
A primeira vez que ouvi Angela Ro Ro de verdade foi numa fossa. Eu chorava um dia, me lamentava no outro, vivia de sofrer. Um amigo querido, o Ronaldo Evangelista, virou pra mim e disse: você tem que ouvir o melhor disco da Angela Ro Ro, de 1979. Aquelas músicas eram a trilha sonora perfeita. O disco virou um clássico do meu iPod.
Quando ouvi falar do disco “Coitadinha Bem Feito”, um tributo idealizado pelo DJ Zé Pedro e pelo jornalista Marcus Preto, fiquei curiosa. Ainda mais pelo fato das músicas do tributo serem interpretadas por homens.
“Era uma ideia antiga. Sempre achei que o discurso de Angela caberia bem na voz desses meninos de hoje”, disse Zé Pedro ao Don’t Touch.
O disco, que vocês encontram no iTunes e em lojas físicas, reúne 17 intérpretes. “O critério foi escolher os cantores mais inquietos e criativos da nova música pop brasileira”, completa o DJ, cuja música preferida da cantora é “A mim e a mais ninguém”.
As minhas faixas preferidas do disco são as interpretadas por Thiago Pethit, Romulo Froes, Lucas Santtana e Adriano Cintra. Fiz as mesmas perguntas para cada um deles.

Thiago Pethit
- Qual é a sua história com “Mares da Espanha”? E como você chegou na versão?
Eu descobri o som da Angela Ro Ro através de “Mares da Espanha”. Depois veio “Escândalo” e “Amor meu grande amor” e aos poucos fui conhecendo tudo. Cada descoberta dessas levava pelo menos três semanas pra parar de tocar na minha vitrola, trancado no escurinho do meu quarto, quando eu ainda era adolescente e curtia uma fossa, uma boa lama de amor mal resolvido. haha Acho que foi por esse motivo que eu escolhi “Mares da Espanha”. Era uma música que me transportava pra essa primeira impressão sobre o trabalho dela.
Uma coisa que chama muito atenção nas versões originais dela é o jeito “enlameado” e rasgadamente dramático com que ela interpreta e compõe. E é lindo, porque é uma dor tão verdadeira, tão legítima. Eu não queria “copiar” ou simular essa característica da Angela na minha versão. Escolhi olhar pra canção e pra própria figura da autora sob outro aspecto. E como eu sou fascinado por esse universo feminino com densidades mais fortes e violentas do que delicadas, mais das bacantes que das ninfas, me inspirei no lado mais libidinoso da canção e das palavras. Há lendas que dizem que Mar da Espanha era uma boate carioca. É também uma cidade em Minas Gerais. Seja onde for, a imagem marítima é muito sensual e feminina. A frase mais maravilhosa da canção e mais sexy é justamente “Você navegando nos mares da Espanha, tecendo pra outra seu corpo com manha, você navegando o vazio da Espanha”. Então busquei sentido nessa outra Angela. Não a que soa tantas vezes triste, mas a que é também violenta e sexy como uma gata no cio. E reconstruí a canção em cima do blues que ela propõe. E tentei encontrar uma voz de ressaca, ora rouca e adoecida, ora afetada e agressiva como uma ressaca dos mares.

Romulo Fróes
- Qual é a sua história com “Só nos resta viver”? E como você chegou na versão?
Minha história com “Só nos resta viver” é minha história com o rádio, na década de 1980, na minha adolescência. Essa música fez um estrondoso sucesso, tocava sem parar e ainda que eu não prestasse atenção na Ângela Ro Ro, tava mais ocupado com as bandas de Manchester, rsrsrs, era impossível não conhecer essa música. Tanto que quando eu soube que seria ela a minha faixa, eu cantei de cor sem nem pestanejar e olha que já não a houvia há pelo menos 20 anos! Isso pra mim demonstra a força dessa canção!
A Ângela tem um lado passional, rasgado, confessional, que é o oposto de mim e do meu trabalho, mas que eu não queria fugir, apelar pra um caminho mais fácil pra mim e fazer uma versão cool da canção. É impossível cantar de modo contido versos como “quem dera pudesse, a dor que entristece, fazer compreender os fracos de alma, sem paz e sem calma, ajudasse a ver, que a vida é bela e só nos resta viver”. Foi muito enriquecedor para mim como intérprete sair desse registro mais contido com o qual estou acostumado. Mas como eu sou eu (risos), uma vez que a faixa esbarrou numa certa cafonice que me deixou incômodo, chamei o grande Luca Raele pra envenenar um pouco a música com um naipe de clarinetes soando entre o jazz e a música erudita e que fez a Ângela Ro Ro lembrar de Miles Davis, na primeira audição que ela fez do disco! Eu acho que a Ângela pode ser definida um pouco desse jeito, uma artista com cabeça de vanguarda e alma de bolero! Minha versão foi por esse caminho!

Lucas Santtana
- Qual é a sua história com “Amor, meu grande amor”? E como você chegou na versão?
A da maioria das pessoas que escutaram ela quando pintou nas rádios, com aquela voz rouca e totalmente sedutora aos ouvidos. Essa letra é atemporal e com essa melodia irresistível. Me inspirei no cinema, sou fã de som ambiente, às vezes vejo um filme duas vezes só para me concentrar nessa camada da história. A minha versão começou com aquele ambiente e a minha voz solitária no meio da multidão, aí depois as outras coisas foram pintando. Ou foram pedindo para entrar, a gente nunca sabe bem ao certo o limite disso.

Adriano Cintra
- Qual é a sua história com “Gota de sangue”? E como você chegou na versão?
Eu nunca havia prestado muita atenção nessa música, meu disco preferido da Angela é o “Escândalo”. Quando o Marcus me convidou para participar e me mandou a faixa, fiquei em primeiro lugar apavorado de ter que mexer naquela música, como todas as músicas da Angela, é muito, muito pessoal e a interpretação dela é insuperável. Fiquei ouvindo a faixa sem parar por uns três dias seguidos.
Eu fiz a minha versão da música. Eu não ousaria fazer uma releitura minimamente fiel à faixa. Eu desossei, peguei o formato da canção e fui pondo minhas coisas, toquei uma bateria à la “Ashes to Ashes”, do Bowie, toquei meu baixo, fiz uma guitarra do jeito que eu sei fazer, sassaricando pelas notas, pus uns pads, um piano bem do Ace of Base… Fiz um solo de saxofone bem sem vergonha nas notas que eu sei tocar. E na hora de cantar, optei por fazer um coro.. Nunca encontraria uma interpretação que abraçasse aquele drama de forma digna. Como estrupiei a música e a travesti, achei que o coro serviu bem.
- Você tatuou o nome do disco! Como foi isso?
Tatuei sem pensar, estava na Galeria do Rock, entrei no tatuador e expliquei: “Olha, eu tenho essas tatuagens horrorosas no meu braço que eu fiz nos anos 1990 e eu queria contextualizar elas com essa frase Coitadinha Bem Feito. Ele me olhou meio sarcástico e falou: “Você não é aquele cara daquela banda Cansei de Ser Sexy? Diz aí, isso é uma mensagem praquela japonesa cantora da banda né?” (Marcus Preto estava lá e presenciou essa cena). Eu quase morri quando ele falou isso porque o Coitadinha Bem Feito era para conversar com as tatuagens ridículas, não havia a pretensão dessa frase ser nada mais do que uma explicação dos desenhos abaixo dela. Mas não temos como controlar o entendimento alheio, então cada um entenda como quiser… Até porque todos nós precisamos ouvir um Coitadinha Bem Feito em alto e bom tom vez ou outra nessa vida. Eu que o diga…