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11 Apr 21:31

Causas justas

by Diana (admin)

Por Luiz Schwarcz



Sakineh Mohammadi Ashtiani

Foi num sábado de manhã que surpreendentemente recebi um telefonema de minha amiga Louise Dennys, editora da Knopf Canadá, com quem não falava há muito tempo. Um autor da Companhia das Letras, que trabalhava em Washington e havia conhecido o presidente Lula ao lançar seu livro no Brasil, disse a Louise que eu poderia ajudar a contatar o governo brasileiro, visando evitar o apedrejamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani — a iraniana acusada de adultério e de cumplicidade no assassinato de seu marido.

— Luiz, eu coordeno um grupo que defende direitos humanos e me foi dito que só o governo brasileiro pode salvar Sakineh. A questão é premente, ela pode ser colocada no paredão do apedrejamento a qualquer momento. Você pode nos ajudar?

Na hora me ocorreram dois caminhos: tentar achar Marco Aurélio Garcia, que eu conhecera nos tempos em que trabalhei na Unicamp e que faria o assunto chegar ao presidente Lula, ou conversar com Alberto da Costa e Silva para que este me ajudasse a localizar o ministro Celso Amorim o quanto antes. Os dois caminhos se mostraram difíceis. Não encontrei nenhum contato que me levasse a Marco Aurélio rapidamente, e Alberto da Costa e Silva não encontrou prontamente o ministro Amorim. De qualquer forma, esperançoso, ele me passou um endereço eletrônico do Ministério das Relações Exteriores para onde podem ser encaminhadas mensagens do público.

— Pode mandar, meu filho, que no Itamaraty essas coisas costumam funcionar. Enquanto isso continuarei tentando encontrar o ministro Amorim.

Caprichei no teor do texto, para tentar chamar atenção de alguém relevante, bastante descrente no que Alberto me dissera.

Eu estava errado. Menos de um dia após enviar minha mensagem, recebi uma resposta de um assessor do Ministro, dizendo que já havia falado com Celso Amorim e que o governo brasileiro iria tentar ajudar, mas que era importante que o assunto não vazasse, para que o governo iraniano não soubesse do assunto pela imprensa.

Daí em diante uma correspondência ativa aconteceu entre o ministério, principalmente através do assessor do ministro, e o grupo ativista, passando por mim como mero intermediário. O resultado nós conhecemos: o assunto chegou ao presidente Lula, que ofereceu asilo para Sakineh. Suponho também que ocorreram prováveis gestões do ministro Amorim, que já havia se posicionado anteriormente contra casos semelhantes que aconteciam e ainda acontecem no Irã de Ahmadinejad. A mais que discutível política de aproximação do governo brasileiro com um governo autoritário e tirânico por vezes servia para causas nobres.

Em meio a esse evento, o tal assessor, de quem eu já ficara quase íntimo, um dia me fez a questão que mais temo, embora sua abordagem trouxesse uma delicadeza diplomática, e uma timidez com a qual me identifiquei. Perguntava-me se a Companhia das Letras ainda aceitava ler romances de escritores neófitos, e se apresentava como um deles.

Encaminhei o romance em questão para uma das nossas editoras, a Vanessa Ferrari, que vocês conhecem aqui do blog. Vanessa demorou um mês ou um pouco mais, e, corada como sempre, veio até a minha sala dizer que o livro era muito bom. Necessitava de trabalho, mas revelava um escritor de grande talento e potencial. Felizes, resolvemos bancar a aposta da Vanessa, mesmo sem a minha leitura.

Ela e Mauricio Lyrio começaram, desde então, a trabalhar juntos no livro. O autor aceitou inúmeras sugestões, fez várias versões, e depois de meses de idas e vindas, o original ficou pronto.

Memória da pedra seria um livro dos quais, de certa forma, eu me desincumbiria, num período especialmente atribulado de minha vida profissional. Entretanto, uma outra entusiasta do livro, Mariana Mendes, do departamento educacional da Companhia das Letras, inconformada, chamou minha atenção algumas semanas atrás dizendo:

— Luiz, você leu este livro? Tem que ler, é o máximo.

Hoje divido com a Vanessa, a Mariana e o Mauricio Lyrio meu entusiasmo por Mémoria da pedra, que li em uma sentada, com imenso prazer, há dois fins de semanas, em meu sítio. Fiquei encantado com um escritor que nasce muito maduro — desenvolvendo os personagens secundários com uma qualidade incomum, traço importante para avaliar o fôlego literário de um texto —, capaz de trechos belos como este que escolhi para encerrar o meu post. É uma alegria quando o acaso de uma causa humanitária tão justa leva a outra igualmente importante como a descoberta de um grande escritor.

P.S.: Procurei me informar agora sobre o que aconteceu afinal com Sakineh e não obtive nenhuma resposta assertiva. Minha amiga canadense, em resposta à minha questão, marcou um encontro pessoal comigo em Londres, que acontecerá na semana que vem. Enigma. Perguntei a uma amiga iraniana, cuja família ainda mora no Irã, e ela também não soube me dizer com certeza. Do que sei Sakineh continua presa, mas não foi apedrejada.

* * * * *

Trecho de Memória da pedra, de Mauricio Lyrio:

A tristeza, a persistência das crises eram os sinais de que, ainda que ela o amasse, ele não seria capaz de tirá-la de seu estado. O amor era um costume, uma acomodação. Não adiantava amá-lo se ela mal podia tolerar sua presença. A figura dele representava, antes de tudo, a lembrança das dores dela, o testemunho de que, apesar de todo o charme e o brilho, era uma mulher no limite, cuja angústia era aliviada com a lâmina na perna, os dedos sobre o fogo, o golpe inesperado contra os cabelos. Era triste perceber a mudança súbita de tom e a repressão do sorriso, quando ela virava o rosto em direção à porta e descobria que não era a secretária ou um paciente que entrava em sua sala, mas ele, que decidira fazer uma visita sem avisar e via aquele rosto contrair-se como o corpo de um pequeno animal subterrâneo, como se precisasse reprimir os sinais de satisfação para que ele não se esquecesse de que era o principal responsável pela miséria estampada à sua frente.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

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11 Apr 21:28

bárbaros

by alexcastro

muito medo de quem fala em nome da civilização ou aponta a barbárie no outro.

as barbaridades que os-que-se-dizem-civilizados cometem contra os-que-chamam-de-bárbaros são mais bárbaras que tudo que fazem os bárbaros.

11 Apr 17:35

Jon Lee Anderson: não, Thatcher não era uma “campeã da liberdade”, Obama

by Cynara Menezes

(tem gente que prefere Thatcher e Pinochet…)

(…a Allende e Neruda. Fazer o quê?)

O jornalista norte-americano Jon Lee Anderson, autor da biografia de Che Guevara, publicou este ótimo texto no blog da prestigiada revista The New Yorker. Tomei a liberdade de traduzi-lo para que vocês o vejam colocar a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, morta na segunda-feira 8 de abril, em seu devido lugar na história da democracia, muito além dos elogios que tratam de canonizá-la post mortem. Leiam.

***

Neruda, Pinochet e Thatcher: encontrando justiça nos restos mortais exumados de um poeta

Por Jon Lee Anderson

É curioso, historicamente falando, que Margaret Thatcher tenha morrido no mesmo dia em que os peritos criminais no Chile exumaram os restos do grande poeta chileno Pablo Neruda. Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1971 e autor do épico Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada, Neruda morreu com 69 anos (supostamente de um câncer de próstata), apenas doze dias depois do violento gope de Estado de 11 de setembro de 1973, organizado pelo comandante do exército, Augusto Pinochet, contra o presidente socialista eleito, Salvador Allende. Os aviões de combate bombardeavam o Palácio Presidencial e Allende resistia com valentia, mas cometeria o suicídio, com um fuzil que lhe havia sido presenteado pelo presidente de Cuba, Fidel Castro, quando os capangas de Pinochet tomaram o prédio. Neruda era muito amigo e apoiador de Allende; estava doente, mas planejava sair do país rumo ao México, onde havia sido convidado a se exilar. Enquanto jazia no leito de morte em uma clínica, sua casa foi destroçada pelos militares.

Em seu funeral, uma enorme multidão marchou pelas ruas de Santiago –uma cidade sombria e praticamente vazia, exceto pelos veículos militares. Diante de sua tumba, em um dos poucos atos conhecidos contra o golpe de Estado nos dias que se sucederam, os assistentes cantaram a Internacional e saudaram Neruda e também Allende. Ao mesmo tempo, os homens do regime rodeavam a cidade, queimando livros de autores proscritos e caçando aqueles que pudessem achar, para torturar ou matar.

Um par de anos atrás, o ex-motorista de Neruda expressou a suspeita de que Neruda havia sido envenenado, dizendo ter ouvido do poeta que os médicos lhe deram uma injeção e que, imediatamente depois, seu estado piorou drasticamente. Há outras pequenas evidências que reforçam sua teoria, mas nada conclusivo. Agora, é possível que a criminalística proporcione a resposta a uma incômoda pergunta histórica.

Por que trazer Maggie Thatcher a isso? Segunda-feira, em nota oficial, o presidente Barack Obama disse que Thatcher foi “uma das grandes campeãs da independência e da liberdade”. Na verdade, ela não foi. Thatcher foi uma feroz combatente da Guerra Fria e, no que diz respeito ao Chile, nunca mostrou a devida compaixão pelas pessoas que Pinochet matou em nome do anti-comunismo. Preferia falar do tão alardeado “milagre econômico chileno”.

E matar foi o que ele fez. Os soldados de Pinochet reuniram milhares de suspeitos no estádio nacional do país e, ali mesmo, os levaram aos vestiários, corredores e arquibancadas para torturá-los e assassiná-los a tiros. Centenas morreram nesta situação. Um deles foi o reverenciado cantor chileno Victor Jara, que foi massacrado, suas mãos e costelas quebradas e em seguida metralhado, seu corpo jogado fora como lixo num beco da capital –junto com muitos outros. A matança continuou inclusive depois que Pinochet e seus militares tiveram o firme controle do poder; só que era feito em segredo, nos quartéis militares, em edifícios da polícia e no interior do país. Críticos e opositores do novo regime também foram assassinados em outros países. Em 1976, a agência de inteligência de Pinochet planejou e executou um atentado com carro-bomba em Washington que acabou com a vida do ex-embaixador chileno nos Estados Unidos na gestão Allende, Orlando Letelier, assim como de seu auxiliar norte-americano Ronni Moffitt. A Grã-Bretanha qualificou a matança de Pinochet como inadequada e implementou sanções ao regime, negando-lhe prover armamentos –isso até que Margaret Thatcher se tornou primeira-ministra.

Em 1980, um ano depois que Thatcher tomou posse, acabou o embargo de armas a Pinochet; logo ele estava comprando armamentos do Reino Unido. Em 1982, durante a Guerra das Malvinas, Pinochet ajudou o governo de Thatcher com informações de inteligência sobre a Argentina. A partir daí, a relação se tornou absolutamente confortável, tanto que Pinochet e seus familiares começaram a fazer uma peregrinação particular anual a Londres. Durante estas visitas, eles e os Thatcher comiam juntos e bebericavam uísque. Em 1998, quando eu estava escrevendo um perfil de Pinochet para The New Yorker, Lucía, a filha de Pinochet, descreveu a senhora Thatcher com reverência, mas confidenciou que o comportamento do marido da Primeira-Ministra, Dennis Thatcher, era um tanto embaraçoso e que ele costumava ficar bêbado nos encontros. A última vez que me encontrei com o próprio Pinochet em Londres, em outubro de 1998, ele me disse que ia telefonar a “La Señora” Thatcher com a esperança de que tivesse tempo de encontrá-lo para o chá. Duas semanas depois, Pinochet, ainda em Londres, foi preso por ordem do juiz espanhol Baltasar Garzón. Durante a prolongada quase-detenção de Pinochet, em uma casa confortável no subúrbio londrino de Virginia Water, Thatcher mostrou sua solidariedade ao visitá-lo. Ali, diante das câmeras de televisão, expressou a dívida da Grã-Bretanha com seu regime: “Sei o quanto devemos ao senhor” por “sua ajuda durante a campanha das Malvinas”. Também disse: “Foi você quem levou a democracia ao Chile”.

(imagens do encontro)

Isso, naturalmente, é uma deturpação de proporções tão gargantuescas que não pode ser menosprezada como excesso de zelo de um amigo leal.

Pinochet morreu em 2006 sob prisão domiciliar e enfrentando mais de 300 processos criminais por violação de direitos humanos, evasão fiscal e malversação de fundos. Naquela época, suspeitava-se que tinha mais de 28 milhões de dólares escondidos em contas secretas em vários países, sem nenhum sinal de que haviam sido obtidos legalmente. No final, a única defesa de Pinochet foi uma humilhante alegação de demência –de que não era capaz de se lembrar de seus crimes. O derradeiro ataque cardíaco veio antes de que pudesse ser condenado.

Durante os anos do que poderia se chamar de retorno do Chile à democracia –quando Pinochet foi forçado a deixar a presidência após um plebiscito sobre seu mandato, que perdeu– pouco se fez para exorcizar de fato os demônios do país, e muito menos julgá-los. Pinochet  conservou o comando das forças armadas e quando se retirou, em 1998, tornou-se senador vitalício, o que lhe dava imunidade a processos judiciais. Até sua prisão na Grã-Bretanha, os presidentes que governaram o Chile “democrático” continuavam a caminhar na ponta dos pés ao redor do fato de que o ex-torturador em chefe do país seguia ditando os termos do debate nacional sobre seu passado recente. No entanto, 16 meses após o retorno à casa, Pinochet perdeu a imunidade parlamentar, foi indiciado criminalmente por alguns dos crimes da era golpista, e permaneceu boa parte do resto de sua vida em prisão domiciliar. Mas foi Michelle Bachelet, presidenta do Chile de 2006 a 2010 –a filha de um general que se opôs ao golpe e foi torturado até que morreu de um ataque do coração na prisão–, quem acabou com a tradição de deferência.

Num país onde, por décadas, a história foi enterrada, é justo que os chilenos desenterrem Neruda para averiguar o que aconteceu com ele. Em certo sentido, Neruda foi o Lorca chileno, o poeta espanhol assassinado nas primeiras semanas do golpe de estado fascista de Francisco Franco na Espanha em 1936, e cujo sangue tem sido uma mancha na consciência do país desde então.

O Chile tem agora a chance de fazer a coisa certa por seu poeta. A casa de praia de Neruda na Isla Negra, a alguns quilômetros de Santiago pela costa, é uma encantadora, modesta residência numa praia rochosa, com janelas que se abrem para o mar e decorada com a lírica coleção de carrancas de velhos barcos do poeta. Ele e sua viúva, Matilde Urrutia, foram sepultados ali, e foi lá que os peritos foram buscar a verdade sobre o que ocorreu. Mesmo que Neruda tenha morrido de câncer, como se disse na época, sua exumação é uma oportunidade para reforçar a mensagem aos autoritários de toda parte que as palavras de um poeta sempre durarão mais que as suas, e ainda mais que a adulação cega de seus poderosos amigos.

11 Apr 11:53

Governo não responde à solicitação e delegacia intima blogueiro a depoimento sobre #RevoltadoBusao

by Daniel Dantas Lemos
A prática de criminalização dos movimentos sociais e de combate à blogosfera progressista prossegue. Nesse caso, com respaldo (ou uso) de uma investigação policial. De acordo com a Lei de Acesso a Informações, o prazo máximo para que uma informação solicitada a um órgão público seja liberada é de 20 dias.  No último dia 19 de março encaminhei a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social uma solicitação de informações referentes à #RevoltadoBusao, pedindo que fossem informados os eventuais procedimentos investigativos que existissem contra mim, além da lista final de investigados. A solicitação deveria ter sido atendida até o dia 5 de abril, sexta-feira.  Não foi. Atualmente, desde a última segunda-feira, 8, o processo se encontra nas "delegacias distritais":

O uso de polícia para investigar militantes e adversários políticos é prática fascista - assim como a dificuldade em cumprir um prazo curto. Por isso não é de surpreender que antes de conhecer a resposta da poder público eu tenha sido citado para prestar depoimento na Delegacia de Narcóticos na próxima terça-feira, 16.

Estamos solicitando o adiamento, uma vez que na semana que vem estou em uma banca de concurso público aqui na UFC. Perceba que a intimação não cita a #RevoltadoBusao como citou o documento que intimou outros manifestantes. Antes de que o governo respondesse formalmente minha solicitação, o próprio governo confirma as informações oficialmente através da minha convocação.

11 Apr 11:52

@mdionisiom O dia em que Zanoni foi nosso herói

by Daniel Dantas Lemos
Por Marcos Dionísio Medeiros Caldas
Presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos

Acho que era a abertura dos Jogos Internos da ETFRN. Falo de 79 ou 80.  Um professor havia sido demitido em sala de aula. Havia um clima pesado no ar da velha ETFRN.  Também havia rusgas abafadas ainda do expurgo de alunos ocorrido meses antes. Pois na solenidade de abertura dos Jogos Internos foi anunciada a presença do Excelentíssimo Senhor Governador Lavoisier Maia e Zanoni solitariamente arrancou o grito preso na garganta de todos nós e acunhou o Governador na vaia.  Os bedéis, alguns com ligações notórias junto ao SNI, saíram em polvorosa, procurando localizar quem sabe pelo eco, o autor da vaia. A vaia, esse sentimento democrático, não deixara eco, mas ecoava ainda pelo ginásio inteiro.  Zanoni foi nosso herói naquela noite de ditaduras.  Continua a ser até hoje.  Uma tarde de um domingo qualquer do ano de 80, fui a sua casa em Ponta Negra e ao chegar e chamá-lo não encontrei resposta, mas ouvindo barulhos fui adentrando pela porta da frente enquanto o ladrão se esgueirava pela porta de trás. Vim até o posto da Telern que ficava ali perto daquela pizzaria entre o Camarões e a feirinha e liguei para a casa do pai de Zanoni e fiquei aguardando-o.  Não lembro mais o que foi roubado e para sufocar o susto misturamos jurubeba com cachaça e devoramos uns "pebas".  Depois tomamos outros porres em Potilândia e ali na baixada por trás dos Bombeiros ou mesmo no Vila Velha(?) , o bar e restaurante de Dailto, onde tínhamos um prego geminado com o da cigarreira do físico empreendedor.  A vida seguiu caminhos.  Vez por outra nos encontrávamos e era como na música de Sílvio Silva Júnior: "salve / como é que vai / amigo há quanto tempo / um ano ou mais..."  Agora , por volta das 19h, estavámos reunidos com uma colega da época da ETFRN, Dulce Bentes, tratando das faraômicas obras que Rosalba quer fazer na Av. Roberto Freire e alguém ligou para Dulce informando da morte de Zanoni.  A cabeça fica a mil e bate uma indignação e um sentimento de perda terrível.  Olhando o céu numa noite de muito calor, vejo uma estrela cintilante que nunca havia visto.  Deve ser Zanoni. Fecho os olhos e vejo as almas sebosas dos bedéis procurando pelo eco o autor da vaia. Tá no céu, vaiando as hipocrisias infelicianas da vida.  O mundo continua precisando das suas vaias, Zanoni. "Qualquer dia amigo a gente vai se encontrar....".  (MOSQUITO)
10 Apr 12:06

Corra, Kim, que a Polícia do Mundo Vem Aí.

by noreply@blogger.com (Jose Geraldo Gouvea)
Potências imperiais gostam de brincar de polícia com o mundo. Claro, no papel da polícia e chamando de ladrão quem esteja no seu caminho. Pode ser um regime realmente maligno, como a Alemanha nazista, ou um governo bem intencionado e absolutamente inofensivo, como a Nicarágua sandinista. Pode ser um regime realmente adversário, como a URSS, ou um simplesmente um amigo que tinha o defeito de se preocupar com o próprio povo, como a Guatemala de Árbenz.

No fundo a política internacional é um jogo sujo, baseado na mais abjeta e escrota hipocrisia. Para as potências hegemônicas, principalmente, princípios não existem, apenas conveniências. Pelo pretexto de combater uma “ditadura” comunista, os EUA apoiaram durante mais de uma década a ditadura comunista e genocida do Khmer Vermelho contra o governo de reconstrução nacional criado pela intervenção vietnamita. Diz que se importa com a democracia na América, mas patrocinou, a partir do final do século XIX, as ditaduras mais cruéis e caricatas da história de cada um dos países ao sul do Río Grande. Rejeita a legitimidade das eleições venezuelanas, atestada por observadores internacionais, mas teve um presidente eleito em um pleito marcado pela fraude e pela obscuridade e há menos de um ano abençoou um pleito mexicano com sinais evidentes de trapaça. E enquanto tenta erradicar o extremismo religioso talibã no Afeganistão, mantém a Arábia Saudita como “nação mais favorecida” de seu comércio, justamente o país de onde emana a maior parte do fundamentalismo islâmico de hoje.

Infelizmente, as pessoas se esquecem muito fácil desse passado de crimes dos Estados Unidos contra a soberania de outros países, esquecem das mentiras que inventaram para justificar intervenções nas quais o único interesse a se preservar era o de Wall Street. Agora a máquina de propaganda ianque está a todo vapor tentando criar um pretexto para aniquilar a deprimente Coreia do Norte, último reduto comunista tr00 deste planeta. E uma quantidade enorme de macacas de auditório senta e levanta ao ritmo ditado pela imprensa, aplaudindo e apupando conforme quem aparece tenha olhos amendoados ou não.


Para começo de conversa, vamos deixar estabelecido que este post não tem por objetivo nenhum tipo de solidariedade com a tosca Coreia do Norte, lugar aonde não quero ir morar (principalmente “morar”) nem no pior de meus pesadelos.1 E certamente se eu tivesse que escolher entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos para serem meus senhores, eu certamente preferiria os segundos. O objetivo deste post é demonstrar o funcionamento dos mecanismos que estão em ação neste episódio, e lembrar, através de paródia, um momento da história:
Primeiro foram atrás do Iraque,
e eu não disse nada porque não sou iraquiano.
Depois foram atrás do Afeganistão,
e eu não disse nada porque não sou afegão.
Então foram atrás de Honduras,
e eu não disse nada porque não sou hondurenho.
Então foram atrás da Tunísia,
e eu não disse nada porque não sou tunisino.
Então foram atrás da Líbia,
e eu não disse nada porque não sou líbio.
Estão indo atrás da Coreia do Norte,
e eu nada digo porque não sou norte-coreano.
Um dia virão atrás de nós,
e não haverá ninguém para dizer coisa alguma.
Existe um princípio na dinâmica da política internacional que diz que o inimigo é sempre bárbaro. Desumanizar o adversário faz parte do jogo. Isso se faz com palavras e com imagens, mas com palavras é melhor, porque elas atuam de forma mais subreptícia. Lembra do tempo em que se dizia que comunista comia criancinha?2

Houve uma época em que os britânicos chamavam os alemães de “hunos”, diziam que os cientistas do Kaiser tinham inventado uma arma terrível que envenenava os soldados à distância e que, se as potências centrais ganhassem a Grande Guerra, toda a Europa seria anexada ao Império Alemão.

Os hunos originais foram um povo de raça turca (ou mongólica, ou mestiça, ou negra, ou sabe-se lá o que) que atacaram a Europa Oriental no fim da Antiguidade. Os romanos os descreviam como comedores de carne crua, praticantes da automutilação, imundos, canibais etc. Quatrocentos anos antes as legiões romanas conquistaram a Gália e denunciaram a prática de sacrifícios humanos pelos druidas. Sacrifícios tão cruéis e desumanos que os pobres gauleses foram submetidos a um verdadeiro genocídio, alimentando por séculos os “circos” romanos, onde se sacrificava gente não a deuses, mas ao divertimento. Era obsceno que os gauleses sacrificassem virgens nos seus feriados. Era civilizado que os romanos sacrificassem todo tipo de gente a cada domingo.

Assim se repete a história desde sempre,  e sempre há um bárbaro novo cuja conquista se tem que justificar. Tal como Trajano pintou os dácios como monstros para poder roubar seu ouro, o império americano pinta os árabes como monstros para poder roubar seu petróleo. Certamente havia monstros entre os dácios e certamente os há entre os árabes. Mas maior foi a monstruosidade do genocídio romano, como maior é a monstruosidade dos genocídios em curso atualmente, no Iraque, na Líbia, na Síria, no Afeganistão e no Paquistão.

Quando o inimigo é fraco, às vezes nem precisa inventar muita coisa, pois a ação já terá sido concluída antes que a opinião pública tenha tempo de assimilá-la. Assim foi na Guatemala, na República Dominicana, em Granada… Mas o inimigo pode prolongar a ação, então é preciso preparar terreno. E aí é preciso inventar que ele tem “armas de destruição em massa”, “que ele é uma ameaça à paz internacional” ou que faz parte de um “eixo do mal”.

A Coreia do Norte é a bola da vez — o que significa que as baterias midiáticas ianques, tanto as próprias quanto as terceirizadas, atirarão à vontade contra o regime que se quer derrubar. Foi para vingar o 11 de Setembro e acabar com as “armas de destruição em massa” que se atacou um Iraque já exangue por mais de uma década de fortes sanções econômicas. Foi para acabar com o “terrorismo de estado” sudanês que se bombardeou o principal complexo industrial do país e se impôs um bloqueio econômico que levou o país ao caos econômico e à guerra civil. Foi para “Caçar Osama bin Laden” que se invadiu o Afeganistão e se matou mais gente que o talibã havia matado antes. Mas no fim das contas Saddam não tinha nenhuma das tais armas, a fábrica bombardeada era uma indústria farmacêutica que produzia principalmente remédios contra doenças tropicais, e Osama bin Laden estava escondido no Paquistão, país “amigo” dos Estados Unidos.

A única coisa que todos esses regimes tinham em comum era que, por serem detestáveis violadores de direitos humanos, ninguém se levantou para denunciar a violação de sua soberania. Tal como no “poema” de Martin Niemöller. Mas um dia talvez venham atrás de nós, e o resto do mundo nos verá como detestáveis também, violadores de direitos, cortadores de árvores, estupradores de turistas, possuidores de armas de destruição em massa, ou seja o que for. E ninguém falará contra nós.

[continua] — na parte 2: Por que atacar a Coreia do Norte?


1 A palavra “morar” significava originalmente trabalhar e residir em um mesmo lugar. Aplicava-se a colonos e escravos.
2 Não se sabe se alguma vez alguém comeu criancinha por ser comunista, mas é sabido que houve algumas fomes terríveis em países comunistas como União Soviética (nos anos 1930), na China (nos anos 1950), no Camboja (anos 1970) e na Etiópia (anos 1980). Não que tenham deixado de haver fome em lugares sob influência capitalista, mas fatos são fatos.
08 Apr 12:01

Tão americano quanto João da Silva

by admin

Frederick Birten Morris e Paulo Stuart Wright: o primeiro, um pastor metodista em missão no nordeste brasileiro. O segundo, filho de dois missionários norte-americanos nascido no interior de Santa Catarina. Além da cidadania americana os dois tinham outra coisa em comum: experimentaram o pior lado da ditadura brasileira.

Coincidentemente ou não, Morris, que teve sua condição de cidadão americano reconhecida e contou com a ajuda das autoridades de seu país, sobreviveu, enquanto Wright, com dupla cidadania, morreu vítima de torturas no final de 1973 e seu corpo nunca foi encontrado.

O peso da cidadania americana e da atitude dos EUA diante de ambos os casos revela-se nos documentos do projeto PlusD do WikiLeaks sobre os bastidores das investigações a respeito de Wright e Morris, presos e torturados em setembro de 1973 e setembro de 1974, respectivamente. Tendo à frente das buscas o embaixador americano em Brasília, John Crimmins, e Richard Brown, cônsul dos EUA no Recife, os telegramas mostram o início de uma crise diplomática motivada pelo sumiço de Morris e também como a dupla-cidadania de Wright foi usada pelas autoridades norte-americanas para desobrigá-las de atuar.

Subversivos, comunistas, fugitivos, clandestinos

Data desconhecida, entre julho e agosto de 1973, Recife

Um tiroteio entre agentes do Estado e um grupo de “subversivos” levou à prisão um indivíduo que atendia por “Antonio”. Ferido, Antonio foi transferido para São Paulo onde as autoridades militares o aguardavam para o interrogatório sob a prerrogativa de que ele havia assumido a liderança do movimento Ação Popular após o chefe anterior ter se exilado no exterior. “Antonio”, como foi descoberto posteriormente, era o codinome de Paulo Stuart Wright, que foi preso junto com outros membros da AP, movimento descrito pelo governo como “clandestino, com inspirações cristãs, dominado por comunistas e subversivos”.

30 de setembro de 1974, Recife

No apartamento 302 do prédio localizado no número 146 da Rua Vicente Meira, no bairro Espinheiro, o americano Fred Morris foi levado sob custódia por agentes de segurança brasileiros, sem maiores explicações, tendo os vizinhos como testemunha. Sobre o preso recaíam acusações que o colocavam como um agente comunista que promovia atividades subversivas e oferecia abrigo a outros comunistas em seu apartamento, ou até como um agente da CIA infiltrado nos movimentos contrários à ditadura brasileira. Além de Morris, a empregada e um amigo americano, Phillip Hanson, também foram levados presos naquela noite.

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O caminho até o porão

Nos documentos fica clara a trajetória que levou Wright e Morris às incontáveis horas de interrogatório e sessões de tortura nos porões do DOI-CODI, em São Paulo, e numa cela escura e sem ventilação no Quartel-geral do 4º Exército, no Recife, ambos considerados transgressores da Lei de Segurança Nacional.

Era 12 de janeiro de 1964 quando o jovem pastor metodista Frederick Morris chegou pela primeira vez ao Brasil, em missão. Dois anos antes, no sul do país, um outro jovem, Paulo Stuart Wright, lançava-se como candidato e vencia as eleições para deputado estadual em Santa Catarina.

Segundo um comunicado à imprensa divulgado pelo ministro da Justiça em 9 de outubro de 1974, Fred Morris começou a se envolver com grupos de esquerda, como a Ação Popular e o PC do B, após retornar de uma breve temporada nos EUA, em 1970. O documento ainda acusa Morris de abrigar “terroristas” como Alanir Cardoso, chefe do comitê regional do PC do B, preso no apartamento do pastor em 30 de setembro de 1974. E diz que o laboratório fotográfico completo que havia no apartamento seria a origem das fotos e microfilmes ali encontrados – junto com outros documentos – que comprovariam “a colaboração dessa pessoa com círculos subversivos”. Outros depoimentos de “subversivos” apontariam na mesma direção.

Paulo era irmão do reverendo James Wright, que à época era presidente de um grupo de presbiterianos missionários e ficou conhecido pela luta pelos direitos humanos ao lado de Dom Paulo Evaristo Arns. A relação de Paulo com o irmão foi, segundo os documentos, um assunto recorrente nos interrogatórios feitos durante sua detenção no DOI-CODI. Num dos telegramas, é repassada ao consulado a informação publicada pelo jornal “O Estado de S. Paulo” de que Paulo Stuart Wright havia sido incluído numa lista de 14 membros do movimento “marxista-leninista Ação Popular” e condenado à revelia pelo Conselho de Justiça Militar de São Paulo por realizar “atividades subversivas”.

Tão brasileiro quanto “João da Silva”

Apesar de também ser cidadão americano, Paulo Stuart Wright teve sua dupla-cidadania tratada com pouco caso e questionada pelos diplomatas, que estariam sendo pressionados a se envolver no caso em virtude da origem americana do preso. Num dos telegramas, o Departamento de Estado alega que a candidatura de Wright a um cargo político no Brasil representou um “ato de expatriação”. Em outro documento, o cônsul recebe de James Wright, irmão de Paulo, um parecer legal elaborado pelo professor da USP Goffredo da Silva Telles Junior e pela advogada Maria Eugenia Raposo da Silva Telles, no qual eles argumentam que Wright “não perdeu a cidadania americana em virtude de ter exercido seus direitos políticos no Brasil, como um cidadão brasileiro”. Um membro do Ministério das Relações Exteriores, porém, em resposta a um questionamento feito pelo Consulado americano , afirma: “no que diz respeito à legislação, Wright é brasileiro. Vocês podem intervir sobre ele tanto quanto vocês podem intervir sobre ‘João da Silva´, cidadão brasileiro”, diz o funcionário do governo brasileiro.

Já no caso de Frederick Morris, o primeiro cidadão exclusivamente americano a ser torturado no Brasil, houve uma mobilização conjunta entre a Embaixada americana em Brasília e o Consulado do Recife assim que foi constatado seu sumiço. Inicialmente, o governo brasileiro se negou a dar informações sobre o paradeiro de Morris, como o embaixador Crimmins relata ao Departamento de Estado: “O cônsul americano no Recife começou a buscar informações sobre Morris junto às autoridades de segurança brasileiras no dia 1 de outubro. Até dia 2 ele não havia sido informado que Morris estava sob custódia. No dia 2, o cônsul pediu para ver Morris e teve o acesso negado, mesmo citando a Convenção de Viena que aprova o acesso de funcionários consulares para garantir o bem-estar de detidos naturais do país representado pelo consulado. Finalmente, o cônsul foi autorizado a ver Morris apenas no dia 3 de outubro, no quarto em que Morris estava sob custódia das autoridades de segurança brasileiras”.

A resistência do governo brasileiro gerou um início de crise diplomática que rendeu comentários um ano após o episódio, durante um encontro entre Carl Schutz, relações públicas do Consulado e o Coronel João Neiva Távora, relações públicas do 4º Exército. O Coronel confidenciou a Schutz que o governo brasileiro “considerou seriamente declarar o embaixador e o cônsul como persona non grata, como resultado do incidente envolvendo Morris, mas decidiu não tomar nenhuma medida drástica esperando que o governo dos EUA reconhecesse a natureza da situação”.

Choques, pancadas e perguntas

Logo que liberada a entrada do cônsul no quartel-general do 4º Exército, no quarto dia de detenção, Richard Brown encontrou Morris com ferimentos e hematomas nas costelas do lado direito, na nádega esquerda e na região lombar. Além disso, Morris relatou ter sido submetido a sessões de choque nos genitais, pés, mamilo direito e orelha direita e ter sido forçado a permanecer de pé por mais de 24h algemado à cela. O documento ainda diz que Brown viu lacerações no pulso de Morris, que estava possivelmente torcido ou quebrado, dificultando os movimentos da mão direita.

Durante seus dias de cárcere, Fred Morris foi submetido a longas e sucessivas horas de interrogatório, feito por um homem que falava um pouco de inglês e se dizia “chefe dos interrogadores, que recebeu treinamento nos EUA”. Num encontro com o embaixador Crimmins, o pastor contou quais eram os principais interesses do interrogador: “as atividades no Conselho Mundial de Igrejas, a relação com D. Helder Câmara, a posição dentro da Igreja Metodista, vida pessoal e condição financeira”. Morris ainda revelou que a sessão terminou com uma proposta em que lhe foram oferecidas duas escolhas: confessar que ele era comunista ou um agente da CIA. Ele disse não a ambas.

Em 14 de outubro de 1974 o presidente Geisel deferiu o pedido de extradição proposto pelo Ministro da Justiça com base nas ligações de Morris com o PC do B e nos artigos 100 e 108 do Decreto de Lei 66.689 de 11 de junho de 1969 (Como o documento explica, o artigo 100 garante a expulsão de qualquer estrangeiro que vá de encontro à Lei Nacional de Segurança, ordem política ou social, tranquilidade pública, moralidade, economia, ou cujo comportamento seja nocivo e o torne perigoso aos interesses nacionais. O artigo 108 permite a expulsão baseada em investigação sumária embora o direito de defesa contra a expulsão também seja garantido). Morris deixou o país no dia 17 de outubro de 1974.

No caso de Paulo Stuart Wright, os documentos falam muito pouco sobre o período em que o ex-deputado ficou preso no DOI-CODI, em São Paulo. O embaixador entrou em contato diversas vezes com o Ministério de Relações Exteriores e com órgãos militares para saber do paradeiro de Wright e a resposta era quase sempre a mesma: “Ninguém sabe nada sobre ele em nenhum nível”. Foi o irmão de Paulo, James Wright, que apareceu com a pista mais consistente sobre o paradeiro.

Segundo James, uma mulher não-identificada relatou ter visto Paulo na sala de identificação do DOI-CODI em 5 de setembro de 1973; essa foi a última vez que alguém viu Wright vivo. Após esse encontro, a mulher foi liberada da prisão e voltou todos os dias ao DOI-CODI para entregar comida para Paulo por intermédio dos carcereiros. O ritual se repetiu por alguns dias até que na semana entre 10 e 17 de setembro ela foi informada de que Wright não estava mais preso ali. Ela deduziu que Paulo havia sido transferido para o Cenimar, no Rio de Janeiro, que teria interesse em interrogá-lo  por conta das investigações envolvendo o movimento da Ação Popular; essa informação nunca foi confirmada.

Outra informação foi trazida por um seminarista da Igreja Metodista que visitou o chefe do DOI, Major Carlos Alberto Ustra, logo após a prisão para saber sobre o paradeiro e o estado de Wright. Na ocasião, Ustra mostrou ao seminarista o título de eleitor de Wright, que James acreditava estar em posse do irmão na hora em que foi detido. Com informações fragmentadas e desencontradas, o advogado José Carlos Dias, contratado pela família Wright para investigar o caso, concluiu  que Paulo Stuart Wright faleceu entre outubro e novembro de 1973, em local desconhecido, vítima de tortura por agentes de Estado.

 

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08 Apr 11:45

Para Feliciano, morte de John Lennon foi vingança de Deus

by Daniel Dantas Lemos
O absurdo do deus de ódio pregado por Marco Feliciano, que já havia dito que Deus matou os Mamonas Assassinos porque Dinho era um crente desviado, é essa mensagem.
Falando de John Lennon, o pastor diz que queria estar lá quando descobrissem o corpo do ex-Beattle: "Me perdoe, John, mas esse primeiro tiro é em nome do Pai, esse é em nome do Filho e esse do Espírito Santo".
Que deus é esse que Marco Feliciano prega?

E por que Marco Feliciano não obedece à sua própria sugestão?
Ele diz nesse vídeo que "crente foi chamado para duas coisas: servir a Deus, pregando o evangelho, ganhando almas e aguardar o retorno do Senhor em santidade".
O que então, pastor, o senhor e a bancada dita evangélica está fazendo no Congresso Nacional e na Comissão de Direitos Humanos?
06 Apr 21:01

Os telefones e a crise

by Francisco Seixas da Costa
Um dia, no decurso de um Conselho de ministros em que se discutia um assunto sensível, um membro do governo saiu da sala e fez um telefonema através de um telefone fixo. De seguida, desconfiada, uma outra pessoa decidiu usar o mesmo telefone e, primindo a tecla de repetição, encontrou no outro lado da linha uma figura que dirigia um jornal. Jornal onde, no dia seguinte, o debate tido no Conselho de ministros apareceu descrito em pormenor.
Há minutos, dois jornalistas televisivos, sem qualquer pejo, estranhavam não estarem a receber SMS's que indiciassem o modo como as coisas estavam a correr no seio do Conselho de ministros, potencialmente decisivo para a crise política em curso. A certo passo, um deles disse que acabava de ser informado, seguramente "de dentro", de que "as coisas correram bem".
O tempo passa, mas os vícios são os mesmos. Ou, como dizem os ingleses, "old habits die hard".
05 Apr 22:29

Paulo Nogueira: Acabar com as mordomias bilionárias da mídia

by Luiz Carlos Azenha

Para a sociedade avançar, os privilégios da mídia têm que acabar

PAULO NOGUEIRA 5 DE ABRIL DE 2013 33, no Diário do Centro do Mundo

Li “A Renúncia de Jânio”, do jornalista Carlos Castelo Branco, o último grande colunista político brasileiro.

O que me levou a esse velho livro foram as recentes evocações do infame golpe militar de 1964 em seu aniversário, no dia 31 de março.

O golpe, de alguma forma, começa em Jânio, o demagogo que renunciou à presidência em 1961 quanto estava fazia apenas sete meses no cargo, por motivos jamais explicados.

Mas o que mais me chamou a atenção no livro é um episódio que mostra bem o regime de privilégios fiscais desfrutados há muito tempo pelas empresas jornalísticas brasileiras.

Castelinho, que foi assessor de imprensa de Jânio, conta que certa vez estava preparando uma sala para um pronunciamento que ele, Jânio, faria naquela noite em rede nacional de televisão.

No lugar escolhido, a biblioteca do Palácio da Alvorada, Castelinho viu sobre a mesma um exemplar do Estadão de domingo. Em cima, estava um bilhete do presidente: “Não toquem neste jornal. Preciso dele”.

“Só soube do que se tratava quando Jânio o ergueu na mão para exibi-lo audaciosamente ao país [na fala em rede] como fruto de privilégios, o esbanjamento de papel comprado com subvenção oficial, pago, portanto, pelo povo”, escreveu Castelinho.

É o chamado “papel imune”. Os contribuintes subvencionam há décadas o papel usado para imprimir jornais e revistas.

Jânio apontou o mal, mas não foi capaz de resolvê-lo. Os mesmos empresários que tanto falam num Estado mínimo não se embaraçam em, nas sombras, mamar nele em coisas como o papel imune, e em muitas outras.

Dinheiro público foi sempre usado também para financiar – em condições de mãe para filho – empreendimentos que deveriam ser bancados por nossos intrépidos, aspas, capitalistas da mídia.

Nos anos 90, Roberto Marinho comemorou ao lado de FHC a inauguração de uma supergráfica projetada para quando o jornal chegasse – hahaha – à marca de 1 milhão de exemplares.

FHC não estava na foto porque Roberto Marinho queria promovê-lo. É que o governo tinha concedido um empréstimo especial às Organizações Globo para fazer a gráfica que hoje parece uma piada.
Na inauguração do parque gráfico da Globo, em 1999, o Estado serviu de babá e evitou o risco de um investimento fracassado
Por que o empréstimo? Ora, a Globo era então já uma potência. Tinha mais de metade do faturamento da publicidade nacional, graças à tevê e a expedientes amorais como o chamado BV (bonificação por vendas).

A empresa poderia, perfeitamente, bancar o passo (torto) que decidira dar com a nova gráfica. Mas não. O Estado babá estava ali, à disposição, na figura sorridente de FHC.

Essencialmente, o resultado é que a fortuna da família Marinho foi poupada do risco de um investimento que poderia fracassar, como aconteceu.

Coisa parecida aconteceu com as outras grandes empresas em suas incursões para fazer novos parques gráficos: dinheiro farto, quase dado.

Fora o papel imune, naturalmente.

E fora, mais recentemente, artifícios como a criação de PJs (pessoas jurídicas) para reduzir os impostos pagos.

Note. As companhias jornalísticas não querem pagar impostos, mas depois esperam que o Estado – com dinheiro alheio, do “Zé do Povo”, como dizia o patriarca Irineu Marinho – esteja com os cofres cheios para bancar seus investimentos.

Para completar a tragicomédia, as empresas promovem campanhas sistemáticas de engambelação coletiva destinadas a provar, aspas, que os impostos são elevados no Brasil.

Não são. A carga tributária brasileira, na casa de 35%, é bem menor que a de países modelos, como a Escandinávia.

A diferença é que, neles, as corporações pagam o que devem. Vá, na Dinamarca ou na Noruega, inventar PJs e você é chutado da esfera corporativa e submetido a desprezo nacional.

Para que o Brasil avance socialmente, as mamatas das empresas de mídia – fiscais e não só fiscais — têm que acabar.

Não é fácil, como vemos ao constatar o que deu do brado janista de meio século atrás. Sucessivos governos têm vergado ao poder de intimidação da mídia. (Para a qual vigora ainda uma inacreditável reserva de mercado, aliás.)

Mas nada é fácil.

O poder de manipulação da mídia se reduziu, graças à internet.

Se há uma hora para fazer o que deve ser feito, é esta.

O dinheiro que custam as mordomias bilionárias da mídia deve servir à sociedade: que se construam escolas, hospitais e estradas com ele, em vez de vê-lo dar acesso à lista de superricos da Forbes.

Dilma tem que se mexer, em nome do Brasil.

Leia também:

Abert fala em desoneração para empresas jornalísticas

O post Paulo Nogueira: Acabar com as mordomias bilionárias da mídia apareceu primeiro em Viomundo - O que você não vê na mídia.

05 Apr 18:35

Que fim levou a Sakineh?

by Samy Adghirni

Dia desses me deparei na linha do tempo do Facebook com o post de um amigo que dizia ter acordado querendo saber notícias da Sakineh Mohammadi Ashtiani, a iraniana cuja condenação à morte por apedrejamento sob acusação de ter traído e matado e marido causou comoção mundial há alguns anos. Mesmo sem ter sido solicitado, me senti compelido, na minha condição de correspondente no Irã, a compartilhar as parcas informações que se tem a respeito, já que o caso desapareceu por completo do noticiário.

Escrevi ao amigo e decidi estender a resposta, de forma mais elaborada, aos leitores deste blog.

Primeiro, uma boa notícia. Na verdade, duas. 1) Sakineh está viva. 2) A execução por apedrejamento não só foi cancelada como a lei iraniana baniu de vez essa prática de indizível barbárie, pela qual a pessoa é enterrada até o peito e leva pedradas até morrer.

A notícia não tão boa é que ela continua presa numa cadeia em Tabriz, importante cidade no noroeste do Irã. Sakineh, hoje com 45 anos, se encontra numa espécie de limbo jurídico, sem que se saiba ao certo se a sentença capital será aplicada de outra forma (enforcamento), se ela cumprirá pena de prisão ou se acabará libertada em virtude de alguma decisão política.

Sakineh Ashtiani, que foi condenada a morte por apedrejamento por adultério (Divulgação/Press TV)

Um pequeno lembrete dos fatos – ou pelo menos da narrativa mais plausível, já que o caso é extremamente confuso e cheio de relatos impossíveis de verificar.

Sakineh pertence a um meio rural enraizado no extremo oeste do Irã. É uma região pobre e montanhosa, onde predomina a etnia azeri, que é completamente distinta dos persas, majoritários no país. Os azeris falam um dialeto turco e alguns sentem-se culturalmente mais próximos da Turquia ou do Azerbaijão, dois países cujas fronteiras ficam a poucas horas de carro de Tabriz, capital regional. Pratica-se nesta área um islã tido como mais conservador do que em outras cidades iranianas como Shiraz ou Kerman.

Sakineh, mãe de um rapaz e de uma moça, era dona de casa e fazia bico de babá em jardim de infância. Em 2005, seu marido foi dopado e assassinado com descarga elétrica por um primo dele e um comparsa. A polícia prendeu os dois homens e Sakineh sob suspeita de que ela tinha um caso com os matadores. Quem teria denunciado o suposto adultério é a mulher de um colega de trabalho do marido morto. O primo supostamente assassino foi condenado à morte, mas acabou perdoado pelos filhos de Sakineh e hoje está solto.

Já Sakineh confessou ter mantido “relações ilícitas com dois homens”. Há quem diga que ela se confundiu na hora de assinar a confissão de culpa por não compreender o farsi, idioma da Justiça iraniana. O processo foi todo truncado (e falho, segundo a defesa) devido às dificuldades de tradução do dialeto azeri para o farsi. Sakineh acabou condenada a um castigo físico: 99 chibatadas. A sentença teria sido aplicada na frente do filho.

Em 2006 iniciou-se o segundo processo de Sakineh, desta vez por suspeita de envolvimento na morte do marido. Ela foi inocentada das acusações de participação direta no assassinato, mas o juiz a considerou cúmplice. Após recurso, a pena foi reduzida de 10 para cinco anos de detenção. Mas eis que, de repente, algum juiz decidiu reabrir o processo por adultério, que já estava encerrado. Após uma série de reviravoltas confusas, Sakineh foi condenada à morte por apedrejamento (pena que NÃO consta no Corão). A Suprema Corte negou recurso e, em 2007, autorizou a execução.

Desde então, ONGs, governos ocidentais e advogados conduzem uma campanha para salvá-la. A polêmica chegou ao Brasil no fim do governo Lula, época em que o movimento em defesa de Sakineh pressionava o Itamaraty a aproveitar sua até então ótima relação com o Irã para interceder em favor da condenada. Lula pediu a Teerã que a libertasse e até ofereceu asilo à mulher. O governo iraniano respondeu algo na linha: “não, obrigado, deixa que eu cuido dos meus assuntos internos”.

Mas a comoção internacional parece ter surtido algum efeito. Em 2010, o governo iraniano anunciou que Sakineh “não será morta por apedrejamento”. No ano passado, altas autoridades morais e judiciárias endossaram uma decisão anterior do Parlamento para banir o apedrejamento dos textos legais iranianos. O último apedrejamento de que se tem notícia aconteceu em 2007, segundo a agência de notícias Associated Press, cuja equipe em Teerã, formada apenas por iranianos, é geralmente bem informada.

Sobram dúvidas. O que será feito de Sakineh? Ela tem, afinal, alguma culpa no assassinato do marido? Mesmo que se tenha uma posição contrária à pena de morte, é importante saber o que realmente houve. Para além da Sakineh, o que a Justiça iraniana fará com os anônimos condenados à morte por apedrejamento, mulheres e homens, que aguardam a aplicação da sentença? A execução a pedradas foi abolida só para novos casos ou também para os antigos condenados? Acho que nem a Justiça iraniana tem essas respostas.

05 Apr 18:05

Leandro Fortes: Ao Garrincha é que devemos nos ajoelhar em reverência. Não aos cartolas da Fifa, Agnelo Queiroz!

by mariafro

De acordo com a Folha Ditabranda, A Fifa vetou o nome do Estádio de Brasilia. Leandro Fortes escreve um texto emocionado em seu facebook que assino embaixo. Espero que Agnelo não seja um mané do estilo dos que tem na Fifa, mas que se espelhe no craque Mané Garrincha e diga não a tanta intromissão em nossa soberania. A Fifa não é um Estado, isso aqui não é a casa da mãe Joana.

MANDE A FIFA À MERDA, GOVERNADOR

Leandro Fortes, via Facebook

Olha, se o governador Agnelo Queiroz, do PT, de fato, se submeter a essa exigência da Fifa, eu nunca mais votarei nele. Nem nele, nem em ninguém da cambada que o apoiar nessa empreitada, aí incluídos deputados distritais, federais e senadores.

Ninguém precisa me seguir, nem mesmo concordar comigo. Mas é o mínimo que meu status de cidadão pagador de impostos e cumpridor das leis exige de mim.

Trata-se de um estádio público, brasileiro, brasiliense, construído com o dinheiro do contribuinte. A Fifa que vá sugerir e vetar nomes na casa do cacete.

Aceitar mais essa exigência da Fifa não é somente submeter a soberania nacional a uma entidade de histórico ligado à corrupção e apoio a ditaduras sanguinárias.

É negar a origem essencial do nosso futebol, da graça e da molecagem dessa arte que ainda é um de nossos maiores tesouros culturais, e que se resume tanto na coroa de Pelé como também, e principalmente, nas pernas tortas de Garrincha.

Vamos avisar ao mundo que o estádio de Brasília tem um único nome: Mané Garrincha.

A ele, Garrincha, é que devemos nos ajoelhar em reverência. Não aos cartolas da Fifa, governador.

Fifa veta nome de Mané Garrincha no estádio de Brasília na Copa

Por: BRENO COSTA E FILIPE COUTINHO DE BRASÍLIA, na Folha

05/04/2013 – 03h47

Bicampeão do mundo pela seleção brasileira em 1958 e 1962, Garrincha está proibido pela Fifa de ter seu nome associado ao estádio de Brasília durante a Copa das Confederações e a Copa-2014 A Fifa, no entanto, decidiu que, durante as competições que organiza, o complemento “Mané Garrincha” não será permitido. E isso terá de ser respeitado em propagandas e divulgações dos eventos. A entidade argumenta que as competições são de “interesse internacional” e que deve “manter a consistência dos nomes dos estádios”. Contudo, outros estádios que também possuem nomes tradicionais, e, em tese, de difícil compreensão semântica para o público internacional, como Maracanã e Mineirão, não sofrerão mudança. No que depender do governo do Distrito Federal, a Fifa não terá problemas legais em mudar temporariamente o nome do estádio –que sediará a abertura da Copa das Confederações e sete partidas do Mundial em 2014. Embora o governo tenha afirmado, em nota enviada à Folha, “estar certo de que não haverá necessidade de mudança na arena da capital federal”, projeto de lei enviado semana passada pelo governador Agnelo Queiroz (PT) aos deputados distritais inclui artigo prevendo a troca. Na prática, é uma manobra para atender a Fifa após derrota política em 2012. Já ciente do desejo da federação de não ter Mané Garrincha vinculado ao nome da arena, Agnelo vetou projeto de lei que assim o batizava. O veto foi derrubado pelos deputados. Caso o texto agora proposto por Agnelo seja aprovado, abre-se também a brecha para que a Fifa associe o estádio a um determinado patrocinador. A entidade afirma que isso não irá acontecer. Diz tratar-se de procedimento comum. Cita como exemplo os dois últimos mundiais, na África do Sul (2010) e na Alemanha (2006). Neste último caso, o exemplo mais específico é a Allianz Arena, moderno estádio do Bayern de Munique, que durante a Copa de 2006 perdeu o nome da seguradora e recebeu um genérico: Arena de Munique.

05 Apr 12:04

Obras de mobilidade para Copa serão solução perecível, segundo especialistas.

by Bicicletada Natal

Especialistas atestam que, sem investir em projetos que priorizem o transporte coletivo, as obras de mobilidade vão resolver apenas por um tempo os problemas do trânsito da capital potiguar.

DO NOVO JORNAL

O NOVO JORNAL fez um Raio-X das principais obras de mobilidade previstas para transformar Natal num imenso canteiro de obras antes e mesmo durante a Copa do Mundo de 2014. Que elas vão melhorar o trânsito da capital potiguar, não há dúvidas. A questão é: por quanto tempo? Especialistas apontam que enquanto não houver uma política de investimentos em transportes públicos, as ações acabam tendo um prazo de validade determinado pelo crescimento da frota de veículos. Trocando em miúdos, o alívio no trânsito deve ser quase tão passageiro quanto os jogos do Mundial na capital potiguar.

Foto: Eduardo Maia/NJ.
Eduardo Maia/NJ
Motoristas presos em congestionamento: um por carro
Apesar dos investimentos vultosos, especialistas em transporte não acreditam que apenas ações de infraestrutura resolvam o “gargalo” existente nas principais vias públicas de Natal. Para João Alencar, atual gerente de projetos da Secretaria Nacional de Trânsito e Mobilidade Urbana do Ministério das Cidades, que visita regularmente as capitais contempladas com obras de mobilidade para o Mundial de 2014, quanto mais se estimular a criação de estradas e de facilidades para o escoamento de carros particulares, mais comprometido ficará o sistema viário.

“É uma conta que não fecha. Temos de pensar nas pessoas e não nos carros. O que interessa é a mobilidade social e não o conforto de quem tem um automóvel. Temos de ter instrumentos para facilitar a circulação de pessoas e que interrompam o crescimento nocivo de veículos”, diz.
De acordo com o especialista a reestruturação deve partir, prioritariamente, do incentivo ao transporte público e das políticas de apoio aos veículos não motorizados, como as ciclovias e o aumento da área circulação de pedestres.

O problema da mobilidade não esbarra na falta de recursos, na visão do gestor. “Não bastar ter dinheiro. As cidades devem ter projetos para a mobilidade”, disse. Ele explicou que, desde 2003, o Governo Federal já disponibilizou R$ 21,6 bilhões para infraestrutura de transporte urbano. Até 2020, o Ministério das Cidades pretende dispor mais R$ 60 bilhões. Projetos que visam sistemas intermodais de transportes.

Além dos custos envolvidos na ampliação do sistema viário, uma construção sempre implica em desapropriações habitacionais, o que cria empecilhos, principalmente jurídicos, para a liberação das áreas. Isto ocorreu, por exemplo, com as obras de mobilidade para a Copa. A população ao longo das áreas atingidas se posicionou contrária à desapropriação, levando ao atraso que perdura até hoje. “Construir uma nova via não reduz engarrafamentos, pois facilita o acesso de mais carros e, em pouco tempo, a região pode apresentar gargalos e sobrecarga de veículos”, ressaltou.

Ainda de acordo Alencar, a reestruturação do transporte também deve ser discutida a partir dos aspectos legais da lei 12.587, sancionada em 15 de abril de 2012, e que tem como objetivos melhorar a acessibilidade e a mobilidade das pessoas, e integrar os diferentes modos de transporte.

Para José Alencar, engenheiro civil por formação, a legislação instituiu novas diretrizes para a Política Nacional de Mobilidade Urbana. O Governo Federal quer priorizar os meios de transporte não motorizados e serviço público coletivo. A mobilidade deve gerar qualidade de vida. Ele explica que, enquanto existir a degradação contínua do transporte coletivo, o que inclui questões sobre o conforto e até a violência, as pessoas vão buscar o transporte individual. “O indivíduo vai pensar numa forma de reduzir o tempo de viagem e o desconforto de utilizar ônibus lotados, sujos e sem qualidade”, afirma.

José Alencar, aliás, um dos autores da nova lei, afirma ainda que a ideia é restringir a circulação e controlar o acesso de veículos motorizados, seja permanente ou temporário, em locais e horários predeterminados. “A lei ainda facilita a criação de medidas para cobrar a circulação de veículos em áreas urbanas”, conta. A restrição da circulação em horários predeterminados é algo já regulamentado no país. O maior exemplo é o rodízio de carro da cidade de São Paulo.


“USAR CARRO É UMA ATIVIDADE INDIVIDUALISTA”
Para o ex-secretário nacional de Transporte e da Mobilidade Urbana do Ministério das Cidades, José Carlos Xavier, a “imobilidade” urbana é um problema comum em todos os grandes centros brasileiros. “O caos no trânsito é uma verdadeira epidemia. São mais de 75 milhões de veículos trafegando nas ruas de todo o Brasil. Algo precisa ser feito urgentemente”, declara.

Ele diz que todo o investimento na ampliação da malha viária está fadado ao insucesso. “É simples. Em poucos anos, todas estas novas estradas estarão repletas de automóveis, causando engarrafamentos e prejudicando a qualidade de vida”.

Na opinião de Xavier, um dos maiores especialistas em trânsito do país, que também atuou no reordenamento do tráfego em Goiânia (GO), a solução para a mobilidade passa, de forma obrigatória, pela ampliação dos serviços de transporte público. “É algo que todas as grandes metrópoles do mundo fazem. Amsterdã (Holanda), por sinal, é o maior exemplo disso. Existe todo um sistema que congrega ônibus, metrô, trem, transporte fluvial e até uma extensa linha de ciclovias. Todo este processo foi iniciado há 50 anos”, detalha.

Vale lembrar que a capital goiana passou por um intenso processo de mudança nos últimos 10 anos. Hoje, o sistema de transporte público da cidade apresenta, ao lado de Curitiba (PR), um dos exemplos de reordenamento do trânsito no Brasil. As ações levaram a construção de 13 quilômetros de Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT), outros 22 km de sistema de ônibus de alta capacidade (BRT) e mais 122 km de faixas exclusivas para ônibus coletivos. Isso tudo com uma tarifa integrada para diversos municípios da região metropolitana de Goiânia.

Xavier alerta ainda que as cidades devem trabalhar para oferecer espaços para o deslocamento dos pedestres. “Se pensa apenas em carros, ruas, viadutos, mas sempre se esquece do pedestre. Calçadas mais amplas, sinalizadas e acessíveis também fazem parte das ações para a melhoria da mobilidade”, diz.

Para ele, o brasileiro foi “doutrinado” ao automóvel. Mudar o paradigma do uso do transporte público em detrimento do veículo particular deve demandar um bom tempo. “Usar carro é uma atividade individualista. Mesmo que as estradas e o transporte público estejam melhores, o motorista sempre vai pensar: ‘agora está tudo bem. O trânsito está organizado. Não preciso deixar meu carro em casa’. O poder público precisa, com isso, aprimorar as ações de educação do trânsito e desestímulo à utilização de veículos”, avalia.

O especialista diz que os gestores já dispõem de uma série de medidas para inibir a circulação de automóveis. Ele cita o exemplo do que foi feito em Londres (Inglaterra). Em certas áreas comerciais da capital britânica, carros particulares estão proibidos de circular. É a chamada restrição geográfica. “Além disso, podem ser criados pedágios, taxas para a circulação em determinados espaços e até o uso de estacionamentos pagos. A intenção é fazer com que a pessoa deixe o carro em casa”, aponta.

José Carlos Xavier também é contra os incentivos fiscais ofertados à indústria automobilística. “Isso vai contra todo o processo de mobilidade. Enquanto parte do poder público busca soluções para readequar o tráfego, o Governo Federal cria medidas para facilitar a compra de veículos”, reclama. Ele faz referência à isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para a compra de veículos, o que ocorreu em maio do ano passado; e em alguns estados, incluindo o Rio Grande do Norte, a redução do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA).

Fonte: Novo Jornal
http://www.novojornal.jor.br/_conteudo/2013/04/cidades/9871-obras-de-mobilidade-para-copa-serao-solucao-perecivel-segundo-especialistas.php

05 Apr 12:02

Pregação de Feliciano é “racista”, afirma pastor e teólogo

by mariafro

Por sugestão de Fabio Arruda.

Leia também: Jussara Oliveira: Marco Feliciano e Silas Malafaia não me representam!

Pregação de Feliciano é “racista”, afirma pastor e teólogo

Por: Roldão Arruda, Estadão

30/03/2013

A permanência do pastor Marco Feliciano no cargo de presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara desgasta a imagem do mundo evangélico no País, provoca constrangimentos e rejeições. A  atitude mais lúcida diante do impasse seria a renúncia imediata.

Quem faz essas afirmações é o também pastor evangélico Ricardo Gondim, teólogo, mestre em ciências das religião e líder da Igreja Betesda. Na entrevista abaixo, ele também critica as declarações feitas por Feliciano de que a África e seus habitantes seriam amaldiçoados por Deus. Tal tipo de  teologia, segundo Gondim, é racista e fundamentalista na sua essência.

Gondim, que tem 58 anos, passou pelas igrejas Presbiteriana e Assembleia de Deus, antes de se vincular à Betesda, que em hebraico significa “lugar da misericórdia de Deus”. No ano passado ele rompeu com parte do movimento evangélico, após ter sido atacado e chamado de herege, por suas críticas à chamada “teologia da prosperidade”. Ele tem dito que o Deus da Bíblia não deve ser visto como um sádico que se compraz em amaldiçoar os homens, mas sim como parceiro deles.

O pastor também defende o direito dos gays ao casamento civil: “Numa sociedade que se pretende laica, é assim que deve ser.”

Como pastor, de que maneira analisa a polêmica que envolve Marco Feliciano e a Comissão de Direitos Humanos?

Fico muito constrangido com o que está ocorrendo.

Acha que as críticas a ele são dirigidas a todo os evangélicos? Ele fala em cristofobia.

O Marco Feliciano se apresenta como representante não só do mundo evangélico, mas de todo o protestantismo. Na verdade, ele pouco representa das tendências protestantes. Foi eleito por um segmento muito alienado politicamente. Candidatos como ele são eleitos, geralmente, para se tornarem os representantes de sua igreja no parlamento. Eles se preocupam mais com os interesses da igreja do que com as questões que dizem respeito a todo o País.

A que atribui o antagonismo com grupos que defendem os direitos humanos?

Ele se antagonizou com o Brasil porque expressou pelo Twitter e, depois, num culto, opiniões sobre a questão dos negros. Disse que são descendentes da parte amaldiçoada dos filhos de Noé, os filhos de Cam. É interessante observar ele não criou nada ao fazer tais afirmações. Essa teologia é muito antiga, muito anterior a ele, persistindo até hoje em alguns poucos segmentos fundamentalistas. Ela tem origem entre os colonialistas, que dividiam o mundo em três áreas – o ocidente, o oriente e o sul. Nesta última teriam ficado os possíveis descendentes do personagem bíblico, os amaldiçoados. O Feliciano lucra em cima dessa teologia, fatura em cima dela, mas não acrescenta nem desenvolve nada. É apenas o porta-voz de um grupo que, no atual contexto religioso, ainda replica argumentos usados por países colonialistas para a dominação e exploração dos mais pobres, especialmente na África. Isso é muito triste.

Diria que é uma teologia superada, fora de uso?

Não. Ainda é usada por setores de direita, ultraconservadores. Em 2010, o tele-evangelista americano Pat Robertson, dono de um canal de televisão, disse que a grande tragédia provocada pelo terremoto no Haiti naquele ano era decorrente de um pacto que os haitianos haviam feito com o diabo, quando lutavam para se livrarem do jugo da França e se tornarem independentes. Em outras palavras, em 1804 eles venderam a alma ao demônio, que veio cobrar a dívida agora, dois séculos depois. A manifestação de Robertson foi uma asneira, uma estupidez que provocou manifestações de repúdio em amplos setores da sociedade americana. Mas ele não estava falando sozinho. Ainda existem segmentos, dos quais Marco Feliciano faz parte, que repetem esse tipo de coisa, que defendem a relação entre causa e efeito, a maldição das pessoas pela divindade que tudo ordena e orquestra, como se nossas escolhas, decisões e articulações sociais não interferissem nos resultados. Trata-se de um simplismo cruel e inútil.

É o que pregam nas igrejas?

Sim. Enquanto o Marco Feliciano dizia essas coisas num círculo religioso restrito, era bem recebido pelos seus pares. Tem uma expressão que define isso da seguinte maneira: “Quando você prega para o coral, é bem aceito por ele.” Ao se tornar um homem público, porém, o discurso dele transbordou, extravasou o espaço religioso e se tornou passível de crítica pela sociedade civil.

É possível afirmar que o discurso dele é racista?

É racista na sua essência. Nasceu do racismo, dos interesses coloniais de menosprezar e demonizar o negro para justificar a sua exploração.

Esse discurso não parece mais próprio dos Estados Unidos, onde a integração racial ainda incomoda alguns setores?

Não se deve esquecer que as lideranças evangélicas no Brasil estão se orientando basicamente por autores norte-americanos.

Há pouco mais de meio século, quando se debatia o casamento interracial no Estados Unidos, grupos conservadores diziam que era proibido pela Bíblia.

Na época em que morei nos Estados Unidos e viajei pelo sul daquele país, fiquei impressionado com a forma como o movimento evangélico ainda está dividido, segregado do ponto de vista racial. Negros e brancos ainda congregam em igrejas diferentes. Certa vez acompanhei um pastor que havia ido a um hospital visitar uma pessoa muito doente. Durante a visita, ele disse ao doente que há muito tempo não o via na igreja e que estava interessado em saber o motivo daquele afastamento. Ele respondeu que não ia mais porque a igreja estava sendo frequentada por negros. O pastor quis amenizar, dizendo que os negros também são filhos de deus, mas o doente retrucou na hora que negros não têm alma. Ainda perdura ali a ideia de que o negro é um cidadão menor.

Como analisa essa ideia de maldição sobre um continente inteiro?

Além de inoportuno, é um discurso de um simplismo político absurdo, inadmissível para um deputado. Ele desconsidera que o continente africano, apesar de retalhado e dividido politicamente pelos países colonialistas, ainda abriga milhares de nações, etnias, dialetos, culturas. Quais delas são as amaldiçoadas? De qual povo ele está falando? Qual etnia? Eles não constituem um bloco único como quer o deputado.

Na sua avaliação, não existe mesmo a possibilidade de o deputado estar sendo atacado pelo fato de ser evangélico?

As declarações dele são inaceitáveis independentemente do fato de ser evangélico. Qualquer pessoa que dissesse o que ele disse enfrentaria problemas. Isso não quer dizer que a associação que se faz entre Feliciano e o mundo evangélico seja ilegítima, porque, como já disse, existem segmentos que repetem e ensinam essa teologia. Nas vezes em que me manifesto sobre isso, sempre aparecem pessoas me questionando: mas isso não está escrito na Bíblia? Não é uma verdade bíblica?

Não acha estranho esse tipo de teologia ter seguidores no Brasil?

Acho. Mas não se pode esquecer que aqui também temos os skinheads. O único país do mundo que não poderia ter ações desse grupo é o Brasil, mas nós temos.

E quanto às restrições do deputado aos gays?

O Congresso deve tratar a questão como uma demanda civil. A comunidade gay aspira por relacionamentos juridicamente estáveis e, na minha opinião, as demandas civis de qualquer grupo precisam ser contempladas pela sociedade e seus órgãos de representação. Um exemplo: foi aprovada agora uma série de leis trabalhistas que valorizam o trabalho das domésticas – o que era uma demanda justa. Todas as demandas justas precisam ser contempladas sem a necessidade de moralização exacerbada do debate. Não existem grupos que estão acima de todos os outros.

Acha que o Supremo Tribunal Federal acertou quando reconheceu os direitos dos gays?

Sim. O Supremo foi de uma felicidade extrema quando olhou para a questão homossexual de forma isenta, livre de qualquer pressão, tanto da Igreja Católica como de grupos protestantes e evangélicos. Numa sociedade que se pretende laica, é assim que deve ser. O Sérgio Buarque de Holanda já disse que o Estado não é um desdobramento maior da família ou de grupos de interesses. O Estado tem que se distinguir, tem que legislar à parte, porque não se trata de uma família grande. Se não for dessa maneira, o Brasil cai no patriarcalismo, fica sob o controle de oligarquias patriarcais, que irão legislar a partir de seus interesses, para que eles prevaleçam sobre todos. A questão gay deve ser contemplada pela sociedade civil como a reivindicação de um grupo que busca tratamento igual perante a lei.

Feliciano deve renunciar ou permanecer no cargo?

Deve renunciar logo. A teimosia dele em permanecer no cargo vai trazer prejuízos enormes para o grupo que pretende representar. O desgaste para o mundo evangélico já é patente. Existe o risco de rejeição ao grupo. Se ele realmente se vê como representante do mundo evangélico no parlamento, a renúncia seria a atitude mais lúcida diante do atual estado de coisas.

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04 Apr 23:03

GUEST POST: AS SUTIS DISCRIMINAÇÕES DA CLASSE MÉDIA

by lola aronovich
O Phillipe, que assina como Seeking Wisdom, deixou um excelente comentário no guest post sobre o rapaz que foi barrado numa festa de formatura por estar usando kilt. Pedi pra ele transformar o comentário num guest post, e ele escreveu este lindo texto.


Durante minha vida universitária aprendi sobre a teoria de reprodução de classes de Bourdieu e impressionei-me com alguns fatos. Na França o sistema educacional é diferente do daqui, todos cursam a mesma escola nos distritos, não há o aphartheid escolar brasileiro. Ainda assim, o sociólogo observou que as classes sociais tendem a se manter ao longo das gerações e há vários mecanismos, dentro e fora da escola, que explicam isso. Grosso modo, o filho do médico tornava-se médico e o filho do pedreiro tomava pra si o oficio braçal.
Fora do ambiente educacional formal temos família e sociedade. As famílias não possuem o mesmo capital cultural, não vivem em ruas semelhantes, não têm acesso aos mesmos serviços (muitos serviços básicos inexistem para as classes mais baixas), não possuem os mesmos ciclos de amizade e muito menos a mesma influência política. Dentro das escolas os mecanismos são mais sutis. Os professores não dão atenção igual a todos os alunos, mas os "escolhidos" não são frutos do acaso, e quase sempre essa escolha não é consciente. Os grupos de colegas também não se formam randomicamente, os temas a serem discutidos, os personagens das histórias e assim vai -- nada disso é por acaso. A seleção sociológica é cruel e tem como ferramenta nossos preconceitos, dos mais evidentes aos mais escondidos. Todo esse maquinário articulado vai moldando cópias de si mesmo freneticamente, mesmo quando estamos dormindo.
Minha família é da classe trabalhadora, meu pai metalúrgico e minha mãe dona de casa. Sou o segundo dos três filhos do casal, todos na mesma faixa de idade -– uma escada. Meus pais completaram o segundo grau e casaram cedo. O início do matrimônio (fim dos anos 80) parece ter sido bem complicado, meu pai começara na montadora em outra cidade, moravam de aluguel, mudamos algumas vezes. Contudo, a perspectiva era ótima. Na época a indústria estava crescendo e a vida foi melhorando rápido. Até que meu pai perdeu o emprego e minha mãe tornou-se a chefe de família.
Desde que me entendo por gente, minha mãe contribuía para a renda da família fazendo mini-pizzas congeladas em casa. Meu pai perdeu o emprego quando eu estava na quinta série, e a renda principal da casa passou a ser a dela. Acho importante enfatizar aqui no blog que as mães nas classes mais baixas são as principais administradoras de recursos. O pai detém a autoridade e cuida dos gastos primários: aluguel, água e luz. Mas a mãe responsabiliza-se pela comida, limpeza, saúde, vestuário e mesmo o pouco lazer e brinquedos. Minha mãe viveu um casamento extremamente opressor de maneira parcialmente inconsciente. Tinha uma jornada dupla dentro de casa e não tinha vida social -– uma vida para o lar. Meu ambiente familiar também tinha uma dose relativamente alta de violência. Fosse uma novela da Globo seria fácil prever o final, só que eu não fui um ponto na reta de Bourdieu.
Minha história escolar está recheada de dicas que explicam os porquês de eu ter me tornado uma exceção sociológica. Deve haver alguma dose de dom natural, mas isso sozinho não é suficiente. Começa dentro da família. Meus irmãos são inteligentes, mas eu levava todo o crédito, e a gente sabe que o incentivo influencia bastante no rendimento. Meu pai é moreno, minha mãe branca. Nasci da cor que a sociedade gosta -– todo o privilégio branco eu tenho. Cursei minhas três primeiras séries na escola pública do bairro e ganhei olhar especial da diretora, que ficou impressionada com o meu nível de leitura aos seis anos (entrei um ano adiantado).
Também recebi tratamento especial de uma professora na terceira série que procurou meus pais e os aconselhou a me retirar daquele colégio. Cursei os dois anos seguintes em uma escola subsidiada pela indústria com bolsa parcial, até a demissão de meu pai. Nesse ponto ele fez algo importante. Buscou uma escola pública de boa qualidade, encontrou um colégio estadual administrado por freiras, imensamente difícil de conseguir vagas (ainda mais para alunos externos da comunidade). Minha vaga custou seis garrafas de vinho para a Irmã diretora.
Esse colégio tinha um sistema meritocrático -– alunos melhores eram colocados em turmas melhores, havia oito delas. O vinho me conseguiu apenas a quinta turma, mas em alguns meses algumas professoras solicitaram minha mudança (que só acontecia no fim de cada ano). As turmas melhores não tinham a cara da escola. Como vocês devem imaginar, o número de alunos negros decrescia e a renda familiar aumentava. À medida que essas pequenas interferências aconteciam eu ia deixando de pertencer ao bairro pobre da periferia, ia perdendo contato com os amigos de lama, guerra de mamonas, polícia e ladrão, e começava a invadir um território hostil.
A classe média apresenta um código de conduta moral à parte que possui o objetivo de manter seu status privilegiado. Meu segundo grau foi numa escola técnica federal e é um dos ambientes apropriados por essa classe. Eu não tinha dinheiro para os livros que, felizmente, conseguia emprestado -– edições desatualizadas que não cheiravam a novo e não tinham os mesmos exercícios. Os de inglês eram os mais caros (até cinco vezes mais, e super finos), e lembro da arbitrariedade de não permitirem livros usados porque os exercícios estariam feitos.
Aí vem a integração com a turma: a vergonha pelo tênis furado, calça surrada, a falta de familiaridade com os assuntos, as modas, as festas, os cursos de línguas, artes marciais, os bailes de quinze anos, os videogames de última geração, computadores, os passeios na cidade, as viagens no exterior, a formatura e até as excursões. Muitas vezes a falta de dinheiro era proibitiva, em outras o isolamento geográfico (morava na periferia de uma cidade vizinha a BH). Às vezes era tudo isso mais a vontade de enfiar a cabeça debaixo da terra para sempre. Acho que a primeira vez que senti a pressão de não pertencer foi quando não consegui ir às excursões da escola a Ouro Preto.
Imagino que meninas devem sofrer um extra com a exigência de maquiagens e apetrechos cada vez mais cedo. A falta de compatibilidade, ainda mais nessa fase da vida, detona a autoestima e te torna vulnerável ao bullying. Tornei-me apático, introspectivo e tímido. Dava alguma atenção aos estudos, mas matei muitas aulas por não querer estar naquele ambiente desconfortável. Foi um mundo diferente com várias oportunidades e vários preconceitos, mas, felizmente, passou.
Fui premiado com a aprovação no vestibular em duas universidades federais e acessei um dos ambientes mais privilegiados e férteis do país. Não havia cotas, mas havia um bônus na nota para quem tivesse cursado escola pública. O código de conduta era o mesmo, com o acréscimo de a vida universitária exigir maior interação em calouradas, boates, e festas. Quanto mais prestigiado o curso, mais caro ingressar na vida social dele. As relações humanas com a classe média precisam passar pelo crivo da aceitabilidade social. Já tinha criado aversão às convenções sociais mais formais, não tinha condições nem vontade de pagar comissões de formatura e fui à festa da minha por pedidos de amigos, mas não me senti confortável.
Durante toda minha graduação tive alguma atividade remunerada para me sustentar. Conheci e me apaixonei pela ciência e recuperei minha voz e opinião. Das políticas de inclusão da minha universidade, a mais relevante (além do bandejão) foi a moradia universitária, que, óbvio, possui uma demanda infinitamente maior que a oferta de vagas. Na moradia encontrei um universo: alunxs de vários cursos, cidades e opiniões. Fiz muitos amigos lá e elxs me fizeram quebrar muitos preconceitos sociais que eu tinha acumulado.
Peço desculpas por esse relato longo, mas percebo sua importância. Estamos vivenciando a expansão do ensino superior, e histórias parecidas com a minha devem aumentar. A conquista de direitos pelas classes mais baixas fomenta uma onda conservadora no país, e os preconceitos e estereótipos das minorias não vão ajudar a convivência desses novos alunos. As políticas de inclusão na universidade servem para criar a convivência dentro de um espaço tradicionalmente ocupado pela classe média. Minha expectativa sincera é que o confronto de classes resulte na quebra de preconceitos e desses padrões absurdos de conduta que excluem e limitam as relações humanas em prol de ideais egoístas.
02 Apr 10:53

No Jornal Nacional, processar jornalistas é um "revés catastrófico" para a liberdade de expressão. Só o Kamel pode?

by Antônio Mello
Ano passado, o Jornal Nacional, da Rede Globo, principal peça do jornalismo da Rede, cujo diretor geral chama-se Ali Kamel, exibiu reportagem em que criticava duramente o presidente do Equador, Rafael Correa, que havia processado um jornalista e os donos do jornal que publicou a coluna, onde o jornalista afirmava o seguinte contra Correa:

Rafael Correa entrou com a ação por causa de uma coluna publicada em fevereiro do ano passado. Nela, Emílio Palácio criticava a atuação de Correa durante uma revolta de policiais em setembro de 2010. E dizia que o presidente, a quem chamava de ditador, "tinha dado ordem de abrir fogo, sem aviso prévio, contra um hospital cheio de civis e gente inocente".

O presidente Correa os processou e a Justiça condenou jornalistas e donos do El Universo (uma Rede Globo do Equador) a três anos de prisão e ao pagamento de uma indenização de US$ 40 milhões ao presidente.

Edições do Jornal Nacional (repito, sob Ali Kamel) criticaram a atitude do presidente Correa:

A OEA poderá pedir oficialmente ao governo equatoriano que respeite os direitos humanos dos jornalistas e que faça uma revisão de todo o processo.
A organização Repórteres Sem Fronteiras declarou que a decisão da Suprema Corte é um "revés catastrófico" para a liberdade de expressão.
A Sociedade Interamericana de Imprensa considerou a sentença desproporcional e teme que outros veículos adotem a autocensura. [Fonte]

O Instituto Internacional de Imprensa disse que ficou escandalizado com a sentença, desproporcional ao possível delito. A organização Repórteres Sem Fronteiras considerou a decisão uma intimidação judicial.

O Instituto de Imprensa e Sociedade afirmou que Rafael Correa é um exemplo deplorável de abuso e falta de tolerância de um mandatário. Para a Sociedade Interamericana de Imprensa a sentença é um golpe aos princípios da liberdade de informação. [Fonte]

O curioso é que o presidente do Equador, Rafael Correa, não é exatamente um defensor da liberdade de imprensa, ao contrario de Assange. O presidente equatoriano vive dizendo que a imprensa está a serviço de grandes grupos empresariais, que só querem desestabilizar as instituições. [Fonte]

Agora, o mesmo Ali Kamel do Jornal Nacional, que criticou processos contra jornalistas como atentados à liberdade de expressão, processa jornalistas, conseguindo algumas vitórias na Justiça, ainda que em primeira instância. O último condenado foi o Azenha, do Viomundo.

Será que o JN de hoje vai denunciar o Diretor de Jornalismo e Esportes da Rede Globo, Ali Kamel, por perseguição a jornalistas e atentado à liberdade de imprensa?

01 Apr 16:58

Cabras, bandidos e drogados

by Vitor Angelo

Um jornalista de uma grande revista de circulação nacional comparou os homossexuais a cabras. Um pastor evangélico em entrevista na TV, por sua vez, ligou os gays aos bandidos. Uma cantora resolveu então fazer sua parte e correlacionou LGBTs a drogados.

De certa forma, mais do que dizer aos gays, estas comparações dizem muito sobre o pensamento destas pessoas. Para elas, os homossexuais ou não apresentam a condição de serem considerados humanos (são animais) ou se demonstram pertencimento à raça humana são como seres à margem da sociedade (os marginalizados).

Dizer que isto não é preconceito ou mais precisamente homofobia é agir de má fé ou ignorância.  Assim como é racismo os negros serem apontados como descendentes amaldiçoados de Noé como escreveu o atual presidente da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias da Câmara. E a desculpa que está escrito na Bíblia não retira a ação racista, pois trata-se de uma leitura possível entre tantas outras do livro sagrado das religiões judaico-cristãs. Até porque, se fosse a verdadeira, não teríamos tantas subdivisões dentro do próprio cristianismo.

Mas voltando ao assunto central, ao colocarem estas três comparações, estão também derrotando no discurso as suas próprias teses sobre ditatura gay, radicalidades dos LGBTs, ou o termo medonho “gayzismo”. Como pode-se estar no comando das coisas se ainda os homossexuais não são nem considerados seres  humanos ou quando o são, são aqueles que estão sem direitos e à margem. Oras, sabe-se muito claramente que cabras, bandidos e drogados não estão no mais alto poder de uma sociedade nem do Estado.

Por fim,  com estas comparações, eles acabam legitimando a luta pelos direitos gays, pois o que se quer não é nada mais nada menos que os LGBTs sejam reconhecidos – pelo Estado, em primeiro lugar – como pessoa humana em sua plenitude de direitos.

Joelma compara os homossexuais a drogados (Zanone Fraissat – 5.abr.09/Folhapress)

30 Mar 11:01

O fim do VioMundo: Globo consegue o que a ditadura não conseguiu: calar imprensa alternativa

by Daniel Dantas Lemos
Fui testemunha de parte da história da cobertura das eleições pela Globo em 2006.  Contei aqui.  A Globo decidiu segurar a notícia do acidente da Gol para destacar as fotos do dinheiro apreendido com petistas acusados de tentar comprar um dossiê que comprovaria a participação de José Serra no esquema de corrupção na compra de ambulâncias.


Por Luiz Carlos Azenha
No VioMundo

Meu advogado, Cesar Kloury, me proíbe de discutir especificidades sobre a sentença da Justiça carioca que me condenou a pagar 30 mil reais ao diretor de Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel, supostamente por mover contra ele uma “campanha difamatória” em 28 posts do Viomundo, todos ligados a críticas políticas que fiz a Kamel em circunstâncias diretamente relacionadas à campanha presidencial de 2006, quando eu era repórter da Globo.

Lembro: eu não era um qualquer, na Globo, então. Era recém-chegado de ser correspondente da emissora em Nova York. Fui o repórter destacado para cobrir o candidato tucano Geraldo Alckmin durante a campanha de 2006. Ouvi, na redação de São Paulo, diretamente do então editor de economia do Jornal Nacional, Marco Aurélio Mello, que tinha sido determinado desde o Rio que as reportagens de economia deveriam ser “esquecidas”– tirar o pé, foi a frase — porque supostamente poderiam beneficiar a reeleição de Lula.

Vi colegas, como Mariana Kotscho e Cecília Negrão, reclamando que a cobertura da emissora nas eleições presidenciais não era imparcial.

Um importante repórter da emissora ligava para o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, dizendo que a Globo pretendia entregar a eleição para o tucano Geraldo Alckmin. Ouvi o telefonema. Mais tarde, instado pelo próprio ministro, confirmei o que era também minha impressão.

Pessoalmente, tive uma reportagem potencialmente danosa para o então candidato a governador de São Paulo, José Serra, censurada. A reportagem dava conta de que Serra, enquanto ministro, tinha autorizado a maior parte das doações irregulares de ambulâncias a prefeituras.

Quando uma produtora localizou no interior de Minas Gerais o ex-assessor do ministro da Saúde Serra, Platão Fischer-Puller, que poderia esclarecer aspectos obscuros sobre a gestão do ministro no governo FHC, ela foi desencorajada a perseguí-lo, enquanto todos os recursos da emissora foram destinados a denunciar o contador do PT Delúbio Soares e o ex-ministro da Saúde Humberto Costa, este posteriormente absolvido de todas as acusações.

Tive reportagem sobre Carlinhos Cachoeira — muito mais tarde revelado como fonte da revista Veja para escândalos do governo Lula — ‘deslocada’ de telejornal mais nobre da emissora para o Bom Dia Brasil, como pode atestar o então editor Marco Aurélio Mello.

Num episódio específico, fui perseguido na redação por um feitor munido de um rádio de comunicação com o qual falava diretamente com o Rio de Janeiro: tratava-se de obter minha assinatura para um abaixo-assinado em apoio a Ali Kamel sobre a cobertura das eleições de 2006.

Considero que isso caracteriza assédio moral, já que o beneficiado pelo abaixo-assinado era chefe e poderia promover ou prejudicar subordinados de acordo com a adesão.

Argumentei, então, que o comentarista de política da Globo, Arnaldo Jabor, havia dito em plena campanha eleitoral que Lula era comparável ao ditador da Coréia do Norte, Kim Il-Sung, e que não acreditava ser essa postura compatível com a suposta imparcialidade da emissora. Resposta do editor, que hoje ocupa importante cargo na hierarquia da Globo: Jabor era o “palhaço” da casa, não deveria ser levado a sério.

No dia do primeiro turno das eleições, alertado por colega, ouvi uma gravação entre o delegado da Polícia Federal Edmilson Bruno e um grupo de jornalistas, na qual eles combinavam como deveria ser feito o vazamento das fotos do dinheiro que teria sido usado pelo PT para comprar um dossiê contra o candidato Serra.

Achei o assunto relevante e reproduzi uma transcrição — confesso, defeituosa pela pressa – no Viomundo.

Fui advertido por telefone pelo atual chefão da Globo, Carlos Henrique Schroeder, de que não deveria ter revelado em meu blog pessoal, hospedado na Globo.com, informações levantadas durante meu trabalho como repórter da emissora.

Contestei: a gravação, em minha opinião, era jornalisticamente relevante para o entendimento de todo o contexto do vazamento, que se deu exatamente na véspera do primeiro turno.

Enojado com o que havia testemunhado ao longo de 2006, inclusive com a represália exercida contra colegas — dentre os quais Rodrigo Vianna, Marco Aurélio Mello e Carlos Dornelles — e interessado especialmente em conhecer o mundo da blogosfera — pedi antecipadamente a rescisão de meu contrato com a emissora, na qual ganhava salário de alto executivo, com mais de um ano de antecedência, assumindo o compromisso de não trabalhar para outra emissora antes do vencimento do contrato pelo qual já não recebia salário.

Ou seja, fiz isso apesar dos grandes danos para minha carreira profissional e meu sustento pessoal.

Apesar das mentiras, ilações e tentativas de assassinato de caráter, perpretradas pelo jornal O Globo* e colunistas associados de Veja, friso: sempre vivi de meu salário. Este site sempre foi mantido graças a meu próprio salário de jornalista-trabalhador.

O objetivo do Viomundo sempre foi o de defender o interesse público e os movimentos sociais, sub-representados na mídia corporativa. Declaramos oficialmente: não recebemos patrocínio de governos ou empresas públicas ou estatais, ao contrário da Folha, de O Globo ou do Estadão. Nem do governo federal, nem de governos estaduais ou municipais.

Porém, para tudo existe um limite. A ação que me foi movida pela TV Globo (nominalmente por Ali Kamel) me custou R$ 30 mil reais em honorários advocatícios.

Fora o que eventualmente terei de gastar para derrotá-la. Agora, pensem comigo: qual é o limite das Organizações Globo para gastar com advogados?

O objetivo da emissora, ainda que por vias tortas, é claro: intimidar e calar aqueles que são capazes de desvendar o que se passa nos bastidores dela, justamente por terem fontes e conhecimento das engrenagens globais.

Sou arrimo de família: sustento mãe, irmão, ajudo irmã, filhas e mantenho este site graças a dinheiro de meu próprio bolso e da valiosa colaboração gratuita de milhares de leitores.

Cheguei ao extremo de meu limite financeiro, o que obviamente não é o caso das Organizações Globo, que concentram pelo menos 50% de todas as verbas publicitárias do Brasil, com o equivalente poder político, midiático e lobístico.

Durante a ditadura militar, implantada com o apoio das Organizações Globo, da Folha e do Estadão — entre outros que teriam se beneficiado do regime de força — houve uma forte tentativa de sufocar os meios alternativos de informação, dentre os quais destaco os jornais Movimento e Pasquim.

Hoje, através da judicialização de debate político, de um confronto que leva para a Justiça uma disputa entre desiguais, estamos fadados ao sufoco lento e gradual.

E, por mais que isso me doa profundamente no coração e na alma, devo admitir que perdemos. Não no campo político, mas no financeiro. Perdi. Ali Kamel e a Globo venceram. Calaram, pelo bolso, o Viomundo.

Estou certo de que meus queridíssimos leitores e apoiadores encontrarão alternativas à altura. O certo é que as Organizações Globo, uma das maiores empresas de jornalismo do mundo, nominalmente representadas aqui por Ali Kamel, mais uma vez impuseram seu monopólio informativo ao Brasil.

Eu os vejo por aí.

PS do Viomundo: Vem aí um livro escrito por mim com Rodrigo Vianna, Marco Aurelio Mello e outras testemunhas — identificadas ou não — narrando os bastidores da cobertura da eleição presidencial de 2006 na Globo, além de retratar tudo o que vocês testemunharam pessoalmente em 2010 e 2012.

PS do Viomundo 2: *Descreverei detalhadamente, em breve, como O Globo e associados tentaram praticar comigo o tradicional assassinato de caráter da mídia corporativa brasileira.
30 Mar 00:16

O Ano que Mudou Nossas Vidas, por Luiz Carlos Azenha

by Marco Aurélio Mello


Era recém-chegado de ser correspondente da emissora em Nova York. Fui o repórter destacado para cobrir o candidato tucano Geraldo Alckmin durante a campanha de 2006. Ouvi, na redação de São Paulo, diretamente do então editor de economia do Jornal Nacional, Marco Aurélio Mello, que tinha sido determinado desde o Rio que as reportagens de economia deveriam ser “esquecidas”– tirar o pé, foi a frase — porque supostamente poderiam beneficiar a reeleição de Lula.
Vi colegas, como Mariana Kotscho e Cecília Negrão, reclamando que a cobertura da emissora nas eleições presidenciais não era imparcial.
Um importante repórter da emissora ligava para o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, dizendo que a Globo pretendia entregar a eleição para o tucano Geraldo Alckmin. Ouvi o telefonema. Mais tarde, instado pelo próprio ministro, confirmei o que era também minha impressão.
Pessoalmente, tive uma reportagem potencialmente danosa para o então candidato a governador de São Paulo, José Serra, censurada. A reportagem dava conta de que Serra, enquanto ministro, tinha autorizado a maior parte das doações irregulares de ambulâncias a prefeituras.
Quando uma produtora localizou no interior de Minas Gerais o ex-assessor do ministro da Saúde Serra, Platão Fischer-Puller, que poderia esclarecer aspectos obscuros sobre a gestão do ministro no governo FHC, ela foi desencorajada a perseguí-lo, enquanto todos os recursos da emissora foram destinados a denunciar o contador do PT Delúbio Soares e o ex-ministro da Saúde Humberto Costa, este posteriormente absolvido de todas as acusações.
Tive reportagem sobre Carlinhos Cachoeira — muito mais tarde revelado como fonte da revista Veja para escândalos do governo Lula — ‘deslocada’ de telejornal mais nobre da emissora para o Bom Dia Brasil, como pode atestar o então editor Marco Aurélio Mello.
Num episódio específico, fui perseguido na redação por um feitor munido de um rádio de comunicação com o qual falava diretamente com o Rio de Janeiro: tratava-se de obter minha assinatura para um abaixo-assinado em apoio a Ali Kamel sobre a cobertura das eleições de 2006.
Considero que isso caracteriza assédio moral, já que o beneficiado pelo abaixo-assinado era chefe e poderia promover ou prejudicar subordinados de acordo com a adesão.
Argumentei, então, que o comentarista de política da Globo, Arnaldo Jabor, havia dito em plena campanha eleitoral que Lula era comparável ao ditador da Coréia do Norte, Kim Il-Sung, e que não acreditava ser essa postura compatível com a suposta imparcialidade da emissora. Resposta do editor, que hoje ocupa importante cargo na hierarquia da Globo: Jabor era o “palhaço” da casa, não deveria ser levado a sério.
No dia do primeiro turno das eleições, alertado por colega, ouvi uma gravação entre o delegado da Polícia Federal Edmilson Bruno e um grupo de jornalistas, na qual eles combinavam como deveria ser feito o vazamento das fotos do dinheiro que teria sido usado pelo PT para comprar um dossiê contra o candidato Serra.
Achei o assunto relevante e reproduzi uma transcrição — confesso, defeituosa pela pressa – no Viomundo.
Fui advertido por telefone pelo atual chefão da Globo, Carlos Henrique Schroeder, de que não deveria ter revelado em meu blog pessoal, hospedado na Globo.com, informações levantadas durante meu trabalho como repórter da emissora.
Contestei: a gravação, em minha opinião, era jornalisticamente relevante para o entendimento de todo o contexto do vazamento, que se deu exatamente na véspera do primeiro turno.
Enojado com o que havia testemunhado ao longo de 2006, inclusive com a represália exercida contra colegas — dentre os quais Rodrigo Vianna, Marco Aurélio Mello e Carlos Dornelles — e interessado especialmente em conhecer o mundo da blogosfera — pedi antecipadamente a rescisão de meu contrato com a emissora, na qual ganhava salário de alto executivo, com mais de um ano de antecedência, assumindo o compromisso de não trabalhar para outra emissora antes do vencimento do contrato pelo qual já não recebia salário.
Ou seja, fiz isso apesar dos grandes danos para minha carreira profissional e meu sustento pessoal. Apesar das mentiras, ilações e tentativas de assassinato de caráter, perpretradas pelo jornal O Globo* e colunistas associados de Veja, friso: sempre vivi de meu salário. Este site sempre foi mantido graças a meu próprio salário de jornalista-trabalhador.
O objetivo do Viomundo sempre foi o de defender o interesse público e os movimentos sociais, sub-representados na mídia corporativa. Declaramos oficialmente: não recebemos patrocínio de governos ou empresas públicas ou estatais, ao contrário da Folha, de O Globo ou do Estadão. Nem do governo federal, nem de governos estaduais ou municipais.
Porém, para tudo existe um limite. A ação que me foi movida pela TV Globo (nominalmente por Ali Kamel) me custou R$ 30 mil reais em honorários advocatícios.
Fora o que eventualmente terei de gastar para derrotá-la. Agora, pensem comigo: qual é o limite das Organizações Globo para gastar com advogados?
Sou arrimo de família: sustento mãe, irmão, ajudo irmã, filhas e mantenho este site graças a dinheiro de meu próprio bolso e da valiosa colaboração gratuita de milhares de leitores.
Cheguei ao extremo de meu limite financeiro, o que obviamente não é o caso das Organizações Globo, que concentram pelo menos 50% de todas as verbas publicitárias do Brasil, com o equivalente poder político, midiático e lobístico.
Durante a ditadura militar, implantada com o apoio das Organizações Globo, da Folha e do Estadão — entre outros que teriam se beneficiado do regime de força — houve uma forte tentativa de sufocar os meios alternativos de informação, dentre os quais destaco os jornais Movimento e Pasquim.
Hoje, através da judicialização de debate político, de um confronto que leva para a Justiça uma disputa entre desiguais, estamos fadados ao sufoco lento e gradual.
E, por mais que isso me doa profundamente no coração e na alma, devo admitir que perdemos. Não no campo político, mas no financeiro. Perdi. Ali Kamel e a Globo venceram. Calaram, pelo bolso, o Viomundo.
Estou certo de que meus queridíssimos leitores e apoiadores encontrarão alternativas à altura. O certo é que as Organizações Globo, uma das maiores empresas de jornalismo do mundo, nominalmente representadas aqui por Ali Kamel, mais uma vez impuseram seu monopólio informativo ao Brasil.
Eu os vejo por aí.
PS do Viomundo: Vem aí um livro escrito por mim com Rodrigo Vianna, Marco Aurelio Mello e outras testemunhas — identificadas ou não — narrando os bastidores da cobertura da eleição presidencial de 2006 na Globo, além de retratar tudo o que vocês testemunharam pessoalmente em 2010 e 2012.
PS do Viomundo 2: *Descreverei detalhadamente, em breve, como O Globo e associados tentaram praticar comigo o tradicional assassinato de caráter da mídia corporativa brasileira.
28 Mar 09:19

Tendência Mundial, menos no Brasil

by Marco Aurélio Mello


do Mente Aguçada (*)
A legalização da maconha é uma tendência mundial. Antigamente, discutíamos possíveis mudanças que aconteciam em suma na Europa, já que o continente é um dos precussores de uma nova legislação que envolvia a maconha. Com o passar do tempo, esta revolução verde começou a acontecer do nosso lado. Não é à toa que vários países da América do Sul mudaram ou buscam outro foco na legislação em torno da maconha, como é o caso do Uruguai, Argentina e agora o Chile, que legalizou o cultivo caseiro de maconha. Por 18 votos a favor, contra 11 contra, o plenário do Senado chileno aprovou nesta terça-feira o projeto de lei do senador Fulvio Rossi e Ricardo Lagos Webber, que prevê a autorização do cultivo caseiro de maconha permitindo assim seu uso pessoal ou terapêutico. O projeto havia sido colocado em pauta desde agosto do ano passado, contudo, só foi votado este ano. O principal foco deste novo projeto revolucionário são os jovens, que são presos e condenados por cultivar plantas de maconha para o próprio consumo. Segundo os idealizadores da nova legislação, a permissão do cultivo caseiro é uma importante ferramenta para combater o narcotráfico. Para Fulvio Rossi, quando se permite o cultivo caseiro da maconha, necessariamente está atacando seu comércio ilegal comandado pelos narcotraficantes e gerando milhões para o mercado negro. A nova lei descreve em um artigo único, em que estará isento de qualquer responsabilidade ou pena de prisão aquele que cultiva plantas de maconha para o consumo próprio e também para finalidades terapêuticas, sendo que depois será definida a quantidade que se pode portar e produzir. Ainda para Fulvio Rossi, não há nada que impeça a descriminalização da maconha, já que para ele, a porta de entrada para drogas mais pesadas no Chile é o álcool, que é legal, e deve ser seguido por campanhas educativas do governo chileno. (*) Sugestão do professor Maurides Ribeiro
26 Mar 12:18

Da série “Contos Bíblicos”: Davi e Golias, estrelando @jeanwyllys_real e @marcofeliciano

by latuffcartoons

(Clique na imagem para ampliar)

Jean Wyllys e Marco Feliciano


25 Mar 23:23

CONSELHO DE MEDICINA SE POSICIONA CONTRA A HIPOCRISIA

by lola aronovich
Semana passada aconteceu um fato inédito e digno de celebração pra qualquer pessoal que seja a favor da liberdade de escolha. O Conselho Federal de Medicina e 27 conselhos regionais, que representam 400 mil médicos no Brasil, se posicionaram sobre a questão do aborto pela primeira vez: dois terços são a favor da vontade da gestante. Apoiam a interrupção da gravidez até a décima-segunda semana de gestação. Ou melhor, como disse o presidente do CFM, “Defendemos o caminho da autonomia da mulher”. 
Em outras palavras: não apoiam o aborto, mas a escolha da mulher em abortar. É exatamente este o ponto. Ninguém é a favor do aborto, um procedimento que deve ser feito em último recurso e que jamais substitui o controle da natalidade. Eu mesma nunca fiz um aborto, e se engravidasse, provavelmente não faria. Mas eu defendo o básico: que cada mulher tenha autonomia sobre seu corpo e, por isso, cabe a cada uma decidir. 
Agora o CFM levará sua posição à comissão especial do Senado que analisa a reforma do Código Penal. Opa, Código Penal? Mas aborto não é uma questão de saúde pública? Não no nosso país, que tem uma das legislações mais atrasadas do mundo em relação ao tema. Aqui, aborto é assunto de polícia. E aí fica aquela pergunta: você é favorável à prisão de uma mulher que aborta? Muita gente é. Tem até quem defenda a pena de morte. Felizmente, um assunto tão sério não fica nas mãos de gente com mentalidade medieval. Não é a maioria que faz ou aprova as leis para minorias, por um motivo óbvio: na maior parte das vezes, os direitos das minorias não interessam à maioria.
Nosso Código Penal tem o mesmo texto desde 1940, e é desnessário dizer que muita coisa mudou de lá pra cá. Por isso ele vem sendo discutido por uma comissão no Senado. Há vários temas polêmicos (o aborto sendo o pincipal), e, portanto, acredita-se que o texto só será levado para aprovação no plenário no ano que vem. Faz um ano, a comissão de juristas nomeada pelo Senado aprovou um anteprojeto que aumenta as possibilidades de que aborto não seja visto como crime (hoje o aborto é permitido em apenas três casos: se a gravidez for resultado de um estupro, se há risco de vida, se o feto é anencéfalo). Nesse texto está o direito à interrupção da gravidez até doze semanas, desde que um médico ou psicólogo ateste que a gestante não tem condições de arcar com a maternidade. Agora o CFM deu respaldo a esse texto, e sem a necessidade do laudo médico ou psicológico. 
Este bloguinho que vos fala já criticou Conselhos de Medicina várias vezes, seja pela posição de conselhos contra o parto em casa, seja pela falta de punição para médicos que cometem assédio sexual. Mas esta decisão do Conselho Federal de Medicina sobre o aborto é maravilhosa, corajosa, e deve ser aplaudida. 
Os argumentos contra a legalização do aborto são poucos e previsíveis, até porque todos já foram discutidos e rebatidos nos países em que o aborto é legalizado -- nada menos que em 74% do mundo; somos nós que estamos atrasados em algumas décadas. Um argumento constante contra a legalização é que ela forçaria médicos a fazer algo que vai contra seus princípios. Claro que essa argumentação quer fazer crer que toda a classe médica é contra a legalização, o que não é verdade em nenhum lugar. 
Em geral, médicos são pessoas racionais, que sabem que abortos acontecem clandestinamente (mais de um milhão por ano no Brasil). E esta não é uma invenção feminista do século XX. Gravidez não desejada sempre aconteceu, e mulheres sempre encontraram formas de interromper um processo que acontece no seu corpo. O problema é que esses procedimentos clandestinos muitas vezes matam. Vale ressaltar que matam não só o feto, mas também a mulher. Abortos clandestinos são a quarta maior causa de morte materna no Brasil (por exemplo, aborto supera câncer de mama em internações pelo SUS). 
Mas já ouvi e li muita gente dizer "bem feito". Essa gente quer que mulheres morram. Essa gente não tem a menor empatia por mulheres e nem por seus filhos. A empatia é toda por um feto, algo abstrato, sem nome, que eles chamam de criança. Assim que o bebê nasce, já não é mais preocupação deles. Agora se vira, dizem eles para a mãe. Quem mandou fazer filho? Sei bem que mascus não representam um bom exemplo pra coisa alguma, mas às vezes, ao ver uma caricatura, percebemos as contradições de quem tem um discurso mais sutil. 
Um mascu, como quase todo ser de extrema direita que se preza, é radicalmente contra o aborto -- menos quando o filho é dele. Aí ele tem certeza que a "vadia" engravidou de propósito para tirá-lo de provedor, e pensa no que fazer para impedir essa gravidez. 
Ou seja, como é típico, mascu é contra o aborto dos outros. É o velho desejo de controlar um corpo que não é seu. Mas vamos acreditar que mascus são contra o aborto de modo geral. Não tem nada no mundo que eles odeiem mais que mãe solteira. Ué, mães solteiras deveriam ser idolatradas por qualquer pró-vida. Deveria erguer monumentos pras mães solteiras. Afinal elas, contra todas as dificuldades, decidiram levar a gravidez adiante e ter o filho, mesmo que isso represente que ela cuidará dele sozinha, sem ajuda. Mas não. Nossa sociedade abomina mães solteiras. 
Mascus as chamam de M$ol, sugerindo que elas estão desesperadas atrás de um provedor. Sinto muito, mas custo acreditar que alguém que chama filho de mãe solteira de EAA (Esporrada Alheia Ambulante) está preocupado com um feto. Quer dizer, se mascu consegue se referir a uma criança, uma vida de verdade, como EAA, qual a empatia que pode ter por um feto, um projeto de vida? Ou por acaso este projeto de vida é mais importante que uma vida concreta, como a da mulher? Não se engane: quem está na liderança contra a legalização do aborto no Brasil são grupos religiosos (católicos, evangélicos, espíritas) e neonazistas, como os integralistas, amplamente presentes na marcha que foi realizada em Fortaleza em novembro contra o aborto. De que lado você está? Quem é realmente pró-vida? Em setembro, quando o Uruguai aprovou o aborto, um deputado da oposição (ele votou pela legalização, contra a decisão de seu partido) justificou assim seu voto: "Há dois tipos de sociedades que condenam o aborto: as que têm um poder religioso tão forte a ponto de submeter as liberdades ao dogma, como as muçulmanas, ou as democráticas porém hipócritas, como a nossa".  Chega de hipocrisia. Foi o que o Conselho de Medicina fez. Mais cedo ou mais tarde, médicos acabam tratando de muitas mulheres que abortam. Muitas vão parar em hospitais -- em 2001, houve 243 mil internações no SUS por curetagens pós-aborto. Várias vezes as mulheres são atendidas tarde demais, quando já não se pode fazer nada. E elas morrem. Só pode ser a favor deste quadro quem acredita que mulheres que abortam merecem a pena de morte. É hipocrisia sim, não tem outra palavra. A sociedade que condena o aborto é a mesma que finge não ver que uma em cada quatro gestações acaba em aborto espontâneo. Os grupos religiosos fecham os olhos para o fato de que Deus é um grande abortista. Abortos espontâneos, naturais, acontecem no primeiro trimestre de gestação, que é justamente o período que queremos para a realização do aborto induzido. Então, antes de querer condenar a mulher que quis o aborto, ou o médicx que o realizou, pense no seu deus. Pense no seu deus antes de chamar alguém de abortista (como se uma mulher ter direito sobre o corpo dela fosse um crime). Outra hipocrisia é condenar mulheres (sempre mulheres) que engravidam sem querer. Ora, 80% da reprodução hétero é sem querer. Pergunte pros seus pais se você foi planejado (não confundir não planejado com indesejado; é possível não planejar e vir a desejar depois). A maioria esmagadora de nós não foi planejada. E, no entanto, continuamos criticando pessoas que engravidam sem planejar, e achando que só quem aborta é menina adolescente. Não é. Só 2,5% das mulheres que abortam ficaram grávidas de uma relação eventual. A brasileira média que aborta tem 25 anos, é casada, católica, e já é mãe (pense em quem você está condenando à prisão ou à pena de morte). Mas a brasileira média que morre de aborto clandestino é pobre e negra. Aquela que não pode pagar por uma clínica com as mínimas condições de higiene.
E aí a jornalista do SBT vem falar que a decisão do Conselho de Medicina pode ser uma tentativa de criar um nicho de mercado! É muita hipocrisia. Nicho de mercado existe agora, que o aborto é ilegal. Quando o aborto for legalizado -- e vou me permitir usar o quando, não o se --, as clínicas clandestinas vão fechar. A maior parte das mulheres que quiser abortar o fará pelo SUS.
O fim da hipocrisia tem que passar pelo governo. Em fevereiro do ano passado, peritos da ONU acusaram o governo Dilma de não fazer absolutamente nada para estancar a morte de milhares de brasileiras que realizam aborto clandestino. 
Ou seja, a ONU disse que o executivo é responsável por milhares de mortes por ano (fetos não contam, porque as estatísticas têm essa mania de só considerar vida quem já nasceu). E pediu para que o Brasil superasse duas diferenças de opinião para salvar essas vítimas. A perita suíça perguntou: "O que é que vocês vão fazer com esse problema político enorme que têm?" E a resposta da ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres foi a mesma que Dilma vem dando desde sua campanha: "Isso é assunto do legislativo". 
Mas não é, não. Não é só que o governo, por ter feito alianças com os setores mais retrógrados da sociedade (a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias nas mãos do PSC que o diga), fica em cima do muro. Ele se posiciona contra a legalização sempre que tem que romper seu confortável silêncio. Ao sair a decisão do Conselho de Medicina, o ministro da Saúde Alexandre Padilha se manifestou: “O governo federal, desde o começo, disse que não tomaria nenhuma medida no sentido de mudar a lei atual do aborto no Brasil”. 
Ou seja, o executivo fará tudo que é possível para frear a descriminalização do aborto. Pois é, só estamos falando da descriminalização; mesmo que o Senado apoie um novo Código Penal em que aborto não seja mais crime -- o que já seria um grande avanço --, levaria muito mais tempo até que o aborto fosse legalizado. E por que o governo quer impedir a aprovação de um assunto que é apoiado pelo estatuto do partido do governo, o PT? Pra não desapontar os partidos de sua base aliada. Mas eu não votei no PSC! Se fosse pra ter votado em alguém que é contra a legalização do aborto, eu teria logo votado na Marina (ahn, ok, não teria)!
Portanto, governo, faça como o Conselho de Medicina e posicione-se. Converse com seus aliados sobre este grave problema de saúde pública que temos. Até porque quem é contra o aborto deveria ser a favor da sua legalização. Todos os estudos mostram que mais abortos acontecem em países onde o aborto não é legalizado. Então até quando, Brasil?
25 Mar 23:21

Temendo pela segurança de Eduardo Guimarães, o “apátrida”

by Luiz Carlos Azenha

 

por Luiz Carlos Azenha

Cláudio Marques era jornalista. Escrevia num jornal de grande circulação em São Paulo, durante a ditadura militar. Era o Shopping News. Jornal gratuito, mas que muita gente lia aos domingos. Cláudio Marques publicou uma série de notas sobre comunismo na TV Cultura de São Paulo. Não sei se chegou a citar o nome de Vladimir Herzog. Sei, de ter lido, que uma delas dizia respeito à guerra do Vietnã. Cláudio aparentemente acreditava que a cobertura da Cultura era antiamericana. Vladimir Herzog acabou preso e executado.

Eu, em geral, não ligo para aquelas correntes espalhadas pela internet. Prefiro atribuí-las a psicopatas. Porém, recentemente, uma em particular me chamou a atenção:

“Os soldados do passado deram a sua vida pelo Brasil, honrando o seu juramento; os do presente jamais permitirão que seja denegrida a imagem do soldado de todos os tempos. O Exército é uno e indivisível

ESSES INDIVÍDUOS NÃO SÃO PATRIOTAS, SÃO APÁTRIDAS E SÓ FAZEM MUITO BARULHO! NA HORA DO PEGAR PRA CAPAR, VÃO FAZER IGUAIS OS BANDIDOS DO MORRO DO ALEMÃO: DEBANDAR!. AH! O ZÉ DIRCEU NOS ANOS 60 TAMBÉM FUGIU PRA CUBA.

“MEXEU COM LULA, MEXEU COMIGO!”

Depois de 25 seguidores condenados e indo para a cadeia por Corrupção, eis que está sendo divulgada a lista daqueles que apoiam tudo isso e mais um pouco:

Parte dos que tem obrigação de defender os corruptos. São pagos para isso através de seus altos cargos no primeiro escalãO.

Seguem os nomes divulgados por Augusto Nunes da VEJA:

Confira a edição revista, aperfeiçoada e ampliada da lista dos que acham que mexer com o chefe supremo é mexer com eles.

Segue a famosa lista publicada pelo blogueiro Augusto Nunes, de Veja. Estou certo de que a intenção original dele era uma brincadeira bem humorada, ainda que você não ache graça nisso.

Não conheço o Augusto Nunes pessoalmente. No meio jornalístico não temos inimigos, mas adversários ideológicos. Pelo menos assim penso eu.

Porém, ao parir a lista, Augusto Nunes pariu um monstro que pode escapar a seu controle.

O Tarso Genro, o Abílio Diniz e o Luiz Carlos Bresser Pereira, citados na lista, têm meios de se defender. Física e, se for o caso, legalmente.

Apoiar um governo, por pior que ele seja, não é crime, a não ser que consideremos Lula/Dilma a encarnação de Hitler.

Mas lá no meio da lista está o nome de um simples blogueiro, Eduardo Guimarães, que não tem meios nem de garantir a sobrevivência da própria filha adoentada.

Espero que a Victoria não tenha lido a lista. Se leu, espero que não tenha entendido. Ou que sua condição física não se deteriore em função de saber que o pai faz parte de uma lista de “apátridas”. Fico preocupado com a interpretação que a esposa e as filhas do Eduardo deram à lista.

Ele é “inimigo” da Pátria? Alguém a ser eliminado?

Sei que o Eduardo, como vendedor de autopeças, não tem condições de pagar um segurança.

Anders Breivik, o matador de Oslo, como se viu no testemunho dele durante o julgamento, agiu acreditando piamente que estava fazendo justiça contra 69 jovens que achava serem perigosos esquerdistas do Partido Trabalhista da Noruega.

Há muitos psicopatas soltos por aí.

A internet é um meio poderosíssimo, capaz de incentivar as maiores loucuras. Há centenas de casos que eu poderia citar como exemplo, além da viagem psicótica do Breivik.

O que fiz? Em primeiro lugar, alertei o próprio Eduardo.

Em segundo lugar, acho que em nome da decência jornalística o Augusto Nunes deveria deixar explícito, em sua coluna, que aqueles apoiadores de Lula podem ser adversários políticos a combater, mas nunca inimigos a serem eliminados.

Eu não gosto de listas. Goebbels certamente tinha a sua. Beria também. Minha família sofreu tortura psicológica durante mais de 10 anos quando o nome de meu pai, comunista, foi incluída numa lista escrita por um delegado de policia que era desafeto pessoal dele. Essa tortura deixou sequelas permanentes.

Os autores, portanto, não podem se eximir de responsabilidade quando as listas que compõem e divulgam têm o potencial de deflagrar uma caça às bruxas, bem no estilo macartista.

Fica o alerta.

Leia também:

A entrevista com Telhada e a demissão da jornalista

24 Mar 18:00

GUEST POST: MANIFESTO DO MEU CANSAÇO

by lola aronovich

A Dayane me enviou sua revolta. Um verdadeiro manifesto que dispensa apresentações.

Essa semana tive a plena consciência de que por ser mulher cis, negra, agnóstica, feminista e filha de mãe solteira, eu não valho nada pra uma grande parcela da sociedade brasileira. Percebi, inclusive, que alguns indivíduos dessa parcela encontram-se no Congresso, decidindo questões sobre mim, minha vida, minha saúde, minha integridade física e minha família.
Essa semana descobri que todo o peso cultural da expressão "cabelo de bombril" pode ser jogado no lixo em favor da "arte ousada e  subversiva" por profissionais que supostamente deveriam saber o que é Semiótica e Teoria Social.
Melhor ainda foi saber que meu cabelo crespo -- que nunca foi "duro", "fedido", "sujo", pelo contrário --, que foi chamado de "bombril" e "bucha" a vida toda, desde que eu era criança, é representado numa passarela justamente com esse material feio, opaco, usado pra limpar panelas. Melhor ainda foi ver minha área de trabalho (Artes Visuais) ser usada como desculpa esfarrapada para trabalho malfeito e para justificar naturalizações de racismo
E melhor ainda foi ver esses profissionais usando de desvios arrogantes, apoiados por certos veículos de comunicação de qualidade jornalística completamente duvidosa, para tentar nos culpar, o público, de seu trabalho questionável. Vi pessoas compararem isso à revolta que o Modernismo causou nos anos 20. Vi pessoas compararem esdruxulamente "racismo" com "arte", como se liberdade poética fosse inquestionável e absoluta. O mesmo pensamento pra esse "humor" medíocre brasileiro. Se você não concorda, logo é chamado de politicamente correto (a.k.a. chato e sem graça), inculto, burro e por aí vai. Porque todo mundo aqui tem que achar super engraçado piadas e "arte" que mexem de forma desleixada com temas como racismo, homofobia e misoginia, coisas que várias pessoas sofrem de forma violenta diariamente. Essa semana vi estudantes de Direito fazerem trotes de cunho racista e machista e achando graça. Estudantes supostamente tão inteligentes e instruídos pintando a cara de uma aluna de preto, chamando-a de escrava e ainda por cima de Chica (sic) da Silva, com erro gramatical -- só pra ser bem chata. Estudantes que daqui a dez anos estarão no Judiciário, estarão em vários cargos públicos de alto escalão, estarão cuidando de mim, negra e mulher, e da minha família. Estudantes que provavelmente -- ESPERO MESMO QUE NÃO -- continuarão estudando no mesmo lugar com os mesmos privilégios e rindo da cara de todo mundo por causa do manto de impunidade que existe neste país.
No mesmo barco, vi um Doutor em Linguística, que provavelmente, em alguma parte de sua carreira acadêmica, teve seu curso sustentado pelo Estado -- que eu respondo e sustento com meu salário --, ignorar o poder de sua própria área de trabalho em favor do racismo e chamar um aluno negro de macaco. Se a tal educação que devia libertar se mostra absolutamente ineficaz, o que mais que eu posso esperar dela? 
Essa semana eu vi uma junta médica se declarar favorável ao aborto por uma questão de saúde pública, e na contramão vi um ministro apelando da carteirada e da prepotência responder "Não aprovo. Eu sou ministro da saúde. Eu sou o governo". E melhor ainda, vi uma jornalista criticando em rede nacional, agressiva e publicamente, por pura convicção pessoal e religiosa, um grupo de médicos opinando sobre uma questão de saúde. 
Mesma jornalista que disse que cristãos estão sendo perseguidos, que a sociedade brasileira rejeita a inspiração amorosa do cristianismo, que acha bonito o fato de um estado laico ter uma Constituição promulgada por deus. Uma jornalista que deveria prezar por uma mídia isenta de desonestidade intelectual. Mas depois de uma revista que nos chama de burros, na cara dura, porque não concordamos com um estilista, o que mais se esperar? E isso porque somos nós que pagamos por ela.
Vi pessoas me chamando de abortista por defender a vida feminina. Logo eu, que nunca fiz nem pretendo fazer um aborto. Logo eu, que uso DOIS métodos contraceptivos combinados. Vi pessoas apelando pra discursos filosóficos e religiosos e usando metáforas como "o sopro da vida" pra me dizer indiretamente que a vida de um embrião vale mais que a minha. Vi pessoas se declarando médicas na internet falando que aborto é "método contraceptivo". Cheguei até a ver uma pessoa dizendo que Programa de Controle de Natalidade é método de extermínio.
Chega de achar que toda essa PALHAÇADA não interfere no nosso cotidiano.
Estou cansada de pessoas questionando minha competência profissional porque sou negra, com aquela mentalidade de "negro no Brasil quando é bem sucedido sempre teve um empurrãozinho né, aff esse país ajuda demais esse povo". Estou cansada de andar na rua e ouvir um monte de homens desconhecidos me chamando de GOSTOSA e falando AÔ LÁ EM CASA. Estou cansada de estar sentada num ônibus e, do lado de fora, um caminhoneiro ficar me mandando beijos. 
Estou cansada das pessoas acharem que me sinto elogiada por isso, que não tenho medo de um desses homens me agredir, me seguir e me violentar. Estou cansada de sair de casa com um vestido que, mesmo sendo na "linha do joelho" (como se isso fizesse diferença), é motivo pra todos assoviarem e mexerem comigo. Estou cansada de sair de calça e casaco quando vou pra lugares desconhecidos de ônibus ou quando sei que vou fazer um grande trajeto a pé. 
Estou cansada de ouvir coisas como "Nossa, agora que seu cabelo tá mais curto tá mais bonito, TÁ MAIS LISO" e ter que encarar numa boa, porque foi só um comentário inofensivo. Estou cansada de ouvir coisas como "mas você nem é tão escurinha", como se isso fosse algum tipo de elogio e me impedisse de ser negra.  Tô de saco cheio de pessoas questionarem a minha sexualidade porque meu cabelo é curto, como se um CABELO indicasse minha paixão por homens ou mulheres. Tô de saco cheio de pessoas ignorantes que soltam argumentos como "racismo tá nos olhos de quem vê", "isso aí é coisa da sua cabeça", "negro também é racista", "eu sou branco/oriental/etc e sofri racismo!".  
Tô de saco cheio de ver um político que deveria ser sério e me representar escrevendo 'QUEIMAR A ROSCA' numa audiência séria insultando homossexuais. Tô de saco cheio de ver o presidente de uma Comisssão de Direitos Humanos ser misógino, homofóbico e racista. Tô de saco cheio de reaças com argumentos RIDÍCULOS falando de "movimento gayzista", como se todxs xs homossexuais do mundo estivessem se armando com metralhadoras e obrigando todo mundo a virar gay.  Tô de saco cheio de gente estúpida, grossa e mal educada vir tentar me dizer como eu devo me portar por ser mulher, o que devo beber, quando devo ter filhos, gente que acha um absurdo eu carregar preservativo na bolsa, gente que me olha com cara de "hmmm essa dá" quando eu tomo meu anticoncepcional que é PRA EVITAR ESPINHAS MAJORITARIAMENTE. Porque obviamente na mente dessas pessoas toda mulher que toma pílula é promíscua. Porque ter camisinha na bolsa é "coisa de puta" e porque se eu engravidar mesmo assim a culpa é minha e que eu não devo é fazer sexo. E claro que essa mesma gente me negaria o direito ao aborto. Não aguento mais ver mulheres fazendo aborto no fundo do quintal com uma agulha e um monte de pessoas hipócritas virem me dizer que elas têm que morrer mesmo. Não aguento mais ver pessoas que se dizem pró-vida usando argumentos apelativos e ausentes de qualquer lógica. Não aguento mais essas mesmas pessoas chamando mães solteiras de vadias, abandonando seus filhos de qualquer jeito, não dando assistência a nada nem a ninguém, não adotando crianças (porque se for pra adotar tem que ser branca do ôio azul, vai adotar um negro pra quê) e não fazendo nada de efetivo pra que esse mundo onde a vida bela que eles tanto adoram defender exista de fato. 
Parei de acreditar em burrice plena. Pra mim, o problema do Brasil é a hipocrisia, a má fé e a preguiça de assumir o que está errado. Fácil é fingir que tá tudo de boa e não se mexer. O Brasil é um país doente.
Beijos da negra, mulher cis, filha de mãe solteira, feminista e agnóstica, que não vale nada pra muitos mas, mesmo estando exausta, não vai desistir tão fácil.
23 Mar 23:08

Aldeia Maracanã se atravessa no caminho da Copa: Indígenas expulsos com violência

by Raphael Tsavkko Garcia

O acampamento indígena da Aldeia Maracanã, no antigo Museu do Índio no Rio de Janeiro, foi desocupado com violência por policiais do Batalhão de Choque da Polícia Militar no dia 22 de março. Situado ao lado do famoso estádio do Maracanã, o edifício se atravessa no caminho das obras para a Copa do Mundo de 2014 e Jogos Olímpicos de 2016.

O cerco do Batalhão de Choque aos indígenas e seus apoiantes na área da Aldeia Maracanã começou na madrugada de 21 para 22 de março. Os indígenas montaram barricadas durante a madrugada para resistir, mas a invasão acabou por acontecer por volta do meio dia.

A ativista Paula Kossatz postou um vídeo no Facebook mostrando manifestantes sendo presos mesmo antes da invasão, pela manhã, e o coletivo Diário Liberdade informou que os cerca de cem elementos da polícia entraram equipados “com balas de borracha, gás de pimenta e cacetetes”:

Ao que parece, segundo as primeiras informações, houve moradores da Aldeia Maracanã feridos na sequência da invasão. Entre eles, um menino de quatro anos que sofreu as consequências do gás pimenta policial. Ainda, uma mulher grávida foi reprimida violentamente e presa.

Foto de Norbert Suchanek. Usada com permissão.

Foto de Norbert Suchanek. Usada com permissão.

O Global Voices cobriu a primeira tentativa de expulsão, a 12 de janeiro, das cerca de vinte e três famílias que ocupam há 6 anos o prédio de grande importância histórica no Brasil. A altura, o cerco ao “museu vivo” do índio, como a Aldeia Maracanã é hoje chamada por muitos, foi feito sem aviso prévio nem mandado judicial pela polícia militar, reforçada com tropas de choque, e mobilizou indígenas e manifestantes que conseguiriam evitar a demolição.

Pouco mais de um mês depois, o Governador do Rio, Sérgio Cabral, anunciou que o edifício viraria museu do Comitê Olímpico Brasileiro. Eliomar Coelho, vereador do PSOL no Rio, propôs o tombamento da área, porém a proposta foi derrotada a 14 de março em votação na Câmara dos Vereadores da cidade.

Somente 12 dos índios que viviam na Aldeia Maracanã [a nota de imprensa oficial indica 22] aceitaram o alojamento provisório oferecido pelo governo de estado, no pátio de um antigo hospital para portadores de hanseníase em Jacarepaguá, onde se espera que venha a ser construído o Centro de Referência da Cultura Indígena. O empreendimento abriga mais de duas mil pessoas e foi rejeitado pela maioria do grupo indígena por ser isolado e não oferecer perspetivas de trabalho.

Indignados com sua expulsão, os 75 indígenas que viviam na Aldeia Maracanã decidiram resistir, e não o fizeram sozinhos, informa a professora da UFF Fernanda Sánchez:

As lideranças indígenas são apoiadas por diversos movimentos sociais, estudantes, pesquisadores, universidades, comitês populares, organizações nacionais e internacionais de defesa dos Direitos Humanos, redes internacionais e outras organizações da sociedade civil. A luta dos índios e o conflito estabelecido entre o governo e o movimento resultaram num importante recuo do governo, que diante da pressão social desistiu da demolição do prédio e passou a defender a sua “preservação”. A desocupação do prédio foi decretada, com hora marcada.

Manifestantes fecham avenida Radial Oeste em protesto após entrada da PM na Aldeia Maracanã. Foto de Artur Romeu, usada com permissão.

Manifestantes fecham avenida Radial Oeste em protesto após entrada da PM na Aldeia Maracanã. Foto de Artur Romeu, usada com permissão.

E completou:

Os manifestantes, em absoluta condição de desigualdade frente à força policial e seu aparato de violência, lançaram mão de instrumentos bem diferentes daqueles utilizados pelo Batalhão de Choque: ocuparam o prédio para apoiar os índios, resistiram à sua desocupação e manifestaram, no espaço público, nas ruas e avenidas do entorno do complexo do Maracanã, sua reprovação e indignação frente à marcha violenta desta política.

Durante a desocupação, jornalistas foram atingidos por spray de pimenta enquanto tentavam fazer seu trabalho, ao passo que ativistas eram covardemente agredidos e feridos. O cartunista Caros Latuff gravou imagens da brutalidade policial e as postou no Youtube:

Enquanto criticava o uso de violência por parte da polícia em entrevista vídeo, o Deputado Federal Marcelo Freixo, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, foi surpreendido por mais violência. O coletivo Juntos, no Facebook, reproduziu suas palavras:

A PM agiu arbitrariamente. Não era preciso o uso da força. Era um grupo pequeno que estava lá quando o Batalhão de Choque entrou. Mesmo que alguns resistissem, era possível a retirada das pessoas sem violência. Chegaram a lançar spray de pimenta nos parlamentares, no promotor e no defensor público.

Manifestante é arrastada por policiais do Choque. Foto de Artur Romeu, usada com permissão.

Manifestante é arrastada por policiais do Choque. Foto de Artur Romeu, usada com permissão.

O ativista Bruno Guimarães fez um extenso relato no Facebook do processo de desocupação violenta que acompanhou:

Todos os que estávamos por lá, mais de 500 pessoas, receberam gás lacrimogênio, pois fomos cercados e ora a polícia de um lado, ora a de outro, nos atacava, não havendo ponto de fuga. Os membros da imprensa protestavam, os manifestantes também, alvos de uma violência despropositada. A hora seguinte foi de batalha campal. E de sadismo, policiais que gritavam “voltem para a floresta, seus índios”, ou que riam de nós por não termos as máscaras para nos proteger do gás. Cheguei em um deles, pedi para poder sair dali, disse que não era do Rio, era turista, questionei tanta violência, e ele me disse “pois estamos fazendo isso daqui é para vocês, turistas, mesmo. Só estamos cumprindo ordens”.

A Agência de Notícias das Favelas postou, no Youtube, vídeo com bombas de gás sendo jogadas nos manifestantes:

Guilherme Pimentel, do coletivo da revista Vírus Planetário fez um breve relato dos erros da desocupação:

1 – O governo (Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Estado) se negou a negociar no local e disse que só negociaria depois de retirados todos os indígenas. Essa postura gerou um grande impasse.
2 – Os oficiais de justiça preferiram a velocidade do que a qualidade do cumprimento da “ordem” de despejo, vetando propostas que tomariam muito tempo e ignorando inclusive a condição expressamente colocada pelo juiz de não utilizar nenhuma forma de violência.
3 – A PM descumpriu sua palavra de não agir com violência na desocupação do local, mesmo com os manifestantes já cedendo e saindo por vontade própria, já com os portões abertos e sem cadeado…

O ativista Pedro Rios Leão gravou diversas cenas de violência contra manifestantes, bem como o usuário do Youtube Aquilante Leonel:

Há ainda a denúncia de que um arma sônica teria sido usada pela primeira vez no país contra os manifestantes.

O Deputado Federal Chico Alencar (PSOL), por fim, no Facebook, afirmou que a luta irá continuar:

Marx escreveu que ‘a história só se repete como tragédia ou como farsa'. Taí: Cabral invadiu a Aldeia Maracanã, com suas naus cruzadistas, e expulsa seus nativos. Mas a luta vai prosseguir, e os ‘conquistadores’ contemporâneos, mercadores dos espaços urbanos, encontrarão resistência!

Artigo atualizado a 26 de março de 2013

Escrito por Raphael Tsavkko Garcia · comentários (3)
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23 Mar 08:51

Deixa a Elza Soares gingar, Feliciano

by Daniel Dantas Lemos
Allan Patrick

Elza Soares é uma das pessoas que me faz ter profundo orgulho de ser brasileiro.

Por Pedro Alexandre Sanches No Ultrapop

Não é todo dia que a história nos reserva acontecimentos deste porte. Elza Soares vinha fazendo um show emocionado no Sesc Pinheiros, na noite de quinta-feira (20 de março). Elevou a emoção em mais um grau ao cantar, rappeando, uma versão bem Elza para “Não É Sério” (2000), rock do Charlie Brown Jr., em homenagem a Chorão. Vinha ela de “o jovem no Brasil nunca é levado a sério”quando, de repente, a música virou do avesso e se transformou em algo que nem Chorão poderia supor se aqui ainda estivesse: um protesto contra o pastor evangélico e deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), alçado por jogos de poder que não compreendemos à posição de presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal.

“Eu me sinto maltratada. Me sinto um pouco renegada. Cadê os direitos humanos? Somos negros. Somos gays”, Elza começou, referindo-se diretamente às renitentes manifestações de cunho racista e homofóbico por parte de Feliciano, seja como pastor deputado, até mesmo no impensável cargo no qual ele deveria defender – e não atacar – direitos humanos os mais variados.

De imediato, a plateia se levantou e passou a ovacionar Elza. “Fora, racista!”, ela comandou. “Fora!”, correspondeu a plateia. “Fora!, fora!, fora!”, repetiu a cantora, rappeando, como se o rock branco de Chorão fosse o samba-rap preto de Elza Soares. Como tem acontecido em ruas de diversas brasileiras desde que Feliciano sentou no trono inadequado, os espectadores presentes deliraram em protesto contra sua permanência. E Elza esmerilhou o assunto: “Será que ele sabe que a voz que ganhou a voz do milênio pela BBC de Londres é de uma negra, chamada Elza Soares? Sou eu. Será que ele não sabe que quem trouxe a Copa do Mundo para este país foram Pelé e Garrincha, negros?”.

O que negra Elza protagonizava era um desses raros momentos em que arte e política se tornam uma coisa só, e enriquecem um ao outro, bem longe de chatear a diversão como muito gosta de afirmar e repetir um desgastado clichê da crítica cultural comercial. O público demonstrou se divertir à beça com o protesto, e vice-versa.

Era só a quarta música do show Deixa a Nega Gingar, mas, se é caso de mirar a apresentação em perspectiva, antes e depois daquele momento mais exaltado, só uma conclusão é possível: Elza Soares é 100% política, direitos humanos e arte – sobretudo arte.

Já tornada histórica em sua voz, a canção imediatamente anterior à que (des)uniu Chorão e Feliciano foi “A Carne” (1998), parceria de Seu Jorge (na época à frente do grupo pop-reggae-soul-funk-etc. Farofa Carioca) e Marcelo Yuka (então cérebro do rap-reggae-rock consciente da banda O Rappa). Adaptado ao gogó de Elza, o refrão vira o forte e reto “a carne mais barata do mercado é a MINHA carne negra”. “Elza Soares é negra”, “a minha mãe é negra”, “a minha carne é negra”, ela acrescenta à canção, estimulando público apaixonado a repetir “negra”, “negra”, “negra”...

Antes ainda, ela já beliscara o racismo ancestral embutido em “Nega do Cabelo Duro” (1940), marchinha carnavalesca nada inofensiva coescrita pelo também jornalista poderoso David Nasser. Na versão de Elza, a mistura ganha versos tipo funk carioca como “eu sou negrinha/ eu sou gostosa/ o meu cabelo tá na moda”. Os cabelos alisados de Feliciano, neste outro contexto, ganham ares de tragédia, autopreconceito e automutilação. Aqui Elza, cabeluda encaracolada que só, é o anti(in)Feliciano. “Quando a gente é feliz, a gente não maltrata ninguém”, acrescentou mais adiante, autoelogiando a alegria que transmite mesmo presa à cadeira, com os movimentos (mas nunca a voz) limitados por uma cirurgia na coluna. “Respeitem uma mulher operada, gente”, ela brincou, ciente do trocadilho caro a travestis, transexuais e transgêneros.

Elza Soares lança álbuns de música desde 1960 – há inacreditáveis 53 anos. Enquanto o racismo estrutural desta sociedade operava para enquadrá-la na condição (supostamente) desvantajosa de mulher negra, o mercado musical fazia o mesmo com o(s) estilo(s) de sua voz: muito se tentou aprisioná-la unicamente sob o rótulo de sambista. Por vezes ela teve de obedecer, mas já faz tempo que isso não acontece – mais ou menos o mesmo intervalo desde o início do desmoronamento da indústria fonográfica como a conhecíamos. Democratizando-se o Brasil, Elza se pôs doidamente a se democratizar.

Deixa a Nega Gingar é a cristalização dos ventos de liberdade que Elza há tempos vem soprando sobre nós. Imobilidade física à parte, ela está livre para falar dos assuntos que quiser – música, música, música, racismo, racismo, racismo, machismo, homofobia, racismo, racismo etc. A liberdade, digamos, ideológica se reflete diretamente na liberdade musical. Elza adota um formato que já testara em 2004, no disco de samba eletrônico Vivo Feliz. A ideia ressurge aperfeiçoada e impactada por uma banda sensacional que inclui um músico negro no contrabaixo acústico (pode lhe parecer banal, mas quantas vezes você já viu um instrumentista negro empunhando esse pomposo instrumento?), um tecladista branco que a certa altura intromete deliciosa sanfona na receita e o sensacional DJ Muralha, que desmente o clichê de que DJs de música eletrônica não são músicos e se torna um dos focos luminosos do show, à custa de picapes e iPad.

Acalentado em eletrônica, o show de Elza transcende o samba e faz lembrar, em momentos distintos, atos como Pink Floyd, Prodigy, Radiohead. E termina num impressionante tecnocandomblé enriquecido por três ritmistas (negros), sob os sons de “Madalena do Jucu” (1989), de Martinho da Vila, “O Que É o Que É” (1982), de Gonzaguinha, e o samba-enredo de avenida “É Hoje” (1982). A eletrônica é usada a serviço da brasilidade, e isso é tão novo e quente quanto o entusiasmo irrefreável de Elza negra.

Todos no palco, exceto a dona do palco, são muito ou relativamente jovens. O contraste se acentua nas várias canções em que Elza chama a paraense Gaby Amarantos para secundá-la “Você é minha barra de chocolate, dá vontade de comer Elza Soares”, diz Gaby, antes de ambas cantarem juntas uma versão desacelerada de “Ex-Mail Love”. Um traço próprio da inventora do samba-jazz, de estar sempre ligada a cada momento musical que atravessamos, faz com que Elza reverencie a deusa profana pop-brega-MPB-indígena-etc.

Talvez Gaby seja a Elza de amanhã, e a experientíssima artista é generosa e inteligente emenxergar e sublinhar isso hoje, agora, sem demoras nem delongas. De certo modo, o tecnobrega da discípula é o que a matronaa sempre quis fazer – e faz – em sua cybergafieira, arrombando barreiras de gêneros (musicais, sexuais, raciais), preconceitos, intolerâncias, ignorâncias. Por tudo isso, Elza é o anti-Marco Feliciano, além de ser (e é bem bom que se diga isto quando ela está BEM viva) uma das maiores artistas (ainda muito vivas) da história da música brasileira.
22 Mar 21:46

Wanderlei Pignati: Até 13 metais pesados, 13 solventes, 22 agrotóxicos e 6 desinfetantes na água que você bebe

by Conceição Lemes

por Manuela Azenha, de Cuiabá (MT)

publicado originalmente em 25/03/2011

Há cinco anos, Lucas do Rio Verde, município de Mato Grosso, foi vítima de um acidente ampliado de contaminação tóxica por pulverização aérea. Wanderlei Pignati, médico e doutor na área de toxicologia, fez parte da equipe de perícia no local. Apesar de inconclusiva, ela revelava índices preocupantes de contaminação.

Em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Pignati passou então a dirigir suas pesquisas à região Centro-Oeste.  Professor na Universidade Federal do Mato Grosso,  há dez anos ele estuda os impactos do agronegócio na saúde coletiva. É o estado onde mais se aplica agrotóxicos e fertilizantes químicos no Brasil, país campeão no consumo mundial dessas substâncias. Pignati alerta que três grandes bacias hidrográficas se localizam no Mato Grosso,  portanto quando se mexe com agrotóxico no estado, a contaminação da água produz impacto enorme.

O projeto de pesquisa coordenado por Pignati tem o compromisso de  levar  às populações afetadas os dados  levantados e os diagnósticos. Para ele, é fundamental promover um movimento social de vigilância sanitária e ambiental que envolva não só entidades do governo, mas a sociedade civil organizada e participativa.

[Clique aqui para ler sobre a pesquisadora que descobriu venenos no leite materno]

Diferentemente da União Européia, aqui a legislação não acompanha a produção de conhecimento científico acerca do tema. Segundo Pignati, a legislação nacional, permissiva demais, limita a poluição das indústrias urbanas e rurais, enquanto paralelamente a legaliza.

As portarias de potabilidade da água, por exemplo, ampliaram cada vez mais o limite de resíduos tóxicos na água que bebemos. E na revisão da portaria que está prestes a acontecer, pretende-se ampliar ainda mais.

Pignati condena a campanha nacional em prol do álcool e do biodiesel, energias que considera altamente prejudiciais e poluentes para o país que as produz: “Se engendrou toda uma campanha para dizer que o biodiesel viria da mamona, do girassol, de produtos que incentivariam a agricultura familiar, mas é mentira, vem quase tudo do óleo de soja”.

Assim como a pesquisadora cearense Raquel Rigotto (leia aqui a entrevista dela ao Viomundo), Pignati também questiona a confiabilidade do  “uso seguro dos agrotóxicos”,  um aparato de normas e procedimentos que mesmo se contasse com estrutura para seu funcionamento ideal, ainda assim não garantiria o manejo absolutamente seguro dos venenos.

Para Pignati, a falta de investimento na vigilância à saúde e ao ambiente no Brasil é uma questão de prioridade: “Tem muito dinheiro para vigilância, mas não para o homem. Existe um verdadeiro SUS que cuida de soja e gado, produtos para exportação”.

Viomundo – Desde o acidente de Lucas do Rio Verde, o que o senhor vem pesquisando?

Wanderlei Pignati – Na verdade, faz mais de dez anos que pesquisamos os impactos do agronegócio ao homem e ao ambiente.

Na safra de 2009 pra 2010, Mato Grosso usou 105 milhões de litros de agrotóxico. O Brasil usou 900 milhões, quase 1 bilhão de litros de agrotóxicos. É o maior consumidor do mundo. E Lucas do Rio Verde usou 5 milhões em 2009. Aonde vai parar esse volume todo? É isso o que temos pesquisado.

Estudamos a contaminação das águas e para isso a gente trabalha com bacias. No Mato Grosso, você tem várias bacias. A bacia do Pantanal, que é do rio Paraguai e nasce aqui no estado. Tem a bacia do Araguaia, uma de suas grandes nascentes é o rio Morto, aqui em Campo Verde. E a bacia do Amazonas em Lucas do Rio Verde, cujas nascentes são os rios Verde e Teles Pires.

Portanto, quando você mexe com agrotóxico e fertilizante químico no Mato Grosso, está mexendo com as três grandes bacias do Brasil: a do Araguaia, a Amazônica e a do Pantanal. A bacia do Pantanal é uma questão mais séria ainda porque ela vai atingir outros países, como Paraguai, Argentina e Uruguai. Tem três grandes bacias e três biomas no estado: o pantanal, o cerrado e a floresta.

As nascentes dos rios dessas bacias estão dentro das plantações de soja. É o mesmo caso da bacia do Xingu, o maior parque índigena do Brasil. As suas  nascentes estão nos municípios em volta, onde está cheio de plantação de soja, de milho e algodão. Queriam implantar mais uma série de usinas de açúcar e álcool no entorno do pantanal, mas veio um decreto do presidente proibindo. O agronegócio não respeita essa questão das bacias e nem das nascentes dos rios. Essa problemática é o que estudamos.

Em Lucas do Rio Verde, em 2006, houve um acidente agudo que saiu na mídia. Na mídia daqui, saiu pouco porque é muito comprometida com quem a paga, que na época era o governador Blairo Maggi. Ele tem a mídia sob controle.  Na época, estavam dissecando soja em torno das plantações, que se estendem até a beira da cidade.  Planta-se e pulveriza-se com trator ou com avião. Em Lucas, pulverizava-se a soja transgênica, que é muito pior para o ambiente do que a soja normal.

Viomundo – A maioria da soja já é transgênica?

Wanderlei Pignati – No Mato Grosso, 80% dessa última safra já é. No Rio Grande do Sul, é 95%. Agora está entrando muito milho transgênico também. Aqui, tira-se a soja e planta-se o milho. São duas safras grandes de plantação aqui.

Viomundo – Os transgênicos exigem mais agrotóxicos?

Wanderlei Pignati –A soja transgênica sim, porque  não é resistente à praga, ela é resistente a um agrotóxico, que é o glifosato. Esse é um agrotóxico bastante usado, que a Monsanto patenteou com o nome de Roundup. Na soja comum, você não pode usar o glifosato depois de ela ter nascido,  porque ele mata o mato e a soja também. Mata minhoca, fungo, bactérias sensíveis a ele. Por biotecnologia, pegaram uma bactéria resistente ao glifosato e injetaram o DNA dessa bactéria no DNA da soja.

Então, o glifosato só era usado antes da soja nascer para matar as ervas daninhas. Agora, como é resistente, aplica-se o glifosato a cada quinze dias e o uso dele foi multiplicado na soja. Depois, precisa madurar e dissecar a soja rapidamente para plantar o milho.  No meio natural, demora um mês e pouco. Com esse dissecante, em três dias a soja madura, seca e a máquina já pode entrar na plantação. Isso para aproveitar as chuvas da segunda safra e plantar o milho. Mas para dissecar agora já não se  pode usar o glifosato, porque a soja é resistente a ele. Então usa-se outro tipo de agrotóxico, o diquat ou o paraquat, classificado como classe 1, extremamente tóxico. O glifosato é classe 4, tóxico também, mas pouco. O paraquat é proibido na União Européia.

Além de multiplicar o uso do glifosato, você agora usa um agrotóxico extremamente tóxico como secante [da soja]. E não é toxico só para o humano, ele é altamente perigoso para o ambiente, porque mata tudo quanto é coisa, abelha, pássaro. E no  caso de Lucas, eles estavam dissecando a soja de avião, usando diquat e paraquat em torno da cidade.

Uma nuvem foi para dentro da cidade e queimou todas as plantas medicinais. Tinha um horto de plantas medicinais com mais de 100 canteiros que abastecia várias cidades. Foram queimadas as hortaliças e plantas ornamentais da cidade também. Deu um surto agudo de vômito, diarréia e alergia de pele em crianças e idosos. Os médicos classificaram como rotavirose.

Nós da Universidade Federal do Mato Grosso fomos chamados pelo Ministério Público de Lucas do Rio Verde e do estado para fazer uma perícia. A gente viu que a coisa era bastante séria, um acidente sério que acontece todo dia. É a chamada deriva de agrotóxico. É previsível, porque os agronômos sabem que tem vento, o vento não está parado. Então, você passa agrotóxico perto da cidade e o vento vai levá-lo para lá.

O pessoal se esconde por trás da palavra “deriva” para dizer que aquilo foi um acidente, mas é um acontecimento prevísivel. Passar um agrotóxico extremamente tóxico a partir de um avião é mais previsível ainda. Mesmo quando o agrotóxico já está no solo, ele depois se  evapora. Jogar veneno é um ataque quase de guerra. Não se trata de pesticida ou defensivo agrícola. Na legislação, está como agrotóxico. O trabalhador que está passando o agrotóxico pode estar protegido com todos os EPI (equipamento de proteção individual), mas e o ambiente? Vai colocar EPI nas outras plantas? Querem matar os insetos, o fungo, a erva daninha. Então teria de  colocar EPI nos outros animais, como no peixe e no cavalo.

O uso seguro do agrotóxico é altamente questionável. Pode ser seguro para o trabalhador, isso se ele usar todos os EPI. Mesmo assim, tem toda uma questão da eficiência e eficácia desses EPI. Sou também médico do trabalho e a gente vê isso. A eficiência e eficácia do EPI é de 90%, se [os trabalhadores] usarem máscara com o filtro químico adequado. E o resto do vestimento? Agrotóxico penetra até pelo olho! Pela mucosa, pela pele. Então teria que ter até um cilindro de oxigênio para respirar igual a um astronauta. O filtro pega 80% ou 90% dos tipos de agrotóxico. Hoje, você tem mais de 600 tipos de princípios ativos e são 1.500 tipos de produtos formulados. Tem agrotóxicos novos com moléculas muito pequenas que passam pelo filtro. Então, com toda a proteção ideal, você protege o trabalhador. Mas, e o ambiente?

Os resíduos vão sair na água, depois na chuva, vão ficar no ar, vão para o lençol freático. A gente viu isso na cidade, depois fizemos uma perícia mas ficou inconclusiva. Por isso, resolvemos fazer uma pesquisa junto com a Fiocruz. Ao mesmo tempo, estava-se articulando pesquisas em outros estados aqui da região Centro-Oeste. O nome da nossa pesquisa é “Avaliação do risco à saúde humana decorrente do uso do agrotóxico na agricultura e pecuária na região Centro-Oeste”. A gente pegou dois municípios e um município-controle, em que quase não se usa agrotóxico.

Viomundo – As pesquisas em Lucas do Rio Verde já estão bastante avançadas?

Wanderlei Pignati – Já. Talvez a análise do leite materno tenha sido um dos últimos tópicos, mas a gente continua com sapos e com peixes.  Em outros munícipios, a gente não fez o teste do leite, por exemplo. Mas isso porque Lucas é o maior produtor de milho no estado do Mato Grosso, terceiro em produção de soja. Então achamos que era necessário o trabalho. Analisamos o leite materno de 62 mulheres em Lucas, 20% das nutrizes amamentando no ano passado. Todas as amostras revelaram algum agrotóxico. Mas o que mais deu nessas amostras é um derivado de DDT, que se usava na agicultura até 1985 e na saúde pública, até 1998, para combater a malária.

Só que ele é cumulativo, entra na gordura e não sai mais. O segundo que mais deu foi endossulfam, 40%. É um clorado proibido faz 20 anos na União Européia. E por ser um clorado também fica acumulado na gordura. Retirar o leite é uma maneira de analisar os resíduos de agrotóxico na gordura, menos agressiva que uma biópsia. Quando a mulher fabrica o leite, as gorduras mais antigas vão para o leite.

Depois desse acidente, despertou na população um movimento de querer saber o que está acontecendo.

Viomundo – E depois que a perícia averigua a causa do acidente, o que acontece?

Wanderlei Pignati – Algumas coisas você comprova na hora, outras demoram anos. Fazemos análise de resíduo de agrotóxico na água, no solo, na chuva, no leite.

Para avaliar o leite, a gente começou há três anos a desenvolver uma técnica para analisar dez agrotóxicos de uma só vez. Uma substância isolada é custosa em termos de dinheiro e tempo e, analisando dez substâncias, a chance de encontrar  resíduos é maior. Das amostras, 100% deram pelo menos um tipo de agrotóxico. Pegamos os 27 tipos de agrotóxicos mais consumidos na região do Mato Grosso e fizemos as análises. Dentre os 27 mais consumidos, você não tem o glifosato, por exemplo, que é o herbicida mais usado no país, porque não tínhamos tecnologia no Brasil para analisá-lo. Hoje tem, mas é muito cara. Os únicos que fazem esse exame são meia dúzia de laboratórios.

Periodicamente a gente levanta dados, tem as dissertações de alunos. No nosso grupo de estudos, tem uma aluna que estuda resíduo de agrotóxico em leite, outra que estudou agrotóxicos e câncer. Onde tem a maior incidência de câncer aqui no MT? Justamente nas regiões  produtoras do estado. Em torno de Sinop: Lucas do Rio Verde, Sorriso, Nova Mutum, que são os municípios no entorno. A região de Tangará da Serra, Sapezal, Campos Novos dos Parecis, que são os grandes produtores de soja. E a região de Rondonópolis, Primavera, Campo Verde, Itiquira, onde se produz muito algodão.

São as grandes regiões produtoras onde tem maior incidência de câncer, má formação, intoxicação aguda. Você tem 80% a 90% desmatado nesses lugares. Se está desmatado, é porque está se plantando soja, milho e algodão até a beira das casas. Mato Grosso produz 50% do algodão do Brasil e é justamente a cultura que mais usa agrotóxico. No Mato Grosso, em média, um hectare de soja usa dez litros de agrotóxico: herbicida, inseticida, funigicida e o dissecante.  O milho usa seis litros. A cana, quatro litros e o algodão, vinte.

Como a gente tem grande produção de soja — são seis mihões de hectares de soja no Mato Grosso –, dá 60 mihões de litros de agrotóxico na soja. Obtemos esses números no INDEA [Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso], onde todo receituário agronômico e uso de agrotóxico é registrado. Na maioria dos estados não tem, mas deveria haver esse banco de dados. São 40 municípios que consomem 80% desses 100 milhões de litros de agrotóxicos.

No geral, ocorre uma contaminação, inclusive da chuva, que tem muito agrotóxico presente. Ele evapora,  depois desce, principalmente no período de chuva, que é quando mais se usa agrotóxico. Na entressafra, chove pouquíssimo. Então, quase ninguém está plantando. O agrotóxico evapora, desce e vai para toda região, não só para aquele município onde foi aplicado. Vai para o ar também. Se você está pulverizando a alguns metros de uma escola, esse ar vai para os alunos, para os professores. E os poços artesianos a alguns metros de uma grande plantação de soja, milho ou algodão também se contaminam.

Com o tempo, o agrotóxico vai penetrando no solo e sai no poço, mesmo que esteja a 50, 60, 70 metros de profundidade. Isso é o que a gente chama de poço semi-artesiano e a maioria é assim. Uma região de cerrado tem pouco abastecimento por córrego, é mais por poço artesiano que as cidades e comunidades rurais se abastecem.

Encaminhamos o relatório dessa pesquisa para o CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico]. Lá em Lucas, a gente já fez uma audiência pública na Câmara Municipal, onde apresentamos esses dados. Estavam presentes vários professores, vereadores, os secretários da saúde, educação e agricultura. As Secretaria da Agricultura e do Meio Ambiente são juntas em 140 dos 141 municípios de Mato Grosso. O grande poluidor do meio ambiente — a agricultura químico-dependente, que desmata e usa muito agrotóxico e fertilizante químico –  tem o mesmo gestor e fiscalizador que o meio ambiente. A maioria dos secretários da agricultura é de fazendeiros, eles não vão denunciar a poluição dos colegas deles. Aqui no estado, a única exceção é Cuiabá, mas é onde não tem agricultura.

O MP [Ministério Público] está elaborando um termo de ajuste de conduta. Em Campo Verde  também teve uma audiência pública para estabelecer uma legislação com os dados parciais que a gente já tinha e fazer uma legislação que determinasse a distância mínima para pulverização no entorno da cidade. O promotor recebeu o relatório e está preparando um ajuste de conduta também.

Esses lugares são semelhantes entre si, porque são dos 40 municípios do estado que consomem 80% dos agrotóxicos, dos fertilizantes químicos e das sementes. A dinâmica é parecida nesses 40 municípios. Desmata-se e pulveriza-se até a beira do córrego, no entorno dele e nas nascentes. As comunidades rurais e a própria cidade ficam ilhadas no meio das plantações.

No pasto, usa-se muito herbicida e inseticida e isso vai entrar no ciclo da carne. Os outros suínos e as aves são contaminados pela soja e pelo milho, porque a ração desses animais é à base desses produtos. Dessa maneira, os resíduos do agrotóxicos vão parar nos alimentos.

O Ministério da Saúde  analisou 20 tipos de alimentos e 30% pelo menos deram algum tipo de agrotóxico. A maioria dos agrotóxicos analisados — foram mais de cem –  é  autorizado aqui no Brasil.

Uma boa parte, uns 14, está sob revisão. Dois ou três foram proibidos e o endossulfam, bastante usado aqui e muito tóxico, vai ser proibido a partir de julho de 2013.

Metamidofois,  outro fosforado, que dá muito problema no sistema nervoso, psiquiátrico, até doença de Parkinson, vai ser proibido a partir de julho do ano que vem. Esses são proibidos há vinte anos na União Europeia e aqui quando é proibido, é só partir de 2013. Sabe-se que o metamidofós é cancerígeno, neurotóxico e mesmo assim só será proibido a partir de julho do ano que vem.

Viomundo – Já existe conhecimento científico suficiente para uma política mais incisiva? Por que é tão permissiva a legislação brasileira em relação aos agrotóxicos?

Wanderlei Pignati – Você tem a lei do agrotóxico, a Lei 7.802 de 1989,  depois regulamentada pelo decreto 4074, de 2002.  Mas existem alguns furos. Primeiro, quem está fiscalizando? É um volume imenso de agrotóxicos, todos permitidos no Brasil. Teria de haver alguns critérios. E os critérios que existem, como a distância mínima de 500 metros de nascente de água, casas, criação de animais, ninguém respeita.

Viomundo – Mas os critérios no Brasil são diferentes? Por que os proibidos lá fora, aqui são permitidos?

Wanderlei Pignati – São diferentes. Os mais tóxicos são proibidos lá e aqui permitidos. Isso por causa da nossa dependência econômica. Quem governa o Brasil? Aqui, no Mato Grosso, os grandes governantes são fazendeiros, assim como no Goiás. Falo de governantes não só do executivo, mas do legislativo também. Deputados estaduais, os veradores, uma boa parte é fazendeiro e comprometido com esse modelo de desenvolvimento.

Não querem mudar agora o Código Florestal para devastar mais ainda? Aqui, no Mato Grosso, 80% estão devastados por quê? Na região Amazônica também. Segundo a lei, teria que desmatar 20% e preservar 80% nas áreas de floresta, de preservação permanente. No cerrado, você pode desmatar 70% e deixar 30%.

Os agrotóxicos são fabricados lá fora e vêm para o Brasil. O compromisso dos empresários que vendem esses produtos não é com a saúde. E o grande fazendeiro quer saber de matar o que ele chama de praga.

A gente tem que inverter isso, quem é a praga que começou a desmatar, depois a usar um monte de veneno? Dá para produzir sem o veneno? Dá, é o modelo da agroecologia. Entra no modelo dos orgânicos.

O maior produtor de açúcar e álcool orgânico é o Brasil. É produzido numa cidade do interior de São Paulo, Sertãozinho. São 16 mil hectares de cana num processo industrial semelhante ao outro, tem máquina cortando mas sem usar uma gota de fertilizante químico ou agrotóxico. Começou 30 anos atrás, selecionando as sementes, as mudas de cana resistentes. Montou-se um laboratório próprio, com biólogo, engenheiro, para eles mesmos selecionarem ao invés de comprar sementes já selecionadas.

Diferentemente dos outros produtores, que dependem da meia dúzia de empresas que dominam toda indústria de semente de soja, milho, algodão, feijao, arroz. Essas empresas não fazem seleção para não usar agrotóxico ou fertilizante químico, se não como vai ficar a indústria deles, de fertilizante e agrotóxico? O mesmo dono da patente da semente é o dono do agrotóxico e do fertilizante químico. E mais ainda:  é o mesmo que produz o medicamento, da indústria química.

Hoje, uma boa parte de medicação que a gente usa para tratar pessoas que tiveram infecção aguda, câncer ou uma outra doença neurológica, psiquiátrica, é produzido por quem produz fertilizante químico e agrotóxico. É um complexo químico-industrial, estão todos ligados.

É um tanto esquizofrênico para essa sociedade que se diz desenvolvida. Tem que ser outro modelo de desenvolvimento, isso porque eu estou discutindo a área agrícola sem entrar na indústria urbana, que é semelhante.

Existe uma legislação para limitar a poluição e uma legislação paralela para legalizá-la.  Os jornalistas perguntam quanto que é o limite máximo permitido de agrotóxico no litro d’água? A gente já chegou a esse grau de não questionamento, de não se indignar, de acatar isso.

Se você pegar a Portaria 518 de 2004, do Ministério da Saúde, que chama-se Portaria da Potabilidade da Água, dá pra ver o que é permitido ter na água hoje. A gente fala muito de coliformes  fecais. Mas e os agrotóxicos são permitidos? E os solventes? E metais pesados? Todos eles são permitidos.

O litro de água que você bebe hoje, de acordo com essa portaria, pode ter 13 tipos de metais pesados, 13 tipos de solventes, 22 tipos de agrotóxicos diferentes e 6 tipos de desinfetantes. Hoje, a questão mais importante na contaminação da água não é mais a bactéria, mas toda essa contaminação química.

Viomundo – Essas portarias de potabilidade da água aumentaram cada vez mais o limite de contaminação. Por quê?

Wanderlei Pignati – Se você comparar essa portaria com a da Uniao Européia, vai ver que aqui tem 22 tipos de agrotóxicos enquanto lá pode ter, no máximo, cinco.  Os limites lá são ínfimos.

Enquanto lá você pode ter 20 microgramas de glifosato, aqui pode ter 500 microgramas. E ainda querem subir para mais. A primeira portaria, de 1977,  podia ter 12 agrotóxicos, 10 metais pesados, zero solventes e zero derivados de desinfetantes. A seguinte já é de 1990.  A vigente é de 2004. Isso acompanha o crescimento da população urbana e rural, que se  reflete na água. Os agrotóxicos são a poluição rural. Não se faz um tratamento adequado da água, só tiram os coliformes, botam cloro e fazem um tratamento primário. Esse tratamento, de 100 anos atrás, é feito por decantação.

Você coloca o produto, ele decanta, vai todo para o fundo, aí você aspira. É como limpar uma piscina. E os produtos químicos que ficaram dissolvidos na água? Quem usa muito solvente são as indústrias urbanas. Metais pesados são usadas nas indústrias urbanas e na agricultura também, junto com os fertilizantes químicos. Aquilo se acumula durante anos e sai na água. A portaria da potabilidade da água reflete a legalização da poluição urbana e rural.

Viomundo – Como o desenvolvimento urbano e rural foi crescendo, as portarias foram permitindo cada vez mais?

Wanderlei Pignati – Sim, porque essas substâncias vão sendo usadas cada vez mais. Depois,  na revisão da portaria, já querem aumentar o limite. Querem tirar alguns agrotóxicos antigos e colocar outros novos. É uma sociedade sem muita informação e sem muita indignação. A grande mídia fala de limite máximo de resíduo como se fosse uma banalidade. Tudo isso é permitido na água? O leite da vaca tem um monte de coisa permitida também, agrotóxicos que são muito usados no pasto e vão parar na carne e no leite.

Agora, quando é carne para exportar e existe esse limite de resíduo, aí fazemos as análises. Às vezes, volta soja e carne porque não foram aprovados pelo nível de resíduo de lá [do país importador]. Alguém ja viu incinerar aqueles vários navios de soja que voltaram? Depois que o produto saiu da indústria e foi para o supermercado daqui, seja carne, frango, soja, milho, quem fiscaliza?

A vigilância sanitária do município ou do estado tem que ir fazer as análises, e não se faz isso de maneira rotineira. Quando fazem análise de algum produto, analisam o coliforme fecal. Vêem se aquele produto entrou em putrefação. Mas vai fazer análise de resíduo de agrotóxico, que é cara?

Viomundo – Não fazem as análises por falta de estrutura?

Wanderley Pignati – Por falta de estrutura, mas não tem estrutura porque não tem investimento. Mas para exportar não fazem as análises? E para cuidar da saúde do boi e da soja? Existe muito dinheiro para a vigilância à saúde no Brasil, mas não para o homem. Existe a vigilância do boi e da soja. O SUS do boi e da soja.  A vigilância do boi e da soja tem escritórios do governo do estado nos 142 municipios, com agrônomo, veterinário. Tem mais de 20 carros. Quem é que faz toda a estrutura para vacinar 27 milhões de cabeças de gado do Mato Grosso?

Fazem campanha, o veterinário vai todo mês na fazenda ver se vacinou ou não contra febre aftosa. O fazendeiro compra a vacina, tudo bem, que é o custo menor. Aqui,no Mato Grosso, você tem 500 mil crianças abaixo de cinco anos e qual é a cobertura contra sarampo, hepatite, meningite, tuberculose? Vacinou quantos por cento das crianças? As 27 milhões de cabeças [de gado] estão todas vacinadas, do contrário não são exportadas. A infraestrutura é com o dinheiro público, mas os bois são de dinheiro privado. Com a soja, é a mesma coisa. Tem toda uma estrutura para não espalhar a ferrugem, que é um fungo da soja. Os agrônomos da Saúde tiram amostra, orientam os fazendeiros, fazem análise. O boi para exportar recebe cuidado, mas o que fica aqui e vai parar no supermercado, não.

Viomundo – O Mato Grosso é o maior produtor agrícola e maior consumidor de agrotóxico do país. O senhor acha que a alta produtividade de Mato Grosso depende do agrotóxico?

Wanderlei Pignati – As duas coisas estão ligadas. Cada vez se consome mais. Há dez anos, o hectare de soja consumia 8 litros e não 10 litros de agrotóxico, como hoje. Porque hoje você tem uma série de plantas já resistentes aos vários tipos de agrotóxicos. Então, primeiro você usa mais para ver se resolve.Depois, você troca por outro mais tóxico.

Viomundo – Mas é viável eliminar os agrotóxicos?

Wanderlei Pignati – Se você partir do sistema e começar a substituir a semente, sair desse domínio da semente, lógico que é viável, em grande escala. Como acontece em Sertãozinho, o maior produtor de açúcar orgânico do mundo. Eles exportam 99,9% dos produtos para União Européia. Hoje em dia a UE está preferindo nossos produtos orgânicos. Hoje tem algumas fazendas produzindo soja orgânica ou mesmo a soja tradicional, não transgênica, que já consome menos agrotóxico.

A UE prefere a soja não transgênica não só por causa do gene da bactéria que foi colocado junto com o da soja, mas também por causa dos resíduos do agrotóxico. Tem um nível de glifosato maior e depois, para dissecar, é usado o diquat ou paraquat, que é proibido na UE. Na China, na Índia, nos países do Oriente Médio e da África, esses produtos entram. Vamos levar a poluição para os nossos irmãos da África, da Ásia, que lá não tem controle nenhum. A sociedade precisa abrir os olhos e se mobilizar.

Viomundo – O governo Lula manteve esse modelo de desenvolvimento?

Wanderlei Pignati – Manteve, inclusive incentivou muito. Ele entrou dizendo que faria reforma agrária e fez praticamente nada. Ele fez 10% do que foi prometido. Em relação aos fazendeiros, ajudou o investimento na produção do biodiesel, da cana, ajudou a arrumar os portos, as estradas, mantendo algumas coisas do Fernando Henrique Cardoso. Por exemplo, manteve a antiga lei Kandir, em que os produtos rurais são isentos de imposto de exportação e do ICMS, então produzem soja e não fica um tostão aqui. Só produto industrializado é que paga imposto. Então, por que a gente produz tanta soja, exporta e mantém pouca industrialização aqui?

A carne é a mesma coisa, se você industrializar o que tem no frigorífco e transformar em salsicha, linguiça, aí paga imposto. E ainda vieram os governos estaduais, acabando com o ICMS.

Agrotóxico não paga ICMS, mas medicamento paga. Carros usados na agricultura, como tratores, não pagam ICMS aqui em Mato Grosso. São um monte de benesses que os governos federal e estadual deram ao agronegócio. Para a agricultura familiar, deu um pouquinho, para não dizer que não deu nada. Deram 95% aos grandes e 5% para a agricultura familiar.

Essa assistência técnica que o governo dá para os grandes produtores de boi e soja não tem nos assentamentos rurais. O governo manteve o modelo e ampliou mais ainda com o negócio do biodiesel, do álcool, dizendo que é a energia mais limpa do mundo. É mais limpa quando está dentro do navio, pronta para exportar, pois aqui dentro o álcool é a energia mais suja do mundo.  E agora o biodiesel. Tem que desmatar, usar agrotóxico, fertilizante químico, é o que mais emprega trabalho escravo, é o que mais está matando trabalhador na zona rural, inclusive de exaustão. Polui com os detritos dessas indústrias rurais.

Nossa gasolina tem que ter 20% de álcool e se consome muito nos carros a álcool. Agora, por decreto governamental, o diesel é 5% biodiesel. E de onde vem? Se engendrou toda uma campanha para dizer que viria da mamona, do girassol, de produtos que incentivariam a agricultura familiar. Mentira, hoje, 95% vem do óleo de soja. O Mato Grosso é um dos maiores produtores de biodiesel. Você pega o óleo de soja, que é um alimento, e transforma em óleo para ser misturado com o diesel lá em Paulínia [São Paulo]. O Lula incentivou isso. A maior indústria de biodiesel do Brasil fica aqui em  Barra do Bugres e há dois anos o Lula veio aqui inaugurar. Agora já tem dezenas no país todo. Assim como o álcool, com o qual poderia se produzir açúcar e outros alimentos em vez de ser produzido para carros.

Viomundo  – Do governo Dilma pode se esperar alguma mudança?

Wanderlei Pignati – É continuidade do governo que prioriza o desenvolvimento industrial urbano e rural nesse mesmo modelo. Pode piorar ainda mais se passar essa reforma do Código Florestal. Não é o governo da Dilma, é de vários partidos, como foi o do Lula. Um monte de empresários que permitem e mantêm esse modelo. A gente pensou que o governo Lula fosse mudar, não digo acabar com o capitalismo, mas, pelo menos, mudar um pouco essa correlação. Melhorar a agricultura familiar, ir no sentido da agroecologia, dar o mesmo privilégio de financiamento para os grandes e pequenos produtores. Nada disso aconteceu.

Viomundo – Lula ampliou o sistema de crédito para a agricultura familiar. O senhor não acha o suficiente para inverter o rumo do desenvolvimento?

Wanderlei Pignati – Ele ampliou no orçamento, mas no financeiro, quem conseguiu pegar? Grande parte dos assentamentos não tem uma legalização que pode ir lá pegar o financiamento. E se conseguir pegar, cadê a assistência técnica para ele produzir? A agricultura familiar vive um drama. Os pequenos produtores podem pegar 10 mil reais e o grande pega 10 milhões, 20 milhões. Desses 10 milhões de reais, ele vai investir oito e com os outros dois milhões, ele compra apartamento, outras coisas.

O pequeno, que pegou 10 mil reais para produzir, é com muito sacrifício, bota toda a família para trabalhar. São políticas iguais para o grande e para o pequeno — e não funciona assim. Tem de ter uma estrutura de crédito, de manejo, de assistência, que hoje não há. O grande produtor tem seus agrônomos. O pequeno, não. Fica sendo uma política mais demonstrativa, “dei tantos milhões”. Mas quantos pegaram? E os que pegaram o financiamento, quantos cumpriram aquilo? O pequeno gosta de cumprir. Os grandes não precisam, porque depois vem a anistia, eles não pagam impostos.

Clique aqui para ler entrevista com a pesquisadora Raquel Rigotto, que faz o mesmo tipo de pesquisa no Ceará.

22 Mar 17:50

Os Conselhos de Medicina e a defesa do direito de abortar

by Leonardo Sakamoto

A maioria dos conselheiros federais e dos presidentes dos 27 Conselhos Regionais de Medicina aprovaram um entendimento para apoiar mudanças no Código Penal ampliando os casos de aborto legal até a 12ª semana de gestação em qualquer situação. “Defendemos o caminho da autonomia da mulher”, afirmou Roberto D’Ávila, presidente do Conselho Federal de Medicina, à repórter Johanna Nublat, do jornal Folha de São Paulo. “Não estamos liberando o aborto. Vamos continuar julgando os médicos que praticam o aborto ilegal, até que, um dia, o Congresso Nacional torne o aborto não crime.”

Aproveito o ensejo para resgatar uma discussão que travei aqui com os leitores e rendeu boas análises. Perdoem a cara de figurinha repetida, mas é preciso reafirmar que defesa do direito ao aborto é diferente de defesa do aborto.

Na minha opinião, o novo entendimento comunicado pelo CFM é um golaço dos representantes dos médicos brasileiros. Não há defensora ou defensor do direito ao aborto que ache a interrupção da gravidez uma coisa fácil e divertida de ser feita, equiparada a ir à padaria para comprar um Chicabon. Também não seriam formadas filas quilométricas na porta do SUS feito um drive thru de fast food de pessoas que foram vítimas de camisinhas estouradas. Também não há pessoa em sã consciência que defenda o aborto como método contraceptivo. Aliás, essa ideia de jerico aparece muito mais entre as justificativas daqueles que se opõem à ampliação dos direitos reprodutivos e sexuais do que entre os que são a favor. A interrupção de uma gravidez é um ato traumático para o corpo e a cabeça da mulher, é sim a decisão sobre a interrupção de uma futura criança, tomada após uma reflexão sobre uma gravidez indesejada ou de risco.

Defender o direito ao aborto não é defender que toda gestação deva ser interrompida (nem sei porque estou gastando pixels explicando algo que deveria ser óbvio, mas vá lá). E sim que as mulheres tenham a garantia de atendimento de qualidade e sem preconceito por parte do Estado se fizerem essa opção.

É uma questão bastante prática. O aborto hoje é legal para quem é rico. Oito entre cada dez colegas jornalistas paulistanos, por exemplo, sabe onde fica uma clínica particular. Por ter usado os serviços, por conhecer alguém que tenha recorrido a elas.

Hoje, o “direito” ao aborto depende de quanto você tem na conta bancária. Afinal de contas, mulher rica paga R$ 4 mil e pronto. Mulher pobre se vale de objetos pontiagudos ou remedinhos vendidos a torto e direito sem controle e que podem levar a danos permanentes. A discussão não é quando começa a vida, sobre isso dificilmente chegaremos ao um consenso, mas as mulheres que estão morrendo nesse processo. Negar o “direito ao aborto” não vai o diminuir o número de intervenções irregulares, eles vão acontecer legal ou ilegalmente – gastando, inclusive, preciosos recursos do sistema público de saúde. Abortos mal feitos causam 9% das mortes de mulheres grávidas, 25% dos casos de esterilidade e são a quinta causa de internação hospitalar de mulheres, e acordo com dados da  Secretaria de Políticas para as Mulheres.

Mas aborto é mais do que um problema de saúde pública. Negar a uma mulher o direito a realizá-lo é equivalente a dizer que ela não tem autonomia sobre seu corpo, que não é dona de si. “Ah, e o corpo do embrião/feto que está dentro dela, seu japonês endemoniado do capeta?” Na minha opinião – e na de vários outros países que reconheceram esse direito, ela tem sim prevalência a ele.

Ou podemos entregar a questão da saúde pública aos cuidados da Igreja Católica. Certamente, ela terá a coragem de pôr em prática ações que o Estado não toma. Os problemas sociais serão resolvidos com base no Código de Direito Canônico e, por que não, na reedição da bula Cum ad nihil magis, do Santo Ofício. Por exemplo, condenar médicos que fizerem abortos, mesmo que nos raros casos hoje previstos em lei, a uma eternidade de privações no limbo – já que não se fazem mais fogueiras em praças públicas como antigamente – vai por um ponto final na questão.

Revolucionário, nesse sentido, foi o então arcebispo de Olinda e Recife José Cardoso Sobrinho, que comunicou a excomunhão dos médicos envolvidos no aborto legal feito por uma menina de nove anos, 1,36 m e 33 quilos, grávida de gêmeos do padrastro que a estuprava desde os seis anos de idade. “Os adultos, quem aprovou, quem realizou esse aborto, incorreu na excomunhão. A Igreja não costuma comunicar isso. Agora, a gente espera que essa pessoa, em momentos de reflexão, não espere a hora da morte para se arrepender”, disse em 2009. Não consigo deixar de lembrar, nessas horas, dos atores do Monty Python gritando alucinados “queimem a bruxa, queimem a bruxa!” Isso seria engraçado, apenas fait divers se, em épocas de eleições, os candidatos não vendessem sua alma à igreja na busca por votos, prometendo em troca a manutenção do controle simbólico sobre o corpo dos cidadãos. E se muitos médicos não levassem esse discurso a sério.

Defendo incondicionalmente o direito da mulher sobre seu corpo (e o dever do Estado de garantir esse direito). É uma vergonha ainda considerarmos que a mulher não deve ter poder de decisão sobre a sua vida, que a sua autodeterminação e seu livre-arbítrio devem passar primeiro pelo crivo do poder público e ou de iluminados guardiões dos celeiros de almas, que decidirão quais os limites dessa liberdade dentro de parâmetros. Parâmetros estipulados historicamente por…homens, veja só.

É extremamente salutar que todos os credos tenham liberdade de expressão e possam defender este ou aquele ponto de vista. Mas o Estado brasileiro, laico, não pode se basear em argumentos religiosos para tomar decisões de saúde pública ou que não garantam direitos individuais. A justificativa de que o embrião tem os mesmos direitos de uma cidadã nascida é, no mínimo, esquisito. Dá vontade de fazer cafuné em quem defende isso e explicar, pausadamente, que não se pode defender que minhas crenças, físicas ou metafísicas, se sobreponham à dignidade dos outros.

21 Mar 22:07

“Eu me recuso a agir de maneira violenta”- entrevista com a ativista israelense Sahar Vardi

by papacapim
Depois de ter publicado a história de três amigos palestinos aqui no blog (vocês podem ler os relatos aqui, aqui e aqui), gostaria de escrever sobre uma amiga israelense. Durante minhas palestras e conversas sobre a Palestina escutei algumas vezes coisas do tipo “Ah, mas você escolheu ficar do lado dos Palestinos”, como se as [...]
21 Mar 12:07

"INFELIZMENTE, APENAS AS CRIANÇAS AINDA APANHAM COM O CONSENTIMENTO SOCIAL. NÃO É ESTRANHO ISSO?"

O psicólogo João David Mendonça atua na área de terapia de família, é professor e supervisor clínico do Instituto Sistêmico em Florianópolis/SC. Também - e não menos importante - é pai do Felipe, de 4 anos, e do Henrique, que nasce em julho! Escreve sobre psicologia, terapia e coisas da vida no blog Psicojd.

 

Nessa entrevista ele nos ajuda, com muita lucidez, a entender sobre algumas questões ligadas à violência doméstica, principalmente a que atinge as crianças. 

 

Frase de João David Mendonça usada em um meme da fanpage do movimento Bater em Criança é Covardia (www.facebook.com/SemPalmadas)

 

 

 

 

Sabemos que alguns dos pais que dão palmadas em seus filhos nunca questionaram o porquê desse comportamento. Porém alguns deles, quando se deparam com informações e campanhas contra a violência doméstica, assumem uma posição agressiva, direcionando comentários raivosos à problemática. Por que isso acontece?

 

Talvez porque seja um tema que os remete às suas próprias experiências emocionais da infância. Muitos dos que são pais hoje apanharam quando crianças. Para muitos desses pais, pensar na possibilidade de educar os filhos de maneira diferente (e até melhor) pode soar como um desrespeito ou como uma deslealdade aos próprios pais.

 

Entre as pessoas que batem nos filhos há um discurso muito comum: agradecem pelas palmadas que levaram de seus pais, e colocam nelas a responsabilidade por serem pessoas de bem.

 

Na terapia de família trabalhamos com um conceito de “lealdades invisíveis”, desenvolvido pelo psiquiatra húngaro Ivan Borzomenyi Nagy. Tais lealdades são vistas como forças secundárias que regulam nossos comportamentos e nossos pensamentos, como se fossem compromissos invisíveis internalizados a partir da fantasia de que agir ou pensar diferente poderia colocar em risco a manutenção da relação ou da imagem de seus pais ou cuidadores. Assim, é tão importante, para muitas destas pessoas, que as palmadas sejam consideradas como “boas lembranças” e até mesmo repetidas em seus próprios filhos. Propor um caminho de educação que saia desta padrão pode ser uma ameaça, e por isso tal idéia é muitas vezes rechaçada com forte reatividade.

 

 

É comum ainda ouvir argumentos como "Eu apanhei quando era criança e não me tornei uma pessoa violenta". Que outros tipos de desculpas os agressores utilizam para justificar surras?

 

Acho que são mais que “desculpas”, são crenças fortemente enraizadas que sustentam o danoso hábito da punição física. Dentre estas crenças, dou alguns exemplos:

. Bato para o seu próprio bem, porque amo meu filho e quero o melhor para ele;

. Bato para mostrar a minha autoridade;

. Bato porque a palmada é um meio de impor limites na criança;

. Bato porque uma criança precisa ser castigada e corrigida de seu erro para não sofrer mais tarde;

. Bato para disciplinar a criança e ensiná-la sobre o que é certo e o que é errado.

. Bato para ser obedecido.

. Bato porque a criança não tem capacidade para entender uma conversa.

 

O desafio de nossa geração é compreender que todos estes objetivos citados poderiam ser alcançados por outros caminhos que não o da violência física. É interessante constatar que nossa sociedade já conseguiu proibir os escravos de apanhar, já criou leis rigorosas para defender as mulheres, já não bate mais nos seus "loucos", já criou instituições de defesas dos índios, já considera crime a tortura de prisioneiros, já luta contra o mau trato aos animais. Infelizmente, apenas as crianças ainda apanham com o consentimento social. Não é estranho isso?

 

 

 

A criança que apanha (mesmo que de leve) apresenta comportamento diferente daquela que nunca levou um tapa sequer?

 

Vale lembrar que não existe criança perfeita, que obedece o tempo todo, que não chora nem faz birras, que não tem suas próprias opiniões, que não buscam testar os seus pais. Ou seja, criança é criança e ponto final.

 

Porém, uma criança que apanha tende a ser mais agressiva no trato com seus iguais, pode desenvolver o hábito de morder os outros, apela mais facilmente para brigas como meio de conseguir o que quer, utiliza tapas nas suas relações com outras crianças, tende a reproduzir atitudes de agressão batendo nos irmãos.

 

Tais comportamentos podem aparecer em maior ou menor grau, dependendo de outros fatores como a frequencia com que a criança apanha, seu temperamento e personalidade, se há outras pessoas que servem como referências positivas, etc.

 

Além destes comportamentos, podemos pensar em muitas outras consequências que podem se manifestar, como baixa auto-estima, vergonha, raiva, sensação de impotência, sentimento de rejeição, medo, confusão, etc.

 

É um equívoco muito comum acreditar que criança que não apanha vai apresentar problemas mais tarde. É exatamente o contrário: crianças que costumam ser “corrigidas” ou “ensinadas” à base de força bruta estão mais vulneráveis a adotar comportamentos transgressores e agressivos do que outras que são criadas num cultura de não agressividade.

 

 

 

Você diz que "a palmada, ao contrário de afirmação de autoridade, é consequência da sua ausência." Qual a melhor maneira de demonstrar autoridade sem ameaçar a integridade da criança?

 

Diferentemente de como alguns comumente pensam, a autoridade parental não está presente num ato isolado, como a palmada por exemplo. A autoridade genuína encontra-se no modo como a relação pais/filhos está baseada. Alguns pais acreditam que bater é uma maneira de demonstrar autoridade. Eu tenho insistido que não, que bater é, ao contrário, o sinal de que o pai não sabe mais o que fazer, perdeu a capacidade de raciocinar e de estabelecer-se como autoridade na vida de uma criança.

 

É claro que toda criança vai confrontar seus pais, vai desobedecer, vai fazer birras. A diferença está na maneira como os pais vão responder a este confronto. Se respondem com tapas ou palmadas, perdem a oportunidade de mostrar quem é o adulto da situação, e quem é ali a autoridade para enfrentar a adversidade.

 

Creio que algumas maneiras mais autênticas pelas quais os pais podem mostrar sua autoridade são:

. Autoridade pela presença. Estar presente e interessado na vida do filho é um modelo de autoridade;

. Autoridade pelo exemplo. Se o pai responde com um ato violento, o exemplo que ele dá é o da violência, mesmo que ele diga que “dói mais nele que no filho”. Crianças seguem modelos, não discursos;

. Autoridade pela firmeza. Quando um pai fala ou repreende com assertividade, passa segurança ao filho;

. Autoridade pela relação de afeto. A criança sente-se muito mais envolvida com o adulto quando ela sente-se respeitada por ele na sua identidade, o que possibilita a ampliação do afeto mútuo.

 

Tais manifestações de autoridade não agridem nem ameaçam a criança, e contribuem para fortalecer seu nível de confiança em seus cuidadores.

 

 

 

"Eu bati no meu filho, mas me arrependi e não quero fazer de novo." Como trabalhar essa questão com os pais e com os filhos?

 

Acho ótimo terminar a entrevista com esta visão positiva, que há muitos pais que desejam um novo tipo de relacionamento com seus filhos. Neste caso considero importante, em primeiro lugar, trabalhar com a idéia do reconhecimento de nossas imperfeições. A paternidade / maternidade é um aprendizado constante. Quando estamos aqui falando a respeito dos riscos de uma educação baseada em palmadas, não queremos que os pais se sintam incompetentes, culpados ou confusos. Não há uma pílula mágica capaz transformar todos nós em pais perfeitos, infalíveis e sem máculas. Temos então que nos permitir errar, pois nem sempre estamos prontos para acertar.

 

Porém, creio que um segundo passo é importante neste processo: dar-nos conta de que possuímos uma incrível capacidade para mudar e nos transformar. Sem dúvidas, o caminho da educação sem tapas e palmadas é bem mais difícil. Exige dos pais muito mais tempo, paciência, sabedoria, auto-controle, e especialmente o exercício de seus próprios limites para não “perder as estribeiras”. Afinal, como um pai pode ensinar limites a um filho, se ele mesmo não consegue controlar os seus próprios limites em um momento de contrariedade?

 

A educação pela paz é muito mais que uma regra de conduta; é uma postura. Se é uma postura, quando nos conduzimos de maneira equivocada, podemos percebê-la e imediatamente retomar o rumo. Se num lampejo de imperfeição, comum a todos nós pais, e dominados pela irritação ou fúria, apelamos no passado para algum tipo de punição física, é possível restabelecer a consciência de que este não é o modo preferível de nos relacionarmos com nossos filhos.

 

Aos que percebem o erro, resta-lhes o desafio de levantar a cabeça e continuar lutando para manter a postura de não violência, especialmente porque o que eles mais desejam é o bem de seus filhos.