Acho que o único ser humano que lembra disso sou eu. Bom, eu e o amigo Renato Vieira, jornalista do
Estadão, que me pediu várias e várias vezes para retornar esse assunto aqui no blog. Talvez o
Emilio Pacheco lembre.
Em 1980, pouco depois de sair a trilha internacional da novela
Água viva, a Continental (uma das maiores gravadoras brasileiras da época, absorvida depois pela Warner) decidiu provocar a Som Livre (selo da Rede Globo, como você sabe) lançando uma versão própria do LP da trilha internacional da novela. Com todos os temas substituídos por covers. As músicas internacionais da trilha - sucessos como
D.I.S.C.O, do Ottawan,
I don't want to fall in love again, do Voyage e
Love I need, de Jimmy Cliff - apareciam regravadas por artistas brasileiros.
A Som Livre, claro, foi em cima. Processou a Continental por plágio, já que o nome da novela era utilizado na capa do disco - e o trabalho gráfico ainda continha pranchas de windsurf, igualzinho à capa do álbum lançado pela Som Livre.
Lembro de uma versão dessa capa em que apareciam várias pranchas e o nome "água viva" surgia num projeto gráfico que imitava meio descaradamente a logo criada para a novela. E ainda tinha a frase "temas internacionais da novela apresentados em covers". Tenho também uma vaga lembrança desse disco ser oferecido por lojistas quando rolava um "tem, mas acabou" com a trilha sonora da Som Livre. A única versão que eu tenho achado por aí nos Mercados Livres e e-Bays da vida, é a da capa que aparece acima.
O lance foi mais ou menos explicado na época, lembro bem, por um número antigo da revista
Som Três. A Continental decidiu simplesmente protestar contra o fato de a Som Livre, por ser a gravadora da Globo, ter propagandas dos seus discos exibidas a todo momento na televisão - e
que televisão, já que a Globo era a dona da audiência, distante mil pontos do segundo lugar, com a Tupi cambaleando e as outras estações resfolegando. E lançou o disco só para causar e depois reclamar da desproporcionalidade da ação.
A verdade é que discos de outras gravadoras que faziam referências a novelas da Globo já eram comuns. A Philips já lançou um compacto com as melhores músicas de Raul Seixas lançadas na novela
O rebu (1974), quase toda montada com músicas dele e de Paulo Coelho. Outros selinhos já lançaram EPs com "os melhores temas da novela tal" - um deles, salvo engano, foi a RGE, que pôs nas lojas um disco com duas músicas de Elton John incluídas em trilhas de novela, mais umas de outros artistas. Quem tiver saco, vasculhe o seminal Teledramaturgia.com, que traz isso tudo. Estou tirando tudo da minha memória.
Fui dar uma busca na internet sobre o assunto e, olha só, achei
esse texto acadêmico aqui, produzido em 2008, que fala da história das trilhas sonoras da Som Livre, e tem informações interessantes. Vale dar uma lida. Os números da Som Livre e a maneira como ela era anunciada na Rede Globo realmente assustavam. Inclusive, acredito que poucas vezes tenham aparecido propagandas de discos que não fossem da Som Livre na televisão brasileira.
O ridículo da situação ficava, na verdade, mais na mão da Som Livre.
Água viva internacional trazia
Do that to me one more time, sucesso da dupla americana Captain & Tennille. Mas regravado por um grupo brasileiro chamado Susan Case & Sound Around. Ou seja: um cover. A tal
Som Três que eviscerava o caso dizia que "à dupla não interessou a inclusão de uma música numa novela lááááá no Brasil".