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09 Sep 13:02

Azul discrimina Velho

by Fernando Nogueira da Costa

Pela primeira vez, senti uma discriminação pela minha faixa etária. Fui desalojado do mesmo lugar que ocupei no voo da véspera (assento 1D) sob a ameaça de que se eu não mudasse de lugar o avião não decolaria, jogando todos os demais passageiros contra mim.

Não teve nenhum impedimento — ou alerta — quando reservei tal lugar (“espaço Azul”), aliás, onde sempre busco assentar. Entretanto, o comissário invadiu minha privacidade não só ao perguntar minha idade (65 anos) como também me expulsar do lugar com assédio moral. Resultado: tive de sentar no banco de trás. Ironicamente, eu era o passageiro mais próximo para abrir a porta de emergência no avião turbo-hélice, caso sobrevivesse à queda do avião, pois não tinha nenhum na fileira da frente!

Pior: uma mulher veio me dizer na hora que “o Brasil está assim porque pessoas como eu não obedecem as ordens vinda de cima”. Retruquei: “o Brasil está assim porque pessoas conservadoras como ela obedecem cegamente a um governo e legisladores ilegítimos e não fazem desobediência civil face a normas arbitrárias absurdas”.

Enfim, fiquei muito chateado — e sofri dano moral — por ser discriminado por idade pelo representante da companhia aérea. Hoje, 14% dos habitantes no Brasil têm mais de 60 anos, daqui a 40 anos serão 34%. Para trabalhar até os 65 anos servimos, mas não temos direito a ter assento preferencial em avião.


31 Aug 12:50

Um ano depois do golpe, a vida de uma paneleira. Por Kiko Nogueira

by Kiko Nogueira
Regina Célia em 2015, mudando o Brasil

 

No dia 31 de agosto do ano passado, o plenário do Senado votou pelo impeachment de Dilma Rousseff por 61 votos a 20.

Regina Célia se lembra bem: ela comemorou a vitória com um porre de champanhe com Marlos Vinícius e os meninos na varanda do apartamento em Pinheiros onde ela bateu tanta panela.

Regina Célia era uma paneleira, sim. Com muito orgulho, com muito amor.

Ela foi para as ruas. Tinha lido o editorial do Estadão dizendo que o impeachment era o “único remédio para a crise”. Ela viu Miriam Leitão falar na TV que “o pior estava no retrovisor”.

Ela acreditou no dono da Riachuelo, Flávio Rocha, quando ele avisou que “a retomada do crescimento vai ser mais rápida do que a gente imagina, porque está acontecendo uma mudança de mentalidade, de enfoque, de forma de ver o mundo, do papel do Estado na economia”.

Como esquecer as gostosas tardes na Paulista com o pessoal do Revoltados Online, Lobão, o Frota com seu abraço apertado, o Kim, o outro rapaz esquisito, a Jana?

Todos juntos num só coração para salvar o Brasil da Orcrim. Primeiro tiramos a Dilma ladra, depois o Temer e então todos os outros safados até virarmos Miami.

Regina Célia olha para Marlos Vinícius estatelado no sofá às 3 da tarde. Ele não arruma emprego e passa as horas tomando cerveja.

Tudo que era sólido se desmanchou no ar.

A PF isentou Dilma e ministros do STJ em investigação sobre obstrução de Justiça. Técnicos do TCU isentaram Dilma pelo prejuízo com Pasadena. As pedaladas não existiram.

A taxa de desemprego está em 15 milhões, o roubo é escancarado, Gilmar Mendes não sai dos jornais, voltamos ao mapa da fome, a filha Victorya Helenna já foi assaltada três vezes nos últimos seis meses, o prefeito é um camelô hiperativo, Janaína enlouqueceu, Marlos Vinícius teve de pedir empréstimo ao cunhado que o despreza, parte da Amazônia será entregue à filha de Jucá, o carro da família foi vendido para pagar dívidas.

Ela pensa na emprega que teve demitir. Estão destruindo Farmácia Popular, Minha Casa Minha Vida, Mais Médicos, Ciência sem Fronteiras, Luz para Todos, Bolsa Família.

Regina Célia olha para sua panela e se pergunta: “Eu errei? Fui enganada? Não era, então, tudo culpa do PT?”

“Não”, ela diz baixinho para si mesma, coçando o couro cabeludo desmatado. “Eu faria tudo de novo. Tudo!”.

Regina Célia não é mais um criança. Ela é parte do exército de guerreiros do povo brasileiro, uma elite de cidadãos de bem que livrou o país do comunismo.

“O preço que a gente tá pagando é pequeno perto da importância de termos derrotado o bolivarianismo”, ela pensa. “É a meritocracia, porra.”

Enquanto Marlos Vinícius ronca na sala, a baba escorrendo na camisa velha do São Paulo, uma onda de ódio familiar, saudosa, invade seu corpo. Bolsomito vem aí.

No armário da cozinha, embaixo da pia, a panela se prepara para cumprir a sugestão dada por Marisa Letícia.

*Baseado em fatos reais

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27 Aug 16:38

Resenha: As Cientistas, 50 mulheres que mudaram o mundo, de Rachel Ignotofsky

by Lady Sybylla
Sabe aquele livro que você queria ter quando criança para que sua mãe lesse antes de você dormir? Então, é esse. Eu acompanhei o trabalho de Rachel pelas postagens no Tumblr e fiquei desejando o livro em inglês por um bom tempo, até descobrir que ele tinha saído em português pela Editora Blucher. Ricamente ilustrado e com muitas informações legais sobre ciência, é um livro que devia estar em cada biblioteca e sala de leitura de escola, nas universidades, nas casas, acessível para qualquer consulta.

Siga a @Sybylla_

O livro
Durante suas aulas na escola e até na faculdade, você deve ter ouvido vários nomes de cientistas famosos, certo? Cite uma cientista famosa que você ouviu em aula, especialmente na escola. Qualquer uma, de qualquer área e que não seja Marie Curie. Sei que não é fácil lembrar, porque a grande maioria delas teve seu nome apagado da história da ciência, propositalmente. E o único motivo foi pelo fato de serem mulheres. Mulheres que não se conformavam com as barreiras impostas, que queriam muito mais da vida.


Sabemos que a cultura pop pode inspirar muitas meninas a seguir carreira nas ciências. Por conta do sucesso do filme do livro Estrelas Além do Tempo, um programa educacional para mulheres foi criado nos Estados Unidos. Mas imagine aprender na escola, no dia a dia da sala de aula, que existiram mulheres engenheiras, programadoras, ativistas, médicas, que mudaram o mundo como conhecemos, com invenções que usamos e remédios que tomamos? É uma perspectiva completamente nova que se abre.

Lembro que nas minhas aulas de biologia, estudamos muito a genética humana e síntese de proteínas e acabamos decorando os nomes de Watson e Crick, como os descobridores da estrutura helicoidal do DNA. Somente vinte anos depois fui ouvir falar de Rosalind Franklin, cujo câncer que a vitimou aos 37 anos derivou de seu trabalho de obter imagens da estrutura helicoidal. E seu nome foi posto de lado, sua reputação jogada na lama pelos próprios colegas. Rosalind foi vítima da misoginia, do desrespeito e da ignorância dos colegas que quase conseguiram apagar seu nome. Quase.

Se as circunstâncias atuais da sociedade não admitem o desenvolvimento livre das mulheres, então a sociedade precisa ser remodelada.

Elizabeth Blackwell - página 18

Rachel fez um lindo trabalho resgatando a história de tantas mulheres, desde a época de Hipátia, na Alexandria da Antiguidade, passando pela China Imperial e pela sociedade moderna e contemporânea. As biografias são curtas, mas precisas, diretas ao ponto, contando a formação dessas mulheres, suas inspirações, conquistas e as dificuldades que muitas tiveram que enfrentar para concluir seus estudos, para conseguir financiamento, para conseguir crédito e respeito. Mulheres foram proibidas de estudar por muito tempo. Depois, a maioria das instituições superiores de ensino não as admitiam. Se ela quisesse seguir na pós-graduação, muitos lugares não as aceitavam. Algumas tiveram a pesquisa e a carreira interrompidas por causa da Segunda Guerra Mundial, outras eram consideradas apenas técnicas de laboratório e assistentes, sendo que tinham a mesma formação de seus colegas homens.

👉 Saiba mais sobre o Efeito Matilda

Com um traço lindo, o livro traz essas biografias, uma linha do tempo com alguns obstáculos para as mulheres cientistas, algumas estatísticas da área das STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática), outras mulheres da ciência, com uma pequena biografia, fontes, glossário, um perfil da autora e um índice remissivo. É uma obra completa para consulta, além de vir em capa dura. É uma obra perfeita, mas devo pontuar que achei problemas de tradução e revisão em português. Num mesmo livro encontrei University of Chicago, Chicago University e Universidade de Chicago. Outras instituições também estão em inglês e para um não-fluente, isso certamente é um fator que atrapalha a leitura. Devia ter havido uma coerência na hora de traduzir essas instituições, para facilitar a compreensão.

[Meu pai] me fez entender que devo tomar minhas próprias decisões, moldar meu próprio caráter, pensar por mim mesma.

Hedy Lamarr - página 68

Obra e realidade
Eu estava na reta final do meu mestrado quando um professor de longa data lá da USP e eu sentamos para tomar um café. E em um determinado momento ele disse que gostava muito do fato de ver metade das salas da geologia sendo de mulheres, porque na época dele tinha uma, no máximo duas. Somos metade da população mundial. Países que não investem na educação de meninas e mulheres deixam de crescer, de se desenvolver, deixam de ter avanços e ciência de ponta, somente pelo fato de excluir metade de sua população de escolas, universidades, centros de pesquisa.

Rachel Ignotofsky

Livros e obras de entretenimento na cultura pop são ferramentas poderosas de inspiração. E quanto mais soubermos esses nomes, mulheres que tanto contribuíram para a humanidade, mais meninas e mulheres se sentirão inspiradas a seguir essas áreas. Não devemos podar a criatividade, a curiosidade, a inventividade das meninas, elas precisam ser incentivadas e, o principal, precisam de bons exemplos.

Pontos positivos
Histórias reais
Bem escrito e ilustrado
Fontes, glossário e informações adicionais
Pontos negativos

Problemas de revisão e tradução

Título: As Cientistas, 50 mulheres que mudaram o mundo
Título original em inglês: Women in Science: 50 Fearless Pioneers Who Changed the World
Autora: Rachel Ignotofsky
Tradutora: Sonia Augusto
Editora: Blucher
Páginas: 128
Ano de lançamento: 2017
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Desde que o livro chegou que eu não canso de folhear e voltar em algumas biografias, pois sempre parece que você deixou de ler alguma coisa. Rachel fez um trabalho brilhante e seu próximo livro fala de mulheres atletas e esportistas que marcaram a história. Livros que contam essas histórias estão surgindo cada vez mais e só tenho a agradecer às autoras e editoras por isso. Eram livros que eu queria ter quando criança e adolescente, acredito que teria sido uma um grande incentivo ter esses nomes no meu dia a dia. Leitura obrigatória para você.

Até mais!

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26 Aug 17:27

Lula participa de atos nas cidades de Currais Novos e Mossoró

by PT Natal
A  Caravana “Lula pelo Brasil”, com a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega ao Rio Grande do Norte neste domingo (27). Depois de iniciar a caravana pela Bahia, passar pelos estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Paraíba, o RN será a o sexto estado visitado pelo ex-presidente. Caravanas de várias partes do […]
26 Aug 17:12

Dom Pedro

by Francisco Seixas da Costa

Há dias, ao passar pelo Mindelo, marco da luta liberal-absolutista no século XIX, recordei-me que, precisamente na véspera, falara com amigos brasileiros sobre a mútua imagem de dom Pedro - o dom Pedro I do Brasil e o dom Pedro IV de Portugal. E na nossa diferença de perspetivas sobre a figura.

Bastou-me viver uns anos no Brasil para perceber que o modo como o autor do "grito do Ipiranga" é por lá visto contrasta, em muito, com a imagem que ele iria deixar na memória portuguesa. 

Por cá, talvez influenciados pelo dramatismo da guerra civil e pela seriedade dos retratos pintados, dom Pedro surge-nos como uma figura serena, mobilizada por ética liberal, disposto a tudo para consagrar a prevalência de uma nova ordem constitucional sobre o "antigo regime", representado este pela boçalidade política do seu irmão. 

Para o Brasil, dom Pedro é, pelo contrário, uma personalidade frenética, inconstante, furioso na sua devassidão romântica, politicamente ciclotímico, um quase agitador. Há excelente bibliografia sobre o primeiro imperador brasileiro que, sem exceção (creio), sublinha esse seu caráter.

Esta dualidade foi, para mim, algo surpreendente e muito curiosa nos seus pormenores. De certo modo, ela mostra que as figuras marcantes deixam perceções que radicam sempre no papel diferenciado desempenhado, face ao destino particular dos povos, pelos condutores de turno do comboio da História de cada um. 

Não tive coragem de contar aos meus amigos brasileiros, que tinha levado a ver as festas da Senhora da Agonia, a anedota que correu em Portugal, nos meios que se empenhavam em caçoar sobre Américo Tomás, ao tempo em que o presidente português fez uma celebrada viagem oficial ao Brasil, em 1972, para oferecer aos brasileiros os restos mortais de dom Pedro. A acidez crítica da "vox populi" atribuía a Tomás, como é sabido, uma baixa qualidade intelectual, muito por via da imagem que o velho almirante projetava no inenarrável património de discursos públicos que nos deixou. Nesta cruel apreciação, ficou então famoso o imaginário diálogo entre Gertrudes Tomás e o marido: "Américo, por que razão nós, em Portugal, dizemos dom Pedro IV e os brasileiros chamam dom Pedro I?". O almirante, a quem a lenda pública atribuía (um tanto injustamente, ao que se sabe) a tal simplicidade mental, teria respondido: "Ó mulher, é fácil. São os fusos horários diferentes..."
21 Aug 12:54

“Nossa vida piorou muito. O que mais esse Doria vai cortar?”: uma mãe com filho em escola pública fala ao DCM. Por Donato

by Mauro Donato
Menino tem a mão marcada para não repetir merenda em SP

Há alguns dias, a filha de D. chegou da escola e reclamou: “Estou com fome.” A mãe estranhou pois a menina costumava chegar em casa por volta das 19:20 após ter jantado na escola. Ela frequenta a EMEI Cidade A. E. Carvalho (no extremo da Zona Leste) e faz três refeições na instituição de ensino.

Ao ser questionada se não havia jantado, a criança respondeu: “Não, a professora não deixou eu repetir. Falou que não pode mais repetir o prato.”

“Isso é um absurdo, o que mais esse Doria vai cortar?”, disse a mãe ao DCM. Ela preferiu não ser identificada por receio de retaliação.

Nas EMEIs os alunos almoçam, tomam um lanche e depois jantam, antes de regressarem para casa. A gestão do prefeito João Doria alegou estar preocupada com a alimentação das crianças e disse ter instruído às escolas que não permitissem a repetição da merenda apenas quando servida na forma de alimentos industrializados.

A primeira pergunta obvia que surge é: Se está preocupada com a saúde, por que distribui merenda industrializada? Mas a desculpa esfarrada cai rapidamente quando se ouvem pais e alunos. “Não é só o lanche. Não pode mais repetir em nenhuma refeição”, afirmou D.

Pergunto se houve algum aviso, algum comunicado sobre a implantação da restrição. “Não recebi nada. Minha filha chegou falando isso no mesmo momento em que meu marido estava lendo no Facebook sobre outros pais reclamando do mesmo assunto.”

D. não sabe, mas pode se considerar uma pessoa de sorte. Pelo menos sua filha não passou – por enquanto – pelo constrangimento de ter a mão pintada de azul de modo a ficar marcada para não repetir o prato. Se o leitor estiver se lembrando de algo relacionado a judeus e nazistas, fique à vontade.

Mas D. não está nada satisfeita pois esse não foi nem o primeiro nem o único corte relacionado ao ensino. Como tudo o que está ruim sob Doria pode piorar, ela tem enfrentado mais dificuldades este ano.

“Minha vida piorou muito. Até o ano passado minha filha ia para a escola de perua gratuita. Agora ele mudou as regras e não tenho mais direito, preciso pagar transporte particular porque eu trabalho, não tenho como levar a menina.”

A mãe refere-se ao TEG (Transporte Escolar Gratuito), programa que tem por objetivo ‘facilitar o acesso dos alunos da rede pública às escolas municipais’, segundo o portal da prefeitura.

Como ‘facilitar o acesso’ é expressão com significados distintos entre população e governantes, a filha de D. já ficava de fora dos critérios estabelecidos na gestão de Fernando Haddad, mas por problemas de saúde o direito lhe era concedido. “Minha filha tem bronquite e desde que o Doria assumiu os laudos médicos estão muito mais difíceis. As pediatras estão negando todos os pedidos”, declarou.

Tão logo sentou na cadeira de prefeito, João Doria – cujo pai empresta o nome a uma outra escola pública também na Zona Leste – já deixava claro que Educação não estava entre as prioridades e os elunos iriam comer o pão que o diabo amassou (desde que não repitam o pão).

Ele prometeu ‘rever’ os gastos com material escolar, com o transporte de alunos e até com a entrega de leite, outro tema que afeta D. “Tenho uma outra filha ainda bebê e o leite, que antes era fornecido, agora está muito mais difícil de conseguir.” Em resumo, ‘rever gastos’ significa cortar mesmo. Lembra o Passe Livre Estudantil? Então, está mais ‘revisto’ também.

O prefeito João Doria, que já anda espalhando ser vítima de ‘fake news’, precisará enfrentar um protesto contra o corte na merenda que ocorrerá em frente à Prefeitura na próxima quarta-feira.

Ele, que em campanha defendeu as ideias do Escola Sem Partido, talvez faça uso de seus capangas do MBL para proteger-se. Não seria novidade. Novidade seria Doria estar em São Paulo, na Prefeitura e preocupado com a Educação.

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19 Aug 12:34

“Podres de ricos investem no desastre social”, diz especialista em concentração de riqueza

by Diario do Centro do Mundo
Antonio David Cattani

Publicado no Jornal Extra Classe.

Economista, professor e um dos mais respeitados pesquisadores sobre a concentração de riqueza no mundo, Antonio David Cattani está lançando um novo livro. Em Ricos, podres de rico (Tomo Editorial, 64 páginas), disseca de forma didática e acessível – “sem economês”, salienta – como o aumento da riqueza nas mãos de poucas empresas ou pessoas é um risco à democracia, além de uma ameaça ao próprio capitalismo. “A crise de 1929 foi provocada pelo mesmo fenômeno que estamos observando agora. Em um, dois anos, vamos ultrapassar aquele patamar de concentração. É a crônica de um desastre anunciado”, diz nesta entrevista ao Extra Classe.

Extra Classe – O senhor estuda a concentração de riqueza nas mãos de poucas pessoas há pelo menos dez anos. A que conclusões chegou nesse período?
Antonio Davi Cattani – Meu argumento é que a concentração de renda com a existência de multimilionários é nefasta para a economia e para a democracia. Para a democracia parece evidente, gera corrupção, tráfico de influência. Mas na economia persiste uma discussão sobre a importância de se acumular riqueza antes de distribuí-la. Em outras palavras, a tese de que a concentração de renda criaria mecanismos de maior eficiência econômica para investimentos produtivos que gerassem mais empregos e oportunidades. Bem, dez anos depois posso afirmar que isso é uma falácia. Uma mentira deslavada. Um discurso dos ricos, que querem apenas justificar seus rendimentos e seus privilégios.

EC – Não se trata de um fenômeno do capitalismo brasileiro?
Cattani – Não, de jeito nenhum. Em nenhum capitalismo, em nenhum lugar, a acumulação volta para a sociedade. Em outro livro (A Riqueza Desmistificada, 2007) eu analiso a situação dos Estados Unidos, onde há uma redução de impostos para os mais ricos, desde o primeiro governo de Bill Clinton (a partir de 1993) até o Barak Obama. Mostro ali que, ao contrário do que justificam os teóricos da concentração, não há mais investimentos, mas apenas mais especulação, o que gera instabilidade econômica e mais consumo de produtos de alto luxo, iates, jatinhos, viagens ao espaço. Os podres de rico têm tanto dinheiro que em determinado momento surge a seguinte questão: investir mais para quê? Para se incomodar contratando mais gente? Se eu posso ganhar dinheiro, muito dinheiro, com isenções, com privilégios fiscais? No caso brasileiro, que você menciona, o agravante é que a concentração de riqueza permite comprar, entre outras coisas, o próprio Congresso. Dou o exemplo da JBS, que investiu milhões de reais, centenas de milhões de reais, em todos os partidos, por uma razão bem objetiva: defender seus privilégios. Os bancos, a indústria farmacêutica, o ensino particular, o agronegócio, todos usam essa estratégia. Isso é um atentado à democracia.

EC – Qual a relação possível dessa concentração de riqueza com a nossa atual crise política?
Cattani – Total. O golpe do ano passado foi todo financiado por essa concentração, por esse poder econômico nas mãos de poucos. Não estamos falando do empresariado em geral, há empresários sérios e comprometidos com resultados, que cumprem as leis, mas do grande capital, dos grandes conglomerados que têm um controle estrito sobre a política e também sobre a mídia.

EC – O que isso tem a ver, por exemplo, com a condenação do ex-presidente Lula? Há alguma relação?
Cattani – Sim e não. Por um lado, a concepção da chamada República de Curitiba segue esse padrão concentrador: um pessoal forjado nos Estados Unidos, com uma mentalidade antipopular e elitista, cuja visibilidade se deve ao apoio dos grandes grupos econômicos, que contamina principalmente a classe média. Dou um exemplo: a indústria farmacêutica não suportou a ideia de uma medicina preventiva, desenvolvida nos governos do PT. O ideal, para esse segmento, é deixar as pessoas adoecerem para vender remédios. Outro exemplo: o ingresso de alunos das classes mais baixas na universidade pública, que provocou indignação em muitas áreas específicas. Isso evidentemente está associado com concentração de renda e espírito elitista. Mas não é uma exclusividade brasileira, a concentração de renda ocorre em todo o mundo, até na Suécia – que era um modelo clássico de distribuição – o que não remete à criminalização do ex-presidente Lula. De modo geral, a concentração está se acentuando nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra.

EC – Desde quando?
Cattani – Desde os anos de 1980. Basicamente devido à mobilidade do capital financeiro obtida a partir da tecnologia da informação. O poder desse pessoal, o poder desses podres de ricos, só aumentou. Eles compram, corrompem, criam leis, privilégios, isenções. E quando tudo dá errado, dão um golpe de Estado ou, se não for possível, mandam o dinheiro para fora e o reintegram à economia quando as coisas estiverem melhores. Essa história de que os investidores estrangeiros estão voltando ao país, por exemplo, é mais uma balela. É tudo capital brasileiro, nacional, capital que está lá fora, que foi obtido de forma ilegal, que está sendo repatriado.

EC – Por que tão poucos pesquisadores estudam a riqueza na academia?
Cattani – Porque é muito mais fácil trabalhar com a pobreza, com os pobres. Entrevistar um papeleiro, um operário, um gerente de fábrica, é tranquilo. Agora, vai tentar entrevistar um grande empresário, vai perguntar ao (Jorge) Gerdau por que ele levou a sede do seu grupo econômico para Amsterdã (Holanda). Primeiro, você não chega perto dele nem com uma agenda especial, de pesquisador. Depois, a informação essencial é protegida, não se torna pública de jeito nenhum. Eu escrevi um artigo sobre fraudes corporativas e apropriação de riqueza que não consegui publicar no Brasil, apenas no México (na revista Convergência), em 2009. Isso que tinha apenas informações públicas.

EC – Qual é a metodologia dos muito ricos para ficarem cada vez mais ricos?
Cattani – Primeiro, os muito ricos se protegem mutuamente. Ou seja, transparência (de informações) só vale mesmo para o Estado, para os governos. Nas empresas deles, não mesmo. Segundo: fomentam ideologicamente a ideia de meritocracia, a ideia de que a pobreza é um problema, e a riqueza, em contraponto, é solução. É claro que não é a solução, a concentração da riqueza agrava o problema da desigualdade. Isso é óbvio. Mas essa falsa meritocracia acaba prevalecendo, as pessoas acham que os ricos são, ou ficaram ricos, porque são competentes. Não é verdade, tirando as exceções de praxe. A maioria dos grandes empresários, por sinal, frauda as regras da concorrência, do livre mercado, quando fazem aquisições, quando compram os concorrentes. Para os grandes empreendimentos, essas regras simplesmente não existem. Outra conclusão possível é de que a riqueza não é abstrata, não está por trás de uma marca, de um conglomerado. Esses impérios são comandados por pessoas, por pessoas físicas, o dinheiro vai para a conta dessas pessoas. É a personalização da riqueza, com nome, endereço e conta bancária. Os privilégios, portanto, estão tanto no nível corporativo quanto no nível pessoal. Uso um exemplo bem simples e clássico para mostrar isso: quem ganha um salário, digamos, de R$ 5 mil aqui, paga imposto de renda compulsoriamente numa alíquota de quase 30%. Já o dono de uma empresa, pessoa física, que ganha R$ 5 milhões de pró-labore, não paga nada, nem um centavo, porque essa renda é lançada como lucro e dividendo – que é isento na nossa legislação. Proporcionalmente, essa pessoa física deveria pagar cerca de R$ 1,4 milhão de imposto de renda sobre esse montante. Mas não paga porque temos uma legislação, criada por um lobby empresarial, determinando essa isenção. As pessoas acham que o fulano é rico porque é competente. Mentira: é rico porque compra privilégios.

EC – Que dados o senhor usa em suas pesquisas, diante da dificuldade de se obter informações confiáveis do mundo corporativo?
Cattani – Temos de usar apenas dados públicos, pois não há outra maneira. Temos que usar o que aparece por aí, reportagens, balanços, estudos. Algumas ONGs fazem trabalhos ótimos de investigação. Um desses levantamentos, por exemplo, conseguiu identificar evasão de divisas por grandes empresas exportadoras: as companhias que comercializam  commodities vendem oficialmente por um preço abaixo da cotação internacional e recebem a diferença, digamos 20%, 30% do valor de face, diretamente em contas no exterior. Exportam com subfaturamento e recebem a diferença diretamente em paraísos fiscais.

Prédio de empresa nas Ilhas Virgens Britânicas que abriu offshore para a Globo e também para traficantes de drogas e de armas

EC – Isso não é lavagem de dinheiro?
Cattani – Sim. E corrupção também, porque é uma operação que precisa ser camuflada de alguma forma.

EC – Operações como Lava Jato e Zelotes podem ajudar a moralizar esse ambiente empresarial?
Cattani – Essa é uma outra questão que precisamos desmistificar: qual foi, por exemplo, o rombo causado na Petrobras apurado pela operação Lava Jato? R$ 10 bilhões? Mas qual o montante de sonegação das grandes empresas brasileiras, a cada ano? É da ordem de R$ 300 bilhões, segundo o sindicato dos auditores fiscais. Talvez R$ 500 bilhões, não se sabe ao certo. Por ano. Na fusão do Itaú com o Unibanco, uma taxação superior a R$ 25 bilhões acabou de ser anistiada pelo Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) porque os conselheiros consideraram que não houve ganho de capital na transação. O Carf é o mesmo órgão onde foram registrados inúmeros casos de compra de votos, que envolvem, entre outros, grupos de mídia como RBS e Globo. É claro que isso nunca vai ser manchete porque eles, incluindo a mídia, se protegem. É um quebra-cabeças. Por que a Gerdau, que já mencionei aqui, foi para Amsterdã? Porque é um paraíso fiscal e, dessa forma, se resolve a questão sucessória. Aqui o imposto de transmissão patrimonial varia de 6% a 8%. Baixíssimo. Nos Estados Unidos, é de 40%. No Japão chega a quase 60%. Em Amsterdã é zero. Ou seja, nossos super-ricos não querem nem pagar o mínimo que a legislação do Brasil exige na transmissão de poder e de capital para os sucessores. Isso é lavagem de dinheiro, uma forma de manutenção da riqueza. É como se houvesse um mundo paralelo ao nosso, do qual nem chegamos perto. O problema é que esse mundo está acabando conosco.

EC – Além das cifras bilionárias, esse mundo paralelo envolve mais o quê?
Cattani – Impunidade, principalmente. E problemas de ordem moral, pois historicamente esse pessoal se safa em todos os processos, sejam administrativos, sejam criminais. Problemas ambientais, também, como a devastação da Amazônia. Pequenos posseiros existem desde sempre, mas o problema começa de fato quando há um grande investimento. Porque ele dificilmente não respeita as leis ambientais, e em geral corrompe a fiscalização. O posseiro que matou uma onça vai para a cadeia; o empresário que devastou quilômetros e quilômetros de floresta está viajando de jatinho para Miami. A concentração de renda se retroalimenta porque cria impunidade e privilégios em várias áreas.

EC – Nesse cenário, qual a perspectiva de solução?
Cattani – Precisamos de formação e de informação. As pessoas não sabem o que acontece, o trabalhador que paga impostos compulsoriamente acha que todo mundo paga também. A solução é simples: basta os ricos pagarem os impostos que devem.

EC – Mas como fazer isso?
Cattani – Sensibilizando a população, já que pela via legislativa ou pelo poder do Estado não tem como. Não com esse Congresso nem com esses governos. As pessoas têm que saber o que está por trás de determinadas decisões políticas. Um exemplo: pequenos empresários que aderem a essas campanhas por menos impostos precisam saber que os grandes empresários, que são seus ídolos, não pagam imposto. Quem paga é ele. Se todo mundo pagasse seus impostos corretamente, dentro dos padrões capitalistas normais, o equilíbrio seria muito maior.

EC – Para onde esse comportamento vai nos levar, na sua opinião?
Cattani – Para o desastre.

(…)

 

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18 Aug 19:50

Eu, Yuki e Charles Aznavour

by elikatakimoto

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Ontem chamei Yuki, meu caçula de dez anos, para mostrar algo para ele.

– Kinho, vem ver aqui uma coisa. Quero te apresentar algo especial. Mas você tem que estar 100% comigo aqui.

– Tô pronto. – disse ele uns minutinhos depois.

Peguei meu celular. Coloquei os fones de ouvido nele. E dei o play em Charles Aznavour cantando Hier Encore.

Yuki, para vocês terem uma ideia, chorou com menos de dois anos quando ouviu pela primeira vez Sailing cantado por Rod Stewart no Rock in Rio. Eu estava assistindo o vídeo com ele ao meu lado e levei um susto com Yukinho em prantos. Quando perguntei por que ele chorava, meu bebê tirou a chupeta da boca e me respondeu:

– A muca, moin, a muca… – querendo dizer que era a música que havia emocionado.

Isso posto, fiquei com ele abraçada nesse momento importante onde somos apresentados a raridades.

Lágrimas mais uma vez.

Ele tirou os fones lentamente.

Silêncio alguns segundos.

– Mãe, que isso mãe… lindo!

Daí me empolguei e mostrei outras coisas do mesmo artista. Depois falei que Aznavour era tipo um Frank Sinatra só que francês.

– Quem é Frank Sinatra? – perguntou ele curioso.

Peguei e mostrei logo o My Way cantado pelo the voice. Sou dessas. Yuki estava só emoção.

Como forma de gratidão, ele me mostrou vários vídeos mega da hora de YouTubers jogando vídeo game hiper difíceis de estratégias e outros contando piadas e várias curiosidades. Amei todos! Ficamos conversando muito depois sobre o que acabamos de conhecer apresentado pelo outro.

É o que canso de falar para eles. Não me tornei mãe para “educar” ninguém e muito menos dizer o que é certo a se fazer nessa vida – já que eu mesma estou perdida nessa bagaça.

Coloquei filho no mundo para trocar ideia.

E como tem sido bom esse escambo com eles…

 


Arquivado em:Crônicas
18 Aug 12:49

Funcionalismo Público no Brasil: um gráfico para mudar sua visão

by Marcelo Ramos Oliveira

Costuma-se ouvir muito que há muitos funcionários públicos no Brasil e que precisamos de um choque de eficiência! Contudo, se compararmos o número de servidores públicos [1] ao total de trabalhadores em uma amostra de países, o Brasil não lidera a lista, muito pelo contrário.

Gráfico Número de Funcionários Públicos
Fonte: OCDE [2]

Claro que há questões de valores absolutos, isto é, a população maior de uma nação acaba influenciando o estoque total de trabalhadores.

No entanto, o percentual maior de servidores públicos nos países europeus pode demonstrar justamente a maior intervenção do estado na economia no sentido de prover emprego para uma massa de trabalhadores que não é absorvido pelo setor privado, devido a uma série de fatores, como por exemplo, o próprio desenvolvimento da economia.

Infelizmente, os dados para os EUA e para a China não estavam disponíveis na série histórica da OCDE.

A principal lição que tiramos do gráfico acima é: não devemos olhar apenas o número de funcionários públicos, mas também os auxílios e benefícios que os encarecem, principalmente aqueles oriundos do meio político e do judiciário!

Terraço Econômico

[1] O emprego no setor público abrange todos os empregos do Governo, tal como definido no Sistema de Contas Nacionais, além do emprego em empresas públicas. O setor da administração pública compreende todos os níveis de governo (central, estadual, local e fundos da seguridade social) e inclui os ministérios centrais, agências, departamentos e instituições sem fins lucrativos que são controlados pelas autoridades públicas.

[2] Você tem acesso a toda a pesquisa da OCDE sobre funcionalismo público neste link: http://goo.gl/4oHsND


Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

http://www.infomoney.com.br/blogs/economia-e-politica/terraco-economico/post/5406420/funcionalismo-publico-brasil-grafico-para-mudar-sua-visao

17 Aug 12:56

A palavra é a nossa arma

by Lady Sybylla
Estes são tempos estranhos. Tempos onde nazistas não só existem como não têm medo de ir às ruas gritar palavras de ordem e bradar que odeia judeus, negros e gays, inspirando outros grupos a destilar ódio aberto e gratuito. Foi preciso ir para uma guerra mundial e matar quase 60 milhões de pessoas, mas eles ainda se multiplicam por aí, pregando o preconceito. O ódio que não se mantém apenas contra certos grupos, é contra toda e qualquer voz que gritar o contrário a eles. Como escritores, esses são tempos para usar nosso ofício de maneira a não compactuar com esse ódio, de mostrar o outro lado, de enfrentar essas ideias, de não tolerar tais discursos.


Siga a @Sybylla_

Émile Zola disse que os governos suspeitam da literatura porque é uma força que lhes escapa. Não é à toa que governos totalitários exerçam pressão sobre artistas e queimem livros em praças públicas, de tanto medo que livros carregando ideias que desaprovem caiam nas mãos e nas mentes das pessoas. As sátiras de Zamiátin o levaram para a prisão e depois para o exílio. O regime nazista fazia piras com livros que consideravam subversivos.

O ser humano gosta de contar histórias. De pinturas rupestres, a grande paredes decoradas de templos egípcios, dos arabescos intrincados aos mosaicos romanos, códices, pergaminhos, palimpsestos da vida humana, Gutenberg e a prensa, a democratização da palavra escrita, a conversa no bar, os tuítes, as histórias estão sempre por aí. Usadas para tudo, elas podem servir para legitimar guerras, tratados, atrocidades e massacres, bem como para iluminar, engrandecer, inspirar e erguer lutas. A luta dos seres humanos é com as palavras, com as sentenças, com as ideias.

Você não precisa ser um escritor para espalhar a palavra. Pelo bom exemplo, pelo respeito, pelas boas ideias, pelas críticas construtivas, você já inspira alguém. As histórias nos lembram quem somos, quem podemos ser e pelo o que devemos lutar. Contar histórias dá espaço para que grupos tenham sua voz e não tenham mais as narrativas silenciadas. É com as histórias que criticamos o que vemos, que tentamos entender o mundo e tentamos encontrar nosso lugar nele. Contar histórias é imaginar como o mundo pode ser - por bem ou por mal - e como podemos mudá-lo. É sobre deixar alertas, deixar avisos e impressões, deixar um sinal para que as pessoas possam seguir. Aqueles que são oprimidos, calados, castigados, perseguidos, ao se verem nas histórias contadas, quando contam suas próprias histórias, tomam para si o direito de existir, o de direito de ser humano.

Use seus privilégios para algo bom. Use seus privilégios para espalhar boas histórias. Use sua palavra como uma arma contra a opressão e contra o ódio. É o que eu sei, o que posso fazer, então é o que vou fazer. Faça o mesmo. Ao se sentir desamparada, sozinha, sente e escreva. Ou ligue para alguém. Espalhe a palavra, faça da sua história uma arma. Existem diversos papéis que as pessoas podem desempenhar numa guerra. Faça o seu. Não compactue com um sistema opressor, se oponha a ele.

Os nazistas, os racistas, os supremacistas brancos, os evangélicos que se opuseram aos muçulmanos no Rio de Janeiro, as pessoas que defendem o Escola Sem Partido, os homens que estupraram uma indiana em Delhi, aqueles que querem ter o direito de oprimir e ofender em nome do "politicamente incorreto", elas estão contando suas histórias para garantir o direito de continuarem oprimindo. Estão tomando as ruas e falando de um mundo que querem para si, um mundo errado, torto, quebrado. São pessoas que não querem um mundo justo, um mundo mais igual, são aquelas que não querem mudanças. São aquelas que querem ouvir apenas suas próprias vozes. O jeito é berrar mais alto, contar mais histórias, lutar do jeito que sabemos fazer. E contar, contar muitas histórias.

Até mais.

Já que você chegou aqui...
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17 Aug 12:55

Amazon antecipa promoção anual e dá desconto de até 90%

by Maria Fernanda Rodrigues
Allan Patrick

Começa ao meio dia de hoje.

Em 21 de agosto de 2014, na véspera da abertura de uma Bienal do Livro, o principal evento do mercado editorial, a Amazon começou a vender livro físico. No primeiro aniversário, mais uma surpresa: uma megapromoção, também perto da feira. Em 2016, ela repetiu a fórmula – descontos altos para lançamentos e fundo de catálogo – e dobrou o volume de exemplares vendidos.

amazon promoção

Estoque da Amazon em Cingapura (Foto: Edgar Su/Reuters)

Podia ter sido melhor, a empresa avaliou após ouvir de consumidores que no fim do mês o bolso aperta. A Book Friday durava uma semana, outro ponto de reclamação. A cada dia um lote de livros entrava na promoção e isso deixava o consumidor confuso – ou arrependido pela compra já feita.

Essa é a justificativa de Daniel Mazini, gerente-geral de livros impressos da amazon.com.br, ao anunciar que a Book Friday será antes e mais curta – ela começa ao meio-dia de hoje, 17, e vai até as 23h59 de sexta.

Leia também: Saraiva responde à Amazon e também dá descontos de até 90%

Outra novidade, ele conta, é a quantidade de títulos incluídos na ação – 35 mil, entre impressos e digitais, ante os 22 mil de 2016, e todos com frete grátis.

Livro do momento, O Conto de Aia, de Margaret Atwood, vai custar R$ 24,90 (o preço de capa é R$ 44,50, embora já seja encontrado em algumas livrarias, na Amazon inclusive, por R$ 27,50). As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, que custa R$ 99,90 e é oferecido hoje pela livraria por R$ 26,90, poderá ser comprado por R$ 19,90. O preço da Caixa Harry Potter – Edição Premium Exclusiva Amazon, de J. K. Rolling, caiu de R$ 249,50 para R$ 139,90. Isso, nas edições impressas, cujos descontos chegam a 80%.

No caso dos e-books, eles podem ser maiores. A cada seis horas, um lote-surpresa com descontos de 90% será colocado no ar. Depois de Você, de Jojo Moyes, o 10.º livro mais vendido no Brasil no primeiro semestre, segundo a Nielsen, vai custar, em sua versão digital, R$ 14,95 (vale R$ 24,90). Os e-readers Kindle estarão R$ 80 mais baratos, e quem quiser assinar o Kindle Unlimited vai pagar mensalidade de R$ 1,99 nos três primeiros meses, e não os usuais R$ 19,90).

Alguns sebos, livrarias e editoras que vendem por meio do site da Amazon, que lançou seu marketplace em abril, foram convidados a participar da ação – uns darão desconto, outros, frete grátis. “Com isso, alguns livros raros da Cosac Naify, que já acabaram em nossos estoques, voltam a ficar disponíveis para o leitor”, diz Mazini.

Este não é o melhor momento do mercado editorial brasileiro que, embora dê sinais de recuperação, está longe de sair do vermelho. Líder, a Saraiva se vê às voltas com a queda da receita bruta de suas lojas físicas e vende, para editoras, espaço em seu estande na Bienal do Rio (de 31 a 10/9) para ajudar a custear sua participação.

A Cultura, a segunda, tem de se reestruturar após comprar a operação da Fnac no Brasil ao mesmo tempo em que precisa pagar a dívida que acumula com várias editoras.

Enquanto isso, a Amazon, que só tem, por ora, e-commerce, e que ficava em 3.º no ranking das melhores vendedoras, já encosta na Cultura, dizem fontes do mercado. Desde 2012, quando chegou aqui, ela distribuiu 34 milhões de títulos (físicos, e-books, e-books gratuitos e empréstimos).

17 Aug 12:23

Lula cresce em pesquisas de “esquerda” e “direita” após condenação

by eduguim

moro x lula

As pesquisas eleitorais mais recentes sobre a sucessão presidencial de 2018 confirmam tendência que já dura mais de ano de a maioria esmagadora do eleitorado dar uma banana para os candidatos dos muito ricos e apostar nos extremos.

Nesse aspecto, Lula e Jair Bolsonaro disputam a preferência do eleitorado enquanto que candidatos ligados ao establishment amargam o preço da impopularidade de Temer. Quando se fala em candidatos ligados ao establishment, obviamente que se está falando de tucanos.

O que mostra a preferência do eleitorado pelos tucanos é uma pesquisa realizada pela XP Investimentos que indica Geraldo Alckmin e João Dória como os candidatos a presidente preferidos pelos investidores do mercado financeiro.

A mesma apuração prevê queda das ações da bolsa de valores caso Lula ou Jair Bolsonaro conquistem um mandato presidencial.

Os dados foram coletados na primeira semana de agosto. Foram ouvidos 168 investidores institucionais e 400 assessores das principais instituições do mercado financeiro brasileiro.

Na pesquisa, 42% dos operadores do mercado financeiro cravaram o nome de João Dória como candidato preferido, enquanto que 38% preferem Alckmin. Lula ficou com 6%, Marina Silva e Jair Bolsonaro, 3% cada. Álvaro Dias, 2%.

Se depender do eleitorado brasileiro, porém, os banqueiros ficarão a ver navios. Duas pesquisas eleitorais recentes mostram a mesma coisa, apesar de apresentarem números diferentes.

No dia 3 de agosto, pesquisa Vox Populi feita para a Central Única dos Trabalhadores apontou melhora na imagem do ex-presidente Lula, que, nessa pesquisa, bate os concorrentes em qualquer cenário.

O levantamento ouviu 1999 eleitores em todos os estados e no Distrito Federal entre 29 e 31 de julho – bem depois, portanto, de o juiz Sergio Moro determinar a pena de nove anos e meio de prisão para Lula.

Um dado em particular chamou atenção: continua a melhorar entre os eleitores a percepção de que o ex-presidente é honesto. Seis meses atrás, 30% lhe atribuíam essa característica. Na última pesquisa, o índice chegou a 35%. O petista também foi mais bem avaliado em outros quesitos, como competência e credibilidade.

A pesquisa afirma ser “majoritária” a visão de que não ficou provado que o apartamento no Guarujá pertence ao ex-presidente (42% a 32%). Afirma, também, que Moro trata com mais rigor Lula e o PT (44% a 42%).

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Nos dois cenários mais prováveis, com Bolsonaro, Marina Silva, Ciro Gomes e Geraldo Alckmin, no primeiro cenário, e João Doria, no segundo, Lula mostra crescimento após a condenação por Moro.

 

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Nas projeções de 2º turno, Lula venceria de lavada qualquer adversário, com cerca de 50% contra média de vinte e poucos por cento de qualquer adversário – Alckmin, Doria, Marina ou Bolsonaro.

É claro, porém, que os adversários de Lula dirão que a pesquisa CUT/Vox Populi é tendenciosa – isenta são as pesquisas ligadas à mídia antipetista, para essas pessoas. Mas, seja como for, qualquer pesquisa, seja ligada aos grandes grupos de mídia ou a pesquisa associada à esquerda (Vox Populi) mostram a preponderância de Lula.

O dado importante, porém, é que uma pesquisa ligada à grande mídia acaba de mostrar a mesma coisa que a pesquisa “petista”.

A pesquisa Datapoder 360 foi divulgada por site criado pelo jornalista Fernando Rodrigues, ligado umbilicalmente ao grupo Folha de São Paulo. Essa pesquisa também mostra melhora das intenções de voto de Lula após ter sido condenado por Sergio Moro. pesquisas 4

A pesquisa mostra que Lula cresceu, pontuando em agosto 31% e 32%, nos 2 cenários testados. Em julho, antes de ser condenado à prisão pelo juiz Sérgio Moro, Lula tinha, segundo o Datapoder 360, de 23% a 26% de intenções de voto.

Segundo o veículo ligado ao antipetismo, “A pena imposta pelo magistrado parece ter feito bem ao petista”.

A pesquisa do DataPoder360 foi realizada por telefone (com ligações para aparelhos fixos e celulares) de 12 a 14 de agosto. Foram feitas 2.088 entrevistas em 197 cidades.

Sobre questionamentos por a pesquisa ter sido feita por telefone, O Datapoder 360 se defende dizendo que “Os levantamentos telefônicos permitem alcançar segmentos da população que dificilmente respondem a pesquisas presenciais”.

Em termos técnicos, porém, pesquisa por telefone é inferior à metodologia do Vox Populi, instituto consagrado no mercado há décadas. Mas, seja como for, a pesquisa ligada ao antipetismo, apesar de mostrar Lula com muito menos votos que na pesquisa “petista”, mostra a mesma coisa que ela: Lula crescendo após ter sido condenado.

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Como se vê, a pesquisa “antipetista” diz a mesma coisa que a pesquisa “petista”, ou seja, que Lula se fortaleceu após ter sido condenado por Moro. E mostra que, se o petista for impedido de disputar, seus votos vão para… ninguém.  Antes de explicar o que isso significa, vejamos cenários sem Lula.

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Sem Lula na disputa, votos brancos e nulos disparam. Nos 2 cenários, o resultado é praticamente o mesmo. Sem Lula e com Alckmin na disputa, 45% dos entrevistados votam branco/nulo ou estão indecisos. Com Doria e sem Lula, 44% votam em branco/nulo ou ficam indeciosos

O que significa isso? Que, sem Lula, seu eleitor espera uma sinalização sobre em quem votar. De quem viria a sinalização? De Lula, obviamente.

A pesquisa antipetista, portanto, sugere que a maioria quer votar em Lula e, se não puder votar nele, deverá votar em quem ele indicar.

As razões para esse cenário sobre a sucessão presidencial são fáceis de entender. Os tucanos estão amargando a aliança com o presidente mais impopular da história, Michel Temer. Marina Silva sofre o efeito de ter se aliado a Aécio Neves, outro zumbi político.

Bolsonaro é o candidato dos extremistas de direita que acreditam que ele não está envolvido em escândalo por ser honesto e não por todos os grupos políticos importantes e que tinham como avançar sobre o Erário terem preferido se manter longe de sua verborragia nazifascista.

Ou seja: se Bolsonaro não está metido em nenhum escândalo, pode ter sido por absoluta falta de oportunidade.

O Blog da Cidadania vinha prevendo que Lula recuperaria prestígio desde o início de 2016, antes de sua condução coercitiva, quando o petista havia despencado na preferência popular. A operação da Polícia Federal contra ele, em março de 2016, começou a sugerir ao público que o ex-presidente estava sendo perseguido.

Esse processo de consolidação das candidaturas Lula e Bolsonaro deve continuar por conta do literal apodrecimento da economia e das condições de vida dos brasileiros. Apesar da acomodação do desastre, os brasileiros não vão ver a cor das condições de vida a que estavam acostumados até 2014, pouco antes de a direita midiático-judicial-policial sabotar o país.

É o que sugere o índice Country RepTrak deste ano, segundo o Reputation Institute.

O Brasil despencou sete posições no ranking de países com a melhor reputação global. O país aparece em 31º lugar na lista que inclui 55 nações de várias partes do mundo. E agora aparece atrás de países que não costumavam ter uma imagem internacional melhor do que ele, como Argentina (30º) e Chile (29º).

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O empobrecimento vai se acelerar devido aos cortes draconianos dos gastos públicos, do corte nos programas sociais e, sobretudo, na reforma trabalhista, que vai diminuir consideravelmente a qualidade dos empregos e o valor real dos salários.

A conclusão a que se chega é a de que a esquerda deve chegar forte à eleição de 2018. E que Lula, se não puder ser candidato, será um fortíssimo cabo eleitoral. Até porque o juiz Sergio Moro, ao não conseguir provar a culpa do inimigo, sugeriu aos brasileiros que Lula é vítima de um complô da elite carnívora que infesta o Brasil.

16 Aug 19:00

AS MELHORES DICAS PRÁTICAS PARA QUEM VAI PRA CUBA

by lola aronovich
Conheci recentemente a professora Martha Daisson Hameister, do Departamento de História da UFPR, ao fazer parte da banca de uma orientanda dela. Quando ela viu que eu vou pra Cuba em dezembro, de férias, me deu as melhores dicas, realmente muito generosas.
Parece que todo mundo já foi pra Cuba menos eu, e todos que foram amaram e estão me presenteando com excelentes sugestões. Mas as da Martha foram as mais completas e práticas. Então deixo-as aqui com vocês. Vai que elas ajudam mais "mortadelas que obedecem aos inúmeros pedidos de 'Vai pra Cuba!'".

1) Varadero é caro e cheio de turistas. Mas há praias pequenas perto de Havana, como Santa Maria del Mar, que se pode ir pela manhã e voltar à tarde. Na época, ida e volta custava pouco mais de 10 reais. Deves levar a "farofa" -- sanduíches e principalmente água -- pois como em toda praia, tem o que comer, mas custa mais caro.
2) Para hospedagem, o melhor lugar é ficar em uma casa no bairro VEDADO [muitos brasileiros recomendam também Havana Velha]. Fica perto do Malecón [a orla de Havana], tem muitos serviços, caixas eletrônicos, padarias e vida noturna. 
Há bons cafés, bares e restaurantes. Há a sorveteria Copélia -- a favorita de Fidel -- embora eu não tenha encontrado outra... 
Uma amiga se hospedou com filha e sobrinha adolescentes nessa casa, mas nesse site há outras tantas. Vedado e toda Havana é muito segura. Passeia-se a qualquer hora do dia ou da noite sem maiores preocupações. Caixa eletrônico não tem porta, por exemplo. 
Eu fiquei numa casa de uma senhora de uns 70 anos que foi alfabetizadora do exército cubano. Alfabetizava soldados e civis como sua missão revolucionária. 15 dias de convívio com as pessoas em seu próprio meio dão mais conhecimento do que um curso inteiro sobre isso. Aliás, perguntei-lhe se não temia pela cooptação de jovens e ataques às conquistas cubanas após as negociações com EUA. Ela fez um discurso inflamado sobre a ciência que os cubanos, jovens e velhos, têm sobre os benefícios da revolução, da saúde para todos, da educação para todos e tanta outra coisa. Concluiu: "Y se no les gusta Cuba, que se vayan todos para allla".
3) Querendo ou não, se emagrece em Cuba. Nada de comida a la carte farta. O que há são excelentes PFs, arroz, feijão, carne de porco, frango ou ovo e alguma salada. Muito difícil comer carne de gado. São reservados basicamente para o leite, que é distribuído gratuitamente para crianças, gestantes, lactantes, idosos ou sob prescrição médica. Se és viciada em leite, leva leite em pó. Leite é CARÍSSIMO em Cuba. Algo como 40 reais uma latinha de leite Ninho. 
4) Toda água de Cuba é tratada. O problema são encanamentos velhos, muitas vezes de chumbo e as caixas d'água precárias. Portanto, é bom comprar água ou apanhá-la nas garrafinhas nas torneiras ao rés do chão -- em praças, jardins ou coisa assim -- a água que ainda não subiu para a caixa nem passou pelos canos de chumbo. Ainda assim, há casas que já trocaram os encanamentos e caixas d'água e, portanto, não há problema maior em consumi-la.
A água em Cuba custa 1 CUP meio litro (é cara, porque 1 CUP = mais ou menos 1 dólar). Mais barato se pegar garrafa grande. Ultimamente, tenho resolvido meus problemas com água em viagem -- como você, também bebo muita água e gasto muito em água. Imagina, um mínimo de 5 dólares/dia em água -- após essa viagem a Cuba. Comprei uma jarra-filtro de carvão ativado e levo junto. Coloco algumas peças de roupa -- camisetas, toalha ou o que seja, dentro e em torno dela para não quebrar. Essa aqui, ó. Comprei em uma loja da própria filtros Europa. Há refil para o filtro do carvão. 
Na primeira viagem ela já paga seu preço! Tem também a garrafinha filtro individual para os passeios.
5) Ao contrário do que dizem, há sim material de higiene, embora caros para turistas. Convém levar uns sabonetes a mais, pois é um bom presente para as pessoas encantadoras que irás conhecer. Não há mosquitos (como me apavoraram quando eu estava para viajar). Não há necessidade de repelentes.
6) LIVROS: há boas livrarias e sebos em Vedado. São MUITO baratos e vendidos pelo peso cubano e não pelo turístico. Saí com 2 sacolas de livros e gastei em torno de 30 reais no câmbio da época (2015).
7) Dinheiro em papel: melhor levar EUROS. O dólar tem um ágio de 10% ou 20% como retaliação ao embargo. Euro pega um câmbio melhor. 
Depois disso, é bom trocar uma quantia de CUCs -- dinheiro de turista -- por CUP -- dinheiro de cubanos para as pequenas despesas. Muito cuidado pois o design das notas é muito parecido. Minha observação para não entregar o dinheiro errado: CUC tem monumentos nas notas. CUP tem as personagens em "retrato". (Algo como CUC tem monumento a Che Guevara e CUP a efígie do Che Guevara). 
Tem casa de câmbio perto da sorveteria Copélia, perto do hotel Habana Libre. Tudo o que conseguires pagar em CUP vais pagar mais barato. Ah, reserva um troquinho para trazer as notas de 3 CUP para presentear amigos: ela tem a efígie do Che, é uma boa lembrancinha de viagem.
Esse conversorzinho aqui é de grande valia para ver qual a situação mais vantajosa, se dólar ou euros. Nós optamos por levar euros, que fomos comprando no Brasil aos poucos. Essa outra página apresenta por cidades no Brasil a cotação e quais as casas de câmbio que têm melhores taxas. Não adianta levar cartão de crédito para Cuba, que ainda não são muito aceitos.
8) Há pequenos comércios para cubanos e nesses se paga com peso cubano, a menos que te cobrem em CUC. Pão e outras coisas dessas são comprados de modo mais barato. Só tem que descobrir onde ficam. Frutas como manga, banana, abacate são vendidas na rua, por vendedores que passam de carrinho de mão. Alguns, ao verem que és turista, vão tentar aumentar o preço. Não paga. Lá há o "a peso", ou seja, uma unidade = 1 CUP. 
Ônibus urbanos são legais, meio aventura, são pagos em CUP ou se não tens dinheiro trocado, não precisa pagar. Não tem cobrador. Tem uma caixinha para botar o dinheiro -- muito pouco, baratíssimo (cerca de 1 CUP, ou 16 centavos de real) -- que funciona como um "pote da honra". O passageiro põe o dinheiro da passagem ou não põe. Num ônibus que peguei havia o aviso de que podes ir sem pagar se estás sem dinheiro, fica para a próxima o pagamento.
9) Se fazes uso de algum medicamento, leva junto. Não se compra medicamentos sem receita médica em Cuba, nem dipirona para a enxaqueca. O serviço de saúde é excelente, mas não abrange os turistas. Leve lenços de papel para emergências de ir ao banheiro quando estiveres em algum passeio. Embora nunca tenha entrado em um banheiro sem papel higiênico, isso pode acontecer. 
Também o papel higiênico não é tão suave... convém ter um rolinho na bagagem. 
Quando deixamos a casa em que estávamos, a dona recolheu tudo aquilo que não levaríamos: sabonete em uso, o resto do papel higiênico, sacolinhas de supermercado... aí, dei para ela a sobra do meu leite em pó e os xampus que dariam mais trabalho em trazer de volta do que deixar lá. Ficou muito agradecida.
10) Há muitos espetáculos na rua ou em teatros, baratos ou gratuitos, e os cubanos adoram informar sobre eles. 
11) Um pouco de cuidado em uma prática de exploração de turistas: um cubano se oferece para te levar a algum lugar, bar, restaurante, casa de espetáculos. Lá ele começa a pedir comida e bebida e a conta recai no turista.
12) A parte ruim: cuidado com os motoristas de táxi chamados "máquinas" apanhados na rua. É só preciso ficar atenta. Há uma quadrilha de taxistas especializados em roubo a turistas. Ou sequestro de bens. Quando fui para a rodoviária (incluímos Guantanamo no roteiro), o taxista me "ajudou" a tirar a bagagem. Eu alcançava a mochila e a bolsa de viagem e ele em vez de colocar na calçada ou entregar ao meu companheiro de viagem, colocou no banco da frente. Na mochila estavam meus documentos: passaporte, visto de entrada, etc. 
Precisei fazer um enorme de um drama, chorar e dizer que era professora e que o sonho da minha vida, conhecer Cuba, havia virado um pesadelo. Outros taxistas se "mobilizaram" e localizaram o táxi. Óbvio que pediram uma propina, pois haviam gasto gasolina, deixaram de fazer corridas etc. Resolvido o problema, uma outra turista/cubana que vive na França, começou a gritar que haviam sumido os presentes que levava para a família em Santiago. Roubaram garrafas de vinho, roupas e mais coisas que são custosas em Cuba, como chuveiro elétrico. 
13) Essa foi a única experiência ruim que tive e portanto, te alerto para ter cuidado. De resto, pegamos táxis compartilhados na rua, paga-se muito barato. 
Vai um número grande de pessoas ou o táxi para para apanhar mais gente. É bom, se conhece mais pessoas, conversa-se sobre a vida, o universo e tudo o mais. Os cubanos são muito cultos, pode-se conversar sobre a política brasileira ou cubana com um camelô ou com uma senhora parada na rua que cuida das crianças que estão jogando bola...
14) Incluí Guantánamo na viagem porque há anos me correspondo com um cubano que tem o mesmo sobrenome de minha mãe e que me achou na rede. Como ir a Cuba e não visitá-lo? Foi uma aventura e tanto. Viajar dentro de Cuba sai caro para turistas (há preços de passagens diferentes para turistas e para cubanos) e foi quando eu passei o perrengue do sequestro dos bens no terminal dos ônibus em Havana. 
A viagem foi de 3 dias e foi ÓTIMA. Conheci a sua família, passeamos por praias no sul da ilha, conheci uma cidade muito musical (toda Cuba é), com cafés que após o entardecer se tornam em uma praça de dança, na praça mesmo,  na frente do café, com rumba ao vivo e gente de todas as idades dançando. Músicos de excelente qualidade, pois o ensino da música também é gratuito em Cuba!
15) Ah, sobre assédio na rua, que é muito comum em Cuba: a sobrinha adolescente da minha amiga, jovem, creio que com 17 ou 18 anos, ruiva, lindinha, estava revoltada com os psiu, hermosa, guapa, etc de assediadores que por vezes a seguiam por uma quadra ou mais. Aí ensinei para ela a chave do mistério: dizer em alto e bom som "no me molestes". Cubanos chegam, jogam o xá-lá-lá sedutor ou assediador, mas respeitam o não. Não só esses assediadores, mas também os bêbados inconvenientes -- bebe-se e fuma-se muito em Cuba, terra do rum e dos tabacos. Resolve-se o problema com "no me molestes". 
16) A população e a polícia são desarmados. Pouquíssimos homicídios, em geral passionais ou briga de bêbados ou em família e com arma branca. São latinos, né? Fazem escândalos por dor de amor, brigam, gritam, etc. Mas não há muitos casos de homicídio. 
Policiais são policiais, mas são gentis (muito gentis perto dos que conhecemos por essas paragens). Também têm atenção especial com os turistas. Meu companheiro de viagem, gay, estava conversando com um rapaz na frente de uma boate. Os policiais chegaram, pediram documento de ambos e perguntaram se o rapaz lhe havia pedido dinheiro ou alguma outra coisa, ao que ele respondeu que não, que estava pedindo informações ao rapaz e que esse estava sendo muito gentil em responder-lhe. Os policiais foram embora, desejando boa estada em Havana e que procurasse a polícia caso tivesse qualquer problema. Foram um pouco mais duros com o rapaz cubano, mas não foram truculentos nem mal educados. 
17) Há bastante tolerância aos gays, há show de transformistas em casas noturnas. Esse amigo meu ficou pasmo. Teria um show nessa boate e ele entrou para ver. Um cantor lírico gay fez uma apresentação a capellla maravilhosa, de trechos de ópera de Mozart! Na boate tinha muitos namorados, fazendo namoro de sofá, mãozinha dada e olho no olho com paixão.
18) Cubanos são dados a pedir coisas. Não se trata de miséria ou exploração. Eles são generosos também e estão acostumados a se socorrerem mutuamente. Um dá um isqueiro, mas amanhã poderá estar pedindo parafusos ou pregos. É um hábito que não deve ser encarado como afronta e exploração, mas como uma cooperada forma de driblar a carência de certas coisas.
19) Ah, lembra da tua infância, quando apareceram as sacolinhas plásticas de supermercado? A mãe lavava e deixava secando para usar de novo? [Não lembro disso, Martha!] Pois bem, em Cuba fazem o mesmo. Não possuem indústria de produtos plásticos e se pode ver muitas sacolinhas secando nos varais. Leva sacola retornável para carregar o pão, a água e outras coisinhas dessas. 
Em geral, os produtos não são embrulhados ou são embrulhados em papel de armazém (lembra disso também, né?). [Ok, isso sim!]. Leva algumas sacolinhas plásticas para coisas que são molhadas ou podem vazar. 
Ao final da viagem, o que deixares lá, sacola retornável ou a plástica, será bem apreciado por quem as receber. 
20) Levei para o "primo" de Guantanamo uma sacolinha de evento que organizei, aquelas de algodão cru, com o material do evento dentro: bloquinho, caneta e o caderno de resumos. Ficou muitíssimo agradecido por tudo. Os materiais escolares o governo fornece, mas... ele não é mais estudante. Ele adotou a sacolinha como seu porta-coisas de todo o dia e o bloco e a caneta também foram muito bem recebidos. 
A gente vive há tanto tempo na abastança dos objetos de consumo e com dinheiro para comprá-los que esquece como era o tempo em que tudo pesava no orçamento. Cuba evoca essas lembranças de infância.
16 Aug 11:55

“Ritinha” acusa Robinson de desviar cerca de R$ 100 mil/mês

by Carlos Santos

Por Dinarte Assunção (Do Portal Noar)

A procuradora aposentada da Assembleia Legislativa, Rita das Mercês Reinaldo, afirmou em depoimento ao Ministério Público Federal (MPF), que o governador Robinson Faria (PSD), na condição de presidente da Assembleia Legislativa, desviava em proveito próprio cerca de R$ 100 mil por mês.

Rita das Mercês, a "Ritinha", em visita a Robinson Faria na Governadoria em 2015 antes da Dama de Espadas (Foto: Arquivo)

O depoimento serviu para o ministro Raul Araújo Júnior, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), autorizar a Operação Anteros no dia de hoje, que levou para a prisão Magaly Cristina da Silva e Adelson Freitas dos Reis. Ambos foram flagrados pela Polícia Federal, a partir, inclusive, de ações controladas, negociando em nome do governador, o silêncio de Rita das Mercês.

As informações constam na decisão do ministro do STJ e à qual a reportagem teve acesso. Toda a investigação tramita sob sigilo.

Em nota, a defesa do governador Robinson Faria negou (veja AQUI) que ele tenha praticado qualquer irregularidade durante o período em que foi deputado estadual e presidente do Legislativo.

O caso

Há pouco mais de dois meses, Rita das Mercês Reinaldo, “Ritinha”, procurou o MPF para narrar que, quando assumiu a presidência do Legislativo, em 2006, Robinson passou a controlar a folha de pessoal e incluir “pessoas que não exerciam quaisquer funções nesse poder, com o único objetivo de desviar recursos públicos oriundos de suas remunerações em favor do Presidente e de outras pessoas”, diz trecho da decisão.

Segundo Rita narrou, eram três as modalidades de desvios: através de servidores irregulares que recebiam gratificações, já que não havia mais cargos disponíveis na ALRN e arregimentação de pessoas que passaram a ser incluídas na folha, mesmo sem cargo ou função designada, além de um esquema envolvendo servidores e que já foi denunciado pelo Ministério Público Estadual (MPRN) – Veja AQUI.

“[Rita das Mercês]Informou, outrossim, que Robinson Faria embolsava com o desvio das verbas públicas em tela cerca de R$ 100 mil mensais, situação que perdurou até o fnal de seu mandato na Presidência da ALRN, em dezembro de 2010”, diz trecho da decisão.

Obstrução

Ao Ministério Público Federal, Rita levou gravação de conversa com Adelson Freitas dos Reis, homem de confiança do governador. Na conversa, Adelson informava que o governador “teria mandado dizer que arcaria com os custos de sua defesa no processo [da Dama de Espadas]”, diz a decisão. Adelson está preso provisoriamente por suspeita de obstrução de justiça e associação criminosa.

A partir daí, o MPF pediu quebras de sigilos e a PF passou a monitorar o caso. Adelson foi apanhado posteriomente na casa de Rita entregando-lhe dinheiro.

Já Magaly Cristina tem relação com o governador desde 1987. Ela foi uma das pessoas de confiança durante a gestão de Robinson na AL.

Segundo as investigações, ela foi apanhada tentando colaborar com a obstrução através de um contato com a filha de Rita das Mercês.

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14 Aug 19:20

Cuando los elefantes sueñan con la música - Tribalistas - 14/08/17

Quince años después de su primer y único disco, los Tribalistas (Marisa Monte, Arnaldo Antunes y Carlinhos Brown) han vuelto a grabar. Hoy, como anticipo del disco que publicarán a finales de mes, escuchamos cuatro de esas canciones inéditas: 'Diáspora', 'Um só', 'Fora da memória' y 'Aliança'. Y hoy volvemos a escuchar la única canción que se conoce, 'Tua cantiga', del próximo disco de Chico Buarque anunciado también para finales de mes. Hamilton de Holanda celebra diez años de su quinteto con un disco de canciones de Milton Nascimento, 'Casa de Bituca' ('Bicho homem', 'Clube da esquina nº2', 'Vera Cruz'), y María del Mar conmemora cincuenta años de escenarios con 'Ultramar', un disco grabado en La Habana con músicos cubanos ('Amor de indio', 'Tant com te cerc', 'Dintre teu'). El programa se inicia con 'Nascente', en una grabación del saxofonista Michael Brecker con Herbie Hancock, Pat Metheny, Charlie Haden y Jack DeJohnette, y lo cierra el trío del guitarrista Ricardo Silveira con 'Outra bossa'.

14 Aug 17:29

Indígenas contra o marco temporal: ‘Nossa história não começa em 1988!’

by Mariel Nakane

Nesta quarta-feira (16/08) serão julgados os processos relativos a três terras indígenas no Supremo Tribunal Federal (STF). Tais julgamentos são peça-chave da tese do marco temporal, que consiste no estabelecimento do ano de promulgação da Constituição (1988) como referência de ocupação do território para fins de demarcação de terras indígenas. Na prática, tal medida se coloca como mais um ataque na longa história de violação dos direitos originários indígenas no Brasil. Entenda abaixo os detalhes do processo e suas consequências:

Entenda o dia 16

Em 2009, na ocasião do julgamento acerca da T.I Raposa Serra do Sol, os ministros do STF estabeleceram em seus votos salvaguardas institucionais às terras indígenas, 19 condicionantes para a interpretação dos direitos territoriais indígenas, determinando uma decisão com efeitos transcendentes ao caso específico de demarcação da T.I Raposa Serra do Sol.

As condicionantes mostram-se extremamente danosas ao exercício dos direitos territoriais dos povos indígenas, estabelecendo uma primazia incondicional dos interesses da União sobre os direitos indígenas e menosprezando o direito das comunidades à consulta prévia. Além de as próprias condicionantes terem sua validade constitucional questionada oficialmente, o próprio STF reconheceu em 2013 que a decisão proferida no caso não possuía efeito vinculante, não se estendendo seus efeitos a outros processos de caráter similar.

Em 2010, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil apresentou ao STF a Proposta de Súmula Vinculante nº 49. Nela, propunha-se a adoção da data de promulgação da Constituição de 1988 como marco temporal para comprovação de ocupação indígena e reconhecimento de seus direitos originários.

Apesar de a Comissão de Jurisprudência do STF ter se manifestado pelo seu imediato arquivamento, a tese do marco temporal reapareceu na página 7 relatório do acórdão da PET Raposa Serra do Sol (http://bit.ly/2vZ7NXs).

No dia 20 de julho de 2017, foi publicado no Diário Oficial da União o Parecer n. 001/2017/GAB/CGU/AGU, que vincula o processo de demarcação de terras indígenas ao cumprimento das 19 condicionantes, afirmando que o Supremo possui unanimidade e entendimento consolidado a respeito do uso da data da promulgação da Constituição como marco temporal, bem como da concepção de vedação à ampliação de terras indígenas já demarcadas.

O parecer foi fruto de um acordo explícito entre a Bancada Ruralista e o governo Temer, em tentativa de evitar seu afastamento da presidência da república, como pode ser visto no vídeo do Dep. Luiz Carlos Heinze (PP) à sua base política (http://bit.ly/2wSugBW).

No dia 9 de agosto, Dia Internacional dos Povos Indígenas, mobilizações contra o marco temporal ocorreram em diversas cidades do país. Em Brasília, a mobilização foi encerrada com uma grande reza Guarani e Kaiowá em frente ao STF (http://bit.ly/2wSq3hB)

No dia 16 de Agosto de 2017, próxima quarta feira, o Supremo Tribunal Federal julgará três ações sobre terras indígenas. (http://bit.ly/2wSFmH8).

Os ministros poderão utilizar-se ou não da tese do marco temporal e das 19 condicionantes para proferirem suas decisões, o que gerará consequências para o futuro das demarcações de terras indígenas, bem como a possibilidade de reabertura de processos de terras indígenas já homologadas (como ocorrido no caso das terras Guyraroká e Arroio-Korá). Neste dia será também julgada a Ação Direta de Inconstitucionalidade 3.239/04, impetrada pelo DEM, que questiona a constitucionalidade do decreto que regulamenta a titulação das terras quilombolas. (http://bit.ly/2wS8VIN).

Será um dia decisivo para a consolidação ou o esfacelamento dos direitos das populações indígenas e quilombolas. Frente a esse cenário de alto risco, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) lançaram as campanhas Nossa História Não Começa em 1988! e O Brasil é Quilombola! Nenhum Quilombo a menos!

#MarcoTemporalNão

A tese do marco temporal é uma das principais bandeiras dos grupos ruralistas para restringir os direitos constitucionais das populações indígenas, e vem sendo sistematicamente rechaçada pelas populações indígenas bem como por renomados juristas brasileiros. Para a APIB, o marco temporal “legitima e legaliza as violações e violências cometidas contra os povos até o dia 4 de outubro de 1988: uma realidade de confinamento em reservas diminutas, remoções forçadas em massa, tortura, assassinatos e até a criação de prisões. Aprovar o “marco temporal” significa anistiar os crimes cometidos contra esses povos e dizer aos que hoje seguem invadindo suas terras que a grilagem, a expulsão e o extermínio de indígenas é uma prática vantajosa, pois premiada pelo Estado brasileiro”.

Em parecer recente, o constitucionalista José Afonso da Silva adverte que “a Constituição de 1988 é o último elo do reconhecimento jurídico-constitucional dessa continuidade histórica dos direitos originários dos índios sobre suas terras e, assim, não é o marco temporal desses direitos”. José Afonso coloca que um suposto marco temporal só teria legitimidade se colocado em 1611, data da Carta Régia de Felipe III e reconhecimento jurídico inequívoco dos direitos originários indígenas, mas reitera que não há na Constituição Federal sinalização alguma de data a partir da qual se fariam valer os direitos territoriais das populações indígenas.

Ademais, em consonância com o relatório da Comissão Nacional da Verdade, que explicita a ação pungente e deliberada do Estado brasileiro na violação sistemática dos direitos humanos contra as populações indígenas, especialmente no período da implementação de grandes empreendimentos e projetos de colonização entre os anos de 1946 a 1988, o parecer reconhece a responsabilidade do Estado pelo deslocamento forçado e espoliação das terras indígenas, desde a criação do Serviço de Proteção ao Índio, em 1910.

A tese do marco temporal configura-se como mais uma etapa do processo permanente e abertamente agenciado pelo Estado-nação brasileiro de consolidação da colonização, que, passados mais de cinco séculos, continua se reproduzindo e se impondo sobre as populações originárias, que seguem lutando e resistindo contra as recorrentes agressões.

Crédito da foto: Divulgação manifestação de indígenas no Congresso Nacional

14 Aug 14:26

'[No Rio], ao invés de Estado mínimo, a gente está sem Estado nenhum. Isso é o que esta canalha quer para o Brasil'

by Antonio Mello

A dramática situação do Rio de Janeiro, que antecipa e reflete como metáfora o destino reservado ao Brasil nas mãos do governo golpista, por Eric Nepomuceno, no Nocaute:
Eu fiquei um mês fora do Brasil e, claro, pela Internet, acompanhando tudo. Eu vi como o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, o balofinho investigado, achou que ia poder tomar o lugar de Michel Temer, o ilegítimo denunciado. Coitado. Não sabe com quem está lidando.
Aí eu voltei. E aqui no Rio é dramático o que está acontecendo. É dramático. Eu fiz uma lista de algumas coisas que estão acontecendo no Rio de Janeiro hoje. Por exemplo, a UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), considerada a quinta maior universidade do Brasil e a décima primeira maior de toda a América Latina, os alunos bolsistas estão sem bolsa a UERJ não tem dinheiro para pagar serviço de limpeza, de vigilância, o restaurante, manutenção.
No norte do rio, em Campos, a Universidade Estadual no Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Olha que absurdo. Darcy criou essa universidade, tem seis mil alunos e pode parar a qualquer momento.
A área da saúde do Rio de Janeiro nas três esferas: estadual, municipal e federal: crise caos, colapso. Por exemplo, o hospital Pedro Ernesto, que aqui no Rio é essencial para o tratamento de algumas doenças de altíssima complexidade, esse hospital tem 500 leitos e só 180 estão funcionando. Acabou o dinheiro. Na esfera municipal, o Instituto Pinel é referência em tratamento psiquiátrico e fechou a emergência por falta de médico.
A violência, segurança pública. Houve no primeiro semestre deste ano três mil quatrocentas e cinquenta e sete mortes. Em julho vieram as Forças Armadas, o que é uma pantomima total, não tem sentido. Elas vem invadem, ficam aqueles fardados na praia de Ipanema. Vão embora, a bandidagem reage, faz a festa. Ou seja, cada ação proposta por este empertigado Ministro Raul Jungmann, uma cara que parece que engoliu um cabo de vassoura, ele é todo durinho, bobão total. Cada ação dele aqui quando a tropa vai embora piora. Então é melhor nem vir, não precisa vir, não. É uma palhaçada isso.
A consequência: a violência no Rio, crise evidente, é a queda brutal no turismo. Agora nas férias, os hotéis tiveram ocupação de 40%. Quer dizer, de cada dez quartos, seis estão vazios. Tem o desemprego, a indústria naval e indústria da construção civil destruídas pela falta de critério da operação Lava Jato que, ao invés de punir os corruptores, eles punem as empresas. O desmantelamento da Petrobras.
Bom, o primeiro trimestre deste ano o número de desempregados do Rio foi de 14,5%. Vamos ver o comércio como é que está. Em junho, só em junho, 914 lojas fecharam na cidade do Rio de Janeiro, se a gente considerar um período parcial, um horário de dez horas. Isso quer dizer que foram três lojas a cada hora, trinta lojas por dia no mês de junho, e o comércio que continua sobrevivendo, teve queda de até 60% no seu movimento.
Funcionalismo público. São mais de 200 mil funcionários da ativa e pensionistas aposentados, com salários atrasados desde maio.
E há coisas dramáticas na área da Cultura, principalmente o Teatro Municipal, que apesar de se chamar municipal é do estado e está parado, está parado. Os funcionários estão sem receber desde fevereiro. Conclusão minha: o que está acontecendo no Rio de Janeiro é o sonho de gente como Armínio Fraga, como estes economistas que pregam o Estado mínimo. Aqui exageram um pouquinho porque ao invés de Estado mínimo, a gente está sem Estado nenhum. Isso é o que esta canalha quer para o Brasil, imagine você.

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14 Aug 12:21

Mediterráneo - BGKO. Barcelona Gipsy BalKan Orchestra - 13/08/17

Nos acompañan Jullien Chanal y Stelios Togias, dos de los miembros de la BGKO, una Orchestra nacida para recorrer los caminos y las rutas de la costa mediterránea con la furgo y ofrecer buena música en clave de fiesta gipsy. Con ellos repasamos la trayectoria de la banda desde que cambiaron hacia la sonoridad más balcánica. En Bosnia tienen ya una troup cada vez más grande de seguidores y en esta gira harán realidad uno de sus sueños: la gente de Taraf de Haidouks los han invitado a su pueblo, allí donde se encuentra la esencia de la música balcánica. En pocos días estarán en Italia, en Melpignano, en La Notte della Taranta, por primera vez experimentando con la Tarantella. Por eso aprovechamos para recordar algunas de las experiencias de Ludovino Einaudi y Enzo Avitabile. Escuchamos la música de: Ljiljana Buttler- Gjelem,Gjelem; BGKO-Od Ebra do Dunava- Put Putuje- Kus Kus-Cigani Ljubiat Pesnji-Bint al Shalabiya; Sud Sound System + Ludovico Einaudi- Beddha Carusa; Enzo Avitabilie+Daby Toure-Mane e Mane.

13 Aug 12:51

Os brasileiros acham chique Paris, Roma, Berlim, mas a Europa é, em essência, o que a classe média odeia. Por Ivana Ebel

by Diario do Centro do Mundo
Jardins de Luxemburgo, Paris: os franceses sabem viver

Publicado no blog de Ivana Ebel, jornalista, doutora em Ciências Midiáticas e da Comunicação, professora universitária e pesquisadora.

Tenho passado boas horas no Youtube, recentemente, acompanhando vídeos de brasileiros que foram morar em outros países. Tenho feito isso para entender mais da ferramenta, dos bordões, do que faz um canal ter sucesso ou não. Entenda como pesquisa de mercado, se quiser.

Nessa aventura pelo pensamento do brasileiro imigrante, todos falam de sua vida e, inevitavelmente, acabam comparando o que encontram quando voltam ao Brasil com o que vivenciam do lado de cá. Em todos os vídeos que abordam o tema, o principal espanto é o machismo, o racismo, a homofobia e o desrespeito pelo próximo no Brasil.

Viver em uma sociedade com valores diferentes faz com que brasileiros de todas as classes, credos e origens, que tiveram a chance de sair do país, consigam ver que os problemas do Brasil vão muito além da política e da economia, mas que têm uma direta conexão com ela. Aqui fora, fica mais evidente que o sonho de muito brasileiro de classe média pode ser morar na Europa, mas que o que a Europa representa (e se esforça para ser), em geral, é o resumo de tudo o que o brasileiro médio detesta. Não me ententa mal aqui: não se trata de colonialismo. Já explico.

Hoje, caí na besteira de ler os comentários em uma matéria que falava sobre a redução do bolsa família e teve quem chamou o momento político do país de “golpe de sorte”, por que “agora esses vagabundos vão ter que parar de fazer filho sustentados pelo dinheiro do cidadão de bem e terão que trabalhar”. No entanto, na Europa, os países com maior sucesso econômico são justo aqueles que têm os mais abrangentes planos de distribuição de renda.

Enquanto o brasileiro médio sonha com Paris, Roma, Berlim e o Bolsonaro, mais países europeus avançam em debates sobre a liberação das drogas e a regulamentação da prostituição, como já faz a Holanda. Aborto é um direito conquistado, debates de gênero são estimulados dentro das mais renomadas instituições de ensino. O estado é (quase sempre) laico. Ninguém tem armas e nem pensa em sua liberação. Serviços de limpeza doméstica tem que respeitar o valor mínimo por hora, assim como os profissionais que cuidam de crianças, dos jardins ou que trabalham em bares e restaurantes. Existe diferença social? Infelizmente existe, mas é muito, muito menor do que se vê no Brasil.

O ensino gratuito – ou financiado pelo governo em forma de empréstimo estudantil – permite que cada vez mais famílias tenham seus integrantes com diploma superior. No entanto, não é preciso ter uma profissão com formação universitária para conquistar uma vida digna. Mas é preciso saber que uma vida digna, por aqui, é para todos e não inclui escravos domésticos: cada um limpa seu banheiro, cuida do quintal e vai de transporte coletivo ou de bicicleta, usando ciclovias, de um lado para o outro. Por aqui, “piadas” racistas não são aceitas, igualdade de gênero é assunto sério, homofobia é crime. É perfeito? Não. E está longe de ser, especialmente em relação a etnias minoritárias, refugiados e parcelas mais vulneráveis da socidade. Mas não é tão ruim como no Brasil.

Foi isso que os youtubers perceberam. No geral, é isso que se sente: no velho mundo há uma  certa maturidade de valores, há mais respeito, há acesso a renda mínima, saúde e educação. O estado é mais paternalista, quando se trata do bem estar social. E isso faz a diferança. A classe média brasileira, que chama bolsa família de bolsa esmola, que acredita no Bolsomito, aspira grandeza e acha chiquérrimo ir para Paris, Roma ou Berlim. Mas a “Europa Mágica” da viagem de férias é, em essência, tudo o que essa gente mais odeia dentro de casa.

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13 Aug 12:48

Maradona detona Capriles, o Aécio da Venezuela: 'A diferença entre nós dois é que eu nunca me vendi'

by Antonio Mello


Em seu perfil no Facebook, o craque argentino Diego Maradona deu um chega pra lá no golpista venezuelano Henrique Capriles, o Aécio Neves de lá (afastado por corrupção), que havia provocado o craque:

"Le preguntaría a esa gente que dice defender a Maduro, si ellos viven con 15 dólares al mes. Son gente que se dice de izquierda y al final viven como millonarios."

Maradona respondeu de primeira:

"Capriles, conmigo no te victimices. Yo sé muy bien lo que es vivir con 7 hermanos y no tener nada para comer. ¡¡¡Ojalá hubiésemos tenido esos 15 dólares!!! La diferencia entre vos y yo es que yo no me vendí nunca."

Maradona ilustrou sua resposta no Face com a imagem da casa onde passou a infância [imagem reproduzida aqui].

Capriles criticou Maradona porque o argentino se declarou um "chavista até a morte" e que "cuando Maduro ordene, estoy vestido de soldado para una Venezuela libre".

Fonte: RT.


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13 Aug 12:47

Para filho de Vladimir Herzog, presidente de tribunal fez comparação “absolutamente inapropriada” entre os casos de Lula e Vladimir

by Luiz Carlos Azenha

Filho de Vladimir Herzog repudia comparação entre a decisão no caso Herzog e a sentença de Lula

Paralelo foi feito pelo presidente do TRF4, Thompson Flores, em entrevista ao Estadão

Publicado em 11/08/2017, no Lula.com.br

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Ivo Herzog, filho de Vladimir Herzog, classificou a comparação de Flores como algo “absolutamente inapropriado”.

A declaração do presidente do TRF4 (Tribunal Regional da 4ª Região), Thompson Flores, de que a sentença que condenou o ex-presidente Lula se assemelha historicamente à que condenou a União pela tortura e assassinato de Vladimir Herzog foi repudiada pela família do jornalista.

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Ivo Herzog, filho de Vladimir Herzog, classificou a comparação de Flores como algo “absolutamente inapropriado”.

A comparação absurda do presidente do TRF4 ocorreu durante uma entrevista ao jornal o Estado de S. Paulo e foi publicada no último domingo (8).

“A sentença de Herzog vai contra uma política de governo, contra a política do Estado vigente. A do Moro está em linha com os desejos do atual governo. Então não existe a questão de ter coragem. Na realidade, torna-se muito conveniente condenar o Lula no atual momento político do Brasil”, analisou Ivo.

Ivo destacou a discrição do juiz Márcio Moraes, que proferiu a sentença contra a União no caso Herzog.

“Você vai ter dificuldade de encontrar o juiz Márcio Moraes falando sobre a sentença. Porque ele sempre teve o entendimento sobre o papel do juiz, onde começa, onde termina. E o papel do juiz é dentro do tribunal, não na frente de uma câmera de TV dando entrevista. E torna-se mais inapropriado ainda falar sobre uma sentença antes de ser julgada, como estão fazendo lá no TRF4”, declarou.

O viés político do julgamento ao qual o ex-presidente Lula vem sendo submetido também foi destacado por Ivo.

“A sentença de Moraes, que condena a União, também dá ordem para que seja investigado o crime contra meu pai. E essa parte nunca foi cumprida. Então o Estado não vai cumprir a sentença que eventualmente seja dada contra Lula? Tenho certeza que será o oposto. Cumprirá correndo. Então há mais pontos de antagonismo do que semelhanças. Quando faz referência ao caso do meu pai, sinto que ele [Flores] está querendo pegar carona para se tornar mais célebre.”

Leia também:

Paulo Teixeira: Parlamentarismo é para evitar que Lula governe se for eleito em 2018

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11 Aug 13:06

Projeto Lula pelo Brasil: Da Bahia ao Maranhão

by PT Natal
A viagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos estados do Nordeste, entre agosto e setembro, é a primeira etapa de um projeto que deve alcançar todas as regiões do país nos meses seguintes. O projeto Lula Pelo Brasil é uma iniciativa do PT com o objetivo de perscrutar a realidade brasileira, no contexto das grandes transformações pelas […]
11 Aug 12:55

Olha a Venezuela!

by Tiago Tadeu

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11 Aug 12:53

Como a direita burra abraçou a islamofobia num país com apenas 35 mil muçulmanos. Por Willy Delvalle

by Willy Delvalle

Esta reportagem está sendo republicada

“Eu sou brasileiro e estou vendo meu país ser invadido por esses homens-bomba miseráveis, esquartejados, que mataram crianças, adolescentes. Justiça! Vamos expulsar ele! Cadê o prefeito? O governo do estado?”

As palavras foram um ataque recente a um refugiado sírio que vendia salgados em sua barraca no Rio de Janeiro. Seu nome é Mohamed Ali. E essa parece ser a sua sina.

Afinal, também foi um Muhammad Ali que fez história no século XX não só pelo seu trabalho – o de um dos mais talentosos pugilistas da Terra, mas por enfrentar o racismo em um país segregado entre brancos e negros.

Mohamed Ali precisa enfrentar a resistência de uma parcela da sociedade. Resistência que tem nome, islamofobia.

Quem acha que a agressão a Mohamed foi um caso isolado se engana. Após o atentado à revista francesa Charlie Hebdo, em 2015, mulheres e homens muçulmanos vêm sendo xingados, apedrejados e tendo pertences danificados em diferentes lugares do Brasil.

Mesquitas foram vandalizadas. Em cidades do Paraná, estado com forte presença muçulmana, relata-se a pixação de uma estrela de Davi, símbolo do Estado de Israel, o arremesso de um balde de fezes humanas contra o pátio de uma mesquita e o cântico de hinos israelenses em frente a templos sagrados muçulmanos. Ataques e provocações que não aconteceram apenas do lado de fora.

Refugiado sírio de Alepo, um dos focos mais violentos da Guerra na Síria, Abdulbaset Jarour, 27, conta que foi agredido dentro de casa por vizinhos, em São Paulo.

Ele conseguiu chamar a polícia. “Aqueles que me bateram falaram que eu sou um terrorista, um homem-bomba, que iria explodir o condomínio. Eu não saí do meu país para passar por isso aqui. É muito triste”, relata.

Sua aparência se transformou num de seus maiores obstáculos. Sem conseguir emprego fixo por muito tempo desde que veio para cá, conta que alugou um carro para trabalhar como motorista do Uber. Não contava com a reação dos passageiros.

“Muitas pessoas cancelam a viagem quando veem o meu nome, quando veem a minha foto. Alguns que entram no carro começam a me olhar estranho. E perguntam: ‘por que seu nome é estranho?’ Respondo que sou árabe. Começam a ficar nervosos”.

Ele lembra de uma passageira que sugeriu que tirasse a barba. “Eu respondi: essa é a minha vida, tem brasileiros que têm o dobro da minha barba. Ela disse: ‘mas você é árabe, é diferente, não pode’”.

Certa vez, recorda, duas passageiras se beijavam em seu carro. “Não estavam nem aí. Perguntaram sobre meu nome. Falei que sou árabe. Me desvalorizaram e me avaliaram com 1 estrela. Antes de descerem, foram muito grossas comigo e bateram forte a porta do carro, só de saber que sou árabe”.

Abdulbaset também não esquece do que era para ser um almoço na casa de uma amiga. “A gente se sentou. A minha amiga me apresentou para a amiga dela, que olhou pra mim com uma cara estranha e me falou: ‘por favor, não mata a minha amiga!’ Eu deixei o almoço e fui embora. Fiquei muito triste”.

Não é diferente na internet. “Uma pessoa me mandou no Facebook: ‘Oi, tudo bem? Posso te conhecer?’ Eu falei: sim! Ela disse: ‘Você é da onde?’ Eu falei: Sou árabe, da Síria. Ela falou: ‘seu mentiroso! Você não é árabe, você é sírio. Sai do nosso país, vocês o estragam!’”

Não é diferente nem nas palestras que dá. “Eu falo: o que eu sou pra vocês, como árabe, muçulmano? A maioria fala: terrorista. Pergunto: o que é terrorista pra vocês? Ninguém responde”.

Mito

O que Mohamed Ali e Abdulbaset Jarour viveram no Brasil não é uma novidade na história do Brasil. E põe em xeque a fama do brasileiro de ser um povo acolhedor e pacífico.

Fama que, na visão de Anaxsuell Fernando, não passa de um mito, que surge com intelectuais como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda e se consolida no imaginário social por meio do cinema. “Essa compreensão da realidade ajudou a dissimular o racismo, o sexismo e as mais distintas formas de violência cotidianas”, afirma.

Diferentemente da África do Sul e dos Estados Unidos, onde até algumas décadas atrás a hostilidade era institucional e explícita, o antropólogo explica que a violência brasileira se consolidou “de um modo mais cínico”.

“Ela existe no cotidiano e no narcisismo das pequenas diferenças. De maneira que grupos minorizados socialmente vivenciam todos os dias experiências de violência, inclusive por parte do próprio Estado”, analisa.

“Não existe uma demarcação visível da xenofobia, como um muro físico, mas existem muros simbólicos que separam pessoas por causa do seu gênero, raça, origem ou orientação sexual. E este discurso pode, eventualmente, ganhar contornos religiosos e morais”, explica.

Segundo Fernando, também é falsa a ideia de que o Brasil é um país muito diverso religiosamente. “O Brasil é profundamente religioso mas sem perder de vista que somos majoritariamente cristãos”, afirma.

Abdulbaset Jarour, agredido em sua casa em SP

Segundo o censo do IBGE, enquanto os católicos eram em 2010 mais de 120 milhões no Brasil e os evangélicos, mais de 42 milhões, os muçulmanos beiravam os 35 mil. “Os cristãos somam cerca de 86% da população (64% católicos e 22% evangélicos). Podemos falar em diversidade cristã, mas não em diversidade religiosa”, observa Anaxsuell Fernando.

E nesse grupo, segundo o professor, a intolerância religiosa é uma marca desde a chegada dos colonizadores. “Já nos primeiros anos de colonização, a incapacidade de convívio teve como alvo as diferentes culturas indígenas. As chamadas reduções indígenas foram uma maneira encontrada para circunscrever as populações indígenas na crença correta, neste caso, a fé cristã”.

Depois, com a escravidão de povos africanos, veio a intolerância contra suas religiões, “que serão associadas a práticas demoníacas”.

“Com o fluxo migratório de pessoas de tradição protestantes, a incapacidade de convívio com a diferença se faz novamente presente. São fartos os relatos de grupos cristãos minoritários discriminados e marginalizados em razão das suas crenças”.

As comunidades islâmicas no Brasil, afirma, “vivenciam aquilo que vários outros grupos religiosos experienciaram noutros momentos. Obviamente, em intensidade e natureza distintas”.

Política

Se depender de setores da política brasileira, ataques como os sofridos por Mohamed e  Abdulbaset poderão ganhar proporções ainda maiores.

Em fevereiro deste ano, o deputado Jair Bolsonaro (PSC), segundo colocado em diversas pesquisas de intenção de voto para presidente no ano que vem, fez um discurso no mínimo “contundente” contra minorias.

Contrariando a Constituição Brasileira de 1988, ele disse:

“Essa historinha de Estado laico não. É Estado cristão. Vamos fazer um Brasil para as maiorias. As minorias têm que se curvar. A lei deve existir para defender as maiorias. As minorias se adequam ou simplesmente desapareçam!”

Ovacionado a cada frase por uma plateia majoritariamente masculina, seu nome era erguido em bandeiras do Brasil.

O canal Religião e Política, que publicou o discurso no YouTube, foi mais específico dois meses depois. Em abril, postou “Treinamento da Síria para invadir Israel”, vídeo em que homens armados aparecem fazendo supostos disparos numa região remota, onde derrubam uma pequena bandeira de Israel. No momento em que os supostos sírios falam, suas vozes são sobrepostas por uma música que impede a compreensão do que dizem.

Para Anaxsuell Fernando, professor e pesquisador de Antropologia da Religião na Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), a emergência de figuras como Bolsonaro reflete o avanço do neoliberalismo sobre a democracia, “dissolvendo a estrutura estatal e instituindo o discurso do medo, principal veículo do conservadorismo”.

Ele recorre ao intelectual português Boaventura de Sousa Santos para dizer que em nome da liberdade de expressão, permite-se a ascensão de comportamentos e atitudes que cerceiam a democracia. “Estamos vivendo em um contexto social politicamente democrático e socialmente fascista”.

Xenofobia

No último dia 29 de julho, Bolsonaro compartilhou um vídeo da Hebraica, sobre o qual escreveu: “Minha continência ao Estado de Israel”.

No vídeo, diz-se que, apesar dos muçulmanos defenderem a sacralidade de Jerusalém, ela não é citada nenhuma vez no Alcorão, livro sagrado para o Islã. Também defende que os judeus chegaram primeiro. Que, sob o domínio muçulmano, as outras religiões eram consideradas infiéis. Que se a cidade fosse realmente sagrada, por que os islâmicos rezariam voltados para Meca, e não para Jerusalém, como fazem os judeus?

O vídeo foi compartilhado por mais de 8.400 pessoas e visualizado quase 390 mil vezes. O deputado Flávio Bolsonaro (PSC) foi uma das 19 mil pessoas que reagiram, entre aqueles que curtiram, amaram ou se surpreenderam.

Ibrahim Alzeben, embaixador da Palestina no Brasil, condena a postura do deputado por compartilhar esse tipo de conteúdo. “Como ser humano, ele está incentivado a xenofobia e o fanatismo. Palestina é a Terra de Canaã. Se ele acredita na Bíblia e volta ao capítulo Êxodo, vai perceber que nós estávamos ali, os palestinos”, diz.

“Para nós é uma grande honra, ao contrário do que foi dito, Jerusalém ser o berço de três religiões”, afirma. Ele esclarece que a única religião que, de fato, nasceu na Palestina foi o cristianismo e que judaísmo e islamismo se desenvolveram no local, mas não nasceram nele.

“Se vamos falar de direitos históricos e religiosos, eu acho que a esta altura do campeonato, se o Brasil pertence aos portugueses ou aos guaranis, eu acho que o ser humano tem que crescer um pouco e pensar alto”, ironiza. “Mais quando um deputado representa o povo”, critica. Para Ibrahim Alzeben, o papel das lideranças políticas é fomentar a paz, não o conflito.

O embaixador ressalta que a Palestina é importante para todos, sejam cristãos,  muçulmanos e judeus. “Não podemos negar nunca o direito religioso a ninguém. Quanto a direitos racionais, temos que separar política de religião. A Palestina é território dos palestinos”.

Ualid Rabah, diretor de relações institucionais da Federação Árabe-Palestina do Brasil (FEPAL), também rebate as informações apresentadas na página de Bolsonaro. Explica que Jerusalém é citada no Alcorão e que estudos apontam que a origem dos palestinos está relacionada aos cananeus, povo que foi morar na região há mais de dez mil anos.

“A Palestina é um caso único de limpeza étnica na história da humanidade, não que não tenha havido outras, mas elas foram em território contíguo, entre povos que disputavam terras há séculos ou milênios”, observa.

No caso palestino, afirma, a limpeza étnica é executada previamente “contra uma população autóctone em que sua metade é expulsa para no seu lugar ser colocada uma população de várias partes do mundo”.

Para Rabah, que também integra coletivos de combate à islamofobia, quem adesiva-se de Bolsonaro ou vota nele não é sério ou adere a um genocídio programado. “Não é possível ser levado a sério um sujeito que defende, inclusive publicamente, extermínios, submissão de minorias, subtração de direitos dessas minorias”, afirma.

Segundo o ativista, trata-se do discurso de um “bandido, que reproduz o que há de pior no fascismo europeu, que levou às limpezas étnicas e às distorções fora da Europa na forma colonial e dentro da Europa na I e na II Guerra, sem contar as guerras dentro da Europa séculos anteriores com europeus matando europeus”.

Rabah acredita que o discurso do deputado é comparável ao de grandes tiranias na história da humanidade, como no caso de Adolf Hitler, que liderou o nazismo na Alemanha durante a II Guerra Mundial; Benito Mussolini, líder do fascismo na Itália antes e durante o mesmo período; o apartheid na África do Sul e a escravidão de negros daquele continente para outras partes do mundo.

“O que o Bolsonaro não entende e nunca vai entender é que Mussolini era tão cristão quanto ele. Que Hitler era tão cristão quanto ele. O que esse louco nunca vai entender é que o regime do apartheid na África do Sul e todos os crimes cometidos a pretexto de que os negros eram inferiores, inclusive a escravização de 150 milhões de pessoas no curso de dois, três séculos, foi feita por cristãos brancos, europeus e ocidentais iguais a ele. Gente que se diz cristã e não é. São bandidos”, acusa.

“É um sujeito que deveria estar preso, não falando para uma plateia e ser ovacionado, menos ainda ser recebido na Hebraica. Pra você ver a que grau de degeneração ideológica e humana parcela da liderança judaica sionista chegou”, afirma.

Hebraica

Rabah se refere a uma palestra do deputado, convidado pela Hebraica do Rio de Janeiro em abril deste ano. O próprio convite foi condenado por lideranças judaicas e alvo de protestos.

No vídeo, Bolsonaro defendeu que não se pode “abrir as portas para todo mundo”, em referência aos refugiados.

Ualid Rabah acredita que Bolsonaro é só a ponta de um iceberg. No caso da islamofobia, o diretor de relações institucionais da FEPAL afirma que a origem do preconceito está em “setores pentecostais e neopentecostais que se apresentam como cristãos e evangélicos”

Segundo ele, esses grupos religiosos vinham disseminando o horror ao catolicismo, espiritismo e matrizes de origem africana, e há cerca de vinte anos o fazem em relação ao islã. Esse discurso estaria sendo utilizado, por exemplo, aponta Rabah, na Igreja Universal do Reino de Deus.

De acordo com o ativista, essa prática teria começado há cerca de vinte anos, “quando começam associar a leitura do Velho Testamento à defesa de Israel. Em tempos mais recentes, eles começam a ter vínculos diretos com todas as organizações representativas da comunidade judaica no Brasil, como a CONIB (Confederação Israelita do Brasil)”.

Ele defende que essa articulação se junta à extrema direita da política brasileira, mas chega até a esquerda, no caso do deputado Jean Wyllys (PSOL).  “Ele diz defender os direitos do palestinos, mas é incrível como acentua a criminalização dos mesmos, e de todos os muçulmanos, por meio do que alega ser a criminalização, por estes todos, dos LGBT. E faz isso se associando a Israel”, afirma.

Rabah fala das críticas que o congressista teria feito a um evento muçulmano há pouco mais de uma semana. “Fica evidente sua islamofobia quando se associa, acriticamente, na criminalização do evento muçulmano promovido em São Paulo. É como se tivesse cumprido uma pauta previamente determinada”, diz.

Mídia

A comunidade muçulmana vem sendo submetida a uma intensa exposição midiática, especialmente a partir de 11/09, observa Anaxsuell Fernando. “Tem forjado uma imagem pública repleta de estereótipos não correspondentes às crenças islâmicas abraçadas pela maioria de sua população”, afirma.

Exemplo de preconceito seria a visão construída em torno do hijab (véu). “No Brasil, tais ações sustentam-se em generalizações enganosas ou percepções religiosas equivocadas dos símbolos religiosos. O hijab tem sido superficialmente associado a opressão das mulheres”.

Para Ualid Rabah, nenhum setor é tão eficaz na disseminação do preconceito quanto a grande mídia brasileira. “Os veículos de comunicação de massa são os primeiros responsáveis pela islamofobia e toda a intolerância reinante no Brasil”.

Desde que chegou ao país, Abdulbaset observa que a mídia brasileira mexe muito com a mente do povo. “O que os EUA querem fazer, os brasileiros gostam. O que a mídia mostrar, o brasileiro vai guardar”, aponta. Diz que no Brasil o que se fala do mundo árabe é por meio de documentários sobre terrorismo e algumas novelas. “Mas se você perguntar para os brasileiros que sabem sobre os árabes, não conhecem nada, não sabem onde fica a Síria”.

“Quando Israel ataca a Palestina e destrói os palestinos, por que não se diz ‘o aviador judeu conduzindo…’? Por que não se associa o credo judaico aos crimes de Israel? Primeiro, eles disseram que o islamismo é uma coisa ruim. Para isso, estão utilizando as correntes pró-Israel”.

Para Ibrahim Alzeben, embaixador da Palestina no Brasil, a visão israelense sobre os fatos prevalece por uma questão econômica. “Eu não tenho recursos para publicar”, afirma. Os veículos de comunicação, aponta ele, não querem contrariar os interesses das empresas que os patrocinam. “Eles têm medo de publicar, de que as grandes empresas deixem de fazer anúncios”.

Recentemente, o blog de Rodrigo Constantino, da Gazeta do Povo, publicou um artigo com o título: “Família do homem acusado de matar judeus vai receber $3 mil por mês de autoridade palestina”. A abordagem foi interpretada como islamofóbica.

“Não é uma recompensa”, esclarece o embaixador Ibrahim Alzeben. Ele afirma que, como em qualquer lugar do mundo, é dever do Estado amparar seus cidadãos. “O Estado Palestino não incentiva atos violentos”.

“A notícia da forma como é apresentada, a promoção da islamofobia, da Palestinofobia, da muçulmanofobia, a Gazeta do Povo está participando dessa orquestra”, critica Ualid Rabah.

Sonhos e frustrações

Há três anos no Brasil, Abdulbaset não veio exatamente por uma escolha. Ele conta que foi aqui que conseguiu refúgio depois de passar por três consulados no Líbano, seu destino após servir o exército em Damasco e ter sua base bombardeada por Israel.

Com várias fraturas pelo corpo, foi tratado. Em fevereiro deste ano, sofreu uma cirurgia. Mas com dificuldades para agendar um tratamento no joelho via SUS e sem recursos financeiros, sua saúde está debilitada. Longe dos familiares, sente saudades e sonha em se juntar a eles.

Sonha também em ter o próprio negócio, como tinha na Síria, levar uma vida confortável, aprender português, fazer uma faculdade de artes cênicas, jornalismo ou relações internacionais, casar e criar uma família.

Sem perspectivas aqui, no entanto, cogita ir embora, talvez para o Canadá ou a Austrália. “Mas eu amo o Brasil.  Tenho amigos maravilhosos. Uma parte de mim quer ficar para sempre.”

Respostas

A nossa reportagem questionou a CONIB (Confederação Israelita do Brasil) sobre as acusações de fomento à islamofobia no país.

Em nota, a instituição afirma que sempre defendeu o diálogo inter-religioso e o combate a toda forma de discriminação, inclusive a islamofobia.

“É preciso tomar cuidado para que o necessário e imprescindível combate à islamofobia não se transforme em pretexto para propagar acusações mentirosas contra minorias e cometer crimes semelhantes, como o antissemitismo”.

Sobre a crítica de Ualid Rabah a parte da liderança judaica, a CONIB aponta o uso da palavra “degenerada” para acusar a comunidade judaica brasileira como sendo o mesmo termo usado pelos nazistas para atacar a arte moderna e muitos dos artistas judeus da época.

Em nota, a Igreja Universal do Reino de Deus declara que repudia com veemência “todo ataque à fé ou às crenças dos adeptos de qualquer religião, até porque são nossos fiéis as maiores vítimas do preconceito religioso no Brasil”. 

Menciona estar presente em mais de 110 países, muitos dos quais de maioria islâmica: “Em todos eles, cumprimos nossa missão evangelizadora e social com total respeito às leis, às normas e costumes locais”.

Diz que, “além absurda, a acusação de ‘islamofobia’ é criminosa. Espera-se que o entrevistado citado pelo jornalista explique como elaborou uma conclusão tão monstruosa, pois nunca uma só palavra neste sentido foi defendida em qualquer templo ou veículo oficial da Universal na TV, no rádio, jornal, livro ou Internet”.

A Hebraica do Rio de Janeiro foi questionada sobre o convite a Jair Bolsonaro para palestrar a sua comunidade, mas não respondeu.

Jair Bolsonaro, Marco Feliciano e Jean Wyllys não se manifestaram sobre as críticas que lhes foram feitas.

Abdulbaset afirma que uma investigação foi aberta contra seus agressores, que estão livres.

O post Como a direita burra abraçou a islamofobia num país com apenas 35 mil muçulmanos. Por Willy Delvalle apareceu primeiro em Diário do Centro do Mundo.

09 Aug 13:09

Marcelo Zero: Para entender a Venezuela hoje é preciso saber como era antes da “revolução bolivariana”

by Conceição Lemes

Para Entender a Venezuela

por Marcelo Zero, especial para o Viomundo 

 I – Antecedentes

Não é possível se entender a atual crise da Venezuela e tampouco o regime chavista sem se compreender como era esse país antes da “revolução bolivariana” e qual o seu significado geopolítico para os EUA.

A Venezuela está sentada na maior reserva provada de petróleo do mundo. São 298,3 bilhões de barris, ou 17,5% de todo o petróleo do mundo. Este petróleo está a apenas 4 ou 5 dias de navio das grandes refinarias do Texas. Em comparação, o petróleo do Oriente Médio está entre 35 a 40 dias de navio dos EUA, maior consumidor de óleo do planeta.

Essas imensas reservas começaram a ser exploradas no governo de Juan Vicente Gómez (1908-1935).

A renda gerada pela produção e exportação de hidrocarbonetos possibilitou a construção de uma infraestrutura viária e portuária, assim como permitiu a implantação de aparelho de Estado centralizado, que substituiu uma administração fragmentada e difusa.

Contudo, essa consolidação do Estado Nacional venezuelano embasou-se apenas na exportação de petróleo para o mercado norte-americano, o que levou à Venezuela a desenvolver “relações privilegiadas” com os EUA. Tal vinculação econômica e política marcou profundamente a política externa da Venezuela, bem como sua política interna.

Na década de 50 do século passado, a Venezuela já havia se convertido no segundo produtor e no primeiro exportador mundial de petróleo. No entanto, essa notável afluência econômica, obtida numa relação de estreita dependência com os EUA, não se refletia na diminuição de suas graves desigualdades sociais, na diversificação de sua estrutura produtiva e na implantação de um regime democrático estável. Tampouco numa política externa que combatesse seu alto grau de dependência.

Na realidade, esse processo econômico e político marcado por tal profunda dependência resultou em três grandes consequências que têm de ser levadas em consideração em qualquer análise séria sobre a Venezuela:

1) Um sistema político formalmente democrático, porém profundamente oligárquico.

2) Uma política externa avessa à integração regional e a uma articulação com outros países periféricos.

3) Uma estrutura social marcada pela desigualdade e a pobreza.

a) O sistema político oligárquico

Em 1957, foi celebrado o Pacto de Punto Fijo, articulado pelos EUA, pelo qual os partidos tradicionais e conservadores aceitaram alternar-se no poder, sem permitir a entrada de novos partidos. O objetivo, para os EUA, era garantir alguma estabilidade política na Venezuela, diante de sua importância como fornecedora de petróleo.

A realização de eleições presidenciais periódicas apenas entre os dois partidos conservadores (Ação Democrática-AD, de orientação socialdemocrata, e o Comitê de Organização Política Eleitoral Independente-COPEI, de tendência democrata-cristã), fez com que a Venezuela fosse apresentada como um exemplo raro de “democracia na América do Sul”.

Trata-se, é claro, de uma grosseira falácia. A bem da verdade, o sistema político gerado pelo Pacto de Punto Fijo era muito semelhante à política do “café-com-leite” da República Velha brasileira: por trás de uma fachada de democracia, escondia-se um sistema fortemente oligárquico.

Avalia-se que cerca de 50% da população teria sido excluída do exercício do voto desde os anos 60. Como o registro eleitoral era facultativo e como as zonas de inscrição estavam situadas apenas nas zonas mais prósperas do país, a população mais pobre não participava, na prática, de quaisquer decisões eleitorais.

Além disso, o federalismo venezuelano era profundamente autoritário. Cabia ao Presidente da República nomear todos os governadores e prefeitos biônicos, muitos dos quais hoje militam na oposição venezuelana.

Apenas em 1989 foram realizadas as primeiras eleições para prefeitos e governadores. Não bastasse, eram comuns as prisões de jornalistas, em razão da publicação de matérias que desgostassem o governo de plantão.

b) A política externa satélite dos interesses estratégicos do EUA

A “estabilidade” democrática, ainda que conservadora, formal e excludente, a afluência econômica proporcionada pelo petróleo e as relações privilegiadas com os EUA, mesmo que eventualmente contraditórias, fizeram com que Venezuela se isolasse do restante da América do Sul e dos demais países em desenvolvimento.

Na década de 60, esse relativo isolamento foi exacerbado pela aplicação, no plano das relações externas venezuelanas, da chamada Doutrina Betancourt, criada em homenagem ao ex-presidente Rómulo Betancourt.

De acordo com essa doutrina, a Venezuela deveria restringir o estabelecimento ou a manutenção de relações diplomáticas apenas a países que tivessem governos eleitos democraticamente conforme regras constitucionais estáveis.

Criada para agradar os EUA, pois justificava o isolamento diplomático de Cuba, a doutrina Betancourt, porém, complicou as relações com vários vizinhos da Venezuela aliados de Washington, inclusive o Brasil.

Assim, durante vários anos, a Venezuela recusou-se manter relações diplomáticas com o Brasil, que vivia uma ditadura. Por uma ironia da história, a “cláusula democrática”, que hoje o Brasil do golpe tenta impor à Venezuela no Mercosul, já foi usada contra nós pelos venezuelanos conservadores.

Após levar um “puxão de orelhas” de Washington, a Venezuela flexibilizou sua cláusula democrática e passou a usá-la apenas contra Cuba, contemplando os interesses dos EUA.

Esse isolacionismo da Venezuela, que privilegiava somente suas relações bilaterais com os EUA, fez até que aquele país aderisse tardiamente ao GATT, à Comunidade Andina e a outros organismos regionais e multilaterais, numa demonstração de total falta de iniciativa própria no cenário mundial.

Tal isolacioanismo dependente da Venezuela só começou a ser parcialmente revisto ao final da década de 80, quando a relativa abundância de petróleo no mercado internacional, que fez diminuir o preço dessa commodity, somada à crise da dívida, que viria a atingir aquele país ao final do decênio, produziu uma modesta mudança na estratégia de sua política externa.

De fato, a política externa isolacionista, baseada na noção de uma suposta superioridade político-democrática, na afluência econômica do petróleo e nas relações privilegiadas com os EUA, principal comprador dessa commodity, passou a ser substituída progressivamente por uma estratégia de inserção no cenário externo mais realista, na qual o Caribe e a América do Sul passaram a ter lugar de destaque.

Contudo, mesmo com essa mudança modesta e parcial, a Venezuela continuou a orbitar em torno dos interesses estratégicos do EUA na região, constituindo-se, junto com a Colômbia, no seu aliado mais fiel.

c)A estrutura social marcada pela desigualdade e a pobreza

Antes do “cruel e ditatorial” governo bolivariano, a Venezuela, o país com a maior reserva de óleo do mundo, tinha 70% de sua população abaixo da linha da pobreza e 40% do seu povo na pobreza extrema. Isso diz tudo sobre os governos anteriores.

Antes do governo de Chávez, em 1998, 21% da população estavam subnutridos. É isso mesmo. No país que, como Celso Furtado escreveu em 1974, tinha tudo para se tornar a primeira nação latino-americana realmente desenvolvida, 1 em cada 5 habitantes passava fome. Essa era a Venezuela dos Capriles, dos López e da “oposição democrática”.

Em relação à saúde pública, é preciso ressaltar que a mortalidade infantil era de 25 por mil, em 1990, quase o dobro da brasileira de hoje (13,8 por mil). Em relação à educação, apenas 70% das crianças concluía o ensino primário e o acesso às universidades era restrito às elites e à pequena classe média.

Além disso, o Estado de Bem Estar venezuelano tinha alcance mínimo. Com efeito, na era pré-Chávez, apenas 387.000 idosos venezuelanos tinham aposentadorias ou pensões. A maioria simplesmente vivia à míngua.

Desse modo, a Venezuela chegava ao fim do século XX com uma contradição gritante e insustentável: apesar das grandes riquezas derivadas da exportação de petróleo, o país convivia com problemas sociais muito graves.

Em 1989, no contexto de uma crise econômica, manifestações populares se multiplicaram por todo o país.

Uma delas, o “Caracazo”, foi duramente reprimida pelo Estado, cujas forças mataram indiscriminadamente entre 1000 e 3000 pessoas. Em muitas ocasiões, as manifestações estudantis foram também reprimidas, tendo sido ordenado o fechamento da Universidade Central da Venezuela, que durou três anos, em 1968.

Durante vários meses, as favelas de Caracas foram cercadas por forças militares e submetidas a toque de recolher.

Entretanto, isso não comoveu muito a “comunidade internacional”, que hoje chora as cerca de 100 vítimas dos embates nas ruas da Venezuela.

Afinal, eram apenas pobres e excluídos sendo submetidos a um regular massacre na América Latina. Em todo caso, já estava claro, na época, que o modelo econômico, social e político plasmado no Pacto de Punto Fijo tinha atingido seu limite.

Pois bem, a eleição de Hugo Chávez, em 1998, se insere justamente no colapso do Pacto de Punto Fijo: para uma população desprovida de sistemas públicos includentes (saúde, educação, moradia, etc.), a plataforma política de Chávez surgiu como proposta sem precedentes na história do país, o que explica, em grande parte, a sua popularidade nas camadas historicamente excluídas do povo venezuelano.

Embora o chavismo não tenha alterado, de forma significativa, a estrutura produtiva da Venezuela, que permaneceu estreitamente dependente das exportações do petróleo, Chávez implodiu as arcaicas estruturas sociais e políticas da Venezuela, bem como a política externa de alinhamento automático aos EUA.

A desigualdade, medida pelo índice de Gini, foi reduzida em 54%. A pobreza despencou de 70,8%, em 1996, para 21%, em 2010, e a extrema pobreza caiu de 40%, em 1996, para 7,3%, em 2010.

O chavismo implantou as chamadas misiones, projetos sociais diversificados e amplos que beneficiam cerca de 20 milhões de pessoas, e passou a criar um verdadeiro Estado de Bem Estar Social na Venezuela. Hoje, 2,1 milhões de idosos recebem pensão ou aposentadoria, ou seja, 66% da população da chamada terceira idade.

Na Venezuela pós-chavismo, a desnutrição é de apenas 5%, e a desnutrição infantil 2,9%.

Após o chavismo, a Venezuela tornou-se o segundo país da América Latina (o primeiro é Cuba) e o quinto no mundo com maior proporção de estudantes universitários.

Em relação à saúde pública, é preciso ressaltar que a mortalidade infantil diminuiu de 25 por mil, em 1990, para apenas 13 por 1000, em 2010.

Atualmente, 96% da população já tem acesso à água potável. Em 1998, havia 18 médicos por 10.000 habitantes, atualmente são 58.

Os governos anteriores ao de Chávez construíram 5.081 clínicas ao longo de quatro décadas, enquanto que, em apenas 13 anos, o governo bolivariano construiu 13.721, um aumento de 169,6%. Barrio Adentro, o programa de atenção primária à saúde que recebe a ajuda de mais de 8.300 médicos cubanos, salvou cerca de 1,4 milhões de vidas.

Nove anos após as grandes inundações de 1999, que destruíram centenas de e milhares de lares, o governo de Chávez deu início a um ambicioso programa de habitações populares. Já foram construídas e entregues 2  milhões de casas. Trata-se, proporcionalmente, do maior programa de habitação popular da América Latina.

Esses amplos e inegáveis avanços sociais fizeram daquele nosso país irmão um modelo de cumprimento dos Objetivos do Milênio da ONU.

No campo da política externa, Chávez rompeu com o paradigma anterior de país periférico e dependente e investiu na integração regional e no eixo estratégico da geoeconomia e geopolítica Sul-Sul, com destaque para as relações bilaterais com o Brasil, o que acabou conduzindo à adesão da Venezuela como membro pleno do Mercosul, algo que nos beneficia muito.

A Venezuela chavista tornou-se uma grande parceira do Brasil, comprando vorazmente nossos produtos e recompensando-nos com elevados superávits comerciais e com forte apoio político à integração do nosso subcontinente. Chávez era, sobretudo, um grande amigo do Brasil.

Ademais, Chávez estabeleceu relações próximas com Rússia, China e Cuba e passou a apoiar experiências políticas que divergiam da ordem mundial dominada pelos interesses dos EUA.

Em contraste com o isolacionismo anterior, Chávez fundou a ALBA e criou a Petrocaribe, objetivando fornecer petróleo a preços convidativos para os países daquela região. Isso explica porque a OEA, apesar dos esforços febris dos EUA e do Brasil, não consegue aprovar uma resolução forte contra o governo de Maduro.

Mas o principal mérito do chavismo foi ter implodido o conservador e excludente modelo político venezuelano, baseado no Pacto de Punto Fijo.

Com Chávez, assim como com Lula, Morales, Rafael Correa e outros, aqueles que não tinham voz e vez passaram a se fazer ouvir e a se fazer cidadãos. Passaram a comer, a se educar, a morar. Deixaram de ser invisíveis, miseráveis anônimos, e passaram a ser sujeitos da história.

O chavismo, entretanto, foi além e organizou e mobilizou as massas destituídas da Venezuela, bem como passou a dominar setores importantes do aparelho de Estado, como as Forças Armadas e o poder judiciário. Isso acabou privando as oligarquias venezuelanas de seus principais instrumentos de intervenção política.  São esses fatores que ajudam explicar a radicalidade do atual processo político venezuelano.

II-A Reação

Com todos sabem, a reação das oligarquias ao chavismo não tardou. Além do conhecido golpe de 2002, que quase resultou na execução de Chávez, houve também o processo conhecido como “paro petrolero”, a suspensão das atividades da PDVSA, a estatal do petróleo da Venezuela.

A suspensão das atividades da PDVSA, controlada então pelas oligarquias venezuelanas, resultou numa contração do PIB de 18%, entre 2002 e 2003, inflação, carestia de produtos básicos, desemprego, aumento do risco país, etc.

No país com a maior reserva de petróleo do mundo, houve até falta de gasolina.  O governo brasileiro, ao final de 2002, enviou navio tanque com gasolina para suprir parcialmente a carência de combustíveis na Venezuela.

O “paro petrolero” forçou o chavismo a intervir na PDVSA, dominando-a, assim como o golpe de 2002 forçou o chavismo a controlar mais fortemente as forças armadas.

Entretanto, essas ações antidemocráticas e destrutivas, das quais participaram as atuais das oposições venezuelanas, como López, Capriles e Ledezma são eloquentes da falta de compromisso real das oligarquias venezuelanas com a democracia.

O “paro petrolero”, em particular, evidencia que tais oligarquias não têm pruridos em arruinar a economia do país, desde que isso signifique uma oportunidade para voltar a controlar o poder perdido.

Desde então, o processo político venezuelano permanece bastante radicalizado.

Ainda assim, há de se constatar que o chavismo manteve seus compromissos democráticos. Desde a ascensão de Chávez e a implosão do Pacto de Punto Fijo, foram realizadas nada menos que 21 eleições, inclusive a de um referendo revogatório. Todas elas limpas e internacionalmente auditadas.

Ademais, na Venezuela há partidos de oposição que funcionam regularmente e imprensa livre, mesmo após a cassação da concessão do canal RCTV, que articulou o golpe de Estado de 2002.

A crítica de que o chavismo controla setores do aparelho de Estado, como o poder judiciário, por exemplo, não deixa de ser curiosa.

Na Venezuela, como em quase toda a América Latina, os setores estratégicos do aparelho de Estado sempre foram fortemente controlados pela direita. No entanto, tal controle nunca foi questionado como algo antidemocrático.

Ao contrário, o caráter de classe desses segmentos estatais sempre foi considerado como parte intrínseca e natural do modus operandi dos sistemas políticos do subcontinente. O controle só se torna um “problema” quando passa a ser exercido, ainda que parcialmente, pela esquerda.

Assim sendo, não se pode falar em quebra da ordem democrática na Venezuela, apesar da radicalização do processo político e dos graves problemas institucionais que acometem o país vizinho. A última vez em que houve realmente quebra da ordem democrática na Venezuela foi no golpe militar de 2002.

III Desdobramentos Recentes

A situação da Venezuela atual é muito próxima da existente no período 2002-2003.

Com a morte de Chávez, em 2013, a oposição radicalizada da Venezuela, considerou que poderia derrotar facilmente o sucessor na revolução bolivariana.

Entretanto, a vitória de Maduro sobre Capriles, ainda que por pequena margem, frustrou as expectativas da oposição.

Pouco tempo depois, os setores mais radicalizados da oposição venezuelana, liderados por Leopoldo López, iniciaram o processo denominado de “la salida”, que consiste na utilização de manifestações violentas de rua, com a formação de barricadas, as chamadas “guarimbas”, incêndio de edifícios públicos e até mesmo de atos terroristas com o intuito de derrubar o governo eleito.

Trata-se de uma estratégia que teve êxito na chamada “revolução colorida da Ucrânia”, diretamente financiada e estimulada pelos EUA.

Essas manifestações, muito concentradas nos bairros do leste de Caracas e algumas outras poucas municipalidades dominadas pela classe média e pelas classes afluentes da Venezuela são amplificadas por uma mídia nacional e internacional comprometida com os interesses conservadores.

De um modo geral, as informações sobre as manifestações são produzidas com o auxílio das agências de inteligência e propaganda norte-americanas, que as repassam às agências internacionais de notícias, como a Reuters. A partir daí, elas se disseminam para o mundo inteiro, gerando uma percepção falaciosa do processo político venezuelano.

Entre 2013 e 2016, esse processo político radicalizado pela oposição de direita acabou provocando a morte de pelos menos 46 pessoas, a maioria chavistas ou de pessoas sem afiliação política, bem como danos milionários a equipamentos públicos.

Tais “guarimbas” foram e são financiadas desde o exterior. Com efeito, há uma conexão clara da direita venezuelana, particularmente dos setores ligados a Leopoldo López, com a extrema direita da Colômbia, principalmente com Álvaro Uribe e seus grupos de extermínio.

São essas conexões e os reiterados atos de violência que levaram à prisão de López e Antonio Ledezma na Venezuela.

Caracterizá-los como presos políticos que tivessem cometido “crimes de consciência”, como faz a imprensa brasileira, é desconhecer a realidade de uma direita que não tem, de fato, qualquer compromisso com a democracia e os direitos humanos e que aposta sistematicamente na violência como arma política preferencial.

Concomitantemente, foi iniciado um processo econômico que visa produzir carestia, desabastecimento e inflação, tal com o ocorreu, por exemplo, no Chile de Allende ou mesmo na própria Venezuela dos anos 2002 e 2003.

De fato, a este respeito é necessário que a crise econômica da Venezuela tem dois aspectos claros: um natural e outro artificial.

O natural, por assim dizer, tange ao fato óbvio de que a economia venezuelana, apesar dos esforços de chavismo para diversificá-la, ainda é muito dependente das exportações do petróleo e tem agricultura e indústria débeis.

A arrecadação tributária da Venezuela é muito baixa, apenas 13,5% do PIB, bem abaixo da brasileira, por exemplo, que está em cerca de 35% do PIB. Assim, o gasto público depende estreitamente da renda petroleira. Com a grande queda dos preços dessa commodity a partir de 2012, a economia da Venezuela passou enfrentar dificuldades reais graves, particularmente problemas cambiais.

Entretanto, há também aspectos artificialmente induzidos na crise econômica venezuelana. Há uma guerra econômica em curso.

Entre os instrumentos utilizados dessa guerra econômica estão: 1) o desabastecimento programado de bens essenciais; 2) a inflação induzida; 3) o boicote a bens de primeira necessidade; 4) o embargo comercial disfarçado; e 5) o bloqueio financeiro internacional.

O desabastecimento é produzido pela especulação cambial e pelo boicote político. O governo fornece aos importadores e comerciantes dólares cotados, pelo câmbio oficial, a apenas 10 bolívares. Entretanto, no câmbio negro, o dólar chega a ser cotado a milhares de bolívares.  Na semana passada, cegou a 16 mil bolívares por dólar.

O que acontece é que muitos importadores simplesmente não importam o que deveriam. Fazem os contratos, mas importam apenas uma fração e depositam dólares no exterior. Além disso, boa parte (cerca de 35%) dos alimentos comprados são contrabandeados para o exterior, principalmente para a Colômbia, onde são vendidos com muito lucro. Outra parte é vendida no mercado interno, mas a preços excessivos, gerando carestia e inflação.

Ressalte-se que as importações de alimentos na Venezuela totalizaram US$ 7,7 bilhões em 2014, sendo que em 2004 elas foram de apenas US$ 2,1 bilhões. Ou seja, nesse período elas cresceram 259%. E, no caso de medicamentos importados, em 2014 as importações foram de US$ 2, 4 bilhões, enquanto que, em 2004, elas somaram apenas 608 milhões. Um aumento de 309%.

Portanto, a falta de alimentos, medicamentos, kits de higiene, peças sobressalentes para transporte e outros produtos, bem como as longas filas, não podem ser explicadas porque o setor privado não conseguiu receber uma quantidade suficiente de dinheiro para as importações. Esse dinheiro foi simplesmente desviado. Dessa forma, os depósitos em dólares de empresas venezuelanas no exterior cresceram 233% em apenas cinco anos.

Outro fator da guerra econômica tange à inflação induzida pela especulação. Em 2016, a economista venezuelana Pasqualina Curcio estimou, com base nas reservas e na liquidez monetária, que taxa real de câmbio deveria ser de 84 bolívares por dólar. No entanto, no câmbio negro o dólar já chegava a 1.212 bolívares por dólar.   Essa discrepância dilatada e sem base real alimenta um índice inflacionário inteiramente especulativo.

Além de tudo isso, Venezuela sofre, desde 2013, com uma espécie de bloqueio financeiro não oficial. Ele consiste em tornar cada vez mais difícil e caro para a República e, especialmente, PDVSA, o acesso ao crédito no mercado internacional e em obstaculizar as transações financeiras.

Nesta área, as armas são invisíveis: tratam-se principalmente da publicação de níveis elevados de índice de risco país e do retardamento das transações financeiras costumeiras. Observe-se que, mesmo com a crise, a Venezuela vem cumprindo estritamente as suas obrigações financeiras, de modo que tais obstáculos não têm base racional e real.

No entanto, o fato concreto é que essa guerra econômica vem ajudando a radicalizar ainda mais o processo político venezuelano.

Nos últimos 4 meses, morreram mais de 100 pessoas nos conflitos de ruas. Houve linchamentos de chavistas, inclusive de um que foi queimado vivo, atentados terroristas, incêndios de prédios públicos, inclusive de uma maternidade. Houve também, é claro, a morte de manifestantes da oposição pelas forças de segurança. A violência se generalizou.

Ao mesmo tempo, o impasse institucional entre o Poder Executivo e a Asamblea Nacional, dominada pela oposição congregada na MUD, agravou-se, sem quaisquer iniciativas de ambos os lados para um diálogo sério e construtivo.

Assim sendo, a Venezuela de hoje está à beira de uma guerra civil de proporções calamitosas e consequências imprevisíveis.

Ante tal impasse, o governo chavista optou pela convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, prontamente rejeitada pela oposição.

A oposição logo alegou que a convocação era inconstitucional e que visava perpetuar o poder de Maduro.

Bom, em primeiro lugar, tal convocação não é inconstitucional. A convocação da Assembleia Constituinte pelo presidente da república está prevista clara e explicitamente no artigo 348 da Constituição da Venezuela.

Em segundo lugar, a Assembleia Constituinte não substitui a Asamblea Nacional (o parlamento unicameral da Venezuela), como foi afirmado falsamente, a qual continuará a funcionar e a cumprir suas funções legislativas.

Em terceiro lugar, a convocação de assembleias constituintes é um mecanismo frequentemente usado em países democráticos como solução pacífica para impasses políticos e institucionais como o que acomete a Venezuela atual.

Em quarto lugar, a convocação teve apoio expressivo da população. O número de votantes para a assembleia (mais de 8 milhões) foi superior aos votos que teriam sido obtidos pelo plebiscito informal que a oposição convocou uma semana antes contra a assembleia ( cerca de 7,2 milhões de votos).

Observe-se que esse plebiscito é que foi, sim, inteiramente ilegal. Não fosse o clima de violência criado pela oposição, as barricadas que impediram o acesso aos centros de votação e o boicote ostensivo das empresas de transporte, que fizeram locaute no dia da votação, a participação eleitoral poderia ter sido bem superior.

Em quinto lugar, os objetivos estratégicos da Assembleia Constituinte são bem mais amplos do que o suposto desejo de perpetuar Maduro no poder.

A Assembleia visa essencialmente constitucionalizar as misiones sociais, bem como estabelecer as bases jurídicas e institucionais de uma economia pós-petroleira.  A preocupação fundamental é impedir retrocessos sociais, como os que ocorrem atualmente no Brasil, e criar mecanismos econômicos que levem a Venezuela a ampliar a base produtiva de sua economia, de modo a superar definitivamente a sua dependência dos hidrocarbonetos.

Há de se enfatizar, além disso, que o texto que sairá dessa Assembleia só terá valor jurídico se for aprovado pela população em referendo.

Tal constatação minimiza a crítica da oposição de que o sistema de votação estabelecido para a Assembleia Constituinte criava um “jogo de cartas marcadas”.

Na realidade, dos 545 membros da Assembleia, dois terços  (364) foram eleitos em base territorial, e um terço (181) com base em setores organizados da sociedade civil, como estudantes, agricultores, sindicatos de trabalhadores, organizações empresariais, representantes das comunidades indígenas, etc.

Embora se possa argumentar que tal sistema gera uma distorção na proporcionalidade do voto, é necessário se entender que tal distorção é menor do que a distorção na proporcionalidade que se verifica em muitos países democráticos que adotam o voto distrital.

No Reino Unido, por exemplo, o Partido Liberal tem sido frequentemente prejudicado, pois o percentual de cadeiras que recebe é sempre inferior ao seu percentual de votos. O partido foi sub-representado em todas as eleições para a Câmara dos Comuns no pós-1945: com uma média de 12,4% dos votos, obteve uma média de 1,9% das cadeiras. A diferença mais acentuada ocorreu em 1983, quando recebeu 25,4% dos votos e elegeu apenas 3,5% dos representantes.

Entretanto, as distorções também se dão entre os partidos principais. Por exemplo, nessas ultimas eleições britânicas, os conservadores tiveram apenas 2,4% a mais de votos entre os eleitores que o Partido Trabalhista (42,4% x 40,0%). Contudo, conseguiram eleger 55 representantes a mais que os trabalhistas (317×262). Pela proporcionalidade do voto, tal diferença deveria ter resultado em apenas 15 cadeiras a mais.

Na França moderna, nas duas eleições em que um partido obteve mais de 50% de cadeiras, ele o fez por intermédio de maiorias manufaturadas por distorções: em 1968, os gaullistas (atual RPR) receberam 38% dos votos e 60% das cadeiras; em 1981, o Partido Socialista, com 37% dos votos, ficou com 57% das cadeiras.

Assim sendo, caracterizar a convocação da Assembleia Constituinte como um “golpe” ou uma “ruptura da ordem democrática” é algo de evidente má-fé. Pode-se não concordar com tal convocação, mas não se pode denominá-la de “golpe”. Golpe foi que aconteceu no Brasil.

A alternativa à Assembleia Constituinte parece ser uma guerra civil aberta. Ao menos, a Assembleia Constituinte cria uma oportunidade para que se estabeleça um diálogo que supere o atual impasse político e institucional daquele país.

Lamentável, em todo esse processo, é a posição do governo golpista e sem voto do Brasil. Desde que assumiu ilegitimamente o poder, esse governo fez da suspensão da Venezuela do Mercosul e da derrubada do governo chavista a sua diretriz principal em política externa, atuando como braço auxiliar dos EUA no subcontinente.

Ao fazê-lo, o governo golpista apequenou o Brasil e retirou qualquer possibilidade do nosso país atuar como mediador de conflitos na região, como vinha fazendo nos governos do PT.

O empenho do Brasil contra a Venezuela foi de tal ordem que a suspendeu duas vezes do Mercosul. Com efeito, antes da última decisão de utilizar a cláusula democrática do Protocolo de Ushuaia, a Venezuela já estava suspensa, na prática, do Mercosul desde dezembro do ano passado, sob a escusa, sem embasamento jurídico, de que o país não havia internalizado todas as normas do bloco, situação que se verifica em todos os Estados Partes.

Assim, a decisão de utilizar a cláusula democrática representa mera peça propagandística contra o governo legitimamente eleito da Venezuela.

Além de empenhado nos retrocessos socais e políticos internos, o governo do Brasil está empenhado também em forçar retrocessos na região.

Nosso principal produto de exportação é hoje o golpe.

*Marcelo Zero é sociólogo, especialista em Relações Internacionais e membro do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI).

Leia também:

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09 Aug 13:07

PT? Tem certeza?

by elikatakimoto

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O título dessa postagem é a frase que tenho ouvido com grande frequência depois de ter anunciado a minha filiação ao maior partido de esquerda da América Latina. Mais preocupante do que essa pergunta é o questionamento se eu quero mesmo entrar “para esse meio imundo que é a política”.

No que pese meu reconhecimento aos erros cometidos por vários políticos do PT, pergunto-me, sobretudo, se seria possível viver sem tropeçar e se há, para além do sonho e da utopia, alguma instituição ou um ser humano digno que só tenha acertado em sua história.

Ouvir que o PT  “institucionalizou a corrupção no país” causa uma certa dor. Fico incomodada não por acreditar nisso, mas por perceber o quanto as pessoas ignoram tudo o que o partido fez como, por exemplo, as medidas efetivas para combater a corrupção e as suas causas. Houve nos governos do PT um fortalecimento, sem precedentes na história, das instituições de controle da administração estatal e a promoção intensa a transparência da gestão pública.

E isso não é coisa minha movida pela cegueira que a esperança nos gera. Os próprios procuradores da Lava Jato já reconhecem que foram as políticas criadas pelo PT que permitiram o combate mais duro à corrupção. Ilusão é achar que a Lava Jato teria acontecido em outros governos como do PSDB. Se acreditam que nessa época não havia corrupção era porque imperava o acobertamento dos ilícitos nos gerando a falsa sensação de que não estávamos sendo roubados.

Depois que Lula me ligou por conta de um texto que havia escrito, muita coisa mudou em minha vida. Recebi convites para participar de várias plenárias, reuniões, conhecer melhor os movimentos sociais e até o acampamento do MST. Uma coisa ficou ainda mais certa na minha cabeça desde então: quem diz que na política só há corruptos é por pura ignorância, tomada aqui no sentido real da palavra, por “ignorar” tantas outras histórias e a luta de uma infinidade de gente séria do meio. A verdade não se encontra na televisão e na mídia que é financiada por empresários, vale sempre lembrar.

Esse sentimento de querer distância de política é extremamente perigoso. Quem não gosta de política, já dizia o próprio Lula, paga o preço por ser governado por quem dela se tira muito proveito. Ver jovens sem vontade de se envolver politicamente com causas sociais faz soar em mim um alarme de perigo. Creio que isso dificulta ou quiçá impede uma solução para nossos reais problemas, pois dá mais abertura, como podemos testemunhar, para que políticos que não respeitam a democracia encontrem saídas autoritárias para a crise que envolvem políticas neoliberais aliadas aos interesses do grande capital.

A minha filiação se dá nesse cenário pós-golpe quando vi a soberania popular sendo “subtraída em tenebrosas transações”. O governo que aí está  – e que não seria eleito pelo povo – implementa medidas anti-sociais que terão um efeito longo e devastador principalmente nos campos do meio ambiente, da previdência, da saúde e da educação. Vi a retirada da credibilidade do voto e da política. O barco não está à deriva e sim sob o comando de um grupo guiado por uma mídia oligopolizada, juízes partidarizados e pelo capital.

Todas essas reformas que foram e estão sendo votadas buscam implantar um novo regime, com menos gastos na área social e fortes ataques a direitos conquistados a duras penas pelos trabalhadores, piorando muito as condições de trabalho e tornando aposentadoria do povo brasileiro um sonho.

Não há na história mundial uma superação a algo parecido do que está acontecendo em nosso país sem luta e sem resistência. Ou melhor, sem a retomada de confiança na força da democracia. A minha filiação se dá por acreditar nessa força e por ver políticos sérios combaterem bravamente essa agenda montada para tirar direitos e favorecer ainda mais aos setores rentistas.

Acompanhar tudo isso de perto fez com que eu quisesse participar de forma mais eficaz dessa luta. Quero ajudar a construir não somente dentro do PT mas junto com movimentos sociais, forças progressistas e também com outros partidos de esquerda e centro esquerda uma nova agenda para o Brasil que seja capaz de apontar um rumo para o desenvolvimento com redução da desigualdade. Percebo o grande obstáculo e o tamanho da dificuldade a ser enfrentada. Mas sei que as barreiras não se eternizam se fizermos por onde – e sei também que elas irão se fortalecer se não nos unirmos.

Respondendo a pergunta inicial: sim. PT. Tenho certeza. Como professora percebo que o PT é o meu lugar pois, tal como Madureira, é “cercado de luta e suor e esperança num mundo melhor”. Na Educação que é a minha área, vi somente nos governos do PT a criação de 18 universidades públicas e o orçamento do Ministério da Educação passar de 18 bilhões, em 2002, para 115,7 bilhões, em 2014.  Além disso, mais de um milhão de alunos tiveram acesso a bolsas integrais e parciais de estudos do Programa Universidade para Todos (Prouni) e quase três milhões de alunos se matricularam em universidades por meio do Sistema de Seleção Unificado (Sisu), em 2015. O número de escolas técnicas passou de 11, durante o governo FHC, para 420 unidades! E mais de 12 milhões de jovens foram matriculados no Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). Foi bonito acompanhar tudo isso.

Finalizando: a filiação ao partido que nasceu no mesmo dia que eu (10 de fevereiro) acontecer no subúrbio carioca, na quadra do Império Serrano, em Madureira, bairro em que moro há mais de quarenta anos, tem uma simbologia imensa em minha vida. Receber a benção de meu presidente nesse dia será uma honra e tanto.

Não tem como não dar samba tudo isso, gente.


Arquivado em:Crônicas
09 Aug 13:06

Alerta: Sob pressão, trabalhadores da Nissan rejeitam sindicato. Nos EUA

by Luiz Carlos Azenha
Nissan proíbe criação de Sindicato e mostra como são as regras do Tio Sam
 
da Agência Sindical

Nestes tempos de reforma trabalhista neoliberal, é bom prestar atenção no que ocorreu na Nissan, no Estado do Mississippi, Estados Unidos.

Apesar de ampla campanha para garantir direitos sindicais, apoiada pelo sindicalismo internacional e, internamente, por diversas organizações e figuras como Bernie Sanders e o ator Danny Glover, a eleição na planta em Canton, para criar o Sindicato, local sofreu duro revés.

O resultado foi de 63% contra a formação da entidade da categoria e 34% a favor – foram 2.244 contra 1.307, em um total de 3.700 votantes.

O United Auto Workers (UAW), Sindicato do setor automotivo nos EUA, denunciou que a votação foi influenciada por forte campanha antissindical e racista que a Nissan realiza há anos a fim de impedir a organização e sindicalização dos trabalhadores.

Agência Sindical entrevistou o metalúrgico Paulo Roberto dos Santos Pissinini, diretor do Sindicato da Grande Curitiba, que acompanhou a eleição como representante da Confederação da categoria (CNTM). Ele confirma a forte pressão da empresa, que incluiu ameaça de demissões e fechamento de plantas, caso os trabalhadores votassem a favor da criação do Sindicato local.

Pressão – Pissinini conta: “Nos últimos dias, a Nissan foi muito agressiva na campanha contra o Sindicato. A pressão ultrapassou os limites da fábrica, com agentes da empresa visitando as casas dos trabalhadores e, também, com grande atuação na mídia. Foi um terrorismo brutal”. Outro meio de pressão foi o fato da empresa liberar a compra de veículos top de sua linha, a 50 dólares ao mês, para quem votasse contra.

A intensa propaganda não foi só dentro da fábrica. Também se converteu em publicidade antisindical na TV, em jornais e em spots nas rádio. Autoridades locais se somaram à campanha patronal contra os direitos trabalhistas. O próprio governador Phil Bryant, do Partido Republicano, acusou os Sindicatos de prejudicar a indústria automotiva em Detroit.

Exploração – Segundo Paulo Pissinini, a principal preocupação dos trabalhadores ao buscar a organização sindical está “no auxílio-saúde e nos fundos de previdência, devido à falta de políticas sociais públicas nos Estados Unidos”. Ele comenta: “O regime de trabalho é por meio de contrato direto, com grande parte das contratações de forma terceirizada ou temporária e enorme defasagem salarial entre os trabalhadores”.

A fábrica da Nissan em Canton emprega 6.400 operários, mas 2.700 são temporários e não puderam participar da eleição. Ainda que não tivessem direito a voto, eles constituíam o principal setor favorável à sindicalização, devido às suas condições de trabalho, salários mais baixos, maior jornada e constante instabilidade no trabalho.

Luta – O dirigente metalúrgico brasileiro denuncia: “Esses trabalhadores estão submetidos a forte pressão por horas extras, maior risco de acidentes e, como não há uma lei de proteção trabalhista, o assédio moral é muito grande e persistente”. “O que os companheiros buscam com o Sindicato é obter os benefícios que os sindicalizados possuem nas empresas”, acrescenta.

O UAW fez graves denúncias da Nissan, entre as quais negar acesso ao corpo eleitoral dentro da planta, criar um sistema de qualificação entre os empregados de acordo com seu nível de apoio à criação do Sindicato, além de espionar suas atividades sindicais.

Pissinini critica: “Nos EUA, os trabalhadores estão lutando para conquistar uma condição que, no Brasil, até hoje tinha garantia legal. Nossa luta aqui é pra que não nos imponham uma legislação semelhante à norte-americana”.

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João Sicsú: O Brasil de volta aos tempos de Dona Maria Louca

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09 Aug 13:04

PCdoB: Antes de “ovada”, capangas de ACM Neto atacaram manifestantes

by Luiz Carlos Azenha

A vereadora Aladilce Souza deixou registrado nos anais da Câmara seu protesto contra a entrega do título a Doria

Nota de esclarecimento sobre a “ovada” em Doria

O prefeito de São Paulo acusou a vereadora do PCdoB de ter organizado a “ovada de que foi alvo”.

Não é verdade.

O ato realizado na noite do dia 07/08 foi organizado formalmente pela Frente Brasil Popular da Bahia, com convocatória amplamente difundida nas redes sociais, e conduzido na oportunidade por membros da coordenação da referida Frente.

A manifestação tinha objetivo claramente definido: protestar contra a entrega do título de cidadão soteropolitano a uma pessoa que não tem nenhum serviço prestado à cidade, o que se exige para o recebimento dessa homenagem.

E durante o ato foi repetido seguidas vezes que aquele que manda despejar jatos de água fria em moradores de rua, que manda derrubar casarões com pessoas pobres dentro, que manda invadir ocupações com espancamento de mulheres, idosos e crianças, não merece tamanha honraria.

Foi lembrado também que Dória, quando presidente da Embratur, no governo Sarney, propôs transformar a miséria do nordeste em atração turística – um verdadeiro escárnio contra a povo da região.

É necessário esclarecer a opinião pública o que até agora não foi divulgado.

A tal “ovada” que atingiu o prefeito não foi uma iniciativa que veio do nada. Enquanto acontecia a manifestação de maneira pacífica, cerca de 60 capangas contratados pelo prefeito ACM Neto (da mesma tradição do avô) receberam ordens para invadir a área dos manifestantes para tomarem na marra o Nano Trio (uma minitrio elétrico) trazido pela Frente Brasil Popular.

Neste momento dezenas de jovens, mulheres e idosos foram covardemente espancados pelos prepostos do prefeito, tendo um deles quebrado a perna. E essa milícia particular soltou bombas, gases, socos e pontapés, provocando um verdadeiro terror, típico dos períodos da ditadura.

Foi aí que surgiu espontaneamente de alguns manifestantes a iniciativa de revidar jogando ovos, um dos quais atingiu o prefeito que veio fazer campanha eleitoral quando deveria estar trabalhando.

Registramos nosso repúdio ao prefeito de Salvador pela violência característica de seus métodos de fazer política e as bravatas de Dória contra nossa a vereadora.

Aladilce tem um mandato a serviço dos trabalhadores, contra a venda da cidade a interesses empresariais patrocinada por ACM Neto e em defesa da democracia.

Portanto conta com nossa integral solidariedade.

Comitê Municipal e Estadual do PCdoB de Salvador

Salvador, 08/08/2017

‘Deu até pena do ovo, era novinho’, diz manifestante que arremessou contra Doria

JOÃO PEDRO PITOMBO
, na Folha

A Câmara Municipal de Salvador identificou três manifestantes que teriam atirado ovos no prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), na noite desta segunda-feira (7) em Salvador.

O prefeito paulistano foi à Bahia receber um título de cidadão soteropolitano, mas foi recebido com protestos, vaias e atingido por ovos na Praça Municipal.

Os três manifestantes sofrerão uma punição administrativa: serão proibidos de entrar no prédio da Câmara de Salvador até o final deste ano. O ato com a punição será publicado no Diário Oficial nesta quarta-feira (9).

O produtor cultural Eucimar Freitas, militante do PT e membro do Conselho Municipal de Cultura de Salvador, foi um dos punidos. Ele admite ter arremessado ovos contra o prefeito de São Paulo, mas diz não saber se foi o seu que o atingiu.

“Deu até pena do ovo. Era novinho”, disse Freitas à Folha, classificando o protesto como pacífico, legítimo e espontâneo –ele diz que não houve participação de vereadores organização da manifestação.

O manifestante ainda criticou a punição imposta pelo Legislativo municipal. Diz que os ovos foram arremessados contra Doria e que não houve dano ao patrimônio da Câmara.

“Doria agora é patrimônio de Salvador? Pelo que sei, além de maltratar moradores de rua e acabar com a arte em grafite de São Paulo, ele não tem nenhum serviço prestado à nossa cidade”, afirma Freitas.

Os outros dois manifestantes punidos pela Câmara de Salvador são Eudes Oliveira e Jhones Bastos. O primeiro é filiado ao PSOL e é membro do grupo Atitude Quilombola. O segundo é filiado ao PT e faz parte do movimento dos sem-teto.

Eudes Oliveira afirma ter participado do protesto, mas nega que tenha arremessado ovos em Doria: “Vão ter que provar”. A reportagem não conseguiu contato com Jhones Bastos.

O presidente da Câmara Municipal de Salvador, vereador Léo Prates (DEM), afirma que os manifestantes que jogaram os ovos foram identificados por meio de imagens das câmeras de segurança.

“A manifestação é natural e legítima, mas algumas pessoas cometeram excessos. Resolvemos puni-las porque colocaram em risco a segurança dos vereadores e das outras pessoas que ali estavam”, afirmou.

Jhones, Eucimar e Eudes: militantes de primeira linha

TROCA DE ACUSAÇÕES

Os protestos contra João Doria acirraram o clima de disputa entre o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), e o governador da Bahia, Rui Costa (PT). Ambos deverão ser adversários na disputa pelo governo baiano no próximo ano.

O prefeito acusou o governador de ser o “patrocinador” dos protestos contra Doria: “[O protesto] é fruto do desespero, de quem está vendo o poder se esvair. Esse tipo de coisa vai ser dada a resposta ano que vem nas eleições”, afirmou.

Nesta terça-feira (8), o governador negou que estivesse por trás dos protestos contra Doria.

“Isso é coisa da idade, da inexperiência e um certo desespero de quem está tentando tirar o direito previdenciário da população, de quem está tentando tirar os direitos trabalhistas e está percebendo que o povo não está aceitando”, disse em entrevista à imprensa.

O petista ainda classificou a homenagem como um ato de campanha eleitoral de Doria e ACM Neto. E disse que ambos deveriam “estar trabalhando e cuidando das suas cidades”.
“Talvez, para quem não tenha muito para fazer, a prioridade seja fazer campanha eleitoral”, afirmou Costa.

DANÇANDO AXÉ

Depois de participar da sessão solene na Câmara, Doria foi jantar com empresários e aliados do prefeito ACM Neto em um restaurante em Salvador. Lá, dançou passos de axé durante um apresentação da cantora Gilmelândia, ex-Banda Beijo.

O prefeito paulistano deverá voltar à Bahia nos próximos meses para receber um título de cidadão baiano. A proposta é do deputado estadual Adolfo Viana (PSDB) e já foi aprovada pela Assembleia Legislativa

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09 Aug 12:51

Desafios Pessoais na Paternidade

by Thiago de Moraes
Allan Patrick

O que a paternidade não faz com a gente, até dirigir carro...

Um pai nasce depois do filho. Sofre o parto de si mesmo, a revolução da sua vida que só a paternidade pôde proporcionar até aquele momento.

Um filho te faz agir para cuidar do bem-estar dele, mas também te mobiliza a enfrentar desafios pessoais que são obstáculos a esse bem-estar pleno que desejamos aos nossos pequenos. Esses monstros e fantasmas que enfrentamos por nós e por nossos filhos constituem uma das facetas mais sublimes da paternidade: a abnegação. Claro, não se trata da própria negação, ou da anulação de si pelo outro, mas a doação tão intensa de si que transcende o que há muito seria o máximo a ser dado.

Vejam bem: talvez seja menos diagnóstico do que experiência pessoal, mas sempre há desafios a serem superados por nós em razão dos filhos.

No meu caso, um desafio pessoal foi aprender a dirigir na marra. Assim, sem nunca ter dirigido, e com carteira de habilitação há anos na mão. Este texto não é sobre carros. Também não é sobre a potência e virilidade que a publicidade machista sobre carros diz que os homens terão ao comprar e pilotar um. É sobre a barra que foi fazer algo que eu considerava que nunca seria capaz de fazer, muito menos sendo responsável por levar meu filho, tão pequeno.

Segue mais ou menos assim. Eu, de humanas e miçangueiro, não concebia uma realidade que incluísse o carrocentrismo triunfante na minha vida. Eu era contra. Ainda sou contra. Se fosse possível, não usaria, mas as distâncias e as circunstâncias levaram eu e minha esposa a comprar um carro, evento que adiei por meses, inclusive. Era ela quem dirigia, mais experiente, forte e confiante do que eu. Nessa época, nosso filho, o Frederico, tinha quase 1 ano de idade.

Quando matriculamos o Frederico na escolinha, tirei férias para fazer a adaptação, e as circunstâncias foram tais que eu precisava aprender a dirigir em poucos dias para levá-lo à escolinha e acompanhá-lo na adaptação. Era eu ou eu. Era daquele jeito ou nada. Pior: se empurrasse o problema com a barriga ele só aumentaria.

Com muita ajuda, consegui. Aliás, quem mais me ajudou foi meu pai. Foi bastante doloroso enfrentar um medo, e um tanto enlouquecedor saber que eu precisava fazer aquilo porque meu filho precisava de mim para todo o processo na escolinha. Não saí da zona de conforto, eu me catapultei para fora dela.

A paternidade te faz querer ser uma pessoa melhor. Ser inteiro, se entregar para um desenvolvimento pessoal e emocional para oferecer o melhor pai que se pode ser. O melhor de hoje certamente não é o melhor de amanhã, pois as demandas e as trocas mudam. Nossos filhos nos impulsionam para nosso melhor o tempo todo, seja engatinhando, andando ou batendo asas e voando.

Já o tempo… O tempo se encarrega de demonstrar que nossos filhos são um grito de esperança ecoando no mundo desde o seu primeiro choro. É um grito nosso, de família, e que não cessa nunca. Queremos um futuro melhor para eles e nos esforçamos em cuidar de nossos bebês e do mundo que os cerca. E eles, por sua simples existência, são um futuro melhor para nós, pais. Se somos impelidos a sermos pessoas melhores, só temos a agradecer a eles. A melhor versão de si é certamente aquela que surge quando colhemos o primeiro sorriso da manhã dos nossos filhos. É o que convida o otimismo para entrar, tomar um café e expulsar o mundo feio que conhecemos. É o que nos permite ter forças para transformá-lo, e também a nós mesmos.

Uns param de fumar. Outros decidem largar o emprego e trabalhar com o que gostam, mesmo que pague menos, ou ficar tempo integral em casa com os filhos. Há quem tente recuperar laços familiares enfraquecidos pela distância e pelo tempo. Muitos tentam adquirir hábitos mais saudáveis, seja para viver mais e melhor, seja para oferecer bons exemplos. Talvez sejamos todos um pouco dessas dores, tanto para nós como para nossos filhos. Superá-las nos torna mais leves, e possivelmente pais mais amorosos. Tomara.

E tu, qual é o teu desafio? Por que teu filho te mobilizou ou te mobiliza a enfrentá-lo?

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08 Aug 12:48

Artifício fiscal leva US$ 2 bi

by Marcelo Ramos Oliveira

Mineradoras triangulam exportações de minério de ferro, e provocam perdas anuais, estimadas em estudo inédito

por Alessandra Mello, no Estado de Minas em 07-08-2017

O Brasil deixa de arrecadar US$ 2 bilhões por ano devido à falta de fiscalização e controle das exportações de minério de ferro, estrela da pauta de vendas do país ao exterior. É o que aponta um estudo feito pela Rede Latino-americana sobre Dívida, Desenvolvimento e Direitos (Latindadd) em parceria com o Instituto de Justiça Fiscal (IJF). Inédito, o levantamento apontou subfaturamento de US$ 39,1 bilhões nos embarques da matéria-prima entre 2009 e 2015. A cifra representa perda média de receitas fiscais da ordem de US$ 13,3 bilhões no mesmo período, o correspondente a cerca de R$ 42 bilhões, quase a metade do orçamento de Minas Gerais para 2017.

No caso do Brasil, esse impacto é grande, pois a economia mineral tem participação bastante relevante nas exportações do país. As vendas externas de minério representaram em 2015 11,7% do comércio total do

Brasil com o exterior. Só o minério de ferro foi responsável por 7,4% da receita das exportações naquele ano, segundo dados do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), que representa o setor.

De acordo com a diretora administrativa do IJF e auditora fiscal da Receita Federal Maria Regina Paiva Duarte, o mecanismo usado para burlar a tributação consiste em vender o minério por um preço mais baixo para uma mesma empresa do grupo exportador, mas localizada em paraísos fiscais ou países em que a tributação é menor, e depois vender novamente, então pelo preço de mercado, para uma terceira empresa.

“Em geral, a mercadoria é vendida para um desses territórios, a preço menor que o que seria adequado, mas entregue em outro. A mineradora Vale, por exemplo, tem empresa na Suíça e o minério é vendido para lá, mas entregue na China. A perda de tributação se dá a partir dessa venda por preço inferior, o que reduziria o lucro tributável no Brasil e, por consequência, a base de cálculo sobre a qual vai ser cobrado o tributo”, diz Regina Paiva. Até os países desenvolvidos, de acordo com a auditora fiscal, estão tentando barrar essas operações, porque se deram conta que as grandes empresas não estavam tributando os lucros adequadamente.

Na avaliação de Regina Paiva, os países para onde o minério brasileiro é destinado inicialmente deveriam dar publicidade aos dados das operações realizadas, acabando com o sigilo das transações entre empresas vinculadas. Para ela, coibir essa fuga de capitais e, consequentemente, a perda de receitas requer que, as administrações tributárias estejam preparadas em termos tecnológicos e de recursos humanos, com fiscalização adequadamente remunerada, a fim de fazer frente ao planejamento tributário abusivo das empresas.

Ela defende também a criação de um organismo supranacional que regulamente essas operações, vinculado a ONU (Organização das Nações Unidas). Caberia a ele “implementar regras que permitam aos países, especialmente os menos desenvolvidos, arrecadar o que é justo, adotar métodos que permitam apurar os preços efetivamente praticados entre empresas vinculadas ou que envolvam guaridas fiscais e criar mecanismos severos de punição ou sanção a países e empresas que não cumpram as regras estabelecidas e pratiquem operações fraudulentas”, afirma a diretora do IJF.

RECURSO FINITO

Com base no estudo, estima-se que 70% de todo o comércio exterior brasileiro ocorra entre empresas vinculadas ou com subsidiárias em guaridas fiscais. “O agravante das mineradoras é que elas trabalham com um recurso não renovável e que pertence legalmente a toda à sociedade. Ou seja, o que uma mineradora extrai e exporta, desaparece. Não poderá mais ser extraído, é colheita única. As gerações futuras não terão mais como explorar este recurso”, afirma Dão Real Pereira dos Santos, diretor de relações institucionais do IJF e também auditor da Receita Federal.

Além de ser um recurso finito, destaca Dão, o minério constitui a principal matéria-prima para a indústria estrangeira. “Então, qualquer sonegação que o setor extrativo produz tem um efeito muito mais grave do que qualquer outro setor, pois é uma riqueza que se perde e uma redução de custos para a indústria estrangeira em detrimento da capacidade do Estado para promover políticas públicas, inclusive aquelas que possam viabilizar alternativas econômicas que compensem a falta do recurso extraído”.

Tonelada sai por metade do preço

Rosiane Seabra, advogada e consultora tributária da Associação Mineira dos Municípios Mineradores (AMIG), diz que o estudo realizado pela Latindadd em parceria com o Instituto de Justiça Fiscal comprova em números o que a entidade há muito vem denunciando. “Essa é uma operação feita pelas mineradoras com o intuito exclusivo de reduzir a tributação. Os municípios mineradores há muito denunciam essa prática”, relata. Segundo ela, a maioria das empresas vende para elas mesmas a tonelada de minério pela metade do preço, reduzindo assim a tributação. Para Rosiane, a única solução seria uma rigorosa fiscalização por parte dos órgãos federais.

O governo já chegou a multar grandes mineradoras por essa prática, mas ela continua ocorrendo e não há controle rigoroso sobre a s vendas externas. “É que o governo federal, quando tem muita tibrutação não fiscaliza com rigor”, afirma.

Ela lembra que, além desse subfaturamento das exportações, o governo federal ainda reduziu, com a Lei Kandir, os tributos para o embarque de minério ao exterior, prejudicando ainda mais os estados mineradores, que brigam na Justiça com a União para ter compensação pela perda de receitas com a desoneração. A Lei Kandir previu compensação aos estados e municípios por perdas decorrentes da isenção do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) nas vendas ao exterior. “O governo desonera a exportação de minério e ela ainda é subfaturada”. O Ibram foi procurado pela reportagem do Estado de Minas, mas de acordo com a assessoria de comunicação da entidade, seus dirigentes estavam em um evento externo e ninguém foi localizado para comentar o estudo.