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07 Jan 17:10

Após ataques de Bolsonaro e Salles, presidente do IBAMA pede exoneração

by admin

A presidente do Ibama, Suely Araújo, pediu nesta segunda-feira, 7, exoneração do cargo. À frente do órgão ambiental desde junho de 2016, ela tomou a decisão um dia após o novo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e o presidente Jair Bolsonaro questionarem via Twitter um contrato de locação de viaturas assinado por ela em dezembro.

Ela já aguardava ser substituída pelo procurador Eduardo Fortunato Bim, escolhido por Salles para chefiar o órgão, mas resolveu se antecipar à nomeação oficial.

Depois de postar no sábado que estava lendo os Diários Oficiais dos últimos 60 dias, Salles publicou no domingo uma foto do contrato entre o Ibama e a Companhia de Locação das Américas publicado no dia 10 de dezembro no Diário Oficial acompanhado da mensagem: “Quase 30 milhões de reais em aluguel de carros, só para o IBAMA….”

Na sequência, Bolsonaro compartilhou a mensagem do ministro, elevando o tom. “Estamos em ritmo acelerado, desmontando rapidamente montanhas de irregularidades e situações anormais que estão sendo e serão comprovadas e expostas. A certeza é; havia todo um sistema formado para principalmente violentar financeiramente o brasileiro sem a menor preocupação!.”

Nenhum dos dois explicou se haveria algum problema com o contrato e, alguns minutos depois, o presidente apagou seu post sobre o assunto. As mensagens se seguem a uma sequência de ataques ao Ibama que Bolsonaro vem fazendo desde a campanha, como a alegada existência de uma “indústria de multas” por parte do órgão.

Em nota o Ibama afirmou que tratava-se de uma “acusação sem fundamento” que “evidencia completo desconhecimento da magnitude do Ibama e das suas funções”. Disse também que a “presidência do Ibama refuta com veemência qualquer insinuação de irregularidade na contratação”.

Segundo o órgão, o contrato – de R$ 28,7 milhões – se refere à locação de “393 caminhonetes adaptadas para atividades de fiscalização, combate a incêndios florestais, emergências ambientais, ações de inteligência, vistorias técnicas etc”. A nota acrescenta ainda que ele é válido para todo o País e “inclui combustível, manutenção e seguro, com substituição a cada 2 anos”.

O Ibama informou também que “o valor estimado inicialmente para esse contrato era bastante superior ao obtido no fim do processo licitatório, que observou com rigor todas as exigências legais e foi aprovado pelo TCU”.

Algumas horas depois, Salles voltou ao Twitter para dizer que não havia levantado suspeita sobre o contrato. “Apenas destaquei seu valor elevado, conforme meus esclarecimentos na própria postagem. O valor elevado também foi questionado pelo TCU desde abril e, portanto, não precisava ser assinado a dez dias da troca de governo.”

O Ibama informou que se a locação não fosse assinada em dezembro, não haveria viatura para fiscalização em janeiro. Reiterou também que o TCU aprovou o contrato. Disse também que o valor obtido foi 10% inferior ao do contrato anterior vigente e que contemplou 33 carros a mais que anteriormente.

Escolhida pelo então ministro Sarney Filho, nomeado pelo ex-presidente Temer, Suely não tinha expectativa de continuar no cargo. De fato ainda em dezembro, logo após ser escolhido, Salles indicou que nomearia para o Ibama o procurador da Advocacia-Geral da União (AGU), Eduardo Fortunato Bim.

Em seu pedido de exoneração, Suely escreve: “Considerando que a indicação do futuro presidente do Ibama, sr. Eduardo Bim, já foi amplamente divulgada na imprensa e internamente na instituição ainda em 2018, antes mesmo do início do novo governo, entendo pertinente o meu afastamento do cargo permitindo assim que a nova gestão assuma a condução dos processos internos desta autarquia.”

Do Estadão

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04 Jan 14:38

Vinhedo, um dos ninhos do MBL, tem atentado contra mulher e criança negros: “Presente de Bolsonaro”

by Joaquim de Carvalho
A mão da senhora que fez a denúncia (ela tem medo de mostrar o rosto) e o BO

Uma senhora de 62 anos, a filha dela e o neto, de 7 anos, estiveram ontem na delegacia de Vinhedo, no interior do Estado, para fazer uma denúncia grave.

Na quarta-feira, a idosa e o neto estavam no ponto de ônibus no centro da cidade, quando um carro bege parou, com três jovens brancos dentro, e um deles atirou uma bomba.

Um deles teria dito:

“Isso é um presente do Bolsonaro”.

A criança ficou sem audição durante boa parte do dia, e avó e neta voltaram para casa, assustados.

O caso foi relatado em detalhes à polícia, que tem meios para investigar. Como o ponto fica na região central da cidade, basta procurar por registros de câmera.

“Estou meio assustada, medo de sair na rua, os carros param e eu já fico com medo de jogarem alguma coisa”, relatou a avó.

O caso foi noticiado pela afiliada da Globo na região, a EPTV, mas nenhuma palavra foi dita sobre o caráter político da agressão.

A frase “Um presente de Bolsonaro para vocês” não foi sequer citada.

Pode ser um caso isolado?

Espera-se que sim.

Mas pode não ser.

Sentimentos como racismo e ódio aos pobres e entidades como MBL foram empoderados nestes novos tempos.

A Polícia Civil de Vinhedo daria uma grande contribuição nesta luta pela manutenção de um estado civilizado, no verdadeiro sentido de lei e ordem, se fosse a fundo neste caso.

É necessário antes que alguém venha dizer que se trata de farsa ou armação.

“Tem câmeras por ali. Tem buscar esse registro e apontar o culpado. Não foi uma brincadeira. Foi uma agressão muito grave”, disse à filha ao DCM.

Avó, na entrevista à EPTV, disse:

“Ontem foi uma bomba, amanhã pode ser outra coisa, né? Se eles estivessem com um revólver, poderia ser um tiro”, afirmou.

Logo eles estarão com um, senhora.

 

03 Jan 12:59

Ignorância e benção

by Paulo Nascimento

Xangô, catimbó, macumba…

Quantas vezes na vida você, caro leitor ou cara leitora, utilizou algum termo como esses ou mesmo algum semelhante a esses quando foi falar sobre religiões de matriz africana? E quantas vezes parou para pensar que tais palavras e, principalmente, as maneiras como elas são empregadas reforçam o preconceito e a perseguição a essas religiões e seus praticantes?

Para ajudar no argumento e aproximar a história de nós, resgato aqui uma pequena nota publicada no extinto Diário de Natal no dia 15 de março de 1956 (nem faz tanto tempo assim, não é mesmo?). Com o título “Xangô e macumba nas Quintas”, o texto de quatro parágrafos registra de forma longe de ser minimamente respeitosa a ocorrência de cerimônias religiosas no bairro hoje localizado na Zona Oeste de Natal.

O jornal chama as reuniões de “ritos bárbaros”, que seriam “encenados, em meio à geral promiscuidade” e seriam atos proibidos por lei. Assim, ainda conclama – e aqui está uma das chaves dessa discussão – que a “Polícia desse uma batida na região que indicamos, afim (sic) de constatar a veracidade do caso em tela, tomando as providências exigíveis”.

O Diário de Natal era, à época e por anos a fio, o veículo de comunicação mais poderoso desta província. Consagrava e “desconsagrava”, ao seu gosto. Para os leitores pouco afeitos à história do periódico, o Diário seria hoje quase que um Whatsapp com charme, um Facebook sem a conta bancária de Zuckerberg. Consequentemente, era também um importante instrumento a reverberar todo o pensamento dominante.

Perceba aqui comigo, amigo leitor e amiga leitora, o quanto de preconceito guarda essa pequena nota em um jornal de uma cidade que tinha pouco mais de 100 mil pessoas. Uma manifestação religiosa marginal, em um bairro popular, taxada de promíscua e ilegal/fora da lei, “denunciada” pelo principal veículo de comunicação da cidade. Já se imaginou no lugar destes praticantes da religião?

Vale aqui um adendo que a acusação de “crime” levada a cabo pelo jornal é apenas mais uma dose de preconceito e reflexo ainda do sistema de perseguição montado contra o povo preto após a abolição. O Código Penal vigente em 1956, que é o mesmo até hoje, já garantia a liberdade de culto a todo e qualquer brasileiro. No entanto, a religião de matriz africana era perseguida pelo poder estatal em todo o país sob a acusação de curandeirismo, esta sim uma prática criminalizada na lei. Pois religião mesmo só a trazida pelos colonizadores, o resto é promiscuidade, “xangô”, “macumba”, “catimbó”. E aí, vamos repensar esses termos?

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02 Jan 17:22

Quem é Fátima Bezerra, a única mulher eleita para governar um estado no Brasil

by Isabela Santos

Texto: Isabela Santos e Rafael Duarte
Fotos: Arquivo pessoal /Fátima Bezerra

Nova Palmeira ainda era um povoado paraibano, na segunda metade dos anos 1950, quando por muito pouco não foi cenário de uma tragédia. A tarde seguia sem pressa até o instante em que um caminhão baú em alta velocidade atravessou o sertão e passou por cima de uma das filhas do artesão Severino e da parteira Luzia.

De sobressalto e em estado de choque, a família correu em desespero imaginando o pior, ao mesmo tempo em que o motorista sumia na caatinga sem rumo e sem prestar socorro.

Deitada, sem se mexer, a pequena Fátima abriu os olhos devagar quando viu os irmãos, os pais e amigos aglomerados ao redor dela. O corpo da menina tinha ficado posicionado entre as rodas do caminhão. A “neguinha” de seo Severo, como o pai chamava a filha, saiu ilesa.

“Foi milagre!”, gritou a mãe, parteira do povoado e devota de Santa Luzia.

Seis décadas depois, a filha de Severino e Luzia, dada como morta por poucos e intermináveis segundos naquela tarde dos anos 1950, é motivo de festa mais uma vez em Nova Palmeira, embora o destino a tenha levado para o vizinho Rio Grande do Norte, onde construiu uma trajetória que começou na sala de aula, passou pelo movimento sindical, chegou ao legislativo estadual, seguiu pela Câmara dos Deputados e Senado até desembarcar no cargo político mais importante do Estado.

Nesta terça-feira (1º), Fátima Bezerra consolida esse percurso. Será empossada como a única mulher eleita em 2018 para administrar um estado no país pelos próximos quatro anos. E com um adendo, como costuma enfatizar desde a campanha eleitoral: será a primeira governadora de origem popular no Rio Grande do Norte, estado que já contou com outras duas mulheres na chefia do Executivo (Wilma de Faria e Rosalba Ciarlini), mas ambas ligadas à famílias tradicionais e oligarquias locais que se revezavam no poder até as eleições deste ano.

Saiba Mais: Conheça os detalhes da posse de Fátima Bezerra nesta terça-feira

Fátima em Nova Palmeira, numa das viagens de volta ao passado

Em 63 anos, mudou muita coisa no país, na região Nordeste, no Rio Grande do Norte e na vida da governadora eleita pelos potiguares. Os seis filhos de Severino Bezerra de Medeiros e Luzia Mercês do Amaral – Preta, Sebastião, Bêu (já falecido), Conceição, Fátima e Terezinha – dormiam nos colchões de palha e lã feitos pelo pai, inicialmente dentro da própria casa da família. Depois, em um galpão vizinho. Luzia muitas vezes se ausentava por horas ou virava a noite para ajudar outras mulheres a serem mães também.

Apesar da vida partidária de Fátima, a política não chega a ser uma novidade para a família Bezerra. Preta, a irmã mais velha, foi vice-prefeita e vereadora de Nova Palmeira. E a própria mãe, dona Luzia, tinha o respeito dos políticos da região em razão do carinho popular conquistado pelos partos gratuitos que realizava nas redondezas.

Quando Fátima confrontou Carlos Eduardo Alves (PDT) num dos debates do 2º turno, afirmando  que ele não sabia o que era uma seca de verdade, a senadora e então candidata ao Governo olhava para o próprio passado e voltava para um cenário conhecido, marcado pelos efeitos que a estiagem deixava no chão de Nova Palmeira.

A irmã Conceição conta que quando eram criança, ainda na Paraíba, a região sofria com uma longa seca:

“Às vezes nossa mãe chegava nas casas e não tinha nem açúcar pra fazer uma garapa pra dar força nas mulheres. Ela levava a comida, um pedacinho de carne pra fazer pirão e só voltava pra casa quando a mulher descansava”, relata.

Ceição, como é chamada, vê algo da matriarca na irmã mais famosa. “Fátima hoje é essa mulher que – eu digo muito a ela – faz o que minha mãe fazia, só que de outra forma, com outra roupagem. A vida dela é trabalhar pelo povo”, diz com orgulho da mãe e da irmã.

O reconhecimento pelo trabalho da mãe é público. No ano seguinte à morte de Luzia, em 1998, a creche municipal de Nova Palmeira recebeu o nome de Luzia Mercês do Amaral.

Dona Luzia, parteira de Nova Palmeira e hoje nome de creche na cidade, participou da eleição de Fátima em 1996 para a prefeitura de Natal

A neguinha de seo Severo

Se a governadora potiguar guarda semelhanças de personalidade com a mãe, o carinho que recebia do pai também marcou a família. Severino, também conhecido como Severo, era artesão e tropeiro, vendedor que transportava os produtos montado em burros ou cavalos pelo interior do Nordeste. O pai de Fátima também era um exímio contador de histórias, mas até hoje as filhas não sabem se ele conseguia ganhar algum dinheiro com o dom.

Caçula da família, Terezinha Bezerra lembra do carinho de Severo com Fátima e lamenta o fato do patriarca não ter conseguido acompanhar a trajetória política da filha:

– “Meu pai morreu em 1981, infelizmente não viu Fátima vencer. Ele só a chamava de “Neguinha”. Era a “Neguinha” de seo Severo. Ele dizia: “essa neguinha ainda vai fazer muito sucesso, essa neguinha ainda vai trazer muito dinheiro pra mim”. Fátima se destacava desde pequena, era quem fazia as coisas”, diz Tetê.

Além da empatia, Fátima herdou também responsabilidade. A qualidade é reconhecida pelos eleitores que a fizeram a governadora mais votada da história do Rio Grande do Norte, com mais de um milhão de votos. No início da adolescência, o traço era visto no cuidado com os irmãos, mesmo pelos mais velhos:

“Eu sou mais velha, mas só ia pra festa se ela fosse, porque Fátima ficava policiando a gente. Sempre foi muito responsável. Na casa, cada uma tinha alguma atividade. Não precisava minha mãe mandar, ela sempre deixava tudo pronto”, lembra Conceição.

Fátima ao lado as irmãs em Nova Palmeira, em visita da poetiza Zila Mamede

As tarefas de casa foram substituídas pelas da escola, quando retomou os estudos da segunda etapa do Ensino Fundamental, no Instituto Padre Miguelinho, em Natal. Fátima havia parado de estudar por falta de escola em sua cidade. A mais próxima era em Picuí, onde Conceição morou na Casa do Estudante.

“Não é que meus pais não dessem valor a estudo, mas não tinham dinheiro pra colocar todos os filhos na escola de uma vez. Quando chegava no final de semana eu levava os livros e ela ficava devorando”, contou a irmã, revelando que Fátima sempre teve apreço pela Educação, mais tarde sua bandeira de militância e de vida.

Em sala de aula, a professora Fátima ia além do conteúdo didático

Fátima passou em 1º lugar no concurso para a rede municipal de ensino

Como em Nova Palmeira só tinha o primário, Fátima seguiu para Picuí, onde ainda estudou e morou durante um ano. Quando soube que uma tia paterna morava em Natal (RN), arrumou as malas e chegou na capital do Rio Grande do Norte na segunda metade dos anos 1970 para terminar os estudos. A irmã de Severo morava na rua Galdino Lima, bairro das Quintas, Zona Oeste, e foi o primeiro endereço da menina de Nova Palmeira em Natal.

Os estudos levaram Fátima a se tornar pedagoga formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). No primeiro concurso para a rede municipal, Fátima foi aprovada em 1º lugar e ainda passou no concurso da rede estadual.

Hoje motorista e líder comunitário, Fernando Luiz da Costa foi um dos alunos de Fátima na Escola Estadual Presidente Café Filho, em 1980. Ele presidente do Conselho Comunitário de Brasília Teimosa e da Federação dos Conselhos Comunitários do RN – FECAP-RN, está se desfiliando do PSD (partido do governador Robinson Faria) para ingressar no PTB.

Costa lembra de ter aprendido nas aulas de Ciências Sociais mais que conteúdo didático.

“Ela sempre ensinou a gente a fazer o bem e ajudar o próximo. Aprendi muita coisa com ela”, conta, lembrando que às vezes acompanhava em grupos a professora até a parada de ônibus.

“Na época, acho que ela nem sonhava com política. Era muito humilde e as mães dos alunos gostavam muito dela. Estou muito feliz em ver uma professora que me ensinou ser agora governadora, vinda das bases”, completa Fernando, confiante de que o governo que se inicia neste 1º de janeiro será regido por esse sentimento comunitário, com ênfase na Educação.

Fernando se engana em um ponto. Naquela época, a política já pulsava na jovem professora. Como professora da escola estadual Café Filho, Fátima foi apresentada a um novo mundo: o do sindicalismo e ao do recém-fundado Partido dos Trabalhadores.

Estreia no parlamento com vitória por 82 votos de diferença

Quando Fátima entrou para o movimento sindical, a categoria de professores no Rio Grande do Norte era dividida em várias associações. Havia a associação de funcionários, dos estudantes, dos supervisores e orientadores, com bases fortes e distintas em Natal, Mossoró e Caicó. No entanto, parte do movimento começou a defender maior organização, especialmente a partir da Constituição de 1988, que garantia aos trabalhadores o direito de se organizarem novamente em Sindicatos. Assim nasce o Sindicato dos Trabalhadores em Educação (SINTE), em setembro de 1989

Fátima Bezerra, Fernando Mineiro e Júnior Souto participaram desse processo e iniciaram, com uma enorme contribuição dos  professores do Estado, suas respectivas carreiras políticas no parlamento. Dos três, Fátima foi a quem alçou voo por último. Quando ela se candidatou a primeira vez, em 1994, Mineiro já era vereador de Natal desde 1988 e Júnior Souto havia sido eleito deputado estadual quatro anos antes, ambos pelo PT.

Souto era o favorito para manter a cadeira na Assembleia Legislativa e conquistar a reeleição em 1994, contando mais uma vez com a base dos professores do já criado Sindicato dos Professores.

Naquele mesmo ano, porém, a presidenta do Sinte era uma pedagoga de Nova Palmeira que também decidiu concorrer a uma cadeira na ALRN, rachando a base dos professores. Fátima Bezerra entrou de cabeça na campanha e na contagem final das urnas acabou recebendo 82 votos a mais que Souto.

Começava ali uma trajetória de vitórias, algumas derrotas e várias conquistas.

O ex-presidente Lula esteve presente em quase todas as campanhas de Fátima

Hoje, 24 anos depois, Júnior Souto ainda lembra o número de votos que lhe faltou para garantir a reeleição, mas acredita que aquela eleição foi importante para que Fátima ocupasse o lugar que ocupa agora:

-As coisas que acontecem na vida e na história são resultado da ação das pessoas. Foi ótimo que tenha sido assim porque o que Fátima conseguiu realizar, talvez o meu perfil não conseguisse produzir com os mesmos efeitos. Fátima tem uma trajetória vitoriosa, realizou mandatos reconhecidamente exitosos e se consolidou como uma liderança nacional. Esse é um momento histórico e, entre nós do Partido, não há ninguém mais qualificado, e com a marca pessoal dela, capaz de extrair as melhores possibilidades desse arranjo político que foi construído.

Uma característica de Fátima apontada por Júnior Souto é perceber o que pode e o que não pode ser marcado pela ideologia, especialmente num momento do país em que a polarização ideológica estimula e provoca a violência.

– Ela tem uma qualidade de “desideologizar” a política. Ao contrário, ela politiza a política, mas não insere a ideologia em todos os atos até porque existem ações que não podem ter influência da ideologia. E Fátima percebe e sabe disso. E independente dos aspectos ideológicos, não há um único político do Estado capaz de reunir as qualidades para produzir um campo de coalizão no sentido de recuperar a economia como Fátima está fazendo.

Experiência no Parlamento como a grande escola

Adepta do diálogo, Fátima também soube se impor no Parlamento, como na votação do impeachment de Dilma Rousseff

 Fátima Bezerra venceu todas as eleições que disputou para o parlamento, incluindo dois mandatos deputada estadual (1994 e 1998), três de deputada federal (2002, 2006 e 2010) e um mandato de senadora (2014). Nesse período, a governadora eleita também perdeu quatro eleições para a prefeitura de Natal. AS duas primeiras, em 1996 e 2000, a petista foi derrotada pela ex-prefeita e ex-governadora Wilma de Faria. As duas últimas, 2004 e 2008, saíram vitoriosos das urnas Carlos Eduardo Alves e Micarla de Sousa, respectivamente.

Para Raimundo Alves, assessor e futuro chefe da Casa Civil do governo, Fátima aprendeu fazendo política, com vitórias, derrotas, mas sobretudo, com a experiência no Parlamento.

– O parlamento é a principal escola, é onde está a representação da sociedade. É onde estão os extremos, o centro, as oligarquias, os oportunistas… e isso evidentemente cria uma capacidade de diálogo e de respeito com os contrários. A principal característica da Fátima é o diálogo, é essa convivência com os contrários, com as disputas e também com as alianças.

Ele analisa as quatro derrotas eleitorais para a prefeitura de Natal de forma separada. Cada uma com seu motivo:

– As derrotas se deram em circunstâncias diferentes. Na primeira Fátima era desconhecida, na segunda houve um isolamento, na terceira havia uma questão problemática ali na primeira metade do governo Lula e a quarta foi erro de avaliação em relação ao arco de alianças não aprovado pela população. São momentos diferentes. Mas o aprendizado maior na política Fátima obteve na vida parlamentar, que é de fato a grande escola.

Com Wilma de Faria, rivalidade e respeito recíprocos

Fátima e Wilma: adversárias e aliadas a depender das circunstâncias

Entre os políticos potiguares ninguém rivalizou mais com Fátima Bezerra do que a ex-governadora Wilma de Faria. Se a “guerreira” levou a melhor nas duas disputas majoritárias para a prefeitura de Natal, a petista venceu a última batalha, elegendo-se senadora da República numa das eleições mais acirradas da história do Rio Grande do Norte.

 

 

Ex-deputado estadual, Leonardo Arruda acompanhou de perto tanto a trajetória de Wilma como o percurso de Fátima. E pontua que, apesar de adversárias, as duas se respeitavam:

– Se respeitavam e tinham uma admiração muito grande uma pela outra. Eu só acho que houve um equívoco de avaliação em 2014, estava na cara que a chapa que a população queria era Wilma para o governo e Fátima para o Senado.

Arruda lembra que conheceu a Fátima sindicalista e, pouco tempo depois, dividiu o plenário da Assembleia Legislativa com a colega:

– A vida política de Fátima é marcada pelo diálogo, a trajetória dela é de vitória. Uma pessoa que chegou sem estruturas maiores, se fez por ela mesma. Na Assembleia Legislativa, por exemplo, não era do contra por ser do contra. Ela teve uma convivência pacifica com os demais deputadas. Fátima sempre soube ouvir.

Uma parlamentar incansável, avalia Mineiro

Amigo e contemporâneo, Fernando Mineiro destaca a luta incansável de Fátima

Contemporâneo da governadora eleita, Fernando Mineiro acompanha a vida política de Fátima desde a universidade. Os dois também estiveram juntos na direção do Sinte e a partir dali caminharam em paralelo conquistando mandatos, vencendo eleições no parlamento e perdendo disputas para o Executivo municipal.

Ao longo do tempo, especialmente a partir dos ano 1990, Fátima e Mineiro se destacaram de tal forma dos demais parlamentares do PT no Rio Grande do Norte que criou-se uma espécie de rivalidade interna ao ponto da imprensa e de parte da militância mais radical dividir o partido entre o PT de Fátima e o PT de Mineiro, análise que os dois sempre negaram.

Quando Fátima venceu a eleição em 1994 e se tornou a primeira mulher parlamentar do PT no Rio Grande do Norte, Mineiro já era vereador de Natal.

 Olhando para trás e analisando a conjuntura atual, Mineiro defende que não há outro político no Estado com as mesmas qualidades que a companheira de partido:

– Fátima chega ao Governo trazendo na bagagem algo que nenhuma outra governante estadual trouxe. Além de sua origem, traz experiências políticas em duas frentes que em muito a ajudarão a enfrentar os imensos desafios: como liderança sindical e como parlamentar atuante.

Em relação à personalidade da governadora eleita, destaca a determinação:

– O que mais se destaca em Fátima é a sua incansável determinação em alcançar aquilo que se propõe, enfrentando todos os obstáculos.

Dedicação vem da personalidade, aponta amigo e assessor

Fátima Bezerra, Gleisi Hoffman e Vanessa Grazziotini ocuparam mesa do Senado para impedir votação da reforma Trabalhista em 2017

Amigo e assessor de confiança há mais de 20 anos, Adriano Gadelha diz que durante os mandatos de deputada estadual, federal e senadora, mesmo nas discussões sobre os mais diversos temas, Fátima sempre deu um jeito de fazer abordagem pelo viés da Educação.

Fátima foi dirigente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação (Sinte/RN), um dos maiores do Nordeste, onde exerceu vários cargos, inclusive o de Coordenação Geral. Em 1994, se elegeu deputada estadual, sendo reeleita em 1998. No ano de 2002, com 163 mil votos, foi a deputada federal mais votada do Rio Grande do Norte.

Fátima também foi delegada na IV Conferência Mundial sobre a Mulher (Beijing, 1995) e no I e II Fórum Social Mundial (Porto Alegre, 2001 e 2002). Também participou do Encontro Internacional em Solidariedade às Mulheres Cubanas (Havana, 1998).

“O primeiro mandato federal, que começou em 2003, é marcante porque é muito difícil a conquista de um mandato federal. Sempre foi polarizado entre dois grupos, o grupo A elegia 4 e o B mais 4. A eleição dela é um marco porque a gente conseguiu ter um mandato trazido pelo meio popular, de alguém que não participava daqueles grupos tradicionais”, ressalta Adriano Gadelha.

Fátima Bezerra se reelegeu deputada federal em 2006 e em 2010, ano em que recebeu dos potiguares mais de 220 mil votos, novamente a mais votada. A avaliação da atuação nos três mandatos de deputada federal, por parte do povo potiguar, a impulsionaram a disputar o Senado Federal, em 2014. Eleita, tornou-se a primeira senadora de esquerda e de origem popular do Rio Grande do Norte.

Fruto dos movimentos sindicais, a construção coletiva de mandatos de Fátima é um diferencial, aponta Adriano Gadelha.

“Eu acho que essa dedicação tem a ver com a personalidade de Fátima. Ela se dedica 24 horas aos mandatos e a cobrança sobre a assessoria era muito forte, mas ao mesmo tempo conseguia fazer com que cada um de nós nos sentíssemos parlamentares pelas vitórias conquistadas. Cada projeto de lei é uma coisa nova e sonhada no coletivo”, comenta Adriano, ressaltando que tanto nas ações legislativas, quanto nas eleições, propostas e programas são construídos buscando ouvir especialistas, opiniões políticas diversas de filiados ao PT ou não.

“Nos projetos de lei, audiências públicas, na proposição de emendas parlamentares, Fátima é muito incisiva pra que se faça o máximo de consultas possíveis, pra que a ação se torne mais coletiva, por mais que seja dela como deputada ou senadora, sempre foi nessa linha”, conta.

Em sua história política, destaca-se a instituição da região metropolitana de Natal que possibilitou unificação de tarifas públicas, como telefones e transporte público e ainda do percentual legal destinado à meia passagem de estudantes. Fátima também provocou o Poder Executivo para a criação da Lei de Incentivo à Cultura Câmara Cascudo.

Sobre essa lei específica, Adriano Gadelha lembra que o gabinete preparou o projeto de lei, rejeitado pelo então governador Garibaldi Alves Filho.

“Ele vetou alegando que criava despesa e não poderia ser feita pelo parlamento. Mas aí o projeto serviu porque forçou de certa forma o governador a mandar um projeto igual ao de Fátima, já que tinha que ser encaminhado pelo Poder Executivo. E hoje é lei”.

Fundeb, IFRN, transporte escolar e extinção de verba de gabinete para deputados aposentados 

Inauguração do Instituto Federal na Zona Norte de Natal, com presença do ministro da Educação Fernando Haddad

Há vários projetos ou ações importantes realizados pelos mandatos de Fátima. Aliás, foram da área de cultura as duas últimas iniciativas do mandato da governadora eleita no Senado: a criação da comenda de incentivo à cultura Câmara Cascudo e a criação da Lei de Incentivo ao Livro e à Leitura, que institui pela primeira vez na história uma política pública de leitura no Brasil.

Olhando para o retrovisor, um dos primeiros embates de Fátima, ainda na Assembleia Legislativa, foi uma ação popular para acabar com a verba de gabinete que os deputados estaduais aposentados recebiam.

“Como eles eram aposentados e recebiam verba de gabinete? Isso foi uma economia gigantesca na época. O povo do Rio Grande do Norte nem sabia que isso acontecia”, conta o assessor, citando ainda a medida que deu o direito para mães acompanharem crianças internadas em hospitais públicos.

Nas lutas pela educação, Fátima foi relatora Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), defendeu sua permanência e se dedicou com afinco ao programa de expansão das universidades e dos institutos federais. A ela se atribui parte da responsabilidade pelo crescimento do número de unidades do IFRN, que passou de 2 para 21 durante os governos do PT.

A petista também atuou na gestão do programa Caminho da Escola levando aos ministérios relatórios dos municípios que precisavam receber transporte escolar. Em 2010, após dois anos da criação do programa, o governo federal já havia transferido ao Rio Grande do Norte cerca de R$ 24 milhões a 128 municípios do estado para aquisição de 155 ônibus escolares.

Os IFRNs são uma marca dos mandatos de Fátima como deputada federal

Essas e outras ações são marcas da atuação de Fátima e a fazem ser recebida por estudantes em todo o Estado. A relação próxima ao ex-presidente Lula e a defesa pela democracia e direitos sociais também são indissociáveis à imagem dela.

Um dos maiores embates de repercussão internacional ocorreu em 2017, quando Fátima Bezerra (RN), Gleisi Hoffman (PR) e Vanessa Graziottini (PCdoB) ocuparam a mesa do Senado Federal para impedir a votação da Reforma Trabalhista. As parlamentares chegaram a ser ameaçadas de agressão física por alguns colegas, que apelaram para desligar a energia da Casa enquanto as senadoras estiveram na mesa.

Fátima é saudada por colegas e amigos como uma parlamentar adepta do diálogo. Mas o episódio da ocupação da mesa do Senado mostra que até para o diálogo há um limite:

Para uma professora que se tornou parlamentar forjada no movimento sindical, esse limite é claro: o ataque ao direito dos trabalhadores.  

Saiba Mais: Fátima diz que herda “legado dramático” e manda recados na posse

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02 Jan 13:35

Buscando DINOSAURIOS, el MUSEO JURÁSICO de Asturias

by Silvia elmundoconpeques

Hay museos que deberían ser mucho más conocidos. Eso es sin duda lo que pensamos del MUJA, el museo jurásico de Asturias donde poder ver dinosaurios para niños. Los dinosaurios siempre son un reclamo para los más peques aunque a muchos adultos nos gustan igual que a ellos. Pero aún así, si no pensamos en la parte de ocio, ¿porqué deberíamos interesarnos por los dinosaurios?.

Como decía Pablo Neruda, “no olvides que la causa de tu presente es tu pasado así como la causa de tu futuro será tu presente”. Si miramos al pasado los dinosaurios son hoy una lección de historia,  suficiente excusa para disfrutar un gran día rodeados de los más grandes pobladores de la tierra hace millones de años.

Para disfrutar de una visita de lo más completa nos dirigimos a Colunga, muy cerquita de la televisiva Lastres.

Rasa de S. Telmo 33328, Colunga
Tlf 985 868 000 Fax 985 850 044
info@museojurasicoasturias.com

Lat: N 43º 30´6.84"
Long: W 5º16´29.17"

Con un parquing grande y espacioso que cierra fuera de horario (no se puede pernoctar en él) llega la primera de las sorpresas y también de los grandes contenidos de este museo. Todo su exterior está lleno y rodeado de reproducciones a tamaño real de estos habitantes jurásicos. Puedes entrar directamente al museo y pasear después entre las reproducciones pero nosotros no pudimos evitar jugar con ellas. 

Dando de comer a los grandes dinosaurios herbívoros en el MUJA

Dando de comer a los grandes herbívoros

Y decimos jugar porque decidimos que unas réplicas tan perfectas eran ideales para trasladarse a otro tiempo.

Imaginarse que dábamos de comer a los herbívoros y que nos quedábamos congelados por el miedo ante los grandes carnívoros. ¿Qué podía salir mal? nosotros nos divertimos e hicimos reír a unos cuantos visitantes como nosotros aunque luego… bien que replicaron nuestras fotos, señal de que reírse es un mal muy necesario.

Reproducciones reales de dinosaurios en el exterior del MUJA

Reproducciones reales en el exterior del MUJA

Pero volvamos al MUJA. Este museo, con forma de huella tridáctila de dinosaurio tiene en su interior “una de las muestras más completas y didácticas del mundo sobre estos fascinantes reptiles”, tal y como indican en su web. 

Su interior es cálido y espacioso. Lo han conseguido gracias a la madera proveniente de los bosques escandinavos y al respeto por los grandes volúmenes. Sucede en ocasiones que algunos museos, con  mucho que enseñar, no disponen del lugar adecuado. Recorres sus salas sintiéndote invadido por demasiada información. En el museo jurásico de Asturias eso no sucede y recorres sus pasillos con calma, disfrutando de cada enseñanza y leyendo todos sus paneles informativos.

tyranosaurus rex a tamaño real en el MUJA. Los grandes dinosaurios

tyranosaurus rex a tamaño real en el MUJA

Si la razón que nos embarcó a desplazarnos ese fin de semana a Asturias fue visitar a los dinosaurios también lo fue sus talleres para niños. Los niños disfrutan y aprenden en cada viaje pero siempre que añadimos un componente lúdico el aprendizaje es mejor y ellos más felices. Saber que iban a convertirse en paleontólogos en busca de fósiles o que tendrían un guía privado por el museo les emociona a los nuestros y a cualquiera.

Dirigidos a niños de 4 a 11 años el museo propone dos talleres: 

Paleontólogo por un día
Desde la excavación y la extracción de los fósiles hasta su análisis y estudio en el laboratorio, los más pequeños de la casa conocerán el trabajo de un paleontólogo. Buscarán fósiles en unos cajones de arena para después observar sus características e identificar a qué dinosaurio perteneció.
La actividad incluye un recorrido por el Museo.
Conviértete en un paleontólogo
Desde la excavación y la extracción de los fósiles hasta su análisis y estudio en el laboratorio, los más pequeños de la casa conocerán el trabajo de un paleontólogo. Buscarán fósiles en unos cajones de arena para después observar sus características e identificar a qué dinosaurio perteneció.

En el primero de ellos la entrada de visita al museo es obligatoria y en el segundo no lo es. Nuestros hijos disfrutaron de la primera actividad y a pesar de haber ya visitado el museo con nosotros previamente, la visita guiada les resultó muy atractiva. No podemos hacer otra cosa que recomendarla. Además se llevaron a casa una huella de dinosaurio que pudieron reproducir en escayola durante la realización del taller.

Los tyranosaurus rex a tamaño real en el MUJA. Dinosaurios al natural

Los tyranosaurus rex a tamaño real en el MUJA

El interior del museo, con 2000m de espacio muestra la época del Mesozoico y de sus habitantes principales, los dinosaurios. Tal y como detallan en su web. “El recorrido se estructura a través de una secuencia cronológica: partiendo de tiempos anteriores al Mesozoico (Premesozoico), el propio Mesozoico (CretácicoJurásico y Triásico) y las eras posteriores hasta la actualidad (Postmesozoico).”

Esta composición es su exposición permanente pero dependiendo del momento de la visita pueden darse además exposiciones temporales. Para averiguarlo antes de desplazaros os recomendamos comprobarlo en su web. En fechas señaladas como carnavales o navidades presentan además talleres especiales por lo que visitar una y otra vez el museo es siempre una buena idea.

Para familias o para amantes de los dinosaurios no podemos hacer más que recomendar efusivamente una visita al fantástico museo  jurásico de Asturias y visitar los dinosaurios para niños que allí nos encontraremos.

 

 

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31 Dec 13:44

O figurão do ano

by Francisco Seixas da Costa

Vai por aí uma grande indignação pelo facto da redação da RTP ter escolhido Jair Bolsonaro como personalidade ou figura do ano de 2018.

Posso imaginar que, se acaso a escolha tivesse recaído em Xi Ji Ping, nem uma agulha teria bulido na quieta melancolia dos cronistas do burgo. E, no entanto, o líder chinês é um ditador que chefia com mão de ferro um país onde os direitos humanos são uma ficção, a separação de poderes é um conceito inexistente e a democracia é o que não é. Mas, repito, tivesse sido ele o escolhido, nem uma voz se teria ouvido a contestar. Alguém duvida?

A eleição de Bolsonaro representa uma inversão política de 180° no mais importante Estado de língua portuguesa, onde vivem centenas de milhares de portugueses, cuja evolução é também vital para o futuro da CPLP. Um Brasil “ao contrário” pode ditar mudanças drásticas no tecido político da América Latina, uma sua relação privilegiada com a América tutelada por um figura como Trump pode trazer fortes surpresas, em matéria climática e em outras agendas onde, por muitas décadas, a diplomacia do Brasil, com presidentes de colorações bem diferentes, havia relançado a imagem do país. Se a chegada ao poder de uma figura política deste jaez não é a notícia mais relevante surgida na cena internacional nos últimos meses, então não sei qual será.

A personalidade ou figura do ano - a “Time” um dia escolheu Hitler, com toda a razão - não é um “prémio”, não é um reconhecimento valorativo, não é um elogio. Em 2016, Trump foi a Personalidade do Ano em todo o mundo - e não foi por gostarem dele. Assim, trata-se apenas da constatação de um facto: Bolsonaro é a grande “novidade” da política mundial no ano de 2018, goste-se ou não dela. Mais do que a figura, Bolsonaro é mesmo o maior “figurão” do ano!

E, já agora, aproveito para deixar aqui expresso, alto e bom som, que entendo que a informação produzida pela RTP nos últimos anos, com Paulo Dentinho ou agora com Maria Flor Pedroso, com todos os defeitos que possa ter (e tem muitos), está a anos-luz, em matéria de qualidade e equilíbrio, de qualquer dos seus concorrentes, com todo o respeito que alguns me merecem.
21 Dec 13:53

“A Invenção do Nordeste” concorre ao prêmio Shell de Teatro  

by Rafael Duarte

O espetáculo “A Invenção do Nordeste”, do grupo potiguar Carmim e dirigido por Quitéria Kelly, concorre a duas indicações no prêmio Shell de Teatro 2018, a mais tradicional e importante premiação do teatro brasileiro.

A peça disputa nas categorias “autoria”, com Henrique Fontes e Pablo Capistrano, e “direção”, com Quitéria Kelly. O espetáculo é inspirado no livro “A Invenção do Nordeste e outras Artes”, do historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr., colunista da agência Saiba Mais.

Em novembro, “A Invenção do Nordeste” foi escolhido como o melhor espetáculo de 2018 no prêmio Cenym de Teatro, concedido pela Academia de Artes no Teatro do Brasil, e também concorre a outros dois prêmios: o Cesgranrio de Teatro, com melhor cenografia (Mathieu Duvignaud) e melhor adaptação (Pablo Capistrano e Henrique Fontes); e o prêmio do Humor, idealizado pelo ator Fábio Porchat. Nesta premiação, das cinco categorias, o espetáculo concorre em quatro: melhor texto (Henrique Fontes e Pablo Capistrano), melhor direção (Quitéria Kelly), melhor peça (A Invenção do Nordeste) e melhor performance (Mateus Cardoso).

Pelas redes sociais, a atriz e diretora do espetáculo Quitéria Kelly comemorou as indicações e falou da importância de concorrer ao prêmio Shell de teatro, lembrando que a peça é dirigida por uma mulher:

– Pra mim é de fundamental importância essa indicação. Primeiro para que as pessoas/jornalistas entendam que é uma MULHER quem dirige esse espetáculo e parem de creditar aos homens do grupo a direção da peça. E segundi porque é minha primeira direção, iniciei esse trabalho completamente desacreditada, por mim mesma aliás, e essa indicação me dá um fôlego novo.  

O espetáculo

A Invenção do Nordeste é o quarto espetáculo autoral do grupo Carmim. Motivada por uma série de reações xenófobas contra nordestinos durante as eleições presidenciais de 2014, a atriz Quitéria Kelly se debruçou sobre a obra do historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr, autor do livro “A Invenção do Nordeste e outras Artes”.

Aos demais integrantes do grupo Carmim, ela contou sobre o desejo de criar uma peça que contribuísse para a desconstrução da imagem estereotipada do Nordeste e dos nordestinos. E decidiu assinar, pela primeira vez, a direção de um espetáculo.

O processo de pesquisa durou dois anos, quando os dramaturgos Pablo Capistrano e Henrique Fontes escreveram uma auto-ficção onde um diretor é contratado por uma grande produtora para preparar dois atores norte-riograndenses, que disputam o papel de um personagem nordestino. Durante o tempo da preparação, a identidade nordestina entra em cheque.

A peça “A Invenção do Nordeste” propõe desenhar a trajetória hilária e por vezes conflitante da história recente do estabelecimento da região nordeste. Essa unidade sociopolítica e cultural com todas as suas individualidades e também todos os estereótipos alimentados por décadas pela literatura, cinema, música e artes visuais brasileiras

 

 

 

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20 Dec 14:24

Bolsonaro causa incertezas e ameaças às políticas sociais

by admin

A decisão do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), de rever a demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, multiplicou incertezas sobre a agenda social do governo no próximo ano. Há temor quanto a possíveis cortes em programas de transferência de renda, apesar do forte aumento da pobreza durante a crise, e retrocessos no reparo de desigualdades históricas – classificadas por Bolsonaro como “coitadismos”.

Para especialistas, declarações de integrantes da equipe de transição e do próprio presidente eleito indicam que haverá redução do número de beneficiários do programa Bolsa Família, refletindo um “pente-fino” nas famílias que forem consideradas desenquadradas. Também é possível haver restrições no BPC (Benefício de Prestação Continuada), que transfere um salário mínimo a idosos e pessoas com deficiência de renda. Se confirmadas, as mudanças viriam num ano de desafios nada triviais no campo social. A recessão que se prolongou do segundo trimestre de 2014 ao fim de 2016 gerou perdas ao mercado de trabalho, provocando aumento da pobreza e da desigualdade de renda.

O Brasil tem hoje 12,3 milhões de desempregados – 5,6 milhões a mais do que no segundo trimestre de 2014, início da recessão.

Cálculos da FGV Social, realizados a partir de microdados das pesquisas do IBGE, mostram que a pobreza cresceu 33% no país no triênio 2015 a 2017, o que significa 6,3 milhões de novos pobres no período. São agora 23,3 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza no Brasil (considerando uma linha de corte de R$ 233 de renda domiciliar per capita). É mais do que a população do Chile.

Esse aumento da pobreza foi acompanhado de uma piora na distribuição de renda. Dados levantados pela FGV Social mostram que, entre o fim de 2014 e o terceiro trimestre deste ano, o Índice de Gini da renda do trabalho – que varia de zero a um, sendo zero a igualdade perfeita- passou de 0,5636 para 0,5915. Foram 11 trimestres consecutivos de piora em base interanual, algo inédito desde os anos 80.

O programa de governo de Bolsonaro traz pouca luz sobre como esses retrocessos serão enfrentados em 2019. O documento de 81 páginas sugere uma saída liberal para os problemas econômicos. Diz que o desequilíbrio fiscal gera crises, desemprego, inflação e miséria. “As economias de mercado são historicamente o maior instrumento de geração de renda, emprego, prosperidade e inclusão social”, aponta.

Ministro no governo Dilma e especialista em indicadores sociais, Marcelo Neri, diretor da FGV Social, concorda que os dois principais elementos da política social no longo prazo estão associados ao aumento de produtividade e ajuste das contas públicas: “A escolaridade e a renda nos anos bons avançaram muito, mas não a produtividade do trabalhador”, disse Neri. “Nesse ínterim, não podemos nos descuidar dos mais pobres.”

Francisco Ferreira, economista do Banco Mundial, acrescenta que não existe um antagonismo automático entre a agenda liberal pregada pelo novo governo e a expansão dos programas sociais. Para ele, iniciativas liberais não precisam ser feitas ferindo os benefícios desses programas voltados aos mais pobres, a que considera bem focalizados. “É essencial preservar o Bolsa Família”, afirmou o economista, que fica sediado em Washington.

Bolsonaro pode ganhar, contudo, um aliado no combate à pobreza: a recuperação econômica. Se confirmada a aceleração da atividade, com PIB crescendo a 2,5%, o mercado de trabalho tende a seguir em melhora, contribuindo para retirar mais famílias da situação de pobreza. Nas contas da FGV Social, o ciclo eleitoral já pode, inclusive, ter ajudado a iniciar esse processo, com reajustes de benefícios de programas sociais.

“Mesmo se crescermos 2,5% ao ano, vamos demorar uma década e meia para voltar até onde estávamos antes da crise” Esse processo de redução da pobreza será, no entanto, bastante lento ao longo do tempo: “Mesmo se crescermos 2,5% ao ano, vamos demorar uma década e meia para voltar até onde estávamos antes da crise. Em 2030, o Brasil vai estar no mesmo lugar que estava em 2014 se não combatermos o pior tipo de desigualdade, que é aquela associada à pobreza extrema”, disse Neri.

Os discursos de Bolsonaro ao longo da carreira parlamentar são fatores adicionais de preocupação entre especialistas no campo social para o ano que vem. No início desta década, o deputado federal defendeu de forma recorrente a esterilização cirúrgica voluntária – vasectomia ou laqueadura -, especialmente da parcela mais pobre da população. Segundo ele, uma estratégia para combater fome, miséria e violência.

É verdade, contudo, que Bolsonaro abrandou seu discurso durante o período eleitoral. Antes crítico do programa Bolsa Família, passou a defender sua manutenção. A proposta de passar um “pente-fino” no programa é, com os recursos excedentes obtidos, pagar um 13º aos beneficiários. O programa alcança hoje 21% da população. São 14,2 milhões de famílias que recebem o equivalente a R$ 187,32 por mês.

A indicação do deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) para o Ministério da Cidadania, que ficará responsável pelas políticas sociais do governo, também foi vista com certo alívio. Terra esteve à frente da área social do governo Temer de 2016 a 2018. E sua pasta será criada no ano que vem com a fusão dos atuais ministérios do Desenvolvimento Social, Esporte e Cultura.

Maitê Gauto, líder de polícias públicas da Fundação Abrinq, disse que a indicação de Terra foi uma “boa notícia diante do cenário” – afinal, ele tem histórico de atuação no campo. Segundo a especialista, ainda pairam dúvidas, no entanto, sobre a agenda que vai ser adotada a partir do ano que vem. E o motivo para isso são as declarações desencontradas de integrantes da equipe de transição do presidente eleito.

“Da mesma maneira que ouvimos declarações preocupantes, depois ouvimos coisas que [as] contradizem” “Da mesma maneira que ouvimos declarações preocupantes, depois ouvimos coisas que contradizem o que foi dito”, observou ela. “Estamos num momento de transição. É tenso porque, embora muitas declarações tenham sido feitas, o governo ainda não tomou posse. Quando tomar posse, a sociedade terá melhor noção do que vem.”

A fusão dos ministérios de Desenvolvimento Social, Esporte e Cultura é vista com preocupação por Gustavo Ferroni, assessor sênior de políticas e incidência da Oxfam Brasil. Para ele, o governo pode ter menos canais de diálogo para a sociedade levar seus interesses no ano que vem. “É uma população que sempre teve menos acesso ao Estado, como trabalhadores rurais, indígenas, quilombolas”, destacou.

As minorias tendem a perceber de maneira mais clara as mudanças de política do governo em 2019. Bolsonaro alega que esses grupos têm “superpoderes” e deixou claro que não pretende aumentar demarcação de terras indígenas e de quilombolas. A criação da Reserva Raposa Serra do Sol, de 1,7 milhão de hectares localizada no Estado de Roraima, deverá ser revista.

Presidente da ONG Educafro (Educação e Cidadania de Afro-descendentes e Carentes) – que promove a inclusão de negros e pobres nas universidades por meio de bolsas de estudo -, Frei David prevê uma mobilização crescente contra medidas do futuro governo. Ele cita como exemplo a promessa de Bolsonaro de reduzir o número de cotas para negros nas universidades públicas federais.

“O negro individualmente só assume com garra a luta do seu povo quando sofre algo que o choca. Espero que em quatro anos consigamos fazer aquilo que não conseguimos em 40 anos”, disse ele.

Do Valor

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19 Dec 11:51

Carta: Lula lamenta que ‘preconceito do novo governo contra os cubanos tenha sido mais importante que a saúde dos brasileiros’

by Redação
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Foto: Ricardo Stuckert

18/12/2018

 

Em cinco anos, o Mais Médicos possibilitou a fixação de quase 20 mil médicos cubanos em mais de 3.600 municípios do País.

 

Por Redação*

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou carta em agradecimento aos médicos cubanos que estiveram no Brasil durante o programa Mais Médicos, lançado em 2013 durante o governo de Dilma Rousseff. “Eu agradeço aos médicos cubanos que superaram as críticas e preconceitos e nos ensinaram que uma medicina mais humana não só é possível, como é mais eficiente para melhorar os padrões de saúde de nossas comunidades, disse o ex-presidente.

O governo de Cuba anunciou a retirada dos médicos do programa em 14 de novembro desse ano, após declarações do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). “Com referências diretas, malvadas e ameaçadoras à presença dos nossos médicos, (Bolsonaro) tem declarado e reiterado que irá modificar termos e condições do programa, com desrespeito à Organização Panamericana de Saúde e ao combinado por esta com Cuba, ao questionar a preparação dos nossos médicos e condicionar a sua permanência no programa à revalidação do título e como única via a contratação individual”, diz o governo cubano na nota.

Em cinco anos, o Mais Médicos possibilitou a fixação de aproximadamente 20 mil médicos cubanos em mais de 3.600 municípios do País. Mais de 700 municípios tiveram pela primeira vez em sua história um profissional médico.

Confira a carta do ex-presidente na íntegra:

Queridos amigos de Cuba,

A saúde não é um bem, não é uma propriedade privada. A saúde é vida, condição primeira para fazermos qualquer coisa nesse mundo. Os serviços de saúde não podem ser mais um comércio como outro qualquer. E o ofício de quem cuida da saúde dos outros sempre será dos mais belos, sempre será uma missão, um ato de generosidade e carinho por outro ser humano.

No Brasil, os médicos de Cuba foram onde não havia médicos brasileiros. Em muitas comunidades pobres, distantes, de indígenas, que jamais tinham sido assistidas por um profissional da saúde.

Muitos criticaram o governo da presidenta Dilma Rousseff por trazê-los. Seria bom se não precisássemos. Se o Brasil tivesse tantos médicos que eles ocupassem todas as vagas pelo interior e periferias pobres do Brasil. Que bom seria se tivéssemos, como Cuba, médicos até para exportar para outros países! Que coisa bonita uma ilha latino-americana que exporta médicos para o mundo. Muito melhor do que países ricos que exportam soldados e derrubam bombas em comunidades pobres. Cuba exporta vida, carinho, saúde.

Mas não temos tantos médicos. O Brasil foi o último país da América do Sul a ter uma universidade, só em 1922. E isso porque tinham que criar uma para dar um título de doutor para o Rei da Bélgica! Brasil e Cuba viveram séculos de escravidão e exploração colonial. Mas dos dois só Cuba tem médicos para exportar para o mundo.

No Brasil, medicina era curso exclusivo de filho de rico antes do Partido dos Trabalhadores chegar ao governo. O filho do pobre não tinha direito nem de SONHAR em ser médico antes do PT. Criamos cotas para negros e estudantes de escolas públicas nas universidades federais, ampliamos os mecanismos para os jovens poderem estudar em escolas privadas de graça ou pagando poucos juros após fazerem o curso. Abrimos novas universidades, inclusive cursos de medicina, no interior do país. Aumentamos o número de jovens pobres e negros no ensino superior. Quando deram o golpe na democracia em 2016, para tirar o PT do governo, uma das primeiras medidas adotadas foi impedir a criação de novos cursos de medicina no país. Proibir que se ensine mais profissionais de saúde. Um absurdo.

Mas mesmo o governo de Michel Temer, a pedido dos prefeitos das cidades, que sabem a dificuldade que era encontrar médicos para postos de saúde, manteve o Mais Médicos entre 2016 e 2018.

Quando os médicos cubanos chegaram ao Brasil tentaram de todo o jeito desqualificá-los. Mas eles venceram pela qualidade do serviço prestado ao povo brasileiro. Pela dedicação, pela atenção, pelo conhecimento e profissionalismo, pela medicina humana e preventiva que praticam. Ganharam o carinho e a gratidão de milhões de brasileiros, que agora temem voltar a ficar sem a assistência que salvou tantas vidas no Brasil.

Eu lamento que o preconceito do novo governo contra os cubanos tenha sido mais importante que a saúde dos brasileiros que moram em comunidades mais distantes e carentes.

Eu agradeço aos médicos cubanos que superaram as críticas e preconceitos e nos ensinaram que uma medicina mais humana não só é possível, como é mais eficiente para melhorar os padrões de saúde de nossas comunidades. No final os cubanos trocaram experiências e conhecimentos com muitos médicos brasileiros, e chamaram a atenção de todos para a importância da medicina preventiva e da atuação na saúde das famílias.

Por isso quero dizer ao povo de Cuba: tenham muito orgulho dos seus médicos e das suas escolas de medicina. Vocês conquistaram milhões de admiradores, milhões de pessoas gratas no Brasil.

O distrito de Batinga, na cidade de Itanhém, na Bahia, organizou uma passeata com toda a comunidade para se despedir do Doutor Ramon Reyes, que atendeu por anos no local e conquistou a todos. Saíram com faixas agradecendo o bem que esse médico fez e com esperança que ele um dia retorne. Uma homenagem simples e sincera de um povo que recebeu os cuidados atenciosos de um filho de uma ilha distante do Caribe, cercada por décadas por um feroz bloqueio pelo país mais poderoso do planeta, e que, ainda assim, consegue exportar médicos e conhecimento.

Os laços de fraternidade entre os povos são muito mais fortes que o ódio irracional de alguns representantes das elites.

É a lição que os médicos cubanos ensinam em tantos países do mundo e também nos ensinaram no Brasil.

Muchas Gracias,

Luiz Inácio Lula da Silva”

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18 Dec 18:24

The Intercept | Aborto: Questão de sobrevivência

by Redação
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A médica Débora Anhaia de Campos defende que a mulher que decidir interromper uma gravidez fará um aborto, sendo legal ou não.

Foto: Reprodução/Facebook

18/12/2018

Dá para diminuir os perigos de um aborto? Essa médica arriscou a carreira para dizer que sim.

 

Por Amanda Audi e Bruna de Lara, de The Intercept

Essa é a principal sensação de quem bate à porta de Débora Anhaia de Campos. Médica de família, ela ficou conhecida por ajudar mulheres que desejam interromper a gravidez. Primeiro, as pacientes querem tirar dúvidas básicas: “Estou mesmo grávida? De quanto tempo?”. Depois, muitas fazem logo a pergunta que as levou ao consultório: “Como posso abortar?”. Outras, com medo de uma denúncia, guardam o questionamento para si. Foi pensando nelas que Campos decidiu criar um vídeo-manual de redução de danos de abortos.

A médica ainda estava na faculdade quando sua irmã interrompeu uma gravidez e foi deixada sangrando por profissionais de saúde. A experiência em casa e a falta de informações sobre o assunto no curso de medicina, onde, diz ela, o aborto ainda é tabu, a levaram a mergulhar no tema. Quanto mais vulnerável a mulher, diz Campos, maior a chance de recorrer a “métodos inseguros”. Cabides, arames, agulhas de crochê e até soluções de água com soda cáustica ou sabão são usados por mulheres em tentativas de aborto, enumera. Em maio deste ano, Ingriane Barbosatentou interromper uma gravidez colocando um talo de mamona no útero – a mamona é uma planta com propriedades tóxicas, comumente encontrada em jardins. A mulher de 30 anos morreu e deixou órfãos seus três filhos, ainda crianças.

São esses riscos desnecessários à saúde de quem já está decidida a interromper a gravidez que Campos quer ajudar a evitar. Seja num posto de saúde de Londrina, Paraná, ou em seu canal de YouTube, ela faz questão de deixar claro: aborto ainda é crime. Mas, ciente de que isso não impede que meio milhão de brasileiras recorram à prática, a médica fala abertamente sobre o assunto – que, feita de forma insegura pelas mais pobres, negras, adolescentes e periféricas, pode levar à morte.

Na Argentina, as leis restritivas sobre aborto são semelhantes às nossas, mas prestar informações sobre o tema é permitido. Lá, existe até uma rede de voluntárias que ajuda as mulheres a completar um aborto com segurança. Já a legislação brasileira não é clara quanto à divulgação dessas informações – o que levou Campos a sofrer perseguição. Em 2017, Filipe Barros, vereador de Londrina do PRB, denunciou a médica ao Ministério Público do Paraná, ao Ministério Público Federal, ao Conselho Regional de Medicina e à corregedoria do município de Londrina por “apologia ao crime de aborto”. Agora eleito deputado federal pelo PSL, o vereador integra a equipe de transição do governo Bolsonaro justamente no grupo responsável por pensar em políticas para as mulheres, a família e os direitos humanos. O MPPR, o CRM e a corregedoria arquivaram os processos, mas o do MPF continua em andamento. Ela também sofre ataques pelas redes sociais e conta ser menosprezada por colegas de profissão pelo jeito como atua.

Em uma conversa por telefone, Campos falou sobre o manual, o tratamento que as mulheres que abortam recebem nos serviços de saúde e o que cada mulher pode fazer para evitar complicações.

Vale lembrar: Uma ação que pretende descriminalizar o aborto no Brasilaté a 12ª semana de gestação está sendo discutida no Supremo Tribunal Federal. Mas, atualmente, só é permitido por lei o aborto em caso de estupro, risco de vida da mulher ou anencefalia do feto. Ou seja, no Brasil, interromper uma gravidez ainda é crime – que pode ser punido com prisão de um a três anos. Quem facilita um aborto também pode ser condenado à mesma pena.

Você é médica de família há mais de três anos. Já viu casos de mulheres que tiveram problemas de saúde ou morreram por abortos inseguros?

A minha irmã passou por uma situação assim e foi muito maltratada no hospital em que procurou atendimento. Foi feita uma curetagem e não deram a ela medicação para dor. Deixaram ela sangrando e depois mandaram para casa sem encaminhamento para exames, sem pedido de retorno. Eu já estava na graduação nessa época, no sexto ano. Ainda não tinha pensado em fazer Ginecologia e Obstetrícia, que agora quero fazer. Isso mexeu muito comigo. Aí passei a estudar isso. Vi muitas mulheres ao meu redor abortando. Só de você ser médica e feminista, as meninas já vêm pedir ajuda. Eu vi o quanto elas estavam abandonadas à própria sorte. Eu fui estudando e decidi fazer o manual porque já há manuais para sexo seguro e uso de substâncias, porque são assuntos que atingem homens. Na época em que minha irmã passou por isso, não havia acesso a nenhuma informação real e que fosse segura, mesmo buscando muito na internet. O que havia deixava ela ainda mais desorientada. Não havia acesso a documentos do Ministério da Saúde, por exemplo. Na época, minha irmã estava com cerca de 22 anos. Ela ficou bem, mas demorou bastante tempo. Logo depois da curetagem, ela teve hemorragia por 15 dias e não procurou um serviço de saúde por medo de ser maltratada de novo. Psicologicamente ela ficou muito abalada, não tanto pelo aborto, mas mais pela tortura que ela sofreu. Ela fazia psicologia e largou a faculdade. A vida dela acabou. Quando ela foi no serviço de saúde pela primeira vez ela falou que tinha usado remédio para abortar. Depois ela começou a ser xingada, maltratada, falaram que “se sua irmã soubesse ela não deixaria você fazer”. Nem chamaram o médico que estava de plantão. Não pediram exames de sangue, ultrassom. Você tem que encaminhar pelo menos para o posto de saúde para fazer acompanhamento, passar um método contraceptivo. Ela usava método contraceptivo e falhou. Ela engravidou, terminou o relacionamento, o cara comprou o remédio e deixou ela sozinha. Até hoje nunca falei com ela sobre isso. A gente nunca sentou para falar sobre isso. Ela foi muito humilhada.

Você percebe um recorte social dos casos que acompanhou?
As mulheres mais pobres não vão usar o misoprostol [medicação que induz o aborto, recomendada pela Organização Mundial de Saúde], que é o único método seguro. Então, é grande a chance que ocorram complicações, até morte. Nesses casos, são sempre mulheres pobres, negras, adolescentes, periféricas. Quanto mais vulnerável a mulher, maior a chance de usar um método inseguro, como introdução de objetos, substâncias tóxicas.

Você já viu profissionais tratando mal mulheres que chegam ao serviço de saúde com complicações de aborto? Como os profissionais deveriam agir diante desses casos?
Felizmente nunca vi na minha frente. Não conheço nenhuma que tenha procurado atendimento espontaneamente depois de abortar. Elas têm medo de serem presas. Isso só acontece quando o quadro fica muito grave, e aí outra pessoa leva. Os dois casos mais graves que já vi foram assim. Eram negras, pobres, muito jovens. Uma já tinha outro filho, não tinha parceiro, tinha sido abandonada. Fizeram aborto em gestação avançada, de quatro, cinco meses. Uma delas chegou com uma hemorragia muito grave, entrou em choque e quase morreu. A outra foi de Samu [ambulância da prefeitura] pro hospital e não sei o que aconteceu. Nesses casos, eu suspeitei que tinha sido aborto provocado por causa da gravidade do quadro delas. Mas não perguntei, porque pra gente [profissionais de saúde] não importa. Tem que ver o estado da paciente: se ela está com hemorragia, já é muito grave. Caso ela tenha introduzido um objeto ou substância tóxica, pode ter lesionado outros órgãos. Por isso é tão grave. O único jeito de abortar sem provocar infecção interna é com o misoprostol. Nos outros casos, o aborto sempre é causado por causa de uma infecção. Então, é uma roleta russa.

Há algum tipo de treinamento dos profissionais de saúde para lidarem com essas questões?
Não. Durante toda a graduação eu não tive nenhum treinamento sobre como atender mulheres em situação de aborto inseguro. Nos cursos de urgência e emergência nunca vi ninguém abordar essa questão. É um tabu tão grande que ninguém fala sobre isso. Quando acontece, as pessoas simplesmente não sabem o que fazer. Por isso tem gente que chama a polícia. No caso de uma tentativa de suicídio, ninguém pensa em chamar a polícia. Mas numa tentativa de aborto, sim.

No posto de saúde, as mulheres te perguntam sobre formas de abortar ou há medo? Como é essa aproximação?
Muitas perguntam. Já atendi mulheres que estavam com gestação indesejada, manifestando sofrimento. Uma delas disse que não ia prosseguir com a gestação, então tive uma conversa com ela explicando que era crime, mas que, caso realmente decidisse fazer, o único método seguro é o misoprostol. Indico o vídeo que fiz com o manual de redução de danos, digo: “pense bem, não coloque a sua vida em risco”. Tento saber se alguém está pressionando ela a abortar. De qualquer jeito, elas têm muito medo, muitas não perguntam. A maternidade não é incrível para todas as mulheres.

Você disse em entrevista à revista AzMina que, desde que se formou, tem procura diária de mulheres querendo saber sobre aborto. Algum caso te marcou mais?
São tantos casos. Todos me marcaram de alguma forma. Algumas desistiram do aborto. Outras disseram que só queriam falar com alguém sobre isso porque estavam com muito medo. Teve uma menina que o pai a obrigou a abortar. Eu evito ter informações sobre elas, apenas oriento para que elas não coloquem a vida em risco. Como médica, é o que posso fazer.

Conhece outras médicas que atuam assim?
Sim, muitas ativistas, feministas. Principalmente que fazem acompanhamento. Desde só ouvir a mulher que pensa em abortar até acompanhar o processo para ela não ficar sozinha, não correr o risco de passar mal. É um momento muito solitário, e, se a mulher passa mal, ela não consegue pedir ajuda.

Desde a publicação do vídeo, a procura aumentou? Quais as dúvidas mais comuns?
O principal ponto é o desespero. Elas chegam sem saber nada sobre [como abortar]. Digo para assistirem ao manual e respondo se a pessoa ainda tiver alguma dúvida. São dúvidas básicas, como a idade gestacional, se de fato está grávida ou não, ou, se ela já tem o remédio, qual a dose, como usar… Essas coisas. No manual, respondo tudo, não são informações proibidas. O protocolo do misoprostol, do Ministério da Saúde, é público.

Muitas mulheres têm medo de falar sobre o aborto com um profissional de saúde e serem denunciadas. Como é a questão do sigilo médico?
Nós, como médicos, só temos que ouvir e orientar para que não haja um novo abortamento. Para mulheres que já abortaram, há um grande risco de haver outro por falha de método contraceptivo, por exemplo. Mas, sim, tem profissionais que denunciam. Muitos acham que podem ser considerados omissos ou coniventes se não denunciarem, mas não é assim. A gente tem que respeitar a autonomia da mulher sobre o corpo.

Se o profissional denunciar a mulher que abortou, ela ainda tem alguma garantia legal com relação a quebra do sigilo médico?
Ela vai ter que denunciar o profissional no conselho da categoria e entrar com processo contra ele. Mas nunca vi isso acontecer.

Como é a ação do misoprostol no organismo?
A mulher pode ter reações de vômito, diarreia e calafrios dentro da primeira hora. Também vai ter cólica, pode ter sangramento, na hora ou depois de alguns dias. São os efeitos relatados mais comuns. Em algumas horas, os resquícios do remédio são eliminados do corpo.

Como saber quando algo deu errado e é hora de procurar um serviço de saúde?
Se tiver sangramento muito intenso (que encha mais de quatro absorventes em duas horas) e começar a sentir tontura, fraqueza, sensação de desmaio. Se desmaiar ou se tiver febre 24 horas depois de ter usado. Também é importante reparar se há sangramento ou secreção com cor ou cheiro diferentes dos do sangue da menstruação, como cheiro de podre, alguns dias depois. Por fim, se tiver dor que não passe com ibuprofeno.

Na clínica, a mulher é obrigada a responder que fez um aborto?
Não, o paciente nunca é obrigado a falar nada. Ela pode falar só o que está sentindo, por exemplo, dizer que estava grávida e agora está sangrando, com dor e febre. Se houver infecção no útero, nós [os profissionais de saúde] já vamos pensar que talvez ela tenha feito um aborto. Mas o tratamento independe da mulher falar. O médico pode suspeitar, mas isso não quer dizer nada. Não é para fazer diferença no tratamento e na orientação sobre opções de contraceptivos.

O Ministério da Saúde tem uma portaria que regula ações de redução de danos resultantes do uso de drogas. Você acha que o ministério deveria criar ações desse tipo relacionadas ao aborto?
Com certeza. Só não existe redução de danos do aborto porque há o recorte de gênero, se trata de mulheres, e na nossa sociedade não há autonomia da mulher sobre o próprio corpo. Como falar sobre algo que as pessoas tomam como inconcebível? Muitas pessoas acham que a pena da mulher que aborta é a pena de morte. As instituições têm que mudar a cultura dos serviços de saúde e da sociedade sobre as mulheres, entendendo que elas são pessoas de direito.

Como o Brasil poderia reduzir a mortalidade de mulheres causada por procedimentos clandestinos?
Descriminalizando e legalizando o aborto até 12 semanas de gestação. Em alguns países, como a França, é até as 14 semanas. E também colocando essa temática na grade curricular dos cursos de saúde, ou seja, o atendimento humanizado a mulheres em situação de abortamento. Mesmo as que sofrem aborto espontâneo são maltratadas. Já ouvi relatos de pacientes e é sempre do mesmo jeito: se pressupõe que a culpa por perder o bebê é da mulher, mesmo que ela não tenha provocado. Ela tem que ser punida e as pessoas se sentem nesse direito em vez de acolher. Teve uma paciente que perdeu o bebê e não conseguia voltar a trabalhar, estava num processo de luto intenso. Nenhum médico queria dar atestado para ela ficar em repouso. Pela lei, ela tem duas semanas de atestado. Os médicos minimizam, como se não fosse nada, sendo que muitas mulheres que têm o vínculo com a gravidez sofrem como se fosse a morte de um filho já nascido.

A pesquisadora Débora Diniz e a pastora Lusmarina Campos vêm sofrendo uma perseguição dura por conta da defesa da descriminalização do aborto durante a audiência pública, em Brasília, na metade do ano. Você contou à Folha de Londrina que já sofreu ameaças de morte por defender a criação do Dia Municipal de Luta contra a Violência LGBTfóbica. A perseguição e as ameaças se intensificaram depois do vídeo?
Não sei dizer se intensificaram porque a gente acaba se blindando. Mas eu sempre sofro algum tipo de ameaça, xingamento. Em uma audiência pública na Câmara de Londrina me chamaram de assassina de bebês. O vereador que me processou até hoje não tirou do ar os posts que fez contra mim, mesmo sendo processado. Em maio, eu fui seguida e multada, me senti ameaçada porque o policial fez um sinal com a mão que não entendi direito. Ele me seguiu numa situação esquisita, tirou fotos do meu carro. Eu fiquei assustada, denunciei o policial, e o caso está na corregedoria da polícia. De modo geral, eu não sou uma pessoa benquista por pessoas conservadoras. Elas me veem como uma ameaça porque questiono as coisas como estão, a medicina como é feita, os preconceitos perpetuados pela prática médica. Muita gente me odeia por causa disso. Até da minha categoria. Mas também tem muita gente que admira o trabalho e apoia, mesmo que escondido. As pessoas têm medo até de dizer que apoiam. Mas nunca deixei de fazer nada por medo.

Você viu casos de mulheres que desistiram de abortar?
A ONG Safe2Choose recebe cerca de 10 mil pedidos de brasileiras por mês. É um número muito absurdo. São mulheres que não têm com quem contar. Várias já desistiram de abortar depois de a gente conversar, mostrar outras possibilidades. Às vezes elas só precisam de uma conversa honesta, sincera, sem julgamento. Uma delas desistiu de abortar e depois me mandou foto do bebê, disse que estava feliz, que só estava passando por um momento de desespero. Quando se pode falar, se organiza melhor as ideias.

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17 Dec 14:05

MST/RS forma sua primeira turma de engenheiros agrônomos

by admin

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Rio Grande do Sul forma neste sábado (15) a sua primeira turma do Curso de Agronomia com Ênfase em Agroecologia. A colação de grau de 44 formandos será no Assentamento Novo Sarandi, em Sarandi, na região Norte.

O curso de bacharelado é oferecido pelo Instituto Educar, em Pontão, via Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), em parceria com a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Ele tem duração de 5 anos.

Segundo a educadora Salete Campigotto, os recém-formados possuem alta qualidade e contribuirão para uma agricultura sustentável em assentamentos. “As notas mais baixas dos trabalhos de conclusão de curso, avaliados por doutores, foram oito. Quinze receberam nota 10 e 15 já estão publicando artigos. Um trabalho nosso ficou entre os três melhores na Conferência Internacional sobre Agricultura e Alimentação em uma Sociedade Urbanizada, evento que envolveu mais de 30 países e 400 elaborações em Porto Alegre”, diz.

A primeira turma de engenheiros agrônomos reúne trabalhadores acampados, assentados e filhos de assentados de dez estados, além de militantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). A segunda se formará em 2020, e a terceira ingressará em fevereiro de 2019.

Do Sul21

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14 Dec 17:57

5ª denúncia contra José Agripino envolve fantasma e desvio de R$ 600 mil

by Rafael Duarte

Réu em duas ações e alvo de outros dois inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal, o senador José Agripino Maia (DEM) foi denunciado pela 5ª vez nesta quinta-feira (13) pela procuradoria geral da República. Agripino Maia é acusado de nomear e manter um funcionário fantasma em seu gabinete, em Brasília, durante sete anos, o que causou um prejuízo estimado aos cofres públicos de quase R$ 600 mil.

Caso o STF aceite a denúncia, o senador responderá por peculato e participação em organização criminosa. Além dele, também foram denunciados Victor Neves Wanderley e Raimundo Alves Maia Júnior.

O senador negou as acusações e disse que vai provar inocência:

“A acusação que me fazem não é verdadeira. Nunca tive nos quatro mandatos de Senador que exerci nenhum funcionário fantasma no meu gabinete. Asseguro que isso ficará demonstrado na resposta que oferecerei à denuncia”, afirmou.

As investigações da PGR mostraram, no entanto, que Victor Neves Wanderley repassava a remuneração recebida do Senado a Raimundo Alves Maia Júnior, a pessoa que efetivamente prestava serviços ao senador. Como era funcionário da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, Raimundo não poderia assumir função no Senado.

A forma encontrada pelo parlamentar para remunerá-lo foi a nomeação fictícia. A PGR destaca que, ao longo de 84 meses, foram desviados da União quase R$ 600 mil. Além de pedir o ressarcimento desse valor com correção e juros, a PGR requereu indenização por danos morais coletivos em valor equivalente ao dobro do desviado, e a perda da função pública.

Raimundo Alves Maia Júnior ocupava a função de técnico legislativo e hoje é servidor efetivo aposentado da Assembleia Legislativa. Ele recebia, em média, R$ 9 mil de salário líquido. De acordo com o portal da Transparência da ALRN, no mês de novembro de 2015 o vencimento básico de Raimundo Alves foi R$ 5.781. O servidor ainda recebia mais R$ 5.250,85 na rubrica outras vantagens ou verbas indenizatórias. Os descontos chegaram a R$ 2.077,77. A Assessoria de imprensa da ALRN não conseguiu informar se Raimundo trabalhava no gabinete de algum deputado.

Dos R$ 590,6 mil desviados entre 2010 e 2015, ao menos R$ 460,9 mil foram repassados para Raimundo Maia, sua esposa, filha e filho. Do total, R$ 433,8 mil foram transferidos por Wanderley para a conta de Raimundo por meio de transferência bancária; R$ 6,2 mil foram repassados por Wanderley para Ester Emerenciano Maia, esposa de Raimundo Maia; R$ 19,8 mil foram repassados por Wanderley para Gabriella Emerenciano Maia, filha de Raimundo Maia; e R$ 1,1 mil foram repassados por Wanderley para Marcelo Augusto Emerenciano Maia, filho de Raimundo Maia.

Na denúncia, a procuradora-geral destaca que o senador mantém vínculo de amizade antigo com Raimundo Maia. Entre 2012 e 2014, foram identificadas 905 ligações telefônicas entre os dois. A informação é resultado de quebra de sigilo telefônico autorizada pelo STF. No mesmo período, não foi identificado nenhum contato entre o senador Agripino Maia e Victor Neves Wanderley, que ocupava formalmente o cargo de secretário parlamentar. Outro fato mencionado é que Victor Neves Wanderley foi lotado inicialmente no Gabinete da Liderança dos Democratas e, logo no mês seguinte, transferiu a remuneração recebida a Raimundo Alves Maia Junior.

“Esse foi o primeiro ato de peculato da série de 84 crimes”, reforça Raquel Dodge.

As investigações da PGR também constataram que durante o período em que esteve lotado no gabinete de Agripino Maia, Victor Wanderley trabalhou, na verdade, como gerente de uma farmácia em Natal (RN). Ele foi eleito vereador do município de Campo Grande, em 2016,  e admitiu que ocupou um cargo na Assembleia Legislativa, recebendo remuneração mensal de R$ 2.201,72, sem nunca ter trabalhado na Casa.

– “Que por volta de 2010, o depoente solicitou uma ajuda ao Deputado Estadual AGNELO ALVES; o qual nomeou o depoente para uma função na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte; Que o depoente nunca foi na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, apesar de receber a remuneração correspondente; Que a situação perdurou até o final de 2015 ou início de 2016”, disse.

Agripino Maia é réu em duas ações

Alvo de uma operação da Polícia Federal no início da semana que investigava arrecadação de dinheiro ilegal para a campanha presidencial de Aécio Neves (PSDB) em 2014, o senador José Agripino Maia (DEM) já é réu em duas ações e investigado em outros dois inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal sob os números 4399, 4011, 4141 e 4184.

Em uma delas, a PGR acusa o senador de receber R$ 1 milhão em propina para destravar a burocracia e facilitar o andamento das obras de construção da Arena das Dunas. Na outra, ele também foi denunciado por participar de um esquema de corrupção que tentou implantar no Detran do Rio Grande do Norte um projeto de inspeção veicular através de um contrato firmado pelo consórcio Inspar e o Governo do Estado. Segundo a PGR, o senador também teria recebido R$ 1 milhão do esquema.

Após ocupar sucessivos cargos eletivos desde 1978, José Agripino Maia ficará sem mandato a partir de 1º de fevereiro de 2019 e perderá o foro privilegiado, o que deve fazer com que os processos que tramitam contra ele desçam para o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte.

Maia ainda tentou se eleger deputado federal em outubro, mas foi apenas o 10º candidato mais votado, ficando na segunda suplência. Apenas oito deputados foram eleitos.

 

 

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13 Dec 19:04

Marcado para morrer, Padre Amaro resiste na luta pelo direito à terra no Pará. Por Juca Guimarães

by Diario do Centro do Mundo
O Padre Amaro ficou 90 dias preso no Pará.

Publicado originalmente no Brasil de Fato

POR JUCA GUIMARÃES

No Brasil, um homem está marcado para morrer porque acredita nos ideais de igualdade, amor e respeito entre as pessoas. Por esses motivos, Padre Amaro ficou preso mais de 90 dias e vive sob ameaça de assassinato na região de Anapu, no Pará, no médio Xingu, região Norte do Brasil.

Padre José Amaro Lopes de Souza é um religioso que defende a divisão das terras para a agricultura familiar e a preservação das florestas como um contraponto ao processo exploratório dos grandes latifúndios de plantação de soja e de pasto para o gado, produzindo apenas para a exportação e o aumento das fortunas dos fazendeiros, como explica o próprio Padre.

Desde meados dos anos 1990, quando conheceu a missionária americana Dorothy Stang, uma das principais lideranças da luta pela terra para os camponeses e a preservação da floresta, padre Amaro atua na Comissão Pastoral da Terra (CPT) em um conflito constante com fazendeiros e madeireiros. Dorothy, foi assassinada no dia 12 de fevereiro de 2005 aos 73 anos com seis tiros disparados por pistoleiros contratados por fazendeiros da região. Sua cabeça valia R$ 50 mil na época; a de Amaro R$ 25 mil.

Em 2018, padre Amaro foi acusado e preso num processo considerado controverso. A denúncia contra o padre foi feita por fazendeiros da região, e é considerada por muitos uma perseguição política para impedir a luta pela reforma agrária no município em que atua. Padre Amaro foi declarado inimigo de fazendeiros e madeireiros por ser uma das maiores liderança na luta pela terra em Anapu.

O religioso ficou em uma pequena cela no presídio de Altamira, entre 27 de março e 29 de julho. Mesmo atrás das grades, as ameaças continuaram e, segundo o padre, os latifundiários estavam esperando o pretexto de uma rebelião na cadeia para encomendar a sua morte.

Neste período, dois habeas corpus foram negados pela Justiça do Estado e o religioso só foi solto, como medida provisória, quando o caso chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Enquanto estava preso, padre Amaro viu em uma pequena televisão as notícias da prisão do ex-presidente Lula, no dia 7 de abril, também sem provas. “Eu chorei. Eu sabia que era uma liderança popular sendo presa, dentro do esquema do golpe, para que não pudesse concorrer às eleições presidenciais”, relembra o padre.

Nos 13 anos entre a morte da missionária e a prisão do padre sem provas, o conflito por terra no Pará agravou. “A ordem é limpar tudo. Queimar e passar por cima de tudo, plantação, escola e pessoas”, disse.

Neste cenário, que tem a tendência de piorar com a ultra-direita no governo federal, padre Amaro ensina que é o momento de se unir nas lutas populares e resistir.

Padre Amaro esteve em São Paulo no dia 5 de dezembro para receber um prêmio da ONG Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, pela sua luta em defesa das comunidades camponesas, e falou com o Brasil de Fato. No evento, foi lançado o livro Direitos Humanos no Brasil 2018.  A vereadora Marielle Franco, assassinada no início do ano e cujo crime ainda não foi solucionado, também foi homenageada.

Brasil de Fato: Qual é a origem da disputa pela terra no Pará?

Padre Amaro: As terras são terras públicas da União. No processo de colonização da Transamazônica, foi criada uma área de PIC [Projetos Integrados de Colonização] que abrange seis quilômetros a partir da faixa onde iriam viver os trabalhadores. Depois iriam ser separadas as grandes áreas. Foram feitas licitações e se, em cinco anos, o licitante não cumprisse o contrato, as terras voltariam para a União. Foi o que aconteceu.

Muitos fazendeiros do Sul do país compraram essas terras, onde já tinha a ocupação de trabalhadores. Com os projetos de desenvolvimento da região, como Belo Monte, muitos trabalhadores foram para a região. Quando os fazendeiros chegaram, ele tiraram os trabalhadores a pontapés, matando e queimando.

Como é a dinâmica de trabalho dos agricultores que foram trabalhar na região e estavam lá antes dos fazendeiros?

Você tem lotes de dez alqueires e só pode desmatar 20%. Os 80% é da reserva [mata nativa]. Os pequenos agricultores preservam a floresta. Já os grandes fazendeiros consideram isso um atraso para o desenvolvimento da região. Porque o que eles querem é derrubar e jogar pasto para criar muito gado.

E para onde vai essa produção de carne de gado?

Para exportação. O pequeno produz o cacau, o milho, a mandioca, o arroz, a pimenta do reino. E algumas fazendas usam um pedacinho para criar uma vaca de leite. Ele tem aquela terra para trabalhar a vida toda. Já o grande [fazendeiro] quer aquela terra para explorar e não fica renda nenhuma ali no município. Vai toda para fora.

E como se dá a expulsão dos agricultores da terra?

Eles querem tirar e eles tiram. Para nós, no Norte, parece que é um Estado sem lei. A impunidade mata e desmata. Eles dizem que vão limpar a área. E para limpar a área vale tudo. Matando, queimando, derrubando casa. Mesmo se a ação está na Justiça, eles nem esperam a tramitação final e vão agindo pela força. Eles têm poder, contratam pistoleiros, têm dinheiro. Eles passam por cima do pequeno e da pequena como se fossem coisas que não existem.

Como é a atuação da CPT na região e quais as acusações contra vocês?

A Comissão Pastoral da Terra dá assessoria aos trabalhadores e trabalhadoras. A CPT tem advogados, a gente ensina, encaminha os agricultores para a Defensoria Pública ou o Ministério Público Federal. Com isso, eles [os fazendeiros] têm raiva. Eles dizem que a gente incita o que eles chamam de “invasão”, mas é ocupação de terras públicas.

Como era sua amizade com a missionária Dorothy Stang?

Conheci ela em 1989, em Belém. Ela convidou alguns jovens para fazer uma missão na área e nós fomos. O bispo aceitou a gente e começamos a trabalhar e a estudar em Belém. Em 1998, eu fui ordenado padre em Anapu (PA). Em dezembro de 1998, o bispo elevou para a categoria de paróquia e eu fiquei ali. Tive a graça de trabalhar com a Dorothy por 15 anos. Quando a conheci, ela já fazia parte da CPT.

E qual era a principal luta de Dorothy?

A luta dela é que com a técnica você pudesse trabalhar na área de uma forma sustentável. Para criar os filhos e netos em harmonia com a terra e a natureza. Como tudo estava sendo devorado [pelos fazendeiros], ela entrou com a criação de dois PDS (Projeto de Desenvolvimento Sustentável), que ficaram conhecidos como PDS Virola-Jatobá e PDS Esperança. Isso gerou uma raiva no meio dos fazendeiros e alguns setores dos madeireiros. Para calar e acabar com os PDS, eles mataram a Dorothy. Criaram um consórcio e mandaram matar no dia 12 de fevereiro de 2005.

O assassinato da missionária teve a mesma motivação do plano de difamação contra o senhor e que acabou em prisão. Como foi isso?

Eu estava em casa. O padre Bento que estava vindo de outra cidade me pediu para ir buscá-lo no terminal. Levantei, deixei o portão aberto e fui para o terminal. Quando cheguei tinha seis viaturas atrás de mim. E falaram que tinha um mandado de prisão contra mim. Eu disse que queria ler antes lá na minha casa. Entrei no carro, não fui algemado, e lá disseram que queriam arma, dinheiro, celular e o computador do CPT. Eu li a acusação e tinha coisas terríveis. Foi rápido. Me trouxeram para Altamira e fizeram os procedimentos e me levaram para o centro de detenção. Fiquei 92 dias lá.

Como foi a sua soltura? Teve dois pedidos de habeas corpus negados?

As duas vezes que pediram para a Justiça do Estado negaram. Na terceira, que foi lá no Supremo, foi concedido.

No período em que o senhor estava preso no Pará também prenderam o ex-presidente  Lula. Como foi a sua reação?

A minha reação foi terrível. A gente sabe da inocência de Lula. Sabe que foi golpe. Prenderam ele para que não pudesse concorrer à Presidência, para que não pudesse fazer mais nada pelos pobres. O golpe primeiro foi contra a Dilma e depois contra ele. Na celazinha, tinha uma televisão, quando eu vi aquilo, não fiz outra coisa a não ser chorar. Mais um companheiro que estava sendo preso injustamente. Foi uma dor muito forte no meu coração.

A prisão injusta e essa perseguição contra o senhor gera uma sensação de medo na região?

Não só na região, mas a toda entidade que luta por terra e por direitos. Uma das acusações é que eu não faço outra coisa senão defender bandido. Mas são trabalhadores e trabalhadoras rurais. Se eu fiz algum mal, esse mal foi tentar colocar o alimento na boca do trabalhador e trabalhadora e ajudar ele a conquistar um pedacinho de terra.

Após o golpe de 2016, da luta pela terra ficou mais acirrada. Notou alguma mudança no Judiciário também?

A situação política mudou. Em algumas glebas o pessoal está lá há mais de 20 anos e que agora, depois do golpe e da eleição deste moço [Jair Bolsonaro] que vai assumir a presidência, já teve audiência preliminar, já teve vistoria e o juiz já marcou de ir lá de novo. A gente fica muito preocupado com isso. Lá já foi queimada escola. Impediram de chegar energia elétrica. Não deixaram fazer uma estrada.

O senhor pediu algum tipo de proteção da Justiça após a morte da Dorothy?

Quando a Dorothy foi morta mandaram chamar a gente, os presidentes de sindicatos, os trabalhadores e fizeram várias reuniões. Nós percebemos que era para fazer a proteção de testemunha só para o padre e as irmãs. A gente não aceitou porque a gente não aceitava este tipo de segurança se o nosso povo continuasse inseguro. Era muito cômodo um padre, as irmãs e algumas lideranças ter segurança enquanto todo uma região estava insegura.

13 Dec 13:08

A ex-mulher de Bolsonaro já tinha dado a letra do samba. Agora só não investiga se não quiser. Por Donato

by Mauro Donato
Ana Cristina Valle, ex-mulher de Jair Bolsonaro – Reproducão Facebook

Especialistas em contabilidade e em análise de lavagem de dinheiro ouvidos pelo DCM apontam que a evolução patrimonial da família Bolsonaro pode ser fruto de operação ‘caixinha’, como é conhecida a prática de tomar de volta uma parte – ou até a totalidade – do salário de funcionários do gabinete parlamentar.

O escândalo veio à tona após o Coaf detectar uma movimentação de R$ 1,2 milhão do ex-assessor e motorista de Flávio Bolsonaro. Fabrício Queiroz era o receptor de fração dos vencimentos dos demais colegas da Assembleia Legislativa do Rio e, no dia seguinte, fazia saques. Tanto os créditos como os débitos eram feito em dinheiro vivo. Fabrício Queiroz é amigo de longa data da família Bolsonaro.

A luz amarela já tinha piscado faz tempo. A última ex-mulher de Jair Bolsonaro declarou que o futuro presidente sonegava informações ao Imposto de Renda e ocultava patrimônio. Segundo Ana Cristina Valle, Bolsonaro declarava possuir apenas R$ 433,9 mil quando na verdade havia deixado três casas, um apartamento, uma sala comercial e cinco lotes de fora da declaração.

Ana Cristina também afirmou na ocasião que a renda de Bolsonaro era de cerca de R$ 100 mil, sendo que, à época, o salário do deputado era de R$ 26,7 mil e como militar da reserva recebia mais R$ 8,6 mil. Como a renda chegava a R$ 100 mil? A ex-cônjuge disse que o ex-marido recebia “outros proventos”, sem nunca especificar quais seriam.

A luz já deveria ter mudado de amarela para vermelha neste ponto para os órgãos fiscalizadores (e estávamos em 2006). Bolsonaro nunca teve outra atividade rentável – desde 1988 – além da política. Que ‘outros proventos’?

Como diziam os detetives franceses: ‘Cherchez la femme!’ Ela já tinha cantado a bola.

Naquele longínquo ano de 1988, eleito pela primeira vez, Jair Bolsonaro declarou possuir um Fiat Panorama, uma moto e dois lotes de pequeno valor em Resende (pequenos mesmo, coisa de R$ 10 mil cada um em valores de hoje). No entanto, exercendo somente a profissão de ‘político do baixo clero’ desde então, hoje Bolsonaro tem um patrimônio estimado em mais de R$ 7 milhões (ainda que para a Justiça Eleitoral ele tenha declarado possuir um patrimônio de R$ 2,287 milhões).

Quando consideramos o total de bens de Jair & Filhos (só os 3 que cumprem mandato), temos um volume de 13 imóveis, brinquedinhos como jet-ski, carros que valem mais de R$ 105 mil, além de aplicações financeiras. Todo esse ‘Neverland” atinge mais R$ 17 milhões. Só os imóveis, cuja maioria está em pontos valorizados, são estimados em R$ 15 milhões em valor de mercado.

Já no papel, Bolsonaro sempre conta outra história. 

A casa onde vive, por exemplo, num condomínio de luxo, à beira-mar, na Barra da Tijuca. O capitão declara ter pago R$ 400 mil por ela, em 2009, sendo que a própria prefeitura do Rio avaliava, na época, em algo como R$ 1,06 milhão um imóvel daquele. O caso é folclórico e já chamava atenção. A ex proprietária havia comprado o imóvel por R$ 580 mil e apenas 4 meses depois vendeu a Bolsonaro por R$ 180 mil a menos!! Nem se fosse mãe de Bolsonaro o desconto seria tão generoso.

Lançar na escritura um valor abaixo do real é bastante comum, infelizmente, e tem por objetivo ocultar uma evolução patrimonial incompatível com seus rendimentos.

Nosso futuro e honesto presidente tem pelo menos um outro imóvel nas mesmas condições. Ele declara ter adquirido por R$ 500 mil, um imóvel que era avaliado em R$ 2,2 milhões em 2012.

E Jair fez escola. Eduardo Bolsonaro, o zero três, desde a primeira vez que foi eleito deputado em 2014, aumentou seu patrimônio em 432% . Mais de 400% em 4 anos! Será isso que militares chamam de milagre econômico?

Não, como mencionado lá no início deste artigo, o milagre pode estar no ‘caixinha’.

Fazendo conta em papel de pão, o total de todos os salários recebidos por Bolsonaro pai mais os filhos zero um, zero dois e zero três, perfaz algo na casa dos R$ 15 milhões de patrimônio. “Opa, então está esclarecido, o patrimônio é compatível”. 

Não, caro leitor. Para se chegar aos R$ 15 milhões, Jair & Filhos precisariam ter juntado todo o dinheiro recebido, sem gastarem um centavo – durante décadas – com alimentação, água, luz, telefone, roupas…

Nem faquir consegue.

É aí que entra o repasse do caixinha. As despesas do dia a dia são pagas em cash, com os pingadinhos de R$ 5 mil, R$ 10 mil, entregues na ‘pacoteira’ do Queiroz.

De onde vem a grana?

“No último dia útil do mês é creditado na conta dos funcionários, de todo o funcionalismo da Assembleia, o salário líquido. No primeiro dia útil, subsequente, essas pessoas traziam os valores e entregavam a mim. E eu, naturalmente, passava ao deputado esses valores”. Não parece o PM Fabrício Queiroz depondo? Acalme-se, Queiroz continua mudo e desaparecido.

A fala acima é de 2015. Neuromar Gatto era chefe de gabinete do deputado estadual Diógenes Basegio, do PDT, e entregou o esquema. Segundo ele, Basegio tirava até R$ 800 mil só de caixinha de devolução de funcionários, entre eles alguns fantasmas.

Este é só um de inúmeros exemplos de caixinha, das ‘velhas práticas’ que Bolsonaro arrotava não fazer parte. Foram 27 anos de ostracismo na Câmara e uma evolução patrimonial impressionante. A maneira como tudo isso foi possível precisa ser investigada, mas os indícios (aspectos que tanto agradam alguém como Sergio Moro) estavam expostos faz muito tempo. Bastava terem dado atenção ao que disse a ex-esposa quando precisou deixar o país por estar ameaçada de morte.

12 Dec 12:37

Militares torram dinheiro público em viagens internacionais durante intervenção de Temer

by admin

Do total de R$ 1,2 bilhão repassado pela União à intervenção federal na segurança pública do Rio, só R$ 468 milhões foram gastos até agora. Embora o detalhamento do uso da verba não tenha sido apresentado nesta terça-feira pelos generais Richard Nunes e Braga Netto, O GLOBO teve acesso à planilha de despesas.

Entre elas, estão, por exemplo, R$ 362 mil destinados ao pagamento de diárias (hospedagem e alimentação) no exterior, além de R$ 85 mil consumidos com passagens aéreas para outros países. Também houve compra de softwares e veículos blindados.

De acordo com a assessoria de imprensa da intervenção militar, as viagens foram realizadas para “a realização de cursos de manutenção e operação das viaturas Lince”. Não foram informados, porém, os países visitados, quantas pessoas integraram as comitivas e a duração das viagens. Na lista de gastos obtida pela reportagem, constam R$ 15,8 milhões sob a rubrica “carros de combate”.

Veículo blindado de fabricação italiana considerado leve e potente, o Lince, que tem tração nas quatro rodas, conta com duas metralhadoras acopladas . O modelo foi utilizado pela primeira vez nesta terça-feira, em uma megaoperação das forças de segurança em 13 comunidades do Rio. Segundo o Comando Militar do Leste, a previsão é que “as viaturas permaneçam equipando unidades do CML, dado o histórico de acionamentos em GLO (Garantia da Lei e da Ordem) no Rio de Janeiro e a aptidão que essa viatura tem para o emprego em áreas de comunidades, onde geralmente os espaços de manobra são reduzidos e há grandes adensamentos populacionais”.

Do O Globo

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12 Dec 11:36

Eleitos pelo PSL no RN se esquivam sobre escândalo dos Bolsonaro

by Isabela Santos

O primeiro escândalo de repercussão nacional envolvendo a família Bolsonaro antes mesmo da posse do futuro presidente da República não foi suficiente para alterar o humor dos representantes eleitos pelo PSL no Rio Grande do Norte. Tanto o deputado federal eleito Eliser Girão (general Girão) como deputado estadual eleito André de Azevedo (coronel Azevedo) preferiram não se posicionar sobre as movimentações financeiras suspeitas na conta do ex-motorista do deputado estadual Flávio Bolsonaro, apontadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF).

O general Girão e o coronel Azevedo foram os únicos parlamentares eleitos pelo PSL no Rio Grande do Norte nas eleições de outubro de 2018.

De acordo com o COAF, Fabrício José Carlos de Queiroz movimentou aproximadamente R$ 1,2 milhão entre 1º de janeiro de 2016 e 31 de janeiro de 2017, o que chamou a atenção do Conselho. Ele é servidor da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e tem renda mensal de R$ 23 mil. O jornal O Globo publicou nesta terça-feira que Fabrício, ex-policial militar, mora numa casa simples na zona Oeste do Rio.

Outro fato que chama a atenção da Receita Federal é que os saques realizados pelo ex-auxiliar de Flávio Bolsonaro ocorriam, geralmente, nos dias seguintes aos depósitos realizados na conta dele, o que segundo especialistas configuraria uma conta de passagem de dinheiro.

Procurado pela agência Saiba Mais, o coronel Azevedo acredita que é ”prematuro fazer julgamentos” sobre o caso e que as denúncias não colocam sob suspeita a índole do presidente eleito Jair Bolsonaro. Já o general Girão, eleito deputado federal, foi mais econômico nas palavras e disse que está aguardando novos fatos e acredita que por ora “as respostas já foram dadas pelo presidente Bolsonaro”.

General Girão foi o único deputado federal eleito pelo PSL no RN e acha que Bolsonaro já respondeu

“Acho que todo cidadão, independente de ser do PSL ou não, espera que se apure a verdade. O tempo vai apresentar os fatos e as provas. A gente não pode se precipitar e pré-julgar ninguém. Então vamos aguardar”, disse Coronel Azevedo, ao mencionar que acredita que o próprio Bolsonaro quer que se apure a verdade.

Sete ex-assessores do deputado Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente eleito, fizeram depósitos na conta do ex-motorista Fabrício José Carlos de Queiroz, que chegou a depositar R$ 24 mil na conta da futura primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

Fabrício movimentou um total de R$ 1.236.838 entre 1º de janeiro de 2016 e 31 de janeiro de 2017, valor considerado suspeito pelo conselho.

O relatório do Coaf apresenta movimentações financeiras de servidores e ex-servidores da Assembleia Legislativa do Rio e de pessoas relacionadas a eles que, segundo a investigação, são incompatíveis com a capacidade financeira dos citados.

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11 Dec 17:46

IFRN oferece primeiro doutorado em Educação Profissional da Rede Federal

by Virginia Vieira

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), divulgou, na última quinta-feira (6), a autorização de funcionamento do curso de Doutorado Acadêmico do Programa de Pós-Graduação em Educação Profissional (PPGEP) do Campus Natal-Central do IFRN. Além de ser o primeiro curso de doutorado do IFRN, a instituição é a primeira da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica do país a oferecer doutorado em Educação. A conquista, que marca uma nova etapa no que se refere à pós-graduação da Instituição, começou a ser construída ainda na fase de implementação do mestrado.

O coordenador do PPGEP, professor José Mateus do Nascimento, celebra o privilégio de estar fazendo parte dessa história de pioneirismo. “É uma conquista, e a gente fica muito feliz porque começa pelo IFRN que, para o Brasil, sempre esteve na vanguarda de muita coisa”, afirmou. O professor ressaltou que em meados dos anos 90, o Instituto esteve a frente nos cursos de Licenciaturas, ainda na época do Cefet [Centro Federal de Educação Tecnológica]. “Nosso programa político pedagógico, por exemplo, que discute a formação humana em sua dimensão integral, por sua coerência teórica e curricular, termina sendo referência para os demais IFs”, diz.

Já o reitor do IFRN, Wyllys Abel Farkatt Tabosa, destacou o marco histórico da aprovação: “a instituição recebe com imensa alegria e satisfação a notícia da aprovação do primeiro Doutorado do IFRN, bem como do primeiro Doutorado em Educação Profissional na Rede Federal do Brasil. Isso representa mais um marco histórico para a nossa instituição. Estão de parabéns os professores pesquisadores, gestores, técnicos e egressos do Programa que, com determinação e engajamento, se imbuíram da responsabilidade de aprovar mais essa oferta curricular, tornando possível a completude do ciclo de verticalização acadêmica em nossa cultura institucional”, disse.

 

Avaliação

O corpo docente da PPGEP, entre os meses de fevereiro a junho de 2018, construiu o projeto de implementação do Programa de Doutorado. Em junho, o projeto foi submetido à avaliação. “De forma inédita, o resultado não saiu, e então veio um pedido de diligência. Solicitaram uma visita in loco, a ser realizada com o intuito de avaliar a Instituição, professores e alunos”, contou, ainda, o coordenador do programa.

Após a solicitação, nos dias 3 e 4 de setembro de 2018, os avaliadores da Capes vieram ao IFRN e conheceram de perto a Instituição, tanto no que se refere à infraestrutura, como também aos corpos docente e discente: “Os avaliadores vieram analisar todos os elementos: infraestrutura, corpo docente, corpo discente e dialogar com a gestão. Houve, então, reuniões na Reitoria, com o reitor e pró-reitores, para perceber inclusive o nível de apoio que a Instituição dá ao programa. Eles visitaram bibliotecas, a própria Diretoria Acadêmica (Diac), laboratórios de informática e saíram com boas impressões”, disse José Mateus. Após a visita técnica, o projeto foi encaminhado então para a outra instância de avaliadores: o Conselho Técnico e Científico da Capes (CTC).

De acordo com o coordenador, a previsão é que a abertura da seleção não demore: “Vai haver uma reunião do colegiado, a perspectiva é que se abra um edital de seleção em dezembro ou janeiro, com processo seletivo até abril. Há uma expectativa de ingresso para primeira turma em 2019.1”, finalizou.

 

Fonte: Reitoria

11 Dec 17:29

Escola Sem Partido é derrotado em comissão e tem de recomeçar do zero

by Luiz Carlos Azenha
11 Dec 13:46

O Globo localiza casa de motorista de Flávio Bolsonaro: não parece ser de quem movimenta R$ 1,2 milhão em um ano

by Luiz Carlos Azenha

Da Redação Os repórteres Juliana Castro e Igor Mello, de O Globo, localizaram a casa onde vive o ex-motorista do então deputado e agora senador eleito Flávio Bolsonaro. Fica Taquara, na zona Oeste do Rio de Janeiro, e parece bem simples. O Conselho de Controle das Atividades Financeiras, COAF, ao investigar assessores da Assembleia Legislativa […]

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10 Dec 20:02

Comenda Câmara Cascudo celebra povo brasileiro no Senado

by Rafael Duarte

O cordelista potiguar Antônio Francisco e o rabequeiro alagoano Nelson da Rabeca foram os primeiros artistas do país a receber, no plenário do Senado Federal, a Comenda de Incentivo à Cultura Luís da Câmara Cascudo. A lista de agraciados foi maior, mas Antônio e Nelson representam a raiz do prêmio idealizado pela senadora Fátima Bezerra (PT) e concedido pelo Senado nesta segunda-feira (10).

A partir de agora, a comenda será entregue anualmente a personalidades da cultura brasileira. Os premiados de cada ano serão definidos por uma comissão de senadores.

Em 2018, primeiro ano da premiação, também receberam a comenda o ex-presidente da Agência Nacional de Cinema (Ancine) Nilson Rodrigues da Fonseca, o ator Pedro Baião, além de duas instituições: Câmara Brasileira do Livro e o Museu da Gente Sergipana. Também foram homenageados, in memorian, o baiano Romualdo Rosário da Costa (Mô do Katendê), o gaúcho João Carlos D’ Ávila Paixão Côrtes e o folclorista potiguar Deífilo Gurgel, cujo filho Carlos Gurgel agradeceu lembrando a trajetória do pai.

A entrega da comenda foi marcada por manifestações de protesto contra a já anunciada extinção do Ministério da Cultura. Uma do senador Paulo Paim (PT/RS), que citou o historiador Luiz Antônio Simas e destacou que o MinC é do povo brasileiro, e outra do ex-presidente da Ancine Nilson Rodrigues da Fonseca, que comparou a situação do MinC no futuro governo Bolsonaro com a extinção da Embrafilme, no governo Collor :

– Cascudo foi um dos primeiros historiadores do país a descobrir a diversidade da nossa cultura. E existe uma preocupação com a extrema gravidade da extinção do MinC. Não há país desenvolvido sem política pública que compreenda a riqueza do seu país. Lembremos quando o MinC foi extinto a última vez, em 1990, e só foi retomado quando o então presidente Itamar Franco viu como foi grave destruir suas instituições que fomentam e apoiam a cultura. Isso é muito grave. Que os senhores senadores aqui lutem contra a extinção do MinC porque a cultura mede o grau de civilidade de uma nação.

O cordelista potiguar Antônio Francisco agradeceu a homenagem em versos

Luís da Câmara Cascudo foi representado pela neta Daliana Cascudo, diretora do Instituto Ludovicus, entidade que concentra o maior acervo de Câmara Cascudo no Brasil. Ela contou histórias sobre a tentativa do avô de entrar para a política e ressaltou o legado dele, uma das maiores referências do país na área da cultura:

– “Essa comenda simboliza com fidedignidade seu objetivo. Nas palavras de Cascudo, cultura popular é básica, de uma sabedoria infinita. É uma mistura de constatações no tempo e no espaço. Todas as outras culturas são acessórias, a cultura popular é a principal. O Brasil sempre foi sua paixão e seu maior foco de estudo. Cascudo encantou-se há 32 anos, mas sua obra permanece viva. E a iniciativa da senadora Fátima Bezerra contribui de forma inequívoca para eternizar o nome de Luís da Câmara Cascudo”, disse.

O cordelista Antônio Francisco e o rabequeiro Nelson da Rabeca agradeceram a homenagem recitando poesia e tocando no púlpito do Senado. O alagoano, inclusive, lembrou que aprendeu a tocar aos 54 anos de idade, e hoje, aos 76 anos, fabrica o próprio instrumento:

– “Hoje eu vendo a rabeca para o mundo todo. Toquei muito Luiz Gonzaga. Aos poucos fui deixando as músicas dos outros e passei a tocar minhas próprias músicas”, contou.

O ator Pedro Baião, que tem síndrome de down e foi indicado a receber o prêmio pelo senador Romário (Solidariedade/RJ), agradeceu a homenagem e reivindicou mais acesso à cultura no país:

– “Estou muito feliz de estar aqui. Se você tem um sonho, lute por ele. Sem cultura nós não vamos a lugar nenhum. É com cultura que temos que enfrentar essa batalha. Temos que ter mais cinema, mais livros, incentivar a população a ler e a pensar mais. Nossa situação é grave sim, mas temos que dar a volta por cima. Temos que lutar para viver e aprender como a vida é “, afirmou.

Povo brasileiro

Idealizadora da Comenda, a senadora Fátima Bezerra presidiu a sessão e destacou a importância de Luís da Câmara Cascudo para o país.

A matéria-prima do trabalho de Cascudo era o povo brasileiro. Ele estudava o homem a partir de sua história, das diferentes origens, dos romances, das poesias e, principalmente, do folclore. Não poderia deixar de registrar o imenso orgulho que tenho, na condição de representante do povo potiguar, de ter sido a autora do projeto de resolução que instituiu essa comenda no âmbito do Senado Federal, essa comenda que de maneira muito simbólica tem o nome de Luís da Câmara Cascudo.

Fátima Bezerra, que deixa o senado em 31 de dezembro para assumir a partir de janeiro o Governo do Estado, encerrou a premiação criticando o movimento Escola Sem Partido:

– Esse projeto Escola Sem Partido, no fundo, é a escola com mordaça. São ideias esquisitas de pessoas que querem restringir a liberdade de ensinar e de aprender, que querem interditar o debate que deve ser realizado. É um projeto que quer criminalizar o papel dos professores. Então, diante desses tempos, é muito bom falar de Cascudo. Por isso é muito bom ter aqui todas e todos vocês que merecidamente estão recebendo hoje que é a comenda Luís da Câmara Cascudo.

Cascudo

Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) nasceu em Natal (RN) e dedicou a vida aos estudos da história, da cultura e do folclore brasileiros. Como escritor, publicou mais de 200 livros, entre elas “Antologia do Folclore Brasileiro” (1943); “Geografia dos Mitos Brasileiros” (1947); “História do Rio Grande do Norte” (1955); “Jangadas: Uma Pesquisa Etnográfica” (1957); “Rede de Dormir” (1959); ”Nomes da Terra”, (1968); “A Vaquejada Nordestina e Suas Origens” (1974); e “Antologia da Alimentação no Brasil” (1977).

 Para os especialistas em Câmara Cascudo, o grande mérito da pesquisa do historiador foi o de fazer um vasto trabalho de documentação de micro realidades ao longo de décadas de ação. Um trabalho que resultou em vasta contribuição para a reflexão de muitos pensadores brasileiros.

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10 Dec 14:32

Editora Cortez, um QG contra a Escola sem Partido

by Carlos Magno Araújo

Se for preciso, estará fincado no coração do bairro das Perdizes, em São Paulo, um QG contra o movimento Escola sem Partido.

O comandante do quartel é um nordestino típico, acostumado a dificuldades e que veio, viu e venceu na cidade grande há mais de 50 anos. No lugar das baionetas, as palavras, os autores e os livros, milhares deles, sobretudo de Ciências Sociais e Educação.

Aos 82 anos, vividos entre períodos de liberdade e no rigor da ditadura, o editor e livreiro José Xavier Cortez já reuniu experiência suficiente para saber o que de fato importa e o que é mera cortina de fumaça no debate da Educação.

Por isso, cava trincheira contra o movimento que busca regular o comportamento dos professores em sala de aula.

“Isso é um absurdo”, diz, subindo um pouco o tom pausado e ameno que marcou a maior parte de sua conversa com a agência Saiba Mais, em seu escritório na Zona Oeste da capital paulista.

“Educar é um ato político, ensinar é um ato político e é evidente que os professores têm de tratar de política em sala de aula”, analisa ele.

Cortez diz que jamais trairia os autores que publicou ao longo de quase cinco décadas. Ele está falando de gente como Paulo Freire e Florestan Fernandes, educadores respeitados, entre tantos outros com quem lidava pessoalmente.

“Nesta luta, e em nenhuma outra, jamais trairia meus autores”, assinala, para logo em seguida reforçar: “sou cúmplice deles”.

Diz isso porque boa parte do cast de autores de sua Editora Cortez pregava – e prega – o engajamento político. Eles ajudaram a criar e consolidar o conceito de empresa responsável por obras voltadas ao debate da Educação e, mais do que isso, à defesa do papel social e transformador do ensino.

Não por outra razão o lema da editora resume o pensamento do dono: “comprometida com a educação”.

Uma das raras manifestações políticas de José Cortez, ele é um crítico do projeto Escola sem Partido (foto: Carlos Magno Araújo)

Pode-se dizer que a posição sobre o movimento escola sem partido é uma manifestação rara, porém relevante, de Cortez sobre política. É que pisar no calo incomoda.

O tema em si – política – parece não atrair o editor, principalmente quando resumida à minúcia eleitoral, menos porque não considere importante e mais por acreditar que a resistência tem de ser feita na prática, no dia a dia.

E, também, no caso específico, por acreditar que não pode ser omisso quando causas que defendeu ao longo de toda a vida são postas em questão. É o que percebe no momento.

Política, na essência, editor e editora sempre fizeram, sobretudo ao publicar obras que questionam, por exemplo, o neoliberalismo e outros temas comuns à agenda da esquerda.

Sobre a mesa de trabalho dele, por exemplo, tem destaque agora “Democracia e Direitos Humanos: colapsos, rupturas e resistências”, do festejado professor Boaventura de Sousa Santos, que a Editora Cortez acaba de lançar e de quem já publicou outras quinze obras. Junto dele, “Sexo, Orientação Sexual e ‘Ideologia de Gênero’”, de Frei Betto.

A ideologia de gênero é outro tema que interessa ao livreiro e sobre a qual firma posição: “Nos tempos de hoje, em que os estudantes se informam de inúmeras maneiras,  tentar evitar que o tema educação sexual seja tratado em sala de aula, em todas as suas nuances, é outro absurdo”. O editor pensa que é exatamente na escola que o tema da sexualidade tem de ser discutido.

Sobre o presidente eleito Jair Bolsonaro, em quem não votou, prefere esperar o exercício do mandato, embora as preliminares – vide o apoio ao Escola sem Partido e a polêmica em torno da “ideologia de gênero” – não lhe pareçam animadoras.

Sobre o futuro ministro da Educação, o filósofo colombiano Ricardo Velez Rodríguez, diz desconhecer, tanto o personagem quanto a obra, mas pelo que tem visto, lido e ouvido prefere resumir sua expectativa numa frase que exala desânimo: “creio que jamais publicaria um livro dele”.

A respeito do trabalho da editora, que tem uma linha que Cortez chama de progressista, diz respeitar seu conselho editorial – “é rigoroso” – e que, por isso, dificilmente são aprovadas propostas de edição que não possuam conteúdos de qualidade e rigor técnico, ou seja, embasados em boas pesquisas, fundamentos teóricos e conhecimento.

Crise do setor não é de leitura

Cortez não esconde a tristeza quando fala da situação atual das editoras. Até por volta de 2014 a sua costumava publicar 100 livros por ano. Hoje, menos de 30. E com dificuldade. A crise, claro, reflete na estrutura.

Dos cerca de 70 funcionários que mantinha, restam 30. “É muito triste ver isso porque a gente sabe do profissionalismo e da capacidade técnica dessas pessoas”.

Cortez conta que há pouco tempo suspendeu uma reforma na sua casa para investir na editora. A própria estrutura interna da Editora Cortez passa por mudanças.

A administração da empresa está sendo transferida para as filhas, Mara Regina e Miriam, enquanto o fundador ficar na presidência.

Alvo da crise econômica, Cortez chegou a publicar 100 livros por ano, hoje apenas 30. (foto: Carlos Magno Araújo)

Cortez vai religiosamente ao trabalho. Todo dia, manhã e tarde. Diz que é para orientar as filhas.

Além das duas que trabalham com ele, uma advogada e a outra, administradora, há uma terceira, que é veterinária. Tem dois netos, de 4 e 5 anos.

A rotina inclui ainda palestras em escolas, dentro do projeto “Rodas de Conversa”, em que conta sua trajetória, de lavrador, lavador de carros e livreiro.

Desde 2016 a Cortez deixou de ser livraria para se fixar como editora. A sede no bairro Perdizes virou um show-room, um mostruário de boa parte dos 1.300 títulos que já publicou e dos novos que vão sendo publicados. A venda para escolas e universidades, enxerga ele, é uma boa alternativa empresarial.

Por paradoxal que pareça, Cortez diz que a crise no setor não tem a ver com falta de leitura ou com a concorrência com plataformas digitais. “Não acredito que o jovem que cada vez mais usa o celular é menos leitor”. Para ele, nunca se leu tanto no país.

O editor acredita em fases. “Quando o jovem tem de ler, é estimulado a ler, ele vira um leitor e procura os livros”. Daí, reforça, a importância da escola em trabalhar esses potenciais leitores.

A crise no segmento, segundo entende ele, é mais um problema de gestão – no caso, má gestão – do que de desestímulo à leitura.

Sem desconsiderar fatores como o alto custo de edição, como o preço do papel, Cortez crê que gigantes como Saraiva e Cultura, que fecharam livrarias e anunciaram recuperação judicial, pecaram na condução do negócio. E arrastaram com elas inúmeras pequenas e médias editoras, já que deixaram de repassar os valores a elas devidos pelos livros comercializados.

E como tudo isso é feito no modelo de consignação, ou seja, as livrarias só pagam os livros que vendem, as editoras acabam sofrendo as consequências. Ficam sem os livros e sem a parte da venda de suas obras. A quebradeira das livrarias representa um impacto em torno de 40% da receita das editoras, estima Cortez.

Pesquisa feito pelo Saiba Mais identificou que a dívida das grandes redes de livrarias com as editoras supera os R$ 200 milhões.

Editoras têm dívida de gratidão com Fátima

Projeto da senadora Fátima Bezerra que instituiu a Política Nacional da Leitura e do Livro é elogiada por Cortez (Foto: Carlos Magno Araújo)

A situação das editoras só não está pior, segundo Xavier Cortez, por causa da sanção, em julho, da lei 13.696/18, que criou a Política Nacional de Leitura e Escrita.

O projeto, da autoria da senadora potiguar Fátima Bezerra (PT) institui uma política permanente de promoção e de universalização do direito ao acesso ao livro, à leitura, à escrita, à literatura e às bibliotecas, em todo o país.

Na prática, entende Cortez, estimula o trabalho e o negócio das editoras. Durante a discussão da lei, ele e diretores de várias outras editoras foram a Brasília apoiar o projeto de Fátima. “Todos os donos de editoras do Brasil têm essa dívida de gratidão pelo trabalho de Fátima Bezerra em aprovar essa lei”.

Como conterrâneo, diz, nunca deixou de acompanhar o trabalho da senadora. Mesmo agora quando ela concorreu, e venceu, a disputa para o governo. “Fiquei muito feliz e acho sinceramente que ela fará uma grande administração, ainda que seja de oposição ao governo federal”.

Para o setor, continua Cortez, ver alguém envolvida com a educação numa função importante, é ainda mais alentador. “Estarei acompanhando e torcendo para que Fátima faça uma ótima gestão”.

Nascido num sítio em Currais Novos em 1936, de origem humilde, Cortez entrou na Marinha aos 19 anos, em Pernambuco, onde fez a escola de aprendiz de marinheiros.

Foi expulso em 1964 ao participar de um movimento considerado subversivo já quando servia no Rio de Janeiro. “Na verdade, o que queríamos era mais respeito, já que os marinheiros eram tratados com muito desprezo pelos superiores”.

Foi então para São Paulo, onde virou lavador de carros. Conseguiu entrar na faculdade de Economia da PUC em 1966 e a partir de então a vender livros para se manter e bancar os estudos. Seus clientes, intelectuais de vanguarda.

Daí foi um pulo para tornar-se livreiro e depois editor. Hoje é nome de escola na zona sul de São Paulo, no bairro do Grajaú, e tem, entre vários títulos, o de cidadania paulista.

Faz questão de dizer que jamais esqueceu os conselhos dos pais, no sertão potiguar, de ser honesto, responsável e manter a palavra. Costuma dizer que o amor pela leitura e pelos livros mudou sua vida. “Foi a leitura que me levou a ser o que sou hoje”.

Sem ela, diz, jamais seria editor, jamais entraria na PUC. “O balanço que faço é que, acho, deixarei um legado bacana para o país, para minha família e para quem esteve perto de mim”.

 

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10 Dec 14:12

“Completo imbecil”, diz Jessé Souza sobre Bolsonaro

by Isabela Santos

Difícil precisar quantas vezes a palavra “imbecil” e suas derivações aparecem no discurso do sociólogo e pesquisador potiguar Jessé Souza. Ele usa o termo para se referir principalmente às estratégias de campanha usadas pela esquerda brasileira nas eleições 2018 – “uma campanha de classe média com um discurso de antifascismo que não chega aos pobres” – mas também para adjetivar o presidente eleito, Jair Bolsonaro: “um completo imbecil”.

“Eu também já fui 200 mil vezes e ainda sou. A declaração de independência de um imbecil é quando ele se reconhece como tal”, disse Jessé Souza na sexta-feira (7) em Natal, quando veio para palestra e lançamento do livro “A Classe Média no Espelho”, no Centro de Ciências Aplicadas da UFRN (Nepsa) da UFRN. O evento foi parte do Projeto Diálogos, realizado pelo Adurn-Sindicato e Cooperativa Cultural da UFRN. O livro é resultado de uma pesquisa empírica e teórica realizada entre 2015 e 2018, que conta com centenas de entrevistas e mostra as transformações da classe média.

A narrativa democracia x fascismo como bandeira política jamais ganharia uma eleição num país como o Brasil, segundo ele. “Dá vontade de perguntar se moram na Dinamarca. Porque com fascismo prático pelo menos 50% já está acostumado desde que nasceu. Ódio, humilhação, ausência de direitos, a polícia chegando esculachando na sua casa. Está falando de fascismo pra quem, companheiro?”, desabafa.

Jessé diz que esse discurso “superficial e colonizado pela direita” foi uma das causas da derrota nas urnas. Fato que tem consequências muito graves para o país, inclusive o empobrecimento das pessoas, que deveria ter sido o foco da campanha, na visão do especialista.

“As bobagens que estão saindo da boca desse sujeito estão desempregando quantos, humilhando quantos, desempoderando quantos?”, questionou, ao dizer que a única pergunta importante na campanha deveria ter sido “Por que as pessoas ficaram mais pobres?”.

Ele explica que a única resposta dada ao povo era a corrupção política. Todos acreditaram que a miserabilidade no Brasil aumentou por causa da corrupção. Não se comenta, por exemplo, a parcela de culpa do Sistema Financeiro, que atua com “juros escorchante”.

“Só de tarifa que os bancos cobram é mais do que o país gasta em saúde e educação. Você consegue imaginar um negócio desses?”.

O cientista político mantém as críticas mesmo quando o debate é aberto no auditório e muitos lhe perguntam se a dureza com que se refere à esquerda não são reflexo do ódio ao PT, da culpabilização do PT, da cobrança ao PT que reconheça eventuais erros.

Para ele, não há como defender quem elogia a Operação Lava Jato, “núcleo da mentira que está empobrecendo e assaltando esse país”. Souza explica que a midiatização desse conjunto de investigações atraiu a atenção dos brasileiros, de modo que fecharam os olhos para um “assalto” entre 500 e 1000 vezes maior.

É um engodo que blindou o Sistema Financeiro, que é quem rouba; blindou os meios de comunicação, que é quem mente; blindou o Poder Judiciário, que todo mundo sabe que não é menos corrupto do que o sistema político. Uma bandalheira dessa e você elogia. Não existe maior mensagem conservadora no Brasil do que a Lava Jato. Se você não compreende isso é burro. Aí dois candidatos de esquerda apoiaram a Lava Jato”, reclama.

Autor de Radiografia do Golpe, A Ralé brasileira, A Elite do Atraso, Jessé é potiguar e analisa os mais recentes acontecimentos políticos sob a variável “sentimento”. Para ele, é isso que define as classes sociais e também o posicionamento político de cada um.

“Classe é formação afetiva de indivíduos. É imbecilidade [sempre isso] achar que classe é renda”, sentencia, retomando a ideia da ausência de individualidade, quando fala que o indivíduo não cria nenhuma ideia, emoção ou moralidade.

De acordo com Jessé, o que une a elite é o dinheiro e “o resto é bobagem”. Em sua compreensão, ela compra políticos, juízes que prendem adversários políticos e intelectuais para enganar o povo. A elite agrária é formada por assassinos e ladrões de terra, nas palavras de Jessé. E a classe média funciona como delegada da elite.

Outro fator considerado é o “conhecimento” e reprodução de privilégios das classes. Segundo o pesquisador, isso explica porque as pessoas saem para protestar sob o pretexto do combate à corrupção quando um partido chega ao poder e aumenta de 3 para 8 milhões o número de pessoas nas universidades.

“A exploração não é só econômica. Ela se associa com a elite no prazer patológico de humilhar o pobre. A escravidão não é só o domínio econômico sobre o escravo”, explica nomeando o fenômeno como “canalhice”, o ódio covarde ao pobre, ao que é mais frágil, desejando o mal, chegando a ter vontade que a polícia o mate. Sendo socialmente inaceitável deixar isso claro, é preciso uma desculpa: a corrupção.

Ele também explica o papel das religiões e sua importância para entender qualquer sociedade e que aspectos subjetivos e afetivos são tão importantes quanto “um prato de comida”, porque as necessidades são construídas simbolicamente.

Personalismo, patrimonialismo, populismo estão por trás de tudo que a imprensa diz sobre o Brasil e está na interpretação dominante tanto da direita quanto da esquerda atualmente.

Para Jessé, de um lado a elite age com subalternidade a elites estrangeiras como “belgas no Congo”, estrangeiros em sua terra, odiando o seu povo com a raiva de uma potência estrangeira e fazendo qualquer acordo absurdo com outros países.

Do outro lado, quando a esquerda poderia denunciar, se apropriou de parte do discurso da direita, porque também é de classe média e não conhece o povo. “A esquerda não explicou para as pessoas a ascensão social histórica que ela estava promovendo. Isso é de uma incompetência. A única coisa que ficou foi a associação com a pessoa de Lula. É o pior vínculo, porque prendem a pessoa e aí eu vou votar em quem? Bolsonaro. Quer apostar como 60% das pessoas que votariam em Lula votaram em Bolsonaro?”, aponta.

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07 Dec 19:56

Conexão da família do PM Queiroz envolve Jair, Michelle e Flávio Bolsonaro. Por Ricardo Kotscho

by Diario do Centro do Mundo

Publicado no Balaio do Kotscho

Flávio Bolsonaro e o pai. Foto: Reprodução/Congresso em Foco

POR RICARDO KOTSCHO

O assessor parlamentar, motorista e segurança de Flávio Bolsonaro, PM Fabrício José Carlos de Queiroz, fez movimentações de RS 1,2 milhão em sua conta bancária no período de um ano.

Em relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), o país foi informado que uma das transações de Queiroz é um cheque de R$ 24 mil destinado à futura primeira-dama Michele Bolsonaro.

Nesta sexta-feira, também pelo Estadão, ficamos sabendo que a filha do PM, Nathalia Melo de Queiroz, era assessora do deputado federal e presidente eleito Jair Bolsonaro.

Por uma estranha coincidência, pai e filha foram exonerados dos respectivos gabinetes no mesmo dia 15 de outubro, entre o primeiro e o segundo turnos da eleição, quando a vitória de Bolsonaro já era dada como certa.

Tudo é muito estranho nesta conexão entre as famílias Bolsonaro e Queiroz, e a cada dia surgem novas revelações.

Nathalia é citada em dois trechos do relatório, segundo o Estadão:

“O documento não deixa claro os valores individuais das transferências entre ela e seu pai, mas junto ao nome de Nathalia está o valor de R$ 84 mil. A filha do PM foi nomeada em dezembro de 2016 para trabalhar como secretária parlamentar no gabinete de Jair Bolsonaro na Câmara”.

Quem deu os furos foi o Estadão, mas a ligação das famílias Bolsonaro-Queiroz só virou manchete de jornal hoje na Folha.

O Jornal Nacional, é claro, ignorou solenemente a denúncia sobre os Bolsonaro porque continua se dedicando apenas a dar ampla cobertura às delações de Palocci contra Lula e seu filho Luiz Claudio.

No dia 1º de janeiro, o Coaf passará para o Ministério da Justiça, sob o comando do super-xerife Sergio Moro, para quem confiança é tudo.

Alguém acredita que este assunto sobreviverá no noticiário até a posse do novo governo?

A Polícia Federal já foi acionada para entrar nestas investigações do Coaf sobre as movimentações bancárias da família do PM?

Sem tocar no assunto, Jair Bolsonaro postou nas redes sociais fartos elogios a outro filho, Carlos, vereador no Rio, que hoje faz aniversário:

“Meu pitbull, obrigado por sempre estar por perto, jamais querendo aparecer ou ter ganhos pessoais (…) Quem dera todo pai tivesse um filho como esse. Se enganam os que creem que irão nos separar”.

Carlos Bolsonaro, na Câmara Municipal, e Eduardo Bolsonaro, na Assembléia Legislativa, já prestaram homenagens por serviços prestados ao PM Fabrício Queiroz.

Por enquanto, fica tudo em família.

Ainda faltam 24 dias para a posse.

Bom final de semana a todos.

Vida que segue.

07 Dec 18:27

Em reunião com cientistas, Marcos Pontes dá palestra motivacional

by admin

Com a pontualidade de um foguete em contagem regressiva para o lançamento, o astronauta Marcos Pontes iniciou, às 9h30 desta quinta-feira, sua apresentação a 43 convidados da comunidade científica brasileira que participaram do encontro “Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Sustentável: Debate para o Futuro”. A reunião em Brasília foi a primeira entre o futuro ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações e os representantes do setor. O astronauta Marcos Pontes vestia o macacão azul bordado com a bandeira brasileira no peito que não deixa dúvidas de que ele é o astronauta Marcos Pontes. Nos pés, um deslocado sapato social marrom. No alto-falante, um fundo musical genérico, de acordes melosos. E na tela slides de uma infância feliz em Bauru, da adolescência embalada pelo violão, da entrada na carreira militar. O astronauta Marcos Pontes estava emocionado. Quando surgiu a imagem no telão de sua viagem ao espaço, ele falou do apoio que sempre recebeu de sua mãe, dona Zuleika. Os cientistas, pragmáticos por ofício e essência, entreolhavam-se. Sem trocar palavra, por generosidade ou constrangimento, decidiram aplaudir e acolher o astronauta Marcos Pontes.

A palestra motivacional, pontilhada por sentenças como “Nós precisamos acreditar” e “todos falavam que eu não ia conseguir”, durou uma hora. Os cientistas estavam ansiosos pela próxima etapa da programação, quando, em painéis de discussão, finalmente poderiam expor suas preocupações e propostas. O encontro foi combinado por iniciativa de amigos de Pontes, que encarregaram a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a SBPC, de organizar o evento. A coisa tomou uma proporção astronômica. Muita gente de setores relevantes teria que se virar para tratar de temas complexos, num tempo escasso, numa salinha do Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, onde a equipe de transição de Jair Bolsonaro opera. Pontes frustrou a plateia. Era chamado para outra missão. Bolsonaro o esperava para uma reunião pré-ministerial.

Os cientistas passaram a falar sobre si para si mesmos. Diretores de toda espécie de sigla importante da área estavam lá: a presidente de honra da SBPC, Helena Nader; o presidente da Academia Brasileira de Ciências, a ABC, Luiz Davidovich; o presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq, Mario Neto Borges; o presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, a Embrapii, Jorge Guimarães (o presidente da entidade); entre dezenas de outros. Gente que se fala com constância. Acostumada a debater entre si. O futuro ministro não estava.

Ele disse que voltaria em meia hora. Voltou em uma hora e meia. Trouxe consigo Jair Bolsonaro. Havia uma tensão na sala porque, pela manhã, o site da revista Crusoé noticiara que a Financiadora de Estudos e Projetos, a Finep, sairia da alçada do ministério e seria transferida para uma diretoria sob Joaquim Levy, no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. A comunidade científica não quer isso. Bolsonaro falou rapidamente sobre sua paixão por ciência e seu fracasso ao tentar ingressar no Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA. Ele é ruim de Física. Mas costuma apontar os progressos que viriam da exploração do nióbio e do grafeno, um novo material que se obtém a partir do grafite. Decretou que o desenvolvimento do país está nas mãos daquela plateia, dos cientistas brasileiros. E disse que quem manda nessa área a partir de janeiro, com total autonomia, é Pontes. O futuro ministro aproveitou para anunciar que o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia, o Inmetro, e o Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o INPI, devem sair do guarda-chuva do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, que será extinto, e ir para o seu. Os pragmáticos cientistas voltaram a sorrir – não o suficiente para estampar sua alegria na foto que tiraram com Bolsonaro e o futuro ministro.

Bolsonaro deixou a sala e Pontes passou, agora sim, a ouvir as breves exposições dos convidados. Mas já passava das 13 horas. Os cientistas almoçaram num restaurante no térreo. Pontes não os acompanhou. Na volta do recesso, já estava sem seu macacão azul. Vestiu o figurino de ministro e meteu-se num terno e gravata. À tarde, a reunião foi mais proveitosa. Pontes foi apresentado um a um aos notórios e notáveis da área que comandará. Humildemente, pediu conselhos, anotou o que ouviu, incorporou as demandas. Quando um dos participantes sugeriu melhorias na articulação entre as agências do setor, para evitar duplicidades de programas, Pontes logo mimetizou: “Precisamos melhorar a articulação entre as agências”. Esse foi o tom da conversa, com ênfase na ineficiência pública que atravanca a inovação no país.

Esse foi o primeiro encontro de peso que Pontes teve com representantes da comunidade que vai liderar a partir de janeiro. Até aqui, desde seu anúncio como futuro ministro, ele conduziu uma agenda mais de astronauta Marcos Pontes. A plataforma eleita para comunicar sua rotina é o Facebook. A página Astronauta Marcos Pontes exibe, lá no alto, para seus 104 mil seguidores, uma foto de Pontes com Bolsonaro, uma imagem de um Pontes bem mais jovem e magro com paramentos de astronauta e uma citação em destaque: “Vou continuar a fazer com o mesmo nível de entusiasmo e dedicação”. Não está claro fazer o quê. Por meio da página, Pontes informa seus fãs, e agora os cidadãos brasileiros, de sua vida pública.

O astronauta Marcos Pontes conta em suas palestras, em seu livro, em seus posts, em seu site, que sempre sonhou em ser piloto e em ir para o espaço. E que, por ser de uma família pobre do interior de São Paulo, era constantemente desmotivado a tentar (menos por dona Zuleika, claro). Direcionou seus estudos para prestar o vestibular da Academia da Força Aérea. Passou. Com a carreira militar encaminhada, prestou também o vestibular do ITA. Passou. Tornou-se piloto de testes da Força Aérea Brasileira. Fez mestrado em Engenharia de Sistemas nos Estados Unidos. Em 1998, soube pelo irmão que a Agência Espacial Brasileira selecionaria o primeiro astronauta brasileiro. Escolhido, ele completou o curso na National Aeronautics and Space Administration, a Nasa, em 2000, com expectativa de viajar para o espaço em 2001.

O Brasil descumpriu parte do acordo que tinha com os americanos e o brasileiro só pôde zarpar em 2005, em parceria com os russos. Sua missão, ele descreve, era executar a “manutenção dos sistemas da Estação Espacial Internacional, a ISS e da nave russa Soyuz; realizar as pesquisas enviadas pelo Brasil; realizar as pesquisas em andamento na ISS naquele momento (mais de 80); e divulgar o programa espacial brasileiro”. O astronauta Marcos Pontes se ressente do fato de que a imprensa brasileira questionou a qualidade das pesquisas que ele desenvolveu e os gastos de 10 milhões de dólares para que ele pudesse participar da viagem. Também se magoa com as críticas que recebeu por, ao voltar do espaço, sair da carreira pública e partir para as palestras motivacionais e as propagandas de travesseiro.

No dia 31 de outubro, quando Bolsonaro confirmou sua indicação para o cargo, ele postou: “TECNOLOGIA OFICIAL Apesar de veiculado pela mídia a possibilidade de ser indicado como ministro, ainda aguardava o anúncio oficial que veio pelo #twitter (que é uma ferramenta de tecnologia)”. Mas uma semana antes ele já dava dicas do que viria. No dia 23, ao reforçar seu apoio a Bolsonaro, ele agradeceu seus seguidores pelo “incentivo para a próxima missão no Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Missão dada é missão cumprida!”. Como de costume, despediu-se com “Abraços espaciais, Astronauta Marcos Pontes”. Sempre que dá, ou mesmo quando não dá, ele acrescenta tags marcando a Nasa em suas postagens. E a tag #Único.

Em sua primeira semana de futuro ministro, seus compromissos incluíram uma palestra na IV semana da Construção Civil no Instituto Federal do Amazonas; uma palestra no 1º Congresso Aeroespacial Brasileiro na UniAmérica, em Foz do Iguaçu; uma participação na celebração dos 50 Anos da Receita Federal do Brasil em Vitória; e uma passagem pela Feira de Tecnologia e Inovação, em Francisco Beltrão – onde foi agraciado com uma melancia com seu rosto esculpido. “Precisamos unir forças de todos os cidadãos de bem sejam eles civis ou militares da iniciativa privada ou pública em prol de uma só causa: o desenvolvimento e reconhecimento ‘MADE IN BRAZIL’ de nossa tecnologia, ciência e inovação no Brasil e no exterior. Abraços Espaciais e fiquem com Deus”, ele postou.

Ele participou ainda do “bate-papo” Saber, sonhar e realizar, promovido pelo Sebrae de Cuiabá. Da 1ª Feira do Polo Digital de Manaus, com a palestra “É possível, como transformar seus sonhos em realidade” e onde aproveitou para alimentar um peixe boi de três meses de vida. De um almoço num evento de tecnologia de uma empresa em São Paulo. E da formatura na Escola de Especialistas da Aeronáutica, em Guaratinguetá – de lá, ele deu um pulo a Aparecida, com Bolsonaro, numa visita à Basílica de Nossa Senhora Aparecida. A exceção na agenda mundana do astronauta Marcos Pontes foi o encontro, no dia 27, com William Popp, encarregado de Negócios da Embaixada dos Estados Unidos que está fazendo as vezes de embaixador. E a reunião desta quinta-feira.

Procurado pela piauí para falar da apresentação à comunidade científica, a assessoria do futuro ministro disse que ele ainda não está dando entrevistas, por estar “esperando ter mais coisas pra contar”.

Os cientistas deixaram o encontro divididos. Consideram promissora a disposição do futuro ministro em ouvir, aprender e absorver, coisa rara entre os que chegam a essa posição. Mas temem que ele não tenha o desprendimento, as habilidades políticas e a capacidade de gestão para superar os entraves burocráticos de um país que teima em dificultar a inovação e a produção científica. E o astronauta Marcos Pontes, pelo tom de suas palestras e do discurso de introdução no encontro com os cientistas, parece ter mais satisfação com o som de seus próprios passos do que com os da humanidade.

Da Piauí

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07 Dec 13:54

Passeio de barco pelos pântanos próximos a Nova Orleans

by Cyntia Campos
Passeio no pântano: os bichos estavam tímidos, mas a paisagem é igualzinha à descrita nos livros Depois de tanto ver os alagados e bayous (braços de rio) da Luisiana no cinema, ler sobre eles nos livros e ouvir centenas de canções a respeito — “We’ll have a big fun on the bayou” promete a letra de Jambalaya, a mais famosa dessas músicas — é claro que eu não ia perder a oportunidade de fazer
07 Dec 13:44

Autor dá verdadeiras aulas de história africana via Twitter

by admin

Ale Santos é autor, pesquisador, colunista e mídia ativista de cultura afro-americana. Formado em publicidade, especialista em games e storytelling, ele vem conquistando cada vez mais público com seus tweets sobre os horrores da colonização e os heróis e heroínas da resistência negra. Ano que vem, vai reunir e aprofundar seus tweets num livro, pela editora Panda Books.

 

Na conversa abaixo, Ale Santos fala sobre sua vida entre as palavras, sobre os mitos e preconceitos que cercam a diáspora dos povos africanos e sobre a urgência de contar histórias num país onde tantos insistem em negar a verdade e o passado.

Acho que a gente podia começar falando da sua trajetória, de onde vem sua vontade de contar histórias…

Vem da infância. Nasci num bairro simples do interior, avós, tios e primos morando na mesma rua, jogando bola e fazendo música, todo mundo se ajudando. E isso criou em mim uma sensação boa de pertencimento.

Lá pelos oito, nove anos de idade, aprendi a jogar RPG. E foi jogando que comecei a ver a possibilidade de criar histórias que não existiam na cultura popular, na televisão, nos videogames. Por causa do RPG, comecei a ler. Lia muito mesmo, uns quarenta e tantos livros por ano. E escrevia também. Era até um jeito de fugir dos valentões da escola: fazia as redações deles e eles me deixavam em paz…

Depois de um tempo sem emprego, meu pai passou num concurso e nos mudamos para uma cidade maior. Uma cidade estranha, racista. Passei anos entrando e saindo de escolas públicas, morando num bairro que foi ficando cada vez mais perigoso. Mas tinha minhas leituras, meus estudos. Parei numa escola municipal bem estruturada, com times de basquete e atletismo. Junto com meu irmão gêmeo, virei corredor de 100 metros rasos, cheguei a conseguir uns índices, a ganhar medalhas em jogos regionais e a ficar entre os vinte primeiros do ranking nacional.

Até que ganhei uma bolsa do Prouni para cursar Propaganda na universidade. Como precisava ganhar dinheiro para ajudar em casa, deixei o esporte. Virei redator publicitário. Achava que era uma forma de expressar minha escrita. Fazia muito jingle, muito spot, mas não tinha chance de trabalhar com fantasia. Aí comecei a olhar para os blogs e as redes sociais como forma de expressão. Criei o RPG Vale e ali fui aprendendo a dinâmica da internet. Com ele recebi alguns prêmios nacionais e as primeiras propostas de trabalho para escrever mesmo.

Lá por 2012, resolvi procurar pessoas que estavam trabalhando com storytelling no Brasil e acabei fazendo uma parceria com o Fernando Palacios e a Martha Terenzzo. Foi nesse período que comecei a dar forma a minhas ideias, a aprender técnicas de roteiro, a me profissionalizar como storyteller. Em 2013, já estava participando de um concurso de ficção científica que a Intel promove no mundo inteiro. A organização gostou tanto do conto que mandei para a edição brasileira que me chamou para ser jurado e, no ano seguinte, fui escolhido para fazer parte de uma antologia internacional, a Tomorrow Project Anthology. Foi uma virada na minha vida de escritor.

 

Aí, cinco meses atrás, você começou a escrever sobre histórias africanas no Twitter…

Quem me conhece pessoalmente sabe que tenho esse hábito de contar histórias. E acho que tenho um faro para buscar histórias que ninguém conhece. Lembro que ficava aqui, fazendo o almoço, pegava o celular e falava para os amigos no WhatsApp: “olha só, vou contar uma história para vocês”. E eles falavam: “nossa, onde você leu isso?”

Ainda não conhecia a ferramenta do thread do Twitter, achava até uma coisa meio sem sentido, mas sempre contava histórias na vida pessoal, no blog, no WhatsApp… Aí, um dia, estava aqui no sofá, meio à toa, e resolvi criar uma thread para ver se era legal. As pessoas foram curtindo e, na minha terceira thread, sobre o Rei Leopoldo II da Bélgica, a coisa explodiu, chegou a mais de 1 milhão de visualizações. Comecei a colocar para fora todas as histórias que conhecia e sentia que as pessoas queriam ouvir. Fiquei meio maluco, queria contar todas as histórias…

 

Em poucas semanas, você ganhou mais de 40 mil seguidores, começou a colaborar com a imprensa, a participar de podcasts, documentários, programas de TV…

É muito louco isso… as pessoas estão descobrindo quem eu sou e o que eu posso fazer por elas. Ainda estou nesse processo. Depois que ganhei aquele concurso internacional em 2013, achei que as editoras iriam se abrir para mim, mas não foi o que aconteceu. Continuei sendo aquele cara que bate à porta pedindo para ser publicado. Acabei desistindo da carreira de escritor, “ah, ninguém quer saber das minhas histórias, deixa pra lá”. Mas meus seguidores salvaram meu sonho no Twitter. Do nada apareceu muita gente. Mês passado cheguei a 12 milhões de visualizações. Várias editoras vieram me procurar. Hoje mesmo estou enviando o original de meu livro, uma adaptação das threads para a literatura. Vou manter a linguagem simples e impactante do Twitter, mas com mais corpo, mais referências e um visual arrebatador. Vai sair em 2019 pela Panda Books.


O mais interessante das histórias que você conta no Twitter é que, ali, com textos muito curtos, você consegue questionar preconceitos seculares sobre a história da África e dos africanos. E isso vai gerando uma memória necessária para um país que conhece tão pouco sobre seu próprio passado.

As pessoas não sabem quase nada sobre história da África. Porque não aprendem na escola, na faculdade, em lugar nenhum. Eu também não sabia. Era um dos únicos negros na minha universidade, cotista. Meus colegas já tinham viajado, conheciam coisa pra caramba. Meu conhecimento era o que estava nos livros. Fui sentindo na pele as diferenças e tentando entender por que elas existem. Pensei: “preciso estudar mais, entender minha própria negritude, ir atrás da minha ancestralidade”.

Quando comecei a trabalhar com storytelling, entendi que tudo que a gente estuda é totalmente eurocêntrico, reproduz a visão do colonizador sobre a história. Eu precisava de visões diferentes. Então comecei a mergulhar nisso e pesquisar por conta própria. Descobri muita coisa sobre as mitologias africanas, a começar pela egípcia, que é muito rica e sofreu um processo de apagamento, de embranquecimento histórico.

 

Você poderia dar umas referências para quem quer seguir esse caminho?

Recomendo as obras de Joseph Ki-Zerbo. Ele foi um dos maiores historiadores africanos, passou décadas colaborando com a Unesco na edição de História Geral da África, que está disponível gratuitamente. Recomendo também A unidade cultural da África Negra, livro em que o historiador e antropólogo senegalês Cheikh Anta Diop confronta essa ideia de que o Egito antigo era uma civilização feita por brancos. No Brasil, temos o Abdias Nascimento, um dos nomes mais importantes da história do movimento negro brasileiro. Foi o primeiro Deputado Federal negro, dedicou a vida a escrever obras que questionavam o mito da democracia racial, como O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado, de 1978.

 

Qual você acha que é o maior, o mais nocivo de todos os equívocos que se perpetuam sobre a história da África? É a ideia de que os próprios africanos foram responsáveis pela escravidão? De que os povos da África são menos desenvolvidos?

Acho que o mais devastador é o mito de que os africanos eram culturalmente inferiores. O pensador alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel foi um dos defensores dessa tese que é a raiz de todos os outros equívocos e preconceitos. Por que as pessoas acreditam que os egípcios eram brancos? Porque antes acreditaram que os africanos não tinham intelecto suficiente para construir tudo aquilo.

No Brasil temos um mito igualmente devastador: somos o país que mais escravizou, mas muitos brasileiros não acreditam na escravidão. Vivemos uma amnésia coletiva. Meu avô nasceu em 1930. Provavelmente, os avós dele foram escravos. São quatro gerações entre mim e a escravidão. É muito recente. Mas as pessoas a negam. Em 1890, dois anos depois da abolição da escravatura, o hino à Proclamação da República já dizia: “Nós nem cremos que escravos outrora / Tenha havido em tão nobre País”. Isso para não falar no caso do Ruy Barbosa queimando documentos sobre compra e venda de escravos…

Esse esforço de esquecimento faz com que até hoje exista um tabu em torno da escravidão. O Brasil não institucionalizou a dor e a vergonha. A Alemanha transformou o nazismo numa vergonha institucional. Criou leis, museus, monumentos, documentários, memória. O Brasil não. A ponto de termos um presidente eleito que diz que não existe racismo no país. Quando você não institucionaliza a vergonha, as pessoas não tomam consciência dela. Ainda mais com um sistema educacional tão frágil, que não consegue ensinar nem o básico. Se não sabemos ler, como vamos compreender a história?

 

Você acha que esse esforço para apagar os traços da cultura africana na história brasileira explica a sub-representação dos negros na ficção brasileira?

Boaventura de Sousa Santos, professor da Universidade de Coimbra que pesquisa as relações entre colonização e eurocentrismo, diz que o mito da superioridade branca impregnou toda a produção cultural e midiática mundo afora. Se só vemos pessoas brancas na TV, não é apenas pelo negacionismo. É também por essa cultura racista que acha que o branco é mais bonito, mais vendável. Já ouvi muita gente falando que é melhor colocar brancos na propaganda, porque vende mais.

Você deve ter ouvido muitos absurdos no trabalho, na faculdade, na infância. Como pensa a relação entre a sua vida e a vida dos personagens históricos que você conta no Twitter?

As histórias que conto não deixam de ser sobre mim. A emoção é um dos melhores sinais de que a história é boa. Se estou lendo livro ou assistindo a um documentário e me sinto tocado pela emoção, sei que aquela história também é sobre mim, por trazer à memória algo que vivi nesta sociedade racista. E é nesse momento que digo: “preciso contar essa história, porque vai impactar outros negros que sofreram como eu”.

Muitas vezes, a gente tem a ilusão de que os problemas são nossos, individuais. Mas, quando a gente compartilha, percebe que vários outros homens e mulheres negras sofrem com os mesmos problemas. Se conto a história do Ota Benga, o pigmeu que foi escravizado, enjaulado e exposto no zoológico junto com os macacos, é porque os colegas me chamavam de macaco na escola. Se conto a história do holocausto belga no Congo, é porque estou olhando para o genocídio dos jovens negros nas periferias do Brasil. Se conto a história do Benedito Meia-Légua, o líder quilombola que resistiu ao racismo de maneira inventiva e astuciosa, é porque quero que as pessoas também me vejam dessa forma. Tudo que conto é um pouco sobre mim, sobre minha realidade. É pessoal.

 

Às vezes, dá a impressão de que estamos ouvindo cada vez mais vozes diversas nas mídias, na cultura pop, nos espaços de discussão. As coisas estão mudando no Brasil? 

É um movimento global. E não é de hoje. Naquela coleção História geral da África, Joseph Ki-Zerbo fala sobre os intelectuais negros que começaram a surgir nas décadas de 1950 e 60, momento em que a África pôde desenvolver suas próprias universidades e metodologias de pesquisa para confrontar mitos da historiografia racista.

O conhecimento liberta. E cria uma onda. O Brasil tem vivido uma onda nas últimas décadas. Faço parte de uma geração empoderada. A Nátaly Neri, o Spartakus Santiago, o Emicida, todos fazemos parte dessa geração que se empoderou através do conhecimento e da tecnologia. As pessoas estão ficando mais conscientes porque há mais fatos compartilhados. Infelizmente, não aprendi sobre racismo com meus pais. Aprendi com o mundo. E essa geração que se empoderou já está formando novas gerações mais conscientes, com mais acesso a conhecimento, estudos, universidades.

Costumam dizer que a gente não deve dividir o Brasil em raças, mas quem faz essa divisão são as estatísticas – ainda que muita gente negue, inclusive na política. Quando você vê as estatísticas sobre quem mais morre, quem menos ganha, quem tem menos emprego, menos acesso à saúde e à educação, você vê toda a desigualdade social e racial. E só vamos reequilibrar essa desigualdade com políticas positivas para a população negra.

 

Como você enxerga seu trabalho no meio de tudo isso? Que tipo de contador de histórias você imagina ser e aonde quer chegar?

Eu me vejo como um dos tijolos que estão ajudando a reconstruir o imaginário negro brasileiro. Várias outras pessoas estão nessa missão, com impacto muito maior, mas me vejo como parte dessa reconstrução.

E não quero escrever só no Twitter. Quero fazer literatura, teatro, cinema, tudo que estiver ao meu alcance. Não me considero um historiador, estou longe disso. Não quero que as pessoas leiam meus tweets e aceitem tudo sem questionar. Quero que minhas histórias sejam uma porta para que as pessoas possam descobrir e investigar mais. E que sejam também uma porta para que eu possa dar meus próximos passos, começando a escrever ficções com um olhar afrocentrado sobre todas as coisas. Porque vejo as narrativas como algo que conecta as pessoas, que emociona e consegue espalhar uma mensagem.

 

Você lembrou que o presidente eleito negou o racismo e relativizou a escravidão no Brasil. Ele também prometeu acabar com a demarcação de terras indígenas e sinalizou que vai virar as costas para convenções internacionais sobre meio ambiente, trabalho escravo, direitos humanos… Parece que contar histórias como as suas virou algo ainda mais necessário diante dos tempos sombrios que se anunciam.

Virou mesmo. Muita gente tem me falado isso. Sei que sou pequeno perto de outros comunicadores, mas estamos crescendo. As pessoas vão começar a confrontar o senso de realidade deturpado do novo presidente. Porque a mentira não se sustenta. Ele tem uma ideologia militar, que nega fatos cruciais da história brasileira. O exército parece ter medo da consciência negra, sabe que, se 56% da população começar a pensar como negro, muita coisa vai mudar. É por isso que me vejo como um impulsionador para pessoas que queiram descobrir uma história livre, contada por outras vozes. E acredito que, quando as pessoas olharem para mim, para cada um de nós que estamos reconstruindo o imaginário negro, elas vão nos ver como um quilombo mesmo, um espaço para se proteger e resistir.

Do Estadão

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07 Dec 13:39

PT impede na Justiça privataria da Embraer

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Uma decisão da Justiça Federal suspendeu o acordo para a criação de uma joint venture entre a americana Boeing e a brasileira Embraer. A decisão liminar (provisória) atende a pedido feito por deputados petistas em uma ação popular. Cabe recurso.

A ordem judicial foi expedida na quarta-feira (5).

Na decisão, o juiz federal Victorio Giuzio Neto, da 24ª Vara Cível de São Paulo, determina a suspensão de qualquer efeito concreto de eventuais medidas tomadas pelo conselho da Embraer para transferir à Boeing a divisão de jatos comerciais da fabricante brasileira.

Os autores da ação foram os deputados Paulo Pimenta (PT-RS), Carlos Alberto Zarattini (PT-SP), Nelson Pellegrino (PT-BA) e Vicente Cândido (PT-SP).

A compra de 80% da divisão de jatos comerciais da Embraer por US$ 3,8 bilhões pela Boeing foi acertada em julho deste ano com a assinatura de um memorando de entendimentos, mas a conclusão do negócio continua em aberto.

Na decisão, o juiz pondera ser recomendável que não sejam tomadas medidas irreversíveis durante o atual momento de transição de governo.

“Considerando também a proximidade do recesso do Poder Judiciário ao qual se deve somar a posse do novo presidente da República com as alterações em equipes de governo, ao lado da ampla renovação do Poder Legislativo, o que torna igualmente recomendável evitar que eventuais atos concretos se efetivem neste período criando uma situação fática de difícil ou impossível reversão”, escreveu
o magistrado.

A equipe de transição do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL),manifestou desejo de conhecer os detalhes da operação, conforme anunciou em 29 de outubro o futuro chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), o general Augusto Heleno.

Mas, também segundo afirmou o futuro ministro na ocasião, ainda existia a possibilidade de que a aprovação do negócio pelo governo brasileiro viesse a ocorrer ainda neste ano, antes do fim do mandato do presidente Michel Temer, que vinha manifestando simpatia pelo acordo.

O governo tem uma “golden share” na Embraer, uma ação que lhe dá poderes para aprovar e vetar temas estratégicos para a companhia.

Em sua primeira entrevista após ser eleito, Bolsonaro prometeu apoiar o acordo entre a americana e a brasileira. O vice-presidente eleito, general Hamilton Mourão, também já se manifestou favorável.

Além do endosso governamental, também é necessária a aprovação dos órgãos de defesa da concorrência em vários países.

Pelo acordo, a nova companhia terá sede no Brasil, mas será uma subsidiária integral da Boeing, que deterá o comando da gestão, indicando o presidente e toda a administração.

A Embraer ficará como uma acionista minoritária, com 20% do capital e pode ter um assento no conselho.

Na liminar, que foi concedida parcialmente, Giuzio Neto desconsiderou outros pedidos dos deputados, como obrigar a União a usar seu poder de veto contido na “golden share” de modo a barrar a transação.

Eles demandavam também que, caso a União não vetasse o acordo, fosse necessária uma autorização prévia do Congresso Nacional para o andamento do negócio.

A Embraer já havia informado que fora intimada a se manifestar sobre a ação popular, em julho.

O movimento para a fusão entre Boeing e Embraer, negociado há cerca de um ano, foi uma reação da fabricante americana à compra pela Airbus da divisão de aviões comerciais da canadense Bombardier.

Após o passo da Airbus, em outubro de 2017, rumo ao segmento de aviões de médio porte —carro-chefe da Embraer—, especialistas passaram a ver o risco de a brasileira ser sufocada pela concorrência.

Em comunicado divulgado ao mercado na noite desta quinta-feira (6), a Embraer afirmou que tomará as medidas judiciais cabíveis para tentar reverter a decisão.

A nota da Embraer ressalta que a suspensão dos efeitos de eventuais deliberações do conselho da companhia em relação à transação foi determinada pelo juiz “sem opor qualquer tipo de obstáculo à continuidade das negociações entre as duas empresas”.

Da FSP

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06 Dec 14:20

Na Bolívia, improvável êxito, por Santiago Mayor

by Daniel Samam
Publicado no Outras Palavras | Tradução: Danilo Costa N. A. Leite


Em janeiro de 2006, pela primeira vez na história da Bolívia, um presidente indígena assumia o governo. Evo Morales Ayma, dirigente sindical cocalero (movimento de proteção à folha de coca como símbolo da cultura boliviana), tinha triunfado alguns meses antes com mais de 50% dos votos em uma eleição sem precedentes.

Sua vitória inscreveu-se na onda progressista e de esquerda que chegou aos governos da América Latina durante os primeiros anos do século XXI. Naquele momento já ocupavam a presidência Hugo Chávez na Venezuela, Lula no Brasil, Néstor Kirchner na Argentina e Tabaré Vásquez no Uruguai. Alguns meses depois se somaria Daniel Ortega na Nicarágua e no ano de 2007 Rafael Correa no Equador.

Apesar disso, comparada a seus pares, com exceção do caso uruguaio provavelmente, a Bolívia conseguiu se consolidar como um modelo social, político e econômico estável que não sofreu com as crises econômicas e políticas da Venezuela ou Nicarágua, nem perdeu seu governo por meio de golpes de Estado e ‘impeachments’ – como ocorreu no Brasil, Honduras e Paraguai – ou de eleições, como na Argentina. Qual é o motivo de tal excepcionalidade?

Estatísticas contundentes

Segundo dados do Banco Mundial, em 2006 o Produto Interno Bruto (PIB) boliviano era de 11.452 milhões de dólares. Em 2017 o número havia aumentado mais de três vezes chegando a 37.509 milhões. No mesmo período, a renda per capita anual passou de 1.120 para 3.130 dólares e a expectativa de vida subiu de 64 para 71 anos. O Instituto Nacional de Estatísticas (INE) do país, por sua vez, afirma que a pobreza baixou de 59,9%, quando Evo Morales assumiu, para 36,4% no ano passado.

Por outro lado, como nota o pesquisador e mestre em Desenvolvimento Econômico e Sustentabilidade, Sergio Martín-Carrillo, a Bolívia “foi o país sul-americano que experimentou o maior crescimento econômico, mantendo inclusive um ritmo acima do patamar de 4%, apesar do contexto de debilidade que a região vive desde 2015”. Isso foi acompanhado por uma queda constante da inflação, que passou de 12% em 2007, a menos de 2% em 2018 até o momento.

Tais resultados se sustentaram com uma política que contradiz os postulados neoliberais que hoje inspiram os governos dos países vizinhos como Argentina, Chile, Paraguai ou o presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro.

As razões

O sociólogo e escritor boliviano Antonio Abal enumerou em conversa com a reportagem “os eixos do crescimento contínuo da economia da Bolívia”.

Na sua visão, trata-se de uma política baseada em “nacionalizações de setores estratégicos, como as comunicações, os hidrocarbonetos e a mineração”; o redirecionamento dos recursos estatais, “sobretudo, para a infraestrutura produtiva”; o “fortalecimento do mercado interno”; uma política monetária de “valorização da moeda nacional”, ou seja, uma “desdolarização da economia”; e finalmente um investimento forte nos processos industriais como os do “lítio, de laticínios, têxteis, etc e fomento à pequena e média empresa, com facilidades em termos de acesso ao crédito”.

O vice-presidente do país, Álvaro García Linera, exprimiu opinião no mesmo sentido em entrevista ao jornal argentino Página 12, onde explicou o que, para ele, são os quatro fatores principais desse êxito econômico.

Em primeiro lugar, que o Estado controle como proprietário os principais setores geradores de excedente econômico: hidrocarbonetos, eletricidade e telecomunicações. Por outro lado, que leve a cabo uma redistribuição da riqueza, “mas de uma maneira sustentável”, de forma que “os processos de reconhecimento e ascensão social dos setores subalternos populares e indígenas tenham sustentabilidade ao longo do tempo”.

Em terceiro lugar, assim como Abal, sustenta que se deve “fortalecer o mercado interno” e, por último, a “articulação entre o capital bancário e o produtivo, o que implica que 60% da poupança dos bancos se dirija ao setor produtivo, gerando mão-de-obra”.

Políticas públicas de redistribuição

A isso se soma uma série de programas sociais que acompanharam a melhora econômica e que foram dispositivos que garantiram a redistribuição da riqueza. Nesse sentido, Martin-Carrillo listou três dos programas que considera mais importantes: o Bolsa Juancito Pinto (Bono Juancito Pinto), o Renta Dignidade e o Bolsa Juana Azurduy (Bono Juana Azurduy).

O primeiro deles foi lançado durante o primeiro ano de governo e visa que meninos e meninas cumpram sua trajetória na escola. Ele prevê um aporte de 200 bolivianos (29 dólares) a estudantes de escolas públicas em troca de um mínimo de 80% de frequência às aulas. Durante 2018, houve 2.221.000 de estudantes beneficiados graças a essa iniciativa. O resultado foi que entre 2006 e 2017 o abandono escolar no ensino fundamental caiu de 6,5% para 1,8% e no ensino médio de 8,5% para 4%.

Por sua vez, o Renda Dignidade (Renta Dignidad), vigente desde 2007, mira a população idosa –  com 60 anos ou mais – e prevê 250 bolivianos (36 dólares) para pessoas com aposentadoria por tempo de serviço e 300 bolivianos (43 dólares) para pessoas sem aposentadoria por tempo de serviço. 

Finalmente, o Bolsa Juana Azurduy, que está dirigido tanto a gestantes, para as quais estipula a condição de que realizem quatro exames pré-natais, parto em instituição de saúde e acompanhamento pós-parto, bem como a crianças, condicionado a 12 exames completos de saúde a cada dois meses.

Houve também uma política agressiva de incremento do Salário Mínimo Nacional, que em 2005 equivalia a 440  bolivianos (ou 57 dólares naquele momento) e chegando hoje a 2.060 (298 dólares). Ainda assim, este ano, devido ao crescimento econômico, segundo o informe da Agência Boliviana de Informação, o Executivo se dispôs a pagar o bônus duplo a todos os trabalhadores públicos e privados.

Um processo com debates e tensões

Para além de sua situação atual, os governos do Movimento ao Socialismo (Movimiento al Socialismo – MAS) não estão livres de percalços, alguns dos quais muito sérios. O ponto mais tenso talvez ocorreu no ano de 2008, quando a chamada “Meia Lua”, que incluía quatro departamentos orientais do país, tentou se emancipar do resto do território, por meio da ação de setores da direita boliviana que contavam com o apoio escamoteado dos EUA. 

Não obstante, com o respaldo da União das Nações Sul-americanas (Unasur), tal crise pôde ser superada e poucos meses depois avançava o processo de proclamação da nova Constituição no começo de 2009. Essa Carta Magna declarou o caráter “Plurinacional” do Estado, reconhecendo na lei máxima do país os povos originários historicamente negados. Evo Morales passou a encarnar assim, não somente simbólica como também institucionalmente, a ascensão definitiva dos setores marginalizados durantes séculos da política nacional.

Ainda que para Abal não se possa “falar de etapas, senão de uma aplicação persistente de um modelo econômico”, a partir daqui já se pode analisar o aprofundamento de alguns aspectos. Trata-se de um ponto de inflexão, a partir do qual se começa a falar em “socialismo comunitário”, o que o sociólogo define como “uma abordagem teórica da aplicação do marxismo e de suas categorias para compreender as lógicas dos ‘ayllus’ (comunidades)”, que como muitos autores indicaram, mantiveram estruturas de “comunismo primitivo” ou comunitárias, contrárias à propriedade privada e à acumulação individual.

Por outro lado, García Linera sustenta que, uma vez superada a ofensiva da direita, abriu-se um novo momento na revolução boliviana que ele chamou de “tensões criativas”. Ou seja, debates interiores ao processo que o fazem avançar.

A respeito disso, Abal garante que nos movimentos sociais duas tendências político-ideológicas convivem: “uma sindical, centrada nas reivindicações setoriais, e outra revolucionária, como parte do processo de mudança e parte do governo”. É na disputa entre essas duas visões que se dão as tensões criativas que, de seu ponto de vista, são “a dialética do movimento da consciência de classe”.

A lógica “centrada no operário”, segundo o sociólogo, não consegue compreender completamente “a outra lógica organizativa e ideológica dos povos originários”. E ele a atribui a uma contradição estimulada durante décadas de opor “índios e operários” e que “foi patrocinada em uma etapa do nacionalismo revolucionário (1952-1985)”. 

Finalmente, o analista aponta que “o vínculo potente se encontra entre o governo e os movimentos sociais”, onde “o grande articulador do bloco é, sem dúvida, Evo Morales, e não somente como instrumento político”. Como outra face dessa moeda, Estado e movimentos sociais “ainda estão distantes”, porque o último (sic) “mantem uma matriz colonial não superada”.

Uma revolução com futuro

Ainda que os processos políticos nacionais dificilmente possam sobreviver por muito tempo isoladamente contando somente com forças internas, o país conta ainda com aliados no continente. Para além de eventuais conflitos, há Venezuela, Nicarágua e também Cuba, país com os quais integra a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba). Cabe recordar que, com a colaboração de Havana, em 2008 todo território boliviano foi declarado “livre do analfabetismo”.

Por outro lado, apesar do tropeço sofrido no referendo em começos de 2016, que impediu Morales de voltar a se apresentar nas eleições presidenciais de 2019, isso foi ao final autorizado pelo Tribunal Supremo. Com sua candidatura e uma direita por enquanto dividida, a continuidade do processo parece estar assegurada. 

Por último, porém não menos importante, García Linera realizou um prognóstico no recente Fórum Mundial de Pensamento Crítico, ocorrido em Buenos Aires, segundo o qual os governos conservadores da região durarão pouco tempo e logo virá um novo auge progressista e de esquerda.

“Estamos enfrentando uma onda conservadora neoliberal que tem dois limites intrínsecos: é fossilizada e é em si mesma contraditória”, apontou. E detalhou que nesses países estão se “repetindo as receitas que fracassaram vinte anos atrás”, o que demonstra como “não tem inventividade, nem tem criatividade e nem tem esperança”.

“O neoliberalismo atual mobiliza somente ódios e ressentimentos”, por sua vez. O que redunda em dizer que “está baseado na negatividade e não em proposições. Não na esperança em médio prazo, senão na recusa emotiva de curto prazo. E isso tem patas curtas”, completou o vice-presidente boliviano. 

Por isso, com otimismo, sentenciou: “Em vez de viver uma longa noite neoliberal, viveremos uma curta noite de verão neoliberal. E neste momento cabe a nós reconhecer o que fizemos bem, reconhecer o que fizemos mal e nos prepararmos”. “A esquerda tem que voltar a se preparar para tomar o poder nos próximos anos no continente”, concluiu.
06 Dec 14:19

Porra-louquice e prostração ideológica ultraliberal pode desmontar a indústria aeroespacial brasileira, por Daniel Samam

by Daniel Samam

A política do "America first" travestida de "Brasil acima de tudo" pode cometer uma verdadeira tragédia comercial e trabalhista. É o que afirma o Ministério Público do Trabalho (MPT), que está movendo uma ação civil pública para exigir que o contrato de incorporação da parte comercial da Embraer pela estadunidense Boeing contenha dispositivos de proteção aos empregos no Brasil, e que a produção de aeronaves não seja remetida para o exterior. O CEO da Boeing, que está no centro do complexo industrial-militar dos EUA, é um dos maiores aliados de Donald Trump no meio empresarial.

Bem diferente do que vem sendo anunciado, o MPT avalia que a nova empresa será inteiramente administrada pela Boeing, sem interferência da Embraer na gestão, abrindo espaço para a transferência de toda a atividade produtiva e geração tecnológica para os EUA. Um completo escândalo no que tange a soberania e a segurança nacional. O MPT também destaca que o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e o DCTA (Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial) - alô, Forças Armadas! - terão suas atividades desidratadas, podendo até deixar de existir, com a transferência das atividades de planejamento, desenvolvimento e construção de aeronaves e sistemas aeronáuticos para os EUA.

O saldo dessa porra-louquice e prostração ideológica ultraliberal pode colocar em risco mais de 26 mil empregos no país. Em termos econômicos, a tragédia tem igual proporção: a Embraer responde por 2,3% da balança comercial brasileira e mais de 80% da receita de toda a indústria aeroespacial do país, arrecadando milhões de reais por ano em impostos, taxas e contribuições sociais.

Essa será a política da camarilha de desvairados que venceu as eleições de 2018. Se prestam a um papel de completa submissão e subserviência ao imperialismo estadunidense. E ao que parece, pelo silêncio complacente, o alto comando das Forças Armadas embarcou no projeto de desmonte da Nação. Que triste fim.
06 Dec 14:06

Brasileiros se preocupam mais com kit gay que com Petrobras, diz cineasta 

by admin

Para fazer seu novo filme “Rasga Coração”, o diretor Jorge Furtado (de “Saneamento Básico, o Filme” e “O Homem que Copiava”) precisou adaptar para os dias de hoje o texto da peça homônima, escrita pelo dramaturgo Oduvaldo Viana Filho em 1974.

No original, o jovem Luca era um hippie impedido de entrar na escola devido ao seu cabelo comprido. Já na adaptação, o personagem, interpretado por Chay Suede, perde as madeixas, mas ganha alguns palmos de tecido. Desta vez, a proibição acontece porque o garoto gosta de usar saias.

Para Furtado, que participou de debate após a exibição do longa, na terça-feira (4), o mais fascinante na troca é que as duas interdições polêmicas fazem sentido em suas respectivas épocas.

“A questão comportamental, a roupa, o cabelo, talvez seja a que mais choca, e isso se repete na nossa história. Ninguém estava preocupado na eleição se iam entregar a Petrobras ou o Banco do Brasil [para estrangeiros], mas sim com a mamadeira de bico de pênis e com o kit gay”, afirmou.

Com “Rasga Coração” o diretor disse ter sentido que tinha uma temática tão urgente e conectada ao momento político brasileiro que trabalhou intensamente para que ele estreasse antes das eleições de outubro. Conseguiu exibir uma sessão especial no domingo, 28, data do segundo turno.

“Depois do filme, uma garota me disse que veio ao cinema para não ter de ver o resultado das eleições. O pior é que acabou saindo arrasada da sessão”, contou o cineasta, pontuando o caráter emotivo da história.

O longa, que estreia quinta-feira (6), mostra as incompreensões políticas e sociais que afastam pai e filho, frutos de gerações bastante diferentes.

O pai, Custódio (Marco Ricca), militou contra a ditadura na juventude e foi vítima de tortura devido à sua atuação em protestos. O filho Luca, por sua vez, é vegano, luta contra o preconceito de gênero e se emociona com os pinguins vítimas de vazamentos de petróleo.

Apesar de apenas uma dentre as 122 cenas do filme não constar na peça original de Viana, Furtado disse ter feito grandes alterações no texto, que nos palcos é bem mais longo. “É preciso ter um certo desrespeito pela obra original para poder manter sua essência.”

O ator Marco Ricca, 56, também presente ao debate, afirmou reconhecer na tela as particularidades da família de classe média brasileira. Para ele, trata-se de uma história de amor entre pai e filho.

“Essa foi uma peça que teve muito impacto na minha geração e ainda tem relevância. Não é que ela seja um clássico por ser grandiosa, mas porque o país não muda”, opinou o ator.

Da plateia, o consultor de educação Ney Mourão, 53 corroborou a influência duradoura da narrativa. “Essa peça é tão forte para mim que já não lembro mais se foi a primeira que vi ou a primeira que me lembro de ter visto. Teve tanto impacto na minha adolescência que decidi escrever e estudar jornalismo”, contou.

O debate foi organizado pela Folha em parceria com o Espaço Itaú de Cinema. A mediação foi feita pela repórter do jornal Maria Luísa Barsanelli.

Da FSP

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