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Max e os Felinos (Moacyr Scliar)
Então, demorou um pouco para eu poder ler Max e os Felinos porque o livro simplesmente tinha sumido de qualquer livraria online, e até do estante virtual. Fiquei sabendo pela Izze que a L&PM está preparando uma nova edição bem caprichada agora para março, e eu já estava até convencida a esperá-la quando a Clara me escreveu dizendo que achou um Max e os Felinos em uma banca e que mandaria para mim e bem, chegou ontem e já li. Antes que comecem com “E aí, Pi é plágio mesmo?” vou falar sobre o livro, hmkay? Depois tratamos do assunto mais espinhoso.
A edição que ganhei da Clara veio sete anos após a polêmica de 2002 envolvendo o canadense Yann Martel, portanto já veio “equipada” com alguns itens para quem deseja informações sobre a questão do plágio: uma introdução escrita pelo próprio Scliar em 2003, além de Zilá Bernd chamado De trânsito e de sobrevivências, que traça um paralelo entre as duas obras, mostrando suas óbvias semelhanças. Como não queria afetar meu julgamento sobre a questão, deixei para ler esse texto depois (mas que achei bem interessante, com algumas interpretações que passaram batido para mim inicialmente). De qualquer forma, acredito que os dois estarão presentes na nova edição, por motivos óbvios.
Então que Max e os Felinos é um livro bem curto. Considerando apenas o texto, dá pouco mais de 50 páginas, e isso em um formato pocket. Sim, é uma novela, mas como esses termos costumam dar alguma confusão, vamos lembrar que por novela entendemos algo mais longo que um conto e mais breve do que um romance, certo? A novela é dividida em três capítulos: O tigre sobre o armário, O jaguar no escaler e A onça no morro, em uma ideia bastante clara de relacionar um felino diferente para cada momento na vida da personagem principal, Max Schmidt, quase que marcando o amadurecimento dele, acompanha da infância até a fase adulta.
Em O tigre sobre o armário ficamos conhecendo a infância e adolescência de Max, que vivia com o pai e a mãe em uma região humilde de Berlim. O pai vendia peles de animais, e o depósito era o refúgio favorito do garoto, onde teve inclusive sua primeira experiência sexual. O tigre do título era uma figura empalhada que enfeitava a loja da qual Max sentia um terror absurdo. O fato de, em dado momento, o narrador dizer que Max não gostava da loja porque era território do seu pai e do tigre, me faz pensar que o medo que Max tinha do tigre era na realidade o medo que ele tinha do pai.
Mas então a personagem cresce, vai estudar. Acaba se envolvendo com uma mulher casada, e o marido acaba o denunciando para a polícia secreta. Max então precisa escapar, e depois de alguns desencontros embarca no Germania, que, numa série de azares que quase fez eu lembrar do Cândido do Voltaire, afunda enquanto está em alto mar. A primeira preocupação do jovem é se proteger do sol, e quando ele pensa em fazê-lo usando uma caixa que vê boiando no mar, sem querer liberta um jaguar que salta para dentro do seu bote.
Começa então o segundo capítulo, O jaguar no escaler. A relação de Max com a fera é centrada na alimentação: ele sabe que enquanto conseguir sustentar o jaguar, não correrá risco. Há inclusive uma espécie de troca de favores, já que em determinado momento o jaguar o salva de um tubarão. A tensão constante acaba aumentando quando fica claro que não há mais alimento para ambos – levando ao inevitável choque. Já li algo sobre o jaguar simbolizar o medo do nazismo, mas acho que considerando que aquela fuga é um rompimento definitivo com os pais e a pátria, parece mais o medo de tornar-se adulto, começar a vida de modo independente. E é o que acontece quando Max acaba chegando com vida em Porto Alegre.
No último capítulo, A onça no morro, vemos Max se naturalizando brasileiro para que conseguisse comprar um sítio na região serrana. Começa uma vida simples, solitária e um tanto melancólica até que se apaixona pela índia Jaci, com quem tem uma filha. Tudo corre bem até a chegada de um novo vizinho, que logo descobre ser o marido de Frida, o mesmo que o denunciara e fizera com que tivesse que fugir para o Brasil. Vem aí então o terceiro felino, ou ainda, o terceiro conflito: uma onça fugira de um caminho e estaria rondando a região. Esse felino sim, eu vejo como um conflito de Max com seu passado, principalmente o nazismo. Aliás, dos três capítulos foi o que mais gostei, a sensação que dá é que os dois são realmente só uma preparação para o que vem nesta última parte: a reação dos estrangeiros ao casamento com Jaci, a reação dos brasileiros sobre a nacionalidade de Max e mesmo a reação de Max com a chegada do novo vizinho: é o medo tomando suas mais variadas formas.
É uma história tão complexa e sensível que não tem como não admirar a capacidade de Scliar de colocar tudo isso em tão poucas páginas. Há livros gigantes que não comovem ou colocam você para pensar como acontece com Max e os Felinos. O que, de certa forma, nos leve finalmente à questão…
E aí, Anica, plagiou ou não?
Enquanto lia Max e os Felinos entendi um pouco do rancor do Scliar. Eu continuo achando que os limites entre plágio e inspiração na literatura são bastante imprecisos, mas sinto agora que o tal do agradecimento do Martel na introdução de As aventuras de Pi deveria ter vindo desde o começo, e aí não haveria problema algum: caberia o reconhecimento à “fagulha”, e ninguém usaria o termo plágio.
Porque são livros distintos em todos os modos que se possa imaginar. Pensando de modo mais “técnico”, temos:
| Max e os Felinos | As aventuras de Pi | |
| Forma de narrativa | Novela (ou Contos interligados) | Romance |
| Estrutura | Três capítulos (ou três contos) | Três partes divididas em vários capítulos |
| Narrador | Terceira pessoa | Alterna entre terceira e primeira pessoa |
| Enredo | Linear | Não-Linear |
E pensando em termos de enredo mesmo, há sim a ideia do jovem no bote com um felino – que é exatamente a “fagulha” que Martel agradeceu depois (tarde demais, agora vejo) a Scliar. Há mais dois elementos que acho semelhantes: o pai forçando Max a buscar o jornal para enfrentar o medo do Tigre empalhado tem qualquer coisa que lembra o pai de Pi ensinando sobre o perigo de “humanizar” uma fera, forçando os filhos a verem um tigre matar um bode. Além desse, outra passagem é a de em que Max tenta roubar peixe do Jaguar, apresentando um conflito bem parecido com um que Pi também passa.
Mas fora isso, vejo obras completamente distintas, inclusive com mensagens distintas. Enquanto Scliar fala do enfrentamento dos nossos medos, Martel parece de alguma forma querer indicar que o que nos diferencia dos animais é nossa fé. Enquanto em Scliar o felino é uma metáfora para o outro, em Martel o felino é uma metáfora para si mesmo (considerando especialmente o depoimento em que Pi revela que não havia bichos no bote, e que ele era Richard Parker).
Então não consigo ver a situação como um plágio, mas como uma tremenda falta de tato de Martel: seja lá qual foi a fonte que fez com que ele chegasse à ideia do náufrago num bote com um tigre, a menção ao autor original deveria ser feita. Fico inclusive com as palavras do próprio Scliar sobre os dois livros:
Ali estava a minha ideia, mas era com curiosidade que eu seguia a história; queria ver que rumo tomaria a narrativa – boa narrativa, aliás, dotada de humor e imaginação. Ficou claro que nossas visões da ideia eram completamente diferentes. As associações que eu fiz são diferentes das que Martel faz.
Resumindo, ainda acho que as pessoas deveriam largar mão do ufanismo besta e já odiar automaticamente um livro que sequer leram por conta de uma injustiça causada contra um autor nacional. A obra de Scliar merece ser conhecida e Martel não agiu da melhor forma – estes são pontos inquestionáveis. Mas reforçar essa polêmica alardeando plágio (ou mesmo dizendo que o livro do Martel é ruim, como já vi gente publicar por aí como argumento de defesa de Scliar. Você pode achar o livro ruim, mas isso jamais será um argumento sobre a questão) é simplesmente uma bobagem.
Os dois livros estão aí, publicados há anos e nada vai mudar isso. A decisão de conhecê-los é sua.
Algumas observações finais:
- Pode ser vício de professora de inglês, mas sempre tive na cabeça que jaguar é onça.
- Não descarto a possibilidade de ler Max e os Felinos como três contos que se interligam, mas prefiro a teoria da novela, o que é justamente o elemento de coesão – tornando três contos em três capítulos.
- O trecho de Max e os Felinos que a L&PM disponibiliza no site tem justamente o texto já mencionado do Scliar sobre a obra e As aventuras de Pi. Se quiser ler, basta clicar aqui.
There's a lake in India full of ancient skeletons, all killed by blows to the head.





In 1942 a British forest guard in Roopkund, India made an alarming discovery. Some 16,000 feet above sea level, at the bottom of a small valley, was a frozen lake absolutely full of skeletons. That summer, the ice melting revealed even more skeletal remains, floating in the water and lying haphazardly around the lake’s edges. Something horrible had happened here.
March 06, 2013

Just want to say thanks to Toonhole for making that incredible animation. Fair warning: A lot of their content is NSFW.
Tipos de leitores

Quem nunca?
Aí que este mês quase só li clássicos e lembrei dos tempos da universidade, que meio que achava que qualquer tempo gasto com literatura de entretenimento era tempo jogado fora. E de como hoje em dia mudei essa visão, e me permito ler para me divertir, e inclusive abandonar livros se estiver achando muito chato. E então me dei conta de como nós mesmos mudamos como leitores, e como existem diversos tipos de leitores por aí.
Se você frequenta fóruns de literatura ou redes sociais voltadas ao assunto, esses variados tipos ficam ainda mais evidentes. E foi pensando nisso (e em tudo o que eu já fui como leitora) que resolvi elaborar aqui uma listinha de tipos de leitores. É bem provável que você nem se veja em nenhum deles (ou talvez se veja em mais de um), mas fica até como uma proposta de exercício para que você reflita como é como leitor.
O INSEGURO: Ele gosta de ler, gosta mesmo. Mas tem medo de que os outros o julguem por gostar de ‘x’ e não gostar de ‘y’. E aí sua lista de livros para ler é formada quase que totalmente por sugestões de pessoas que ele admira, ou daquelas coletâneas “1001 livros para ler antes de morrer” da vida. O maior problema desse tipo de leitor é que ele pode nunca chegar a descobrir o que de fato gosta.
O CHATO: Tem gente que leva a ideia de “leitura crítica” meio à sério e não consegue ler coisa alguma sem dizer que não gostou. A metralhadora de “não gosteis” vai desde o óbvio (as listas de bestsellers do momento) até alguns improváveis cânones literários. É o fulano que vai dizer que acha Shakespeare superestimado, Tchecov ruim e não entende porque elogiam tanto Machado de Assis. O detalhe: ele nunca vai saber explicar o motivo dessas opiniões.
O ESCRAVO DO CÂNONE: Ele é um pouco inseguro, mas mais do que isso é aquele que já fez as contas do pouco tempo que tem para ler poucos livros, e aí tomou a decisão pessoal de só ler clássicos, livros já aprovados por décadas e décadas de crítica. O maior problema do escravo do cânone é que ele não se permite não gostar de um clássico. A culpa é dele, não do livro.

Rola ler algo que não seja canônico?
O COMPULSIVO: Com esse não tem tempo feio, o que cair em mãos ele está devorando. De Paulo Coelho à Dostoiévski, ele lê, lê, lê. Ele lê tanto que fica agoniado quando chega em casa e percebe que não tem nada para ler. O maior problema de ser um compulsivo é a falta de critério, que pode levar a muitas e muitas experiências ruins (afinal, se você não gosta de terror por que vai perder tempo com Stephen King?).
O ANTENADO: Quer saber os nomes dos queridinhos do momento? Converse com ele. É o que melhor indicará o caminho para os autores contemporâneos, porque a mania dele é exatamente essa: ler só obras atuais.
O OBSCURO: Guimarães Rosa ele leu na escola, agora que está livre de obrigações ele quer mais é nomes estranhos de países distantes. Será sua melhor fonte de sugestões quando você estiver com vontade de sair da mesmice e topar com escritores da Croácia, Noruega, Nova Zelândia…
O EGOÍSTA: Ele tem um quê de Obscuro, gosta de ler coisas que aparentemente ninguém conhece ainda. Por outro lado, ao contrário do Obscuro que está sempre pronto para sugerir novos títulos, o Egoísta quer continuar sendo o único a conhecer um determinado autor. E aí quando outras pessoas começam a falar desse mesmo autor, ele diz que é modinha e parte para outro. Você deve conhecer esse tipo quando fala em Música também.
O COMPARTILHADOR: É o extremo oposto do Egoísta. Ele se empolga tanto, mas tanto com uma determinada obra que aí quer que todos os seus amigos e conhecidos também leiam. É ele que vai comprar o mesmo livro para dar de presente de aniversário para os amigos, e é ele que vai todo dia te procurar ao vivo ou no messenger com a pergunta “E aí, já leu? Gostou?”.
O FINGIDOR: Este é um tipo de leitor moderno, que só passou a existir depois do Google. Ele não leu Crime e Castigo, ele não leu Esperando Godot, ele não leu O Retrato de Dorian Gray. Em compensação, resumos na internet ele leu um monte. A desvantagem de ser um fingidor é tão óbvia que eu realmente não compreendo como alguém prefira ser um. Nunca é demais lembrar: fingidor é o poeta, não o leitor.

Se eu fizer cara de conteúdo ninguém percebe que eu não li
O FETICHISTA: Ele não percebeu ainda, mas não é bem de ler que ele gosta, mas dos livros. É o sujeito que tem três edições diferentes do mesmo livro em casa, aquele que quase chora quando vê que uma editora está lançando um livro com tiragem limitadíssima e numerada, o que entendem mais de capas e qualidade de papel do que de enredo. Se você é um apaixonado pela leitura provavelmenmte o odeia secretamente, especialmente quando ao visitá-lo você comenta sobre a quantidade de livros e ele responde com um risinho “Ah, ainda nem li”.
O ESPECIALISTA: Ele se baseia fortemente na máxima do “não é o que você diz, mas como diz”. Chega em qualquer discussão como profundo conhecedor, mas esquecendo de uma das características mais importantes do livro: não há uma única leitura ou interpretação possível, não há certo ou errado quando se fala da experiência como leitor. O Especialista às vezes faz um combo Especialista + Chato, turbinado com wikipedia e Google. Fuja desse tipo, não vale a pena conversar de livros com eles.
O BÁSICO: Ele não quer problemas, quer só é ler e ter umas boas horas de diversão com um livro bacana. Ele não vai entrar em discussões com o Especialista, por exemplo. Muito provavelmente não vai entrar em discussões com ninguém, para ser mais exata. No máximo recomendará algum título quando alguém pedir sugestões, e continuará lendo de tudo um pouco, aproveitando o que um livro tem para oferecer.
(Publicado no Meia Palavra em 31/08/2011)
Prosecutors in the UK asked for a witness report from the...

Prosecutors in the UK asked for a witness report from the officer PC Peach, not knowing that Peach is the name of a police dog from a West Midlands station. Officers jokingly filled in the form above but are now being disciplined for their actions.
(via tinysunkern)






































