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25 Jun 18:42

A Promessa e a Realidade

by Pablo Villaça

O mundo hoje é um lugar pior do que era há 10 anos. É triste constatar isso, já que o ideal seria seguirmos num processo de melhora coletiva como espécie, mas negar o óbvio é impossível: em todo o planeta, governos com viés nacionalista, xenofóbico e autoritário vêm assumindo o poder graças a campanhas consistentes de demonização do que é “diferente”. Insuflar o ódio é mais fácil do que estimular o afeto – o primeiro envolve apenas fechar os olhos para o próximo; o segundo, investir numa relação que reconheça o próximo como igual.

Relendo posts que publiquei no Facebook há muitos anos com o objetivo de ver o que valeria a pena arquivar neste espaço renascido, fui tomado por uma melancolia crescente ao perceber como os problemas sobre os quais escrevia em 2012 hoje soam quase triviais se comparados aos que passaram a nos atormentar. Se antes havia meia dúzia de criacionistas querendo ver dinossauros e homens convivendo em dioramas em museus de História Natural, agora há milhares de terraplanistas insistindo que a negação de sua “teoria” é resultado de uma conspiração global – e, sim, usam a palavra “global” sem aparentemente perceber a ironia da situação.

Em 2012, Bolsonaro era uma aberração vista como tal; hoje, é uma aberração que ocupa a cadeira de presidente da república. Onde erramos? Como este futuro distópico virou presente?

Particularmente, deposito parte da responsabilidade sobre as redes sociais. Há (vários) outros fatores, é claro, mas tenho convicção de que espaços como o Facebook e o Twitter tornaram possível a coordenação de narrativas falsas usadas para despertar e inflamar o medo de boa parte da população, já que este frequentemente é seguido pela raiva. Medo da “ditadura gayzista“, do comunismo (como se tivéssemos retornado à década de 50), das “feminazis” que querem destruir o patriarcado, das minorias dispostas a tomar tudo dos homens brancos cis heterossexuais.

Minha queixa não é contra a Internet em si, percebam; a democratização da informação e a facilidade na comunicação obviamente trouxeram avanços indiscutíveis – e por alguns anos gloriosos, entrar na rede representava a possibilidade de descobrir o mundo, fosse”visitando” o Louvre e apreciando suas obras, fosse pesquisando em bases de dados antes fora de alcance. Se havia um ponto negativo reconhecido universalmente, este residia no baixíssimo nível dos comentários publicados em portais e sites e que todos reconheciam como o esgoto da web.

Pois as redes sociais serviram justamente para transformar os comentários no centro da Internet.

A partir daí, todos aqueles que viviam isolados na escuridão de seus porões repletos de intolerância puderam descobrir seus pares, empoderando-se mutuamente e passando a vomitar sua irracionalidade sob a luz do dia. Aos poucos, a desinformação se tornou estratégia destes grupos e, com isso, a maior virtude da rede se perdeu à medida que a mentira passou a ocupar o mesmo espaço dos fatos. A era da pós-verdade se estabeleceu e, no meio de toda a confusão, tudo perdeu a credibilidade. E se ninguém é mais fidedigno, aqueles capazes de gritar mentiras em maior volume ganharão.

E estão ganhando.

Como conceito, a Internet era a promessa de um mundo melhor; na prática, contudo, comprovou apenas que não éramos evoluídos o bastante para lidarmos com o poder que trazia.

Acho que nunca seremos.

12 Jun 14:20

Luciano Huck já começa a apagar retratos com Moro das redes sociais

by Kiko Nogueira

Assim como fez com Aécio, Accioly, Joesley e outros ex-amigos, o apresentador Luciano Huck, candidato virtual à presidência da República nos próximos 50 anos, já está dando sumiço nos retratos com Sergio Moro de suas redes sociais.

Se faltava um sinal de que a casa caiu, é esse.

Huck com Moro em Davos, quando ainda lhe era útil
Em alguma premiação picareta
12 Jun 14:18

Por que o Intercept está demorando tanto para publicar a próxima reportagem? Glenn responde

by Joaquim de Carvalho
O jornalista Glenn Greenwald, fundador do site The Intercept Brasil. Foto: Reprodução/YouTube

O The Intercept Brasil não está demorando muito para publicar a próxima reportagem sobre o escândalo do conluio entre Sergio Moro e Delta Dallagnol?

O próprio Glenn Greenwald, co-fundador do site, respondeu a essa pergunta, na entrevista que deu à agência Pública:

“Se eu entendi, Glenn, você está me dizendo que os documentos que vocês ainda estão trabalhando vão apontar uma relação mais próxima da Globo nesse processo com Dallagnol e Moro, é isso?”, pergunta o repórter Thiago Domenici.

Glenn Greenwald responde:

Eu não posso falar muito sobre os documentos que ainda não publicamos porque isso não é responsável. Precisa passar pelo processo editorial mas, sim, posso falar que exatamente como disse hoje, a Globo foi para a Força Tarefa da Lava Jato aliada, amiga, parceira, sócia. Assim como a Força Tarefa da Lava Jato foi o mesmo para a Globo.

Muita gente está querendo saber qual vai ser o próximo passo do The Intercept Brasil, as próximas reportagens. Queria que você esclarecesse o que é fundamental para essa apuração estar pronta jornalisticamente, para que vocês soltem novas revelações.

Não somos o Wikileaks. Não estamos simplesmente publicando material que nós temos, sem contexto ou reportando sem entender, sem analisar, sem pesquisar. Estamos fazendo jornalismo. E esses documentos são complexos. Entendo que todo mundo queira ver o que nós temos porque esse material tem interesse público e eles [o público] têm o direito de ver. Mas, por outro lado, nós temos a responsabilidade jornalística para usar o tempo que precisarmos para confirmar que tudo que nós estamos reportando é verdade. Por que se nós cometermos um erro, eles vão usar isso contra a gente para sempre, para atacar nossa credibilidade, da reportagem, de tudo. Por exemplo, todo mundo está falando: “onde estão os áudios?”. É muito complicado reportar áudios. Precisa confirmar quem está falando, precisa confirmar o contexto sobre o que estão falando. Precisa conectar isso com outros materiais, outros documentos e isso leva tempo. Nós vamos publicar logo, mas nós não vamos correr. Nossa prioridade é confirmar que tudo que estamos reportando está informando o público e não enganando o público, como eles fizeram.

12 Jun 14:05

Riachuelo, a batalha mais decisiva da História do Brasil

by alexcastro

11 de junho de 1865, nove da manhã. A Esquadra do Império Brasileiro, ancorada no rio Paraná perto da cidade argentina de Corrientes, é surpreendida, em pleno desjejum, pela Marinha Paraguaia em peso.

Estava para começar a batalha mais decisiva do maior conflito do nosso continente.

(Clique nessa, e nas outras imagens dessa página, para ver em tamanho maior.)

* * *

Estudei História Militar por achar que eram nos momentos-limites, como guerras, que os povos mais se revelavam.

Pois a Batalha de Riachuelo mostra com clareza tudo o que o brasileiro tem de melhor e pior.

* * *

Difícil dizer quando começa a Guerra do Paraguai. Depende de que lado você está.

Explico a situação aos meus alunos do Ensino Médio do seguinte modo. Quem começa uma briga: o valentão que desenha uma linha no chão e diz que quem passar da linha, apanha, ou o outro valentão que vai e passa?

Foi mais ou menos isso que aconteceu.

O Paraguai declarou considerar a independência do Uruguai estratégica e que uma invasão brasileira do Uruguai seria uma declaração de guerra.

Dom Pedro II cagou e invadiu assim mesmo.

E então, quem começou a guerra? Você pode argumentar que o Brasil não tinha direito de invadir ninguém. Você pode argumentar que o Paraguai não tinha direito de determinar quem pode ou não ser invadido.

Imediatamente, o Paraguai fechou o rio Paraná e invadiu o Mato Grosso, o Rio Grande do Sul e a província argentina de Corrientes.

Por seis meses, enquanto os aliados organizavam suas forças, López era dono da iniciativa e fez o que quis.

Em breve, a Tríplice Aliança foi consolidada, entre Brasil, Argentina e Uruguai. Em uma das muitas ironias da guerra, López, que iniciou o conflito ostensivamente para proteger o Uruguai, acabou lutando contra o próprio Uruguai. Naturalmente, o governo uruguaio que se uniu à Aliança foi o governo instalado pelo Brasil – o governo anterior, sumariamente derrubado, apoiava López.

Os aliados combatem os paraguaios em Corrientes e no Rio Grande do Sul, enquanto a Esquadra Imperial, moderna e numerosa, vai subindo o rio, em direção ao Paraguai.

Sempre ousado, López decide apostar todas as suas fichas em uma batalha decisiva: enviar sua Marinha inteira rio abaixo para tomar a armada brasileira.

Era tudo ou nada. Se ganhasse, o Paraguai teria acesso ao mar e poderia receber armas e suprimentos para continuar a luta. Se perdesse, não teria nem navios para tentar de novo. O Paraguai estaria ilhado.

Tudo favorecia o Brasil. Ninguém na Marinha Paraguaia tinha qualquer experiência guerreira ou naval. Só havia um navio de guerra. Os outros eram mercantes convertidos, a maioria apresada do Brasil nos primeiros dias da guerra.

Já o Brasil possuía um corpo de oficiais treinados em uma Escola Naval considerada completa pelos padrões europeus; navios de última geração, tanto encouraçados quanto adaptados para combate em rio; e, talvez o mais importante, muita experiência em guerra naval.

A geração dos almirantes brasileiros dessa guerra, nascidos por volta de 1800 e sessentões, tinham combatido portugueses na Guerra de Independência (1822-23); argentinos na Guerra Cisplatina (1825-1828); cabanos, farrapos e todo tipo de rebeldes nas lagoas, mares e rios do Brasil durante as agitações da Regência; mais uma vez, argentinos durante as Guerras contra Rosas (1850-1851) e, por fim, uruguaios na guerra imediatamente anterior (1864).

Nunca houve (nem, espero, nunca haverá) uma geração tão guerreira quanto essa no Brasil.

O espanto é terem quase perdido o raio da batalha.

* * *

Como pode uma esquadra em território inimigo, numa manhã ensolarada, ser surpreendida com as calças na mão? Só isso já era pra ter dado corte marcial pra todo mundo.

Naturalmente, o brasileiro já é meio preguiçoso e negligente. Quando ele acha que tem uma enorme superioridade material e que está invandindo o país de um bando de índio ignorante, mais ainda.

* * *

Os paraguaios já chegaram atirando antes mesmo que as âncoras fossem levantadas. Pior, durante a noite, os paraguaios também tinham guarnecido as margens do rio com homens e canhões.

Tinham pensado em tudo, menos em uma coisa: ninguém lembrou de trazer ganchos de abordagem.

O objetivo da batalha não era destruir a esquadra imperial. De que adiantaria isso? Os aliados mandariam mais navios.

O grande objetivo da batalha era capturar a marinha brasileira e já aproveitá-la para descer o rio barbarizando.

Mas como, sem ganchos de abordagem?

Pra quem nunca viu filme de pirata, ganchos de abordagem são aqueles ganchos que seguram os navios juntos, lado a lado, para os atacantes possam pular de um barco pro outro.

(Abaixo, exemplo de uma abordagem naval.)

A esquadra paraguaia havia saído de Assunção em festa, López presente e tudo, uma operação cuidadosamente planejada. E esqueceram os ganchos!

Essa eu juro que nunca engoli. Pesquisei muito. Investiguei arquivos. Falei com experts. Mas não encontrei nenhuma outra explicação além de um fortuito esquecimento.

Algum dia escreverei um romance sobre o agente secreto imperial que se infiltrou na esquadra paraguaia, jogou os ganchos ao rio e ganhou a guerra.

Pois ganhou mesmo.

Os navios paraguaios passaram várias vezes ao lado dos brasileiros e tudo o que podiam fazer era atirar com munição de pequeno calibre. Um ou outro soldado conseguia pular para dentro dos navios brasileiros, mas não fazia muito estrago.

Com os ganchos, a abordagem teria sido imediata. A batalha não duraria nem meia hora.

Se foi mesmo só esquecimento, então brasileiro é um bicho muito sortudo.

* * *

Com os ganchos, a batalha teria sido paraguaia, com certeza. Mas, sem os ganchos, ela também não estava nem um pouco decidida.

Pega de surpresa, entre dois fogos, a esquadra brasileira manobrou mal. Em mais uma mostra de incompetência ou negligência, nos primeiros momentos de reação caótica, vários navios brasileiros simplesmente encalharam nos bancos de areia.

Ora, uma esquadra navegando em um rio inimigo tem que ter práticos que conheçam bem as águas.

Imediatamente, os navios encalhados viraram alvos tanto das baterias em terra, como dos navios paraguaios. Na falta dos fatídicos ganchos, os paraguaios tinham que vir nadando das margens, ou pulavam dos navios em movimento, para abordar os encalhados.

Um dos meus antepassados era tenente em um desses navios. Vocês conseguem se imaginar no passadiço inclinado de um navio encalhado, lutando de espada em punho, o dia todo, de nove às cinco, contra um número interminável e incansável de inimigos tentando tomar o seu navio?

Brasileiro é um bicho arretado: apesar da extrema exaustão física das tripulações, nenhum dos navios brasileiros encalhados foi tomado. Nem perdido.

* * *

Por fim, mesmo com tanta negligência, incompetência e bravura, Riachuelo foi ganha no jeitinho, na malandragem. E quer coisa mais característica do que nossa maior batalha brasileira ter sido decidida na improvisação?

O almirante no comando da esquadra, Barroso, português de nascimento mas, claramente, brasileiro de coração, viu que as coisas não iam nada bem e teve um estalo genial: ressuscitou, fora do nada, uma tática naval em desuso há quase 400 anos, que nem era mais ensinada ou estudada.

Nas guerras navais da antiguidade, usava-se flechas para diminuir o número de soldados ou remadores a bordo, mas o único modo de realmente afundar um inimigo era por abalroamento. Ou seja, um navio enfiava sua proa (seu bico) a toda velocidade contra o costado (o lado) do navio inimigo, literalmente cortando-o ao meio.

As batalhas navais eram verdadeiros números de dança: centenas de navios tentando se colocar na melhor posição para abalroar alguém, ao mesmo tempo em que tentavam evitar de ser abalroados.

O abalroamento, entretanto, não era usado desde Lepanto, em 1570, onde Cervantes perdeu um braço e os turcos foram expulsos do Mediterrâneo. A razão era simples: com o advento dos grandes canhões, era possível (e recomendável!) afundar navios inimigos de longe. Ninguém mais chegava perto o suficiente do inimigo para sequer pensar em abalroamento.

(Na imagem abaixo, um abalroamento durante a Batalha Naval de Salamina, entre atenienses e persas, em 480 aEC.)

Qualquer um sabe seguir o manual. Gênio é quem faz associações inesperadas no momento de maior necessidade.

Barroso era um lobo do mar à moda antiga. Nunca tinha nem cursado Escola Naval. Aprendeu seu ofício combatendo no mar durante 50 anos. Era péssimo com burocracias, políticas, frescuras e papeladas.

Um oficial responsável, que seguisse procedimentos à risca, jamais teria sido pego assim, com as calças na mão em território inimigo.

Por outro lado, esse oficial responsável e certinho também jamais teria conseguido, na hora de maior necessidade, puxar da cartola o abalroamento.

Finalmente, o oficial cuidadoso nunca teria se metido na sinuca em que Barroso se meteu.

Em suma, nada poderia ser mais brasileiro do que o final de Riachuelo.

Antes mesmo que os paraguaios se dessem conta do que estava acontecendo, o Amazonas, capitânea de Barroso, afundou rapidamente os três principais navios inimigos. Sabendo que seriam os próximos, os outros fugiram rio acima. Em poucos minutos, tudo estava encerrado.

A esquadra brasileira preferiu não persegui-los: foi lamber suas feridas e desencalhar seus navios.

Era o fim da tarde de 11 de junho de 1865.

* * *

Barroso merecia uma corte-marcial, mas ninguém pune o herói da maior batalha naval da história nacional.

Circularam boatos de que ele se escondera no banheiro durante o grosso da ação e que a idéia do abalroamento e a condução do navio tinham ficado a cargo do prático. Mas não há prova alguma disso.

Barroso participou de dezenas de batalhas, algumas mais desesperadoras e perigosas, embora nenhuma mais decisiva, que Riachuelo. Não há razão para supor, ainda mais sem evidências, que depois de 50 anos de combates ele teria entrado em pânico logo nesse momento.

Os poucos navios paraguaios que sobraram nunca mais enfrentaram a esquadra brasileira. Subindo o rio, as únicas ameaças ao avanço aliado eram as fortalezas fluviais como Humaitá e Curupaiti.

Em Riachuelo, López perdeu algo muito mais importante do que o acesso ao mar e o controle do rio: perdeu a iniciativa.

O Exército Paraguaio no Rio Grande do Sul se rendeu ao Imperador em Uruguaiana, e os paraguaios no Mato Grosso voltaram para defender a pátria. Depois de Riachuelo, seriam os aliados a ditar o ritmo das operações. Dali em diante, a guerra seria travada no próprio Paraguai.

Vários fatores fizeram com que a guerra ainda durasse cinco anos: os aliados foram excessivamente tímidos enquanto os paraguaios, excessivamente bravos e Dom Pedro não abriu mão da cabeça de López enquanto López não abriu mão da Presidência.

Mas era favam contadas.

Depois de Riachuelo, o Paraguai não tinha mais como ganhar. A única pergunta era quando perderia.

* * *

Para quem quiser saber mais, recomendo Maldita Guerra, de Francisco Doratioto, melhor livro brasileiro sobre a Guerra do Paraguai.

* * *

Originalmente publicado a 11 de junho de 2004, em meu velho blog.

* * *

Pós-escrito

A imersão As Prisões: Práticas de Atenção é um encontro de três dias, onde encararamos nosso autocentramento e exercitamos nossa atenção.

Não é curso para aprender conteúdo. Não é terapia para curar problemas. Não é coaching para empoderar pessoas.

É uma instalação artística, uma performance polifônica, um espaço interativo.

É uma prática de escutatória, de generosidade, de cuidado, onde realizamos uma série de práticas de atenção e cada pessoa tira delas o que quiser e o que puder.

Tudo pode acontecer, nada nunca é igual. Venham por sua conta e risco.

A próxima acontece na paradisíaca pousada da Fazenda Sítio Velho, bem na divisa RJ-SP, equidistante de ambas as cidades, no fim de semana de 26 a 28 de julho de 2019.

(Não deixe de vir por falta de carro. O transporte a gente arruma.)

Para saber mais e se inscrever:

alexcastro.com.br/encontros/imersao-prisoes

As práticas de atenção estão descritas e desenvolvidas em meu novo livro Atenção.:

alexcastro.com.br/atencao

Atenção., capa em alta resolução. Clique para baixar.

11 Jun 17:11

Devendo o carnaval, prefeitura vai pagar R$ 350 mil para Simone e Simaria no São João de Natal

by Rafael Duarte

O Diário Oficial do Município trouxe na segunda-feira (10) os valores dos cachês que a prefeitura de Natal vai pagar às atrações nacionais do São João. Os contratos foram publicados por inexigibilidade de licitação.

Os shows começam na próxima quarta-feira (12) e seguem até domingo (18), na Arena das Dunas. Só o aluguel do estádio vai custar aos cofres municipais R$ 240 mil.

A soma dos valores dos cachês chama a atenção pelas cifras absolutas e também quando comparados ao carnaval de 2019. A prefeitura deve desembolsar mais de 1,2 milhão para sete atrações nacionais no período junino. Já no carnaval, os valores dos cachês para 16 bandas de renome chegaram a R$ 1,194 milhão.

No São João deste ano o valor mais alto será pago à dupla sertaneja Simone e Simaria, que receberá R$ 350 mil. O montante equivale a mais do que o dobro do maior cachê pago no carnaval de 2019. Em março, o músico Carlinhos Brown recebeu R$ 150 mil para abrir a folia de momo no largo do Atheneu.

Ainda a título de comparação, a prefeitura lançou recentemente um edital para o Centro Histórico no valor total de R$ 200 mil. A verba vai contemplar 23 artistas e grupos de Natal para se apresentar na região.

No ranking dos maiores cachês do São João a segunda posição é do cantor Xande do Aviões (antigo Aviões do Forró), cujo valor declarado é de R$ 300 mil.

A dupla sertaneja Zezé de Camargo e Luciano vem a Natal por R$ 265 mil, bem acima de outra dupla do gênero, César Menotti e Fabiano, que receberá R$ 160 mil. A banda Saia Rodada teve o cachê divulgado de R$ 110 mil.

A disparidade é tão grande com outros eventos realizados pela própria Prefeitura de Natal que um artista como Genival Lacerda, ligado à tradição do forró brasileiro, receberá um cachê de R$ 15 mil, de acordo com os extratos publicados no DOM. O valor é um terço do que receberá a banda cearense Caninana do Forró, cujo cachê divulgado é de R$ 46 mil.

Artistas de Natal ainda não receberam os cachês do carnaval

Prefeito Álvaro Dias (MDB) vai fazer o São João sem ter quitado a dívida com artistas de Natal no carnaval (foto: Assecom)

A demora para receber os cachês não chega a ser uma novidade para os artistas de Natal. O problema é a diferenciação no tempo de pagamento entre os músicos de casa e as atrações nacionais.

O que chama a atenção é a naturalização dessa cultura para algumas pessoas.

O produtor cultural Marcelo Veni defende que artistas e produtores precisam se adaptar a essa realidade. Ele citou a obrigação que a prefeitura tem de fazer os pagamentos respeitando a ordem cronológica da realização dos eventos:

Os pagamentos têm que obedecer a uma cronologia. Não se pode pagar show do carnaval antes de pagar um show que ocorreu em janeiro, por exemplo. Todo mundo que participa dos editais sabe disso. Ninguém faz um show não sabendo dessa realidade de cronologia de pagamento. Acho que os cachês do carnaval estão dentro de um tempo, que não é muito diferente dos demais”, afirmou.

Questionado se o ideal não seria o artista subir ao palco já com os cachê no bolso ou pelo menos receber logo após a apresentação, o produtor disse que não há essa possibilidade:

– O ideal não existe, infelizmente. Não só nessa questão, como em outras. Eu pelo menos prefiro trabalhar e receber depois do que não fazer e não receber nunca. É uma realidade que a gente tem que administrar”, disse.

O músico, arranjador e produtor Xico Bethoveen vê com naturalidade o tempo de pagamento:

– Como todo ano, (o cachê do carnaval) só sai quatro meses depois. Não deveria, mas é de praxe”, afirma.

Bethoveen defende uma mobilização conjunta envolvendo artistas, políticos e imprensa para reduzir essa diferença entre artistas de casa e de fora do Estado. Para ele, essa relação passa pela força do segmento:

– Os problemas vem de longe, apesar dos artistas locais fazerem 90% da festa do carnaval, por exemplo. São raros os artistas que conseguiram chegar na grande mídia, mesmo assim os que aparecem não estão no topo das paradas de sucesso. O Carnatal, por exemplo, que tem visibilidade mundial, já consagrou diversos artistas baianos, mas nenhum daqui. Não existe um sindicato forte que represente a categoria dos músicos, aliás, a representatividade da Ordem dos Músicos do Brasil (OMB) e do SINDIMUSI local é quase nula. Se não houver uma reflexão e um movimento coletivo envolvendo todos os atores envolvidos, sejam artistas, políticos, mídia local, nada vai mudar.

Músico experiente que já passou por bandas de renome no cenário nacional, como Cidade Negra, Bethoveen acredita que estratégia de fazer eventos para grandes multidões só com artistas de destaque nacional precisa ser repensada:

– Já vi o prefeito atual falar que está aberto a ideias. A economia do entretenimento já é quem mais faz circular dinheiro no planeta, inclusive já ultrapassou a bélica há algum tempo. Quem comanda o município gosta de ver grandes aglomerações de pessoas nos eventos e acham que só trazendo artistas que aparecem na mídia conseguem esse feito. Há exemplos de estratégias que comprovam o contrário”, afirma

Artista compara demora no pagamento com “tapa na cara”

Cantora Dani Cruz ainda não recebeu cachê do carnaval e diz que artistas são reféns de editais e políticas culturais (foto: acervo Dani Cruz)

A naturalização, no entanto, está longe de ser consensual entre os artistas. A cantora Dani Cruz, por exemplo, está na fila para receber os cachês do carnaval e acha revoltante essa diferenciação entre os artistas, o que ela classifica como “um tapa na cara”:

– O que acontece com muitos artistas da cidade é que ficamos reféns de algumas políticas culturais e alguns editais para realmente pagar contas no fim do mês. Colocaram goela abaixo cachês que não pagam o trabalho que a gente tem. Tenho consciência do quanto invisto no meu trabalho. As horas que coloco para fazer um show bonito e legal. Se as mesmas condições que dão para os artistas nacionais fossem dadas para nós, artistas da casa, não precisariam pagar cachês exorbitantes. É muito revoltante. A gente fica pensando em outras alternativas para sustentar nosso trabalho porque depender do poder público, da prefeitura de Natal, a gente leva isso, esse tapa na cara.

A cantora e intérprete Laryssa Costa segue a linha de Dani Cruz e fala na desmotivação que a demora nos processos de pagamento provoca nos artistas. A prefeitura de Natal acumula dívidas com Laryssa desde janeiro, quando ela se apresentou na Árvore de Mirassol, no projeto Natal em Natal. De lá para cá, a artista fez cinco shows contratada pela secretaria municipal de Cultura e não recebeu nenhum centavo por nenhum deles ainda:

– Acho que há uma tendência na Prefeitura em acumular processos. Eu mesma já tenho vários, ou seja, cada evento que fazemos há um processo que precisa ser aberto junto à Controladoria para recebimento, execução, prestação de contas, etc.   Uma burocracia que é exigida com prazo e tempo limitado, mas que para recebimento (dos pagamentos) essa agilidade toda é facilmente substituída pela morosidade e espera. Vejo a prefeitura anunciando eventos com verbas altíssimas sem nem ter pago eventos anteriores, só acumulando dívidas com a classe artística e oportunizando em nós uma desmotivação geral, além da recusa em participar de iniciativas, editais, convites realizados por eles”, desabafa.

Confira os cachês das atrações nacionais do São João

Dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano receberá R$ 265 mil para tocar no São João de Natal (foto: divulgação)

Simone e Simara – R$ 350 mil
Aviões do Forró – R$ 300 mil
Zezé de Camargo e Luciano – R$ 265 mil
César Menotti e Fabiano – R$ 160 mil
Saia Rodada – R$ 110 mil
Banda Caninana – R$ 46 mil
Genival Lacerda – R$ 15 mil
 

 

 

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11 Jun 11:59

Adurn anuncia vinda de Flávio Dino a Natal  

by Da Redação

O governador do Maranhão Flávio Dino (PCdoB) foi anunciado como o próximo convidado do “Na Trilha da Democracia”, projeto idealizado pela Adurn-Sindicato em parceria com o Sindicato dos Petroleiros do Rio Grande do Norte e Frente Brasil Popular.

A palestra de Dino acontece dia 17 de junho, a partir das 18h, no auditório da reitoria da UFRN. O tema escolhido foi “A Defesa do Estado Democrático de Direito e a Reforma da Previdência”.

Flávio Dino é ex-juiz e um dos principais críticos do método usado pelo atual ministro da Justiça Sérgio Moro.

Ele vem fazendo uma gestão elogiada no Maranhão, após ter derrotado a oligarquia Sarney nas urnas. Bastante popular entre os maranhenses, Flávio Dino se reelegeu no 1º turno.

O nome dele já foi citado como possível sucessor de Jair Bolsonaro em 2022.

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08 Jun 12:11

Moro e a indústria do cigarro: ex-juiz esconde o jogo. Por Moisés Mendes

by Diario do Centro do Mundo
Sergio Moro pede silêncio

PUBLICADO NO BLOG DO MOISÉS MENDES

POR MOISÉS MENDES

Reportagem de Angela Boldrini e Natália Cancian mostra na Folha que o Ministério da Justiça faz força para que sejam mantidos como secretos os encontros com lobistas da indústria fumageira.

Sergio Moro não informa nem à Folha e tampouco ao PSOL, que pediu informações, detalhes dos nomes, dos dias e dos motivos de pelo menos três encontros no Ministério com emissários dos fabricantes de cigarros.

Uma das questões mais estranhas do governo Bolsonaro (para chamar por enquanto de estranha) é o interesse de Sergio Moro em defender as fumageiras.

E tudo fica mais estranho com a negativa do ministro em esclarecer quem e quando foi ao Ministério para tratar da defesa do cigarro nacional contra o contrabando (seria esse o pretexto sempre alegado pelo ex-juiz).

Mas se esse é mesmo o argumento, por que o ministro não se manifesta sobre as reuniões? O que pode haver de secreto em encontros com fabricantes de cigarros? Quanta fumaça encobre esses segredos?

Sergio Moro é, até agora, um ministro muito preocupado com armas, balas e cigarros.

08 Jun 11:44

Verba da UFRN garantida pelo MEC para 2019 equivale a menos de 30% do custo da Cientec

by Júlia Carvalho

Pela primeira vez em 25 anos, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte cancelou a realização da Semana de Ciência, Tecnologia e Cultura, a Cientec. O anúncio foi feito nesta sexta-feira (07) e o cancelamento aconteceu em razão da falta de recursos para custear o evento. A feira estava programa para acontecer entre os dias 23 e 25 de outubro de 2019 e teria como temática os “Objetivos do desenvolvimento sustentável”.

Em entrevista à agência Saiba Mais, Aldo Aloisio Dantas da Silva, empossado pró-reitor de Extensão na última segunda-feira (03) em meio ao cenário de cortes nas instituições públicas, lamentou a decisão. Segundo ele, o orçamento prometido para o funcionamento de toda a UFRN hoje é de apenas R$ 200 mil. O valor, no entanto, é insuficiente para viabilizar a execução da feira, que foi orçada em R$ 630 mil. No ano passado, R$ 580 mil foram investidos.

“O que temos é uma promessa de R$ 200 mil do MEC pra empenhar em tudo que a universidade precisa. A situação não está boa não. Mesmo que a gente garanta esse valor, não é suficiente. Segundo o Governo, eles irão descontingenciar até setembro, mas mesmo que ele repasse a gente não teria tempo, já que depende de licitação, fiscalização e um conjunto de coisas que não tem como fazer em um mês”, explicou.

A Cientec é o maior evento científico do estado e recebe, em média, cerca de 30 mil pessoas. De acordo com o pró-reitor, alternativas para realização da feira foram discutidas durante as reuniões de análise orçamentária, mas, segundo ele, todas as opções também envolveram um orçamento que a universidade não dispõe.

“A edição é responsabilidade nossa, da Proex. Quando fizemos o levantamento e descobrimos que não temos dinheiro, pensamos em todas as alternativas, como fazer algo setorizado. Mas também envolve dinheiro“, lamenta.

Atualmente, a Proex conta com R$ 4 mil disponível para a execução de trabalhos. O restante, segundo Aldo, já foi empenhado em outros projetos. Na Cientec, quase 500 pessoas se envolvem na organização do evento, entre professores, bolsistas e funcionários.

“É uma pena que depois de 25 anos termos de cancelar. Escolas públicas e privadas colocam em seus calendários pra visitar a Cientec, muitos jovens decidem a profissão visitando a feira. É uma coisa que ajuda a juventude a tomar decisões pro futuro, mas esse ano não será possível e isso é o mais lamentável.”

Comunidade acadêmica reage mal ao cancelamento da Cientec

A notícia do cancelamento da Cientec caiu como uma bomba sobre professores, estudantes e pesquisadores da UFRN. Professor e pesquisador do Instituto do Cérebro, Eduardo Sequerra lamenta o cancelamento da feira e destaca a amplitude da Cientec para a sociedade:

– As pessoas pensam muito na Cientec como uma feira de visitação para o lazer, mas o que pouca gente pensa é que a Cientec é o grande veículo de comunicação da universidade e também uma fonte de transformação. A vida das pessoas mudam dentro da Cientec, tem gente ali que está tendo o primeiro contato com arte, ciência, o primeiro contato com a universidade. Pode ser que a gente esteja atraindo as pessoas para dentro da universidade através da Cientec. E é isso que o gestor tem dificuldade de enxergar”, afirmou.

Ainda que a universidade tenha confirmado o cancelamento, Sequerra defende que a comunidade acadêmica se una para criar um evento semelhante:

– A gente não vai ficar parado, não. Deve acontecer alguma coisa parecida com a Cientec com certeza, vamos para a rua, vamos botar o carro na rua, fazer os experimentos com as pessoas, do mesmo jeito que a gente faz todo ano”, disse.

Por meio de um vídeo divulgado nas redes sociais, o presidente da Adurn-Sindicato Wellington Duarte defende que os professores façam uma profunda reflexão sobre as atitudes a serem tomadas a partir de agora em razão dos ataques do governo Bolsonaro sobre as universidades:

– A Cientec é a feira de ciência que desde 1995 é realizada dentro da UFRN. O motivo foram os cortes originários dessa atitude do governo federal em querer sucatear as universidades federais. Perdemos mais uma oportunidade de mostrar à sociedade potiguar os trabalhos de pesquisa e extensão da universidade, prejudicamos centenas de pequenos empreendedores que faziam dessa semana um momento para conseguir seus ganhos dentro do pequeno comércio. Lamento profundamente dar essa notícia dessa forma. Então, a Cientec cancelada, universidade sucateada e acho que os professores devem fazer uma reflexão muito profunda sobre as atitudes a serem tomadas daqui por diante”, disse.

O que é a Cientec

Tradicional no calendário da capital potiguar, a feira é realizada todos os anos com o objetivo de mostrar as principais atividades científicas, tecnológicas e culturais da universidade, reforçando o diálogo da instituição de ensino com a sociedade. Nas edições anteriores, o evento aconteceu no formato de pavilhões, na Praça Cívica do Campus Central.

A Cientec conta com exposições interativas e transdisciplinares, que mostram as produções dos centros acadêmicos, além de oferecer eventos artísticos e exposições.

Confira a nota na íntegra

Nota sobre Cancelamento da CIENTEC 2019

Após a realização de reuniões para análise orçamentária, nas quais foram pensadas diversas tentativas para encontrar alternativas para a execução do evento, a Universidade Federal do Rio Grande doNorte e a Pró-Reitoria de Extensão comunicam o cancelamento da 25ª edição da CIENTEC, que aconteceria no período de 23 a 25 de outubro, devido ao contingenciamento orçamentário sofrido pelas instituições federais de ensino. A UFRN lamenta o cancelamento daquele que é o maior evento acadêmico-científico do estado do RioGrandedoNorte, sabendo da importância que o mesmo possui para a comunidade acadêmica e potiguar.

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07 Jun 17:54

Lá e de volta outra vez

by Pablo Villaça

A escrita é fruto da prática. É como um músculo que, exercitado, se mostra capaz de carregar mais e mais peso; ignore-o, porém, e logo perceberá ter dificuldades para desempenhar tarefas antes consideradas fáceis.

Neste sentido, as redes sociais são como um sofá confortável e tentador no qual nos deitamos para um cochilo e, quando nos damos conta, doze horas se passaram: com sua natureza de gratificação instantânea, seja através de RTs ou de likes, elas seduzem também por sua efemeridade, já que, abrigando palavras que em pouco tempo ficarão no passado da timeline, estimulam certa preguiça na estruturação do texto. Um tweet, com seus 280 caracteres (ou mesmo uma thread), tem vida útil de pouco mais de meia hora, ao passo que um post no Facebook, mesmo durando um pouco mais, logo é enterrado pelo algoritmo do site.

O arquivo de um site ou de um blog, por outro lado, permanece vivo; algo embaraçoso publicado em 2012 pode ser encontrado com facilidade através não só do Google, mas das tags, da indexação por meses ou por uma navegação simples por páginas passadas. Irrelevantes ou não, os textos ficam – e ter consciência disso é um estímulo (ou uma coação) para construí-los com cuidado.

Meu primeiro blog – já chamado “Diário de Bordo” – surgiu em 2005 e, programado por meu irmão Daniel (numa era pré-templates e na qual o WordPress era tudo, menos intuitivo), logo se tornou uma de minhas plataformas favoritas. Se no Cinema em Cena eu tinha o espaço para críticas cinematográficas, no blog eu podia escrever sobre o que bem entendesse, incluindo reflexões sobre a Sétima Arte que não se encaixavam bem em lugar algum do site. Poucos anos depois, em 2008, fiz a transição para o WordPress (perdendo três anos de arquivos) e, entre junho daquele ano e julho de 2016, publiquei 1.751 posts, embora ao final estes surgissem cada vez mais espaçados.

Se antes, ao ter minha atenção capturada por algo, eu buscava desenvolver a ideia de modo cuidadoso e mais aprofundado, com o Twitter passei a disparar meia dúzia de tweets e considerar o serviço feito. Além disso, quando sentia ter mais a dizer, compunha de forma rápida um post no Facebook e clicava em “publicar”, sem encarar aquilo como algo que se tornaria parte de fato do meu histórico profissional, já que, na prática, estava produzindo conteúdo para um espaço que não era meu.

Pois agora resolvi caminhar na contramão: se vou escrever algo, que seja para um veículo que de fato me pertence; depender da boa vontade dos algoritmos da corporação de Zuckerberg é estupidez, é levar uma rasteira todos os dias e voltar a dançar perto de quem a aplica.

Assim, retomo este espaço com a esperança de que, além de tudo, me traga o estímulo necessário para escrever, escrever e escrever.

Se serei lido ou não, se aqueles habituados ao Facebook e ao Twitter se sentirão estimulados a passar por aqui com regularidade, bom… veremos. O que sei é que, destes 25 anos de estrada, quase 22 foram dedicados à construção do meu pequeno canto na Internet com o Cinema em Cena e este Diário de Bordo. E sinto que é hora de voltar a cultivá-los.

Ficarei feliz se tiver sua companhia.

06 Jun 19:11

Nota do PT: A espionagem dos advogados do ex-presidente Lula por Sérgio Moro é criminosa

by Conceição Lemes

Grampos ilegais revelados pela Folha

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06 Jun 11:46

Nacionalismo de Bolsonaro é uma farsa, diz Requião

by Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

“Para a elite brasileira, Bolsonaro é um capitãozinho brega. Eles estão usando o Bolsonaro para acabar com o direito do trabalhador e com a condição de país soberano. Se Bolsonaro não consegue entregar a encomenda feita na campanha, eles derrubam o Bolsonaro. Uma boa parte dos empresários já desembarcou do Bolsonaro”.
Essa é a avaliação do ex-senador Roberto Requião em entrevista ao TUTAMÉIA (acompanhe no vídeo acima). Para ele, o discurso nacionalista de Bolsonaro “é uma farsa”. Ao contrário, o presidente é um entreguista que segue os interesses dos EUA.
“Que nacionalismo é esse? Que nacionalismo massacra o trabalhador brasileiro? Que nacionalismo vende o petróleo indispensável para o desenvolvimento? Que nacionalismo quer vender as reservas de água, como o Aquífero Guarani? Que nacionalismo precariza o trabalho, que se transforma num trabalho semi-escravizado? Que nacionalismo quer acabar com a previdência social? Patriotismo e nacionalismo é não deixar vender a Petrobras, não entregar a água, é o Brasil sustentar a posição de pais desenvolvido, soberano e de um povo garantido com direitos sociais. O nacionalismo deles, não é nacionalismo, é uma farsa”, afirma.
Governador do Paraná por três vezes, Requião declara:
“A soberania nacional está sendo liquidada. Querem liquidar com todas as estruturas públicas no Brasil e interromper o nosso processo civilizatório”.


Na análise de Requião, 78, o que existe atualmente é “uma selvageria na política econômica, estupidez e insanidade” e o país entrará em recessão. Ele acrescenta:
“Isso não vai tirar o Brasil da crise. A reforma da previdência só vai piorar a situação do Brasil, só vai piorar a recessão. Esse governo não tem saída. A saída desse governo é a saída deles do poder. Não vejo outra maneira de o pais retomar o vezo do crescimento. Esse governo não subsiste por muito tempo. Bolsonaro já caiu. Não governa mais. Está na mão dos picaretas do Congresso e dos picaretas de seu próprio governo”.
Na entrevista, Requião trata das eleições, da avalanche de fake news, das irregularidades do processo contra Lula e afirma que o país está sendo alvo de uma guerra híbrida. Fala que, apesar de todas as dificuldades, há resistência. Ressaltou a mobilização dos estudantes e defendeu a formulação de um projeto nacional:
“É preciso um projeto que mobilize a sociedade, para a gente se livrar dessa loucura que quer impedir a continuidade do processo civilizatório da nossa pátria, da nossa nação. Não é com uma bandeira paga por um grupo empresarial malandro e sonegador que você mostra que é nacionalista. O nacionalismo se suporta no amor, na fraternidade e na solidariedade.”

06 Jun 11:46

Lula: Brasil não pode ficar de 4 para os EUA

by Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

“Esse país não pode ser governado batendo continência para o governo americano. Esse país não pode ser governado de quatro para os americanos. Esse governo está destruindo o país, envergonhando o país. A sociedade precisa readquirir o direito de se indignar”.

É o que afirma Luiz Inácio Lula da Silva em entrevista ao TUTAMÉIA, feita em conjunto com o DCM, na superintendência da Polícia Federal em Curitiba na manhã desta quarta, 5 de junho. Durante duas horas, o ex-presidente Lula avaliou a cena política e econômica do Brasil e do mundo.

“Temos motivos de sobra e bandeira para ir para a rua juntos, e coloco a questão da soberania como coisa muito forte. Defendendo a soberania, você está defendendo o seu país, o seu território, o seu povo e as suas riquezas. Mostrando para sociedade o que vai acontecer com o país se ele não for soberano.  Nós temos que discutir é como evitar que esse país volte a se transformar numa republiqueta de bananas! É isso que nós temos que falar em alto e bom som. Nós precisamos convencer a sociedade do significado da palavra soberania.”

Também falou da emoção que está sentindo por causa de seu relacionamento: “Eu, se tiver chance, vou casar. Porque sempre é tempo de a gente ser feliz”.

Mostrou que está bem informado, acompanhando minuciosamente a política brasileira e as ações do governo Bolsonaro. Comentou, por exemplo o projeto de flexibilização das regras de trânsito: “É o projeto de lei da morte”, definiu.

Lula criticou o chamado pacto entre o Bolsonaro, Rodrigo Maia e Dias Toffoli –que gira em torno da reforma da Previdência. “Não é crível”, disse. Perguntou o que acontecerá quando alguém entrar no STF para contestar a mudança –o presidente do Supremo se declarará impedido? “As pessoas precisam se preservar para entrar em cena quando for necessário. É muito mais um espetáculo pirotécnico do que uma coisa séria. Faltou seriedade naquilo”.

MORO É SERVIÇAL DOS EUA

Voltou a defender sua inocência com veemência, apontando mentiras que povoam o processo contra eles e denunciando a ação de Moro, que define como “um serviçal dos interesses dos Estados Unidos”.

Sobre a ação dos EUA, afirmou: “Os Estados Unidos não gostaram quando nós fizemos o acordo com a França para a construção de submarino de propulsão nuclear. Não gostou quando eu demonstrei que tinha interesse em fazer a compra do caça dos franceses. E não deve ter gostado quando a Dilma comprou o dos suecos porque eles queriam vender o deles”.

Resumiu: “Aos Estado Unidos não interessa o Brasil forte, não interessa o Brasil protagonista, não interessa o Brasil liderando a América do Sul, não interessa o Brasil tendo influência na África, não interessa que a relação do Brasil com a China, muito respeitosa, com a Rússia, muito respeitosa, com a Índia. Não interessa.”

E ainda: “A história vai mostrar o significado da Lava Jato, o significado da retomada dos EUA de colocar a Quarta Frota no oceano Atlântico depois da Segunda Guerra Mundial. É porque nós descobrimos a mais portentosa reserva de petróleo do século 21 no limite da fronteira marítima brasileira, exatamente a 300 quilômetros da margem, que é equivalente a duzentas milhas marítimas”.

Por isso mesmo, reafirma que não faz acordos que possam impedir a continuidade de sua busca para demonstrar sua inocência. Sobre uso de tornozeleira como condição para mudança de seu regime prisional, afirmou: “Tornozeleira é para ladrão e para pombo correio. Eu não sou nem ladrão nem pombo correio. Vamos deixar claro isso. Não venha colocar tornozeleira num homem honesto, que eu não aceito”.

NADA DE DESESPERO

Ao analisar as manifestações de estudantes e a preparação para a greve geral de 14 de junho, afirmou: “A sociedade brasileira tem razões de sobra para brigar com o governo Bolsonaro ou com qualquer outro governo que estivesse fazendo o que ele está fazendo”.

“Fico imaginando o estrago que essa gente está fazendo para o país e para o futuro do país, com a tentativa de vender tudo. A ponto de o ministro da Fazenda, brincando ou não, ir aos EUA dizer que gostaria de vender até o Palácio da Alvorada, o Planalto, que o Banco do Brasil fosse administrado por um banco americano. Não é nem mais complexo de vira-lata, é viralatice pura, pedigree de vira-lata”.

A questão da soberania, na análise de Lula, é central nesse momento e deve unificar a oposição:

“A coisa mais interessante nesse momento –tem a briga pelo salário, pelo emprego, pela manutenção de uma previdência justa para as pessoas– é a questão da soberania nacional. Vamos compreender soberania nacional não só como os limites das nossas fronteiras. A parte principal dentro de um país soberano é o seu povo, a sua qualidade de vida, de comida, de educação, pesquisa, biodiversidade, riquezas minerais, empresas púbicas. Temos que pensar que país queremos para amanhã e depois de amanhã. E o Bolsonaro não em o direito de destruir o que essa nação construiu com tanto jeito”.

Lula lembra da metáfora do desempregado que vai vendendo tudo o que tem em casa para sobreviver. “E vende até a alma ao diabo. É o que estamos fazendo ao país. A vergonha que estamos passando lá fora, batendo continência para a bandeira de outro país”, declara.

Para Lula, a reforma da Previdência pretendida pelo governo Bolsonaro “é vendida como coisa milagrosa”, mas “visa resolver o problema para os bancos”. Os trabalhadores, diz, estão sendo vítimas de “uma campanha de pensamento único extraordinária”.

Já as mudanças na legislação trabalhista tratam de “transformar o povo quase como no tempo da escravidão” –agora não só escravidão para os negros, para todos.

Analisando os últimos movimentos da cena política, Lula adverte:

“Não brinquem com a democracia. Eu acho (que ela está ameaçada). Não brinquem”. E definiu: “A democracia não é um pacto de silêncio, eu estou no governo e todo mundo tem de ficar quietinho. Não. A democracia é uma sociedade em movimento em buscas de conquistas de coisas mais importantes para sua vida”.

Ele afirma ter “vontade de estar em liberdade para brigar pelo povo brasileiro”.

E completa: “Nada de desespero.  Nada de achar que não vale lutar. A única coisa que resolve é a luta. É a luta, é a luta. E o povo brasileiro tem direito de lutar para conquistar melhores dias”.

Equipe de Tutaméia na entrevista com Lula: João Wainer, Eleonora de Lucena, Daniel Kfouri e Rodolfo Lucena

 

A SEGUIR, A TRANSCRIÇÃO DA ÍNTEGRA DA ENTREVISTA DE TUTAMÉIA E DO DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO COM O EX-PRESIDENTE LULA, REALIZADA EM 5 DE JUNHO DE 2019 NA SEDE DA POLÍCIA FEDERAL EM CURITIBA, ONDE ELE SE ENCONTRA PRESO DESDE 7 DE ABRIL DE 2018

 

TUTAMÉIA – PRESIDENTE, MUITO OBRIGADA POR ESTA ENTREVISTA. PRESIDENTE, NAS ÚLTIMAS SEMANAS, O BRASIL VIVEU MANIFESTAÇÕES CONTRA E A FAVOR DO BOLSONARO. UMA GREVE GERAL ESTÁ MARCADA AGORA PARA O DIA 14 DE JUNHO. COMO O SENHOR AVALIA ESTE MOMENTO, UM MOMENTO DE POLARIZAÇÃO? O SENHOR ACHA QUE A RESISTÊNCIA A BOLSONARO VAI CRESCER? O SENHOR DIRIA QUE HOJE BOLSONARO ESTÁ MAIS FORTE OU MAIS FRACO?

LULA – Eu acredito que o Bolsonaro hoje esteja mais fraco aos olhos da sociedade brasileira. Primeiro, porque ele foi um candidato que ganhou as eleições muito mais por conta de um trabalho antipolítico feito durante os últimos anos pelos meios de comunicação. Ele conseguiu passar para a sociedade, depois de 28 anos de mandato de deputado, que não era político. Ou seja, ele utiliza a política na pior espécie dos coronéis que nós aprendemos a criticar no Nordeste brasileiro. Ou seja, não só ele é político, como o filho é político, o outro filho é político, o outro é político, a mulher era política. A ponto de ele fazer um filho brigar com a mãe, disputar. Essa ideia de não ser político teve muito a ver com a eleição do Bolsonaro. Ou seja, o cara que era antissistema. O cara que não gostava de política. Ninguém prestava. O Congresso não prestava, nada prestava. Isso conseguiu fazer com que ele chegasse à Presidência da República.

Entre você falar na campanha, ele ainda levou a vantagem, pasmem, levou a vantagem de uma facada. Porque a facada o tirou dos debates, foi uma coisa fantástica para ele porque ele certamente teria muita dificuldade de participar do debate com os outros candidatos. Ele se livrou do debate. Ele preferia dar entrevista sozinho, chegou à Presidência, numa sociedade que estava enraivecida.

Porque não foi durante as eleições. Se a gente pegar desde 2013, da passeata de junho, pegar a campanha de 2014, o ódio que aconteceu na campanha em que a Dilma derrotou o Aécio, que resultou depois na campanha do impeachment da Dilma, a gente vai perceber que o povo brasileiro estava ensandecido. Eu nunca tinha visto. Eu tenho 73 anos, faço política sindical desde 1968, eu nunca vi a sociedade tomada pelo ódio que estava tomada durante esses últimos anos. A ponto de as pessoas não conversarem. A ponto de filho deixar de visitar pai. A ponto de jantares que aconteciam em família pararem de existir, porque as pessoas quase que entram em luta corporal.

Pois bem. Então ele ganha as eleições com esse discurso e o tempo vai passando e as coisas não acontecem. Na verdade, ele debita nas costas do Ministro da Fazenda toda a possibilidade de governança dele. E é uma governança muito simples, ou seja, é uma promessa de que a reforma da Previdência vai resolver os problemas do Brasil, os problemas da China, os problemas de comércio exterior, o problema de emprego, o problema de salário.

A reforma da Previdência é vendida como se fosse uma coisa milagrosa. Quando, na verdade, eu espero que essa gente toda esteja viva se for aprovada a Previdência, para ver o que vai acontecer quando você tira um regime solidário, em que todos contribuem para as pessoas na velhice se aposentar, para um regime que cada um cuida de si. Cada um para si e Deus para todos.

É um regime desastroso, tanto é que ele não existe em lugar nenhum do mundo, a não ser a experiência do Chile, que foi fracassada. Na verdade, a ideia da reforma tal como ela está proposta, visa muito mais resolver o problema para os bancos do que o problema para os trabalhadores. Os trabalhadores estão sendo vitimados por uma campanha de pensamento único extraordinária.

Se não fossem vocês da blogosfera, sinceramente. Todos os canais de televisão, todos os jornais, todos os programas populares são uma voz única defendendo a reforma da Previdência. Tem gente que fala em 10 milhões de empregos, falam em 8 milhões de empregos. Uma coisa absurda! Que não é compatível com a realidade que estamos vivendo. E nem com a reforma vai acontecer.

Na verdade, o que eles estão fazendo é destruir um sistema que tem problema, e sempre vai ter problema e sempre você vai ter que discutir reforma na Previdência, uma geração cuidar da outra geração. Agora, você não pode destruir uma coisa que resolve problema desse país como a Previdência Social.

Se essa gente conhecesse as cidades pequenas desse país –não é só no Nordeste, não, [é no] interior de São Paulo, interior do Paraná — você vai perceber que, em muitas cidades, a cidade se movimenta, as casas de prostituição se movimentam no dia que as pessoas recebem a sua aposentadoria, o seu salário mínimo.

Quando nós aprovamos, na Constituição de 1988, a política de Seguridade Social, era que a gente queria fazer um sistema global para garantir a todo e qualquer cidadão brasileiro, independentemente se ele tinha ou não contribuído, o direito de ter o mínimo de tranquilidade na velhice. Isso agora é vendido, diuturnamente, como se fosse um mal.

E a outra coisa é o processo de privatização. Eu fico imaginando o estrago que essa gente está fazendo no Brasil, e para o futuro do país, com a tentativa de vender tudo. A ponto do Ministro da Fazenda, brincando ou não, ter a pachorra de ir aos Estados Unidos e dizer que gostaria de vender até o Palácio da Alvorada, o Palácio do Planalto. Que gostaria que o Banco do Brasil fosse administrado por um banco americano.

Quer dizer: não é mais nem o complexo de vira lata, é “viralatice” pura. Pedigree de vira lata, esse comportamento. Então, eu acho que ele não está bem. Também não acho que um governo acaba com seis meses. Ele ganhou as eleições. Ele agora tem a obrigação de governar esse país e fazer com que o povo brasileiro possa ver a economia voltar a crescer, ter emprego, ter salário, ter renda. Ter vontade de ser brasileiro. É isso que está acontecendo, Eleonora.

TUTAMÉIA – E A OUTRA PARTE DA MINHA PERGUNTA: E A RESISTÊNCIA A ISSO? O SENHOR ACHA QUE VAI CRESCER? E A GREVE DE 14 DE JUNHO?

LULA – Veja, eu penso que a sociedade brasileira tem razões de sobra para brigar com o governo Bolsonaro. Ou qualquer outro governo que tivesse fazendo o que ele está fazendo. Vamos pegar a questão da educação. Não existe nenhum exemplo na história da humanidade de um país que conseguiu se desenvolver sem você investir em educação. Se você não investir em educação, você não investe no futuro do país. Investir em educação significar você ter mais sala de aula, ter mais aluno, ter mais professor, ter mais técnico. Significa ter mais investimento, e não gasto, como essa gente trata a questão da educação.

Eu acho que questões como a questão da educação, questão dos direitos trabalhistas, questão como essa da destruição da Previdência Social. Eu ainda ontem assisti de que ele leva um projeto de lei ao Congresso Nacional que pode ser chamado de “projeto de lei da morte”. Ele vai beneficiar os infratores, porque vai levar para 40 pontos as pessoas perderem sua carta.

Mas uma coisa que eu acho absurda é tirar a obrigatoriedade daquele banquinho que garanta a criança. E ainda admite que a criança ainda vá no banco da frente. Ou seja é uma coisa… Eu não vou dizer que é de insanidade, porque eu não quero criticar os loucos desse país. Mas é uma coisa insana você achar que permitindo que os caras corram mais, permitindo diminuir a multa.

Eu lembro quando foi instituído o cinto de segurança no Brasil, eu lembro uma coisa engraçada, ninguém utilizava cinto de segurança, porque era incômodo você colocar. E naquele tempo era meio apertadinho, você fazia um esforço muito grande para colocar o cinto. Quando é que as pessoas começaram a utilizar cinto? Quando a multa aumentou. Na hora que a multa é pesada, o que é que acontece? A parte mais sensível do corpo humano é o bolso. Então, o cara começa a utilizar.

Na medida que o cidadão é irresponsável no trânsito, você não pode facilitar a vida dele. Porque se fosse só ele que morresse, se fosse só o irresponsável, mas ele mata inocente. Um irresponsável pode matar uma família inteira que saiu para passear num domingo. Então, você não tem que flexibilizar. Você tem que endurecer. Para que as pessoas saibam que pegar um carro e sair na rua, você tem responsabilidade com você, com a sua família, mas com a dos outros também.

Essas coisas e outras é que me levam a crer que o Bolsonaro não deve ser tratado como um burro, como eu vejo muita gente tratar. “É um burro. Não sabe nada”. Um burro não se elege Presidente da República. Ele foi muito espero, ele não faz nada de graça. Aquilo que ele faz, que a gente acha que é um bobo, tudo aquilo é premeditado. Ele tem uma política de marketing própria, para um público próprio, que é um público que nem ele.

Quando você vê um cidadão, aqui na universidade do Paraná, arrancar uma faixa defendendo a educação, e bravar, e gritar e ofender os estudantes, como ele fez… Significa que tem gente nesse país que segue o comportamento do Bolsonaro. Tem gente que não gosta, que não gosta de negro, que não gosta de índio, que não gosta de mulher, que não gosta de homossexual, que não gosta de liberdade, que não gosta de democracia, tem gente que não gosta. Essa gente chegou ao poder.

Então, tem uma motivação enorme para a sociedade brasileira estar alerta. Eu digo sempre, Eleonora, que a coisa mais interessante nesse momento –[tem] a briga pelo salário, a briga pelo emprego, a briga pela manutenção de uma Previdência justa para as pessoas– é a questão da soberania nacional. Vamos compreender soberania nacional não só os limites das nossas fronteiras, mas vamos compreender que a parte principal dentro de um país soberano é o seu povo. É a sua qualidade de vida, sua qualidade de comida, sua qualidade educacional, sua qualidade de investimento em pesquisa, a qualidade da educação fundamental para as crianças, nossa biodiversidade, nossas riquezas minerais, nossas empresas públicas.

Nós temos que pensar que país nós queremos para amanhã, para depois de amanhã. O Bolsonaro não tem o direito de destruir o que essa nação construiu com tanto jeito.

Eu fico sempre dando o exemplo. O cidadão casa, e fica desempregado, ao invés de ir procurar emprego, em vez de fazer bico, em vez de limpar a rua, ele fica falando para a mulher: “Vamos vender a geladeira?” “Vamos vender a cama?” “Vamos vender a televisão?” “Vamos vender o micro-ondas?” Por último eles vão vender a alma ao diabo. É o que eles estão fazendo com o país.

A vergonha que nós estamos passando lá fora quando um presidente da República vai bater continência para a bandeira de um outro país. Um vexame que estão dando ao Brasil, que era um país respeitado. O que eu penso, na verdade, não é apenas o Bolsonaro. Tem uma elite brasileira, da qual a imprensa faz parte, que faço questão de dizer: a história vai mostrar que a Globo tem responsabilidade com o ódio disseminado nesse país.

Eu às vezes fico muito nervoso quando eu vejo as pessoas discutirem na televisão, um fala mal do outro e finge que não tem imprensa. A imprensa tem muita responsabilidade com o que aconteceu nesse país. O ódio disseminado, as mentiras contadas, as coisas inventadas.

Eu mesmo me pergunto todo dia: por que eu estou aqui? Eu me pergunto. Uma mentira contada pela imprensa, uma mentira contada pelo delegado que fez o inquérito, uma mentira contada pelo promotor e uma mentira contada pelo juiz, que foi referendada pelo TRF-4. Eu tinha expectativa que no STJ fossem ler o processo. Fosse pegar o processo e ver para saber onde é que está

Eu estou desafiando as pessoas. Eu não estou querendo favor aqui dentro. Eu só quero o seguinte: provem! Provem um centavo na minha vida! Provem uma coisa ilícita na minha vida. E aí eu fico tranquilo. Por que eu vou ficar brigando, xingando os outros? Eu sou obrigado a dizer: o Moro é mentiroso na minha sentença. O Dallagnol é mentiroso na minha acusação. O delegado que fez o inquérito é mentiroso. Eu quero brigar. Eu digo todo dia: eu não estou pedindo favor para a justiça. Eu estou querendo justiça. Eu não aceito um minuto de condenação.

Eu já tenho 73 anos, para mim a morte está mais próxima do que a vida. Nosso futuro, com 73 anos, um dia vocês vão chegar lá, Eleonora e Joaquim, vocês vão ver que o futuro fica muito pequeno. Eu só quero que provem, gente! Provem que eu tenho as coisas que falaram que eu tenho. Eu fico desmoralizado. Provem!

Estou convencido, Eleonora. Estou convencido aqui que o que aconteceu no Brasil não surgiu dentro do Brasil, A Lava-Jato não é uma coisa só pensada daqui. Acho que tem o Departamento de Justiça americano. Hoje nós temos documento, nós temos vídeos. A intromissão de promotores americanos nas decisões brasileiras. As multas para defender os acionistas americanos. E os acionistas brasileiros?

Quando um juiz faz um pacto com a imprensa para poder combater a corrupção, não precisa de juiz. As manchetes de jornais condenam qualquer pessoa. Você passa a contar uma mentira atrás da outra, uma mentira trás da outra. E é sempre assim: a desgraça da primeira mentira é que você passa a vida inteira mentindo. Eu disse no depoimento que eu fiz para o Moro, o primeiro depoimento: “Você está condenado a me condenar, porque a mentira já foi longe demais”.

Como é que pode o Dallagnol ficar uma hora na televisão inventando uma história de um power point, que parece aqueles que foram feitos no Fantástico, parece que foi feita pela mesma equipe. Quando termina o balaio de infâmia contra mim ele fala: “Não me peçam provas. Eu tenho convicção”.

Aí o Moro vai dar a sentença: não tem Petrobras, não tem apartamento, mas eu estou aqui. Quando descobriram, e foi o DCM que descobriu, que a offshore do Panamá que era a responsável por toda a maracutaia do apartamento no Guarujá, na verdade, era responsável pelo apartamento da Globo em Paraty e era responsável pelo helicóptero da Globo, o que aconteceu numa semana? A mulher que foi presa, foi solta. A mulher foi embora. E não se falou mais na offshore. Mas o Lula ficou aqui.

Eu estou aqui, não sei quanto tempo vou ficar. Não quero favor. Eu tenho fé em Deus que eu não morrerei sem desmascarar o Moro, o Dallagnol e os meus acusadores. Tenho fé em Deus. Não importa quanto tempo eu fique aqui dentro. Esse é o meu objetivo. É desmascarar. Porque se eles não têm honra eu quero lembrar eles que o nordestino, filho da dona Lindu, tem muita honra. Não sairei daqui sem provar a minha inocência.

DCM – PRESIDENTE, O SUCESSO DO BOLSONARO, O ÊXITO DO BOLSONARO, A CONTINUIDADE DELE, É MUITO ASSOCIADO AO SENHOR. ELE CRESCEU COMO O ANTI-LULA, O ANTI-PT. A MEDIDA EM QUE O GOVERNO DELE VAI FRACASSANDO, AS PESSOAS COMEÇAM A PRESTAR A ATENÇÃO E FALAM: OLHA, O QUE FIZERAM COM O LULA. HOJE AS PESSOAS COMEÇAM A CRIAR UM CONSENSO DE QUE O SENHOR, A SOCIEDADE QUE ACHAVA, QUE CONDENAVA O SENHOR, ACHANDO QUE TALVEZ SEJA MELHOR O SENHOR SAIR. HOUVE ONTEM UMA MANIFESTAÇÃO DA PROCURADORIA, FOI DIVULGADA, A MANIFESTAÇÃO ANTERIOR DA PROCURADORIA GERAL DA REPÚBLICA, FALANDO QUE O SENHOR TEM DIREITO À REDUÇÃO DE REGIME. O SENHOR TEM DIREITO A IR PARA UM SEMIABERTO. O SENHOR DEVERIA, INCLUSIVE, IR PARA UM ABERTO, EM CASA. A PERGUNTA QUE EU FAÇO, O SENHOR ACEITARIA HOJE ESTA REDUÇÃO DE REGIME, AINDA QUE O SENHOR TIVESSE QUE USAR TORNOZELEIRA ELETRÔNICA?

 LULA – Eu respondi a essa pergunta uma vez, eu não quero que ela seja mal interpretada. Eu não estou pedindo prisão domiciliar. Se a prisão domiciliar não implicar que eu abra mão de todos os recursos que eu quero fazer para provar a minha inocência. Veja, eles têm que saber, se eu sair daqui, se eu sair daqui, eu vou continuar falando. Eu vou continuar gritando. Eu vou continuar esperneando. Eu vou continuar denunciando. Eles não mexeram com o culpado.

É muito fácil quando você prende um bandido, como prenderam alguns, e logo o bandido começa a denunciar a mãe, o avô, o pai. Escolhe um monte de cara que já morreu e continua a denunciar. Porque ele está muito menos interessado na verdade e muito mais interessado nos privilégios que vai ter, que roubou, sai daqui mais rico do que entrou. Pelo menos legalizada a roubalheira. Como tem muitos já vivendo por aí. Ninguém vai ver como é que está vivendo o Sérgio Machado, como é que vai viver o Palocci, como vai viver o Paulo Roberto. O meu delator deu dois depoimentos. Em um ele fala uma coisa, em outro ele fala outra, depois ele fala: ”O advogado é que mandou eu falar isso”.

Eu acho que o Bolsonaro tem que ter em conta o seguinte: ele se sustenta no antipetismo. Ele se sustenta no anticomunismo. Ele se sustenta no antisocialismo. Ele se sustenta no anti coisas que não existem. Aliás, se o Bolsonaro quisesse ter sonhos de dar certo esse país, ele deveria começar a ler tudo o que eu fiz nesse país.

Em vez de ele ficar dizendo: “Eu não gosto de ser presidente, eu não nasci para isso, eu nasci para ser militar”. Mentira! Se ele tivesse nascido para ser militar ele não tinha sido expulso das Forças Armadas. Ele poderia estudar tudo o que aconteceu nos meus 8 anos de governo. Ele poderia estudar como é que a gente consegue, incluindo os pobres, fazer a economia se desenvolver, fazer a economia gerar emprego, fazer a economia distribuir renda. Ele iria perceber os defeitos extraordinários que tem o aumento do salário mínimo, e não causa inflação. Saber o quanto é benéfico ao país o poder de consumo da sociedade brasileira. Fazer funcionar o comércio, que fará funcionar a indústria, que fará funcionar o emprego, que fará controlar o salário.

Um país não cresce porque o ministro da Fazenda quer que ele cresça ou porque o presidente tem os olhos verdes ou não. Não é assim que funciona a economia. Tem um ditado que diz: “O capital é covarde”. O capital só se movimenta se ele tiver certeza que vai ter retorno para ele. Como você faz uma economia crescer? Fazendo o dinheiro circular. Fazendo a empresa crescer, produzir. Fazendo o comércio crescer vendendo e fazendo comércio exterior.

Comércio exterior é sempre muito difícil porque você precisa convencer as pessoas a comprarem o teu produto e todo mundo quer vender mais do que comprar. E você tem uma disputa insana. É só ver o que está acontecendo agora entre os Estados Unidos e China.

Então, você tem que se valer do mercado interno num primeiro momento. Esse mercado são duzentos e dez milhões de brasileiros e pessoas muito ávidas a comprar qualquer coisa. E não é muito. Eu digo sempre um ditado: “Pouco dinheiro nas mãos de muitos é distribuição de renda. Muito dinheiro nas mãos de poucos é concentração de riqueza.” É o que acontece no Brasil.

TUTAMÉIA – PRESIDENTE, O SENHOR DIRIA QUE O GOVERNO BOLSONARO ESTÁ A SERVIÇO DE QUEM? É UMA PERGUNTA QUE O RODOLFO, EM NOSSAS CONVERSAS NOS PERGUNTAMOS. A SERVIÇO DE QUEM? DO SISTEMA FINANCEIRO INTERNACIONAL? DAS GRANDES CORPORAÇÕES? DOS ESTADOS UNIDOS? A QUEM SERVE O BOLSONARO?

LULA – Eu não sei a quem serve. Eu não tenho uma bola de cristal. Eu queria só dizer que era preciso investigar corretamente a guerra de fake news que houve nas eleições. Eu fico muito constrangido de perceber que a justiça eleitoral deixou para 2023 para fazer a investigação, uma apuração e mostrar. Ora, quando das denúncias com o Toffoli, imediatamente eles tomaram uma decisão, escolheram, montaram uma comissão, vamos atrás.

Porque não mostram ao país o que foi a guerra do fake news, as mentiras durante o processo eleitoral? Eu acho que não precisava ficar brigando como o Aécio fez com a Dilma, tentar negar o resultado eleitoral. A sociedade brasileira tem que ser esclarecida. Porque virou moda. Não é só no Brasil. É o Trump. É o presidente de El Salvador. Foi a eleição do Parlamento Europeu. Em vários países agora é a guerra do fake news.

DCM – O SENHOR ACHA QUE É UM MOVIMENTO QUE VEM DE FORA?

LULA – Eu acho que tem. Aqui no Brasil está provada a intromissão dos americanos, a relação do filho dele com a bandidagem americana, está provado. Os americanos viajando a Europa, viajando o mundo, tentando fazer influência política. Isso tem que ser investigado. Esse país é muito grande. Esse país tem que ser respeitado. Esse país não pode ser governado batendo continência para o governo americano. Esse país não pode ser governado de quatro para os americanos.

DCM – A PROPÓSITO DISSO, JURISTAS INTERPRETAM, ALGUNS, O BOLSONARO JÁ DEU MOTIVO PARA O IMPEACHMENT, QUE ELE TERIA COMETIDO O CRIME DE RESPONSABILIDADE. POR EXEMPLO, VOCÊ ASSINAR COM UMA POTÊNCIA ESTRANGEIRA UM PACTO COM O TERRITÓRIO NACIONAL. VOCÊ COLOCAR O PAÍS EM SITUAÇÃO DE GUERRA. UM VIZINHO QUE NÃO FEZ NADA CONTRA O BRASIL. TEM TAMBÉM A DIVULGAÇÃO DE VÍDEO OBSCENO. SERIA UM MOTIVO. O SENHOR É A FAVOR DO IMPEACHMENT DO BOLSONARO?

LULA – Depende. Quando a pessoa comete um erro gravíssimo que merece impeachment, tem que ter impeachment. Agora, o impeachment não é uma válvula de escape que utiliza toda a hora. O presidente está baixo na pesquisa, impeachment, o presidente, um erro, não. É preciso que tenha um erro grave para você fazer o impeachment, senão ninguém governa o país.

DCM – NO CASO DO BOLSONARO?

LULA – Depende. Qual é o tipo de crime que ele cometeu? Você tem que provar. Se o presidente cometeu um crime, e o Congresso Nacional consegue provar que houve um crime, faz investigação e o condena, pode ter impeachment. O que não pode é o impeachment ser utilizado toda a hora que o governo comete um erro. Porque aí você não governa. Ninguém governa o país. O que nós precisamos ter consciência é que o Brasil precisa ter mais responsabilidade através das suas autoridades. Seriedade é uma coisa que a gente aprende muito novo. Esse país hoje tem uma coisa chamada falta de credibilidade. A economia é assim: se não tiver credibilidade e previsibilidade, não vai para lugar nenhum. Até agora não tem essas duas coisas. Até agora a única coisa que se fala é na reforma da Previdência, como se fosse uma obra do divino.

TUTAMÉIA – O PAÍS AGUENTA? TEM MUITA GENTE ACHA QUE O PAÍS NÃO AGUENTA MAIS TRÊS ANOS E MEIO DE BOLSONARO. QUE VAI SER TUDO VENDIDO. A BASE DE ALCÂNTARA. A PETROBRAS COMO O SENHOR FALOU. O PAÍS ESTÁ PASSANDO POR UM PROCESSO DE DESTRUIÇÃO, TALVEZ INÉDITO.

LULA – A sociedade, Eleonora, a sociedade precisa cuidar disso. A sociedade precisa readquirir o direito de se indignar. Eu acho que os movimentos que aconteceram nesse país, no dia 15, no dia 30, o movimento oficial, tudo isso é a sociedade em movimentação. Significa que a democracia, bem ou mal, vai sendo exercitada.

Mas são as pessoas que estão perdendo que têm que brigar mais. O movimento sindical decretou uma greve para o dia 14, ele tem que trabalhar para essa greve acontecer. E o que vai fazer depois da greve.

Nós no Brasil tivemos um problema sério. A sociedade foi tão contaminada pelo ódio, que nós não conseguimos evitar o impeachment. Ou seja, uma mentira contada contra a presidenta Dilma Rousseff, a história da pedalada, nós não conseguimos. Eles transformaram em verdade na mídia, na Câmara e no Senado. E a Dilma caiu. E nós não conseguimos evitar que ela caísse. Nem dentro do Congresso, nem na sociedade.

É importante que a sociedade tenha uma coisa. Eu lembro da campanha das Diretas. A campanha das Diretas foi possivelmente o maior movimento cívico na história desse país em que juntava todos os partidos. Todos os partidos. Pois bem. No dia da votação no Congresso Nacional nós perdemos. E nós perdemos porque enquanto a gente estava na rua gritando “Diretas já”, Fernando Henrique Cardoso, Tancredo Neves, o saudoso finado Fernando Lyra, e outros, estavam negociando de “Diretas já” para “Mudança já”.

Ou seja, construíram a tese de que se tivesse direta o dr. Ulysses seria candidato, ele era muito esquerdista, era preciso então que houvesse um pacto para que se elegesse uma pessoa que combinasse com os militares a sua chegada ao poder.

E começaram. A gente na rua gritando “Diretas já” e eles articulando o “Mudança já”. O que aconteceu? “Mudança já”. Eu não esqueço nunca que eu fui na casa do dr. Ulysses Guimarães, eu e o Luiz Eduardo Greenhalgh, convidar o Dr. Ulysses Guimarães para um comício depois que o PMDB tomou a decisão que não ia mais fazer a campanha das Diretas. Nós íamos fazer um comício em Belo Horizonte, que ia ser a primeira ver que Antonio Candido e Paulo Freire iriam subir num palanque. Fomos eu e o Greenhalgh conversar com o Ulysses Guimarães, chegamos lá, a dona Mora nos atendeu com muito carinho, o Ulysses Guimarães estava dormindo, estava deitadinho com a mão na barriga, chegamos lá, acordamos ele, fomos conversar, ele falou: “Olha Lula, eu sei quando eu estou derrotado. Fizeram uma sacanagem comigo. Ou seja, eu estou gritando Diretas já e eles me vendendo por detrás”. Fizeram o acordão para ser via colégio eleitoral, sem o dr. Ulysses Guimarães. Foi isso que aconteceu.

TUTAMÉIA – HOJE SERIA POSSÍVEL IMAGINAR UMA FRENTE COMO NAQUELE TEMPO? UMA DIRETAS JÁ? ONTEM MESMO MINISTROS DA JUSTIÇA DO TEMER, ITAMAR, MINISTROS DO SEU GOVERNO, DA DILMA ASSINARAM UM MANIFESTO CONTRA ESSA POLÍTICA DE ARMAMENTO. MINISTROS DE VÁRIOS GOVERNOS ESTÃO SE REUNINDO. É POSSÍVEL, O SENHOR ACHA, FAZER UMA FRENTE ANTI-FASCISTA NO BRASIL? UMA FRENTE DEMOCRÁTICA PARA QUE ESSAS QUESTÕES POSSAM SER ENCAMINHADAS?

LULA – É possível, e ela já existe, Eleonora. Ela já existe. O que acontece é que entre você criar uma frente e você imaginar milhões de pessoas leva um tempo. Eu achei extraordinário que os ministros da educação se reunissem para fazer um manifesto contra o que está acontecendo na educação brasileira. Os ministros da ciência e tecnologia, os ministros da justiça. Isso é muito importante. Isso é o começo. Você não sai na sacada do teu prédio e grita: “Trabalhadores do Mundo, uni-vos” e eles já vão se unir. Não. É um processo.

DCM – O SENHOR RECEBEU AQUI O PDT E O PSB. DISCUTINDO JUSTAMENTE ESSA FRENTE. DE MANEIRA CONCRETA, EU FALEI POR EXEMPLO QUE O IMPEACHMENT PODERIA UNIR, FORA BOLSONARO UNIA, DIRETAS JÁ OS MILITARES SAÍRAM DO PODER. EXATAMENTE DE CONCRETO O QUE PODE SER ENCAMINHADO? QUAL É A BANDEIRA QUE SE DEVE HOJE CARREGAR?

LULA – Eu sou totalmente favorável a impeachment se você provar crime cometido pelo presidente da República que está governando. Você tem que fazer um processo de julgamento. Até chegar lá. Não é: ganhou, errou, impeachment. Assim ninguém governa o país em lugar nenhum do mundo. Tem que ter um processo de apuração dos crimes cometidos. Segundo: eu acho que é possível construir uma frente, eu queria até fazer um apelo para vocês, eu assisto muito tudo o que eu posso ver hoje, eu vejo todos vocês, vejo as entrevistas que vocês fazem. Eu, de vez em quando, sinto uma angústia, que é próprio de quem perde as eleições. Você olha: puta merda, tem quatro anos para a frente. Eu vou esperar quatro anos? Impossível esperar quatro anos. Eu quero que resolva…. Mas houve eleição! O mandato é de quatro anos.

DCM – O SENHOR NÃO PÔDE PARTICIPAR.

LULA – Nós aceitamos a regra. Entrou em campo, o juiz apitou, e agora tem o tal do VAR lá –você viu que o Corinthians perdeu ontem à noite por causa de um VAR. Então, teve o resultado. Você não protestou na hora, você não questionou, o jogo está jogado. O resultado está dado.  Você precisa fazer o quê? Não pode ficar torcendo para que o cara que ganhou erre. Porque, quando ele erra muito, quem cai na desgraça, quem é? É o povo. E que povo? A parte mais pobre da população.

O seu Bolsonaro precisa governar o país pensando em gerar empregos, gerar renda, aumentar o salário mínimo, fazer mais política social, mais habitação. É isso que ele tem que fazer. Acabaram com o Mais Médicos e colocaram o que no lugar? Quem está na capital não sente a falta de médico. Viaje o interior para ver a falta de médico. Veja quanto tempo demora uma mulher pobre para fazer uma consulta.

Eu acho que é isso que nós, da oposição, temos que brigar. No PT, eu cheguei a falar com a Gleisi, acho que estão fazendo, é transformar o programa de governo que fez o Haddad disputar as eleições, em vários projetos de lei. E apresentar no Congresso um pacote de projetos de lei se contrapondo ao que está aí. Ao mesmo tempo ir para a rua defender os interesses do povo. Eu acho que a movimentação de rua é a única coisa que faz com que qualquer pessoa que esteja no governo tenha preocupação com o povo.

Nós temos motivos de sobra. O que eles fizeram da legislação trabalhista é transformar o povo quase que no tempo da escravidão. Naquele tempo era só a gente negra que era escrava, agora é todo mundo. Agora o trabalho intermitente vai predominar nesse país, as pessoas vão ter salários muito mais baixos, as pessoas vão ser muito mais vulneráveis.

Achar que o Uber vai garantir emprego para todo mundo, achar que entregar pizza vai garantir emprego para todo mundo. As pessoas precisam de emprego formal. Emprego que dê a ele uma certa estabilidade. As pessoas têm família para cuidar. Nós temos motivos de sobra e temos bandeira para ir para a rua.

Não adianta a gente ir com 50 bandeiras. É normal que cada movimento tenha a sua bandeira. Mas tem um momento que nós temos que juntar. Por isso que eu coloco a questão da soberania como uma coisa muito forte. Na questão da soberania você está defendendo o seu país, o seu território, o seu povo, e as suas riquezas. Você está mostrando para a sociedade o que vai acontecer com o país se ele não for soberano.

Nós, Joaquim, provamos que é possível. Veja, quando nós criamos os Brics [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul], a gente tinha a ideia inclusive de ter uma moeda comercial para não ficar dependendo do dólar. Por que nós temos que depender do dólar? Por que a gente não pode criar uma outra moeda? Por que eu, para negociar com a Bolívia, com o Equador, com a Argentina, eu tenho que ficar dependendo de comprar dólar, se nós podemos negociar nas nossas moedas?

A gente tinha pensado nisso quando pensou em criar o Banco do Sul, a Unasul [União de Nações Sul-Americanas], a Celac [Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos], os Brics. É possível fazer isso. E o país ser soberano. O país não tem que entrar numa reunião de cabeça baixa, humilhado. A grandeza de um governante não é fazer bonito para os seus adversários, é defender o seu povo. É falar grosso em defesa do seu povo. Coisa que eu não vejo a gente falar. Está lembrada a frase do Chico Buarque? “Eu gosto do PT porque ele não fala fino com os Estados Unidos nem fala grosso com a Bolívia”.

Quando você quer ser respeitado, você não precisa ser grosseiro com ninguém. Você pode ser tratável, você pode cuidar das pessoas educadamente. Sem precisar ofender. O Bolsonaro só tem um discurso: é contra o vermelho, é contra o comunismo. É contra socialista. Todo mundo é socialista para ele, desde que não seja dele. Uma doença que precisa de psicanálise, que precisa de tratamento. Qual é o problema?

Quando você tem um cidadão político, você pega um cientista político, o mais renomado que você quiser encontrar no Brasil, vai dizer o seguinte: “Olha, a política é a melhor forma de você encontrar soluções para os problemas de uma sociedade”. É através da política. Não é negando a política que você vai encontrar. Porque quando você nega a política, o que veem depois dela? Vem Bolsonaro. Ou seja, quando você nega a política, vem o que veio na Itália. O que veio na Hungria. Não é que eu seja contra um artista se eleger, um apresentador de televisão, um palhaço de circo de eleger. Não. Qualquer um pode se eleger. É preciso saber qual é o compromisso que a pessoa tem com o povo. Qual é o compromisso que a pessoa tem de montar um governo. E para quem essas pessoas querem governar.

No caso do Brasil, precisa ficar muito claro. Esse país voltou a ter a mesma pobreza do que tinha quando eu fui eleito presidente. Pega os anais do Congresso, veja quantos discursos o Bolsonaro fez contra mim. Nem ele fazia discurso contra mim. Nem ele. A Dilma foi candidata em 2010, naquela eleição não teve um panfleto contra o Lula em toda a campanha. Eu digo sempre: a campanha de São Paulo começou com o Serra falando bem de mim. “Eu sou amigo do Lula”. Veja os votos do Bolsonaro contra o governo.

O que eu acho?  Eu também não vou ficar aqui discutindo o meu legado a vida inteira. Eu só quero dizer que há possibilidade de fazer as coisas diferente. Há possibilidade de você governar sem ódio. Há possibilidade de você governar de forma generosa para todo mundo. Eu digo: “Eu sou o exemplo disso”.

Todo mundo ganhou dinheiro no meu governo. Qual foi a vantagem? É que no meu período você pega que os 10% mais pobres tiveram 15% de ganho a mais do que os mais ricos. Obviamente que continuaram sendo pobres, mas o cara passou a ter direito a ir num restaurante, de visitar seu parente de avião, de fazer uma viagem para o exterior.

É preciso parar de imaginar que só pode ir a Miami uma certa classe da sociedade para comprar o enxoval para o seu filho, o carrinho para a criança que vai nascer. E os pobres não. As pessoas têm prazer de ter as coisas. As pessoas querem comer bem, querem se vestir bem, querem passear bem. Todo mundo. Quem não quer se vestir bem? Quem não quer ficar bonito? Quem não quer comer bem? Ou será que as pessoas pensam que o povo gosta só de carne de pescoço? Não, a gente gosta de coxa, de peito, de filet. Só comer músculo?

É esse país que eu acho que as pessoas têm que pensar, se a gente quiser construir. Como eu acho que a esquerda pode se unir? Em torno de um programa. Ficar discutindo 2022 está muito longe. Nós temos que discutir é a nossa sobrevivência. Não dá para ficar discutindo a qualidade do caixão, a qualidade do túmulo que a gente vai. Nós temos que discutir é como evitar que esse país volte a se transformar numa republiqueta de bananas! É isso que nós temos que falar em alto e bom som. Nós precisamos convencer a sociedade do significado da palavra soberania. Eu disse aqui numa entrevista: “Cadê os militares nacionalistas?

TUTAMEIA – CADÊ?

LULA – Cadê, eu pergunto. Se um cidadão é militar de carreira, e ele não é nacionalista, ele não deve ser promovido a general. Deve cair fora logo.

DCM – PRESIDENTE, FOI UM ERRO DO PRÓPRIO PT NÃO TER DEIXADO UMA OUTRA DOUTRINA NAS FORÇAS ARMADAS? UMA INTERLOCUÇÃO MAIOR?  O QUE PARECE HOJE É QUE NA ÉPOCA JÁ SE CONSPIRAVA DENTRO DAS FORÇAS ARMADAS. DEVENDO OBEDIÊNCIA À DILMA, JÁ ESTAVAM ARTICULANDO A CANDIDATURA DO BOLSONARO. SÃO PESSOAS QUE FORAM PROMOVIDAS PELO SENHOR, PELA DILMA. NÃO FOI ALI UM ERRO NÃO TER DADO UMA ATENÇÃO MAIOR PARA AS FORÇAS ARMADAS QUE SÃO IMPORTANTÍSSIMAS DE FATO, UMA DOUTRINA NACIONALISTA. HOJE O NACIONALISMO É DO PT.    

LULA – Eu acho que eu cometi um erro. Eu já até falei para o Celso Amorim, que foi Ministro da Defesa, falei para o Jobim. Qual é o erro que eu cometi? Não ter cuidado com o tipo de formação que essa gente recebe. É uma caixinha preta. Só vai para a escola militar quem é militar. É uma coisa quase que hereditária. Filho de coronel, filho de tenente. Não é o povo comum que vai para as escolas do Exército.

Eu acho que nós precisamos saber que tipo de informação essa gente está tendo. Uma coisa é a formação militar, que é própria, específica e temos que levar em conta. Mas a educação geral do país, a compreensão política do país. Aí tem que ter consciência. Para que existe as Forças Armadas? Não é para comprar farda verde, farda azul ou farda branca. É para defender os interesses territoriais, os interesses do povo brasileiro contra possíveis inimigos externos. Para defender as nossas riquezas minerais. Isso que existe. É para isso que nós queremos as Forças Armadas fortes. E quem está falando com você, Joaquim, fala de cátedra.

Eu duvido que em algum momento as Forças Armadas foram tratadas como foram tratadas no governo do PT. Eu digo para todo mundo ouvir, espero que tenha algum general que esteja ouvindo, viu, Eleonora.

Quando eu cheguei em 2003 na Presidência do Brasil, soldado do Exército brasileiro era liberado 11 horas da manhã porque não tinha dinheiro para a sopa, para o feijão. Soldado não tinha coturno. Soldado não recebia o salário mínimo. O batalhão de engenharia estava falido. A Marinha estava esfacelada. A Aeronáutica tinha mais avião na sucata do que avião.

O avião presidencial era chamado “sucatão”. Você imagina qual é o orgulho. Você vai para a Europa num avião, chegamos lá, o filho do imperador do Japão, chega o Obama, e chega o Brasil num avião que não pode parar em qualquer aeroporto por causa do barulho. “Sucatão”. Quando a gente parava em Cabo Verde tinham 14 ou 18 mecânicos para catar parafuso que caía na pista.

Nós demos a eles a certeza de que na nossa consciência, na nossa concepção as Forças Armadas têm que estar preparadas, tem que estar bem armadas, para enfrentar as adversidades. Senão não precisa de Forças Armadas. Não precisa. Então, eles sabem disso.

Eu não sei se esse pessoal que está aí agora pensa assim. Eu não sei onde esse pessoal foi formado porque eu não conheci esse pessoal quando eu estava lá. Eu tinha a noção do Heleno porque foi nós que o mandamos para o Haiti, parece que fez um bom trabalho. Mas as coisas mudam. As pessoas mudam. Eu não quero que ele seja um lulista, que ele seja um petista. Sejam o que eles quiserem ser. O que eu quero é que eles sejam, antes de tudo, soldados brasileiros a serviço a defesa da soberania nacional, contra qualquer inimigo externo.

E aí se meter a fazer guerra com a Venezuela? Eu vou dizer uma coisa da Venezuela que é o seguinte. Eu tenho muita discordância com tipos de políticas colocadas em prática na Venezuela, mas quero dizer em alto em bom som: A Venezuela é um problema do povo da Venezuela e acho uma vergonha o presidente americano, alguns governantes europeus e o presidente brasileiro reconhecer o tal do autoproclamado presidente. É de uma vergonha. É de um jogo tão baixo, é de uma coisa tão pequena, que deveria ser apagado da história.

TUTAMÉIA – O SENHOR ACHA QUE PODERIA TER UMA INTERVENÇÃO MILITAR AMERICANA? A VENEZUELA PODE SE TRANSFORMAR NUM VIETNÃ?

LULA – Dos Estado Unidos a gente nunca, em se tratando de ocupação, depois da mentira vendida sobre o Iraque… Eu participei disso, Eleonora. Eu tive com o Bush dia 10 de dezembro de 2002. Eu tinha estado com o Clinton. Eu conversei com o Bush e falei pro Bush: “Bush, não tem armas químicas no Iraque”. O embaixador Bustami, que era o nosso embaixador, o responsável pela agência de armas químicas disse que não tem armas químicas.” Quando ele disse que não tinha, o que fizeram?  Ainda no governo Clinton, exigiram a retirada dele. Ele tinha sido eleito por unanimidade, retiraram o Bustami para colocar um japonês. O que interessava era um cara a favor. Invadiram o Iraque. Cadê a arma química? Cadê a arma química? Destruíram um país por causa do quê? Por causa de um poço de petróleo, descoberto pela Petrobras nos anos 1980. Quando a Petrobras comunicou a descoberta, Saddam Hussein tirou a Petrobras, e nós tivemos que receber vendendo Passat para eles. É o que aconteceu na Líbia. É o que aconteceu no Brasil.

Olha, você é muito nova, Eleonora. Você vai ver o seguinte: a história vai mostrar o significado da Lava Jato, a história vai significar a retomada dos Estados Unidos de colocar a Quarta Frota em funcionamento no oceano Atlântico depois da Segunda Guerra Mundial. É porque nós descobrimos a mais portentosa reserva de petróleo do século 21 no limite, no limite da fronteira marítima brasileira. Exatamente a 300 quilômetros da margem, que é equivalente a 200 milhas marítimas. Na verdade, foi o Médici que introduziu 200 milhas marítimas, porque acho que eram 100 ou 150. Daqui a pouco eles vão na ONU dizer: “O Brasil não tem direito a 200 milhas marítimas, vai ser só 150”, para o petróleo ficar em território livre.

TUTAMEIA –  PRESIDENTE, JUSTAMENTE SOBRE ISSO. O PRÉ-SAL FOI DESCOBERTO EM 2005, 2006, HOUVE VÁRIOS INDÍCIOS DE QUE A PETROBRAS ESTAVA SENDO ESPIONADA. A WIKILEAKS MOSTROU ISSO. HOUVE ATÉ O FURTO DO FAMOSO HD DA PETROBRAS. QUE OS ESTADOS UNIDOS ESTAVAM DE OLHO NESSA RESERVA, ERA MUITO EVIDENTE. EU APROVEITO PARA JUNTAR ESSA PERGUNTA COM UMA PERGUNTA QUE O RENATO ROVAI, DA REVISTA “FÓRUM”, ENVIOU AQUI, OLHANDO  EM RETROSPECTIVA, SE FOSSE O  PRESIDENTE HOJE, DESCOBRISSE O PRÉ-SAL, O  SENHOR ANUNCIARIA COM HONRAS E POMBAS OU TRATARIA ISSO COM MAIS CUIDADO? O PT E SEUS GOVERNOS FORAM INGÊNUOS EM AVALIAR OS RISCOS DE BUSCAR UM MAIOR GRAU DE SOBERANIA AO BRASIL, SEM TER SEGURANÇA INTERNA E PARCEIROS EXTERNOS PARA ISSO? EU TAMBÉM, HÁ UMA SENSAÇÃO, HOUVE INGENUIDADE NESSE MOMENTO? DESCOBRINDO ISSO, OS ESTADOS UNIDOS EM CIMA…

LULA – Não houve ingenuidade coisa nenhuma. Eu fui procurado pelo Gabrielli e pelo Estrela, para me comunicar, levaram um mapa dos estudos sísmicos que eles fazem lá, para me mostrar que eles tinham descoberto uma grande reserva de petróleo.

TUTAMEIA – UMA PICANHA.

LULA – Uma grande reserva de petróleo. Que ia do Rio de Janeiro, de Campos, até a Bahia, passando por São Paulo. E que eles não tinham ainda quantificado quanto, mas poderia ser muito. Pode ser de 8 bilhões a 80 bilhões de barris, aquele negócio todo. Eu me senti o próprio Sheik. Eu fui para casa aquela noite, eu nem conseguia dormir. Eu comecei a pensar: o que a gente faz com uma riqueza dessa?

O Brasil já era autossuficiente naquela época. Eu imaginava que a gente poderia utilizar o petróleo para fazer com que esse país tivesse o futuro garantido, resgatando toda a sua dívida histórica com a sociedade brasileira. Por isso que nós fizemos a Lei da Regulação da partilha, para que o petróleo fosse nosso, nós seríamos donos do petróleo, a gente venderia para quem quisesse, o preço que a gente quisesse, a Petrobras teria 30% desse petróleo. Fizemos a valorização da Petrobras na Bolsa de Valores. Acho que foi em dezembro. Eu tenho muito orgulho porque a maior capitalização da história do capitalismo mundial foi feita por mim na Bolsa de Valores de São Paulo. Não foi na Bolsa de Nova York. Em que nós transformamos a Petrobras na segunda empresa mais importante do mundo.

A gente decidiu que o petróleo era uma forma da gente recuperar o tempo perdido. Investimento em educação, saúde, ciência e tecnologia. Por isso é que nós aprovamos a lei.

Pensa que foi fácil? Eu fiz o primeiro projeto de lei. A Dilma me apresenta o projeto, nós discutimos, esse projeto vai para a Câmara. Quem era o presidente da Câmara? Era, acho, o Henrique Eduardo Alves. Ou ele era relator, se não me falha a memória. O que eu sei é que, para indicar ele de relator, a pedido do Temer e do Vaccarezza, ele teve que assumir o compromisso de que ele levaria para a votação o projeto de regulação que nós tínhamos apresentado. Foi essa a condição para ele ser relator. Qual não foi a minha surpresa que depois o Ibsen Pinheiro apresentou uma proposta distribuindo royalties para 6 mil municípios desse país, acabando com a lei da partilha. E qual não foi a minha surpresa que o relator, que tinha assumido com o compromisso de levar a proposta do governo, jogou fora a proposta. Qual é o prefeito que não quer royalty? O que aconteceu? Eu vetei. E mandei outra vez. E aí nós aprovamos.

Desde este momento, veja, eu sonhava com a ideia, por isso é que nós decidimos fazer refinaria, porque a gente não queria ser vítima da doença da vaca holandesa. Ou seja: a gente queria, na verdade, era que o petróleo fosse utilizado para fazer com que o Brasil ganhasse dinheiro. A gente queria exportar derivados, e não óleo cru. Esse era o sonho do governo na época. E para isso nós trabalhamos.

A direita não queria. Houve pronunciamento do Serra contra, houve pronunciamento de outras pessoas contra. O governador do Rio  de Janeiro era contra. O governador do Espírito Santo era contra que a gente fizesse a lei da partilha. Nós conseguimos manter. E aí começou a guerra contra a Petrobras. Começou a guerra contra a Petrobras mesmo.

DCM – O SENHOR ACHA QUE A LAVA JATO FOI PARA….

LULA – Eu acho que a Lava Jato tem…. Isso leva tempo para investigar. Você fica sabendo de coisa com 30 anos depois… Quando  houve o roubo do contêiner da Petrobras, que tinha segredo, houve uma investigação, feita pela própria Petrobras. Que tinha a sua segurança específica, me parece que quem pagou o pato foram os pequenininhos da Petrobras, os guardas. Na verdade, qual era a empresa que estava avalizando, certificando o pré-sal?  Uma empresa americana.

TUTAMÉIA – O SENHOR SE CONSIDERA UM PRESO DOS ESTADOS UNIDOS? TUDO O QUE O SENHOR ESTÁ CONTANDO…

LULA – Eu não vou dizer que eu sou um preso. O que eu acho é que tem interesse porque eles tinham consciência, por tudo que eles acompanhavam na política brasileira, que dificilmente se elegeria um presidente para desmontar o Brasil se o Lula fosse candidato.

Eu, por isso, sou muito grato ao carinho do povo brasileiro porque eu tinha consciência que eu poderia voltar a ser presidente para fazer mais do que eu tinha feito no primeiro mandato. Eu tinha consciência das coisas que eu não tinha feito. Por isso eu estava propenso a voltar a ser candidato à presidência da República. Porque eu acho que poderia fazer e é possível fazer mais. Agora, para fazer essas coisas você tem que aprender a gostar do povo. Você tem que aprender o seguinte: o governo não tem que ser contra uma pessoa de classe média. Ele não tem que ser contra. Ele tem que governar para ela também. Ele não tem que ser contra o empresário, tem que governar. O que ele precisa é definir prioridades. Entra uma pessoa que ganha 30 mil reais e uma pessoa que ganha mil, na hora que eu tiver que fazer um benefício, eu vou fazer para quem? Você percebe? Eu vou fazer para quem? É essa a escolha que vai permitindo com que você faça que os de baixo comecem a subir um degrau na escala social desse país. É essa subida na escala social que incomoda uma parte das pessoas.

Os Estados Unidos não gostaram quando nós fizemos o acordo com a França para a construção de submarinos de propulsão nuclear. Ele não gostou quando eu demonstrava que tinha interesse na compra do caça dos franceses, e não devem ter gostado quando a Dilma comprou os [caças] suecos. Porque eles queriam vender o deles.

Aos Estados Unidos não interessa o Brasil forte. Bote na cabeça. Isso eu vivi. Aos Estados Unidos não interessa o Brasil forte. Não interessa o Brasil protagonista. Não interessa o Brasil liderando a América do Sul. Não interessa o Brasil tendo influência na África. Não interessa essa relação do Brasil com a China, muito respeitosa, com a Rússia, muito respeitosa, com a Índia. Não interessa.

Quando a gente reuniu os Brics, eu sabia da ciumeira.

Eu vou contar uma história. Copenhague. 2009. COP 15 (15ª Conferência das Partes da ONU). Estava lá o representante da Dilma, eu não sei se era o Figueiredo, que era o embaixador, estava a Dilma, e eu naquela reunião. E lá, quando eu cheguei a Copenhagen, num dia só, só para vocês terem a ideia do que representava o Brasil naquele instante, num dia só, eu fui… Me procuraram no hotel que eu estava. Não é que eu ia atrás deles. Me procuraram no hotel: Ângela Merkel, para conversar sobre a questão ambiental, Sarkosy, Gordon Brown, o Obama me ligou. O Obama me ligou tentando propor a criação do fundo.

O que eu senti que essa gente queria? Todos eles queriam apertar o torniquete na China, tentando jogar culpa na China pela alta poluição, e que o culpado era a China. O que o Brasil fez? Eu disse para todos eles: “Vocês não estão querendo culpar a China. Eu sei que a China está poluindo muito. Mas e a dívida histórica que a Inglaterra tem de 200 anos de política industrial?  E a dívida histórica que os Estados Unidos têm? Quando é que vocês vão pagar? Então… A reunião não dava certo. Eu fui numa reunião. Teve um momento que eu fiquei nervoso, porque a Hilary Clinton chegou já no fim e já queria sentar na janelinha, e eu tive um atrito com ela.

TUTAMÉIA – O SEU GOVERNO INCOMODOU OS ESTADOS UNIDOS?

LULA – Incomodou. Não porque eu tratei os Estados Unidos mal. Porque tratei bem. Porque sei a importância dos Estados Unidos. Não destratei. Eu apenas queria ser respeitado.

DCM – O SENHOR ACHA QUE O PROJETO HOJE É TORNAR O BRASIL COLÔNIA DE NOVO?

LULA – Eu acho que, do jeito que o Brasil está sendo, o Brasil não volta a ser colônia, mas o Brasil está com complexo de pequenez enorme.

Mas eu queria concluir esse negócio da COP 15. Eu queria que houvesse um acordo, e não tinha acordo, não tinha acordo. Os povos dos países pequenos estavam nervosos com os grandes. Um dia á que era uma plenária, ia falar o Obama, depois ia falar o Sarkosy e depois eu ia falar. Eu era o terceiro a falar. Eu cheguei no plenário. Pedi para o Marco Aurélio, que Deus o tenha, ele não acreditava em Deus, mas eu acho que ele está no céu. Falei para o Marco Aurélio: “Vamos preparar uns pontos para eu fazer o meu pronunciamento”. Eu era o terceiro. Iam ouvir o Obama, o Sarkosy. Qual não foi a minha surpresa, que fizeram como se fosse uma assembleia estudantil. Ou seja: deixaram o Obama e o Sarkosy para o fim e me chamaram. Eu fui pego de surpresa. Não tinha nem um papelzinho na mão. Aí eu fui falar. Eu estava com raiva. Quando eu fico com raiva, eu fico melhor  do que quando eu estou bom. Modéstia à parte, eu fiz um bom discurso. Eu sei que eu fui aplaudido de pé pelo plenário. Assumindo a responsabilidade do Brasil. Assumindo. Antes de eu viajar para Copenhagen, a gente tinha provado no Congresso os compromissos ambientais do Brasil. Era lei. Não era mais discurso. O Obama foi falar, acho que estava num mau dia, não falou bem, o Sarkosy não falou bem. A reunião gorou no dia seguinte. Eu chamei o Celso Amorim e falei: “Celso, eu estou preocupado porque como não vai ter acordo aqui e quem tem o controle da imprensa são eles, eles vão dizer que nós somos sectários. Então vamos fazer uma reunião Brasil, China, Índia e África do Sul. E fomos para a reunião. Qual não foi a nossa surpresa, estávamos reunidos, eram cinco horas da tarde, chega a Hilary Clinton e tenta entrar. E aí, assim de chinês [faz gesto indicando muitos chineses]. Eu achava que eu tinha muito assessor, mas perto da China… Não deixaram a Hillary Clinton entrar. Chegou o Obama. O pessoal também não queria deixar ele entrar. Foi um bafafá muito grande. Nós fomos lá. Fizemos o Obama entrar. E o Obama ainda brincou, falou o seguinte: “Eu vou sentar perto do Lula para ele me proteger”. E fizemos a reunião. Naquele instante, nós tínhamos o poder, sabe, de dizer “não” a quem nós quiséssemos. De qualquer forma, nós fizemos uma espécie de um meio tratado com o Obama, para não dizer que a reunião tinha acabado sem nada, mas não houve um acordo em que as pessoas queriam culpar a China. Nós saímos de lá, eu achava que o Brasil tinha conquistado um respeito extraordinário nessa cena ambiental. Porque tudo o que eles cuidam para os países pobres é um tal de fundo verde. Tudo eles acham que resolvem com dinheiro. Eu dizia: “Não, a gente não quer um fundo. A gente quer ter o direito de se desenvolver. Nós queremos indústria, queremos emprego. Agora que vocês desmataram todo o país de vocês, vocês querem impor para a gente ficar com as nossas florestas, sem se desenvolver, vivendo de fundo de vocês? Não. Nós vamos desenvolver de uma forma ambientalmente correta, mas nós não queremos discutir esse negócio de fundo. Nós queremos na verdade é um novo modelo de desenvolvimento. E o Brasil passou a ser levado em conta. Tanto é que depois houve um encontro em Paris que o Brasil participou.

E agora, para a minha surpresa, o Brasil abandonou isso. O que predomina no Brasil é agrotóxico, é desmatamento, o que predomina no Brasil é a perda de direito do povo brasileiro nessa questão ambiental. O retrocesso que o Brasil está sofrendo não é legal.

O Bolsonaro foi eleito presidente da República, está na hora de ele descer do palanque, está na hora de ele parar de fazer o fake News, está na hora de ele começar a governar. Ele está dando muita entrevista agora. Você viu o compadrio dele com a imprensa, cada programa de cada apresentador, programa mais popular, ele vai. 50 vezes no Datena, 50 vezes no Ratinho, 50 vezes no Silvio Santos, 50 vezes não sei aonde, na Record. Faz um café da manhã em que não aparece ninguém falando, só jornalista analisando depois. Olha, faz uma entrevista e diga o que quer fazer para esse país. Eu vi o Guedes dando entrevista ontem, sabe, esse cidadão teria que ser muito, mas muito pressionado pelo Congresso Nacional pela quantidade de mentiras que ele conta. Ou seja: [Guedes diz] O Brasil não terá jeito, a indústria não terá jeito, o emprego não terá jeito, o mundo não terá jeito, Deus não será mais Deus se não for aprovada a previdência. De onde ele tirou isso da cabeça?

TUTAMÉIA – PRESIDENTE, O SENHOR CITOU AGORA A INDÚSTRIA. NOS GOVERNOS DO PT, A INDÚSTRIA, ESSA PARTE DA CHAMADA BURGUESIA INTERNA, APOIOU O SEU GOVERNO, O SENHOR SEMPRE DIZ QUE LUCROU MUITO NO  SEU GOVERNO. POR QUE O SENHOR ACHA QUE HOUVE ESSA MUDANÇA TÃO RADICAL DESSA PARCELA DA BURGUESIA QUE APOIAVA O SEU GOVERNO, POR QUE MUDARAM DE LADO E RESOLVERAM SE ASSOCIAR AOS ESTADOS UNIDOS? POR QUE HOUVE ESSA MUDANÇA?

LULA – Eles não mudaram de lado, Eleonora. Deixa eu falar uma coisa para você: eu nunca tive coragem, fiz muitos debates a nível internacional com empresários, eu brincava com eles, eu nunca tive coragem de perguntar para o empresário em quem ele votou. Porque eu tinha a consciência que ele não tinha votado em mim. Obviamente que o empresário inteligente sabe que ele tem que lidar com quem ganha as eleições. Não é com a oposição. Correto? Eu tenho consciência do que nós fizemos no Brasil. Para o empresário. Para a classe média. Para o trabalhador. E para os deserdados desse mundo. Se você for pegar a categoria metalúrgica no Brasil, no meu governo nós  recuperamos um milhão de empregos. É importante lembrar que a indústria automobilística vendia um milhão e setecentos mil carros e passou a vender quatro milhões. A perspectiva era vender seis. Tudo isso ruiu. Eu nunca fiquei esperando que gostasse. Até porque não era casamento. Não tem que gostar. Tem que respeitar.

O que eu fiz? Eu sabia que eles não gostavam de mim. Eu tomei posse e propus a criação de um conselho consultivo. Conselho de desenvolvimento social. Ali eu coloquei índio, negro, padre, coloquei pastor. Coloquei pequeno, coloquei grande, empresários, sindicalistas, centrais sindicais.

Eu lembro de uma história fantástica. Na véspera do primeiro encontro do conselho eu fiquei sabendo que o Gerdau tinha feito uma reunião no hotel Naoum com um grupo de empresários para preparar a participação deles no evento. Sabe aquele negócio de estudante se preparar para chegar, sentar na frente, e tomar conta. O que eu fiz? Eu chamei o meu pessoal e mandei colocar o nome nas cadeiras. Resolvi misturar eles. Coloquei o Gerdau junto do cara da CUT, do índio. E misturei. Eles chegaram, e não tinha nem como eles se movimentarem ali dentro. Hoje eu sou grato ao conselho porque o conselho prestou um serviço extraordinário de sustentabilidade e credibilidade a muitas decisões que nós tomamos.

Quando você governa um país, Eleonora, você não governa para você. Você não faz as coisas que você gosta. Você faz as coisas que são precisas fazer. Levando em conta que você sempre tem que beneficiar a maioria das pessoas. Como pode você viver num país em que o Ibope faz uma pesquisa que demonstra que 71% do povo é contra a facilidade de comprar armas, que está no decreto presidencial, e esse Ibope mentir para a sociedade brasileira, esconder a pesquisa três meses. Como pode? Todos nós, não precisa ser especialista. A facilidade de uso de armas no país é para permitir que aqueles que podem comprar matem os pobres.

TUTAMÉIA – PARA FORMAR MILÍCIA.

LULA – Lógico. Quem é que pode pagar quatro mil reais num revólver? Se o cara não tem o que comer em casa? Tem pouco espaço para debate porque no Brasil, eu lembro que quando o Collor foi eleito nós ficamos dois anos em que o Collor era tratado como se fosse um Rambo. Está lembrado?  Todo o dia o Collor com uma camiseta correndo, voando de avião, Mirage, explodindo um terreno no Nordeste, que tinha plantação de maconha. Era isso. Até que caiu. Depois veio o Fernando Henrique Cardoso, foram oito anos de pensamento único. Era difícil fazer oposição. Tudo o que ele fazia era 100%. Sobretudo se você pegar a Globo News e a Globo.

Tem uma pessoa que um dia vai ser processada pela quantidade de mentiras que ela contou a favor e contra. A favor de Fernando Henrique Cardoso e contra mim. Tudo o que nós fazíamos era errado. A Miriam Leitão. Tudo o que os outros faziam era certo. Acontece que nós demos certo e eles não deram certo. Eu acho que se explica um pouco a necessidade da sociedade brasileira acreditar. Não adianta ficar com raiva, porque nós precisamos tirar o Bolsonaro agora. Não. O Bolsonaro foi eleito. Ele tomou posse. Ele está procurando construir a sua maioria no Congresso Nacional, ele sabe que ele vai ter que conversar com quem ele não gosta.

DCM – O SENHOR JÁ FALOU QUE TEM A IMPRESSÃO QUE O BRASIL É GOVERNADO POR UM BANDO DE MALUCOS. QUANDO NÓS FALAMOS DA ENTREVISTA MUITA GENTE FALOU DA PERGUNTA E AS PESSOAS TÊM MUITO ESSA ANGÚSTIA. NÃO É PELO BOLSONARO EM SI. É PELO QUE ELE ESTÁ FAZENDO COM O BRASIL.

LULA – O que você faz quando o cara é eleito democraticamente, e ninguém contesta o resultado eleitoral?

DCM – OS PARTIDOS PROGRESSISTAS SE REUNIRAM E DISSERAM QUE NÃO IAM APRESENTAR O PEDIDO DE IMPEACHMENT. EMBORA TENHA JURISTA QUE…

LULA – Deixa eu lhe falar uma coisa: os juristas acharam uma razão para fazer o pedido de impeachment com a Dilma, ela sendo inocente. O que eu acho é o seguinte: se tiver motivo, primeiro você tem que investigar e pedir. Você não pode criar a cultura e repetir com o Bolsonaro o que o Aécio fez com a Dilma. O resultado do que aconteceu com a Dilma é o ódio. O resultado da eleição de 2014 e da decisão do PSDB de não deixar a Dilma governar.

Para vocês entenderem uma coisa que eu acho importante: vamos pegar Fernando Henrique Cardoso em 1999. Fernando Henrique Cardoso foi eleito em 1998, o Brasil quebrou quase que duas vezes em 1999. Três vezes na verdade em 1999. O Fernando Henrique Cardoso estava com 8% ou 9% na opinião pública. O Fernando Henrique Cardoso resolveu fazer mudanças. E mandou as mudanças para o Congresso Nacional. Quem ele tinha na presidência? O Temer. O que o Temer fez? Colocou as reformas para serem votadas no Congresso Nacional. E aprovou. A Dilma estava fraca em abril de 2015. Já estava fraca. O que aconteceu? A Dilma mandou algumas reformas para o Congresso Nacional, o que fez Eduardo Cunha? Não votou nenhuma. Cada coisa que a Dilma mandava, você pode pegar a desoneração. A Dilma mandava uma proposta de desonerava esse microfone, e ele desonerava quinhentas coisas. Numa perspectiva de criar confusão. De criar caso. O Bolsonaro está tendo dificuldade não porque o Congresso está criando dificuldade. Ele está tendo dificuldade porque ele não sabe governar.

TUTAMÉIA – MAS ELE NÃO ESTÁ CUMPRINDO EXATAMENTE UM PLANO DE GOVERNO QUE ELE MESMO DISSE “DE DESTRUIÇÃO”? ELE ESTÁ VENDENDO O PAÍS. A PETROBRAS… A EMBRAER JÁ FOI. NÃO HÁ UM PLANO DE DESTRUIÇÃO, AO CONTRÁRIO DESSA BAGUNÇA?

DCM – ACRESCENTAR: NÃO HÁ NA VERDADE UM PROJETO DE ENFRAQUECER O BRASIL? COMO O SENHOR JÁ FALOU, O PAPEL DELE SERIA ESSE. CUMPRIR O PROJETO DE TORNAR O PAÍS MENOR.

LULA – Eleonora e Joaquim, eu acho que o Bolsonaro está fazendo um mal enorme ao país. Como outros já fizeram. As pessoas terminam o mandato, depois de levar esse país à bancarrota. Você está vendo agora a tentativa de pagar para o povo que tem conta nos bancos, processo do Fundo de Garantia do tempo do Bresser, do Maílson da Nóbrega e do Plano Collor. Isso faz 30 anos. Somente depois de 30 anos é que as pessoas resolveram que tem que pagar as pessoas. O fato de você estar fazendo essa política equivocada, [mas] ele tem uma sustentação. Veja a manifestação em defesa dele. Veja quem estava no palanque. Aquelas pessoas, eu acho que não conseguiam passar numa máquina, dessas que a polícia utiliza para ver se o cara tem arma ou não.

TUTAMÉIA – DETECTOR DE METAL.

LULA – Detector de metais. Era um povo estranho. Não era o povo que elegeu, os verdadeiros bolsominions. Os caras que são pedigree. Essa gente sempre existiu no Brasil. Essa gente continua existindo. A diferença agora é que eles encontraram uma referência e essa referência faz exatamente o que ele pensa. Por que você acha que o Collor fazia esses projetos malucos? É porque tem sustentação. Uma parcela de 30 % da sociedade.

TUTAMÉIA – O SENHOR ACREDITA QUE ESSA PARTE DA ELITE QUE O SENHOR FALOU, NÃO GOSTAVA DO SENHOR, QUE AGORA APOIA O BOLSONARO, VAI CONTINUAR COM ELE? O PAÍS  VAI ENTRAR NUMA RECESSÃO NESTE ANO. A ECONOMIA, O BOLSONARO NÃO VAI ENTREGAR A ECONOMIA BOA PARA O BRASIL. TODOS OS INDICADORES MOSTRAM QUE A GENTE VAI CAIR NUMA RECESSÃO. EU PERGUNTO: O APOIO POPULAR DELE TENDE A CAIR? O APOIO DA ELITE OU DESSA BURGUESIA? ELE TAMBÉM VAI SER ABANDONADO POR ESSES APOIADORES?

LULA – Já caiu. Já caiu a popularidade dele, Eleonora. Já caiu a popularidade. Ele já não tem mais a performance que ele teve durante o processo eleitoral. Mas isso pode acontecer com qualquer presidente. Você tem um momento que você está com 50 ou com 20 ou com 30. Eu sou estou querendo dizer que o mandato é longo. O mandato é de quatro anos, e as pessoas têm que ter paciência.

Qual é o nosso papel agora? O nosso papel é detectar quais os desmandos que estão acontecendo no país, e convencer a sociedade de que somente ela pode mudar. Agora está muito fácil.

Eu, por exemplo, na questão da reforma da previdência, esses dias eu disse ao presidente da CUT, que veio me visitar: Não adianta fazer manifestação na avenida paulista contra a reforma de previdência. Só. Porque o deputado que mora em Roraima, Rondônia, no Amapá, no Mato Grosso, ele está pouco ligando para uma manifestação. O que ele fala: “Eu recebi muita mensagem, no meu zap aqui. Tem 30 mensagens pedindo para eu votar”. Agora eles agem assim. São eleitos pelo zap, se baseiam na atitude deles pelo zap. Esses dias eu vi uma fotografia, eu não sei, acho que era o pessoal do PSL, acho que tem 8 ou 9 pessoas numa sessão, todo mundo fazendo selfie. Ninguém está ligando para quem está fazendo discurso.

O que eu acho que a sociedade brasileira tem que ter direito? Nós precisamos ter consciência que nós precisamos convencer a sociedade do que está acontecendo no Brasil. O cara foi eleito, a sociedade tem um tempo de maturação. Eu lembro do Brizola, “Vou dar seis meses para esse cara aí”. Tem que ter um tempo. Eu acho uma bobagem alguém falar cem dias de governo. Em cem dias, dependendo do governo, o cara não aprendeu a colocar a bunda na cadeira ainda. O cara não aprendeu a montar um  governo. O cara tem que ter um projeto para os quatro anos que ele vai governar e apresentar para a sociedade. [Dizer:] “Eu vou fazer isso”. Até agora, nós estamos há seis meses ouvindo a palavra “É preciso economizar um trilhão para a economia voltar a funcionar. Esse trilhão vai ser tirado da aposentadoria”. Agora mesmo, vai atrás do pescador. Sabe? Das pessoas que já não têm como sobreviver. É contra isso que nós precisamos nos insurgir. Ele acabou com todos os conselhos que nós tínhamos criado no Brasil. Então os conselhos têm que ir para a rua.

DCM – NÃO ESTÁ FAZENDO FALTA O SENHOR HOJE? JUSTAMENTE PARA ORGANIZAR ESSA… VOLTAR PARA O PONTO INICIAL. EU PERGUNTEI: NÃO ESTÁ FAZENDO FALTA O SENHOR DO LADO DE FORA, ORGANIZANDO A SOCIEDADE, AINDA QUE COM ALGUMA RESTRIÇÃO?

LULA –  Posso dizer para você uma coisa, do fundo do meu coração. Talvez os meus advogados até nem gostem do que eu  vou falar, talvez alguns companheiros meus não gostem do que eu vou falar: tornozeleira é para ladrão e para pombo correio. Eu não sou nem ladrão nem pombo correio.

É bom deixar claro isso. Se o cidadão é safado, é ladrão, é corrupto, se ele roubou, ele pode colocar até uma pescoceira, mas não venha querer colocar uma tornozeleira num homem honesto, que eu não aceito.

Eu tenho dito para os meus advogados: eu não aceito um minuto de condenação. Eu ainda tenho fé em Deus que eu vou provar que o Moro é mentiroso.

O Moro é resultado do que a Globo resolveu fazer com a Lava Jato. Quase tudo o que tem na Lava-jato foi lei feita no nosso governo. Eu acho maravilhoso quando um rico vai para a cadeia, acho maravilhoso quando um cara importante que roubou vai para a cadeia. Mas deve ir para a cadeia se roubou. Roubou, vai preso.

O que eu acho nefasto ao país é você saber que tem um erro de comportamento de uma empresa, ao invés de você prender o dono você quebra a empresa. Alguém em algum momento vai fazer um estudo para provar o que aconteceu nesse país. A Petrobras não é uma empresa só de petróleo. É preciso saber as milhares de empresas que são fornecedoras da Petrobras. Tudo para pagar acionistas americanos, para depois o sr. Dallagnol criar um fundo? Tem dois bilhões e meio o primeiro. Depois tem mais cinco e oitocentas da Odebrecht e depois chega a quase treze bilhões o fundo. Isso está documentado. Está na Caixa Econômica.

TUTAMÉIA – O MORO É UM AGENTE DOS ESTADOS UNIDOS?

LULA – Eu não diria que ele é um agente. Ele é serviçal. Eu acho que agente é muito perigoso. Eu acho que ele é o serviçal dos interesses dos americanos.

DCM – DEIXA EU FAZER UMA PERGUNTA A PROPÓSITO DISSO, FOI ENVIADA PELO FERNANDO MORAIS, DO NOCAUTE. O SENHOR SABE QUE TODOS GOSTARIAM DE ESTAR AQUI ENTREVISTANDO O SENHOR, NÓS ESTAMOS AQUI. SOMOS COMPANHEIROS, FIZ UM ACORDO, MANDA A PERGUNTA, TENHO TRÊS PERGUNTAS PARA FAZER PARA O SENHOR. VOU FAZER ESSA DO FERNANDO MORAIS, QUE É JUSTAMENTE SOBRE O MORO. ELE DIZ AQUI: “DEPOIS DE LEILOAR O APARTAMENTO DO GUARUJÁ, A JUSTIÇA AUTORIZOU O LULA A VENDER O SÍTIO DE ATIBAIA. SÃO DUAS PROVAS IRREFUTÁVEIS DE QUE O SENHOR NADA TINHA A VER COM OS DOIS IMÓVEIS. DESMENTINDO, PORTANTO, AS INFORMAÇÕES UTILIZADAS PARA CONDENÁ-LO. ISSO NÃO É SUFICIENTE PARA CONDENAR AMBAS AS CONDENAÇÕES?” ESSA PERGUNTA É DO FERNANDO MORAIS.

LULA – Veja Fernando, querido Fernando de Morais, eu acho que esse processo não deveria existir. Vocês têm que dar uma estudadinha na história desse processo, para vocês perceberem porque ele veio para Curitiba. Seria inexplicável para o Moro, para a rede Globo de televisão, para aqueles que quiseram o impeachment da Dilma. Toda a senha do processo era tentar evitar que o Lula chegasse outra vez na presidência.

Eu acho que quem escreveu o primeiro artigo sobre isso, me chamando a atenção, uma amiga de vocês, chamada Teresa Cruvinel. Se não me falhe a memória. Ela alertava: o objetivo desse processo é chegar no Lula.

Eu tinha muita tranquilidade que não tinha como chegar por evidências. Para você ser punido você tem que ter prova. Montaram todas as mentiras possíveis, até mudar os advogados, do Léo e fazer o Léo mudar de discurso, para justificar aquilo. Tanto é que quando nós entramos com recurso na decisão do Moro, o próprio Moro disse que ele nunca disse que tinha o dinheiro da Petrobras, e ele nunca disse que o apartamento era meu. Eu então fui condenado por fatos indeterminados.

Agora, como é que você garante que um cara desse volte atrás? Depois, a sentença da juíza é pior ainda. Ela se deu ao luxo de copiar a sentença do Moro para uma coisa diferente. Eu estou provando:  não é meu. Não é meu. Bom.

Quando houve esse processo, eu me dei conta de que o grande, o zap dessa cartada de truco era o Lulinha. É preciso tirar o Lula desse negócio. Quando eu decidi ser candidato a presidente, é porque eu tinha orientação jurídica de que, por tudo o que aconteceu nesse país, por todas as decisões das instâncias eleitorais, eles poderiam até me condenar, mas eu poderia ser candidato sob judice. Meu nome poderia ir para a urna, a minha fotografia. Eu falei: é o melhor momento de eu me defender, ganhar as eleições aqui dentro.

DCM – A URNA ERA A FAVOR.

LULA – Quando eu fui pego de surpresa pela decisão de um juiz, o Barroso, dizendo que acabou essa história de que sob judice pode ser candidato.

TUTAMÉIA – O SENHOR ESTAVA LIDERANDO AS PESQUISAS. TODAS AS PESQUISAS. MUITOS ELEITORES QUE DIZIAM QUE IAM VOTAR NO SENHOR, QUANDO O SENHOR SAIU FORA DA URNA, VOTARAM  nO BOLSONARO. UMA PARCELA FEZ ESSE TRAJETO. O QUE O SENHOR TEM A DIZER PARA ESSES ELEITORES HOJE? POR QUE ISSO ACONTECEU?

LULA – Primeiro: o eleitor não é gado.

TUTAMÉIA – SÃO PROJETOS MUITO DIFERENTES.

LULA – A transferência de votos não é uma coisa simples. Eu acho que o que nós fizemos com o Haddad foi uma coisa excepcional. Excepcional.

O que aconteceu, por exemplo, veja, quando nós fizemos a passeata “Ele não”, a passeata se voltou contra nós. Pega as pesquisas para ver o quanto que ele cresceu depois daquela passeata. Porque eles conseguiram mostrar imagens que não eram da passeata como se fossem da passeata. Pega o que eles fizeram com relação ao Fernando Haddad, o kit gay.

Acho que nós tivemos uma eleição forte. O fato de gente ter votado no Bolsonaro, que votou em mim, é uma coisa que eu só posso dizer, isso é democracia, isso é liberdade de voto, o cara votou em quem ele achou que poderia, naquele instante, fazer o que ele gostaria que acontecesse no Brasil.

O discurso anticorrupção era muito forte. Historicamente é uma coisa forte. Em qualquer lugar do mundo. É por isso, Eleonora, que eu estou aqui para defender a minha inocência.

Eu poderia, eu já disse em outras entrevistas. Eu poderia ter saído do Brasil. Eu poderia ter ido para uma embaixada.

Aliás, é importante aqui [registrar] minha solidariedade ao Assange, porque acho uma aberração esse cidadão estar preso pelo crime que ele cometeu. Ele apenas fez o mundo saber da hipocrisia do comportamento americano em relação aos outros países.

TUTAMÉIA – O CHOMSKY COMPAROU O SENHOR AO ASSANGE. DEFINIU O SENHOR COMO O PRESO POLÍTICO MAIS IMPORTANTE DO MUNDO. COMPAROU A GRAMSCI. O SENHOR TAMBÉM É COMPARADO A MANDELA, E ESSA COMPARAÇÃO COM O ASSANGE FOI O NOAM CHOMSKY, QUE NOS VISITOU, FEZ. COMO O SENHOR AVALIA ESSAS COMPARAÇÕES?

LULA – Não acho que tem comparação. Eu acho que a comparação demonstra a gentileza da pessoa e, às vezes, o ódio da pessoa. Depende com quem você é comparado. Eu acho que tem muita gente com muito respeito por mim.

Eu te disse que estou aqui porque eu quero provar a minha inocência. Eu tenho uma bisneta de dois anos de idade. Espero que ela cresça tendo um orgulho do bisavô dela. Eu não posso permitir que um cínico como o Moro conte a mentira. O Dallangnol, eu tive setenta e três testemunhas, ele não foi numa audiência. Para ir à Caixa Econômica tentar pegar dois bilhões e meio ele tem tempo. Para ir fazer palestra que a Miriam Leitão arruma para ele, ele tem tempo. Para ir nas audiências, rebater as acusações, ele não vai. Aliás, uma coisa esquisita, Eleonora e Joaquim. Eu notei nas audiências, é que no mundo inteiro a gente vê o seguinte: a gente vê o juiz na mesa, a gente vê o Ministério Público acusador lá embaixo, e a defesa lá embaixo. Aqui no Brasil, você percebeu que o acusador e o juiz ficam juntos? Parece uma coisa só. Uma coisa para vocês notarem. Ou seja, normalmente, o acusador tem que ficar no mesmo pé, no mesmo patamar da defesa, mas aqui não. Aqui você não sabe quem é acusador, quem é juiz.

DCM – EU QUERIA PERGUNTAR PARA O SENHOR. O SENHOR SABE A DIMENSÃO DA SUA IMPORTÂNCIA HISTÓRICA. O SENHOR TRABALHA COM A HISTÓRIA. O TEMPO DO SENHOR É A HISTÓRIA, NÃO É HOJE, NÃO É AMANHÃ. ISSO É NÍTIDO. COM ISSO QUE HOUVE, TEM GENTE ALÉM DESSE SETOR JUDICIÁRIO, A MÍDIA. QUERO FAZER A PERGUNTA DO MIRO, QUE É DO BARÃO DE ITARARÉ, ENVIOU ESSA PERGUNTA DIZENDO O SEGUINTE: LOGO QUE FOI ROMPIDA A CENSURA, A PRIMEIRA ENTREVISTA COM O SENHOR NA PRISÃO, O SENHOR AFIRMOU QUE O MAIS GRAVE DO SEU GOVERNO FOI NÃO TER PROPOSTO A REGULAÇÃO DEMOCRÁTICA DA MÍDIA. ELE DIZ O SEGUINTE: A PRÓPRIA REPERCUSSÃO DA ENTREVISTA CONFIRMOU ESSA AVALIAÇÃO. ELA FOI CENSURADA PELA MÍDIA. INCLUSIVE DESSA EMISSORA DE TV. AÍ ELE PERGUNTA: SÓ A MÍDIA ALTERNATIVA E AS REDES SOCIAIS FURARAM O BLOQUEIO. ALÉM DA CRÍTICA À MÍDIA EMPRESARIAL, COMO O SENHOR AVALIA O PAPEL DAS MÍDIAS ALTERNATIVAS, DOS SITES, BLOGS E REDES SOCIAIS NA ATUALIDADE? QUAL A AVALIAÇÃO QUE O SENHOR FAZ?

LULA – Deixa eu só dizer uma coisa, Miro...

05 Jun 19:00

Delcídio é condenado a indenizar Lula em 1,5 milhão

by admin

A 7ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo condenou o ex-senador Delcídio do Amaral a pagar uma indenização de R$ 1,5 milhão ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por maioria de votos, o TJ acolheu um recurso da defesa de Lula e determinou o pagamento da reparação por danos morais.

Lula acionou a Justiça depois que Delcídio do Amaral afirmou, em delação premiada, que o ex-presidente queria obstruir as investigações da “lava jato”. Delcídio relatou a existência de um plano para pagar R$ 50 mil por mês ao ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerveró, e, assim, evitar que ele assinasse um acordo de delação premiada. Na ocasião, o ex-senador afirmou que a ordem para comprar o silêncio de Cerveró teria partido de Lula.

Em novembro de 2016, Lula entrou com a ação contra Delcídio, pedindo R$ 1,5 milhão por danos morais. O pedido foi negado na primeira instância. Depois disso, Lula foi absolvido nesse processo, porque não ficou comprovado que o ex-presidente participou da tentativa de compra do silêncio de Cerveró. O próprio MPF, na época, afirmou que Delcídio tinha tentado usar Lula para camuflar seu próprio interesse no caso.

O ex-presidente recorreu ao TJ, que deu provimento ao recurso e determinou o pagamento da reparação por danos morais.

Do ConJur

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05 Jun 18:06

Os navios chineses e coreanos não foram produzidos graças a proximidade ao mar: foram muitos subsídios e ajuda do governo!

by Paulo Gala

*escrito com Felipe Augusto Machado Na Ásia, especialmente na Coréia do Sul e China, o governo forçou a iniciativa privada na direção que julgou correta. Deu incentivos, subsídios, crédito e cobrou resultados. Basta olhar para qualquer caso de sucesso de lá: aço na Coreia, barcos e carros na China e Coreia, Huawei e por aí […]

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05 Jun 17:41

A Polícia e a democracia

by Unknown

Tenho o maior respeito pela Polícia de Segurança Pública. Nos últimos anos, todas (repito, todas) as minhas experiências de casual contacto com agentes dessa corporação foram extremamente positivas, evidenciando, da sua parte, um saudável profissionalismo, muito distante do autoritarismo de outros tempos. 

Sei das difíceis condições remuneratórias em que os agentes da PSP vivem, que os obrigam a uma vida espartana, às vezes passando o limiar do aceitável. Não raramente, interrogo-me mesmo se é legítimo exigir a esses agentes, frequentemente oriundos de ambientes sócio-económicos com grandes dificuldades, uma conduta de relacionamento exemplar, operando eles nas condições em que atuam. Há muito a fazer neste domínio.

Imagino, em especial, a dificuldade dos membros das forças de intervenção, em situações de elevado stress, quando objeto de provocações e sujeitos a conjunturas de grande tensão psicológica. E não posso, nesses instantes, deixar de pensar que eles são a nossa derradeira linha de defesa da ordem, em contextos de violência e potencial rotura da paz pública.

Tudo o que escrevi, e que é muito sincero, surge às vezes abalado pelo conhecimento de atuações policiais que relevam de uma cultura de racismo, xenofobia e discriminação. Admito que possa haver, aqui ou ali, algum exagero nessas denúncias, mas algum “fogo” deve haver no meio de tanto “fumo”. E o facto de, numa atitude de persistente corporativismo, se manter, por parte das suas organizações sindicais, uma teimosa recusa em reconhecer os erros dos agentes culpados desses atos, ajudando a separar “o trigo do joio”, acaba por ser uma mancha triste sobre a imagem da polícia e uma acha na fogueira de descrédito de quantos procuram denegri-la e afetar a sua autoridade junto da sociedade.

A forma bem lamentável como sindicatos da PSP agora se comportaram face a um seu colega, que procurou alertar para a necessidade de confrontar com coragem uma cultura discriminatória que, tal como em outros setores da sociedade, impregna a ação de agentes das forças policiais, foi um um imenso desserviço prestado à corporação. Atitudes como esta contribuem também para explorar a circunstância, bem conhecida, de que agentes das forças policiais integram hoje grupos de extrema-direita e desenvolvem atividades à margem das normas constitucionais.

A nossa polícia é o garante da ordem da democracia. Não se defende o sistema democrático com recurso a métodos que deixam de depender da autoridade para passarem a relevar do autoritarismo.

(Artigo que hoje publico no “Jornal de Notícias”)
05 Jun 14:02

Governo Macron se retira de evento com governo Bolsonaro em Paris

by Willy Delvalle
Protestos contra Bolsonaro em Paris. Foto: Willy Delvalle/DCM

O governo Macron retirou a participação do VI Fórum Econômico França-Brasil, entre o governo Bolsonaro, representado pelo seu ministro General Santos Cruz, a CNI (Confederação Nacional das Indústrias) e o MEDEF International, organização patronal francesa. A informação é dos organizadores do ato de manifestação mobilizado sob chuva diante da sede do Ministério das Finanças francês (Bercy) nesta terça-feira, em Paris.

Uma das organizadoras afirmou ao DCM que a participação de uma secretária do governo Macron estava prevista na agenda, mas, por conta da pressão de mais de 20 associações e ONGs francesas e europeias, o governo decidiu recuar e retirou sua participação.

Nenhum jornalista, informa, foi autorizado a cobrir o evento. Uma fonte de Bercy teria informado que esse não é o procedimento padrão do Ministério, cujos eventos normalmente são cobertos pela imprensa.

Quando a reportagem do DCM chegou ao local, um grupo de jornalistas estava do lado de fora do Ministério e era abordado pela polícia francesa. Os policiais lhes disseram que não podiam ficar no local e que, caso quisessem permanecer, deveriam se deslocar para a praça onde acontecia a manifestação.

Um dos jornalistas tentava falar com o ministro de Bolsonaro, sem sucesso. Um dos policiais informou que às 13h30, todos os participantes do evento já haviam ido embora. No site do encontro, consta que o evento deveria acontecer até as 14h.

“O governo não pode dizer que combate a extrema direita e recebê-la em Paris, fazer négocios com ela”, disse uma fonte no local.

Gritos contra Jair Bolsonaro, o fascismo, a prisão de Lula e por Marielle Franco foram entoados do lado de fora, onde franceses e brasileiros se concentraram.

Uma petição em oposição ao evento obteve mais de 6 mil assinaturas até o momento e deverá ser entregue ao presidente Emmanuel Macron assim que ultrapassar a marca de 7.500 participações.

O manifesto da petição foi publicada nos últimos dias no jornal Libération, o que teria sido determinante na decisão do governo.

Protestos contra Bolsonaro em Paris. Foto: Willy Delvalle/DCM
Protestos contra Bolsonaro em Paris. Foto: Willy Delvalle/DCM

04 Jun 14:37

De fake em fake

by Cellina Muniz

Leio relato do nosso querido editor a respeito da polêmica entre uma escola particular e um blog de “notícias” aqui e aqui. Segundo o tal blog, um possível ataque estaria sendo planejado por parte de um dos alunos do colégio. Leia aqui

Como mãe e professora, senti-me revoltada com a imprudência do tal “jornalista” em publicar notícia tão irresponsável, sem nenhuma prova mais contundente além do simples “achismo” (a manchete por si só já demonstra a incipiência de suas fontes) baseado no julgamento leviano e sumário de uma folha de caderno com anotações. O boato publicado com ares de verdade incontestável (é esse o efeito visado pelas notícias) criou, obviamente, um clima generalizado de pânico e, claro, quem mais sofreu foi o aluno acusado, obrigado a se afastar pela direção da escola.

Como estudiosa da linguagem e tentando ver esse acontecimento sob uma ótica menos passional, procuro fazer a pergunta clássica que um analista de discursos faz: por que tal enunciado (no caso, a “notícia” do blog) veio à tona?

Creio que dois elementos podem aí ser considerados: primeiramente, em uma rápida panorâmica pelo tal blog, é possível ver logo uma certa predileção por temáticas policiais, digamos assim (lemos, por exemplo, notícias sobre o massacre na Virgínia, sobre a denúncia de estupro sobre Neymar e ainda sobre um sequestro relâmpago em Parnamirim). Essa predileção, sabemos, inscreve-se numa chamada “tendência” (chamemos assim) pelo espetáculo de horrores que vários outros programas de rádio e TV também seguem, oferecendo ao interlocutor uma dose diária de violência na hora do almoço.

Esse primeiro aspecto, aliás, me remete a dois outros textos, um livro e um filme: o livro é o de Ignacio Ramonet, aqui traduzido do francês como “Propagandas silenciosas”. Refletindo sobre o fenômeno relativamente recente que era a Internet nos anos 2000, o autor afirma: “Antes, a mídia vendia informação (ou distração) a cidadãos. Agora, via Internet, vende consumidores a anunciantes”. Daí, o que pode ocorrer é “uma informação em saldos, cuja qualidade não cessou de degradar-se, por toda parte, no curso dos últimos anos. Outros fatores explicam ainda este déficit de qualidade, em particular, a espetacularização e a busca do sensacional a qualquer preço que podem levar a aberrações, a mentiras e trucagens, favorecendo novas manipulações psicológicas”.

O segundo texto a que essa tendência ao show de horrores me remete é o filme “O abutre”, do diretor Dan Gilroy, de 2014. No enredo, protagonizado por Jake Gyllenhaal, o submundo do jornalismo criminal é mostrado sem cortes, num espetáculo de sangue em que, em busca de audiência, vale tudo para se filmar uma “boa” notícia, inclusive fabricá-la, não importa por quais meios.

Aliás, é nessa direção que é possível também abordar o segundo elemento a que me referi mais acima a respeito da publicação de tal “notícia”: a fabricação de verdades. Certamente, sabemos muito bem que em termos de linguagem nunca é possível se chegar a um grau zero de neutralidade e isenção e que, de algum modo, tudo em termos de enunciação já pressupõe uma dose de invenção (o simples fato de grafar aspas na palavra notícia já demonstra aí uma atitude e avaliação pessoal do acontecimento, por exemplo). Mas, em meio às discussões sobre o mundo da “Pós-Verdade” e das “Fake News”, é inegável que no bojo das condições de produção de enunciados como a tal “notícia”, há não só relações e jogos de poder, mas também muita má fé, pra não se fazer uso de termos como “escrotice”. Que o digam, por exemplo, as eleições de Trump e Bolsonaro, baseadas na divulgação massiva de inverdades apresentadas como fatos: foram pelo menos 104 boatos propagados só durante a campanha (ver https://congressoemfoco.uol.com.br/eleicoes/das-123-fake-news-encontradas-por-agencias-de-checagem-104-beneficiaram-bolsonaro/).

De fake em fake, caminhamos assim para o abismo. Como escapar desse circo de mentiras generalizado? Não tenho fórmula certeira para isso, aliás, acho que sempre cai bem duvidar e questionar as “verdades” categóricas demais, como aquelas propostas em fórmulas, manuais, cartilhas.

Ou “notícias”.

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04 Jun 08:53

Vale, Bradesco, Gerdau e outras empresas acumulam dívida de quase R$ 1 trilhão com a Previdência

by Luiz Carlos Azenha
04 Jun 08:41

Nota de solidariedade

by Caroline Cristina de Arruda Campos

A Direção do Campus Natal Cidade Alta manifesta solidariedade ao servidor Wanderlan Porto, professor de Filosofia do Instituto Federal de Alagoas (IFAL).

O docente Wanderlan Porto, que atuou no IFRN no período de 2010 a 2013, é reconhecido pela sua competência e ética.

Em consonância com a função social do IFRN (PPP, 2012), acreditamos que a educação e o exercício da cidadania são as melhores armas para a transformação da realidade do país na perspectiva da igualdade e da justiça social. Ainda, conforme o PPP, “É preciso lembrar que a democracia pressupõe a convivência e o diálogo entre pessoas que pensam diferente e almejam coisas distintas. Ser democrático, portanto, implica o desenvolvimento das capacidades humanas de, coletivamente, discutir, elaborar e aceitar regras, buscando a mediação dos conflitos via diálogo” (PPP, 2012, p. 57).

Enviamos toda a nossa solidariedade ao professor Wanderlan.

03 Jun 19:10

MC Reaça e Brilhante Ustra, os “arianos” do bolsonarismo: misóginos e sádicos

by Cynara Menezes

O homem "ideal" de Adolf Hitler era branco "puro", sem mestiçagem; o "ariano" do bolsonarismo é torturador e agressor de mulheres

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03 Jun 12:05

Vereador do PSL chama própria legenda de “ditadura partidária” em Natal

by Rafael Duarte

Se no plano nacional o PSL é um partido sem rumo, no Rio Grande do Norte a sigla também está perdida. E pior: vai diminuir de tamanho. 

Depois que o deputado estadual, coronel Azevedo, anunciou que vai deixar o Partido, agora foi a vez do vereador de Natal Cícero Martins declarar que planeja sair do PSL.

A informação foi divulgada pela jornalista Daniela Freire.

Tanto Azevedo como Cícero, no entanto, seguem rezando a cartilha do presidente da República Jair Bolsonaro.

 Mesmo com mandatos, os dois não têm espaço no PSL. Em entrevista recente a uma rádio local, Cícero Marins afirmou que “o PSL é um quartel” e promove uma “ditadura partidária”.

Segundo informou o parlamentar conservador, só os militares têm direito à opinar e a indicar cargos na legenda.

Caso as saídas do coronel Azevedo e de Cícero Martins se concretizem, o PSL terá apenas dois parlamentares com mandato no Rio Grande do Norte: a vereadora de Natal Eleika Bezerra, e o deputado federal general Eliézer Girão, homem-forte do PSL no Estado.

Apesar da intenção declarada de deixar a sigla, Azevedo e Martins não informaram para qual legenda migrarão.

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02 Jun 12:47

Over Colégio e Curso expulsa aluno vítima de boato e será processado

by Rafael Duarte

A família de um adolescente acusado de elaborar um plano de ataque a alunos e professores do Over Colégio e Curso, no bairro de Nova Parnamirim, vai processar a escola após a decisão da direção de expulsar o aluno. A medida extrema foi informada à família na quinta-feira (30), quando foi fornecido aos pais uma declaração de transferência.

Os pais do garoto desmentem o boato divulgado com base apenas em papeis retirados da mochila do adolescente. A notícia foi veiculada no Blog do Jair Sampaio dia 28 de maio e viralizou semana passada em grupos de whatsaap, provocando pânico, especialmente entre os pais e alunos matriculados no colégio.

Nos papeis violados haviam textos em inglês, anotações matemáticas, nomes de alunos e dados de um estudo sobre depressão.

Em contato com a agência Saiba Mais, o Over Colégio e Curso disse que defendeu o aluno e que vai processar o blog que divulgou o boato.

Por meio de nota oficial repassada à imprensa pelo advogado Isaac Simião de Moraes, a família Ramos informou que, “em virtude dessa arbitrariedade, ingressamos com ação judicial no sentido de garantir a ida do nosso familiar às aulas na referida escola, pois acreditamos ser essencial que todo esse mal-entendido seja superado com a ajuda de toda a comunidade escolar”, diz o comunicado.

A escola informou à família que a diretoria do Over Colégio e Curso ficou incomodada com a quantidade de pais de alunos que ameaçaram retirar seus filhos da escola, aliado ao fato de alguns alunos já terem deixado em definitivo o colégio em razão do pânico gerado pelo episódio.

A família do adolescente explica, na nota, que o estudante era rotulado como “estranho” por ser introvertido e teve a mochila violada três vezes, desde 2018. Na terceira vez, semana passada, um grupo de alunos rasgou folhas de um pequeno caderno no qual tinham algumas anotações.

– “Esses escritos, feitos de forma aleatória e sem ligação, se referiam a estratégias a serem adotadas em jogos on-line (Clash Royale), cálculos matemáticos, uma pesquisa que estava sendo feita sobre sintomas depressivos e, por último, uma lista de nomes dos seus mais próximos colegas de sala, que o adolescente intentava convidá-los para o seu aniversário”, justificaram os pais no comunidade enviado à imprensa.

A escola não se pronunciou no dia seguinte, segundo a família, e decidiu, num primeiro momento, suspender o estudante das aulas. A expulsão só foi consolidada dia 30. A família cobra acolhimento do estudante, vítima de um boato viralizado na mídia:

– Ao expulsar o nosso familiar, quando na verdade deveria acolhê-lo e lhe oferecer condições de superação, age de forma ilícita, em clara afronta ao Estatuto da Criança e do Adolescente e ferindo o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana, que constitui uma das bases do nosso Estado Democrático de Direito. Repudiamos a forma como o Over Colégio e Curso concebe a educação, pois não se pode tratá-la como mercadoria. Dessa forma, temos a impressão de que a atitude tomada hoje contra o nosso jovem poderá ainda ser muitas vezes replicada com outros alunos vulneráveis, que necessitam de cuidado e proteção, mas, ao invés disso, encontram na instituição perseguição dos colegas, omissão dos colaboradores e exclusão de seus diretores.

A família espera que a Justiça intervenha no caso:

– Esperamos que o Poder Judiciário dê palavra final ao caso, após apuração acurada.  No entanto, esperamos mais ainda que nosso familiar esteja bem e seja acolhido em suas especificidades em um ambiente educacional sadio, comprometido e que fomente o respeito às diferenças entre seus alunos. Infelizmente, esse não foi o caso no Over Colégio e Curso”, disse.

A agência Saiba Mais solicitou uma entrevista com a família do estudante, mas o advogado informou que, num primeiro momento, apenas a nota sobre o episódio seria divulgada.

Confira a nota na íntegra:

A família Ramos vem a público esclarecer fatos ocorridos nas últimas semanas do mês de maio, envolvendo um membro de sua família, estudante, e o Over Colégio e Curso – unidade da Av. Abel Cabral, em Nova Parnamirim.

Mais precisamente no dia 21 de maio (terça-feira), o adolescente, rotulado como “estranho” por ser introvertido, teve sua mochila violada, pela terceira vez desde o ano de 2018, por um grupo de estudantes, que rasgaram folhas de um pequeno caderno no qual tinham algumas anotações.

Esses escritos, feitos de forma aleatória e sem ligação, se referiam a estratégias a serem adotadas em jogos on-line (Clash Royale), cálculos matemáticos, uma pesquisa que estava sendo feita sobre sintomas depressivos e, por último, uma lista de nomes dos seus mais próximos colegas de sala, que o adolescente intentava convidá-los para o seu aniversário.

Logo no dia seguinte, uma quarta-feira, embora a instituição de ensino tenha tido ciência do conteúdo dos escritos, permaneceu inerte em esclarecer o ocorrido aos demais alunos e seus respectivos pais e responsáveis, que já exigiam um posicionamento da escola. Para romper essa inércia, foi necessária uma histeria coletiva repercutida na mídia no dia 28 de maio, quando o membro de nossa família foi execrado publicamente e submetido a um “tribunal de rua”, sendo acusado de ser o mentor de um plano de ataque aos estudantes daquela escola.

Em reunião realizada na tarde daquele dia, a escola, embora reconhecesse o nosso familiar como vítima e que os referidos escritos não guardavam qualquer relação com atos preparatórios para um futuro crime, preferiu, para nossa surpresa, dar uma suspensão ao adolescente. Impediu-o de frequentar as aulas no decorrer da semana, mesmo com súplicas da família no sentido de que era necessário apoio psicopedagógico ao estudante para que este superasse todo esse triste episódio.

Contudo, o pior ainda estava por vir, pois no dia 30 de maio, a pedido da direção da escola, comparecemos a uma nova reunião, na qual foi comunicada a expulsão do nosso familiar, oportunidade na qual nos foi fornecido, de forma unilateral e sem consentimento, declaração de transferência do aluno.

Nessa ocasião a diretoria se mostrou incomodada com o “bombardeio” de pais de alunos que ameaçavam retirar seus filhos da escola, aliado ao fato de alguns alunos já terem deixado em definitivo a escola em razão do pânico gerado pelo episódio.

Em virtude dessa arbitrariedade, ingressamos com ação judicial no sentido de garantir a ida do nosso familiar às aulas na referida escola, pois acreditamos ser essencial que o todo esse mal-entendido seja superado com a ajuda de toda a comunidade escolar.

Esperamos que a escola reveja seus atos omissivos e arbitrários e cumpra o contrato de prestação de serviços educacionais, uma vez que é dever da instituição de ensino zelar pela integridade psicofísica dos seus alunos.

Tal obrigação decorre, por um lado, do dever de guarda que nós, pais e responsáveis transferimos temporariamente quando entregamos nossos filhos, e, por outro, da própria natureza do contrato: a educação.

Ao expulsar o nosso familiar, quando na verdade deveria acolhê-lo e lhe oferecer condições de superação, age de forma ilícita, em clara afronta ao Estatuto da Criança e do Adolescente e ferindo o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana, que constitui uma das bases do nosso Estado Democrático de Direito.

Repudiamos a forma como o Over Colégio e Curso concebe a educação, pois não se pode tratá-la como mercadoria. Dessa forma, temos a impressão de que a atitude tomada hoje contra o nosso jovem poderá ainda ser muitas vezes replicada com outros alunos vulneráveis, que necessitam de cuidado e proteção, mas, ao invés disso, encontram na instituição perseguição dos colegas, omissão dos colaboradores e exclusão de seus diretores.

Esperamos que o Poder Judiciário dê palavra final ao caso, após apuração acurada. No entanto, esperamos mais ainda que nosso familiar esteja bem e seja acolhido em suas especifidades em um ambiente educacional sadio, comprometido e que fomente o respeito às diferenças entre seus alunos. Infelizmente, esse não foi o caso no Over Colégio e Curso.

Atenciosamente,

Família Ramos, representada por seu advogado, Dr. Isaac Simião de Morais – OAB/RN no 16.883

 

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08 May 15:02

MPF reage à proibição do Ministério da Saúde: “violência obstétrica é expressão consagrada”

by Renato Batista

O Ministério Público Federal (MPF) recomendou que o Ministério da Saúde esclareça, por meio de nota, que o termo “violência obstétrica” é uma expressão consagrada em documentos científicos e que a expressão pode ser usada por profissionais da saúde, independentemente de qualquer termo de preferência do Governo Federal.

A decisão do MPF foi divulgada, na noite de terça-feira (7), após o Ministério da Saúde ter proibido o uso do termo alegando que a expressão tem “conotação inadequada, não agrega valor” e tem “viés ideológico”. A pasta também afirmou que o termo não condiz com a forma como a Organização Mundial da Saúde (OMS) se refere ao tema. Porém, a recomendação do MPF mostra que o Ministério da Saúde usou de fake news no despacho.

Segundo a recomendação do MPF, a Organização Mundial da Saúde reconhece expressamente a violência física e verbal no parto, em documentos como “Declaração de Prevenção e Eliminação de Abusos, Desrespeito e Maus-tratos durante o parto”, publicado em 2014, em que há um trecho que cita os tipos de violência que mulheres são submetidas durante o parto.

“Relatos sobre desrespeito e abusos durante o parto em instituições de saúde incluem violência física, humilhação profunda e abusos verbais, procedimentos médicos coercivos ou não consentidos (incluindo a esterilização), falta de confidencialidade, não obtenção de consentimento esclarecido antes da realização de procedimentos, recusa em administrar analgésicos, graves violações da privacidade, recusa de internação nas instituições de saúde, cuidado negligente durante o parto levando a complicações evitáveis e situações ameaçadoras da vida, e detenção de mulheres e seus recém-nascidos nas instituições, após o parto, por incapacidade de pagamento”.

O Ministério Público Federal ainda recomendou que o Ministério da Saúde adote ações positivas e recomendadas pela OMS ao invés de proibir o uso do termo ‘violência obstétrica” e deu 15 dias para que o órgão responda a recomendação.

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06 May 23:53

Bolsonaro bloqueia mais de R$ 100 milhões das universidades no RN

by Rafael Duarte

Os cortes de 30% anunciados pelo governo Bolsonaro nos orçamentos das universidades e institutos federais já bloquearam R$ 102,8 milhões da UFRN, IFRN e UFERSA. Em números absolutos, o corte será maior na UFRN, onde foi bloqueado cerca de R$ 60 milhões. Os números foram confirmados pelo pró-reitor adjunto de Planejamento Jorge Dantas e incluem custeio e investimentos.

O IFRN terá que reavaliar seus custos contabilizando R$ 27 milhões a menos em caixa. Os cortes na Ufersa chegaram a R$ 15,8 milhões.

As reitorias da UFRN e IFRN divulgaram nota após a repercussão dos cortes nos respectivos orçamentos. Na universidade federal, a reitora Ângela Paiva disse que os bloqueios vão afetar o fomento às ações de graduação, pós-graduação, pesquisa e a capacitação dos servidores. Ela lembrou que já haviam sido realizados bloqueios de recursos de todas as emendas parlamentares autorizadas na Lei Orçamentária Anual:

– Este bloqueio da ordem de 30% informado agora no início do quinto mês do ano, se transformado em corte, terá um impacto expressivo no funcionamento da instituição”, disse.

A UFRN possui 116 cursos de graduação e mais 40 mil estudantes matriculados, oferecendo ainda 94 programas de pós-graduação, os quais contemplam aproximadamente 5.500 estudantes em todas as áreas do conhecimento.

– Recentemente, a Universidade alcançou a liderança na Região Nordeste na concessão de cartas-patentes, o que atesta seu compromisso com a pesquisa, inovação, empreendedorismo e aproximação com o setor produtivo”, completou a reitora, que deixa o cargo em maio.

O pró-reitor adjunto de Planejamento Jorge Dantas lembrou que a UFRN já está vem enfrentando dificuldades financeiras em razão do orçamento reduzido, semelhante ao de 2014:

– No geral esse bloqueio é importante porque é quase um terço do que a UFRN dispõe no orçamento. E olha que estamos trabalhando com o mesmo orçamento de 2014, ou seja, então já estamos trabalhando com racionalizações”, diz.

“O corte poderá inviabilizar o funcionamento do IFRN”, diz reitor

Tão o setor financeiro do IFRN detectou o bloqueio no orçamento do IFRN pelo governo federal, a reitoria da instituição se apressou em dar uma satisfação à sociedade. Através de nota dirigida à comunidade, o reitor Wyllys Farkatt Tabosa confirmou que o corte poderá inviabilizar o funcionamento do IFRN:

“O corte é significativo e poderá inviabilizar o funcionamento do IFRN. Nesse sentido, estamos buscando interlocução com diversos agentes públicos a fim de garantir a integralidade do orçamento do Instituto. Na próxima semana estaremos participando da Reunião do Conselho de Reitores (CONIF) para debatermos o tema e propor encaminhamentos. No dia 7, o Secretário de Educação Profissional e Tecnológica, Ariosto Culau, participará dessa reunião; no dia 8 haverá uma reunião do CONIF com a Frente Parlamentar dos Institutos Federais, na Câmara dos Deputados. No dia 10 há também uma audiência marcada com o Ministro da Educação, Abraham Weintraub. Além disso, fizemos contato com o coordenador da bancada federal, Deputado Federal Rafael Motta, para uma reunião com todos os deputados federais e senadores do Rio Grande do Norte. Em paralelo, discutiremos com toda a comunidade acadêmica do IFRN sobre a situação da Instituição e os impactos do bloqueio dos recursos orçamentários”, explicou o reitor.

 

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02 May 14:42

Lenio Streck e a incoerência de operadores do direito que amam o autoritarismo

by Diario do Centro do Mundo
Lenio Streckeni

PUBLICADO ORIGINALMENTE NO CONJUR

Começo no ponto, na veia: acreditar no Estado de Direito, dizia Lord Bingham, não exige que amemos o Direito de nosso país. Você pode conservar seus preconceitos e continuar achando que advogados são vigaristas e que juízes não prestam.

Mas, complementa o nosso famoso Lord, o que você não deve esquecer é das características de um regime que não tem instituições que garantam o Estado de Direito: censura, discriminação, desaparecimentos repentinos, aquela batida na porta no meio da noite, julgamentos de fachada e a portas fechadas, tratamento degradante a prisioneiros, confissões sob tortura etc.

Vivemos tempos em que precisamos reafirmar o óbvio. É a velha tese de Orwell: em tempos de abismo, temos a tarefa de reafirmar o óbvio.

Temos que reafirmar que verdades existem, que aplicar a lei não é feio, que nem tudo é uma questão de opinião. Que a Terra é redonda, que vacinas funcionam, que o aquecimento global existe. Que Kelsen não é um exegetista. Que Newton, afinal, vejam só, não era um burro.

Pois é. Tempos de reafirmar uma velha obviedade: a democracia é o pior de todos os regimes… exceto todos os outros. E ela não é garantida. Ela veio, mas foi a duras penas. E é sobre essa trivialidade que trato hoje: o valor da democracia e das instituições que a tornam possível.

É uma relação circular. Só há democracia quando há critérios; só há critérios quando há Direito; só há Direito quando há instituições fortes; só há instituições fortes quando há respeito aos critérios que materializam a democracia.

É óbvio. Mas precisamos reafirmar o óbvio. Então, na Senso Incomum de hoje, recorro ao velho Senso Comum de Tom Paine: se, nas tiranias, o Rei é a lei, nos países livres, a lei é o Rei.

Recorro a John Locke: onde termina o Direito, inicia a tirania.

A quem interessa, então, enfraquecer o Direito? Por que gente do Direito odeia o Direito? Encontrei, por aí, nesta semana, um estudante de Direito, com mais de 80 anos, quem, em um trecho de 50 metros que o deixei andar comigo, ficou falando horrores da Constituição e das garantias processuais. Disse-lhe: saia logo dessa. Vai fazer outro curso (entendem o porquê de eu dizer “deixei andar comigo”?). Por que foi escolher justamente “Direito”? Pobre do “estudante”. Uma das frases dele foi: bandido bom é bandido morto (tenho testemunha da conversa). Só no Direito para se formar. Duvido que se formasse em Medicina ou Veterinária ou em Física ou em Filosofia (registro: disse odiar Filosofia). Aliás, hoje em dia, para chumbar na faculdade de Direito, o aluno precisa de pistolão…

Não surpreende que a cruzada anti-institucional — e, porque anti-institucional, antidemocrática — venha daqueles que parecem mais dispostos a prescindir da democracia.

É por isso, meus caros, que tanto me preocupa a naturalização de um discurso que, abertamente, brinca com a possibilidade de mandar fechar uma suprema corte (aliás, o estudante esse também quer fechar o STF).

Preocupa-me ver elogios efusivos a regimes como os da Hungria, que eliminou um dos mais fortes obstáculos à tirania: um Judiciário independente.

Para onde estamos indo? Regredimos?

Vejam, não estou dizendo que as instituições não erram. Eu concordo com Darby Shaw (Julia Roberts) em The Pelican Brief. A personagem, estudante de Direito, diz que, em Hardwick v. Bowers, a Suprema Corte dos EUA contrariou a principiologia constitucional ao reafirmar a constitucionalidade de uma lei que criminalizava a sodomia. Quando seu professor pergunta por que, então, a decisão foi aquela, a srta. Shaw responde: “Because they’re wrong”. Porque a Suprema Corte errou. Simples assim (eis o meu “Fator Julia Roberts”).

Concordo com a srta. Shaw. O Judiciário erra. Bastante. Todavia, disso não se segue que o cenário será melhor sem as instituições que, bem ou mal, garantem nosso ambiente democrático. Ou seja, não dá para violar a lei de Hume: de um é não se tira um “deve”.

Citei Orwell e Churchill, citei John Locke e Tom Paine. Recorro a mais um inglês: Tom Bingham, que falou como poucos sobre o Estado de Direito.

Repito-o, sem receio de chatear:

acreditar no Estado de Direito não exige que amemos o direito de nosso país. Você pode conservar seus preconceitos, e continuar achando que advogados são vigaristas e que juízes não prestam. Mas que você não perca de vista, não se esqueça das características de um regime que nãotem instituições que garantam o Estado de Direito…!

Esse é o ponto. Quando você estiver prestes a ir às redes sociais, nessa neocaverna, tapado de raiva, para subir a hashtag #UmSoldadoEUmCabo,pense bem. Estamos mesmo dispostos a abrir mão de nossas instituições?

Há uma série de objeções que podem ser feitas a elas. Objeções válidas. Mas, tomadas uma a uma, vê-se claramente que nenhuma leva à conclusão de que delas não precisamos.

Eu exijo de nossas instituições uma atuação dentro dos parâmetros e limites que a função impõe.

Exijo responsabilidade política.

Exijo obediência a critérios.

Exijo prognose.

Exijo coerência e integridade.

Exijo fairness.

Exijo o devido ajuste institucional dos princípios que sustentamos enquanto comunidade.

E esse é o maior elogio que posso fazer às nossas instituições. Se exijo que elas estejam à altura de nossos tempos difíceis, é porque sei que elas são capazes de fazê-lo.

É porque sei, afinal, que elas são imprescindíveis.

Não nos esqueçamos dessa trivialidade.

.x.x.x.

Lenio Luiz Streck é jurista, professor de Direito Constitucional e pós-doutor em Direito. Sócio do escritório Streck e Trindade Advogados Associados: www.streckadvogados.com.br.

02 May 14:40

Reitor da UFF declara: Não dá para fazer pesquisa de alto nível sem luz e água

by admin

Reitor da UFF (Universidade Federal Fluminense), o professor Antonio Claudio Lucas da Nóbrega diz ver com apreensão a decisão do MEC (Ministério da Educação) de contingenciar 30% dos recursos destinados às universidades federais. “Não há como ter pesquisa de alto nível se não tenho luz e água no laboratório”, disse em entrevista ao UOL.

Os cortes, ele pontua, vêm acontecendo desde 2014, época da gestão da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Mas agora é um “novo momento”, afirma. “E um mais grave ainda, em cima de algo que já estava grave.”

O bloqueio diz respeito às chamadas despesas discricionárias, que envolvem custos como água, luz, obras de manutenção e pagamento de serviços terceirizados, como limpeza e segurança. Mas, segundo Nóbrega, existe uma “integração” destas com as demais despesas da universidade. “A gente pode ter, por exemplo, impactos de número de vagas oferecidas para o próximo vestibular, pode ter dificuldades no funcionamento no segundo semestre.”

A polêmica nas federais teve início após uma declaração do ministro da Educação, Abraham Weintraub, de que o MEC iria cortar os recursos de universidades que não apresentassem desempenho acadêmico esperado e, ao mesmo tempo, estivessem promovendo “balbúrdia”.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Weintraub citou a UFF, a UnB (Universidade de Brasília) e a UFBA (Universidade Federal da Bahia) como alvo dos cortes. “A universidade deve estar com sobra de dinheiro para fazer bagunça e evento ridículo”, disse o ministro.

As instituições reagiram, afirmando que ocupam posições de destaque em rankings nacionais e internacionais e que defendem a livre manifestação do pensamento. Após repercussão negativa, o MEC mudou o tom e passou a afirmar que o bloqueio orçamentário vale para todas as universidades federais.

Ao UOL, Nóbrega afirmou que a universidade cumpre o que diz a Constituição, que estabelece o direito à livre manifestação. “Não tem por que mudar nada e não tem nada para mudar”, disse. Leia a entrevista a seguir.

UOL – Como a UFF recebeu a notícia do contingenciamento de verbas?

Antonio Claudio Lucas da Nóbrega – Nós vínhamos acompanhando o sistema financeiro [o Siafi, Sistema Integrado de Administração Financeira], que vinha atualizando informações desde a semana passada. Mas, como ele estava em constante modificação, assumimos que era algo preliminar.

Na segunda-feira, foi definitivamente fechado o sistema com aquela informação. Mas não recebemos nenhuma comunicação do MEC. Havia apenas essa informação no sistema. Mas, como nenhum lugar dizia se era a informação definitiva, nós não tínhamos como assumir que era aquilo que aconteceria. Quando ele deu entrevista, indagado, o ministro confirmou que era.

Considerando um cenário em que o corte de 30% se confirme, quais devem ser os primeiros serviços a serem cortados pela universidade?

Na verdade, nós não definimos as aplicações financeiras dessa maneira. Temos que priorizar as ações mais básicas. Isso é decidido com a comunidade, mas a responsabilidade é da administração. Por exemplo, os itens mais básicos, como água, luz etc., a gente atende em prioridade. Então, na verdade, acaba tendo um impacto em todas as atividades da universidade. Não vamos interromper água, por exemplo, e continuar pagando luz. Não faz sentido.

O que ocorre, e é importante enfatizar isso, é que esse corte de 30% já vem em cima de um orçamento que era insuficiente. Esse corte é chamado de contingenciamento. Porque, na verdade, é um bloqueio de um crédito que já estava aprovado na lei para as universidades, pela LOA [Lei Orçamentária Anual]. É um contingenciamento que existe a possibilidade de, mais para a frente, ser descontingenciado. Mas, mesmo descontingenciando esses 30%, o nosso orçamento já era insuficiente para atender a nossa necessidade.

Quer dizer, já estamos sofrendo esses impactos. Além de termos uma dívida estrutural. Temos, por exemplo, em serviços terceirizados, alguns atrasos. Nós tivemos que redimensionar todos os contratos. Por enquanto conseguimos evitar interrupção de serviços, com racionamentos.

Quais racionamentos?

Interrompemos todos os telefones celulares, inclusive do reitor. A gente fala com os telefones pessoais. A gente não usa recurso público para pagar telefone celular, mesmo reconhecendo que é fundamental para as nossas atividades.

No pagamento das empresas terceirizadas, como já estamos sofrendo, a renovação é difícil, nossas bibliotecas tiveram um horário restrito. Algum espetáculo de teatro, por exemplo, precisou ser cancelado por falta de segurança.

São prejuízos que não interferem na atividade global até agora. Mas, com um corte de 30%, aconteceria um aprofundamento dessas dificuldades.

A mobilidade dos alunos para trabalho de campo, viagens acadêmicas dos professores. A gente vai enxugando de uma forma geral. Não tem como parar de pagar água e luz, senão você para tudo. Aí vai ter que pactuar alguma restrição de serviços oferecidos.

A permanência estudantil pode ser afetada de alguma forma por esse contingenciamento?

Certamente. Há até uma afirmação [por parte do MEC] de que não seriam impactados recursos do chamado Pnaes [Plano Nacional de Assistência Estudantil], somente os discricionários, que são esses outros gastos. Mas claro que tudo é integrado.

No restaurante universitário, para ele funcionar, tem recursos do Pnaes para o alimento. Mas a água, a luz, os funcionários terceirizados, são pagos também com recursos discricionários, não só do Pnaes. Então, poderá ter um impacto também.

Quais podem ser as consequências gerais para a UFF caso esse corte seja mantido?

O que eu acho é o seguinte: é importante a gente olhar que a universidade é muito grande, muito ativa há muitos anos. Ou seja, a gente continua tendo uma carteira de realizações muito grande. Nossa apreensão é que temos um potencial enorme para contribuir com a sociedade, entende?

Não é uma questão de que eu queira recursos para a universidade. É porque a gente compreende que o nosso papel claro que não é, digamos assim, mais importante do que tudo. Mas que, historicamente, em todos os países, é uma instituição fundamental para o desenvolvimento do país. Essa é a preocupação.

A gente ter um corte de 30% e, como eu lhe falei, em cima de algo que já era insuficiente, naturalmente diminui a capacidade de realizar da universidade. A gente pode ter, por exemplo, impactos de número de vagas oferecidas para o próximo vestibular, pode ter dificuldades no funcionamento no segundo semestre.

Considerando a qualidade de ensino oferecida pela UFF, de que forma ela pode ser afetada por esse contingenciamento?

Não há como ter pesquisa de alto nível se não tenho luz e água no laboratório. O que é interessante é que a universidade é muito resiliente. Os docentes, os alunos, os técnicos são muito entusiasmados com a descoberta do mundo, de novos caminhos.

Hoje nós sofremos muito. Os cortes financeiros não estão acontecendo só agora, é importante destacar. Esse é um novo momento, e um momento mais grave ainda, em cima de algo que já estava grave. Os orçamentos da universidade estão fundamentalmente congelados desde 2014. O investimento em ciência e tecnologia vem caindo desde então. E ainda assim, apesar desse impacto, a universidade aumentou sua qualidade nos rankings internacionais.

Claro que existe um limite, que existe uma inércia. Todo o investimento nos anos anteriores gerou uma certa capacidade de infraestrutura laboratorial e tudo mais para se continuar produzindo.

A nossa universidade, por exemplo, está em nove municípios do Rio de Janeiro e mais o município de Oriximiná, no Pará, que é uma experiência lá com a Amazônia. Em todas as grandes regiões do estado, tem UFF. Não só formando gente, estamos produzindo projetos que impactam no regional, produzindo política pública local, avaliação de barragens, descobrimento de doenças, desenvolvimento econômico e interação com as empresas locais, atendimento da população carente, assistência financeira e jurídica. Imagina uma universidade tendo que reduzir tudo isso, qual o impacto na sociedade? Na produção econômica do estado?

A declaração do ministro Weintraub foi que os cortes atingiriam UnB, UFF e UFBA, que se enquadrariam em caso de “balbúrdia” e falta de desempenho. Na terça à noite, o MEC passou a falar que o corte vai ser para todas as universidades. Qual a sua avaliação sobre esse episódio como um todo?

Como reitor, sendo responsável por uma instituição tão grande, tão importante, com dezenas de milhares de pessoas, a expectativa sempre é de poder ter um grau de interlocução, não só com o governo federal, mas com todos os órgãos.

Se há necessidade de o governo produzir um corte aqui ou ali por causa de um déficit fiscal grande, a nossa expectativa, como agentes públicos, é que sejamos chamados para conversar sobre esses problemas.

Ficamos apreensivos por ver uma notícia na imprensa que confirmava um número, que estava apenas no sistema, sem que houvesse uma comunicação do ministério. Tudo bem que o ministério não é obrigado a fazer isso. Mas a nossa expectativa, particularmente em um momento de crise, é que se busque a interlocução máxima. Esse tem sido nosso trabalho. Inclusive, quero deixar reforçado que continuo aberto, estou pedindo uma audiência com o ministro e o secretário da Sesu [Secretaria de Educação Superior].

Vou para Brasília porque eu quero apresentar a universidade ao ministro. Pode ser que ele não tenha sido apresentado à universidade no seu todo, porque a universidade é muito grande. Se eventualmente tem atividades aqui e ali que incomodem uma pessoa ou outra, pode ser que isso aconteça, porque em um país livre nem tudo o que alguém faz o outro vai gostar –desde que se tenha o limite da legalidade, da preservação do espaço público e da segurança das pessoas.

Quanto ao corte, ficamos satisfeitos, por um lado, que o ministério não vá mais estabelecer um critério que não seja técnico e explicitamente colocado. Mas lamentamos que, em vez de retroceder no corte, tenha avançado. É preocupante.

A UFF pretende mudar a orientação aos alunos em relação a eventos que ocorrem na universidade ou sobre livre manifestação de opinião?

O que nos baliza não são as pessoas. São as instituições, as leis, as regras e a nossa Constituição. Então independe de governos o que eu tenho que fazer com a universidade. Entende? Não é uma disputa de pessoas. Não existe disputa. Nós somos agentes públicos. O ministro tem a função dele, os reitores temos as nossas. Nós trabalhamos em um sistema de educação, no caso de nível superior, para um resultado que é o desenvolvimento do país, como está colocado na Constituição.

Eu entendo que nós temos que simplesmente cumprir a lei e a Constituição. Está estabelecido, lá no artigo 5º, o direito à livre manifestação. Vai continuar acontecendo de acordo com a Constituição Federal. Não tem por que mudar nada e não tem nada para mudar.

O que tem para mudar, na minha opinião, é nós aperfeiçoarmos a nossa compreensão do que acontece na sociedade. O ministro, que vem de outra área, apesar de professor universitário, aparentemente não tem essa experiência de uma universidade federal grandiosa. Vamos identificar se tem algum problema aqui ou ali –mas problema do ponto de vista de aperfeiçoar a gestão. A gente reconhece. Somos um organismo vivo, e portanto estamos sempre em transformação.

Agora, se alguém pensa, eventualmente, que no meio de tantos eventos, teve algum problema, a gente corrige –não dentro de um ponto de vista da liberdade de expressão, mas, se causou algum dano ao patrimônio, alguém cometeu alguma irregularidade ou crime. Isso se apura e se tomam as providências.

Não vou dizer que a UFF é perfeita e não tem problemas. Claro que tem, ela está incluída em uma sociedade que tem problemas. Mas de jeito nenhum tem algo a corrigir do ponto de vista do comportamento da livre manifestação.

Do UOL

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02 May 13:32

Homem de 62 anos, vítima de trabalho escravo, foi usado para pegar empréstimo

by admin

O agricultor Adão Spinola trabalhou por 15 anos em uma fazenda de fumo onde raramente via a cor de dinheiro. Grande parte do tempo embriagado pela cachaça trazida pelo seu  empregador, ele dormia em uma casa sem banheiro ou cozinha que ficava dentro da fazenda, na zona rural do município de Venâncio Aires, no Rio Grande do Sul.

Mas, ainda que não tivesse acesso à água tratada ou a condições mínimas de segurança e higiene, o agricultor possuía acesso a empréstimos bancários – e uma alta dívida.

Adão só descobriu que devia R$ 180 mil reais ao Banco do Brasil quando foi resgatado de situação análoga ao trabalho escravo no último dia 15. O empréstimo não havia sido contratado por ele, e sim pelo seu patrão, Atelor Luís BaldO fumicultor utilizava o nome do empregado para obter crédito subsidiado no banco, e também como fiador em seus próprios empréstimos.

Mas Adão nunca lidou com tanto dinheiro, nem mesmo com o valor completo do seu próprio salário. “As vezes me davam pouco dinheiro, as vezes não. De uns três anos para cá, eu não pude comprar nem um sapato”, afirma. “Dava só para a bóia, e às vezes faltava ainda.”

O patrão nega que tenha se beneficiado sozinho, e argumenta que ambos eram “parceiros”  no negócio. Mas, segundo os auditores fiscais do trabalho, o valor era usado para financiar as culturas de milho e de fumo que eram propriedade de Atelor, dono da fazenda onde trabalham sete empregados. Seis deles moram no local de trabalho, em quatro casas como aquela onde morava Adão.

“O Atelor chegava com um papel e o Adão assinava de boa fé. Ao longo do tempo, criou-se uma relação de completa dependência,” diz o auditor fiscal do trabalho Rafael de Andrade Vieira. “Eu acho muito estranho que a instituição financeira aceite ele como fiador, porque ele não tinha bem nenhum”.

Entre 2004 e 2018, Atelor e Adão fizeram contratos de “parceria agrícola”. Esses contratos são comuns na região, onde um trabalhador cede um espaço da fazenda para que outro cuide dela, em troca de parte da produção. Porém, para os auditores, era claro que não se tratava de uma parceria, mas de uma relação entre patrão e empregado. Além de controlar o dinheiro, era Atelor quem determinava como era a feita a produção e as suas regras.

A cidade de Venâncio Aires é a maior produtora de tabaco do país, e a produção dessas propriedades acaba na mão de grandes empresas, muitas delas exportadoras do produto.  O fumo produzido por Atelor era vendido para as empresas CTA (Continental Tobaccos Alliance) e Tabacos Marasca. A sua esposa mantém um contrato de integração com as duas companhias, comprando sementes e insumos da empresa e se comprometendo a vender ao final da safra. A CTA e a Tabascos não foram responsabilizadas pelo caso.

Adão morava no mesmo local onde ficava o forno usado para secar as plantas de fumo, que permanecia imundo mesmo duas semanas após a ação dos auditores. Ali, o trabalhador fazia suas refeições em um fogão improvisado no chão. A água, invariavelmente suja, ele retirava de um açude próximo a sua casa. Sem banheiro, ele era obrigado a improvisar na vegetação próxima a sua casa.

Nos quinze anos em que esteve neste emprego, Adão desenvolveu um problema de alcoolismo. Ele conta que pouco bebia antes de morar ali, mas essa foi a maneira que encontrou para lidar com a situação. Muitas vezes ele só conseguia dinheiro do patrão para sustentar os seus vícios. “Eu só via cinco, dez pilas, quando eu precisava para comprar um cigarro ou um outro vício aí.”

Em alguns momentos de embriaguez, Adão conta que foi agredido pelo patrão, com quem discutia constantemente. “Ele me deu muito soco, comigo bêbado. Quando eu dizia uma coisa que ele não gostava, quando eu pedia alguma coisa e ele negava”.

A situação ficou tão grave que ele pensou diversas vezes em se matar, e diz que isso poderia ter acontecido se passasse mais tempo na chácara. “Eu estava bom para ficar morto, me jogar numa água aí e morrer,” diz.

A falta de pagamentos de salários e a entrega de bebidas alcoólicas cooperaram para que o crime de trabalho escravo fosse caracterizado, segundo a auditora auditora fiscal Lucilene Pacini.

O empregador culpa o próprio trabalhador pela situação em que vivia. Argumenta que, quando Adão chegou, havia uma mangueira que levava água potável ao local. “Há quatro anos atrás ele veio para cá, tinha água, tinha chuveiro, só não tinha vaso. Aí ele consumiu com tudo”, diz Atelor. “Ele simplesmente não cuidou. Ele tinha que preservar e não preservou”.

Adão recebeu o seguro-desemprego para trabalhadores resgatados, equivalente a três salários mínimos, além de cerca de dez mil reais em um acordo com o antigo empregador. Mas os valores não são garantia para o futuro, e Adão ainda tem grandes preocupações financeiras. Uma é a busca da aposentadoria rural, que pretende conseguir no próximo ano. A outra, é “limpar o nome no Serasa”.

Após sair da plantação de fumo, Adão parece uma pessoa totalmente distinta daquela encontrada pela fiscalização, quando estava embriagado e usando roupas sujas. Calmo, hoje ele diz que evita guardar ódio do que aconteceu ali.

Ele foi colocado em uma casa de atendimento para idosos na cidade de Cruzeiro do Sul, a pedido do Ministério Público do Trabalho. Já não bebe e pretende ir morar com uma parente em breve. Sobre novas perspectivas depois dos 15 anos de exploração diz: “Já tenho 62 anos, eu tenho esperança de viver, só isso”.

Do Repórter Brasil

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02 May 13:28

Deputado descendente de rei que fugiu de Napoleão quer mandar os brasileiros para uma guerra na Venezuela

by Kiko Nogueira

Luiz Philippe de Orléans e Bragança é deputado federal pelo PSL.

Em 2018, ele quase foi vice na chapa de Jair Bolsonaro.

Luiz Philippe é da “família real brasileira”, descendente dos Pedros I e II.

Filho de militar, tem um mestrado em ciências políticas na Universidade de Stanford, nos EUA, se define como “liberal, mas não libertário” e acredita na própria meritocracia (pode rir).

Luiz Philippe quer tirar Maduro do poder na marra. Quer guerra.

“Se a situação na Venezuela exigir intervenção externa, não vou gostar de ver os EUA liderando. Essa responsabilidade deve ser nossa”, escreveu no Twitter.

No século 19, seu antepassado Dom João VI, rei de Portugal, fugiu de Napoleão com a corte em direção ao Brasil.

No dia 22 de janeiro de 1808, o hexavô de Luiz Philippe aportou na Bahia com sua frota de navios. De lá para o Rio.

Calcula-se que 250 mil portugueses morreram lutando contra os franceses.

O general Junot enfrentou bandos valentes armados com espingardas de caça, facões e utensílios de cozinha.

Dom João só deixou a vida mansa na colônia de volta à terrinha em 1821.

Luiz Philippe quer mandar os brasileiros para o front enquanto dá tiros de papo furado no Twitter, a muitos quilômetros de Caracas.

Quem sai aos seus não degenera.

O beija-mão de Dom João VI no Rio

 

02 May 13:26

Flávio Dino compõe da linha de frente na resistência a Bolsonaro

by admin

O governo do Maranhão tem divulgado desde sexta-feira (26), em suas redes sociais, uma peça publicitária de combate ao turismo sexual. A campanha, que traz a frase “O Maranhão está à disposição dos turistas. A mulher maranhense, não” é uma resposta do governador Flávio Dino (PCdoB) a uma declaração do presidente Jair Bolsonaro.

Na quinta-feira (25), durante um café da manhã com jornalistas, em Brasília, Bolsonaro afirmou, segundo relato dos presentes, que o Brasil “não pode ser um país do turismo gay”, porque, segundo ele, “temos famílias”. “Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”, completou.

A campanha iniciada no Maranhão transformou-se nos dias seguintes em corrente adotada oficialmente pelos governos de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia. Nas eleições de outubro de 2018, Bolsonaro perdeu para Fernando Haddad (PT) em todo o Nordeste.

Por receberem repasses federais, governadores costumam evitar confrontos diretos com a Presidência da República. O governador da Bahia, Rui Costa (PT), afirmou assim que tomou posse que não mediria esforços para colaborar com Bolsonaro. Flávio Dino, em sentido oposto, tem sido direto no confronto.

Isso aconteceu, por exemplo, na terça-feira (30), com a notícia de que o Ministério da Educação havia contingenciado R$ 230 milhões de universidades federais. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o ministro Abraham Weintraub afirmou que cortaria recursos de instituições que promoverem a “balbúrdia”.

No mesmo dia, o governador disse no Twitter que “usar critérios ideológicos, e não técnicos, para cortar recursos de universidades fere a regra constitucional da autonomia universitária (art. 207 da Constituição)”. “Ou haverá novo recuo, ou nova derrota no Judiciário. Lamentável tanta confusão”, escreveu.

Em março, Dino se reuniu em Brasília com Fernando Haddad e Guilherme Boulos (PSOL), que concorreram à Presidência, e com Ricardo Coutinho (PSB), ex-governador da Paraíba, para discutir formas de fazer oposição ao governo.

No comando do estado mais pobre do país desde 2015, Dino foi o primeiro político do PCdoB a se tornar governador. Naquele ano, o Nexo publicou um perfil dele.

Eleito pela primeira vez com 63,52% dos votos, e reeleito em 2018 com 59,29%, o ex-juiz federal e professor de direito conseguiu afastar do poder local a família Sarney, cuja influência no Maranhão perdurava desde os anos 1960.

Prometia realizar mudanças profundas no estado, onde mais da metade (52,4%) da população vive em situação de pobreza, segundo dados de 2016 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Embora comunista, defendia fazer “uma revolução democrática burguesa com 300 anos de defasagem” no Maranhão. Segundo ele, o estado tinha “medo do capitalismo” e “da concorrência, do livre mercado”. Também pregava o “fim do privilégio de castas ou de estamentos que eles [os Sarney] ostentavam”.

Seu governo tem sido marcado por esforços em melhorar a educação. Em março, ele aumentou o salário inicial dos professores com jornada de 40 horas semanais para R$ 5.750, bem acima do de São Paulo, por exemplo (que é de R$ 2.585).

No mês seguinte à eleição de Bolsonaro, o governador do Maranhão editou um decreto na tentativa de se antecipar ao Escola Sem Partido, defendido pelo presidente. “Todos os professores, estudantes e funcionários são livres para expressar seu pensamento e suas opiniões no ambiente escolar da rede estadual do Maranhão”, diz o texto.

O movimento de direita prega o combate a uma suposta “doutrinação marxista” nas escolas. Como estratégia, o grupo tem filmado e exposto professores que fazem comentários políticos em sala de aula. No domingo (28), o próprio Bolsonaro publicou em seu Twitter o vídeo de uma estudante contestando uma professora que chama o escritor Olavo de Carvalho, ideólogo do bolsonarismo, de “anta”.

O decreto de Dino determina que professores, estudantes e funcionários somente poderão gravar vídeos ou áudios durante as atividades escolares “mediante consentimento de quem será filmado ou gravado”. A prática, sem autorização, pode violar a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, segundo a legislação brasileira, sendo, portanto, proibida no país.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, em janeiro, Dino afirmou que o decreto era “simplesmente o cumprimento da Constituição, que prevê a liberdade de cátedra”. “O Escola Sem Partido é o nome fantasia para escola com censura, escola que quer constranger professores e estudantes a se enquadrarem em um manual ditado de cima para baixo. É retroceder 300 anos e voltar para o período pré-iluminista”, disse.

Em março, Bolsonaro publicou um vídeo de uma pessoa urinando na cabeça de outra durante o Carnaval. O presidente justificou a publicação dizendo que precisava “expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades”. “É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro”, escreveu.

A publicação foi criticada e ganhou repercussão internacional. Dias depois, o presidente decidiu apagar o tuíte. O governador do Maranhão comentou o episódio, também publicando um vídeo sobre a festa popular em seu estado.

“Enquanto pessoas sem noção do cargo que ocupam se dedicam a difamar a maior festa popular do Brasil, faço questão de mostrar o que buscamos com o Carnaval do Maranhão. Beleza e preocupação com a justiça social”, escreveu. No vídeo que acompanhou sua declaração, apareciam duas cadeirantes participando de uma festa de rua.

Bolsonaro declarou na sexta-feira (26) que seu governo irá reduzir gastos com cursos de filosofia e sociologia. A medida tem como objetivo, segundo ele, reforçar “áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como veterinária, engenharia e medicina”. Bolsonaro repetiu discurso feito no mesmo dia pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, que é seguidor do escritor Olavo de Carvalho, durante uma transmissão ao vivo pelo Facebook.

Para Carvalho, crítico dos movimentos de esquerda, as universidades brasileiras são dominadas pelo marxismo cultural. A iniciativa visaria, portanto, enfraquecer esses grupos.

Em resposta, Flávio Dino afirmou no mesmo dia que manterá “o respeito aos cursos de filosofia e sociologia” no estado. “Sem ideias e pensamento crítico nenhuma sociedade se desenvolve de verdade. E não haverá o bem viver que tanto buscamos como direito de todos”, escreveu.

No sábado (27), o governador republicou uma campanha da UNE (União Nacional dos Estudantes) em defesa dos cursos de humanas. “Chega de retrocessos. O Brasil tem que se unir e avançar”, afirmou. No dia seguinte, retuitou uma publicação que divulgava cem livros de filosofia para serem baixados pela internet de forma gratuita.

Em outra publicação, exaltou Paulo Freire, considerado o patrono da educação brasileira devido ao seu método de alfabetização. O educador é combatido por sua pedagogia crítica pelos bolsonaristas e adeptos do Escola Sem Partido.

Houve, porém, uma ação de Bolsonaro em que Dino se contrapôs apenas parcialmente. Durante visita aos Estados Unidos, em março, o presidente assinou um acordo com o país que prevê que empresas que usam tecnologia americana possam lançar seus satélites e foguetes ao espaço a partir de Alcântara, no Maranhão. A parceria é sensível, pois levanta a discussão sobre se o país estaria abrindo mão da sua soberania nacional ao fazer concessões dentro de seu território. Sobre o assunto, o Nexo publicou um texto em março.

Dino não se opôs à exploração da base, o que o tornou alvo de críticas de parte da esquerda. Mesmo assim, se contrapôs ao presidente ao criticar detalhes do tratado. Disse, por exemplo, ser “normal que haja Acordo de Salvaguardas Tecnológicas, em razão da proteção jurídica à propriedade intelectual”. “Contudo, o acordo não pode ser abusivo e conter cláusulas que violem a soberania nacional”, afirmou.

O governador afirmou ser contrário à ampliação da área da base e à remoção de pessoas do entorno, já que a implantação da estrutura no local, há 30 anos, envolveu a retirada de famílias quilombolas da região. Para ele, a exploração comercial “não pode ser monopólio de um país” e deveria estar “à disposição de todos os países que queiram usar e tenham condições para tanto”.

“Alcântara já suportou muitos ônus com o projeto. É hora dos bônus, ou seja, caso se consume a exploração comercial é essencial que haja contrapartidas sociais em favor da cidade e da região”, disse.

Do NEXO

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02 May 12:18

STF veta regra abusiva da reforma trabalhista de Rogério Marinho

by renato renato

O ministro Alexandres de Moraes do Supremo Tribunal Federal (STF) vetou, em caráter liminar, a regra da reforma trabalhista que permitia que gestantes e mães que amamentam trabalhassem em atividades insalubres incluída na reforma trabalhista relatado pelo então deputado federal Rogerio Marinho.

Reforma trabalhista acabou com proibição de grávidas trabalharem em local insalubre
Reforma trabalhista acabou com proibição de grávidas trabalharem em local insalubre

Foto: DW / Deutsche

Na decisão provisória, Moraes argumentou que a proteção da gestante ou lactante é um “importante direito social instrumental protetivo tanto da mulher quanto da criança”. O ministro disse que a norma fere esses direitos, que não podem ser afastados por desconhecimento, impossibilidade ou a própria negligência da gestante ou lactante em juntar um atestado médico, sob pena de prejudicá-la e prejudicar o recém-nascido”.

Em vigor desde novembro de 2017, a reforma trabalhista realizada no governo Michel Temer suspendeu a proibição de gestantes e lactantes trabalharem em locais insalubres. A mudança estabeleceu que, para serem afastadas de atividades de risco com grau médio ou mínimo, mulheres nesta condição deveriam apresentar um atestado de saúde. Antes da reforma, esse afastamento era automático sem a necessidade de recomendação médica.

Ao conceder a liminar, Moraes atendeu a um pedido feito pela Confederação Nacional de Trabalhadores Metalúrgicos, que entrou com uma Ação Direita de Inconstitucionalidade (ADI). O ministro acatou o parecer da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, que afirmou que a necessidade de atestado transformava em regra a exposição ao risco.

A suspensão precisa agora ser avaliada pelo plenário do STF, que votará sua manutenção ou não. O caso ainda não tem data para ser julgado. Moraes disse que o processo está pronto para votação desde 18 de dezembro de 2018.

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