas que investigaram asteroides e foguetes. Toda a ciência aeroespacial do século XX e XXI tiveram os cálculos, a maioria à mão, dessas mulheres. Então, onde elas estavam?

A busca foi intensa. Nathalia fez pela internet o que podia, mas na maioria das vezes precisou ir até o departamento pessoal das agências para desenterrar fotos e os arquivos delas. Assim que conseguiu os nomes, correu para a lista telefônica, ligando para dez mulheres diferentes até achar aquela dos arquivos. E assim, ela conseguiu o contato com todas e as entrevistou.

O livro é dividido em quatro partes: Parte I, anos 40; Parte II, anos 50; Parte III anos 60 e; Parte IV, dos anos 70 até os dias de hoje. Na primeira parte temos a formação do JPL, derivado de um grupo de estudantes universitários chamado de Suicide Squad, por suas experiências perigosas e, muitas vezes, desastrosas, com propelentes químicos. Brincar com foguetes era coisa de fã de ficção científica, não era ciência séria. Um professor chegou a dizer que aquilo era bobagem, porque foguetes nunca funcionaram no espaço já que os propelentes perdem eficiência a 1300 metros de altitude. Porém os experimentos do grupo começaram a dar resultado e o Exército resolveu financiar a equipe, criando assim o Air Corps Jet Propulsion Research Project, que viria a se tornar o Jet Propulsion Laboratory, JPL.

Usar computadores humanos não era algo novo. Já na Primeira Guerra Mundial, homens e mulheres faziam cálculos de alcance de rifles, metralhadoras e morteiros no campo de batalha. Em 1700, vários computadores foram usados para calcular a trajetória do Cometa Halley. Esses computadores eram mal pagos, trabalhavam muito e eram pouco valorizados pelas empresas e pelo governo. Com a criação do JPL e com muitos homens na Europa lutando, sobravam esses empregos para mulheres e elas foram recrutadas, muitas vezes, direto nos campi das universidades. Com o tempo, as recrutadoras escolhiam apenas mulheres.

Departamento de Computação da JPL, anos 40. Caltech/NASA/JPL

Entrelaçados com as histórias dessas mulheres, temos os eventos históricos acontecendo, como a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, a derrocada da Alemanha, a vinda de cientistas nazistas para trabalharem na indústria aeroespacial, como Wernher Von Braun, o satélite soviético Sputnik e a ida de Yuri Gagarin ao espaço. Temos também a luta dessas mulheres em tentar conciliar carreira, com maternidade e com o casamento. Era injusto elas terem que abandonar o emprego que amavam para terem que se casar e ter filhos, pois não havia o conceito de licença maternidade nessa época.

A maioria era simplesmente mandada embora quando estava grávida e retornava anos depois porque precisavam de seu conhecimento. Muitas se divorciaram, algo não muito bem visto, para que pudessem continuar trabalhando. Apenas 25% das mulheres casadas e mãe de filhos com menos de 18 anos estavam no mercado de trabalho. O número cresceu nos anos após a Segunda Guerra, mas elas ainda enfrentavam uma grande diferença de salário quando comparadas aos homens e não tinham nenhum apoio federal para licença maternidade.

Além das vidas pessoais dessas mulheres e de seu trabalho, o livro aborda a burocracia para se conseguir financiamento em muitos projetos importantes, como o do Hubble e como os trabalhos delas ficaram anos engavetados até que saíssem do papel. A chegada de computadores eletrônicos não as afastou dos laboratórios, ao contrário, elas se tornaram programadoras e, posteriormente, engenheiras.

Encapsulado em alumínio, um tesouro dorme nos bancos de memória da Voyager. Escrito em apenas 40KB de memória, milhares de vezes menor que a capacidade de um iPhone, estão programas escritos à mão, com lápis e papel por um extraordinário grupo de mulheres. Estes programas representam apenas uma pequena parte de seu trabalho, mas foram construídos no ápice de suas carreiras. Estes programas estão vagando pela poeira espacial. São o legado destas mulheres escrito nas estrelas.

Gostaria muito de ver este livro traduzido para o português, pois ele é rico demais em informações as quais normalmente nunca teríamos acesso. O livro conta com algumas fotos no final, mas gostaria de ver mais fotos dessas mulheres pioneiras ao longo do livro.

Ficção e realidade
Em todos os filmes que vi sobre a corrida espacial e a conquista da Lua, nunca vi essas mulheres sendo representadas. Nem mesmo na festa de 50 anos do projeto Explorer 1, do JPL elas foram convidadas, em janeiro de 2008, uma festa que acontecia a pouco quilômetros da casa de Barbara Paulson. E Barbara estava na sala de controle na noite do lançamento do Explorer 1. Ou seja, não é como se ela não fizesse parte.

Madrugada a dentro, essas mulheres ficavam nas salas de controle de missões, fazendo cálculos à mão para assegurar que o foguete, o satélite ou a sonda estavam na direção e caminho certos. Muitas horas foram sacrificadas, horas de descanso, horas com os filhos, para que as missões foram bem sucedidas e nunca seus nomes foram mencionados nas aulas de história quando se falava da corrida espacial. Mulheres fazem parte da computação desde seu início. Em 1984, 37% dos alunos de graduação em computação eram mulheres. Hoje o número é menor que 18%. Elas foram afastadas pela má remuneração, por serem mulheres e pela falta de reconhecimento de suas habilidades.

Pontos positivos
Ciência aeroespacial
A vida das mulheres computadores
Biografias
Pontos negativos
Em inglês
Poucas fotos


Título: Rise of the Rocket Girls
Autora: Nathalia Holt
Editora: Large Print Press
Páginas: 352
Ano de lançamento: 2017
Onde comprar: Amazon


Avaliação do MS?
Fica aqui o meu pedido para que este livro receba uma carinhosa tradução. Me contratem, eu faço! Pois é um livro especial, bem escrito, informativo, que nos leva em uma viagem de décadas, até os dias de hoje, ressaltando a importância do trabalho dessas mulheres para tantas missões espaciais que adoramos e para o avanço da ciência em si. Lembrar das pessoas e de seus feitos é fazê-las viver, para sempre. Não podemos deixar que seus nomes sejam novamente esquecidos. Leitura obrigatória!

Até mais!

Já que você chegou aqui...
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20 Jan 12:02

A Folha criminalizou as palestras de Lula, mas trata como ‘possível conflito de interesse’ as de Doria. Por Donato

by Mauro Donato
Palmas para ele que ele merece

Palmas para ele que ele merece

 

Inevitável traçar o paralelo: palestras e propriedades.

O Lide, uma das empresas do prefeito João Doria, está em campanha de vendas oferecendo palestra dele mesmo. Será um almoço com o prefeito. Para sentar-se à mesa com ele e ouvir sua explanação do tema “O impacto de uma gestão eficiente na cidade de São Paulo”, é necessário desembolsar 50 mil golpes (R$ 50.000,00).

No meio empresarial, o Lide é conhecido por seu apetite. Empresários contam que quando demoravam um pouco para retornar com a aprovação ou mesmo declinavam de uma abordagem, o próprio Doria ligava para reforçar o pedido de patrocínio. No final do ano passado o Lide promoveu um jantar de natal e arrebanhou nada menos que R$ 1,81 milhão.

Mas vamos aos paralelos com a história recente. Lula foi apedrejado por proferir palestras. Os argumentos iam desde a desconfiança de que elas realmente teriam sido realizadas, lançaram suspeitas sobre lavagem de dinheiro e propiciaram as chacotas de sempre a respeito de sua competência em face a pouca escolaridade.

Com Doria, a mídia ‘passa o pano’. Haveria, talvez, quem sabe, um ‘possível’ conflito de interesses. Doria é o prefeito, a empresa que está organizando é dele. Isso não basta?

Aqui vamos ao segundo paralelo mencionado no início do artigo. Ainda durante a campanha, Doria passou o controle acionário de suas empresas – o Lide incluso – a seus filhos. Em resumo, ao ser questionado sobre o ‘possível conflito de interesses’, o prefeito irá dizer: “Mas a empresa não é minha” (Gustavo Ene, CEO do Lide, já tem fornecido exatamente esta explicação).

Alguém se lembra de todo o escândalo feito em cima do sítio de Atibaia e do apartamento do Guarujá em torno de Lula? O barulho foi tamanho que colaborou com o impeachment de quem nada tinha a ver com os patinhos-pedalinhos.

Esconder patrimônio foi então visto pelo povo brasileiro como um disparate, um crime inafiançável, digno de fuzilamento… desde que seja com Lula. Com Doria é diferente. Ele passou para os filhos mas não é dele, entendeu?

Essa safra de não-políticos que esteve se elegendo devido o cansaço popular com a política tradicional (que no caso de Doria é um grande embuste, mais um caso de propaganda enganosa, ele é a terceira geração de uma família de políticos, vovô e papai já o eram) precisa de muito mais transparência do que políticos carreiristas.

Donald Trump, que assumirá a presidência dos EUA amanhã, terá poder de decisão sobre assuntos que podem beneficiar diretamente suas muitas empresas (as Organizações Trump têm centenas de empresas, holdings, investimentos, marcas e outros negócios).

Adivinhe o que fez Trump? Passou o controle administrativo do grupo para os filhos. No papel, obviamente. Uma forte pressão ocorre para que ele liquide suas empresas e negócios. Terá êxito?

Por aqui, quais as garantias o prefeito Doria pode dar de que essas empresas ‘parceiras’, ‘patrocinadoras’, ‘apoiadoras’ de seus almoços de 50 mil reais não irão ser beneficiadas em projetos e serviços para a prefeitura?

Em seu perfil, o LIDE se apresenta como uma ferramenta para o ‘fortalecimento da livre iniciativa do desenvolvimento econômico e social, assim como a defesa dos princípios éticos de governança corporativa no setor público e privado’. Ok, ótimo. Seu presidente Doria já invadiu área pública para ampliar sua casa de veraneio. Ético, não?

 

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16 Jan 18:08

Defesa denuncia novo abuso: Moro produz provas contra Lula no lugar da força-tarefa

by Diario do Centro do Mundo
Ele

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Publicado no JornalGGN.

POR CÍNTIA ALVES.

 

“Os fatos que demonstram a ausência de um julgamento justo e imparcial” para Lula “se avolumam a cada dia”. É o que diz a defesa do ex-presidente em uma petição apresentada ao juiz Sergio Moro no dia 5 de dezembro de 2016, em virtude da solicitação que o magistrado fez à Justiça de Brasília para receber informações de duas ações penais que lá tramitam, alheias ao caso triplex.

Na petição, os advogados Cristiano Zanin, Roberto Teixeira, José Roberto Batochio e Juarez Cirino assinalam que Moro ultrapassou o sinal vermelho no julgamento de Lula mais uma vez. Agora, assumindo o papel da acusação, que deveria ser exercido exclusivamente pelo Ministério Público Federal.

Moro, “de ofício”, solicitou e inseriu no julgamento do caso triplex provas que derivam das ações penais que correm em Brasília por suposto tráfico de influência e obstrução da Lava Jato (tentativa de silenciar o delator Nestor Cerveró). Em Curitiba, Lula é acusado de receber vantagens indevidas da OAS de maneira velada, como na posse oculta de um apartamento no Guarujá.

Para a defesa de Lula, como os casos não possuem qualquer conexão, Moro deveria autorizar que os dados obtidos em Brasília fossem “desentranhados” do caso triplex, porque “ferem o sistema acusatório”. “Essa situação, à toda evidência, colide com o sistema acusatório adotado pelo direito pátrio”, disseram na petição.

A defesa citou um trecho da literatura de Aury Lopes Jr que diz que o juiz “deve manter uma posição de alheamento, afastamento da arena das partes, ao longo de todo o processo. Deve-se descarregar o juiz de atividades inerentes às partes, para assegurar sua imparcialidade.”

Uma decisão proferida em 2013 pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, apto a revisar as decisões de Moro na Lava Jato, também foi destacada pela banca de advogados:

“Em face do princípio acusatório que deve reger o processo penal brasileiro, a iniciativa e consequente ônus probatório deve ficar prioritariamente nas mãos das partes e apenas supletivamente nas mãos do órgão jurisdicional. O artigo 156, II, do Código Penal expressa que a determinação, por parte do magistrado, de diligências, antes de proferida a sentença, é permitida nos casos em que se pretende dirimir dúvida sobre ponto relevante, o que não se confunde com substituir a atividade do órgão acusatório, o qual, in casu, não requereu a produção de nenhuma prova que corroborasse a sua tese.”

Os advogados ainda lembraram que até mesmo o relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, ministro Teori Zavascki, avaliou que uma das ações penais, a que envolve a tentativa de evitar que Cerveró aceitasse um acordo de delação premiada, nada tem a ver com as investigações da Lava Jato em Curitiba. Por isso mesmo a ação penal foi transferida para Brasília, e não para a 13ª Vara Federal.

O pleito da defesa foi no sentido de que Moro não fizesse uso de dados alheios ao caso triplex em seu julgamento. Mas, se fosse insistir nisso, que ao menos solicitasse, por meio de ofício, ao juízo da 10ª Vara Criminal Federal do Distrito Federal “os vídeos e áudios relativos aos termos de depoimento já prestados pelas testemunhas arroladas — os quais ainda não estão disponíveis para acesso da defesa”.

Esse material, segundo a defesa, favorece Lula, pois mostra que as testemunhas desmentiram as delações em que o ex-presidente aparece como mentor do esquema para obstruir a Lava Jato.

Moro, contudo, negou os pedidos da defesa de Lula argumentando que “é praxe na Justiça a solicitação de antecedentes dos acusados e informações sobre a situação atual de outros processos pelos quais respondem, considerando os possíveis reflexos jurídicos. Então não se trata sequer de determinação da produção de prova de ofício.” Ele citou o artigo 156 do Código Penal, que permite ao magistrado a produção de provas de ofício, desde que para dirimir dúvidas.

O juiz também respondeu que se a defesa quer acesso às provas em Brasília que inocentam Lula, que corra atrás sozinha. “(…) poderá a Defesa, também habilitada naqueles autos, providenciar diretamente a juntada da referida prova, não sendo necessária intervenção deste Juízo. Caso haja indeferimento por aquele Juízo, aí sim caberá provocação deste.”

Em nota publicada no portal A Verdade de Lula, os advogados apontaram que “só em um processo guiado pelo ‘lawfare’ o juiz se sente autorizado a produzir de ofício provas de interesse da acusação e negar a contraprova requerida pela defesa.”

Para a banca, negar a produção de provas favoráveis a Lula é um processo “manifestamente ilegítimo.”

 

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11 Jan 18:01

MASCUS ESTÃO CONSEGUINDO DERRUBAR UM DOS MAIORES BLOGS FEMINISTAS DO BRASIL

by lola
Ou só uma leitora (anônima) reparou e avisou, ou ninguém fora os meus inimiguinhos acessa mais este blog. Apesar das 400 mil visualizações por mês que o blog ainda tem, talvez todas venham dos haters (porque esses sim são fiéis).
Vocês notaram que grande parte das imagens do blog sumiram? Incluindo o cabeçalho que continha uma foto minha de quando eu era criança? Se vocês clicarem em posts mais antigos, a mesma coisa: várias imagens (a maioria) foram substituídas por um ponto de exclamação.
Anteontem, o Google suspendeu a minha conta. Uma conta que eu tinha há nove anos. E pouco depois as imagens foram desaparecendo. Eu escrevi pro Google pedindo pra devolverem minha conta e explicando o que está acontecendo.
O que está acontecendo é o de sempre: ataques orquestrados. Desta vez os mascus decidiram denunciar meu blog pro Google, Blogspot, Blogger, sei lá. E a denúncia em si é o que menos importa. Eles disseram que estão denunciando por direitos autorais, difamação, pedofilia, whatever. Começaram a ação no fim de semana, e sem dúvida está dando certo. Eles nem devem ser muitos, mas usam script, o que resulta num grande número de denúncias. O tópico está "pinado" (ou seja, quando você entra no chan deles, é a primeira coisa que aparece) desde anteontem no Dogolachan, o fórum anônimo do Marcelo, condenado em 2012 por criar e manter um site de ódio. Desde que ele saiu da cadeia, em 2013, voltou a fazer exatamente o mesmo que fazia antes.
Ao mesmo tempo que denunciam o blog, continuam atacando com doxxing e mil e uma ameaças. Enquanto isso, outros reaças (não mascus) fizeram (mais uma) conta falsa no meu nome no Twitter, e continuam enviando (já faz dez dias) mensagens de cunho sexual também no meu nome para centenas de crianças e adolescentes de uma rede social que eu sequer sabia que existia. E isso que estou falando apenas de ações em grupo. Não vou falar das ameaças e ofensas individuais que chegam todos os dias, de todos os lados. 
Olha, tá difícil. 
Mas ficando nas denúncias dos mascus pra derrubar o blog, hoje dois anônimos deixaram esses comentários no meu blog:

- E aí Dolores, tudo bem? Ontem eu denunciei duas postagens do seu blog, e para a minha surpresa, o Google apagou diversas fotos de MUITOS posts seus cujos eu nem sabia da existência, me ajudando e encurtando em horas o meu hobbie (ao qual me dedico com a avidez de um trabalho). Saiba que nós, Sanctvms da DogolaCorps S.A, não iremos parar. Nós iremos te destruir: 2017 é seu último ano, pelo menos na blogosfera.
- Isso é pra você aprender que se NÓS, HOMENS, não quisermos, NADA vai pra frente, inclusive o direito de opinião de vocês. E se prepara pois estamos aprontando contra seu blog, já derrubamos uma das suas contas e as restantes não passam desse mês. 

E essas mensagens eu peguei no chan:
- Usem webproxy para o googler ver que foi outro IP que denunciou o blog. Quanto mais IPs diferentes denunciando, pior para o blog dela que vai ficar mais malvisto pelo google.
- Denunciei ontem e hoje continuarei, vou espalhar isso em grupos coxinhas no Cancro. [eu acho que Cancro é Facebook]
- Sem esse blog, a fantasia megalomaníaca da Dolores acaba. Ela vai perder onde pregar suas merdas e vai ter um puta trabalho pra recuperar o pouco respeito que conseguiu em 10 anos: seria a hora perfeita pra criar um false-flag e jogar nela. [false flags são sites falsos em nome da pessoa, como fizeram comigo em 2015 e 2016, quando Marcelo criou um site ridículo sobre aborto no meu nome]
-  Ela está usando a segunda conta para postar, hue. Vamos derruba-la também. Se derrubar as contas é GAME OVER.
- Tem que cair as três contas antes que a Jabba possa agir. Então o blog ficará congelado para sempre.
- Já estou desenvolvendo um script com o SELENIUM para automatizar os reports.

Por aí vai.
É completamente absurdo que mascus (gente que posta pedofilia, gore, todo tipo de preconceito possível, promete atentados a universidades, faz doxxing para expor e atacar pessoas) estejam denunciando o MEU blog, que é um blog de direitos humanos, e estejam sendo ouvidos. Desculpa, mas que tipo de empresa não sabe que ativistas de direitos humanos são intensamente alvejados por grupos de ódio?
Este é um dos maiores blogs feministas do Brasil. Pelas contas do próprio Google, o blog contabiliza 35 milhões de visualizações desde sua criação, em janeiro de 2008, ou desde que o Google começou a contar, que eu não sei quando foi. São mais de 4.200 posts, 260 mil comentários. São números bastante expressivos para um blog pessoal, mantido por uma só pessoa (eu), e que praticamente não dá qualquer retorno financeiro. 
Mas basta um grupinho de uma dúzia de mascus se reunirem com scripts e denunciarem em massa o blog que pronto, o Google acata. E eu nem sem qual regra a minha foto de criança no cabeçalho do blog está infringindo.
Bom, gente, se mascus conseguirem derrubar o blog, é prova que eles venceram. É prova de que misóginos mandam. É prova de que a internet é uma terra sem lei, um playground de criminosos. E é um forte indício de que o feminismo não tem vez no Brasil. 
Se conseguirem derrubar o blog, eu jogo a toalha mesmo. Não farei outro blog, não farei mais nada além da minha profissão, que já ocupa um bocado do meu tempo. O problema é que, mesmo sem blog, os ataques continuarão -- não só contra mim como contra inúmeras outras mulheres, principalmente feministas. E aí eu já não tenho mais como me defender. 
Mas se ninguém está prestando atenção, se ninguém liga, é também sinal de que o blog já deu o que tinha que dar. 
Não vou colocar imagens no post porque o Google está removendo as imagens de qualquer jeito.

UPDATE: Pessoas queridas, obrigada pelo apoio. Recebi vários emails de como transferir o blog pra um lugar pago ou pra outro provedor. O que acontece é que não quero mudar de endereço. Estou aqui há 9 anos e só queria continuar. Creio que a melhor sugestão é alertar o Google (no Twitter, @googlebrasil) de que um dos maiores blogs feministas do país está sob ataques orquestrados de misóginos e que, por contra dessas denúncias geradas por script, ele suspendeu uma das minhas duas contas e removeu inúmeras imagens que coloquei no blog ao longo de nove anos. Um leitor sugeriu criar tópicos nesta página de suporte do Google. 
Leia a resolução deste drama: Vencemos! Como o Google devolveu meu blog.
11 Jan 17:44

Assange: “Fragilizar a Petrobras é uma forma de fortalecer os militares como centro de gravidade da organização do Estado”

by Conceição Lemes

assange geral

Uma tarde com Julian Assange, o hacker que tirou o sono do governo americano

Veja a íntegra da entrevista exclusiva concedida por Julian Assange ao editor do Nocaute, Fernando Morais.

por Fernando Morais, em Nocaute, 10/01/2017

Foi quase um ano de espera. Desde o começo de 2016 amigos europeus e latino-americanos tentavam me ajudar a conseguir uma entrevista jornalística com o cyber ativista australiano Julian Assange, exilado desde 2012 na elegante e modesta embaixada do Equador, em Londres.

Cheguei a ter um contato enviesado e impessoal com Assange, ao tentar armar um encontro dele com o ex-presidente Lula, que viajaria a Londres em abril de 2013. Lula topou, Assange topou, o pessoal diplomático equatoriano na Inglaterra também apoiou a iniciativa, mas circunstâncias que não vêm ao caso acabaram por frustrar a visita de Lula.

Quando comecei a montar o Nocaute, no ano passado, adotei uma ideia fixa: a principal matéria do número de estreia do blog seria uma entrevista com Julian Assange. Bati em portas de intermediários em vários países até que, em meados do ano, chegou a luz verde: ele ia me receber. E a notícia boa coincidia com os últimos “zeros” (ou “demos” ou “betas”), as versões experimentais do blog, só acessíveis ao público interno.

Aí começaram a adiar a entrevista. E nós tendo que procrastinar o lançamento do Nocaute. Pelo menos na minha cabeça já estava decidido: sem Assange não tinha estreia.

A notícia ruim chegou em setembro: o mega-hacker mantinha a palavra, ia me conceder a entrevista, mas não antes do dia 8 de novembro, data das eleições presidenciais norte-americanas. Demos um cavalo-de-pau na ideia original, convidamos o ex-presidente Lula e fizemos com ele a capa do número 1 de Nocaute, lançado na noite de 29 de setembro.

Abertas as urnas e eleito Donald Trump, voltei a cobrar a entrevista, que acabou sendo marcada para a tarde de 27 de dezembro. Uma gelada e úmida tarde londrina. De calça azul marinho e agasalho de lã abotoado até o pescoço, o varapau de um metro e noventa apareceu sorridente, com a barba e os cabelos longos, mais pálido do que sugerem suas fotos.

Julian Assange é um homem de fala suave e gestos contidos, que em nada lembra o carbonário pintado por alguns veículos. Falou durante três horas sobre Trump, Hillary, Michel Temer, manifestações contra Dilma, Petrobras e, claro, espionagem. A gravação foi interrompida algumas vezes para que ele pudesse tomar um pouco de água e ciscar pedaços de um croissant trazido num saquinho de papel por sua assistente.

Ao final, fez uma única exigência: que a entrevista não fosse divulgada antes de determinada data de janeiro.

A seguir, os vídeos com a entrevista e a transcrição da fala de Assange.

PS.: Os gastos com este trabalho jornalístico – passagens, hotel etc. – foram custeados por contribuições de apoiadores do Nocaute.

Bloco 1

Fernando Morais: Há dez anos nascia o WikiLeaks, a mais poderosa e inexpugnável máquina de divulgação de segredos de estado de que se tem notícias em todos os tempos. Há quatro anos está aqui nesse pequeno prédio no centro de Londres onde funciona a embaixada do Equador, o criador dessa máquina, o australiano Julian Assange. Assange está exilado na embaixada do Equador, a poucos metros da Harrods, paraíso mundial para os turistas que vêm aqui para fazer compras. Vamos entrar aqui na embaixada para fazer uma entrevista exclusiva com Julian Assange para o Nocaute. Venha conosco!

Fernando Morais: Em primeiro lugar muito obrigado pela deferência de ter me recebido aqui. É uma honra estar aqui com você, apesar das circunstâncias.

 Você deve saber que os netos dos netos dos seus netos e os netos dos netos dos meus netos, os seus na Austrália e o meus no Brasil, vão ler nos livros de História, daqui a cem anos, o responsável pela eleição do Trump para a Presidência dos EUA foi o senhor. Não importa que isso não seja verdade: como o senhor se sente em relação a isso?

Assange: Penso que é muita ingenuidade acreditar que muda tudo tendo este ou aquele presidente no comando. Sim, o Trump foi eleito e nomeou Rex Tillerson secretário de Estado, e Rex é o CEO da Exxon. Mas, quem foram os segundos maiores frequentadores da Casa Branca nos oito anos do governo Obama? Os lobistas da Exxon.

O que a Hillary Clinton fazia quando era secretária de Estado? Uma das coisas principais era pressionar a favor dos interesses das empresas de petróleo. Acho que não podemos ser muito ingênuos a respeito.

Os Estados Unidos vão continuar cometendo todos tipos de crimes contra seu próprio povo e também no exterior. Vão cometer erros e crimes graves intencionalmente. Sempre foi assim. Porque os governos representam as facções dominantes da sociedade americana, que são as grandes empresas multinacionais.

A questão é: que tipo de símbolo é isso? O que representa esse fenômeno? Com Rex Tillerson como chefe do Departamento de Estado fica muito fácil saber o que eles querem fazer. Era mais difícil quando Hillary Clinton era secretária de Estado.

Eu critico o governo Trump, engajado em causas capitalistas, fazendo acordos escusos para amigos. Mas como se trata de uma classe de bilionários, é uma crítica fácil de se fazer.

Mas se olharmos o gabinete do Obama, veremos dezenas de bilionários. Há bilionários no gabinete do Trump como havia no do Obama.

Então não estou certo de que as coisas sejam tão diferentes, e retoricamente a situação é muito mais fácil de se entender.

Além disso, o Trump desestabilizou o que era uma consolidação crescente de poder de Obama desde os tempos de Clinton. Essa consolidação foi incomodada. Um novo grupo está emergindo no gabinete do Trump. Mas ele tem muitos inimigos, tem a maioria da imprensa americana como sua inimiga, tem a estrutura montada pelo Obama e terá que encontrar seu próprio caminho. Trump desestabilizou o estado de poder que funcionava. Trump trouxe muita gente que é bilionária, com um caráter muito forte, para seu gabinete.

Por que as pessoas se tornam bilionárias? Parte da explicação é que elas não querem mais trabalhar pra ninguém. Mas essas pessoas disseram que trabalhariam para o Trump. Essa é uma questão muito interessante.

A partir do momento que se tiver uma situação de independência dessas pessoas que formam o gabinete, com o tempo alguns serão ejetados e outros começarão uma carreira para solidificar aquela estrutura. Mas por um bom tempo, talvez um ano ou dois, haverá muitas oportunidades de mudar a percepção do que o governo americano faz, e conseguir algumas mudanças de verdade a partir disso.

Algumas áreas como a política externa, por exemplo, com certeza terão mudanças. Algumas pra melhor, outras para pior.

Sim, o governo Trump cometerá todo tipo de crimes, mas definitivamente os mesmos crimes cometidos pelo governo da Hillary Clinton. Só que agora o processo será mais visível e as críticas internas serão muito mais intensas.

Vamos imaginar que haja outra guerra por petróleo. Quem irá se opor a ela internacionalmente? Se você olhar para a estrutura da sociedade europeia, a maioria irá criticar mais facilmente o governo americano do que se a Hillary Clinton estivesse conduzindo a guerra. Se você vive num país vítima da guerra, você terá ajuda internacional mais facilmente se a administração Trump ameaçar invadir seu país.

Da mesma forma no âmbito doméstico. Trump pode ter mais oposição interna para essa guerra. O New York Times faz oposição a Trump, assim como a CNN e como quatro dos cinco grandes conglomerados de mídia dos EUA. Então, é mais fácil conseguir uma resistência doméstica contra essa política. Se fosse nos moldes antigos, essa oposição estaria fora do jogo, incluindo a CNN. Vamos ver se os cinco grupos de mídia dos EUA fazem um acordo para sair de cena, mas no momento eles estão fazendo campanha contra o Trump. Então ficará mais fácil conseguir uma resistência doméstica contra essa política.

Há um isolamento de forças nesse gabinete. Provavelmente essa força isolada vai mudar com o tempo. Provavelmente a CIA e os complexos militares vão se aproximar. A Exxon, Chevron e outras companhias com interesses no exterior vão impor suas demandas. A indústria de armas dirá: “Temos de aumentar nossas vendas de armamentos. As pessoas precisam ver nosso jatos bombardeando alguma coisa ou não os comprarão.”

Com o tempo dá pra se preocupar. Mas neste momento é muito fácil criticar dentro e fora dos EUA qualquer coisa efetivamente perigosa que a administração Trump faça. Então não é tão ruim.

Fernando Morais: Que evidências o WikiLeaks tem do envolvimento internacional na derrubada da presidente Dilma Rousseff no Brasil?

Assange: Não publicamos nada diretamente a respeito, mas muita coisa sobre as partes envolvidas, como eles agiram historicamente – incluindo o presidente Temer e outras pessoas do seu gabinete. A maioria trata de contatos com a embaixada americana. Vindo à embaixada americana, trazendo briefings e tentando fazer lobby para que ela apoie um partido ou outro.

Fernando Morais: Na sua opinião o que aconteceu no Brasil foi um processo de impeachment ou um golpe de estado no estilo Século 21?

Assange: Algo entre as duas coisas, um golpe constitucional. Um golpe político, como pode ser chamado.

Fernando: Há alguma evidência concreta do que a CIA…

 Assange: Na Austrália, meu país natal, houve um golpe que foi esquecido, que aconteceu de forma muito semelhante ao que ocorreu com Dilma e Temer no Brasil. Foi em 1975, um processo muito parecido, lá também um partido de esquerda estava no poder.

Fazia dois anos que estavam no poder e nunca tinham estado tanto tempo antes. Aí os setores de negócios e de inteligência, aliados aos governos americano e britânico, se uniram e usaram um truque constitucional para derrubar o governo e instalar a oposição.

Fernando: À luz do que o WikiLeaks tornou público, é possível identificar exatamente o que a NSA (National Security Agency) buscava ao fazer espionagem e escutas telefônicas no Brasil?

Assange: Sim, as publicações das escutas sobre o Brasil. Nós publicamos que não apenas a NSA estava espionando determinada companhia ou pessoa, mas vazamos a cadeia completa de alvos. Portanto, temos a base da atividade de coleta de dados. Se você pensa na NSA, ela não decide políticas mas faz espionagem sim. Hackeia satélites, coloca grampos em fibras óticas, etc.

Isso se dá no nível operacional, não no político. No nível político, o (DNI) Director Nacional Intelligency diz quais são prioridades gerais do que os Estados Unidos querem coletar [de informação] e aí acionam a NSA e a CIA, o National Reconnaissance Office [agência de inteligência norte-americana que projeta, constrói e opera os satélites espiões para o governo dos EUA] e coletam de volta a informação.

Nas nossas publicações você pode ver que o gabinete de um determinado ministro, a Petrobras e o presidente da República são alvo de espionagem por razões políticas ou econômicas porque essas são as razões listadas de acordo com as designações dadas.

Assange: Então a busca no Brasil é uma mistura envolvendo assuntos políticos, tentando entender a política no Brasil, que rumo gostaria que tomasse, o que gosta, o que não gosta. E compreender a economia brasileira.

Ada: Existem evidências de informantes que imprimimos a respeito de conversas do vice-presidente Temer.

Assange: É essa publicação dos grampos no Brasil, com números de telefone detalhados, as informações pedidas. Isto é a política de diretrizes dos EUA: por que eles querem essas informações e qual a necessidade delas? Isto explica, resumidamente, o porquê deles quererem essas informações. Espionando Dilma por razões políticas. O gabinete da presidente, dos ministros etc. Isto é para entender como funcionam as finanças do país. Então é uma mistura.

Por razões militares, ocasionalmente espionam o Exército brasileiro. Todos sabem que isso é o que os serviços de inteligência fazem. O que há de novo nisso é o grau de interesse político, econômico e financeiro, não apenas uma parte pequena da atividade. Na verdade, se analisarmos o orçamento da NSA, cerca de 50% de toda sua atividade é pra entender qual o rumo que um país ou gabinete presidencial está tomando politicamente e economicamente – para que os EUA possam reagir e conduzi-los a um caminho específico. Na lista das espionáveis estão as importantes companhias energéticas.

Fernando: O WikiLeaks divulga um milhão de documentos por ano. Você certamente não se lembra de tudo, mas dos documentos do WikiLeaks o que é sabido a respeito da relação do então vice-presidente Temer com os serviços de inteligência estrangeiros, particularmente norte americanos?

Assange: Nós publicamos várias mensagens sobre isso. Uma em particular é de janeiro de 2006, em que ele vai à embaixada americana. A mensagem é somente a respeito das informações fornecidas por Michel Temer, suas visões políticas e as estratégias do seu partido.

Isso mostra um grau um pouco preocupante de conforto dele com a embaixada americana. O que ele terá como retorno? Ele está claramente dando informações internas à embaixada dos EUA por alguma razão. Provavelmente para pedir algum favor aos Estados Unidos, talvez para receber informações deles em retorno.

Ele foi à embaixada americana várias vezes pra falar. A mensagem que publicamos em janeiro é só sobre essas comunicações. Frequentemente a embaixada retorna contato a respeito de alguma questão e consultam diversos informantes de partidos diferentes e juntam essa informação.

Temer enviou informações várias vezes para a embaixada americana, mas outros também o fizeram. Gente do seu gabinete e também gente de dentro do PT. Então, pessoalmente, eu acho que dada a natureza da relação do Brasil com os Estados Unidos e considerando a intenção do departamento de Estado americano em maximizar os interesses da Chevron e ExxonMobil, estão provendo aos EUA inteligência política interna sobre o que se passa politicamente no Brasil.

Com essas informações o Departamento de Estado pode fazer manobras em defesa dos interesses das grandes companhias americanas de petróleo. O que não necessariamente está alinhado com os interesses do Brasil.

Dependendo de como funciona uma sociedade, pode-se permitir que qualquer pessoa vá a uma embaixada e passe informações internas. Mas a maioria das sociedades que sobrevivem tem regras contra isso. Regras que proíbem que informações políticas delicadas sejam dadas a outro estado.

Ada: E há também há a sensação de que ele está insatisfeito com a política anti-neoliberal do PT e deseja se alinhar com o PSDB.

Assange: É o que tem acontecido agora. Se você ler o que publicamos em 2006, verá que a situação política atual está sendo construída há muito tempo. É interessante ver como o posicionamento das partes, suas visões de mundo e quem são seus aliados, não mudou tanto, como pode se ver.

Bloco 2

Fernando: Você deve saber que o Brasil descobriu enormes jazidas de petróleo do pré-sal no oceano e isso daria muito dinheiro ao Brasil mesmo o barril a 8 dólares Que interesse internacional existe nisso? Especialmente o envolvimento do Michel Temer?

Assange: Não tenho certeza. Precisamente a respeito de Michel Temer temos um material importante. Nós publicamos um número de documentos a respeito das jazidas do pré-sal na costa brasileira. Os depósitos são considerados cerca de quatro vezes maiores que as jazidas brasileiras existentes, algo extremamente significativo. É muito caro chegar lá no fundo do oceano e furar a camada de sal. Mas quando se chega, o petróleo não precisa de muito refinamento e se torna bastante lucrativo.

A respeito das condições existentes, a Petrobrás teria 30% de receita do petróleo do pré-sal.

Empresas interessadas nesse petróleo têm ido à embaixada americana para reclamar dessas condições. E alguns partidos políticos no Brasil estavam dizendo que prefeririam que a Chevron e a ExxonMobil tivessem acesso mesmo sem a exclusividade dos trinta por cento da Petrobras.

Esse é na verdade um tema muito interessante: qual é a melhor maneira para o Brasil de licenciar a exploração dos depósitos de petróleo? O que mais beneficiaria os brasileiros?

E o argumento básico é nesta linha: se um estado vai agir de maneira coerente, em competição com outros países e grandes companhias de petróleo, eles devem garantir uma receita, e o petróleo garante um fluxo forte de receita, que pode fortalecer o estado.

O outro lado da equação usa o argumento que, se uma empresa, mesmo se é propriedade do estado, tem acesso preferencial, ela ficaria ineficiente e não se sairia bem na extração petróleo, porque não haveria competição. Estes são os argumentos básicos.

Também se diz que se existe muita competição na extração de petróleo, o preço cai muito e o estado não arrecadará muito em termos de cobranças de licenças de extração.

Então se você olha as mensagens publicadas em dezembro de 2009, verá que já havia relatos disso, mas não era a parte mais interessante. Pra mim a parte mais importante é quando admitiram que o mais lucrativo para o governo seria que a Petrobras tivesse o direito aos 30%.

Então isso é uma admissão. Por que a embaixada alega que o negócio mais lucrativo pra o estado brasileiro ocorreria se a Petrobras tivesse esses 30%?

Porque a Chevron e outras grandes companhias americanas de petróleo diriam: se a Petrobras tem esses 30%, não compensa pra nós. Não vale a pena pra nós fazer a extração, nós poderíamos talvez nos envolver no financiamento.

Mas a russa Gazprom e outras companhias chinesas de petróleo, como a China Oil, poderiam ser capazes de cobrir lances nas licitações, obrigando a Chevron e a Exxon a investir mais dinheiro, porque chineses e russos conseguem operar com menos lucro.

Por que? Porque os chineses só querem o petróleo, eles não estão tão interessados no lucro. Eles podem chegar mais depressa e ficariam com as contas equilibradas. Além de aportar um volume maior de recursos ao Brasil.

Assim como outras empresas petrolíferas estatais e outros estados que têm petróleo, os chineses operam de forma a que sempre possam ganhar licitações em cima da Exxon, por exemplo, uma empresa muito grande, que tem uma receita anual de US$ 269 bilhões.

Então, no caso da Petrobras a questão que está posta é a seguinte: que tipo de estado o Brasil quer ser? Um estado forte. Ou um estado muito fraco, que tem grandes petrolíferas estrangeiras e multinacionais tomando conta dos seus recursos naturais?

Talvez você possa ver o que acontece no Brasil por outro ângulo: quais são as grandes instituições públicas brasileiras, quais as mais fortes? Acho que são o Exército e a Petrobras. E acho que em comparação, todas as outras instituições são fracas. Então creio que fragilizar a Petrobras é uma forma de fortalecer os militares como centro de gravidade da organização do estado. E isso pode ser um problema.

Duas razões justificam a elevação do pré-sal a assunto prioritário nas políticas internas: a Petrobras é considerada uma aliada do PT, porque Dilma esteve lá, colocou gente dela lá e as políticas dela beneficiaram a Petrobras. Por tudo isso, institucionalmente, a Petrobras sente que seus interesses estão melhor servidos pelo PT.

Isso faz com que outros partidos queiram reduzir o poder da Petrobras, tirando os ganhos dela. Uma maneira de trocar favores com os Estados Unidos é facilitar à Chevron e à ExxonMobil o acesso a partes desse petróleo. Nas mensagens vazadas por WikiLeaks aparece um desejo constante das petroleiras americanas de ter o mesmo acesso que a Petrobras tem.

É diferente de um estado tradicional, algo como um capitalismo de estado. Porque o que a Petrobras pratica é capitalismo de estado. Tem a estrutura de uma empresa, mas cuja organização é controlada pelo estado.

Qual a diferença entre esse tipo de controle e o controle que vem de leis e acordos? Você tem que nos dar certa porcentagem pra fazer o serviço, você não pode agir de determinado modo ou sua companhia será multada e pessoas podem ser processadas.

É isso que tem acontecido nos países em desenvolvimento desde o começo dos anos 80, talvez desde 70 em países desenvolvidos. Tem sido uma mudança de como se regulam instituições.

Mas isso só funciona quando o sistema de regulação e o de legislação são incorruptíveis. Ai não importa quem controla a instituição, já que você controla as leis. Mas só funciona se você conseguir forçar o cumprimento das leis e detectar se as leis estão sendo corrompidas. E o setor de petróleo tem tanto dinheiro que isso acaba se tornando impossível.

Fernando Morais: : Voltando ao Brasil, ao Michel Temer, na página dele do Wikileaks ele se dirige a alguém não identificado, isso foi uma conversa privada com um informante americano ? Quantas vezes isso aconteceu e o que isso sugere?

Assange: Sim, Michel Temer teve reuniões privadas na embaixada americana para passar a eles questões de inteligência política, a que não muitos tiveram acesso, e discussões das dinâmicas políticas no Brasil.

Isso não é pra dizer que ele é um espião pago pelo governo americano. Eu não sei, mas não existem evidencias que ele seja um espião pago em dinheiro. Estamos falando de algo mais, falando de construir um boa relação de forma a ter trocas de informação de parte a parte. E apoio político.

Fernando Morais : Tem um outra passagem de um discurso da Hillary Clinton para o Itaú que ela diz que gostaria de ter fronteiras livres. Isso seria algum anúncio de que ela estava a favor do impeachment ou o golpe no Brasil?

Assange: Sim, em outubro publicamos palestras secretas de Hillary Clinton pelas quais ela foi paga. As transcrições de alguns trechos revelam que o staff de campanha dela temia que se tornassem públicos. Bernie Sanders e outros achavam que esse tema deveria ser público, mas ela o manteve em segredo. E isso era o Santo Graal do jornalismo americano, ter acesso a essas coisas. Para o jornalismo americano foi como ter acesso a um tesouro. E nós publicamos.

É um material muito interessante ver a posição dela quando fala com Goldman Sachs, quando ela fala com bancos brasileiros de investimento.

O que se vê é uma liberal imperialista em relação à expansão do império americano, com fome de cimentar acordos de aproximação e implantar mudanças ardilosas como o TTP [Tratado Transpacífico] e o TTIP [Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento]. Ela propõe realinhamentos estratégicos com o objetivo de fazer duas coisas: dar às multinacionais americanas o que elas querem e parar a China, fazer com que seja mais difícil os chineses crescerem.

Então eu não sei o que as declarações dela estão refletindo. Ela falava sobre energia com bancos de investimentos do Brasil, estava defendendo livre trânsito de produtos de energia.

Bloco 3

Fernando Morais: Logo depois da chamada primavera árabe, dois movimentos de rua cresceram, um no Brasil e outro na Turquia. No Brasil, antes dos protestos de 2013, a popularidade da presidente Dilma era 80 por cento, após os protestos foi a 30 por cento. E na Turquia acabou com a tentativa de golpe militar contra o presidente Erdogan e recentemente o golpe no Brasil. Você vê relação entre os dois?

Assange: Não. Entre a Turquia e o Brasil, não. Acho que são coisas diferentes. Talvez o golpe no Brasil fosse populista na sua natureza. Se houvesse uma questão mais ampla seria relacionada ao uso de mídias sociais, que por um lado está permitindo surgir uma cultura não industrializada de forma orgânica, imprevisível e incontrolável, permitindo aos líderes políticos pular intermediários, falam direto com as massas, tal como está fazendo o Trump.

Isto é, evitam a censura e a influência da mídia organizada, controlada pelas grandes famílias. Esse efeito tem sido direcionado por organizações especializadas em espalhar centenas de milhares de “verbots” mensagens na internet, forçando uma mensagem em particular, fazendo parecer que é um fenômeno orgânico, mas é um fenômeno programado.

Vou te dar um exemplo. Em 2011 WikiLeaks publicou muitas informações do Bahrein. Era a época da primavera árabe, árabes bareinitas avançaram sobre o poder e o Twitter era muito popular. No espaço de um ano o regime do Bahrein contratou algo como dez empresas de assessoria de imprensa, a maioria ocidental. Repentinamente começaram a surgir muitas contas no Twitter e no Facebook, até paginas da Internet, publicando propaganda pró regime .

Ada: No Brasil foi um pouco diferente porque como a esquerda estava no poder, essas mensagens populistas foram de alguma maneira defendidas pela grande mídia, que é controlada por cinco famílias. O que vimos em 2013 foi muito diferente do que aconteceu historicamente no Brasil, uma emergência da direita que não favorece a própria direita e que é esquerdofóbica, que é um novo fenômeno no Brasil, é um caso diferente dos EUA de certo modo.

Assange: Populismo genuíno pode sempre se mover contra a autoridade enquanto se tenha uma mídia que o expresse. Porque a autoridade é percebida pela sua habilidade de prender pessoas, cobrar impostos e liderar, sob esse aspecto. E quando uma crítica livre se desenvolve, do tipo mais duro, subjuga a percepção de autoridade. Aborda de maneira áspera, enfatiza a percepção de autoridade. Isso aconteceu no caso da Dilma.

Não era puramente orgânico, mas tinha um componente orgânico e esse componente orgânico foi enfatizado pelos cinco grandes grupos de mídia. E provavelmente por robôs. Na verdade achei evidencias de robôs, não tenho certeza a respeito de quem os controlava, foi descoberto no final, mas houve uma pressão de robôs de mídias sociais.

Estamos só no comecinho deste fenômeno onde muita gente tem agora a capacidade de publicar. Isso muda a dinâmica de poder, porque nas nossas sociedades, muito da dinâmica de poder é baseada na censura, prevenindo assim que a maioria da população se expresse. Ou ao menos que publique algo que atinja muita gente. Isso está começando a mudar.

Você sabe quando está lidando com um robô? Você sabe quando está lidando com uma pessoa real? É um sistema que tem alguns humanos e esses humanos controlam milhares de robôs que são com quem você interage, na verdade. É a invenção dos “falsos demos”.

Por que as revoluções acontecem em praças, muito frequentemente? Por que sempre acontecem em praças? É porque na praça você pode ver como o povo reage. Você olha em volta e pode ver as pessoas. Por que se precisa de uma praça para isso? Certamente se as pessoas não estivessem na praça e a mídia estivesse cobrindo e divulgando fielmente a vontade do povo, se teria a revolução de qualquer maneira. Mas os canais de comunicação não divulgam o que a população quer, então não se tem a mesma percepção .

É a percepção do que é a vontade da maioria que define se algo é politicamente possível. Portanto quando se tem uma revolução é normalmente numa praça, como a tomada do Palácio de Inverno, porque as pessoas podem ver que elas são muitas. Porque elas não veem que são tantas quando não estão na praça? Porque o sistema de mídia está suprimindo a realidade do que as pessoas pensam, eles não conseguem perceber os “falsos demos” .

Com a possibilidade de todos falarem na internet de uma maneira ou de outra, um antídoto pra isso é criar os tais “fake demos”. É muito simples: censurar pessoas está se tornando muito difícil. O senso de coletividade fica difícil de perceber. O poder político não se preocupa mais em censurar pessoas, o que se preocupa é a sensação de ser maioria, de que se tem a vontade popular por trás de você. Para obter esse efeito criam-se “falsos demos”. É isso que, desde mais ou menos 2011, vêm fazendo estados e partidos políticos. É um novo jeito de fabricar consensos. Estamos familiarizados com a situação antiga, com os oligarcas da mídia, mas quando se tem mídias sociais se tem uma nova maneira de criar consensos, que é a criação de uma aparência de vontade democrática.

Fernando Morais: Você identificou alguma evidência da influência americana nos protestos do Brasil?

Assange: O que eu vi é que havia um grande numero de robôs online operando pra estimular esses protestos. E pensando em como são os programas americanos, vemos que essas coisas não acontecem na América Latina sem apoio americano. Financeiramente, com logística e inteligência, tanto no exato momento que acontece ou meramente juntando as partes envolvidas. Se ler nossas publicações você verá que acontece repetidamente isso e o Brasil é um país que atrai muito interesse.

Na verdade ao olhar a espionagem militar em diferentes países da América Latina, o Brasil é o país latino-americano mais espionado. Isso é muito interessante porque alguém imaginará ingenuamente que deve ser Venezuela ou Cuba que tenham mais espiões, porque historicamente foram os adversários com os quais os EUA mais se envolveram em hostilidades, e não o Brasil. Então por que o Brasil? É que o Brasil tem uma economia maior, o Brasil é simplesmente mais importante economicamente.

Fernando Morais: Muitos disseram que o sistema de votos do Brasil e da Venezuela foram certificados e não tem fraude, mas meu genro disse a pessoas desse meio que sim é possível fraudar, especialmente no caminho entre a urna e o sistema. Sabe algo sobre isso? E o que isso significa para a democracia na era cibernética?

Assange: Eu era um hacker adolescente e virei consultor de segurança e engenheiro cartográfico e usei essa formação pra manter WikiLeaks e nossas fontes a salvo. WikiLeaks existe dentro de uma comunidade de pessoas semelhantes. E há muito tempo eu e outras pessoas dessa comunidade afirmamos, faz mais de vinte anos que dizemos isso: urnas eletrônicas são perigosas.

Os fabricantes de urnas eletrônicas dizem que elas aumentam a precisão da contagem dos votos porque é mais difícil mexer numa máquina complexa do que numa urna normal. É verdade que é mais difícil fraudar uma urna eletrônica que uma urna normal, mas se fraudar uma urna normal, você afeta quantos votos ?

Talvez algumas centenas. Agora, quando se tem acesso ao código responsável pela eleição, ou ao computador que faz os relatórios, pode-se mudar centenas de milhares ou até milhões de votos. E pode-se fazer isso de maneira quase indetectável! Esse é o ponto principal!

Alguém dirá: ok, mas podemos auditar, checar as máquinas pra ver se estão ok, pode-se se ter uma conexão reserva. Mas a realidade é que governos gostam de cortar custos ou ficam ineficientes e com o passar do tempo não se audita tanto.

Esse é um problema filosófico interessante: nunca se sabe de verdade o que faz uma máquina que seja complexa.

Quase ninguém pode determinar se uma máquina complexa está de fato fazendo o que deveria fazer. E quando se trata de votos, da intensa busca pelo poder, com motivações muito fortes. Uma pessoa comum deveria ser capaz de entender que a máquina faz o que deveria fazer, mas uma pessoa comum nada pode entender dessa complexidade. Por isso as urnas eletrônicas são perigosas.

Fernando Morais: Durante a guerra fria o cardeal húngaro Jozsef Mindszenty viveu 15 anos na embaixada americana em Budapeste, porque ele estava sendo perseguido pelo regime pró soviético. Por quanto tempo está preparado para viver na embaixada do Equador?

Assange : Quanto tempo aguentarei ficar aqui é irrelevante. O que importa é saber quando os EUA começarão a obedecer suas próprias leis e quando derrubarão o processo contra mim e, potencialmente, contra outros membros do WikiLeaks. Relevante é saber quando o Departamento de Justiça americano vai começar a obedecer suas leis, suas próprias leis, a Constituição americana, a Primeira Emenda, suas regras internas que dizem que não se pode processar um meio de comunicação. O que importa é saber quando o Reino Unido e a Suécia obedecerão às leis – há quase um ano a ONU determinou que ambos estavam agindo ilegalmente ao me manter em prisão domiciliar nesta embaixada, me detendo por seis anos neste país sem acusação. Recentemente a ONU reafirmou essa decisão e a situação continua a mesma. Quando eles obedecerão às leis?

Assange: Eu acho irônico que acusem um veículo como WikiLeaks de ser radical e revolucionário. O que prega o WikiLeaks? Que as pessoas devem obedecer às leis, não devem ser corruptas, devem ser honestas, abertas, transparentes. De certa maneira é algo tão simples que chega a parecer cristã, até conservadora essa visão.

Nós dizemos que os Estados Unidos apenas deveriam obedecer suas próprias leis. Não é uma demanda tão grande, mas as pessoas que se opõem dizem: mesmo que a lei diga que vocês podem publicar, vocês não deveriam.

Fernando Morais: Muito obrigado e espero recebê-lo como um homem livre em um Brasil democrático.

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10 Jan 17:35

Mauricio Stycer: JN trata de forma desigual protestos de artistas contra Trump e Temer

by Conceição Lemes

Jornal Nacional

JN trata de forma desigual protestos de artistas contra Trump e Temer

por Mauricio Stycer, no UOL, 10/01/2017

O protesto da atriz Meryl Streep contra o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, durante a cerimônia de entrega do Globo de Ouro, em Los Angeles, ganhou o mundo inteiro nesta segunda-feira (09). Foi o evento do gênero com maior repercussão internacional desde que, em maio do ano passado, a equipe do filme “Aquarius” fez uma manifestação, em Cannes, contra o presidente Michel Temer.

O principal telejornal do país, o “Jornal Nacional”, deu tratamento caprichado em sua edição desta segunda-feira (09) ao assunto. “A 12 dias de tomar posse, o presidente eleito foi criticado pela atriz Meryl Streep”, informou Renata Vasconcellos, chamando a reportagem do correspondente Alan Severiano.

Por dois minutos e meio, o jornalista descreveu os acontecimentos, exibiu trechos traduzidos da fala de Streep, explicou o contexto das duras críticas a Trump, mostrou a resposta do presidente eleito e ainda lembrou que a atriz deve voltar a ser vista em público na cerimônia de entrega do Oscar.

Em maio de 2016, o “JN” deu tratamento muito diferente ao protesto realizado pela equipe do filme “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, em Cannes, o principal festival de cinema do mundo. Naquela ocasião, o diretor, a atriz Sonia Braga e outros membros da equipe passaram pelo tapete vermelho com cartazes dizendo que “houve um golpe no Brasil”.

William Bonner, na noite de 17 de maio, resumiu  assunto em 30 segundos  – cinco vezes menos tempo do que o dedicado ao protesto de Meryl Streep. Foram exibidas algumas imagens, mas nenhum áudio do protesto. O apresentador informou que a presidente afastada Dilma Rousseff agradeceu o apoio e que o então presidente em exercício Michel Temer não quis se manifestar.

Temer não é Trump, mas me parece desproporcional, ao menos no principal telejornal brasileiro, o espaço dado aos dois eventos. O fato de a Globo ter se manifestado em editoriais contra a tese de que Dilma foi objeto de um golpe não deveria ser justificativa para tanta timidez – como ficou patente agora – na cobertura jornalística do protesto em Cannes.

 Leia também:

Globo usa série sobre idosos para fazer propaganda da reforma que tira direitos dos idosos 

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10 Jan 13:09

O higienismo de Doria quer eliminar os artistas de rua de São Paulo. Por Mauro Donato

by Mauro Donato
Piauí encara a PM no momento de sua remoção

Artesão encara a PM no momento de sua remoção na Paulista (FOTOS MAURO DONATO)

 

Com sua política de factóides, permeada por atos de gentrificação e de cunho higienista, João Doria declarou guerra aos ambulantes da avenida Paulista. Visando a repercussão típica de papagaio da classe média, Doria quer ‘limpar’ a avenida com sua operação Cidade Linda contando com o apoio daquele cidadão que não para pra pensar qual prejuízo de fato aquelas pessoas dão para a cidade? Aliás, dão prejuízo?

Por que elas não podem vender seus trabalhos enquanto alguns mini-shoppings inteiros localizados na mesma avenida sabidamente vendem apenas produtos pirateados ou contrabandeados? O público que aplaude Doria é o mesmo que acha lindo comprar seus eletrônicos nesses locais enquanto censura o rastafari que vende uma escultura de arame, sem refletir qual dos dois realmente sonega impostos.

Ontem, o DCM flagrou mais uma tentativa da gestão Doria em tirar os artesãos e recolher seus pertences. O coordenador Benedito Cardoso chegou com mais duas viaturas da GCM (Guarda Civil Metropolitana) e disse que tinha ordens para não deixa-los ali. “Não pode ficar no chão, tem que estar em banca e com carteirinha”. Talvez inibida pela presença da reportagem, e também pelo protesto de populares, a operação de remoção bateu em retirada algum tempo depois.

O DCM conversou com Antonio José da Silva, mais conhecido como ‘Piauí’, que trabalha na região desde 1991. Com 52 anos de idade, politicamente muito ativo, o mais popular dos ambulantes da Paulista já passou várias descomposturas em golpistas de verde e amarelo adoradores do Tio Sam. Piauí criou suas duas filhas com seu trabalho e orgulha-se de nunca ter entrado em nenhum programa social tipo Bolsa Família – que acha excelente mas mal distribuído.

Por que querem tirar vocês da rua?

Se você não faz parte do sistema, ele te devora. Olha para isso: o cara coloca um paninho no chão, um punhado de arame e um alicate e faz a arte dele. Vai expulsar esse cara por quê?

O que acha do Cidade Linda?

O artista de rua em nenhum momento quer deixar a cidade feia. Feia é uma cidade sem harmonia. E arte de rua é harmonia. E não é só artesanato. É malabares, é músico, é o mágico. Quem tiver uma visão maior sobre o que é cultura e o que é a cidade, sabe que existem problemas maiores para se destinar toda essa energia. Poderia estar-se fazendo um trabalho educativo e não proibir a arte.

Tipo?

Por exemplo, você conheceu meu Monumento das Bitucas. Sabe o que aconteceu? O caminhão do lixo veio na madrugada, passou por cima e jogou na caçamba. Eu estava sendo convidado para ir para Milão, na Italia, com aquela obra. Ouvi dizer que a Soninha é assessora do cara lá (na verdade Soninha Francine é secretária de Desenvolvimento Social de João Doria). Ela conheceu aquele meu trabalho, gostaria de ver ela se manifestar sobre o que aconteceu com minha obra. Eu já estava trabalhando nela há 125 dias e ainda não estava na metade. Já tinha 2,5 metros de altura, mais de 65 mil bitucas de cigarro catadas aqui mesmo na Paulista.

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“Piauí” discute com a PM

Ou seja, o Cidade Linda deveria se preocupar em educar quem joga cigarro no chão?

Tinha que se fazer um trabalhao de antropologia antes de mais nada. Porque quanto mais pobre o país ficar culturalmente, ferrou. Brasileiro tinha que parar de ‘pagar pau’ para americano, para europeu e valorizar o artista daqui. Quando ele viaja, ele adora ver o artista de rua lá. Mas aqui fica contra a gente, diz que somos sujos, que ta errado.

 

O prefeito Doria esteve aqui ontem (domingo) e vocês não puderam trabalhar?

As pessoas que tem carteirinha e uma banca puderam, sim. Mas elas não são artistas. É gente que vai na rua 25 de Março, compra mercadorias e revende aqui. Então se você não se adequa ao ‘sistema’ eles não deixam você trabalhar. A GCM tinha ordem de que ele não poderia nem ver a gente, mas eu peguei e fiz uma pulserinha e coloquei numa menina na frente dele.

O que você chama de carteirinha é o TPU (Termo de Permissão de Uso) para comercializar mercadorias na cidade. Porém desde 2011 a Prefeitura não emite mais TPUs para ambulantes. As licenças só estão sendo concedidas para quem vende comida de rua. 

A lei pra comida está certa, mas é injusta. Porque hoje, a tiazinha que há anos estava num ponto e que vendia seus bolos, aquele camarada que vendia a tapioca na esquina, hoje eles não estão trabalhando, hoje não pode mais. A onda hoje é food truck, uns caminhões de 200 mil reais. Vou repetir: ou você está no sistema ou ‘ta ferrado’. Agora me responde: Por que é tao complicado vender agua de coco aqui? É pra vender refrigerante?

O senso comum é o de que vocês não pagam os impostos que os comerciantes pagam.

Essa história de que a gente não paga imposto é mentira. O artesão paga imposto sim, porque com o dinheiro que ganho aqui vou no mercado fazer compras para minhas filhas, e todo produto tem imposto. Tem outra coisa, a gente alivia o peso para a sociedade. A gente não usa nenhuma dessas bolsas de governo. A gente se mantém com o próprio trabalho.

Além de estarmos com alto nível de desemprego.

Não é so isso. Existe a nossa cultura, a cultura do nômade, a do cara de estrada. Como ele vai se cadastrar? Quem conhece o Brasil é o artista que viaja. Só em 2015 eu fui até o Piauí de bicicleta e depois até Boa Vista em Roraima. Dormindo e comendo em troca do meu trabalho. Como eu poderia estar cadastrado em todas as cidades do país? A gente não tem culpa dos problemas que estão aí. Antes de nos escurraçarem, tinham que nos ouvir. Tinham que estar preocupados em cadastrar outras coisas, a arte tem que ser livre. Arte é pensamento. A gente não tem problema nem dá problema a ninguém. A única coisa que nos atrapalha são as perseguições. Então espero que eles sejam inteligentes para conversar primeiro, nos ouvir. Domingo vamos fazer um piquenique aqui para debater esse assunto, ta todo mundo convidado.

E aí prefeito, vai?

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09 Jan 17:29

Feudalismo carcerário: guerra contra as facções para encobrir controle social

by Luiz Carlos Azenha

A reportagem acima foi ao ar em dezembro de 2013, ANTES do início da matança em Pedrinhas que ganhou o noticiário nacional

por Luiz Carlos Azenha

Nos Estados Unidos há quase um consenso entre conservadores e liberais de que é preciso acabar com o encarceramento em massa. Isso está expresso no notável documentário Emenda 13, da Netflix (e, de forma mais restrita, no documentário Where to Invade Next, do Michael Moore, acima).

Já são mais de 6,5 milhões de pessoas nos presídios estadunidenses. Uma farra para a privataria das cadeias a quem, como em Manaus, interessa prender mais, cada vez mais (havia três vezes mais presos que a capacidade do regime fechado na capital amazonense, a R$ 5.700,00 por preso/mês).

Umanizzare, portanto — o nome da empresa que ganhou a licitação no Amazonas e em Tocantins, sem competidores, por 27 anos, ampliáveis para 35, significa humanizar — é uma piada trágica e grosseira.

A chance de um jovem negro ser encarcerado nos EUA é de 1/3. De um jovem branco, 1/17. Os homens negros representam pouco mais de 6% da população dos Estados Unidos, mas 40% da população carcerária.

A guerra contra os negros e pobres, lançada como “guerra contra as drogas” por Richard Nixon, nos anos 70, foi uma reação à campanha pelos direitos civis.

No Brasil, nem isso houve: o genocídio da juventude negra nas metrópoles é extensão pura e simples do chicote dos 300 anos da escravidão, com as PMs fazendo agora o papel que antes era dos capitães do mato.

Mas, por que nada vai mudar no Brasil, que já tem quase 700 mil presos, 40% deles temporários, ou seja, sem condenação formada?

Porque não interessa. Ou interessa a muito poucos.

As facções praticam uma espécie de feudalismo penitenciário. Ao mesmo em que organizam os presos por direitos básicos, negados pelo Estado criminoso e violador da Constituição, as facções escravizam as famílias dos presos. Pais, tios, irmãos, primos e filhos.

São, portanto, por baixo, 5 milhões de brasileiros sujeitos ao poder delas: contribuem com dinheiro, com serviços ou compram facilidades para os parentes que estão dentro do sistema. Compram comida para que não adoeçam, água, drogas, celulares, roupas… há um gigantesco comércio clandestino nos presídios brasileiros.

E os agentes do Estado? Quando não se calam, por medo, muitos deles são coniventes ou lucram com os esquemas acima citados. Não houve uma única reportagem sobre presídios que eu tenha feito na qual não identifiquei um agente de Estado envolvido nos esquemas que beneficiam as facções.

Fora das cadeias, é óbvio o envolvimento de policiais civis e militares, sem falar de gente de outras esferas, na partilha ou participação nos gigantescos lucros do tráfico e do consumo de drogas.

Finalmente, há as empresas da privataria dos presídios, cujo interesse econômico direto é não só pelo encarceramento em massa, mas pela venda da mão-de-obra quase gratuita dos presidiários e pela venda de serviços aos presos e a suas famílias. São, nesse sentido, competidores de facções como o PCC, que organiza as viagens de familiares a cadeias distantes no estado de São Paulo, por exemplo.

Uma das soluções óbvias para o fim do encarceramento em massa nos EUA é descriminalizar as drogas, o que o mundo civilizado vem abraçando de forma crescente.

No Brasil, o governo que promete esvaziar cadeias é o mesmo que aprofunda a desigualdade social, cortando direitos. E o ministro que comanda o debate quer eliminar os pés da maconha de um continente inteiro à base do facão!

A diferença entre Estados Unidos e Brasil, neste caso específico, é que há uma gigantesca massa de brasileiros desinformados que não quer qualquer solução para os problemas do sistema prisional, mas torce apenas para que os presos se matem nas cadeias e exibam os vídeos nas redes para satisfação do desejo de vingança pessoal.

Tudo indica que as empresas dos Estados Unidos, cujos lucros no ramo agora correm risco, busquem mercados fora de lá — e o Brasil é um destino evidente.

Portanto, aqui, podem esperar: a “guerra contra as facções criminosas” será apenas mais uma faceta de nossa antiga guerra contra os pobres, com remessa de lucros aos estrangeiros que nos venderem “novas tecnologias” de controle social — de câmeras de segurança a tornozeleiras, de pistolas de choque a sistemas de monitoramento à distância.

Leia também:

Leandro Fortes: Quem são os lobistas do massacre em Manaus

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05 Jan 13:41

Paulo Metri: Capitão Sergio Macaco, o paraquedista que salvou mais de 10 mil vidas na ditadura

by Conceição Lemes

capitão sérgio Macaco

Tratamento dado aos nossos heróis nacionais

Paulo Metri, em seu blog

“Gasômetro explodiu”, “Mais de 10.000 mortos com a explosão do Gasômetro”, “Destruição por explosão no Centro do Rio” e “Ataque comunista explode o Gasômetro” foram algumas das manchetes de jornais e das chamadas de telejornais em um dia de junho de 1968.

O corpo das notícias foi: “Quem sobreviveu à explosão do Gasômetro nunca a esquecerá”, “A um quilômetro do centro da explosão, ainda eram encontrados sinais do impacto da onda de choque criada por ela”, “Cenário lembra Hiroshima após a detonação da bomba atômica”, “Gasômetro explodiu na hora de maior congestionamento na área da rodoviária Novo Rio” e “Guerrilheiros comunistas foram os autores do maior atentado já ocorrido no Brasil”.

Isto tudo ocorreu em um mundo paralelo no qual o Capitão Sergio Macaco aceitou a ordem de seu superior da Aeronáutica.

Para a felicidade dos que residiam ou vinham frequentemente ao Rio de Janeiro, em junho de 1968, no nosso mundo, este capitão da Aeronáutica teve o discernimento, a sensibilidade e a coragem de colocar o respeito à humanidade acima do respeito à hierarquia militar.

O Capitão Sergio Macaco salvou mais de 10.000 vidas, que seriam impactadas no primeiro momento, e um número incalculável de vidas dos descendentes.

Sergio Ribeiro Miranda de Carvalho era militar de carreira da Aeronáutica, com o posto de Capitão em 1968 e era chamado de Capitão Sergio Macaco, sem que esta alcunha o desagradasse. Na época, comandava o Para-Sar, batalhão de elite de paraquedistas da Aeronáutica, especializado em resgate e salvamento.

Era considerado um dos mais obstinados e admirados oficiais da Força.

Certo dia, foi chamado pelo Brigadeiro João Paulo Burnier, então Chefe de Gabinete do Ministro da Aeronáutica, Marcio de Souza e Mello, durante o governo Costa e Silva. O Brigadeiro Burnier planejava a ação típica de guerrilha de explosão do Gasômetro para ser atribuída a militantes de esquerda e, com isso, a sociedade aceitar o endurecimento da ditadura.

No Gasômetro, era produzido o gás que era injetado na rede de gás canalizado da cidade. Na época, havia a necessidade de estocagem deste gás que, com o uso crescente do gás natural, ela diminuiu.

Pelo nível da estocagem, admitindo-se que seria uma explosão planejada para causar o máximo dano e considerando o número provável de pessoas que estariam na região, estimou-se que ocorreriam dezenas de milhares de óbitos.

Quando o nosso herói, Capitão Sergio Ribeiro Miranda de Carvalho recebeu a ordem de explodir o Gasômetro, mesmo estando consciente da repercussão que a negativa a esta ordem representaria, ou seja, ele colocaria no lixo a sua carreira, até então brilhante na Aeronáutica, respondeu que não atenderia a ordem.

Foi uma opção consciente, pois preferiu não ser o assassino de um número expressivo de pessoas, abrindo mão de algo extremamente valioso para ele, a continuidade da sua carreira.

Notícia de tamanha expressão foi transmitida pelo jornal Correio da Manhã.

Ao saber do ocorrido, o Brigadeiro Eduardo Gomes apoiou o Capitão Sérgio Macaco. No entanto, o apoio pouco adiantou, pois a história do Capitão foi negada pela Aeronáutica, que buscou caracterizá-lo como um insubordinado. O herói acabou sendo reformado pelo AI-5, em 1969, perdendo a patente e o soldo.

Depois de penosa tramitação pela Justiça, em 1992, o Supremo Tribunal Federal reconheceu os direitos do Capitão, estabelecendo que ele deveria ser promovido a Brigadeiro, posto que teria alcançado se tivesse permanecido na ativa.

O então ministro da Aeronáutica, o Brigadeiro Lélio Lobo, ignorou a decisão da corte, sendo o STF obrigado a mandar um ofício exigindo o cumprimento da lei.

O Brigadeiro Lobo novamente se recusou a cumprir, transferindo o problema para o Presidente da República, à época Itamar Franco, que por sua vez protelou a decisão até que o Capitão Sérgio Macaco morreu de câncer em 1994, sem ver sua reintegração à Aeronáutica e a simultânea promoção a que tinha direito.

Em 1997, a família do Capitão Sérgio Macaco foi indenizada pelo governo com o valor relativo às vantagens e soldos que ele deixou de receber entre os anos de 1969 e 1994.

Chegou a ser reconhecido como um herói nacional por algumas entidades. O Clube de Engenharia foi uma das que o homenagearam em vida.

O partido político PDT o acolheu, dando inclusive a legenda para ele se candidatar. Ele chegou a ser o primeiro suplente de deputado federal pelo PDT, tendo assumido o mandato algumas vezes.

Em 1985, recebeu a primeira homenagem pública de vulto: o título de “Cidadão Benemérito do Rio de Janeiro”, concedido pela Assembleia Legislativa do Estado.

Excetuando políticos, que, com suas decisões econômicas e sociais, podem postergar ou antecipar a morte de milhões de brasileiros, o Capitão Sergio Ribeiro Miranda de Carvalho foi o cidadão que mais salvou vidas no Brasil.

Se você vivia ou transitava pelo Rio de Janeiro em junho de 1968, deve agradecer ao Capitão Sergio Macaco por ter, talvez, salvado a sua vida e, como consequência, as de seus descendentes ainda não nascidos.

O Governo brasileiro deveria, em ato bastante simbólico, conceder, post mortem, ao Capitão Sergio Ribeiro Miranda de Carvalho o posto de Brigadeiro da Aeronáutica. Implicitamente, estaria reconhecendo que a ditadura chegou a planejar a explosão do Gasômetro.

Paulo Metri é conselheiro do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro

Leia também:

Cynara:  Imprensa alimentou a besta; os mortos de Campinas são as primeiras vítimas fatais do ódio à esquerda 

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03 Jan 14:12

Juiz de Manaus diz estar ameaçado de morte por facção por causa de matéria “covarde” do Estadão

by Kiko Nogueira
Presos isolados no pátio de presídio em Manaus

Presos isolados no pátio de presídio em Manaus

Publicado no Facebook do juiz Luís Carlos Valois.

 

Sobre a covardia do Estadão. Ontem, depois de passar doze horas na rebelião mais sangrenta da história do Brasil, um repórter, dito correspondente desse jornal me liga. Eu digo que estou cansado, sem dormir a noite toda, mas paro para atende-lo por vinte minutos. Algumas horas depois sai a matéria: “Juiz chamado para negociar rebelião é suspeito de ligação com facção no Amazonas”.

O Estadão é grande, eu sou pequeno, um simples funcionário público do norte do país.

Eles não publicaram nada do que falei, nem, primeiramente, o fato de que eu não era o único a negociar a rebelião. Desenterraram uma investigação contra mim da Polícia Federal em que esta escuta advogados falando o meu nome para presos, sem qualquer prova de conduta minha.

Detalhe, todos os presos das escutas estão presos, nunca soltei ninguém. Mas insinuaram que isso tinha algo a ver com o fato de eu ter ido falar com os presos na rebelião, que sequer eram os mesmos da escuta. Fui porque tinha reféns. Estamos no recesso, eu não estou no plantão, fui porque havia reféns, dez reféns, mas isso eles não falaram também.

Fui chamado pelo próprio Secretario de Segurança do Amazonas que, não por coincidência, é um dos delegados da Polícia Federal mais respeitados do Estado.

Ele, o delegado, veio me buscar em casa, me cedeu um colete à prova de balas, e fomos para a penitenciária. O secretário de administração penitenciária, egresso igualmente da PF, também estava lá aguardando. Tudo que fiz, negociei e ajudei a salvar dez funcionários do Estado, reféns dos presos, fiz sob orientação dos policiais.

Tudo isso falei para o tal Estadão, mas foi indiferente para eles. Agora recebo ameaças de morte da suposta outra facção, por causa da matéria covardemente escrita, sem sequer citar o que falei. Covardes. Estadão covarde, para quem não basta “bandido morto”, juiz morto também é indiferente.

 

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02 Jan 14:10

O pensamento de extrema direita brasileiro produziu em Campinas sua 1ª chacina. Por Kiko Nogueira

by Kiko Nogueira
O assassino Sidnei Ramis de Araújo

O assassino Sidnei Ramis de Araújo

 

O pensamento de extrema direita brasileiro moderno produziu sua primeira chacina.

A carta do técnico de laboratório Sidnei Ramis de Araújo, que matou doze pessoas num réveillon em Campinas, é um catálogo de boçalidades bolsonarianas típicas.

A missiva é dirigida ao filho João Victor, de 8 anos — que o pai acabaria matando na festa, juntamente com a mãe Isamara Filier.

Segundo relatos, ele pulou o muro da casa e abriu fogo. Suicidou-se em seguida com um tiro na cabeça. Carregava ainda dez bombas caseiras.

O caso foi registrado como homicídio consumado e pensado e suicídio. Sidnei premeditou tudo. Estava inconformado com a separação.

Araújo se transformou numa caixa de comentários do G1. Um jorro de ódio patológico em cada linha, em cada vírgula.

Ele afirma que não tem medo de ser preso porque não precisará acordar cedo para trabalhar. “Vou ter representantes dos direitos humanos puxando meu saco, tbm (sic) não vou perder 5 meses do meu salário em impostos”, escreveu.

“Estou sendo presos por ajudar bandidos né? Paizeco de bosta”.

“Não sou machista”, avisa. Em seguida, fala que “a vadia [Isamara Filier] foi ardilosa e inspirou outras vadias a fazer o mesmo com os filhos, agora os pais quem irão se inspirar e acabar com as famílias das vadias.”

Mulheres, ele assegura, se beneficiam da lei “vadia da penha”.

É certo que a inclinação política de Sidnei não explica, sozinha, a tragédia. Mas é absurdo desconsiderar seu consumo desse lixo e como isso o ajudou a articular o crime.

No Facebook do Estadão, que publicou a mensagem de Sidnei, há várias manifestações de solidariedade — ao criminoso.

“Sim, texto de revolta de um pai, SIM, mulheres são capazes de tudo pra destruir um pai de família, simplesmente por não ser o homem delas… Agora, cabe a você julgar…”, afirma um certo Douglas Benvenutti.

Uma mente perturbada que encontrou eco, conforto e coragem em todos os clichês da indigência direitista.

Um “cidadão de bem” inconformado com a degradação do Brasil, de sua família e das mulheres e que resolveu fazer justiça com as próprias mãos.

Feliz 2017.

 

“Não tenho medo de morrer ou ficar preso, na verdade já estou preso na angustia da injustiça, além do que eu preso, vou ter 3 alimentações completas, banho de sol, salário, não precisarei acordar cedo pra ir trabalhar, vou ter representantes dos direito humanos puxando meu saco, tbm não vou perder 5 meses do meu salário em impostos.

Morto tbm já estou, pq não posso ficar contigo, ver vc crescer, desfrutar a vida contigo por causa de um sistema feminista e umas loucas. Filho tenha certeza que não será só nos dois quem vamos nos foder, vou levar o máximo de pessoas daquela família comigo, pra isso não acontecer mais com outro trabalhador honesto. Agora vão me chamar de louco, más quem é louco? Eu quem quero justiça ou ela que queria o filho só pra ela? Que ela fizesse inseminação artificial ou fosse trepar com um bandido que não gosta de filho.

No Brasil, crianças adquirem microcefalia e morrem por corrupção, homens babacas morrem e matam por futebol, policiais e bombeiros morrem dignamente pela profissão, jovens do bem (dois sexos) morrem por celulares, tênis, selfies e por ídolos, jornalistas morrem pelo amor à profissão, muitas pessoas pobres morrem no chão de hospitais para manter políticos na riqueza e poder!

Eu morro por justiça, dignidade, honra e pelo meu direito de ser pai! Na verdade somos todos loucos, depende da necessidade dela aflorar!

A vadia foi ardilosa e inspirou outras vadias a fazer o mesmo com os filhos, agora os pais quem irão se inspirar e acabar com as famílias das vadias. As mulheres sim tem medo de morrer com pouca idade.

Aproveitando, peço aos amigos que sabem da minha descrença, que não rezem e por mim, se fazerem orações façam por meu filho ele sim irá precisar! Quero ser enterrado com a cabeça para baixo se garante que assim posso ir pro inferno buscar a velha vadia (que era até ministra de comunhão na igreja) que morreu antes da hora. Demorei pra matar ela pq me apaixonei por um anjo lindo!

(…)

Ela não merece ser chamada de mãe, más infelizmente muitas vadias fazem de tudo que é errado para distanciar os filhos dos pais e elas conseguem, pois as leis deste paizeco são para os bandidos e bandidas. A justiça brasileira é igual ao lewandowski, (um marginal que limpou a bunda com a constituição no dia que tirou outra vadia do poder) um lixo!

Se os presidentes do país são bandidos, quem será por nós?

Filho, não sou machista e não tenho raiva das mulheres (essas de boa índole, eu amo de coração, tanto é que me apaixonei por uma mulher maravilhosa, a Kátia) tenho raiva das vadias que se proliferam e muito a cada dia se beneficiando da lei vadia da penha!

Não posso dizer que todas as mulheres são vadias! Más todas as mulheres sabem do que as vadias são capazes de fazer!

Filho te amo muito e agora vou vingar o mal que ela nos fez! Principalmente a vc! Sei o qto ela te fez chorar em não deixar vc ficar comigo qdo eu ia te visitar. Saiba que sempre te amarei! Toda mulher tem medo de morrer nova, ela irá por minhas mãos!”

“(…) eu ia matar as vadias (eu já tinha a arma e raspei a numeração pra não prejudicar quem me vendeu, ela precisava de dinheiro). Família de policial morto não recebe tantos benefícios com a família de presos. Cadê os ordinários dos direitos humanos? Estão sendo presos por ajudar bandidos né? Paizeco de bosta.

Sei que me achava um frouxo em não dar uns tapas na cara dela, más eu não podia te dizer as minhas pretensões em acabar com ela! Tinha que ser no momento certo. Quero pegar o máximo de vadias da família juntas.

A injustiça campineira me condenou por algo que não fiz! Espero que eles sejam punidos de alguma forma.

Chega!! Ela tem que pagar pelo que fez.”

 

 

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27 Dec 17:39

Imprensa francesa confirma o que a FUP denuncia há tempos: “A gestão Parente-Temer está entregando nossas reservas estratégicas a preço vil”

by Conceição Lemes

Petrobras e Total

por Conceição Lemes

Na última quarta-feira (21/12), a Petrobras fechou um acordo com a petroleira francesa Total estimado em US$ 2,2 bilhões.

Ele prevê a cessão à Total dos direitos de exploração destas áreas do pré-sal: 22,5% do campo de Yara e 35% do campo de Lapa, que começou a operar no dia anterior na Bacia de Santos.

O acordo envolve ainda compartilhamento de terminal de regaseificação e transferência de fatias em térmicas, entre outros negócios.

Para a imprensa francesa, a Total fez um bom negócio com a Petrobras.

O Les Echoes (tradicional diário francês de economia) destaca (o negrito é nosso):

Esses campos “guardam reservas gigantescas de petróleo e o valor pago foi interessante.

(…) as reservas do grupo francês serão acrescidas de 1 bilhão de barris, a um custo estimado entre US$ 1,75 e US$ 2,4 o barril. Nas reservas adquiridas anteriormente pela companhia, o preço do barril custou US$ 2,55.

A Radio France Internationale, também conhecida como RFI, em matéria transmitida para o mundo inteiro na sexta-feira, 23 de dezembro , conclui:

“a Total pagou pouco em relação ao que vai lucrar extraindo o petróleo brasileiro”.

A RFI é uma rádio pública francesa, com sede em Paris.

O Viomundo conversou com João Antônio de Moraes, diretor da Federação Única dos Petroleiros (FUP), sobre essa repercussão.

Viomundo – O que achou da avaliação da imprensa francesa?

João Antonio de Moraes — Só confirma o que a FUP e os movimentos sociais vêm denunciando há bastante tempo. A gestão Pedro Parente-Michel Temer está entregando nossas reservas de petróleo a preço vil.

Veja bem. É a imprensa francesa assumindo que a França está levando grande vantagem em cima do Brasil ao se apossar de nossas reservas de petróleo a um preço muito aquém do mercado internacional.

Viomundo – O que significa esse acordo com Total?

João Antônio de Moraes – Perda de soberania energética. Ele fere a nossa soberania energética, independentemente do preço.

E, mais uma vez, confirma que o golpe, longe de ser para combater a corrupção, veio para entregar as riquezas do nosso povo e liquidar os direitos trabalhistas. A questão energia também estava no centro dos golpes contra Getúlio Vargas e João Goulart.

Viomundo – Explique melhor.

João Antônio de Moraes – Nos anos 50, houve uma tentativa de golpe contra o presidente Getúlio Vargas. Foi logo após a criação da Petrobras.

Já João Goulart, depois de tomar posse, havia dito que iria nacionalizar as refinarias de petróleo. Na sequência, ele foi vítima de um golpe. E a exemplo desses dois golpes, o contra a presidenta Dilma veio para entregar as nossas riquezas.

Viomundo – Supondo que o preço fosse justo, valeria a pena vender esses ativos à Total?

João Antônio de Moares – Ainda assim seria ruim para o Brasil, pois o país perderia controle sobre reservas extremamente estratégicas. As áreas sob o controle da Petrobras garantem o abastecimento do Brasil. Já sob o controle da Total garantem o abastecimento da França.

Viomundo – O que fazer?

João Antônio de Moraes — Mais do lamentar, a gente tem que lutar e resistir para impedir que essa situação continue. E nisso os blogs da imprensa alternativa, progressista, como o Viomundo, têm um papel importante em divulgar o que a grande mídia esconde todos os dias.

Leia também:

Ladislau Dowbor: Quem realmente quebrou o estado brasileiro  

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27 Dec 14:11

Temer conseguiu o que parecia ser impossível: seu governo é pior do que o de FHC

by Antonio Mello
No Natal de 2001, a Folha comemorava (com FHC eles comemoravam até gol contra) em manchete uma queda de apenas 2% nas vendas do comércio [imagem].

Pois o governo do golpista Temer mais que dobrou essa queda. 4,8% a menos nas compras de Natal foi o que o comércio amargou neste 2016, graças às medidas recessivas impostas pelo governo golpista.

Só quem está ganhando, e como nunca, no governo golpista são os rentistas e a mídia corporativa, que está enchendo as burras para mantê-lo no poder.



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26 Dec 17:35

 São Paulo dobra número de nascimentos em casas de parto

by Redação
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Em 2015, 337 mulheres deram à luz em casas de parto, contra 159 em 2012. Número de partos liderados por enfermeiras e obstetrizes aumentou e total de cortes no períneo foi reduzido na rede municipal

 por Sarah Fernandes, da Rede  Brasil Atual

O número de mulheres que deram à luz em casas de parto de São Paulo mais que dobrou desde o início da gestão de Fernando Haddad, por conta de políticas da prefeitura para incentivar o parto normal e humanizado. Em 2015, 337 mulheres deram à luz em casas de parto, contra 159 em 2012, de acordo com dados da Secretaria Municipal de Saúde, apresentados hoje (23) na cerimônia de sanção da lei municipal que assegura a presença de doulas em hospitais municipais e particulares da cidade.

Neste ano, o número de nascimentos em casas de parto deve passar dos 400, segundo estimativas da prefeitura. Em 2017 a expectativa é ultrapassar os 500. Um dos principais divisores de água para aumentar o número de mulheres que dão à luz em casas de parto, segundo o secretário de Saúde, Alexandre Padilha, foi o convênio da prefeitura com a Casa Angela, firmado em janeiro último, que passou a atender pelo Sistema Único de Saúde (SUS), desde o pré-natal até o acompanhamento da mãe e do bebê durante o primeiro ano.

O número de partos liderados por enfermeiras e obstetrizes na rede municipal de saúde também aumentou. Nos primeiros anos da gestão de Fernando Haddad, 60% dos partos eram comandados por essas profissionais. Em 2015 o total chegou a 72%. Nos hospitais da rede estadual o percentual permaneceu em 60%. “Com as doulas o número tende a aumentar porque haverá mais pessoas para atender a mulher e para reivindicar que o parto seja humanizado”, disse Padilha, aplaudido por doulas, mães e militantes de movimentos feministas que participavam da cerimônia.

Durante a gestão Hadadd a maioria dos partos do município foi realizada em hospitais municipais, contrariando o histórico da cidade, que concentrava os nascimentos nos hospitais estaduais. Em 2011 foram 43 mil partos na rede de saúde do estado contra 38 mil em equipamentos do município. Já em 2015 os dados se inverteram: foram 43 mil partos em hospitais municipais contra 39 mil em estaduais. “Quem ganhou foram as mulheres que puderam escolher maternidades com procedimentos para partos mais adequados”, afirmou Padilha.

Na cidade, o total de episiotomia (corte no períneo realizado em alguns partos) também caiu. Em 2014, 14% das mulheres passavam pelo procedimento durante o parto. Já em 2016 foram apenas 8%. Entre as mães de primeira viagem, quando historicamente o procedimento é mais indicado, o percentual de episiotomia caiu de 40%, em 2013, para 14% em 2016.

“O que queremos para São Paulo é exatamente um parto natural, que na cidade brote uma consciência que coloque a pessoa em primeiro lugar. A lei que garante a presença de doulas nos hospitais tem tudo a ver com a humanização e com essa visão de cidade”, disse o prefeito. No momento da sanção da lei, mulheres se levantaram e se posicionaram atrás de Haddad com cartazes dizendo “pelas vítimas da violência obstétrica”, “a população acompanhará com vigor essa lei”, “as mortes nas maternidades não serão esquecidas” e “parto humanizado é um direito, não negócio”.

A lei será publicada na edição de amanhã (24) do Diário Oficial e já começará a valer para todos os hospitais municipais e todas as unidades básicas de saúde. Ela assegura que as doulas – profissionais que oferecem apoio emocional e conforto físico às gestantes – sejam autorizadas a permanecer com as futuras mamães durante consultas, exames de pré-natal, pré-parto, parto e pós-parto imediato, com seus instrumentos de trabalho. As mulheres ganham o direito de entrar na sala de parto com a sua doula e também com um acompanhante. As doulas não podem, no entanto, fazer procedimentos e dar diagnósticos restritos aos profissionais de saúde, mesmo se ela tiver formação na área.

“Hoje para nós é um presente, mas também uma etapa que foi finalizada, mas com outras que estão por vir. Colocar essa sanção em prática será uma luta, existe muita dificuldade e muitos profissionais que acham que a doula vai atrapalhar seu serviço, mas pelo contrário: para mãe é uma forma humanizada de atendimento, porque a gente fica insegura, principalmente as mães de primeira viagem.  Isso é muito importe e um ganho para a cidade de São Paulo”, disse a vereadora Juliana Cardoso (PT), autora do projeto.

Durante a cerimônia foi lançado também um curso gratuito para formar gestantes, pela Escola de Saúde do SUS. A expectativa é iniciar a primeira turma já em 17 de janeiro, quando os servidores da Secretaria de Saúde retornam do recesso, para evitar cortes da gestão do prefeito eleito João Doria.

“A doula faz total diferença. Ela é uma acompanhante que te conhece e que te escolheu por empatia. Há uma irmandade e um pacto emocional envolvido. A profissional tem conhecimentos fisiológicos, sabe o que esta acontecendo no parto e no corpo da mulher e sabe os efeitos positivos e negativos dos procedimentos médicos. Ela pode ajudar a gestante a tomar as decisões e lembrar o que foi conversado durante o pré-natal”, diz a doula Ana Maria Machado. “A gente orienta e articula a comunicação com a equipe médica para que a mulher possa fazer suas escolhas.”

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26 Dec 17:03

São Paulo ganha lei que garante presença de doulas em maternidades

by Redação
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23/12/2016

Medida, sancionada nesta sexta-feira pelo prefeito Fernando Haddad, é elogiada por mulheres que militam no movimento do parto humanizado

Por Júlia Dolce, do Saúde Popular

A entrada de doulas em hospitais e maternidades públicos de São Paulo não será mais uma batalha para mulheres que defendem o parto humanizado. O prefeito da capital paulista, Fernando Haddad (PT), sancionou, nesta sexta-feira (23), a lei de autoria da vereadora Juliana Cardoso (PT) que garante a participação dessas profissionais no Sistema Único de Saúde (SUS) do município.

O projeto foi aprovado pela Câmara de Vereadores no último dia 7 de dezembro e prevê que as doulas participem de todo o processo de exames pré-natal, do período durante o trabalho de parto e do pós-parto imediato, sempre que for solicitada pela gestante.

A lei é considerada uma conquista para mulheres que defendem a humanização do parto. “Deu tudo certo e foi emocionante”, afirmou Juliana Cardoso. “Nós já tínhamos um movimento grande de mulheres que organizam projetos de lei. Esta entrou nessa parcela de projetos, junto com a lei do parto humanizado, e a que organizamos que coloca obstetrizes no quadro de profissionais do funcionalismo público”, continuou a vereadora.

O texto prevê também que as doulas levem instrumentos de trabalho à maternidade, como bolas de pilates, banqueta, óleos de massagem, entre outros. Caso os hospitais não cumpram a legislação, estarão sujeitos a advertências e até a afastamento do gestor.

“A importância das doulas é, em primeiro lugar, proporcionar para as mulheres e para os bebês uma assistência onde possam caminhar ao encontro do parto normal, reduzindo a taxa de cesarianas. Com as doulas, a mulher tem a oportunidade de ter ao seu lado alguém que dá atenção integral a ela”, afirmou a doula Mariana Amoroso, que exerce esse trabalho há quatro anos.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), no Brasil, a taxa de cesáreas na rede privada chega a 8,5 para cada 10 partos, quando o recomendado é 1,5. Isso coloca o país como líder mundial no procedimento cirúrgico, o que, segundo a organização, pode ser considerado uma “epidemia”. A taxa total no país, somando a rede pública, é menor, mas ainda assim considerada alta.São 5,4 cesáreas para cada 10 partos.

A doula e militante pelo parto humanizado concorda que o projeto de lei de Juliana Cardoso possibilita um maior espaço nas maternidades públicas. “Eu acredito que agora o trabalho da doula vai ganhar mais autoridade. Há pouco tempo era muito difícil encontrar alguém que soubesse o que era uma doula, mesmo dentro de instituições e hospitais. Hoje em dia as pessoas já reconhecem mais. Então acaba trazendo mais visibilidade”, avaliou.

Arquivo: manifestação em SP em 2013. Foto: Marcelo Camargo/ABr

Parceria

Para a obstetra Juliana Sandler, a lei tem o objetivo de reconhecer o trabalho das profissionais. “Acredito que todo o preconceito que existe com as doulas é relacionado ao desconhecimento com a profissão. Quando médicos passam a conhecer o trabalho delas isso só enriquece nosso trabalho, ajuda muito, inclusive na relação entre médicos e pacientes, porque ela está lá como porta-voz, é uma conhecedora da intimidade daquela gestante. Acho muito importante que esse papel seja facilitado por essa lei”, afirmou.

Sandler explica, ainda, que a importância da presença das doulas já foi comprovada, inclusive cientificamente. “Há estudos sérios mostrando que com esse acompanhamento as gestantes têm chances menores de precisarem passar por intervenções físicas mais sérias, ou cesáreas. As doulas têm um papel de apoio à mulher voltado para necessidades emocionais e físicas. Elas ajudam as mulheres a buscarem informação de qualidade sobre seus desejos, a forma como querem parir, ajudam com os medos e dor. Elas não são profissionais técnicas, nem tem nenhuma atuação nas decisões obstétricas da equipe, mas tem um papel fundamental”, explicou.

Apoio

A experiência da pedagoga Melina Rocha Pedroso no parto dos dois filhos ajuda a entender a importância dessas profissionais. Ela afirma que desde o começo quis ter parto normal, mas no hospital onde o primeiro filho nasceu, ela só teve acesso a dois acompanhantes durante o parto, e teve que optar por uma enfermeira obstétrica e pela obstetra. “Foi um trabalho de parto longo, intenso e doloroso, que acabou terminando em cesárea. Com a segunda bebê, no hospital São Luiz, o trabalho da doula foi essencial para garantir que eu me mantivesse firme no meu propósito do parto natural até o final”, contou.

“Ela fazia muita massagem, me ajudava em posições diferentes, me dava diferentes travesseiros, e me ajudou principalmente na hora da dilatação de oito para 9 centímetros, montando uma estrutura no banco de trás do carro, fazendo massagem quando eu tinha contração. Sem ela eu teria desistido, foi sem dúvida um fator importante de encorajamento, uma mulher ajudando outra. Eu entrevistei três doulas para achar uma com quem eu me identificasse. Mas existe preconceito com as doulas. A minha irmã não quis doula, porque o médico dela tinha dito que as doulas atrapalham mais do que ajudam, que se intrometem. Ela se arrepende muito, porque o parto dela também acabou em cesárea”, relatou Melina.

Como era e como ficou

Atualmente, a gestante é autorizada a ter a presença de apenas um acompanhante durante o parto no Sistema Único de Saúde (SUS), direito garantido pela lei federal 11.108/2005. Por esse motivo, a presença profissional ou voluntária de doulas na maternidade ainda era considerada, em São Paulo, como acompanhante, impedindo as mulheres de terem acesso ao serviço e terem o apoio do companheiro, familiar ou pessoa escolhida.

“A doula não tem que ter o papel de acompanhante, ela tem que ser uma segunda pessoa junto às gestantes, além do pai, parceiros ou qualquer outra pessoa que a gestante escolher. Portanto, essa penetração é difícil ainda no SUS e em alguns hospitais particulares da capital, e a lei vem nesse sentido de entender o papel das doulas como profissionais”, disse Sandler.

Momento político e luta

Mariana Amoroso destaca que uma das preocupações que permeou o movimento do parto humanizado neste final de ano foi a aprovação da lei antes da mudança de gestão municipal. “Nosso medo era justamente que a nova gestão que assumir o governo arquivasse ou abandonasse nossa luta, que é muito grande, e não é de agora, já tem muitos anos”.

Para a vereadora Juliana Cardoso, foi essencial aprovar o projeto ainda neste ano. “A gente insistiu muito para que o projeto fosse aprovado pelo prefeito Fernando Haddad, porque ele foi uma das pessoas que acolheu todos os projetos pensados por nós. Queríamos fazer esse fechamento de ciclo com ele”, opinou.

Para a obstetra Juliana Sandler, entretanto, a luta pelos direitos do parto humanizado ainda está no início. “Temos um grande caminho a ser trilhado, porque é uma mudança cultural de toda a sociedade, para as mulheres e famílias entenderem a importância da valorização do parto normal e de como o aumento no número de cesarianas no Brasil vem causando grandes prejuízos à saúde das mulheres e dos bebês. É um resgate da visão do parto normal como um parto saudável, juntamente com a visão da existência da violência obstétrica, porque não adianta só o parto ser normal, ele tem que ter respeito. É uma discussão grande internacionalmente e pouco aplicada no Brasil”, apontou.

Serviço

Casas de Parto em São Paulo:

Casa do Parto de Sapopemba

Casa de Parto da Associação Comunitária Monte Azul – Casa Angela 

Grupos de apoio:

Grupo de apoio à Gama – Maternidade Ativa (cursos para gestantes, consulta com obstetrizes, cursos profissionalizantes para doulas) 

Casa Curumin – Pediatria e aleitamento materno

Crédito de foto: Marcelo Camargo/ABr
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26 Dec 11:29

Procuradores do Ministério Público Federal chegam a receber R$ 121 mil

by renato

Ministério Público do RN é campeão brasileiro em gastos com pessoal Imagem relacionada

Valor Econômico.

Por Tainara Machado | De São Paulo

As indenizações podem até quadruplicar o salário mensal de um procurador do Ministério Público Federal. Em alguns meses, a combinação de auxílios para moradia, alimentação e ajuda de custo fizeram com que procuradores chegassem a receber “supersalários” de R$ 121 mil reais, dos quais R$ 96 mil em indenizações. A cifra já desconsidera os descontos previstos em lei, como Imposto de Renda e contribuição previdenciária.

Essas compensações, que não estão sujeitas ao teto salarial do funcionalismo público, representam 30,4% do gasto com folha dos servidores ativos do Ministério Público Federal, de acordo com levantamento do Valor a partir dos dados do Portal da Transparência sobre remuneração de membros ativos de janeiro a outubro, considerando os valores líquidos pagos aos procuradores.

 Em outubro, por exemplo, os 1081 procuradores e subprocuradores federais na folha de pagamento do Ministério Público receberam, ao todo, R$ 31,6 milhões, já considerando os descontos obrigatórios. As indenizações e outras remunerações foram de R$ 13 milhões no mês, o que representou 41,1% da remuneração líquida recebida por esses servidores no período.

Por causa das indenizações, entre 10% e 20% dos procuradores ganham, todos os meses, mais do que o teto constitucional, dado pelo salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal, de R$ 33,7 mil. O Valor identificou que alguns procuradores chegam a ganhar mais de R$ 120 mil em um único mês, embora o salário bruto da categoria seja, em média, de R$ 28 mil.

Esse cenário só é possível por causa das indenizações, que têm sido usadas como alternativa nas negociações salariais para furar o teto remuneratório do funcionalismo público. Por e-mail, a assessoria de imprensa afirmou que as parcelas pagas aos membros e servidores do Ministério Público Federal em caráter indenizatório não estão sujeitas à retenção do teto constitucional, de acordo com resolução de 2006 do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).

Além de auxílio-natalidade, alimentação, mudança, abono pecuniário, auxílio pré-escolar e conversão de licença-prêmio em pecúnia, recentemente os procuradores passaram a receber também R$ 4.377,00 de auxílio-moradia, concessão regulamentada pelo CNMP depois que o ministro do STF, Luiz Fux, estendeu o benefício para todos aqueles que moram em cidades sem apartamento funcional disponível. Diárias e passagens também entram nessa conta.

A regra também vale para o Judiciário, com anuência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o que faz que a situação se repita entre os magistrados. De acordo com levantamento do professor Nelson Marconi, da Fundação Getulio Vargas (FGV), boa parte dos desembargadores também ganha acima do teto constitucional em São Paulo, Minas e Rio, por exemplo.

No Ministério Público, a maioria dos procuradores recebe todos os meses R$ 5.261,73, referentes à soma dos auxílios para moradia e alimentação. Como as indenizações não estão sujeitas ao teto do funcionalismo e nem sofrem incidência do Imposto de Renda, elas podem inflar – e muito – a remuneração dos membros do MP, que representam a elite do funcionalismo público brasileiro. O valor pode ser ainda maior quando há acúmulo de gratificações ou de licenças não gozadas, por exemplo.

As indenizações também fazem com que haja grande disparidade de salários entre servidores com cargos semelhantes. Januário Paludo, procurador regional da República, foi um dos que recebeu média salarial mais alta entre fevereiro e setembro deste ano, de R$ 46,2 mil, considerando a remuneração total líquida. Seu salário-base, porém, é de R$ 30,4 mil, a terceira faixa mais baixa na tabela de subsídios dos membros do Ministério Público.

Sady Torres Filho, que é subprocurador-geral da República, cargo de remuneração básica maior (R$ 32 mil), recebeu no mesmo período R$ 29 mil, em média, por mês.

O salário de vários procuradores também supera o do cargo mais alto entre os membros do Ministério Público Federal, de procurador-geral da República, ocupado por Rodrigo Janot. Com remuneração básica no teto permitido ao funcionalismo, de R$ 33,763 mil, Janot ganhou, na média, R$ 29,4 mil ao mês entre janeiro e setembro, considerando o salário líquido. Como indenização, ele recebe usualmente auxílio-alimentação, recentemente reajustado para R$ 884 por mês.

Neste cenário, a despesa com pessoal do Ministério Público da União cresceu 46,3% entre 2010 e 2015. Nos Estados, mais da metade dos Ministérios Públicos já superou os limites de alerta no gasto com folha de pagamentos, que é de 1,8% da receita corrente líquida estadual, segundo levantamento feito pelo gabinete do senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES). No Maranhão, Santa Catarina, Ceará, Piauí, Tocantins, Minas Gerais, Roraima e Espírito Santo o limite de alerta foi superado no quadrimestre encerrado em abril. Amapá, Goiás, Paraíba e Rondônia superaram o limite prudencial de despesa com pessoal pelo Ministério Público, que é de 1,9%, enquanto o no Rio Grande do Norte o gasto chegou a 2,2% da receita, acima do limite máximo (de 2%).

Dados disponíveis emwww.transparencia.mpf.mp.br/conteudo/contracheque

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