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05 Dec 16:53

Pediatra contrária ao Mais Médicos é chamada para assumir secretaria que gere o programa

by renato renato

PediatraRafael Neves
especial para o Congresso em Foco/Blog do Primo

A atual presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará, a pediatra Mayra Pinheiro, foi convidada nesta terça-feira (4) para assumir uma secretaria no futuro ministério da Saúde, que será comandado pelo deputado Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS) em 2019.

Contrária ao Mais Médicos, Pinheiro foi chamada para assumir a Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (STGES), que hoje cuida justamente do programa, além de políticas públicas de gestão da área e formação de profissionais no país. Sua ida para a pasta estaria dependendo de detalhes para ser confirmada.

“O programa Mais Médicos não é e nunca foi uma solução sequer razoável para solucionar os problemas que motivaram sua criação. E o desfecho de agora deixa claro que a saúde da população brasileira não era a motivação da iniciativa. Trata-se de uma tentativa de retaliação, porque quiseram passar o atendimento primário de saúde para Cuba. E agora Cuba quer tentar desarticular o atendimento da população. Os médicos brasileiros não vão permitir”, escreveu a pediatra no Facebook em 15 de novembro, após Cuba anunciar que deixaria a iniciativa.

A médica pediatra, que concorreu ao senado pelo PSDB nas últimas eleições (ficou em 4° lugar, com 882.019 votos), foi uma indicação da frente parlamentar da Medicina, da qual Mandetta é o líder.

“Médicos por amor”

Assim que Cuba anunciou o fim do acordo com o Brasil, no mês passado, a pediatra lançou pelo sindicato o programa “médicos por amor”. A iniciativa é buscar doutores voluntários para atuar, no Ceará, nas cidades onde existiam intercambistas caribenhos.

Mayra Pinheiro afirmou ter recrutado, até o dia 25 de novembro, 211 brasileiros para atender nesses municípios.

O deputado Raimundo Gomes de Matos (PSDB-CE), colega de partido e de estado de Pinheiro, diz que ela colaborou por quase um ano na criação da bancada da Medicina, que só foi formalizada em novembro do ano passado. A fundação do grupo foi assinada por 198 deputados e 16 senadores, segundo o site da Câmara.

“Ela tem o perfil que o presidente Jair Bolsonaro procura”, afirmou o congressista.

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03 Dec 17:33

Bolsonaro vai acudir saco preto: Relator da reforma trabalhista deve assumir área no ministério de Guedes

by renato renato
Alexa Salomão
SÃO PAULO

Com a extinção e partilha do Ministério do Trabalho, anunciada nesta segunda (3), o relator da reforma trabalhista, o deputado federal Rogério Marinho (PSDB-RN), é cotado para ocupar o cargo de secretário adjunto na Secretaria de Trabalho e Previdência. A secretaria ficará dentro do superministério da Economia, que está sendo criado na gestão do presidente eleito, Jair Bolsonaro.

Marinho é o preferido pelo futuro titular da pasta, o economista Paulo Guedes. Pelo organograma em estudo, Trabalho e Previdência ficam dentro da Secretaria da Receita, que será comandada por Marcos Cintra.

O relatório de Marinho, aprovado pelos deputados em abril do ano passado, alterou cerca de cem pontos da CLT [Consolidação das Leis do Trabalho], atendendo a pleitos históricos do empresariado. A nova lei criou, por exemplo, a figura do trabalhador intermitente –sem garantia de jornada fixa– e reforçou a terceirização da atividade-fim das empresas.

Personagem importante do governo Temer, Marinho recebeu recursos de vários empresários (arrecadou  R$ 1,6 milhão) durante a campanha eleitoral deste ano, mas não conseguiu se reeleger.

Relator da reforma trabalhista, Rogério Marinho
Relator da reforma trabalhista, Rogério Marinho – Alex Ferreira/Câmara dos Deputados

O futuro chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, afirmou em entrevista nesta segunda que o governo de Jair Bolsonaro vai extinguir o Ministério do Trabalho.

Segundo Onyx, as atribuições da pasta serão divididas entre Economia, Cidadania e Justiça.

Trata-se de uma mudança em relação ao que foi afirmado pelo presidente eleito em novembro, que disse que a pasta seguiria com status de ministério.

“O Ministério do Trabalho vai continuar com status de ministério, não vai ser secretaria. Vai ser Ministério ‘Disso, Disso e do Trabalho’, como [cita como exemplo] Ministério da Indústria e Comércio”, afirmou Bolsonaro em 13 de novembro, uma semana depois de dizer que extinguiria a pasta.

O novo desenho envolvendo Trabalho foi apresentado por Onyx em entrevista à rádio Gaúcha. Segundo ele, ficará sob a gestão de Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública) a secretaria que trata de concessão sindical.

“A face mais visível, e que a imprensa brasileira registrou por inúmeras vezes os problemas que ocorriam naquela pasta, de desvios, problemas graves de corrupção, então aquele departamento ou secretaria do ministério do Trabalho que cuida disso, vai lá pro doutor Moro, vai ficar no ministério da Justiça e da Segurança”, disse.

Ele acrescentou ainda que o combate ao trabalho escravo também deve ficar com o Ministério da Justiça.

“A parte de fiscalização vai lá junto para o Moro, se não me falha a memória. A princípio deve ficar também com doutor Moro.”

Ainda de acordo com o ministro, as políticas públicas que tratam de emprego serão divididas entre o Ministério da Economia, para o qual foi escolhido Paulo Guedes, e Cidadania, que será assumido pelo deputado federal Osmar Terra (MDB-RS).

Onyx explicou que o desenho do primeiro escalão está quase concluído. A previsão é de que a estrutura seja anunciada ainda esta semana, durante visita de Bolsonaro a Brasília.

“Nós vamos ter 20 ministérios funcionais. E tem dois que são eventuais, caso do Banco Central, que quando vier a independência deixa de ter status, e o segundo AGU (Advocacia-Geral da União), pretendemos fazer ajuste constitucional, e quando tiver definido.”

Bolsonaro já anunciou 20 ministros e deve escolher esta semana o chefe de Meio Ambiente. Ainda falta definir se a pasta de Direitos Humanos terá status de ministério. Segundo Onyx, Damares Alvez é a mais cotada para o posto.

Damares é advogada e trabalha como assessora no gabinete do senador Magno Malta (PR-ES), um dos políticos mais próximos de Bolsonaro na campanha e que foi derrotado nas eleições de outubro, quando disputou a reeleição.

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03 Dec 13:33

Ketchup de acerola criado pela Universidade Federal do Ceará é premiado na França

by Da Agência Brasil

Natchup será comercializado por empresa cearense em parceria com a UFC; lucro será revertido para a universidade e entidades sociais

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03 Dec 13:11

Jessé Souza expõe a classe média em Natal

by Rafael Duarte

O bacharel em Direito, sociólogo e pesquisador potiguar Jessé Souza, um dos principais pensadores do campo progressista na atualidade, lança em Natal (RN), na próxima sexta-feira (7), o livro “A Classe Média no Espelho”. O evento será no auditório do Centro de Ciências Aplicadas da UFRN (Nepsa), a partir das 9h, e contará com uma palestra do autor.

Jessé Souza foi presidente do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas no governo Dilma e pediu demissão assim que Michel Temer assumiu a presidência da República. É formado em Direito, mestre em Ciências Sociais e escreveu e organizou mais de 20 livros.

É autor de Radiografia do Golpe, A Ralé brasileira, A Elite do Atraso, entre outros.

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30 Nov 14:04

Araquém Alcântara: “O Mais Médicos é um programa revolucionário”

by Redação
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Segundo o fotógrafo, o que mais o impactou no trabalho foi a questão da aproximação, do toque, da conversa, do carinho entre médico e atendido

Fotos: Araquém Alcântara

30/11/2018

Fotógrafo percorreu 38 cidades de 20 estados do país para capturar o atendimento dos médicos cubanos

 

Por Lu Sudré, do Brasil de Fato  (SP)

“Os cubanos demonstraram um novo modo de praticar medicina”. Essa afirmação é de alguém que acompanhou de perto o Programa Mais Médicos nas regiões mais isoladas do Brasil. Em 2015, o fotógrafo e jornalista Araquém Alcântara percorreu 38 cidades de 20 estados do país com uma câmera na mão, buscando capturar a dimensão humana do projeto.

O material foi publicado no livro “Mais Médicos”, cujas fotos circularam em massa pela internet após o governo cubano anunciar sua retirada do programa. Segundo o Ministério da Saúde Pública de Cuba, o anúncio, por parte do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), de mudanças no contrato, iniciado em 2013 e revalidado em 2017, foram determinantes para a saída dos profissionais do programa. A decisão também ocorreu em repúdio a declarações de Bolsonaro consideradas “ameaçadoras e depreciativas” .

“O que mais me marcou foram os olhares. A questão da aproximação, do toque, da conversa, do carinho, de médicos circulando. Médicos que não ficam só atrás da mesa, atendendo as pessoas em dez, quinze minutos. Mas sim se dedicando a ouvir, participando de questões da comunidade, se envolvendo com o povo”, relata Alcântara em entrevista ao Brasil de Fato.

O renomado fotógrafo considera o livro um manifesto humanista e defende a continuidade da atuação dos médicos em regiões em que o Estado se faz ausente. “O Mais Médicos é um programa revolucionário de atendimento à saúde. Isso eu vi com meus próprios olhos. Essa é a função do jornalista e do fotógrafo, ser testemunha ocular”.

Confira a entrevista na íntegra.

Brasil de Fato: Suas fotos têm circulado muito após a saída de Cuba do Programa Mais Médicos. Como vê esse destaque que a obra tem recebido e porque decidiu fotografar os atendimentos desse programa?

Araquém Alcântara: A ideia surgiu de um amigo meu, médico, Dr. Fausto Siqueira de Mello Júnior, e abracei a ideia de fazer uma grande viagem pelo Brasil mostrando, sobretudo, lugares de atuação dos médicos, não só cubanos, em áreas remotas do país. Após um ano e meio de andanças com a coordenação editorial de Éder Chiodetto, da design Cristina Gur, e do companheiro de viagem, Marcelo Delduque, no comando dos textos, publicamos uma edição pela Terra Brasil, que logo se esgotou, e que agora ganha esse seu momento histórico. Esse triste momento histórico.

Como recebeu a circulação intensa da obra?

O que dá pra notar é que as pessoas não estão cegas e que ainda há vida inteligente. Os reflexos negativos disso [saída dos cubanos do Programa] já são notáveis. São 700 municípios que nunca haviam tido médico e agora voltam a ter que improvisar com enfermeiras. É uma pena, mas, sobretudo, um ato de lesa humanidade, na minha opinião, porque era preciso ver esse programa além de partidarismo, além da política. É uma questão de humanismo, de fraternidade.

Foi com esse espírito que eu fiz essa saga e está tudo no livro, como o amor dos médicos estrangeiros ao seu trabalho. O Brasil precisa aprender a ser patriota. A nossa noção de cidadania é muito pequena, precisamos efetivar a fraternidade nesse país e repartir essa maravilha que é lutar para acabar com a fome, com as carências de um Brasil que poucos conhecem. É um país que ainda precisa muito para ser classificado como um país civilizado onde o Estado está presente e ampara seus cidadãos.

É um registro histórico, possivelmente o único…

Talvez seja o único da fotografia, mas em texto há um livro maravilhoso, finalista do Prêmio Jabuti, do escritor Antônio Lima Júnior que chama “Branco vivo”, que recomendo fortemente a leitura. O que reafirmo é que é muito triste que todo esse trabalho fique agora apenas em pedaços de papel e fotografias.

Como foi fotografar os atendimentos por onde passou, quais foram os locais? E, a partir disso, porque acha que as pessoas são hostis ao programa?

A hostilidade vem dessa percepção de que os médicos cubanos são escravizados. Eles aceitaram e assinaram um contrato em que grande parte de seus salários vai pro Estado. Acontece que, em Cuba, é como se fosse um retorno do trabalho deles que o Estado proporcionou com o curso de medicina gratuito. A questão maior é que os médicos brasileiros (talvez agora haja uma minoria nesse aspecto), não querem largar sua zona de conforto nas grandes capitais. Como o exército faz muitas vezes e faz muito bem, tem que ser dito, de colocar a presença brasileira na Amazônia em lugares remotos com os mais jovens. Acredito que os mais jovens médicos deveriam se dedicar como os Médicos Sem Fronteiras (MSF) a ocupar esse país, fazendo um grande gesto de humanidade, levando a quem não tem condições, o conforto e o amparo de um atendimento médico.

 

 

 

 

Foto: Araquém Alcântara

 

 

Quais histórias e casos te marcaram nessa trajetória?

Muitos, muitos casos de solidariedade em que o médico se aproxima das lideranças e das comunidades como aconteceu em Poço Redondo (SE). O doutor Sael e a Dona Zefa, líder de uma comunidade quilombola de Poço Redondo, da umbanda, que por meio da espiritualidade se aproximaram. O doutor Sael é da santeria cubana. Os dois se uniram e transformaram o atendimento, inclusive a prevenção nessa comunidade, radicalmente.

Outros casos, como por exemplo, o de uma médica em Alagoas que percebeu a presença da esquistossomose e se dedicou ao saneamento, ao esclarecimento da comunidade. São exemplos vivos. Mas o que mais me marcou foram os olhares, a questão da aproximação, do toque, da conversa, do carinho, de médicos circulando. Médicos que não ficam só atrás da mesa, atendendo as pessoas em dez, quinze minutos, mas sim se dedicando a ouvir, participando de questões da comunidade, se envolvendo com o povo. Foi uma experiência riquíssima porque eu vi que é possível. Eu vi que é possível instaurar essa fraternidade, sobretudo, por ser um dever do Estado. Acredito que o Brasil tem muitas áreas onde não há a presença do estado e aí reina a barbárie. São, por exemplo, lugares da Amazônia em que o Estado não está presente e aí a coisa não anda. Isso é preciso mudar urgentemente.

Qual o papel da fotografia na sociedade? Essa obra, de certa forma, mostrou algo que era desconhecido para as pessoas?

A fotografia é uma linguagem que está muito ligada ao lúdico, ao prazer, à beleza, mas também pode ser um forte instrumento de testemunho social, de esclarecimento, de trazer a luz. Fotografia é a linguagem da luz, junto dela há uma possibilidade política e ideológica do fotógrafo demonstrar o que pensa, o que acredita, aquilo com o que ele se revolta. Não só a beleza. O fotógrafo, pode, com o seu trabalho, mostrar as mazelas, os erros, as atitudes desumanas. A fotografia é um poderoso instrumento de mostrar a verdade e de tentar fazer justiça.

Acredita que o livro, a foto e até mesmo o texto mostraram o que realmente é o Programa?

Sim, a imagem é reveladora. Ela não é comprobatória de realidade nenhuma, mas quando incluída em uma narrativa de livro, o conjunto fica interessante. Ao perceber o conjunto de imagens do livro, fica nítido que, a partir desse manifesto humanista, o programa Mais Médicos tem que continuar porque o Brasil carece disso. O livro é uma contribuição a essa discussão.

Na sua opinião, qual a perspectiva para essa área da saúde, para o atendimento das pessoas mais vulneráveis no Brasil?

É preciso preencher imediatamente as vagas desses milhares de médicos que estão indo embora, seja com médicos brasileiros ou de qualquer outro país, mas o povo não pode ficar carente, mendigando para o Estado o atendimento básico. No Brasil, entra governo e sai governo e não perceberam que tudo está na educação, na saúde, e no cumprimento de leis, no cumprimento da Constituição.

O atendimento dos médicos cubanos de fato era diferente?

Sem dúvida. Principalmente por essa questão da atenção e do carinho, da não pressa, do envolvimento com as questões das comunidades. Os municípios brasileiros precisam ter, assim como tem um delegado, um médico. Não é possível as crianças ainda dormirem com fome, os mais velhos desassistidos, e as comunidades carentes de uma opinião médica, de um atendimento. Os cubanos demonstraram aqui no Brasil, um novo modo de praticar medicina na minha opinião. Percebi isso, sobretudo, com o ir até as pessoas doentes e dar essa atenção. Isso é revolucionário.

O programa Mais Médicos é um programa revolucionário de atendimento à saúde. Isso eu vi com meus próprios olhos. Essa é a função do jornalista e do fotógrafo, ser testemunha ocular. Esse livro é uma testemunha ocular de algo que precisa continuar, mesmo que em outras bases. Espero que as pessoas tentem se aproximar desse livro porque ali está uma história brasileira, um manifesto humanista.

Edição: Mauro Ramos

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30 Nov 12:53

Nome oriundo do IFRN é confirmado para a Educação

by Carlos Santos

Fátima Bezerra e Getúlio Marques, um nome que acabou não vingando no governo Robinson Faria (Foto: assessoria)

A governadora eleita do Rio Grande do Norte, senadora Fátima Bezerra (PT), anunciou nesta quinta-feira (29) o nome do futuro secretário da Secretaria de Estado da Educação e Cultura (SEEC).

Trata-se do professor Getúlio Marques Ferreira.

O professor aposentado pelo Instituto Federal do RN (IFRN) é o idealizador do programa de expansão da educação tecnológica  instituído no Brasil pelo Governo Lula, por meio de emenda ao Plano Plurianual (PPA) da então deputada federal Fátima Bezerra.

Escolhido quase foi nome de Robinson Faria

O Blog Carlos Santos antecipou o nome em postagem no último dia 13 último: Ex-dirigente do IFRN será o nome da Educação do RN.

No final de 2014, Getúlio Marques era o nome da então senadora eleita Fátima Bezerra a Educação do Governo Robinson Faria (PSD), de quem o petismo era aliado. Mas o ungido foi o professor Francisco das Chagas Fernandes, que integrava o Ministério da Educação.

Anteriormente, Fátima já anunciara nomes para o setor de Segurança Pública (veja AQUI e AQUI) e também para a Saúde (veja AQUI).

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo  TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUI.

29 Nov 19:18

Crime contra a economia popular e calote: a ficha corrida do futuro ministro do Turismo. Por Joaquim de Carvalho

by Joaquim de Carvalho
Bolsonaro e seu futuro ministro

O futuro ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, responde a cerca de 20 processos no Tribunal de Justiça de Minas Gerais, dos quais um é por crime contra a economia popular.

Marcelo Álvaro Antônio foi acusado de vender lotes que não lhe pertenciam e que também não estavam aprovados pela prefeitura.

Várias pessoas reclamaram e uma delas, Joaquim Maurílio Souza, registrou queixa na Delegacia de Polícia, além de entrar com um processo na justiça civil.

O advogado de Joaquim na esfera cível, procurado pelo DCM, disse que Marcelo Álvaro e um sócio fizeram acordo e devolveram o dinheiro à vítima.

Mas o processo criminal prosseguiu e agora, dezesseis anos depois, a audiência de instrução e julgamento foi marcada para o dia 5 de fevereiro do ano que vem.

O julgamento, é preciso destacar, foi marcado antes que o deputado federal Marcelo Álvaro Antônio fosse anunciado ministro de Jair Bolsonaro.

Caso condenado, Marcelo pode pegar até 5 anos de reclusão, conforme dispõe a Lei 6766/79, que dispõem sobre a regularidade de loteamentos.

O advogado Hélcio Lemos Xavier, que defendeu Joaquim na área civil, é apresentado como responsável pela defesa dele também na esfera criminal.

Mas ele diz que é um erro de cadastro e não está à frente nesta ação. Mas se recorda do caso que envolveu seu cliente.

“Marcelo, o irmão (Marco Túlio) e mais um sócio venderam lotes de uma área que foi reclamada pela Rede Ferroviária Federal. Não podiam ter vendido. O Marcelo fez acordo, pagou, mas ficou a ação criminal”, contou.

Na área cível, o futuro ministro do Turismo responde a cerca de 20 processos. Em um deles, é acusado de não pagar dívida da campanha de 2012, quando se elegeu vereador.

“Fui contratado para coordenador a campanha na zona norte de Belo Horizonte. Trabalhei durante três meses, ele só pagou dois”, afirma Isaltino de Castro.

Isaltino trabalha como assessor político há mais de 15 anos e teve cargo de confiança no gabinete de dois deputados mineiros, Célio Moreira e Wálter Tosta.

Por designação de Célio, ajudou Álvaro na eleição para vereador, mas, segundo ele, não recebeu pelas despesas do último mês de campanha.

Desde então, cobra o agora deputado e futuro ministro na justiça.

Em 2017, a juíza Fernanda Baeta Vicente julgou a ação improcedente, embora, na sentença, reconhecesse  que Isaltino prestou serviços à campanha, mas o futuro ministro não reconheceu a dívida, que hoje é superior a 30 mil reais.

Segundo o deputado, o trabalho de Isaltino na campanha teria sido voluntário.

Mas ele contesta.

“As despesas estão todas comprovadas e se relacionam à campanha. Uma delas é com uma empresa de turismo”, afirma.

Isaltino é dono da agência Translidertur, mas não tem ônibus próprio.

Em 2012, durante a campanha, Álvaro teria pedido a ele que fretasse um ônibus para levar lideranças evangélicas da Igreja Maranata, da qual o deputado é membro, para um congresso religioso em São Paulo.

Isaltino fretou o ônibus junto à Pássaro Livre. O veículo, com motorista, ficou cinco dias em São Paulo, e não houve o pagamento pelo serviço prestado, na época fixado em R$ 5 mil.

“Como a dívida não é dele? A igreja é a que ele frequenta, os líderes todos dizem que foram no ônibus fretado por ele, eu apenas fiz a intermediação”, explica.

Isaltino diz que tentou fazer a cobrança amigavelmente, mas não teve chance. “Não havia outro caminho senão recorrer à justiça, eu preciso pagar pelos serviços prestados”, afirma.

No caso do ônibus, pode haver uma agravante. Como, segundo Isaltino, foi oferecido para agradar eleitores, as lideranças evangélicas, o caso poderia ser considerado um meio de compra de voto.

Também são relacionados documentos que provam o encaminhamento de eleitores para clínicas médicas, o que, em tese, também poderia ser caracterizado como compra de voto.

Isaltino recorreu da sentença que julgou sua ação improcedente. O fundamento da juíza foi a ausência de um contrato de prestação de serviços — que, a rigor, não existe em campanha nenhuma.

Marcelo Álvaro Antônio nasceu Henrique Teixeira Dias. Mudou o nome para se candidatar em 2012, incluindo o Álvaro Antônio para lembrar ao eleitor de quem era filho.

Seu pai, Álvaro Antônio Teixeira Dias, foi vereador, deputado estadual, deputado federal e vice-prefeito de Belo Horizonte. Tinha prestígio e voto, muito popular na região do Barreiro, populoso bairro da capital mineira.

Foi secretário de Tancredo Neves, quando governador, e de Newton Cardoso. Faleceu em 2003, mas o filho só foi se candidatar pela primeira vez em 2012.

No bairro, é conhecido por ter sido um jovem agitado.

Álvaro Antônio ganhou notoriedade nacional em 2016, quando votou a favor da abertura de processo de impeachment contra Dilma Rousseff.

Dedicou o voto à mulher, a duas filhas, à mãe, ao bairro do Barreiro. Esqueceu de mencionar o filho. Na mesma sessão, voltou ao microfone para corrigir o lapso, e dizer que, se não fizesse isso, teria problemas em casa.

Em 2017, foi anunciado por Jair Bolsonaro como coordenador de sua pré-campanha em Belo Horizonte.

Na época, filiado ao PR, foi acusado de golpe contra o PEN, rebatizado Patriotas, partido pelo qual Bolsonaro disputaria a eleição — acabou saindo pelo PSL.

Álvaro foi para esse partido com Bolsonaro, chegou a ser anunciado como possível vice, e agora se tornou ministro. Leva para o governo o nome do pai e uma lista grande de processos na justiça.

.x.x.x.

PS: Procurei o gabinete do deputado Marcelo Álvaro Antonio e ainda não obtive retorno. Tão logo ele responda às questões encaminhadas, serão publicadas.

29 Nov 14:09

Moro estava bem representado na continência sabuja de Bolsonaro ao sub do sub de Trump. Por Tiago Barbosa

by Tiago Barbosa
Bolsonaro presta continência para assessor de Trump. Foto: Reprodução/Folha

Não sejamos mesquinhos na análise da continência de Jair Bolsonaro a um assessor de Donald Trump.

Essa bajulação explícita, essa subserviência medíocre, esse viralatismo despudorado não são apenas do presidente eleito.

A continência representa, também, Sergio Moro, capacho dos EUA, responsável pela perseguição judicial a quem ousou defender a soberania brasileira.

É do novo pastor das relações exteriores, para quem o “globalismo marxista” só pode ser salvo pela ação messiânica do trumpismo.

É do ex-procurador Rodrigo Janot, serviçal de primeira ordem dos interesses norte-americanos, disposto a prestar contas de cada passo da Lava Jato ao Tio Sam.

É do PSDB, cujos representantes correram até Washington para entregar o nosso petróleo depois de conspirar e dar um golpe de estado contra uma presidente honesta.

É de Temer e asseclas, traidores dos interesses nacionais no desmonte da petrolífera em benefício do capital estrangeiro, sobretudo o norte-americano.

É do Judiciário brasileiro – de Barroso a Fux – com as decisões e omissões para sustentar uma farsa e manter na cadeia o presidente capaz de devolver ao país a dignidade.

É da mídia vendida, submissa, parcial e avessa ao povo, encarregada de criar a narrativa para legitimar a destruição do patrimônio brasileiro, celebrar a cultura do punitivismo, criminalizar países independentes da coleira dos EUA e canalizar o ódio contra a esquerda.

O que Bolsonaro fez foi resumir toda a degeneração política, econômica, social, trabalhista e até emocional da história recente do país na continência, o ato de humilhação extrema diante da comunidade internacional.

O gesto é apenas a síntese visível de um Brasil colocado à venda, por um preço bem baratinho, na liquidação da diplomacia mundial.

28 Nov 17:47

As 30 editoras para quem a Livraria Saraiva mais deve dinheiro

by Maria Fernanda Rodrigues

Com dívidas de aproximadamente R$ 675 milhões, a Livraria Saraiva entrou com pedido de recuperação judicial no início da manhã desta sexta-feira, 23, algo esperado – e desejado pela mercado editorial. No documento protocolado, a empresa lista seus credores e informa o valor de sua dívida com cada um deles.

livraria saraiva

Livraria Saraiva deve cerca de R$ 675 milhões (Foto: Amanda Perobelli/Estadão)

A Moderna é a editora no topo da lista de credores quirografários (não prioritários), com mais de R$ 19 milhões para receber. Companhia das Letras, com R$ 18,6 milhões, vem na sequência. O grupo Sextante aparece duas vezes, com as editoras GMT (Sextante) e Arqueiro.

A Saraiva Educação também está relacionada entre os credores, mas é preciso lembrar que a empresa foi vendida para a Somos Educação, da Abril Educação, em 2015.

Abaixo, as 3o editoras (e distribuidoras, que atendem as editoras independentes) para quem a Saraiva deve mais dinheiro. A lista segue por páginas e páginas até chegar à Oxford University Press, que tem para receber R$ 8,41.

Moderna – R$ 19.775.399,71
Companhia das Letras – R$ 18.638.315,67
Record – R$ 18.241.167,49
Saraiva Educação – R$ 18.019.617,60
Grupo GEN – R$ 15.615.151,12
Intrínseca – R$ 13.258.421,97
GMT/Sextante – R$ 9.026.372,67
Panini – R$ 8.355.502,96
Planeta – R$ 8.315.369,83
Grupo A – R$ 7.393.546,70
Rocco – R$ 7.003.081,76
Arqueiro – R$ 5.4111.797,08
Edições SM – R$ 4.929.131,08
FTD – R$ 4.853.107,15
Melhoramentos – R$ 4.559.262,65
Elsevier – R$ 4.538.446,22
Globo – R$ 4.153.861,22
Cengage Learning Edições – R$ 3.889.876,35
Gente – R$ 3.635.911,13
Nova Fronteira – R$ 3.378.948,83
Ciranda Cultural – 3.241.775,55
Casa dos Livros (distribuidora) – 2.995.369,59
Vozes – R$ 2.960.597,18
Publifolha – R$ 2.868.793,17
Catavento (distribuidora) – R$ 2.691.469,21
Casa da Palavra/Leya – R$ 2.648.993,91
V&R – 2.546.635,34
Pensamento Cultrix – R$ 2.521.493,38
Inovação (distribuidora) – R$ 2.463.664,36
Darkside – R$ 2.323.281,70

28 Nov 13:02

Índios do Rio Grande do Norte: vivos e em movimento

by Allyne Macedo

Por muito tempo propagou-se a ideia de que não existiam mais índios no estado do Rio Grande do Norte devido ao massacre ocorrido durante a Confederação dos Cariris, ainda no período colonial brasileiro. Essa noção de extermínio total não se sustenta quando analisadas as formas de resistência indígena ao longo da história: muitos povos migraram para outras regiões; se misturaram à população local, por vezes negando sua identidade étnica para evitar perseguições; ou procuraram se isolar da política colonizadora da época.

Nas últimas décadas, amparados pela Constituição Federal Brasileira, diversos povos vêm se reorganizando em busca de sua história e memória, reivindicando com legitimidade uma identidade indígena, bem como construindo cotidianamente as lutas pelo reconhecimento e efetivação de seus direitos específicos. Hoje, 11 comunidades compostas por 7 povos integram o movimento indígena no RN, quais sejam: Sagi-Trabanda, cujo povo se declara Potiguara; Catu, onde se identificam Potiguaras Eleotérios; Amarelão; Serrote de São Bento; Santa Terezinha, Marajó, Açuncena e Cachoeiras, comunidades formadas por um único povo que se denomina Mendonças Potiguaras do Amarelão; Caboclos de Açú, que se afirmam índios Caboclos; Lagoa do Tapará, formada pelos Tapuias da Lagoa do Tapará ou Tapuias Trarairiús; e Lagoa do Apodi, cujos índios se reconhecem Tapuias Paiacús.

Os processos históricos de esbulho das terras indígenas que ocorreram em todo o país conduziram os índios do Rio Grande do Norte à grandes dificuldades econômicas, em virtude da perda de seus territórios tradicionais, dos trabalhos precários e mal pagos aos quais foram submetidos e pela falta de políticas públicas que atendessem às suas necessidades. Além disso, o discurso que permeia o senso comum sobre o “ser índio” difundido nos meios de comunicação e por algumas instituições de ensino, prejudica uma correta compreensão sobre a questão indígena por parte dos gestores públicos e da sociedade em geral. A tipificação museológica da identidade indígena, o índio quinhentista ou seiscentista pensado como “puro”, “autêntico”, “verdadeiro”, associado à compreensão da cultura como estática, parada no tempo, nega o indígena no presente, com uma cultura dinâmica e com múltiplas identidades, o que faz reinar estereótipos e preconceitos cujas consequências às comunidades indígenas vêm sofrendo ao longo dos anos.

Nesse sentido, os índios do Rio Grande do Norte seguem reivindicando, como pautas prioritárias, dentre outras: a demarcação de suas terras tradicionais e a garantia da educação escolar indígena em todos os municípios onde existem comunidades indígenas. Além das articulações e lutas políticas, anualmente realizam ações de fortalecimento e visibilidade indígena, com a construção de festas e feiras de cultura através das quais reafirmam que estão vivos, em movimento e na luta para defender os seus direitos. Nesses eventos, enquanto cantam e dançam o Toré, dão o recado da resistência: “quem não pode com as formigas, não assanha o formigueiro!”.

 

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27 Nov 17:51

Aldo Fornazieri e o “destino” de Lula

by Orientação Militante

O professor Aldo Fornazieri escreveu um artigo intitulado “Destino de Lula: abandono e solidão”.


O que o artigo afirma é verdadeiro? 

Sobre o presente e o passado recente, não. 

Sobre o futuro, tampouco, ao menos no que depender da campanha Lula Livre.

Com base em que fatos se baseia Fornazieri, para afirmar que o destino de Lula é “abandono e solidão”?

Vejamos ponto a ponto.

Fornazieri começa afirmando que “Lula está politicamente abandonado”. 

A direita não acha isso. 

Seus porta-vozes reclamam que Lula transformou sua cela em comitê eleitoral. O próprio Bolsonaro acusou Fernando Haddad de receber instruções de um preso. 

No dia 18 de novembro de 2018, o jornal O Estado de S. Paulo publicou texto afirmando que Lula recebeu 572 visitas ao longo de seis meses de prisão. 

Façam as contas: seis meses, mais ou menos 180 dias, 572 visitas. A lista inclui desde familiares até artistas famosos, passando por lideranças do PT e personalidades internacionais as mais variadas. O Papa, como todos sabem, mandou sua mensagem. E, mais importante que tudo, 31 milhões de brasileiros e de brasileiras votaram no primeiro turno na candidatura escolhida, indicada e apoiada por Lula.

Sendo assim, do que mesmo Fornazieri está falando?

Vejamos o argumento de Fornazieri: “O abandono político de Lula, principalmente por parte do PT, se prenunciava quando o partido não fez uma campanha de mobilização nem para se contrapor à sua condenação, nem para se contrapor à sua prisão e nem para exigir a sua libertação.”

Portanto, Fornazieri acha que a culpa pelo “abandono político” é “principalmente” do PT.

Fornazieri acusa a esquerda de ser responsável e culpada pelo que a direita está tentando fazer.

Fornazieri é mais um de uma longa lista que aponta o dedo acusador e diz: “a culpa é do PT”.

A direita persegue, condena sem provas, prende injustamente. E a culpa, segundo Fornazieri, é do PT.

Com base no que Fornazieri sustenta esta afirmação?

Segundo Fornazieri, o PT não teria feito uma campanha de mobilização nem para se contrapor à condenação de Lula, nem para contrapor à prisão de Lula e nem para exigir a libertação de Lula.

Lendo isto, só posso responder que Fornazieri vive num mundo alternativo, como aquele mostrado na série “Fringe”. 

Neste mundo paralelo, não existe a campanha Lula Livre, não existe a Vigília na sede da Polícia Federal, não houve nenhuma mobilização quando Lula foi depor, não houve nenhum ato público, não houve mobilização de artistas e intelectuais e juristas, não foram distribuídos milhões de jornais, panfletos e revistas, não circularam dezenas de milhões de memes, mensagens, tweets...

Talvez Fornazieri tenha querido dizer que a campanha Lula Livre até agora não teve êxito. E isto é um fato: sofremos um golpe, sofremos uma derrota eleitoral, Lula segue um preso político. 

Mas ter sido derrotado não é igual a não ter lutado. O fato de Lula estar preso não significa que ele tenha esteja sendo vítima de “abandono político”. 

Talvez Fornazieri tenha querido dizer que a campanha Lula adota uma linha política equivocada. 

Segundo Fornazieri, “ocorreram atos isolados aqui e acolá, é verdade. Mas não atos que se inscrevessem no contexto de campanhas organizadas e sistemáticas. O processo da campanha eleitoral impôs a Lula a consumação do abandono político, sacramentado no pós-eleições”. 

Vou pular a parte dos “atos isolados aqui e acolá”. O fato (fatos existem, ainda que alguns intelectuais desconsiderem este detalhe) é que, na maioria das cidades do Brasil e em grande número de cidades no exterior ocorreram várias atividades em defesa da liberdade de Lula.

Também vou deixar de lado a discussão sobre a necessidade de “campanhas organizadas e sistemáticas”. Claro que se faz necessário que tenhamos mais organização, mais sistematicidade, mais disciplina, mais dinheiro, mais tudo.  Sempre é necessário tudo isto e sempre haverá quem, de fora, às vezes direto de uma torre de cristal, critique duramente os que estão fazendo.

Me concentrarei na seguinte afirmação de Fornazieri: “O processo da campanha eleitoral impôs a Lula a consumação do abandono político, sacramentado no pós-eleições.”

Será que isto é verdade? 

Mesmo estando preso, Lula foi inscrito no dia 5 de agosto como candidato do PT à presidência da República. 

De 5 de agosto até 11 de setembro, o PT manteve a candidatura Lula. Foi, inclusive, vítima de perseguição judicial por causa disso.

No dia 11 de setembro, o PT foi obrigado a substituir Lula como candidato a presidente. Mas Lula continuou presente na campanha de Haddad, muito mais no primeiro turno, muito menos no segundo turno.

Esses são os fatos. 

Pergunto: estes fatos permitem sustentar a tese de Fornazieri, segundo a qual “o processo da campanha eleitoral impôs a Lula a consumação do abandono político”??

Talvez Fornazieri esteja querendo dizer que alguns setores de centro e de esquerda, talvez até mesmo alguns integrantes do PT, queriam reduzir a presença de Lula na campanha e, agora, querem minimizar a importância da campanha Lula Livre.

Mas se é isto que Fornazieri quer dizer, então ele deveria dar nome e sobrenome para quem está fazendo isso. E não fazer uma acusação genérica contra o PT. 

E o pós-eleições?

Será verdade que “o abandono político” foi “sacramentado no pós-eleições”?

Novamente, pergunto: com base em que fatos Fornazieri afirma isso?

Segundo Fornazieri, o depoimento de Lula “à juíza Gabriela Hardt simbolizou o abandono político efetivo do ex-presidente: nenhuma mobilização, nenhum ato de apoio, nenhum protesto nas proximidades do tribunal. O que se viu no depoimento foi um Lula envelhecido, triste e cansado, acompanhado apelas pelos advogados que até agora não obtiveram nenhuma vitória jurídica”.

Primeiro: não é verdade que não tenha ocorrido “nenhuma mobilização, nenhum ato de apoio, nenhum protesto nas proximidades do tribunal”.


Fornazieri pode criticar o tamanho da mobilização. Mas não pode falar que nada tenha sido feito.

Segundo: é simplesmente ridículo criticar o fato de que Lula estava acompanhado “apelas [sic] pelos advogados que até agora não obtiveram nenhuma vitória jurídica”.

[Suponho que o “apelas” acima transcrito seja, na verdade, “apenas”.]

O acesso ao local dos depoimentos é restrito. Isto é culpa do PT?

E a ausência de vitórias jurídicas é culpa dos advogados? Será culpa do PT? Ou será resultado de um processo que, desde o início, está organizado para condenar e prender Lula?

Como já dissemos antes, Fornazieri atribui ao PT (a vítima) a responsabilidade, a culpa, pelas ações cometidas pelo agressor (a coalizão golpista).

Terceiro: não sei bem o que dizer sobre a frase “o que se viu no depoimento foi um Lula envelhecido, triste e cansado”.

Eu tenho minha avaliação sobre o depoimento dado por Lula. E também tenho minha avaliação sobre o estado de ânimo de uma pessoa de mais de 70 anos, vítima de uma injustiça sem tamanho. 

Mas a maneira como Fornazieri refere-se ao fato é simplesmente absurda. 

Lula está envelhecido? Quem não estaria, depois de meses numa cela? Lula está triste? Quem não estaria, depois do que ocorreu no Brasil nas últimas semanas? Lula está cansado? Quem não estaria, sendo submetido a um interrogatório medieval?

Talvez no mundo de Fornazieri, só existam homens de aço. No meu mundo, até as principais lideranças são gente como a gente. 

Assim, o impressionante não é o cansaço, a tristeza e o envelhecimento. O impressionante é que Lula e todos nós continuemos lutando e resistindo. 

Fornazieri já foi dirigente partidário, no Partido Revolucionário Comunista e no Partido dos Trabalhadores. Já foi de ultra-esquerda, já foi de um moderado-extremista, hoje não sei bem como situá-lo do ponto de vista político. Mas seu “anima” é mais ou menos a mesmo, desde que o conheci pessoalmente, entre o final dos anos 70 e início dos anos 80.

É este “anima” que permite a ele, direto da torre de cristal, afirmar que “o que era de se esperar é que, com o fim da campanha eleitoral, o PT já tivesse uma campanha planejada de mobilização pela liberdade de Lula”. 

Confesso, novamente, certa dificuldade em responder a esta afirmação de Fornazieri.

Se ele tivesse perguntado antes de atirar, eu teria respondido: não atire, o planejamento existe. 

Mas, como é obvio, a campanha seria uma ou outra, a depender do resultado das eleições presidenciais.

Detalhe importante: a campanha pela libertação de Lula não é apenas do PT. O PT tem um papel importante, mas seria errado ele decidir sozinho. 

No dia 30 de novembro e 1 de dezembro, um representante da campanha apresentará o plano de trabalho na reunião do Diretório Nacional do PT.

Fornazieri não tem a obrigação de saber de nada disto. Mas ele tem a obrigação de, antes de escrever a respeito, se informar.

Mas Fornazieri prefere operar no terreno das “suspeitas” de que “não se veria nada disso”.

E tempera estas suspeitas com a seguinte afirmação: “muitos petistas, perguntados acerca da situação de Lula, respondem que "não há o que fazer". Este conformismo derrotista é a confirmação do abandono”.

Não sei quem são estes “muitos petistas” que servem de fonte para Fornazieri. Devem ser pessoas muito importantes, pois ele diz que seu “conformismo derrotista é a confirmação do abandono”.

O que posso garantir é que “muitos petistas” pensam diferente. 

Ontem, por exemplo, foi divulgado o projeto de resolução que será debatido na já citada reunião do Diretório Nacional do PT. Contrubuiram na redação deste projeto de resolução representantes de todas as chapas que participaram da eleição do atual Diretório Nacional do PT. E, como todos poderão confirmar lendo o projeto de resolução, não há nenhum “conformismo derrotista”.

Claro, a situação é muito mais difícil agora que antes. Mas nossa postura frente as dificuldades é a seguinte: lutar para mudar a correlação de forças. E para que isso ocorra, é preciso convencer a maioria do povo de que a condenação deve ser anulada e Lula deve ser livre. 

Voltemos ao texto de Fornazieri. 

Ele afirma que “quando foi adotada a tática de levar a candidatura Lula até as últimas consequências esperava-se que as elites e o Judiciário pagassem um preço alto pela exclusão do líder das pesquisas, do político mais popular da história do Brasil, junto com Getúlio Vargas. Mas para que este preço fosse pago, evidentemente, alguém haveria de cobrá-lo. O preço seria uma parcela significativa da sociedade mobilizada para exigir a candidatura Lula. Dificilmente bases sociais se mobilizam sozinhas. É preciso direção, comando e coragem para que haja mobilizações. Não havia nada disso quando Lula foi interditado, confirmando que o PT, que havia perdido as ruas desde 2013, mas, principalmente, durante o processo de impeachment que levou ao golpe, não foi capaz de recuperá-las nem para defender seu maior líder - um líder de milhões de brasileiros”.

Não sei se Fornazieri ainda é filiado ao PT. Ou se milita em algum partido. Deveria fazê-lo, pois pelo visto ele sabe (ou acha que sabe, ao menos no papel, ao menos em tese) o que deve ser feito para que haja mobilizações: “direção, comando e coragem”. Eu acrescentaria dois “detalhes”: que haja uma cultura de mobilização e que haja disposição de luta de pelo menos um setor importante das massas.

Desde 2013 até 2018, houve muita mobilização de massa, em torno de diferentes pautas, capitaneada por diferentes setores políticos. Quando olhamos o conjunto da obra, a conclusão é que a direita teve mais êxito que nós, tanto nas ruas quanto nas urnas. Por quais motivos isso ocorreu? Há muitos motivos. Um deles é que, embora tenhamos mantido base e cultura de mobilização eleitoral, perdemos base social organizada e cultura de mobilização de massa.

Isso não ocorreu em 2018, nem em 2015, nem em 2013. Isso vem de muito antes e tem relação direta com as posições que Fornazieri defendeu no Partido dos Trabalhadores, durante os anos 1990 e até 2005 pelo menos. 

Mesmo assim, mesmo tendo perdido parte de sua capacidade de mobilização, o PT e outros setores de esquerda e democráticos fizeram muita mobilização neste período. 

Dizer que “não havia nada”, como diz Fornazieri, é uma injustiça contra quem se mobilizou, é uma informação equivocada e, principalmente, contribui para passar uma falsa impressão sobre a correlação de forças. 

Se as coisas fossem como Fornazieri insinua, não teríamos tido 47 milhões de votos. Estes votos não caíram do céu. São produto de um imenso esforço de mobilização militante.

A questão é que – como já aconteceu no passado, com o próprio Fornazieri – uma postura maximalista rapidamente se converte em derrotismo. 

A linha do tudo ou nada, vitória ou morte, pode ser boa para corrida de 100 metros, mas não é útil quando estamos diante de uma maratona.

Fornazieri pergunta: “Qual foi o preço pago pelas elites e pelo Judiciário pelo encarceramento e pela exclusão de Lula das eleições? Nenhum. Ficaram no lucro com a vitória de Bolsonaro, com principal algoz de Lula premiado com o Ministério da Justiça e com um criminoso e escandaloso aumento de 16,38% nos salários dos juízes. Mas como as esquerdas vivem de ilusões, anunciando vitórias que nunca vêm e que, ao fim e ao cabo das coisas se traduzem em derrotas, agora já vaticinam o fracasso do governo Bolsonaro à espera de apanhar o fruto sem plantar a árvore, para lembrar uma frase de Sérgio Buarque de Holanda”.

Começando pelo final: não sei de que “esquerdas” Fornazieri fala. Como em outras passagens de seu texto, nesta ele faz referência a um sujeito indeterminado. Da minha parte, posso dizer: o PT não subestima os desafios da conjuntura aberta pela eleição de Bolsonaro. 

Agora ao miolo do problema: os golpistas venceram. Sendo assim, que relevância tem constatar o óbvio? Pois é óbvio que os que venceram, “ficaram no lucro”. 

A questão relevante é outra: a derrota que sofremos nos destruiu, ou permite que sigamos lutando?

Em nossa opinião, um Partido que recebeu 31 milhões de votos no primeiro turno e cuja candidatura recebeu 47 milhões de votos no segundo turno tem base social, força eleitoral e capacidade política de seguir lutando.

Claro, tem gente na oposição que pensa diferente. E tem gente, como Fornazieri, que faz críticas que contribuem para criar um clima de “desmoralização e terra arrasada”. 

Aliás, recomendo aos leitores de Fornazieri que leiam vários artigos dele, pois aí o enredo toda fica claro.

Mas pior que a posição de Fornazieri, é seu estilo literário, digamos assim. 

Vejamos dois parágrafo de seu texto: 

“No seu abandono, o que Lula tem pela frente é a perspectiva de novas condenações. O ambiente político adverso com a vitória de Bolsonaro, a pressão de generais que não querem Lula livre e o alinhamento das altas Cortes do Judiciário com os militares reforçam ainda mais a perspectiva de novas condenações e de alguns longos anos na cadeia”.

“Na medida em que o tempo passa e que nada de excepcional acontece em torno de Lula e de sua prisão (a não ser novas condenações), a ideia de Lula preso vai sendo naturalizada não só pelos petistas, mas pela consciência democrática em geral. A passividade é uma forma de aceitação, é uma memória triste e impotente do que poderia ser diferente mas não foi. A passividade é também uma forma de esquecimento. No caso, do esquecimento de que Lula está preso. O incômodo dessa lembrança só virá às mentes pelas notícias negativas das mídias”.

O problema do, digamos, estilo literário de Fornazieri, é que ele primeiro faz várias afirmações que são verdadeiras (“ambiente político adverso”, “pressão de generais”, “alinhamento das altas Cortes do Judiciário”, “perspectiva de novas condenações”) acerca do lado de lá. 

Em seguida Fornazieri conduz seu leitor para um segundo conjunto de afirmações, desta vez acerca do lado de cá: “a ideia de Lula preso vai sendo naturalizada”, “a passividade é uma forma de aceitação”, “memória triste e impotente”, “forma de esquecimento”. 

Estas afirmações são verdadeiras? Como já expliquei antes, não são. Do lado de cá, existe mobilização e luta por Lula Livre. Há dúvidas e certo desânimo? Claro!! Há menos mobilização e organização do que o necessário? Claro também. Mas o clima descrito por Fornazieri é não apenas exagerado: ele contribui para criar um ambiente de depressão e cizânia. Pois a moral da história que nos é sugerida é que Lula não é vítima dos golpistas, mas sim de nossa suposta passividade.

Ligando o primeiro e o segundo bloco de afirmações, Fornazieri coloca uma frase enigmática: “Na medida em que o tempo passa e que nada de excepcional acontece em torno de Lula e de sua prisão”. 

Não vou especular o que ele quer dizer com “nada de excepcional”. 

Apenas digo o seguinte: não se deve esperar dos golpistas e do governo Bolsonaro nenhum tipo de complacência, nem com o PT, nem com Lula. 

Como mudar esta situação? Com algo excepcional, um ato mágico feito por algum super-herói? Não, pelo contrário.  

Mudar a situação, anular a sentença, libertar Lula, depende de que dezenas de milhões de brasileiros e brasileiras convençam outras dezenas de milhões de que a condenação foi injusta, que Lula é inocente, que sua pena deve ser anulada e ele deve ser liberto.

O estilo literário de Fornazieri contribui para isto?  Nem um pouco. 

Vejam só o estilo distópico do que vem a seguir: “O abandono e o esquecimento de Lula o retirarão também da memória coletiva e ele será lembrado como uma coisa boa para os muitos pobres e uma coisa ruim para os mais ricos. Mas ele será cada vez mais uma lembrança que vai empalidecendo. Na medida em que as pessoas precisam viver e continuar a vida, as suas expectativas se deslocam para novos líderes, para novos embates ou para novas frustrações”.

O que nos espera, segundo Fornazieri? “Novas frustrações”...

Outro exemplo de distopia deprimente: “Com Lula abandonado e esquecido na prisão, a sua força mítica tende a se enfraquecer. Aqueles que querem que essa força se enfraqueça ou morra tenderão, ao máximo, fazer verossímeis as acusações e aqueles que gostariam que ela continuasse viva não têm força e nem coragem para fazê-la viver. O que se verá, se nada for feito, é a desencantadora consumação da força extraordinária de um autêntico líder do povo. E o povo, que é o verdadeiro abandonado, não terá essa força mítica como conforto de suas angústias, como energia ativa de suas lutas e como referência de combate. O enfraquecimento da figura mítica de Lula se expressará como enfraquecimento da própria energia combativa do povo, pois este acreditará que nada vale a pena já que o seu destino será a pobreza e a derrota”.

O que nos espera?
“A pobreza e a derrota”.

Esta retórica depressiva causa apenas mais depressão. Mas qual a causa profunda desta atitude depressiva?
 
Fornazieri dá uma pista, quando ele fala do que acha que Lula estaria sentindo. Diz Fornazieri: “solidão”, “solidão da falta de perspectivas de exercitar a sua liberdade com plenitude”, “solidão diante de um país que lhe negou a possibilidade de ele doar-lhe o que tem de melhor”.

Não sei se Fornazieri conhece Lula o suficiente para falar coisas desse tipo. Assim vou me limitar a parte política do comentário de Fornazieri: “solidão diante de um país que lhe negou a possibilidade de ele doar-lhe o que tem de melhor”.

Vejam que curioso: o círculo se fecha.

No começo do texto, Fornazieri nos disse que a culpa pelo “abandono político”de Lula seria “principalmente” do PT.

No final do texto, Fornazieri nos diz que a culpa pela solidão de Lula é do “país”.

Do país?

Não da classe dominante, não dos golpistas, não da direita e extrema direita, mas... do país!!

E aí vem a cereja do bolo: “A situação de Lula é uma lição dolorida que todos os políticos deveriam aprender: o poder não pode ser arrogante, mas deve ser exercido com prudência, humildade e humanidade”. 

Ou seja: a culpa é de quem foi arrogante ao lidar com o poder...

Fornazieri termina seu texto convocando o “PT, os movimentos sociais, as esquerdas e os líderes políticos que têm poder de convocação” para “atenuar a dor da solidão de Lula: mostrar, através de uma campanha organizada, em atos e mobilizações, que ele não está só”.

Mas mesmo neste momento, o que predomina é o pessimismo: “talvez, o destino de Lula seja o de confirmar, tristemente, uma afirmação de Schopenhauer”, a saber, que "a solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais".

Penso diferente de Fornazieri. 

Nosso objetivo não é “atenuar a dor da solidão de Lula”. Isto é frase adequada, quem sabe, a doentes terminais, no leito de morte.

Lula não está morto, nós não estamos mortos, não queremos “atenuar a dor da solidão”.

Queremos anular a sentença, queremos libertar Lula, queremos derrotar Bolsonaro, queremos voltar a governar o Brasil.





Segue o texto de Fornazieri

Destino de Lula: abandono e solidão

por Aldo Fornazieri

Lula está politicamente abandonado. O abandono político de Lula, principalmente por parte do PT, se prenunciava quando o partido não fez uma campanha de mobilização nem para se contrapor à sua condenação, nem para se contrapor à sua prisão e nem para exigir a sua libertação. Ocorreram atos isolados aqui e acolá, é verdade. Mas não atos que se inscrevessem no contexto de campanhas organizadas e sistemáticas. O processo da campanha eleitoral impôs a Lula a consumação do abandono político, sacramentado no pós-eleições. O seu depoimento à juíza Gabriela Hardt simbolizou o abandono político efetivo do ex-presidente: nenhuma mobilização, nenhum ato de apoio, nenhum protesto nas proximidades do tribunal. O que se viu no depoimento foi um Lula envelhecido, triste e cansado, acompanhado apelas pelos advogados que até agora não obtiveram nenhuma vitória jurídica.


O que era de se esperar é que, com o fim da campanha eleitoral, o PT já tivesse uma campanha planejada de mobilização pela liberdade de Lula. Mas as suspeitas que não se veria nada disso se confirmaram. Muitos petistas, perguntados acerca da situação de Lula, respondem que "não há o que fazer". Este conformismo derrotista é a confirmação do abandono.

Quando foi adotada a tática de levar a candidatura Lula até as últimas consequências esperava-se que as elites e o Judiciário pagassem um preço alto pela exclusão do líder das pesquisas, do político mais popular da história do Brasil, junto com Getúlio Vargas. Mas para que este preço fosse pago, evidentemente, alguém haveria de cobrá-lo. O preço seria uma parcela significativa da sociedade mobilizada para exigir a candidatura Lula.

Dificilmente bases sociais se mobilizam sozinhas. É preciso direção, comando e coragem para que haja mobilizações. Não havia nada disso quando Lula foi interditado, confirmando que o PT, que havia perdido as ruas desde 2013, mas, principalmente, durante o processo de impeachment que levou ao golpe, não foi capaz de recuperá-las nem para defender seu maior líder - um líder de milhões de brasileiros.

Qual foi o preço pago pelas elites e pelo Judiciário pelo encarceramento e pela exclusão de Lula das eleições? Nenhum. Ficaram no lucro com a vitória de Bolsonaro, com principal algoz de Lula premiado com o Ministério da Justiça e com um criminoso e escandaloso aumento de 16,38% nos salários dos juízes. Mas como as esquerdas vivem de ilusões, anunciando vitórias que nunca vêm e que, ao fim e ao cabo das coisas se traduzem em derrotas, agora já vaticinam o fracasso do governo Bolsonaro à espera de apanhar o fruto sem plantar a árvore, para lembrar uma frase de Sérgio Buarque de Holanda.

No seu abandono, o que Lula tem pela frente é a perspectiva de novas condenações. O ambiente político adverso com a vitória de Bolsonaro, a pressão de generais que não querem Lula livre e o alinhamento das altas Cortes do Judiciário com os militares reforçam ainda mais a perspectiva de novas condenações e de alguns longos anos na cadeia.

Na medida em que o tempo passa e que nada de excepcional acontece em torno de Lula e de sua prisão (a não ser novas condenações), a ideia de Lula preso vai sendo naturalizada não só pelos petistas, mas pela consciência democrática em geral. A passividade é uma forma de aceitação, é uma memória triste e impotente do que poderia ser diferente mas não foi. A passividade é também uma forma de esquecimento. No caso, do esquecimento de que Lula está preso. O incômodo dessa lembrança só virá às mentes pelas notícias negativas das mídias.

O abandono e o esquecimento de Lula o retirarão também da memória coletiva e ele será lembrado como uma coisa boa para os muitos pobres e uma coisa ruim para os mais ricos. Mas ele será cada vez mais uma lembrança que vai empalidecendo. Na medida em que as pessoas precisam viver e continuar a vida, as suas expectativas se deslocam para novos líderes, para novos embates ou para novas frustrações.

Com Lula abandonado e esquecido na prisão, a sua força mítica tende a se enfraquecer. Aqueles que querem que essa força se enfraqueça ou morra tenderão, ao máximo, fazer verossímeis as acusações e aqueles que gostariam que ela continuasse viva não têm força e nem coragem para fazê-la viver. O que se verá, se nada for feito, é a desencantadora consumação da força extraordinária de um autêntico líder do povo. E o povo, que é o verdadeiro abandonado, não terá essa força mítica como conforto de suas angústias, como energia ativa de suas lutas e como referência de combate. O enfraquecimento da figura mítica de Lula se expressará como enfraquecimento da própria energia combativa do povo, pois este acreditará que nada vale a pena já que o seu destino será a pobreza e a derrota.

Lula sempre foi muito ativo politicamente, alegre, afetivo, comunicativo, brincalhão. Em que pese ter muitas visitas na prisão, parece óbvio que o tolhimento de sua liberdade faz com que lhe pese a solidão. Essa pode ser ainda maior porque o seu encarceramento o impede de viver essa essência, essa natureza afetiva, expansiva e comunicativa. Não se trata apenas da solidão de passar horas e dias sozinho, mas da solidão da falta de perspectivas de exercitar a sua liberdade com plenitude. Trata-se da solidão diante de um país que lhe negou a possibilidade de ele doar-lhe o que tem de melhor. Trata-se da solidão de ver envelhecer-se mergulhado no abismo de quatro paredes.

Certamente, Lula já terá refletido muito acerca do caráter efêmero do poder e acerca da precariedade da vida humana. Até ontem ele era um dos presidentes mais festejados do mundo e, hoje, vê-se na aterradora condição de um encarcerado. A situação de Lula é um retrato vívido da precariedade e da fragilidade das coisas humanas. A situação de Lula é uma lição dolorida que todos os políticos deveriam aprender: o poder não pode ser arrogante, mas deve ser exercido com prudência, humildade e humanidade. Somente este tipo de poder merece ser glorificado e somente os líderes que assim o exercem se tornam heróis cuja, sua memória, sua lembrança e sua invocação são como uma setas que atravessam os tempos.

Somente nós, mas principalmente o PT, os movimentos sociais, as esquerdas e os líderes políticos que têm poder de convocação poderão atenuar a dor da solidão de Lula: mostrar, através de uma campanha organizada, em atos e mobilizações, que ele não está só. Dizer que "não há o que fazer" é enfiar um punhal na já dilacerada solidão de Lula. Mas, talvez, o destino de Lula seja o de confirmar, tristemente, uma afirmação de Schopenhauer: "A solidão é a  sorte de todos os espíritos excepcionais".

Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

26 Nov 17:07

Roteiro musical nos EUA - Jazz, Rock e Blues em Nova Orleans, Nashville e Memphis

by Cyntia Campos
Lucille, a guitarra favorita de BB King, no Blues Hall of Fame, em Memphis Vocês já sabem que a Fragata é um blog descabeladamente roqueiro, né? Pois nessas férias de novembro, finalmente fiz a viagem que eu planejava há séculos: meu tão acalentado roteiro musical nos EUA. Foram duas semanas animadíssimas. A primeira parada foi em Nova Orleans, berço do Jazz, no estado da Luisiana. Na
26 Nov 14:44

Bolsonaro é peça dos EUA, diz Monedero, criador do Podemos

by Diario do Centro do Mundo
Monedero é entrevistado pelo Tutaméia. Foto: Reprodução/YouTube

Publicado originalmente no site Tutaméia

POR ELEONORA DE LUCENA E RODOLFO LUCENA

Jair Bolsonaro é uma peça dos EUA. Assim como Sérgio Moro, que foi formado lá. A nomeação do juiz para o Ministério da Justiça é uma exigência norte-americana. Bolsonaro não manda muito. É um personagem grotesco, patético. Quem manda são os capitais que estão por trás dele. Como aconteceu com Hitler, quando ele chegou ao poder.

A avaliação é de Juan Carlos Monedero, um dos criadores do Podemos espanhol, em entrevista ao TUTAMÉIA. Cientista político, professor da Universidade Complutense de Madri, ele defende a formação de uma frente ampla, pois “a direita está unida em todo o mundo”.

“É preciso começar um processo de diálogo, que nos permita encontrar o que nos une e não o que nos separa. Steve Bannon [de ultradireita, ex-assessor de Donald Trump], que esteve aqui apoiando Bolsonaro, também está na Espanha apoiando a extrema direita. Esteve na Itália com Matteo Salvini, colaborou com o Brexit. Pretende que a União Europeia se rompa, porque uma EU despedaçada é favorável à essa lógica estadunidense da extrema direita. Eles se encontram em muitos lugares, têm dinheiro e são poucos –podem juntar as 40 pessoas que são as que mandam”, afirma.

Em sua visita ao Brasil, na semana passada, Monedero, 55, esteve com Lula em Curitiba. O seu relato:
“Lula me disse: ‘Monedero, isso [a prisão] é uma merda. Eu sei porque estou aqui. Me prenderam porque o Brasil descobriu petróleo em 2006. E os EUA precisam controlar esse pais’. Ele me recordou que, no ano da descoberta do petróleo, os Estados Unidos reativaram a quarta frota [Atlântico Sul]”.

Segundo Monedero, os EUA não poderiam suportar uma vitória da esquerda no Brasil, depois de não conseguirem barrar a eleição de López Obrador no México, pois vivem uma crise de hegemonia, com o avanço da China. No Oriente Médio, fracassaram. Regressaram, então, ao seu quintal, a América Latina. “Os Estados Unidos querem os recursos naturais e os recursos estão aqui: minérios, água, biodiversidade”.

“Lula demonstra ter muita força, está lendo história entende o que está acontecendo. Sabe que sua situação é parecida com as que viveram Antonio Gramsci, Pepe Mujica, Nelson Mandela. A prisão de Lula é contrária às regras básicas dos direitos humanos”, diz.

Monedero coloca o retrocesso brasileiro dentro da crise do neoliberalismo, iniciada em 2007. “O capitalismo em crise embute alguma forma de autoritarismo. Nos anos 30, tomou a forma de fascismo. A crise do neoliberalismo de 2007 teve como resultado expressões mais autoritárias, como a extrema direita na Europa, ou a vitória de Bolsonaro”.

No conjunto, para ele, há três elementos para explicar a situação atual:

1. A vontade dos EUA de voltar ao continente latino americano, depois do fracasso no Oriente Médio;
2. A crise do modelo neoliberal, que se pretende revolver com o aprofundamento das mesmas receitas neoliberais e, portanto, há um desejo do sistema de implantar o autoritarismo para fazer valer esse modelo que gera tanta dor social;
3. Os erros das forças políticas da esquerda na América Latina, principalmente sua incapacidade de fazer valer os valores próprios da esquerda.

PESSIMISMO ESPERANÇOSO

“Devemos ser pessimistas, mas esperançosos. O inverno neoliberal vai ser curto, mas vai ser duro. Teremos que protestar, resistir”, diz ao TUTAMÉIA. Na sua visão, a estratégia de resistência passa pela formação de uma frente ampla –o que significa muita conversa entre as diferentes forças e muita generosidade.

A dificuldade está em reunir os vários grupos. Ele fala da experiência do Podemos, que funciona um pouco como uma frente, com múltiplas parcelas da sociedade, com interesses às vezes contraditórios.

“Corremos o risco de cada um dos grupos se refugiar na sua identidade particular e perder de vista os elementos coletivos. É um risco. Podem haver feministas neoliberais, mas é mentira que sejam feministas. Têm um discurso feminista, mas é de mentira. Porque é o capitalismo que condena as mulheres à situação subalterna, de reprodução, cuidados e trabalho”.

Segundo ele, há uso desse “feminismo neoliberal, por parte da direita, para fragmentar não apenas o feminismo, mas para fragmentar a colaboração das mulheres conscientes de suas reivindicações como mulheres. Para que elas não acompanhem outras lutas, que são lutas de classe, de raça, de nação, lutas gerais. Por parte da direita há uma tentativa de exacerbar, de multiplicar as identidades, para que nos refugiemos em nosso pequeno mundito”, declara.

“Hitler governou porque a esquerda se fragmentou. No Primeiro de Maio de 1933, os sindicatos cometeram o erro de marchar junto com os nazistas. Aprendamos com os erros. Nesses 55% que votaram em Bolsonaro, não há 55% de nazistas. É preciso entender, debater. Não foram todos enganados. Há pessoas preocupadas com a violência. Há os que se decepcionaram com a esquerda, os que viram a esquerda fragmentada e entenderam que não teria êxito. Há os que viram frustrada a sua ascensão social. Houve subestimação sobre os evangélicos. É preciso saber que a direita não tem solução para as maiorias”.

26 Nov 14:21

Com saída do PT do governo, todos os números da desigualdade no país pioraram ou estagnaram, diz Oxfam

by Antonio Mello
Pessoas dormindo na rua

A ONG Oxfam Brasil, que tem Oded Grajew como presidente, produziu um relatório com os últimos números sobre a desigualdade no Brasil. Nele, fica evidente que o que não estagnou piorou, desde que o PT saiu do governo com o golpe de Estado que destituiu a presidenta Dilma.

A Folha publicou reportagem sobre o relatório, onde se destacam:
  • De acordo com a ONG, a desigualdade de renda domiciliar per capita, medida pelo Índice de Gini, permaneceu inalterada entre 2016 e o ano passado, interrompendo um processo de queda iniciado em 2002.
  • Brasil passou de 10º para o 9º mais desigual do mundo em uma lista de 189 países, segundo o relatório do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), que também usa o Índice de Gini.
  • Nesse período, houve o aumento da pobreza. Em 2017, o Brasil contava 15 milhões (7,2% da população) de pessoas consideradas pobres pelo Banco Mundial —renda de até US$ 1,9 (R$ 7,3) por dia. Trata-se de um crescimento de 11% em relação a 2016.
  • A Oxfam também detectou aumento da proporção da renda média de homens e a população branca em relação a mulheres e à população negra.
  • A renda das mulheres em relação aos homens registrou o primeiro recuo em 23 anos. No ano passado, elas ganharam 70% do rendimento masculino, contra 72% em 2016.
  • Com relação à disparidade racial, em 2016, os negros ganhavam 57% dos rendimentos médios de brancos; no ano passado, esse percentual caiu para 53%. 
Como sempre escrevo aqui, desde o golpe de hora em hora o Brasil piora, e a desigualdade só tende a crescer como governo de Bolsonaro, que promete terra arrasada para direitos sociais, trabalhistas e humanos.

Mas, era só tirar a Dilma e o PT...


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26 Nov 14:17

Histórias do futebol

by Edmo Sinedino

Essa semana um ex-colega de redação, amigo querido, relatou um fato envolvendo meu tempo de bola. Quando eu era o Edmo, jogador do Alecrim que, segundo outro ex-parceiro de DN, esse o sem vergonha, gaiato Duda Maia, também fotógrafo, repete a história de que nunca conseguiu fazer uma foto minha, pois quando chegava no estádio, por conta do corre-corre de redação, o jogo em andamento, eu já havia sido expulso. Safado caluniador! Sim, mas vamos à história de FC (não vou entregar geral). Me contou o filho do alecrinense que sempre acompanhava o pai nos jogos do meu, deles, time verde. Ambos faziam parte da pequenina e apaixonada torcida do periquito, e quase todas as vezes ia feliz para o Machadão. Certa quarta-feira,  mesmo dizendo que ia “ver Edmo jogar”, estranhamente, seu pai não o chamou, até disse que não poderia levá-lo dessa vez. Pois bem, por conta dessa partida o seu velho passou três dias sem aparecer em casa. Quando voltou, a mãe, na sua tranquilidade e paciência perguntou: “menino, esse Edmo estava jogando até agora?”

Descobriu-se, muito tempo depois, que esse “jogo” tinha sido na cidade de Currais Novos. E por conta dele, esse meu amigo ganhou um irmão que, até hoje, não chegou a conhecer.

Histórias do futebol.

Aí, me desculpe, deslancho e vou lembrando outras.

Era 1973. Força e Luz em alta em Natal, sendo bancado pela Cosern, estatal de energia que Garibaldi Alves (MDB) vendeu, estava brigando pelo título com ABC e América. Ranilson Cristino era o supervisor e a equipe trouxe um reforço de peso do futebol pernambucano: João Paulo, “João Porquinho”, volantaço craque de bola. Ele, no entanto, ao chegar em Natal, ficou sabendo que o Porto de Portugal estava interessado em seu concurso e recebeu uma proposta para jogar na terra do Além Mar. Nessa época era um sonho especial, ainda mais para quem jogava no pobre Nordeste. Gelou, no entanto, quando o empresário disse que a direção só contrataria jogadores abaixo de 23 anos. “João Porquinho” já estava com 33, em final de carreira, cinco filhos e só dívidas. Não tinha uma casa para morar. Correu até a “raposa velha” Ranilson Cristino, aperreou, cercou, pediu pelos filhos, netos, por Deus e a Virgem Maria para Ranilson ajudá-lo. Cristino cedeu. Tirou novos documentos do pernambucano diminuindo nada menos que dez anos de sua idade. O Porto contratou um negrinho, torado no grosso, cara de menino, mas futebol de “gente grande”, segundo as manchetes dos jornais portugueses. João Paulo foi embora e o que se sabe é que, feliz, vida feita, encerrou a carreira dez anos depois.

Essa é de 1974. O mesmo Força e Luz de Ranilson Cristino. Zeca, volante bom de bola (dizem que teve um jogo do Sport que ele marcou Zico) que veio de Recife chega chorando copiosamente na concentração. Dona Amélia, cozinheira, tia querida por todas, conforta o rapaz desesperado. A notícia triste: morreu o pai de Zeca. Ainda fungando, cara amassada, Zeca pede dinheiro a Pedro Pierre, querido e saudoso dirigente da época, suficiente para a viagem, enterro, enfim, as despesas. Zeca foi enterrar o pai. Passou três dias em Recife, voltou já confortado, parecia o jogador brincalhão e piadista de sempre. Passaram-se algumas semanas. Certo dia, a equipe concentrada, amanhecendo o dia, já cuidando do café da manhã da rapaziada que dormia, Dona Amélia ouviu baterem na porta. Abriu a parte de cima (as velhas portas divididas) e deu de cara com um senhor idoso, todo vestido de roupa branca, barba por fazer.

– Pois não, o senhor deseja falar com quem?

-Eu queria falar com meu filho, ele se chama Zeca e está jogando nesse time daqui de Natal – respondeu o velhinho esquisito.

A pobrezinha da velha sentiu o sangue gelar, as pernas fraquejaram, os cabelos todos se arrepiaram, ficou pálida, mas ainda conseguiu se recuperar e gritar ao mesmo tempo que corria pra dentro da cozinha: “gente, gente pelo amor de Deus me acuda, o fantasma do pai de Zeca…! O fantasma do pai de Zeca…!

Imagine uma situação dessa de madrugada, na sua porta, uma pessoa que você tinha certa como morta.

Por conta da mentira do atleta pernambucano, a pobre Dona Amélia quase morre do coração. Ele, além de levar um sermão de meia hora do velho pai, ainda foi multado em 40% do salário pelo dirigente Pierre que chegou mesmo a pensar em demití-lo.

Essa ocorreu em 1978. Currais Novos. Força e Luz. Esse foi especial. Minha primeira partida no time profissional do time elétrico, ao lado de Bastos, Wilde, Babau, Zoca, Carlinhos, Itamar, Valdeci Santana, Arandir, Burunga, Elson…mestres queridos que nunca vou esquecer.

Hotel Tungstênio lotado, portanto, fomos para um hotelzinho mais barato no Centro da Cidade. Bastos se senta na sala enquanto eram arrumadas as instalações. Um senhor, cabelos brancos, se aproxima e, como todo bom interiorano, inicia uma conversa com o nosso goleiro.

– O senho joga de quê? – perguntou a Bastos.

– Jogo de chuteira, meião, calção, camisa…-responde já fazendo troça o Bastião.

– Não, não, tô perguntando a posição que o senhor joga? – insistiu o velho senhor.

– Ah, sim, sei. Eu jogo em pé, jogo em pé mesmo – respondeu o sacana ainda tirando sarro.

O velhinho, enfim, notou a zombaria do goleiro e, vermelho, enfurecido, só não o chamou de “carne assada”, exigiu respeito, esculhambou, desabafou e expulsou todo mundo do hotel.

Ele era o dono.

Ranilson Cristino ficou fulo da vida com Bastos, mas teve que, no meio da noite, procurar outro lugar para ficar.

Era 1984. Fortaleza. Eu jogando no Ferroviário, esse mesmo Ferrim que subiu pra Série C. Fui contratado em final de Brasileiro, Campeonato Nacional naquela época. Rio de Janeiro e Coritiba, mordomias, mas veio a desclassificação. Voltamos à realidades dos amistosos pelo sertão enquanto o Estadual não começa.

Morávamos em cinco numa pensão. Eu, Dario, de Recife, Biroguenta e Sussu, de Campina Grande, e Júnior Xavier, de Mossoró, RN, potiguar como eu. O super craque Júnior Xavier. A pensão era paga pela direção e também responsável pela feira do mês. Pois bem, a situação era a seguinte. Alberto Damasceno fazia as compras para sete pessoas, nós cinco, e dona da pensão e sua empregada/agregada/amiga, sei. As compras não duravam cinco dias. No dia que batia na despensa, quando a gente chegava do treino a casa estava lotada. Namorado, irmã, marido da irmã, amigos, enfim…uma turma atacada com o baralho em embates que varavam a noite. Resultado? Comiam tudo. O resto do mês, muitas vezes, íamos treinar, sem mentira, com chá de folha de laranja no bucho para, quando voltar, almoçar ovo com farinha, pra ser feliz. A gente reclamou, uma vez só: a mulher soltou os cachorros, ameaçou mandar todo mundo embora e disse que o “dirigente ladrão” enganava ela e tal e coisa, e que gostava da gente, fazia por amizade e etc…aguentei um mês. Não tinha um infeliz de um bodegueiro que me vendesse fiado um cigarro Belmont. Uma fome infeliz, a barriga roncando. Ficávamos, eu, Sussu e Dario de frente a uma padaria, tentando criar coragem para pedir fiado. Um dia Dario, já no desespero, quase, falou com o dono da panificadora: “tu é doido macho, vou vender fiado a jogador…?” e nada mais disse.

Aguentei um mês. Quando saiu o vale de complemento do mês que já estava atrasado 60 dias, arrumei meus tarecos, corri para a rodoviária e deixei uma carta para o supervisor Alberto Damasceno. Acho que foi o primeiro caso de um jogador fugir de um clube e deixar uma carta explicando. Sei que Ranilson Cristino teve que ir a Fortaleza falar com o supervisor, os caras queriam suspender meu contrato, e eu ficaria sem jogar até o final do ano. Acreditem, depois, nesse mesmo ano, segundo semestre, fui viver outra história de fome em Campina Grande.

Eu sei o que é isso.

 

 

O post Histórias do futebol apareceu primeiro em Saiba Mais.

23 Nov 17:23

“Marxismo cultural”, obsessão dos bolsonaristas, foi invocado por neonazi para matar 77 na Noruega. Por Kiko Nogueira

by Kiko Nogueira
Bolsonaro e Rodriguez, novo ministro da Educação

Há uma bandeira que une os mentores intelectuais (sic) do bolsonarismo: a luta contra o chamado “marxismo cultural”.

Essa batalha é travada com força e com vontade pelo chanceler Ernesto Araújo, seu colega ministro da Educação, o colombiano Ricardo Vélez Rodriguez, e demais olavistas do governo.

Num artigo lelé da cuca intitulado “Trump e o Ocidente”, publicado em seu blog, Araújo escreveu que o presidente dos EUA estava salvando a civilização do “marxismo cultural globalista” ao defender a “identidade nacional, os valores familiares e a fé cristã, enquanto a Europa não o faz”.

Rodriguez tem uma página na internet denominada, sugestivamente, “Rocinante”. No caso, o cavalo de Dom Quixote. Ainda assim, um cavalo.

Em discurso proferido durante sua posse na quarta feira, dia 2, afirmou que quer acabar o “marxismo cultural” e a “ideologia de gênero” nas escolas.

“A ideologia globalista passou a destruir um a um os valores culturais que regem o país, família, igreja, Estado, pátria e escola”, afirmou.

“O marxismo cultural é uma coisa que faz mal para a saúde. A saúde da mente, do corpo e da alma. Porque secciona o ser humano, o torna massa, o torna coisa. Então, é uma tentativa de buscar uma abordagem cultural que lê a pessoa na sua integralidade, integridade, inteligência e individualidade.”

Tanto Jair quanto seus filhos patetas papagueiam tio Olavo repetindo essa expressão sempre que julgam necessário parecer, inutilmente, inteligentes.

É um bicho papão da extrema direita no mundo, um factoide como o Jesus no pé de goiaba de Damares Alves.

No New York Times, Samuel Moyn, professor de Direito e História da Universidade de Yale, nos EUA, resumiu o conceito como “um meme de 100 anos de idade”, com “uma história longa e tóxica”.

“Nada disso realmente existe”, afirma, numa excelente análise.

“Mas é cada vez mais popular acusar os efeitos nefastos do marxismo cultural na sociedade – e sonhar com seu violento extermínio.”

Moyn associa essa tese paranoica ao antissemitismo.

Bolsonaro e o futuro chanceler Ernesto Araújo | Sérgio Lima/AFP

 

Lembra que Anders Breivik, o neonazi terrorista que matou 77 e feriu 51 num acampamento do Partido dos Trabalhadores norueguês, na ilha de Utøya, em 2011, justificou a barbárie mencionando o marxismo cultural, ameaça à “cristandade” moderna.

Destaco alguns trechos para entender em que buraco a inteligentsia bolsonaro-olavista quer atirar o Brasil:

Originalmente uma contribuição americana para a fantasmagoria do alt-right, o medo do “marxismo cultural” vem se infiltrando há anos através de esgotos globais de ódio. (…)

Em junho, Ron Paul tuitou um meme racista que empregou a frase. No Twitter, o filho de Jair Bolsonaro, o recém-eleito homem forte do Brasil, gabou-se de conhecer Steve Bannon e unir forças para derrotar o “marxismo cultural”. (…)

O “marxismo cultural” também é um dos temas favoritos do Gab, a rede de mídia social em que Robert Bowers, o homem acusado de matar 11 pessoas em uma sinagoga em Pittsburgh no mês passado, passou algum tempo. (…)

Em seu manifesto de 1 500 páginas, o norueguês de direita Anders Breivik, que matou 77 pessoas em 2011, invocou o “marxismo cultural”. Repetidamente. “Ele quer mudar o comportamento, o pensamento e até as palavras que usamos”, escreveu. “Até certo ponto, já o fez.”

De acordo com seus oponentes ilusórios, “marxistas culturais” são uma aliança profana de aborteiros, feministas, globalistas, homossexuais, intelectuais e socialistas que traduziram a velha campanha esquerdista para levar os privilégios das pessoas da “luta de classes” à “política de identidade”. (…)

Alguns dos teóricos da conspiração que traçam as origens do “marxismo cultural” atribuem um significado desproporcional à Escola de Frankfurt. (…)

Muitos membros da Escola de Frankfurt fugiram do nazismo e foram para os Estados Unidos, onde supostamente carregavam o vírus do marxismo cultural para a América.

O discurso mais amplo em torno do marxismo cultural hoje se assemelha a uma versão do mito do “bolchevismo judeu” atualizada para uma nova era.

Nos anos após a Revolução Russa, os fantasistas aproveitaram o fato de que muitos dos seus instigadores eram judeus para sugerir que as pessoas poderiam economizar tempo equiparando o judaísmo ao comunismo – e matar ambos com um único golpe. (…)

A defesa do Ocidente em nome da “ordem” e contra o “caos” é um assunto antigo que se apresenta como um novo insight. Isso levou a danos graves no último século. (…)

Esse “marxismo cultural” é uma calúnia grosseira, referindo-se a algo que não existe, mas infelizmente não significa que pessoas reais não vão pagar o preço, como bodes expiatórios para apaziguar um sentimento crescente de raiva e ansiedade.

E, por essa razão, o “marxismo cultural” não é apenas um desvio triste de enquadrar queixas legítimas, mas também uma atração perigosa em um momento cada vez mais desequilibrado.

Anders Breivik faz a saudação nazista em tribunal
23 Nov 14:38

Parabéns a todos os imbecis envolvidos.

by elikatakimoto

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Sobre o novo ministro da educação:

Que o mundo caiu já sabemos. Que nossas riquezas estão sendo entregues a preço de banana para o grande capital já temos provas. Que a nossa diversidade não será respeitada já percebemos. Que não foi pela corrupção isso está claro como a água. Que eles querem é que pobre morra não temos mais dúvidas. Mas o que ainda me surpreende é essa ignorância. Por mais que esteja lidando com ela diariamente, a imbecilidade ainda me pega de surpresa.

O tal do “kit gay” mais a “mamadeira de piroca” foram cruciais para que tivéssemos um alucinado como presidente. O povo ter acreditado nessas notícias falsas e sem nenhum sentido diz muito sobre homofobia e sexualidade mal resolvida da galera em geral. Mas o pior, por incrível que pareça, para mim, é a tal da doutrinação marxista. Acreditar nisso só mostra o quanto essa gente está alheia ao que ocorre nas escolas desse Brasil onde grande parte delas sequer tem Bibliotecas, condições de dar aula, professores de todas as disciplinas, profissionais motivados para ensinar, alunos e alunas com vontade de aprender e por aí vai.

Vivemos o caos dentro das escolas há muito tempo e isso também não é novidade para ninguém. Eu que sou professora há mais de vinte anos e vivo percorrendo escolas estaduais, municipais, federais para dar palestras e aulas nunca me deparei com essa tal doutrinação. Quisera eu ter visto estudantes de escolas públicas entendendo o motivo pelo qual são desprezados pela classe política dominante e pela elite dessa bagaça chamada Brasil.

No meio desse pesadelo sem fim, ontem foi anunciado Ricardo Vélez Rodrigues para comandar o Ministério da Educação. Silas Malafaia entrou em festa em todas as redes. Ora ora. Preciso dizer mais alguma coisa? O que Silas Malafaia e seus pares entendem de Educação?

Nosso novo ministro escreveu em seu blog um texto no qual diz que o dia 31 de março de 1964, que marca o golpe militar no Brasil, é “uma data para lembrar e comemorar”. Pois é. Parabéns a todos os infelizes envolvidos. O novo ministro da Educação comparou, pasmem, a instauração da ditadura a outros eventos históricos, como do “dia do fico”, em que dom Pedro se recusa a deixar o Brasil e voltar a Lisboa.

A forma como ele se refere à Comissão da Verdade é assustadora. Para quem não sabe, essa comissão buscou elucidar crimes cometidos pela repressão militar, como torturas e assassinatos de civis. Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade divulgou relatório com os nomes de 434 pessoas que morreram ou desapareceram durante o regime. Após o golpe, vale lembrar, os militares permaneceram por 21 anos no poder.

Quem comandará a Educação do país sobre isso disse:

“Nos treze anos de desgoverno lulopetista os militantes e líderes do PT e coligados tentaram, por todos os meios, desmoralizar a memória dos nossos militares e do governo por eles instaurado em 64”. “A malfadada ‘Comissão da Verdade’ que, a meu ver, consistiu mais numa encenação para ‘omissão da verdade’, foi a iniciativa mais absurda que os petralhas tentaram impor”.

Debochar de Direitos Humanos virou modalidade olímpica nesse novo governo. O eleito chegou onde chegou sendo aplaudido elogiando torturador e dizendo que se matou pouco na ditadura. O ministro da Educação não deixa nada a desejar nessa esteira: ele ironiza sempre que pode o conceito de direitos humanos e faz saudações ao “patriótico papel” desempenhado pelos militares no período.

Mas a maior piada, insisto, é esse papo dessa suposta doutrinação marxista nas escolas que esse novo ministro da Educação insiste em seu discurso.

O que não me parece que seja levado em consideração é que desde que o mundo é mundo e a escola tal qual a conhecemos sempre utilizou de métodos educacionais doutrinários.

Muitos parecem não se dar conta já que nunca tiveram contato com outros métodos de ensino que incentivassem o questionamento daquilo que os detentores de poder vivem dizendo à população. Afinal, verdade seja dita, fomos submetidos a doutrinadores durante toda a vida.

O que não podemos negar é que a educação é e sempre foi um ato político. Não foram os “esquerdistas” (ou Paulo Freire) que inventaram isso. Ensinar é um ato político, a despeito de se ter ou não consciência disso. Não apenas os conteúdos que ensinamos, mas forma pela qual o fazemos.

Por exemplo, se ouvimos o aluno, mesmo quando ele discorda de nós, estamos ensinando a ele (concretamente e não apenas com palavras) um importante princípio da democracia. Por outro lado, quando reduzimos o tempo de debate dos alunos para poder ensinar mais “conteúdos objetivos” (que é o que defende Olavo de Carvalho e foi quem indicou o nome do novo ministro), também estamos agindo politicamente e ensinando um certo modo de viver e de enxergar a vida.

Se não fomentamos o debate em sala de aula, estamos dizendo com essa atitude que o debate público é uma perda de tempo, que o importante é se preparar para a dura vida que vem a seguir. Estudar, adquirir conhecimentos “de verdade” para poder competir no mercado de trabalho.

Essa galera foi doutrinada a pensar que estudar é algo que se faz “para não virar pedreiro” (o que não seria vergonha nenhuma, vale observar). Estudar pode ser uma forma de melhorar o mundo também para os pedreiros, não? Não. Eles não concordam com isso…

A história dessas pessoas é muito parecida. Quando crianças eram educadas por uma família conservadora. “Aprenderam” no ambiente doméstico e religioso valores preconceituosos, discriminatórios e excludentes porque seus responsáveis também foram assim criados e achavam que o mundo dessa forma fosse o natural. Um mundo onde os gays não podem amar livremente, as mulheres serem independente, os negros exercerem cargos de chefia… tudo isso era visto como algo bizarro e anti natural.

A maioria de nós que estudamos em escolas tradicionais e que hoje somos os adultos da sociedade passou por uma escola que nos fez entender que a meritocracia era um conceito dado na natureza. Que o mundo era assim, que vença o mais forte, portanto, estude para ser alguém na vida (sinônimo de ganhar dinheiro) e saiba que o seu coleguinha (estudante secundarista) é seu inimigo porque vai disputar a mesma vaga em uma universidade que você.

E nem vamos falar da televisão que sempre fortaleceu essas ideias. A mídia tem um papel fundamental na doutrinação de um modelo correto de sociedade passado em novelas, revistas e jornais.

O que vimos acontecer por aí? Temos desde os idos da virada do século, um avanço da inclusão social e um aumento no volume do grito (antes mudo) das minorias. Incrivelmente, esse movimento de pedido de aceitação e menos preconceito foi visto como algo de esquerda, ou “coisa do PT”.

Assim, aqueles que não tem simpatia pelas ideias da esquerda, o que não há o menor problema em pensar diferente, passaram a odiar e rejeitar quase de maneira irracional os movimentos de inclusão (sejam eles de qual tipo for!). E quem estiver na defesa das minorias é considerado um inimigo da sociedade tais como ocorreu em outros contextos históricos de cunho fascista.

Será que não pensam que eles foram as maiores vítimas de doutrinação já que nunca fomos estimulados a refletir nas nossas escolas sobre crenças políticas, nunca ou quase nunca nos deram oportunidade de aprender a usar o senso crítico e o ceticismo em temas sociopolíticos e históricos quando estivemos na escola?

Daí, ao se deparar com projetos pedagógicos que pretendem implantar métodos diferentes dos tradicionais de ensino de ciências humanas e mesmo de outras disciplinas, consideram-nos uma “doutrinação ruim”, diferente da “doutrinação boa” à qual foram submetidos por toda a vida.

O que defendemos é exatamente uma educação não doutrinadora. Está se colocando e propondo o debate de textos dos mais variados temas. Não é estranho quando temos um ensino que estimule o pensamento livre e autônomo ser visto como doutrinador?

Não sem motivo, Marco Feliciano, Silas Malafaia, toda a bancada evangélica, Olavo de Carvalho e outros nomes que representam esse conservadorismo e que mostraram ao longo de suas vidas não entender patavinas sobre o que as escolas realmente precisam, essa gente que se diz “do bem” comemora o nome de Ricardo Vélez Rodrigues como novo ministro da Educação.

Eles vão fazer de tudo para acabar com essa profissão linda que em essência estimula o vôo do pensamento. As asas dos professores e das professoras desse país estão sendo cortadas e ouço aplausos de quem está fora das gaiolas.

Há um déficit imenso de profissionais na área da educação, principalmente nas escolas públicas. Essas novas políticas vão desestimular ainda mais quem se interessa por essa profissão já desgastada, desvalorizada e, agora, emudecida.

Parabéns a todos os imbecis envolvidos nesse golpe.

(Elika Takimoto – Doutora em Filosofia, mestre em História, vencedora do Prêmio Saraiva Literatura, professora e atual coordenadora de Física do CEFET/RJ).

22 Nov 17:38

MP das Loterias deve beneficiar entidade representada por esposa de Moro

by Redação
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Foto: Prefeitura de Atibaia

22/11/2018

Rosângela Moro é a procuradora jurídica da Fenapaes. Entidade será beneficiada pela medida já aprovada pelo Senado.

 

 

Por Redação*

O Senado aprovou na última quarta-feira (21) a medida provisória que destina parte dos recursos arrecadados com as loterias esportivas e federais para o Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP). A proposta (MP 846/2018) também reformula o financiamento de diversos setores a partir da verba das loterias, como o esporte e a cultura.

Trata-se de uma MP editada em junho, que perdeu a validade e foi novamente editada em agosto, como uma nova versão da 841/2018. A justificativa para as mudanças, conforme Agência Senado, é que houve “pressões de entidades dos dois setores”, uma vez que a redação anterior diminuía os repasses para essas áreas e aumentava os recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP).

O Ministério da Segurança Pública ficará com cerca de 9,4% da arrecadação bruta das loterias existentes, o que corresponde a cerca de R$ 1,2 bilhão a partir do ano que vem.

O futuro ministro da Justiça — também responsável pela Segurança –, Sergio Moro, recomendou a aprovação da MP após reunião com o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, no último dia 7.

“Sem recursos não é possível desenvolver projetos, desenvolver políticas públicas. Então, todas essas medidas são absolutamente louváveis, essa consolidação financeira do ministério. Parece que tem uma medida provisória para aprovar hoje. É muito importante que ela seja aprovada, e acredito que o Congresso vai ter essa sensibilidade”, afirmou Moro no início do mês.

Conforme reportagem da Voz do Brasil, o próprio ministro Moro teria sugerido a inclusão na MP das Loterias de duas entidades sociais, como beneficiárias de repasses anuais: a Federação Nacional das Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (Fenapaes) e a Cruz Vermelha.

Uma delas, a Fenapaes, tem como procuradora jurídica a esposa do futuro ministro, Rosângela Moro. A federação é presidida pelo recém-eleito Flávio Arns (Rede) – ex-presidente da instituição. Até o ano passado, era do conselho consultivo – e quem vem beneficiando-a em parcerias profissionais.

A relação de Rosângela Moro com a Família Arns vai bem além da prestação de assessoria. Ela integra a equipe do advogado Marlus Arns, sobrinho de Flávio. Marlus foi advogado de delatores na Lava Jato, que foram homologados por Sérgio Moro.

O relator da MP, senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), disse que as mudanças acrescentadas ao texto tornam a proposta mais avançada. Flexa incluiu no relatório também a Federação Nacional das Associações Pestalozzi (Fenapestalozzi) como beneficiária.

Anualmente, a renda de dois concursos da Loteria Esportiva deve seguir para as três entidades. Agora, o texto segue para a sanção presidencial.

Destinações

Dos recursos arrecadados com as loterias esportivas, a MP estabelece a transferência para o FNSP de 11,49% neste ano e 2% a partir de 2019.

O governo federal prevê que a MP das Loterias garantirá o repasse anual de cerca de R$ 1 bilhão para a área da segurança pública, R$ 630 milhões para o esporte e R$ 443 milhões para a cultura.

O texto da medida (MP 846/2018) não esclarece a inclusão das três entidades filantrópicas, já que não estão vinculadas às áreas de esporte, cultura ou mesmo segurança.

 

* Com informações da Agência Senado e Voz do Brasil

Rosângela Moro usa imagem de Jesus para celebrar vitória de Bolsonaro

 

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22 Nov 14:09

“Muito mais grave que a corrupção é a questão ideológica”: Bolsonaro e a glória do bandido bom de direita. Por Kiko Nogueira

by Kiko Nogueira
Allan Patrick

Tradução: bandido bom é bandido do meu partido.

Jair Bolsonaro em evento do PSL

Num encontro com parlamentares eleitos do PSL, em Brasília, Jair Bolsonaro repetiu uma ladainha já usada na campanha sobre o valor relativo da roubalheira.

Só que, desta vez, foi mais explícito.

“Precisamos do parlamento e precisamos, acima de tudo, dar o exemplo. […] Estamos no mesmo barco. Se eu afundar, não é vocês não, é o Brasil todo que vai afundar junto. E não teremos retorno”, disse.

“Se nós errarmos, aquele pessoal volta e nunca mais sai. E quem vai ter que sair seremos nós. E vai faltar toco de bananeira para nós nadarmos até a África ou até os Estados Unidos”.

E aí a chave da discurseira: “Muito, mas muito mais grave que a corrupção é a questão ideológica. Vocês sabem muito bem disso”.

O PSL venceu a eleição com Bolsonaro, mas o DEM, que nada mais é que o PFL repaginado, está ganhando os ministérios e o governo.

JB é uma extensão de Michel Temer, inclusive nos métodos. Dos doze ministros anunciados, quatro são investigados.

Luiz Henrique Mandetta (Saúde) por fraude em licitação, tráfico de influência e caixa 2. Tereza Cristina (Agricultura) é acusada de beneficiar a JBS.

Onyx Lorenzoni (Casa Civil) por recebimento de caixa 2 (e não é aquele caso que ele admitiu). Paulo Guedes (Economia), por irregularidades em fundos de pensão.

Bolsonaro já se defende: apenas uma denúncia “robusta” vai tirar alguém do time.

Tudo sob os olhares de Sergio Moro, o indemissível, agora dando o perdão divino a Onyx.

Fisiologismo, troca de favores, chantagem, ladroagem, incompetência — o lixo institucional permanecerá, apesar do que JB prometeu em matéria de “renovação” e “ética” aos otários.

Os fins justificam os meios. Pode ser corrupto, desde que seja “ideológico” e ajude a enxotar os comunistas.

22 Nov 13:43

“Sou profissional, meu país me respeita”, diz médico cubano em Natal

by Isabela Santos

Quando perguntado sobre a posição de Jair Bolsonaro em relação às condições de trabalho dos cubanos no Mais Médicos, José Miguel Rivaflecha, de 53 anos de idade, diz: “lógico que sou contrário. Sou cubano”.  Miguel Rivaflecha cumpriu os três anos do contrato para prestar serviço no município de Caicó, Rio Grande do Norte, entre 2013 e 2016, e, para ele,são absurdas as declarações do presidente eleito sobre serem escravos os profissionais vindos da ilha.

“Acho um absurdo! Temos um contrato, com termos que lemos e aceitamos. Nunca me considerei um escravo, sou profissional, meu país me respeita”, advertiu o médico, informando que sua remuneração incluía salário e auxílio-moradia, além de motorista para levá-lo ao trabalho.

Com quase 30 anos de Medicina, José Miguel mora hoje em Natal. Voltou para o Brasil em setembro de 2017 para casar com a caicoense Dorineide.

“Eu a conheci logo que cheguei e me apaixonei perdidamente. Esse foi o motivo que me trouxe de volta pra esse país maravilhoso”, explicou o médico, que pretende passar pelo teste Revalida e exercer novamente a profissão no Brasil, talvez novamente pelo Mais Médicos, que também contrata profissionais de outras nacionalidades que passe pelo exame.

Essa foi a terceira missão de Miguel fora do seu país de origem. Antes, esteve em dois países de língua inglesa: Seychelles, na África (de 2001 a 2003), e em São Vicente das Granadinas, na região do Caribe (de 2009 a 2013).

“Tenho muito respeito pelo programa, acredito que seja um programa sério que tem como objetivo principal ajudar a população carente. Minha experiência foi de muito aprendizado, pois sempre que vamos para um país compartilhamos nossas experiências em Cuba com a do país em que atuamos”, contou, ressaltando que é também com respeito que avalia o governo de seu país.

Miguel quer continuar vivendo no Brasil, apesar de mostrar em sua fala bastante patriotismo e amor à terra natal.

É meu país, meu povo, que passa por muitas dificuldades, mas sempre busca o melhor para nós. Ainda temos muito por fazer para que nosso povo tenha uma vida melhor, mas somos uma pátria unida, amamos até a morte”.

De acordo com o médico, o desligamento de Cuba do programa do governo brasileiro não surpreendeu os colegas, que estavam atentos à política brasileira. “Já era esperado, tendo em vista as declarações que o presidente eleito vinha dando durante a campanha”, revelou.

O Rio Grande do Norte vai perder 142 médicos cubanos após a decisão de Cuba em deixar o programa em razão das agressões e ameaças de Jair Bolsonaro, que anunciou que pretendia mudar regras do acordo entre os dois países a partir do próximo ano.

A estimativa é de que 500 mil potiguares sejam afetados de alguma forma pela ausência dos médicos cubanos. No Brasil, são aproximadamente 8.500 cubanos e cerca de 24 milhões de brasileiros atingidos.

O Ministério da Saúde lançou um edital esta semana para recompor o quadro de médicos do programa.

Saiba Mais: Sem Cuba no Mais Médicos quase 500 mil potiguares ficarão sem cobertura

Revalida

O Exame Nacional de Revalidação de Diplomas (Revalida) é uma prova criada pelos ministérios da Educação e da Saúde para reconhecimento de diplomas de medicina emitidos por instituições estrangeiras. Para atuar como médico no Brasil, o estudante formado no exterior precisa fazer o reconhecimento do seu diploma para solicitar ao conselho regional de medicina a autorização para  trabalhar. A primeira edição do Revalida foi em 2010, como projeto piloto, e o exame tornou-se oficial a partir de 2011.

A prova referente a 2018 ainda não foi realizada devido a um atraso da segunda etapa do exame de 2017, que somente foi realizado nos dias 17 e 18 de novembro.

A maioria dos médicos que fazem o exame são brasileiros que fizeram a graduação em medicina fora do país. Considerando apenas os médicos estrangeiros, os cubanos representam a segunda nacionalidade com o maior número de aprovados no Revalida.

De acordo com o Inep, Cuba fica atrás apenas da Bolívia, que já teve 491 médicos aprovados no exame. Segundo os dados, a taxa de aprovação de Cuba no Revalida é de 28,8%, a sétima mais alta, superior inclusive que a de candidatos de naturalidade brasileira.

Saiba Mais: Médico cubano custa menos da metade que brasileiro no interior do RN

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20 Nov 17:58

Sítio de Atibaia: por que a Justiça desconsidera perícia que desmente acusação contra Lula? Por Joaquim de Carvalho

by Joaquim de Carvalho
O sítio: como pode a reforma custar mais que a propriedade?

Esta reportagem está sendo republicada. Ela faz parte de um crowdfunding do DCM

 

No último ato da defesa, antes da sentença no processo sobre o sítio de Atibaia, os advogados de Lula pediram uma série de providências, dentre elas duas que se destacaram: querem a resposta dos peritos da Polícia Federal a um parecer técnico que desmonta a tese de acusação e o depoimento de Rodrigo Tacla Durán.

Os advogados começam o texto pela declaração de que não reconhecem na 13a. Vara Federal Criminal do Paraná competência legal para processar o ex-presidente.

“Inexiste qualquer relação das reformas do sítio em Atibaia e os desvios advindos de contratos da Petrobras. Ou seja, no caso concreto revela-se ausente a situação de modificação de competência assentada na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal para autorizar a competência da Justiça Federal de Curitiba em relação aos processos da chamada ‘Operação Lava Jato’”, escrevem.

A defesa também registra que não reconhece a validade dos atos praticados por Sergio Moro. “Aquele magistrado não detinha – e jamais deteve – a necessária imparcialidade, impessoalidade, isenção e independência para a cognição e julgamento do feito”, registram.

O acerto que Moro fez com Jair Bolsonaro para assumir o Ministério da Justiça no futuro governo confirma a suspeição, segundo os advogados. Bolsonaro é beneficiário direto da condenação de Lula pelo juiz Sergio Moro. Foi esta condenação que abriu caminho para que o ex-presidente, líder nas pesquisas, fosse retirado da disputa eleitoral.

Sobre Tacla Durán, lembram que ele, advogado que prestou serviços à empresa, era usuário do sistema Dousys (comunicação, tipo WhatsApp) da Odebrecht e apresentou documentos para comprovar denúncia de que a contabilidade foi fraudada para apresentar planilhas que se encaixam na versão do Ministério Público nas denúncias criminais.

Sergio Moro indeferiu a oitava de Tacla Durán, o que, lembra a defesa, viola o princípio da ampla defesa. Lula é acusado de ser beneficiário das reformas do sítio de Atibaia e um dos papéis juntados contra ele é uma planilha, supostamente extraída do sistema de contabilidade da Odebrecht, que relaciona valores que teriam sido utilizados na reforma.

Essa planilha, juntada por um colaborador da Odebrecht, Emyr Diniz Costa Júnior, réu na Lava Jato, foi periciada por um especialista a pedido dos advogados de Lula, e a conclusão desse perito é a de que não corresponde ao movimento contábil registrado nos arquivos digitais juntados pela empresa no processo.

Esses arquivos teriam sido copiados dos servidores localizados primeiramente na Suíça, depois na Suécia, que a Odebrecht utilizava. Ninguém sabe se são, efetivamente, fiéis ao conteúdo original, já que, depois de fazer as supostas cópias, o cadeado digital de acesso foi destruído, e, oficialmente, ninguém dispõe de uma nova senha entrar nesses arquivos.

Seja como for, na cópia em poder da Polícia Federal, o rastreamento de valores alegados como sendo os de uso na reforma tiveram outro destino, segundo a perícia. Foi por essa razão que pouca gente entendeu quando, Cristiano Zanin Martins, advogado de Lula, perguntou ao ex-presidente se ele conhecia Ruy Lemos Sampaio.

“Não”, responde Lula.

É que, ao contrário do que afirmou o colaborador do Ministério Público Federal, o dinheiro que ele alega ter usado para pagar a reforma não veio do Departamento de Operações Estruturadas da empresa, que fazia os pagamentos não registrados na contabilidade legal. Pelo contrário.

O dinheiro, cerca de R$ 700 mil, teve o destino inverso. Foi enviado ao Departamento de Operações Estruturadas e, daí, percorreu um caminho até chegar às mãos do tal Ruy Lemos Sampaio, identificado como RLS. E quem é este homem?

Hoje ele é presidente do Conselho da Odebrecht, mas na época dessa transferência ele era responsável pela administração de bens pessoais de Emílio Odebrecht, um dos controladores da empresa.

Portanto, segundo a defesa, é uma farsa que o dinheiro usado na reforma do sítio tenha saído da contabilidade paralela da Odebrecht.

Essa história de que foram gastos 700 mil reais na reforma do sítio — que não é de Lula, é de Fernando Bittar, filho de Jacó Bittar — já era estranha para quem conhece a obra realizada ali entre o final de 2010 e inicio de 2011.

É um galpão, usado para armazenar parte do acervo presidencial de Lula.

A PF encontrou ali garrafas de vinho e vazou a informação para a imprensa, e o galpão foi chamado de “adega climatizada”. O galpão não tem sequer ar condicionado, mas ao se dar a ele nome de “adega”,  passa-se a impressão de que seria algo suntuoso.

Não é.

“Não tinha nada de ilícito, porque o presidente Lula saiu com uma popularidade grande, as pessoas queriam agradar ele […] Eu não queria obra, eles que precisavam, então, eles que pagaram as obras. Obras simples, que foram superdimencionadas. Nada que salte aos olhos”, afirmou Fernando Bittar, no depoimento à substituta de Sergio Moro, Gabriela Hardt.

O preço de 700 mil reais pela construção de um galpão é incompatível até com o valor da propriedade. Fernando Bittar pagou pela área, de cerca de dois alqueires (uma chácara), R$ 600 mil. A propriedade tinha um lago, piscina e a sede, maior e mais bem acaba que o galpão.

Como um anexo, sem acabamento, poderia custar 700 mil reais? Não faz sentido, a menos que se queria dar à reforma um valor um pouco maior e também para tornar esse valor compatível com um registro encontrado na contabilidade paralela da Odebrecht.

O parecer técnico foi juntado ao processo e o que a defesa de Lula quer é que os peritos oficiais o analisem, inclusive para desmentir, se for o caso. Mas por que o silêncio? É razoável imaginar que não tenham elementos para desmentir o caminho do dinheiro que foi descoberto pela perícia contratada pela defesa de Lula.

Desconsiderar esse trabalho, bem como ignorar as manifestações de Rodrigo Tacla Durán, um profissional que conhece a Odebrecht por dentro, é um forte indício de que a 13a. Vara Federal Criminal do Paraná, juntamente com o Ministério Público Federal,  não busca a verdade, mas apenas produzir mais uma condenação de Lula.

19 Nov 18:48

A esquerda foi incapaz e burra, segundo Jessé Souza

by admin

“Duas coisas salvariam o Brasil: interpretação de texto e consciência de classe.”

A frase é de um meme das eleições, mas funciona para resumir o pensamento do sociólogo Jessé Souza, professor titular da Universidade Federal do ABC, em seu novo livro, A Classe Média no Espelho (Estação Brasil, 2018), que chega às livrarias na próxima semana.

Na obra, Souza analisa os movimentos da classe média brasileira nos últimos anos – especialmente aquela que, segundo sua expressão, se mostrou “dócil e manipulável” ao ir às ruas contra a corrupção política e, mais tarde, engrossou as fileiras de apoio a Jair Bolsonaro. “Um tiro no pé”, descreve.

Para o sociólogo, faltou à classe média entender as causas reais da crise econômica. Por não compreender a lógica do capitalismo financeiro e erroneamente se imaginar como parte integrante da elite, a classe média abriu mão do pacto democrático para abraçar a ideia de que a corrupção do estado é a fonte de todos os males no Brasil – e não o assalto “legalizado” promovido por bancos e grandes corporações. “O vínculo orgânico entre empobrecimento e corrupção política é uma mentira. É óbvio que a corrupção política é recriminável, mas não foi ela que deixou a população mais pobre. Esta é a grande questão que ficou fora do quadro. E era o que importava nas eleições”, afirma.

Ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, entre 2015 e 2016, e autor de títulos como A Ralé Brasileira (2009), A Tolice da Inteligência Brasileira (2015), A Radiografia do Golpe (2016) e A Elite do Atraso(2017), Souza vem criticando duramente a imprensa e os intelectuais alinhados à elite econômica que, a seu ver, “imbecilizaram” a sociedade. Nesta entrevista ao Intercept, o autor martela: “O país inteiro foi feito de imbecil. Não há melhor palavra”.

Você inicia A Classe Média no Espelho com uma parábola sobre verdade e mentira. Em tempos de discussões sobre pós-verdade, fake news e agora “disputa de narrativas”, qual foi o peso da confusão entre verdade e mentira na ascensão de Bolsonaro?

A elite econômica expropria a maior parte da população em seu benefício, e isso só acontece a partir de uma mentira socialmente aceita, isto é, uma visão distorcida sobre o funcionamento da sociedade. É como dizer: o mundo é assim, ponto. A mentira legitima os interesses da opressão econômica e da dominação moral. E uma das mentiras é “querer é poder”: se você fracassa, a culpa é só sua – e não de um sistema injusto e explorador. Se você não compreende as causas de sua miséria econômica no capitalismo, você está condenado a atribuir seu fracasso pessoal a você mesmo ou, como foi feito, a políticos corruptos. Assim, uma dominação econômica de uma classe só se sustenta ao longo do tempo se é moralizada.

Obviamente, a única forma de combater a mentira social é com a prática da verdade, a arma dos frágeis. É disso que trata a parábola, e que vale para o atual contexto: as pessoas são historicamente acostumadas a ouvir a mentira, pois a verdade muitas vezes pode ser bastante incômoda.

Apesar de esforços (de parte da imprensa, intelectuais e movimentos sociais) para esclarecer fatos nas eleições, como a ideia de que o presidente eleito é antissistema e anticorrupção acabou vingando?

Desde que o Brasil é Brasil, e principalmente a partir de 2013 de modo mais insidioso e perverso, a elite econômica conseguiu consolidar, junto a seus intelectuais e sua imprensa, a ideia de que o empobrecimento da população teria sido causado apenas pela corrupção política, o que é uma mentira.

A imprensa e a Lava Jato criminalizaram a Petrobras, deixando-a pronta para vendê-la a preço de banana. O estado deixou de ganhar royalties, o pessoal perdeu emprego. A Lava Jato prendeu meia dúzia e deixou invisível o saque real trilionário de uma elite proprietária e uma alta classe média, que inclusive empobrece a massa da classe média. O foco na corrupção política invisibilizou a continuidade dos juros extorsivos embutidos nos preços, da estarrecedora exploração do rentismo e da corrupção legalizada dos donos do mercado. A boca de fumo da corrupção está no Banco Central, que assalta legalizadamente a população. Mas as classes exploradas economicamente acreditaram na balela: ficamos mais pobres por conta do roubo de políticos. É óbvio que a corrupção política é recriminável, mas não foi ela que deixou a população mais pobre. Esta é a grande questão que ficou fora do quadro. E era o que importava nas eleições.

A esquerda foi singularmente incapaz e burra nessas eleições. Tanto Haddad quanto Ciro Gomes elogiaram a Lava Jato, o bode expiatório da corrupção política. Na minha visão, o país inteiro foi feito de imbecil, não há melhor palavra. Poderia dizer “falsa consciência” e agir contra os próprios interesses, mas, na linguagem do senso comum, isso é simplesmente ser “imbecil”. Dentro da própria esquerda, ninguém problematizou o rentismo, ninguém questionou: nós todos pagamos juros que vão para o bolso de quem? Esse assalto econômico não é visto como corrupção, como o engano de meia dúzia sobre 200 milhões de brasileiros. O principal dispositivo do poder é se tornar invisível. E o poder econômico é ainda mais invisível.

Qual é a sua definição de classe média?

Há ainda divisões dentro da alta classe média: uma fração da indústria mais “democrática”, digamos, que depende e se importa com um mercado interno pujante; e uma fração predominante do agronegócio e mercado financeiro, voltada para o mercado externo, que fica rica independentemente se o país vai bem ou vai mal. Temos, afinal, uma elite de herança escravocrata que pensa a curto prazo: quero o meu agora, não me importa projeto de futuro. Isso amesquinha o país como um todo.

Se antes o escravo era submetido a trabalho desqualificado, agora a maior parte da população brasileira faz trabalho semiqualificado ou desqualificado. E é excluída das benesses do mundo moderno. O que antes era ódio ao escravo, agora é ódio ao pobre. E parte da classe média tem muito medo de descer à condição de pobre. Afinal, classe não é só um cálculo econômico, mas um cálculo moral de distinção social.

No livro, você projetou que muitos se voltariam “ao voto de protesto desesperado e irracional” de apoio a Bolsonaro. Passadas as eleições, pensa a vitória como “voto de protesto”? Ou de uma busca genuína por mudança?

O que está acontecendo hoje faz parte de um processo de luta de classes. Um processo que se estende desde 1930. O que foi que a elite fez? A elite montou, a partir da imprensa e das universidades, o domínio simbólico, moldando a visão de mundo da classe média. Agora, para a alta classe média, esse discurso é racional e pautado pelo interesse econômico: estou ganhando mais. Mas, para a massa da classe média, é irracional: para pensar que está ganhando algo, uma recompensa moral, a massa da classe média protestou e se portou como “ah, sou moralmente superior do que as classes populares, estou escandalizada porque me incomoda e combato a corrupção política”. Foi explorada.

Mas a ideia de que o empobrecimento ou o risco de empobrecimento estaria ligado organicamente à corrupção…

Corrupção política. Desculpe interromper, mas veja que, sem querer, você equalizou corrupção e corrupção política.

Sim, corrupção política. Você diria que a construção desse discurso escapou ao controle de quem o construiu – parte da imprensa, como indica no livro? Se a população brasileira fosse tão “manipulável” por uma imprensa a favor de interesses da elite econômica, como compreender críticas tresloucadas que atribuem à Folha de S.Paulo a alcunha Foice, de referência comunista, e o bordão “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” capturado por militantes de direita a partir de 2013?

Quando se começa uma coisa, só se sabe como ela começa, mas não sabe como termina. Nossa imprensa é venal, desde o início comprada pelo mercado. Nunca tivemos uma rede pública [de comunicação] como existe na Europa – e às vezes alguns até confundem TV pública com TV estatal. Nunca tivemos uma imprensa confrontando o poder de forma plural.

A imprensa atacou o governo, pois a presidenta, um pouco estabanadamente, atacou o juro, o lucro dessa elite, a partir de 2012. Isso foi usado contra o governo eleito e que era tudo menos corrupto – a presidenta não roubou um lápis que seja. Mas o ataque midiático se voltou a todos os consensos morais de uma democracia. Não é a letra legal de uma Constituição que dá sangue à democracia, mas os consensos morais: não se pode expurgar a presunção de inocência, banalizar vazamentos ilegais, banalizar desrespeito de direitos fundamentais. Isso é a base de uma democracia.

A imprensa ajudou a fazer terra arrasada disso e, depois, veio a eleição de Bolsonaro como uma espécie de vingança das classes médias e parte das classes populares contra esse estado retratado como corrupto. Se você ataca a democracia como um todo, obviamente você ataca a liberdade de expressão. Tecnicamente, a imprensa toda foi muito burra. Entenda-se: burrice é pensar a curto prazo, seja para o bem seja para o mal; inteligência é pensar a longo prazo, seja para o bem seja para o mal. Ela pisoteou a democracia, e agora vai ter uma vida muito difícil. Parte da imprensa e setores da alta classe média deram um tiro no pé. Se isso terminará num banho de sangue, numa tribalização da sociedade ou numa tomada de consciência, ninguém sabe dizer. Mas que será problemático, será.

Nos últimos tempos, o caráter fascista ou não das ideias representadas por Bolsonaro foi muito discutido. Você teme que a expressão “fascismo” se desgaste tal qual “populismo”, que a palavra se torne um coringa para desqualificar adversários?

Não. O principal mecanismo do fascismo é a desumanização, o não reconhecimento do outro. Na minha opinião, obviamente há elementos fascistas nas ideias do presidente eleito: apologia da tortura, assassinato de adversário político etc. Historicamente foi assim que o fascismo se expandiu no entre-guerras: pega a raiva e o ressentimento da classe média e do povo e joga num bode expiatório socialmente aceitável. Logo, estamos num contexto de neofascismo, junto a uma dominação do capitalismo financeiro: na economia, invisibiliza, deixa opacos elementos econômicos; na política, provoca desmobilização popular.

Nos Estados Unidos de Donald Trump e no Brasil de Bolsonaro, o capitalismo financeiro quebra e destrói relações sociais e vida associativa, provocando desorientação e isolamento do indivíduo. E, novamente, é dito a ele que o fracasso é culpa dele – e não de um sistema injusto. É uma estrutura fascista, sim, de novo tipo. Que está se internacionalizando e que vive do mesmo tipo de desrespeito e desumanização que fazia o fascismo anterior. Que quer dizer que o outro, por pensar diferente, merece morrer. E a classe média, que sempre odiou o pobre, agora está se sentindo mais à vontade para expressar, explicitar esse ódio. No fim, o ódio é exatamente o que o fascismo produz.

Você usou muito a palavra “golpe” para tratar do impeachment de Dilma Rousseff. Pensa que a palavra foi desgastada?

Não. Foi um golpe de novo tipo, articulado por uma situação econômica. O dado econômico é incrível, porque é sempre o mais invisível. A causa de tudo foi a tentativa de se apropriar do orçamento público e do mercado interno via juros. Foi um golpe parlamentar, mas qual é a independência que esse parlamento tem? Um parlamento de baixíssimo nível, eleito com dinheiro de bancos e grandes corporações. No ano anterior [ao impeachment], a presidenta tinha feito um enorme esforço para diminuir os juros e usado os bancos públicos para isso. De uma hora para outra, empresas deixaram de investir, e a imprensa inteira passou a atacá-la.

Mas, veja, a elite se apropria do que é público mediante parcerias público-privadas – um exemplo, como as estradas. Entretanto, foi ensinada a imbecilidade de que o Brasil é corrupto por causa da herança de Portugal, uma mentira legitimada com prestígio científico nas universidades. Um povo ladrão por conta da herança portuguesa e, agora, ladrão dentro do estado. Sendo que o estado é a esfera que se pode contrapor a um mercado desregulado.

Dias antes do segundo turno, universidades se tornaram alvo de diversas ações de fiscalização – e justamente faixas contra o fascismo foram censuradas. Dias depois do segundo turno, investidas do Escola Sem Partido avançaram com a convocatória de denúncias contra docentes “doutrinadores”. Ainda há pensamento crítico e resistência nesses espaços?

Como você mantém uma população inteira precarizada? Você pega a escola, um elemento de classificação e acesso a conhecimento que está relegado à classe média. O privilégio positivo específico da classe média é este: estímulo para estudo, domínio de línguas, capacidade de concentração. Você chega aos cinco anos na escola particular como um vencedor, pois é aparelhado psicológica e moralmente: espera bons salários e prestígio. O pobre já é tratado como um perdedor, num abandono secular e cumulativo. Depois, você vê a classe média culpando a classe pobre, dizendo que ela é preguiçosa e indolente – e que o mérito do seu sucesso é só seu. Assim, a sociedade brasileira sacramentou dois caminhos: um, da felicidade; outro, do fracasso.

Agora, quais são os dois pilares do desenvolvimento de um país? Indústria e educação. Só que a educação está toda montada dentro de um contexto elitista. É Paulo Freire, pensamento crítico e educação libertadora para a classe média; e trevas para a classe trabalhadora. É loucura dizer que essa estrutura de educação classista é de esquerda. E apenas tende a transformar e sacralizar esse caminho perverso que monta a opressão de classes entre nós: duas educações, duas classes, dois tipos de indivíduo.

Você declarou, certa vez, que o “que provoca efetiva dor de cotovelo nos meus detratores é o fato de ter conseguido, com muito esforço, expor questões complexas de modo simples e compreensível para a maioria das pessoas”. No seu novo livro, a atenção à acessibilidade da linguagem também está presente. Para quem você escreve?

Não quero falar para seis pessoas. Nisso está embutida uma crítica ao próprio saber acadêmico. Passei minha vida juntando capital acadêmico, acumulando trabalho. Penso que estou usando um capital acadêmico de vanguarda com uma linguagem acessível. Nenhum povo pode ser senhor do seu próprio destino sem conhecimento. E conhecimento deve ser compreensível.

Tenho tentado fazer um esforço enorme de dizer coisas complexas que, com boa vontade e interesse, qualquer pessoa possa compreender. Não é por falta de conhecimento prévio e formação acadêmica que a pessoa não vai entender o livro. É por falta de coragem. A gente não nasce sabendo, é preciso aprender: aprender é um ato de coragem. A ciência pode ser libertadora; o conhecimento, empoderador. Imagina se o povo brasileiro compreende que está sendo enganado?

No campo da linguagem, destacaram-se autores de direita como Olavo de Carvalho, tido inclusive como intelectual vencedor dessa eleição. Como ele conseguiu arregimentar tantos adeptos?A sociedade brasileira está em uma esquina em que uma série de aprendizados são necessários. Algumas pessoas estão começando a compreender o tamanho da fera que está a um metro de nós. Algumas pessoas que estavam muito acomodadas no seu mundinho. E, agora, ou a gente reformula esse comportamento, ou nós todos, como país, vamos perder. Esta questão está muito presente agora. Principalmente entre a esquerda colonizada por uma linguagem que só beneficiou a direita.

Você chegou a ser chamado de ‘Olavo de Carvalho da esquerda’. O que pensa da comparação?

Elite do atraso teve muita repercussão, muito além do que eu imaginava. Retornos de pessoas simples, o público que eu gostaria de atingir, me comoveram muito. A escola de samba Paraíso do Tuituti usou elementos; o presidente Lula leu o livro na prisão. Efetivamente, penso que pude fazer, pela primeira vez, uma interpretação crítica da sociedade brasileira de fio a pavio. Sei que é ambicioso dizer isso, e fico à disposição para quem queira contrapor meus argumentos. [O que propus no livro] compromete toda uma tradição de pensamento, de direita e de esquerda. O núcleo dessa tradição, esse liberalismo chique, aceita a ideia de corrupção política. O que fiz foi articular uma visão crítica, com encadeamento explícito dessas ideias. O novo livro A classe média no espelhoé uma continuidade. Trago uma visão mais sofisticada e crítica do que a tradição intelectual brasileira. Estudei todas as classes anos a fio, dediquei uma vida inteira a isso. Logo, interpreto esse tipo de interpelação como inveja.

Por fim, professor, o livro propõe posicionar a classe média brasileira diante do espelho e revelar suas concepções do mundo. Enquanto integrante da classe média, como você afirma no livro, como você se vê diante do espelho?

No fundo, minha atividade é intelectual. E o intelectual, para criticar e inclusive para se autocriticar, precisa conhecer. Eu também tinha esse academicismo antes. Achava que meu público se limitava a uma dezena de pessoas que poderia compreender o que eu estava dizendo, como se “só eu e mais alguns aqui eleitos entendemos como o mundo funciona”. É isso, afinal, que as classes procuram: se distinguir uns dos outros. Isso move o ser humano tanto quanto dinheiro.

Embora eu tenha vindo de estratos mais baixos da classe média, como professor universitário pertenço à massa da classe média. E me questionei: numa sociedade perversa como a nossa, que peso a massa da classe média tem sobre a pobreza dos pobres?

Foi uma epifania quando compreendi que alguns, pensando que estavam à esquerda, estavam montando de uma forma ideológica o poder de meia dúzia de proprietários. Você cria uma distância em relação a você mesmo, uma autocompreensão. A partir da crítica da minha própria posição e dos pressupostos que ela envolve legitimando uma lógica, tentei a começar uma autocrítica e uma crítica da própria sociedade que tinha me marcado essa visão de mundo.

Do The Intercept

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19 Nov 11:39

O rio São Francisco, a Arena das Dunas e as prioridades do RN

by Rafael Duarte

Em entrevista ao jornal Tribuna do Norte neste domingo (18), o secretário de Estado de Recursos Hídricos e Meio Ambiente Maírton França revelou que o custo anual da operação do rio São Francisco para o Rio Grande do Norte será de R$ 100 milhões. É a chamada “tarifa de disponibilidade”, paga por todos os Estados que receberão as águas, independente da quantidade do volume que chegar.

Como se sabe, o Governo do Estado enfrenta a mais grave crise econômica de sua história. De onde a governadora eleita Fátima Bezerra (PT) vai tirar dinheiro para pagar essa operação ainda não se sabe. Há estudos sendo feitos. O secretário Maírton França, por exemplo, defende a universalização da cobrança a todos os potiguares, o que daria menos de 1 real para cada cidadão. Outra opção é fazer a cobrança apenas de quem vai usar a água, especialmente os empresários da fruticultura de exportação e sem sacrifício dos pequenos agricultores.

Parece óbvio que os produtores e empresários que vão lucrar com a água do rio São Francisco deveriam pagar mais, e espera-se que isso seja levado em conta na hora de definir o modelo econômico da operação. O gasto com energia para puxar as águas do Velho Chico é o que encarece mais a intervenção.

Noves fora o desfecho financeiro para a chegada das águas ao Estado, com previsão em 2019 primeiramente pelo rio Piranhas/Açu, a informação divulgada por Maírton França é importante para entender as prioridades definidas pelas gestões que passaram pelo governo estadual nos últimos anos.

O Governo do RN paga, por mês, aproximadamente R$ 11,6 milhões ao consórcio que administra a Arena das Dunas. Por ano, a soma chega a R$ 140 milhões, ou seja, R$ 40 milhões a mais do que o Estado terá que pagar para receber as águas do rio São Francisco e abastecer as populações que sofrem com seca, irrigar o plantio de pequenos agricultores e grandes plantações de fruticultura para exportação. O contrato entre o Governo e o consórcio é de 22 anos.

Ainda que a crise e a falta de dinheiro atrapalhem, essa conta simples mostra que as prioridades das gestões que passaram pelo governo estadual não eram as mesmas que o desejo e as necessidades do povo potiguar, especialmente aquela parcela da população que mais precisa e depende do Estado.

Já são quase 10 anos de seca sem trégua.

A promessa é de que as águas do rio São Francisco, a barragem de Oiticica e as adutoras construídas no Alto Oeste solucionem o problema hídrico do Estado.

Registre-se as gestões que sacrificaram os cofres públicos para construir a Arena das Dunas: Wilma de Faria, Iberê Ferreira de Sousa e Rosalba Ciarlini.

O Rio Grande do Norte e suas prioridades.

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18 Nov 13:40

Eu não tenho vergonha!

by Edmo Sinedino

Eu não tenho vergonha de dizer que sou admirador de Cuba. Por quê teria? Classifico Fidel Castro e Ernesto Guevara Serna heróis sim de uma revolução que livrou a Ilha das garras do bandido Fulgêncio Baptista, aliado, escravo, borra-botas, sabujo dos EUA e que fazia do seu país uma latrina dos ianques, vergonha da América Central.

Aliás, nunca teria vergonha de dizer abertamente, de peito estufado, que prefiro mil vezes Hugo Chavez e todos os “ditadores sanguinários” inimigos dos EUA, aos “democratas” JFK, Henry Kissinger (superpoderoroso secretário), Ronald Reagan, Richard Nixon, George Bush pai e filho e esse demente do topete, Donald Trump, aberração que só perde, talvez por conta de uma assessoria menos ruim, para seu fã dos trópicos, o inominável, repulsivo Jair Bolsonaro.

Eu não tenho vergonha de dizer que sou, sim, defensor de um sistema de governo que, mesmo sofrendo um embargo criminoso, semelhante ao holocausto, conseguiu se erguer, se manter, transformando-se numa potência mundial na saúde, esporte e educação, referência na medicina de base que tem conquistas que países como os próprios EUA nunca conseguiram, tais como a vacina para a Meningite Tipo B, tratamento do “pé diabético”, vitiligo e psoríase, além dos casos de cura da cegueira e tendo sido o primeiro no mundo a eliminar a transmissão do vírus HIV da mãe para o filho e também pioneiro na criação de uma vacina preventiva no combate ao câncer de pulmão.

Eu não tenho vergonha de dizer que sou fã de um país, que mesmo diante da incansável perseguição, dos males de sanções criminosas, mesmo assim, consegue uma taxa de desemprego zero, fome zero e não ter nenhuma criança abandonada, dormindo na rua e que, apesar de tudo,  atua em 67 países do mundo com um “exército de jaleco branco”, como classificava Fidel, para ajudar a minorar o sofrimento, numa verdadeira cruzada humanitária, enquanto que “admirados e democráticos” EUA mandam armas e espiões.

Em não tenho vergonha de dizer que tenho inveja de Cuba. Bem sei que os alienados globais, “trumpais” e a turma que sonha em passar as férias em Miami estão furiosos comigo, capaz de até já terem encerrado a leitura do texto com um palavrão. Devagar aí sarneyzistas, colloridos, FHCcistas (já parece com fascistas né?), aecistas e bolsominions! Calma aí! Eu sei, eu sei dos problemas de Cuba. Vocês se chocam com os carros velhos, falam das putas, da miséria, repetem e repetem as histórias de fugas, dos paredões, das perseguições mas eu conheço as dificuldades econômicas sociais e sou até capaz de acreditar, mas desconfiando, como toda a imprensa ianque sempre destaca, que existe dois sistemas de saúde – dos turistas e mandatários e o do pobre povo -, sei sim da ausência de democracia, de liberdade, da reclamação de muitos, dos salários baixíssimos, dos que sonham em morar, também, assim como vocês, em Miami;  sei tudo isso, é inerente ao ser humano insensível, materialista e egocêntrico. Imagine se ia ser diferente em Cuba. Mas te garanto: os que têm orgulho da terra da Conga, Jazz, Salsa, Mambo, Rumba, Timba, Trova e são em muito maior número.

Eu não tenho vergonha de dizer que admiro o comunismo de Cuba. Teria, claro, imenso constrangimento de defender, isso sim,  a “democracia” do país de Hiroshima e Nagasaki, da covarde, insana guerra do Vietnã, do senador Joseph McCarthy, da implantação de todas as criminosas ditaduras militares da América do Sul – da sua luta constante contra as nossas legítimas democracias -da invasão do Panamá, das armas químicas (de araque do Qatar), do criador da Aikaida, de Osama Bin Laden, da guerra do Afeganistão, dos crimes em Honduras, Líbia, Egito, das alianças e apoio a Israel com sua vergonhosa Faixa de Gaza, do país da torturas e absurdos de Guantámano e de todas as intromissões desde os tempos da suja Guerra Fria que, para eles, está claro,  nunca acaba. Enfim, teria muita vergonha de fazer apologia a um sistema de governo que se sustenta na espionagem e na ganância de se apoderar das riquezas alheias.

Leia outros textos do jornalista Edmo Sinedino publicados no portal da agência Saiba Mais aqui

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16 Nov 17:17

Escritor de Moçambique lança livro sobre dança ancestral no Bardallos

by Rafael Duarte

O performer moçambicano Tsumbe Maria Mussundza lança neste sábado (17), a partir das 19h, no Bardallos Comida e Arte, o livro “Gule Wankulu”. A obra é uma ode à mãe Maliya, anciã em Moçambique que, aos olhos do autor, possui duas mãos: a da vida e a da morte, em uma relação de ancestralidades e memórias com a dança Gule Wankulu.

O Gule Wamkulu é uma dança ritual ancestral, praticado pelos Chewa no Malawi, na Zâmbia e em Moçambique. No livro, Tsumbe atualiza questões que habitam seu corpo em um cruzamento entre as experiências de sua vida e as urgências do contexto sócio-afetivo-político, e o faz trazendo não somente informações, concepções e conceituações pertinentes mas, principalmente, inserindo o leitor em uma experiência “real” de imersão de um pensamento, com raciocínio e redação que o colocam em uma vivência descolonial no tratamento do tema na dança.

Durante o lançamento, a compositora, educadora e pesquisadora em danças negras Marília Negra-Flor se apresenta com um musical autoral baseado num repertório repleto de ritmos populares afro-brasileiros, como ijexá, maracatu do baque virado, coco de zambê, dentre outros, tendo como grande influência a cultura afro-religiosa. A outra apresentação musical fica por conta de Felipe Nunes, músico, compositor, poeta e historiador com “África Brasil”, onde percorre o universo afro da música brasileira, trazendo canções de compositores como Baden Powell, Mateus Aleluia, João Bosco, Caetano, dentre outros, além de suas canções autorais ambientadas no universo afro-brasileiro. A entrada colaborativa custa apenas 10 reais.

 

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16 Nov 13:27

Futuro chanceler acha que aquecimento Global é trama marxista

by admin

O futuro chanceler brasileiro, o embaixador Ernesto Fraga Araújo, de 51 anos, acredita que a mudança climática é um dogma científico influenciado por uma cultura marxista que quer atrapalhar o ocidente e favorecer a China. “Esse dogma vem servindo para justificar o aumento do poder regulador dos Estados sobre a economia e o poder das instituições internacionais sobre os Estados nacionais e suas populações, bem como para sufocar o crescimento econômico nos países capitalistas democráticos e favorecer o crescimento da China”.

A tese publicada em seu blog, o Metapolítica 17, no último dia 12 de outubro, revela a aversão à esquerda do futuro ministro das Relações Exteriores. Em ensaios e artigos, Ernesto Araújo coloca a China como um inimigo do desenvolvimento do Ocidente. Ele afirma que o “globalismo” tem entre seus projetos “transferir o poder econômico” do Ocidente para o País asiático e que esse movimento era algo que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estaria tentando evitar.

O “globalismo”, diz o futuro chanceler, “surgiu quando alguém entendeu que o consumismo era o melhor caminho para o comunismo” e a ideia de um mundo onde não haveria fronteiras para o comércio e o investimento avançou para um mundo no qual os países não têm mais identidade. “É a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural”.

O futuro chanceler afirma que o “marxismo cultural” estaria transformando os seres humanos em uma “paçoca maleável” incapaz de assumir um papel social ou ter ideias “que não sejam os chavões politicamente corretos veiculados na mídia”. Esse processo estaria enfraquecendo o Ocidente não do ponto de vista econômico ou militar, mas do ponto de vista da identidade, do “espírito”. Por isso, ele afirma que o “globalismo” é “anti-humano” e “anticristão”.

Em artigo publicado na revista do Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais (Ipri), ele sustenta que Trump é um raro líder que identificou o processo de decadência do Ocidente e decidiu reagir. É nesse contexto que Trump estaria travando sua guerra contra a China.

A China, diz ele num post, está até hoje sob um sistema de dominação “disfarçado de pragmatismo e abertura econômica”. Em outro post, ele menciona o maoísmo. “Haddad é o poste de Lula. Lula é o poste de Maduro, atual gestor do projeto bolivariano. Maduro é o poste de Chávez. Chávez era o poste do Socialismo do Século XXI de Laclau. Laclau e todo o marxismo disfarçado de pós-marxismo é o poste do maoísmo. O maoísmo é o poste do inferno. Bela linha de transmissão”, escreveu. Ernesto Laclau era um teórico político argentino identificado como “pós-marxista” que viveu entre 1935 e 2014.

No artigo, Araújo diz que, além de uma política externa, o Brasil precisa de uma metapolítica externa, “para que possamos situar-nos e atuar naquele plano cultural-espiritual em que, muito mais do que no plano do comércio ou da estratégia político-militar, estão-se definindo os destinos do mundo.”

O quanto das ideias de Araújo será transferido para a prática da política externa brasileira ainda não se sabe. A sua escolha não foi propriamente uma surpresa no Itamaraty, já que ele era cotado há várias semanas para o cargo. Mas avaliava-se que, pelo fato de ser um diplomata recém-promovido a embaixador, ele deveria perder o posto para algum colega mais experiente e ocupar alguma outra posição na equipe do presidente eleito.

A ruptura dessa lógica causou mal-estar e preocupação. Porém, os diplomatas são treinados para seguir instruções com um rigor semelhante ao dos militares. Até para proteger a instituição, o sentimento predominante é o de “dar uma força” ao jovem chanceler.

Procurado, Araújo não se manifestou. As assessorias do Itamaraty e da equipe de transição informaram que, por ora, ele não concederá entrevistas.

Do Estadão

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14 Nov 18:53

Ao contrário de Lula, FHC não foi criminalizado ao angariar R$ 18 mi para instituto

by Diario do Centro do Mundo
FHC

Publicado originalmente no Brasil de Fato

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) irá depor à Justiça Federal, em Curitiba (PR), nesta quarta-feira (14), em um inquérito que investiga o pagamento de obras de reforma em um sítio na cidade de Atibaia, no interior de São Paulo.

Estimadas entre R$ 300 mil a R$ 500 mil de investimento, as reformas no sítio de propriedade de Fernando Bittar, empresário e amigo pessoal do ex-presidente, foram realizadas pela Odebrecht e OAS em 2010, quando Lula já havia se afastado da presidência há dois anos.

A ligação com a OAS parte também do fato de que ela se encarregou do transporte dos bens de Lula, acumulados durante a presidência, para o Instituto Lula.

Outro ex-presidente da república, no entanto, se valeu do final do seu mandato para reunir empresários no Palácio da Alvorada e arrecadar dinheiro para montar um instituto dedicado à memória de seu governo sem que nenhuma investigação fosse aberta.

Entenda:

“Foi uma noite de gala”. Assim começa a matéria a matéria “FHC passa o chapéu”, de Gerson Camarotti, da Revista Época, retratando a noite em que Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em final de mandato, recebeu “12 dos maiores empresários do país para um jantar no Palácio da Alvorada, regado a vinho francês Château Pavie, de Saint Émilion” para angariar fundos para a construção do Fundação FHC.

Entre raviolis de aspargos, foie gras e perdiz acompanhada de penne de alcachofra e rabanada de frutas vermelhas, e “(…)Diante de uma platéia tão requintada, FHC tratou de exercitar seus melhores dotes de encantador de serpentes”. O tucano coletou 7 milhões de reais (cerca de 18 milhões em valores atualizados, segundo o IPCA) para construir sua entidade particular, voltada a “palestras, cursos, viagens ao Exterior do futuro ex-presidente” e “também para trazer ao Brasil convidados estrangeiros ilustres”, além de abrigar a memória e o arquivo da sua presidência,  seguindo o modelo da ONG criada pelo ex-presidente estadunidense Bill Clinton.

Estiveram presentes amigos pessoais do ex-presidente como Jorge Gerdau (Grupo Gerdau), David Feffer (Suzano), Emílio Odebrecht (Odebrecht), Luiz Nascimento (Camargo Corrêa), Pedro Piva (Klabin), Lázaro Brandão e Márcio Cypriano (Bradesco), Benjamin Steinbruch (CSN), Kati de Almeida Braga (Icatu), Ricardo do Espírito Santo (grupo Espírito Santo). Pela doação, se transformaram em co-fundadores da organização.

“A iniciativa de propor a doação partiu do fazendeiro Jovelino Mineiro. Ele sugeriu a criação de um fundo de R$ 5 milhões. Só para a reforma do local, explicou Jovelino, será necessário pelo menos R$ 1,5 milhão. A concordância com o valor foi quase unânime. A exceção foi Kati de Almeida Braga, conhecida como a mais tucana dos banqueiros quando era dona do Icatu. Ela queria aumentar o valor da ajuda a FHC”, relata, com candura, a matéria.

À época, para dissipar questões éticas, o então procurador da República, Rodrigo Janot, afirmou à reportagem da Época que não caracterizaria infração ilegal. “Fernando Henrique está tratando de seu futuro, e não de seu presente. (…) O problema seria se o presidente tivesse chamado empresários ao Palácio da Alvorada para pedir doações em troca de favores e benefícios concedidos pelo atual governo.”

A matéria encerra lembrando que José Sarney também tem um instituto dedicado à memória de seu mandato. Após a presidência, enquanto senador, o político criou a Fundação Memória Republicana, em um convento do século 17 na cidade de São Luís (MA). Em 1992, ele aprovou no Congresso uma emenda ao Orçamento que destinou US$ 55 mil para a instituição.

Pesos e medidas

O tratamento recebido por FHC, que usou seu mandato e um prédio público para construir sua fundação privada, e por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que enfrenta uma série de acusações judiciais, é tão discrepante que o tucano foi chamado em 2017 pela defesa de Lula para testemunhar durante as oitivas da Operação Lava Jato.

Na ocasião, FHC lembrou da “noite de gala” e disse que não aconteceu nada “ilegal”, que apenas recebeu contribuições de “empresários e companhias” com que tinha “relações pessoais”.

Para o ex-presidente é impensável preservar os materiais, “de interesse público”, sem apoio de doadores. A defesa de Lula usou a fala de FHC para desconstruir a denúncia contra o ex-presidente de que o transporte de seus bens, feitos pela OAS, tenha tido objetivo de ser uma operação “dissimulada” voltada à “ocultar a origem da propriedade”, conforme atesta o Ministério Público Federal.

O Ministério Público (MP) acusa o ex-presidente de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Segundo a denúncia, o pecuarista José Carlos Bumlai e as empreiteiras OAS e Odebrecht teriam custeado reformas na propriedade que era frequentada pelo ex-presidente e sua família. A denúncia se baseia em mensagens eletrônicas, registros de visitas do ex-presidente e sua família ao sítio, presença de objetos pessoais da família Silva no local e na delação premiada o empreiteiro da OAS, Léo Pinheiro.

Nesta segunda-feira (12), um dos proprietários do sítio, Fernando Bittar, reafirmou à Justiça Federal que é o real proprietário do imóvel, comprado com recursos próprios, e emprestado ao ex-presidente Lula e sua família desde 2011, para que fosse guardada parte do acervo presidencial.

No depoimento, Fernando Bittar destacou a relação de convívio íntimo com a família do ex-presidente e afirmou que, após ser diagnosticado com câncer, em 2012, a permanência de Lula no sítio aumentou. Ainda segundo Bittar, as obras realizadas eram “simples”, mas “foram ‘superdimensionadas’” pelos procuradores da Lava Jato.

Em nota, a defesa de Lula afirmou que o depoimento de Bittar “não deixou qualquer dúvida de que ele é o proprietário de fato e de direito do sítio de Atibaia”. Os advogados de Lula afirmam que “o inquérito policial instaurado em 2016 para investigar a propriedade do sítio foi encerrado sem qualquer conclusão sobre esse tema sob o argumento de que ‘foi oferecida denúncia pelo MPF’ e, diante disso, ‘não cabe mais a esta autoridade, em nível de apuração preliminar, dar sequência a essas investigações’”.

A defesa ainda argumenta que “o crime de corrupção passiva pressupõe que o funcionário público pratique ou deixe de praticar ato de sua competência (ato de ofício) em troca do recebimento de vantagem indevida. No entanto, a força Tarefa da Lava Jato não indicou qualquer ato da competência do Presidente da República (ato de ofício) que Lula tenha praticado ou deixado de praticar que pudesse estar relacionado com reformas realizadas em 2009 em um sítio de Atibaia e, muito menos, em 2014, quando ele não exercia qualquer cargo público”, diz em nota.

14 Nov 11:59

mamãe, olha, pessoas que moram na rua

by Eveline Sin

– mamãe, olha, pessoas que moram na rua.
– tô vendo, amor.
– elas moram na rua porque elas não têm casa. é muito triste.
– é muito triste, meu amor, é um absurdo, né?
– é um absurdo que elas não têm casa.
– é sim, muito.
– eeeeeeee que tal, se elas forem pra nossa casa?

atom,

a primeira vez que você viu uma pessoa dormindo na rua você paralisou. ainda não tinha 3 anos. faltava pouco, mas não tinha. era noite, tava frio, muito frio. e muitas pessoas passavam apressadas de um lado para o outro na confusão da paulista. você caminhava ao meu lado. quando senti que começou a andar mais devagar, quase parando, parou. olhava aquele homem deitado no chão. você parou. perdeu o riso. a brincadeira. seu corpo parado. braços, pernas parados. seus olhos parados. meu mundo parou.

te chamei algumas vezes, você parecia estar em outro lugar, certamente no mundo de dentro de você. que é tudo tão mais justo. tão mais fácil de entender. aqui não é. você vai saber. mas não esqueça de voltar sempre pro mundo de dentro de você.

continuando nosso momento parado. parecia cena de filme. a câmera nos rodeando numa ciranda sem fim. parando. parou. parou em você. eu te chamei. te chamei algumas vezes. você não respondia. a noite. o frio. o homem no chão. seus olhos sem entender. as pessoas passando. ninguém via. só você. o tempo parado. a câmera. o filme. a realidade cortando nosso peito. o frio cortando nossa cara.

te chamei mais forte. eu toquei em você. você me olhou. a câmera chegou mais perto. você perguntou. mamãe, por que ele está dormindo na rua? a câmera me olhou. eu chorei. é duro explicar pra uma criança esse mundo de fora da gente.

desde então, você sempre me mostra as pessoas que dormem nas veias dessa cidade sem sono.

“as lágrimas vão chorar” você também me disse hoje. minhas lágrimas chorarão sempre porque você me atravessa, tua sensibilidade me refaz.

com todo meu amor, pra sempre sua casa, mamãe.

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13 Nov 18:32

“A população LGBT tem que eleger candidatos com a orientação de gênero LGBT”

by Rafael Duarte

A historiadora, ativista e militante dos Direitos Humanos Leilane Assunção, 37 anos, morreu nesta terça-feira (13) em decorrência de uma infecção motivada por um fungo. Ela estava internada há 30 dias no hospital Giselda Trigueiro. Em homenagem à Leilane, que assinada todas as quintas-feiras uma coluna no portal da agência Saiba Mais desde o início do projeto, republicaremos uma entrevista especial que fizemos com ela, em 9 de outubro de 2017. 

A seguir, a entrevista, na íntegra:

A historiadora potiguar Leilane Assunção foi a primeira professora universitária transexual do Brasil. Professora do Departamento de História da UFRN, é militante da causa LGBT e do movimento antiproibicionista que luta pela legalização das drogas no país.

Leilane é uma referência na área e assina todas as quintas-feiras uma coluna na agência Saiba Mais desde o início do projeto, espaço em que propõe debates de gênero, diversidade e também sobre a importância de se legalizar as drogas no Brasil.

Nesta entrevista, Leilane Assunção fala sobre as origens da cultura de ódio presentes na homofobia, os reflexos da pauta conservadora do país para a população LGBT, a falta de representatividade dos LGBTs no Parlamento e outros temas.

Agência Saiba Mais: Em 2016, 343 LGBTs foram assassinados, o que dá uma média de 1 morte a cada 25 horas. Desde 1970 esse número não era tão alto. Como historiadora você consegue identificar a origem desse ódio ?

Leilane Assunção – Nós historiadores problematizamos muito essa possibilidade de buscar algo na sua origem. Porque, em tese, isso nos faria regredir infinitamente a um passado mais longínquo. Mas não conseguir mapear com precisão as origens não significa que não possamos encontrar alguns começos. A origem é diferente do começo. A origem pretende algo que está na matriz enquanto o começo é um recorte, às vezes até arbitrário. Nesse sentido, os pesquisadores e ativistas de gênero têm chegado a um consenso de que em meados do séculos 19, com a emergência das preocupações modernas bélicas, começa a formação dos exércitos compulsórios. Porque até a revolução francesa, os exércitos não eram compulsórios, ou seja, não havia o alistamento militar obrigatório. O que havia eram os exércitos profissionais. As grandes monarquias europeias da idade moderna têm exércitos profissionais de mercenários que, às vezes, sequer tinham vínculo com a nação em questão. O vínculo deles era financeiro. Após a revolução francesa, o conceito de exército passa por uma nacionalização, daí a ideia de poder do Estado associado ao poder do seu Exército e o poder do Exército associado à ideologia. O Exército precisa ter uma identificação baseada naquilo que ele luta para defender e que seja maior do que somente o vínculo financeiro. Essa identificação vai ser construída a partir do conceito de pátria, pátria-mãe e da ideia do nacionalismo, que é uma chaga e até hoje é responsável por tantas mortes no mundo inteiro. Então o controle sobre o Exército e o desejo de fazer Exércitos poderosos vai fazer com que esses Estados tenham como premente a necessidade de controlar os processos reprodutivos, controlar os corpos, as taxas de natalidade.

Então parte da rejeição à homossexualidade vem da não reprodução de novos indivíduos para a ampliação dos Exércitos ?

A disciplina dos corpos passa a ser uma prática muito mais estabelecida e exercida pelos Estados a partir do século 19 e, então, a gente se situa nessa perspectiva. Parte da rejeição à homossexualidade teria a ver com o fato de que seriam pessoas não reprodutivas, não estariam dentro da lógica de produção dos corpos para o Exército, para o mercado de trabalho. O que a gente sabe que não é verdade, visto que a experiência da paternidade e maternidade não é uma experiência estranha aos LGBTs. Dezenas, centenas de milhares de LGBTs passaram por essa experiência. E o argumento de que os LGBTs também enfraquecem a família é um argumento muito frágil porque tradicionalmente a família heterossexual tradicional não só não é um sucesso, tanto que temos altíssimas taxas de abandono… costumo dizer que toda criança abandonada o foi por um casal héterossexual e então, muitas vezes, um casal homossexual resgatou aquela criança da condição de abandono e está construindo aquela família.

Entre as décadas de 60 e 70 do século 19, aparece o termo heterossexualidade. É o que a gente chama de fabricação da heterossexualidade compulsória, desde então tem sido a norma das nossas sociedades contemporâneas. E essa heterossexualidade compulsória tem sido opressora causadora da morte de muitas pessoas que não têm conseguido se adequar a isso. E são vítimas de toda sorte de perseguição, de infortúnios.

Qual o papel da igreja neste processo ?

A religião é a guardião do discurso da moral. Sem entrar no mérito do que vem a ser a bíblia como livro histórico, se a gente fica dentro do próprio texto bíblico há uma seleção muito oportuna desses passagens bíblicas que visam produzir a criminalização desses comportamentos. Passagens do mesmo livro que criminalizam outros comportamentos que hoje não são considerados imorais continuam lá e são obscurecidas. O livro de Levítico, por exemplo, diz que as mulheres no período do ciclo menstrual estão podres e que não podem sequer ser tocadas, nem pelo parceiro, que devem ser isoladas num quarto para evitar contaminar o ambiente com a sua podridão. Então, isso é utilizado pela igreja para doutrinar o comportamento das mulheres? Não é. Outra passagem diz que os homens, pelo menos os sacerdotes, devem guardar o uso da barba, que a barba é sagrada. Eu já vi inúmeros pastores que sequer usam bigode. Então porque essa interdição não vale mais e a que diz que um homem não pode se deitar com um homem ainda vale? Há uma conveniente seleção da tradição, como defende o pensador Raymond Willians. Você seleciona na tradição o que interessa a uma determinada ideologia. Então a ideologia que quer interditar as práticas LGBTs vai no livro sagrado e busca as passagens que em tese as interditam. Consta na bíblia que o famoso Rei Davi deitou-se com um congênere do sexo masculino no mesmo leito. Até dez anos atrás a expressão “deitou-se” ainda era utilizada para “fazer sexo”. Será que não é isso o que aquela passagem queria dizer? Que Davi fez sexo com outro homem? Essas passagens acabam sendo obscurecidas mas estão no texto bíblico original também. Então perceba que eu não estou nem contestando a validade do discurso bíblico. Estou indo numa análise semântica do discurso bíblico, tomando ele como válido, para apontar essas contradições e como existe muito oportunismo e conveniência moralista de todos aqueles que têm feito esse tipo de seleção da narrativa bíblica com o objetivo de criminalizar a população LGBT.

E como você vê a atuação do papa Francisco que, diferente da ala hegemônica da igreja católica, fala em acolhimento da população LGBT?

Eu vejo como um tardio, mas válido processo de atualização desse discurso. Por mais que os interesses possam ser questionados, até que ponto existe um certo maquiavelismo no sentido pragmático de entender que: ou vão aceitar esse público ou vão realmente perder um público cativo. Porque apesar de tudo, grande parte da população LGBT cultiva valores religiosos da lógica do cristianismo. A maior parte dos LGBT que eu conheço se autointitulam cristãos. É a minoria que se diz ateia ou sem religião. Então, é uma dimensão importante para a vida dessas pessoas. Tudo o que os LGBTs cristãos querem é justamente praticar uma religião que pare de dizer que não dá espaço para eles. Se essa religião para finalmente de dizer isso, vamos ter uma acomodação de um público expressivo dentro de um lugar que passa por um processo de esvaziamento, que é a igreja católica. Já tivemos mais de 90% da população do país se declarando católica, hoje talvez esse número não chegue a 70%. Mas já foi a religião de quase 100% das pessoas. É como o teatro. Se você tem a casa lotada, ótimo. Mas se você não tem, cada pessoa passa a ser muito importante. Então você não pode fazer um discurso que vá afastar. Então, não sei até que ponto há uma sinceridade ideológica, uma convicção de fato nessas declarações.

O bispo de Caicó, dom Antônio, vai na mesma linha do papa Francisco. Em julho, ele causou muita polêmica ao dizer que a homossexualidade é um dom de Deus…

Eu vejo muito mais sinceridade no bispo de Caicó do que no papa Francisco. Eu participei de uma mesa redonda com o dom Antônio e estava preparada para debater com um fascista, porque minhas experiências em mesas redondas com religiosos tinham sido muito ruins com plateia hostil, e foi uma grata surpresa para mim porque durante o debate ele manifestou pontos de vista muito humanitários, muito lúcidos, modernos e progressistas para o contexto que a gente encontra de religiosos. Então essa fala para mim não foi surpresa. Agora, achei uma fala muito ousada, foi muito bom ele ter feito isso porque precisamos de pessoas que tenham essa coragem. Da população local, a gente viu uma reação horrorosa, o que mostra um longo caminho que devemos trilhar em relação à diversidade, né ? A nossa educação nos deseducou. Precisamos nos reeducar num novo paradigma. A nossa educação tradicional nos desumanizou, estimulou a prática de todo o tipo de preconceito. A discussão da escola sem partido é um exemplo disso. Fico assombrada com esse tipo de coisa. A escola sempre teve um partido. O partido da escola sempre foi a opressão, o bullyng, a LGBTfobia, o racismo, o classismo … a escola pública brasileira é um local onde quase todos nós guardamos traumas. Se a gente recuperar nossa memória escolar vamos descobrir memórias terríveis do que era a escola. Aí nos últimos 20, 30 anos, graças à influencia da obra de Paulo Freire principalmente, começou um processo de humanização do ensino. A introdução do conceito de gênero foi estratégica nesse processo. E aí quando a gente vê hoje num país que, como você citou, mata um LGBT a cada 25 horas, uma mulher é estuprada a cada 20 minutos… essa sociedade se recusa a debater as relações de gênero e acha que uma coisa não está ligada a outra? Então, ou isso é ingenuidade ou é cinismo. Acho que do grande público é ingenuidade, mas das lideranças religiosas e políticas é cinismo absoluto porque todos os estudos caminham nessa direção. Ou a gente vai incluir o debate de gênero na escola ou no longo prazo não vamos conseguir produzir práticas de enfrentamento ao feminicídio e aos crimes de ódio contra os LGBTs. E estamos na contramão disso.

Você citou o movimento Escola Sem Partido. Essas pautas conservadoras têm conexão ?

Claro. Quando a nova lei de diretrizes e bases vier a gente terá certeza que ela já vai vir toda pautada na ideologia da escola sem partido, proibindo discutir gênero na escola. Como é que um professor de História vai para a sala de aula falar sobre escravidão sem dizer que isso foi algo terrível? Sem dizer que isso violou a dignidade humana? Como é que a gente fala da ditadura militar, dos regimes totalitários, do nazismo sem criticar e denunciar tais práticas. A essência do que é ensinar história, sociologia… são conhecimentos que tem necessidade de crítica, que só se produzem através da crítica da realidade. Então, nós estamos muito apreensivos com o futuro de curto prazo. Se em 2018 vamos para a extrema direita, podemos começar a vivenciar coisas que pensávamos já ter ultrapassado, como internação compulsória de LGBTs, prática de hormonoterapia compulsória que vise corrigir e curar identidades de gênero… Recentemente, com a passagem do Marco Feliciano pela comissão dos Direitos Humanos esse assunto passou a ser pautado. O Executivo federal, na época, disse que não passaria esse debate. Agora não temos mais. O Executivo federal está comprometido até a raiz com os fundamentalistas. Se o governo Dilma flertou com o fundamentalismo por razões eleitoreiras, o governo Temer está mergulhado no fundamentalismo por razões ideológicas e mercantilistas. Há um vídeo que circula nas redes sociais com vários pastores dizendo que finalmente eles tinham um deles lá. E quem era? Eduardo Cunha, que não precisa de apresentação. Parte da agenda do golpe de 2016 é essencialmente moralista. O governo do PT dialogou muito com movimentos sociais, empoderou os movimentos sociais. Antes do governo do PT, militar nos movimentos sociais era levar cassetete na cabeça e bomba de gás na cara. E não é que os intelectuais são petistas. Eu mesmo não sou filiada. Mas quando você coloca no papel quem trabalhou pela raia miúda socioeconômica do país…

Mas há exemplos de resistência também. Então qual a importância de um mandato como o do deputado federal Jean Wyllys (PSOL) no enfrentamento direto contra os fundamentalistas do Congresso ou de uma Leilane Assunção, a primeira professora universitária transexual do país?

Quando a diversidade, a inclusão, os direitos humanos não são as regras que balizam as relações, as biografias, as narrativas individuais adquirem mais importância porque elas quebram o que é a regra, que é a inviabilização desses grupos. Então pessoas como eu, transexual, quando conseguem algum tipo de inserção, apesar dessa não ser a regra, com muita perseverança, com muita resistência, é possível quebrar alguns padrões. Por outro lado, sempre gosto de contextualizar. Geralmente pessoas trans com uma biografia como a minha não são exemplo para o que é a história das travestis brasileiras. Eu nunca abandonei a escola, tive acesso à educação porque tem a ver com minha família e boa parte dessa população já está fora da escola no começo da adolescência, com 13, 14 anos. E a evasão escolar nessa fase é decisiva para a população. E por que isso está ocorrendo ? Porque é a fase da consolidação dos hormônios, algumas não conseguem se manter do armário e no processo de assumir-se sofrem as violências mais variadas: desde o estupro coletivo em banheiros de escola até aquela violência verbal que, se não chega às raias da agressão física, tem um peso psíquico muito grande, a violação cotidiana da identidade de gênero, o desrespeito ao nome social.

Você moveu um processo contra a UFRN pelo uso do nome social?

Eu vivi na UFRN 11 anos sem direito a nome social. Só tive o direito em 2011, quando aprovamos uma resolução nos conselhos superiores que dava direito a uma pessoa trans de usar nome social. Aí a pessoa diz: “está vendo, Leilane aguentou 11 anos”. Mas não sou a regra. E isso dá a ideia de que se eu aguentei, qualquer pessoa pode aguentar, e quem não aguenta é preguiçosa ou não quis estudar e estava procurando só uma desculpa. Eu aguentei e só eu sei a que preço, só eu sei as mágoas que guardei e carrego até hoje nesse processo. Sempre tendo a lucidez de que, se a escola era um lugar violento, a rua o seria ainda mais. Na minha biografia eu cheguei a essa conclusão. Outras pessoas chegaram a uma conclusão oposta, de que a rua foi um lugar mais acolhedor que a própria escola. Então eu concluí isso: se é ruim para mim aqui dentro, lá fora vai ser pior. Então vou perseverar aqui dentro e vou vencer pela educação, pela titulação, vão ter que me aceitar a longo prazo porque vou me constituir numa intelectual tão respeitada, tão conceituada, que não vai ter como não ser aceita. E estou há 17 anos na UFRN, fiz toda minha formação aqui, da graduação ao doutorado, como professora substituta. E mesmo com todos os níveis de inserção me deparo cotidianamente com situações dentro da UFRN que me fazem não acreditar que estou vivendo aquilo.

A Instituição ou as pessoas?

A instituição e as pessoas. Não existe um padrão. O padrão é o preconceito que identifique a origem. A origem do preconceito é a mais variada possível. Desde um transeunte até gestores da instituição. Recentemente eu processei a universidade porque uma técnica administrativa duvidou da minha identidade de professora. Me apresentei, disse que era professora da disciplina X e da sala Y e ela disse que não abriria a sala para mim porque eu estava mentindo. Ela concluiu isso: “travestis e transexuais não são professores de universidade”. São prostitutas, faxineiras, no máximo cabeleiras, isso quando são bem sucedidas. Aí a culpa é dela? Enquanto indivíduo não. Se eu faço uma análise como socióloga, não posso culpar o individuo. E ela está numa instituição de excelência, que tem um corpo docente de ponta nesse debate. Existe o professor Durval Muniz, tínhamos a professora Berenice Bento, o maior nome do país na discussão de transexualidade, Carla Giovana, Rita de Cássia, Leilane Assunção, temos um corpo docente apto a promover capacitação no âmbito da própria instituição. Mas a universidade acaba reproduzindo preconceitos da sociedade e não apresentando um novo modelo de convivência. Quando isso acontece, não é que seja uma política oficial do evento. É mérito dos indivíduos que conseguem colocar a instituição a serviço desses ideais em momentos pontuais. Nesse meu processo contra a universidade, a UFRN não emitiu sequer uma nota. Ao contrário, a defesa da UFRN foi em cima do livro “A História da Loucura”, de Michel Foucault. Porque eu era histérica, cheguei gritando…. claro que eu gritei. Fui ofendida, meu direito foi violado, somos massacradas e tenho que ficar cordeirinha e manter um tom de voz porque senão você perde a razão!? Isso tudo mostra que a instituição não aprendeu a lição dela. Aliás, estou há quase 20 anos vendo a instituição não aprender a lição. É uma coisa muita contraditória. Fiz um evento sobre antiproibicionismo e legalização das drogas. A universidade pagou os palestrantes, mas não abraçou o evento.

O movimento LGBT tem dado uma resposta a esse crescimento da onda conservadora no Estado e no país? Como você vê as paradas do Orgulho LGBTs?  

O movimento LGBT, pelo menos no Rio Grande do Norte, é uma coisa complicada. Eu rompi com o movimento LGBT no RN porque historicamente está envolvido num lugar de corrupção. Num lugar de toma lá dá cá do pior ramo da política norte rio-grandense. Para você ter uma ideia, o movimento compôs com os governos Micarla e Rosalba (ex-prefeita e ex-governadora, respectivamente, ambas muito mal avaliadas ao final das gestões). Usaram o movimento LGBT como moeda de troca para conseguir cargos e alguns deles estão proibidos de responder a editais do governo federal por falta de prestação de contas. Um pessoal que tem o mérito de ter fundado o movimento, mas que se apropriou do movimento de maneira personalista, impediu a renovação das militâncias ao corporificarem em seus indivíduos essas ações. São pessoas que estão há 25 anos nesses espaços sociais, e a renovação é fundamental para esses movimentos. No movimento cannábico, por exemplo, eu fundei mas já deixei a organização da marcha porque percebi que havia uma acomodação na organização da marcha da maconha. Diziam “ah, a Leilane vai fazer”. Então eu saí para forçar o surgimento de outras pessoas que façam. E surgiu. Quando eu estava fazendo não aparecia ninguém novo para fazer. Quando eu disse: “eu não faço mais”, chegou gente. Então é fundamental a renovação da militância e a gente não tem aqui. Na minha militância no movimento LGBT eu participo de debates, dou entrevistas, respondo dúvidas que me chegam pelas redes sociais, email… mas me retirei do movimento LGBT oficial do RN porque hoje é um espaço corrompido onde a ideologia não ocupa o primeiro plano.

E em relação às paradas do Orgulho LGBT?

Tem uma função política importante na sua matriz. A gente percebe que é uma tendência que parasita todos os movimentos sociais. Aqueles atos considerados símbolos de uma luta hoje são romanceados, floreados, com outro sentido. Quando a gente pensa no Dia Internacional da Mulher, as pessoas aparecem mandando flores e dizendo parabéns pelo seu dia. E a gente sabendo que foi um dia em que as mulheres foram incendiadas dentro de uma fábrica. Então é um dia de reflexão, da gente pensar, é um dia de espinhos. Acho que essas datas estão muito desvirtuadas. E poucas estão tão desvirtuadas como o dia do Orgulho LGBT. Quando a gente pensa que pessoas morreram, que as pessoas conseguiram visibilizar suas vidas e seus direitos, e hoje é apenas uma festa… tenho algo contra festas? Claro que não. Mas acho que não dá pra ser só a festa. O sentido político não existe mais. Acho que o Dia do Orgulho LGBT tem que se reinventar totalmente. Volto a dizer: não tenho nada contra o sentido festivo, mas o sentido de reflexão política está muito esvaziado. Quando a gente estava organizando o movimento antiproibicionista, um paradigma negativo era o movimento LGBT. Para que não cometêssemos os erros que o movimento LGBT cometeu. Especialmente para não transformar a marcha da maconha num dia só de festa, num dia em que o maconheiro vai fumar. Tanto é que a gente criou o ciclo de debates antiproibicionista. Se a gente faz só a marcha e chama todo mundo para vir, as pessoas vão pensar que é uma grande festa. E não queremos que seja só isso. Queremos que quem esteja na marcha da maconha, ao ser abordado, tenha condições de explicar porque está ali. Porque é um ato político importante, ou seja, queríamos politizar a militância porque víamos que havia uma despolitização muito grande da população LGBT. Desafio qualquer jornalista a ir para a macha da maconha ou para o ciclo de debates amtiproibicionista e abordar qualquer pessoa perguntando porque ela está ali. Ela vai dizer. Mas se você for no Dia do Orgulho Gay e abordar um transeunte qualquer na parada, provavelmente a resposta será um clichê midiático pronto do tipo “estou aqui para arrasar”, “porque hoje vou fechar” ou “porque hoje é dia de poder, luxo e glamour”. Volto a dizer que não tenho nada contra isso. O problema é essa ênfase, que despolitiza.

Falta representatividade na universidade, mas e no Parlamento?

Eu fico vendo só o Jean Wyllys no Congresso, o único parlamentar gay no Congresso representa o tamanho do eleitorado gay do Brasil? Obvio que não. Esse eleitorado é maior, mas ele não está votando em candidatos LGBTs. Ao contrário, ele está votando, às vezes, em candidatos que perseguem os LGBTs. E isso é muito grave, é a nossa população dando um tiro no próprio pé. Parece que os LGBTs hoje acham que não há mais pelo que se lutar. Existe a parada, pode-se casar porque a Receita Federal reconhece no imposto de renda, pode beijar, os casos de violência existem, mas quando não acontece com a gente parecem coisas isoladas… Então o LGBT de classe média está acomodado no formato atual da sociedade. Na UFRN, há uma população de LGBT enorme, mas você não vê um coletivo atuando na instituição. Quando eu era estudante, havia o Guddes. E acabou. A minha geração saiu da universidade.

Então, a assimetria entre o tamanho da população LGBT e o tamanho da sua representação no Parlamento precisa ser revista com urgência. Onde eu falo, nas mesas que participo, tenho feito apelos para que as pessoas LGBTs votem em candidatos que tenham uma orientação de gênero assumidamente LGBT. Até outros parlamentares, que não são LGBTs mas tem comprado nossa pauta, como Maria do Rosário (PT/RS), Erika KoKai (PT/DF), acho que são dois ótimos exemplos que não são LGBTs, e têm uma empatia gigante. Mas ainda é pouco, especialmente quando comparamos com a bancada evangélica, que tem hoje quase 200 deputados. Esse é o tamanho da população evangélica do país ? Não é. Então há uma clara desproporção do nosso parlamento. A situação da população feminina também. Por isso tenho feito esse apelo. Eleger um parlamentar que represente melhor a nossa população. A criminalização da LGBTfobia, como crime de ódio, é urgente. Vivemos um holocausto LGBT no Brasil. Somos a maioria e temos que ocupar os espaços majoritários. Vamos votar nos LGBTs em 2018.

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13 Nov 12:59

A saideira do Ribeira Boêmia em 2018 será com Roberta Sá e João Cavalcanti

by Rafael Duarte

A roda de samba Ribeira Boêmia encerra 2018 em grande estilo. Dia 8 de dezembro, o projeto contará com a presença e participação especial de Roberta Sá e João Cavalcanti (ex-Casuarina).

A festa acontece na rua Chile, bairro da Ribeira, e terá o grupo Quarteto Linha abrindo os trabalhos a partir das 17h.

Os ingressos já estão sendo vendidos no Outgo, Le Postiche Midway e na Sunline Turismo.

 

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